Skip to main content

Janeiro Roxo 2026

Page 1

JANEIRO ROXO 2026:

avanços e desafios no combate à hanseníase no Brasil


Sumário 1. Introdução

8

2. Hanseníase na população brasileira (2014-2024)

10

2.1. Distribuição geográfica – indicadores por região, estado e capitais

10

2.2. Distribuição populacional – características gerais

15

2.3. Sínteses

19

3. Assistência na atenção à hanseníase (2014-2024)

20

3.1. Desdobramentos relacionados à hanseníase

20

3.2. Manifestações da hanseníase

24

3.3. Formas de registro e notificação

25

3.4. Indicador de cura

29

3.5. Evolução do acompanhamento

31

3.6. Sínteses

34

4. Custos e sobrecarga da atenção hospitalar no tratamento da hanseníase no Brasil (2014-2024)

36

4.1. Sínteses

39

5. Considerações finais

40

6. Notas metodológicas

42

6.1. Fonte de dados

42

6.2. Extração e análise dos dados

42

6.3. Indicadores

43

6.4. Parâmetros utilizados

44

7. Referências

46


JANEIRO ROXO 2026: AVANÇOS E DESAFIOS NO COMBATE À HANSENÍASE NO BRASIL Publicação da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) Av. Rio Branco, 39, Centro, Rio de Janeiro – CEP: 20090-000. Tel.: +55 (21) 2253-6747 E-mail: sbd@sbd.org.br Esse volume foi elaborado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), sob a supervisão técnica de seu Departamento de Hanseníase e com apoio editorial da 360° Comunicação Integrada.

DIRETORIA DA SBD Presidente: Carlos Baptista Barcaui (RJ) Vice-Presidente: Lauro Lourival Lopes Filho (PI) Secretária-Geral: Regina Oliveira Carneiro (PA) Tesoureiro: Márcio Soares Serra (RJ) 1ª Secretária: Rosana Lazzarini (SP) 2ª Secretária: Juliana Kida Ikino (SC)

DEPARTAMENTO DE HANSENÍASE DA SBD Carla Andréa Avelar Pires (coordenadora) Egon Luiz Rodrigues Daxbacher Maria Araci Pontes Maria do Carmo Araújo Palmeira Queiroz

EQUIPE 360° COMUNICAÇÃO INTEGRADA Editor-responsável: Paulo Henrique de Souza Editor-executivo: Milton Souza Júnior Epidemiologista: Juleimar S C Amorim, PhD Revisão: Rafaela Carrilho – Selles Comunicação Projeto gráfico, diagramação e capa: Monica Mendes – Selles Comunicação

DIREITOS AUTORAIS © Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD Todos os direitos reservados. É permitida a reprodução parcial deste conteúdo, desde que citada a fonte.

CITAÇÃO RECOMENDADA Sociedade Brasileira de Dermatologia. Janeiro Roxo 2026: avanços e desafios no combate à hanseníase no Brasil. São Paulo: SBD; 2026.


LISTA DE QUADRO Quadro 1. Indicadores populacionais e de serviço da hanseníase

43

LISTA DE TABELAS Tabela 1. Distribuição dos casos, prevalência e incidência de hanseníase no Brasil, por ano de diagnóstico. Brasil, 2014 a 2024

11

Tabela 2. Prevalência (casos novos e recidivas) de hanseníase por 10.000 habitantes, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

12

Tabela 3. Incidência de hanseníase por 100.000 habitantes, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

13

Tabela 4. Distribuição dos casos e desfechos de incapacidade, cura, abandono, recidivas e mortalidade relacionados à hanseníase, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

21

Tabela 5. Características dos contatos registrados e examinados por caso de hanseníase a razão populacional ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

27

Tabela 6. Distribuição dos casos e desfechos de incapacidade, cura, abandono, recidivas e mortalidade relacionados à hanseníase, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

31

Tabela 7. Demandas do serviço hospitalar por hanseníase, custos para o tratamento e mortalidade, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

36

Tabela 8. Demandas do serviço hospitalar por hanseníase, custos para o tratamento e mortalidade, por região geográfica. Brasil, 2014-2024

37

Tabela 9. Demandas do serviço hospitalar por hanseníase, custos para o tratamento e mortalidade, por Unidade da Federação. Brasil, 2014-2024

37

LISTA DE FIGURAS Figura 1. Total de casos de hanseníase e a proporção de variação ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

10

Figura 2. Taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 100 mil habitantes segundo região de residência, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

11

Figura 3. Taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 100 mil habitantes segundo Unidade da Federação e Capital de residência, 2014 e 2024

14

Figura 4. Taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 10 mil habitantes segundo Unidade da Federação, 2014 e 2024

15


Figura 5. Distribuição proporcional de casos novos de hanseníase nas faixas etárias segundo sexo. Brasil, 2014-2024

16

Figura 6. Taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 100 mil habitantes, segundo sexo e faixa etária. Brasil, 2014 e 2024

16

Figura 7. Proporção de casos novos de hanseníase segundo sexo e faixa etária. Brasil, 2014-2024

17

Figura 8. Proporção de casos de hanseníase segundo raça/cor da pele, entre o total de casos novos diagnosticados no ano, segundo região de residência. Brasil, 2014-2024

18

Figura 9. Proporção de casos novos de hanseníase segundo escolaridade e região de residência. Brasil, 2014-2024

18

Figura 10. Taxa de casos novos com incapacidade ano a ano por região geográfica de residência. Brasil, 2014 a 2024

20

Figura 11. Taxa de casos novos com incapacidade por Unidade da Federação de residência, 2014 e 2024

21

Figura 12. Proporção de casos novos de hanseníase avaliados quanto ao grau de incapacidade física no momento do diagnóstico, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

22

Figura 13. Taxa de casos novos de hanseníase com grau 2 de incapacidade física no momento do diagnóstico e o percentual de variação anual. Brasil, 2014 a 2024

23

Figura 14. Proporção de casos novos multibacilares entre o total de casos novos segundo região de residência, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

24

Figura 15. Total de casos de hanseníase segundo modo de entrada. Brasil, 2014 a 2024

25

Figura 16. Proporção de casos de hanseníase segundo classificação operacional atual entre o total de casos novos diagnosticados no ano, por região e Unidade da Federação de residência. Brasil, 2014 e 2024

25

Figura 17. Total de casos de hanseníase segundo modo de detecção, por região geográfica de residência ano a ano. Brasil, 2014 a 2024

26

Figura 18. Proporção de contatos examinados entre os registrados dos casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes segundo região de residência. Brasil, 2014 a 2024

28

Figura 19. Proporção de contatos examinados entre os registrados dos casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes e percentual de variação segundo Unidade da Federação de residência. Brasil, 2014 e 2024

29

Figura 20. Proporção de cura dos casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes segundo região de residência. Brasil, 2014 a 2024

29

Figura 21. Proporção de cura dos casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes e percentual de variação segundo Unidade da Federação de residência. Brasil, 2014 e 2024

30

Figura 22. Proporção de casos novos de hanseníase com grau de incapacidade física avaliado na cura, nos anos das coortes. Brasil, 2014 e 2024

30

Figura 23. Proporção de casos novos de hanseníase com grau 2 de incapacidade física avaliado na cura, nos anos das coortes. Brasil, 2014 e 2024

32

Figura 24. Proporção de casos de recidiva e de casos novos entre os casos notificados no ano. Brasil, 2014 e 2024

33

Figura 25. Taxa de internação por 100.000 habitantes e tempo médio de internação (dias) por hanseníase. Brasil, 2014-2024

38


Apresentação

A hanseníase é uma doença antiga, mas, infelizmente, ainda atual. Presente em mais de 120 países, permanece classificada como uma doença tropical negligenciada e, a cada ano, responde por quase 200s mil novos casos no mundo. Esses números, por si só, revelam que, apesar dos avanços da medicina e dos sistemas de saúde, ainda há um caminho importante a ser percorrido no enfrentamento dessa condição. O Brasil ocupa papel de destaque nesse cenário global, situando-se na segunda posição em número de registros de hanseníase, atrás apenas da Índia. Ao longo dos últimos dez anos, mais de 275 mil novos casos dessa doença foram diagnosticados no país. Mais do que estatísticas, esses dados representam histórias reais e desafios concretos enfrentados diariamente por pessoas, famílias e comunidades. Um aspecto especialmente preocupante é o diagnóstico tardio, ainda frequente em nosso país. Na última década, mais de 22 mil pessoas já apresentavam algum grau de incapacidade física no momento em que descobriram a doença. Esse dado reforça que a hanseníase não é apenas um problema médico, mas também social, diretamente relacionado à desinformação, às barreiras de acesso aos serviços de saúde e, sobretudo, ao estigma que historicamente acompanha os pacientes. É nesse contexto que a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), por meio da campanha Janeiro Roxo, reafirma seu compromisso histórico com a saúde da população. Essa publicação evidencia que o Brasil avançou de forma consistente no enfrentamento da hanseníase ao longo dos anos. A redução gradual da incidência, a manutenção de elevadas taxas de cura e a diminuição da mortalidade demonstram que o caminho adotado é correto, ainda que exija continuidade, vigilância permanente e compromisso com a equidade. A hanseníase tem cura. Seu tratamento é eficaz, relativamente simples e está integralmente disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Quando diagnosticada precocemente, a doença pode ser tratada sem deixar sequelas, preservando a qualidade de vida e a dignidade das pessoas acometidas. Por isso, é fundamental que a população esteja atenta à saúde da pele. Manchas, lesões ou alterações de sensibilidade, como dormência ou formigamento, não devem ser ignoradas. Nesse contexto, o papel do médico dermatologista é insubstituível. São esses profissionais que, diariamente, acolhem pacientes, realizam diagnósticos precisos, orientam tratamentos e contribuem com a desconstrução de preconceitos estigmas historicamente associados à hanseníase. A atuação qualificada, ética e comprometida dos médicos dermatologistas brasileiros é uma das maiores forças no enfrentamento da doença e na promoção do cuidado integral. A Sociedade Brasileira de Dermatologia parabeniza seu Departamento de Hanseníase e a todos os profissionais envolvidos na elaboração deste relatório. O trabalho coletivo, fundamentado em evidências científicas e no compromisso com a saúde pública, é o que torna possível avançar de forma consistente. Que esta publicação cumpra seu papel de informar, sensibilizar e inspirar. Que contribua para o fortalecimento das políticas públicas, para a qualificação do cuidado e para a ampliação da consciência coletiva sobre a hanseníase, como a Sociedade Brasileira de Dermatologia tem feito ao longo de décadas - um legado que a Gestão 2025-2026 se orgulha de levar adiante.

Carlos Baptista Barcaui Presidente Sociedade Brasileira de Dermatologia


1. Introdução

A hanseníase é uma doença infecciosa, crônica e transmissível que ainda persiste como importante problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Seu agente etiológico é o bacilo álcool-ácido resistente (BAAR) do complexo Mycobacterium leprae, conhecido como bacilo de Hansen, o qual afeta principalmente os nervos periféricos, músculos, olhos e pele. O bacilo se reproduz lentamente em temperaturas entre 27º e 33º C, sendo as secreções respiratórias a via de transmissão mais comum. O período médio de incubação, até o início dos sinais e sintomas, é de aproximadamente cinco anos. Os indícios iniciais são manchas (claras ou vermelhas) e nódulos na pele que podem evoluir para outros tipos de lesões cutâneas associadas à perda de sensibilidade na área acometida. Outras formas de manifestação são fraqueza muscular e sensação de formigamento em mãos e pés. Classificada como uma doença tropical negligenciada e presente em mais de 120 países, em 2023 a hanseníase contabilizava 182.815 novos casos em todo o mundo. O Brasil ocupa o segundo lugar entre as nações com maior número de registros, após a Índia. Juntos, eles reportam 74% do total global de novas ocorrências (Organização Mundial da Saúde [OMS], 2024). Considera-se que a doença está eliminada como problema de saúde pública em um determinado território quando os indicadores epidemiológicos apontam taxa de prevalência inferior a um caso para cada 10 mil habitantes (OMS, 2024). Brasil, Índia e Indonésia continuam a registrar um volume significativo de novos casos (OMS, 2024), embora em nível mundial se percebe uma tendência de queda gradual desses números. Com baixo índice de infectividade, a hanseníase é uma doença curável e, no Brasil, dispõe de tratamento simples e gratuito, o que amplia as chances de cura e reduz a possibilidade de deixar sequelas graves. Porém, quando os casos não são tratados precocemente, essa doença pode causar incapacidades progressivas e permanentes, incluindo deformidades e mutilações, redução da mobilidade das extremidades e cegueira. Pessoas de ambos os sexos, de todas as faixas etárias, bem como de diferentes etnias e perfis socioeconômicos e educacionais, podem desenvolver a hanseníase. A infecção está relacionada à exposição prolongada à bactéria e uma parcela pequena da população infectada adoece. A incapacidade relacionada à doença é classificada em Grau 0 (GIF 0 - sem comprometimento), Grau 1 (GIF 1 - comprometimento sensitivo e/ou motor) e Grau 2 (GIF 2 - comprometimento sensitivo, motor e em sistemas visuais e auditivos) (BRASIL, 2016, 2017, 2019). O GIF 2 configura como principal responsável pelo estigma e discriminação às pessoas acometidas pela doença. Globalmente, em 2023, 8.492 casos novos foram diagnosticados com Grau de Incapacidade 2 (GIF 2), considerada a forma mais grave da doença. Índia e Brasil foram os únicos países que diagnosticaram mais de mil casos novos desse tipo, no momento do diagnóstico, com 1.863 e 1.737 casos respectivamente (OMS, 2024). Para reforçar o combate a essa doença e evitar a manutenção de quadros como esses, países endêmicos têm empenhado esforços para integrar os serviços de atenção à hanseníase aos serviços de saúde existentes para tornar mais fácil as etapas de diagnóstico e início de tratamento, especialmente na atenção primária à saúde. Nesse contexto, após um amplo processo de consulta envolvendo governos, especialistas, organizações parceiras e pessoas afetadas pela hanseníase, a OMS publicou o documento “Rumo à Hanseníase Zero: Estratégia Global para a Hanseníase (Doença de Hansen) 2021-2030”, que tem como meta alcançar ao final desse intervalo os índices de zero infecções e doenças, bem como a redução a zero das incapacidades e zero estigma e discriminação. Trata-se de um objetivo reconhecidamente ambicioso e de difícil alcance, especialmente em países com elevada carga da doença e profundas desigualdades sociais, mas que se mostra fundamental como referência estratégica, capaz de orientar políticas públicas, mobilizar serviços de saúde e fortalecer o engajamento da sociedade.

