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INSPETORIA SANTA CATARINA DE SENA

Inspetoria Santa Catarina de Sena

| Ano 40 | n° 47| maio junho julho e agosto 2016 | São Paulo | SP

Semana Missionária: ir ao encontro de Deus, do outro e de Si mesmo


Editorial

Palavra de Deus a fonte de água viva para as nossas vidas Prezados Leitores, Está chegando até vocês o “Em Família” carregado de boas noticias! • ele mostra um pouco do muito que acontece em nossas comunidades; ajuda a fazer uma leitura atenta sobre assuntos diversos com artigos escritos por pessoas que partilham seus saberes; • fala de vida, dinamismo, esperança, encontros que fazem o “milagre” acontecer; • convida a agradecer e louvar o Deus-Amor que é presença sensível e misericordiosa em nossa vida e missão! O mês de setembro nos motiva a fazer da Palavra de Deus a fonte de água viva para as nossas vidas, a luz que ilumina os passos de uma “Igreja em saída”, o alimento que sustenta e dá vigor ao nosso ser discípulos-missionários. Neste ano, a Igreja nos propõe, como tema para o mês da Bíblia: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida” e o lema: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus”. Esta proposta é um convite para que sejamos pessoas apaixonadas pela Palavra e que, a partir, dela façamos uma leitura sapiencial da realidade para descobrir o que Deus quer de nós. Papa Francisco falando aos dois milhões de jovens, que estiveram em Cracóvia, na Polonia, participando da JMJ, disse: “Jovens, a missão é viver a misericórdia no dia a dia”. Atitudes e gestos de misericórdia se fazem, cada vez mais, urgentes em nosso cotidiano. Só assim ajudaremos o mundo ser mais humano, fraterno, feliz e solidário. Caminhemos firmes na esperança e na misericórdia! Um fraterno abraço.

Ir. Helena Gesser Redação, produção e distribuição Ir. Maria de Lourdes Macedo Becker, Andréa Pereira Projeto gráfico Andréa Pereira Capa : Banco de Imagens Revisão Ir. Maria de Lourdes Macedo Becker, Fotos Inspetoria Santa Catarina de Sena Colaboração Irmãs e Comunidades da Inspetoria Santa Catarina de Sena

Contato editorial@fmabsp.org.br EM FAMÍLIA | Ano 40 | nº 47 Centro de Comunicação Marinella Castagno

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Rua Três Rios, 362, Bom Retiro 01123-000 São Paulo | SP Tel. 55 11 3331 7003 www.salesianas.org.br Em Família é uma publicação formativa, que divulga e informa sobre o cotidiano das comunidades das Filhas de Maria Auxiliadora na Inspetoria Santa Catarina de Sena e suas frentes de trabalhos.


Sumário

SEMANA MISSIONÁRIA:

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ir ao encontro de Deus, do outro e de Si mesmo

Relembre e fique sabendo o que aconteceu em nossas comunidades nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril, programe-se para as próximas atividades. Divirta-se, emocione-se, Em Família.

Editorial Cartas Capa Artigo Ponto de Vista Entrevista Registro É Festa Programe-se

ESPIRITUALIDADE SALESIANA

um olhar as origens

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Cartas Obrigada pela Revista e aquele abraço. Chiquérrima!!! Nossa, mudou completamente. E que bonito ver leigos escrevendo sobre Madre Mazzarello. Foi simplesmente 1000! Ir. Maike Loes Gostei muito da nova revista “Em Família”. Gostei muito do conteúdo formativo e da nova apresentação da revista. Acho que será muito mais aproveitada nas comunidades. Parabéns à Equipe responsável pelo conteúdo e formatação. Ir.Rosa Maria Valente Parabéns! Que evolução!!!! Está muito rica de conteúdos e informações. Vou ler com carinho!!! Ir. Adair Sberga Como o “EM FAMÍLIA” ficou lindo! Parabéns a vocês! Ir. Vilma Bertini

Agradeço a partilha da Revista Em Família. Parabéns por este maravilhoso trabalho e que a Virgem Auxiliadora continue abençoando sua missão e de todas as Irmãs desta querida Inspetoria Santa Catarina de Sena. Nosso abraço carinhoso, em comunhão de preces. Ir. Edwirges Maria, FMA - BMA Parabéns! Uma super qualidade de Revista.. Vou gravar o arquivo porque quero ler todos. Todos chamam a atenção. Muito bem escolhido os temas. Gostei demais! Ir. Dorce Rampi Obrigada pela Revista em Família Parabéns! Interessante várias matérias formativas. Um grande abraço! Ir. Ivone Marcuzo fma BCG

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Capa

Semana Missionária: ir ao encontro de Deus, do outro e de Si mesmo Por João Carlos Teixeira O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se (... ) 2013, EVANGELII GAUDIUM pág.3

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uando se fala em missões, para boa parte das pessoas, a imagem que vem à mente é a de padres jesuítas a bordo de navios portugueses chegando a um território de natureza selvagem, embrenhando-se em matas cerradas, catequizando índios e fundando igrejas. Neste sentido, é estranho imaginar uma modalidade de missão em que os protagonistas sejam jovens estudantes, no geral entre 14 e 18 anos de idade, e que os destinatários da ação sejam católicos, participantes de uma comunidade e, em geral, com vida pastoral ativa e vivência dos sacramentos. Esta forma de fazer missão acontece regularmente ,há mais de quinze anos, e já levou milhares de alunos de colégios salesianos, paróquias e obras sociais aos mais diversos rincões deste país, na maioria das vezes, lugares esmos, distantes dos grandes centros urbanos. Aqui em São Paulo, o projeto já era realizado pelos salesianos, desde o final dos anos 1990, e a partir de 2001 as Filhas de Maria Auxiliadora também passaram a realizar a proposta. Neste artigo, refletiremos sobre o projeto Semana Missionária, e, também, sobre a exigência de se assumir nossa vocação missionária, condição intrínseca de ser cristão. POR QUE EVANGELIZAR? “Antes que tu nascesses, te conheci e ti consagrei. Para ser Meu profeta dentre as nações eu ti escolhi. Irás onde ti envio e o que Eu mando proclamarás. Tenho de gritar, tenho de arriscar, ai de mim se não o faço!” (Luiz de Carvalho) Primeiramente, ao sermos batizados somos convocados a evangelizar. No sacramento da iniciação, ao sermos incorporados a Cristo e inseridos na comunidade, nos tornamos sacerdotes, profetas e reis. Conforme nos mostra o Antigo Testamento, os profetas foram os que prenunciaram a vinda do Messias, ou seja, os anunciadores do Cristo. 4 | Em Família


Capa Somente a exigência canônica, ou uma determinação fundamentada teologicamente poderia fazer do anúncio de Cristo um mero cumprimento ritualístico, quase burocrático. Mas falar Dele, Cristo, supera qualquer exigência formal para caracterizar-se como reação a quem fez uma verdadeira experiência de Deus. De fato, o chamado dos apóstolos e profetas, o surgimento da Igreja e a vocação das Santas e Santos cristãos são, invariavelmente, disparados por uma movimento epifânico, um encontro pessoal com o Divino. Seja na Eucaristia, na intensidade de uma oração profunda e verdadeira, na leitura das Sagradas Escrituras, no rosto de um irmão que sofre, não há intenção real de falar de Deus que não passe pelo encontro com o próprio Deus. É deste momento sublime, em que o imanente é tomado pelo transcendente que nasce o ardor motivador do anuncio. Do contrário a experiência de evangelizar, aí sim, se torna formal, burocrática, esvaziada de si, cênica. Falar da experiência do contato com o Belo é, então, um movimento quase involuntário. É como se tivéssemos apaixonados pela música de uma banda nova. Fatalmente indicaremos o som da tal banda a amigos e conhecidos, assumindo esta função de multiplicador e de marketing sem que notemos. Então, se com um conjunto musical fazemos este movimento, por que não com Deus? O próprio Cristo orientou sobre a necessidade de levar adiante sua mensagem salvífica. Nas últimas linhas do Evangelho de Mateus, após ressuscitar, Jesus aparece aos apóstolos pedindo que “vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinandoos a observar tudo o que ordenei a vocês”. (Mt 28, 19-20) Na bonita metáfora de Madre Tereza de Calcutá, a expressão da missionariedade cristã: É frequente observares fios elétricos ao longo da estrada. Se a corrente não passa por eles, não há luz. O fio é o que somos tu e eu. A corrente elétrica é Deus. Temos o poder de a deixar passar através de nós e, assim, fornecer ao mundo a Luz, que é Jesus, ou de recusarmos que Ele Se sirva de nós, permitindo, com isso, que a escuridão se alastre. (YOUCAT, Pág. 18). COMO ANUNCIAR JESUS Levar a mensagem cristã e proporcionar a experiência de Deus para o próximo exigem paixão pelo que se faz, confiança em Deus pelo porvir, e consciência de como fazer. A configuração do modo de evangelizar é o que torna a Semana Missionária sui generis: O projeto tem uma rotina preestabelecida, com diversas atividades. Dentre as quais: A bênção das famílias, em que os missionários visitam as casas, partilham das alegrias e sofrimentos de seus moradores, rezam por elas e ministram palavras de conforto e esperança, iluminados pela leitura da Palavra de Deus. A saída pelas ruas do bairro consome o tempo todo da manhã, e, após o almoço, os jovens realizam o oratório com crianças e jovens. Entre jogos, brincadeiras de roda, oração, o boa tarde e muita alegria, cria-se a oportunidade de, ao modo de Dom Bosco, educar evangelizando e evangelizar educando. maio | junho | julho e agosto 2016 | 5


Capa Ao final do dia, na celebração com a comunidade local, reza-se pela família, pela juventude, pela Misericórdia de Deus e por outros tantos motivos que revelam a incomensurável fé de um povo que não se dobra à qualquer dificuldade. Ao observar Jesus em sua ação pastoral, o percebemos, durante muito tempo, interagindo com o povo em sua realidade cotidiana: seja ceando com eles, conversando, caminhando a seu lado, enfim, a prática de jesus é a do anúncio ‘pé no chão’. Não menos importantes, são menos frequentes as ocasiões em que o vemos pregando nas sinagogas. A Semana Missionária propõe uma evangelização que não se resuma ao anúncio verbal ou numa modalidade doutrinária. É antes, uma experiência de anúncio diluído em atividades que nem sempre aparentam conotação religiosa, mas concentrado num testemunho empolgado e verdadeiro, próprio das juventudes, e que tem o potencial de contagiar quem encontrar. Em junho de 2001, a Ir. Dorce Rampi, então coordenadora de pastoral do Colégio de Santa Inês, reuniu um grupo de dezessete alunos e, com três assessores foi à cidade de Sertão Velho, fazer a primeira Semana Missionária das Filhas de Maria Auxiliadora. “Foi uma experiência de intenso protagonismo jovem, pois eles assumiram todas as atividades ao longo do dia. Tocavam as oficinas, oratório, celebrações, enfim, tudo. Eu só liderava a avaliação ao final do dia. O resto era com eles”, afirma a salesiana. Além da iniciativa por parte dos estudantes, Ir. Dorce ressalta: “ver a situação precária em que as pessoas viviam naquele lugar e fazer uma 6 | Em Família

experiência radical de viver somente com o necessário modificou a vida destes jovens para sempre”. SAIR DE SI A realização da Semana Missionária pressupõe organização antes, durante e depois do evento: alimentação, distribuição de funções e atividades, preparação teológica, catequética, pastoral e espiritual dos envolvidos... Enfim, o deslocamento com adolescentes a locais distantes de suas famílias, hospitais e demais aparatos urbanos, exige superar o espírito romântico e desbravador, que abre bandeiras e entrega-se ao ermo. Há de se minimizar a mentalidade do improviso a fim de potencializar a experiência para a comunidade que recebe a missão, e os próprios missionários. Do contrário a proposta fica frouxa, despretensiosa e sem objetivo. Planejar, no entanto, não significa intransigência, pois a proposta que desembarca em terra de missão inflexível, indisposta a negociar, interagir e abrir-se ao modus operandi, cultura e fluxo locais, arrisca-se a se tornar mera imposição colonialista de um ponto de vista sobre outro, o que faz da experiência algo estéril, infrutífero. ”Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que lhe mostrarei”, disse Deus a Abrão. (Gn 12,1). No gesto de abandonar-se nas mãos de Deus, e sentir sua presença em cada instante, reside o cerne do ser missionário. No fim, o sabor que é guardado nas recordações dos jovens que participam desta experiência é a do desapego de tudo o que é excesso e retorno ao


Capa essencial; de enxergar o mundo por um prisma outro que não o seu; de valorizar as experiências e oportunidades que lhe são ofertadas, e criar condições aos que, por aspectos sociais, dificilmente as têm; de buscar uma experiência transcendental na vivência da fraternidade comunitária, na oração e no serviço ao próximo. Para adolescentes, muitos provindos de uma confortável situação econômica, a experiência de ir ao encontro de uma realidade distinta, por vezes marcada pela pobreza e negligência do poder público, já é, por si, oportunidade de transformação pessoal. Mas o sentido da missão se completa quando o encontro transforma todos os agentes envolvidos. Falar às pessoas sobre esperança, apontar caminhos para a superação de sua condição marginal, revitalizar a experiência de fé e de comprometimento pastoral das pessoas, nisto a missão se faz modo eficaz de anunciar a boa nova de Cristo. A estudante do Colégio de Santa Inês, Gabriela Calderon, que participou da missão em Taubaté, neste ano, ressalta a gratidão da comunidade local, em recompensa ao cansaço das atividades: “uma semana cheia e corrida, mas que valeu o esforço. Em tudo que eu fazia e participava, via a recompensa, com pequenos gestos, sorrisos e palavras”. O anúncio que estes jovens fazem, pode não ser o de maior robustez teológica e de consolidada experiência eclesial. Algumas pessoas de mesma idade, que se encontram nos locais de missão, têm noção e vivência de fé, por vezes, mais bem estabelecidas que eles, missionários. O que os qualificam como agentes de missão, então? A Semana Missionária é sempre

momento entusiasmante, pois esta é a característica primeira dos missionários. Entusiasmo é uma palavra de origem grega, que remonta à expressão En Theos, ou seja, em Deus. Estar repleto de Deus e transbordá-lo no cuidado com o próximo. É isto que se propõe a experiência e é esta a contribuição do jovem missionário: Ser Igreja em saída e fazer aquele tipo de evangelização que se realiza com a vida, com o testemunho, com o trabalho árduo, na experiência do convívio comunitário, que anula o egoísmo social vigente, no seguimento radical de Jesus, no diálogo com Deus, na renúncia dos apetrechos que se deixa para trás, na doação de uma semana de férias a pessoas que, em geral, carecem de atenção, de carinho, de uma renovada experiência de Deus. Não há como ser o mesmo após esta Semana. “Evangelize sempre, se necessário, use palavras” (São Francisco de Assis).

Bibliografia: PAPA FRANCISCO, “Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – A alegria do Evangelho. Sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual”. Ed. Paulus e Edições Loyola. São Paulo, 2013 YOUCAT, Editora Paulus. São Paulo, 2011. Bíblia Sagrada – Edição Pastoral.

