REDE PIGMENTAR INVERTIDA E SUA IMPORTÂNCIA NO DIAGNÓSTICO DO MELANOMA: RELATO DE CASO
ARTIGO DE REVISÃO
■ Rosácea: fisiopatologia e medidas terapêuticas
■ Clean Beauty: definições, diferenciações entre cosméticos naturais, orgânicos e veganos e achados experimentais sobre disruptores endócrinos em cosméticos
DIAGNÓSTICO POR IMAGEM
■ O papel da ultrassonografia de alta frequência na avaliação de um nódulo subcutâneo acral: relato de caso e revisão da literatura
RELATO DE CASO
■ Reconstrução labial com retalhos superficiais: integrando funcionalidade e estética
■ Tricotemnomania na Alopecia Androgenética: Relato de Caso
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P ublicação trimestral
EDITOR-CHEFE
Hamilton Ometto Stolf Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas (SP), Brazil.
COEDITORES
Bogdana Victoria Kadunc Hospital do Servidor Público Municipal, São Paulo (SP), Brazil.
Célia Luiza Petersen Vitello Kalil Universidade Federal da Fronteira Sul, Passo Fundo (RS), Brazil.
Vitor Costa Fabris Centro de Estudos em Dermatologia Estética, Criciúma (SC), Brazil.
Sociedade Brasileira de Dermatologia
Afiliada à Associação Médica Brasileira
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Surgical & Cosmetic Dermatology
SUR GI CAL & COS ME TIC DER MATO LOGY Publicação Oficial da Sociedade Brasileira de Dermatologia Publicação Trimestral
Online ISSN: 1984-8773 l Janeiro - Março 2026 l Volume 18 l Número 1
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Equipe Editorial
Editor-chefe:
Hamilton Ometto Stolf
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas (SP), Brazil.
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Coeditors:
Bogdana Victoria Kadunc Hospital do Servidor Público Municipal, São Paulo (SP), Brazil.
Célia Luiza Petersen Vitello Kalil Universidade Federal da Fronteira Sul, Passo Fundo (RS), Brazil.
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Centro de Estudos em Dermatologia Estética, Caçador (SC), Brazil.
Editores de áreas
Cosmetic Dermatology
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ABC Medical School, Santo André (SP), Brazil.
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Reconstructive Dermatologic Surgery
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Universidade Federal de São Paulo, Departamento de Dermatologia e Radioterapia, Botucatu (SP), Brazil.
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Carlos Gustavo Wambier
Warren Alpert Medical School, Brown University, Providence, Rhode Island, Estados Unidos da América.
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Carolina Malavassi Murari Universidade de Santo Amaro, São Paulo (SP), Brazil.
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Érica de Oliveira Monteiro Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, São Paulo (SP), Brazil.
Érico Pampado Di Santis Universidade de Taubaté – UNITAU, Taubaté (SP), Brazil.
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TIPOS DE ARTIGOS
A Surgical & Cosmetic Dermatology publica os seguintes tipos de artigos:
ARTIGOS DE REVISÃO
Artigos de Revisão podem aprofundar os temas específicos nas áreas de interesse da S&CD, algoritmos, compilações, estatísticas, consenso e guidelines. Estes trabalhos têm formato livre, porem devem conter resumo não estruturado de até 100 palavras e conclusões ou considerações finais. Limite: texto até 6000 palavras, 10 ilustrações e 60 referências. Os artigos de revisão sistemática ou metanálises devem seguir orientações pertinentes (http://cochrane.org.br).
ARTIGO ORIGINAL
Artigos Originais são relatos de uma pesquisa investigativa original nas áreas de Cirurgia Dermatológica, Oncologia Cutânea, Diagnóstico por Imagem, Tecnologia em Dermatologia e Dermatologia Cosmética. Exemplos: estudos experimentais, estudos clínicos, comparações e descrições de técnicas ou de métodos de avaliação. O texto deverá conter até 4000 palavras, 10 ilustrações e 35 referências e seguir o formato IMRDC (Introdução e objetivo, Métodos, Resultados, Discussão, Conclusão).
Resumo: deverá ter no máximo 250 palavras e ser estruturado, contendo os itens: Introdução, Objetivo, Métodos, Resultados e Conclusões. Não é permitido afirmar que os resultados ou outros dados serão apresentados ou discutidos.
Introdução: citar as razões que motivaram o estudo, descrevendo o estado atual do conhecimento sobre o tema. Utilizar o último parágrafo para especificar a principal pergunta ou objetivo do estudo, e a principal hipótese testada, se houver.
Métodos: Explicar como o estudo foi feito:
Tipo de estudo: descrever o seu desenho especificando a direção temporal (retrospectivo ou prospectivo), o tipo de randomização quando utilizada (pareamento, sorteio, sequenciamento, etc.), se o estudo foi cego, comparativo, controlado por placebo, etc.
Local: indicar onde o estudo foi realizado (instituição privada ou pública), citar que a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa de sua instituição, os procedimentos de seleção, os critérios de inclusão e exclusão, e o número inicial de pacientes.
Procedimentos: descrever as principais características das intervenções realizadas, detalhando a técnica e lembrando que o estudo de investigação deverá ser reprodutível.
Descrição dos métodos utilizados para avaliação dos resultados.
Inclusão da análise estatística descritiva e/ou comparativa com descrição do planejamento da amostra (representativa do universo a ser estudado), a análise e os testes estatísticos e apresentação dos níveis de significância adotados. A utilização de análises estatísticas não usuais é incentivada, porém neste caso, deve-se fazer uma descrição mais detalhada da mesma.
Resultados: descrever os principais resultados que devem ser acompanhados de estimativas pontuais e medidas de dispersão
(p.ex., média e erro padrão) ou de estimativas intervalares (p.ex., intervalos de confiança), bem como os níveis descritivos dos testes estatísticos utilizados (p.ex.“p-value”). Os achados também devem ser interpretados sob o ponto de vista clínico.
Discussão: enfatizar os novos e importantes resultados encontrados pelo estudo e que farão parte da conclusão. Relatar observações de outros estudos relevantes. Mencionar as limitações dos achados e as implicações para pesquisas futuras.
Conclusões: devem ser concisas e responder apenas aos objetivos propostos. A mesma ênfase deve ser dada para estudos com resultados positivos ou negativos.
DIAGNÓSTICO POR IMAGEM
O Diagnóstico por Imagem aborda temas ou casos clínicos em que os exames de imagens (dermatoscopia,microscopia confocal, ultrassom e outros métodos) são fundamentais no diagnóstico ou tratamento. É composto por resumo não estruturado de até 100 palavras, texto até 1200 palavras, 6 ilustrações e 5 referências.
COMO EU FAÇO?
Como eu faço descreve novas técnicas ou detalhes de técnicas. Compõe-se por resumo não estruturado de até 100 palavras, introdução com revisão de literatura, métodos, resultados, discussão e conclusão. Limite: 1200 palavras, 8 ilustrações e 30 referências.
RELATO DE CASO
Relatos de caso são descrições de casos ou séries de casos de relevância nas áreas de interesse da S&CD, com descrição de tratamentos, complicações, etc. Contém resumo não estruturado de até 100 palavras, introdução com revisão de literatura, métodos, resultados, discussão e conclusão, sempre que pertinentes. Limite: texto até 1200 palavras, 8 ilustrações e 30 referências.
CARTAS AO EDITOR
As Cartas ao Editor são comentários objetivos, breves e construtivos sobre estudos ou pesquisas anteriormente publicados. Compõe-se de texto de até 600 palavras e no máximo 5 referências.
COMITÊ DE ÉTICA
O certificado de autorização por um Comitê de Ética é exigido apenas para os Artigos Originais de pesquisa prospectiva.
REFERÊNCIAS
As referências bibliográficas devem ser listadas nas últimas páginas do artigo, e numeradas de acordo com a citação no texto (em ordem numérica sequencial), seguindo o estilo Vancouver, como indicado pelo International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE). Referências citadas em legendas de tabelas e figuras devem manter a sequência com as citações no texto. Todos os autores devem ser citados se forem até seis; acima disso, devem ser mencionados os seis primeiros e “et al.”. Seguem-se exemplos dos tipos mais comuns de referências. Exemplos de citações no texto retirados do ICMJE:
Artigo em periódico:
Hallal AH, Amortegui JD, Jeroukhimov IM, Casillas J, Schulman CI, Manning RJ, et al. Magnetic resonance cholangiopancreatography accurately detects common bile duct stones in resolving gallstone pancreatitis. J Am Coll Surg. 2005;200(6):869-75.
Capítulo de livro:
Reppert SM. Circadian rhythms: basic aspects and pediatric implications. In: Styne DM, Brook CGD, editors. Current concepts in pediatric endocrinology. New York: Elsevier; 1987. p .91-125.
Texto na Internet:
Ex. com autor indicado: Fugh-Berman A. PharmedOUT [Internet]. Washington: Georgetown University, Department of Physiology and Biophysics; c2006 [cited 2007 Mar 23]. Available from: http://www.pharmedout.org/
Ex. quando o autor é uma organização: International Union of Biochemistry and Molecular Biology. Recommendations on Biochemical & Organic Nomenclature, Symbols & Terminology etc. [Internet]. London: University of London, Queen Mary, Department of Chemistry; [updated 2006 Jul 24; cited 2007 Feb 22]. Available from: http://www.chem.qmul.ac.uk/iubmb/.
Apresentação prévia em eventos:
Bruhat M, Silva Carvalho JL, Campo R, Fradique A, Dequesne J, Setubal A, editors. Proceedings of the 10th Congress of the European Society for Gynaecological Endoscopy; 2001 Nov 22-24; Lisbon, Portugal. Bologna (Italy): Monduzzi Editore, International Proceedings Division; c2001. 474 p.
ILUSTRAÇÕES
As figuras, quadros, gráficos e tabelas devem ser referidas em ordem numérica sequencial no texto em números arábicos (exemplo: Figura 3, Gráfico 7), cabendo ao Editor suprimir as redundantes. As legendas das figuras e gráficos e os títulos e notas de rodapé das tabelas devem descrever precisamente seu conteúdo com frases curtas, porém suficientes para a compreensão ainda que oartigo não seja totalmente lido. Todos devem ser inseridos no passo correspondente a ilustrações no sistema, evitando que use o campo destinado ao texto para que não contabilizem as palavras dentro das ilustrações.
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Quanto aos vídeos é necessário inserir legendas contendo informações como título do manuscrito, autoria, instituição e outros comentários pertinentes. No uso de imagens de pacientes, a identidade deverá ser resguardada, do contrário, será preciso anexar-lhes permissão por escrito para divulgação. Os gráficos deverão ser elaborados em Microsoft Excel. As tabelas dispensam sua descrição no texto tendo a finalidade de suplementá-lo e não a de aumentá-lo. As unidades utilizadas para exprimir os resultados (m, g, g/100, mL, etc.) figurarão no alto de cada coluna. Os pacientes devem ser identificados por números ou letras, e nunca pelos nomes, iniciais ou número de registro hospitalar.
CARTA DE APRESENTAÇÃO
A carta de apresentação deve incluir as seguintes informações:
Uma explicação de por que seu manuscrito é adequado para publicação em Surgical & Cosmetic Dermatology. Confirmação de que o conteúdo do manuscrito é original e não foi publicado nem está sendo considerado para publicação em outro lugar.
Se o manuscrito estiver sendo enviado para uma edição especial em particular, o nome específico deve ser mencionado na carta de apresentação.
Se o artigo relatar os resultados de uma intervenção de saúde em participantes humanos, a Surgical & Cosmetic Dermatology recomenda fortemente sua documentação em um registro apropriado. O número e a data de registro devem estar indicados nesta carta.
DECLARAÇÕES DOS AUTORES
As seguintes declarações devem ser incluídas na versão final do manuscrito. Espera-se que essas declarações sejam submetidas juntamente com a carta de apresentação, uma vez que a Surgical & Cosmetic Dermatology adota a revisão por pares duplo-cego. ‘Agradecimentos’ – lista de pessoas que contribuíram para o artigo (e não atendem aos critérios de autoria), incluindo colaboradores que forneceram serviços profissionais de redação ou materiais.
‘Disponibilidade de dados e materiais’ – as declarações de disponibilidade contêm informações sobre onde os dados que suportam os resultados relatados no artigo podem ser encontrados, como hiperlinks para conjuntos de dados arquivados publicamente. Exemplo de frases são: ‘Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo’; 'Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis no repositório [NOME]', 'Os conjuntos de dados gerados durante e/ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável', ou 'Não aplicável' se nenhum dado novo foi criado ou analisado no estudo.
‘Apoio financeiro’ – todas as fontes de financiamento do estudo devem ser divulgadas; é necessário indicar bolsas que os autores receberam para apoiar a pesquisa.
‘Conflito de interesses’ – todos os conflitos de interesse financeiros e não financeiros devem ser declarados nesta seção. Se os autores não tiverem interesses conflitantes, é necessário mencionar ‘Os autores declaram não haver conflito de interesses’.
‘Contribuição dos autores’: Espera-se que cada autor tenha feito contribuições substanciais ao manuscrito, que devem ser especificadas nesta seção. Use as iniciais para se referir à contribuição de cada autor. Por exemplo: ‘AB, CD e EF conceberam esta pesquisa e projetaram experimentos. GH participou da concepção e interpretação dos dados. IJ realizou experimentos e análises. KL e MN escreveram o artigo e participaram de suas revisões. Todos os autores leram e aprovaram o manuscrito final'.
O limite máximo de autores aceitável é de 5 (cinco); só haverá exceção para trabalhos de maior complexidade (ex. Artigo Original, Revisão) mediante justificativa e aprovação dos editores.
‘Aprovação ética/ aprovação ética e consentimento para participar’ – manuscritos que relatam estudos envolvendo participantes humanos ou dados sobre humanos devem incluir uma declaração sobre aprovação e consentimento éticos, o nome do comitê de ética que aprovou o estudo e o número de referência do comitê. Estudos envolvendo animais devem incluir uma declaração de aprovação ética. Se o manuscrito não relatar ou envolver o uso de dados de animais ou humanos, é necessário declarar 'Não aplicável'.
‘Consentimento de uso para publicação (Copyright)' – se omanuscrito contiver dados pessoais de qualquer indivíduo em qualquer forma, o consentimento para publicação deve ser obtido dessa pessoa ou, no caso de crianças, de seus pais ou tutor legal. Todas as apresentações de relatos de caso devem ter consentimento para publicação.
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Publicação oficial da Sociedade Brasileira de Dermatologia
Clean Beauty: definições, diferenciações entre cosméticos naturais, orgânicos e veganos e achados experimentais 023 sobre disruptores endócrinos em cosméticos
Um comentário sobre: Lifting transfolicular subcutâneo do terço superior da face
Ana Paula de Araújo Raimundo Hudson Dutra Rezende, Sandra Lopes Mattos Dinato, Bruna Marques Bilia
028
037
DIAGNÓSTICO DE IMAGEM
O papel da ultrassonografia de alta frequência na avaliação de um nódulo subcutâneo acral: relato de caso e revisão da literatura
Elisandra Barbara Pontes Carlos, Paulo Roberto Gorgatti-Filho, Ruan Giorgenon, Hélio Amante Miot, Anna Carolina Miola
040
RELATO DE CASO
Reconstrução labial com retalhos superficiais: integrando funcionalidade e estética
Verônica Hamann Aita, Nicoly de Souza Jacques, Claudia Prócel, Fernando Eibs Cafrune
Estratégia reconstrutiva com retalhos de avanço na correção bilateral da região malar medial: aplicação dos retalhos de Mcgregor e Burow 051
Luiz Roberto Dal Bem Pires Júnior, Carlos Augusto Silva Bastos
Paroníquia Crônica Exuberante: Abordagem Cirúrgica Com A Técnica De Retalho Quadrilátero (Square Flap)
Clarissa Brito Farias, André Martins Ornelas, Flauberto de Sousa Marinho
Isotretinoína oral como tratamento promissor para molusco contagioso refratário em uma criança: relato de caso
Shaimaa Farouk
Metástase cutânea à distância de neoplasia sólida: relato de caso
Ana Vitoria Lins de Paiva Antunes Clarissa Brito Farias, Luciana Cavalcante Trindade, Kamila Pascoal Magno do Nascimento Tumor de Bednar: Relato de Caso
Fernanda Guimarães Lopes, Juliana Cristina Silva Fraga, Mariana Campos Souza Menezes Ana Karen Alves, André Rossetti Portela
Mariana Freitas de Assis Pereira Rosa, Carlos Arthur de Figueiredo, Athayde Gustavo Costa Verardino, Ricardo Barbosa Lima
Terapia com cemiplimabe para úlcera de Marjolin decorrente de foliculite decalvante: relato de caso
Leticia Midori Kondo Iwamoto, Flavia Rodrigues Dias, Otavio Augusto Noschang Moreira, Helio Amante Miot, Ana Claudia Athanasio Shwetz
na Alopecia Androgenética: Relato de Caso
Diana Coello-Bonilla, Giovanna Gelli-Carrascoza, Gabrielle Cassulo-Franciscatti, Maria Victória Quaresma
A rosácea é uma dermatose inflamatória crônica e multifatorial que envolve disfunção imunológica, alterações neurovasculares e desequilíbrio microbiano. A superexpressão do TLR2, a ativação de canais TRP e o aumento da catelicidina LL-37 são elementos centrais na sua fisiopatologia. O manejo terapêutico combina medidas comportamentais, cuidados tópicos (metronidazol, ivermectina, ácido azelaico, brimonidina), terapias sistêmicas (doxiciclina, isotretinoína) e procedimentos como laser e luz intensa pulsada. A abordagem personalizada, que alia controle de gatilhos, farmacoterapia e intervenções físicas, é essencial para reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
1 Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Serviço de Dermatologia, Passo Fundo (RS), Brasil
2 Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC), Faculdade de Medicina, Lages (SC), Brasil
ABSTRACT
Rosacea is a chronic, multifactorial inflammatory dermatosis involving immune dysregulation, neurovascular alterations, and microbial imbalance. Overexpression of TLR2, activation of TRP channels, and increased LL-37 cathelicidin are central to its pathophysiology. Therapeutic management includes behavioral strategies, topical treatments (metronidazole, ivermectin, azelaic acid, brimonidine), systemic agents (doxycycline, isotretinoin), and procedures such as laser and intense pulsed light. A personalized, multifaceted approach combining trigger control, pharmacologic therapy, and physical interventions is crucial for reducing symptoms and improving patient quality of life.
E-mail: matheus.melo.sc@gmail. com / celia@celiakalil.com.br
Fonte de financiamento: Não Conflito de interesses: Não
Data de Submissão: 22/10/2025
Decisão final: 19/12/2025
Como citar este artigo: Kalil CLPV, Melo MS, Malacarne GD, Pereira IL. Rosácea: fisiopatologia e medidas terapêuticas. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18:e20260526.
INTRODUÇÃO
A rosácea é uma dermatose inflamatória crônica comum que acomete preferencialmente a região centrofacial e se caracteriza por eritema persistente ou episódico, telangiectasias, pápulas e pústulas, podendo cursar também com manifestações fimatosas e oculares. Sua epidemiologia apresenta grande variabilidade: estima-se que a prevalência mundial esteja entre 2% e 10% da população adulta, mas taxas mais elevadas, de até 18%, foram descritas em populações do norte da Europa, onde os fototipos baixos (I–II) predominam.1,2 Já em países asiáticos e latino-americanos, a prevalência reportada é menor, embora se reconheça que fatores culturais, menor familiaridade médica com a doença e apresentações clínicas atípicas contribuam para osubdiagnóstico.3
A rosácea costuma se manifestar entre a quarta e a sexta décadas de vida, embora casos em adultos jovens não sejam raros. Atinge ambos os sexos, mas apresenta diferenças marcantes: as formas eritemato-telangiectásica e papulopustulosa ocorrem mais frequentemente em mulheres, enquanto a forma fimatosa é mais prevalente em homens, sobretudo em idade avançada. O envolvimento em crianças é raro, sendo o comprometimento ocular a principal manifestação, frequentemente subestimada ou confundida com conjuntivite recorrente.4 Entre os fatores predisponentes reconhecidos estão fototipo claro, histórico familiar positivo e exposição solar cumulativa, além de gatilhos ambientais como temperaturas extremas, álcool, alimentos condimentados e estresse emocional, todos relacionados à hiper-reatividade vascular característica da doença.5,6
Do ponto de vista clínico, a rosácea é notoriamente heterogênea. Além do eritema centrofacial persistente e do flushing episódico, frequentemente exacerbado por estímulos ambientais, destacam-se as telangiectasias visíveis, bem como surtos inflamatórios de pápulas e pústulas, sem presença de comedões, o que auxilia na diferenciação em relação à acne vulgar. Até 90% dos pacientes relatam sintomas subjetivos como ardência, queimação, prurido e hipersensibilidade cutânea, o que justifica a percepção de “pele sensível”.3,6
O espectro clínico também inclui variantes menos comuns, como a rosácea granulomatosa, caracterizada por pápulas monomórficas firmes e eritematosas ou amareladas, e o edema sólido persistente (rosácea linfedematosa), de difícil manejo, associado a linfedema facial crônico.3,4 O envolvimento ocular ocorre em até 50% dos casos e varia desde blefarite discreta até complicações mais graves, como ceratite, episclerite e uveíte, com potencial risco de perda visual caso não sejam diagnosticadas e tratadas oportunamente.6,7 Os sintomas mais comuns incluem sensação de corpo estranho, prurido, fotofobia e hiperemia conjuntival, sendo que a ausência de correlação entre a gravidade cutânea e a ocular torna fundamental o rastreamento ativo dessas manifestações.6
A importância clínica da rosácea transcende as manifestações cutâneas e oculares. Diversos estudos documentam seu impacto psicossocial, com relatos frequentes de estigmatização social,
baixa autoestima e prejuízo nas interações interpessoais. Avaliações de qualidade de vida demonstram que pacientes com rosácea apresentam escores semelhantes aos observados em doenças crônicas como psoríase e dermatite atópica.2,3 Além disso, há evidências crescentes de associação da rosácea com comorbidades sistêmicas, incluindo distúrbios gastrointestinais (infecção por Helicobacter pylori, síndrome do intestino irritável e doença inflamatória intestinal), condições neurológicas (enxaqueca e doença de Parkinson) e transtornos psiquiátricos (ansiedade e depressão), sugerindo que a doença pode refletir um estado inflamatório sistêmico.3,4
Historicamente classificada em quatro subtipos clínicos (eritemato-telangiectásica, papulopustulosa, fimatosa e ocular), essa categorização apresentou limitações na prática clínica devido à frequente sobreposição dos achados. Em 2017, o painel internacional ROSCO (Rosacea Consensus) propôs uma abordagem fenotípica baseada em características primárias (eritema persistente, pápulas/pústulas, telangiectasias, fima e sinais oculares) e secundárias (flushing, ardência, queimação, edema e manifestações extracutâneas). Essa abordagem amplia a precisão diagnóstica e facilita o delineamento terapêutico individualizado.3,6 Em relação ao manejo terapêutico, a rosácea apresenta um espectro de opções que vai desde medidas gerais, como identificação e evitação de gatilhos, fotoproteção rigorosa e cuidados com a barreira cutânea, até intervenções farmacológicas e procedimentos específicos. Os tratamentos tópicos incluem brimonidina e oximetazolina (vasoconstritores para eritema), metronidazol, ivermectina e ácido azelaico (anti-inflamatórios e antiparasitários). Entre as terapias sistêmicas, destacam-se os antibióticos orais em baixas doses (como a doxiciclina subantimicrobiana), a isotretinoína em casos refratários e, mais recentemente, investigações envolvendo agentes imunomoduladores. Modalidades físicas, como laser e luz intensa pulsada (LIP), têm papel relevante especialmente no controle de telangiectasias e eritema persistente. O tratamento deve ser orientado não apenas pelo fenótipo predominante, mas também pela gravidade dos sintomas e pelo impacto na qualidade de vida do paciente.5,6
Diante da alta prevalência, da diversidade de manifestações clínicas, do impacto psicossocial e do potencial de associação com comorbidades, a rosácea representa um desafio frequente e relevante na prática dermatológica. Assim, este estudo tem como objetivo revisar a abordagem terapêutica da rosácea eritemato-telangiectásica e papulopustulosa à luz das evidências mais recentes, não incluindo em detalhe as formas fimatosa e ocular, que fogem ao escopo deste trabalho.
FISIOPATOLOGIA
A fisiopatologia da rosácea é multifatorial e complexa, resultando da interação dinâmica entre predisposição genética, disfunção imunológica, alterações neurovasculares, disbiose cutânea e fatores ambientais. Embora ainda não seja completamente compreendida, essa rede de mecanismos contribui para o desenvolvi-
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Surg Cosmet Dermatol. 2026;18:e20260526.
mento e a perpetuação da inflamação cutânea crônica característica da doença.7 Para facilitar a compreensão desse processo, os principais elementos fisiopatológicos podem ser divididos nos seguintes tópicos: resposta imune inata exacerbada e produção de catelicidina pró-inflamatória; disfunção neurovascular e hipersensibilidade a estímulos; e mecanismos etiopatogênicos diversos, destacando-se o papel de microrganismos.
A seguir, cada um desses mecanismos será detalhado à luz das evidências atuais, com o intuito de integrar os achados fisiopatológicos à prática clínica e ao manejo terapêutico da rosácea.
Resposta imune inata exacerbada
Embora sua patogênese não esteja totalmente clara, reconhece-se cada vez mais o papel da imunidade inata como fator central no desencadeamento e na perpetuação da inflamação cutânea. Nesse contexto, receptores como os Toll-like recep-
Figura 1: Interação entre mecanismos etiopatogênicos, desregulação do sistema imune inato e neurovascular e manifestações clínicas
Figura 2: CAMP: cathelicidin antimicrobial peptide. KLK: calicreína. IL: interleucina. NLR: NOD-like receptor. TLR: Toll-like receptor. Imagem do autor, modificada a partir de Servier Medical Art
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tors (TLRs) e os NOD-like receptors (NLRs) têm se destacado como elementos-chave na ativação de vias inflamatórias dérmicas.7 A compreensão dos mecanismos que envolvem esses receptores permite esclarecer os processos moleculares envolvidos nas manifestações clínicas da doença.
Os TLRs constituem uma classe de proteínas transmembranares expressas principalmente em células do sistema imunológico inato, como queratinócitos, macrófagos e células dendríticas. Eles atuam como sensores moleculares capazes de reconhecer padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs) e padrões associados a danos celulares (DAMPs), desencadeando cascatas de sinalização pró-inflamatórias. Esses receptores podem estar localizados tanto na membrana plasmática (como TLR2 e TLR4), onde reconhecem componentes bacterianos de superfície, quanto em compartimentos endossômicos (como TLR7 e TLR9), onde identificam ácidos nucleicos virais e bacterianos.7,8
Existem pelo menos 10 TLRs funcionais em humanos (TLR1 a TLR10), cada qual com especificidade para diferentes classes de ligantes. Por exemplo, o TLR2 reconhece lipoproteínas e peptidoglicanos de bactérias gram-positivas, o TLR4 reconhece o lipopolissacarídeo (LPS) de bactérias gram-negativas e o TLR7 e o TLR9 reconhecem ácidos nucleicos virais.7,8
Na rosácea, destaca-se a superexpressão do TLR2 na epiderme, nas glândulas sebáceas e em estruturas anexiais. Esse aumento reduz o limiar de ativação imunológica cutânea, o que torna a pele hiper-responsiva a estímulos normalmente inócuos, como variações de temperatura, produtos tópicos ou mesmo a microbiota residente.5,8
Já os NLRs são receptores intracelulares. Ao contrário dos TLRs, que detectam ameaças no espaço extracelular ou endossômico, os NLRs reconhecem componentes microbianos e sinais de estresse celular. A ativação dos NODs leva à sinalização de vias como o fator nuclear kappa B (NF-κB), resultando na produção de citocinas pró-inflamatórias, como interleucina (IL)-1β, IL-6 e fator de necrose tumoral-α (TNF-α). Além disso, os NLRs participam da formação de inflamassomas, complexos proteicos intracelulares que ativam a caspase-1 e promovem a liberação de IL-1β, citocina amplamente associada às lesões inflamatórias da rosácea.7,8
Tanto a hiperexpressão do TLR2 quanto a ativação exacerbada do receptor intracelular NOD2 contribuem para a amplificação da resposta inflamatória na rosácea por meio da produção aumentada de catelicidinas, uma família de pequenos peptídeos antimicrobianos presentes em humanos e animais que desempenham um papel importante no sistema imunológico inato.9 Neste grupo, destaca-se a LL-37, gerada a partir da clivagem do peptídeo antimicrobiano catelicidina (CAMP), seu precursor inativo. Essa clivagem é realizada pela enzima calicreína 5 (KLK5), cuja expressão também é estimulada por TLR2.5,8,10 A KLK5 é uma serina protease que desempenha um papel importante na pele, mais especificamente no estrato córneo da epiderme. Codificada pelo gene KLK5, está envolvida na regulação da descamação da pele e pode desempenhar um papel na inflamação da pele, pois pode clivar receptores ativados por proteinase (PARs) nos queratinócitos, levando à liberação de citocinas inflamatórias.11
Uma vez formada, a LL-37 atua em diferentes tipos de receptores, desencadeando cascatas intracelulares de sinalização (como a ativação de NF-κB) que resulta na produção de citocinas inflamatórias (IL-1β, IL-6 e TNF-α), na indução de vasodilatação, no recrutamento de células imunes e no remodelamento vascular. O acúmulo anômalo e persistente de LL-37 na pele de pacientes com rosácea, portanto, não apenas reflete uma disfunção no controle da imunidade inata, mas também representa um ponto de convergência entre diferentes vias inflamatórias envolvidas na patogênese da doença.10
Disfunção neurovascular
A desregulação neurovascular constitui um dos pilares centrais da fisiopatologia da rosácea, especialmente nas formas clínicas caracterizadas por eritema persistente, flushing e telangiectasias. Um dos mecanismos moleculares que explicam essa hiper-reatividade envolve a superexpressão e a ativação anormal dos canais receptores de potencial transitório (TRP). Os canais TRP constituem uma superfamília de canais iônicos não seletivos que regulam o influxo de cátions, especialmente cálcio (Ca²+) e sódio (Na+), em resposta a diferentes estímulos ambientais e endógenos. Presentes em diversos tecidos, incluindo a pele, os canais TRP atuam como sensores moleculares, traduzindo estí-
Classificação das subfamílias TRP
Subfamília Sigla
Função predominante
TRPC Canonical Resposta a sinais hormonais e neurotransmissores
TRPV Vanilloid
Detecção de calor, dor e osmolaridade
TRPM Melastatin Regulação de temperatura e íons como Mg²+
TRPA Ankyrin
Sensação de frio extremo e irritantes químicos
TRPP Polycystin Função renal e mecanismos ciliares
TRPML Mucolipin
TRP, receptores de potencial transitório.
