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Roda Terapêutica das Pretas

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Realização:

Apoio:


Roda Terapêutica das Pretas Um cuidado em saúde ético-clínico-político para mulheres negras cinco anos criando nossa própria utopia.

Organização

Carolina CristalFerreira IngridC. Barbosa Tainá C. Dias S. do Carmo


À força ancestral que nos impulsiona e oferta sustento para a continuação deste trabalho, mesmo diante das adversidades; A todas as mãos, mentes e corpas de cada mulher que já dançou na Roda e que participou de algum modo dessa construção contínua; À nossa companheira nas trincheiras da vida, que hoje se encontra no Orum, por sempre acreditar e lutar por este projeto. Gratidão, Pamela Leonardo.


Colaboradorxs Selo de publicação: móri*zines Organização: Carolina Cristal Ferreira, Ingrid C. Barbosa e Tainá C. Dias S. do Carmo Capa e contracapa (ilustração): Aline Cardoso Capa (diagramação): Gustavo Machado Edição: Carolina Cristal Ferreira, Ingrid C. Barbosa e Tainá C. Dias S. do Carmo Diagramação: Uarê Erremays Revisão: Eliane Correia Primeiro desenvolvimento da imagem de Ayana: Igor Roberto Ilustração capítulo um: Eduarda Xavier Ilustração capítulo dois: Jess Vieira Ilustração capítulo três: Igor Roberto

Livro comemorativo dos cinco anos de existência da coletiva Roda Terapêutica das Pretas.


Vem tomar café com a gente Sumário Partimos daqui: Introdução.......................................................................................12

Ana Carolina Barros

Ouviram dizer..............................................................................................................17

Anastácia David

Capítulo um: Caminhos abertos: nossos passos vêm de longe. Os cinco anos da Roda Terapêutica das Pretas.................................................................................21

Carolina CristalFerreira, Tainá C. D. S. do Carmo com contribuições de toda a coletiva

Movimento...................................................................................................................59

Aline Cardoso

REcaptura e nascimento de Ayana...........................................................................61

IngridC. Barbosa

Capítulo dois: RE-conhecer.......................................................................................65

IngridC. Barbosa

Introdução para a poesia: “Entre ruínas e afetos: tecendo entre nós (II)”........74

Letícia Silva

Entre ruínas e afetos: tecendo entre nós (II)..........................................................77

Letícia Silva e mulheres do grupo

Capítulo três: Amarras: aprisionamento ou sustento............................................85

IngridC. Barbosa

Capítulo quatro: Escrevivências em Roda: relatos das psicólogas da coletiva..........................................................................................................................93

Integrantes e ex-integrantes da Roda Terapêutica das Pretas

Ciclos: os finais são sempre re-começos................................................................105

Aline Campos


Partimos daqui Introdução Por Ana Carolina Barros

Quando alguém diz “reinventar a roda” está querendo dizer do esforço empregado para fazer algo que já foi feito antes, mas como se fosse a primeira vez. Não acho que, tampouco, nossa Roda foi inventada por nós. Essa Roda é e sempre foi a nossa forma, a forma do nosso povo se expressar, cuidar de si, acolher-se e de simbolizar, partilhar, ritualizar, significar a vida e suas passagens. Roda é esse espaço intuitivo, espaço que dilui em alguma medida as hierarquizações entre as posições e lugares, essa disposição que permite olharmos umas para as outras, sem que ninguém esteja atrás de mim ou na minha frente. Roda nos permite dar as mãos, fazer coro, estarmos juntas. Em roda, conseguimos trançar dores, amores, feridas, realizações, lutos e recomeços. A Roda Terapêutica das Pretas foi idealizada com um único propósito: atender, acolher e escutar mulheres negras em dispositivos grupais em seus territórios periféricos. O projeto nasce com esse objetivo e com a certeza de que nosso trabalho não seria solucionador de uma problemática estrutural no Brasil, que é o sofrimento causado pelo racismo. Porém, ele poderia ser uma denúncia, um apontamento crítico, uma afirmação de que, sem rompermos com as estruturas capitalistas que transformam pessoas em objetos e produzem adoecimento psíquico, não daremos passos significativos na direção de uma sociedade mais justa. 12


A exploração, a pobreza, a alienação, a precarização do trabalho e a falta de estrutura básica como saneamento, moradia, saúde, educação, segurança pública, que atingem frontalmente a população negra brasileira, são fatores incontestáveis de adoecimento e sofrimento psíquico. Frente a essas problemáticas de profundas raízes, que remontam ao processo de colonização e escravização de seres humanos em terras brasileiras e que desdobram no abismo socioeconômico e na desigualdade racial que assistimos hoje, nossa aposta sempre foi na saúde pública e na defesa do Sistema Único de Saúde. E acreditando que não haverá saída fora da luta política por emancipação de todas as pessoas e acesso à saúde universal, irrestrita, pública e gratuita, desde o início, também apostamos foi na ética do cuidado e do afeto. Diante de cenários dos mais adversos, o corpo clínico da Roda Terapêutica das Pretas se mobilizou para incidir sobre essa realidade por meio de sua prática clínica. Ao longo desses cinco anos de existência, foram inúmeras histórias, trajetórias marcantes que acompanhamos, situações complexas que acolhemos e cuidamos. Nesse tempo, nós também crescemos, evoluímos, aprendemos, amadurecemos e, sem dúvida, podemos afirmar que a Roda é um dispositivo que também transforma as profissionais que nela atuam. 13


Assim como todo o mundo, em 2020, também fomos surpreendidas com a pandemia causada pela covid-19. Em meio ao caos que atingia de forma cruel e trágica, em especial, a população negra, pobre e periférica, o corpo clínico da Roda Terapêutica das Pretas precisou analisar a situação e avaliar de que forma poderíamos contribuir. Dispusemos-nos a modificar completamente nossa forma de atuação, passando a atender de forma online e também individual. Esse foi um processo bastante difícil para todas nós, porque sentíamos que precisávamos encontrar substitutos para elementos insubstituíveis do processo psicoterapêutico: a presença, o abraço, a mão estendida, a xícara de chá. Aos poucos, fomos entendendo que seria possível fazer presença na virtualidade e na distância e que conseguíamos construir vínculos e laços importantes, ainda que sem a presença física. Fomos nos readaptando e buscando sempre continuar acolhendo com as melhores ferramentas que dispúnhamos. Hoje, podemos dizer com segurança que muito pode se fazer na virtualidade. Ao mesmo tempo, também sabemos perfeitamente que ela tem inúmeras limitações. Nesta celebração de cinco anos de existência, sinto que foram imensos os aprendizados e também as conquistas. É inegável o quanto a simples presença da Roda foi convocando as pessoas à reflexão, ao posicionamento no cenário público dentro e fora dos contextos das ciências psicológicas no Brasil. Sem dúvida, nossa existência deixou marcas por onde passou e inaugurou um espaço em torno da discussão sobre saúde mental e questões étnico-raciais. A Roda chegou nos mais diversos territórios brasileiros e encontrou ressonância em muitos corações. Transitamos nos espaços acadêmicos, clínicos, culturais, políticos, públicos e privados, presenciais e virtuais. 14


A Roda Terapêutica das Pretas é hoje o desdobramento de todos os capítulos dessa história e tem consigo traços de cada pessoa que já cruzou nosso caminho de alguma forma. Ao fim de cinco anos de trajetória, seguimos convictas da potência curativa e transformadora de reunir e ouvir mulheres negras em roda.

