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Ano: 2010 . nr 10 . Mês: Novembro . Mensal . Director: António Serzedelo . Preço: 0,01 €
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ELAS SÃO PESSOAS COMO NÓS Dia 25 de Novembro assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Violência Contra as Mulheres. Mais uma vez somos confrontados com dados que retratam de forma crua este flagelo nacional. Durante 5 anos, trabalhei com vítimas de violência doméstica. Foram 5 anos de aprendizagem de como as relações de poder se podem extremar, de como um homem pode olhar para uma mulher, não como uma pessoa mas como um objecto que se usa e abusa porque ele entende que é dele e pode fazer o que quiser, até mesmo matar. Esta é a realidade das mulheres vítimas de violência doméstica. São pessoas como nós, mas que tiveram a infelicidade de incluir na sua vida privada e na sua intimidade um abusador. E é por estas mulheres, que são cidadãs com direito à protecção do Estado, que temos de melhorar, cada vez mais, o nosso sistema no que diz respeito ao combate deste crime hediondo e imperdoável. Por acção inicial das ONG´s que colocaram este tema na agenda política na década de 90, nos últimos 10 anos a evolução da legislação e da acção das forças de segurança nesta matéria foi extraordinária. Desde o momento em que se classificou a violência doméstica como crime público em 2000 deu-se uma viragem na forma como este crime passou a ser tratado na sociedade portuguesa. São exemplos claros dessa evolução, a autonomização do crime na última revisão do Código Penal, a Lei da Violência Doméstica aprovada em 2009 que dá carácter de urgência às queixas e cria o estatuto de vítima, os três Planos Nacionais na área da violência doméstica que têm vindo a ser implementados desde o final da década de 90, cujo IV Plano tem estado em discussão pública (Portal da Igualdade). Mas também a formação específica das forças de segurança privilegiando os atendimentos feitos por mulheres agentes, ou os espaços específicos e mais privados para receber as vítimas deste crime. E por fim as respostas no terreno
através de espaços de informação e 36 casas abrigo que existem em todo o país. São avanços que se traduzem no aumento do número de queixas apresentadas nos últimos anos e que só de 2009 para 2010 cresceram cerca de 10%. Perante toda esta evolução, temos um quadro legal bastante adequado, contudo seria necessário que a justiça fosse mais eficaz na aplicação da lei e para tal seria essencial mais condenações e aplicação efectiva de penas. Apesar da lei da violência doméstica permitir a detenção do agressor por 48h, mesmo não havendo flagrante delito, seria fundamental que a segurança das vítimas quando apresentam queixa fosse salvaguardada através do afastamento imediato do agressor sempre que as forças de segurança avaliassem que havia risco e este passo ainda não foi dado, como é sabido o afastamento só pode ser decretado pelo Juiz. Porque o que acontece na prática é que as vítimas acabam por ter que abandonar as suas casas e recolherem-se em casas abrigo como se fossem elas as criminosas, muitas vezes com os filhos, ficando o agressor na casa de família. A realidade pura e dura dos números de homicídios ou de tentativas de homicídio dizem-nos que o sistema ainda não funciona como devia, dizem-nos que há cidadãs neste país que correm risco de vida todos os dias e algumas acabam por ser assassinadas. Com base no Observatório da UMAR 29 Vítimas mortais em 2009 ao que se somam mais 28 tentativas de homicídio. Este ano os números ascendem para cerca de 40 casos. Há um alerta a fazer, há um trabalho que tem de ser continuado, mas há sobretudo a necessidade urgente de trabalhar para que as novas gerações, os homens e as mulheres de amanhã, se relacionem de igual para igual, em prol do direito à felicidade e não ao de morrer às mãos daquele com quem escolheram para partilhar os afectos. Catarina Marcelino