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Coração Oratoriano de Dom Bosco e Madre Mazzarello Por P. Glauco Félix Teixeira Landim | SDB

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Papa Francisco, ao propor o Jubileu da Misericórdia, para este ano de 2016, ofereceu à Igreja uma experiência altamente enriquecedora. Todas as reflexões propostas, as celebrações e as motivações, apresentadas para este Jubileu, nos deixam clara a fina sensibilidade que Deus possui em relação às necessidades humanas e, consequentemente, do quanto é imensurável o seu amor por nós. Foi este mesmíssimo amor que Deus manifestou de uma maneira muito especial pela juventude, quando suscitou Dom Bosco e, nele, um coração de Pai, sensível à realidade dos muitos jovens pobres, abandonados e em perigo de sua época. O nosso Fundador percebeu a dura e triste realidade dos jovens que não contavam com a ajuda de ninguém para construírem seu futuro e que, desamparados de qualquer acompanhamento, acabavam se perdendo. E assim como Jesus, teve compaixão destes jovens e se pôs a trabalhar por eles. Lutou para que eles tivessem um espaço físico onde pudessem viver, ter uma família, brincar, rezar e aprender uma profissão. E esforçou-se para que este lugar (que ele sempre quis chamar de casa) fosse permeado por um clima positivo de alegria, de encontro, de

amizade, de compreensão e de educação. Por meio da prática da assistência salesiana, Dom Bosco foi criando um estilo próprio de educar e de estar presente na vida dos jovens. A sua presença amiga, ativa e preventiva fez com que muitos jovens vissem nele um verdadeiro guia que poderia ajudálos a discernir os caminhos para a construção de um projeto de vida consistente. O segredo, revelado na carta que escreveu em Roma no ano de 1884, foi que o afeto gera familiaridade e a familiaridade gera confiança. E que um jovem, a partir do momento em que passa a confiar no seu educador, está pronto para abrir-lhe o coração e permitir-lhe que o ajude a enfrentar os desafios e as dificuldades da vida. Dom Bosco era um especialista em educar por meio da presença e do afeto por um motivo muito importante: foi desta maneira que ele mesmo havia sido educado por sua mãe, Margarida Occhiena. Nas “Memórias do Oratório de São Francisco de Sales”, o nosso fundador descreve a sua infância enfatizando a força de sua mãe que, viúva muito jovem, soube assumir para si a responsabilidade do cuidado de uma família simples, com graves dificuldades financeiras, com uma senhora idosa, duas crianças e um adolescente, filho do primeiro casamento do marido. Dom Bosco deixa claro que essas enormes responsabilidades não fizeram com que Margarida deixasse de lado o cuidado com a educação de seus filhos, sobretudo com os dois elementos importantes da assistência salesiana: a presença constante e o afeto demonstrado. Alude maio | junho | julho e agosto 2016 | 9


Artigo também à capacidade incrível que sua mãe possuía de educar para o sentido de presença de Deus, a partir das coisas simples do cotidiano, e afirmava que todo bom educador deve fazer o mesmo com os seus destinatários. Alude ainda ao papel de catequista de sua mãe que o acompanhou (o texto das Memórias do Oratório usa o verbo assistiu) em cada momento que antecedeu e sucedeu a sua primeira confissão e a sua primeira eucaristia. Assim era o coração oratoriano de Dom Bosco: um coração que decidiu viver e dedicar todas as suas forças pela juventude, especialmente a mais pobre e necessitada. Que tomou a forte decisão de ser uma presença constante, amiga e orientadora para a vida. Que assumiu como palavras de ordem: querer muito bem aos jovens e esforçarse para estar sempre próximo e presente em suas vidas. Anos depois, quando sua obra já estava consolidada, na cidade de Turim, Dom Bosco encontrou na pequena cidade de Mornese, um grupo de jovens mulheres que nutriam um grande desejo de consagrarem as suas vidas ao trabalho com a juventude. Ele propôs a elas a possibilidade de iniciarem algo grandioso, unindo-se a ele em uma mesma missão a partir do seu estilo de educar e evangelizar. Esta proposta encontrou um terreno fértil especialmente no coração de Maria Domingas Mazzarello. Assim como Dom Bosco em Valdocco, Mazzarello, em Mornese, se tornou uma presença alegre e estimulante, que motivou e motiva às suas

Irmãs e às jovens a desejarem sempre ser melhores, e a buscarem a perfeição. Todos aqueles que são chamados a continuar a missão de Dom Bosco e de Madre Mazzarello necessitam cultivar também, em si mesmos, este coração oratoriano. Precisam assumir uma maneira de atuar que não se deixa paralisar pelo peso de estruturas ou de complexos projetos, mas que busca, antes de tudo, estar em sintonia com o coração dos seus destinatários. Perder de vista este ideal, pode comprometer a qualidade e a eficácia da nossa missão. Para nós, Família Salesiana, não é o bastante trabalhar em nome de Dom Bosco ou de Madre Mazzarello, mesmo seguindo, às duras penas, a tradição do trabalho incansável e extenuante. É preciso agir como Dom Bosco e Madre Mazzarello, buscando ter e cultivar um CORAÇÃO ORATORIANO. Pensar nesta perspectiva, nos ajuda a lembrar que o oratório não é um lugar e nem algo que ficou no passado, como uma história bonita de se lembrar. É uma experiência pedagógica e espiritual que pode e deve ser vivida em qualquer frente da missão salesiana, por cada um de nós, seja qual for a responsabilidade e a função que se tem na casa salesiana. Nossos colégios, nossas obras sociais, nossas casas de formação, nossos centros universitários precisam ser grandes oratórios em que se vive o mesmo clima educativo de Turim e de Mornese, pautado na alegria, na proximidade e na presença de Deus.

É preciso agir como Dom Bosco e Madre Mazzarello, buscando ter e cultivar um CORAÇÃO ORATORIANO.

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É indiscutível que se trata de um método educativo árduo e exigente. Estamos falando de uma estratégia que coloca o educador no centro do processo, como primeiro animador e incentivador do crescimento de cada destinatário. É o primeiro responsável em garantir que os valores do Sistema Preventivo sejam vividos, a começar por si próprio, para que os destinatários encontrem, em nossas casas, um ambiente propício que provoque o desejo de mudança e de crescimento. Assistir, na pedagogia salesiana, não significa apenas olhar ou, pior, vigiar, os jovens. Significa estar ao lado deles, ser presença ativa. Não significa simplesmente coordenar ou presidir determinadas atividades ou uma casa, mas sim estar comprometido com o desenvolvimento afetivo do jovem, tema importantíssimo para a faixa etária que preferencialmente atendemos. É o método de

ser pai ou mãe, amiga(a), irmã(o) dos jovens. Estando em contato com um ambiente tão rico de valores e assistido por pessoas tão comprometidas pelo seu bem, o jovem naturalmente sentirá o desejo de assumir o protagonismo da sua história. Vai desejar participar no cultivo destes valores, junto com os seus educadores. E sentirá que também ele pode levar a outros a mesma experiência vivida na casa salesiana. E assim teremos um dos mais belos frutos da educação salesiana: ver os nossos jovens inseridos no mundo e na sociedade, vivendo os valores do Evangelho, com coração oratoriano. Conseguirá este feito todos aqueles que assumirem a missão educativa como uma vocação, comprometendo toda a sua existência. Não esqueçamos que, para o coração oratoriano de Dom Bosco, estar com os jovens era mais do que uma mera atitude: era a razão de sua vida! maio | junho | julho e agosto 2016 | 11


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A misericórdia transforma o impossível Por Irmã Ivone Brandão de Oliveira

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uitas vezes, nos encontramos em situações limites e temos a tentação de dizer: ‘não tem mais jeito’ ou, ‘para esse caso não existe esperança’, ou ainda ‘não há nada mais a fazer: o caso é perdido’. É dentro desse contexto, que quero fazer a reflexão bíblica sobre Mc 5,1-20. A reflexão sairá dos padrões a que estamos acostumadas; o texto é raramente meditado e apresenta algumas dificuldades para os leitores de hoje, distantes das imagens utilizadas pelo evangelista. No entanto, acho oportuno debruçarnos sobre o texto para considerar a prática de Jesus diante de uma situação limite. No final da narrativa aparece um verbo, no grego, que tem sua raiz na palavra “misericórdia” (eleos). Jesus disse ao homem: “Vai para a tua casa, junto aos teus e anuncialhes as coisas que o Senhor fez por ti e como teve misericórdia de ti (eléesév)” (Mc 5,19). UM OLHAR PARA O TEXTO DE MARCOS 5,1-20 Qual a obra de misericórdia realizada pelo Senhor? Contemplemos a situação em questão. Jesus se encontra com um homem que representa, para os padrões judaicos da época, a situação da mais alta exclusão. Trata-se do homem denominado no evangelho de “endemoninhado de Gerasa” (Mc 5,1-20). Quem é esse homem? O texto evangélico lhe atribui algumas denominações: ‘possuído por um espírito impuro’ (v.2.8.12), ‘legião’ (v.9), ‘endemoninhado (v.15.16.18). O texto não fala de ‘satanás’. A compreensão do texto implica distinguir cada um desses termos. Começamos esclarecendo cada um deles: - Satanás, designa o “acusador”, de origem semita. Quatro textos falam de Satanás como acusador e o destruidor do povo (Jó 1,6; Zc 3,1-2; 1Cr 21,1; Sb 2,24). Satanás foi assimilado a outras representações como o mal que transcende as pessoas e as desintegra com uma força indomável (serpente: Gn 3; Ap 12,9). Em suma: Satanás é opositor ao Reino e o opositor ao projeto de Jesus. - Espírito impuro (pneuma akatharton) significa

“não ajustado, ou não articulado com”. É um espírito torto em relação às regras, aos ritos e costumes do sistema do Templo e da Lei mosaica. O espírito impuro é aquele que não preenche os requisitos da lei judaica. - Demônio (daimon): é uma força que existe em todas as coisas (água, pedra, montanha, raio, plantas e animais). O daimon passa a ter uma conotação antropológica e filosófica: é uma força que qualifica e determina a ação das pessoas ou para o bem ou para o mal. É como o “gênio”: uma força que qualifica poderosamente a ação de uma pessoa. - Diabo (dia-bolos) é aquele que dispersa e desintegra. É o oposto de símbolo que reúne, congrega e compõe (sim-bolos). - Legião era a guarnição fundamental do exército romano. As legiões variavam entre 1.000 e 8.000 homens, dependendo das baixas que eventualmente sofressem nas batalhas. Para além dos soldados, há que contar com os inúmeros servos, escravos e seguidores que os acompanhavam. Creio que essas distinções nos ajudam a intuir que o texto tem um significado além de tudo o que ouvimos até agora. Olhemos com detalhe o texto. O homem é chamado e considerado como aquele que possui ‘um espírito impuro’ (v.2.8.12). Essa denominação atribuída a ele, segundo a lei judaica, designa tratarse de um estrangeiro, impuro por morar nos túmulos e viver próximo aos porcos. Além disso, era uma pessoa considerada incontrolável pela sociedade: “ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, e ninguém conseguia subjugá-lo” (v.4). Daí a denominação de ‘endemoninhado’ (v.15.16.18). O nome que ele mesmo se atribui é ‘legião’, o que denota que ele está ou esteve vinculado ao poder militar romano, ou a ele subjugado. Algumas outras considerações são importantes. Os porcos, além de estarem associados à vida econômica, eram símbolo da décima Legião Fretensis, acampada na Síria, que combateu contra Jerusalém na guerra de 60-70 d.C. Para a literatura talmúdica tardia, o porco simbolizava Roma. maio | junho | julho e agosto 2016 | 13


Artigo Considerando todos esses elementos, podemos dizer que o homem de Gerasa era uma vítima do sistema religioso (espírito impuro), do sistema econômico (atado em algemas – usada pelos romanos para subjugar os dominados e os escravos) e do sistema político-militar romano (legião). Essa condição de exclusão não permitia uma vida na paz. Ele era um poço de revolta, pois introjetara a violência social, transformando-se em ‘não-pessoa’: agride a todos e inclusive a si mesmo, dando gritos e ferindo-se com pedras. Não é de estranhar que, diante de Jesus que tomou a iniciativa de libertá-lo, reaja com palavras violentas: “Que queres de mim, Jesus, filho do Deus altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” Para esse homem, considerado sem horizonte e sem esperança de mudança, Jesus tem um olhar misericordioso. Diante de sua reação negativa, Jesus entabula uma conversa e pergunta por seu nome. Novamente ele reage. Não diz seu nome; vive no cemitério e não se considera mais pessoa humana. Responde dizendo chamar-se “legião”, referindo-se à guarnição romana que domina e controla a região. Jesus não se intimida e compreende que ele é controlado pelo sistema militar, em nome do império que se faz dono da região e não quer deixá-la. A linguagem do evangelista sobre os porcos é igualmente simbólica. Duas incoerências são encontradas na narrativa. O coletivo de porcos é designado por “manada” e eles estão pastando na “montanha”. Lugar de porcos não é montanha. Quem está aí na montanha é o exército romano, um batalhão que atua como manada. A atuação de Jesus começa com a libertação do espírito impuro (Sai desse homem, espírito impuro!), reintegrando-o em sua dignidade humana, como filho de Deus e não como filho da lei. A presença de Jesus passa a ser uma ameaça aos interesses econômicos e políticos, pois permitiu a manada – cerca de dois mil – se arrojasse precipício abaixo, e se afogasse no mar. Esta cena lembra a narrativa do exército do faraó, no Egito, que se afogou no mar. O reinado de Deus destrói os porcos, 14 | Em Família

símbolo do poder militar, religioso e comercial romano que controla a região. Os representantes do poder romano acabam no mesmo lugar que o exército do faraó. A FORÇA TRANSFORMADORA DA MISERICÓRDIA Três dimensões da misericórdia afloram no texto. São dimensões práticas, relacionais e transformadoras. A primeira dimensão é o encontro com a pessoa, com toda carga de frustrações e feridas, resultantes das suas experiências de vida. No texto, Jesus se encontra com um homem, vindo dos túmulos, extremamente incontrolável (estraçalhava as correntes), anti-social e perturbado (gritava, feriase com pedras, perambulava pelas tumbas e montanhas), comportando-se estranhamente (corre, prostra-se diante de Jesus e desafia-o: “Que queres de mim?”). A reação de Jesus é de amor e compaixão; reconhece-o como pessoa humana, digna de respeito; distancia-se dos preconceitos religiosos, como era considerado pelo sistema de pureza religiosa (um homem possuído por um espírito impuro). A primeira dimensão da misericórdia é a aceitação da pessoa como ela é, na sua maneira única que a diferencia dos outros. É solidário, respeita-o e se dispõe a entabular um diálogo. A segunda dimensão da misericórdia é devolver ao interlocutor a sua dignidade de pessoa, de homem criado à imagem e semelhança de Deus. O homem encontrado por Jesus, não se reconhece como pessoa não diz o seu nome, vive em uma situação limite: controlado por muitos, que dominam o país pela violência, para garantir um poder que empobrece e escraviza o povo. Contemplando essa situação extrema de miséria, “as entranhas” de Jesus (= misericórdia, no hebraico) se condoem e toma a iniciativa de reabilitá-lo. A dimensão da misericórdia é a reabilitação. Reabilitação consiste na satisfação plena das necessidades do outro sem impor uma própria concepção. É expressão de um


Artigo amor desinteressado e voltado totalmente para as necessidades do outro. Reabilitar uma pessoa transforma-se num ato subversivo dentro de uma sociedade que transforma as pessoas em objeto de manobra. Quando os que apascentavam os porcos viram a manada precipitada no mar, fugiram e contaram o acontecido; o povo vem para constatar o ocorrido e se defronta com a transformação do homem, considerado como endemoninhado. Agora ele está sentado, vestido e em são juízo. O homem já não corre, não grita, não se machuca. Senta-se como amigo daquele que o libertou; vestese como uma pessoa normal, sinalizando que está integrado na sociedade; seu pleno juízo revela que adquiriu dignidade e direito de pensar, falar e agir como cidadão. Foi transformado pela misericórdia, recuperou a dignidade de homem, à imagem e semelhança de Deus. Como a cidade ficou com medo do que tinha acontecido, pediram a Jesus que se retirasse da região. O homem sente-se agradecido a Jesus por lhe ter devolvido a vida e a dignidade. Quer acompanhálo, sente-se envolvido pelo amor e pela misericórdia. Jesus, no entanto, não permitiu que o acompanhasse. Reconhece que ele tem possibilidade, não só de recomeçar a vida, mas de se tornar um missionário. Por isso lhe diz: “Vai para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor na sua misericórdia”. Aqui se manifesta a terceira dimensão da misericórdia: a integração da pessoa na vida social, a conciliação com os seus. Aquele que até agora vivia em meio às tumbas, morto para a sociedade, para a família, é convidado a reintegrar-se na sua casa, junto com os seus, não mais como um desajustado, mas como um homem recuperado em sua dignidade, com a missão de anunciar a força transformadora da misericórdia.