8


Essa estratégia global representa uma mudança significativa na abordagem do enfrentamento da hanseníase em âmbito mundial. As versões anteriores estavam direcionadas para a eliminação da hanseníase como problema de saúde pública, tendo alcançado avanços significativos na redução da carga global dela nas últimas três décadas. Contudo, a atual estratégia centraliza esforços na interrupção da transmissão e no marco de zero casos autóctones (OMS, 2021). Os quatro pilares da nova abordagem são: i) implementação de roteiros integrados para a hanseníase zero, com pleno comprometimento nacional, em todos os países onde essa doença é endêmica; ii) expansão das estratégias de prevenção da hanseníase e de busca ativa integrada de casos; iii) abordagem de casos e suas complicações e prevenção de novas incapacidades; e, iv) combate ao estigma e garantia de respeito aos direitos humanos. No contexto brasileiro, a Estratégia Nacional para o Enfrentamento da Hanseníase 2023-2030, elaborada pelo Ministério da Saúde, traz a visão de um país sem hanseníase, o que está alinhado aos compromissos internacionais propostos pela OMS e pela Organização das Nações Unidas (ONU). Na perspectiva nacional, os objetivos mantêm-se equivalentes aos da estratégia anterior (20192022), considerando a relevância da redução da carga da doença. Como metas, o documento brasileiro prevê: i) reduzir em 55% a taxa de casos novos de hanseníase em menores de 15 anos de idade até 2030; ii) reduzir em 30% o número absoluto de casos novos com GIF 2 no diagnóstico até 2030; e iii) encaminhamento de providência para 100% das manifestações sobre práticas discriminatórias em hanseníase registradas nas Ouvidorias do Sistema Único de Saúde (SUS). Como parte integrante da Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, Agravos e Eventos de Saúde Pública (Portaria de Consolidação MS/GM nº 4, de 28 de setembro de 2017) é, portanto, obrigatório que profissionais de saúde reportem casos de hanseníase no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que foi preparado para receber esses dados. A análise das informações produzidas pelos sistemas de informação em saúde é fundamental para a identificação de diferentes padrões de ocorrência da hanseníase, das áreas de maior vulnerabilidade e das fragilidades existentes na vigilância dessa endemia no Brasil. Compreende-se como necessário estampar a realidade no país de modo a identificar a população potencialmente afetada pela doença, sua distribuição e desafios enfrentados pelos serviços de saúde, bem como os custos relacionados. Dessa forma, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), no âmbito da Campanha Janeiro Roxo 2026, tem como objetivo conscientizar a população sobre a importância do enfrentamento da hanseníase, disponibilizar aos médicos, gestores, pesquisadores e à população em geral o acesso a este relatório, que reúne uma série de dados sobre a hanseníase no Brasil. Extraído do banco de dados do DATASUS, esse documento faz uma radiografia descritiva desse problema de saúde pública que, como em vários outros países, tem sido negligenciado. Iluminado pela cor roxa, que representa a luta contra essa condição que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, esse relatório preparado pela SBD mostra a série histórica, com fundamentação epidemiológica, e aponta o caminho a ser seguido pelo Brasil, por meio da interação de governos, profissionais da saúde e cidadãos, para alcançar a meta da Hanseníase Zero. Os dados delineiam um cenário no qual avanços são evidentes e revelam que ainda há muito a ser feito para driblar desafios e aproximar a nação desse objetivo desafiador, mas alcançável. Dessa forma, com a união de forças, o compromisso com o financiamento de políticas públicas específicas e, sobretudo, planejamento, a SBD espera que, em breve, o Brasil possa celebrar avanços concretos na trajetória da eliminação da hanseníase, com a ampliação do acesso oportuno ao diagnóstico, a consolidação de uma rede efetiva de cuidados e o combate ao estigma e ao preconceito.

9


2. Hanseníase na população brasileira (2014-2024) 2.1. Distribuição geográfica – indicadores por região, estado e capitais No período compreendido entre 2014 e 2024, no Brasil, foram diagnosticados 275.118 casos novos de hanseníase, com uma alta incidência de 11,9 e alta prevalência a cada 100 e 10 mil habitantes, respectivamente (Tabela 1). A Tabela 1 mostra que o número de novos casos diagnosticados ano a ano diminui gradualmente durante o período, chegando ao acumulado de 275.118. O mesmo ocorre com o número de casos totais, que considera tanto os casos novos quanto aqueles já diagnosticados anteriormente, chegando a 291.255 casos durante o período. Tanto os casos novos quanto os casos totais refletem a distribuição, apresentados respectivamente pela incidência por 100 mil habitantes e a prevalência por 10 mil habitantes. Apesar dessa redução expressiva, no Brasil, o parâmetro1 de endemicidade permaneceu no nível Médio da prevalência e “alto”2 na maior parte do tempo para incidência, mudou para “médio” entre 2020-2022 e retornou para “alto” em 2023-2024. A Figura 1 evidencia que, ao longo desse período, houve uma variação anual, sendo o menor valor observado em 2020, impactado pelo fechamento dos serviços diagnósticos pela pandemia de covid-19 no mundo. Esse cenário revela uma taxa de detecção geral de casos novos, na série histórica, em queda, com uma redução de 47,0%: passou de 15,8, em 2014, para 10,7 por 100 mil habitantes, em 2024. Figura 1. Total de casos de hanseníase e a proporção de variação ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. 45.000

20%

40.000

30.000

0%

25.000 -10% 20.000 15.000

Variação anual

Total de casos de hanseníase

10% 35.000

-20%

10.000 -30% 5.000 0

-40%

1 Foram usados os seguintes parâmetros para definir a classe: Baixo (<1,00/10 mil hab.), médio (1,00 a 4,99/10 mil hab.), alto (5,00 a 9,99/10 mil hab.), muito alto (10,00 a 19,99/10 mil hab.) e hiperendêmico (≥20,00/10 mil hab.).considerado como parâmetro: Baixo (<1, 00/100.000hab.), médio (1,00 a 4, 99/100.000hab.), alto (5,00 a9, 99/100.000habb.), muito alto (10,00 a 19, 99/100.000hab.) e hiperendêmico (≥20, 00/100.000hab.) (Brasil, 2022) 2 Foi considerado como parâmetro da incidência: Baixo (<2,00/100 mil hab), médio (21,00 a 9,99/10 mil hab), alto (10,00 a 19,99/10 mil hab), muito alto (20,00 a 39,99/10 mil hab) e hiperendêmico (≥40considerado como parâmetro: Alto (≥10%), médio (5,0% a 9,9%) e baixo (≤5,0%). (Brasil, 2022)

10


Figura 2. Taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 100 mil habitantes segundo região de residência, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. 45.0

Taxa de detecção geral por 100 mil hab.

40.0 35.0 30.0 25.0 20.0 15.0 10.0 5.0 0.0 Brasil

2014

2015

Região Norte

2016

2017

2018

2019

Região Nordeste

2020

2021

Região Sudeste

Os dados nacionais mostram consonância com o cenário global. De acordo com relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), houve diminuição de 14,5% dos casos novos durante a década 2013-2023 (OMS, 2024). Similarmente, no Brasil, a curva mundial oscilou durante a pandemia, com decréscimo de quase um terço de registros durante esse período. Porém, com o encerramento da emergência sanitária os índices retornaram aos níveis anteriores, registrando aumento de 30% na detecção de casos novos.

2022

2023

Região Sul

2024 Região Centro-Oeste

marcas históricas, respectivamente 134,8 e 134,6 casos por 10 mil habitantes. Em contraste, nos anos de 2023 e 2024, o Rio Grande do Sul apresentou a menor prevalência de casos por 10 mil habitantes (0,7), conforme mostrado na Tabela 2. A Tabela 3 mostra a distribuição da incidência de casos novos por Unidade da Federação dos casos novos na série histórica brasileira. Novamente, a realidade se repete para os estados do Mato Grosso (137,3 casos por 100 mil habitantes em 2018) e Rio Grande do Sul (0,6 casos em 2020).

Ao analisar exclusivamente os casos novos e as recidivas, sob a perspectiva da distribuição por unidades federativas, o Mato Grosso se destaca pela liderança no ranking da prevalência, com destaques para os anos de 2019 e 2024 quando atingiu duas

Conforme se observa na Figura 2, a distribuição da hanseníase é heterogênea entre as regiões geográficas, sendo a sua maior taxa de detecção no Centro-Oeste, ao longo de toda a série.

Tabela 1. Distribuição dos casos, prevalência e incidência de hanseníase no Brasil, por ano de diagnóstico. Brasil, 2014 a 2024. Ano

Casos

Prevalência

Incidência

Novos

Total

Taxa*

Classe

Taxa**

Classe2

2014

32.198

33.758

16,8

Médio

16,0

Alto

2015

29.539

31.114

15,5

Médio

14,7

Alto

2016

25.954

27.409

13,5

Médio

12,8

Alto

2017

27.480

29.144

14,3

Médio

13,5

Alto

2018

29.212

31.064

15,0

Médio

14,1

Alto

1

2019

28.578

30.215

14,7

Médio

13,9

Alto

2020

18.327

19.385

9,3

Médio

8,8

Médio

2021

18.679

19.782

9,5

Médio

8,9

Médio

2022

20.045

21.280

10,1

Médio

9,5

Médio

2023

23.198

24.612

11,6

Médio

11,0

Alto

2024

21.908

23.492

11,5

Médio

10,7

Alto

Total

275.118

291.255

15,3

Médio

11,9

Alto

*Taxa por 10 mil habitantes. **Taxa por 100 mil habitantes 1 Foram usados os seguintes parâmetros para definir a classe: Baixo (<1,00/10 mil hab.), médio (1,00 a 4,99/10 mil hab.), alto (5,00 a 9,99/10 mil hab.), muito alto (10,00 a 19,99/10 mil hab.) e hiperendêmico (≥20,00/10 mil hab.). 2 Foi considerado como parâmetro da incidência: Baixo (<2,00/100 mil hab), médio (21,00 a 9,99/10 mil hab), alto (10,00 a 19,99/10 mil hab), muito alto (20,00 a 39,99/10 mil hab) e hiperendêmico (≥40,00/10 mil hab).

11


Tabela 2. Prevalência (casos novos e recidivas) de hanseníase por 10 mil habitantes, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. Região

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

2021

2022

2023

2024

Brasil

16,8

15,5

13,5

14,3

15,0

14,7

9,3

9,5

10,1

11,6

11,5

Norte

37,8

32,8

30,6

31,3

34,4

31,8

19,5

19,4

18,9

20,9

19,2

Rondônia

44,9

36,4

30,4

32,7

44,7

31,0

21,5

22,4

21,6

26,4

19,7

Acre

17,7

16,2

15,4

17,6

16,7

14,7

11,2

14,4

18,3

17,0

22,3

Amazonas

17,3

15,0

12,8

12,6

11,7

11,2

6,8

9,0

9,1

8,4

7,1

Roraima

16,9

17,2

15,5

30,0

18,6

16,5

7,3

9,9

8,5

9,3

7,7

Pará

44,5

39,7

31,9

33,3

33,3

32,8

20,7

20,3

18,7

19,5

18,7

Amapá

21,2

16,6

14,1

15,4

16,3

17,7

9,2

7,5

9,7

8,1

7,5

Tocantins

73,1

60,3

93,2

84,9

114,8

105,2

59,1

51,9

53,1

69,8

64,1

Nordeste

26,5

25,0

21,3

23,3

23,0

22,6

14,5

15,4

16,9

17,4

16,6

Maranhão

56,6

54,6

50,8

51,4

48,1

48,9

28,2

29,0

35,2

35,4

31,1

Piauí

37,7

35,8

30,0

35,7

34,7

28,8

18,3

21,5

25,0

23,1

23,0

Ceará

24,9

22,2

20,7

19,1

20,7

19,2

13,8

15,0

14,1

15,2

14,5

Rio Grande do Norte

8,5

8,7

6,2

7,9

8,0

6,1

5,8

6,3

5,5

6,0

6,3

Paraíba

15,6

14,4

11,7

12,7

14,5

15,8

9,9

10,0

10,0

12,1

10,9

Pernambuco

30,0

27,5

22,2

28,7

27,1

28,8

18,0

18,0

20,8

20,2

20,5

Alagoas

11,6

12,1

8,9

10,9

12,3

9,7

7,6

8,9

9,1

12,9

10,5

Sergipe

20,3

18,2

14,2

17,9

16,3

14,7

11,8

11,9

12,1

14,3

14,8

Bahia

19,7

19,1

15,2

16,5

16,2

16,6

10,5

11,8

12,7

12,7

12,5

Sudeste

5,8

5,3

4,8

4,8

4,7

4,7

3,2

3,6

3,9

4,3

4,5

Minas Gerais

6,3

5,9

5,8

5,8

5,5

5,7

4,0

4,5

5,3

6,1

6,4

Espírito Santo

17,6

17,0

11,6

13,0

12,4

14,2

7,5

8,6

10,2

12,1

12,5

Rio de Janeiro

7,8

7,4

6,0

6,1

6,1

5,9

3,6

4,2

4,0

3,8

3,8

São Paulo

3,7

3,2

3,4

3,1

3,1

3,0

2,3

2,6

2,7

3,0

3,3

Sul

4,1

4,0

3,3

3,1

3,0

3,0

2,1

2,4

2,4

2,6

2,3

Paraná

7,6

7,4

5,9

5,8

5,6

5,5

3,7

4,1

3,9

4,6

4,1

Santa Catarina

2,6

2,7

2,4

1,9

1,9

2,3

1,7

2,0

2,3

2,2

1,8

Rio Grande do Sul

1,5

1,3

1,2

1,2

1,2

1,0

0,6

0,9

0,9

0,7

0,7

Centro-Oeste

44,3

40,1

33,1

36,5

44,2

43,4

26,1

22,4

24,3

36,9

38,6

Mato Grosso do Sul

42,6

30,1

16,2

15,3

13,6

18,4

10,2

10,5

9,9

10,1

13,1

Mato Grosso

100,2

98,5

88,8

107,2

142,4

134,8

76,3

61,1

69,7

129,1

134,6

Goiás

29,9

27,3

22,5

21,3

22,2

21,4

13,9

13,7

13,8

12,0

12,2

Distrito Federal

13,5

10,2

7,9

7,6

7,1

8,2

8,7

6,5

6,6

6,2

4,8

12


Tabela 3. Incidência de hanseníase por 100 mil habitantes, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. Região

