ZĂŞzere
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Coordenação Editorial João Carvalho Dias Textos José Manuel Fernandes João Branco Maria Manuela Alves Design e Coordenação Gráfica Rúben Santos Fotografia e Tratamento de Imagem Rúben Simão Santos José Santos Revisão António Ribeiro Monteiro Luís Rui de Carvalho Rúben Santos Impressão e Acabamentos Graphictech Capa Rúben Santos www.rubensantos.com Patrocínio de: EDP www.edp.pt
Edição portuguesa: 350 exemplares ISBN: 987-654-3210-12-3
Sum á rio
rio zêzere
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história 30 Geografia 34 Natureza 38 Turismo 42 ac tividades humanas
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barragem de castelo do bode
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rio zêzere NASCEU DOS GELOS,
DESCANSOU COM AS CEREJEIRAS, ROMPEU POR ENTRE PINHAIS. por José Manuel Fernandes
Calhou ser o Zêzere, podia ter sido o Candeeira. Ou a Candeeira. Quando as águas se separam, bem lá no alto da serra da Estrela, escorrendo pelas encostas abruptas do Cântaro Magro e do Cântaro Raso, às que se juntam no Covão da Ametade damos já o nome de Zêzere; às que correm um pouco para norte, juntandose no vale da Candeeira, damos-lhe o mesmo nome mas quase só os pastores e os caminhantes as conhecem. Mas esta separação é efémera, pois a ribeira de águas cristalinas que escorre por entre o cervum daquele vale e se precipita, em alegre cascata, no vale maior do Zêzere, logo aí junta as águas que antes se haviam apartado. Calhou a ribeira da Candeeira correr por um vale que ainda hoje nos surge conservado de forma quase milagrosa, um vale que se debruça sobre a margem norte do Zêzere e a que podemos chegar após uma esforçada mas revigorante caminhada a partir do Covão da Ametade. As suas vertentes são escarpadas e não facilitam o acesso, mas no fundo do vale cresce viçosa uma erva a que uns chamam nardo, outros cervum, e os rebanhos apreciam. Tudo na sua paisagem trai a origem deste vale, talhado que foi pelos gelos eternos que, no auge das glaciações, cobriam totalmente a serra da Estrela. A ribeira recolhe hoje as águas que escorrem destas paredes que lembram as de um imenso anfiteatro, razão porque lhes chamam “circo glaciar”, e segue pelo sulco aberto por um língua secundária cujos gelos alimentavam o glaciar do Zêzere. Depois, quando chega junto ao rebordo, precipita-se numa torrente que, em certas épocas do ano, chega a ser imponente.
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Mas se neste vale um olhar experimentado pode ler a sua história geológica, e um pouco da história da Estrela e dos rios que nela nascem, ele também guardou, preservado no solo fofo, o registo fóssil das paisagens serranas de outrora. É que, quando os gelos derreteram no vale da Candeeira, deixaram à vista uma depressão com a forma de uma colher que, ao longo dos milénios, funcionou como uma bacia de sedimentação, progressivamente colmatada por todo o tipo de resíduos, nela se depositando os restos da vegetação que cobriu, e ainda cobre, as encostas da serra. Assim se formou uma turfeira1 onde, através da realização de sondagens, da análise de amostras e do estudo dos seus diversos níveis, foi possível reconstituir a evolução da flora do maciço central. Isto porque esses sedimentos conservam os pólenes das espécies que ali foram vivendo, assim revelando que nem sempre a paisagem da serra da Estrela se caracterizou pelos matos baixos e pastagens que hoje tanto apreciamos, antes se destacava pela presença de uma vegetação arbórea muito exuberante e que chegou a cobrir estes cumes hoje escalavrados. É por isso que seguir as “mariolas” (montes de pedras) e as marcas amarelas e vermelhas que assinalam o caminho entre o Covão da Ametade, esse grande anfiteatro dominado pelo perfil austero e grandioso do Cântaro Magro, e o vale da Candeeira é uma experiência que vai bem para além da enérgica caminhada: é toda uma introdução ao tipo de paisagens que, na serra da Estrela, a tornam diferente e única, as paisagens de vestígios glaciários.
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Turfeira é constituída de turfa, formada pela deposição e decomposição de filídeos de esfagnos. Geralmente é encontrada em solos mal drenados, geralmente impermeáveis, o que provoca o seu encharcamento e anóxia.
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“O viajante observador que conheça outras serras graníticas portuguesas”, escreveu Orlando Ribeiro, o nosso maior geógrafo, “não deixará de notar, nas plataformas dos cimos da Estrela, a ausência de caos de blocos (tão vulgares, por exemplo, na Gardunha) que tem à vista; as rochas brilham ao sol, como se estivessem polidas - e de facto estão; vistas de longe formam escadarias de enormes degraus (escadas de gigantes é a expressão técnica), por onde brilham fios de água prateada - ou arredondadas, lembrando o dorso das ovelhas (rochas arrebanhadas); na área mais elevada, os blocos do chão tomam formas quadrangulares perfeitas, e caminha-se por cima de um magnífico pavimento natural.” Este tipo de paisagem só é possível nas regiões que estiveram cobertas por uma espessa calota de gelos e neves eternas, pois foram esses gelos que formaram os glaciares que lentamente escorregaram pelos vales, polindo as rochas e originando formas de paisagem inconfundíveis. Na serra da Estrela, o quase impenetrável vale da Candeeira é apenas um pequeno exemplo deste tipo de ambientes naturais. E a sua grandeza só se torna real quando pensamos que ele é apenas um pequeno ramo do grande vale glaciar do Zêzere. Este, também conhecido por vale de Manteigas, surgenos como uma gigantesca caleira no fundo da qual corre um fio de água que, nesta fase infantil do Zêzere e se não tiver ocorrido uma enxurrada, ainda pouco mais é do que um regato. Na verdade, durante a última glaciação, a de Wurm, há cerca de 20 mil anos, existia aqui um glaciar, um rio de gelo que enchia o vale e que, por altura do Covão da Ametade, devia ter uma espessura de 3oo metros. Foi esse glaciar que modelou o vale do Zêzere, a montante de Manteigas, dando-lhe o seu característico perfil em U, um “exemplo tão perfeito que nem nos Alpes se encontra mais belo”, como escreveu Orlando Ribeiro.
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Fig.1 Covão de Ametade Um dos locais idílicos da Serra da Estrela
Durante esse período em que a temperatura no hemisfério norte era muito mais baixa do que a actual, do planalto da Torre brotavam sete glaciares. A deposição de camadas sucessivas de neve no topo da serra da Estrela, onde o degelo nunca ocorria, permitia uma enorme acumulação de gelo que, depois, deslizava, muito lentamente, para cotas mais baixas, modificando a paisagem à sua passagem. A geógrafa Suzanne Daveau, uma das primeiras especialistas a estudar a região, definiu mesmo a Estrela como possuindo formações “de tipo alpino encravada no coração de Portugal”. O planalto central era a zona de alimentação de neves, sendo que os glaciares se desenvolviam na sua margem.