CONCLUSÃO O poder subversivo do amor é poder de inverter e transtornar a realidade para fazê-la voltar ao “que era bom”, no princípio. Trata-se de um poder integrador. A integração é palavra que vem do latim “integrus”: inteiro. O que parecia impossível de acontecer, a misericórdia realizou: “Para Deus nada é impossível” (Lc 1,37). O surpreendente na narrativa de Marcos é que Jesus chamou os discípulos para serem pescadores de homens e, por três anos, ensinou-lhes como viver como discípulos. Só depois de sua morte e ressurreição eles assumiram a missão de anunciar o Reino de Deus. O homem de Gerasa não fazia parte desse grupo. Não passou pela convivência e aprendizado dos discípulos para se tornar missionário. A experiência da misericórdia que vivenciou em sua carne transformou pela raiz o seu ser; essa mudança foi suficiente para transformá-lo em anunciador da misericórdia divina numa região que temeu a ação de Jesus e colocou-o para fora. O homem de Gerasa passa agora a ser sinal efetivo e luminoso do amor misericordioso de Deus. Esta reflexão nos desafia a nunca desacreditar nas possibilidades humanas, na capacidade de transformação das pessoas, mesmo que se encontrem em situações limites. Jesus nos ensina os passos e garante que a misericórdia divina tem interesse que todos sejam salvos e que essa salvação passe pela prática daqueles que foram chamados a não perder nenhum daqueles que nos foram confiados. Referências ANDERSON, Ana Flora/ GORGULHO, Gilberto. Milagres: Gestos de Vida e de Liberdade. São Paulo, 1991, p.56-72. CARTER, Warren. O Evangelho de São Mateus – comentário sociopolítico e religioso a partir das margens. São Paulo: Paulus, 2002. CASTELLANOS, René. O amor subversivo no evangelho de Lucas.

Em: Revista de Interpretação Bíblica, n. 12. Petrópolis: Vozes, 1992, p.61-88 MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. São Paulo: Paulinas, 1992.

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Artigo

Espiritualidade Salesiana Por Irmã Célia Apparecida da Silva

UM OLHAR AS ORIGENS Nos primórdios da criação o Espírito de Deus pairava sobre o caos inicial (Gn.1,1-2) Espírito de Amor, Espírito de fecundidade, Ele fez bem todas as coisas...E viu que tudo era bom! Na verdade, o Amor-Pessoa que une o Pai e o Filho eternamente não permanece recluso na dinâmica intra-Trinitária. Amor é comunicação, é transbordamento, é dom de si, é entrega gratuita, é criação, é novidade! Amor subsistente no seio da Trindade, o Espírito Santo é espírito de novidade, é espírito Criador, ontem, hoje e sempre! ... Transbordamento de amor é, pois, toda a criação! Transbordamento de amor são, também, os carismas, dons gratuitos deste Espírito de Amor para seus filhos, a serviço da Igreja, no coração do Reino. Carismas não são ornamentos pessoais. São recursos, são dons a serem transformados em serviços mil, para o bem do Povo de Deus, a caminho da Parusia! Incontáveis são os carismas. Múltiplas as suas possibilidades e desdobramentos no tempo e no espaço. De fato, as urgências do reino nos vários tempos e nas diferentes realidades são como provocações para o despertar das virtualidades dos carismas que irão 16 | Em Família


Artigo se explicitando em modalidades, em diversidades, em atendimentos, na unidade do amor que se faz serviço. Amor que se faz olhos perscrutadores das necessidades humanas. Amor que se faz ouvidos de escuta dos gritos dos pequenos e dos sofredores. Amor que se transforma em mãos que acodem; em pés que “vão às pressas” em busca de respostas às emergências dos tempos e dos lugares! ...

ruas, vícios, roubos, prisões, condenações, forca! ... Jovens de verdes anos conduzidos ao cadafalso! ... Em tal contexto de morte, Deus enviou à sociedade, à Igreja, “um homem chamado João” para conquistar o coração dos jovens e introduzi-los nos Seus caminhos como “bons cristãos e honestos cidadãos” da humana sociedade. Experiência familiar sofrida, João Bosco foi agraciado pela presença materna de uma grande A VISÃO DE UM TEMPO: mulher – Mamãe Margarida – simples e rica de sabedoria que o conduziu pelas veredas da Fé, do Século XIX, Revolução Industrial com suas atrações Amor e da Esperança incorrigível que impulsionou e suas consequências! Grandes cidades como sempre o seu caminhar em meio às labutas da vida. Manchester, Londres, Lyon, Paris tornam-se objeto Muito oportunamente canta a liturgia da sua de êxodo apressado do campo festa: - “Esperou, contra para a cidade. toda a esperança, tornouDe Turim – capital do se pai de numerosos filhos O famoso tripé Piemonte – se pode mais como o Senhor lhe tinha propriamente falar de mudança prometido”! ... Razão, Religião, no modelo demográfico Amorevolezza é a partir da decadência da UM CARISMA DE AMOR E população rural. “No campo, a PREDILEÇÃO expressão deste propriedade familiar das terras foi diminuindo em proporção O Espírito de Deus, carisma sobre o alarmante, enquanto crescia visitando a mente e o qual se apoiam a formação de grandes coração de Joãozinho Bosco, propriedades” (Cfr. Gazzetta e do qual deslancham lhe concedeu o carisma do dell’Agricoltura, 1848, citado amor de predileção pela por Lente, DB: História e juventude. Pelos jovens, dirá o agir pedagógico Carisma 1, pag. 380). Multidões ele, “eu vou para a frente e a espiritualidade migravam para a cidade até a temeridade”! “Se for em busca de sobrevivência da Família Salesiana. preciso, arrastarei a minha tentando ingressar no língua de Turim a Superga. incipiente desenvolvimento Minha língua ficará em industrial. frangalhos...O que importa, Despreparo técnico para o porém é o bem dos jovens” ingresso no novo mundo do trabalho: exploração Amor assim, somente como dom de Deus que da mão de obra, especialmente infantil, juvenil: permite o fazer-se tudo para todos, para ganhar a desagregação familiar, perda dos valores familiares todos para Deus! tradicionais, abandono dos filhos à vacância das Carisma salesiano é, pois, energia de fé que maio | junho | julho e agosto 2016 | 17


Artigo ilumina a mente para fazê-la reconhecer na criança e no jovem a herança querida, entregue por Deus a Dom Bosco e à Família Salesiana como gesto de suprema confiança! É dinamismo de amor que permite olhar os jovens “com olhos de raio X que vê as coisas por dentro”! Carisma salesiano que se faz horizonte de esperança, leva a buscar em cada um “a corda que vibra” para, a partir desse feliz encontro, elaborar, com o jovem, uma magnífica sinfonia de vida humana e cristã. O carisma salesiano – dom do Espírito a Dom Bosco, à Madre Mazzarello à Família Salesiana – se explicita em nós e em meio a nós através do Sistema Preventivo: Criteriologia Pedagógica e Espiritualidade. O famoso tripé – Razão, Religião, Amorevolezza – é expressão deste carisma sobre o qual se apoiam e do qual deslancham o agir pedagógico e a espiritualidade da Família Salesiana. ESPIRITUALIDADE SALESIANA: UM ESTILO DE RELAÇÃO São muitas as acepções da Teologia Espiritual relativamente ao sentido de “Espiritualidade”. Não resta dúvida, porém, de que Espiritualidade diz respeito “à vida no Espírito”, “vida escondida com Cristo em Deus” (Cl.3,3) vida a partir das moções do Espírito Santo, Espírito de Amor e criatividade. A Trindade Santíssima – o sabemos - é relação. O Espírito é relação infinita e subsistente de amor no coração da Trindade. Criados à imagem e semelhança de Deus Trindade somos todos “seres de relação”. Relação com outro, com o mundo, com o Outro – Deus – com o próprio eu. É no mundo das relações que nos conhecemos, crescemos, nos realizamos, nos santificamos. “Viver no Espírito” é viver mergulhado em estreita relação com o Espírito de Amor que faz novas todas 18 | Em Família

as coisas. É viver segundo uma especial percepção evangélica – no nosso caso a percepção do Cristo, como Bom Pastor – que nos concede uma particular identidade espiritual na Igreja, a serviço dos jovens, “com os jovens em particular situação de risco”. Espiritualidade Salesiana é estilo de relação vital com Deus percebido, experienciado como Pai bondoso e misericordioso. A relação filial e amorosa com o Pai – expressa pelo componente RELIGIÃO – traduz-se concretamente em piedade, em oração, em “boa nova” do Evangelho das Bem-Aventuranças anunciado especialmente aos jovens. Em Dom Bosco o espírito de oração permeava profundamente sua vida de intenso trabalho, de fecunda laboriosidade como bem demonstra Padre Eugênio Céria no celebre livro “Dom Bosco com Deus”. De Madre Mazzarello afirmava Madre Henriqueta Sorbone: “Todas as vezes que me aproximava dela, apenas por motivo de trabalho, sempre me deixava a impressão da presença de Deus” (Summarium super vistutibus, 207, Romae). De fato, a vida que se consuma, segundo a vontade do Pai, no serviço dos irmãos (Cfr. Mt. 7,21) é a verdadeira oração. “Êxtase da ação“ – expressão de São Francisco

“Viver no Espírito” é viver mergulhado em estreita relação com o Espírito de Amor que faz novas todas as coisas”


Artigo de Sales usada por Dom Vigano - “contemplação na ação” – síntese inaciana aplicada por Dom Rinaldi a Dom Bosco - “contemplação ao longo dos caminhos”, são, pois, expressões felizes que evidenciam “unidade vocacional” – consagração–missão característica da nossa espiritualidade. “Celebrar a liturgia da vida”, diz Dom Pascual Chavez, é outra expressão sintética da oração salesiana assumida pelas Constituições dos Salesianos (nº 95) e das FMA (nº48) como regra de oração. Espiritualidade Salesiana, é também, um especial estilo de relação, de diálogo – RAZÃO – com o próximo, irmão em Jesus Cristo, filho do mesmo Pai Criador, Misericordioso, Redentor e Santificador. Relação dialogal, especialmente com os jovens, nossa herança carismática. Espiritualidade Salesiana é disponibilidade constante para a escuta respeitosa, para o reconhecimento das razões do outro, para a palavra prudente que expressa discernimento diante de pessoas e situações. Expressa-se na positividade do olhar, no respeito e valorização de si mesmo, dos próprios recursos e possibilidades; na valorização das pessoas em geral, no cuidado da “casa comum” – nosso habitat – e no empenho de construção da sociedade fraterna e solidária, juntamente com os jovens que se tornam então, progressivamente, bons cristãos e honestos cidadãos. Expressão da racionalidade salesiana “a Temperança” virtude cardeal “modera as pulsões, as palavras e as ações segundo a razão e as exigências da vida cristã”. Temperança é sobretudo, “estado atlético permanente” – para qualquer solicitação em favor dos jovens nos diz ainda D.Pascual Chavez. A Temperança se faz presente no trabalho, na vida fraterna, no estilo pessoal de vida, de oração e missão.

O sonho do caramanchão de rosas expressa bem esta dimensão ascética da espiritualidade do Sistema Preventivo. (Cfr. Chavez, P. Cadernos Salesianos nº 4, pág. 79 e 84). Chave de todo o edifício pedagógico e espiritual da Família Salesiana – AMOREVOLEZZA - é expressão do Amor que se reveste de compaixão, Amor que “sofre com” o outro. Amor que se traduz em misericórdia. Ela, de fato, se faz proximidade. Traz para o próprio coração a fragilidade, o sofrimento do irmão... Amorevolezza, estilo de vida, amor que se manifesta, que se faz sentir ao jovem e a todo interlocutor com a intencionalidade de traduzir-se em serviço, em criatividade de amor, em obras de misericórdia, em auxílio concreto como resposta carinhosa às urgências do momento. A Espiritualidade Salesiana nos conduz “juntamente com os jovens” ao encontro do Deus Vivo. Dom Bosco, na verdade, nos confiou um “Projeto de Espiritualidade Juvenil”. Caminho de santidade no estilo de Dom Bosco e Madre Mazzarello esta espiritualidade se apresenta vestida de características que a tornam conhecida e atraente (Cfr. Nanni C., O Sistema Preventivo de Dom Bosco hoje, p. 103-105): • É preventiva: baseia-se e se apoia no “dom de Deus”, nos talentos, nos carismas doados a cada um e vividos nas associações, na Família Salesiana, na sociedade, na Igreja. • É popular: no sentido de que é para todos, sem exclusão, pois movido pelo Espírito Dom Bosco não fez acepção de pessoas. • É positiva e racional: enquanto busca “tudo o que é verdadeiro”, tudo o que é amável... louvável...! (Fl. 4,8). maio | junho | julho e agosto 2016 | 19


Artigo

• É alegre: pois tem constante relação de confiança em Deus, Pai bondoso, misericordioso. “Nada te perturbe”, dizia Dom Bosco (M.B. VIII, 524). • É juvenil e atuante: porque encarna o “Evangelho dos pequenos” e a revelação do Evangelho de Jesus e do Pai a eles. Exprime-se em estilo jovem, tem a radicalidade e a generosidade dos jovens. Busca 20 | Em Família

as “coisas do alto” e nos quer “contemplativos ao longo dos caminhos” como Dom Bosco. • É, pois, espiritualidade juvenil, não só porque proposta aos jovens, mas, porque – fundando-se na Teologia da Encarnação, na Páscoa vitoriosa de Jesus Cristo – é espiritualidade alegre, rica de entusiasmo, aberta a todos e a grandes horizontes e altitudes radicais.