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

2021

2022

2023

2024

Brasil

16,0

14,7

12,8

13,5

14,1

13,9

8,8

8,9

9,5

11,0

10,7

Norte

36,1

31,1

29,1

29,8

32,6

29,9

18,3

18,3

17,5

19,5

17,7

Rondônia

44,1

34,9

28,9

30,9

43,6

29,7

20,6

21,7

20,6

25,5

19,3

Acre

17,0

15,8

14,3

15,5

15,6

13,2

10,1

12,4

15,9

13,9

19,8

Amazonas

15,8

13,9

11,6

11,8

10,8

10,3

5,8

8,3

8,4

7,6

6,4

Roraima

15,6

15,2

14,2

27,3

17,7

15,0

5,8

8,7

7,7

8,1

6,6

Pará

42,4

37,6

30,2

31,4

30,8

30,4

19,5

19,1

17,3

18,1

17,0

Amapá

19,7

16,3

14,0

15,3

15,7

16,8

8,5

6,4

8,8

7,6

6,7

Tocantins

71,8

58,0

90,7

83,7

112,3

102,2

57,4

49,9

49,5

66,3

59,7

Nordeste

25,3

23,9

20,2

21,9

21,4

21,4

13,7

14,5

16,0

16,4

15,3

Maranhão

54,9

52,5

48,8

49,2

46,3

47,5

27,4

28,7

34,8

34,5

29,3

Piauí

36,6

34,2

29,0

34,1

32,6

27,8

17,3

20,6

23,7

22,0

21,4

Ceará

23,7

21,1

19,4

17,6

19,0

17,7

12,6

13,5

12,5

13,9

13,2

Rio Grande do Norte

8,2

8,3

5,8

7,4

7,8

5,7

5,6

6,0

5,3

5,7

6,1

Paraíba

15,2

13,8

11,1

12,2

13,4

15,1

9,2

9,2

9,5

11,4

10,4

Pernambuco

28,4

26,2

20,5

26,3

24,7

27,2

17,4

17,0

19,8

18,9

18,5

Alagoas

11,1

11,8

8,5

10,1

11,4

9,0

7,1

8,6

8,9

12,3

10,0

Sergipe

19,3

17,5

13,3

16,6

15,1

14,3

11,5

11,4

11,8

13,8

14,1

Bahia

18,6

18,2

14,4

15,5

14,9

15,3

9,5

10,7

11,7

11,8

11,4

Sudeste

5,4

4,9

4,5

4,4

4,3

4,4

3,0

3,4

3,7

4,1

4,3

Minas Gerais

6,0

5,7

5,6

5,5

5,1

5,4

3,7

4,2

5,0

5,7

6,1

Espírito Santo

16,7

16,6

11,3

12,4

11,7

13,5

7,4

8,0

9,8

11,5

11,7

Rio de Janeiro

7,2

6,7

5,5

5,6

5,6

5,5

3,4

4,0

3,8

3,6

3,5

São Paulo

3,5

2,9

3,1

2,8

2,8

2,7

2,1

2,4

2,5

2,8

3,1

Sul

3,7

3,5

2,9

2,8

2,7

2,8

1,9

2,2

2,2

2,3

2,0

Paraná

7,0

6,7

5,3

5,2

5,0

5,2

3,4

3,6

3,5

4,1

3,6

Santa Catarina

2,3

2,5

2,2

1,8

1,7

2,0

1,5

1,8

2,2

1,9

1,6

Rio Grande do Sul

1,4

1,1

0,9

1,0

1,0

0,9

0,6

0,9

0,8

0,7

0,7

Centro-Oeste

42,9

38,4

32,0

35,0

42,8

41,8

25,0

21,5

23,1

35,1

36,5

Mato Grosso do Sul

40,8

28,0

15,3

14,9

13,3

18,0

9,9

9,7

9,0

9,6

12,2

Mato Grosso

95,7

93,5

85,1

102,4

137,3

129,5

73,1

58,6

66,0

122,8

127,0

Goiás

29,8

27,0

22,2

20,8

21,9

21,0

13,5

13,6

13,6

11,8

11,9

Distrito Federal

13,1

9,7

7,5

6,9

6,4

7,1

7,9

5,9

5,7

5,6

4,2

13


Percebe-se uma tendência geral de declínio da incidência de casos novos na realidade brasileira, saindo de 16,0 por 100 mil habitantes, em 2014, para 10, 7, em 2024. Destaques para Mato Grosso e Tocantins ao assumirem a liderança no número de novos casos. A Figura 3 mostra o comportamento mato-grossense, que aumentou essa taxa, na contramão do país: de 87,5 casos novos por 100 mil habitantes, em 2014, para 118,2, dez anos depois. A capital, Cuiabá, reproduziu esse mesmo padrão de crescimento, elevando a taxa de 50,2 para 97,2.

Entre as unidades federativas, o estado do Tocantins manteve-se na vice-liderança nacional em 2014 e 2024, apesar de ter apresentado uma redução importante no índice de casos novos (de 70 casos para 55,9). Sua capital, Palmas, acompanhou essa tendência, registrando queda da taxa de detecção de 57,6 para 49,4 casos por 100 mil habitantes. Já entre os menores índices se destacaram o Rio Grande do Sul e sua capital (Porto Alegre). Ambos apresentaram taxa de detecção “baixa”3 nos períodos analisados: 1,2 casos por 100 mil habitantes, em 2014, e 0,4, dez anos depois.

Figura 3. Taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 100 mil habitantes segundo Unidade da Federação e Capital de residência, 2014 e 2024.

2014

120,0

87,5

52,1 33,1

6,6 2,0 7,0 5,4 15,9 11,5 9,9 9,9

18,3

32,1 27,1

8,2 4,0 10,2 9,8 18,2 19,7

1,3

Capital

Brasil

97,2

118,2

2024

80,0

0,4

1,2

3 1,1 3 2,2 2 1,0

Brasil: 10,1 3,5 3,5

10,1 7,3 9,7 5,4 6,2 3,9 6,0 3,3 5,9 1,4 5,7 5,7 5,0 4,1

20,7 10,9

0,0

11,1 7,9

20,0

10,1 17,7 15,8 16,6 11,7 13,6 10,2 12,7 11,2 11,6 7,4 11,5 7,8

40,0

27,9 23,1 20,1 19,7 19,2 18,8 18,6

60,0

55,9 49,4

Taxa de detecção por 100 mil hab.

100,0

Brasil: 5,2

TO AM MS MA RR CE RS AP SC GO PB MG SP PA BA AC PE RN AL SE MT RO PR RJ ES DF PI

UF

120,0

17,9 13,5 16,7 11,6

23,8

28,6 14,5 14,6 10,7 5,8 1,7

1,9

1,2 14,5 10,8

15,2 12,3 22,8 24,2

0,0

14,0

16,6 14,3

20,0

43,3

50,2

51,6 48,2 38,0

40,0

41,9

60,0

70,0

80,0

57,6

Taxa de detecção por 100 mil hab.

100,0

TO AM MS MA RR CE RS AP SC GO PB MG SP PA BA AC PE RN AL SE MT RO PR RJ ES DF PI

UF

Capital

14

Brasil


No entanto, independentemente dos índices de distribuição de cada uma das UFs, percebe-se uma tendência geral de queda no número de novos registros comparando 2014 e 2024. A Figura 4 mostra em ordem decrescente o total de casos para cada 100 mil habitantes, conforme escala estabelecida pela OMS (para cada 100 mil habitantes). Observa-se que se destacam Mato Grosso do Sul, com uma queda de 70%, seguido do Distrito Federal, com 68%, e Amapá, com 60%. Porém, esse bom desempenho ainda não atende às metas internacionais, com todos estados apresentando taxas maiores que o parâmetro estabelecido pela OMS (<1 a cada 100 mil habitantes).

Figura 4. Taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 100 mil habitantes segundo Unidade da Federação, 2014 e 2024. 1000,0

40,0%

20,0%

800,0 700,0

0,0%

600,0 500,0

-20,0%

400,0 -40,0%

300,0 200,0

-60,0%

100,0 0,0

MS TO MA RO PA MT PI GO PE CE AP SE BA AC ES AM RR PB DF AL RN RJ PR MG SP SC RS

2014

2024

2.2. Distribuição populacional – características gerais A incidência de hanseníase é crescente e predominante entre adultos (30 a 59 anos) e mostrase decrescente entre idosos (a partir dos 60 anos de idade). O aparecimento de novos casos da doença em crianças e adolescentes menores de 15 anos de idade, considerado um indicador de transmissão recente, sempre ocupou cerca de um terço do registrado de todas as faixas etárias. Nesta série histórica, observamos que a distribuição atualmente concentra-se predominantemente nas faixas etárias de adultos e idosos. Na Figura 5, é detalhada a distribuição proporcional desses registros por grupos de idade.

15

% Variação

-80,0%

Variação no período

Taxa de casos novos de hanseníase por 100 mil hab.

900,0


Figura 5. Distribuição proporcional de casos novos de hanseníase nas faixas etárias, segundo sexo. Brasil, 2014-2024. 25,0 20,5

Proporção (%)

20,0

20,1 18,8

17,9

16,5

15,715,5

15,0

13,7 10,5 10,0

10,0

8,5 6,8

5,0

0,0

3,5 0,2 0,2 0a4 anos

4,1

4,1

4,6 2,7 2,5

1,7 1,9 5a9 anos

10 a 14 anos

15 a 19 anos

20 a 29 anos

30 a 39 anos

40 a 49 anos

Masculino

50 a 59 anos

60 a 69 anos

70 a 79 anos

80 anos e mais

Feminino

A Figura 6 mostra a pirâmide etária invertida em relação à distribuição de casos de hanseníase na série histórica, mas reforça o predomínio de registros entre pessoas do sexo masculino, adultos e idosos e revela redução percentual de ocorrências de 2014 para 2024. Quando esses anos são comparados, observa-se reduções nas taxas de detecção em ambos os sexos e em todas as faixas etárias. Entre os homens, as maiores reduções ocorreram nas faixas etárias acima de 80 anos (80,2%) e 60 a 69 anos (65,9%). Para as mulheres, a queda mais acentuada ocorreu no grupo de zero a 4 anos (75,0%) e, em seguida, no de 50 a 59 anos (72,8%). Nos dois períodos, em todas as faixas, as taxas de detecção do sexo masculino foram superiores às do sexo feminino, exceto em 2014, na faixa etária de 10 a 14 anos (Figura 6).

Figura 6. Taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 100 mil habitantes, segundo sexo e faixa etária. Brasil, 2014 e 2024.

2014 80 anos e mais

29,8

14,3

70 a 79 anos

39,2

20,7

60 a 69 anos

36,9

22,6

50 a 59 anos

30,0

23,2

40 a 49 anos

22,5

19,4

30 a 39 anos

19,5

14,4

20 a 29 anos

11,7

9,5

15 a ‘9 anos

8,9

8,4

10 a 14 anos

8,9

9,6

5 a 9 anos

4,9

4,7

Feminino

0,4

0 a 4 anos 50,0

Masculino

40,0

30,0

20,0

10,0

16

0,0

10,0

20,0

30,0


2024 80 anos e mais

23,9

9,7

70 a 79 anos

25,8

14,0

60 a 69 anos

24,3

15,2

50 a 59 anos

19,7

16,9

40 a 49 anos

14,5

13,3

30 a 39 anos

8,7

7,7

20 a 29 anos

6,6

5,1

15 a ‘9 anos

5,4

5,1

10 a 14 anos

3,8 4,2 2,1

5 a 9 anos

Masculino Feminino

2,0

0,2

0 a 4 anos 50,0

40,0

30,0

20,0

10,0

0,0

10,0

20,0

30,0

A razão da distribuição entre os sexos indica uma predominância consistente de casos entre indivíduos do sexo masculino, independentemente da faixa etária analisada. Vale ressaltar uma diferença maior, de aproximadamente 22%, na faixa de 70 a 79 anos (61,0% versus 39,0%), conforme a Figura 7. Esse padrão corrobora com dados mundiais, em que 39,9% dos novos casos ocorrem em mulheres (OMS, 2024).

Figura 7. Proporção de casos novos de hanseníase segundo sexo e faixa etária. Brasil, 2014-2024. 70,0 60,0

Proporção (%)

50,0

54,7 45,3

52,9 47,1

51,3 48,7

52,1 47,9

56,6

55,7

43,4

44,3

20 a 29 anos

30 a 39 anos

59,9 52,1 47,9

61,0

53,9 46,1

40,0

40,1

39,0

60 a 69 anos

70 a 79 anos

57,4

42,6

30,0 20,0 10,0 0,0

0a4 anos

5a9 anos

10 a 14 anos

15 a 19 anos

Masculino

40 a 49 anos

50 a 59 anos

80 anos e mais

Feminino

Outro aspecto abordado neste relatório refere-se à incidência da hanseníase segundo a autodeclaração de raça/cor. No Brasil, entre os casos novos diagnosticados no período de 2014 a 2024 que deram essa informação, a maior frequência foi observada entre pardos, alcançando 70%, no Norte, e 67%, no Nordeste. Observa-se, ainda, que as regiões Sul e Sudeste apresentaram maiores proporções de casos novos na população branca, 70,0% e 41,5%, respectivamente, quando comparados às outras regiões, onde os destaques foram os pardos (Figura 8).