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Ouviram dizer

Por Anastácia David

Ouviram dizer que ali naquele canto da rua tem Ana, tem Milena, tem Carolina, tem Aline e tantas outras Ouviram dizer que na conversa delas se ouvia a voz de Lélia, Virgínia, Angela, Neusa, Conceição e tantas outras Ouviram dizer que, quando sentadas em roda e vistas de longe, estavam Dandara, Tereza, Acotirene, Zacimba, Anastácia Ouviram dizer que o sol, quando se põe, puxa cadeiras em roda, puxa vassoura no chão, puxa pão, puxa suco, puxa assunto, puxa riso, puxa choro Ouviram dizer que uma puxa a outra, que puxa a outra, que puxa a outra Aos poucos, vão puxando uma história e outra e outra, Até puxar-se a si: “Eu quero ser professora” “Ninguém faz bordados como eu” “Eu rezo até meu filho voltar pra casa”

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“Ele subiu em cima de mim duas vezes naquela noite” “Minha mãe me levou pequena pra benzer” “Eu canto enquanto limpo a casa da mulher” “Eu preciso ser três vezes melhor” “O pai dos meninos morreu cedo” “Minha companheira escreve poesia” “Meu cabelo agora tá azul, mas já foi rosa” “Eu disse pra ela levantar a cabeça” Ouviram dizer que ali naquele chão tinha escuta Ouviram dizer que ali onde não chega o barão chega afeto, chega amor, chega atenção Essas são nossas mulheres que se fizeram ouvir e falam em nós.

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Capítulo um

Caminhos abertos: nossos passos vêm de longe Os cinco anos da Roda Terapêutica das Pretas

Por Carolina Cristal Ferreira e Tainá C. D. S. do Carmo com contribuições de toda a coletiva

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Em novembro de 2016, sete psicólogas negras se reuniram no Centro Cultural de São Paulo a convite da psicóloga Ana Carolina Barros, que recebia uma alta procura de mulheres negras em seu consultório com uma demanda específica: ser atendida por uma psicóloga negra. Observamos nessa reunião que havia uma narrativa presente nos encontros terapêuticos com pessoas negras que passaram por espaços de psicoterapia antecedentes, sobretudo aqueles manejados por profissionais brancos. O desconforto, a não-identificação e, em alguns casos, a reprodução e manutenção de violências raciais. Nas falas, algumas pessoas negras contam que, quando traziam relatos de racismo para o espaço terapêutico, eram analisadas como neuróticas, exageradas ou ainda culpabilizadas por uma violência estrutural.

Sem saber ao certo o que o futuro reservava, aquela conversa inicial foi um sopro de esperança, identificação e acolhimento, a partir de então, traçaram-se as linhas para um aquilombamento. 22


Essas mulheres convidaram outras mulheres, que convidaram outras mulheres e, aos poucos, formamos uma rede de psicólogas negras. Passamos a nos encontrar semanalmente ao longo de 2017. Nesse período, discutimos sobre questões sociopolíticas e saúde mental buscando localizar onde se encontram os olhares para a negritude brasileira dentro da psicologia. Problematizamos suas estruturas teóricas e práticas e partilhamos a visão do impacto do racismo institucional que impede a presença de corpos negros nos cursos de Psicologia.

Falamos sobre nossas experiências como ex-estudantes de psicologia, sendo majoritariamente negras únicas ou com alunes negres a se contar nos dedos durante nossas formações, e também sobre a ausência de negres no corpo docente, bem como refletimos sobre a construção da epistemologia dessa ciência que, na maioria das universidades, ignora as questões raciais como parte importante da composição da psique humana na nossa sociedade.

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Outro aspecto fundamental que se manifestou nesses encontros de potencialidades foi a expressão afetiva através de simbologias ancestrais. Inconscientemente, repetimos hábitos que eram praticados por nossos antecessores – como os nossos cafés – mas só fomos compreender isso tempos depois. Nos primeiros encontros, combinamos que cada psicóloga levasse um prato ou bebida para compor um café para que pudéssemos desfrutar um momento de construção política com a leveza de uma prosa de café da tarde, como em um encontro de família. A autora negra estadunidense bell hooks conta que, desde a sua infância, aprendeu que, muitas vezes, mulheres negras só conseguem falar quando estão entre si. E é nesse momento de encontro e de nutrição do corpo físico, afetivo e psíquico que construímos o chão dessa coletiva: dialogando, cantando, rindo alto, divergindo e trocando. Esse momento afetivo da alimentação se tornou parte de todos os nossos encontros, estendendo-se aos processos seletivos, recepção das novas participantes da coletiva, até aos encontros com as mulheres atendidas, sendo conceituado como um instrumento para o manejo do nosso trabalho. Os cafés antes do início da troca pela fala são as demarcações desses encontros entre mulheres negras, marcados por identificações e diferenciações, é um espaço para construir conforto para corpas que nem sempre têm o direito de falar sobre si nem de se cuidar. Os cafés, portanto, fazem parte da nossa cultura. Esses primeiros encontros revelaram a potência da troca e do agrupamento entre semelhantes plurais para a construção de novas possibilidades de cuidado, afeto, resistência e, também, para a subversão das obsoletas e excludentes ideologias impostas pela branquitude cis-heteropatriarcal. Aquele era um lugar de encontro com as iguais em suas diferenças, um espaço de compartilhamento de vivências que se assemelhavam de fala, de escuta e de troca. Assim nasceu a Roda Terapêutica das Pretas.

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Construir uma coletiva, enquanto um projeto de ação estruturado, requer estudo, empenho e tempo. Assim sendo, compreendemos que precisávamos construir um espaço terapêutico que partisse de um posicionamento ético-clínico-político. Ético, porque compreende que tratar demandas sociais sérias, porém ainda invisibilizadas no Brasil, como o racismo, significa ter um compromisso com a realidade. Clínico, porque é o espaço onde se constrói o trabalho de cunho terapêutico e com objetivo grupal. Político, porque se trata de uma mobilização inexplorada dentro da Psicologia e que, naquele momento, havia uma alta demanda em busca de um espaço que precisava ser criado. 26


Nós apenas impulsionamos um movimento que já gritava para existir. Celebramos a possibilidade de questionar sempre os caminhos que o nosso trabalho terapêutico toma. A psicologia clínica deve ser ética e política para estar adequada às verdadeiras demandas da população brasileira. A pergunta: A quem serve a psicologia? é nossa companheira na modelagem deste chão. Para além do posicionamento que direciona esse trabalho, a rosa de nossos ventos, também estruturamos nossos pilares e decidimos atender apenas mulheres negras (pretas e pardas, de pele escura e clara). Desde então, esse se tornou nosso primeiro pilar, pois compreendemos que a somatória raça + gênero torna essas pessoas ainda mais vulneráveis frente às estruturas do patriarcado e do racismo que atravessam estas corpas de modo interseccional. 27


Consideramos importante ressaltar aqui que, ao longo do desenvolvimento do trabalho, entendemos a necessidade de afinar técnicas de divulgação e acolhimento nos grupos de mulheres negras que são atravessadas ainda por outras estruturas sociais, como as mulheres lésbicas, bissexuais, trans, travestis e não-binárias que performam feminilidade. Fizemos então, uma avaliação através de um formulário do Google aberto em outubro de 2016 pela Ana Carolina, antes do nosso primeiro encontro, e que circulou até fevereiro de 2017. O intuito era compreender o tamanho da demanda de mulheres negras que gostariam de ser atendidas por psicólogas negras e o resultado foi inusitado; recebemos mais de duzentas inscrições de mulheres negras de todo o país com demandas psíquicas e emocionais acompanhadas de muita dificuldade de se verem em espaços de psicoterapia - geralmente associados a ambientes neutros e profissionais brancos.

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- Onde as mulheres negras estão? - Foi essa a pergunta feita pelo grupo de psicólogas que compunha a RTP (Roda Terapêutica das Pretas) naquele momento, fizemos os devidos encaminhamentos das mulheres de outros estados, pois compreendemos que não havia possibilidade de atender toda a demanda recebida, e organizamos as inscritas de São Paulo. Notamos que elas estavam principalmente nas periferias e traçamos nosso segundo pilar: atender mulheres negras em seus territórios.