Homeostase lisossomal e autofagia
Tabela 1:
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mulos térmicos, mecânicos, químicos e osmóticos em sinais elétricos e bioquímicos. São particularmente abundantes em terminações nervosas sensoriais, onde contribuem para a percepção de dor, prurido, calor, frio e inflamação.12
A família TRP é subdividida em seis subgrupos principais, com base em homologia de sequência e características funcionais. A Tabela 1 resume essas proteínas. Na pele de indivíduos com rosácea, observa-se superexpressão e ativação anômala de subtipos específicos de canais TRP, notadamente TRPV1, TRPA1 e TRPV4.12
Papel de microrganismos, especialmente Demodex folliculorum
Dentre os fatores externos, os microrganismos têm sido implicados como importantes desencadeadores ou moduladores da inflamação cutânea. Embora a presença desses organismos não seja patognomônica da doença, evidências crescentes sugerem que desempenham um papel fundamental na perpetuação da resposta inflamatória.7,10,13
O ácaro Demodex folliculorum é um ectoparasita comensal da pele humana, com predileção pelos folículos pilossebáceos da
face. Estudos demonstram aumento significativo da densidade de Demodex em pacientes com rosácea, especialmente nas formas papulopustulosas e granulomatosas. A alta carga parasitária pode romper o equilíbrio imunológico local e desencadear uma resposta inflamatória exacerbada. Acredita-se que os produtos antigênicos do Demodex, bem como microrganismos simbiontes que vivem em seu interior (como Bacillus oleronius), estimulem a superexpressão de TLR-2 e promovam a ativação da via da catelicidina LL-37, favorecendo a quimiotaxia de neutrófilos e a liberação de metaloproteinases. Além disso, a degradação folicular pelo parasita pode atuar como DAMP, amplificando a resposta imune.7,8,14
MEDIDAS TERAPÊUTICAS GERAIS
O manejo da rosácea fundamenta-se na adoção de medidas comportamentais, que envolvem a educação do paciente acerca da doença, identificação dos fatores desencadeantes e a implementação de cuidados específicos com a pele.13
A identificação e prevenção de agentes agravantes, como exposição solar, variações térmicas, estresse psicossocial, consumo de álcool, dieta, cafeína, exercícios extenuantes e uso de cosmé-
Figura 3: Mecanismo de ação do TRPV. A partir de gatilhos de injúria tecidual, o TRPV1, presente nas terminações nervosas livres de neurônios sensitivos, permite a entrada de íons de cálcio. Os íons de cálcio no meio intracelular despolarizam o axônio, que transmite a sensação de dor e queimação ao córtex cerebral. Imagem adaptada de Zhang et al. (2013), modificada a partir de Servier Medical Art
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ticos potencialmente irritativos, são elementos essenciais para a compreensão e o manejo individualizado da doença. Evidências apontam que mais de 90% dos pacientes são capazes de associar a piora do quadro clínico a fatores desencadeantes, o que reforça a importância de estratégias educativas voltadas à redução das exacerbações.15 Além disso, a adoção de registros pessoais, como diários, contribui para a identificação de padrões individuais de exacerbação, promovendo um controle mais eficaz da condição.15,16
Dentre os fatores agravantes, o consumo de álcool (especialmente vinho e destilados), bebidas quentes e alimentos associados à capsaicina e ao cinamaldeído está correlacionado com a piora do quadro clínico. A exposição ao calor e o consumo de alimentos contendo capsaicina podem levar à ativação dos canais vaniloides TRPV dos subtipos 1 e 6, envolvidos no processo de vasodilatação e no aumento da sensibilidade cutânea, o que contribui para o surgimento de rubor e ardência na rosácea.17
A exposição à radiação ultravioleta (UV), por sua vez, induz uma resposta inflamatória do tipo imune inato, mediada por peptídeos antimicrobianos como LL-37 e citocinas pró-inflamatórias como a IL-33, que favorecem a angiogênese e a hiper-reatividade vascular.10
A relação entre tabagismo e rosácea apresenta um efeito protetor. Em uma análise populacional abrangente conduzida no Reino Unido, observou-se um risco reduzido de rosácea entre fumantes.18 Além do mais, também houve uma redução significativa no risco de desenvolver rosácea em tabagistas. Contudo, a nicotina presente no tabaco possui ação angiogênica, que pode desencadear sintomas da rosácea e agravar lesões pustulosas e rinofima. Portanto, dado o efeito negativo do tabaco sobre a saúde geral e dermatológica, pacientes com rosácea devem ser orientados quanto à importância da cessação do tabagismo, apesar das associações paradoxais descritas.17
Além do manejo dos fatores agravantes, a rosácea compromete de forma expressiva a integridade da barreira cutânea, levando à desidratação, irritabilidade e sensibilidade exacerbada.10 Diante desse quadro, cuidados específicos e individualizados com a pele tornam-se essenciais para a otimização da resposta terapêutica. Para a limpeza, recomenda-se o uso de loções suaves, sem sabão, com pH em torno de 5,5, uma a duas vezes ao dia. Além da limpeza, a hidratação também deve integrar a rotina diária de cuidados, sendo fundamental para restaurar a função da barreira e aliviar sintomas como ardência, prurido e xerose. As formulações devem ser suaves, conter ativos calmantes e regeneradores e ser isentas de substâncias potencialmente irritantes ou sensibilizantes.19
Complementarmente, a fotoproteção de amplo espectro deve ser incorporada ao tratamento da rosácea. Recomenda-se o uso diário de filtros solares à base de água, com fator de proteção solar (FPS) igual ou superior a 30, com reaplicação frequente. Protetores solares com veículos contendo dimeticona e ciclometicona são preferíveis para minimizar a irritação cutânea.18,20 Além disso, formulações que contenham filtros físicos, como óxido de zinco e dióxido de titânio, apresentam boa tolerabilidade.20
Além desses cuidados, a utilização de cosméticos corretivos para a camuflagem do eritema pode ser uma estratégia útil para atenuar os impactos psicossociais da doença. Entre as opções disponíveis, a maquiagem mineral é uma das opções mais recomendadas devido à sua boa tolerabilidade, ação fotoprotetora, efeito anti-inflamatório e baixo potencial comedogênico.17,20
TERAPIAS TÓPICAS
Agonistas tópicos dos receptores alfa-adrenérgicos
A brimonidina e a oximetazolina atuam como agonistas tópicos dos receptores adrenérgicos α-2 e α-1, respectivamente.7 O uso tópico desses fármacos promove a vasoconstrição transitória de vasos dérmicos, com o início de ação rápido, em cerca de 30 minutos. Seus efeitos podem durar entre 3 e 12 horas.10,15
A brimonidina em gel a 0,33% foi aprovada em 2013 pela Food and Drug Administration (FDA), o órgão que regula medicamentos nos Estados Unidos, para o alívio sintomático do eritema facial persistente. Seu principal mecanismo de ação envolve a vasoconstrição altamente seletiva de vasos superficiais dilatados, além de exercer efeitos anti-inflamatórios, principalmente pela redução de mastócitos e do infiltrado neutrofílico.21 Demonstrou eficácia com aplicação uma vez ao dia, tanto por avaliações clínicas do eritema como na autoavaliação do paciente, além de apresentar um perfil de segurança favorável quando associada a outras terapias tópicas e físicas, como a LIP.17,21
A oximetazolina é um derivado do imidazol aprovado em 2017 pela FDA em formulação de creme a 1% para o tratamento de eritema facial moderado a grave em adultos.19,21,22 Além da ação vasoconstritora citada anteriormente, o creme de oximetazolina apresenta propriedades anti-inflamatórias por reduzir a liberação de citocinas inflamatórias, bem como inibir a fagocitose neutrofílica.21 Exerce concomitantemente ação imunomoduladora, reduzindo a capacidade estimulatória das células dendríticas sobre as células T, além de modular a atividade do ácido araquidônico.23
Metronidazol
O metronidazol (MTZ) é um antibiótico derivado dos nitroimidazóis que apresenta atividades anti-inflamatórias e antioxidantes, sendo amplamente utilizado no manejo da rosácea papulopustulosa. O principal mecanismo de ação do MTZ envolve a modulação da atividade neutrofílica, com a redução de espécies reativas de oxigênio (EROs) e a inibição de células T.7,13,21,22 Atua também na redução da inflamação e no combate a bactérias que podem estar envolvidas no desenvolvimento da rosácea.24 Está disponível em diferentes formulações, incluindo gel, creme ou loção a 0,75% (com aplicação duas vezes ao dia) ou gel 1% (uma vez ao dia). Estudos comparativos não evidenciaram diferenças significativas na eficácia clínica entre os diferentes veículos ou concentrações.13,15
Os efeitos adversos associados ao uso de MTZ geralmente são leves e autolimitados, incluindo prurido, ardência, des-
camação, ressecamento ou irritação local.15 Em peles maduras e sensíveis, recomenda-se o uso de formulações em creme ou loção, pois apresentam melhor tolerabilidade em comparação ao veículo em gel.22
Ácido azelaico
O ácido azelaico (AA) é um ácido dicarboxílico indicado para o tratamento da rosácea inflamatória de grau leve a moderado. Está disponível em formulações tópicas nas concentrações de 15% (gel e espuma) e 20% (creme), todas com eficácia comparável.21 Seu mecanismo de ação integra atividades antimicrobianas, anti-inflamatórias e antioxidantes.13,21 Atua reduzindo a expressão e a secreção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1β e TNF-α, pelos queratinócitos. Além disso, protege as células contra danos oxidativos, reduzindo a produção de EROs pelos neutrófilos e favorecendo a eliminação dessas substâncias. Também modula a atividade da catelicidina por meio da inibição da KLK5 e regula a expressão gênica, promovendo a redução dos níveis de mRNA de CAMP e KLK5 na pele de pacientes com rosácea.7,13,21 Os efeitos adversos incluem sensação de queimação, dor, ardência, prurido, xerose e irritação local, geralmente de intensidade leve a moderada e de caráter transitório.13,21,22
Ivermectina
O creme de ivermectina 1% é amplamente utilizado no tratamento da rosácea papulopustulosa moderada a grave devido às suas propriedades antiparasitárias e anti-inflamatórias. Sua ação antiparasitária está relacionada à capacidade de atuar como agonista do canal iônico dependente de ligante, o que resulta na paralisia e posterior eliminação dos ácaros Demodex.7,22 Além disso, exerce efeitos anti-inflamatórios ao modular a resposta imune inata e adaptativa, com a inibição da secreção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1β e TNF-α, e o aumento da expressão de citocinas anti-inflamatórias, como IL-10. Atua também na redução da fagocitose e da quimiotaxia de neutrófilos.13,17,21
Além de sua eficácia terapêutica, o creme de ivermectina 1% oferece a conveniência de ser aplicado uma vez ao dia, proporcionando maior praticidade ao paciente. Seus efeitos adversos são, em sua maioria, leves e localizados, apresentando alta tolerabilidade e podendo ser mais seguro e tolerável do que outros agentes tópicos disponíveis.21
O creme de ivermectina 1% demonstra superioridade na redução do comprometimento social relacionado à rosácea quando comparado a outros agentes tópicos,21 mas recomenda-se cautela no uso durante a gestação e lactação devido aos potenciais riscos para o feto e o lactente.14
Minociclina
A minociclina é um antibiótico semissintético pertencente à classe das tetraciclinas, destacando-se não apenas pela ação bacteriostática, mas também por suas propriedades anti-inflamatórias, imunorreguladoras e antiangiogênicas.6,25 Sua atividade anti-inflamatória ocorre por meio da supressão do recrutamento de
neutrófilos e de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α, IL-6 e IL-1β 6 Um estudo experimental, in vitro e in vivo, contribuiu para elucidar o mecanismo anti-inflamatório da minociclina ao submeter células HaCaT e camundongos BALB/c à indução inflamatória com LL-37 e, posteriormente, tratá-los com o fármaco. O tratamento reduziu significativamente a expressão de TLR4, NF-κB, citocina inflamatórias e EROs, indicando um efeito mediado pela via TLR4/NF-κB.25 A formulação tópica da minociclina em espuma 1,5% foi aprovada nos Estados Unidos em 2020, tornando-se a primeira terapia tópica com minociclina indicada para o tratamento da rosácea papulopustulosa moderada a grave.21 Em dois ensaios clínicos randomizados de fase III, idênticos, pacientes que aplicaram espuma de minociclina 1,5% uma vez ao dia durante 12 semanas apresentaram redução das lesões inflamatórias em comparação ao grupo que utilizou apenas o veículo. Ao final do estudo, mais de 80% dos pacientes apresentaram apenas telangiectasias residuais ou eritema leve no local da aplicação. Além disso, observou-se melhora nas taxas de sucesso da avaliação global do investigador (AGI), com redução de pelo menos dois graus na pontuação ao final da 12ª semana.6,25,26 A formulação em espuma demonstrou boa tolerabilidade, podendo apresentar menor incidência de efeitos adversos sistêmicos em comparação com a administração oral.26
Inibidores da calcineurina
Os inibidores da calcineurina, como ciclosporina, pimecrolimo e tacrolimo, são utilizados no manejo da rosácea devido às suas propriedades imunomoduladoras e anti-inflamatórias.
A ciclosporina, em formulação de emulsão oftálmica a 0,05%, é amplamente empregada nas manifestações oculares da doença, mostrando-se mais eficaz do que lágrimas artificiais na melhora dos sintomas da rosácea ocular. Seu efeito se deve à inibição da produção de citocinas pró-inflamatórias por linfócitos T na conjuntiva, além de reduzir a liberação de IL-1, IL-8 e TNF-α por monócitos, contribuindo para o controle da inflamação local.7,13
No contexto cutâneo, o uso de pimecrolimo (creme 1%) e tacrolimo (pomada 0,03%-0,1%) possuem como principal mecanismo de ação a capacidade de modular a ativação de linfócitos T e a transcrição de IL-2. Na rosácea ocular, esses agentes também têm sido utilizados para tratar o processo inflamatório local das pálpebras, favorecendo a restauração da barreira epidérmica e o controle da inflamação local.7,21
TERAPIAS ORAIS
Tetraciclinas
A doxiciclina é uma tetraciclina de segunda geração que atua no tratamento das pápulas e pústulas devido ao seu efeito anti-inflamatório, não antimicrobiano. É aprovada pela FDA na dose de 40 mg/dia para o controle da rosácea papulopustulosa, sendo essa dosagem tão eficaz quanto a dose antimicrobiana de 100-200 mg/dia, porém com menos efeitos colaterais. Deve ser administrada ao final do dia para reduzir a fotossensibilidade e
Kalil CLPV, Melo MS, Malacarne GD, Pereira IL.
longe de refeições com laticínios, visto que estes reduzem sua absorção. Também é eficaz no tratamento dos sintomas de rosácea ocular.7
A tetraciclina é um antibiótico de primeira geração da família homônima, com efeito semelhante ao da doxiciclina. Também se recomendam doses subantimicrobianas a fim de reduzir a resistência bacteriana. Os efeitos adversos podem incluir náuseas, diarreia e constipação.Todas as tetraciclinas são teratogênicas.7
A minociclina oral também pode ser utilizada, na dose de 100 mg/dia, de forma off label para o tratamento da rosácea. Uma nova formulação modificada de baixa dose de minociclina vem sendo estudada. Chamada de DFD-29 (cápsulas de cloridrato de minociclina, 40 mg), a fórmula inclui 10 mg de minociclina de liberação imediata associados a 30 mg de minociclina de liberação prolongada. Dois estudos mostraram redução de lesões inflamatórias e melhor na taxa de sucesso na AGI em comparação com o placebo e a doxiciclina. Em relação à segurança, os eventos adversos foram semelhantes entre os grupos, geralmente leves, sendo o mais comum a infecção de vias aéreas superiores. Não houve diferença relevante em exames laboratoriais e não foram relatados eventos graves atribuídos à medicação.27
Macrolídeos
Os macrolídeos constituem uma classe de antibióticos que pode ser utilizada em pacientes com rosácea que apresentam hipersensibilidade ou contraindicação ao uso de tetraciclinas, como gestantes. Esses fármacos possuem atividade anti-inflamatória e antioxidante. Os principais efeitos adversos são gastrointestinais, sendo menos frequentes nos macrolídeos de segunda geração, como azitromicina e claritromicina. A azitromicina, quando utilizada na dose de 250 mg três vezes por semana, apresentou melhora das lesões papulopustulosas.7
Gabapentina
Um estudo multicêntrico realizado com o uso de gabapentina 900 mg/dia demonstrou melhora do flushing e da vermelhidão em comparação com o placebo. Porém, a terapia foi ineficaz para os outros sintomas da rosácea, como queimação, formigamento e efeitos psicológicos.28 Outro estudo comparou ouso de gabapentina 900 mg/dia ao de carvedilol 10 mg/dia para o tratamento da rosácea eritemato-telangiectásica, e as duas terapias apresentaram resultados semelhantes no controle do flushing facial, sendo que a gabapentina apresentou resposta mais rápida. Além disso, a gabapentina pode ser melhor tolerada e trazer mais benefícios para pacientes que apresentam outras comorbidades, como enxaqueca e distúrbios do sono. Efeitos colaterais leves, como sonolência e náusea, foram observados em 13% dos pacientes.29
Isotretinoína
Derivado retinoide da vitamina A, a isotretinoína pode ser utilizada em casos de rosácea persistente e resistente a outros tratamentos. O mecanismo de ação acontece por meio da
inibição das glândulas pilossebáceas e da regulação negativa de TLR-2.22 Apesar de ser um tratamento off label, o fármaco tem demonstrado eficácia em pacientes que não respondem a terapias tópicas e antibióticos orais. A dose utilizada na maioria dos estudos é de 0,2 mg/kg/dia durante 6 meses. Além disso, a isotretinoína é eficaz no tratamento da rosácea fimatosa, sendo indicada nos casos iniciais.7,26 A isotretinoína também apresenta efeito positivo na rosácea edematosa, conhecida como doença de Morbihan, mostrando que o modo de ação vai além da atuação nas glândulas sebáceas.26
Mesmo em doses baixas, a isotretinoína pode levar ao ressecamento das mucosas e da pele, seus principais efeitos adversos. A monitorização laboratorial com dosagens de enzimas hepáticas e perfil lipídico deve ser realizada durante o tratamento.22 A medicação é um teratógeno conhecido e não deve ser utilizada por tentantes, gestantes e lactantes.7
Anti-hipertensivos
Os anti-hipertensivos podem ser eficazes no tratamento do flushing causado pela rosácea. Entre eles, os betabloqueadores são as medicações mais utilizadas, em especial o propranolol e o carvedilol. O uso dessas medicações requer a realização prévia de um eletrocardiograma, além do parecer e o acompanhamento de um cardiologista, especialmente em pacientes acima dos 50 anos de idade.10
MEDIDAS NÃO FARMACOLÓGICAS
Luz intensa pulsada (LIP)
A LIP consiste em um dispositivo no qual a luz é filtrada por meio de comprimentos de onda específicos, selecionados de acordo com a absorção dos tecidos-alvo. Na rosácea, o alvo é a oxi-hemoglobina. A LIP atua reduzindo a inflamação e aumentando a regulação positiva de citocinas anti-inflamatórias e a regulação negativa de citocinas pró-inflamatórias. Também pode estimular a síntese de colágeno e aumentar o metabolismo celular ao afetar a cadeia de transporte de elétrons mitocondrial. Além disso, atua na destruição das telangiectasias, uma vez que promove a formação de trombos intravasculares, levando à coagulação.30
Uma das vantagens da LIP no tratamento da rosácea é que ela permite flexibilizar os parâmetros. Em outras palavras, de acordo com os parâmetros escolhidos, é possível atuar em vasos superficiais ou profundos, bem como focar no calibre dos vasos a serem tratados. Outro aspecto favorável é o tamanho da ponteira: por ser maior do que as ponteiras utilizadas em lasers, permite o tratamento de áreas mais extensas com menor número de disparos, o que torna o procedimento mais ágil.
A LIP é o tratamento de escolha para o estágio eritemato-telangiectásico, pois atua na hiper-reatividade vascular a qual a rosácea está relacionada. O tratamento permite a redução do fluxo sanguíneo, das telangiectasias superficiais e da intensidade do eritema. A resposta terapêutica é eficaz e, devido à cronicidade da doença, recomenda-se manutenção periódica. O perfil de
efeitos adversos, em geral sutis, também favorece o tratamento com LIP. A combinação da LIP com tratamentos tópicos e sistêmicos pode possibilitar o sinergismo dos efeitos terapêuticos, otimizando os resultados.31 O uso de produtos para o cuidado da pele que contenham ativos calmantes e antioxidantes pode reduzir o downtime do procedimento e potencializar os resultados.30
Lasers
Os lasers podem atuar na redução do eritema e coagulação das telangiectasias da rosácea. Os mais utilizados são o laser de corante pulsado (PDL) e o laser de granada de ítrio e alumínio dopado com neodímio (Nd:YAG) de pulso longo. Alguns estudos compararam a eficácia entre LIP e PDL e não encontraram uma diferença estatisticamente significativa entre os métodos. A LIP parece ser mais ativa no tratamento do eritema do que das telangiectasias em formas graves de rosácea. Ambas as técnicas são eficazes, desde que sejam realizadas sessões repetidas.10 Além dessas opções, lasers ablativos, tanto fracionados quanto não fracionados, incluindo o laser de dióxido de carbono (CO2, 10.600 nm) e o laser de granada de ítrio e alumínio dopado com érbio (Er:YAG, 2940 nm), têm sido empregados no tratamento de rinofima e serão discutidos posteriormente neste artigo.
Toxina botulínica
A injeção intradérmica de toxina botulínica diluída para 10 UI/ml pode reduzir o eritema e o flushing facial causados pela rosácea. Além disso, pode reduzir o tamanho dos poros e algumas lesões papulosas. As aplicações podem ser realizadas na dose de 0,05 mL por ponto, distando 0,5 cm entre si.17,32 Atua bloqueando a atividade dos mastócitos, o que reduz o eritema induzido por LL-37.17 Além disso, bloqueia a liberação de acetilcolina em nervos autonômicos, reduzindo a vasodilatação cutânea.33 Outros neurotransmissores também foram sugeridos como passíveis de redução pela injeção de toxina botulínica tipo A (BoNT-A), incluindo a substância P, o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina e o glutamato.34 O efeito geralmente dura de 3 a 4 meses e recomenda-se a reaplicação em 4 a 5 meses a fim de manter a remissão dos sintomas.32 Alguns estudos demonstraram que o efeito da toxina botulínica na rosácea, quando associada à ablação térmica do estrato córneo por meio de tecnologias como laser e sistemas térmicos fracionados, é mais prolongada.17 Bloom et al. avaliaram a segurança e a eficácia da aplicação intradérmica da abobotulinumtoxinA (15-45 UI) no tratamento do eritema facial causado pela rosácea e observaram melhora visível em 93% dos pacientes. Não houve piora, eventos adversos graves (como anafilaxia) ou efeito rebote.33 A abobotulinumtoxinA é de alto peso molecular, portanto, sua penetração no estrato córneo intacto é baixa, sendo tipicamente administrada por injeção intradérmica. Métodos que geram ablação do estrato córneo (como laser ablativo, radiofrequência agulhada e eletroporação) associados à aplicação de toxina botulínica demonstraram resultados semelhantes aos da injeção intradérmica, além de reduzirem a dor do procedimento e o risco de paralisia muscular. O
principal efeito adverso é o eritema no local de injeção, observado em um quarto dos pacientes. Equimoses e acometimento do músculo facial foram menos frequentes, ocorrendo em menos de 5% dos casos.34 No entanto, o uso da toxina botulínica para o tratamento de rosácea ainda é considerado off label, sendo necessários mais ensaios clínicos randomizados.
Fotobiomodulação (FBM)
A fotobiomodulação (FBM) é uma técnica terapêutica que utiliza luz de baixa intensidade para modular respostas celulares. Essa abordagem tem se destacado como uma alternativa promissora no tratamento da rosácea, principalmente devido às suas propriedades anti-inflamatórias e de regeneração tecidual.35 Embora o mecanismo de ação da FBM ainda não seja completamente compreendido, sabe-se que sua ação ocorre, em grande parte, por meio da absorção da luz por cromóforos mitocondriais, como o citocromo c oxidase. Essa interação estimula a produção de adenosina trifosfato (ATP), melhora a oxigenação dos tecidos e modula as vias inflamatórias envolvidas na fisiopatologia da rosácea. Comprimentos de onda na faixa do vermelho (630-660 nm) e do infravermelho próximo (800-850 nm), comumente emitidos por LEDs e lasers de baixa potência, estão entre os mais eficazes. Esses espectros têm sido associados à redução da expressão de citocinas pró-inflamatórias, como IL-β, IL-6 e TNF-α, bem como à redução do infiltrado de células do sistema imune nos tecidos.35
Apesar dos resultados positivos e da margem de segurança da FBM, a variabilidade entre os protocolos e parâmetros utilizados, como a frequência das sessões, a dose e o tempo de tratamento, ainda é enorme. Além disso, a escassez de ensaios clínicos controlados voltados para o uso da FBM no tratamento da rosácea evidencia a necessidade de novos estudos que aprofundem a compreensão dessa abordagem terapêutica e das respostas celulares envolvidas.35
Peculiaridades no tratamento da rinofima
A rinofima é uma condição crônica e progressiva, caracterizada pela proliferação de glândulas sebáceas, espessamento do conjunto conjuntivo, alterações na coloração da pele, deformidade local, crescimento exofítico irregular e telangiectasias visíveis. Embora a apresentação nasal seja a mais comum, tumefações semelhantes podem acometer outras regiões na face.36
Trata-se de uma forma de rosácea pouco responsiva aos tratamentos convencionais, sendo muitas vezes necessário associar terapias ablativas para redução das lesões.36
As primeiras técnicas cirúrgicas foram descritas no século XVII e, ao longo do tempo, diversas abordagens passaram a ser relatadas, como as técnicas de Von Langenbeck (cicatrização por segunda intenção), Ollier (decorticação), Wood (enxerto de pele parcial), Adamopoulous (dermoabrasão), Nolan (criocirurgia) e Bohigian (laser de CO2).37
Entre as técnicas ablativas, destacam-se a criocirurgia e a eletrocirurgia, que possibilitam a excisão da fima com excelente
Kalil CLPV, Melo MS, Malacarne GD, Pereira IL.
hemostasia e menor custo. Contudo, apresentam risco de necrose, discromia e cicatrizes inestéticas, que podem ser minimizados com o uso adequado da energia. A coablação, por sua vez, utiliza radiofrequência em meio condutor a temperaturas inferiores a 90 ºC, reduzindo o risco de dano térmico.36
As técnicas excisionais envolvem a remoção total ou parcial do tecido afetado. A ressecção de espessura total elimina o risco de recorrência da lesão, mas está associada a maior chance de falha de enxertos e retalhos, além de resultados estéticos desfavoráveis e possível necessidade de procedimentos corretivos, de modo que é cada vez menos utilizada. A excisão parcial preserva as unidades pilossebáceas e favorece a reepitelização espontânea, apresentando menor custo, embora exija controle rigoroso da hemostasia. A dermoabrasão pode ser aplicada como procedimento complementar para refinamento estético.36
Tecnologias ablativas também vêm ganhando espaço no tratamento da rinofima. O laser de CO2, por ser amplamente estudado, tem se consolidado como uma das opções mais eficazes, apresentando resultados estéticos bastante satisfatórios. Devido ao seu comprimento de onda específico (10.600 nm), sua absorção ocorre principalmente pela água, o que proporciona corte e vaporização precisos com baixa penetração, hemostasia intraoperatória, menor dano térmico e baixo risco de cicatriz, além de possibilitar a reepitelização rápida.36
Outros lasers ablativos, como o Er:YAG e o laser de diodo (1450–1470 nm), também podem ser utilizados, proporcionando recuperação mais rápida e menos efeitos adversos, embora apresentem resultados mais brandos por serem mais superficiais do que o CO2. O PDL pode ser utilizado como complemento para tratamento da vascularização.37,38
A combinação recente de plasma de hélio com radiofrequência tem se mostrado promissora. A técnica promove o aquecimento e resfriamento quase instantâneos, possibilitando ablação sequencial com mínimo sangramento durante o procedimento e recuperação semelhante à observada com o laser de CO2, embora o eritema residual possa persistir por um período mais prolongado.36
TERAPIAS FUTURAS
O anticorpo monoclonal inibidor do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) tem sido estudado como opção terapêutica para o tratamento da acne e da rosácea. O CGRP é um peptídeo associado à patogênese da enxaqueca e está envolvido em processos de vasodilatação e inflamação neurogênica. Estudos mais recentes demonstram que também está presente nas glândulas sebáceas, e sua inibição pode reduzir o risco de desenvolvimento de rosácea em até 47%.39
As zeólitas, aluminossilicatos microporosos com propriedades físico-químicas ajustáveis, apresentam a capacidade de adsorver toxinas, modular a inflamação local e atuar como carreadores de agentes antimicrobianos ou terapêuticos. Também podem melhorar a absorção dérmica de compostos hidrofílicos desafiadores. Um exemplo é o ácido tranexâmico, utilizado no tratamento de
rosácea e melasma, associado a estruturas de imidazolato zeolítico (ZIF-8). Esse sistema facilita a expressão de aquaporina-3 (AQP3)em queratinócitos, aumentando o transporte transepidérmico de água e solutos, com redução do eritema e clareamento visível da pele sem efeitos adversos. As microagulhas de zeólita representam uma evolução nos sistemas transdérmicos de administração de fármacos, associando a integridade mecânica, a porosidade e a bioinércia das zeólitas para permitir uma administração dérmica minimamente invasiva e de longa ação, tanto de pequenas moléculas quanto de macromoléculas.40
CONCLUSÃO
A rosácea é uma dermatose multifatorial cuja compreensão fisiopatológica avançou significativamente nas últimas décadas. Evidências atuais apontam para a interação complexa entre fatores imunológicos, neurovasculares, microbianos e ambientais como principais eixos na gênese e na perpetuação do quadro clínico. A identificação de elementos como a superexpressão de TLR2, o papel da LL-37 (peptídeo antimicrobiano produzido pelo corpo humano que integra o sistema imunológico inato), a ativação de canais TRP e a maior presença de Demodex folliculorum não apenas esclarecem aspectos centrais da doença, como também abrem caminho para intervenções terapêuticas mais direcionadas.