17


Figura 8. Proporção de casos de hanseníase segundo raça/cor da pele, entre o total de casos novos diagnosticados no ano, segundo região de residência. Brasil, 2014-2024. 80,0 70,0

Proporção (%)

60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 0,0 Região Norte

Região Nordeste Parda

Branca

Região Sudeste Preta

Amarela

Região Sul

Região Centro-Oeste

Indigena

No que se refere ao grau de escolaridade, no Brasil, houve predomínio, em todas as regiões, de casos novos de hanseníase em pessoas com 1ª a 4ª série do ensino fundamental (26,0%), seguidos por aquela com ensino fundamental (20,3%) e médio completos (20,3%) (Figura 9). Essa análise aponta uma distribuição relativamente equilibrada entre as regiões de todos os grupos, destacando-se a incidência entre analfabetos no Nordeste, pessoas com ensino fundamental incompleto no Sul e pessoas com ensino médio ou superior completos no Centro-Oeste.

Figura 9. Proporção de casos novos de hanseníase, segundo escolaridade e região de residência. Brasil, 2014-2024. 35,0

30,0

Proporção (%)

25,0

20,0

15,0

10,0

5,0

0,0

Brasil

Região Norte

Analfabeto

1ª a 4ª série do EF

Região Nordeste

Região Sudeste

Ensino fundamental completo

EF: Ensino fundamental

18

Região Sul Ensino médio

Região Centro-Oeste Educação superior


2.3. Sínteses Magnitude do problema no período analisado (2014–2024) • Foram registrados 275.118 casos novos de hanseníase no Brasil ao longo da década. • A taxa de detecção de casos novos apresentou queda expressiva, de 16,0 para 10,7 casos por 100 mil habitantes, que corresponde a uma redução acumulada de aproximadamente 33%. • Apesar dessa queda, o país permaneceu, na maior parte do período, classificado em nível alto de endemicidade, com retorno a esse patamar nos anos de 2023 e 2024.

Distribuição geográfica desigual • A hanseníase apresentou distribuição regional heterogênea, com destaque persistente para o CentroOeste, seguido pelas regiões Norte e Nordeste. • O estado do Mato Grosso manteve-se como principal foco da doença no país, com as maiores taxas de prevalência e incidência ao longo da série histórica. • Em contraste, a Região Sul, especialmente o Rio Grande do Sul, apresentou de forma consistente as menores taxas, classificadas como baixas.

Evolução por estados e capitais • Embora Mato Grosso e Tocantins tenham liderado os indicadores nacionais, observou-se tendência geral de queda na comparação entre 2014 e 2024. • Ainda assim, diversos estados e capitais permanecem acima dos parâmetros internacionais, não atingindo as metas de eliminação propostas pela OMS.

Perfil etário dos casos • A doença concentrou-se principalmente em adultos de 30 a 59 anos, com menor frequência relativa entre idosos.

Diferenças segundo sexo • Observou-se predominância do sexo masculino em praticamente todas as faixas etárias e ao longo de todo o período analisado. • As taxas de detecção diminuíram tanto em homens quanto em mulheres entre 2014 e 2024, porém a razão homem/mulher permaneceu elevada, em consonância com o padrão observado internacionalmente.

Distribuição segundo raça/cor da pele • A maior proporção de casos ocorreu entre pessoas autodeclaradas pardas, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste. • No Sul e Sudeste, observou-se maior participação relativa de pessoas brancas entre os casos novos, refletindo diferenças demográficas regionais.

Escolaridade e contexto social • Os casos novos concentraram-se majoritariamente em indivíduos com baixa escolaridade, com destaque entre aqueles com ensino fundamental incompleto ou poucos anos de estudo. • Esse padrão reforça a associação da hanseníase com contextos de maior vulnerabilidade social, ainda que com variações regionais específicas. O conjunto das informações analisadas evidencia avanços relevantes na redução da hanseníase no Brasil, mas também revela a persistência de desigualdades territoriais e sociais. A manutenção de altas taxas em áreas específicas, a presença de casos em crianças e adolescentes e o perfil socioeconômico dos acometidos indicam que a hanseníase segue como importante desafio de saúde pública, exigindo ações contínuas, focalizadas e equitativas.

19


3. Assistência na atenção à hanseníase (2014-2024)

3.1. Desdobramentos relacionados à hanseníase No Brasil, de 2014 a 2024, foram diagnosticados 22.590 casos novos de hanseníase com algum Grau de Incapacidade Física (GIF), incluindo: 1. perda de sensibilidade e/ou força muscular; e 2. deformidades, úlceras e atrofias em olhos, mãos e pés (Tabela 4). De forma geral, a maioria dos casos alcança cura (72,9%), embora existam abandonos de tratamento (5,7%) e recidivas, com 5,5% (Figura 10). Apesar da baixa prevalência dos casos de recidivas, os dados devem ser interpretados com cautela, conforme orienta-se em Notas Metodológicas, uma vez que Sinan não diferencia recidiva de reinfecção. Na comparação entre 2014 e 2024, o Centro-Oeste se destaca, com o aumento de 56% na taxa de detecção por milhão de habitantes (de 25,5 para 45,3), enquanto o Norte apresentou declínio de 53% (de 22,7 para 14,8). Porém, apesar de variações, esse indicador demonstra estabilidade em nível nacional e nas demais regiões. Ressalta-se, ainda, que esta análise não incluiu os casos com informação ausente nem as transferências (intramunicipais, intermunicipais, estaduais ou internacionais). Dessa forma, a soma dos percentuais apresentados em gráficos e tabelas não totaliza 100%

Figura 10. Taxa de casos novos com incapacidade ano a ano por região geográfica de residência. Brasil, 2014 a 2024.

Taxa de detecção por 1 milhão de hab.

50 45 40 235 30 25 20 15 10 5 0

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

2021

2022

2023

2024

Ano do diagnóstico Brasil

Região Norte

Região Nordeste

Região Sudeste

20

Região Sul

Região Centro-Oeste


Tabela 4. Distribuição dos casos e desfechos de incapacidade, cura, abandono, recidivas e mortalidade relacionados à hanseníase, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. Desfechos Ano

Casos

Incapacidade

Cura

Abandono

Recidivas

n

Taxa

n

%

n

%

n

%

Mortalidade*

2014

33.758

2.165

6,4

25.990

77,0

1.397

4,1

1560

4,6

2,7

2015

31.114

1.949

6,3

25.210

81,0

1.459

4,7

1575

5,1

2,3

2016

27.409

1.854

6,8

23.614

86,2

1.606

5,9

1455

5,3

2,1

2017

29.144

2.018

6,9

20.951

71,9

1.643

5,6

1664

5,7

2,3

2018

31.064

2.168

7,0

19.291

62,1

1.441

4,6

1852

6,0

2,5

2019

30.215

2.452

8,1

19.554

64,7

1.505

5,0

1637

5,4

2,8

2020

19.385

1.575

8,1

21.107

108,9

1.669

8,6

1058

5,5

2,3

2021

19.782

1.822

9,2

18.101

91,5

1.974

10,0

1103

5,6

2,2

2022

21.280

1.998

9,4

12.325

57,9

1.442

6,8

1235

5,8

1,9

2023

24.612

2.282

9,3

12.565

51,1

1.280

5,2

1414

5,7

1,8

2024

23.492

2.307

9,8

13.564

57,7

1.271

5,4

1584

6,7

1,2

Total

291.255

22.590

7,8

212.272

72,9

16.687

5,7

16.137

5,5

2,2

*por um milhão de habitantes. Cada variável de desfecho foi extraída do modo de entrada ou de saída, portanto, não fecham 100% na leitura em linha. Os dados casos e cura no ano de 2020 podem estar sub ou superestimado decorrente do represamento no envio de dados ocorrido devido a pandemia de Covid-19. Conforme nota do Datasus, as bases de dados de 2020, foram atualizadas em 07/2023.

Os mapas na Figura 11 apresentam as taxas de detecção de casos novos com incapacidade em 2014 e 2024. Percebe-se declínio importante na comparação dos dois períodos em oito das 27 UFs, sobretudo em Rondônia (62%), Rio de Janeiro (56%) e Amazonas (51%). Por outro lado, Mato Grosso (237%), Acre (144%) e Alagoas (116%) apresentaram os maiores crescimentos no período com relação a esse item de análise. Figura 11. Taxa de casos novos com incapacidade por Unidade da Federação de residência, 2014 e 2024.

11,5

12,2

12,4

26,3

33,4

13,7

20,1 13,5

41,2

25,4

2014

11,9

50,1 18,7

Baixo (<2/200.000 hab.) Médio (2 a 9.99/100.000 hab.)

6,2 28,3 4,0

Alto (10 a 19,99/100.000 hab.) Muito alto (20 a 29,99/100.000 hab.)

6,0

Hiperendêmico (20 a 29,99/100.000 hab.)

2,3 1,9

21

8,2

12,9

4,5 10,0 5,0


7,0

6,2

6,1

15,4

19,0

14,0 16,6

32,9

19,0

4,4 8,0

39,3

9,7

9,5

168,6

2024

9,3 7,4

Baixo (<2/200.000 hab.)

16,6

14,5

Médio (2 a 9.99/100.000 hab.)

3,6

2,9

Alto (10 a 19,99/100.000 hab.) Muito alto (20 a 29,99/100.000 hab.)

4,1

Hiperendêmico (20 a 29,99/100.000 hab.)

2,2 1,1

A Figura 12 evidencia uma tendência linear ao longo da série temporal relativa à proporção de casos avaliados (~89,0%), sendo a incapacidade mais frequente detectada é a de Grau 0 (sem comprometimento sensitivo e/ou motor), seguido de Grau 1 (com

comprometimento sensitivo e/ou motor) e, menos frequente, de Grau 2 (com sequelas neurológicas e visuais). Observa-se, de igual modo, redução de 10% ao longo do tempo na detecção de GIF 0, aumento de 10% nas classificações GIF 1 e estabilidade nas de GIF 2.

Figura 12. Proporção de casos novos de hanseníase avaliados quanto ao grau de incapacidade física no momento do diagnóstico, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. 100,0 90,0

89,0

88,9

88,9

88,8

88,5

88,1

2014

2015

2016

2017

2018

2019

86,6

88,0

88,3

88,9

89,1

2020

2021

2022

2023

2024

80,0 70,0 60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 0,0

% Avaliados

% GIF 0

22

% GIF 1

% GIF 2


Os casos de maior gravidade, classificados como GIF 2 (comprometimento neurológico da sensibilidade, força muscular e alterações visuais), merecem ser analisados separadamente. A Figura 13 mostra a taxa de detecção de casos novos com GIF 2 no diagnóstico, a taxa de variação anual e a linha de tendência do período analisado. De modo geral, observa-se tendência de redução dos casos com GIF 2, porém essa variação não é linear, com declínio entre 2014-2017 (-20%), crescimento 2017-2020 (+9%), redução drástica 2020-2022 (-37,5%) e novo crescimento 2022-2024 (+23%). Note-se ainda que a taxa de GIF 2, por 1 milhão de habitantes, foi de 5,5 casos, em 2014, e de 3,7, em 2024, o que representa uma redução de 32,7% desde o início da série.

Figura 13. Taxa de casos novos de hanseníase com grau 2 de incapacidade física no momento do diagnóstico e o percentual de variação anual. Brasil, 2014 a 2024. 20,0%

5,2 4,8

Taxa de casos por milhão de habitante

4,4

4,4

10,0%

4,8 4,3

4,2

3,5

3,7

3,0

0,0%

-10,0%

Variação anual

5,5

-20,0%

-30,0%

-40,0% 2014

2015

2016

2017

Casos GIF 2

2018

2019

2020

% Variação

2021

2022

2023

2024

Exponencial (Casos GIF 2)

Casos notificados com GIF 2 evidenciam diagnóstico tardio, devido ao maior grau de comprometimento físico ocasionado pela hanseníase. Ainda no período de 2014 a 2024, o Brasil se manteve no parâmetro considerado “médio” para a avaliação de GIF no momento do diagnóstico, exceto em 2022 (classificado como “alto”). Contudo, quanto ao GIF 2, a proporção observada foi de 6,7%, em 2014, e 10,0%, em 2022, configurando incremento de 32,0% e mudança no parâmetro de endemicidade, que passou de “médio” para “alto”. Ressalte-se que a proporção de casos novos de hanseníase diagnosticados com GIF 2 é importante indicador para avaliar a qualidade do diagnóstico (Figura 13). Fica evidente o impacto da pandemia na assistência à hanseníase em função do fechamento dos serviços de saúde. redução temporária da detecção, especialmente nos indicadores de GIF 2 e classificação operacional. A Figura 10 mostrou um hiato na taxa de casos novos com incapacidade em todas as regiões em 2020, e a Figura 13 mostra os seus desdobramentos nos anos de 2021 e 2022 para os casos de GIF2. De acordo com Sinan, os dados de 2020 foram atualizados em 2023, o que fica bem evidente na acentuação da variação observada nesse ano mostrada na Figura 13.

23


3.2. Manifestações da hanseníase A hanseníase apresenta-se nas formas paucibacilar (PB), caracterizada por até cinco lesões e baciloscopia negativa, ou multibacilar (MB), associada à presença de múltiplas lesões, baciloscopia positiva e maior potencial de transmissibilidade. O número de bacilos influencia a gravidade e o contágio, sendo a MB mais disseminada e com maior potencial de complicações e reações hansênicas. Em nível global, 68,8% de novos casos são relatados como multibacilares (OMS, 2024) e o Brasil foi excluído da lista dos países em vigilância global, cuja proporção ultrapassa 90%. Na Figura 14, observa-se um aumento gradual na proporção de casos novos multibacilares no país e regiões durante o período analisado, com decréscimo significativo após 2023. No Brasil, a proporção de casos novos classificados como multibacilares foi de 57,0%, em 2014, e de 67,5%, em 2022, apresentando aumento de 18,3%. Os dados revelam incremento em quase todas as regiões, sendo a maior proporção no Norte (+32,7%) e Nordeste (+19,1%), conforme mostrado na Figura 14. A região Sul foi a única com decréscimo no período 2014-2022 (-0,8%). Ao considerar o biênio 2023–2024, observa-se redução nas notificações em todas as regiões do país. Em 2023, comparado a 2022, a queda variou de 8,1% (Centro-Oeste) a 16,4% (Sul). Comparando 2024 com o ano anterior, essas mudanças foram de 54,5% (Centro-Oeste) a 60,7% (Sudeste).