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O Irresistível Charme Uma certa classe média, mesmo, não se discutem com representada neste governo, os do pé rapado uma espécie assumiu apoiar o diktat eu- ao jeito dos velhos sans culloropeu da correcção do défice. tes ou ventres ao sol. PrefeEles são gestores de empresas riram naturalmente os ricos, públicas, intelectuais, profes- à direita, situada no PSD, até sores, médicos e académicos. porque lhes puxa a mentaliSão jovens com potencial, e dade para recorrer ao amo e estão tantas vezes a pagar casa senhor nas aflições. A posição do governo não em Telheiras ou na Alta de Lisboa, bem longe dos elegantes foi, ao princípio, demasiado servil. Já semanas antes, anuncondomínios da Lapa. Dispõem-se a obedecer ciava aliás unilateralmente o com a redução das presta- pacote de renovada austerições públicas para baixar a dade, surpreendendo a direita despesa, a cortar nos salários e Cavaco, com um programa e a aumentar certos impostos. aparentemente trancado. Mas Temem porém o fim da Caixa não sustentou tal firmeza e Geral de Depósitos pública, acabou por ceder a um proinquietam-se com o fim do cesso formal de negociação. Os ricos que moram na Lapa, Serviço Nacional de Saúde e da Escola Pública, e con- naqueles espaços restaurados por talentosos sideram uma decoradores, com aventura troUma certa vistas sobre o rio car a Segurança no ângulo da JaSocial Pública classe média, nelas Verdes, espor esquemas representada ses, prestaram-se insustentáveis, neste governo, a retirar o máxivide os exem- assumiu apoiar o mo de vantagens plos estrangeidiktat europeu da da situação. ros, dos fundos correcção do défice Disseram que privados de emprestavam os pensões. É uma votos se não fosclasse média sem afinal casque deposita as suas esperanças nos motores tigados por mais impostos, e públicos para estimular as en- se o governo aceitasse mais e comendas privadas e fornecer mais cortes na despesa. O seu grande fito estava, porém, na emprego aos parentes. Por não dispor de votos su- possibilidade de forçar o Estaficientes no parlamento, deci- do a vender os preciosos actidiu-se por um compromisso vos acumulados por gerações que salvasse a situação. Aos e gerações de portugueses. Se remediados, não lhes passa o Estado encolher, se deixar pela cabeça falar aos do cola- de financiar insolventes – os rinho azul porque, os assuntos pobres estão muitas vezes à de dinheiro, de muito dinheiro beira da insolvência – é certo
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leonardo da silva
da Lapa que deixará de ter défice, parece ser a tese da direita. A liderança do PS ainda flirtou com eleições antecipadas, na ideia de que a direita sairia responsabilizada e o PS alcançaria um bom resultado eleitoral afinal de contas. Não é bem isso que dizem as sondagens pelo que foi sol de pouca dura a atitude de mostrar os dentes. É que o PS tem uma matriz de bloco central nos seus dirigentes e houve, portanto, quem pensasse melhor nos riscos de derrocada eleitoral e temesse um ainda maior ricochete contra os activos da classe média. E lá foi o Ministro das Finanças, de mão estendida, pedir à Lapa um voto para viabilizar o Orçamento. Podia ter sido noutro terreno menos simbólico, mas nem essa sensibilidade houve. Teve mesmo de ser na Lapa. Para os remediados pesou mais a concertação com os ricos mesmo que significasse o prenúncio da morte do governo de Sócrates a curto prazo. Para se salvar, a classe média não só cede à responsabilização que o eleitorado vai fazer ao PS, como permite creditar a imagem providencial do candidato Cavaco Silva. Isto para não dizer que muitos apoiantes do PS se aninham já hoje assustados no regaço da direita. É verdade que a ruptura, sem uma correlativa ideia de alternativa económica e política, seria um mero desagravo, algo inconsistente, senão mesmo aventureiro. E esta desorientação em relação a saídas alternativas pesou ao fim