Os tratamentos tópicos representam a primeira linha terapêutica para casos leves a moderados, incluindo substâncias como metronidazol, ácido azelaico, ivermectina, minociclina tópica, peróxido de benzoíla encapsulado, brimonidina, oximetazolina, sulfacetamida/enxofre e, em alguns casos, retinoides utilizados de forma off label. Quando necessário, essas terapias podem ser associadas a medicamentos orais, entre os quais se destacam doxiciclina, minociclina, tetraciclina, isotretinoína, azitromicina, betabloqueadores e até inibidores da Janus quinase (JAK), classe de medicamentos que bloqueiam as enzimas JAK para modular a resposta inflamatória do sistema imunológico.41
Nos casos mais graves, especialmente aqueles com alterações fimatosas ou refratários ao tratamento convencional, pode ser necessário recorrer a procedimentos. Estes incluem diferentes modalidades de laser, como PDL, LIP, fosfato de titanila de potássio (KTP), Nd:YAG, CO₂ e Er:YAG, além de abordagens como crioterapia, eletrocirurgia, dermoabrasão e outras intervenções cirúrgicas.41
Além das medidas farmacológicas e procedimentais, as modificações no estilo de vida desempenham um papel central na prevenção e no controle das crises. Evitar gatilhos conhecidos, adotar fotoproteção rigorosa, utilizar cuidados suaves com a pele e investir em educação do paciente são estratégias essenciais para minimizar exacerbações.
Assim, uma abordagem combinada e personalizada, que integra terapias tópicas e sistêmicas, procedimentos e mudanças comportamentais, é fundamental para otimizar o controle dos sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes com rosácea. l
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Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica do manuscrito.
Matheus Silva Melo 0000-0003-3027-8719
Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Giulia Dambrós Malacarne 0000-0002-0313-3840
Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
Isabela de Liz Pereira 0009-0001-4727-8400
Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura.
Clean beauty: definições,
www.surgicalcosmetic.org.br/
diferenciações entre cosméticos naturais, orgânicos e veganos, e achados experimentais sobre disruptores endócrinos em cosméticos
Clean Beauty: definitions, distinctions among natural, organic, and vegan cosmetics, and experimental evidence on endocrine disruptors in cosmetics
Nos últimos anos, a busca por cosméticos que sejam "amigos da natureza", formulados com ingredientes mais seguros e sustentáveis, impulsionou o crescimento do mercado global. O conceito de clean beauty tornou-se uma filosofia que exige transparência, segurança e sustentabilidade em toda a cadeia de produ-ção. Este artigo de revisão atualiza as definições de clean beauty, diferencia cosméticos naturais, orgânicos e veganos, e detalha achados experimentais sobre os disruptores endócrinos presentes em formulações cosméticas, incluindo evidências in vitro e in vivo. Palavras-chave: Cosméticos; Corantes;Ambiente Aquático;Alérgenos
Artigo de Revisão
Autores:
Pedro Vargas 1
Valéria Barreto Campos 2
Flávia Pereira Reginatto 3
Christine Chaves Prato 1
Célia Luiza Petersen Vitello Kalil 3
1 Farmatec RS, Pesquisa e Desenvolvimento, Porto Alegre (RS), Brasil
2 Faculdade de Medicina de Jundiaí, Dermatologia, Jundiaí (SP), Brasil
3 Universidade Federal da Fronteira Sul, Dermatologia, Passo Fundo (RS), Brasil
ABSTRACT
In recent years, the demand for eco-friendly cosmetics formulated with safer and more sustainable ingredients has driven the expansion of the global market. The concept of clean beauty has evolved into a philosophy that requires transparency, safety, and sustainability throughout the production chain. This review article updates the definitions of clean beauty, differentiates natural, organic, and vegan cosmetics, and details experimental findings on endocrine disruptors present in cosmetic formulations, including in vitro and in vivo evidence.
Fonte de financiamento: Não Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 11/18/2025
Decisão final: 02/01/2026
Como citar este artigo:
Vargas P, Campos VB, Reginatto FP, Prato CC, Kalil CLPV. Clean Beauty: definições, diferenciações entre cosméticos naturais, orgânicos e veganos e achados experimentais sobre disruptores endócrinos em cosméticos. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260540.
INTRODUÇÃO
Tendências de mercado
A busca por rotinas de skincare com produtos de origem natural e sem ingredientes controversos consolidou-se como uma tendência e continua a impulsionar as vendas globais.1–3 O mercado global de cosméticos naturais tem projeção de crescimento de 6,75% ao ano entre 2024 e 2028, atingindo US$ 18,01 bilhões.3 O Brasil mantém-se como o quarto maior mercado de beleza, movimentando R$ 173,4 bilhões em 2024, com crescimento de 10,3% e expectativa de alcançar US$ 40 bilhões em 2027.4 Produtos clean beauty têm crescimento estimado superior aos da indústria tradicional, de em média 12% ao ano.2
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, elaborada a partir da análise crítica de publicações científicas relevantes sobre o conceito de clean beauty, da diferenciação entre cosméticos naturais, orgânicos e veganos, bem como das evidências experimentais relacionadas a disruptores endócrinos (DEs) em cosméticos. Foram consultadas bases de dados como PubMed, Scopus e Google Scholar, priorizando estudos experimentais, revisões narrativas e documentos regulatórios.
Skincare minimalista
Associada ao clean beauty, a abordagem minimalista prioriza rotinas simplificadas, evitando excesso de ativos e valorizando a saúde da barreira cutânea.2 Essa tendência reflete uma mudança de comportamento do consumidor, que busca formulações mais objetivas, seguras e com menor risco de sensibilização.
CONCEITOS EM COSMÉTICOS
Clean beauty
Designa produtos seguros, transparentes e livres de ingredientes controversos, como parabenos, sulfatos, ftalatos, petrolatos e fragrâncias sintéticas.1,5 Apesar da ausência de uma definição regulatória universal, o termo é amplamente usado para designar formulações com critérios mais conservadores de segurança.
Cosméticos naturais
Devem conter matérias-primas predominantemente de origem animal, vegetal ou mineral, desde que minimamente processados. A porcentagem máxima permitida de ingredientes sintéticos varia entre certificadoras, mas geralmente não excede 5% e deve corresponder a substâncias consideradas de baixo risco.5
Cosméticos orgânicos
Derivam de matérias-primas cultivadas sem pesticidas e fertilizantes sintéticos, com rotatividade de culturas e defensivos biológicos; a certificação exige ≥ 95% de ingredientes orgânicos. Um exemplo de certificação orgânica em cosméticos é a Ecocert, reconhecida internacionalmente por garantir que os produtos sejam formulados com ingredientes naturais e de origem orgânica. Essa certificação assegura que não sejam utilizados componentes sintéticos, como parabenos, silicones ou fra-
grâncias artificiais, e que todo o processo de produção respeite omeio ambiente, o bem-estar animal e as práticas sustentáveis, incluindo o uso de embalagens ecológicas.5
Cosméticos veganos
São compatíveis com a filosofia cruelty-free, isto é, não utilizam ingredientes de origem animal e não realizam teste de produtos, principalmente cosméticos, em animais em nenhuma etapa de sua produção. Produtos veganos podem ser sintéticos e não necessariamente naturais ou orgânicos.5 É importante destacar, inclusive, que o termo “vegano” diz respeito exclusivamente à origem dos ingredientes e não implica menor risco toxicológico ou maior sustentabilidade.
REGULAMENTAÇÃO
Regulamentação no Brasil
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ainda não define oficialmente “natural”, “orgânico” ou “vegano”, o que mantém a responsabilidade das definições a cargo de certificadoras privadas e normas internacionais.6 Atualizações regulatórias recentes — a Instrução Normativa n° 280/2024 e as Resoluções de Diretoria Colegiada n° 951/2024 e n° 894/2024 — trouxeram clareza para listas de substâncias, classificação de risco, obrigatoriedade de rótulo em português e notificação de eventos adversos graves, incluindo suspeitas de desregulação endócrina.6
Um projeto de lei em tramitação propõe a inclusão de alertas sobre risco de desregulação endócrina hormonal nos rótulos de produtos cosméticos.6 Apesar dos avanços, ainda não há critérios unificados específicos para formulações naturais, orgânicas ou veganas no Brasil.
Regulamentação internacional
Nos Estados Unidos, os cosméticos são regulados pela Food and Drug Administration (FDA), sob o Federal Food, Drug, and Cosmetic Act (FD&C Act), que historicamente não exigia aprovação prévia para a maioria dos ingredientes, exceto para aditivos de cor. Com a aprovação do Modernization of Cosmetics Regulation Act of 2022 (MoCRA), a autoridade da FDA foi ampliada para incluir o registro obrigatório de instalações, listagem de produtos, relatórios de eventos adversos graves, fundamentação científica da segurança dos ingredientes e possibilidade de recall compulsório.7,8
Na União Europeia (UE), a regulamentação coordenada pela European Medicines Agency (EMA) é mais restritiva e está definida no Regulamento n° 1223/2009, que determina que todos os produtos cosméticos devem ser comprovadamente seguros antes de serem comercializados. Esse regulamento é oprincipal quadro legal que rege os produtos cosméticos disponibilizados no mercado da UE, estabelecendo requisitos de segurança rigorosos para garantir um elevado nível de proteção
da saúde humana e a livre circulação de produtos cosméticos no mercado único. A Comissão Europeia (braço executivo da UE) mantém uma lista prioritária de substâncias sob avaliação por potencial de desregulação endócrina e aplica critérios harmonizados para sua restrição, com base no princípio da precaução.6,9
Disruptores endócrinos em cosméticos Conceito
Os DEs são substâncias químicas capazes de interferir na síntese, no transporte, no metabolismo e na ação de hormônios naturais, mesmo em baixas concentrações.10,11 Esses efeitos podem ocorrer por diferentes mecanismos, como mimetização hormonal, bloqueio de receptores, alteração enzimática ou modulação de vias nucleares.
Exemplos de DEs em cosméticos incluem:
Parabenos (metil, propil, butil): atividade estrogênica fraca e risco potencial de carcinogênese mamária10;
Ftalatos: efeito antiandrogênico e interferência na esteroidogênese11;
Filtros ultravioleta (UV) químicos (benzofenona-3, octocrileno): bioacumulação e toxicidade12,13;
Butil-hidroxitolueno (BHT): antioxidante com toxicidade aquática14;
Triclosan e Bisfenol A (BPA - químico usado em plásticos e resinas que levanta preocupações de saúde): modulação de receptores hormonais e efeitos metabólicos adversos.15
IMPACTOS NA SAÚDE
Os DEs podem afetar diversos sistemas:
Reprodutivo feminino: puberdade precoce, síndrome dos ovários policísticos (SOP), endometriose e irregularidades menstruais10;
Reprodutivo masculino: redução da contagem e da motilidade espermática, infertilidade e risco de câncer testicular11,15;
Metabólico: ação obesogênica, resistência à insulina e obesidade transgeracional15;
Imunológico: potenciais efeitos autoimunes.10
Os DEs também podem atingir populações vulneráveis, como gestantes, lactantes e indivíduos com doenças crônicas, incluindo neoplasias.16 A susceptibilidade ampliada desses grupos decorre de alterações fisiológicas, maior taxa de absorção dérmica ou impacto sistêmico exacerbado.
Achados experimentais sobre disruptores endócrinos
In vitro
Parabenos: aumento da proliferação de células MCF-7, estudadas na Michigan Cancer Foundation (MCF), agora conhecida como Barbara Ann Karmanos Cancer Institute, Detroit, EUA; essa linhagem celular humana de câncer de mama é amplamente utilizada em pesquisa, derivada de um adenocarcinoma, conhecida por ser um modelo de câncer de mama positivo
para receptores hormonais (estrogênio e progesterona) e ativação de elementos responsivos a estrogênio.10
Ftalatos: redução da produção de testosterona e alterações de enzimas esteroidogênicas.12
Filtros UV químicos: atividade estrogênica/antiandrogênica e alterações em genes tireoidianos.12,13
Triclosan e BPA: modulação de receptores nucleares e sinalização hormonal.15
In vivo
Parabenos: alterações hormonais em roedores gestantes e tecidos mamários.10
Ftalatos: efeitos antiandrogênicos e malformações genitais em fetos.11
Filtros UV: bioacumulação e efeitos transgeracionais em peixes e vertebrados.12,13
Triclosan e BPA: disfunções reprodutivas e metabólicas em modelos animais.15
A consistência desses achados reforça a plausibilidade biológica de efeitos adversos em exposições crônicas, embora a extrapolação para humanos exija cautela.
Acúmulo de hidrocarbonetos de óleo mineral em cosméticos
Nos últimos anos, também emergiu uma preocupação com o acúmulo de hidrocarbonetos saturados de óleo mineral (MOSH) e hidrocarbonetos aromáticos de óleo mineral (MOAH) em produtos cosméticos, especialmente batons, cremes e produtos labiais frequentemente ingeridos. Esses compostos, derivados de óleos minerais refinados de forma incompleta, podem bioacumular em tecidos humanos e causar reações inflamatórias crônicas, como a síndrome de MOSH, caracterizada pela formação de microgranulomas hepáticos e esplênicos em modelos animais e humanos.18 Autores: a lista de referências termina na ref 18, favor verificar a que se refere esta citação de número.
Estudos indicam que alguns produtos cosméticos contêm níveis elevados (> 5%) de MOSH e Hidrocarbonetos saturados oligoméricos de poliolefina (POSH) derivados de plásticos, como o polietileno e o polipropileno — as poliolefinas — frequentemente relacionados à migração de materiais de embalagem), e a exposição crônica pode estar associada a distúrbios endócrinos e hepatotóxicos.17 A Tabela 1 sintetiza os principais achados experimentais in vitro e in vivo relacionados a DEs em cosméticos, incluindo os modelos utilizados, os tipos de ensaio e as faixas de concentração avaliadas.
A UE considera a presença de MOAH, com três ou mais anéis aromáticos, uma preocupação potencial devido à possível genotoxicidade e carcinogenicidade desses hidrocarbonetos, recomendando sua substituição por matérias-primas altamente refinadas e monitoramento contínuo de contaminações residuais.18 Agências internacionais têm intensificado a vigilância sobre MOSH/MOAH em cosméticos, embora ainda não exista um consenso global.
Table 1: Experimental findings of EDs in cosmetics
Composto Modelo
Parabenos (metil, propil, butil)
Ftalatos (DBP e DEHP)
Benzofenona-3
Células MCF-7 / Roedores gestantes
Células de Leydig / Fetos de roedores
Células de HepG2 / Zebrafish
Octocrileno Larvas / Peixes
BPA
Triclosan
BHT
HepG2, células embrionárias / Roedores
Células HepG2 / Roedores
HepG2, células embrionárias / Roedores
Siloxanos (D4/D5/D6) Organismos aquáticos
Tabela 1. Fonte: Elaborada pelos autores
Tipo de ensaio
Concentração / Dose
In vitro / In vivo μM em células / mg/kg em roedores10
In vitro / In vivo μM em células / mg/kg em roedores10,11
O movimento de clean beauty consolida-se como um novo paradigma na indústria cosmiátrica ao integrar segurança, transparência e sustentabilidade como pilares essenciais. A distinção clara entre cosméticos naturais, orgânicos e veganos é fundamental para evitar interpretações equivocadas e para que consumidores e profissionais — especialmente médicos dermatologistas — compreendam o real alcance e as limitações de cada categoria, para além do apelo mercadológico frequentemente associado ao tema.
Paralelamente, a produção científica crescente na área demonstra que diversos DEs presentes em formulações cosméticas podem interferir nos sistemas hormonais por múltiplos mecanismos, conforme evidenciado por estudos in vitro e in vivo. Esses achados reforçam a relevância clínica do tema e a necessidade de vigilância contínua quanto à exposição cumulativa a esses compostos.
Políticas regulatórias mais robustas são essenciais para definir limites de exposição, critérios padronizados de avaliação e diretrizes específicas para ingredientes de maior preocupação.
Nesse contexto, torna-se necessária a articulação entre avanços regulatórios, monitoramento toxicológico e estratégias educativas destinadas a profissionais de saúde, pesquisadores, indústria e consumidores. Somente por meio dessa abordagem integrada será possível promover práticas cosméticas mais seguras e alinhadas aos princípios da clean beauty, protegendo tanto a saúde humana quanto a integridade ambiental. Esta revisão apresenta limitações inerentes ao desenho do estudo, incluindo a ausência de critérios sistemáticos de busca e de avaliação formal da qualidade metodológica dos estudos incluídos. Além disso, grande parte das evidências disponíveis sobre DEs em cosméticos deriva de estudos in vitro e de modelos animais, o que impõe cautela na extrapolação direta dos achados para a prática clínica em humanos. A heterogeneidade dos modelos experimentais, das substâncias avaliadas, das doses empregadas e dos desfechos analisados também limita comparações diretas entre os estudos. Ainda assim, os dados reunidos oferecem plausibilidade biológica consistente e reforçam a relevância do tema, destacando a necessidade de estudos clínicos bem delineados e de monitoramento contínuo da exposição a esses compostos. l
REFERÊNCIAS:
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6. Kalofiri P, Biskanaki F, Kefala V, Tertipi N, Sfyri E, Rallis E. Endocrine disruptors in cosmetic products and the regulatory framework: public health implications. Cosmetics. 2023;10(6):160.
7. Vieira D, Duarte J, Vieira P, Gonçalves MBS, Figueiras A, Lohani A, et al. Regulation and safety of cosmetics: pre- and post-market considerations for adverse events and environmental impacts. Cosmetics. 2024;11(6):184.
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9. European Commission. Regulation (EC) No 1223/2009 of the European Parliament and of the Council on cosmetic products [Internet]. Brussels: Official Journal of the European Union; 2009 [cited 2024 Oct 21]. Available from: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?uri=CELEX:32009R1223
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11. Souza LDSR, Oliveira Neta AI, Gomes JS, et al. Cosméticos com presença de disruptores endócrinos e gestação: percepção de risco pelos profissionais de saúde. Rev Rene. 2024;25:377.
12. Carve M, Nugegoda D, Allinson G, Shimeta J. A systematic review and ecological risk assessment for organic ultraviolet filters in aquatic environments. Environ Pollut. 2021;268:115894.
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16. Bikiaris N, Nikolaidis NF, Barmpalexis P. Microplastics in cosmetics: a review on their presence in PCCPs and sustainable alternatives from biobased and biodegradable polymers. Cosmetics. 2024;11(5):145.
17. Martínez-Rodríguez Y, Acosta-Muñiz C, Olivas GI, Guerrero-Beltrán J, Rodrigo- Aliaga D, Sepúlveda DR. High hydrostatic pressure processing of cheese. Compr Rev Food Sci Food Saf. 2012;11(4):399–416.
18. EFSA Panel on Contaminants in the Food Chain (CONTAM). Scientific opinion on mineral oil hydrocarbons in food. EFSA J. 2012;10(6):2704.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Pedro Vargas
0000-0002-5376-2696
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Valéria Barreto Campos 0000-0002-3350-8586
Aprovação da versão final do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica do manuscrito.
Flávia Pereira Reginatto 0000-0002-8189-2375
Aprovação da versão final do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa.
Christine Chaves Prato 0000-0001-8861-6499
Aprovação da versão final do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Célia Luiza Petersen Vitello Kalil
0000-0002-1294-547X
Aprovação da versão final do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
www.surgicalcosmetic.org.br/
Segurança e eficácia da terapia com luz intensa
pulsada combinada com laser
Safety and efficacy of intense pulsed light therapy combined with fractional laser therapy for scar management: a systematic review
Artigo Original
Autores:
Indira Saraswati Sanjaya1
Kelvin Kohar1
Chastine Harlim1
Lili Legiawati2
Nandita Melati Putri3
1 Faculty of Medicine, Universitas Indonesia, Jacarta, Indonésia
Introdução: A cicatrização é um processo complexo cuja interrupção pode resultar em cicatrizes patológicas. Os tratamentos convencionais muitas vezes apresentam eficácia limitada e altas taxas de recorrência. A combinação de luz intensa pulsada (LIP) com laser fracionado (FLT) surge como alternativa minimamente invasiva com resultados promissores. Este estudo avaliou a segurança e a eficácia do uso combinado de LIP e FLT no tratamento de cicatrizes patológicas.
Métodos: Esta revisão foi conduzida conforme as diretrizes PRISMA. Realizou-se uma busca sistemática nas bases PubMed, ProQuest, Scopus e Cochrane Library até dezembro de 2025, incluindo estudos com pacientes com cicatrizes patológicas tratados com a terapia combinada LIP + FLT.
Resultados: Cinco estudos preencheram os critérios de inclusão (3 ensaios clínicos randomizados, 1 estudo de coorte retrospectivo e 1 série de casos), totalizando 288 pacientes. Em todos os estudos, a terapia combinada resultou em redução significativa dos escores POSAS, MSS e VSS para cicatrizes hipertróficas e pós-operatórias. Um estudo observou taxas de satisfação significativamente mais altas entre os pacientes tratados com a combinação (p < 0,05). Os efeitos adversos foram mínimos, principalmente eritema leve e transitório.
Conclusão: A terapia combinada com LIP e FLT melhora a aparência das cicatrizes de forma segura e com baixa taxa de efeitos adversos, configurando uma opção eficaz e minimamente invasiva. Palavras-chave: Queloide; Cicatriz Hipertrófica; Terapia a Laser; Terapia de Luz Intensa Pulsada
2 Cipto Mangunkusumo General Hospital, Faculty of Medicine, Universitas Indonesia, Departamento de Dermatologia e Venereologia, Jacarta, Indonésia
3 Cipto Mangunkusumo General Hospital, Faculty of Medicine, Universitas Indonesia, Divisão de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, Departamento de Cirurgia, Jacarta, Indonésia
ABSTRACT
Background: Wound healing is a complex process, and various factors can disrupt this process, leading to non-healing wounds or scarring. Conventional treatments for scar management often have low efficacy and high recurrence rates. The combination of intense pulsed light (IPL) and fractional laser therapy (FLT) has emerged as a minimally invasive alternative with promising results. The goal of this study was to evaluate the safety and efficacy of combined IPL + FLT therapy and to manage pathological scars.
Methods: This study followed PRISMA guidelines. Systematic searches were performed in PubMed, ProQuest, Scopus, and the Cochrane Library up to December 2025. Studies involving patients with pathological scars treated using combination IPL and FLT were included.
Results: Five studies met the eligibility criteria, comprising 3 randomized controlled trials, 1 retrospective cohort study, and 1 case series, totaling 288 patients. Across all studies, combination therapy produced significant reductions in POSAS, MSS, and VSS scores in hypertrophic and postoperative scars. One study reported significantly higher patient satisfaction rates (p<0.05). Adverse effects were minimal, primarily mild transient erythema.
Conclusion: Combined FLT and IPL safely enhance scar appearance, with low adverse effect rates, offering an effective and minimally invasive therapeutic option.
Indira Saraswati Sanjaya E-mail: indirasanjaya78@gmail. com / indirasanjayaa@gmail.com
Fonte de financiamento: Os autores não receberam nenhum apoio financeiro para a pesquisa, a autoria, e/ou publicação deste artigo.
Data de submissão: 01/09/2025 Decisão final: 17/12/2025
Como citar este artigo: Sanjaya IS, Kohar K, Harlim C, Legiawati L, Putri MN. Segurança e eficácia da terapia com luz intensa pulsada combinada com laser fracionado para o tratamento de cicatrizes: uma revisão sistemática. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260513.
INTRODUÇÃO
Cicatrizes patológicas, particularmente cicatrizes hipertróficas e queloides, resultam de um processo anormal de cicatrização de feridas e são caracterizadas por deposição excessiva de colágeno e atividade persistente de fibroblastos. Essas cicatrizes podem causar dor, prurido, contraturas e desfiguração estética, levando a comprometimento funcional e a um ônus psicossocial grave para os pacientes afetados. Como sua patogênese é multifatorial e crônica, alcançar uma melhora duradoura e satisfatória das cicatrizes permanece um desafio clínico.1–3
Tratamentos convencionais não baseados em laser, incluindo excisão cirúrgica, malhas compressivas, placas de silicone, corticoides intralesionais ou outros agentes farmacológicos, crioterapia e radioterapia, têm demonstrado eficácia variável e muitas vezes limitada.3,4 As taxas de recorrência, especialmente após a excisão de queloides e cicatrizes hipertróficas, permanecem elevadas, e muitas dessas modalidades estão associadas a desconforto, tempo de recuperação prolongado ou efeitos adversos que podem comprometer ainda mais os resultados estéticos. Essas limitações têm impulsionado a busca por abordagens alternativas, minimamente invasivas, capazes de atuar simultaneamente em múltiplos componentes da fisiopatologia das cicatrizes.5,6
As terapias baseadas em laser e luz surgem como opções importantes no manejo de cicatrizes. A terapia a laser fracionado (FLT) fornece energia em um padrão pixelado para gerar zonas microtérmicas na derme, o que promove a remodelação do colágeno, suaviza a textura da cicatriz e melhora a espessura, a flexibilidade e a pigmentação.7,8 A luz intensa pulsada (LIP), uma fonte de luz policromática não coerente, atua por meio da fototermólise seletiva da hemoglobina e da melanina para reduzir o eritema e as discromias ao mesmo tempo em que exerce efeitos modestos na remodelação dérmica.9 Dados os mecanismos complementares dessas duas modalidades (atuação vascular e pigmentar pela LIP e remodelação estrutural profunda pela FLT), sua combinação tem sido proposta como uma estratégia racional para abordar a natureza multifacetada das cicatrizes patológicas. Estudos clínicos iniciais sugerem que a combinação LIP-FLT pode melhorar o aspecto global das cicatrizes e a satisfação do paciente, sem aumento substancial nas taxas de eventos adversos.10,11
Com o interesse crescente no manejo de cicatrizes e no número de estudos sobre o uso combinado de LIP e FLT, torna-se necessária a síntese de evidências de alta qualidade. Assim, conduzimos uma revisão sistemática sobre a segurança e a eficácia da terapia combinada LIP-FLT no manejo de cicatrizes. O objetivo foi fornecer aos clínicos insights sobre uma modalidade terapêutica alternativa para o manejo de cicatrizes.
MÉTODOS
Esta revisão sistemática foi conduzida de acordo com as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses (PRISMA). O protocolo foi registrado no International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO), registro CRD420251012803.
Estratégia de busca e seleção dos estudos Foi realizada uma busca sistemática em quatro grandes bases de dados científicas e médicas (PubMed, ProQuest, Scopus e Cochrane) para identificar todos os estudos relevantes publicados até dezembro de 2025. Além disso, as listas de referências de todos os artigos elegíveis foram analisadas em busca de estudos adicionais. Os critérios de inclusão foram estudos nos quais os pacientes apresentavam cicatrizes patológicas (queloides ou cicatrizes hipertróficas) e foram tratados com a combinação de FLT e LIP. Os desfechos primários foram avaliados por meio de instrumentos padronizados de avaliação de cicatrizes, como a Patient and Observer Scar Assessment Scale (POSAS), a Manchester Scar Scale (MSS), a Vancouver Scar Scale (VSS) e outros instrumentos validados. Foram excluídos estudos incompletos, sem disponibilidade de texto completo, publicados em idiomas que não o inglês e publicados mais de 15 anos antes do período de busca.
Extração e análise dos dados
A extração de dados foi realizada de acordo com o Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions. Três revisores independentes realizaram a triagem e a extração dos dados utilizando Google Sheets e Microsoft Excel para a organização e análise sistemáticas. As divergências decorrentes do processo de extração foram resolvidas por meio de debate e consenso. Os dados extraídos incluíram as características dos estudos (autores, ano de publicação, nível de evidência, país, duração do estudo, desenho do estudo e período de seguimento) e dos pacientes (tamanho da amostra, distribuição por sexo, faixa etária, fototipo de pele de Fitzpatrick, tipo de cicatriz patológica, sítio anatômico e etiologia). Também foram documentados os detalhes das intervenções, incluindo tipo de laser fracionado, parâmetros da LIP, número de sessões de tratamento, níveis de energia, duração do pulso e quaisquer protocolos terapêuticos adjuvantes. Os desfechos foram mensurados por meio de escalas padronizadas de avaliação de cicatrizes, como POSAS, MSS e VSS. Complicações e eventos adversos relatados tanto por médicos quanto por pacientes também foram registrados. O nível de evidência de cada estudo foi avaliado de acordo com os critérios do Oxford Centre for Evidence-Based Medicine.