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Tudo isto sucedeu na Estrela apesar de a origem da nossa serra mais alta ser totalmente diversa da de relevos como os Alpes, os Pirenéus ou mesmo a vizinha Sierra Nevada. Enquanto estas cadeias montanhosas são de origem bem recente, integrando-se no que os geólogos definem como “orogenia alpina”, o soco da Estrela é muito mais antigo. Esta zona terá sofrido, no fim da Era Terciária, um levantamento de conjunto de grandes blocos: só assim se compreende que não encontremos aqui os abruptos picos do Alpes e que a Torre, o ponto mais elevado, a 1991 metros de altitude, se situe nesse planalto que, durante a glaciação, estava sob uma camada de gelo de dezenas de metros de espessura. Segundo Orlando Ribeiro, após este “levantamento de conjunto (...), uma erosão pré-glaciar intensa atacou os altos da montanha, cortado por torrentes2”, tendo os glaciares ido depois instalar-se nas caleiras já abertas. “Ao contrário das águas torrenciais, que correm sempre para mais baixo e escavam barrancos onde só se desce ao seguir o caminho das enxurradas, os glaciares, dotados de movimento muito mais lento e de enorme peso, trabalham como uma goiva, abrindo, no planalto e no vale, bacias fechadas também a jusante. As águas represaram depois nestas bacias e assim se formaram as famosas Alagoas da serra. (…) O planalto era para estas correntes de gelo a zona de alimentação; no seu bordo nasciam os glaciares, numa es-
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Torrente é um curso de água com um caudal rápido e irregular, situado num terreno geralmente de forte inclinação.
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pécie de anfiteatro de fundo abaulado ou quase plano e altas paredes escarpadas; circos, diz-se em linguagem técnica, covões, chamam-lhe os pastores serranos.” Dois dos mais belos covões são precisamente o dos Cântaros, dominado pelas enormes moles desses fraguedos onde nasce o Zêzere, e o da Mulher, onde nasce a ribeira de Alforfa. “Logo abaixo dos circos começam os glaciares a mover-se, carregados de pedras no fundo, entre o gelo, no meio e, principalmente, nas margens, pedras que depois abandonam nos lugares onde funde o gelo. Os vales que eles percorrem existiam já, escavados por águas torrenciais anteriores; mas a pressão dos gelos ajudada do desgaste pelas pedras modificou-os, tornando-lhes as vertentes mais abruptas e dando ao vale o característico perfil em U.” Durante a glaciação, o limite da calota de gelo situava-se nos 1650 metros de altitude, mas os glaciares prolongavam-se até muito mais abaixo. O maior e mais belo de todos, precisamente o do Zêzere, com 13 quilómetros de extensão (trata-se do mais extenso vale glaciar da Europa), descia mesmo além de Manteigas, até à Várzea do Castro, a 6oo metros de altitude. Dos restantes, os mais imponentes eram os de Alforfa e da Estrela, que terminam junto a Unhais, a 700 metros de altitude, e o de Loriga. Um vale glaciar ainda se caracteriza por uma sucessão de bacias fechadas a jusante por um ressalto de rocha onde, desaparecidos os gelos eternos, os cursos de água abriram gargantas por onde agora se escoam. E as pedras arrastadas pelos gelos permanecem onde este os deixou - são as moreias, cuja observação permite reconstituir o percurso e extensão dos glaciares. No caso do Zêzere, os grandes blocos de granito que encontramos na zona das Caldas de Manteigas correspondem precisamente à moreia frontal destruída, tendo os seus constituintes sido espalhados vale abaixo
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pelo rio (um dos maiores blocos desse tipo, “blocos erráticos”, não se situa no vale do Zêzere mas na vizinha Nave de Santo António - é o Poio do Judeu, não por acaso um dos melhores pontos para observar a perfeição da obra talhada pelo desaparecido glaciar). Nenhuma outra serra portuguesa é suficientemente alta para ter estado coberta pelos gelos e para nela encontrarmos vestígios glaciários significativos – com excepção, provavelmente, de uma pequena zona da serra do Gerês onde foi identificado um incipiente circo glaciário -, pelo que a Estrela é única. Assim como é único este vale “regular como a querena3 de um navio gigantesco”, este jovem Zêzere de cristalinas e gélidas águas, um paraíso para as trutas e para descanso dos nossos olhos.
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Querena é a Parte do casco do navio que fica submersa.
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Fig.2 Vale glaciar do Zêzere Maravilha da natureza, que mostra os vestígios da glaciação há milhares de anos, integrado no concelho de Manteigas, em pleno Parque Natural da Serra da Estrela, atingindo os 13km’s de extensão.
