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 Chove. É dia de Natal. Lá para o Norte é melhor: Há a neve que faz mal, E o frio que ainda é pior. E toda a gente é contente Porque é dia de o ficar. Chove no Natal presente. Antes isso que nevar. Pois apesar de ser esse O Natal da convenção, Quando o corpo me arrefece Tenho o frio e Natal não. Deixo sentir a quem quadra E o Natal a quem o fez, Pois se escrevo ainda outra quadra Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, "Cancioneiro"


Entremos, apressados friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio, no prédio que amanhã for demolido... Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos, e depressa, em qualquer sítio, porque esta noite chama-se Dezembro, porque sofremos, porque temos frio. Entremos, dois a dois: somos duzentos, duzentos mil, doze milhões de nada. Procuremos o rastro de uma casa, a cave, a gruta, o sulco de uma nave... Entremos, despojados, mas entremos. Das mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro talvez universal a consoada. David Mourão Ferreira, As Lições do Fogo


Hoje é dia de Natal. O jornal fala dos pobres em letras grandes e pretas, traz versos e historietas e desenhos bonitinhos, e traz retratos também dos bodos, bodos e bodos, em casa de gente bem. Hoje é dia de Natal. ‑ Mas quando será de todos? Sidónio Muralha, Poemas


Fui ver ao dicionário dos sinónimos A palavra mais bela, sem igual, Perfeita como a nave dos Jerónimos E o dicionário disse-me: NATAL. (…) Pedi ao vento e trouxe-me dispersos Riscos de luz, fragmentos de papel Cânticos, sinos, lágrimas e versos Um N, um A, um T, um A, um L... Perguntei a mim próprio e fiquei mudo Qual a mais bela das palavras, qual? Para que perguntar, se tudo, tudo, Diz: NATAL, diz NATAL, diz NATAL! Adolfo Simões Müller


Eu queria ter um cestinho cheio de flores Para tecer um xaile de muita cor, muito lindo! E um retalhinho do Céu Para fazer um vestido azul tão lindo! E mais sete estrelas das mais brilhantes Para armar um chapeuzinho de luz! E mais ainda dois quartinhos de lua Que chegassem para uns sapatos de saltos muito altos... E tudo isto, depois, Eu dava a minha Mãe, Neste dia de Natal: O xailezinho de muita cor, Os sapatinhos de saltos muito altos... Minha Mãe! minha Mãe! E hoje é dia de Natal E só posso dizer: Minha Mãe! minha Mãe! Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila


Outro Natal, Outra comprida noite De consoada Fria, Vazia, Bonita s贸 de ser imaginada. Que fique dela, ao menos, Mais um poema breve Recitado Pela neve A cair, ao de leve, No telhado. Miguel Torga, Antologia Po茅tica


Um pastor, vindo de longe à nossa porta bateu: trouxe recado que diz: “O Deus - Menino nasceu”. Este recado tivemos á meia noite seria. ‑ Estrela do céu lá vamos dar parabéns a Maria. ‑ Mas que havemos de levar a um Deus que tanto tem? ‑ Ainda que muito tenha, Sempre gosta que lhe dêem. - Eu lhe levo um cordeirinho, o melhor que eu encontrei. - E eu levo um requeijão, o melhor que eu requeijei. (…) Romance Popular


O nosso menino Nasceu em Belém. Nasceu tão-somente Para querer bem. Nasceu sobre as palhas O nosso Menino. Mas a mãe sabia Que ele era divino. Vem para sofrer A morte na cruz, O nosso menino. Seu nome é Jesus. Por nós ele aceita O humano destino. Louvemos a glória de Jesus Menino. Manuel Bandeira


Enquanto a chuva Escorrer da minha vidraça E furar o telhado Daquele farrapo de homem que além passa Enquanto o pão Não entrar com a justiça Lado a lado Mão a mão Nem Jesus vem Andar pelos caminhos onde os outros vão Um dia Quando for Natal (E já não for Dezembro) E o mundo for o espaço Onde cabe Um só abraço Então Jesus virá E será À flor de tudo O redentor Universal (Quando o Homem quiser Será Natal) Manuel Sérgio, Natal


Viver o Natal