Figura 14. Proporção de casos novos multibacilares entre o total de casos novos segundo região de residência, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. 100,0 90,0 80,0

Proporção (%)

70,0 60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 0,0 2014

Brasil

2015

2016

Região Norte

2017

2018

2019

Região Nordeste

2020

Região Sudeste

24

2021

2022

Região Sul

2023

2024

Região Centro-Oeste


3.3. Formas de registro e notificação Esse relatório também aborda os principais modos de entrada de notificação da hanseníase nas bases de dados oficiais (Figura 15). Ao longo da série histórica, nota-se que a maior parte do volume total é de casos novos, seguidos de outros reingressos e transferências. Em consonância com a tendência de redução da incidência de hanseníase previamente demonstrada, em 2014, foram notificados 32.198 casos novos e, em 2024, esse item teve uma redução de 32%, totalizando 21.908 registros. Na sequência, as transferências, não consideradas casos novos por se tratarem de movimentação do usuário já diagnosticado entre os serviços de saúde, também apresentaram uma redução de 11,8% (de 2.277 para 2.008 ocorrências). Figura 15. Total de casos de hanseníase, segundo modo de entrada. Brasil, 2014 a 2024. 45.000 40.000 35.000

Total de casos

30.000 25.000 20.000 15.000 10.000 5.000 0 2014

2015

2016

Casos novos

2017

2018

2019

2020

Transferências

2021

2022

Recidivas

2023

2024

Outros reingressos

A Figura 16 apresenta a proporção de casos, segundo modo de entrada multibacilar e sua variação, comparando 2014 com 2024. A análise desse modo de entrada permite acompanhar por um período mais longo a sobrecarga nos serviços e das fragilidades nas ações de profilaxia preventiva. No Brasil, observa-se aumento de 24,4% no percentual de casos novos multibacilares, de 60,2%, em 2014, para 82,3%, em 2024. Na análise por região, no intervalo analisado, o Centro-Oeste (94,2%) apresentou maior percentual de casos novos, seguido pelo Sul (82,6%) e Norte (81,5%).

25

D

R

O tr o.C en

% Variação

R

2024

es

R

.S

R

B

.S R

R

M

.N R

2014

F

Variação no período

-20,0% S

0,0 te M T M S G O

-10,0% R

10,0 SC

0,0%

ul

20,0

R J

10,0%

SP

30,0

ES

20,0%

ud A es te M G

40,0

SE

30,0%

AL

50,0

PE

40,0%

PB

60,0

A

50,0%

PI C E R N

70,0

or TO de st e

60,0%

PA

80,0

AP

70,0%

R

90,0

AC AM

80,0%

B ra . N sil or te R O

100,0

R

Proporção de casos multibacelar

Figura 16. Proporção de casos de hanseníase segundo classificação operacional atual entre o total de casos novos multibacilares diagnosticados no ano, por região e Unidade da Federação de residência. Brasil, 2014 e 2024.


Os dados analisados apontam que os modos de detecção mais comumente verificados nos serviços de saúde são encaminhamento, demanda espontânea, exame de coletividade (cujas informações não estão disponíveis nos bancos oficiais) e exame de contato. Por estarem relacionados à capacidade efetiva da rede de cuidados, os dois primeiros são mais frequentemente registrados, sendo ferramentas sensíveis para avaliar a qualidade da atenção individual. Entretanto, apesar de sua frequência elevada, observa-se que, no período de 2014 a 2024, houve redução em ambos os modos de detecção. Ao comparar os desempenhos de 2014 e 2024, constata-se que a proporção dos encaminhamentos caiu 37,6%, tendência também observada nas demandas espontâneas (-34,3%), conforme descrito na Figura 17, que exibe a frequência dos dois no intervalo analisado, em nível nacional e por região geográfica. Nela, por exemplo, o Norte surge como a região com o maior percentual de redução de casos novos detectados por encaminhamento (-53,2%) e demanda espontânea (-46,1%). Esses modos de detecção mantiveram-se como os mais frequentes ao longo de todos os anos analisados, sugerindo a predominância de uma vigilância passiva da hanseníase no país. Em âmbito global, a busca ativa de casos, como o rastreamento de contatos, pesquisas em espaços de convivências, como escolas, e campanhas junto a grupos populacionais específicos, são práticas recomendadas pela OMS, especialmente na antecipação do tratamento com profilaxia pós-exposição, o chamado PEP (OMS, 2024).

Figura 17. Total de casos de hanseníase segundo modo de detecção, por região geográfica de residência ano a ano. Brasil, 2014 a 2024.

Brasil

Região Norte

2024 2023 2022 2021 2020 2019 2018 2017 2016 2015 2014

2024 2023 2022 2021 2020 2019 2018 2017 2016 2015 2014

15.000

10.000

5.000

Encaminhamento

0

5.000

10.000

15.000

7.000

Demanda espontânea

3.000

1.000

Encaminhamento

Região Nordeste

1.000 3.000 5.000 7.000 Demanda espontânea

Região Sudeste

2024

2024

2023

2023

2022

2022

2021

2021

2020

2020

2019

2019

2018

2018

2017

2017

2016

2016

2015

2015

2014

2014

7.000

5.000

5.000

3.000

1.000

Encaminhamento

1.000 3.000 5.000 7.000

7.000

Demanda espontânea

5.000

3.000

1.000

Encaminhamento

26

1.000 3.000 5.000 7.000 Demanda espontânea


Região Sul

Região Centro-Oeste

2024 2023 2022 2021 2020 2019 2018 2017 2016 2015 2014

2024 2023 2022 2021 2020 2019 2018 2017 2016 2015 2014

7.000

5.000

3.000

1.000

Encaminhamento

1.000 3.000 5.000 7.000

7.000

Demanda espontânea

5.000

3.000

1.000

Encaminhamento

1.000 3.000 5.000 7.000 Demanda espontânea

Os outros modos se referem ao contato registrado e contato examinado. Em relação à proporção de contatos examinados entre os casos novos, no período de 2014 a 2024, o país apresentou um ligeiro aumento no indicador, que passou de 78,1%, em 2014, para 79,9% em 2024, permanecendo, porém, no parâmetro “regular” (Figura 18). Observa-se que, ao longo de todos os anos analisados, o número absoluto de contatos examinados permanece inferior ao de contatos registrados, apresentando também razão mais elevada por 100 mil habitantes. Esse indicador permite verificar a cobertura do serviço. Já a razão de examinados torna possível avaliar a efetividade no acompanhamento e profilaxia (Brasil, 2022). A avaliação revela ainda que, em 2014, houve a maior diferença absoluta entre as razões de contato registrado e examinado (diferença de 11,7 pontos percentuais). Porém, a maior discrepância proporcional ocorreu em 2024, chegando a 32,9%. Esses resultados reforçam a necessidade da ampliação da cobertura de busca e de atendimento oportuno para os casos, evitando cronificação e incapacidades, e oportunizando o tratamento mais precoce.

Tabela 5. Características dos contatos registrados e examinados por caso de hanseníase a razão populacional ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. Ano

Casos

Contatos Registrados

Contatos Examinados

Razão de Contatos Registrados*

Razão de Contato Examinados*

2014

33.758

112.100

88.563

55,8

44,1

2015

31.114

102.530

80.352

50,7

39,7

2016

27.409

90.475

72.971

44,4

35,8

2017

29.144

98.969

80.834

48,2

39,4

2018

31.064

100.596

82.294

48,7

39,8

2019

30.215

92.923

73.447

44,7

35,3

2020

19.385

54.105

41.399

25,9

19,8

2021

19.782

51.769

39.735

24,6

18,9

2022

21.280

55.636

44.093

26,4

20,9

2023

24.612

63.608

49.308

30,0

23,3

2024

23.492

62.487

41.933

29,4

19,7

*por 100.000 habitantes

27


A qualidade do acesso aos exames também foi avaliada, apontando o Sul como a única região que alcançou o parâmetro “bom”4 , o que representa a superação da meta de 90% de testes dos contatos em quase todos os anos (exceções: 2018, 2021 e 2022). Norte e Centro-Oeste apresentaram incremento no período avaliado, respectivamente, de 7,0% e 1,7%. O mesmo foi observado no Nordeste que avançou do parâmetro “precário” para o “regular”, com incremento de 8,0%, o maior do período. Porém, o Sudeste reduziu a taxa de examinados, indo de 10,8% para 4,6% (Figura 18).

Figura 18. Proporção de contatos examinados entre os registros de casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes segundo região de residência. Brasil, 2014 a 2024. 100,0 Bom (≥90%)

90,0 80,0 70,0 60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 0,0 Brasil 2014

2015

Região Norte 2016

2017

Região Nordeste 2018

2019

Região Sudeste 2020

2021

Região Sul 2022

Região Centro-Oeste 2023

2024

Na análise por unidade federativa, conforme apresentado na Figura 19, observa-se incremento no número de contatos examinados entre os casos novos de hanseníase diagnosticados, nos anos das coortes analisadas, bem como no percentual de variação, em 16 UFs e, nas demais, redução. Com 41,7%, Roraima foi o destaque nesse ranking, com Rondônia com a menor variação, com 2,3%. Em 2014, seis estados (22,2%) atingiram o parâmetro classificado como “bom” no que se refere a exames realizados entre contatos registrados: Amapá, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, São Paulo e Sergipe. Em 2024, essas UFs mantiveram seu desempenho, incluindo outras nessa classificação: Acre, Amazonas, Goiás e Tocantins. Por outro lado, 11 estados reduziram suas taxas de contatos examinados, ficando os piores índices com Amapá (-26,4%), Minas Gerais (-24,0%) e Santa Catarina (-13,1%). As UFs de Roraima e Maranhão saíram da classificação de “regular (≤75%)” e atingiram o conceito de “bom” e Rio Grande do Norte e Bahia permaneceram como “regular”. Esses resultados são relevantes para o monitoramento de contatos, uma vez que aqueles que apresentarem sorologia anti-PGL1 positiva, sem critérios para o diagnóstico clínico ou laboratorial da doença, devem ser avaliados anualmente nas Unidades Básicas de Saúde (Brasil, 2022, 2023).

4 Foi considerado como parâmetro: Bom (≥90%), regular (75% a 89,9%) e precário (<75%). (Brasil, 2022)

28


86,5 87,7

82,8

80,6 82,9 85,5 90,4 90,8 82,3

76,7

76,7

88,2

95,4 91,5

90,1 82,4

20,0%

50,0

10,0%

40,0

0,0%

30,0 -10.0% 20,0 -20,0%

10,0 0,0

Percentual de variação no período

69,7 67,9

Bom (≥90%) 40,0% 30,0%

69,9

92,0

92,9 92,3 83,8 79,0 76,2 87,1

68,6

50,0%

59,3

60,0

77,6 83,7

84,1

89,7 69,6

66,4

76,4 69,0 71,6

88,3 92,1

90,3 82,6 78,4 81,4

91,1

91,7

78,6

70,0 58,3

Percentual de contatos (coortes)

80,0

76,6

90,0

84,3 86,2

100,0

89,0 80,4 81,2 85,0

Figura 19. Proporção de contatos examinados entre os registrados dos casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes e percentual de variação, segundo Unidade da Federação de residência. Brasil, 2014 e 2024.

RO AC AM RR PA AP TO MA PI CE RN PB PE AL SE BA MG ES RJ SP PR SC RS MS MT GO DF 2014

2024

-30,0%

% Variação

3.4. Indicador de cura Outro indicador analisado neste relatório é o de proporção de cura dos casos novos diagnosticados entre 2014 e 2024. Os números apontam uma diferença de 3,5%, saindo de 94,8% para 91,3%, o que permitiu manter o parâmetro dentro da categoria “bom” (Figura 20). No decorrer do período, nenhuma região apresentou aumento nesse indicador. A maior diferença foi observada no Centro-Oeste, cuja proporção de cura passou de 94,3% para 89,7%, com redução de 4,9%, saindo assim de “bom”, entre 2014-2020, para “regular”, entre 2021-2024. As demais regiões permaneceram no parâmetro “bom” nesse indicador. Figura 20. Proporção de cura dos casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes, segundo região de residência. Brasil, 2014 a 2024. 100,0 Bom (≥90%)

90,0 80,0 70,0 60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 0,0

Brasil 2014

Região Norte 2015

2016

2017

Região Nordeste 2018

2019

29

Região Sudeste 2020

2021

Região Sul 2022

Região Centro-Oeste 2023

2024


Ainda em relação à proporção de cura (Figura 21), observa-se incremento em cinco UFs: Roraima (5,2%), Rio Grande do Sul (5,1%), Mato Grosso do Sul (2,3%), Amapá (1,6%) e Paraná (1,0%), sendo que as demais apresentaram declínio. Amapá ocupou a primeira posição em relação às UFs que apresentaram declínio, saindo de 90,3%, em 2014, para 66,4%, em 2024, com variação em decréscimo de 26,1%. Em 2014, apenas Roraima e Amapá não apresentam o parâmetro “bom” de cura, já em 2024 essa categoria foi atribuída ao Amazonas, Pernambuco, Santa Catarina e Mato Grosso. Embora observa-se na Figura 22 uma variação importante na proporção de casos novos de hanseníase com grau de incapacidade física avaliado na cura entre as UFs, conforme recomendação do Ministério da Saúde (2007) o esquema de poliquimioterapia varia de acordo com a apresentação do bacilo. Para os casos paucibacilar, o esquema terapêutico é de aproximadamente um ano com 6 doses da medicação. Ja os casos diagnosticados multibacilar, o esquema é de 12 doses e aproximadamente 24 meses. Infelizmente, apenas o estado do Espírito Santo, em 2014, alcançou o parâmetro “bom”, 37,0% como “regular” (Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins, Maranhão, Rio Grande do Norte, Sergipe, Rio de Janeiro, Paraná e Goiás) e 59,3% como “ruim” em 2024.