Alta, imensa, enigmática, a sua presença física é logo uma obsessão. “Mas junta-se à perturbante realidade uma certeza mais viva: a de todas as verdades locais emanarem dela. Há rios na Beira? Descem da Estrela. Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela. Há roupa na Beira? Tece-se na Estrela. Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela. Tudo se cria nela, tudo mergulha as raízes no seu largo e eterno seio. Ela comanda, bafeja, castiga e redime”, escreveu Miguel Torga. O Zêzere, mais do que o Mondego, até por atravessar o coração da Estrela, é o grande rio serrano. Ainda antes de chegar a Manteigas, no fundo grande vale, foi deixando alguns magros depósitos onde hoje ainda se cultiva a batata e se semeia o centeio. Logo em Manteigas fez, num passado não muito longínquo, girar as rodas dos moinhos que eram a principal fonte de energia para a secular indústria dos lanifícios. Quando por fim termina a sua viagem para norte e, já perto de Belmonte, desenha a grande curva que o levará em direção à Covilhã e ao Fundão, já ganhou ares de grande senhor, correndo pacato por entre campos de cultivo que se tornarão cada vez mais amplos e férteis. Com Torga diríamos pois que o Zêzere “comanda, bafeja, castiga e redime” as regiões que, nesta primeira fase da sua viagem, vai atravessando. E continuará a fazê-lo até ao fim, até as suas águas se fundirem nas do Tejo. Por alturas de Valhelhas, onde perde as suas características de montanha e ganha a companhia de fieiras de amieiros e salgueiros, o Zêzere torna-se companheiro de quem, nas suas margens, cuida a terra e dela extrai toda a riqueza. Os terrenos já são
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mais fundos e mais ricos, como que anunciando a proximidade da Cova da Beira. O vale é mais largo, as linhas mais doces, o ambiente mais ameno. Mas é ao entrar nas terras ricas e de horizontes desafogados de Belmonte que o Zêzere avista um dos mais curiosos e estranhos monumentos de todos os deixados entre nós pelos romanos: a torre de Centum-Cellas. Em 1980, quando a visitou, José Saramago considerou-a “o mais enigmático edifício destas paragens portuguesas” e não encontrou por perto quem lhe dissesse para que servia a torre de granito, com dois pisos e grandes aberturas. “Para estalagem não se lhe vê motivo, para vigia bastaria coisa mais simples, prisão só por avançadas pedagogias, tão desafogadas são estas portas e janelas, e templo, talvez, mas o vício está em facilmente darmos o nome de templo a quanto nos aparece”, escreveu então “o viajante” que haveria de se tornar Prémio Nobel. Alvitrou na altura que a solução estaria nos terrenos em redor, “porque não é crível que este edifício aqui tenha surgido isoladamente, por espécie de capricho”. Tinha razão. Escavações levadas a cabo entre 1993 e 1998 permitiram encontrar os vestígios de uma ocupação mais complexa, da qual a torre deveria constituir a parte central, e hoje melhor preservada. Terá sido a villa de Lucius Caecilius, um abastado cidadão romano, negociante de estanho. Este terá por certo entregado, em meados do século I d.C., a um arquitecto competente a construção da sua residência de que foram encontrados mais vestígios, nomeadamente de salas, corredores, escadarias, caves e pátios. O estudo do monumento permitiu também apurar que, no século III, a torre foi parcialmente destruída por um incêndio. Mais tarde, na Alta Idade Média, foi construída sobre as ruínas da própria villa uma capela dedicada a São Cornélio, capela que
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infelizmente teve o mesmo destino das antigas habitações e desapareceu no século XVIII. A localização da Torre de Centum-Cellas, a apenas algumas centenas de metros da ampla curva que o Zêzere desenha ao entrar nas terras úberes da Cova da Beira - e não sabemos se, na época da construção, o rio não correria ainda mais perto, torna inevitável a sugestão: terá Lucius Caecilius, o comerciante de estanho, querido vigiar o rio que brotava do coração dos montes Hermínios? Quereria aquele cidadão de Roma ter sempre debaixo de olho uma das principais portas de entrada para as terras altas e agrestes do maciço central onde, de acordo com a lenda, se teriam refugiado os lusitanos comandados por Viriato? Talvez não, talvez só tenha querido beneficiar da fertilidade destas terras. Mas mesmo assim fica o mistério e a interrogação. Fig.3 Serra da Estrela Alguns geólogos, definem mesmo a Estrela como possuíndo formações “de tipo alpino encravada no coração de Portugal”.
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Quem vê o Zêzere pachorrento e tranquilo que atravessa a Cova da Beira, como que dormindo por entre pomares de cerejeiras, dificilmente o reconhece quando, esgueirando-se por entre a Estrela e a Gardunha, mergulha nessa espécie de “buraco negro” do nosso desenvolvimento que é o Pinhal Interior. Literalmente - mergulha, já que, depois de passar a povoação de Barco, nos limites do concelho da Covilhã, o vale estreita, os campos marginais desaparecem, as águas aceleram e o manso Zêzere torna-se quase selvagem. Tudo em redor se transfigura também, surgindo-nos em tons mais sombrios e agrestes, ao mesmo tempo que é mais escassa e rala a presença humana. Tomemos, por exemplo, Dornelas do Zêzere. Situada na margem direita do rio, é a nossa porta de entrada para o concelho de Pampilhosa da Serra, um dos mais pobres do País, também um daqueles onde a desertificação e a falta de fé no futuro têm criado condições para elevados índices de abandono e de insucesso escolar. Dornelas, apesar de hoje nos surgir de cara lavada, não escapou a este destino. Basta dizer que, em 1757, se contavam na paróquia 609 almas, não muito menos das que aí foram recenseadas em 2001, altura em que na freguesia não haveria mais de 677 habitantes, sensivelmente metade dos que lá moravam em 1960 (eram então 1304). Na povoação quase só encontramos idosos, e nem é sequer preciso passar pelos equipamentos sociais mais relevantes - um Centro de Dia e um Lar da Terceira Idade - para perceber que, desta terra, parte-se novo para, quando muito, regressar já depois da reforma. Ou então nunca se chegou a partir, mas isso foi há muitos anos.
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Olhamos em redor e não custa compreender o porquê desta desolação. Os pinhais (sobretudo) e os eucaliptais cobrem as encostas até a vista se perder e raros são os campos onde ainda se nota a mão atenta e esforçada de um agricultor. Nem a aflição dos fogos, tormento de todos os verões, se mostrou capaz de inverter a lógica da rarefação e do abandono. Longe de tudo e de todos, Dornelas do Zêzere até tem um pequeno museu etnográfico que fixa tempos onde, mesmo que pobres em bens materiais, por aqui existia uma vida hoje perdida. Aqui, em Dornelas, tal como em todo o concelho de Pampilhosa da Serra, ou como em quase todos nos concelhos em redor, à florestação dos montes seguiu-se a partida das gentes. A região foi empobrecendo, pelos menos em termos relativos: no Pinhal Interior Sul o rendimento per capita não é senão 59 por cento do rendimento médio nacional, o pior resultado em todo o País, mas no Pinhal Interior Norte vai pouco além, quedando-se nos 62 por cento, a terceira pior média a nível nacional. A construção de duas grandes barragens, e de uma terceira mais pequena, neste troço do Zêzere tirou partido das condições naturais - gargantas profundas, margens quase desocupadas, um forte caudal -, mas não inverteu o ciclo de decadência. Castelo do Bode foi erguida entre 1946 e 1951 e foi inaugurada pelo próprio Salazar, tendo a sua central hidroelétrica permitido o encerramento da Central Tejo, em Lisboa. Com 115 metros de altura, esta barragem é a segunda mais alta do País, a seguir à barragem do Cabril, também ela situada no Zêzere, mas mais a montante, e que tem 132 metros de altura. Inaugurada em 1954, começou a funcionar um ano antes da barragem da Bouçã, que tem apenas 63 metros de altura e se situa entre as duas albufeiras de maiores dimensões.