Estudando a história da Psicologia no Brasil, reconhecemos que os consultórios particulares estão predominantemente no centro da cidade de São Paulo e que esse mesmo território serve de circulação para aqueles que trabalham na região e dormem nas periferias. O centro, neste sentido, não poderia ser um território de pertencimento para as mulheres negras. 29


Nos encantamos com o fato de que nós, psicólogas, também residimos em diversas regiões periféricas da cidade. Conjuramos, então, que as mulheres atendidas pudessem ser recebidas por profissionais que conhecem o território onde aconteceriam as sessões, rompendo com a lógica assistencialista de psicólogues que vão até comunidades e regiões periféricas para oferecer os serviços psicoterápicos.

Nós, psicólogas da Roda Terapêutica das Pretas, também estamos nas margens da cidade e na centralidade da vida cotidiana de nossas atendidas.

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Por fim, o nosso terceiro pilar também parte de uma questão que nos atravessa profundamente: - Quem pode pagar por um processo terapêutico? - Em uma pesquisa rápida, para se ter noção, o valor - de limite inferior - para pagamento por sessão de psicoterapia sugerido pelo Conselho Regional de Psicologia em São Paulo, hoje, é de R$ 165,58. Para além disso, como demonstra o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2016, são as mulheres negras que estão abaixo de homens (independentemente da cor/raça) e de mulheres brancas em todas as estatísticas que fazem a distinção gênero, cor/raça no mercado de trabalho. No que diz respeito à base salarial, segundo o IBGE (2016), “Em relação aos rendimentos médios do trabalho, as mulheres seguem recebendo cerca de ¾ do que os homens recebem.” enquanto trabalham mais horas, seja no trabalho formal ou no trabalho doméstico. Ainda, seguindo os dados do Instituto desse mesmo ano, agora, sobre Estatísticas de gênero - Indicadores sociais das mulheres do Brasil: “No Brasil, em 2016, as mulheres dedicaram aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos cerca de 73% a mais de horas do que os homens (18,1 horas contra 10,5 horas). [...] O recorte por cor ou raça indica que as mulheres pretas ou pardas são as que mais se dedicam aos cuidados de pessoas e/ou aos afazeres domésticos, com o registro de 18,6 horas semanais em 2016.” (IBGE, 2016. p.3)

Logo, pode-se imaginar a quais corpos a psicologia direciona o seu conhecimento, escuta e cuidado e estes não são aquelxs que têm menos acessos financeiros, afetando diretamente as pessoas que estão na base da sociedade no que tange acesso salarial, que neste caso, são as mulheres negras, sobretudo mulheres trans, travestis e pessoas nãobinárias. 31


Nós não precisávamos de tantas pesquisas para chegar nessa conclusão, afinal, somos mulheres negras e convivemos com as nossas, vivenciando todas estas complexidades sociais que atravessam as corpas de mulheres negras no Brasil e nesse caso, em São Paulo. Assim, definimos que os atendimentos aconteceriam de acordo com o que cada mulher pudesse pagar por consulta e esse valor é decidido em uma conversa inicial que acontece durante cada triagem.

Tendo nosso chão demarcado e nossos pilares estabelecidos, projetamos quatro grupos terapêuticos nas quatro zonas de São Paulo com o intuito de alcançar mulheres negras periféricas de diversos locais da cidade. Sempre orientadas por ciclos de atendimentos que acontecem no primeiro semestre do ano, ao passo que, no segundo semestre, fazemos as avaliações de cada ciclo e o planejamento para o próximo. Para além disso, definimos um número máximo de doze mulheres para duas psicoterapeutas em cada grupo. Na Roda, sempre trabalhamos em duplas. 32


Durante esse primeiro ano, também participamos de congressos e reuniões, organizamos palestras e manejamos rodas de conversa, a convite de algumas instituições, para falar sobre a interface do racismo, gênero e psicologia e também para compartilhar o nosso projeto. Alguns deles foram:

Colóquio de Psicanálise, gênero e feminismos: perspectivas - USP (2017) “Uma nova perspectiva psicanalítica de promoção de saúde para mulheres negras” sendo esse o nosso primeiro texto escrito coletivamente e aceito em uma instituição acadêmica renomada. Representantes : Aline Campos, Aline Cardoso, Ester Maria Horta e Tereza Cristina.

Lançamento da Cartilha de Relações Raciais do CRP/SP (2017) Representante: Daniela Trindade

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Reunião do Núcleo de Relações Raciais - CRP/SP (2017) Representantes : Aline Campos, Anastácia David, Carolina Cristal, Ester Maria Horta e Milena Cristina.

Manifestação de Rua: Dia Internacional da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela (2017) Representantes : Aline Cardoso, Anastácia David, Carolina Cristal, Domênica Faria, Luane Vilaça e Tereza Cristina.

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No início de 2018, aconteceu o primeiro ciclo de atendimentos psicoterapêuticos com o apoio financeiro do projeto Fundo ELAS, que é o único fundo independente direcionado para mulheres em todo o Brasil. Esse fomento tem o intuito de promover e fortalecer o protagonismo, a liderança e os direitos das mulheres, mobilizando e investindo recursos em nossas iniciativas. Esse primeiro recurso foi utilizado para darmos os nossos primeiros passos no sentido de melhorar a estrutura do projeto com a criação de redes sociais e também de dar início aos primeiros quatro grupos terapêuticos ofertados às mulheres negras; eles aconteceram em regiões periféricas ou de fácil acesso às linhas de transporte público.

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Foram essas: Zona Norte: Brasilândia Zona Sul: Grajaú Zona Leste: Tatuapé Zona Oeste: Butantã

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Acompanhar mulheres negras e as histórias de vida que são alcançadas com o projeto resultou no surgimento de outras demandas e, com o tempo, os primeiros esboços foram se desdobrando em novas inquietações e ideias. No grupo que se formou no Grajaú, por exemplo, não tivemos quorum suficiente para prosseguir até a data final planejada, identificamos que a divulgação - que havia sido feita online - não alcançou as mulheres da região.

Também notamos que o comprometimento com encontros semanais durante alguns meses era difícil para algumas mulheres, sobretudo aquelas que tinham afazeres múltiplos: mulheres-mães, mulheres com jornada dupla ou tripla de trabalho ou mulheres chefes de família, por exemplo. 37


A partir desses atravessamentos, elaboramos novos caminhos para o ciclo seguinte, para ser executado em 2019, pensamos em um novo dispositivo de cuidado como outra forma de ocupar os territórios e com o intuito de promover saúde para mulheres negras: as oficinas. Criamos um espaço que tem função terapêutica, mas que não tem o mesmo papel e engajamento de um grupo terapêutico. As oficinas ocorrem em encontros quinzenais, têm temas elaborados previamente e em conjunto com o grupo, contam com ferramentas terapêuticas como a Arte, a Música, a Escrita, entre outros e são abertas, ou seja, as mulheres podem participar de todo o cronograma oferecido em cada região ou apenas de algumas oficinas. Também reformulamos as possibilidades de divulgação dos grupos, nos ciclos seguintes pudemos panfletar em feiras livres, colar cartazes do grupo em serviços de saúde, entre outras estratégias de divulgação dentro dos territórios.

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Em 2018, também colocamos a RTP no mundo virtual, elaboramos uma identidade visual com o nosso logo criado pela querida Artista Nenê Surreal e lançamos nossas redes sociais. Um fato interessante é que o logo foi digitalizado e vetorizado pela querida Ingrid Martins - que além de designer, também é poeta - a partir de um grafite feito pela Nenê em um dia ensolarado, no muro da casa de uma das integrantes mais antigas do grupo, a Aline Campos que, juntamente a sua família, recebeu a coletiva e também serviu um almoço delicioso.

