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Geração de conhecimento e novos instrumentos

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Geração de conhecimento e novos instrumentos em Cooperação

Triangular entre a União Europeia e a América

Latina e o Caribe

A publicação final do projeto SEGIBUE reflete sobre como a Cooperação Triangular (CTr) entre a União Europeia (UE) e a América Latina e o Caribe (ALC) evoluiu em um contexto global cada vez mais desafiador.

Com a finalização do Programa ADELANTE 2 em 2026 e a consolidação do Global Gateway como novo marco estratégico europeu, surgem questionamentos em torno dessa modalidade na região ibero-americana: como preservar e ampliar os avanços alcançados em CTr?

Um ecossistema em transformação

O panorama global da cooperação mudou drasticamente: cortes na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento, tensões geopolíticas e novas prioridades estratégicas na UE, com agendas consolidadas em IA, na transição verde e na digitalização.

Mesmo nesse contexto complexo, a CTr se reafirma como uma modalidade flexível, horizontal e capaz de gerar parcerias de longo prazo.

A partir dos dados de CTr da SEGIB, identificam-se as principais tendências da modalidade na Ibero-América:

crescimento da modalidade na região;

maior diversidade de parceiros; transição de ações pontuais para projetos mais robustos; expansão para setores estratégicos.

Seis produtos, seis visões complementares

O projeto SEGIB-UE desenvolveu análises setoriais que oferecem uma visão ampla e estratégica sobre o potencial da CTr.

Meio ambiente: um espaço prioritário na CTr

A região ALC é fundamental para a ação climática global: abriga 60% da biodiversidade terrestre, vastos recursos hídricos e uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo.

A CTr em meio ambiente apresenta:

capacidades sólidas em países da ALC como ofertantes; oportunidades relevantes em questões como em biodiversidade, gestão de bacias, resíduos, agricultura sustentável e cidades verdes; desafios urgentes: financiamento, dados, coordenação, participação local e riscos geopolíticos vinculados a minerais críticos.

Cooperação com

outras regiões do Sul Global

A ALC é a região mais dinâmica em CTr e, embora persistam desafios políticos, institucionais e financeiros, existe um enorme potencial para ampliar vínculos inter-regionais com a África, a Ásia e o Caribe não ibero-americano.

Oportunidades identificadas:

setores coincidentes na CTr realizada pelo Sul Global: meio ambiente, setores produtivos, fortalecimento institucional;

capacidade da ALC de aportar institucionalidade consolidada e mecanismos de confiança.

Oportunidades em Inteligência Artificial (IA)

A CTr pode catalisar uma agenda de IA mais inclusiva, ética e adaptada às realidades da ALC. A região participa hoje de forma predominantemente extrativa na cadeia global de valor da IA; no entanto, com políticas públicas e cooperação estratégica, pode se tornar coautora de soluções tecnológicas adaptadas às suas próprias realidades na cadeia global de valor da IA, atuando em áreas como:

interoperabilidade de dados; cibersegurança; regulação adaptativa;

infraestrutura compartilhada de computação;

talento e alfabetização digital.

Redes científicas birregionais

As redes científicas têm potencial para impulsionar bens públicos globais, já que essas comunidades historicamente funcionam como pontes de colaboração birregional.

São analisadas redes em matemática, astronomia, biotecnologia e saúde, que não apenas produzem conhecimento, mas também geram confiança, articulam atores e ajudam a consolidar ecossistemas de inovação compartilhados entre a UE e a ALC.

Além disso, com base nas análises anteriores, propõe-se o desenho de dois instrumentos temáticos para potencializar a CTr na região:

Proposta de instrumento de CTr por e para Povos Indígenas

Um modelo inovador centrado na governança participativa, no reconhecimento de direitos e nos saberes indígenas. Potencializa agendas de identidade, território, sustentabilidade e justiça ambiental.

Proposta de instrumento de CTr descentralizada

Proposta para impulsionar o papel de cidades e governos locais por meio de um mecanismo ágil que articula atores, facilita intercâmbios e promove soluções locais com alcance global.

Cinco eixos temáticos que conectam todos os estudos

Enfoque nos territórios

A CTr gera maior impacto quando parte dos territórios e dos atores que os habitam. Os estudos destacam que os desafios globais se resolvem localmente, que o conhecimento situado melhora as soluções e que a diversidade cultural, especialmente dos Povos Indígenas, agrega valor estratégico à cooperação.

Cadeias de valor e agendas intersetoriais

Os desafios atuais atravessam múltiplos setores. A CTr permite articular meio ambiente, produção, digitalização, inclusão social e inovação. Os estudos de IA, meio ambiente e redes científicas mostram oportunidades em cadeias de valor sustentáveis, dados agrícolas interoperáveis e ecossistemas de pesquisa conectados.