Avaliação da qualidade
Os estudos foram avaliados sistematicamente por meio de instrumentos apropriados a cada desenho. Três revisores independentes avaliaram a qualidade dos estudos utilizando a ferramenta Cochrane Risk of Bias 2 (RoB 2) para ensaios clínicos randomizados (ECRs) e a checklist do Joanna Briggs Institute (JBI) para séries de casos e estudos de coorte. As discordâncias foram resolvidas por meio de debate até a obtenção de consenso.
RESULTADOS
Resultados da busca
A busca na literatura foi limitada a publicações em língua
Base de dados
Tabela 1: Descritores específicos das bases de dados e número de registros recuperados
Palavras-chave
PubMed ("intense light therapy" OR "IPL") AND ("laser therapy") AND ("scar" OR "hypertrophic scar" OR "keloid")
ProQuest ("intense light therapy" OR "IPL") AND ("laser therapy") AND ("scar" OR "hypertrophic scar" OR "keloid")
Scopus ("intense light therapy" OR "IPL") AND ("laser therapy") AND ("scar" OR "hypertrophic scar" OR "keloid")
Cochrane ("intense light therapy" OR "IPL") AND ("laser therapy") AND ("scar" OR "hypertrophic scar" OR "keloid")
Identificação de estudos via bases de dados e repositórios
Registros identificados de:
Identificação
Registros
6
437
71
9
Triagem
PubMed (n = 6)
Scopus (n = 71)
ProQuest (n = 437)
Cochrane (n = 9)
Registros triados (n = 496)
Publicações buscadas para recuperação (n = 7)
Publicações avaliadas para elegibilidade (n = 6)
Registros removidos antes da triagem:
Registros duplicados removidos (n = 27)
Registros excluídos (n = 489)
Publicações não recuperadas (n = 1)
Publicação excluídas: PICO diferente (n = 2)
Identificação de estudos por outros métodos
Registros identificados de: Busca manual (n = 1)
Publicações buscadas para recuperação (n = 1)
Publicações não recuperadas (n = 0)
Publicações avaliadas para elegibilidade (n = 1)
Publicações excluídas (n = 0)
Incluídos
Publicações do total de estudos incluídos (n = 5)
Figura 1: Diagrama de fluxo PRISMA 2020 para seleção dos estudos. Fluxo de informações ao longo das etapas da revisão sistemática sobre o uso de luz intensa pulsada (LIP) combinada com terapia a laser fracionado (FLT) no manejo de cicatrizes patológicas. Os registros foram identificados em 4 bases de dados eletrônicas (PubMed, Scopus, ProQuest e Cochrane Library) até dezembro de 2025. Após a remoção de registros duplicados (n = 27), 496 registros foram submetidos à triagem por título e resumo. Sete artigos com texto completo foram selecionados para recuperação; 1 não pôde ser recuperado. Seis artigos com texto completo foram avaliados quanto à elegibilidade, dos quais 2 foram excluídos por não atenderem aos critérios PICO. Um estudo adicional elegível foi identificado por busca manual, totalizando 5 estudos incluídos
inglesa e a um período de 15 anos. Os descritores específicos de cada base de dados, juntamente com o número de registros recuperados correspondentes, estão apresentados na Tabela 1. O processo de seleção dos estudos está ilustrado na Figura 1.
Estudos incluídos
A busca inicial identificou 523 registros. Após a remoção de registros duplicados, 496 estudos foram submetidos à triagem por título e resumo. Seis estudos foram avaliados quanto à elegibilidade em texto completo. Dois foram excluídos por ausência de dados relevantes de desfecho e população, resultando em 4 estudos provenientes da busca nas bases de dados para inclusão. Um estudo retrospectivo comparativo adicional elegível foi identificado por busca manual, totalizando 5 estudos incluídos.
IS, Kohar K, Harlim C, Legiawati L, Putri MN.
Os estudos incluídos consistiram em 3 ECRs, 1 estudo de coorte retrospectivo e 1 série de casos. Devido à heterogeneidade nos desenhos dos estudos e nas medidas de desfecho, não foi realizada meta-análise; em vez disso, foi conduzida uma síntese qualitativa. Participantes
Foi incluído um total de 288 pacientes de todos os estudos, conduzidos nos Estados Unidos, China, Coreia do Sul e Austrália. A idade dos participantes variou de 16 a 65 anos, e os períodos de seguimento variaram de 6 semanas a 12 meses. Os estudos incluíram predominantemente cicatrizes patológicas (cicatrizes hipertróficas e pós-operatórias). Um estudo avaliou feridas faciais pós-traumáticas precoces após sutura estética, com foco na prevenção de cicatrizes hipertróficas. Os fototipos de Fitzpatrick I–IV foram os mais prevalentes, e poucos estudos envolveram indivíduos com pele mais escura (III–IV). As localizações das cicatrizes foram variadas, incluindo face, pescoço, tronco, extremidades e membros. As etiologias incluíram queimaduras (chama, escaldadura, óleo quente, contato, flash burn), procedimentos cirúrgicos e trauma. Uma descrição mais detalhada das características dos participantes se encontra na Tabela 2. Desfechos: Avaliação das cicatrizes e resultado estético Os desfechos relacionados às cicatrizes foram avaliados por meio de instrumentos padronizados, como POSAS, MSS e VSS. Em todos os estudos, a terapia combinada com LIP e FLT apresentou desempenho consistentemente superior à monoterapia. No estudo de Dahm et al.,11 uma única aplicação combinada de LIP e laser de CO₂ promoveu melhoria significativa nos escores POSAS, com redução média de 1,93 no escore total
Tabela
Autor (ano) NE Intervalo do estudo
Daoud et al. (2019)12 1b Não mencionado
Kim et al. (2021)10 1b
Zhang et al. (2023)4 1b
Setembro de 2019 –junho de 2020
Agosto de 2017janeiro de 2021
País
(p < 0,0001), além de melhorias significativas em cor (–1,97), espessura (–2,10) e rigidez (–2,47), entre outros parâmetros. Daoud et al.12 observaram uma melhoria maior estatisticamente significativa (p < 0,001) na cor (–2,21) e na textura (–1,97) das cicatrizes no grupo de terapia combinada em comparação com olaser de CO₂ isolado.
Kim et al.10 relataram que a intervenção precoce com LIP e laser Er:YAG reduziu significativamente os escores POSAS na semana 8 (p = 0,001) e na semana 20 (p = 0,012), em comparação com a monoterapia com Er:YAG. Em um estudo de coorte retrospectivo, Dai et al.13 demonstraram que o tratamento preventivo precoce com LIP combinado com laser fracionado de érbio resultou em escores VSS significativamente menores para cor, espessura, vascularização, flexibilidade e escore total aos 12 meses, em comparação com a terapia convencional (p < 0,05). Por fim, Zhang et al.4 relataram resultados significativamente melhores em cor, prurido, espessura e irregularidade no grupo CO₂+LIP (p < 0,01), além de 100% de satisfação do paciente, em comparação com 84% no grupo tratado apenas com LIP. A Tabela 3 apresenta informações adicionais sobre as intervenções e os desfechos.
Desfechos: Efeitos adversos Os eventos adversos foram, em geral, leves e autolimitados. Os mais comuns foram eritema transitório, edema e desconforto, com resolução em poucos dias. Dahm et al.11 relataram 2 casos de infecção leve que necessitaram de antibioticoterapia oral, enquanto Daoud et al.12 não observaram eventos adversos. Kim et al.10 não relataram complicações, e Zhang et al.4 não encontraram
2: Características dos estudos e demografia dos participantes.
Desenho do estudo
Seguimento
Estados Unidos
Coreia do Sul
China
Dahm et al. (2023)11 4 Não mencionado Austrália
População Subject [n (M/F)]
ECR 6 meses 19
ECR 3 meses 17 (16/1)
ECR 3 meses 101 (43/58)
Idade Cicatriz Local Etiologia [n (%)] Fitzpatrick Fototipo
Intervalo: 18-60
Cicatriz hipertrófica N/D N/D I-IV
Média: Cicatrizes pósoperatórias N/A N/A III-IV
Face (30,7%)
Intervalo: 16-52
Cicatrizes hipertróficas
Estudos observacionais (série de casos) 6 semanas 31 (19/12)
Média: 40,7 (13,1) Cicatriz hipertrófica
Pescoço (11,9%) Tronco (19,8%)
Extremidades (37,6%)
Braço (47%) Perna (19%) Cabeça e pescoço (19%) Tronco (14%)
Queimaduras (57,4%)
Cirurgia (34,7%) Trauma (7,9%) II-IV
Queimaduras: Chama (58%) Escaldadura (16%) Óleo quente (13%)
Contato (3%)
Flash (10%) I-IV
Dai et al. (2025)13
Janeiro 2019 –dezembro de 2021 China
Estudo retrospectivo comparativo 12 meses 120 (48/72) Intervalo: 12-65
Cicatrizes pós-traumáticas após sutura estética de emergência
Face (100%) Trauma (100%) Não mencionado Não mencionado
Tabela 3: Intervenções, parâmetros de tratamento e desfechos clínicos dos estudos incluídos sobre cicatrizes patológicas tratadas com combinação de LIP e terapia a laser fracionado.
Autor (ano) Grupos
Daoud et al. (2019)12
Kim et al. (2021)10
Grupo 1: controle Grupo 2: CO2 isolado
Grupo 3: CO2 + LIP
Zhang et al. (2023)4
Grupo 1: Controle
Grupo 2: Er:YAG isolado
Grupo 3: Er:YAG + LIP
Intervenção
LIP: 555–950 nm filtro [VL]; pulso duplo; largura do pulso, 2,5 ms; atraso, 10 ms; densidade energética, 12,5 J/cm2
Er:YAG: modo de pulso longo, 1500 J, 15% de densidade, 4 Hz, área de 6 mm
Desfechos
O Grupo 3 apresentou a maior melhoria média em quatro das cinco categorias da MSS (P < 0,001), sendo a cor o parâmetro mais destacado.
O Grupo 3 apresentou a maior melhoria na escala POSAS.
Na semana 8, o Grupo 3 apresentou escores POSAS melhores que o Grupo 2 (p = 0,001) e o Grupo 1 (p = 0,000).
Efeito adverso
flexibilidade após o tratamento com CO2-LIP em comparação à LIP isolada (p < 0,01).
A taxa de satisfação do paciente foi significativamente maior no grupo de terapia combinada CO2-LIP em comparação ao grupo de monoterapia com LIP (p < 0,05).
Não mencionado
Não mencionado
Grupo 1: LIP
Grupo 2: CO2 + LIP
4 sessões
LIP: área de 15 × 35 mm, configurações variaram com base na cicatriz
CO2: 15–20 mJ, 10% de densidade, 200–300 Hz, área de 120 μm (Lumenis UltraPulse Encore™, Yokneam, Israel)
Não foram observados eventos adversos graves durante a aplicação de CO2 e LIP
Eritema leve pode ocorrer por aproximadamente três dias após a terapia com CO2-LIP.
CO2: 17,5–25 mJ/cm2 para uma aplicação a uma densidade de 5%
O Grupo 3 apresentou melhoria consistente nos escores VSS na semana 8 (p = 0,005) e na semana 20 (p = 0,02) em comparação com a semana 4, enquanto os demais sítios não apresentaram tal melhoria.
O Grupo 3 apresentou índice de melanina significativamente menor em comparação ao Er:YAG na semana 8 (32,46 [8,25] vs. 40,69 [6,26], p = 0,023)
O Grupo 2 apresentou escore POSAS total significativamente menor (38,58 [4,71]) em comparação ao grupo LIP (44,04 [5,07]) (p < 0,0001)
Para o PSAS, as melhorias em prurido, cor, rigidez, espessura e irregularidade foram significativamente maiores no Grupo 2 em comparação ao Grupo 1 (p < 0,01), exceto para dor (p = 0,4205).
No OSAS, foram observadas diferenças significativas em vascularização, pigmentação, espessura, relevo e Hiperpigmentação pós-inflamatória foi incomum.
1 sessão
Grupo 1: CO2
Grupo 2: LIP
Grupo 3: CO2 + LIP
LIP:VL 555 nm
CO2: área de 0,15 mm, pulso = 0,02-3 ms, energia 2-94,7 mJ, densidade fracionada = 3%-40%
3-5 sessões (uma vez ao mês)
Grupo 1: Controle
Dai et al. (2025)13
Grupo 2: LIP + laser de érbio
LIP: Luz intensa pulsada
LIP: 500 a 600 nm, largura de pulso de 12 a 15 ms, diâmetro de área de 3 cm2 e energia de 8,5 a 12 J/cm2
Érbio: comprimento de onda de 2940 nm, parâmetros de energia de 800 a 1200 mJ/cm², com varredura repetida de 2 a 4 vezes
Diferença estatisticamente significativa no escore POSAS médio foi observada tanto no grupo de monoterapia com CO2 (2,45; p = 0,0007) quanto no grupo de combinação LIP + CO2 (1,84; p < 0,001), enquanto a diferença entre os escores médios no grupo de monoterapia com LIP não foi significativa (0,56; p = 0,3485).
O grupo 2 apresentou escores VSS significativamente menores para cor, espessura, vascularização, flexibilidade e escore total em comparação ao controle aos 12 meses (P < 0,05).
Infecção (2%)
Foram observados 2 casos de bolhas em pele (3,3%) e 1 caso de pigmentação (1,6%) no Grupo 2.
Não foram relatados casos imediatos de lesões cutâneas, despigmentação, infecções, úlceras ou outras reações adversas.
IS, Kohar K, Harlim C, Legiawati L, Putri MN.
diferença significativa nas taxas de eventos adversos entre os grupos de terapia combinada e monoterapia. Dai et al.13 relataram 3 complicações no grupo combinado: 2 casos de bolhas transitórias e 1 caso de pigmentação temporária, todos resolvidos sem sequelas de longo prazo. De modo geral, a terapia combinada foi bem tolerada e apresentou um perfil de segurança favorável.
Risco de viés
A qualidade dos estudos foi avaliada por meio de instrumentos de avaliação crítica apropriados a cada desenho. Três ECRs foram avaliados utilizando o instrumento Cochrane RoB 2.Todos os ECRs (Daoud et al.,12 Kim et al.10 e Zhang et al.4) apresentaram baixo risco de viés na maioria dos domínios, especialmente nos processos de randomização, condução da intervenção e medição dos desfechos. Entretanto, todos os estudos levantaram preocupações quanto ao relato seletivo, devido à ausência de planos de análise pré-especificados ou de registro dos ensaios, o que pode introduzir viés de reporte (Tabela 4). Ainda assim, as avaliações dos desfechos foram, em sua maioria, cegadas e utilizaram escalas validadas de avaliação de cicatrizes, o que sustenta a confiabilidade dos achados.
A série de casos de Dahm et al.11 foi avaliada utilizando a checklist do JBI e atendeu à maioria dos critérios, incluindo critérios de inclusão claros, medidas de desfecho padronizadas, identificação da condição válida e análise estatística apropriada. No entanto, não ficou claro se os participantes foram ou não incluídos de forma consecutiva, o que pode introduzir viés de seleção (Tabela 5).
O estudo de coorte retrospectivo de Dai et al.13 foi avaliado utilizando a Critical Appraisal Checklist for Cohort Studies do JBI. O risco de viés do estudo foi considerado moderado, principalmente devido à alocação não randomizada, ao relato limitado de fatores de confusão em potencial e à ausência de ajuste multivariado. Por outro lado, a avaliação dos desfechos utilizou escalas padronizadas de cicatrizes, com um período de seguimento adequado de 12 meses (Tabela 6). De modo geral, os estudos incluídos apresentaram qualidade de moderada a alta, sustentando a validade dos achados sintetizados.
DISCUSSÃO
A cicatrização de feridas é um processo biológico dinâmico que progride por fases sobrepostas: inflamação, proliferação e remodelação. A cicatrização eficaz envolve sinalização pró- e anti-inflamatória rigorosamente regulada, proliferação de fibroblastos e remodelação da matriz extracelular (MEC). A desregulação em qualquer fase, mas de forma mais crítica na fase de remodelação, pode levar à cicatrização patológica, caracterizada por deposição anormal de colágeno e atividade persistente de fibroblastos.14,15
Cicatrizes hipertróficas e queloides são cicatrizes patológicas caracterizadas por crescimento excessivo de tecido fibrótico, embora apresentem diferenças quanto à extensão e às características histológicas. As cicatrizes hipertróficas permanecem confinadas ao local da lesão inicial e podem regredir espontaneamente, enquanto os queloides se estendem além dos limites da ferida e tendem a ser permanentes e sintomáticos.
Tabela 4: Avaliação de risco de viés de ensaios clínicos randomizados usando o instrumento Cochrane RoB 2.
Autor (ano) Processo de randomização
Desvios das intervenções pretendidas
Classificação de intervenções
Dados ausentes Medida dos desfechos Relato seletivo
Daoud et al. (2019)12 Baixo risco Baixo risco Baixo risco Baixo risco Baixo risco Algumas preocupações
Kim et al. (2021)10 Baixo risco
Zhang et al. (2023)4
Baixo risco
Baixo risco
Baixo risco
Baixo risco
Baixo risco
Baixo risco Baixo risco Algumas preocupações
Baixo risco
Baixo risco Algumas preocupações
Tabela 5: Avaliação crítica do estudo de série de casos com base na checklist do JBI.
Pergunta
Houve critérios claros para inclusão na série de casos?
A condição foi medida de forma padronizada e confiável para todos os participantes incluídos na série de casos?
Métodos válidos foram usados na identificação da condição para todos os participantes incluídos na série de casos?
A série de casos teve inclusão consecutiva de participantes?
Dahm et al. (2023)11
Sim
Sim
Sim
Incerto
A série de casos teve inclusão completa de participantes? Sim
A demografia dos participantes do estudo foi relatada claramente?
As informações clínicas dos participantes foram relatadas claramente?
Os desfechos ou resultados de seguimento dos casos foram relatados claramente?
As informações relativas a sítio de apresentação e demografia clínica foram relatadas claramente?
A análise estatística foi apropriada?
Sim
Sim
Sim
Sim
Sim
Pergunta
Os dois grupos eram semelhantes e recrutados da mesma população?
As exposições foram medidas de forma semelhante para classificar os participantes nos grupos exposto e não exposto?
A exposição foi medida de forma válida e confiável?
Fatores de confusão foram identificados?
Foram aplicadas estratégias para lidar com os fatores de confusão estabelecidos?
Os participantes estavam livres do desfecho no início do estudo (ou no momento da exposição)?
Os desfechos foram avaliados de forma válida e confiável?
O tempo de seguimento foi relatado e foi suficiente para a ocorrência dos desfechos?
Houve seguimento completo dos participantes e se não, as razões para perdas de seguimento foram descritas e analisadas?
Foram utilizadas estratégias para lidar com seguimento incompleto?
Foi utilizada análise estatística apropriada?
Globalmente, estima-se que mais de 100 milhões de novas cicatrizes sejam formadas anualmente, sendo aproximadamente 11 milhões delas queloides. Sua etiologia é multifatorial, incluindo inflamação crônica, desregulação da sinalização do fator de crescimento transformador beta (TGF-β), tensão mecânica, hipóxia e predisposição genética.14–16
As estratégias de manejo atuais incluem excisão cirúrgica, injeções intralesionais de corticoides, terapia com silicone, malhas compressivas, crioterapia e terapia a laser. Entretanto, os tratamentos tradicionais muitas vezes resultam em respostas incompletas e apresentam altas taxas de recorrência, particularmente nos queloides, nos quais a recorrência pós-excisão pode chegar a 70%. Essas limitações têm impulsionado a investigação de terapias combinadas que atuem em múltiplas vias envolvidas na formação de cicatrizes.14,17,18 Uma abordagem promissora é o uso da LIP em combinação com a FLT. A LIP atua sobre componentes vasculares e pigmentares por meio da fototermólise seletiva, enquanto a FLT promove remodelação dérmica e estimula a neocolagênese por meio de microlesões térmicas. Esse mecanismo sinérgico está alinhado à natureza multifatorial da formação de cicatrizes patológicas, oferecendo uma abordagem terapêutica mais abrangente, minimamente invasiva e bem tolerada.4,9,19
A LIP é uma tecnologia não laser que emite luz policromática de alta intensidade em uma ampla faixa de comprimentos de onda (normalmente 500–1200 nm). Seu mecanismo de ação se baseia na fototermólise seletiva, na qual determinados cromóforos no organismo, principalmente hemoglobina e melanina, absorvem comprimentos de onda específicos, gerando dano térmico controlado. Nas cicatrizes, a LIP atua seletivamente sobre a hemoglobina para induzir coagulação na neovasculatura, reduzindo a vascularização e o eritema em cicatrizes hipertróficas. Ademais, os efeitos térmicos podem limitar a disponibilidade de oxigênio para fibroblastos hiperproliferativos, reduzindo indiretamente a síntese de colágeno e promovendo a remodelação.9,12
Além dos efeitos vasculares, a LIP influencia as discromias ao atuar sobre a melanina, o que reduz a hiperpigmentação ob-
Dai et al. (2025)13
Incerto
Sim
Sim
Incerto
Não
Sim
Sim
Sim
Incerto
Incerto
Sim
servada com frequência em cicatrizes hipertróficas. A LIP também pode induzir discretamente a remodelação dérmica por meio de dano térmico de baixa intensidade, promovendo a expressão de metaloproteinases da matriz (MMPs) e inibindo o TGF-β1, uma importante citocina profibrótica. Clinicamente, a LIP tem demonstrado reduzir a espessura, o eritema e a rigidez das cicatrizes, com baixo tempo de recuperação e bom perfil de segurança.4,9,12
A FLT, particularmente os lasers fracionados ablativos de CO₂, transmite energia em padrão pixelado, criando zonas microtérmicas (MTZs) que penetram a epiderme e a derme. Essa lesão controlada estimula uma resposta de cicatrização exacerbada que inclui a suprarregulação de MMPs (por exemplo, MMP1 e MMP-9), dissolução de colágeno desorganizado e deposição de colágeno novo e organizado.20,21
A abordagem fracionada permite a reepitelização rápida, preservando o tecido adjacente não tratado e proporcionando melhor equilíbrio entre segurança e eficácia. Do ponto de vista histológico, a FLT reduz a fibrose dérmica; normaliza a arquitetura distorcida da cicatriz hipertrófica, promovendo o seu achatamento; e melhora flexibilidade, vascularização e pigmentação por meio da remodelação da MEC e da modulação do fenótipo dos fibroblastos. A FLT também pode modular citocinas inflamatórias e suprimir a sinalização do TGF-β1, limitando a superprodução de colágeno na patogênese das cicatrizes. Clinicamente, diversos estudos e meta-análises confirmam melhorias importantes nos escores VSS e POSAS pós-FLT, especialmente nos parâmetros de espessura, flexibilidade e pigmentação.19–21 A LIP e a FLT são eficazes como monoterapias, mas sua combinação oferece benefícios sinérgicos ao abordar diferentes aspectos fisiopatológicos da formação de cicatrizes. A LIP atua principalmente sobre a vascularização e a pigmentação, contribuindo para a modulação precoce da resposta inflamatória e para a redução do eritema e da hiperpigmentação. Enquanto isso, a FLT promove a remodelação dérmica profunda, atuando sobre a espessura da cicatriz, a desorganização do colágeno e as irregularidades texturais.4,10,12,19
Tabela 6: Avaliação crítica do estudo de coorte retrospectivo com base na checklist do JBI.
IS, Kohar K, Harlim C, Legiawati L, Putri MN.
O uso complementar de LIP e FLT tem demonstrado maior eficácia no manejo de cicatrizes ao atuar sobre múltiplas características patológicas. No estudo de Dahm et al., a terapia combinada com CO₂ e LIP melhorou significativamente os parâmetros da cicatriz, incluindo dor, prurido, cor, rigidez e espessura, com melhoria relevante em todos os domínios do POSAS após uma única sessão. É importante destacar que o tratamento foi bem tolerado, sem eventos adversos graves relatados e apenas 2 casos de infecções leves e autolimitadas.11 De forma semelhante, Daoud et al. observaram que a combinação de LIP com laser fracionado de CO₂ resultou em melhoria superior na textura e cor da cicatriz em comparação com o laser de CO₂ isolado, sem relato de eventos adversos durante o estudo, reforçando a segurança da modalidade combinada.12 Em um ensaio com divisão da ferida (split wound), Kim et al. demonstraram que o tratamento precoce combinado com LIP e laser Er:YAG proporcionou prevenção significativamente melhor de cicatrizes em comparação ao Er:YAG isolado ou ao controle e foi bem tolerado ao longo do seguimento, sem eventos adversos graves.10 Zhang et al. relataram que a combinação de laser fracionado de CO₂ com LIP de banda estreita promoveu melhoria significativa do prurido, cor, rigidez e irregularidade em comparação à LIP isolada, com 100% de satisfação do paciente no grupo combinado e sem relatos de complicações graves, indicando um perfil de segurança favorável.4 De forma consistente com esses ensaios de intervenção, Dai et al. demonstraram que o tratamento preventivo precoce com LIP combinada com laser fracionado de érbio resultou em escores VSS significativamente menores para cor, espessura, vascularização, flexibilidade e escore total aos 12 meses, em comparação à terapia convencional isolada, sugerindo que os benefícios da terapia combinada se estendem além de cicatrizes estabelecidas para a prevenção da formação de cicatrizes hipertróficas.13 Coletivamente, esses achados sugerem que a combinação de LIP e lasers fracionados oferece benefícios sinérgicos na melhoria das cicatrizes, ao mesmo tempo em que mantém um perfil de segurança aceitável, configurando uma estratégia terapêutica segura e abrangente para o manejo de cicatrizes patológicas. Essa abordagem multimodal está alinhada com conceitos atuais de algoritmos para manejo de cicatrizes, nos quais tratamentos direcionados a componentes vasculares, como a LIP, são iniciados precocemente, seguidos pela remodelação estrutural com FLT. Essas estratégias integradas permitem planos terapêuticos individualizados e abrangentes, com desfechos estéticos e funcionais superiores.
Pontos fortes e limitações
Esta revisão sistemática apresenta diversos pontos fortes. Em primeiro lugar, ela foi conduzida de acordo com as diretrizes PRISMA e previamente registrada na base PROSPERO, o que reforça o rigor metodológico e a transparência do relato. Os estudos incluídos abrangem múltiplos países e diversos tipos de cicatrizes patológicas, como cicatrizes pós-operatórias e hipertróficas, aumentando a generalização dos resultados. Diversos
estudos utilizaram instrumentos padronizados de avaliação dos desfechos, como POSAS, MSS e VSS, permitindo a mensuração da eficácia terapêutica de forma consistente e objetiva. A terapia combinada com LIP e FLT demonstrou redução estatisticamente significativa da proeminência das cicatrizes em todos os estudos em relação à cor, espessura e rigidez, ao mesmo tempo que manteve um perfil de segurança favorável. Eventos adversos leves e autolimitados, como eritema transitório e leve ardor, foram relatados, assim como altos níveis de satisfação do paciente. Além disso, a inclusão de uma coorte preventiva precoce para avaliar a combinação de LIP e laser fracionado em contexto pós-traumático sugere que os benefícios dessa abordagem podem se estender além do tratamento de cicatrizes patológicas estabelecidas, alcançando também a prevenção da formação de cicatrizes hipertróficas, o que amplia sua aplicabilidade clínica ao longo de todo o espectro das cicatrizes.
Apesar desses pontos fortes, algumas limitações devem ser consideradas. Apenas 5 estudos foram incluídos, totalizando 288 pacientes, a maioria com tamanhos amostrais reduzidos e períodos de seguimento curtos (≤6 meses na maioria dos estudos, com apenas um apresentando dados de 12 meses), o que limita a avaliação de desfechos em longo prazo. Observou-se também heterogeneidade nos parâmetros de tratamento, incluindo níveis de energia, número de sessões e tipos de dispositivos, o que limita a reprodutibilidade e a comparabilidade entre os estudos. Foram incluídos 3 ensaios clínicos randomizados, porém nenhum apresentou protocolo previamente registrado ou implementou cegamento plenamente, o que pode constituir uma fonte de viés. Além disso, faltam comparações diretas entre a terapia combinada LIP–FLT e terapias não laser padrão, como corticoides intralesionais, malhas compressivas e placas de silicone. Por fim, nenhum dos estudos incluídos avaliou sistematicamente a relação custo-benefício, a utilização de recursos ou a integração ao fluxo de trabalho, aspectos críticos para a ampla adoção da terapia combinada LIP–FLT. Estudos futuros devem incorporar avaliações econômicas, incluir pacientes com maior diversidade de fototipos e utilizar protocolos terapêuticos e medidas de desfecho padronizados para fortalecer a base de evidências.
CONCLUSÕES
A combinação de LIP e FLT representa uma abordagem promissora no manejo de cicatrizes. Ao atuar simultaneamente sobre componentes vasculares e estruturais, essa terapia de dupla modalidade proporciona benefícios em termos de textura, cor e espessura da cicatriz e de satisfação do paciente. As evidências disponíveis sugerem que a terapia combinada apresenta perfil de segurança favorável, com eventos adversos mínimos. Com base nesses achados, a combinação de LIP com FLT pode representar uma opção terapêutica segura, eficaz e minimamente invasiva para o manejo de cicatrizes patológicas. Estudos adicionais, de maior escala e de longo prazo, são necessários para padronizar protocolos de tratamento e confirmar a eficácia clínica. l
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CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Indira Saraswati Sanjaya 0009-0000-6616-1657
Análise estatística, Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Kelvin Kohar 0000-0002-4789-0747
Análise estatística, Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica do manuscrito.
Chastine Harlim 0009-0007-1979-249X
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica do manuscrito.