Artigo • É familiar: no sentido de que nos propõe viver “insieme”, santamente, na simplicidade das relações, no auxílio e no perdão recíproco com santa paciência. • É amorosamente educativa: uma vez que procura vivenciar o modo de agir de Jesus, Bom Pastor e amigo, além de Mestre de seus discípulos. Esse amor educativo se faz “Assistência Salesiana, isto é, presença educativa” que incentiva a atuação do jovem e promove o protagonismo juvenil. • É eclesial: pois procura “estar sempre em sintonia” com a Igreja – sempre necessitada de conversão – e especialmente com o Papa, conforme ensinava Dom Bosco. • É sacramental: enquanto nos conduz à valorização dos sacramentos, fonte de graça, de reconciliação e comunhão. • É crística, é eucarística: pois, para a Família Salesiana, Jesus é a regra viva, é o alimento da nossa caminhada com os jovens e pelos jovens de todos os tempos, raças, crenças e lugares. • É mariana: uma vez que Maria é para nós, uma forte “coluna” do nosso edifício espiritual. À sua escola encontraremos a sabedoria no caminho da doação ao Senhor no serviço dos jovens (Cfr. Sonho dos 09 Anos). Em feliz síntese sobre nossa espiritualidade, assim escreve Dom Paschual Chavez: O “Da mihi animas coetera tolle” expressa a síntese mística da nossa espiritualidade salesiana:

Razão, Religião, Amorevolezza traduzem a pedagogia da nossa espiritualidade. Jesus Sacramentado, Maria Auxiliadora, o Papa: nossa fórmula devocional. Trabalho, Oração e Temperança: o programa prático a ser vivido no cotidiano e a longo prazo (Cfr. Caderno Salesianos, Edição Especial 4, 2015, pág. 70). A Espiritualidade Salesiana, pela ação do Espírito e a colaboração de cada um, vai esculpindo em nós uma face de simpatia, de acolhida, de perdão, de amor manifestado e sentido. Uma face, um estilo de proximidade, à semelhança do coração e do agir de Cristo, Pastor que conhece as ovelhas, as chama pelo nome e vai à frente delas como Caminho, Verdade e Vida. Sistema Preventivo, estilo de vida revestida de amor-misericórdia que dialoga, que se faz ligação com Deus e os irmãos e que transborda em amor preveniente e sempre acolhedor! Esta é a nossa Espiritualidade! A nossa identidade carismática! A nossa “carteira de identidade”! Portanto, “Duc in Altum”! Façamo-nos ao largo, ao mar alto, ao mar aberto e profundo! Nossa espiritualidade – “contemplativa na ação” – que dá qualidade à nossa oração, às nossas relações interpessoais e comunitárias qualifique nossas relações educativo-pastorais cotidianas no serviço da juventude a nós confiada pelas mãos da Mãe Auxiliadora, nossa Mestre de Sabedoria. Dom Bosco, Madre Mazzarello, todos os Santos que, marcados pelo dinamismo deste Amor, nos precederam na Casa do Pai, intercedam por nós para que alegremente, “com Jesus percorramos juntos a aventura do Espírito”, impulsionadas pela concretude do “da mihi animas coetera tolle” (Gn. 14,21) “nosso modo de crescer juntas” (DMA 2015).

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II parte do artigo

Compreendendo a empatia desde Edith Stein Por Irmã Adair Aparecida Sberga

1. A COMPREENSÃO DE EDITH STEIN SOBRE A EMPATIA OU A ENTROPATIA Na visão contemporânea, empatia é uma “forma de identificação intelectual ou afetiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa” (Dicionário Priberan), que acaba na maioria das vezes sendo interpretada como um ato de simpatia ou mera identificação com o outro. Para evitar essa redução ou simplificação conceitual, alguns filósofos também traduzem a palavra Einfühlung por entropatia e preferem usá-la em vez de empatia . Husserl se dedica por décadas ao estudo da intersubjetividade e desenvolve uma intensa análise da empatia por considerá-la um ponto central na relação entre os sujeitos. O longo tempo 22 | Em Família


Artigo dedicado e a grandeza de páginas escritas revelam, além da importância do tema, a complexidade da teorização da empatia e a sua relevância nos atos de vivências. Também Stein, que se dedica ao estudo da pessoa humana e desenvolve sua tese de doutorado investigando o que vem a ser a empatia, percebe a sua essencialidade na constituição do indivíduo como também na constituição da comunidade. Constata que a empatia é um ato de vivência, caracterizado como uma “espécie de atos experienciais sui generis” (Stein, 1917/1998, p. 79), ou seja, a empatia é de um gênero próprio, especificamente característico, que não se iguala a nenhum outro. Também a identifica como um ato de consciência qualitativamente diferente, que permite ao ser humano reconhecer que as outras pessoas, mesmo possuindo especificidade e individualidade próprias, são seres humanos como ele e se revelam imediatamente diferentes de um animal ou de um determinado objeto. É, portanto, a empatia que permite a relação de intersubjetividade, isto é, da proximidade com o mundo do outro. Nesse sentido, a autora, citando Husserl, afirma que “a empatia, como fundamento da experiência intersubjetiva, se torna condição de possibilidade de um conhecimento do mundo externo existente” (Stein, 1917/1998, p. 158). Para Stein, a empatia é uma “experiência da consciência do outro” (Stein, 1917/1998, p. 79), sendo que a sua essência se mostra no fato de captar, por exemplo, o sofrimento ou a dor estampada no rosto de um outro. Assim, quando se procura compreender o estado psíquico pelo qual uma pessoa está passando, essa experiência deixa de ser um simples dado e se torna um ato de vivência, cuja experiência deixa captar, ou até mesmo sentir, a dor do outro - não de forma originária, porque a intensidade ou a modalidade da dor é específica dele - pela capacidade de se colocar em seu lugar e chegar a uma compreensão vivencial da sua dor. Sobre isso, Elio e Érika Costantini explicam na

Introdução à obra Il problema dell’empatia, a qual traduziram: O resultado ao qual chega Stein, por meio de suas análises é este: o ato empático, contrariamente ao modo como é entendido pelos psicólogos que se ocupam da empatia, não é uma sensação, nem um sentimento, nem um ato de percepção interna do mesmo, e muito menos é reduzido à recordação ou imaginação, mas é ato concreto e originário, por meio do qual podemos captar em modo nãooriginário uma vivência do outro (Stein, 1917/1998, p. 50). Dessa forma, a empatia é um penetrar e experienciar o estado de ânimo do outro, com a intenção de compreender o seu sofrimento, sua dor ou sua alegria. Os tradutores, ainda procurando interpretar Stein, apresentam três graus de atuação da empatia, por meio dos quais se pode empatizar a vivência do outro: O primeiro grau é aquele em que a vivência do outro surge inesperadamente diante de mim (sei que meu amigo perdeu um irmão); o segundo sou envolvido no estado de ânimo do outro (experimento a dor vivida pelo amigo); no terceiro a vivência explicitada é objetivada, ou seja, retorna diante de mim como Objeto correlativo à consciência. No primeiro e no terceiro graus, o ato do “dar-se conta” da vivência do outro corresponde em modo não-originário à percepção, também essa não-originária, da dor do outro “vista” como Objeto, enquanto no segundo o mesmo ato corresponde à experiência empática levada a cumprimento: vivo a vivência do outro como se fosse minha. É, portanto, no segundo grau que a empatia se realiza plenamente, alcançando a sua plenitude (Stein, 1917/1998, p. 50). Nesse alcançar a plenitude, experimentando o que o outro vive, se chega a compreender como se constitui a vivência do outro e por meio dos dois passos da epoqué, que é a redução à essência e a redução ao sujeito, o indivíduo chega a captar que o outro é um ser humano como ele e pode sentir a dor do outro porque ele também tem a vivência maio | junho | julho e agosto 2016 | 23


Artigo da dor e, ainda mais, ele pode refletir sobre o seu sentir a dor do outro. Também a dupla redução pode se dar da seguinte forma, como interpreta Ales Bello: “redução ao meu ‘eu’ que ‘sente’ o que o outro está vivendo, e ao meu ‘sentir’ o que outro está vivendo” (2009, p. 83). Sobre essa questão, Ales Bello dá um outro esclarecimento: A experiência do outro, portanto a empatia, é uma experiência empírica, mas para compreendê-la no seu significado mais próprio é necessário colocar entre parêntese a atitude “natural”, uma “redução” de tudo o que é obstáculo para deixar espaço àquilo que nós, enquanto seres humanos, vivemos na nossa interioridade e que nos consente de compreender o mundo, de ter sensibilidade pelas coisas, para conhecê-las e utilizá-las; é um escavar na nossa estrutura para entender o lugar e a origem das emoções, das tomadas de posição, das decisões voluntárias, das reflexões intelectuais, dos conhecimentos intuitivos. Temos tudo isso, mas para compreender o significado, a estrutura lógica dos nossos procedimentos de pensamento, as diversas expressões culturais, também as “lógicas” de outras culturas, devemos regredir às operações constitutivas, que estão na base de tais expressões e quem o faz, na nossa cultura, inicia de si mesmo. Descobre que está acompanhado por aquela “luz interior”, que é a consciência. Esta é o espelho sobre o qual refletem todos os elementos constitutivos da nossa complexa estrutura humana (2009, p. 79-80). É essa consciência reflexiva que capta aquilo que resta do que é colocado entre parênteses. E o que resta do que está entre parêntese é o eu fenomenológico, o eu refletidor, o ser humano capaz de perceber, de se sensibilizar, de empatizar. Então, o sujeito que empatiza se dá conta de que o seu corpo é um corpo entre muitos corpos, que é um corpo próprio animado e, desse modo, se percebe como um indivíduo psicofísico. Nessa mesma linha de pensamento, pelos estudos Stein constata que Theodor Lipps, um dos maiores estudiosos de seu tempo sobre a questão da empatia, também chegou a essas mesmas conclusões e se deu por satisfeito com os resultados obtidos até aqui sobre a empatia, ou seja, chegou à constatação de que o indivíduo se capta verdadeiramente como indivíduo – um Eu entre muitos Eus - só quando aprende a se considerar por meio da analogia com um outro Eu (Ales Bello, 2009, p. 158-159). Lipps ainda considerou que no processo de identificação com o outro, os dois sujeitos se fundem e se tornam um único Eu, o que é contestado por Husserl e Stein. No entanto, Stein vai além e demonstra que a empatia é importante não só para que o indivíduo se reconheça como um entre outros, mas para que chegue a constatar a contribuição da empatia na descrição antropológica ou na constituição do indivíduo próprio, que se constitui, amadurece e cresce com a contribuição do outro. 2. A EMPATIA COMO CONDIÇÃO DA CONSTITUIÇÃO DO INDIVÍDUO PRÓPRIO 24 | Em Família


Artigo A empatia oferece uma contribuição à constituição do indivíduo próprio por meio da sua capacidade de dar à pessoa a possibilidade de se “ver” e se conhecer por meio da “visão” e percepção do outro. Stein afirma que “o mundo percebido e aquele dado em maneira empática são o mesmo mundo visto em modo diferente” (Ales Bello, 2009, p. 157). Com isso, a autora quer esclarecer que o mundo que se mostra é sempre o mesmo, mas a sua percepção se apresenta dependente não só do ponto de vista de quem olha, mas também da qualidade do observador, porque a aparição do mundo é “dependente da consciência individual, enquanto o mundo que aparece [...] se demonstra como independente da consciência” (Ales Bello, 2009, p. 158). O indivíduo, que é prisioneiro da sua individualidade, não pode ir além do mundo como ele o consegue captar, mas pela empatia se consegue ultrapassar essa barreira, porque ele pode constatar como o mesmo mundo aparece de modo diferente para os outros indivíduos. Assim também os outros revelam para o indivíduo muitos aspectos dele mesmo, que ele não havia conseguido enxergar ou perceber. Isso porque, não existe a possibilidade de um livre olhar a si mesmo como se tem em relação a olhar um outro corpo (Bello, 2009). Nesse sentido, Stein esclarece que quando a relação estabelecida se dá somente mediante a percepção externa essa se limita unicamente ao âmbito do corpo físico, no entanto, a relação precisa se aprofundar indo para o âmbito do psicofísico e espiritual, para acontecer mais plenamente a vivência da empatia. Ao mesmo tempo, essa relação de empatia entre as pessoas é uma via de mão dupla, se dá de modo recíproco, porque quando um está empatizando o outro também está sendo empatizado e é natural que seja assim, pois a empatia é um aspecto presente na constituição do ser humano. Quem empatiza uma determinada vivência presente no outro tem mais condições de analisar como essa mesma vivência acontece em si mesmo e como o outro a concebe e, finalmente, lhe “julga”. É, certamente, diante desse aspecto que Ales Bello, procurando compreender Stein, expressa: “a constituição do outro indivíduo é a condição da constituição do indivíduo próprio: enquanto capto o corpo de um outro como meu semelhante, capto também a mim mesmo como semelhante a ele, assim em nível psíquico me coloco mediante o seu ponto de vista para olhar a minha vida psíquica, adquirindo a imagem que o outro tem de mim” (2003, p. 45-46 e 2007, p. 142). Ao adquirir uma imagem de si por meio do outro, a pessoa não se conforma à construção que o outro faz dela, porque ninguém pode determinar socialmente uma individualidade, mas o outro é um alter ego, alguém que permite à pessoa uma maior compreensão dela mesma, ajudando-a na sua autoconscientização e auto-avaliação, o que pode lhe favorecer ajustes em possíveis casos de engano sobre si mesmo. Isso é significativo, pois como interpreta Ales Bello, o ponto de partida no encontro concreto entre as pessoas não é a própria subjetividade, mas a alteridade, ou seja, é o outro que suscita na pessoa uma maio | junho | julho e agosto 2016 | 25


Artigo comparação com o que lhe é dado na percepção errada de si mesmo e é a empatia que se oferece interna, consentindo-lhe de adquirir sempre mais como um corretivo para esses casos. consciência de si mesma através de um contínuo É possível que um outro me julgue melhor do voltar-se a si mesma (Ales Bello, 2009). Os erros e quanto eu julgo a mim mesmo e me dê maior clareza enganos também podem acontecer em relação sobre mim mesmo. Por exemplo, ele se dá conta de à compreensão que se faz do outro, e isso se dá que eu, ao cumprir uma boa ação, olho ao redor e quando se julga com o “próprio metro para chegar procuro suscitar aprovação, enquanto eu mesmo ao conhecimento da vida psíquica do outro” (Stein, creio que estou agindo por pura compaixão. Nesse 1917/1998, p. 190), ou seja, o engano se dá quando modo a empatia e a percepção interna colaboram a pessoa não se liberta da própria individualidade juntas para me tornar mais claro a mim mesmo para analisar e julgar o outro. (Stein, 1917/1998, p. 192). Para evitar esse erro, Portanto, a empatia é um “A empatia oferece segundo Stein, “ocorre componente essencial, um constantemente um controle “recurso” que torna a pessoa uma contribuição da empatia mediante a mais consciente de quem à constituição do percepção externa, dado verdadeiramente ela é, além indivíduo próprio que a constituição do outro de ser uma condição para indivíduo é fundada em o conhecimento do mundo por meio da sua tudo sobre a constituição alheio existente. Explicando capacidade de dar à do corpo” (1917/1998, p. de outro modo para facilitar pessoa a 190). Mas, como já afirmado o esclarecimento: o outro anteriormente, a percepção quando me olha, me enxerga possibilidade de se externa é um primeiro como um objeto e, porque “ver” e se conhecer momento para a realização está fora de mim, pode me por meio da “visão” de uma análise empática e analisar, ou me objetivar, de essa deve prosseguir para um um modo que talvez eu não e percepção nível mais avançado que e o mesma não seja capaz de do outro” espiritual, concebido como o fazer. No entanto, eu também intelecto, a vontade e a razão. capto o outro como um Antes de entrar no nível espiritual, que será objeto e sou capaz de objetivá-lo. A percepção que abordado mais adiante, é preciso salientar que Stein ele tem de mim, me ajuda a ter mais conhecimento faz outra consideração, afirmando que normalmente de mim mesma, assim como a percepção que tenho as pessoas não objetivam suas próprias vivências, dele o auxilia a ter mais conhecimento dele mesmo. mas fazem isso com naturalidade quando se trata No entanto, a relação entre o outro e eu não é uma da vida psíquica do outro. O outro é objetivado relação onde nos concebemos como objetos, mas porque ele tem um corpo que é percebido. A é uma relação entre sujeitos, em que um se coloca empatia favorece que a pessoa própria capte qual é diante do outro como alter-ego, cuja relação ajuda a imagem que o outro faz dela e isso favorece que a se conhecer e a se constituir como pessoas mais também ela comece a objetivar a si mesma, que conscientes de si mesmas, o que colabora em seus perceba como a sua vida psíquica se manifesta, o processos formativos progressivos. que pode facilitar um processo de autoanálise. Mas Stein ainda alerta que é possível ter uma concepção 26 | Em Família