Setor privado como ator-chave

O setor privado não é apenas um possível financiador; aporta inovação, tecnologia, infraestrutura e capacidade aplicada. Sua participação é fundamental em IA, transição verde e ciência e tecnologia. Trabalhar conjuntamente exige transparência e marcos de responsabilidades e governança adequados.

Cooperar em áreas estratégicas

As implicações de realizar cooperação segundo as prioridades das agendas dos atores facilitadores podem, indiretamente e ao longo do tempo, ampliar as desigualdades de desenvolvimento.

A região enfrenta lacunas tecnológicas, ambientais, científicas e territoriais que condicionam o alcance da CTr. Os estudos destacam riscos de aprofundamento das desigualdades e a necessidade de marcos regulatórios sólidos, capacidades institucionais e acesso equitativo ao conhecimento.

Potencial para o desenvolvimento sustentável

A CTr pode contribuir para os ODS, mas seu potencial não está garantido. Há temas estratégicos que geram riscos geopolíticos, custos de adaptação e assimetrias. Seu caráter transformador depende de uma governança compartilhada, participação equilibrada e orientação para o desenvolvimento sustentável.

Desafios estruturais

A CTr enfrenta uma série de desafios vinculados tanto a fatores estruturais da região quanto a dinâmicas institucionais, capacidades desiguais e processos. Enfrentá-los implica avançar em decisões estratégicas, contar com marcos normativos claros, dispor de mecanismos financeiros adequados e promover uma governança mais inclusiva.

Integração limitada da CTr nas decisões estratégicas nacionais. Em alguns casos, as prioridades setoriais e de cooperação não incorporam plenamente a CTr como uma ferramenta estrutural, o que pode resultar em esforços descontínuos e dificultar a sustentabilidade das iniciativas.

Acesso complexo ao financiamento e redução de mecanismos-chave.

A diminuição das opções de financiamento intensifica a concorrência pelos recursos disponíveis e limita o desenvolvimento de novos projetos, especialmente aqueles de caráter inter-regional.

Desafios na articulação do papel dos governos centrais com outros atores. Os marcos institucionais tendem a priorizar a participação dos governos centrais, o que pode dificultar a incorporação de atores locais, subnacionais e não estatais com capacidades estratégicas no território.

Multiplicidade de agendas e sobrecarga institucional. A coexistência de numerosas iniciativas e a elevada demanda por coordenação podem superar, em alguns contextos, a capacidade de gestão existente.

Processos administrativos complexos e prazos prolongados. Os requisitos formais e as tramitações extensas costumam gerar atrasos que desestimulam a participação dos parceiros e podem afetar o aproveitamento de oportunidades políticas e técnicas.

Visibilidade limitada e escassa avaliação sistemática de resultados. A falta de evidências consolidadas sobre os efeitos, impactos e contribuições da CTr dificulta tanto a justificativa de investimentos quanto seu fortalecimento no âmbito das políticas públicas.

Olhando para o futuro: cenários possíveis da CTr UE–ALC

Incorporar a CTr de forma transversal nas convocatórias do Global Gateway, aproveitando programas regionais.

Utilizar a CTr como alavancagem em cadeias de financiamento mais amplas, combinando instrumentos, bancos de desenvolvimento e blended finance.

Transformar a forma de cooperar, estendendo a outras modalidades os princípios de horizontalidade, cocriação e governança compartilhada.

Recomendações para aproveitar a modalidade em um ecossistema de cooperação com desafios cada vez maiores

Utilizar a CTr como forma de relacionamento: impulsionar parcerias de longo prazo, agendas coletivas e projetos-piloto escaláveis, baseados em inclusão, horizontalidade e objetivos de desenvolvimento.

Revisar como a CTr se articula com prioridades de agenda e outras modalidades: avaliar adequações da modalidade, necessidades nacionais, vínculos com negociações multilaterais e ajustes de gestão para um ecossistema mais pressionado e estratégico.

Analisar as prioridades em relação à oferta europeia: cruzar os eixos do Global Gateway com prioridades nacionais e regionais; promover capacitação sobre programas europeus; facilitar propostas integradas.

Considerar o componente de geração e construção de narrativas na gestão do conhecimento: assegurar espaços de aprendizagem interna, articulação com pesquisadores, revisão de processos e difusão estratégica dos resultados.

Aprofundar a análise estratégica em temas críticos: explorar implicações de determinadas ofertas de cooperação com efeitos ocultos ou riscos distributivos.

Avaliar cuidadosamente novos instrumentos: considerar benefícios, pressões, possíveis desigualdades e riscos de que o instrumento se torne um fim em si mesmo.

A CTr é uma ferramenta estratégica que pode potencializar o desenvolvimento sustentável, a autonomia digital, a resiliência climática e as agendas sociais da ALC. Seu impacto dependerá de decisões políticas, visão estratégica e capacidade institucional para se adaptar ao novo cenário birregional.

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