Lili Legiawati 0000-0002-5793-2525
Aprovação da versão final do manuscrito. Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica do manuscrito.
Nandita Melati Putri 0000-0003-0839-7877
Aprovação da versão final do manuscrito. Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica do manuscrito.
www.surgicalcosmetic.org.br/
Um comentário sobre: Lifting transfolicular subcutâneo do terço superior da face
A Comment on: Transfollicular subcutaneous forehead and brow lift
Carta ao Editor
Autores:
Ana Paula de Araújo Raimundo1
Hudson Dutra Rezende1
Sandra Lopes Mattos Dinato1
1 Centro Universitário Lusíada (UNILUS), Departamento de Dermatologia, Santos (SP), Brasil
Esta correspondência comenta o recente artigo que descreve a técnica de lifting transfolicular subcutâneo do terço superior da face. A alopecia é uma complicação potencial desses procedimentos, variando desde eflúvio telógeno reversível até formas cicatriciais permanentes. Embora rara, a perda de cabelo pode impactar significativamente a satisfação dos pacientes. Mesmo técnicas minimamente invasivas apresentam algum risco. A abordagem transfolicular oferece rejuvenescimento facial com abaixamento da linha capilar, melhora das rítides e camuflagem eficaz da cicatriz por meio da preservação dos folículos anteriores. Enfatizamos a importância do aconselhamento pré-operatório transparente e buscamos enriquecer a discussão iniciada pelo artigo original.
Ana Paula de Araújo Raimundo E-mail: anapaulaaraujo11@ hotmail.com
Fonte de financiamento: Nenhuma Conflito de interesse: Nenhum É ensaio clínico? Não
Data de submissão: 24/09/2025 Decisão final: 10/15/2025
ABSTRACT
This correspondence comments on the recent article describing the transfollicular subcutaneous forehead and brow lift technique. Alopecia is a potential complication of such procedures, ranging from reversible telogen effluvium to permanent scarring forms. Although rare, hair loss can significantly affect patient satisfaction. Even minimally invasive techniques carry some risk. The transfollicular approach offers facial rejuvenation with hairline lowering, improvement of rhytids, and effective scar camouflage through preservation of anterior hair follicles.We emphasize the importance of transparent preoperative counseling and aim to enrich the discussion initiated by the original article.
Como citar este artigo: Como citar este artigo: Raimundo APA, Rezende HD, Dinato SLM, Bilia BM. Um comentário sobre: lifting transfolicular subcutâneo do terço superior da face. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260516.
Um comentário sobre: Lifting transfolicular subcutâneo do terço superior da face
Resumo
Esta correspondência comenta o recente artigo que descreve a técnica de lifting transfolicular subcutâneo do terço superior da face. A alopecia é uma complicação potencial desses procedimentos, variando desde eflúvio telógeno reversível até formas cicatriciais permanentes. Embora rara, a perda de cabelo pode impactar significativamente a satisfação dos pacientes. Mesmo técnicas minimamente invasivas apresentam algum risco. A abordagem transfolicular oferece rejuvenescimento facial com abaixamento da linha capilar, melhora das rítides e camuflagem eficaz da cicatriz por meio da preservação dos folículos anteriores. Enfatizamos a importância do aconselhamento pré-operatório transparente e buscamos enriquecer a discussão iniciada pelo artigo original.
Prezado Editor,
Gostaríamos de parabenizar Gouveia et al. por sua descrição elegante e bem ilustrada do lifting transfolicular subcutâneo da testa e sobrancelhas, técnica que combina rejuvenescimento estético do terço superior da face com dissecção segura e excelente camuflagem da cicatriz no couro cabeludo.1 Ao possibilitar orebaixamento da linha capilar, a melhoria das rítides frontais e glabelares e o reposicionamento harmônico das sobrancelhas, esse método representa uma alternativa prática e inovadora às abordagens endoscópicas, particularmente em pacientes com maior densidade capilar na região frontotemporal. A ênfase na relação custo-efetividade e na reprodutibilidade técnica constitui outra contribuição valiosa, o que torna o procedimento acessível em diferentes contextos clínicos.
No entanto, acreditamos ser importante ampliar a discussão sobre alopecia pós-operatória em pacientes submetidos a procedimentos de lifting do terço superior da face. Embora geralmente uma complicação infrequente, o espectro clínico da alopecia após lifting cirúrgico é mais amplo do que se costuma reconhecer, variando desde formas transitórias e autolimitadas até alopecias permanentes e cicatriciais.
Em 2015, Kim et al. relataram um caso de eflúvio telógeno localizado pós-ritidectomia, com início dois meses após o procedimento e rarefação capilar simétrica ao longo das linhas de incisão. A biópsia revelou densidade folicular normal, porém com aumento da proporção de folículos telógenos, sem inflama-
ção peribulbar ou cicatrização.2 A paciente apresentou recrescimento capilar espontâneo completo em quatro meses, sem necessidade de tratamento. Essa apresentação benigna e reversível contrasta com os desfechos mais graves descritos por Pham et al em 2022, que demonstraram associação significativa entre procedimentos cirúrgicos faciais (incluindo ritidectomia, blefaroplastia e lifting de sobrancelhas) e alopecia fibrosante frontal.3 Nessa coorte, quase metade dos pacientes com alopecia frontal relatou cirurgia facial prévia, em comparação com menos de 10% dos controles, com razão de chances de 7,8. A latência média entre a cirurgia e o início da alopecia foi de nove anos, embora tenham sido relatados casos já a partir de três meses após o procedimento. O padrão clínico e a histologia, quando disponíveis, foram compatíveis com alopecia cicatricial linfocítica do espectro do líquen plano pilar.
Além disso, Cho et al. realizaram uma revisão sistemática envolvendo mais de 7.000 pacientes e identificaram a alopecia como uma das complicações mais frequentes das técnicas de lifting de sobrancelhas, com prevalências de 2,8% no método endoscópico, 2,2% na abordagem coronal e 0,8% nos liftings temporal e lateral.4 Embora geralmente localizada, a alopecia nesse contexto ainda pode representar um resultado cosmético negativo relevante, especialmente em casos de cicatrização ou perda capilar permanente.
A técnica apresentada por Gouveia et al. destaca-se pelo planejamento cuidadoso da incisão. Ao incliná-la de modo a seccionar os folículos em diferentes alturas, parte dos folículos pilosos é preservada, permitindo que os fios anteriores cresçam à frente da cicatriz e proporcionem camuflagem eficaz. Além de melhorar o resultado estético, esse refinamento também minimiza o risco de alopecia visível no local da incisão.
Em conjunto, esses relatos enfatizam a heterogeneidade das apresentações de alopecia após procedimentos cirúrgicos de lifting e ressaltam a necessidade de vigilância quanto a possíveis novas manifestações. Dado o impacto psicossocial da perda de cabelo, essa possibilidade deve ser discutida em detalhes com os pacientes durante o aconselhamento pré-operatório. Embora o risco seja baixo, a transparência quanto à possibilidade de alopecia transitória ou permanente garante melhor conscientização dos pacientes e pode melhorar a satisfação ao alinhar as expectativas com os possíveis desfechos.
Mais uma vez, parabenizamos os autores por sua valiosa contribuição e esperamos que essa perspectiva adicional enriqueça ainda mais o debate sobre complicações na cirurgia de lifting de sobrancelhas. l
REFERÊNCIAS:
1. Gouveia AK, Loda G, Benez M, Loda AB. Transfollicular subcutaneous forehead and brow lift. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250372.
2. Kim JH, Lew BL, Sim WY. Localized telogen effluvium after face lift surgery. Ann Dermatol. 2015;27(1):119–20.
3. Pham CT, Juhasz M, Ekelem C. The association of frontal alopecia with a history of facial and scalp surgical procedures. Skin Appendage Disord. 2022;8:13–19.
4. Cho MJ, Carboy JA, Rohrich RJ. Complications in brow lifts: a systematic review of surgical and nonsurgical brow rejuvenations. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2018;6:e1943.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Ana Paula de Araújo Raimundo 0000-0003-0883-0474
Análise estatística, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados.
Hudson Dutra Rezende 0000-0002-7039-790X
Análise estatística, Concepção e planejamento do estudo, Participação efetiva na orientação da pesquisa.
Sandra Lopes Mattos Dinato 0000-0002-4547-0474
Análise estatística, Aprovação da versão final do manuscrito, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
Bruna Marques Bilia 0009-0003-9550-5406
Análise estatísticas, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
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O papel da ultrassonografia de alta
frequência
na
avaliação de um nódulo subcutâneo acral: relato de caso e revisão da literatura
The role of high-frequency ultrasound in the evaluation of an acral subcutaneous nodule: a case report and literature review
Os nódulos subcutâneos acrais representam um desafio diagnóstico devido ao amplo diagnóstico diferencial. Relatamos um caso de granuloma por corpo estranho que se apresentou como um nódulo subcutâneo acral de longa duração no polegar de uma mulher de 64 anos. A ultrassonografia de alta frequência revelou um nódulo hipoecoico homogêneo com reforço acústico posterior, envolvendo uma estrutura linear hiperecogênica central, sugerindo reação a corpo estranho. A biopsia excisional confirmou um processo inflamatório granulomatoso ao redor de uma fibra vegetal. Este caso destaca o valor da ultrassonografia de alta frequência como ferramenta não invasiva para auxiliar no diagnóstico etiológico e orientar o planejamento cirúrgico em nódulos subcutâneos acrais crônicos.
Palavras-chave: Ultrassonografia; Granuloma de Corpo Estranho; Cisto Epidérmico
1 UNESP, Infectious Diseases, Dermatology, Imaging Diagnosis and Radiotherapy, Botucatu (SP), Brasil
ABSTRACT
Acral subcutaneous nodules pose a diagnostic challenge due to their broad differential diagnoses. We report a case of a foreign body granuloma presenting as a long-standing acral subcutaneous nodule on the thumb of a 64-year-old woman. High-frequency ultrasound revealed a homogeneous hypoechoic nodule with posterior acoustic enhancement, surrounding a central linear hyperechoic structure suggestive of a foreign body reaction. Excisional biopsy confirmed a granulomatous inflammatory process surrounding a vegetal fiber. This case highlights the value of high-frequency ultrasound as a noninvasive tool to support etiological diagnosis and guide surgical planning in chronic acral subcutaneous nodules.
Correspondência: Anna Carolina Miola E-mail: anna.c.miola@unesp.br
Fonte de financiamento: Não Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 09/01/2026 Decisão final: 12/02/2026
Como citar este artigo: Carlos EBP, Gorgatti Filho PR, Giorgenon R, Miot HA, Miola AC. O papel da ultrassonografia de alta frequência na avaliação de um nódulo subcutâneo acral: relato de caso e revisão da literatura. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260545.
Carlos EBP, Gorgatti Filho PR, Giorgenon R, Miot HA, Miola AC.
Nódulos subcutâneos acrais (NSAs) representam um desafio diagnóstico, dada a ampla variedade de condições que podem se manifestar com esse aspecto clínico. Nesse contexto, técnicas de imagem complementares, como a ultrassonografia de alta frequência (USAF), podem auxiliar no estabelecimento do diagnóstico etiológico,1 uma vez que os NSAs, embora comuns na prática dermatológica, podem representar condições inflamatórias, infecciosas ou neoplásicas que demandam estratégias de manejo distintas.
Relatamos um caso de granuloma por corpo estranho (GCE) manifestando-se como um NSA no polegar e discutimos os achados clínicos e de USAF que contribuíram para a elucidação do diagnóstico etiológico.
Uma mulher branca de 64 anos de idade apresentou-se com um nódulo indolor, de crescimento lento, que aumentou progressivamente de tamanho ao longo de 15 anos. Ao exame físico, observou-se uma lesão nodular medindo 1,5 × 1,0 cm, localizada na face lateral da falange proximal do polegar, a qual apresentava consistência fibroelástica, era móvel e indolor à palpação
1: Nódulo subcutâneo na face lateral do polegar direito, tornando-se mais evidente com a flexão da falange distal
2: Nódulo hipoecoico homogêneo com reforço acústico posterior, envolvendo uma estrutura linear hiperecogênica central (asterisco amarelo)
(Figura 1). Os diagnósticos diferenciais clínicos iniciais incluíram tumor de células gigantes da bainha tendinosa, cisto de inclusão epidérmica, lipoma, GCE e sarcoma fibromixoide de baixo grau. Foi realizada USAF com transdutor de 22 MHz (LogicE GE®, GE Electronics®, Boston, MA, EUA), que evidenciou um nódulo hipoecoico homogêneo com reforço acústico posterior, envolvendo uma estrutura linear hiperecogênica central (Figura 2). Não foi detectado fluxo vascular central ao Doppler. Esses achados foram sugestivos de um GCE.
Posteriormente, realizou-se biópsia excisional. O exame histopatológico revelou tecido de granulação composto por agregados de histiócitos epitelioides circundados por um halo linfocitário, com área supurativa central e ausência de atipias celulares. Identificou-se um corpo estranho central compatível com fibra vegetal (Figura 3), confirmando o diagnóstico de GCE. Após questionamento adicional, a paciente recordou uma lesão prévia envolvendo “cerdas de vassoura”.
BAFigure 3: A - Infiltrado granulomatoso misto, rico em histiócitos e linfócitos, com estrutura central acelular não humana (H&E, 400×); B - presença de estrutura acelular não humana, com paredes celulares visíveis, compatível com material de origem vegetal, formando um granuloma por corpo estranho (H&E, 1000×)
Figura
Figura
Surg Cosmet Dermatol. 2026;18:e20260545.
TABELA 1: Diagnósticos diferenciais de nódulos subcutâneos digitais crônicos e seus achados clínicos, ultrassonográficos e histopatológicos
Lesão nodular isoecoica com reforço acústico posterior, envolvendo uma estrutura linear hiperecogênica central.
Lesão isoecoica, geralmente homogênea.
Lesão geralmente heterogênea, com aumento da vascularização ao Doppler.
Lesão geralmente hiperecogênica, hipoecoica ou homogênea, com aumento da vascularização ao Doppler.
Lesão hipoecoica ou anecoica bem delimitada, podendo apresentar conteúdo lamelar ecogênico (queratina).
Lesão anecoica, bem delimitada, com finos ecos internos, adjacente a articulações ou bainhas tendinosas.
Lesão hipoecoica com vasos internos visíveis ao Doppler; pode conter áreas anecoicas.
Massa sólida hipoecoica contínua com um nervo, de limites pouco definidos.
Granuloma anular profundo Nódulo dermo-hipodérmico hipoecoico, bem delimitado.
Histiócitos epitelioides circundados por halo linfocitário e área supurativa central.
Adipócitos sem atipias, com tamanho aumentado, ocasionalmente com necrose focal.
Células gigantes multinucleadas, arquitetura vilonodular, estroma colagenizado e infiltrado inflamatório.
Áreas alternadas mixoides e fibrosas, celularidade baixa a moderada, pleomorfismo discreto e ausência de figuras mitóticas ou necrose.
Cisto revestido por epitélio escamoso estratificado contendo queratina lamelar.
Parede fibrosa sem revestimento epitelial, contendo material mucinoso.
Proliferação de canais vasculares (tipos capilar, cavernoso ou misto).
Proliferação desorganizada de axônios, células de Schwann e tecido fibroso.
Degeneração central do colágeno com histiócitos em paliçada.
TCGBT: tumor de células gigantes da bainha tendinosa; SFMBG: sarcoma fibromixoide de baixo grau.
A reação granulomatosa por corpo estranho é definida como uma resposta inflamatória crônica a materiais exógenos introduzidos na pele, como areia, fibras vegetais, vidro ou substâncias injetáveis (por exemplo, polimetilmetacrilato [PMMA]).2
Nódulo endurecido, eritematoso ou hiperpigmentado, com dor variável, geralmente localizado em áreas de trauma ou inoculação prévia.
Massa subcutânea macia, móvel, indolor, de crescimento lento.
Nódulo firme, indolor, de crescimento lento, adjacente a tendões, mais comum nas mãos.
Massa profunda, de crescimento insidioso, geralmente indolor, localizada nas extremidades proximais.
Nódulo subcutâneo firme, móvel, indolor, às vezes com um ponto central (poro).
Massa arredondada, flutuante, geralmente indolor, podendo tornar-se dolorosa por compressão local.
Lesão azulada ou arroxeada, compressível, com aumento de volume durante a manobra de Valsalva.
Nódulo doloroso ao longo do trajeto do nervo após trauma ou cirurgia, com parestesia à palpação.
Nódulo firme, indolor, assintomático, geralmente localizado nas extremidades (principalmente no dorso das mãos ou dos pés).
No presente caso, a USAF sugeriu o diagnóstico de GCE por meio da visualização de uma estrutura central hiperecogênica correspondente ao material estranho retido.
O uso da USAF tem se expandido em todas as áreas da
Carlos EBP, Gorgatti Filho PR, Giorgenon R, Miot HA, Miola AC.
dermatologia. Devido à sua alta resolução espacial (0,1–0,2 mm), a USAF permite a avaliação de pequenas estruturas, aumentando a acurácia diagnóstica e facilitando a análise da atividade de diversas dermatoses inflamatórias, infecciosas, neoplásicas e degenerativas.1
Um estudo prévio comparou os achados ultrassonográficos de pacientes com GCE secundário a preenchedores injetáveis (por exemplo, PMMA) com aqueles de pacientes com depósitos de ácido hialurônico.3 No GCE, as lesões são caracteristicamente ovais, com margens irregulares e mal definidas, contendo focos hiperecogênicos que representam o material acumulado, circundado por inflamação granulomatosa — características compatíveis com as observadas no presente caso.4
A USAF também pode auxiliar na diferenciação de NSAs de diversas etiologias. Lesões com áreas centrais heterogêneas e aumento do fluxo ao Doppler podem sugerir etiologia neoplásica, enquanto lesões inflamatórias ou tumores benignos tendem
a ser mais homogêneos e avasculares à USAF. Lesões císticas, por sua vez, geralmente apresentam reforço acústico posterior.5 A Tabela 1 resume os principais achados ultrassonográficos e histopatológicos dos diagnósticos diferenciais de NSAs crônicos. Em pacientes com NSAs crônicos, a obtenção de uma história clínica precisa pode ser um desafio, devido ao intervalo frequentemente prolongado entre a exposição e o desenvolvimento da lesão, o que dificulta a caracterização clínica e o diagnóstico. Nesse cenário, a USAF — método não invasivo, indolor, rápido e cada vez mais disponível na prática dermatológica — surge como uma importante ferramenta no manejo dos NSAs. Em conclusão, relatamos um caso de NSA cuja etiologia foi GCE, a qual pôde ser antecipada pelos achados de USAF. Dermatologistas devem considerar a USAF como parte da investigação diagnóstica dos NSAs, contribuindo assim para o planejamento cirúrgico. l
REFERÊNCIAS:
1. Argalia G, Reginelli A, Molinelli E, Russo A, Michelucci A, Sechi A, et al. High- Frequency and Ultra-High-Frequency Ultrasound in Dermatologic Diseases and Aesthetic Medicine. Medicina (Kaunas) 2025;61(2):220.
2. Molina-Ruiz AM, Requena L. Foreign body granulomas. Dermatol Clin 2015;33:497-523.
3. Mlosek RK, Skrzypek E, Skrzypek DM, Malinowska S. High-frequency ultrasound-based differentiation between nodular dermal filler deposits and foreign body granulomas. Skin Res Technol 2018;24(3):417-22.
4. Valentim F de O, Miola AC, Miot HA. Low-grade fibromyxoid sarcoma: important differential diagnosis in acral tumor lesions. Surg Cosmet Dermatol 2022;14.
5. Kuwano Y, Ishizaki K, Watanabe R, Nanko H. Efficacy of diagnostic ultrasonography of lipomas, epidermal cysts, and ganglions. Arch Dermatol 2009;145(7):761-4.
CONTRIBUIÇÃO
DOS AUTORES:
Elisandra Barbara Pontes Carlos 0009-0001-4150-2598
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura.
Paulo Roberto Gorgatti Filho 0000-0003-4127-7172
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura.
Ruan Giorgenon 0000-0001-7131-3280
Author’s contribution: Approval of the final version of the manuscript, Preparation and writing of the manuscript, Acquisition, analysis and interpretation of data, Critical review of the literature.
Hélio Amante Miot 0000-0002-2596-9294
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica do manuscrito.
Anna Carolina Miola
0000-0001-8926-734X
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
www.surgicalcosmetic.org.br/
Reconstrução labial com retalhos superficiais: integrando funcionalidade e estética
Lip reconstruction using superficial flaps: functional and aesthetic integration
Relato de Caso
Autores:
Verônica Hamann Aita 1
Claudia Prócel 1
Nicoly de Souza Jacques1 Fernando Eibs Cafrune 1
1 Hospital Santa Casa de Porto Alegre, Serviço de Dermatologia, Porto Alegre (RS), Brasil
A cirurgia micrográfica de Mohs é a técnica mais adequada para o tratamento dos cânceres de pele na região dos lábios. A reconstrução dos defeitos cirúrgicos nessa área é bastante complexa, sendo necessário preservar as estruturas anatômicas, respeitar as subunidades cosméticas e manter a funcionalidade, sempre que possível. Este trabalho descreve quatro casos de defeitos cirúrgicos labiais tratados com diferentes técnicas reconstrutivas: retalho de rotação de mucosa, V-Y com duplo avanço e rotação em O-Z. A escolha da abordagem foi individualizada, conforme localização e tamanho do defeito, visando simetria, manutenção da função esfincteriana do lábio e resultado estético satisfatório.
Palavras-chave: Retalhos Cirúrgicos; Cirurgia de Mohs; Lábio
Correspondência:
Verônica Hamann Aita E-mail: veronicahaita98@gmail. com
Fonte de financiamento: Não Conflito de interesses: Nenhum
Data de submissão: 15/06/2025 Decisão final: 03/12/2025
ABSTRACT
Mohs micrographic surgery is the preferred technique for the treatment of skin cancers involving the lip region. Reconstruction of surgical defects in this area is particularly complex, requiring preservation of anatomical structures, respect for cosmetic subunits, and maintenance of function whenever possible.This study describes 4 cases of lip surgical defects managed with different reconstructive techniques: mucosal rotation flaps, double V-Y advancement flaps, and O-Z rotation flaps. The choice of technique was individualized according to the location and size of the defect, aiming to achieve symmetry, preserve oral sphincter function, and obtain satisfactory aesthetic outcomes.
Keywords: Surgical Flaps; Mohs Surgery; Lip
Como citar este artigo: Aita VH, Jacques NS, Prócel C, Cafrune FE. Reconstrução labial com retalhos superficiais: integrando funcionalidade e estética. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260480.
INTRODUÇÃO
O lábio é um local frequentemente acometido pelo câncer de pele. O carcinoma basocelular (CBC) é o subtipo mais incidente no lábio superior, enquanto o carcinoma espinocelular (CEC) é mais comum no lábio inferior.1,2 Costuma ser indicado tratamento cirúrgico, sendo a cirurgia micrográfica de Mohs (CMM)a técnica que propicia melhor controle de margens, maior preservação tecidual e menores taxas de recorrência.3,4
Ainda assim, o fechamento dos defeitos cirúrgicos é bastante desafiador, uma vez que os lábios são uma região anatômica com disponibilidade limitada de tecido para sutura primária, com seus limites abrangendo múltiplas subunidades cosméticas, podendo acarretar risco aumentado de distorções e assimetrias faciais importantes, bem como prejuízo funcional.3,4
ANeste trabalho, descrevemos quatro casos de defeitos acometendo lábio superior ou inferior, que evoluíram com resultados estéticos e funcionais favoráveis, após fechamento com retalhos de rotação de mucosa, V-Y com duplo avanço e dupla rotação em O-Z.
MÉTODOS E RESULTADOS CASO 1
Paciente mulher, 70 anos, foi diagnosticada com CBC superficial no lábio superior à esquerda e submetida a tratamento por CMM. O procedimento gerou defeito cirúrgico de 16 x 11 mm de diâmetro após detecção de margens livres no segundo estágio. Optou-se pelo fechamento da ferida com retalho de rotação. Nessa técnica, foi realizada incisão na porção medial da ferida operatória, estendendo-se em direção à mucosa interna
D
F
C E B
Figura 1: A - Delimitação da lesão no lábio superior.
B - Defeito cirúrgico utilizando técnica de Mohs.
C - Exposição do descolamento no plano submucoso do lábio superior após a incisão na porção medial da ferida.
D e E - Resultado imediato após retalho de rotação.
F - Resultado em 30 dias de pósoperatório.
Surg Cosmet Dermatol. 2026;18:e20260480.
labial; na sequência, foi executado o descolamento do lábio superior adjacente ao defeito no plano submucoso, facilitando o desprendimento de tecidos para sua rotação, e também foi removido o triângulo de compensação, com limite lateral na comissura labial. Para fechamento dos bordos, foi escolhido o fio Vicryl 5-0, devido à sua maleabilidade e flexibilidade, favorecendo adequada coaptação das margens (Figura 1).
CASO 2
Paciente homem, 59 anos, apresentava CBC nodular na região central da borda superior do lábio superior, com 9 x 10 mm de diâmetro. Optou-se por CMM, com margens livres tumorais já no primeiro estágio. Para reconstrução, foi realizado um retalho emV-Y com duplo avanço, no qual foi executada uma incisão em formato de “V” na região adjacente e lateral ao defeito, possibilitando a mobilidade com tecido compatível. Diferente-
Amente da técnica habitual, esse processo foi realizado de forma bilateral, seguido de avanço das áreas incisadas horizontalmente em direção ao centro da lesão inicial, mantendo seus pedículos subcutâneos viáveis para perfusão adequada. Por fim, ambos os tecidos avançados foram suturados em suas extremidades mediais, enquanto as margens das áreas “doadoras” foram coaptadas por meio de sutura linear bordo a bordo, conferindo à cicatriz um aspecto de “Y”, bilateralmente (Figuras 2 e 3).
CASO
3
Paciente homem, 54 anos, submetido a CMM para tratamento de CEC invasor na região central do vermelhão do lábio inferior. Após constatação de margens cirúrgicas livres no primeiro estágio, foi realizada reconstrução por dupla rotação em O-Z. Nesse retalho, inicialmente, foi realizada uma incisão na porção submucosa até a comissura labial esquerda, a partir da
C B
D
Figura 2: A - Defeito cirúrgico da pele do lábio superior, na linha média, após excisão de carcinoma basocelular com a técnica de Mohs.
B - Incisões do retalho de avanço V-Y bilateral.
C - Resultado imediato após fechamento.
D - Resultado em 30 dias de pós-operatório.
Figura 3: Incisão em formato de "V" realizada na região lateral ao defeito, permitindo a mobilização do tecido. Avanço bilateral das áreas incisadas em direção ao centro da lesão, preservando os pedículos subcutâneos. Sutura das extremidades mediais dos tecidos avançados, formando a cicatriz em formato de "Y".
borda anterior do defeito. Outra incisão foi executada na porção da mucosa contralateral, partindo da borda posterior do defeito até a comissura labial direita. Por fim, os dois tecidos triangulares foram rodados sobre o defeito e suturados em formato de “Z” com Vicryl 4-0 (Figuras 4 e 5).
CASO 4
Paciente homem, 68 anos, com CEC moderadamente diferenciado na região semi-mucosa do lábio inferior à esquerda. Foi realizada exérese pela técnica convencional. O fechamento se deu por meio do retalho de rotação de mucosa. A incisão foi realizada na porção medial da ferida operatória, agora no lábio inferior, em direção à mucosa interna labial. Prosseguiu-se com descolamento na porção submucosa perilesional, o suficiente para cobrir o defeito. Para compensar a rotação e evitar redundância de tecido, realizou-se exérese de um triângulo lateral até a comissura labial. A área que sofreu descolamento foi, então, rodada em sentido anterior e suturada com Vicryl 5-0 (Figura 6).
DISCUSSÃO
A CMM com controle das margens permite, além de significativa taxa de cura, maior preservação tecidual para o fechamento. A reconstrução de defeitos cirúrgicos de neoplasias cutâneas que envolvem a região labial é tecnicamente complexa devido à limitação imposta pelo tamanho da região e ao alto risco de prejuízo funcional. Microstomia e dano à inervação sensitiva também podem ocorrer, levando a alterações na percepção esté-
tica, no ato da mastigação e na articulação da fala do paciente.3 Algumas opções de fechamento são descritas para essa topografia, como segunda intenção, fechamento primário ou em cunha, que revelam menor complexidade, podendo apresentar desfechos satisfatórios em situações específicas, mas com risco aumentado de resultados imprevisíveis, como retrações e eclábio.1
Retalhos de avanço mucoso são mais comumente reservados para reconstruções superficiais do vermelhão labial.5 Algumas desvantagens são inerentes a essa técnica, como algum grau de retração e distorção cosmética do lábio devido às diferentes cores e texturas da mucosa labial para semimucosa.6 Além de maior propensão a ressecamento, foram relatados alguns casos de perda da sensibilidade labial.7
A técnica de rotação de mucosa, descrita nos casos 1 e 4, tende a reduzir esses impactos para o paciente, uma vez que apenas a porção medial do defeito será rodada e avançada em sentido anterior, poupando tecido mucoso lateral a esse, do qual será removido apenas o triângulo de compensação lateral do lábio para melhor acomodação das margens.
Outra técnica pouco descrita na literatura, geralmente indicada para correção de defeitos em couro cabeludo, mas efetiva para outras áreas anatômicas, é a dupla rotação em O-Z, melhor detalhada no caso 3. As incisões geram desprendimento de dois tecidos triangulares que serão dispostos e suturados em formato de “Z”. Dessa forma, é possível tracionar menor quantidade de tecido mucoso e preservar volume labial.
Retalhos de avanço bilaterais são indicados para corre-
Surg Cosmet Dermatol. 2026;18:e20260480.
A C B D
Figura 4: A - Defeito cirúrgico no lábio inferior.