e ao cabo na inclinação para a que os EUA estão a fazer, reproduzindo afinal os erros com servil embaixada à Lapa. Os que no PS forçaram o que se encararam outras crises acordo bem podem dizer que do capitalismo, como a de 29 não foi assim tão adulterada do século XX. Essa orientação a sua visão de distribuição si- penaliza os povos e enfrenta métrica dos sacrifícios, pois, o generalizado protesto em a direita só impediu a subida França, Grécia e Portugal e no IVA do leite com chocolate. pode conduzir de resto a UE a A direita conseguiu, não obs- uma crise sem remédio. Quer pelas peripécias do tante, importantes trunfos, na medida em que emprestou a processo, quer pelo protesto sua abstenção a troco de uma contra o plano inclinado da vastíssima penalização para o crise, quer ainda porque a nePS e adia para melhores dias, cessária estabilização pode apenas, a arremetida para o falhar, por tudo isto é muito frágil o presente acordo. derrube do governo. A força dos de colarinho A derrota de quem no PS e no governo mais disponí- azul ainda se vai fazer sentir vel estava para uma ruptura, com todo o seu estrondo na Greve Geral deve-se à fortíssima de 24 de Nointromissão da lideOs ricos que vembro. rança alemã na UE. O protesTerá Angela Merckel moram na Lapa, to é só meio pressionado para naqueles espaços caminho para que o acordo se restaurados por empreender viabilizasse mesmo talentosos decorauma mudandepois de rompidas dores, com vistas ça, na medida as negociações. sobre o rio no ângulo em que conDesde sempre tém já um olhada pela classe da Janelas Verdes, embrião de média como espa- esses, prestaram-se alternativa ço de prosperidade, a retirar o máximo positiva. É torna-se nestes dias de vantagens da porém vera UE um edifício situação. dade que a cheio de portas feconsciência chadas onde esbarsocial está a ram as esperanças evoluir, ainda dos povos. Já era mau que a ortodoxia dos trata- que de forma contingente. Tandos impusesse o pacto de esta- to pode desaguar numa ilusão bilidade, sem redistribuição su- quanto às promessas da direita, pranacional a favor das regiões como pode consolidar-se não e países menos desenvolvidos. só em efectiva e aceitável simeMas pior ainda é gerir a crise tria de sacrifícios, mas sobreà alemã, com mais retracção tudo num novo compromisso económica, ao contrário do social que mobilize o país para
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a retoma económica, assente numa nova base política e numa nova aliança de classes. Fora dos condomínios da Lapa é claro. O grande teste à aprendizagem social é já o processo das presidenciais em 23 de Janeiro. Quem consegue acumular mais capital político: Cavaco Silva, o pai deste pacto e desta política, ou uma visão moderna, reformadora que agregue e ponha a dialogar os de colarinho azul com os da classe média? O pluralismo com que se debate o futuro do país à esquerda, nas suas várias candidaturas presidenciais, onde naturalmente pontifica Manuel Alegre pelo seu ensejo agregador, não é uma fraqueza, necessariamente. Bem pelo contrário, é ou pode ser o caminho para superar a presente situação. Com a consciência de que o País enfrenta bloqueios dificílimos por parte do directório europeu, só superáveis por novas alianças supranacionais e avanços da esquerda na Europa. E também com maior atenção ao espaço extra-europeu. O país pode compreender a vantagem de jogar com a nossa Constituição e numa maioria presidencial progressista que facilite soluções inovadoras, em sintonia com os fustigados pela crise, os desempregados, a juventude e os próprios trabalhadores do Estado. Paulo Fidalgo Dirigente dos Renovadores Comunistas
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“Rua de Dentro”, pelo Bando Estreia, neste dia 25 de Novembro, “Rua de Dentro”, levada à cena pelo Bando, nos Barris, em Palmela. Sem subterfúgios, assume-se como uma peça sobre mulheres, nucleadas, personagens principais. Tal deriva do facto das criadoras serem mulheres: “A importância disso é tão significativa como pouco relevante.”, dizem-nos: “O próprio paradoxo do feminismo é esse mesmo: existe para que não faça sentido existir. A humanidade busca-se no real, não no especulativo, a universalidade está em cada uma de nós. Não procuramos espelhar esse contexto como uma imitação/ilustração da nossa vida quotidiana de mulheres: aceitamos a premissa de que a arte é artifício. No