96,2 94,5 94,4 91,2

93,5 87,1

93,0 95,2

91,7 96,4

97,8 88,0

97,0 98,0

96,6 92,3

97,1 92,1 95,7 93,4

97,3 90,7

93,2 86,2 96,4 93,6 98,1 97,5 94,8 91,9

94,8 93,9 96,7 90,6

97,4 91,4 94,7 92,7 95,9 95,2 95,4 93,0

89,3 90,7

86,9 91,4 92,5 90,9

93,8 88,5

99,4

80,0

12,0% Bom (≥90%) 7,0%

70,0 60,0

2,0%

50,0 40,0

-3,0%

30,0 20,0

-8,0%

10,0 0,0

RO AC AM RR PA AP TO MA PI CE RN PB PE AL SE BA MG ES RJ SP PR SC RS MS MT GO DF 2014

2024

Percentual de variação no período

Percentual de contatos (coortes)

90,0

91,6

100,0

95,6 93,1

Figura 21. Proporção de cura dos casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes e percentual de variação, segundo Unidade da Federação de residência. Brasil, 2014 e 2024.

-13.0%

% Variação

Figura 22. Proporção de casos novos de hanseníase com grau de incapacidade física avaliado na cura, nos anos das coortes. Brasil, 2014 e 2024. 100,0

160,0% Bom (≥90%)

90,0

120,0%

80,0

100,0% 80,0%

60,0

60,0%

50,0

40,0%

40,0

20,0%

30,0

0,0%

20,0

-20,0%

10,0

-40,0% Brasil RO AC AM RR PA AP TO MA PI CE RN PB PE AL SE BA MG ES RJ SP PR SC RS MT MS GO DF 2014

2024

% Variação

30

-60,0%

Variação no período

Propoção de casos

70,0

0,0

140,0%


3.5. Evolução do acompanhamento Outros indicadores relativos à qualidade da assistência se referem aos desfechos que casos diagnosticados podem cursar ao longo do tratamento. A Tabela 6 apresenta a distribuição de desfechos possíveis: incapacidade, cura, abandono, recidivas e morte. A taxa de conclusão do tratamento (cura) varia amplamente entre os países, sendo que entre os prioritários poucos alcançam uma taxa ideal (acima de 85%). Uma compreensão melhor dos motivos de abandono e não adesão ao tratamento deve ser investigada de modo a aprimorar as intervenções direcionadas e garantir serviços multidisciplinares eficientes. Embora a evolução para incapacidade, abandono e recidivas não alcance 10% dos casos diagnosticados, observa-se que aumento gradual da proporção de casos com incapacidade (de 6,4%, em 2014, para 9,4%, em 2024) e de recidivas (de 4,6%, em 2014, para 6,7, em 2024). Apesar do número baixo de diagnósticos de recidivas, ainda assim ele permanece frágil, uma vez que pode ser diagnosticado erroneamento como reinfecção. O comportamento foi similar no que se refere ao abandono até o ano de 2021, com redução importante entre 2022-2024. A taxa de mortalidade geral foi o único indicador com desempenho bastante positivo entre os desfechos, apresentando declínio de 56,6% no período (de 2,7, em 2014, para 1,2, em 2024). Tabela 6. Distribuição dos casos e desfechos de incapacidade, cura, abandono, recidivas e mortalidade relacionados à hanseníase, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. Desfechos Ano

Casos (n)

Incapacidade

Cura*

Abandono

Recidivas

n

%

n

%

n

%

n

%

Mortalidade**

2014

33.758

2165

6,4

25990

77,0

1397

4,1

1560

4,6

2,7

2015

31.114

1949

6,3

25210

81,0

1459

4,7

1575

5,1

2,3

2016

27.409

1854

6,8

23614

86,2

1606

5,9

1455

5,3

2,1

2017

29.144

2018

6,9

20951

71,9

1643

5,6

1664

5,7

2,3

2018

31.064

2168

7,0

19291

62,1

1441

4,6

1852

6,0

2,5

2019

30.215

2452

8,1

19554

64,7

1505

5,0

1637

5,4

2,8

2020

19.385

1575

8,1

21107

108,9

1669

8,6

1058

5,5

2,3

2021

19.782

1822

9,2

18101

91,5

1974

10,0

1103

5,6

2,2

2022

21.280

1998

9,4

12325

57,9

1442

6,8

1235

5,8

1,9

2023

24.612

2282

9,3

12565

51,1

1280

5,2

1414

5,7

1,8

2024

23.492

2307

9,8

13564

57,7

1271

5,4

1584

6,7

1,2

*por 100 mil habitantes. **por um milhão de habitantes.

Esses resultados corroboram com o disposto na Figura 23, na qual se observa o aumento na proporção de casos novos com GIF 2 no momento do diagnóstico da cura, no Brasil. De acordo com os dados apurados, o índice sai do parâmetro “baixo”, em 2014, para “médio”, em 2024. Em 2014, apenas o Rio Grande do Sul foi classificado como “alto” (12,2%). Outras 10 UFs foram consideradas no parâmetro “médio” (37,0%) e as demais (59,2%) como “baixo” (<5%). Em 2024, Amapá, São Paulo e Paraná foram classificados no parâmetro “alto”, 15 estados (55,5%) foram inseridos no grupo “médio” e os demais (33,3%) no “baixo”. Amapá (219,1%), Roraima (196,9%) e Mato Grosso (162,0%) foram as UFs que apresentaram maiores variações, com indicadores deixando o parâmetro de “baixo”, em 2014, para o “médio”, em 2024. Por outro lado, Acre (-59,4%), Santa Catarina (-53,4%) e Alagoas (-23,2%) apresentaram proporções em queda, mas somente Santa Catarina mudou sua categoria de “médio” para “baixo”.

31


Figura 23. Proporção de casos novos de hanseníase com grau 2 de incapacidade física avaliado na cura, nos anos das coortes. Brasil, 2014 e 2024. 15,0

12,0

Propoção de casos

Alto (≥10%)

9,0

6,0

Regular (5 a 9,9%)

3,0

0,0

Brasil RO AC AM RR PA AP TO MA PI CE RN PB PE AL SE BA MG ES RJ SP PR SC RS MT MS GO DF

2014

2024

Outro desfecho importante abordado nesse documento se refere às recidivas. Embora as taxas sejam baixas, conforme a Tabela 6, a análise da série histórica permite identificar a proporção de recidivas e casos novos, em 2014 e em 2024. Nesse intervalo, observa-se que em comparação com 2014, UFs como Goiás, Distrito Federal e Tocantins multiplicaram situações de recidivas. Do total de UFs, seis (22,2%) apresentaram redução de recidivas e as demais aumento, no confronto entre 2014 e 2024. São Paulo (-25,7%), Roraima (-21,3%) e Minas Gerais (-16,7%) tiveram os maiores índices de queda. Em nível global, esse tipo de desdobramento apresenta baixa de 26,5% (OMS, 2024).

32


Figura 24. Proporção de casos de recidiva e de casos novos entre os casos notificados no ano. Brasil, 2014 e 2024. Propoção de casos Brasil 4,0

83,9

5,6

75,7

RO 1,7

89,3

1,4

76,0

AC 3,2

89,7

10,0

79,5

AM 7,8

83,1

8,5

RR 5,4

84,9

10,0

PA 4,2

83,4

AP 5,7

75,5

TO 1,4

83,8

5,5

74,4

MA 2,6

83,3

4,6

75,9

PI 2,6

87,1

CE 4,7

87,4

75,8 68,3

6,7

2014 Recidiva

69,8

7,6

2014 Caso novo

68,4

2024 Recidiva

5,7

2024 Caso novo

78,1

7,8

RN 2,2

84,9

2,8

PB 2,3

83,0

3,8

PE 4,7

82,8

7,8

AL 4,2

87,0

3,9

SE 4,4

86,4

4,2

BA 4,6

84,4

7,2

MG 4,4

84,3

3,7

77,3 83,2 79,7 71,0 84,5 89,5 77,3 76,5

ES 4,8

88,3

5,6

83,2

RJ 6,6

85,1

8,1

82,7

SP 6,7

80,1

5,0

77,4

PR

7,7

83,0

SC

7,2

80,9

8,5

RS

8,4

79,8

7,9

MT

3,5

82,9

5,9

MS

3,8

82,2

4,4

GO

0,5

85,2

2,2

DF 2,3

76,3

9,9

72,1 65,3 80,9 78,8 73,6 84,6

9,9

66,3

33


3.6. Sínteses Panorama geral da assistência à hanseníase (2014–2024) • No período analisado, foram registrados 22.590 casos novos com algum Grau de Incapacidade Física (GIF) no momento do diagnóstico. • A maior parte dos casos evoluiu para cura (72,9%), mantendo-se, contudo, percentuais relevantes de abandono de tratamento (5,7%) e recidivas (5,5%). • A mortalidade associada à hanseníase apresentou queda consistente, com redução acumulada de 56,6% ao longo da série histórica.

Casos novos com incapacidade física • A taxa nacional de detecção de casos novos com incapacidade manteve-se relativamente estável, com variações regionais importantes. • Destacou-se o Centro-Oeste, com aumento de 56% na taxa por milhão de habitantes, contrastando com o declínio observado no Norte (–53%). • Entre as UFs, observaram-se reduções expressivas em alguns estados e crescimentos relevantes em outros, evidenciando heterogeneidade na assistência e no diagnóstico oportuno.

Avaliação do grau de incapacidade no diagnóstico • Cerca de 89% dos casos novos foram avaliados quanto ao grau de incapacidade no momento do diagnóstico ao longo da série. • Predominou o GIF 0, seguido do GIF 1, enquanto o GIF 2 permaneceu menos frequente, como é de se esperar. • Observou-se redução proporcional dos casos classificados como GIF 0, aumento dos GIF 1 e estabilidade dos GIF 2, sugerindo mudança no perfil de detecção.

Casos com Grau 2 de Incapacidade Física (GIF 2) • A taxa de detecção de GIF 2 apresentou tendência geral de redução, passando de 5,5 para 3,7 casos por milhão de habitantes, o que representa queda de 32,7% no período. • Apesar disso, a evolução não foi linear, com oscilações associadas ao contexto pandêmico. • A proporção de casos diagnosticados com GIF 2 aumentou até 2022, alterando o parâmetro de endemicidade de “médio” para “alto”, o que indica diagnóstico tardio em parte dos casos.

Classificação operacional da hanseníase • Observou-se predomínio crescente da forma multibacilar até 2022, quando a proporção alcançou 67,5% dos casos novos no país. • O aumento foi mais expressivo nas regiões Norte e Nordeste, enquanto o Sul apresentou estabilidade até 2022. • Nos anos de 2023 e 2024, houve redução acentuada da proporção de casos multibacilares em todas as regiões.

Formas de entrada e notificação • Os casos novos permaneceram como o principal modo de entrada no sistema, com redução de 32% entre 2014 e 2024. • As transferências também diminuíram, refletindo a queda geral do volume de notificações. • Houve aumento expressivo da proporção de casos novos multibacilares entre os registros, indicando maior complexidade clínica dos casos atendidos.

34


Modos de detecção dos casos • Predominaram os mecanismos de encaminhamento e demanda espontânea, caracterizando um padrão de vigilância predominantemente passiva. • Ambos os modos apresentaram redução significativa no período analisado, especialmente na Região Norte. • As estratégias de busca ativa permaneceram menos representativas nos registros disponíveis.

Acompanhamento de contatos • A proporção de contatos examinados apresentou leve aumento no país, passando de 78,1% para 79,9%, mantendo-se no parâmetro “regular”. • Persistiu diferença relevante entre o número de contatos registrados e contatos examinados, indicando limitações na cobertura e no acompanhamento.

Indicador de cura • A proporção nacional de cura manteve-se no parâmetro “bom”, embora tenha ocorrido redução de 3,5 pontos percentuais no período. • Nenhuma região apresentou incremento nesse indicador, e o Centro-Oeste registrou a maior queda, mudando de “bom” para “regular”. • Em nível estadual, coexistiram ganhos pontuais e reduções expressivas, evidenciando disparidades na qualidade da atenção.

Evolução dos desfechos assistenciais • Observou-se aumento gradual da proporção de casos com incapacidade e de recidivas, embora ambos permaneçam abaixo de 10%. • O abandono do tratamento apresentou redução nos anos mais recentes, sem retorno aos níveis iniciais da série. • A mortalidade foi o desfecho com melhor desempenho, apresentando queda contínua ao longo da década. Deve-se considerar uma limitação operacional do Sinan no que se refere à variável “modo de detecção” dos casos de hanseníase. Na prática assistencial, é relativamente frequente que casos inicialmente identificados por meio de exame de contatos venham a ser registrados no sistema como “encaminhamento”, especialmente quando a confirmação diagnóstica ocorre em serviço distinto daquele em que se deu a identificação inicial ou em município diverso. Esse processo de registro pode resultar em potencial subestimação da contribuição das ações de vigilância ativa e do exame de contatos nos bancos de dados consolidados. Assim, os resultados relacionados ao modo de detecção devem ser interpretados com cautela, considerando as limitações inerentes aos fluxos de notificação e à dinâmica assistencial dos serviços de saúde. Por fim, observa-se clara evidência de avanços significativos na assistência à hanseníase. Persistem, contudo, desafios importantes relacionados ao diagnóstico oportuno, à prevenção de incapacidades, ao acompanhamento de contatos e às desigualdades regionais. Esses achados reforçam a necessidade de fortalecimento contínuo da rede de atenção à saúde, com ênfase na detecção precoce, no monitoramento sistemático e na qualificação do cuidado ao longo de todo o tratamento.