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Estas obras, quando foram erguidas, destinavam-se antes do mais a assegurar a produção de electricidade, pelo que depois do rebuliço causado pelos estaleiros durante o período da construção, uma vez em funcionamento pouco ou nenhum rendimento deixavam nos concelhos onde se inseriam. E se hoje alguns aproveitamentos turísticos, sobretudo em redor da barragem de Castelo do Bode, ainda alimentam alguma economia local, se folhearmos os jornais da época da construção verificamos que o que mais entusiasmou a opinião pública foi o transporte, num camião gigante com oito rodados e 20 metros de comprimento, de uma roda destinada ao gerador e que pesava 70 toneladas. A viagem entre Lisboa e o local da barragem levou um mês e, ao longo das estradas ribatejanas, não faltou quem se juntasse para ver passar o monstro. Mas, para além da diversão, pouco ficou. Um estudo recente reflectindo sobre o impacto da barragem de Castelo do Bode indica que, entre 1940 (antes de ser construída) e 2oo1 (data do último censo), todos os concelhos ribeirinhos perderam população, tendo mesmo um deles, Vila de Rei, visto desaparecer dois em cada três habitantes. A população envelheceu imenso, a taxa de actividade caiu para quase metade e a taxa de desemprego passou a situar-se acima da média nacional. Ou seja, como se escrevia e bem esse estudo, “não são observáveis quaisquer benefícios locais decorrentes, por exemplo, da maior disponibilidade de água para irrigação, ou da maior electrificação proporcionada pela proximidade de produção de energia elétrica, que teria beneficiado o sector primário e secundário”. Também não se explorou qualquer “factor de desenvolvimento endógeno, nem mesmo o potencial aproveitamento de condições físicas ou económicas geradas pela proximidade” da massa de água da Albufeira.
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Localizadas no coração de uma zona deprimida, estas espantosas obras de engenharia - ainda hoje impressiona passear pelo coroamento das barragens de Castelo do Bode e de Cabril ou visitar as salas onde estão os geradores de eletricidade - criaram albufeiras que, para além da sua valia hidroelétrica e de abastecimento de água às populações (fica em Castelo do Bode a nossa maior captação de água para consumo humano, que abastece os mais de 2 milhões de habitantes da área da Grande Lisboa), possuem planos de água invejáveis e que propiciam a prática dos mais variados desportos. Porém, mesmo quando nos sentamos junto ao rio numa das muitas praias fiuviais que foram surgindo nas margens das albufeiras, mesmo quando vamos até Dornes (concelho de Ferreira do Zêzere) e nos maravilhamos com o efeito de quase-península criado pelas águas represadas, e que sublinha a elegância da torre templária pentagonal aí erguida sobre um penhasco, mesmo quando gozamos o silêncio de um fim de tarde estival, é impossível não sentir uma certa nostalgia. Por mais grandiosos que sejam os cenários proporcionados por estes lagos artificiais é impossível esquecer que, antes, no fundo destes vales cortados de forma vigorosa corria um rio de águas selvagens e irrequietas. E que, lá no fundo, se experimentava uma outra sensação de grandeza e autenticidade. Não acreditam? Então experimentem ir até Pedrógão Pequeno, mesmo junto à barragem do Cabril, e descer até à velha ponte filipina (construída entre 1607 e 1610) que antes ligava esta povoação a Pedrógão Grande. A descida é vertiginosa (e a subida pode ser penosa), mas o resultado compensa. No fundo do vale a velha ponte, hoje fora de uso, é um minúsculo apontamento ao lado da imponência da barragem, cujo paredão se avista ao fundo, e dos pilares do viaduto do novo IC8, um apontamento que conserva uma
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escala humana que nos devolve à nossa dimensão, pequenina, ali junto ao Zêzere que parece querer fugir da albufeira que o aprisionou. Durante séculos foi por aqui que gente menos apressada passava quando ia de Coimbra a Castelo Branco, e quando por lá nos quedamos não deixamos de apreciar o seu vagar. Hoje os tempos são muito mais apressados.
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Fig.4 Castelo do Bode É a principal reserva de água para consumo humano do país.
Finalmente a foz. E, aí, o dia certo para ir é na segunda-feira a seguir à Páscoa. Em Constância, vila debruçada sobre a confluência do Zêzere e do Tejo, esse é sempre o dia da Festa em Honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, o mesmo é dizer da Festa dos Barqueiros. É certo que por ali já são poucos os barqueiros - apesar de, recentemente, o encerramento para obras da vizinha ponte rodoviária sobre o Tejo ter obrigado o barqueiro municipal a transportar diariamente, entre as duas margens, centenas de pessoas -, mas em dia de festa acorrem barcos de todo o lado. Uns sobem o Tejo, outros descem o Zêzere, alguns vêm mesmo do Nabão, todos chegam cuidadosamente engalanados e preparados para, junto a Constância, receberem a tradicional bênção. A procissão, com o padre à frente, dirige-se exatamente para este local onde as águas dos dois rios se misturam, pois é sempre aqui que, sem falhar um ano, se juntam os homens do rio que, os chapéus nas mãos, os olhos pregados no chão, recebem respeitosamente a bênção do pároco. Sem ela não se imaginam a enfrentar de novo as águas nem sempre previsíveis dos dois rios. A cerimónia, contaram-nos, já não tem a importância e a dimensão de outros tempos, apesar de ter vindo a crescer em importância nos anos mais recentes. Outrora, porém, eram dezenas ou mesmo centenas os barcos que confluíam para o pequeno embarcadouro de Constância, naquilo que devia ser uma das grandes festas dos homens deste médio Tejo. Agora são menos os que lá vão, porque são menos os que ainda não deixaram apodrecer nas margens do rio as barcas de transporte ou as bateiras de pesca.
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É certo que nem todos desistiram. Sérgio Silva, o barqueiro que andou num vaivém durante as obras que interditaram a ponte, é um deles. E vive por aqui não apenas como barqueiro, pois é também calafate4 e pescador e aprecia ver alguns dos barcos que cons-
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Calafate, é um operário especializado da construção naval, cabendolhe vedar com estopa de algodão alcatroada os espaços entre as tábuas com que são feitos os barcos, de forma a impedir que a água se infiltre.
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Fig.5 Festa dos Barqueiros Também conhecida como Festa em Honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, celebrada na segunda-feira a seguir à Páscoa, em Constância, vila debruçada sobre a confluência do Zêzere e do Tejo.
trói nesta festa anual. Só que como ele há poucos. A maioria dos que ainda andam pelas águas do Zêzere e do Tejo são agricultores ou velhos pescadores em busca de um complemento para as suas reformas. São estes homens - mais os que se lhes juntam vindos de longe - que mantêm o hábito de fazer benzer os seus barcos. Trazem os seus melhores fatos e celebram a Senhora da Boa Viagem, um culto por certo associado ao passado histórico de Constância, uma vila que já foi um importante porto fiuvial - referenciado pelo menos desde o tempo de D.Pedro I - e entreposto para muitas mercadorias que circulavam entre o Norte e o Sul do País. Com o tempo e os novos meios de transporte, este tipo de portos foi desaparecendo, assim como as barcas de passagem e as pequenas barcas de transporte de que existe, aliás, um modelo curioso e rústico, típico do Zêzere, entre a foz do Nabão e Constância: o abrangel, ou catrafuço de três tábuas, embarcação de pouco mais de sete metros, com a popa cortada a direito e movida à vara ou a remos. Constância, local onde André de Resende, em 1573, notou que “o Zêzere lança-se com tal ímpeto no Tejo, que rasga as águas taganas até à outra margem e, como que indignado por ser consumido por um rio maior, resiste obstinadamente à fusão das águas no leito inclinado, pelo espaço de quase mil passos, tal como se reconhece pela cor”, é também terra de poetas. De Camões, de acordo com a lenda, mas também de Alexandre O’Neill a quem devemos O barqueiro de Constância: “...e com a fome ninguém se meta!/disse o barqueiro aproando ao peixe/que, sobre brasas, virado, revirado,/da margem o tocava para almoçar”. Boa sugestão: peixe, sobre brasas...