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Neste contexto, em 2019, a Roda Terapêutica das Pretas foi novamente contemplada pelo Fundo ELAS e abriu o primeiro processo seletivo para agregar novas integrantes voluntárias, foram dois finais de semana muito especiais, onde no primeiro recebemos as psicólogas voluntárias e no segundo as estudantes de psicologia voluntárias. Esses dois dias ficaram marcados pela alegria produzida nesses bons encontros e pela possibilidade de partilha entre tantas que travam as mesmas lutas.

foto: processo seletivo das alunas de psicologia voluntárias

foto: processo seletivo das psicólogas voluntárias 41


No segundo ciclo, com as novas integrantes, pudemos expandir nossos grupos terapêuticos e lançar oficinas temáticas para diversas regiões da cidade de São Paulo, incluindo, dessa vez, os territórios do centro na região da Luz e também Osasco. Nesse cenário, as duplas de psicólogas e regiões atendidas foram:

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E as oficinas, em 2019, aconteceram nesses territórios e foram manejadas pelos trios e quartetos:

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Em 2019, com a equipe ampliada, também participamos de muitos eventos de Psicologia, construímos diálogos com alunos em formação e também renovamos a nossa participação dentro do Núcleo de Relações Raciais do Conselho Regional de Psicologia (CRP) de São Paulo. Estes foram alguns deles: Roda de conversa sobre saúde mental da população negra com os estudantes de medicina da Faculdade Santa Marcelina. Representantes: Fabiana Lima, Fabiana Macena e Mikaela Barreto.

Primeiro Seminário Nacional de Saúde da População Negra com a oficina: Saúde da população de rua com ênfase na mulher negra. Representantes: Ana Cibele, Ana Paula, Conceição dos Santos e Juliana Vicente

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Sesc Florêncio de Abreu - São Bento com o cine-debate a partir do curta-metragem “Mentes Falantes” da cineasta Natasha Rodrigues. Representantes: Ane Gabriele e Conceição dos Santos

Primeira reunião geral do Núcleo de Relações Raciais do Conselho Regional de Psicologia (CRP) de São Paulo (2019). Representantes: Aline Campos e Carolina Cristal

Com o crescimento da coletiva, nas reuniões de avaliação e planejamento durante o segundo semestre de 2019, surgiu a necessidade de novas organizações internas, o que resultou na expansão dos objetivos a partir da formação de coordenações como frentes de trabalhos que a Roda Terapêutica das Pretas já desenvolvia, mas ainda não tinha sistematizado. E são elas: 45


- Coordenação Clínica; - Coordenação de Oficinas; - Coordenação de Mídias e redes sociais; - Coordenação Administrativa financeira; - Coordenação de Cuidados e afetos; - Coordenação de Formações (para as psicólogas e estudantes

voluntárias do projeto); - Coordenação de Articulação Política; - Coordenação de Produção Científica.

Cada coordenação traçou planos de ações a serem executadas no terceiro ciclo de atendimentos, no primeiro semestre do ano seguinte.

Dessa forma, tendo em vista a nova organização e os planos para o futuro, estávamos empolgadas para os novos trabalhos no ano de 2020, quando fomos contempladas novamente pelo Fundo Elas. Porém, fomos atravessadas pela pandemia de covid-19 que nos impediu de atuar de modo presencial com os grupos e oficinas. Tudo aconteceu muito rápido, havíamos nos organizado para o início dos trabalhos no meio do mês de março e foi, justamente nesse período, que as notícias sobre a crise sanitária se intensificaram e a necessidade de fazer quarentena se fez presente. 46


Diante de uma crise sanitária e também política, social e econômica, precisamos nos reinventar. Cancelamos a possibilidade de fazer os grupos e oficinas, pois entendemos que para manejar grupos terapêuticos online seria necessário um preparo das psicólogas com mais tempo e portanto, fizemos uma frente de trabalho que oferecia plantões psicológicos individuais para mulheres negras na modalidade online. Nesse período, as psicólogas que atenderam nos plantões foram:

Aline Cardoso, Ana Lucia, Anastácia, Ane, Beatriz, Celeste Conceição, Daniela, Elisângela, Gleice, Letícia, Luane, Mariana, Mikaella, Silvia

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Em 2021, com a pandemia ainda acontecendo e o processo de vacinação progredindo de modo lento, concluímos que o nosso plano seria permanecer com os encontros online. Mas dessa vez, decidimos retomar nossos processos grupais e também pudemos contar novamente com o apoio do Fundo ELAS junto a uma nova parceria que seguirá até o final de 2022: a Fundação Tide Setubal que, trata-se de uma organização não-governamental e de origem familiar que pretende como foco de seu trabalho atuar e fomentar iniciativas nas periferias urbanas de São Paulo. Com o apoio financeiro de ambos, propusemo-nos a um novo formato de trabalho, onde teríamos projetos acontecendo durante todo o ano. Lançamos o nosso primeiro grupo temático para mulheres LBTs, bem como um primeiro grupo de estudos voltado para profissionais da psicologia. Também iniciamos dois grupos terapêuticos no segundo semestre, que nesse momento, pôde receber mulheres de outros estados graças à modalidade online. As psicólogas que atenderam os dois grupos online em 2021 foram:

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Mesmo desenvolvendo todo o trabalho na modalidade online, realizamos o segundo processo seletivo em junho de 2021, também no formato online por meio de videoconferências, em decorrência das medidas de isolamento social impostas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por causa da pandemia de covid-19.

foto: processo seletivo das psicólogas voluntárias Recebemos novas psicólogas com muita alegria e, apesar das dificuldades por permanecermos com os encontros online, lançamos três oficinas temáticas de cunho terapêutico no segundo semestre de 2021, manejadas por novas psicólogas e pela coordenadora de oficinas, Elisângela Lopes. São estas: 49


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Após esse período de tantas turbulências que exigiu de nossa equipe muita resistência, paciência e fortalecimento para permanecer trabalhando diante de tantas adversidades, agradecemos a cada mulher que compõe neste momento a organização interna de cada coordenação. A Roda existe através de cada uma delas:

Coordenação Administrativa financeira: Aline Campos Maria Vitória Mayra Figueiredo

Coordenação Clínica: Ana Paula Anastácia David Ana Carolina Daniela Cardoso Fabiana Macena - Triagem: Daniela Luzia Rute P. Souza Kamilla Gabrielli

Coordenação de Cuidados e afetos e de Formações: Ana Paula Elisangela Lopes

Coordenação de Oficinas: Elisangela Lopes Lhayla Basilio Renata de Souza Tamara Costa Rhayssa Felipe

Coordenação de Articulação Política: Ane Gabriele Maria Conceição Lhayla Thalyta Andréia Akilah

Coordenação de Mídias e redes sociais: Aline Campos Leticia Gonçalves Ana Cibele Daniela Cardoso

Coordenação de Produção Científica: Carolina Cristal Tainá Dias Ingrid Costa

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Por fim - por hora - desde 2019, fizemos formações dentro da coletiva para a nossa equipe de profissionais sobre diversas temáticas sugeridas pela equipe de voluntárias ou que surgiram a partir de demandas das mulheres atendidas. E foram estas:

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Não esqueçamos que a Roda Terapêutica das Pretas é uma denúncia. É a demonstração da necessidade do comprometimento do Estado para com a saúde das mulheres negras de todo o país. A RTP existe pela falta de políticas públicas no campo da saúde mental que estejam adequadas às necessidades dessa população específica e não podemos nunca esquecer que acesso à saúde em uma sociedade democrática é nosso direito. Inundadas de histórias, aprendizados, lutas e transformações, mas acima de tudo, comprometidas com o trabalho ético-clínico-político para mulheres negras periféricas do território de São Paulo e região, seguimos as pegadas que nossas ancestrais deixaram e caminhamos juntas rumo ao incerto, porém com a certeza da força e potência deste fazer coletivo. Agradecemos a cada pessoa que fez parte desse longo caminhar que, no mês de Novembro de 2021, completou cinco anos. Não deixaremos de fazer por nós. Como nossa ancestral bem nos ensinou:

“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer” Conceição Evaristo

Vida longa à Roda Terapêutica das Pretas! 55


Nosso chão 56


Referências Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. bell hooks, Editora Elefante, 2019.