35


4. Custos e sobrecarga da atenção hospitalar no tratamento da hanseníase no Brasil (2014-2024) A série histórica de 2014 a 2024 mostra que o volume total de internações efetivas por ano caiu, saindo de 3.913 para 2.649. Seguindo a mesma tendência, a taxa de internação por 100 mil habitantes retrocedeu (de 1,9 para 1,2 em dez anos), com uma variação de 0,7 pontos na taxa (Tabela 7). No entanto, essa mudança não foi seguida pelos custos de tratamento hospitalar que subiram: o valor médio de uma internação aumentou gradualmente em torno de 50,5% no período analisado. Durante o período, a rede pública emitiu 35.017 autorizações de internação hospitalar que resultaram, efetivamente, em 33.753 entradas, ou seja, 96,4% das AIHs vinculadas ao tratamento de pacientes com hanseníase. Note-se ainda o registro de 621 óbitos hospitalares, em todo o país, relacionados à hanseníase, o que representa uma taxa de mortalidade específica de 2,2 por milhão de habitantes, com destaque para 2022, quando foi registrado maior índice (2,76). Do ponto de vista de distribuição regional, o Sul liderou os indicadores relativos à taxa de internação por 100 mil habitantes (26,5), valor médio dos atendimentos (R$ 1.479,1) e maior custo por habitante (R$ 0,39), porém com a menor média de permanência hospitalar (6,3 dias). O detalhamento feito na Tabela 8 ajuda a compreender a dinâmica de custo per capita que indica o quão barato pode ser o tratamento da hanseníase para a população, sugerindo potencial economia no componente hospitalar. A leitura das frequências de internações hospitalares por UF (Tabela 9) durante o período mostra que a maior taxa foi registrada no Acre (70,6 por 100 mil habitantes), a maior média de permanência hospitalar ocorre no Mato Grosso do Sul (16,4 dias) e custo mais elevado da internação fica no Paraná, com valor médio de R$ 1.614,6 e R$ 0,71 per capita. Tabela 7. Demandas do serviço hospitalar por hanseníase, custos para o tratamento e mortalidade, ano a ano. Brasil, 2014 a 2024. Ano

AIH aprovadas

Internações

Taxa de internação*

Média de permanência (dias)

Valor médio internação (R$)

Custo per capita da internação**

Taxa mortalidade hospitalar

2014

3.977

3.913

1,9

7,3

717,1

0,01

1,69

2015

3.286

3.208

1,6

7,8

762,9

0,01

1,47

2016

4.381

4.232

2,1

6,4

849,2

0,02

1,51

2017

3.417

3.302

1,6

8,1

758,0

0,01

2,06

2018

2.986

2.866

1,4

8,8

722,5

0,01

1,54

2019

3.055

2.902

1,4

9,2

786,5

0,01

1,72

2020

2.418

2.298

1,1

9,3

891,5

0,01

2,09

2021

2.502

2.411

1,1

8,4

978,5

0,01

2,03

2022

3.175

3.048

1,4

8,7

1.297,7

0,02

2,76

2023

3.122

2.924

1,4

8,6

1.072,6

0,01

2,09

2024

2.698

2.649

1,2

7,2

1.079,1

0,01

1,51

AIH: autorização de internação hospitalar; *por 100 mil habitantes; **a base de cálculo considerou a população média no período 2014-2024.

36


Tabela 8. Demandas do serviço hospitalar por hanseníase, custos para o tratamento e mortalidade, por região geográfica. Brasil, 2014-2024. AIH aprovadas

Internações

Taxa de Internação*

Média permanência (dias)

Valor médio internação (RS)

Custo per capita da internação**

Taxa mortalidade hospitalar

Brasil

35.430

34.160

16,5

8,1

892,0

0,15

1,8

Região Norte

3.477

3.477

19,4

7

476,4

0,09

1,4

Região Nordeste

12.673

12.246

21,8

9,7

768,5

0,17

2,4

Região Sudeste

6.317

6.214

7,1

7,6

818,8

0,06

1,6

Região Sul

8.194

7.943

26,5

6,3

1.479,1

0,39

1,9

Região Centro-Oeste

4.769

4.280

26,5

8,4

600,1

0,16

0,9

AIH: autorização de internação hospitalar; *por 100 mil habitantes; **a base de cálculo considerou a população média no período 2014-2024.

Tabela 9. Demandas do serviço hospitalar por hanseníase, custos para o tratamento e mortalidade, por Unidade da Federação. Brasil, 2014-2024. Unidade da Federação

AIH aprovadas

Internações

Taxa de Internação*

Média permanência (dias)

Valor médio internação (R$)

Custo per capita da internação**

Taxa mortalidade hospitalar

Rondônia

698

698

40,9

9,6

572,1

0,23

0,86

Acre

603

603

70,6

4,4

376,8

0,27

0,66

Amazonas

305

305

7,5

11

782,2

0,06

3,28

Roraima

72

72

11,7

14,5

518,7

0,06

-

Pará

803

803

9,6

5,7

396,7

0,04

2,24

Amapá

31

31

4,0

5,7

415,0

0,02

6,45

Tocantins

965

965

63,4

6

438,0

0,28

1,04

Maranhão

4.558

4.558

65,8

9,5

950,0

0,62

2,92

Piauí

377

377

11,4

6,2

510,6

0,06

2,65

Ceará

751

751

8,3

8

683,7

0,06

2,26

Rio Grande do Norte

180

179

5,3

11,8

910,8

0,05

3,35

Paraíba

1.581

1.183

29,3

14,0

694,8

0,20

3,38

Pernambuco

2.833

2.833

30,2

9,9

630,1

0,19

0,64

Alagoas

641

641

20,0

8

709,6

0,14

2,34

Sergipe

81

81

3,6

12,3

1.197,9

0,04

4,94

Bahia

1.671

1.643

11,2

8,9

641,1

0,07

3,04

Minas Gerais

2.610

2.606

12,5

5,5

843,8

0,11

1,3

Espírito Santo

659

659

16,6

6

1.064,8

0,18

1,52

Rio de Janeiro

786

785

4,6

12,8

690,3

0,03

2,17

São Paulo

2.262

2.164

4,8

8,7

760,4

0,04

1,66

Paraná

5.042

5.035

44,0

4,1

1.614,6

0,71

1,67

Santa Catarina

2.442

2.198

29,7

11,6

1.305,9

0,39

2,32

Rio Grande do Sul

710

710

6,4

4,9

1.054,5

0,07

1,83

Mato Grosso do Sul

1.605

1.118

40,4

16,4

833,3

0,34

1,16

Mato Grosso

722

720

20,3

7,1

577,4

0,12

1,11

Goiás

2.135

2.135

30,7

4,5

494,3

0,15

0,89

Distrito Federal

307

307

10,6

8,9

540,0

0,06

-

AIH: autorização de internação hospitalar; *por 100 mil habitantes; **a base de cálculo considerou a população média no período 2014-2024.

37


Para dar maior visibilidade às taxas de internação e às médias de permanência hospitalar relacionadas ao tratamento da hanseníase, a Figura 25 mostra distribuição geográfica desses indicadores por UF. Essa imagem corrobora com os dados apresentados nas tabelas anteriores, apontando como destaques Pará, Tocantins e Acre como estados líderes entre os que possuem as maiores taxas de internação. Por sua vez, Roraima e Mato Grosso do Sul têm os tempos de permanência hospitalar mais longos.

Figura 25. Taxa de internação por 100.000 habitantes e tempo médio de internação (dias) por hanseníase. Brasil, 2014-2024.

11,7

4,0

7,5

9,6

65,8

8,3 11,4

70,6

5,3

30,2

63,4

40,9

11,2

20,3 30,7

Taxa de internação

12,5

70,6

40,4 4,8

4,6

44,0 29,7

3,6

6,4

14,5

5,7

11

5,7

9,5

8 6,2

4,4

9,9

8

6

9,6

11,8 14

8,9

7,1 4,5

Média permanência (dias)

5,5

16,4

16,4

6

8,7 4,1 11,6

4,1

4,9

No entanto, apesar do número de procedimentos realizados, boa parte deles em ambiente hospitalar, a conta para prevenir, diagnosticar e tratar a hanseníase no Brasil não é alta, se comparada com outros custos e investimentos realizados na área da saúde. Nos dez anos analisados nesse relatório, a soma das despesas públicas com o manejo dessa doença chegou a R$ 30.060.834,25, apenas com as internações, com aumento significativo nos anos de 2016, 2022 e 2023.

38


4.1. Sínteses Evolução das internações hospitalares (2014–2024) • O número anual de internações por hanseníase apresentou redução e a taxa de internação por 100 mil habitantes acompanhou essa tendência de queda, indicando menor demanda hospitalar ao longo da década.

Autorizações e efetivação das internações • Houve elevada correspondência entre autorização e realização do atendimento hospitalar, analisando as autorizações de internação hospitalar em relação às internações ocorridas.

Custos do tratamento hospitalar • Apesar da redução no volume de internações, o valor médio por internação aumentou cerca de 50,5% ao longo da série histórica. • O custo per capita da internação manteve-se baixo em termos absolutos, ainda que com oscilações e tendência de elevação ao longo do tempo. • No acumulado de dez anos, os gastos públicos com internações por hanseníase totalizaram R$ 30,1 milhões.

Mortalidade hospitalar • Ainda permanecem elevados os óbitos hospitalares relacionados à hanseníase no período e não houve tendência sustentada de crescimento ao longo da série.

Distribuição regional das internações e custos • A Região Sul apresentou os maiores indicadores de taxa de internação, maior custo médio por internação e maior custo per capita, apesar de registrar a menor média de permanência hospitalar. • As regiões Nordeste e Centro-Oeste também apresentaram taxas elevadas de internação, enquanto o Sudeste concentrou os menores valores relativos.

Diferenças entre unidades da federação • Observou-se ampla heterogeneidade entre os estados quanto às taxas de internação, tempo de permanência e custos. • O Acre apresentou a maior taxa de internação por 100 mil habitantes, o Mato Grosso do Sul a maior média de permanência hospitalar e o Paraná os maiores custos médios e per capita de internação. • Essas diferenças refletem distintos perfis de demanda e organização da atenção hospitalar.

Tempo de permanência hospitalar • A média nacional de permanência hospitalar foi de 8,1 dias, com variações importantes entre regiões e estados. No entanto, houve variação importante nos padrões assistenciais.

Relação entre internação e custo ao longo do tempo • A análise conjunta dos indicadores demonstra que, mesmo com a redução da taxa de internação, os custos médios e per capita aumentaram, resultando em maior gasto unitário por procedimento hospitalar. • Esse comportamento reforça a dissociação entre volume de internações e despesas totais. O capítulo evidencia que a hanseníase impõe carga hospitalar decrescente em volume, mas crescente em custo médio, ao sistema de saúde. Embora o impacto financeiro global das internações seja relativamente limitado no contexto do gasto público em saúde, os dados mostram desigualdades regionais relevantes e apontam para a importância do diagnóstico e tratamento oportunos como estratégias para reduzir internações, custos e sobrecarga hospitalar.

39


5. Considerações finais

Este relatório analisou a série histórica da hanseníase no Brasil entre 2014 e 2024, reunindo evidências relacionadas à distribuição da doença na população, à qualidade da assistência prestada e ao impacto da hanseníase sobre a atenção hospitalar. À luz desses resultados, e em consonância com a premissa apresentada na introdução (a meta de Hanseníase Zero, entendida como zero transmissão, zero incapacidades evitáveis e zero estigma), reconhecida como um objetivo ambicioso e de difícil superação. Os achados permitem uma análise equilibrada entre avanços consistentes e desafios ainda relevantes. Ao longo da década analisada, o Brasil registrou redução expressiva da taxa de detecção de casos novos, com queda acumulada de 47%. Esse movimento acompanha a tendência global de declínio da hanseníase e indica que as políticas públicas implementadas ao longo dos anos produziram efeitos positivos. No entanto, a persistência do país, na maior parte do período, em patamar classificado como de endemicidade alta, bem como o retorno a essa classificação nos anos mais recentes, evidencia que a redução observada ainda não foi suficiente para interromper de forma sustentada a transmissão da doença. A análise espacial revelou que a hanseníase permanece marcada por profundas desigualdades regionais. O Centro-Oeste, seguido pelas regiões Norte e Nordeste, concentrou as maiores taxas de prevalência e incidência, com destaque reiterado para o estado do Mato Grosso. Em contraste, o Sul, especialmente o Rio Grande do Sul, manteve taxas baixas ao longo de toda a série histórica. Essa heterogeneidade territorial indica que o avanço rumo à hanseníase zero não ocorre de maneira uniforme no país e reforça a necessidade de estratégias diferenciadas, sensíveis aos contextos regionais. Sob a perspectiva populacional, os dados indicam que a hanseníase continua a afetar predominantemente adultos em idade produtiva, com maior ocorrência entre indivíduos do sexo masculino. A presença contínua de casos em menores de 15 anos, ainda que proporcionalmente inferior à observada em adultos, permanece como sinal de transmissão ativa em determinados territórios. A distribuição segundo raça/cor da pele e escolaridade reforça a associação da doença com contextos de maior vulnerabilidade social, evidenciando que a hanseníase continua fortemente condicionada por desigualdades socioeconômicas. A avaliação da qualidade da assistência evidenciou um cenário de caráter ambivalente. Por um lado, a maioria dos casos evoluiu para cura, e a mortalidade associada à hanseníase apresentou redução consistente ao longo da década, configurando um dos desfechos mais positivos do período analisado. Por outro, observou-se estabilidade da taxa nacional de casos novos com incapacidade física, com aumentos relevantes em algumas regiões e estados. A proporção de casos diagnosticados com Grau 2 de Incapacidade Física, indicador clássico de diagnóstico tardio, apresentou redução em termos de taxa populacional, mas crescimento proporcional em determinados anos, especialmente até 2022, indicando fragilidades persistentes na detecção precoce. A predominância progressiva da forma multibacilar até o ano de 2022, seguida de redução nos dois últimos anos da série histórica, sugere que parcela expressiva dos casos ainda acessa os serviços de saúde em estágios mais avançados da doença. Esse padrão articula-se com a análise dos modos de detecção, a qual evidenciou o predomínio de estratégias passivas, fundamentadas principalmente no encaminhamento e na demanda espontânea. A busca ativa de casos, considerada central nas estratégias internacionais para alcançar a hanseníase zero, permaneceu pouco representada nos registros disponíveis. O acompanhamento de contatos, reconhecido como elemento central para a interrupção da cadeia de transmissão, apresentou apenas discreta melhora ao longo da década, mantendo-se classificado no parâmetro “regular”. A persistente discrepância entre o número de contatos registrados e aqueles efetivamente examinados evidencia limitações na cobertura e na efetividade das ações de vigilância, comprometendo a identificação precoce de novos casos e a implementação oportuna de medidas profiláticas.