Ponto de vista

A dama pobreza Por Irmã Olga de Sá

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ara ir ao encontro dos pobres é preciso ser pobre. A dama pobreza era uma expressão de S. Francisco de Assis. A pobreza é uma expressão do Ano da Misericórdia. Pobreza evangélica significa o desapego do que nos pode afastar de Deus e dos pobres e se concretiza na opção de ir ao encontro deles, sendo sensíveis às pobrezas antigas e novas e colocando-nos nas fronteiras de suas necessidades, que o Papa Francisco chama de periferias existenciais. A percepção comum que existe no mundo é de que a pobreza é carência. É sinônimo de falta de bens econômicos (alimento, casa, dinheiro). Mas existem outras formas de pobreza: falta de trabalho e, portanto, de meios para viver, falta de saúde, deficiência física ou mental, velhice, internação hospitalar; falta de educação e, portanto, de capacidade para enfrentar a vida com competência e encontrar um lugar na sociedade; falta de amor e de respeito para com os órfãos, menores de rua, jovens abandonados; falta de valores, falta de fé, de sentido religioso. É uma espécie de pobreza negativa e uma realidade dura para muitos que lutam para sobreviverem. A pobreza pode ser um valor e uma virtude para todos. Toda pessoa, sem exceção, é radicalmente pobre, porque é uma criatura limitada. Nossa existência é precária: não depende de nós nascer ou determinar a duração de nossa vida ou fixar o momento de nossa morte. Somos seres finitos,

sempre em busca de plenitude. Somos chamados a ser dependentes, ou melhor, interindependentes. Nascemos para receber e dar, para sermos amados e amar. A atitude mais sábia, então, é viver abertos aos outros, receber dos outros com simplicidade e humildade, e também compartilhar com os outros, entregando-nos a nós mesmos e dando do muito ou do pouco que temos. A pobreza, portanto, não é simplesmente uma questão de não ter coisas, mas de receber e dar o que nós recebemos. O que damos aos outros não são só coisas materiais, mas nossa vida, nosso tempo, nossos talentos e qualidades, nosso amor e também as experiências espirituais. O empobrecimento mais trágico é o nosso egoísmo, o fechamento em nós mesmos. Ele nos aprisiona na jaula de nossos próprios limites e nos impede de crescer. Dependemos também em relação à criação. Não podemos viver sem ar, alimento, casa, proteção. É um desejo legitimo possuir estes bens, que são um direito de todos e não um privilégio de poucos. Por isso precisamos dominar nossos instintos possessivos. A pobreza torna-se, dessa forma, liberdade do desejo desordenado de possuir, da gula, do egoísmo, do abuso, que nos leva a instrumentalizar os outros para nossos interesses e propósitos. Tomamos sempre mais consciência de que devemos ter um cuidado responsável pela criação, que não podemos destruí-la, e isso comporta um estilo de vida simples e essencial. maio | junho | julho e agosto 2016 | 27


Ponto de vista

Ensino superior católico: saberes, experiências e desafios Por Profº Dr. Wellington de Oliveira

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Ponto de vista

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presente texto propõe um exercício de reflexão e discernimento que ajude a apontar a natureza, as funções e a finalidade do ensino superior católico. Nossa discussão parte da premissa de que o ensino superior é convocado a assumir a vanguarda no processo permanente de humanização da sociedade pelo conhecimento, que é a matéria-prima das suas instituições (faculdades, centros universitários e universidades). Por definição, uma instituição de ensino superior cumpre a tríplice tarefa de conservar e transmitir o patrimônio de conhecimento da humanidade (ensino); produzir novos conhecimentos (pesquisa); e colocá-los à disposição da humanidade (extensão). Assim, podemos dizer que o ensino superior tem participação decisiva no processo de desenvolvimento social ao se organizar para educar com vistas à cidadania e formar para a participação plena na sociedade, com igualdade de oportunidades; promoção da aprendizagem permanente; geração e difusão de conhecimentos por meio da pesquisa; compreensão, preservação e difusão das culturas em um contexto de pluralismo e diversidade e proteção dos valores da humanidade. Além desses compromissos fundamentais, o ensino superior precisa promover o pensamento crítico, a convivência universal, a cooperação e o serviço. Desse modo, ele contribuirá para combater um tipo de opulência excludente que nega as condições de vida mais elementares a um imenso contingente humano, talvez mesmo à maioria das pessoas. Como aponta Gramsci (1978, p. 103), a universidade é “[...] instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis e todo ato educativo deve objetivar, em primeiro lugar, formar o cidadão, dando-lhe capacidade de se tornar governante, isto é, de ser uma pessoa capaz de pensar, estudar, dirigir e controlar quem dirige”. Alicerçadas nesses princípios, as instituições de ensino superior católicas precisam crer que é pelo conjunto do currículo que se chega a concretizar esta maneira de conceber a educação. Dar um sentido espiritual a toda realidade humana, partindo de conteúdos distintos e de disciplinas escolares, é o meio mais eficaz, ao mesmo tempo, de educar e de evangelizar e, assim, cumprir a missão. Por isso, essas instituições tornam-se espaços nos quais os conhecimentos são partilhados, confrontados, sistematizados, constituídos em sabedoria, e colocados a serviço da vida para formação de um ser humano integral e de uma sociedade justa, ética e solidária, tendo o Evangelho como referência. Desta forma, ao lado do empenho pela excelência profissional-acadêmica, para a realização da maio | junho | julho e agosto 2016 | 29


Ponto de vista missão, cabe aos educadores (religiosos e leigos) priorizar alguns posicionamentos evangélicopastorais que articulem o diálogo entre fé e razão correspondente à própria natureza da mensagem cristã, que, conforme João Paulo II, “se distingue pela inteligência da fé e pela audácia da razão”. A principal tarefa da ensino superior católico, portanto, é iluminar a busca da verdade pela experiência da fé, deixando clara a complementaridade entre as certezas da inteligência e as convicções do coração. Por isso, as atividades de ensino, pesquisa e extensão de uma instituição católica precisam necessariamente priorizar aspectos nem sempre enfatizados por outras instituições laicas, em especial para o estudo dos graves problemas contemporâneos, como: a dignidade da vida humana; a promoção da justiça para todos; a qualidade da vida pessoal e familiar; a proteção da natureza; a procura da paz e da estabilidade política; a repartição mais equânime das riquezas do mundo e uma nova ordem econômica e política, que sirva melhor a comunidade humana em nível nacional e internacional. Em conformidade com a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae no. 33, podemos afirmar que a investigação sobre essas questões deverá dar especial atenção às dimensões éticas e religiosas, na medida em que assume a responsabilidade de comunicar à sociedade de hoje os princípios que dão pleno significado à vida humana. Dessa maneira, as atividades acadêmicas em uma universidade católica precisarão contemplar a integração do conhecimento, o diálogo entre a fé e a razão, a preocupação ética e a perspectiva teológica. O ensino superior católico, disseminador da articulação entre fé e cultura, não pode estar 30 | Em Família

indiferente aos aspectos atuais da humanidade, aos sinais dos tempos. Ler e inserir-se no contexto dos sujeitos para conhecê-los em suas potencialidades e fraquezas se faz essencial para que a missão que lhe é destinada seja fecunda, visto que sem sintonia social, não há processos de conhecer e investigar que estejam a serviço da comunidade humana. Sem a premissa da sintonia social as instituições universitárias se eximem de denunciar as fraquezas de seu tempo e de profetizar uma Boa Nova sensível à realidade e com potencial para transformá-la. O propósito maior do ensino superior católico deve centrar-se em fundir o desenvolvimento espiritual com aquilo que se aprende e produz nas instituições de ensino superior, a fim de aplicar no desenvolvimento de uma comunidade.

“A principal tarefa da ensino superior católico, portanto, é iluminar a busca da verdade pela experiência da fé, deixando clara a complementaridade entre as certezas da inteligência e as convicções do coração.


Ponto de vista Comunidade esta, que tem participação ativa e contribui com a instituição que a beneficia, passando-lhe experiências da vida real, dando crédito a seus experimentos e justificando o que se realiza nas áreas de ensino e pesquisa. De modo geral, essa relação entre instituições superiores e comunidades contribui efetivamente para a melhoria da sociedade e possibilita que estudantes, professores e comunidades envolvidas enriqueçam seu saber ao mesmo

tempo em que contribuem para o crescimento das pessoas e comunidades que estão envolvidas com esses atores acadêmicos. Finalizando, o ensino superior católico, enquanto projeto educativo, necessita criar relações para compreensão de que uma instituição de ensino também está conectada à (re)apropriação do vivido como espaço de significação na vida cotidiana do encontro com Deus.

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Ponto pontode devista vista

Plano de Marketing para pais ocupados: como conquistar, maner e fidelizar o amor do seu filho Por Paulo Cesar Pio

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esses anos de vida profissional, ouvi, de diversos pais, frases do tipo: “Trabalhei tanto, com tanta intensidade, que não vi meus filhos crescerem”; “meu filho amadureceu e eu não percebi; “meu filho está depressivo, apesar de todo o luxo e comodidade que ele possui em casa”; “minha filha me culpa por eu não ter dado atenção a ela em seus problemas e anseios”. Apesar de todas as mudanças no contexto social, a família ainda continua a ser a célulamater da sociedade e uma das principais fontes de afetividade de todos os seres humanos. Nossos filhos precisam da nossa atenção e carinho, precisam sentir-se amados e respeitados, precisam de pais prestimosos, carinhosos e atuantes. Precisam de disciplina na medida certa. Como sou profissional de marketing, procurei usar alguns termos utilizados pelos executivos em 32 | Em Família

suas empresas para servir como analogia e elucidar questões relativas ao nosso dia a dia. MARCA: O VALOR DA MARCA PAI E MÃE “Não olhes para longe, despreocupando-se do que tens perto”. (Eurípedes) Uma empresa deve ter uma marca forte. De acordo com o ramo de atividade em que atue, ela precisará se diferenciar no seu mercado. Para que isto aconteça, milhões são gastos em propaganda e marketing. Profissionais competentes pesquisam exaustivamente slogans, símbolos e logotipos, uma palavra ou ideia principal que os faça chegar mais rápido na mente do seu público-alvo. Você já parou para pensar no valor da marca pai e mãe na mente do seu filho? Papai e mamãe geralmente são as primeiras palavras que um filho aprende a falar, ele acostuma-


Pontode devista vista ponto se com esta identidade sonora já nos primeiros dias de sua vida. Ao longo da sua infância e adolescência, vai proferi-las milhares de vezes. Vale afirmar que Pai e Mãe são as marcas mais conhecidas do mundo. EXPECTATIVAS COM O PRODUTO Uma marca começa a desmoronar na mente do consumidor quando a linha de produtos que a representa passa a não atender às suas necessidades. Queda na qualidade, constantes atrasos na entrega, falta de inovação tecnológica, preço desproporcional ao benefício estendido são fatores que interferem diretamente no poder soberano de escolha do cliente. Como estamos tratando os nossos filhos? Lembre-se: se você não for o primeiro na mente do seu filho, alguém vai ser! Os pais de hoje em dia estão sendo consumidos pelo trabalho. Passam, muitas vezes, 12 horas em suas atividades profissionais e quando chegam à sua casa estão no limite da sua condição física e emocional. Tão moderno em suas atitudes na empresa, em casa muitos praticam ainda antigos regimes patriarcais. É peso enorme brincar ou conversar um pouco com os filhos. Na menor contrariedade, foge para a televisão, vai para o computador e se isola. Com essas atitudes, perde-se a referência, os filhos percebem a falta de interesse, sua inabilidade em tratar com eles, em interagir de modo saudável no seu mundo e, muitas vezes, procuram em padrões externos o exemplo que os pais deveriam dar em casa. Começa-se a deixar de ser o primeiro na mente do nosso amado consumidor! Vamos comentar nestes parágrafos alguns aspectos da figura mater na. Não obstante seu valor na sociedade capitalista, seu apurado senso de organização, sua criatividade e sua franca ascensão no mercado de trabalho, a mulher, a meu ver, não deve fugir dos sagrados laços de responsabilidade para com a maternidade. Apesar da dificuldade em unir as duas coisas, ser uma boa mãe ainda deve ser a prioridade. Muitas mulheres conseguem conciliar

a carreira com a função sublime de ser mãe. Não é fácil, mas é preciso. O mundo nunca precisou tanto do amor materno exercido dentro do lar. Não importa aqui a quantidade do tempo despendido, e sim, a qualidade do tempo que se passa com os filhos. Conforme um provérbio judaico: “Deus não pode estar em todos os lugares, por isso fez as mães”. Filhos de mães que trabalham ficam, geralmente, em escolinhas infantis ou colégios particulares durante todo o dia. Conheço mães admiráveis que trabalham muito – algumas são grandes executivas, outras são profissionais liberais ou operárias em fábricas – e que possuem filhos maravilhosos e gratos. Filhos que reconhecem o esforço materno em conciliar as duas coisas e retribuem com carinho, cidadania, amor e senso de responsabilidade. Conheço pais amorosos e prestimosos, que apesar de trabalharem muito, conseguem manter a sua marca na mente dos filhos. Pais atuantes, que usam a disciplina na medida certa, que são grandes amigos dos seus filhos. Pais que, por motivos de separação conjugal, não convivem no mesmo lar, mas que não deixam seus pupilos sem atenção e amor um dia sequer. Diante do exposto, reflitamos com sinceridade: • Como anda a nossa marca na mente do nosso filho? • Ela anda desgastada pela falta de propaganda? • Estamos ofertando ao nosso cliente os produtos certos, no tempo certo? • Estamos ampliando os benefícios? A função social da paternidade é muito importante, pois estamos criando os futuros habitantes do planeta! Paulo Cesar Pio Especialista em Dependência Química - Grea/USP Agente Multiplicador na Prevenção ao Uso de Drogas – Dipe/ Denarc. Bacharel em Propaganda e Marketing maio | junho | julho e agosto 2016 | 33


Entrevista

Entrevista com Selma Felerico Selma é ex-aluna do Colégio de Santa Inês, mestre em Comunicação