Por um feminismo afro-latino-americano, Lélia Gonzalez, Editora Zahar, 2020.

Psicologia Favelada: ensaios sobre a construção de uma perspectiva popular em psicologia. Mariana Alves Gonçalves, Mórula Editorial, 1986. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 2016: https://www.ibge.gov.br/ Conselho Regional de Psicologia - CRP - Tabela de Honorários: https://www.crpsp.org/pagina/view/65 Fundação Tide Setubal: fundacaotidesetubal.org.br Fundo ELAS: fundosocialelas.org

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Movimento

Por Aline Cardoso

Mulheres pretas Que se dedicam a realizar um espaço de escuta. A roda gira, gira e afeta. Se dispõem a olhar, a ouvir Aquelas que outros tendem a gritar: “Loucura!” Sem romantizar esse espaço complexo, A gira, muitas vezes, faz tonto quem a acompanha. Movimentos são difíceis, mas a roda não para. Ela gira, ela erra, ela acerta, ela muda, ela ampara. E dela vidas pretas florescem.

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REcaptura e nascimento de Ayana Por IngridC. Barbosa Ao ouvir a construção da narrativa do conto que descreve o processo de tratamento e autodescoberta de Ayana elaborado pela escritora Ingrid Costa, o artista Igor Roberto, que está ao seu lado, inspira-se e começa a imaginar como seria o rosto da jovem ao fim do conto e a expressão dela ao se reconhecer como sujeito potente. O lápis e a caneta se movimentam até criar a forma e imagem de Ayana. A personagem o convoca a continuar tentando imaginar seus traços, como quem vive e foi gestada nas ideias, mas precisa nascer, fazer-se presente no olhar, ganhar corpo. Assim nascem mais duas ilustrações, pois os afetos e ideias da escrita precisavam ser representados. Durante o processo criativo, percebemos que o artista se identificou com o enredo de tal modo que precisou dar um rosto à protagonista; algumas histórias nos atravessam e são sentidas como se fossem nossas, alguns processos de reconhecimento se repetem, mesmo que para cada um de um modo. E foi assim, em um momento repleto de afetações que vimos pela primeira vez a imagem de Ayana. A ilustração é a manifestação da apreensão dos afetos transformados em detalhes que convidam ao mergulho na trajetória da personagem. Espero que ela, a Ayana, possa provocar e inspirar a todes assim como seus autores, seja na ilustração ou na sua criação.

*A ilustração da história de Ayana foi desenvolvida a posteriori pela artista Jess Vieira. 61


*A ilustração da história de Ayana foi desenvolvida a posteriori pela artista Jess Vieira. 62


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Capítulo dois

RE-conhecer

Por IngridC. Barbosa

Era uma vez uma mulher que se perguntava se realmente existia, falava 65


com as pessoas e elas mal reagiam, como se ela não fosse ouvida: Tinha voz ou só ela se ouvia?

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Ela também não sabia como era, todos os espelhos que olhava não refletia a imagem, apenas o ambiente ao seu redor. Escreveu no papel um pedido para as pessoas: Emprestar-me-ia o seu espelho? Talvez os dela estivessem quebrados, mas ao olhar o espelho dos outros ela não se via, era o reflexo daquele que segurava o espelho.

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Até que um dia, ouviu um grupo de pescadores conversando sobre uma tribo que habitava à beira do rio, mulheres que ouviam tanto umas às outras que desenvolveram a capacidade de ouvir os sussurros de quem pouco fala, desengasgar a força da voz que estava presa entre o estômago e o coração. - O que é mal digerido fica ali preso e abafado, sugando a energia da voz. (Disse um deles.) 68


A mulher então resolveu procurar essa tribo para ajudá-la a recuperar sua voz e, quem sabe, elas também não teriam um espelho que mostrasse a ela quem realmente era? Em sua chegada, foi recebida pelas mulheres com abraços, sorrisos e um olhar que ela não recebia há muito tempo, sentiu que algo nela se transformava com esse contato. Escreveu no papel o que precisava e mostrou a elas. A mulher que leu o recado passou para as outras, disse que ela precisaria passar por um processo para trazer sua voz e sua imagem de volta. Uma vez por semana, ela se sentaria com uma delas, o processo seria árduo, mas ela se encontraria no fim. 69


No primeiro dia, Ayana desanimada esperando mais uma vez não ser ouvida, falou baixo e sem forças, quase um sussurro. Para sua surpresa, Rita olhava para ela e parecia se atentar às palavras, sorriu e disse: - Entendo que seja doloroso falar e não ser ouvida, você tem voz, mas ela está abafada por algo, tente botar para fora o que está abafando a sua voz. - Como posso existir neste mundo? (responde com a voz baixa e entrecortada)

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Ayana realmente se sentia sufocada por algo, tentou forçar a voz para fora e vomitou, com o passar das sessões, tudo aquilo que a sufocava era provocado e forçado a sair, liberando espaço que seria preenchido pelos ecos da sua voz que já chegavam a toda sua estrutura corporal. 71


O último passo seria a recuperação de sua imagem, Ayana perguntou se já poderia usar um dos espelhos da tribo, Rita se vira e pega um objeto redondo do tamanho de seu corpo que estava pendurado na parede. Ayana olha para o objeto nas mãos de Rita e se surpreende, uma mulher com a pele em um tom de marrom, olhos brilhantes e lacrimejando, cabelos volumosos e anelados, olha de volta e ela percebe que não é um rosto de outros, é parecido com o de Rita e das outras mulheres da tribo, ao mesmo tempo que distinto. Tocou seu rosto para confirmar que este era o seu reflexo mesmo e caiu em prantos, finalmente tinha se encontrado. 72


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Introdução “Entre ruínas e afetos: tecendo entre nós (II)”

Por Letícia Silva

poeta.

Sou Letícia e estou na RTP desde 2019. Além de psicóloga, sou

Desde o primeiro grupo de mulheres que atendi em 2019, ouço falas muito dolorosas e significativas e nos atendimentos vamos procurando tecer afetos nas ruínas deixadas pelas atrocidades do racismo, machismo...E uma forma que faz sentido pra mim, de poder olhar pro processo do grupo e ir (re)construindo e (re)significando é pensar nas falas das mulheres e compor um poema híbrido, que leio pra elas quando finalizamos os grupos. Fazer esse percurso da poesia junto com a psicologia, é trazer a arte como um elemento importante de sobrevivência. O poema que está aqui, surgiu de um grupo de atendimento, que devido a COVID-19, ocorreu de forma online. Mesmo entre os desafios do atendimento online, pudemos alcançar mulheres de São Paulo e de outras regiões do Brasil. Mulheres pretas singulares e diversas, passando por situações semelhantes e duras de racismo, inclusive na academia, que deixa a gente sem chão, sem lugar, 74


sem perspectivas... Mães, ou não, empreendedoras, militantes, psicólogas, trancistas, confeiteiras, artistas. Que num processo singular de encontros puderam falar, se escutar e até nomear. Não iremos acabar com as estruturas do racismo, mas vamos proporcionar olhares, lugares, caminhos e respiros, com todos os recursos e ferramentas que existem e que a gente vai construindo pois nem tudo o que tá posto nos contempla e precisamos compor mais formas de escuta e acolhimento. Mulheres, agradeço cada uma de vocês, desse e dos outros atendimentos, pela troca e por tantos abraços, com nossos olhares, dessa vez. Ficam registradas nessas linhas nossas dores, mas também expressões significativas que transpuseram o online, para sentirmos que não estamos sozinhas. Nós não estamos sozinhas! E como diz a Vanessa da Mata na música indicada por uma de vocês, “Hoje eu sei”: “Tem mazelas, mas tem cura / A solidão fazia casa mas / Plantei minhas jaboticabas lá’ Nossa "cura" pode ser pelas palavras, mas também é pela arte! 75