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Fig.6 Peixe na brasa Vindo de uma terra de pescadores, porque não aceitar a sugestão?
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história vale glaciar
ocupação humana electrificação nacional
Mais do que os documentos e memórias, é a terra que nos conta a história do Zêzere. Na zona norte da bacia, na serra da Estrela, o degelo de um antigo bloco glaciar, cuja superfície se estima que cobrisse 70 quilómetros quadrados e tivesse 8o metros de espessura, esculpiu o vale qlaciar do Zêzere, criando o vale em forma de U que hoje conhecemos e que abre caminho ao rio. Nas suas margens, construções megalíticas e gravuras rupestres com cerca de 16 mil anos atestam o início da ocupação humana da bacia. Foram vários os povos que por aqui passaram e se fixaram durante as invasões da Península Ibérica, mas foram os romanos que mais marcaram a paisagem e a cultura da região. Vários templos, aquedutos, estradas e pontes romanas situados ao longo da bacia do Zêzere, comprovam essa presença e evidenciam que por aqui passava uma via de comunicação da antiga Hispânia. Ao longo das principais linhas de água encontram-se ainda várias fortalezas, como a Torre de Dornes ou o Castelo de Tomar, mandadas edificar aos cavaleiros templarios por D. Afonso Henriques, para travar os ataques dos exércitos árabes durante a reconquista cristã. Os Templários foram uma fonte importante de dinamização da região até à sua extinção, vindo a surgir depois como Ordem de Cristo, principal suporte financeiro aos Descobrimentos. Com a sede no Castelo de Tomar, a Ordem de Cristo foi ainda responsável pela construção de inúmeros templos e monumentos na região, como o convento de Cristo em Tomar, onde toda a iconografia das viagens marítimas portuguesas esta gravada nas paredes, sob o brasão e a cruz da Ordem de Cristo. Mas seria no século XX que se desen-
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cadearia a maior transformação da bacia do Zêzere. Em 26 de Dezembro de 1944 foi publicada Lei 2002, conhecida como a Lei da Electrificação Nacional, e em 1946 deu-se início à construção da barragem de Castelo do Bode. Com a conclusão de três barragens ao longo do Zêzere, começou a formação das albufeiras, transformando para sempre a paisagem da bacia. Só a albufeira de Castelo do Bode elevou o nível das águas para uma impressionante cota de 122. metros, criando um espelho de água que se estendeu por 60 quilómetros, submergindo vales e povoações inteiras. Muito do património histórico dessa região foi perdido para sempre. As gravuras rupestres nas margens do Zêzere, a antiga Fábrica de Ferro na Foz de Alge ou asvárias conheiras (explorações aluvionares de ouro cujas areias eram lavadas e lançadas diretamente para o rio) jazem agora no fundo da albufeira, reaparecendo os seus vestígios com a descida do nível da água nos Verões mais intensos.
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Fig.7 Janela do Capítulo (Convento de Cristo, em Tomar) Os templários foram essenciais na reconquista de territórios aos árabes e determinantes na dinamização da região.
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Geografia serra da estrela const창ncia Nab찾o tejo
É no alto da Serra da Estrela que nasce o Zêzere, o segundo maior rio exclusivamente português, logo a seguir ao Mondego. Localizada a mais de 1900 metros de altitude está a sua nascente que brota perto de um afloramento granítico com o nome de Cântaro Magro e por onde se iniciam os 242 quilómetros do curso até a sua foz, em Constância. O vale glaciar do Zêzere, no Parque Natural da serra da Estrela, a mais alta cordilheira do continente marca os primeiros quilómetros do rio. São perto de 13 quilómetros percorridos por uma paisagem modelada pelos mantos de gelo que há 20 mil anos cobriam a serra, até Manteigas. Daí, quase em linha recta, corre bravio pelas margens rochosas escavadas em terrenos dos concelhos da Covilhã e de Ferreira do Zêzere até acalmar na fronteira das albufeiras geradas pelas barragens. Aqui espraia-se em enormes espelhos de água, antes de chegar a Constância, onde conflui com o Nabão e atinge o Tejo, de que é um dos principais afluentes. O relevo da região e a própria geologia do solo, composta por xistos, calcários e granitos, propiciam um escoamento das águas muito rápido, daí que a construção de barragens ao longo do Zêzere assuma um papel crucial. Por causa do controlo de cheias ou por causa da necessidade de reservas de água para rega e abastecimento doméstico, as albufeiras do Zêzere foram construídas. A albufeira da Barragem de Castelo do Bode, a maior reserva nacional de água destinada ao consumo humano, ocupa uma superfície de 3300 hectares ao longo de 60 quilómetros. Mas as albufeiras provocaram também grandes alterações na paisagem e modificaram
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a ocupação do solo em seu redor - hoje a zona é ocupada por uma extensa zona florestal na qual predomina o pinheiro bravo e que, amiúde, é consumida por fogos estivais. Nos seus 5076 quilómetros quadrados, a bacia do rio recebe o contributo dos Alge, Bezelga, Isna e Nabão e das ribeiras da Meimoa, Pampilhos e Sertã – são estes o principais afluentes do Zêzere. Todos juntos, contribuem para um caudal médio anual de 42 metros cúbicos por segundo, o que faz com que o Zêzere seja, por sua vez, o mais expressivo afluente do Tejo. Na região vivem cerca de 680 mil habitantes, sendo a Guarda, a Covilhã, Tomar e Abrantes as localidades com mais residentes. A maior parte dos concelhos da bacia tem menos de 10 mil habitantes e é nestas zonas que se regista um maior índice de envelhecimento. As principais causas do envelhecimento são a baixa fecundidade, o êxodo rural ou a emigração além do aumento da esperança de vida.
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Zêzere
Fig.8 Serra da Estrela É dos afloramentos graníticos da mais alta montanha de Portugal continental que brota o Zêzere.
