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Versão brasileira Herbert Richards Doncesão por Robson Assis em colaboração para o Per Raps

"é só o fim do começo, seja bem vindo ao circo" Com essa frase terminava "Primeiramente", o álbum de estréia do rapper Doncesão, lançado em 2008. Como no segundo episódio de uma saga, o rapper faz um gancho e inicia "Bem vindo ao Circo", seu novo álbum, com o trecho final de seu trabalho anterior. "Bem vindo ao circo", lançado para download gratuito no primeiro de abril (informações no final do post) é um disco conceitual que se alimenta com histórias de personagens circenses e cria um enredo paralelo que adapta, envolve e relaciona todas as suas 16 músicas, através da narração de Célio Costa com roteiro desenvolvido pelo próprio Doncesão. Apesar de sua data de lançamento, o disco traz tantas verdades quantas você puder imaginar. Como em geral acontece nos segundos episódios de sagas, o personagem principal começa a entender suas responsabilidades e parte rumo a descobertas que devem ajudá-lo a compor sua história. Tal qual um filme, é assim que Doncesão segue sua carreira em um disco excelente, com um trabalho de qualidade que aos poucos descobre caminhos e o ajuda a escrever seu nome na história do rap nacional. Particularmente, "Bem vindo ao circo" lembra bastante a trilha sonora de Pulp Fiction, um clássico do cinema em que através do disco é possível reviver a história sem a necessidade de rever o filme. Os personagens criados neste "roteiro" de Doncesão possuem vida e indiscutível profundidade. É possível reconhecer o rapaz comum por trás de "O despertar do mágico", assim como é fácil vislumbrar a beleza da mulher desejada em "Ilusionista", talvez a melhor do disco.


Entretanto, ao contrário do que você possa estar pensando, "Bem vindo ao circo" é muito mais que um disco de histórias contadas. Sua beleza está em como Doncesão relaciona os personagens ao cotidiano. Para citar apenas dois exemplos, em "o domador de leões" ele reflete sobre a superação de dificuldades, ao passo que em "Homem Bala" ele fala sobre um homem que se torna um problema para si mesmo.

César Tavares, o Doncesão, é um rapper que flerta com diversas estéticas para criar seu rap. Como você poderá perceber no disco, ele trabalha assuntos inusitados e abordagens inteligentes sem perder o fio, sempre com uma adaptação perfeita às batidas de DJ Caique, o nome por trás do estúdio 360 Graus, que se tornou uma espécie de selo de qualidade no rap nacional. Caique é responsável por todas os beats do disco. Além do pano de fundo repleto de elementos circenses também estão presentes no álbum referências musicais como bolero, rock, groove, samba, entre outros. Com destaque especial para as produções com violão e piano, que elevam o rap de Doncesão a um alcance muito maior de gostos e afinidades musicais. Por fim, "Bem vindo ao circo" consegue traçar um amadurecimento profissional do rapper. Mais que isso, marca a afirmação artística de um talentoso expoente do rap brasileiro que começa a mostrar ao mundo que o rap, meu truta, não está no jogo para andar na corda bamba (com o perdão do trocadilho).

FAIXA A FAIXA "Bem vindo ao circo" abre com uma introdução homônima que nos remete ao disco anterior e conta uma pequena hitória sobre a vida desses artistas circenses, muitas vezes tão marginalizados quanto tantos outros que fazem arte contra cultural. A historieta finaliza com um garotinho batendo à porta de seu chefe para a entrada de "Bilheteria", um dos grooves mais brilhantes do disco, que fala de dinheiro relembrando a lendária frase de Biggie Smalls 'mo' money, mo' problems' (mais dinheiro, mais problemas). Com rimas contagiantes, métricas variadas e versos inteligentes, rápidos e sutis, esta música prende imeadiatamente o ouvinte para o que vem a seguir.


"Malabares", a sequência do disco, conta com a ótima e imprescindível participação de Lurdez da Luz num samba bem proposto para o desenrolar da obra. A cadência pesada e caótica de "O despertar do mágico" cria um contraponto com base neste conto, a história de um homem simples, que termina também com uma narração impecável: "Ele é José, ele João, comum como qualquer cidadão Veste a camisa abotoa botão em botão Observa seu filho que brinca no chão A esposa, aplicada, que pássa o café Ouve alto no rádio os hinos de fé E sente aperto no peito que toda mulher sente Ao ver seu marido sair pela porta da frente" Em "O Equilibrista", o rapper cria mistério ao contar uma fábula e transportá-la com naturalidade para o mundo real: "se equilibra, se concentra, se mantém na linha reta, na linha da vida minha poesia se completa". O autor toma o lugar do personagem num enredo que caminha sob a linha tênue e imprecisa do real e do imaginário. Após a curta e acelerada "Fogo", entram em cena os bonitos acordes de violão de "Cego, surdo e mudo", que tem participação do Elo da Corrente e um dos beats mais bonitos do disco. Em "ZOOado", DonCesão relembra que todos somos animais com a citação de George Orwell no clássico A Revolução dos Bichos: "todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros". "O atirador de facas", com participação de Shaw, tem um elegante clima árabe e rimas rápidas bastante precisas. As pesadas participações de "Homem Bala" apostam e interagem com um clima de ação. A música conta com os convidados Mi (Glória), Pizzol e Dr. caligari. A velocidade e peso dessa música são um contra balanço tático ao bolero na introdução de "Domador de Leões", uma das melhores rimas e abordagens de Doncesão ao tema, afinal "domar leões" é, basicamente, o que todos nós fazemos ao superar as agruras da vida. A partir da 12ª faixa, cria-se uma pequena trilogia romântica onde o disco atinge um ápice com a belíssima "Ilusioniosta" e um excelente refrão cantado por Elliot (Gloria) como há muito tempo não se ouvia no rap. É a prova mais clara de que Doncesão conseguiu reunir em seu disco tudo o que um bom roteiro pede: doses certas de aventura, realismo, ação e romance. Ainda neste clima, "Applebum" mantém a qualidade do refrão com influência claramente buscada no lendário A Tribe Called Quest. Essa pequena novela segue com "Amor Perdido (Desilusão)", um pequeno bolero com sabor de ressaca amorosa: "um pequeno bilhete e mais nada, era apenas nanquim sobre a folha rasgada, manchada das lágrimas que derramava, borrada da tinta que ainda secava". É então que "Bem vindo ao circo" se despede com "Palhaço de cara" e formaliza seu pequeno adeus em "O show já terminou", esta última com as ótimas participações de Ogi e Rodrigo Brandão. Nesta música, Doncesão diz "definitivamente o fim insiste em se instalar aqui". É o fim por enquanto, mas esperamos que ele continue a brindar seu respeitável público com obras primas deste gênero.

Don Cesão, Bem vindo ao Circo  

Don Cesão - Bem vindo ao circo, resenha para o Per Raps

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