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Entre ruínas e afetos: tecendo entre nós (II) Por Letícia Silva e mulheres do grupo Mesmo de salto alto, vamos sofrer racismo. Medo Insônia Ansiedade Depressão Luto (Um pedaço meu se foi Mas o que me restou, eu não quero perder de mim) Insegurança Sempre em alerta, controlando tudo Pandemia Vivemos trancafiados Cobranças (Desmontei o sofá pra limpar por dentro) Não consigo fazer Não consigo descansar Não sou boa mãe Nada do que faço tá bom 77


Você está demitida! (suspiro) Dá vontade de sumir no banheiro Único momento de paz Se desligar Esquecer o que tá lá fora e chorar como louca Me sinto embaraçada Estraçalhada Quando nos sentimos preparadas? Suficientes? Capazes? Amadas? Traumas! Por não cuidar da dor, doia Quando não consigo descansar, aguento a exaustão e a culpa (Estou me apoiando nas coisas pra tentar me salvar) E aí vamos tentando ser forte Ser forte o tempo todo Como se tivéssemos que nadar de braçada sempre Temos que fazer sempre melhor que eles Para alcançar o mínimo. Não vamos percebendo nossa sobrecarga 78


Nosso cansaço E nosso direito de descansar (Sim é nosso direito, Que tentam nos impedir de enxergar) A gente vai tentando resgatar nossa ancestralidade, Se reconhecer como preta, E ouve “Cabelo cacheado é bonito quando é pra baixo” “Alisa esse cabelo, vai ficar mais bonita” “Personagens negros não vendem” (Aí a gente passa três dias chorando sem parar) Minha mãe foi criada sem abraços. Viemos de famílias destruídas, mas saiba que (você era criança e você fez o melhor que você podia) Nos fizeram achar que não somos dignas de receber amor Complexas vivências vão nos negligenciando “Já deixei meus sonhos morrerem!” A sociedade também nos inferioriza Chamam nossas vidas de lixo, Mas lixo é a sua desumanização (Precisamos falar de amor!) Amar é poder sonhar e Sonho é sonho, não é besteira. 79


Acolher a dor e nossas formas de amor Amor próprio como construção Como espaço para falar das nossas fragilidades. Amor que pode ser um bolinho de feijão Ou meu violão Trançar cabelos. Vai no seu tempo Não se cobre tanto Tinha um eu antes de tudo isso Vou me permitir! (É essencial para não ficar no buraco). Amar é entender O que é aceitável e o que é inegociável Aceitar quando meu corpo não está a fim Ouvir meu corpo Me voltar pra dentro Me revirar do avesso Seguir o que pede o corpo (Estar inteira é um processo) Vai no seu tempo Precisava vir pro meio do mato Ficar sozinha Comigo mesma (Conhecimento salva a gente) 80


Vai no seu tempo Não importa se às vezes é num ritmo mais lento (Morri depois dele e estou renascendo) Romper é poder começar de novo Recomeçar é um passo melhor Sem insistir no que tá nos fazendo mal... (Liberdade também é dizer não) Estou aprendendo a me cuidar Ninguém me ensinou! Aprendendo a me perdoar Aprendendo a descansar Não quero ficar me massacrando Não aceito mais morrer todos os dias; (Vai doer, até não doer mais) Aprendi a me enxergar Sou digna de ser amada e receber amor (Olho no espelho e hoje tô gostando mais de mim) Crescer é como romper o teto Romper o teto é passar pro próximo nível Vamos bater a cabeça, ter cicatrizes Vamos lembrar do que passamos Mas é isso que vai fazer você estar num outro nível Reestabelecer o fôlego para continuar Fazer com sentido as coisas (Me alimento da vontade de viver) 81


Vou continuar me aprimorando Quero ajuda pra me fortalecer pra poder ajudar outras pessoas (Sei que sou capaz!) Histórias que se encontram... Acendeu uma luz Nossos encontros Foram como Âncora pra centralizar Estamos plantando a sementinha (Agora é regar) E não se enterrar nos sentimentos ruins (Agora está um pouco menos difícil.) Seu filho é artista E a arte cura Théo Demétrio, Leticia, Lucas Heloísa e Jonathas Théo *Aqueles que passam por nós não vão sós Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós E Tudo Tudo que nóis têm é nóis Como é bom estar no meio de mulheres negras! 82


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Capítulo três

Amarras: aprisionamento ou sustento

Por IngridC. Barbosa

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Como são as cordas que te aprisionam? As correntes puxam para baixo, como quem tenta obrigá-la a se curvar. O que te impede de viver com humanidade e dignidade? O que te puxa para baixo? Opressão!

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As cordas se enraízam no peito. Quanto pesam os silêncios provocados pelo racismo estrutural? 87


Outras mulheres negras aparecem ao seu redor. Entre elas aparecem cordas que a sustentam e a impedem de sucumbir. O aquilombamento provoca a ruptura das correntes. A recordação da força das ancestrais e semelhantes dissolve a forma estranha que se formou a partir dos silenciamentos. 88


Após dissolvida a forma escura, a luz interna é libertada, ela passa a ser seu guia, sua coroa. A luz de cada ancestral e semelhante também se acende, eu sou porque nós somos.

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“O fato de estarmos aqui e que eu esteja dizendo essas palavras, já é uma tentativa de quebrar o silêncio e estender uma ponte sobre nossas diferenças, porque não são as diferenças que nos imobilizam, mas o silêncio. E restam tantos silêncios para romper!”

LORDE, Audre. Irmã Outsider: Ensaios e Conferências. Trad. Stephanie Borges. 1. ed. 1 reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. 91


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Capítulo quatro

Escrevivências em Roda: Relatos das psicólogas da coletiva

Por integrantes e ex-integrantes da Roda Terapêutica das Pretas

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Ana Cibele Pimentel O dia é 23 de março de 2019, lembro bem dessa data, pois é o aniversário da dona Ana, a minha mãe. Saí de casa para participar do processo seletivo, confesso que, naquela época, ainda não tinha entendido muito bem sobre o trabalho que a Roda desenvolvia. Ao chegar no local, fui muito bem acolhida, ainda assim, sentiame um pouco inibida, porém meus primeiros minutos ali já foram o suficiente para me encantar com a energia que o espaço emanava, depois descobri que não era o espaço físico que estava emanando aquela energia, mas sim aquelas mulheres, nós todas, ali era o nosso próprio aquilombamento. Ainda sobre o primeiro encontro, conscientemente, eu não sabia que a partir daquele dia começaríamos a percorrer os caminhos que os nossos já percorreram, viver os sonhos coletivos dos nossos ancestrais, ter respostas para perguntas que por tantas vezes eu chorei sem entender enquanto buscava. Havia me formado no ano anterior e saí da faculdade sem saber ao certo qual rumo tomar, imagino que tais incertezas são compartilhadas por muitos recém-graduades - mas e quando desejos vêm sem que sequer consigamos denominá-los? É tão fora dos muros acadêmicos tradicionais que mal ousamos pensar Hoje sei que estou no lugar certo e sei que, independentemente dos caminhos que por ventura a vida venha a me levar, a Roda Terapêutica das Pretas não sairá de mim. Tem uma frase de Bunseki Fu Kiau, sacerdote iniciado em tradições dos povos Bântu-Kôngo, que nos lembra que "Todo mundo nasce com o Sol interno, é responsabilidade da comunidade acender o sol do outro." E essa é a definição da RTP na minha vida, e espero poder somar para que possamos juntas acender muitos Sóis pelos caminhos. .