B - Movimento do retalho O-Z.
C - Resultado imediato após fechamento.
D - Resultado em 30 dias de pós-operatório.
Figura 5: Incisão submucosa até a comissura labial esquerda, partindo da borda anterior do defeito. Incisão na porção mucosa contralateral, iniciando na borda posterior do defeito até a comissura labial direita. Rotação dos tecidos triangulares sobre odefeito, preparando para a sutura. Sutura em formato de “Z” com fio absorvível.
Figura 6: A - Delimitação de lesão com margens de 1 mm. B - Defeito cirúrgico no lábio inferior.
C e D - Pós-operatório de 30 dias, sem alteração funcional na movimentação.
ção de defeitos maiores do lábio superior, em especial, aqueles que ultrapassam os limites do filtro labial e que comprometem a transição cutâneo-mucosa, ou casos em que já ocorreu a perda da curvatura natural da região do filtro devido à atrofia senil do lábio.8 Os retalhos de avanço V-Y unilaterais são baseados em um pedículo de tecido subcutâneo, sendo ideais para defeitos maiores de 1 cm nos lábios superiores laterais, enquanto retalhos
de avanço V-Y bilaterais são recomendados para defeitos do lábio central.¹ No caso 2, foi escolhido o retalho V-Y duplo com o intuito de permitir a mobilização de tecido adjacente com ótima compatibilidade de cor, textura e espessura. A técnica proporcionou adequada cobertura do defeito, com restauração anatômica, simétrica e funcional da região, além da conservação do esfíncter oral sem transposição muscular, a qual dificilmente seria atingida com outras técnicas.
Aita VH, Jacques NS, Prócel C, Cafrune FE.
CONCLUSÃO
Diversas são as técnicas descritas para reconstrução labial após CMM. A escolha irá depender do tamanho, da profundidade do defeito, da agressividade e do tipo histológico do câncer, buscando sempre preservar e respeitar os limites topográficos e as subunidades estéticas.
Os fechamentos primários serão reservados para defeitos menores, em situações específicas. A rotação de mucosa e a dupla
rotação em O-Z são mais favoráveis, comparadas aos avanços mucosos, devido à maior preservação de tecido labial, levando a menor dano estético e funcional, ao passo que o fechamento em duplo V-Y auxilia na manutenção da simetria labial e na preservação das funções nervosas e esfincterianas dessa topografia. Portanto, a escolha da técnica adequada exige extenso conhecimento anatômico, habilidade do cirurgião e constante atualização embasada nas técnicas descritas. l
REFERÊNCIAS:
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CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Verônica Hamann Aita 0000-0002-5746-1970
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Nicoly de Souza Jacques 0009-0009-3799-1497
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Claudia Prócel 0009-0009-6006-8326
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Fernando Eibs Cafrune 0000-0002-6645-0122
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
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Estratégia reconstrutiva com retalhos de avanço na correção bilateral da região malar medial: aplicação dos retalhos de McGregor e Burow
Reconstructive strategy using advancement flaps for bilateral medial malar defects: application of the McGregor and Burow flaps
Relato de Caso
Autores:
Luiz Roberto Dal Bem Pires Júnior1,2 Carlos Augusto Silva Bastos1
1 Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, Dermatologia, Curitiba (PR), Brasil
2 Universidade Estadual de Campinas, Dermatologia, Campinas (SP), Brasil
A reconstrução da região malar é um desafio cirúrgico devido à importância estética e à necessidade de preservar a função. Relata-se o caso de um homem de 75 anos com carcinomas basocelulares bilaterais em malar medial. Após exérese, optou-se por técnicas com retalhos de avanço: retalho de McGregor à direita e retalho de Burow à esquerda. Os retalhos de avanço mostraram-se eficazes por sua simplicidade, boa mobilidade tecidual e capacidade de adaptação às unidades estéticas da face. O paciente evoluiu sem complicações, com bom resultado funcional e estético, reforçando o valor desses retalhos na reconstrução da face.
Palavras-chave: Retalhos Cirúrgicos; Carcinoma Basocelular; Oncologia Cirúrgica; Dermatologia; Face
Correspondência:
Luiz Roberto Dal Bem Pires Júnior E-mail: lrdalbem@gmail.com
Fonte de financiamento: Não Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 12/07/2025 Decisão final: 11/09/2025
ABSTRACT
Reconstruction of the malar region poses a surgical challenge due to its aesthetic relevance and the need to preserve function.We report the case of a 75-year-old man with bilateral basal cell carcinomas of the medial malar region. After tumor excision, reconstruction was performed using advancement flaps: a McGregor flap on the right side and a Burow flap on the left side. Advancement flaps proved effective owing to their simplicity, favorable tissue mobility, and adaptability to facial aesthetic units.The patient had an uneventful postoperative course, achieving satisfactory functional and aesthetic outcomes, highlighting the value of these flaps in facial reconstruction.
Keywords: Surgical Flaps; Basal Cell Carcinoma; Surgical Oncology; Dermatology; Face
Como citar este artigo: Pires Júnior LRDB, Bastos CAS. Estratégia reconstrutiva com retalhos de avanço na correção bilateral da região malar medial: aplicação dos retalhos de McGregor e Burow. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260494.
INTRODUÇÃO
A região malar representa a maior área cosmética da face, caracterizando-se por um contorno levemente convexo, com poucas sombras e depressões, e uma pele de textura heterogênea. Apesar de seu reservatório cutâneo, a camuflagem de incisões cirúrgicas nessa área é desafiadora.1
Anatomicamente, a região malar é dividida em quatro subunidades: medial, lateral, zigomática e bucal. A porção medial é delimitada pela pálpebra inferior, epicanto medial, sulco nasofacial, área perialar e parte superior do sulco nasogeniano.2 O posicionamento das linhas de sutura ao longo desses limites periféricos proporciona melhor disfarce da cicatriz. Quando isso não é viável, recomenda-se que as incisões sigam as linhas de tensão da pele relaxada (LTPRs), reduzindo a tensão e melhorando oresultado estético.3
Para defeitos pequenos na região medial do malar, o fechamento primário fusiforme com cicatrizes alinhadas às LTPRs é uma excelente opção. No caso de defeitos maiores, opta-se por retalhos locais, dentre as opções estão os retalhos de avanço e suas variações.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo masculino, 75 anos, em acompanhamento ambulatorial por pênfigo foliáceo e em uso contínuo
de azatioprina (100 mg/dia), apresentou histórico de múltiplos carcinomas basocelulares (CBCs) em face e foi diagnosticado com dois novos CBCs nodulares (Figura 1): um em região malar medial direita, com extensão para a pálpebra inferior e parede lateral nasal (Figura 2), e outro em região malar medial esquerda, próximo à asa nasal (Figura 3).
Após exérese completa das lesões com margens de segurança oncológica (Figura 4), o defeito resultante no lado direito foi reconstruído com retalho de McGregor (Figura 5). A técnica baseia-se em incisão lateral que acompanha a curvatura natural da pálpebra inferior, podendo estender-se até a região pré-auricular anterior à linha de implantação capilar, conforme a largura do defeito. Essa curvatura é fundamental para proporcionar comprimento vertical suficiente ao retalho. Na extremidade lateral da incisão, foi realizada uma zetaplastia, na qual o ramo central do “Z” correspondeu à largura do defeito, enquanto os ramos ascendente e descendente apresentavam o mesmo comprimento e ângulo de 60° em relação ao ramo central, facilitando a rotação e avanço do tecido. A dissecção foi realizada no plano subcutâneo, permitindo adequada mobilização do retalho e posterior transposição na zetaplastia. Um triângulo de Burow foi ressecado perpendicularmente à linha de incisão principal para acomodação do excesso cutâneo. A síntese foi realizada com
Figura 1: Pré-operatório
Figura 2: Dermatoscopia do carcinoma basocelular no malar direito
Vicryl 5.0 na camada profunda e Nylon 6.0 para superficial. No lado esquerdo, o defeito foi corrigido com retalho de avanço de Burow (Figura 6). Inicialmente, converteu-se a área cruenta em formato triangular por meio de incisão que estendeu sua base, incluindo o sulco nasogeniano, com o objetivo de otimizar a mobilização tecidual e favorecer a camuflagem da cicatriz. O movimento secundário do retalho gerou uma protrusão cutânea (dog ear), corrigida com a ressecção de um triângulo de compensação à distância do defeito primário. A dissecção foi
Figura 3: Dermatoscopia do carcinoma basocelular no malar esquerdo
Figura 4: Intraoperatório
Figura 5: Planejamento do retalho de McGregor
Figura 6: Planejamento do retalho de Burow
Retalho de McGregor Retalho de Burow
1.Planejamento cirúrgico
1.Planejamento cirúrgico
2.Execução
2.Execução
3.Pós-op imediato
3.Pós-op imediato
conduzida no plano subcutâneo, e a síntese foi realizada com fios de Vicryl 5.0 em plano profundo e Nylon 5.0 na pele (Figura 7). O paciente evoluiu satisfatoriamente, sem intercorrências, com resultados funcionais, oncológicos e estéticos adequados (Figura 8).
DISCUSSÃO
Uma reconstrução facial bem-sucedida exige a consideração de diversos fatores. No caso relatado, o paciente apresentava um quadro desafiador, com comprometimento bilateral da principal região cosmética da face, histórico de múltiplas abordagens cirúrgicas e imunossupressão — fatores que exigiram um planejamento reconstrutivo cuidadoso.
O retalho de avanço foi a técnica de escolha em razão de sua simplicidade e eficácia. Descrito há mais de dois mil anos por Aulus Cornelius Celsus, na obra De Medicina Octo Libri,4 esse tipo de retalho baseia-se no deslizamento do tecido adjacente em um único vetor direcional. Dentre suas variações, destaca-se a U-plastia, indicada para múltiplas regiões anatômicas.5,6 No dorso nasal, quando associada a triângulos de compensação laterais ao pedículo glabelar, recebe a denominação de retalho de Rintala, conforme descrito em 1969.7 A H-plastia (ou O-H) consiste em um avanço bilateral, com aplicação preferencial em áreas com linhas paralelas, como a fronte e as sobrancelhas6; entretanto, sua dissecção pode implicar risco de parestesia ou disestesia devido à proximidade dos nervos supratroclear e supraor-
Figura 7: Ilustração do retalho de McGregor e do retalho de Burow
bitário.8 A T-plastia (ou A-T), por sua vez, é útil em regiões com menor mobilidade, como a borda labial e a linha de implantação capilar.9,10 Já o retalho O-L corresponde a um avanço unilateral, sendo denominado retalho de Burow quando associado à ressecção de triângulos de Burow. Sua principal vantagem está na redistribuição das dog ears para áreas menos perceptíveis, proporcionando melhor acomodação tecidual,10 como demonstrado no presente caso, em que se utilizou a reserva de pele lateral para fechamento da ferida operatória. Apesar de suas vantagens, essa técnica apresenta menor mobilidade tecidual (em comparação a retalhos mais complexos) e a necessidade de incisões amplas para aumentar sua efetividade. Desde a técnica de retalho cutâneo de rotação lateral da região malar proposta por Mustardé em 1966, diversas estratégias têm sido desenvolvidas com base no avanço da pele da face lateral em direção medial para correção de defeitos. Embora exista uma flacidez relativa da pele nessa região, o avanço é limitado; sem medidas auxiliares para reduzir a tensão no retalho, ele tende a retornar à posição original no pós-operatório.11
Para contornar essas limitações, McGregor introduziu, em 1973, uma abordagem que associa zetaplastia periorbital lateral ao retalho de avanço, promovendo maior mobilização dos tecidos e redução da tensão sobre a pálpebra inferior. Após 15 anos de experiência com essa técnica, relatou resultados satisfatórios, com preservação do aspecto natural do canto lateral da pálpebra.12 No presente relato, essa abordagem foi utilizada com sucesso na reconstrução da pálpebra inferior e da região malar medial, resultando em desfecho favorável, consolidando- se como uma alternativa útil dentro do arsenal de técnicas reconstrutivas.
Em conclusão, os retalhos de avanço se destacam como uma opção eficaz para a reconstrução da região malar, dada a relativa flacidez e mobilidade da pele nessa topografia. Permitem cobertura adequada de defeitos cutâneos com bom alinhamento das linhas de incisão às unidades estéticas da face. A possibilidade de associação com técnicas auxiliares, como zetaplastia e triângulos de Burow, amplia sua aplicabilidade a casos mais complexos, promovendo resultados satisfatórios mesmo em cenários desafiadores. l
Figura 8: Resultado no 60º dia pós-operatório
REFERÊNCIAS:
1. Menick FJ. Artistry in aesthetic surgery. Aesthetic perception and the subunit principle. Clin Plast Surg. 1987;14(4):723-35.
3. Hanks JE, Moyer JS, Brenner MJ. Reconstruction of Cheek Defects Secondary to Mohs Microsurgery or Wide Local Excision. Facial Plast Surg Clin North Am. 2017;25(3):443-61.
4. Spencer W. Books VII-VIII. In: Spencer W, ed. Celsus on medicine. Cambridge: Harvard University Press; 1994.
5. Shew M, Kriet JD, Humphrey CD. Flap Basics II: Advancement Flaps. Facial Plast Surg Clin North Am. 2017;25(3):323-35.
6. Krishnan R, Garman M, Nunez-Gussman J, Orengo I. Advancement flaps: a basic theme with many variations. Dermatol Surg. 2005;31(8Pt2):986-94.
7. Rintala AE, Asko-Seljavaara S. Reconstruction of midline skin defects of the nose. Scand J Plast Reconstr Surg. 1969;3(2):105-8.
8. Wiewrodt D, Wagner W. Long-term significance of injury to the supraorbital or supratrochlear nerves during frontoorbital advancement in infancy. Childs Nerv Syst. 2009;25(12):1589-91.
9. Stevens CR, Tan L, Kassir R, Calhoun K. Biomechanics of A-to-T flap design. Laryngoscope. 1999;109(1):113-7.
10. Cerci FB, Fantini BC. Retalhos e enxertos em cirurgia micrográfica de Mohs. São Paulo: Editora Atheneu; 2022.
11. Mustardé JC. The use of flaps in the orbital region. Plast Reconstr Surg. 1970;45(2):146-50.
12. McGregor IA. Eyelid reconstruction following subtotal resection of upper or lower lid. Br J Plast Surg. 1973;26(4):346-54.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Luiz Roberto Dal Bem Pires Júnior
0009-0001-6728-420X
Análise estatística, Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Carlos Augusto Silva Bastos
0000-0003-0255-2696
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo.
www.surgicalcosmetic.org.br/
Paroníquia crônica exuberante: abordagem cirúrgica com técnica de retalho quadrilátero
(square flap)
Exuberant chronic paronychia: a surgical approach using the square flap technique
Relato de Caso
Autores:
Clarissa Brito Farias 1
André Martins Ornelas 1 Flauberto de Sousa Marinho 1
1 Faculdade de Medicina Nova Esperança, Serviço de Dermatologia, João Pessoa (PB), Brasil
A paroníquia crônica é uma inflamação da prega ungueal proximal, frequentemente relacionada à exposição crônica à umidade e a substâncias irritantes. O tratamento cirúrgico é indicado nos casos refratários. Relatamos o caso de uma paciente com envolvimento de todos os quirodáctilos e resposta insatisfatória às terapias clínicas. A técnica do retalho quadrilátero foi utilizada com bons resultados funcionais e estéticos. O caso ilustra a eficácia da abordagem cirúrgica, reforçando a importância da capacitação do dermatologista em técnicas ungueais.
Palavras-chave: Unhas; Paroníquia; Doenças da Unha
Fonte de financiamento: Não Conflito de interesses: Nenhum
Data de submissão: 05/08/2025 Decisão final: 07/10/2025
ABSTRACT
Chronic paronychia is an inflammatory condition of the proximal nail fold, often associated with prolonged exposure to moisture and irritant substances. Surgical treatment is indicated in refractory cases. We report the case of a patient with involvement of all digits and an unsatisfactory response to clinical therapies. The square flap technique was employed, yielding favorable functional and aesthetic outcomes. This case highlights the efficacy of the surgical approach and underscores the importance of dermatologists’ training in nail surgery techniques.
Keywords: Nails; Paronychia; Nail Diseases
Como citar este artigo: Farias CB, Ornelas AM, Marinho FS. Paroníquia crônica exuberante: abordagem cirúrgica com a técnica de retalho quadrilátero (square flap). Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):20260505.
INTRODUÇÃO
A paroníquia crônica (PC) é uma doença inflamatória da prega ungueal proximal (PUP) com duração superior a 6 semanas. Representa cerca de 18% das distrofias ungueais e é mais frequente nos 1º, 2º e 3º quirodáctilos da mão dominante, especialmente em mulheres com exposição repetida a produtos de limpeza, umidade e trauma local. Profissionais de saúde, donas de casa e trabalhadores da indústria alimentícia estão entre os mais afetados.1,2
Sua etiologia é multifatorial, envolvendo ruptura da cutícula com exposição do eponíquio, dermatite irritativa de contato e infecção fúngica secundária (especialmente por Candida albicans).1-3 Casos associados ao uso de medicamentos, como retinoides, inibidores da tirosina quinase e do receptor do fator de crescimento epidérmico, também foram descritos.4
Clinicamente, observa-se hipertrofia da PUP e das pregas ungueais laterais, ausência de cutícula, onicodistrofia e dor.1-3 O tratamento inicial visa eliminar os fatores desencadeantes, sendo associado a medicamentos tópicos e/ou sistêmicos, como antifúngicos, antibióticos, corticosteroides e emolientes. Contudo, os resultados são frequentemente insatisfatórios e de obtenção demorada. Casos refratários, após pelo menos 6 meses de terapias clínicas, podem se beneficiar de abordagem cirúrgica.5 Entre as diversas técnicas descritas na última década, destaca-se a técnica do retalho quadrilátero, proposta por Ferreira Vieira d’Almeida et al., em 2016, por proporcionar resultados satisfatórios tanto do ponto de vista funcional quanto estético, além de possibilitar menor tempo de cicatrização.6
O objetivo deste trabalho foi apresentar um caso grave de PC tratado cirurgicamente com a técnica de retalho quadrilátero. Apresentamos uma descrição detalhada do procedimento, os resultados obtidos e uma breve revisão da literatura, comparando as diferentes técnicas cirúrgicas habitualmente empregadas no tratamento da PC. Para elaboração dessa revisão, realizamos buscas nas bases de dados PubMed, SciELO e Periódicos CAPES, utilizando os descritores “chronic paronychia”, “surgical treatment” e “paronychia surgeries”.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo feminino, 44 anos, dona de casa, previamente hígida, referia alterações ungueais progressivas há mais de 20 anos. Não apresentava histórico familiar de doenças ungueais. Relatava uso prévio de antifúngicos, corticoides e antibacterianos tópicos e sistêmicos, sem melhora significativa.
Ao exame físico, apresentava distrofia ungueal em todos os quirodáctilos, com ausência de cutícula, retração e hipertrofia acentuada da PUP (Figuras 1 e 2). Frente à refratariedade terapêutica, optou-se por tratamento cirúrgico.
DESCRIÇÃO DA TÉCNICA
Com a paciente em decúbito dorsal e com membro superior posicionado sobre mesa auxiliar, foi realizada antissepsia com clorexidina 2%. O bloqueio anestésico digital proximal foi
Figura 1: Distrofia ungueal com ausência de cutícula, retração e hipertrofia acentuada da prega ungueal proximal
os
Figura 2: Paroníquia crônica exuberante em todos
quirodáctilos
feito com lidocaína 2% sem vasoconstritor, seguido de aplicação de torniquete na base do dedo. Foram realizadas marcações oblíquas de 3 a 4 mm sobre a PUP, nas quais foram realizadas incisões. Em seguida, realizou-se uma incisão paralela à epiderme, abaixo do tecido fibrótico e acima da unha, com auxílio de espátula dentária para evitar danos à matriz ungueal.
Como resultado, obteve-se um retalho quadrilátero preenchido com fibrose. O retalho foi inclinado para trás para permitir a visualização do tecido fibrótico, o qual foi removido com lâmina de bisturi número 11, preservando a epiderme da PUP (Figura 3). A epiderme descolada foi reposicionada e suturada com pontos simples, utilizando fio de sutura de nylon 4-0 (Figura 4). A fibrose presente nas pregas laterais foi removida por esse mesmo local de acesso. Ao final do procedimento, foi aplicado curativo compressivo.
As cirurgias foram realizadas de forma seriada, com intervalo de 4 a 6 semanas entre os dedos acometidos. Para o pósoperatório, orientou-se limpeza com soro fisiológico, dipirona para analgesia, cefadroxila 1 g/dia por 7 dias. Biotina 10 mg/ dia e fluconazol 150 mg três vezes por semana também foram utilizados durante o seguimento da paciente.
A paciente evoluiu com regressão da hipertrofia das pregas ungueais, formação de nova cutícula e melhora funcional e estética das unhas (Figura 5). Quando feita comparação com o quadro inicial, notou-se uma melhora considerável (Figura 6).
DISCUSSÃO
A PC é uma doença inflamatória da PUP caracterizada clinicamente pela presença de eritema, edema, hipertrofia dos tecidos periungueais e ausência de cutícula por um período de
pelo menos 6 semanas. A placa ungueal torna-se distrófica e o paciente pode apresentar dor local, havendo prejuízo substancial à qualidade de vida. A exposição repetida à umidade e a substâncias irritantes produz danos à cutícula, propiciando a entrada de alérgenos e patógenos nas pregas ungueais, o que provoca episódios recorrentes de inflamação aguda e consequente fibrose. As pregas ungueais tornam-se gradativamente mais expostas, comprometendo a vedação protetora e perpetuando a entrada progressiva de microrganismos e substâncias irritativas e alergênicas.1,2
O tratamento clínico da PC envolve o afastamento das condições desencadeantes, que envolvem umidade excessiva, substâncias irritantes (como detergente e sabão) e traumas repetidos. Entre os medicamentos tópicos, podem ser utilizados corticosteroides, antifúngicos e inibidores da calcineurina. A aplicação intralesional de esteroides também é descrita como opção para casos de maior gravidade. Antifúngicos orais, especialmente fluconazol e itraconazol, são indicados quando há presença de C. albicans ou em casos refratários, antes de prosseguir para o tratamento cirúrgico.1,2 No entanto, o tratamento conservador é frequentemente ineficaz, uma vez que a fibrose e a perda progressiva do suprimento sanguíneo impedem a chegada dos medicamentos às pregas ungueais, limitando o sucesso do tratamento.1
As cirurgias ungueais demandam conhecimento técnico específico e criteriosa indicação, sendo geralmente reservadas para os casos refratários às abordagens clínicas. No tratamento da PC, diversas técnicas cirúrgicas foram descritas ao longo das últimas décadas, cada uma com suas particularidades quanto à complexidade, ao tempo de recuperação e aos resultados estéticos. O
Figura 3: O retalho é inclinado para trás para permitir a visualização do tecido fibrótico e a fibrose é removida com preservação da epiderme da prega ungueal proximal
principal objetivo da cirurgia é promover a remoção da fibrose e do tecido circundante persistentemente inflamado, permitindo a regeneração da cutícula e a penetração de fármacos.1,2,5 A Tabela 1 resume as principais técnicas cirúrgicas.
A excisão em bloco da PUP, proposta por Baran e Bureau em 1981, envolve a retirada completa do tecido inflamado, incluindo o eponíquio, por meio de uma excisão em forma de cunha, com largura de 5 a 6 mm, que se estende de uma prega ungueal lateral à outra. A técnica é de fácil execução, mas pode resultar em retrações cicatriciais e deformidades permanentes.1,5,9
Já a marsupialização do eponíquio, descrita por Keiser e Eaton em 1976, consiste na excisão da PUP em forma de crescente, mantendo o eponíquio intacto. A área de excisão começa a aproximadamente 1 mm da margem distal do eponíquio e se estende por cerca de 6 mm em direção proximal. Essa técnica facilita a drenagem ungueal e reduz a inflamação crônica, embora esteja associada a um tempo de cicatrização prolongado e risco de recidiva.1,10
Outra técnica indicada para o manejo cirúrgico da PC é ométodo conhecido como Swiss roll. Essa abordagem consiste na desepitelização parcial da PUP, que é então enrolada sobre uma gaze, formando um pequeno “rolinho”, e mantida dessa forma por alguns dias. Essa manobra promove a drenagem do exsudato e facilita a remodelação do leito ungueal. Apesar de sua simplicidade e recuperação relativamente rápida, essa técnica não
Figura 4: Prega ungueal proximal reposicionada e suturadafold
Figura 5: Regressão importante da hipertrofia das pregas ungueais após procedimento cirúrgico
Marsupialização eponíquica10
Excisão em bloco da PUP9
Swiss roll7
Retalho quadrilátero (square flap)6
PUP: prega ungueal proximal.
Excisão dorsal da PUP, mantendo ferida aberta para cicatrização por segunda intenção
Excisão completa da PUP, incluindo epiderme, derme e tecido subjacente fibrosado
Desepitelização parcial da PUP, seguida de sua rotação sobre uma gaze enrolada, formando um “rolinho”, sendo mantida dessa forma por alguns dias para promover drenagem adequada e remodelação do leito
Boa drenagem do exsudato; recuperação mais rápida
Técnica simples; preservação de parte da PUP
Abordagem curativa; boa resposta funcional
remove o tecido fibrótico, o que pode favorecer recorrências em casos crônicos.7
Mais recentemente, a técnica do retalho quadrilátero, desenvolvida por Ferreira Vieira d’Almeida et al., em 2016, passou a ser valorizada por permitir a remoção seletiva do tecido fibrótico com preservação da epiderme e da matriz ungueal, resultando em melhor recuperação anatômica, menor tempo de cicatrização e bons resultados funcionais e estéticos. Devido à sua capacidade de prevenir a retração da PUP, o método preserva ocomprimento da lâmina ungueal.1,2,6
Boa drenagem do exsudato; recuperação mais rápida
Cicatrização prolongada; possibilidade de retração leve
Cicatrização mais lenta; encurtamento definitivo da PUP
Sem remoção do tecido fibrótico; maior risco de recidiva
Sem remoção do tecido fibrótico; maior risco de recidiva
Sem remoção do tecido fibrótico; maior risco de recidiva
A técnica do retalho quadrilátero permite a excisão do tecido fibrótico sem a necessidade de remoção completa da PUP e das pregas ungueais laterais. Inicialmente, realiza-se incisões oblíquas de 4 a 5 mm de comprimento em ambos os lados da PUP. Posteriormente, uma incisão paralela à epiderme, situada abaixo da fibrose, é efetuada de forma cuidadosa, a fim de evitar lesões na matriz ungueal. O retalho quadrilátero formado é levantado com o auxílio de uma pinça. O tecido fibrótico é então removido, preservando-se a epiderme da PUP. Após a remoção, oretalho quadrilátero é reposicionado e o fechamento cirúrgico
Tabela 1: Comparação entre técnicas cirúrgicas para tratamento da paroníquia crônica
Figura 6: Imagem comparativa com o quadro inicial da paciente, destacando melhora significativa da paroníquia
é realizado por meio de pontos simples. Ressalta-se que a qualidade da pele da prega ungueal é de extrema importância para o sucesso dessa técnica.1,6
Estudo retrospectivo conduzido por Ferreira Vieira d’Almeida et al., com 48 pacientes, demonstrou resultados promissores com a técnica do retalho quadrilátero, evidenciando melhora clínica significativa em 95,6% dos casos e taxa de recidiva de apenas 4,4%.6 Tais dados reforçam o potencial da abordagem cirúrgica como alternativa eficaz em quadros refratários de PC. Dessa forma, essa técnica, quando bem executada, oferece excelentes resultados cosmético e funcional e baixo índice de recidiva. Contudo, a sua complexidade e o tempo necessário para execução demandam um profissional altamente capacitado, oque reforça a importância de um cirurgião experiente para garantir o sucesso do procedimento.6
Além da escolha da técnica adequada, é importante associar o procedimento a plano terapêutico individualizado e acompanhamento pós-operatório rigoroso para alcançar bons desfechos.
REFERÊNCIAS:
1. Relhan V, Bansal A. Acute and chronic paronychia revisited: A narrative review. J Cutan Aesthet Surg. 2022;15:1–16.
2. Srivastav Y, Shrivastava N, Kumar M. Paronychia: Its Diagnosis and Current Potential Treatment-based Management: Brief Schematic Review. Asian J Res Dermatol. 2023;6(1):112–120.
3. Davis DA, Hurt MA. Chronic paronychia: Modern diagnostic and therapeutic approaches. Clin Dermatol. 2021;39(1):53–9.
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5. Scher RK, Daniel CR III. Nails: Therapy, Diagnosis, Surgery. 4th ed. Elsevier Saunders; 2018.
Nesse contexto, a suplementação com biotina tem ganhado destaque como adjuvante na regeneração ungueal, especialmente por sua atuação na queratinização e no fortalecimento da lâmina ungueal, contribuindo para uma recuperação funcional mais eficaz e duradoura.7,8
CONCLUSÃO
A técnica do retalho quadrilátero é eficaz e segura no tratamento da PC refratária, permitindo melhora funcional e estética com baixo risco de complicações e de recidiva. Deve ser considerada entre as opções terapêuticas quando há falha do tratamento conservador. Apesar de ser um procedimento mais complexo, essa técnica oferece várias vantagens, como recuperação mais rápida após cirurgia, permitindo que o paciente retome suas atividades diárias mais cedo. Além disso, esta técnica preserva o comprimento da lâmina ungueal, o que é uma grande vantagem na manutenção da aparência e da funcionalidade da unha. l
6. Ferreira Vieira d'Almeida L, Papaiordanou F, Araújo Machado E, Loda G, Baran R, Nakamura R. Chronic paronychia treatment: Square flap technique. J Am Acad Dermatol. 2016;75(2):398–403.