1. Com alegria, sabemos que você é ex-aluna do Colégio de Santa Inês. Conte-nos um pouco deste período de sua vida. Fui uma aluna muito comum no Santa Inês... Minhas notas eram altas, mas não tinha uma participação ativa no colégio. Pouco era chamada para leituras em missas ou festas, o que me deixava muito aborrecida. Talvez não tivesse talento para as exigências das professoras. Estudei desde 1974 – no meu 4° ano primário até o terceiro colegial em 1981. Vale ressaltar que minha mãe, suas duas irmãs e suas duas primas também foram alunas do Santa Inês – também com uma o passagem muito discreta. Os momentos mais significativos no colégio, eram nas aulas de português e literatura quando Irmã Edméa dava atenção aos meus trabalhos, escritos e estudos. Mesmo assim, adorava o colégio, principalmente pela educação social e cultural. Confirmo que ela foi a única professora que me deu atenção... talvez a única discente que saiba quem eu sou até hoje. 2. Você iniciou a vida universitária muito jovem e decidida pela área de Comunicação. Houve influências nessa escolha? Sim, sou filha, sobrinha e prima de publicitários. Destaco que, no colégio não houve nenhuma iniciativa 34 | Em Família

para os meus interesses na área de comunicação. Como fiz o colegial de Tradutor Interprete, os incentivos eram direcionados à área de letras. Entrei na faculdade com 17/18 anos e nunca mais da sai da ESPM. Fiz graduação, pós graduação e iniciei minha carreira acadêmica com 23 anos, lecionando na pós-graduação lato-sensu, desde 1987, com 23 anos. A minha vida publicitária, mercadológica se confunde com a vida acadêmica. Fui convidada a dar aulas assim que terminei a minha pós-graduação, sendo a professora mais jovens da ESPM na área ate hoje – 23 anos. Desde que entrei na faculdade, fui convidada a participar de seminários, leituras e projetos, o que me ajudou muito a desenvolver minhas habilidades na área de comunicação. Um fato curioso é que a minha primeira e grande profa de marketing Aylza Munhoz, também é ex—aluna do Santa Inês. E sua professora predileta era a Irmã Edméa Battaglia, também. Enfim, a ESPM sempre contribuiu para a minha carreira profissional e reconheceu o meu talento para a minha vida acadêmica. 3. Você atuou em agencias de publicidade. Como foi a passagem de Publicitária para Docente? Aconteceu de forma natural, fui convidada para dar aulas de Produção Gráfica , em agosto de 1987,... um mês após finalizar minha pós-graduação, pela diretora


Entrevista da agência de propaganda, em que eu já trabalhava, Sra. Cristina Moura Perez. Ela sempre confiou em meu trabalho. 4. Quais são suas especializações nesta área? Em agencia de propaganda, trabalhei nas áreas de produção gráfica, tráfego e planejamento. Na vida acadêmica, especializei-me nas áreas de comunicação integrada, planejamento de comunicação, marketing esportivo e comportamento do consumidor. 5. O que motivou a escolha do tema de sua tese de Doutorado “Estudo sobre mídia e corpo feminino” Desde 2000, interessei-me por aprofundar minha carreira acadêmica e passei a estudar o corpo. Como publicitária, conhecia os defeitos e as mazelas da minha profissão. Nada mais justo do que questionálas. Assim, encontro na ditadura da magreza, da beleza e da juventude o caminho ideal para meus estudos . Minha dissertação de mestrado em comunicação e semiótica , desenvolvida na PUC/SP , concentrava-se em uma figura publica famosa por sua corpulência exagerada “Memória e Representação da Figura do Rei Momo na Mídia Impressa” (1930-1945). Esta dissertação de Mestrado tem como objeto de estudo a figura do Rei Momo, retratada pela Imprensa brasileira, no período de 1930 a 1945. Este período foi escolhido, pelo fato de que, em 1933 surgiu pela primeira vez, no Brasil, um Rei Momo de “carne e osso”. O monarca deixou de ser representado por um boneco de papelão e passou a ter vida própria, reinando nos salões de baile, acompanhando os desfiles carnavalescos, enfim, comandando a festa, nos três dias de folia do ano. A mídia impressa tornouse o foco principal desta pesquisa porque foi em uma redação de jornal que foi escolhido o primeiro Rei Momo da nossa história. Em 1933, Francisco Moraes Cardoso, um redator de Turfe, que prontamente aceitou a idéia e passou a comandar o carnaval carioca, tornar-se-ia a primeira pessoa a encarnar o personagem carnavalesco dentro dos festejos no Brasil. O corpus deste trabalho é as revistas de interesse geral do período de 1930 a 1945, como O Malho, Careta, Fon-Fon e O Cruzeiro, citadas como

de grande importância em toda a bibliografia colhida sobre Carnaval. O trabalho tem seu início com um histórico do Carnaval no Brasil em que são retratados os costumes, brincadeiras e hábitos do povo brasileiro e suas transformações, durante seu longo percurso, até chegarmos aos tempos modernos para criarmos uma cena especial para a introdução da figura do Rei Momo. Aí temos, desde a primeira vez, em que ele foi representado no Brasil, em 1910, no circo, pelo palhaço negro, Benjamim de Oliveira, até outras figuras conhecidas do carnaval carioca, como o Cidadão Momo, o Cidadão Samba, entre outros. Além de fotos e registros históricos, temos mais três capítulos, nos quais anúncios publicitários, ilustrações em capas de revistas e caricaturas retratam a figura de Momo e a vida política e cotidiana do Brasil, no Estado Novo, período de Getúlio Vargas e a urbanização da cidade do Rio de Janeiro. Em seguida, temos um capítulo para apresentar de forma cronológica os fatos de maior importância na História do Carnaval carioca. E finalizando o trabalho, temos um capítulo que procura dar maiores informações sobre as revistas, de interesse geral, pesquisadas. Minha Tese de Doutorado é Do Corpo Desmedido ao Corpo Ultramedido A revisão do corpo na Revista Veja de 1968 a 2010. Considerando que a revista Veja é publicação de interesse geral e de maior circulação no país e também um manual de conduta sociocultural, desde os anos de 1960, o objeto desta pesquisa é a imagem

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Entrevista do corpo feminino e suas significações passíveis de serem analisadas nas reportagens de capa da revista Veja que tratam do culto ao corpo, desde sua criação em 11 de setembro de 1968 até 2010. Qual a imagem de corpo feminino que a Veja editou ao longo dos seus 42 anos de existência? Esse é o problema deste trabalho. A partir dai, tem-se outras questões que norteiam essa investigação: Que corpos foram excluídos pela revista, desde sua criação em 1968 até os dias atuais? Que marcas e significações corporais são codificadas no discurso midiático da Veja? Que traços corporais a revista reflete e retrata? O objetivo geral é analisar as metamorfoses estéticas nos modos de tratar o corpo neste semanário, verificando-se ainda como a revista construiu seu diálogo com o leitor. Os objetivos específicos são: registrar e categorizar os vários tipos de corpos apresentados na Veja, desde o início de sua publicação, e identificar quais modelos são deixados de lado. A hipótese central desta pesquisa é que no discurso midiático não há um ideal de corpo padronizado, mas um corpo ultramedido, normatizado por tal discurso, de acordo com os costumes sociais e as práticas de consumo de cada período da história, considerando que a espetacularização corporal da sociedade brasileira é retratada, dissecada, observada e ditada pela Veja. Para acompanhar as alterações dos corpos e identificar signos transformadores da imagem feminina na sociedade brasileira, o corpus é composto de 56 capas da Veja e as respectivas reportagens de capa que têm como tema central o culto ao corpo. A metodologia de trabalho percorreu a seguinte ordem: revisão bibliográfica a fim de selecionar bases teóricas sobre a questão proposta neste trabalho, além de pesquisa documental para análise das imagens do corpo. O trabalho tem a possibilidade de contribuir com os novos estudos do corpo na área de Comunicação e da análise das significações das imagens corporais e comportamentais da história brasileira recente. Palavras-chave: corpo ultramedido; culto ao corpo; beleza feminina; revista Veja Desde 2010, desenvolvo pesquisas acadêmicas na área feminina. Nesse momento estou finalizando meu posdoutoramento na ECA_ USP , com a pesquisa: Sabores Midiáticos e Saberes Femininos; Os hábitos alimentares da mulher na maturidade. Midiatização, Regras e Prazeres. 36 | Em Família

6. É possível falar em avanços da imagem da mulher, nos últimos anos? Sim e não... A mulher ocupou o papel de influenciadora nos anos 90 . Foi dado a ela o crédito na hora da decisão da compra familiar , incluindo os bens duráveis. Já nos século XXI a mídia deu-lhe o papel de provedora e executiva da casa. Notamos, hoje, claramente campanhas publicitárias e manifestos das marcas que questionam padrões de beleza e questões de igualdade de gêneros . Sou uma profissional que consegue analisar friamente a questão, por isso enxergo o avanço mercadológico presente. 7. A mulher já conseguiu conquistar espaços importantes na sociedade e o preconceito persiste. Como a senhora vê a questão do machismo em nossa cultura? Profissionalmente devo constatar que jamais foi privada ou excluída de alguma função e/ou cargo por ser mulher. Na área de marketing, comunicação e educação tive as mesmas oportunidades que os homens: competência, titulação, excelência acadêmica e experiência profissional foram fatores essenciais para a minha plena realização profissional. Quanto ao discurso midiático, em geral , mais do que o machismo, que reconheço em áreas localizadas da sociedade, o que me preocupa muito mais são três ditaduras: magreza; beleza e juventude, pois influenciam o imaginário feminino, gerando frustração e doenças conhecidas como distúrbios da beleza como, anorexia, vigorexia, entre outras. 8. Qual o perfil da Mulher retratado e construído pela mídia? Uma pergunta impossível de responder. Temos retratadas várias tribos. De acordo com o veículo, o autor e o grau de exigência do seu publico. Honestamente, não sou a favor de nenhum endeusamento, nem mesmo na área esportiva. Os jovens tem que reconhecer que são todos seres humanos passiveis de erros, acertos e muitas


Entrevista 9. A mídia contribui para o emponderamento da Mulher? Para mim, o assunto é polêmico. Afinal a mídia é quem dita padrões de beleza, juventude e magreza às mulheres. Acredito que o poder de compra e as mídias sociais trouxeram o empoderamento. A educação e a conscientização tornaram o/a consumidor(a) mais exigente, pois é ele/a quem cobra a melhoria das empresas e as questões como: trabalho escravo, testes animais, obesidade infantil, consumismo, consumo pornográfico, pedofilia, intolerância racista, e também com os idosos. Na minha opinião, as escolas e faculdades contribuem muito mais para o desenvolvimento de um olhar critico da sociedade. A mídia , por sua vez, é um agente divulgador e passivo de um consumismo, sem valores éticos e morais. Salvo raras exceções. 10. Você é muito engajada nas Redes Sociais. Como o educador pode trabalhar o senso critico da juventude em relação à imagem da Mulher? Meu engajamento social é intenso. Acredito que deva devolver à sociedade , uma parcela da educação e crescimento profissional que obtive nesses anos. Também acredito que os jovens acolhem melhor a opinião de uma professora “animada” e “interessada” do que a opinião dos pais. Isso é normal. Provavelmente meu filho também aceita melhor a fala de um professor. Por isso, me empenho na busca de divulgar posts éticos, humanos e transparentes para meus seguidores. 90% são meus alunos , nesses 29 anos de profissão. Diariamente, procuro passar a mensagem de que o trabalho pode ser prazeroso, ético e colaborativo para criação de uma sociedade mais humana. Sim... acredito no poder do ser humano, como agente transformador da humanidade.

melhores. Blogueiras e You Tuber’s acabam atuando como grandes influenciadoras de opinião, ou seja, acabam tendo uma função de “marketeiros” na mente dos consumidores. Num mundo onde as pessoas são constantemente bombardeadas por novas informações, é necessário que o profissional de marketing pense muito bem antes de propor uma nova campanha ou um novo conceito/posicionamento à marca, pois a estratégia tomada é que definirá como a marca é vista perante seus concorrentes e consumidores. 12. Deixe uma mensagem para os alunos e educadores dos Colégios das Filhas de Maria Auxiliadora. Em primeiro lugar, gostaria de deixar disponível a minha participação, no colégio em palestras e eventos referentes à mulher, publicidade em geral e também carreira profissional. Seria para mim uma honra pois, posso contribuir com os jovens do Santa Inês, porque, como professora pesquisadora Integral no Mackenzie, trabalho, semestralmente com jovens de 17 e/ou 18 anos. Tambem gostaria de deixar claro que todos nós podemos contribuir com uma sociedade mais justa, honesta e responsável por seus atos. Um mundo melhor depende principalmente de nossa área de comunicação principalmente. Somos a voz da sociedade economicamente ativa.

11. Como você analisa Marketing x Comunicação? No contexto atual do mercado brasileiro, principalmente no ramo da beleza, o profissional de marketing encontra certo tipo de preconceito nos consumidores, em sua grande maioria mulheres, em aceitar que o nível de qualidade dos produtos nacionais é equivalente ao dos produtos internacionais, que sempre foram considerados maio | junho | julho e agosto 2016 | 37


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Educomunicação: uma necessidade do Sistema Preventivo “Toda obra salesiana que acolhe os jovens não é simplesmente um espaço físico, circunstancial, mas uma completa ecologia pedagógica”. Por Irmã Márcia Koffermann

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stas palavras, proferidas no documento final do III ESA (Escola Salesiana América) fundamentam o fato de que a Educação Salesiana precisa ser pensada numa ótica educomunicativa. Ao trabalhar com a ideia de ecossistema educativo, a Educomunicação abre espaço para pensar de forma sistematizada a pedagogia do ambiente, dando grande importância para a questão da comunicação educativa, do acompanhamento e do cuidado com o ambiente físico. Estes são alguns aspectos da Educomunicação, que juntamente com outros que não serão tratados aqui, fortalecem o Sistema Preventivo especialmente no aspecto da Amorevolezza, tão importante para Dom Bosco e Madre Mazzarello. A Educomunicação parte do princípio de que 38 | Em Família

educar é um ato dialógico. A abertura para que todos os sujeitos de uma comunidade educativa possam ser ouvidos, em suas diversidades, suas visões de mundo é a base de uma educação democrática. É o exercício concreto da cidadania, em que os sujeitos vivem a possibilidade de ser produtores de conhecimento, de conteúdo e nesta dinâmica vão se tornando também, e cada vez mais, receptores críticos, capazes de dialogar e manter convicções. Esta postura educativa é algo essencial nos dias de hoje. Num tempo em que se fala de aprendizagem colaborativa, construção coletiva do conhecimento e novas metodologias de ensino, em que o educador é muito mais facilitador, alguém criar condições para que por meio do diálogo e da comunicação o educando seja capaz de construir o


Registro seu conhecimento, a ideia de Ecossistema Educativo ganha nova força. Este princípio pedagógico está presente desde o início da Educação Salesiana, não é uma novidade, porém, com a Educomunicação é possível pensar de uma forma sistemática aquilo que já era vivenciado de forma intuitiva por muitos educadores. Na pedagogia do ambiente, o acompanhamento é a chave para uma maior proximidade entre educador e educando. Este é um processo essencialmente comunicacional, marcado pela escuta, pela abertura ao diferente e pela acolhida, o que permite aos jovens agir com confiança, por que sabe que “não é apenas mais um entre outros”. “O estilo salesiano, que anima a comunidade e une educadores e jovens em uma única experiência formativa, pressupõe um ambiente de participação, de reciprocidade, de valores compartilhados, de paciente espera dos ritmos de crescimento pessoal e de respeitoso diálogo com quem é portador de outra tradição cultural e religiosa.” Dom Bosco vivenciava o acompanhamento de forma muito intensa, nos recreios, com a palavrinha ao ouvido, nas longas filas para confissão, quando tomava parte nos jogos e brincadeiras, ele sabia cultivar a atitude evangélica de tornar-se próximo. E quanto mais amava os seus jovens, mais era amado. Na consolidação de um ecossistema educativo, o acompanhamento das crianças, adolescentes e jovens se manifesta na acolhida das múltiplas linguagens juvenis, das suas diferentes expressões, daquilo que eles dizem e daquilo que não chegam a dizer, mas que se subentende. Como propõe o Papa Francisco, pode-se dizer que é proporcionando uma cultura do encontro que chegaremos a uma comunicação cada vez mais próxima, tendo a pessoa como centro do processo comunicativo. O ecossistema educomunicativo numa perspectiva salesiana, além dos aspectos relacionais, tem olhar diferenciado também sobre o aspecto físico. O ambiente educa e isso é algo em que toda a comunidade educativa está diretamente envolvida.