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Ane Gabriele Com quantas mãos se faz uma Roda? Na primeira vez em que eu ouvi falar sobre a Roda, meus olhos brilharam. Havia uma ambição terrível em trabalhar ajudando mulheres. Lá, em 2019, foi o ano que eu preenchi um formulário em busca de dar vida a tal expectativa. Foi na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, quando eu vi muitas mulheres pretas, sorridentes, psicólogas como jamais havia visto antes. Rapidamente o meu coração se encheu de força e desejo, eu sabia que eu estava no lugar certo – sabe aquela sensação de alinhamento com o universo? Ouvi muitas mulheres falarem sobre as suas carreiras e experiências pessoais, e eu estava "toda cagada’’ de medo de falar sobre mim. Logo, fluiu e fui tomada por um clima de irmandade, era sobre se sentir pertencida. Tudo havia dado certo, eu fui chamada para fazer parte do grupo, assim algumas muitas emoções e sentimentos chegaram naturalmente: havia conforto, havia medo, havia esperança. A esperança era e continua sendo o mais importante sentimento, para mim, ela remete à nossa utopia: viver a filosofia e ética do ubuntu. A minha própria identidade em construção se viu alinhada com a perspectiva de entender a psicologia como uma ciência que se movimentou, evoluiu, progrediu, mas que ainda tinha muitas dívidas com a sociedade. Após uma série de identificações entre nós, logo vieram as diferenciações. Nossas experiências pessoais e profissionais nos moldaram muito diferentes umas das outras, eu me vi encarando os meus limites pessoais e os limites de outras mulheres negras. A dor, 95


muitas vezes, criou pontes entre nós. Descobri que a própria ordem do grupo era capaz de produzir outras desordens. Mulheres negras juntas se cuidando e cuidando de outras mulheres negras é dolorido, é esperançoso, é desafiador, é conflituoso, é confortável, é amigável, é ajuda, é saudade. O propósito de permanecer lutando foi a Roda quem me deu e, por isso, eu sou eternamente grata. Mas nem tudo são flores, ainda estamos em construção e amadurecendo dentro de uma estrutura que impõe sobre nós a submissão. Então, não há mais nada urgente e poderoso do que tanta mulher preta reunida que fala por si, com as mãos na Roda.

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Beatriz Moreira

“Todo o ser humano nasce com um Solinterno. É de responsabilidade da comunidade Acender esse Solpara o nosso livre caminhar na vida”

É com esse lindo provérbio filosófico Kindezi da cultura BântuKôngo que inicio o relato do que é ser e estar na Roda, acredito que muitos dos meus percursos me conduziram diretamente para onde estou, partindo de uma graduação em que me via sozinha reivindicando um local de fala, escuta e representatividade na psicologia, almejando espaço que pudesse contemplar os meus e principalmente a mim, enquanto uma mulher negra recém-formada, que acreditava na pluralidade das existências e o impacto que a sociedade traz nas vivências de diferentes corpos que nela habitam. O ano era 2019, início de um sonho. Tinha muito desejo, medo, incertezas e inseguranças. O objetivo era iniciar a carreira dentro da psicologia de forma honesta comigo mesma, não cedendo a teorias que não me contemplavam, mas queria agir e devolver o conhecimento que me foi dado para auxiliar o meu povo, mas até então, escondido, silenciado e patologizado nas aulas de psicologia. É louco, porque quando se é mulher, negra e bissexual, você sonha com vivências melhores, espaços que podem ser alcançados a partir das bolhas que vai furando, tendo o desejo de conhecer algo que faz sentido, indo além de uma lógica de análise feita para um sujeito branco, hétero e cis. Eu era uma sujeita desejante, sedenta pelo aprendizado que apenas uma psicologia ética-clínica-política poderia me oferecer, e então os meus caminhos me trouxeram até aqui, o espaço que amorosamente chamamos de Roda Terapêutica das Pretas. 97


Eu já conhecia a Roda de outros eventos, sempre enxerguei nesse ambiente uma oportunidade de afetar e ser afetada através da potência do aquilombamento, pois assim como eu, muitas jovens negras que possuem a oportunidade de trilhar seus caminhos na psicologia se emocionam ao pensar em um espaço de carinho e acolhimento para nós, pois a Roda não é um espaço pensado apenas para acolher pacientes negras e suas vivências, é um local pensado para nos protegermos do mundo que nos cerca, uma psicologia branca e elitista que silencia vozes e nos ataca. Olhando para trás, sinto que a Roda foi um ponto-chave para quem eu sou hoje, ela me acolheu e cuidou de mim, acendendo o meu Sol todos os dias com o seu histórico de luta, conquistas e puro desejo de se posicionar politicamente contra esse sistema cruel e racista que nos governa. Na Roda, eu pude perceber que é possível viver de uma psicologia crítica, sensível, acolhedora, inclusiva e reflexiva com quem acolhe e com que é acolhida. Tive o prazer de participar da minha primeira reunião com a coletiva em março de 2019, na casa da Aline. Um momento memorável em que pude conhecer aquelas que me antecederam e aquelas que, assim como eu, estavam ali desejantes para a nossa construção através do afeto. Não existem palavras para descrever as emoções que foram vivenciadas, o meu sonho havia se concretizado, eu estava prestes a realizar trocas entre as minhas, seguindo juntas na mesma direção e sendo conduzidas pela nossa representatividade. Lembro-me que fui muito bem recepcionada pela mãe de Aline, uma mulher negra gentil que, claramente, estava muito feliz de nos receber em sua casa e entendia o significado grandioso que o momento tinha, éramos trinta e três mulheres negras reunidas para pensar uma nova forma de ser e estar na psicologia, estávamos organizadas para a revolução e assim fizemos. 98


Fiz novos encontros e reativei vínculos antigos com amigas que fizeram parte da minha história em outros momentos, mas sempre estiveram comigo seguindo o mesmo propósito, e a afirmação dessa reflexão veio através de um reencontro nesse ambiente potente. Tamiris é uma mulher negra, atualmente, psicóloga e mãe de um pretinho lindo, esteve comigo no meu último ano de graduação, ela estava ali, tão encantada e maravilhada quanto eu. Naquele momento, perceber que conseguimos nos reunir e estar com tantas outras mulheres negras, com suas múltiplas histórias, gerações, personalidades e nuances, atuando de forma individual em prol do que acreditam e se jogando de um local singular para um coletivo. Um coletivo que acolhe e torna possível o que sempre desejamos. Tamiris e eu nos abraçamos, e nos emocionamos ao perceber que a nossa construção não seria solitária, e sim em conjunto como é até hoje. O pensamento naquele momento era um só, “eu não estou mais sozinha” Por destino, acabei sendo terapeuta de um dos grupos de acolhimento para mulheres negras da região da Zona Leste, outra experiência incrível que nos mostrou algo que já sabíamos. Foram mais de duzentas inscrições para o atendimento, em menos de uma semana. Mais de duzentas vozes que precisavam ser ouvidas, mulheres à margem de um estado genocida, que não respeita seus corpos e contribui para o seu processo de adoecimento psíquico. Encaramos o número tão alarmante de inscrições como um pedido de socorro dentro de um território periférico que precisava ser cuidado, mulheres pretas estavam em sofrimento e algo precisava ser feito. Vimos uma oportunidade de denúncia e reflexões sobre a saúde mental de mulheres negras periféricas da Zona Leste de São Paulo, no bairro de Itaquera. 99


Pensamos na negligência do estado e da rede de apoio psicossocial da região; considerando a grande procura e a superlotação dos CAPS, e nos deparamos com o propósito que nos unia enquanto Roda, reparar os possíveis traumas e violências que acometem a mulheres negras que vivem em constante sofrimento emocional por não serem ouvidas, compreendidas e não têm a oportunidade de ocupar espaços, e um deles é o do autocuidado, trazendo à tona a necessidade da nossa existência. O que constitui a Roda é um misto de amor e desejo de estar, mas ela também surge da necessidade de suprir as falhas do Estado para com a população negra, no que diz respeito a acessos à saúde, educação, serviços básicos, dignidade, autoestima, valorização pessoal e tantas outras coisas concretas e íntimas que nos foram tiradas. Em um dos nossos encontros, ouvi a seguinte frase “Eu sempre fui Roda.” e ela ecoa em nossos corações muito bem até os dias de hoje.