7. Piraccini BM, Alessandrini A. Nutritional factors and hair loss. Clin Dermatol. 2021;39(1):52–60.
9. Baran R, Bureau H. Surgical treatment of recalcitrant chronic paronychia of fingers. J Dermatol Surg Oncol. 1981;7:106–7.
10. Keiser JJ, Eaton RG. Surgical cure of chronic paronychia by eponychial marsupialization. Plast Reconstr Surg. 1976;58:66–70.
AUTHOR’S CONTRIBUTION:
Clarissa Brito Farias 0009-0009-5395-045X
Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
André Martins Ornelas 0009-0002-0393-7205
Preparation and writing of the manuscript, Effective participation in the conduct of the study, Critical review of the literature, Critical revision of the manuscript.
Flauberto de Sousa Marinho 0000-0002-9337-9931
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
www.surgicalcosmetic.org.br/
Isotretinoína oral como tratamento promissor para molusco contagioso refratário em uma
criança: relato de caso
Oral isotretinoin as a promising treatment for refractory molluscum contagiosum in a child: a case report
Relato de Caso
Autores: Shaimaa Farouk 1
1 Hospital de Dermatologia e Venereologia do Cairo (Al-Haud Al-Marsoud), Ministério da Saúde e da População do Egito, Departamento de Dermatologia, Cairo, Egito
O molusco contagioso é uma infecção viral comum em crianças, geralmente autolimitada, mas casos extensos ou recalcitrantes podem ser difíceis de tratar. Relatamos o caso de uma criança com MC refratário, sem resposta às terapias convencionais, que obteve cura completa com isotretinoína oral em baixas doses. Este caso destaca o potencial da isotretinoína como uma nova abordagem terapêutica para o molusco contagioso refratário em crianças. Palavras-chave: Molusco contagioso; Isotretinoína; Criança; Retinoides
ABSTRACT
Molluscum contagiosum is a common viral infection in children, usually self-limiting, but treatment of extensive or recalcitrant cases can be challenging. We report a child with refractory MC unresponsive to conventional therapies who achieved complete clearance with low-dose oral isotretinoin.This case highlights the potential of isotretinoin as a novel therapeutic approach for refractory molluscum contagiosum in children.
Fonte de financiamento: Nenhuma Conflito de interesse: Nenhum
Data de submissão: 26/08/2025
Decisão final: 09/10/2025
Como citar este artigo: Isotretinoína oral como tratamento promissor para molusco contagioso refratário em uma criança: relato de caso. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260510.
INTRODUÇÃO
O molusco contagioso (MC) é uma infecção cutânea viral benigna causada por um poxvírus, que acomete predominantemente crianças. Embora geralmente se resolva espontaneamente em 6 a 18 meses, alguns pacientes desenvolvem lesões extensas e persistentes, resistentes a tratamentos convencionais, como crioterapia, curetagem e queratolíticos tópicos.1 Nesses casos, o manejo torna-se desafiador e pode resultar em desconforto significativo, infecções secundárias e impacto psicossocial.
A isotretinoína oral, um retinoide sistêmico utilizado principalmente no tratamento da acne grave, demonstrou efeitos benéficos em algumas dermatoses virais, incluindo MC e verrugas recalcitrantes, devido às suas propriedades imunomoduladoras, antiproliferativas e de indução da diferenciação dos queratinócitos.2,3 Relatos recentes sugerem que a isotretinoína pode representar uma modalidade terapêutica promissora para MC refratário, inclusive em populações pediátricas.4
Apresentação do Caso Clínico
Uma menina de 10 anos apresentava com múltiplas pápulas peroladas e umbilicadas distribuídas pela face, tronco, axilas e extremidades havia 14 meses. As lesões haviam aumentado progressivamente em número, apesar de diversas modalidades terapêuticas (Figura 1).
Os tratamentos prévios incluíam crioterapia, curetagem e queratolíticos tópicos (ácido salicílico), todos com melhoria mínima. As lesões recidivavam em poucas semanas e se tornavam
mais disseminadas. A condição estava associada a prurido leve e episódios ocasionais de superinfecção bacteriana secundária ao ato de coçar as lesões.
Ao exame, observaram-se mais de 120 lesões, variando de 2 a 5 mm de tamanho, algumas com superfície eritematosa ou crostosa. Parâmetros hematológicos e bioquímicos de rotina, incluindo hemograma completo, testes de função hepática (ALT, AST), função renal e perfil lipídico em jejum, estavam dentro da normalidade. A sorologia para HIV foi negativa e não havia histórico familiar de imunodeficiência.
Dada a natureza refratária da doença e o seu impacto psicossocial, iniciou-se isotretinoína oral na dose de 0,5 mg/kg/dia, após avaliação laboratorial basal. O monitoramento laboratorial foi repetido a cada 4 semanas, tanto durante o tratamento quanto por 6 meses após sua suspensão, incluindo hemograma, enzimas hepáticas e perfil lipídico. Todos os parâmetros permaneceram dentro da normalidade durante o tratamento e o seguimento. O tratamento continuou por 10 semanas, sendo a isotretinoína suspensa após resolução completa das lesões.
A terapia foi bem tolerada, com relato apenas de queilite leve. Após 6 semanas, o número de lesões havia diminuído em mais de 70%, e a resolução completa foi alcançada na semana 10, sem cicatrizes ou pigmentação pós-inflamatória. No seguimento de 6 meses após a suspensão do tratamento, a paciente permanecia sem lesões, com exames laboratoriais normais.
Figura 1: Menina de 10 anos apresentando com A, B - múltiplas pápulas peroladas e umbilicadas de molusco contagioso distribuídas na face, variando de 2 a 5 mm em tamanho;
C - após 6 semanas de tratamento, com redução de mais de 70% no número de lesões; D, E - após 10 semanas de tratamento, demonstrando resolução completa, sem cicatrizes ou pigmentação pós-inflamatória; F - no seguimento de 6 meses, a paciente permanecia sem lesões, sem recidiva.
DISCUSSÃO
Embora o MC geralmente seja autolimitado, casos extensos ou recalcitrantes muitas vezes exigem tratamento ativo. Modalidades destrutivas convencionais, como crioterapia, curetagem e agentes cáusticos tópicos, podem ser dolorosas, cosmeticamente indesejáveis e propensas a recidivas.1 Opções sistêmicas alternativas, como cimetidina e interferon, têm demonstrado eficácia inconsistente.2
A isotretinoína exerce seus efeitos por meio da modulação da diferenciação dos queratinócitos, inibição da proliferação epidérmica e aumento da vigilância imunológica cutânea.3,5 Além disso, a isotretinoína regula negativamente a expressão do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR), o que pode diminuir a replicação e a propagação viral.5
Nossos achados são consistentes com estudos recentes. Ramdan et al. relataram uma série de 20 crianças com MC refratário tratadas com isotretinoína (0,5 mg/kg/dia), com melhoria significativa em média após 6,6 semanas e apenas uma recidiva no seguimento de 3 meses.4 Da mesma forma, Paudel e Chudal descreveram a resolução rápida de lesões extensas de molusco em um adulto imunocomprometido tratado com isotretinoína, reforçando seu potencial papel terapêutico. Os autores também discutiram o possível papel da isotretinoína no MC, particularmente em pacientes imunossuprimidos. Embora a hipótese de um “efeito antiviral” tenha sido postulada, as evidências atuais favorecem um mecanismo indireto e não um efeito antiviral direto. A isotretinoína atua principalmente normalizando a diferenciação dos queratinócitos, reduzindo a proliferação epidérmica e alterando a queratinização folicular, o que cria um ambiente desfavorável à replicação e à persistência viral. Além disso, suas propriedades imunomoduladoras podem fortalecer os mecanismos de defesa do hospedeiro, contribuindo para a resolução das lesões. Esses efeitos combinados provavelmente explicam os benefícios observados no MC recalcitrante, embora estudos mecanísticos definitivos ainda sejam limitados.6
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CONTRIBUIÇÃO DO AUTOR:
Shaimaa Farouk 0009-0002-8704-3910
No nosso caso, a isotretinoína em baixa dose mostrou-se eficaz e bem tolerada, com apenas leve ressecamento mucocutâneo, o que é consistente com relatos prévios.4,6 A manutenção da resolução no seguimento de 6 meses reforça a ocorrência de um benefício terapêutico duradouro.
Embora eficaz, a isotretinoína oral requer cautela em pacientes pediátricos com menos de 12 anos, pois se trata de uso off-label. Os efeitos adversos são dose-dependentes e incluem principalmente ressecamento mucocutâneo (queilite, xerose), elevações transitórias de enzimas hepáticas e hiperlipidemia. Cefaleia, desconforto musculoesquelético,2,3 e alterações de humor, incluindo depressão e ansiedade, foram relatados com menos frequência durante o tratamento; entretanto, essa associação ainda é controversa e não foi confirmada por análises em larga escala.7 Em crianças, o perfil de segurança parece semelhante àquele observado em adolescentes quando se utilizam doses baixas (≤0,5 mg/kg/dia) com monitoramento adequado. A avaliação laboratorial deve incluir exames basais e avaliação periódica da função hepática e do perfil lipídico a cada 4–6 semanas. Deve-se orientar a adoção de hidratação adequada, uso de emolientes e fotoproteção. O aconselhamento dos pais e responsáveis quanto ao uso off-label, aos possíveis efeitos adversos e à necessidade de monitoramento laboratorial regular é essencial antes do início do tratamento.
CONCLUSÃO
A isotretinoína oral representa uma opção terapêutica segura e promissora para MC refratário em crianças quando as modalidades padrão falham. Seu papel como imunomodulador sistêmico e regulador da biologia dos queratinócitos sustenta sua eficácia clínica. Ensaios clínicos randomizados de maior escala são necessários para estabelecer a isotretinoína como tratamento padrão para MC pediátrico resistente. l
5. Rubin Grandis J, Zeng Q, Tweardy DJ. Retinoic acid normalizes the increased gene transcription rate of TGF-alpha and EGFR in head and neck cancer cell lines. Nat Med. 1996;2(2):237-40.
6. Paudel V, Chudal D. Oral isotretinoin therapy in recalcitrant molluscum contagiosum in an immunocompromised patient. Case Rep Dermatol Med. 2021;14:5529382.
7. Gradwohl K, Verghese M, Rosenblatt AE. Mood changes and clinical decision making in adolescent patients on isotretinoin therapy for acne vulgaris. Pediatr Dermatol. 2023;40(3):494-6.
Análise estatística; Aprovação da versão final do manuscrito; Concepção e planejamento do estudo; Elaboração e redação do manuscrito; Obtenção, análise e interpretação dos dados; Participação efetiva na orientação da pesquisa; Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; Revisão crítica da literatura; Revisão crítica do manuscrito.
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Metástase cutânea à distância de neoplasia sólida: relato de caso
Distant cutaneous metastasis from solid neoplasm: a case report
As metástases cutâneas (MCs) são manifestações incomuns de neoplasias sistêmicas e, em geral, indicam pior prognóstico. Os principais tumores primários associados às MCs são câncer de mama, pulmão e melanoma. As lesões podem se assemelhar a diversas doenças dermatológicas, dificultando o diagnóstico. Para confirmação, são indispensáveis a história clínica, o exame anatomopatológico e a imuno-histoquímica. O tratamento é determinado pelo tumor primário, podendo incluir terapias adjuvantes direcionadas ao comprometimento cutâneo. Este estudo relata o caso de um paciente com MC de carcinoma pulmonar primário, inicialmente suspeito de fibroepitelioma de Pinkus, destacando a relevância do diagnóstico diferencial na prática clínica.
1 Faculdade de Medicina Nova Esperança, Dermatology Service, João Pessoa (PB), Brasil
ABSTRACT
Cutaneous metastases (CMs) are uncommon manifestations of systemic malignancies, usually indicating poor prognosis. Breast cancer, lung cancer, and melanoma are the main primary tumors associated with CMs. Lesions may mimic several dermatological conditions, which makes diagnosis challenging. Clinical history, histopathology, and immunohistochemistry are essential for confirmation. Management depends on the primary tumor and may include adjuvant therapies tailored to cutaneous involvement.This study reports a case of a patient with CM from a primary pulmonary carcinoma, initially suspected to be a fibroepithelioma of Pinkus, highlighting the importance of differential diagnosis and complementary examinations in clinical practice.
Ana Vitoria Lins de Paiva Antunes E-mail: vitorialpaiva@outlook.com
Fonte de financiamento: Não Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 12/09/2025
Decisão final: 15/10/2025
Como citar este artigo: Antunes AVLP, Farias CB, Trindade LC, Nascimento KPM. Metástase cutânea à distância de neoplasia sólida: relato de caso. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260515.
INTRODUÇÃO
A metástase é definida como o desenvolvimento de um tumor à distância do sítio primário, podendo acometer qualquer órgão do corpo, inclusive a pele.1-5 As metástases cutâneas (MCs) são pouco frequentes, ocorrendo em menos de 10% dos pacientes oncológicos e, em geral, desenvolvem-se meses a anos após o diagnóstico da neoplasia primária, estando associadas a um pior prognóstico.5-7 Os cânceres de mama, pulmão e melanoma são os que mais comumente metastizam para a pele.2,11
Clinicamente, as MCs podem apresentar-se de diferentes formas, mimetizando inúmeras dermatoses, como doenças inflamatórias, tumores benignos ou mesmo neoplasias cutâneas malignas primárias, o que torna o seu diagnóstico desafiador para odermatologista.6 Além disso, as lesões podem ser assintomáticas ou associadas a dor e sensibilidade,3,8 tornando a história clínica detalhada, em conjunto com o exame anatomopatológico, fundamental para o diagnóstico. Em alguns casos, a imuno-histoquímica também é necessária para a conclusão diagnóstica.
O objetivo deste estudo é relatar o caso de um paciente com MC à distância de uma neoplasia sólida pulmonar, com hipótese diagnóstica inicial de fibroepitelioma de Pinkus. Enfatiza-se a importância da inclusão das MCs como diagnóstico diferencial na prática dermatológica, principalmente em pacientes com histórico de neoplasias prévias.
em região lombossacra
RELATO DE CASO
Um paciente do sexo masculino de 84 anos foi atendido em ambulatório com relato de surgimento de lesão em região lombossacra 6 meses antes, associada a dor intensa e com crescimento progressivo. Ao exame físico, observava-se uma tumoração eritematosa, perlácea, arredondada e bem delimitada, de consistência fibroelástica e com desconforto intenso à palpação (Figura 1). A dermatoscopia revelou uma lesão de fundo rosado, com áreas amorfas e estrias esbranquiçadas entremeadas por telangiectasias (Figura 2).
O paciente apresenta como antecedente pessoal um adenocarcinoma pulmonar diagnosticado em junho de 2016 e tratado com segmentectomia associado a terapia adjuvante. Além disso, foram diagnosticadas lesões ósseas metastáticas em coluna torácica em 2017 e em sacro, ilíacos e ísquio em 2022. No momento da consulta, a quimioterapia estava em pausa devido à investigação cardiológica.
Consideraram-se as hipóteses de fibroepitelioma de Pinkus, MC de tumor pulmonar primário, cisto pilonidal e melanoma amelanótico.
A biópsia e o exame anatomopatológico da lesão evidenciaram neoplasia indiferenciada de padrão epitelioide infiltrando difusamente a derme, com comprometimento perineural e angiolinfático (Figura 3). A imuno-histoquímica do fragmento cutâneo revelou aspectos morfológicos compatíveis com adenocarcinoma pulmonar primário (Figura 4).
O paciente segue em acompanhamento no serviço de oncologia clínica.
Figura 2: Dermatoscopia (DermLite DL5, aumento de 10×): lesão de fundo rosado, com áreas amorfas e estrias esbranquiçadas entremeadas por telangiectasias, localizada em região lombossacra
Figura 1:Tumoração eritematosa
DISCUSSÃO
A MC é uma entidade clínica rara em pacientes oncológicos, e pode representar uma manifestação inicial de uma neoplasia clinicamente silenciosa ou indicar uma recidiva tumoral.6,8 Na maioria dos casos, as lesões cutâneas metastáticas surgem ao final do curso da doença primária e estão associadas a um prognóstico ruim.7 A faixa etária com maior incidência de MC situa-se entre 50 e 70 anos e tende a ocorrer, em média, 5 anos após odiagnóstico inicial.5
Os tumores primários mais frequentemente associados a MCs incluem o câncer de mama, o câncer de pulmão e o melanoma, sendo o primeiro o mais prevalente no sexo feminino e o segundo o mais prevalente no sexo masculino.10 A disseminação para a pele pode ocorrer por via hematogênica, linfática, por expansão direta ou após procedimentos cirúrgicos.7
Até 12% dos pacientes com neoplasia pulmonar podem desenvolver lesões metastáticas cutâneas, sendo os locais mais comuns o tórax, o abdome, a cabeça e o pescoço.1,9 No presente caso, a lesão se encontrava na região lombossacra. O tipo histológico mais comum de carcinoma pulmonar que metastiza para a pele é o adenocarcinoma, seguido pelo carcinoma de células escamosas e então pelo de pequenas e grandes células.8
Clinicamente as MCs podem mimetizar diversas dermatoses, apresentando-se como máculas, placas, nódulos, bolhas ou
tumores. Podem ser assintomáticas ou associadas a dor, queimação, prurido e sensibilidade local.6,8
Em geral, as lesões decorrentes de tumores pulmonares primários apresentam-se como nódulos subcutâneos normocrômicos ou discretamente eritematosos, endurecidos e aderidos a planos profundos; na maioria dos casos, aparecem como lesões solitárias,10 como aconteceu no presente caso.
Devido à semelhança com inúmeras dermatoses,10 o diagnóstico é desafiador e depende de um exame clínico completo, com anamnese detalhada associada ao exame anatomopatológico e à imuno-histoquímica para definir o subtipo do tumor primário. As características histopatológicas das metástases tendem a se assemelhar às do tumor primário, porém mais anaplásicas.13
Na maioria dos casos, o tratamento é direcionado ao tumor primário, sendo a terapia antineoplásica sistêmica a abordagem de escolha. Entretanto, em alguns casos, pode-se utilizar terapias adjuvantes, como eletroquimioterapia, terapia fotodinâmica, radioterapia, terapia intralesional e terapia tópica, além de ressecção nos casos de lesões únicas.10-13
Embora pouco frequentes, as MCs podem preceder o diagnóstico de tumores primários ainda não identificados. Assim, odermatologista deve estar sempre atento a essa suspeição, principalmente em pacientes com histórico de neoplasias. l
Figurae 3: Adenocarcinoma infiltrando a derme (HE, 200×).
Figura 4: Adenocarcinoma com positividade nuclear para o marcador TTF-1 (Imuno-histoquímica, 200×).
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CONTRIBUIÇÃO
DOS AUTORES:
Ana Vitoria Lins de Paiva Antunes
0000-0002-5171-245X
Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Clarissa Brito de Farias 0009-0009-5395-045X
Concepção e planejamento do estudo, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica do manuscrito.
Luciana Cavalcante Trindade 0000-0002-0643-1093
Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Kamila Pascoal Magno do Nascimento 0000-0002-2793-0174
Aprovação da versão final do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
O tumor de Bednar é uma variante rara do dermatofibrossarcoma protuberans. Paciente mulher, 45 anos, apresentava mácula azulada em crescimento no ombro. A biópsia mostrou neoplasia fusocelular pigmentada, com imunohistoquímica positiva para CD34 e negativa para S100 e SOX-10. Realizou-se exérese cirúrgica com mapeamento de margens. O tratamento cirúrgico com controle de margens é o padrão-ouro para o manejo do tumor de Bednar. A técnica garante ressecção completa, com resultados comparáveis aos da cirurgia micrográfica de Mohs. O caso destaca a importância da suspeição clínica em lesões cutâneas hiperpigmentadas atípicas.
1 Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais, Dermatologia, Belo Horizonte (MG), Brasil
2 Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais, Cirurgia Geral, Belo Horizonte (MG), Brasil
3 Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais, Cirurgia Oncológica, Belo Horizonte (MG), Brasil
ABSTRACT
Bednar tumor is a rare variant of dermatofibrosarcoma protuberans. A 45-year-old woman presented with a progressively enlarging bluish macule on the shoulder. Biopsy revealed a pigmented spindle cell neoplasm, with immunohistochemistry positive for CD34 and negative for S100 and SOX-10. Surgical excision with margin mapping was performed. Surgical treatment with margin control is the gold standard for the management of Bednar tumor. This technique ensures complete resection, with outcomes comparable to those of Mohs micrographic surgery. This case highlights the importance of clinical suspicion in atypical hyperpigmented skin lesions.
O dermatofibrossarcoma protuberans (DFSP) é uma neoplasia cutânea rara de origem dérmica, caracterizada por crescimento lento, comportamento localmente agressivo e elevada taxa de recorrência, embora apresente baixo potencial metastático.1-4 Representa aproximadamente 1% das malignidades cutâneas1,2 e menos de 2% de todos os sarcomas,3 acometendo mais frequentemente adultos jovens e de meia-idade, mas podendo ocorrer desde a infância até a idade avançada.1,5 As localizações mais comuns incluem tronco, ombros e extremidades proximais,4,6 sendo menos frequente na cabeça e pescoço.7
Diversas variantes histológicas do DFSP têm sido descritas, incluindo as formas atrófica, fibrossarcomatosa, fibroblastomatosa gigante, mixoide e pigmentada.3,4 Esta última, conhecida como tumor de Bednar, foi descrita pela primeira vez por Bednar, em 1957, sob o termo neurofibroma estoriforme.1-3,7 Trata-se de uma apresentação incomum, responsável por menos de 5% de todos os casos de DFSP,1-4,7 caracterizada pela presença de melanócitos dendríticos contendo melanina dispersos entre células fusiformes em padrão estoriforme.3,4,7
Clinicamente, o tumor de Bednar apresenta-se, em geral, como um nódulo ou placa de coloração hipercrômica, o que pode levar à confusão diagnóstica com outras lesões pigmentadas, como melanoma maligno desmoplásico, nevo azul, neurofibroma pigmentado e schwannoma melanótico.1,3,4 O diagnóstico definitivo requer avaliação histopatológica associada a estudo imuno-histoquímico,1,4,7 que auxilia na diferenciação dessas entidades.
RELATO DE CASO
Paciente mulher, 45 anos, sem histórico pessoal ou familiar de neoplasias cutâneas, procurou atendimento ambulatorial de dermatologia em fevereiro de 2025 com queixa de uma mácula azulada, com bordas bem delimitadas, indolor, em crescimento no ombro esquerdo. Ela não soube informar quando a lesão surgiu.
Perante o quadro clínico e a queixa de crescimento da lesão, optou-se pela realização de uma biópsia cutânea com punch de 4 mm (Figura 1) para exame histopatológico, que mostrou uma neoplasia fusocelular sugestiva de origem fibro-histiocítica, com componente de pigmento melânico, atingindo as margens cirúrgicas radiais e profunda.
O estudo imuno-histoquímico complementar foi indicado para melhor definição do diagnóstico. O painel de anticorpos utilizado no estudo mostrou positividade difusa para CD34 e foi negativo para CD10/56C6, D2-40, S100 e SOX-10 (Figuras 2, 3 e 4).
Diante desses achados, optou-se pela exérese da lesão utilizando a técnica em espaguete (spaghetti technique), descrita por Gaudy Marqueste em 1911.8 Nessa abordagem, a lesão tumoral é mantida no centro e, ao seu redor, são retirados segmentos periféricos finos e sequenciais, devidamente marcados conforme sua posição anatômica e enviados para análise histopatológica individualizada para avaliação das margens radiais e profundas.
No presente caso, o remanescente tumoral foi mantido ao centro, sendo delimitada uma margem de 2 cm para a exérese de um fragmento periférico de 1 cm de largura (Figuras 5 e 6). Esse fragmento foi dividido e marcado em quatro quadrantes para avaliação microscópica das margens cirúrgicas.
Após a análise histopatológica, confirmou-se que as margens radiais e profundas se encontravam livres de comprometimento tumoral. Em seguida, foi realizada a exérese do remanescente tumoral, incluindo a pele adjacente correspondente à margem de segurança previamente delimitada. Optou-se pelo fechamento com retalho de rotação, considerando a localização anatômica e a necessidade de cobertura com tecido adjacente de similar textura e coloração (Figuras 7 e 8).
O resultado da exérese final da lesão foi um fragmento arredondado de pele de coloração acinzentada, medindo 4,5 × 3,5 × 0,8 cm e exibindo uma lesão centralizada e ulcerada que media 2,7 × 2,5 cm. Conclui-se que os achados eram sugestivos de DFSP.
Figura 1: Remanescente da lesão após biópsia com punch de 4 mm
Figura 2: Imuno-histoquímica negativa para S100 e SOX-10
Fonte: Laboratório do Centro Especializado em Anatomia Patológica (CEAP)
Figura 3: Imuno-histoquímica apresentando positividade difusa para CD34
Fonte: Laboratório do Centro Especializado em Anatomia Patológica (CEAP)
DISCUSSÃO
O tumor de Bednar é uma variante rara do DFSP, caracterizada pela presença de melanina e células dendríticas fusiformes no estroma tumoral.7 Trata-se de uma neoplasia de crescimento lento e baixo potencial metastático, porém com alto risco
Figura 4: Marcação cirúrgica conforme a técnica em espaguete (spaghetti technique), descrita por Gaudy Marqueste em 1911
de recorrência local quando não ressecada adequadamente.6
O aspecto clínico observado na paciente — mácula azulada, indolor e em crescimento progressivo — evidencia a dificuldade diagnóstica dessa variante, que pode ser confundida com nevo azul, dermatofibroma pigmentado, melanoma desmoplásico ou feohifomicose.1-4 O exame histopatológico associado à imuno-histoquímica é fundamental para o diagnóstico, sendo característico o padrão CD34 positivo e S100/SOX-10 negativos, o que confirma a origem fibro-histiocítica da neoplasia.5,7
A exérese cirúrgica com mapeamento de margens é eficaz para garantir a ressecção completa, embora a cirurgia micrográfica de Mohs permaneça como padrão-ouro no tratamento.9,10 Estudos demonstram que o controle histológico das margens reduz significativamente a taxa de recidiva local em comparação à excisão convencional.10
No presente caso, utilizou-se a técnica em espaguete (spaghetti technique), na qual a lesão principal é inicialmente mantida in situ, e segmentos periféricos de tecido (“spaghetti-like”) são retirados em torno da lesão e enviados separadamente para análise histopatológica a fim de determinar a presença de células tumorais nas margens. Após a confirmação de margens livres, realiza-se a exérese definitiva da lesão central. Como desvantagem, o método requer pelo menos dois tempos cirúrgicos, o que pode
Figura 5: Fragmento de 1 cm de largura enviado para análise histopatológica
Figura 6: Resultado imediato após fechamento com retalho de rotação
aumentar o risco de complicações locais e prolongar o tempo de cicatrização.11
O fechamento com retalho de rotação foi escolhido devido à localização no ombro, permitindo preservar função e estética. Reconstruções locais são frequentemente necessárias, considerando as margens amplas recomendadas (geralmente entre 2 e 4 cm).12
Devido à raridade e às características clínicas pouco específicas do tumor de Bednar, seu reconhecimento requer alto grau de suspeição clínica e confirmação histopatológica precisa. O relato de novos casos e a revisão contínua da literatura são fundamentais para o aprimoramento do entendimento sobre o
comportamento biológico e a conduta terapêutica dessa neoplasia rara.
CONCLUSÃO
O tumor de Bednar é uma neoplasia cutânea rara, de baixo potencial metastático, mas com alto risco de recorrência local. O diagnóstico precoce, aliado ao estudo histopatológico e imuno-histoquímico adequado, é crucial para o manejo eficaz. A ressecção cirúrgica completa, preferencialmente com controle de margens, constitui o tratamento de escolha. Este caso reforça a importância do acompanhamento contínuo de lesões pigmentadas e da adoção de técnicas cirúrgicas seguras para prevenção de recorrências. l
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CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Fernanda Guimarães Lopes
0000-0003-1665-6437
Análise estatística, Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Juliana Cristina Silva Fraga
0000-0002-1593-8742
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Mariana Campos Souza Menezes
0000-0002-7727-6430
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Ana Karen Alves
0009-0002-8709-3910
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
André Rossetti Portela
0000-0002-7040-8138
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
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Rede pigmentar invertida e sua importância
no diagnóstico do melanoma: relato de caso
Negative pigment network and its importance in the diagnosis of melanoma: a case report
A “rede pigmentar invertida” é uma característica dermatoscópica encontrada nos melanomas, nevos melanocíticos e dermatofibromas; contudo, estudos indicam que é mais frequente nos melanomas. O objetivo deste relato de caso é ressaltar a rede pigmentar invertida como uma pista importante para o diagnóstico de melanoma e que sua presença, mesmo sem outros achados dermatoscópicos típicos de melanoma, deve apontar para a uma investigação mais aprofundada, seguida de biópsia para a confirmação do diagnóstico.
The “negative pigment network” is a dermoscopic feature observed in melanomas, melanocytic nevi, and dermatofibromas; however, studies indicate that it is more frequently associated with melanoma. The aim of this case report is to highlight the negative pigment network as an important clue in the diagnosis of melanoma and that its presence, even in the absence of other typical dermoscopic features of melanoma, should prompt further investigation followed by biopsy to confirm the diagnosis.
Keywords: Melanoma; Dermoscopy; Diagnosis
1 Clínica Privada, Rio de Janeiro (RJ), Brasil
2 Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP-Ebserh), Niterói (RJ), Brasil
3 Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro (RJ), Brasil
4 Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro (RJ), Brasil
Correspondência:
Mariana Freitas de Assis Pereira
Rosa E-mail: marianafaprosa@ufrj.br
Fonte de financiamento: Não Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 31/10/2025 Decisão final: 21/12/2025
Como citar este artigo: Rosa MFAP, Athayde CAF, Verardino GC, Lima RB. Rede pigmentar invertida e sua importância no diagnóstico do melanoma: relato de caso. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260535.