Os lugares são carregados de significados, falam por si, uma capela bem arrumada, demonstra o cuidado para com as coisas de Deus, a presença dos santos salesianos reforça a ideia de que Deus se faz presente em todos os lugares. O cuidado com ambiente, seja a limpeza dos espaços, a ordem dos armários, a exposição cuidadosa dos trabalhos e produções dos educandos, demonstram como cada pessoa que chega numa casa salesiana é importante, merece o melhor. Quem ama cuida e quer que aqueles que amam estejam num lugar bom e agradável, esta é a lógica da pedagogia do ambiente. Se tomarmos um ponto de vista educomunicativo, seremos capazes de perceber que a paredes falam, os sinais revelam aquilo que acreditamos e confiamos. A Educomunicação esclarece que não há neutralidade na educação, sempre há escolhas para serem feitas, daí a importância de aprofundar e pensar sobre o processo pedagógico que se tece como comunidade educativa. Os ambientes educativos salesianos precisam ser espaços de busca comum, em que todos os seus integrantes tenham como meta a construção do Ecossistema educomunicacional, enquanto espaço de encontro e de diálogo, que propõe um caminho, uma proposta de vida e que acompanha o jovem neste percurso. O jovem inserido neste ambiente assim pensado, poderá ter a certeza de que não está sozinho, de que há pessoas que o amam e que estão próximas, pessoas em quem pode confiar e falar abertamente sobre as suas dúvidas, anseios, medos e alegrias. Dar-se conta de todos estes elementos é o primeiro passo para ressignificar a presença salesiana, uma presença que fala por si só e que é sonho prolongado de Dom Bosco e de Madre Mazzarello criando raízes nas diferentes realidades de missão hoje.

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Irmãs de todo o Brasil participam de Assembleia da CIB

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os dias 22 e 23 de abril, em seguida ao encontro de Nova Configuração, estiveram presentes no CCIP de Brasília, 32 Irmãs, representantes das diferentes Inspetorias e Serviços de Animação em Nível Nacional. O objetivo do encontro foi socializar as ações realizadas pelas FMA em todo o Brasil e aprofundar a temática do Capítulo Geral XXIII. No primeiro dia de trabalho, Ir. Alaíde Deretti, Conselheira para o Âmbito das Missões, desenvolveu o tema: Alargai o Olhar – Com os jovens Missionárias de esperança e alegria; fazendo uma releitura na ótica missionária dos Atos do Capítulo. Segundo Irmã Alaíde:“Somos chamadas a ser missionárias 24 horas por dia, a missão não pode ser vista como restrita a uma questão geográfica, a Igreja em si é missionária. Podemos viver a missionariedade em qualquer lugar e em qualquer situação. É uma pré40 | Em Família

disposição de manter os corações abertos para as necessidades do Instituto onde quer que esteja. ” Além da dimensão missionária, Ir. Alaíde, também falou sobre a conversão ecológica que se faz urgente e é um apelo do Papa Francisco na “Laudato Si”. Ir. Alaíde apresentou o caminho trilhado pelo instituto FMA em relação à preocupação ecológica que já vem de muitos anos e agora se intensifica com o apelo do Papa em relação ao cuidado do planeta. No período da tarde do primeiro dia e durante todo o segundo dia, foi feita a socialização de cada área de animação em nível nacional. Alguns dos assuntos tratados foram: IV ESA, que acontecerá em 2017 na Colômbia; as atividades que vêm sendo desenvolvidas no Centro Salesiano de Formação; os projetos do Parceria Cidadão; a caminhada da Comissão Nacional de Pastoral Juvenil e do


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Conselho Nacional da AJS; o parecer do Conselho Fiscal da CIB; a proposta do XII ENCIS; o caminho que vem sendo feito pela Família Salesiana no Brasil; o trabalho de animação da Ecosbrasil e da Rede Salesiana de Comunicação; os trabalhos da ACSSA; o processo formativo que vem sendo realizado nas diferentes etapas do Nordeste; o trabalho do Noviciado Interinspetorial; e a caminhada da Rede Salesiana de Ação Social. Diante de todo o trabalho apresentado, ressaltou-se na avaliação do grupo, a satisfação em perceber que o carisma está muito vivo no Brasil, que não há um enfraquecimento ou estagnação, mas sim uma grande busca em dar respostas mais adequados aos desafios da missão junto às juventudes. No dia 21 de abril, estiveram reunidas, no Centro de Convenções Israel Pinheiro, em torno de 30

Irmãs das diferentes Inspetorias do Brasil. Este é o segundo encontro do Grupo de Trabalho, GT, que está pensando de forma mais concreta os passos a serem dados para a concretização da Nova Configuração das Inspetorias das Filhas de Maria Auxiliadora do Brasil. Estiveram presentes também, Ir. Maria Helena Morra, que vem dando a assessoria para o grupo desde o início do processo e Ir. Alaíde Deretti, referente da CIB, para acompanhar e ajudar a conduzir o trabalho de Nova Configuração. Fonte: Site CGFMANET

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XXIV Assembleia Geral Eletiva da Conferência Nacional dos Religiosos do Brasil “VIDA RELGIOSA CONSAGRADA EM PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO” “Vejam que estou fazendo uma coisa nova...” (Is 43,19).

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Deus trindade e comunhão nos reuniu como Consagradas e Consagrados na XXIV Assembleia Geral Eletiva da Conferência Nacional dos Religiosos do Brasil, realizada em Brasília de 11 a 15 de julho de 2016, com o tema: “Vida Religiosa Consagrada em processo de transformação” e o lema: “Eis que estou fazendo uma coisa nova” (Isaías 43,19). Somos aproximadamente 500 participantes vindos/as de todos os lugares do Brasil, representantes de outros continentes e de Institutos Religiosos Seculares. Vivenciamos os diferentes carismas, etnias e culturas, em comunhão com a Confederação Caribenha e Latino Americana de Religiosas/os (CLAR) e em profundo agradecimento pelo tesouro que a Vida Religiosa Consagrada 42 | Em Família

representa para a Igreja e para o mundo, como nos diz o Papa Francisco. A partir do que vimos e ouvimos, sentimos o imperativo exigente de uma profunda reforma da Igreja no centro da consciência do Povo de Deus, povo universal, chamado a chegar até os extremos confins da Família Humana. Essa reforma quer traduzir no hoje o coração pulsante do Evangelho de Jesus, na força do Espírito Santo e no discernimento dos sinais dos tempos. Também para a Vida Religiosa Consagrada urge acontecer uma profunda reforma a fim de continuar sendo sinal e profecia no mundo de hoje, caminhando junto, testemunhando a verdade com a caridade e assumindo o diálogo como caminho da evangelização.


Registro Com o profeta ousamos sonhar e alimentar nossa esperança. No entanto, junto com a humanidade, a sociedade e a Igreja, também a Vida Religiosa Consagrada se encontra numa encruzilhada. Precisamos fazer memória do passado, viver com novo encantamento o momento presente e avançar. A crise em que vivemos é oportunidade de construção de novos horizontes e de fortalecimento de nossa identidade, de crescimento na intercongregacionalidade e de atitudes mais ousadas. “Eis que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando e vocês não percebem?” (Is 43,19). O protagonista da missão é Deus, toda a ação salvadora vem dele. Quem cria a coisa nova entre nós é Deus, somos seus colaboradores (cf. I Cor. 3,9). Nossos caminhos, instituições e estruturas são meios, não são o centro nem têm fim em si mesmos. O Papa Francisco nos lembra de que não devemos ter medo de deixar os odres velhos, de renovar os hábitos e estruturas que na Vida Consagrada já não respondem ao que Deus nos pede hoje para fazer avançar o Reino de Deus no mundo. É preciso despertar uma Vida Religiosa Consagrada que testemunhe a alegria e a liberdade do Evangelho, frente à complexidade do mundo atual. Para isso se faz necessário: • Voltar à primazia do Evangelho, redescobrindo a importância do silêncio e da mística na escuta da Palavra, tendo o mistério de Jesus Cristo como fonte inspiradora de nossa consagração que aponta para a missão e não para uma obsessão de sobrevivência. • Resgatar a vida fraterna como caminho de seguimento em toda a sua dimensão humana e humanizadora. O anúncio da Boa Nova jamais acontece de mão única, mas sempre na reciprocidade da relação: precisamos aprender a nos dar, mas também a receber dos outros. • Incentivar uma Vida Religiosa Consagrada em saída, a partir dos nossos Carismas Fundacionais, que nos impulsione a um compromisso profético mais além de nossas fronteiras. A experiência missionária é

sempre marcada pela itinerância, despojamento, leveza e provisoriedade. Vivenciamos em nossa assembleia o envio de quatro religiosas para a missão intercongregacional na Diocese de Pemba – Moçambique. • Reavivar a proximidade e o encontro com as Novas Gerações e as juventudes de nosso tempo através de processos formativos humanizadores e conectados com os debates de hoje, de maneira que encontrem na Vida Religiosa Consagrada mulheres e homens como irmãs e irmãos de caminhada. • Reafirmar a opção preferencial pelos pobres através da solidariedade e reaproximação com um estilo de vida simples e austera, comprometida com as causas sociais, engajada nas lutas em defesa dos direitos, da dignidade e da vida para todos, promovendo a participação política e colocandonos ao lado dos grupos humanos mais vulneráveis, como os migrantes, os refugiados, as vítimas do tráfico humano, os afrodescendentes, os povos indígenas, entre outros. • Promover uma ecologia integral que brote de uma paixão pelo cuidado da Casa Comum e se alimente de uma espiritualidade que propõe um crescimento na humildade sadia e uma sobriedade feliz. (Cf. LS 222). Desta forma, encontramos a presença e a ação de Deus em todas as criaturas, e “juntamente a todas as criaturas caminhamos nesta terra a procura de Deus” (LS 244). Confiantes na ação do Espírito, que faz brotar coisas novas, e na presença de Maria, que nos contagia com sua gratuidade e prontidão, saiamos depressa como Vida Religiosa Consagrada ao encontro dos pobres, cuidando da vida e anunciando o Reino. Brasília, 15 de julho de 2016.

TRIÊNIO – 2016/2019 Presidente Irmã Maria Inês Vieira Ribeiro, mad

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FATEA torna-se Centro Universitário A FATEA (Faculdades Integradas Teresa D’Ávila) inicia o segundo semestre como Centro Universitário. A mudança foi publicada pelo MEC no Diário Oficial da União em 19 de julho. Com mais de 60 anos atendendo Lorena e região, a instituição passará a ser conhecida pela marca UNIFATEA. A busca para se tornar um Centro Universitário teve por objetivo contribuir para melhorar a qualidade da oferta de ensino superior na micro e na macro região de Lorena. “Esta é uma conquista de toda a comunidade acadêmica, fundamental para a nossa consolidação como uma Instituição de Ensino respeitada nacional e internacionalmente.”, destaca o então diretor e agora Reitor da UNIFATEA, Prof. Dr. Wellington de Oliveira. O MEC define centros universitários como as instituições de ensino superior pluricurriculares, que abrangem uma ou mais áreas do conhecimento 44 | Em Família

e que se caracterizam pela excelência do ensino oferecido, comprovada pela qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade escolar. Um importante diferencial é que os centros universitários credenciados têm autonomia para criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior. Com mais de 60 anos, a UNIFATEA oferece atualmente 12 cursos de graduação, 14 cursos de pós-graduação lato sensu, incluindo 7 MBAs e o Mestrado Profissional em Design, Tecnologia e Inovação.

Fonte: Assessoria de Imprensa UNIFATEA


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Homenagem ao Instituto Coração de Jesus Na Semana do Meio Ambiente, a Câmara Municipal de Santo André/SP, homenageou as boas práticas relacionadas à sustentabilidade ambiental. O Instituto Coração de Jesus recebeu homenagem pelo projeto Plantar cuja intencionalidade é a sensibilização para recuperação vegetal de áreas degradadas em benefício do recurso hídrico. Dentre as ações do projeto, os alunos da Educação Infantil foram envolvidos no plantio de mudas do bioma Mata Atlântica. O projeto é de autoria dos alunos Amanda N. de Araujo, Natasha M. Silva e Samuel G. Souza com orientação da Prof. Camila Dogo.

Fonte: Instituto Coração de Jesus maio | junho | julho e agosto 2016 | 45


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Clima fraterno e participativo marca o Encontro Nacional da RSE Por Ana Cosenza

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ossa identidade e nossa missão como escola católica salesiana nos impulsionam a ter objetivos claros, estratégias inovadoras, princípios e valores pautados na proposta humanista e cristã, para atender a cultura juvenil do contexto contemporâneo. Um trabalho bastante complexo que exige muita competência e colaboração em rede. O ENARSE tinha todas essas questões subjacentes em cada atividade desenvolvida”. Esta é a análise que faz a diretora-executiva da Rede Salesiana de Escolas, irmã Adair Sberga, sobre o XIV Encontro Nacional da RSE (XIV ENARSE), realizado nos dias 6 a 8 de abril em Brasília-DF. O padre José Adão Rodrigues da Silva, que compartilha com irmã Adair a Diretoria-executiva da RSE, também é enfático ao afirmar o sucesso do evento: “O ENARSE transcorreu de forma muito dinâmica e participativa, e atendeu bem as 46 | Em Família

expectativas dos diretores das escolas, o que pode ser visto e sentido pelas diversas manifestações positivas colhidas durante a realização do evento. A troca de experiências vividas na rede e a sintonia com as formações e informações oferecidas deram o tônus do encontro”. O XIV ENARSE teve como tema: “Identidade e missão da Escola Católica Salesiana: sujeitos, cenários contemporâneos e perspectivas futuras”, e reuniu durante os três dias de atividades os diretores das mais de 100 unidades da RSE em todo o país, a equipe e os diretores nacionais da Rede e os gestores e animadores dos seis polos regionais. PROPOSTA FORMATIVA Um dos pontos fortes do XIV ENARSE foi a alta qualificação dos palestrantes escolhidos. As duas mesas redondas que trataram sobre “Os desafios da


Registro escola salesiana nos cenários contemporâneos” sob diversos aspectos, realizadas nos dias 6 e 7 de abril, tiveram a participação de professores, doutores e especialistas de várias universidades brasileiras. A palestra magna, na tarde do dia 7, foi do renomado pesquisador Gregory B. Whitby, diretor da Escola Diocesana de Parramatta/Austrália e presidente da CeNET (Rede de Educação Católica Australiana), que falou aos participantes do ENARSE sobre “A missão e a formação do(a) diretor(a): elementos fundamentais para superação dos desafios contemporâneos da educação católica”. Na noite da mesma data, Whitby também ministrou uma palestra para os educadores da RSE, que foi transmitida ao vivo via You Tube e acompanhada online pelos colaboradores da Rede em todo o país. O tema: “A inovação e a criatividade nas práticas educativas: elementos fundamentais para o ofício do educador contemporâneo”. Para o diretor-executivo da Rede Salesiana Brasil, padre José Marinoni, este foi sem dúvida um dos aspectos de maior destaque no XIV ENARSE. “A presença e a postura do Greg, como ele gosta de ser chamado, foram muito importantes nesse encontro. Pela sua experiência profissional, pelo testemunho e pela maneira simples, mas muito profunda, como ele apresentou os temas para os diretores das escolas e para os educadores da Rede”, ressalta o padre Marinoni. INTEGRAÇÃO E FRATERNIDADE Outro aspecto significativo no XIV ENARSE foi a

presença de seis alunos de colégios de Brasília que, em nome dos alunos de toda a Rede, disseram aos diretores o que significa estudar em uma escola salesiana e o que eles esperam da RSE. “Eles também exemplificaram como a escola salesiana colabora para que se tornem competentes, para alcançar seus objetivos. O quanto ajuda para que se tornem bons cristãos e honestos cidadãos. Foi emocionante escutá-los”, considera a irmã Adair Sberga. Um dos jovens, Emanuel Felipe, afirmou durante o evento que “Quando a gente incorpora o espírito salesiano, entende o que é ser salesiano, dentro e fora do colégio. O colégio permite que o aluno expresse sua opinião”. Já o colega Luiz Felipe considerou: “Dá para ver que o colégio da Rede Salesiana percebe cada aluno como cidadão, e não como um número. Tive que começar a trabalhar e o colégio me apoiou, pois a escola se preocupa em trazer o aluno para perto dela”. A intensa programação do XIV ENARSE incluiu ainda o início das discussões e da reelaboração colegiada do Projeto Educativo Pastoral Salesiano, a reflexão sobre o IV ESA (IV encontro da Escola Salesiana América, que será realizado e o acompanhamento dos projetos que estão em desenvolvimento ou implantação na Rede Salesiana de Escolas. Entre eles, o Centro Salesiano de Formação, a parceria com a editora Edebê Brasil e a Campanha de Matrículas 2017.