Eu sou porque nós somos e juntas temos a missão de acender o Sol de outras mulheres negras que, assim como nós, pensam em um mundo acolhedor e afetivo, onde poderemos ser quem somos sem estigmas e portas fechadas para nós, onde alcançaremos espaços bonitos de se estar, sendo eles afetivos, sociais, institucionais e que são nossos por direito.

“Eu não me sinto só na imensidão do céu” - Luedji Luna

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Conceição dos Santos “Na tradição de Ifá, existe um conceito de dualidade quando se trata da existência do mal e do bem. Yorùbás reconhecem o dualismo na natureza, mas não tentam reduzir tudo em uma categoria ou considerar uma característica natural absolutamente positiva (boa) ou negativa (má). É entendido que a operação do mundo se baseia na dialética de bondade (iré) e do mal(ibi). ” Trecho da Vivência de Culto ao Ori – Instituto Ekó (fev/2021)

Será a partir dessa perspectiva que darei contorno a minha história dentro da Roda Terapêutica das Pretas. Sento-me para escrever este relato, pego uma taça de vinho, um copo-d’água, ligo o som e começo a pensar sobre o que poderia registrar nesse espaço e eis que percebo, não propositadamente, que hoje é dia 26 de fevereiro de 2021. O que esta data tem a ver com minha presença na Roda? Hoje está fazendo três anos que fiz a cirurgia para retirada de um tumor maligno que chegou de fininho e se instalou em meu peito. Dentre tantos anos significativos em minha vida, nenhum se compara a 2018. Um ano de tratamento intenso. Entendam intenso na amplitude da palavra e no espalhamento dela aos diversos contextos de minha vida. Sempre acreditei que cada uma de nós chegou na Roda Terapêutica das Pretas no momento em que tinha de chegar. Eu quase cheguei em 2017, mas não era para ser naquele tempo. Meu tempo de chegar tinha que ser 2018 mesmo, mais precisamente em janeiro, mês em que tive a confirmação do câncer.

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Eu poderia ter desistido de fazer parte da coletiva, mas de algum modo eu precisava estar, pois entrar naquele momento era parte do meu processo de cura, parte das forças que eu iria precisar, parte do acolhimento que eu precisava receber, parte da potência que eu precisava reconhecer que ainda existia em mim independentemente dos enjoos da quimioterapia, beleza que eu precisava encontrar em meu corpo estando com outras mulheres pretas maravilhosas, mesmo quando fico careca (e olha que fiquei linda). O aconchego, cuidado, carinho e respeito compõem o combo de tudo que recebi desde então. A vida é um presente e experimentar coisas boas deveria ser uma constante em nossas vidas, porém esta dualidade da existência do bem e do mal me ensinou e ensina diariamente que iré (bom) e ibi (mal) são complementares de um modo intrigante e muitas vezes surpreendente, pois foi a partir desse mal, que foi possível despertar maravilhas que colho até hoje. Que o que sinto agora possa caber na palavra “Agradecida”.

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Daniela Cardoso A primeira vez que ouvi falar da Roda Terapêutica das Pretas (RTP) foi em uma reunião no CRP, em uma mesa sobre questões raciais. Naquela ocasião, quem apresentou o trabalho da coletiva foi uma exintegrante, a Daniela Trindade. Dias depois, nos encontramos em outro evento no Aparelha Luzia e ela, novamente, contou situações vividas na RTP que aguçaram-me as vísceras. Meses mais tarde, houve abertura do processo seletivo para a admissão de novas participantes, ali vi a minha oportunidade e não precisei pensar duas vezes. Foi com muito entusiasmo, e até um pouco de nervosismo, que participei de um encontro em uma tarde, onde pude me apresentar, falar sobre as minhas expectativas e do que eu tinha a oferecer. Desde que havia me formado, minha intenção era de realizar algum trabalho voluntário, mas eu não tinha encontrado um espaço que fosse tão casado com os meus anseios como ocorreu na RTP. Dentre tudo que ouvi naquela tarde, uma das falas que me marcou foi a dita por outra exintegrante, a Milena: "Caso vocês sejam escolhidas, irão descobrir que vocês sempre foram Roda!" Saí de lá em puro êxtase. Foi a primeira vez, em toda a minha vida, que eu estive entre tantas mulheres negras, todas psicólogas. Era inédito. A sensação de pertencimento ecoou de um jeito avassalador em mim. Podem passar anos, não esquecerei o que foi entrar em uma sala e ver tanta mulher potente junta. Foi uma explosão de emoção Receber a resposta da minha aprovação foi um momento ímpar e de tanto alento. Quando meu celular vibrou e li a mensagem, eu estava ao lado da minha mãe, que havia acabado de sair de uma sessão de quimioterapia, pois, na época tratava um câncer de peritônio. Quando contei à mamãe sobre a mensagem, ela me olhou nos olhos e disse: “Que .

orgulho eu tenho de você, minha filha. Tudo que você deseja, você consegue. Que bom que agora você vai poder levar o seu trabalho para mulheres como eu!” 103


E, foi ali, saindo do hospital, depois que minha mãe realizou um procedimento de saúde que eu também ouvi uma voz interior: - Você sempre foi Roda! - O sim por uma mensagem de WhatsApp deu início a um ciclo de muitas descobertas em minha vida. O sim chegou também em forma de abraço e com sabor de colo de irmã, dessas muitas que encontrei e encontro nessa jornada. De lá pra cá, foram muitas construções e desconstruções, encontros e desencontros, risos e choros. A RTP é tão o meu lugar que nem lembro como eu era antes. Pois nessa coletiva, pude experimentar a sensação de estar em grupo e reconhecer que, antes e em outros espaços, eu só era parte de um agrupamento de pessoas. Um grupo também se constitui pela identidade e com as mulheres da RTP eu me vejo, reconheço-me e consigo imaginar meu futuro. A RTP é o lugar onde pude e posso pensar, planejar, propor e onde me sinto livre pra ser quem eu sou. E foi também nessa coletiva que encontrei acolhida no momento de maior vulnerabilidade e dor de minha vida, a passagem de minha mãezinha Penha para o Orum, em 28 de dezembro de 2020, vítima da covid-19. Quando eu estive no chão, foi com as mãos de mulheres da RTP que pude contar para me levantar. Então, pela minha saudosa mãe, pelas mulheres integrantes da RTP, as que foram, as que são, as que serão, pelas mulheres negras a quem direcionamos todo o nosso trabalho e vocação e por todas nós. - Eu sou porque vocês são! Juntas seremos sempre Roda! Sigamos em Roda! Viva a Roda! Um agradecimento especial a Dani Trindade e Milena, Sua benção, minha mãe! Axé! Motumbá!

Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo! (Provérbio Africano)

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Ciclos: os finais são sempre re-começos Por Aline Campos Começamos a partir de uma demanda de mulheres negras, como nós, buscando por uma escuta racializada. Em sete, nos reunimos para dar o start, fomos crescendo e em três anos já éramos um grupo de quarenta psicólogas oferecendo a psicologia, nossa ciência de formação, escuta, cuidado e afeto para inumeráveis mulheres negras! Temos, sim, como numerar a quantidade de atendidas, mas, sem falsa modéstia, acredito ser impossível mensurarmos os reflexos do nosso trabalho, que reverbera através dessas mulheres e também de nós, integrantes da coletiva, que por onde passamos levamos a Roda com a gente.

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Hoje, cinco anos depois, celebramos a existência e, porque não dizer, resistência também dessa coletiva por onde tantas mulheres negras passaram, passam e passarão, com a certeza de que: “Uma vez Roda, sempre Roda!”. Sigamos! Dentro das nossas possibilidades, mas em movimento, pois como brilhantemente disse Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”, mas que possamos seguir sempre juntas, como bem diz o trecho de ciranda: “Companheira me ajuda, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor.” Viva a Roda Terapêutica das Pretas!!!

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