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Natureza Parques naturais habitats espĂŠcies animais
A bacia hidrográfica do Zêzere abrange dois parques naturais - o da serra da Estrela e o das serras de Aires e Candeeiros. No Parque Natural da Serra da Estrela subsistem refúgios de vida selvagem e formações vegetais de importância nacional. Os azereiros, os carvalhos negros e os zimbros compõem uma flora de refúgio para inúmeras espécies animais, como as águias-de-asa-redonda, as raposas, toupeiras-de-água e a lontra (Lutra lutra). Esta última, aliás, tem servido de ícone de vários espaços turísticos ao longo do curso do rio e das suas albufeiras. O Parque Natural das serras de Aires e Candeeiros é o mais importante repositório de formações calcárias, em Portugal. Ao longo dos tempos formaram-se centenas de grutas, responsáveis por uma labiríntica rede de cursos de água subterrâneos, habitat de várias espécies cavernícolas de insectos e de morcegos. Além das espécies que habitam nas grutas, no parque foram inventariadas outras 204 espécies, como o gato bravo, a cobrade-pernas-tridáctila e tritões. Entre as aves predominam os bufos-reais ou as gralhas-de-bico-vermelho, duas das 136 espécies registadas, das quais cem nidificam no parque. A floresta, parte significativa destruída pelo homem, mantém ainda matos de interesse florístico, áreas de carvalho-cerquinho e de carvalhal negro. Ao todo, mais de 600 espécies vegetais foram recenseadas no parque, um quinto das registadas em Portugal. As florestas e terrenos seminaturais ocupam 72% da bacia e constituem habitats vitais para várias espécies aqui existentes. Na
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zona regista-se uma precipitação anual média de 1089 milímetros e uma temperatura média anual de 14,8 graus centígrados. No rio, espécies como o sável, a solha e os robalos costumavam migrar para a desova, dando lugar a alevins (pequenos peixes) que mais tarde regressavam ao mar. No entanto, desde a construção das barragens, várias espécies estão ameaçadas. O esturjão, avistado no Zêzere até aos anos 40 do século passado, está agora extinto e várias espécies estão classificadas como “criticamente em perigo” - como a boga-portuguesa, a truta-fário e a lampreia.
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Fig.9 Bufo-Real Nos dois parques naturais percorridos pelo ZĂŞzere e os seus afluentes abundam espĂŠcies raras.
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Turismo Parques naturais
museus monumentos hist贸ricos
O turismo é um dos sectores estratégicos em toda a bacia hidrográfica do Zêzere, e, como tal, a oferta de destinos turísticos propagou-se. Desde a nascente e com o vale glaciar como paisagem, a serra da Estrela assume o papel de maior polo turístico da bacia do Zêzere. Com uma forte implantação de hotéis e pousadas, que acolhem todos os anos milhares de turistas, os principais destinos são a estância de ski e snowboard, única do País, o Parque Natural da Serra da Estrela e os percursos pedestres. Na Covilhã, famosa pela indústria da lã, pode visitar-se o Museu de Lanifícios da Universidade da Beira interior, considerado pela UNESCO como o melhor museu têxtil da Europa. As aldeias de xisto de Barroca e de Janeiro de Cima são outros importantes pontos turísticos da região. Na primeira, as gravuras rupestres inscritas nas margens do Zêzere são o principal atractivo; na segunda, na Casa das Tecedeiras, pode ainda assistir-se ao labor das artesãs, que trabalham o linho em teares manuais, criando peças únicas e inimitáveis. A partir da Pampilhosa da Serra entra-se na zona dos espelhos de água. As albufeiras criadas pelas várias centrais de aproveitamento hidroeléctrico criaram espaços de recreio e lazer ao longo de toda a bacia. A Praia das Rocas, em Castanheira de Pêra, que aproveita as águas da Ribeira de Pêra para alimentar a maior piscina de ondas do País, é uma das muitas praias fluviais da região. Em Castelo do Bode, a maior reserva de água destinada ao consumo humano do País, a albufeira deu lugar à implementação de novos agentes de turismo que dinamizam a região com actividades
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náuticas de recreio. Tomar assume-se como a sede do turismo histórico e patrimonial na bacia do Zêzere. O Convento de Cristo ou as igrejas de S. João Baptista e de Santa Iria são testemunhos da importância dos Templários e da expressão máxima da arquitetura manuelina.
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Fig.10 Ski O turismo de montanha ĂŠ uma das actividades em crescendo na Serra da Estrela, onde nasce o ZĂŞzere.
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actividades humanas Fábricas de celulose
indústrias metalúrgicas centrais hidroeléctricas indústria de lanifícios Turismo Restauração Hotelaria agricultura
Apesar da componente rural que caracteriza a bacia do Zêzere, actividades de todos os sectores contribuem para a economia da região. A norte da bacia, apesar de haver menos densidade populacional do que a sul, a indústria assume uma maior expressividade. Além de fábricas de celulose, de algumas indústrias metalúrgicas e das centrais hidroelétricas, note-se a existência da maior mina de volfrâmio da Europa, na Panasqueira. A Covilhã, apesar do declínio dos têxteis, ainda é um importante centro de indústria de lanifícios. Os serviços, como acontece no resto do Pais, são o principal sector de actividade. Neste caso, o turismo tem aos poucos dado sinais de crescimento, apesar de ainda não ter atingido a relevância económica que conseguiu noutras áreas do País. A restauração e hotelaria situam-se sobretudo ao longo do curso do rio e dos seus afluentes, tirando proveito da riqueza cénica da montanha. Recentemente, uma rede de praias fluviais tem tentado dinamizar o turismo, tirando partido das albufeiras das barragens e da paisagem envolvente. A agricultura, predominante na zona mais a norte da bacia, ocupa 26% da área do Zêzere. Os terrenos são especialmente dotados para o desenvolvimento de uma “agricultura biológica”, existindo já explorações com êxito assinalável. A produção de cereais e de batata predomina entre as culturas temporárias, enquanto os olivais, as vinhas, os pomares (de cerejas e de pêssegos, na zona do Fundão) e os frutos secos predominam entre as permanentes.
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barragem de castelo dotejo-mondego bode Centro de produção 60km de albufeira Lei da electrificação nacional
Os aproveitamentos hidroeléctricos da EDP - Gestão da Produção de Energia, S.A., integrada no Grupo EDP distribuem-se por três grandes Centros de Produção: Cávado-Lima, Douro e TejoMondego. As respectivas sedes situam-se em Caniçada, Régua e Castelo do Bode. As centrais, quase na sua totalidade (99,89% da potência instalada), são operadas a partir do Centro de Telecomando de Centrais Hidroeléctricas, localizado em Bagaúste (Régua). Castelo do Bode é um dos quinze grandes aproveitamentos que integram o Centro de Produção Tejo-Mondego. Fig.11 Castelo de Bode A água de Castelo do Bode abastece os consumidores da capital.
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Fig.12 Difusor da barragem de Castelo do Bode Pelas turbinas, passam 240 metros cúbicos de água por segundo, o que permite uma produção média anual de 396,5 Gigawatts por hora.