40


No âmbito da atenção hospitalar, os resultados mostram redução consistente do número e da taxa de internações por hanseníase, sugerindo menor ocorrência de complicações graves ou melhor manejo ambulatorial dos casos. Em contrapartida, observou-se aumento expressivo do custo médio das internações, com elevação de aproximadamente 50% ao longo da série histórica. Ainda que o impacto financeiro global das internações seja relativamente baixo no conjunto dos gastos em saúde, a coexistência de menor volume de internações e maior custo unitário reforça a importância do diagnóstico precoce e do tratamento oportuno como estratégias não apenas sanitárias, mas também econômicas. Considerados em conjunto, os achados apresentados neste relatório indicam que o Brasil registrou avanços relevantes no enfrentamento da hanseníase ao longo da última década, especialmente no que diz respeito à redução da incidência global, à manutenção de elevadas taxas de cura e à diminuição da mortalidade associada à doença. Contudo, a persistência de transmissão em áreas específicas, a ocorrência de diagnóstico tardio evidenciada pelas incapacidades físicas, as limitações na vigilância de contatos e as desigualdades regionais e sociais mostram que o país ainda se encontra distante da meta de hanseníase zero. Alcançar esse objetivo exige a consolidação dos avanços já obtidos e, de forma concomitante, o enfrentamento dos pontos críticos identificados ao longo da série histórica analisada. O fortalecimento da vigilância ativa, a ampliação do diagnóstico precoce, o cuidado integral voltado à prevenção de incapacidades e a redução das desigualdades no acesso aos serviços de saúde permanecem como elementos centrais desse percurso. Ao reunir e sistematizar os dados oficiais, este relatório contribui para tornar mais visível esse caminho, oferecendo subsídios objetivos para o planejamento, a avaliação e o aprimoramento das políticas públicas voltadas à eliminação da hanseníase como problema de saúde pública no Brasil.

41


6. Notas metodológicas

6.1. Fonte de dados Para a elaboração desse relatório pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) foi realizada uma análise dos indicadores epidemiológicos e operacionais da hanseníase no Brasil, com dados advindos do banco nacional do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), mantido pelo Ministério da Saúde, referentes ao período compreendido entre os anos de 2014 a 2024 (http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi. exe?sinannet/cnv/hanswbr.def). Conforme notas orientativas do DATASUS, os dados do Espírito Santo, a partir do ano de 2020, foram extraídos do Sistema Oficial Único Para Notificação Compulsória De Doenças, Agravos e Eventos De Saúde Pública (e-SUSVS), mantido por aquele estado. De forma geral, as bases de dados de 2014 a 2017 foram atualizadas em 2021; de 2018 a 2020, em 2023; de 2021 a 2023, em 2024; e de 2024 em 2025. Reitere-se que as informações advindas do Sinan/Hanseníase, no âmbito do Ministério da Saúde, e do eSUSVS são consolidadas na rotina de trabalho da CGDE/DCCI/SVS. Essa sigla se refere a setores dentro do Ministério da Saúde, especificamente a Coordenação-Geral de Doenças e Condições Crônicas (CGDE), que faz parte do Departamento de Doenças e Condições Crônicas e Infecciosas (DCCI), dentro da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS). Eles emitem orientações e notas técnicas sobre o tratamento e controle de doenças, como hanseníase, no SUS. Isso significa que não foram realizados procedimentos de limpeza específicos nessas bases, considerando que toda a tabulação seguiu as orientações do roteiro para uso do Sinan Net Hanseníase e do Manual para tabulação dos indicadores de hanseníase (Brasil, 2022). O tamanho da população residente foi extraído do Tabnet Datasus, disponível em: http://tabnet.datasus.gov. br/cgi/deftohtm.exe?ibge/cnv/popsvs2024br.def. Para o cálculo dos indicadores, foram utilizadas as Unidades Federativas (UFs) de residência dos casos de hanseníase, sendo excluídos aqueles constantes no banco de dados com tipo de saída “erro de diagnóstico”. Os dados sobre custos com tratamentos (internações, consultas, exames e orientações educativas) foram extraídos da base de Produção Hospitalar (SIH/SUS) e Ambulatorial (SAI/SUS), consolidados a AIH por local de internação. Como apoio ao processo de organização textual e síntese dos resultados, especialmente nos quadros de sínteses ao final dos capítulos, foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial generativa, exclusivamente com a finalidade de auxiliar na sistematização e estruturação textual, sem substituição da análise técnica, da validação humana ou da responsabilidade institucional sobre o conteúdo final.

6.2. Extração e análise dos dados As análises de dados consideraram tanto as características populacionais (sexo, faixa etária, raça/cor da pele e escolaridade) e geográficas (região, UF, capital e local de residência e de diagnóstico). As fórmulas dos indicadores e os parâmetros podem ser vistos no Quadro 1. Para o cálculo das taxas, foram utilizados dados populacionais disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A variação no período (ano a ano ou comparando o período inicial e final) foi obtida a partir da seguinte fórmula: (valor atual-valor antigo) /valor antigo*100.

42


6.3. Indicadores Para aferir a magnitude da hanseníase, foram utilizados indicadores relacionados à distribuição populacional; para dimensionar a qualidade da assistência e resolutividade do serviço, recorreu-se a indicadores de efetividade do serviço; e para compreender o impacto da hanseníase no sistema de saúde foram selecionados indicadores de custo hospitalar (Quadro 1).

Quadro 1. Indicadores populacionais e de serviço da hanseníase. Indicador

Uso

Base de cálculo

Parâmetro

10 mil habitantes

Baixo (<1,00/10.000hab.), médio (1,00 a 4,99/10.000hab.), alto (5,00 a 9,99/10.000hab.), muito alto (10,00 a 19,99/10.000hab.) e hiperendêmico (≥20,00/10.000hab.).

100 mil habitantes

Baixo (<2,00/100.000hab), médio (21,00 a 9,99/100.000hab), alto (10,00 a 19,99/100.000hab), muito alto (20,00 a 39,99/100.000hab) e hiperendêmico (≥40,00/100.000hab).

1.000.000 habitantes

Não há parâmetros estabelecidos.

100

Não há parâmetros estabelecidos.

100

Não há parâmetros estabelecidos.

100

Não há parâmetros estabelecidos.

100

Não há parâmetros estabelecidos.

100

Não há parâmetros estabelecidos.

Distribuição populacional

Taxa de prevalência

Aferir a magnitude da doença

Taxa de detecção anual de casos novos

Taxa de casos novos de hanseníase com GIF 2 no momento do diagnóstico. Proporção de casos de hanseníase segundo classificação operacional atual entre o total de casos novos diagnosticados no ano, segundo local de residência.

Determinar a força de morbidade, magnitude e tendência da hanseníase ao longo do tempo. Avaliar as incapacidades causadas pela hanseníase na população geral

Avaliar o risco de desenvolver complicações, bem o correto reabastecimento de PQT.

Proporção de casos de hanseníase segundo sexo, entre o total de casos novos diagnosticados no ano, segundo local de residência.

Avaliar a capacidade dos serviços em assistir os casos de hanseníase.

Proporção de casos de hanseníase segundo escolaridade, entre o total de casos novos diagnosticados no ano, segundo local de residência.

Avaliar a capacidade dos serviços em assistir os casos de hanseníase.

Proporção de casos de hanseníase segundo raça/cor da pele, entre o total de casos novos diagnosticados no ano, segundo local de residência.

Avaliar a capacidade dos serviços em assistir os casos de hanseníase.

Proporção de casos de hanseníase segundo faixa etária, entre o total de casos novos diagnosticados no ano, segundo local de residência.

Avaliar a capacidade dos serviços em assistir os casos de hanseníase.

Qualidade da assistência e efetividade do serviço Proporção de casos novos de hanseníase com grau de incapacidade física avaliado no momento do diagnóstico.

Medir a qualidade do atendimento dos serviços de saúde.

Proporção de casos novos de hanseníase com grau 2 de incapacidade física no momento do diagnóstico.

Avaliar a efetividade das atividades para detecção precoce de casos.

Proporção de cura de hanseníase entre os casos novos de diagnóstico nos anos das coortes.

Avaliar a qualidade da atenção e do acompanhamento dos casos novos diagnosticados nos anos das coortes, bem como a efetividade do tratamento.

43

Bom (≥90%), regular (75% a 89,9%) e precário (<75%).

100

Alto (≥10%), médio (5,0% a 9,9%) e baixo (≤5,0%).

Bom (≥90%), regular (75% a 89,9%) e precário (<75%).


Medir a capacidade dos serviços em realizar a vigilância de contatos dos casos novos de hanseníase, aumentando a detecção precoce de casos novos.

100

Bom (≥90%), regular (75% a 89,9%) e precário (<75%).

Medir a qualidade do atendimento dos serviços de saúde.

100

Bom (≥90%), regular (75% a 89,9%) e precário (<75%).

Proporção de casos novos de hanseníase com grau 2 de incapacidade física avaliados na cura, nos anos das coortes.

Avaliar a transcendência da doença e subsidiar a política de ação para sequelas.

100

Não há parâmetros estabelecidos.

Proporção de casos de hanseníase com grau 2 de incapacidade física avaliado na cura.

Avaliar a transcendência da doença e subsidiar a política de ação para sequelas.

100

Alto (≥10%), médio (5,0% a 9,9%) e baixo (≤5,0%).

Proporção de casos de recidiva entre os casos notificados no ano.

Monitoramento de falência terapêutica.

100

Não há parâmetros estabelecidos.

100.000 habitantes

Não há parâmetros estabelecidos.

Por habitante

Não há parâmetros estabelecidos.

1.000.000 habitantes

Não há parâmetros estabelecidos.

Proporção de contatos examinados de casos novos de hanseníase diagnosticados nos anos das coortes.

Proporção de casos novos de hanseníase com grau de incapacidade física avaliado na cura, nos anos das coortes.

Internação hospitalar

Taxa de internação hospitalar

Custo da internação por habitante.

Taxa de mortalidade hospitalar

Determinar o impacto das complicações clínicas da doença sobre o serviço de saúde. Medir o impacto nos custos assistenciais por complicações clínicas e falhas na assistência terapêutica.

Monitoramento de falência terapêutica.

*PQT: poliquimioterapia

6.4. Parâmetros utilizados Para padronizar o uso de conceitos relacionados à hanseníase, optou-se por adotar como referência os temos utilizados no Roteiro para Uso do Sinan Net Hanseníase e Manual para Tabulação dos Indicadores de Hanseníase (Brasil, 2022):

6.4.1. Modo de entrada a) Caso novo: pessoa que nunca iniciou qualquer tratamento específico para a doença e que necessita de tratamento com poliquimioterapia (PQT). b) Recidiva: caso que apresenta sinais de atividade clínica da doença após alta por cura, conforme especificidades dispostas nos documentos oficiais. c) Outros reingressos: situações em que o caso recebeu algum tipo de alta e retorna necessitando de tratamento específico, exceto recidiva. Ex.: casos considerados equivocadamente como falecidos; casos multibacilares (MB) tratados erroneamente como paucibacilares (PB), que receberam alta por cura no passado e se reapresentam doentes à unidade de saúde; casos que abandonaram o tratamento e retornam ao serviço de saúde.

44


6.4.2. Tipo de saída a) Cura: o encerramento da PQT deve acontecer segundo os critérios de regularidade no tratamento, a saber, número de doses e tempo de tratamento, de acordo com cada esquema terapêutico, conforme critérios dispostos nos documentos oficiais. Na última dose supervisionada, os casos devem ser submetidos ao exame dermatológico, à avaliação neurológica simplificada e à determinação do grau de incapacidade física para receber alta por cura. b) Abandono: caso com classificação operacional PB que não compareceu ao serviço de saúde por mais de três meses consecutivos ou caso com classificação operacional MB que não compareceu ao serviço de saúde por mais de seis meses consecutivos, a partir da data do último comparecimento, apesar de repetidas tentativas de contato para o retorno e o seguimento do tratamento.

Finalmente, saliente-se, que na elaboração desse documento foi tomada a decisão de não selecionar o item transferências por considerar que se refere a casos em movimentação, cuja incorporação poderia comprometer a leitura da distribuição populacional da hanseníase. Além disso, os Graus de Incapacidade Física (GIF) utilizados - 0 (sem comprometimento), 1 (comprometimento sensitivo e/ou motor) e 2 (comprometimento sensitivo, motor e em sistemas visuais e auditivos) – se referem a um sistema de classificação usado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para avaliar o nível de dano neural e incapacidade f ísica em pacientes, o que é crucial para o diagnóstico e tratamento adequados. Outras informações detalhadas sobre a doença e tratamento no Brasil estão disponíveis no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase do Ministério da Saúde.

45


7. Referências Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Roteiro para uso do Sinan Net Hanseníase e Manual para tabulação dos indicadores de hanseníase [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. – Brasília (DF): Ministério da Saúde, 2022. 98p. World Health Organization. Global leprosy (Hansen disease) update, 2023: Elimination of leprosy disease is possible – time to act!. WHO, 2024. World Health Organization. Hacia cero lepra. Estrategia mundial contra la lepra (enfermedad de Hansen) 2021-2030. WHO, 2021.

46


Pesquisa e elaboração:

https://www.sbd.org.br

@dermatologiasbd

Av. Rio Branco, 39, Centro, Rio de Janeiro


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Janeiro Roxo 2026 by Sociedade Brasileira de Dermatologia - Issuu