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X Congresso Mariológico Noviça: Aldiana Moreira Cordeiro

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comunidade do Noviciado e Ir. Francisca Rosa Beozzo, Irmã Lina Boff, Irmã Penha Carpanedo, Frei da Silva da Casa Mornese de São José dos Alberto Beckhauser, Irmão Afonso Murad e Padre Campos participaram do X Congresso Mariológico, João Carlos Almeida (Pe.Joãozinho). em Aparecida: dias de indescritível riqueza ao

Ao longo dos dias, os palestrantes buscaram

abordar o lugar de Maria na Liturgia e orientar a refletir sobre a espiritualidade mariana, a presença piedade e a devoção dos fiéis de Maria na liturgia, seu lugar no plano da Salvação O Congresso Mariológico, foi realizado nos dias

sem a intenção de maximalizar e nem mesmo de

02 a 04 de junho, com a temática “MARIA NA

minimizar. Acredito que esses dias nos ajudaram a

LITURGIA E NA PIEDADE POPULAR”, promovido

crescer no amor a Nossa Senhora pelas reflexões,

pela Academia Marial, no Santuário de Aparecida,

experiências partilhadas de Fé e vida. Houve

em parceria com a CNBB e a Faculdade Dehoniana também 14 pequenos seminários com temas de Taubaté. Contou com a presença de palestrantes referentes a Maria para um maior aprofundamento de renome nacional, entre eles, o Padre Oscar 48 | Em Família

e debate. No dia 03 de junho, participamos da noite


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cultural com a orquestra PEMSA e lançamentos de livros. Como disse Dom Damasceno: “o Congresso ajudou os participantes a compreenderem “o lugar de Maria na vida litúrgica da Igreja, nas manifestações da piedade popular e sua íntima relação com o mistério pascal de Cristã que celebramos em cada sacramento, e de modo especial, na Eucaristia”. (LMI) Agradecemos a Comunidade do Colégio do Carmo, na pessoa de Ir. Teresa Cristina, que, com carinho e alegria, nos acolheu nos dias do Congresso. Que Deus as retribua em bênçãos e graças! maio | junho | julho e agosto 2016 | 49


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Jornada Mundial da Juventude Por Irmã Gisele Rodrigues Coelho

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e 26 a 31 de julho 2016, em Cracóvia, Polõnia, a misericórdia se mostrou em diversas cores e línguas, mas com uma só fé em Cristo, o Rosto da Misericórdia do Pai. A alegria do povo polonês, por ser sede da Jornada Mundial da Juventude 2016, foi o grande “cartaz” de boas-vindas e fez com que todos se sentissem bem logo na chegada. Nesses dias, pude participar de todos os atos centrais da JMJ, conhecer um pouco da cidade de Cracóvia, visitar o santuário de Jasna Gora, em Czestochowa, e participar do fórum e da festa do Movimento Juvenil Salesiano realizados, em Cracóvia, no dia 27 de julho. Foi um dia de partilha sobre desafios para viver a misericórdia; qual mensagem podemos dar enquanto MJS ao apelo do Papa Francisco para a vivência das obras de misericórdia. No fórum, fo aberto um diálogo entre jovens representantes do México, Venezuela, Angola e Eslovênia com a Madre Geral e o Reitor-Mor a partir de perguntas 50 | Em Família

relativas aos desafios atuais e como a Congregação Salesiana está tentando responder a estes desafios. À tarde, o Expo Cracóvia se transformou em um grande oratório, encerrando à noite com adoração ao Santíssimo e boa-noite da Madre e do ReitorMor. Da missa de abertura à missa de encerramento da Jornada ressoava o apelo a aproximar-se da misericórdia de Deus, tocá-la e deixar-se tocar. Milhões de peregrinos reunidos, fazendo festa pelas ruas, cantando, fazendo selfs, compartilhando os momentos pelas redes sociais, comunicando aos amigos e familiares a alegria de estar ali, mas em meio a toda agitação e ansiedade muitos momentos de profundo silêncio e oração, atitudes de quem deseja encontrar-se com Cristo e deixar-se encontrar por Ele. Todos os atos centrais proporcionaram reflexão e oração, suscitando, nos jovens e demais peregrinos presentes, perguntas e respostas, inquietações e


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paz interior. E com certeza, ninguém voltou para a casa do mesmo modo que partiu em peregrinação à Cracóvia. Como afirmou Papa Francisco, na missa de encerramento referindo-se ao encontro de Zaqueu com Jesus: o encontro com Jesus muda a vida. Portanto, a Jornada Mundial da Juventude de 2016 foi um novo momento da ação da graça e da misericórdia de Deus na vida de milhões de pessoas, sinal do rosto jovem da Igreja, expressão de fé e de esperança na juventude. Agradeço a Deus este encontro e à Inspetoria Santa Catarina de Sena, na pessoa da Ir. Helena Gesser, que me proporcionou participar desta Jornada e rezar a misericórdia de Deus na minha vida e na vida de cada ser humano. E preparemo-nos para o próximo encontro no Panamá! maio | junho | julho e agosto 2016 | 51


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Cracóvia: SYM 2016

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racóvia (Polônia). Começou marcada pela festa e pela alegria a Jornada Mundial do MJS (SYM 2916). As delegações nacionais ( 42 países) participantes se encontraram na Expo Cracóvia, para viver uma experiência de encontro e de reflexão sobre o tema da Misericórdia e para compartilhar as próprias vidas e talentos com outros jovens que compartilham a espiritualidade salesiana. A Jornada Mundial do MJS é parte das celebrações da Jornada Mundial da Juventude. Foram dois eventos: o Forum MJS e a Festa MJS, que contaram com a presença de Pe. Ángel Fernández Artime, Reitor Mor dos SDB e de Madre Yvonne Reungoat, Madre Geral das FMA. Este dia é uma tradição que vem dos tempos de Dom Bosco e que continua ainda hoje. Os protagonistas deste evento são os jovens que compartilham a alegria e a festa, características da espiritualidade juvenil salesiana. 52 | Em Família

O Fórum realizou-se durante a manhã, 180 os delegados participantes de 42 países. Começado o dia na alegria e na festa, os jovens compartilharam, em grupos, experiências e testemunhos, refletindo sobre como viver a espiritualidade juvenil salesiana na vida diária. Três perguntas: Quais desafios encontro para ser misericordioso na vivência diária? Que obras de misericórdia estou recebendo em minha vida? O que podemos dizer, como MJS, em resposta ao apelo do Papa Francisco sobre a misericórdia? No término desse momento os jovens acolheram em festa o Reitor Mor e a Madre Geral para continuar o diálogo-confronto a partir de algumas questões formuladas por alguns jovens da Eslovênia, da Venezuela, de Angola e do México. - Nós jovens muitas vezes não nos sentimos


Registro dignos de misericórdia, não sabemos como acolher a misericórdia de Deus. Como podemos abrir-nos à Sua misericórdia? - Vivemos tempos violentos. Como jovens salesianos, como podemos criar ambientes de paz e contagiar as pessoas? A Madre respondeu com entusiasmo e disse: “Esta pergunta é importante porque não devemos merecer a misericórdia: ela é um dom de Deus; é sempre o Pai que nos ama com amor rico de misericórdia. É sempre iniciativa dele, é Ele quem dá sempre o primeiro passo e vem ao nosso encontro. Nós só devemos desejar e acolher a sua misericórdia e deixar que trabalhe em nós. Devemos abrir constantemente nossos corações a Deus e o fazemos todas as vezes que realizamos gestos de amor, de solidariedade, de misericórdia para com os pobres. Desejo que cada um de vocês faça esta experiência de amor, que pode fazer crescer nossa vida; não desanimem nem desistam vocês, eu, de amar cada dia aqueles que estão perto de nós”. O Reitor Mor, depois de ter lembrado o contexto de dor após os últimos eventos de violência na Europa, instigou os jovens dizendo: “Como jovens salesianos não podemos viver deixando que os grandes problemas não nos toquem, fiquem longe de nós! A violência, as guerras das quais ouvimos falar todos os dias, na África, no Oriente Médio, na Europa e em tantos outros países, não pensemos que não têm nada a ver conosco. A tristeza bate à nossa porta: ódio, terrorismo, violência, falta de respeito... são também problemas nossos! Ajudemos os jovens a entender, como salesianos, a Igreja espera uma clara contribuição neste sentido. Serem propositivos, promover experiências de paz, caminhos de paz... serem modelos para as novas gerações. Estar aqui hoje é uma grande força, compartilhar com outros 6000 jovens esta tarde e, juntos, olhar o mundo de modo novo, com esperança e amor”. A experiência do Fórum se conclui com a solene Celebração Eucarística, presidida por Pe. Ángel Fernández Artime, que, na homilia, falou aos jovens “que se coloquem na escuta de Jesus para

acolher o que Ele nos diz sobre a misericórdia, para responder com coragem ao Seu projeto de amor por nós, para acreditar que temos algo a oferecer aos outros; depois destacou que acreditar em Jesus quer dizer construir uma cultura de ternura e de amor. Deus está presente em nossa vida e ao voltar para casa precisamos compartilhá-lo com todos”. A jornada mundial salesiana continuou durante a tarde com a grande Festa do Movimento Juvenil Salesiano. Aos 180 delegados participantes do fórum se uniram os jovens do MJS, vindos a Cracóvia de muitos lugares do mundo, para participar da JMJ 2016; cerca de 6000 os jovens que, numa exultação de cores, sons, cantos, bandeiras, unidos no nome de Dom Bosco e de Madre Mazzarello, falaram da diversidade do carisma da Família Salesiana nos diferentes contextos geográficos, nacionais e sociais. A festa continuou com a noite de espiritualidade, uma vigília de oração e adoração do Santíssimo. No fim do dia a tradicional “Boa Noite” do Reitor Mor e da Madre Geral das FMA. Fonte: CGFMANET

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É Festa

Celebrando a vida - Aniversariantes SETEMBRO

02. Lucia Maistro 06. Fabiana Florêncio Cavalcante 07. Silvana Soares 08. M. Genoveva Corrêa 10. Monaliza Carolina M. Bernardino 12. Célia Apparecida da Silva 14. Aparecida Geralda de Freitas 15. Iraydes Corrêa 17. Manoracy Medeiros 19. Ana Francisca Azevedo 22. Iracy Corrêa 25. Paola Battagliola (Conselheira Visitadora) 26. Ondina S. Lima - Maria Helena Moreira (Cons. Geral ) 30. Cecy Lazzarini

OUTUBRO

02. Maria Silva (Mariucha) 06. Maria Aparecida Almeida 07. M. Bernardina Gonçalves 08. Anna Bello Soares 10. Glória Castanheira | Rosana M. Cavalcante 11. Maria Dirce Martins 12. Alzira Mateus de Lima | Maria Gazzetto | Metka Kastelic 15. Theresinha Castro 19. Terezinha dos Santos 21. Elena Beretti | Josefina Fortunato 22. Clarice Quereguini 23. M. Rosáro L. Cintra | Maria Izabel Ferreira

25. Célia Maria Moreli 27. Maria Nives Reboso | (Cons. Geral) 28. Nair Pasqualini 31. Maria Auxiliadora V. Grande

NOVEMBRO

01. Bruna de Paula Elias (asp.) 02. Aparecida de Fátima Barboza | Chen Huimin 05. Aldahyr de Bortoli |Mirian Morotti |Rosângela Maria Clemente 07. Esther Venturelli | Fátima Aparecida Peixoto 08. Beatrice Dallabona 12. Ivone Brandão de Oliveira 15. Célia Regina Querido 17. Augenir Marin 20. Silvania Cássia Pereira 22.Cecilia Vassalo Grande 25. Nilza Fátima de Moraes 26. Lourdes Nunes dos Reis 28. Gisele Rodrigues Coelho | Ana Maria Gomes Cordeiro 30. Flávia Maria Romeiro

PROGRAME-SE SETEMBRO 16-18: PJ: Retiro Bíblico – Colégio de Santa Inês 20-23: POSTULINTER 21-23: ENCOPOLOS/RSB – Brasília 24: Retiro Trimestral – CMA – Lorena 25: Retiro Trimestral – Casa Santa Teresinha – São Paulo 24-25: JUNINTER 26: 9h: Reunião Diretoras e Ecônomas 14h: Reunião Mantenedora da Casa Puríssimo Coração de Maria Conselho Inspetorial 54 | Em Família

27: Conselho Inspetorial

OUTUBRO 02: Eleições: I Turno 04: PJ: Reunião Pastoral Inspetorial – Espaço Jovem 07: Encontro dos Educadores Sociais – ANEC – Ipiranga 08-09: Encontro Irmãs 60 a 85 anos 15: Santa Teresa – Dia do Professor – FEST 17-20: Retiro Anual – Lorena


Programe-se

PROGRAME-SE

PROGRAME-SE

23: 9h: Reunião Formação Inicial 14h: GREI 24 - 9h: Reunião Diretoras e Ecônomas 14h: Reunião Mantenedora da Casa Puríssimo Coração de Maria 14h: Reunião Equipe PEM 25-26: Conselho Inspetorial 30: Eleições: II Turno

NOVEMBRO 04-06: Assembleia Inspetorial 12-13: Convivência Vocacional 15: Proclamação da República 20: Dia da Consciência Negra 24: Reunião CIB – Brasília 25-26: Assembleia RSB – Brasília 28 - 9h: Reunião Diretoras e Ecônomas 14h: Reunião Mantenedora da Casa Puríssimo Coração de Maria 29-30: Conselho Inspetorial

LEMBRANÇA + 01 de maio, Sra. Ondina Carlos Barboza, mãe de Ir. Fátima Barboza. + 06 de junho, Sr. Hélio Corrêa, irmão de Irmã Maria Genoveva. + 18 de junho, Sra. Didi – Benedita – sobrinha da Irmã Conceição Gonçalves + 20 de junho,Sr. Jorge Rodrigues Fernandes, casado com a sobrinha de Irmã Rosa Valente

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“Nós só devemos desejar e acolher a sua misericórdia e deixar que trabalhe em nós. Devemos abrir constantemente nossos corações a Deus e o fazemos todas as vezes que realizamos gestos de amor, de solidariedade, de misericórdia para com os pobres” Madre Yvonne Reungoat, Madre Geral das FMA

Revista em Família nº47  

Informativo das Filhas de Maria Auxiliadora

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