O Centro de Produção Tejo-Mondego inclui pequenos e grandes aproveitamentos. Destes, sete situam-se na bacia hidrográfica do rio Mondego, sete na bacia hidrográfica do rio Tejo e um na bacia hidrográfica do rio Guadiana. As respectivas centrais hidroeléctricas representam uma potência nominal de 1318 MW (Mondego - 470 MW; Tejo - 589 MW; Guadiana - 259 MW), distribuída por 40 grupos geradores (Mondego - 15; Tejo - 23; Guadiana - 2), e uma
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produtibilidade média anual de 2292 milhões de kWh (Mondego 513 milhões de kWh; Tejo – 1510 milhões de kWh; Guadiana - 269 milhões de kWh). Os volumes úteis de água contida nas albufeiras totalizam 5097 milhões de m3, sendo 247 milhões de m3 na bacia do Mondego, 1700 milhões de m3 na bacia do Tejo, 3150 milhões de m3 na bacia do Guadiana, correspondendo-lhes um armazenamento energético de 71, 543 e 442 milhões de kWh, respectivamente. O Zêzere inserido na bacia hidrográfica do rio Tejo é o segundo maior rio inteiramente português. Nasce na serra da Estrela na região central do território continental a cerca de 1900 m de altitude numa afloração granítica designada Cântaro-Magro. Citando Ferreira de Castro “...dir-se-ia que a Natureza quisera defender e impregnar de mistério a nascente do Zêzere - fechando-a como numa fortaleza. E, contudo, parecia que o rio fora apenas um pretexto. Era uma pobre, trémula fita de água, ora muito estreita, ora mais larguita às vezes quase invisível, que se lançava lá do alto por um sulco ou diáclase da rocha negra, aberta para lhe dar melhor caminho.” O Zêzere tem uma extensão de 242 km, desde a nascente até à foz no Tejo, junto a Constância, depois de confluir com o rio Nabão o seu mais importante tributário da margem direita. Correndo entre vales profundos e margens escarpadas, ora se acalma em amplos lagos, ora se precipita impetuosamente pelo cair das chuvas. Esta instabilidade mantêm-se ainda durante o inverno, apesar do esforço regularizador de diversas barragens construídas para o efeito. De entre estas, destaca-se a de Castelo do Bode, com uma albufeira que se estende ao longo de 60 km. A sua zona de influência abarca os concelhos de Tomar, Abrantes, Sardoal, Ferreira do Zêzere, Vila de Rei, Sertã e Figueiró dos Vinhos.
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Fig.13 Geradores da Barragem de Castelo do Bode Inicialmente entrou ao serviço apenas com um grupo gerador, pelo que posteriormente lhe foram adicionados mais dois, o último dos quais, instalado em Março de 1952.
A albufeira de Castelo do Bode, com uma superfície de 3300 ha, é a maior reserva nacional de água destinada ao consumo humano, abastecendo, actualmente, mais de dois milhões de habitantes da área urbana de Lisboa e concelhos limítrofes. Assume ainda uma importância estratégica como estival reserva de energia. O extenso espelho de água confere a esta zona um singular cenário de beleza paisagística, com um interessante potencial turístico (pesca, desportos náuticos e outras actividades), que
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representa um significativo contributo para o desenvolvimento sócio-económico da região que a envolve. O aproveitamento hidroeléctrico de Castelo do Bode, sinónimo emblemático de barragem e mesmo de hidroelectricidade, simboliza toda uma época, que na história ficará associada ao arranque da electrificação do país, tendo por base a Lei 2002, de 26 de Dezembro de 1944, conhecida como “Lei da Electrificação Nacional”. Por finais do século XIX, Portugal vira o seu nome inscrito entre os países pioneiros na utilização da hidroelectricidade. Basta recordar alguns exemplos. É o caso da instalação da primeira rede de iluminação eléctrica não pública, feita na Real Fabrica de Fiação de Tomar (1884), após o incêndio causado pelo gás de iluminação. Ficou conhecida como o primeiro aproveitamento da energia hidroeléctrica através da construção de um açude no Nabão. É de referir ainda a primeira rede de iluminação eléctrica pública feita em Vila Real por um cidadão portuense. Em 26 de Junho de 1890, por escritura pública de compromisso e obrigação (posteriormente publicada no Diário do Governo - DG, de 7 de Junho de 1892) e autorizada a montagem de uma “fábrica” que introduzirá “machinismos” para a “…fabricação e distribuição de luz eléctrica a Vila Real”, sendo para tal autorizado a “...fazer açude e encanar a água do rio Cargo ou Cabril para alimentar turbinas e mais machinismos” (gralha do DG pois o rio já se chamava Corgo). Porém o início do século XX não vê concretizar-se, na mesma proporção, a implementação do aproveitamento de quedas e de cursos de água, quando comparada com a “explosão” de concessões outorgadas. Mesmo assim vieram a registar-se casos dignos de memória como o aproveitamento do Côa (para fornecimento de energia a Pinhel); do Varosa (para fornecimento de energia a
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Peso da Régua e Lamego); do Alva (para fornecimento de energia a Seia e Covilhã); do Coura (para fornecimento de energia a Caminha e Viana do Castelo) e do Lima, com a célebre central do Lindoso, a maior hidroeléctrica até então construída (para fornecimento de energia a Porto, Braga e Vila Nova de Gaia). À euforia das licenças para estudos hidrológicos, levantamentos topográficos e concessões, nos principais rios portugueses, sucede-se uma onda de declarações de caducidade, fundamentadas no incumprimento dos prazos estabelecidos para o início das obras. Delas sobressaem as emanadas para os rios Cávado e Rabagão (concessionados à Companhia das Quedas de Água do Norte de Portugal) e para o rio Zêzere. Esta última ao ser publicada por decreto de 19 de Maio de 1937, retira a Companhia Nacional de Viação e Electricidade da corrida a estes projectos depois de um longo e complexo processo. Alguns anos mais tarde, esses estudos vão ser determinantes das opções que marcaram os primeiros grandes aproveitamentos hidroeléctricos. O Estado, depois de anunciar as principais directrizes para a electrificação do país com a Lei 2002, reconhece publicamente que a mesma só poderia ser implementada depois da guerra, recorrendo à “…importação de máquinas, utensílios e materiais”. Surge de imediato a outorga de duas concessões hidroeléctricas. Por opção política, a tendência vai para um apoio vindo da Inglaterra. Este país disponibilizou-se claramente para este ”apoio”, em face do seu crescente endividamento para com Portugal, abandonando assim a sua preferência inicial, mais orientada para países de leste. Em resultado dessa opção, veio a Portugal uma missão de técnicos ingleses, particularmente interessados em Castelo do Bode. Por sinal, foram os mesmos que depois se encarregaram de Venda Nova. Tratavase dos representantes das empresas English Electric Export and
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Trading Co., Ltd., Halcrow & Partners, Metropolitan-Vickers Electrical Export Co., Ltd., Callenders Cable & Construction Co., Ltd e British Insulated Cables, Ltd.. Esta equipa, saída de Inglaterra em finais de Fevereiro de 1945, percorre todo o país, fazendo um exaustivo levantamento técnico e geográfico, e apresenta um relatório minucioso (Portugal Hydro-Electric Development-Report of Engineering Mission to Portugal - 1945).