INTRODUÇÃO
O aspecto dermatoscópico descrito como “rede pigmentar invertida” (RPI), introduzido por Menzies et al. em 1996, consiste em linhas claras serpiginosas e interconectadas, entremeadas em forma de malha, com áreas escuras preenchendo os espaços entre elas. Esse achado é visto como o inverso da rede pigmentar, sendo chamado na língua inglesa de “negative pigment network” (rede pigmentar negativa, em tradução livre).1 Sua presença pode ser detectada nos melanomas, nevos melanocíticos congênitos e adquiridos, nevos de Spitz e dermatofibromas. No entanto, a RPI tem sido um importante critério dermatoscópico no diagnóstico de melanoma devido à sua alta especificidade (77,4%), apesar da baixa sensibilidade (34,6%).1,2 Relatamos o caso de um paciente em que a RPI foi o principal achado dermatoscópico indicativo de melanoma em uma lesão sem outras estruturas características de melanoma.
RELATO DO CASO
Paciente do sexo masculino, 71 anos de idade, compareceu à consulta devido a área eritemato-infiltrada, quente e dolorosa na perna esquerda após trauma no local, compatível com celulite. Foi realizado um exame dermatológico do corpo inteiro e, na panturrilha direita, identificou-se pápula ovalar de bordas regulares com uma área acastanhada e uma área eritematosa mais elevada, de superfície finamente granulosa, medindo 8 mm no maior eixo (Figura 1-2). Na dermatoscopia, observou-se padrão predominante de RPI, com áreas de coloração castanha e áreas eritematosas. Entre as linhas reticulares brancas, notavam-se estruturas globulares acastanhadas e vasos puntiformes (Figura 3). Diante do aspecto clínico e dermatoscópico, a principal hi-
pótese foi de melanoma e procedeu-se a biópsia excisional com margem de 2 mm em sentido longitudinal. O exame histopatológico revelou um melanoma invasivo, com nível de Clark III e espessura de Breslow de 0,6 mm (Figura 4). Com isso, o paciente foi encaminhado para a ampliação das margens.
DISCUSSÃO
A RPI é uma estrutura dermatoscópica encontrada em lesões melanocíticas e não melanocíticas, que favorece o diagnóstico de melanoma. Em um estudo com 679 pacientes avaliando a frequência e as características da RPI em uma população de melanomas, nevos de Spitz e lesões não melanocíticas, Pizzichetta et al. observaram que essa característica dermatoscópica foi significativamente mais frequente em melanomas (34.6%) do que em nevos de Spitz (28.8%), nevos melanocíticos (18.2%) e dermatofibromas (11.3%).2 Em uma revisão de 401 melanomas, a RPI foi frequentemente encontrada em melanomas que não apresentavam características dermatoscópicas típicas, indicando que a RPI pode ser uma pista diagnóstica útil em casos desafiadores.1 Da mesma forma, nos melanomas associados a nevos, sem o componente névico clinicamente evidente, a RPI também pode apontar para o diagnóstico.1,3
No presente caso, o aspecto clínico da lesão do paciente apresentava assimetria e alterações de cor sutis, que não possibilitavam um diagnóstico clínico assertivo de melanoma. Entretanto, na dermatoscopia, a RPI chamou a atenção para o diagnóstico de melanoma mesmo na ausência de outras características mais clássicas do melanoma, como a rede pigmentar atípica, o véu bran-
Figura 1: Pápula ovalar na panturrilha direita
Figura 2: No maior detalhe, nota-se área acastanhada e área eritematosa elevada
Figura 3: Dermatoscopia evidenciando padrão predominante de rede pigmentar invertida. Entre as linhas reticulares brancas, observam-se estruturas globulares acastanhadas nas áreas pigmentadas e vasos puntiformes nas áreas eritematosas
Figura 4: Melanoma invasivo (nível de Clark III), com espessura de Breslow de 0,6 mm. Epiderme exibindo proliferação de melanócitos atípicos, dispostos isoladamente ou em ninhos na junção dermoepidémica e acima dela, estendendo-se e preenchendo a derme papilar, que se encontra espessada (hematoxilina e eosina, 100x)
co-azulado, os pseudópodes e as estrias radiais. Este relato de caso ressalta a importância da RPI como uma característica dermatoscópica na avaliação clínica de lesões cutâneas pigmentadas.2
A presença da RPI, particularmente quando distribuída irregularmente ou localizada perifericamente, associada a outras características dermatoscópicas, como pigmentação assimétrica e um padrão multicomponente, pode aumentar a precisão diagnóstica do melanoma. Nos melanomas, a RPI é constantemente heterogênea, com linhas claras mais espessas englobando áreas poligonais pigmentadas de diferentes tamanhos, podendo ocupar menos de 20% da área lesional.1 Nas lesões melanocíticas spitzoides, incluindo melanoma spitzoide, a RPI é mais aparente nas lesões maiores que 5 mm, que apresentam linhas brancas brilhantes e vasos puntiformes nas áreas globulares, sendo que a presença de véu branco-azulado pode dificultar a percepção da RPI, devido a redução do contraste de cores.4 No caso relatado, a RPI distribuía-se irregularmente, junto a mais de um tom de cor na lesão e a um padrão vascular puntiforme, fortalecendo a suspeita diagnóstica, conforme estudos anteriores.1,2,4
A RPI pode estar associada aos melanomas invasivos.1,5 Em um estudo retrospectivo de 269 lesões melanocíticas buscando determinar preditores dermatoscópicos de melanoma em lesões de diâmetro menor ou igual a 5 mm (mini-melanomas), a presença da RPI ou de um véu branco-azulado associou-se às lesões invasivas.5 No presente caso, apesar de medir mais do que 5 mm, o que pode ter auxiliado a visualização da RPI, a lesão também estava relacionada à invasão da derme. Portanto, o reconhecimento da RPI na avaliação dermatoscópica pode ser considerado um sinal de alerta no diagnóstico de melanoma e na prevenção da evolução a graus avançados de invasão. Os estudos com microscopia confocal permitem associar os componentes dermatoscópicos a achados histopatológicos da RPI. Farnetani et al. observaram que, nas lesões melanocíticas, as linhas hipopigmentadas da RPI correspondem às cristas epidérmicas alargadas, com depressões superficiais sobrejacentes e hipergranulose em forma de cunha, enquanto as áreas pigmentadas entre as linhas se correlacionam com uma proliferação predominantemente juncional de melanócitos ao longo e entre as cristas alongadas. Além disso, destacaram uma diferença clínica importante entre os melanomas e os nevos com RPI. Os melanomas tendem a ocorrer em pacientes mais velhos,6 como observado em nosso caso.
CONCLUSÃO
A presença da RPI pode aumentar a probabilidade de um diagnóstico de melanoma, e a sua identificação durante o exame dermatoscópico deve levar a uma investigação mais aprofundada ou biópsia para confirmação do diagnóstico.1,2 Além disso, este relato de caso ilustra a importância do exame dermatológico corporal completo, independente do motivo da consulta do paciente. No presente caso, o motivo da consulta foi uma celulite e, por meio do exame completo, foi possível detectar uma neoplasia altamente agressiva em uma fase de menor morbidade, passível de cura pela cirurgia, em virtude do achado da RPI na dermatoscopia. l
REFERÊNCIAS:
1. Bassoli S, Ferrari C, Borsari S. Negative pigment network identifies a peculiar melanoma subtype and represents a clue to melanoma diagnosis: a dermoscopic study of 401 melanomas. Acta Derm Venereol. 2013;93(6):650-5.
2. Pizzichetta MA, Talamini R, Marghoob AA. Negative pigment network: an additional dermoscopic feature for the diagnosis of melanoma. J Am Acad Dermatol 2013;68(4):552-9.
3. Reiter O, Kurtansky N, Nanda JK, Busam KJ, Scope A, Musthaq S, et al. The differences in clinical and dermoscopic features between in situ and invasive nevus‐ associated melanomas and de novo melanomas. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2021;35(5):1111–8.
4. Spadafora M, Farnetani F, Borsari S, Kaleci S, Porat D, Ciardo S, et al. Clinical, dermoscopic and reflectance confocal microscopy characteristics associated with the presence of negative pigment network among spitzoid neoplasms. Exp Dermatol. 2025;34(8).
5. Nazzaro G, Maronese CA, Casazza G. Dermoscopic predictors of melanoma in small diameter melanocytic lesions (mini-melanoma): a retrospective multicentric study of 269 cases. Int J Dermatol. 2023;62(8):1040-9.
6. Farnetani F, Scope A, Mazzoni L, Mandel VD, Manfredini M, Magi S, et al. A comparative dermoscopic and reflectance confocal microscopy study of naevi and melanoma with negative pigment network. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2019;33(12):2273–82.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Mariana Freitas de Assis Pereira Rosa 0000-0002-8422-5332
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Carlos Arthur de Figueiredo Athayde
0009-0003-0169-2264
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Gustavo Costa Verardino 0000-0002-1212-3273
Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Ricardo Barbosa Lima 0000-0002-4297-3236
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito;
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Terapia com cemiplimabe para úlcera de Marjolin decorrente de foliculite decalvante: relato de caso
Cemiplimab therapy for Marjolin ulcer arising in folliculitis decalvans: a case report
A transformação maligna da foliculite decalvante (FD) em carcinoma espinocelular (CEC) é rara, porém relevante pela gravidade da evolução clínica. Relatamos o caso de um homem de 53 anos,Testemunha de Jeová, com histórico prolongado de FD que evoluiu para CEC metastático de couro cabeludo, de progressão rápida. Devido à recusa cirúrgica, iniciou-se monoterapia com cemiplimabe (inibidor de PD-1), obtendo-se resolução completa da neoplasia em 12 semanas. Este caso ressalta o risco de transformação maligna em dermatoses inflamatórias crônicas e aponta o cemiplimabe como alternativa terapêutica eficaz para CEC avançado em situações em que a ressecção cirúrgica é inviável.
Palavras-chave: Carcinoma de Células Escamosas; Úlcera Cutânea; Alopecia; Inibidores de Checkpoint Imunológico; Cicatriz; Neoplasias Cutâneas
Relato de Caso
Authors:
Leticia Midori Kondo Iwamoto1
Flavia Rodrigues Dias2
Otavio Augusto Noschang Moreira3
Helio Amante Miot3
Ana Claudia Athanasio Shwetz1,3
1 Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná, Dermatologia, Piraquara (PR), Brasil
2 Sinclair Dermatology, Trichology, East Melbourne, Victoria, Austrália
3 Private practice, Curitiba (PR), Brasil
ABSTRACT
Malignant transformation of folliculitis decalvans (FD) into squamous cell carcinoma (SCC) is rare but relevant due to its aggressive clinical course.We report the case of a 53-year-old man, a Jehovah’s Witness, with a long-standing history of FD who developed rapidly progressive metastatic scalp SCC. Due to refusal of surgery, cemiplimab monotherapy (a PD-1 inhibitor) was initiated, resulting in complete resolution of the neoplasm within 12 weeks. This case highlights the risk of malignant transformation in chronic inflammatory dermatoses and suggests cemiplimab as an effective treatment option for advanced SCC when surgical resection is not feasible.
Data de submissão: 28/10/2025 Decisão final: 26/12/2025
Como citar este artigo: Iwamoto LMK, Dias FR, Moreira OAN, Miot HA, Shwetz ACA. Terapia com cemiplimabe para úlcera de Marjolin decorrente de foliculite decalvante: relato de caso. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260531.
Iwamoto LMK, Dias FR, Moreira OAN, Miot HA, Shwetz ACA.
INTRODUÇÃO
A foliculite decalvante (FD) é uma alopecia cicatricial neutrofílica rara, caracterizada por inflamação perifolicular, pústulas e fibrose progressiva, em geral de difícil manejo e resultando em cicatrizes.1 A úlcera de Marjolin (UM) é uma neoplasia cutânea rara que surge em cicatrizes e feridas crônicas, sendo o carcinoma espinocelular (CEC) o tipo histológico mais comumente identificado.2 O CEC é mais frequentemente associado a queimaduras profundas e sua ocorrência no contexto da FD é extremamente incomum.1,2 O tratamento da UM geralmente envolve excisão cirúrgica ampla associada a terapias adjuvantes.3 Relatamos um caso de CEC avançado decorrente de FD crônica, tratado com sucesso com cemiplimabe em monoterapia, ressaltando suas implicações clínicas.
RELATO DE CASO
Homem, 53 anos, Testemunha de Jeová, em tratamento para FD com doxiciclina há 4 anos, apresentava lesão nodular friável e sangrante no couro cabeludo, com crescimento rápido em 2 meses (Figura 1). Ao exame físico, observou-se linfonodomegalia cervical e supraclavicular palpável. A análise histopato-
lógica confirmou CEC invasivo, ulcerado e bem diferenciado. A ressonância magnética revelou lesão infiltrativa envolvendo derme, tecido subcutâneo e gálea aponeurótica, com proximidade ao crânio (Figura 2). A tomografia por emissão de pósitrons (PET) identificou linfonodomegalia cervical e supraclavicular, indicando metástases não regionais. O tumor foi classificado como CEC estágio IV (T4N1/N2M0), de acordo com o sistema de estadiamento da 8ª edição do American Joint Committee on Cancer (AJCC).
Devido à recusa cirúrgica por motivos religiosos e à evidência de metástases ósseas e linfonodais, iniciou-se tratamento com cemiplimabe (350 mg intravenoso a cada 3 semanas). Após 12 semanas, observou-se resolução clínica e radiológica completa (Figuras 3 e 4), com PET demonstrando ausência de atividade hipermetabólica na lesão do couro cabeludo e linfonodos estáveis.
DISCUSSÃO
Descrita em 1828 por Jean Nicolas Marjolin, a UM é uma neoplasia agressiva classicamente originada em cicatrizes de
Figura 1: Nódulo ulcerado de aspecto friável e sangrante na avaliação inicial
Figura 2: Ressonância magnética antes do início do tratamento mostrando massa hiperecogênica irregular, infiltrando no couro cabeludo até a gálea aponeurótica
Figura 3: Área cicatricial em mesma região anatômica da neoplasia prévia na 12ª semana após início do tratamento com cemiplimabe
Figura 4: Ressonância magnética antes do início do tratamento mostrando massa hiperecogênica irregular, infiltrando no couro cabeludo até a gálea aponeurótica
queimaduras.4 Outras patologias, como hidradenite supurativa, úlceras de pressão, úlceras venosas e infecções por HPV, também foram descritas como fatores de risco.1,2 A inflamação crônica aumenta o risco de carcinogênese cutânea, pois a produção contínua de citocinas pró-inflamatórias e o remodelamento tecidual promovem um microambiente favorável à transformação maligna.2 Além disso, áreas de cicatrizes crônicas podem perder células do sistema imunológico, dificultando a vigilância imunológica e favorecendo a agressividade e a propensão à metástase.2 Entretanto, há poucos relatos de UM surgindo no contexto de alopecias cicatriciais.1
A suspeita de UM deve ser levantada diante de uma lesão endurecida, de má cicatrização, crescimento rápido e odor fétido, com bordas elevadas e infiltradas, geralmente localizada em áreas de feridas ou cicatrizes crônicas.2 Outros sinais incluem tecido de granulação exofítico, sangramento local e linfonodomegalia regional.2
O tratamento da UM geralmente envolve excisão cirúrgica ampla com dissecção linfática, podendo-se considerar radioterapia ou quimioterapia adjuvantes.3 O cemiplimabe, um inibidor de PD-1 de alta afinidade, consiste em uma imunote-
rapia aprovada pela U.S. Food and Drug Administration (FDA) e pela European Medicines Agency (EMA), sendo indicado para pacientes com CEC metastático ou localmente avançado não candidatos à cirurgia curativa ou radioterapia.5 Ensaios clínicos demonstraram resposta antitumoral rápida e substancial, com perfil de segurança aceitável.5
No presente caso, o cemiplimabe foi uma alternativa eficaz e bem tolerada, resultando em resposta completa.
CONCLUSÃO
No presente caso de um paciente com CEC em estágio IV que recusou terapias invasivas por convicções religiosas, o tratamento com cemiplimabe foi escolhido como alternativa e resultou em resposta completa. Este relato enfatiza a importância do acompanhamento clínico rigoroso e da biópsia precoce de lesões suspeitas em pacientes com doenças inflamatórias crônicas do couro cabeludo, devido ao risco de transformação maligna. O cemiplimabe demonstrou eficácia neste caso de CEC avançado, reforçando o papel da imunoterapia em neoplasias cutâneas metastáticas ou irressecáveis, quando a intervenção cirúrgica não é viável. l
Shwetz ACA.
REFERÊNCIAS:
1. McMullen E, Maazi M, Te B, Donovan J. Folliculitis decalvans as a potential risk factor for cutaneous malignancy. Int J Dermatol. 2024;63(9):e223-4.
2. Bazaliński D, Przybek-Mita J, Barańska B, Więch P. Marjolin's ulcer in chronic wounds - review of available literature. Contemp Oncol (Pozn). 2017;21(3):197-202.
3. Aydogdu E, Yildirim S, Aköz T. Is surgery an effective and adequate treatment in advanced Marjolin’s ulcer? Burns. 2005;31(4):421-31.
4. Cruickshank AH, McConnell EM, Miller DG. Malignancy in scars, chronic ulcers, and sinuses. J Clin Pathol. 1963;16(6):573-80.
5. Migden MR, Rischin D, Schmults CD, Guminski A, Hauschild A, Lewis KD, et al. PD-1 blockade with cemiplimab in advanced cutaneous squamous-cell carcinoma. N Engl J Med. 2018;379(4):341-51.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Leticia Midori Kondo Iwamoto
0009-0001-5080-4619
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Flavia Rodrigues Dias 0009-0008-0821-3656
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Otavio Augusto Noschang Moreira
Aprovação da versão final do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura.
Helio Amante Miot
0000-0002-2596-9294
Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura.
Ana Claudia Athanasio Shwetz
0000-0002-9373-5019
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
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Tricotemnomania na alopecia androgenética: relato de caso
Trichotemnomania in androgenetic alopecia: a case report
Relato de Caso
Autores:
Diana Coello Bonilla1
Giovanna Gelli Carrascoza1
Gabrielle Cassulo Franciscatti2
Maria Victória Quaresma1
1 Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Dermatologia, São Paulo (SP), Brasil
A tricotemnomania é um transtorno obsessivo-compulsivo raro e pouco reconhecido, caracterizado pelo corte repetitivo dos cabelos. Sua apresentação clínica pode se assemelhar a outros distúrbios capilares, frequentemente resultando em diagnósticos equivocados e tratamentos desnecessários. Relatamos o caso de um homem de 25 anos com rarefação capilar. A tricoscopia evidenciou áreas com fios miniaturizados e hastes com diâmetros heterogêneos, compatíveis com alopecia androgenética, adjacentes a áreas irregulares com fios uniformemente curtos e de extremidades rombas, sugestivos de corte mecânico. A anamnese detalhada confirmou a coexistência de tricotemnomania, sustentada pelo relato do paciente de uso recorrente e deliberado de lâmina para cortar os cabelos. Palavras-chave: Alopecia; Doenças do Cabelo; Transtorno Obsessivo-Compulsivo
2 Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo (SP), Brasil
ABSTRACT
Trichotemnomania is a rare, underrecognized obsessive-compulsive disorder characterized by repetitive cutting of hair. Its clinical presentation may mimic other hair disorders, often leading to misdiagnosis and unnecessary treatments. We report the case of a 25-year-old man presenting with scalp hair thinning. Trichoscopy revealed areas of miniaturized hairs with heterogeneous shaft diameters, consistent with androgenetic alopecia, adjacent to irregular patches of uniformly short hairs with blunt ends, suggestive of mechanical trimming. Detailed history-taking confirmed the coexistence of trichotemnomania, supported by the patient’s report of recurrent and deliberate use of a razor to cut his hair. Keywords: Alopecia; Hair Diseases; Obsessive-Compulsive Disorder
How to cite this article: Bonilha DC, Carrascoza GG, Franciscatti GC, Quaresma MV. Trichotemnomania in androgenetic alopecia: a case report. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260443.
A tricotemnomania é um comportamento do espectro obsessivo-compulsivo caracterizado pelo corte recorrente dos cabelos com tesoura ou lâmina.1 O termo deriva do grego thrix (cabelo), temnein (cortar) e mania (loucura). Trata-se de uma condição rara e frequentemente pouco reconhecida, que se manifesta como alopecia autoinduzida decorrente do corte ou raspagem habitual dos fios. Embora não seja totalmente voluntário, esse comportamento geralmente é motivado por um impulso de alívio do estresse, e os pacientes podem relutar em revelá-lo.2
Devido ao seu reconhecimento limitado na prática dermatológica, a tricotemnomania é frequentemente diagnosticada de forma equivocada como alopecia, especialmente alopecia areata ou tricotilomania 3 Pode ocorrer de forma isolada ou associada a outras doenças do cabelo
Relatamos um caso de tricotemnomania associada à alopecia androgenética (AAG), destacando seus aspectos clínicos, tricoscópicos e histopatológicos, e enfatizando a importância de considerar essa entidade no diagnóstico diferencial das alopecias
RELATO DE CASO
Homem, 25 anos, com diagnóstico prévio de leucemia linfocítica aguda tratada com transplante de medula óssea há 6 anos, apresentava histórico de queda capilar progressiva havia 2 anos, sem causas identificáveis ou sintomas associados.
Ao exame dermatológico, observaram-se áreas de alopecia não cicatricial com rarefação capilar nas regiões do vértice e frontal, associadas a placas irregulares, bem delimitadas, nas regiões bi-
A
parietais e occipital. A superfície do couro cabeludo apresentava-se normal, e o teste de tração foi negativo (Figura 1a–c).
A tricoscopia evidenciou fios miniaturizados e hastes com diâmetros heterogêneos, compatíveis com AAG. Adicionalmente, observaram-se fios curtos de comprimento uniforme e com extremidades rombas, sugerindo a coexistência de um processo mecânico de corte. Não foram identificados fios quebrados, pontos pretos ou sinais de inflamação perifolicular (Figura 1d).
Exames laboratoriais, incluindo sorologias para HIV e sífilis, foram negativos. O exame histopatológico da biópsia do couro cabeludo na região occipital revelou arquitetura epidérmica preservada, com presença de folículos terminais e velos, sem evidência de inflamação, fibrose ou cicatrização (Figura 1e–f).
Em avaliações subsequentes, o paciente relatou o uso de produtos sintéticos para disfarçar áreas de alopecia e admitiu o hábito de raspar frequentemente os cabelos com lâmina, além do uso de produtos para coloração capilar. Os achados clínicos, histopatológicos e tricoscópicos sustentaram o diagnóstico de tricotemnomania sobreposta à AAG
O paciente foi orientado a suspender a raspagem dos cabelos até reavaliação. Após 3 semanas, observou-se aumento da densidade capilar nas áreas previamente acometidas, corroborando o diagnóstico de tricotemnomania (Figura 2). O paciente não retornou para seguimento dermatológico posterior.
DISCUSSÃO
A tricotemnomania é um transtorno raro do espectro obsessivo-compulsivo, caracterizado pelo corte ou raspagem
D B E C F
Figura 1: Tricotemnomania. Apresentação clínica inicial (a, b, c). Tricoscopia evidenciando fios curtos com extremidades rombas e regulares, além de heterogeneidade no diâmetro das hastes, com alguns fios finos em todas as áreas de alopecia (dermatoscopia manual, ×10) (d). Cortes histológicos longitudinal (e) e transversal (f) do couro cabeludo mostrando epiderme preservada e distribuição normal de folículos velos e terminais, sem sinais de inflamação (hematoxilina e eosina, ×20)
Figura 2: Reavaliação após 3 semanas evidenciando apenas sinais de alopecia androgenética
Tabela 1: Diagnósticos diferenciais da tricotemnomania: achados tricoscópicos e histopatológicos
CONDIÇÃO MECANISMO
Tricotemnomania Corte compulsivo dos cabelos
ACHADOS TRICOSCÓPICOS ACHADOS HISTOPATOLÓGICOS
Fios curtos de comprimento uniforme, com extremidades rombas e bem delimitadas; superfície do couro cabeludo normal
Tricotilomania Arrancamento compulsivo dos cabelos
Alopecia areata Autoimune
Tinea capitis Infecção fúngica (Microsporum, Trichophyton)
Tricoteiromania Coçar ou friccionar compulsivamente o couro cabeludo
Fios quebrados com comprimentos variados; tricoptilose; fios em chama; sinal em “V”; micro-hemorragias foliculares
Pontos amarelos; pontos pretos; fios quebrados; fios velos curtos; fios em ponto de exclamação; fios afilados
Fios em vírgula; fios em saca-rolhas; fios em “código Morse”; fios em zigue-zague; pontos pretos; descamação
Hastes capilares fraturadas; “fios em vassoura”; pontas duplas
recorrente dos próprios cabelos, geralmente como mecanismo de enfrentamento de sofrimento psicológico 1 Embora o couro cabeludo seja o local mais frequentemente acometido, também há relatos de envolvimento de sobrancelhas, cílios, axilas e região pubiana.4 Devido ao caráter parcialmente involuntário ou não reconhecido do comportamento, os pacientes frequentemente negam ou desconhecem sua natureza autoinduzida, contribuindo para o subdiagnóstico.
Arquitetura folicular preservada; infundíbulos preenchidos por hastes capilares; ausência de inflamação ou cicatrização
Tricomalácia; folículos pilosos vazios; pigmentos de melanina; inflamação superficial ⁶
Infiltrado linfocitário peribulbar; aumento de folículos em catágena/telógena 7
Elementos fúngicos nos folículos pilosos; inflamação perifolicular; possível formação de granuloma 9
Estruturas foliculares preservadas; pontas duplas; ausência de inflamação ou cicatrização 10
A condição é frequentemente diagnosticada de forma equivocada como tricotilomania, alopecia areata ou tinea capitis 2 A Tabela 1 resume os principais diagnósticos diferenciais da tricotemnomania. O diagnóstico baseia-se na integração de achados clínicos, tricoscópicos e histopatológicos. Clinicamente, a tricotemnomania se manifesta como placas bem delimitadas contendo fios curtos de comprimento uniforme e com extremidades rombas, cor-
tadas uniformemente, enquanto a superfície do couro cabeludo apresenta-se normal, sem eritema, descamação ou dano folicular 1
A tricoscopia desempenha papel central na investigação da tricotemnomania. Evidencia hastes capilares com extremidades bem definidas e comprimento uniforme, compatíveis com corte mecânico, e não com destruição folicular. Esses achados contrastam com as fraturas irregulares da haste, tricosquise e tricoptilose observadas na tricotilomania, bem como com os fios em ponto de exclamação, pontos amarelos e pontos pretos típicos da alopecia areata 5
Do ponto de vista histopatológico, a biópsia do couro cabeludo na tricotemnomania demonstra arquitetura folicular preservada, com todos os infundíbulos preenchidos por hastes capilares e ausência de inflamação, fibrose ou cicatrização 1 Esse padrão difere do observado na tricotilomania, que pode apresentar folículos vazios, involução folicular (catágena) e alterações traumáticas,6 e na alopecia areata, que tipicamente exibe infiltrado linfocitário peribulbar 7
No presente caso, a tricotemnomania coexistia com AAG. Na AAG, ocorre miniaturização folicular mediada por andrógenos em folículos geneticamente suscetíveis, levando à transformação progressiva de folículos terminais (produtores de fios espessos e pigmentados) em folículos velos (produtores de fios
REFERÊNCIAS:
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3. Gallouj S, Rabhi S, Baybay H, Soughi M, Meziane M, Rammouz I, et al. Trichotemnomanie associée à une trichotillomanie: intérêt diagnostique de la dermoscopie. Ann Dermatol Venereol. 2011;138(3):140-1.
4. Thadchanamoorthy V, Thirukumar M, Dayasiri K, Thamilvannan N, Jeyakumar J. Trichotemnomania in an adolescent girl: a case report of an Asian child and literature review. Case Rep Dermatol Med. 2020;2020:6615250.
5. Rudnicka L, Rakowska A, Kerzeja M, Olszewska M. Hair shafts in trichoscopy: clues for diagnosis of hair and scalp diseases. Dermatol Clin. 2013;31(4):695-708.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:
Diana Coello Bonilla 0009-0005-6503-082X
Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura.
Giovanna Gelli Carrascoza 0009-0002-6431-6090
Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura.
Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Maria Victória Quaresma 0000-0003-2891-1650
finos e curtos). Isso resulta em heterogeneidade das hastes capilares em diferentes estágios de evolução da doença 8 A tricotemnomania não altera esse processo, mas sobrepõe fios uniformemente cortados a esse padrão, podendo dificultar o diagnóstico O manejo da tricotemnomania requer abordagem multidisciplinar envolvendo dermatologistas, psiquiatras e psicólogos, uma vez que o comportamento frequentemente está associado a estresse, ansiedade ou transtornos obsessivo-compulsivos. Educação do paciente, manejo do estresse e terapia comportamental são fundamentais para prevenir recorrências
CONCLUSÃO
Devido ao seu frequente subdiagnóstico, a tricotemnomania deve ser considerada pelos dermatologistas no diagnóstico diferencial de pacientes com rarefação capilar em placas, aberturas foliculares preservadas e fios uniformemente cortados, especialmente quando os achados tricoscópicos e histopatológicos não são compatíveis com alopecia areata ou tricotilomania. Ressalta-se que a tricotemnomania pode coexistir com outras doenças capilares, tornando o quadro clínico mais complexo. O reconhecimento precoce é essencial para evitar intervenções desnecessárias e garantir suporte psicológico e seguimento oportunos. l
6. Bergfeld W, Mulinari-Brenner F, McCarron K, Embi C. The combined utilization of clinical and histological findings in the diagnosis of trichotillomania. J Cutan Pathol. 2002;29(4):207-14.
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