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Fig.14 Túnel da Barragem de Castelo do Bode Um dos variados túneis que podemos encontrar pela barragem.
São então constituídas duas sociedades com protagonismo relevante. Em ambas se verifica por um lado a participação maioritária do estado. Por outro, a contribuição da banca e ainda um significativo espaço para o sector privado. Uma delas será a Hidro-Eléctrica do Zêzere, S.A.R.L. (HEZ), com escritura pública datada de 30 de Outubro de 1945 (publicada na 3ª série do Diário do Governo, de 2 de Novembro de 1945). Após alguns estudos, é dada prioridade absoluta ao aproveitamento de Castelo do Bode. A outra será a Hidro-Eléctrica do Cavado, S.A.R.L. (HICAI), também com prioridade imediata para o aproveitamento de Venda Nova. Fig.15 A Construção A Barragem foi iniciada em 1948 mas só em 1951 ficou concluída. Foi a primeira e mais emblemática barragem hidroeléctrica construída em Portugal.
As obras de Castelo do Bode arrancam em Março de 1946. As escavações iniciam-se em Março de 1947 e, em Setembro, o leito do rio está a seco. Em Julho de 1948, dá-se início à colocação de betão nas obras definitivas. Em Outubro de 1949, principia-se a montagem do equipamento hidromecânico e eléctrico na central. Em Abril de 1950, começa o enchimento da albufeira e, em Janeiro de 1951, entra em
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serviço o primeiro grupo gerador. Seguiu-se a entrada em serviço de mais dois grupos, o último dos quais em Março de 1952.
O transporte do rotor de setenta toneladas, de Alcântara para Castelo do Bode, num camião gigante, constituiu um acontecimento invulgar, amplamente divulgado pela imprensa da época. Na Exposição de Obras Públicas e dos Congressos Nacionais de Engenharia e Arquitectura, realizada em 1948, à entrada do Pavilhão das Empresas Concessionárias dos Aproveitamentos Hidroeléctricos, podia ler-se a seguinte inscrição: “O gigantesco plano de electrificação do país, cujo apetrechamento principia a tornr-se visível, transformará o caudal dos nossos rios na grande força motriz do Portugal de amanhã” Maria Manuela Neves Alves
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Fig.16 Transporte do rotor Foi num camião gigante, de oito rodadas, que foi feito o transporte do rotor de setenta toneladas, de Alcântara para Castelo do Bode.
O aproveitamento hidroeléctrico de Castelo do Bode, do tipo albufeira, é constituído por: - Uma barragem em betão, do tipo arco e gravidade, com 115m de altura e um desenvolvimento de coroamento de 402m, que estabeleceu uma das mais frequentadas travessias sobre o rio Zêzere (a EN 358), ligando os concelhos de Abrantes e de Tomar, nas margens esquerda e direita, respectivamente; - Um descarregador de cheias constituído por dois canais localizados sobre o paramento de jusante da barragem, junto à margem esquerda, que terminam em salto de esqui, e uma descarga de fundo, com duas válvulas de regulação do tipo dispersora. A sua total capacidade de vazão, conjugada com o efeito regularizador da albufeira, permite dominar uma cheia, com probabilidade de ocorrência de uma vez em cada 1000 anos, cujo caudal de ponta foi calculado em 4750 m3/s; - Um circuito hidráulico independente para cada um dos grupos, com as respectivas tomadas de água e condutas forçadas. Com um diâmetro de 4m, o seu comprimento varia entre 39,5m e 48m e termina numa válvula de guarda de tipo esférico, accionada por dois servomotores a água; - Uma central do tipo pé de barragem, situada imediatamente a jusante, construída de acordo com a concepção de edifício industrial, característica dos anos cinquenta. Na sala de máquinas encontram-se os três grupos geradores, com turbinas de fabrico English Electric, do tipo Francis de eixo vertical, e seus alternadores exteriores com plinto. Pela sua raridade, sendo embora razoável para a época, uma vez que a rede eléctrica nacional dependia em absoluto da disponibilidade e autonomia destes centros produtores, é interessante referir a existência de dois grupos geradores auxiliares, com turbinas do tipo Francis de eixo horizontal, capazes
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de suportar a alimentação dos serviços auxiliares e consequentemente o funcionamento autónomo do aproveitamento; - Ainda no edifício da central, localizados numa galeria exterior, encontram-se os transformadores principais, os quais estabelecem, através de três linhas aéreas, a ligação à subestação do Zêzere (onde se encontram os disjuntores e restante aparelhagem), a partir da qual a energia produzida é entregue à rede nacional. Entre 1995 e 2004 fez-se a renovação da central de Castelo do Bode, substituindo-se equipamento hidromecânico e eléctrico, que tinha chegado ao seu fim de vida útil. Tratou-se de uma profunda intervenção, que reabilitou o aproveitamento hidroeléctrico, colocando-o ao nível dos actuais parâmetros de qualidade e segurança. Projectava-se assim para Castelo do Bode, com meio século de existência, outro “meio século de futuro”. Fig.17 Sala de comando A sala de comando mantém preservada a tecnologia dos anos cinquenta, tendo sido progressivamente transformada em núcleo museológico. O processo de modernização iniciou-se com a automatização da central em 1979, passando pelo seu telecomando, em 1988, ou mais recentemente, em 2001, pela sua integração no Centro de Telecomando de Centrais Hidroeléctricas da Direcção de Produção Hidráulica.
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Í ndice Remissivo
A Abrantes 36, 51, 58 agricultura 47 Covão da Ametade 11, 12, 13
B bufos-reais 39
C Cabril 22, 24, 53 Lucius Caecilius 19, 20 vale da Candeeira 11, 12, 13 Castelo do Bode 22, 23, 24, 32, 35, 43, 49, 51, 52, 53, 54, 56, 57, 58, 59 centrais 43, 47, 49, 50 Constância 26, 28, 35, 51 Cova da Beira 19, 20, 21 Covilhã 18, 21, 35, 36, 43, 47, 54
D Suzanne Daveau 14
E economia 23, 47 Electrificação Nacional 32, 53
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F Francis 58
G gerador 23, 57 Guarda 36
H história 12, 31, 53
I iluminação 53
J jusante 15, 16, 58
L Lisboa 22, 23, 24, 52
M Manteigas 13, 16, 18, 35 Mondego 18, 35, 49, 50, 51
P Parque Natural 35, 39, 43 Portugal 14, 39, 53, 54, 55, 57
R Orlando Ribeiro 13, 15
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S JosĂŠ Saramago 19
T TemplĂĄrios 31, 44 Tomar 31, 36, 44, 51, 53, 58 Miguel Torga 18 Torre 14, 15, 20, 31
V vale glaciar 13, 16, 35, 43
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