entanto, trabalhamos a partir das sensações concretas. É nesse paradoxo entre um contexto real e uma expressão cénica simbólica que pensamos encontrar a linguagem para este espectáculo. O teatro não se faz de ideias, faz-se de acontecimentos, do presente, do enigma, do inominável. A concretização caminha ao lado das ideias. À medida que o sonho avança, as ideias esclarecem-se.” Na linha de fogo de fronteira entre o já imaginado e que ainda existe por imaginar, com o selo de qualidade do grupo, dá-se a estreia de Sara de Castro como encenadora, ao lado do bem conhecido João Brites. Sara de Castro formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema e trabalha como actriz desde 1998. Desde 2006 faz parte da equipa permanente do Bando. Cooperante, é a responsável pela Gestão Administrativa e pela Coordenação Geral da equipa. É membro da direcção da companhia. Paralelamente à sua actividade artística esteve ligada desde cedo ao associativismo juvenil e ao activismo social e político, no qual se destaca a participação em vários
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movimentos de defesa das causas feministas. Não é pois de espantar que esta peça seja algo de profundo, pois permite aliar
a sua carreira às suas mais profundas convicções: “Eu escolho afirmar-me como feminista. E sei que esta afirmação carrega em si
uma herança, um peso político, social e cultural. Os feminismos são diversos, a luta das mulheres tem tido tantas e tão variadas
expressões. Mas não é essa a história de todos os movimentos, de todas as ideologias? Não sabemos nós que, em nome de ideais, por vezes as posições se radicalizam? Porquê este preconceito em relação ao feminismo? Será antiga e desajustada a luta das mulheres? Será que deveríamos hierarquizar as injustiças? Há discriminações que são mais discriminatórias do que outras? Eu vou continuar a gritar. Grito que sou mulher, muitas vezes oprimida e quotidianamente discriminada.” Porém, não se trata de uma peça sobre feminismos, mas centra-se sim à volta das identidades, as existentes e as que deveriam existir. A sugestão fica aqui consumada, pois como é apanágio do Bando, sabemos que espera-nos uma representação efémera, mas que ficará a ressoar no nosso interior por muitos anos. O enquadramento é, já de si, estimulante, pois espera-nos: “Um espectáculo onde o palco se estende pela encosta e a plateia espreita por uma janela para a RUA DE DENTRO. Tudo o que foi construído pode ser desconstruído. Aqui, neste lar no meio da serra, neste abrigo onde chove sempre, neste labirinto que se agita, dá-se o encontro de três mulheres de três gerações diferentes. Juntas elas descobrem as certezas e as dúvidas que as abalam, as cadeias e as liberdades que as sustêm. Juntas reflectem sobre as suas vidas, íntimas, femininas, a caminho da transformação. E depois disso, dão voltas à casa, dão voltas às suas fugas e prisões. Mudanças interiores e exteriores que reflectem o que é possível, que espelham o que antes não se via, que iniciam caminhos até então desconhecidos. Na RUA DE DENTRO há uma porta por abrir.” Leonardo da Silva
Começo por lhe dizer que reconheço o mérito do seu trabalho à frente da Câmara Municipal de Setúbal e mesmo discordando de muitas das opções do executivo camarário, admito que a sua perseverança e a sua dedicação ao município e aos setubalenses são exemplares. Mas depois de ter lido a sua entrevista no jornal SUL – Jornal Cultural e de Debates, do passado mês de Abril, não posso deixar de lhe manifestar o meu espanto e indignação. Ou a Senhora Presidente não conhece o trabalho dos movimentos feministas em Portugal e no concelho que governa ou, ainda pior, conhece e subestima o trabalho desses homens e mulheres que diariamente lutam contra as discriminações de género. Como é que se pode afirmar como não sendo feminista, quando o feminismo como movimento intelectual, filosófico e político pugna por um mundo mais justo, em que os direitos sejam, de facto, iguais, e em que a vida de mulheres e homens esteja liberto de padrões opressores baseados em normas do género? Tendo sido V/ Exa. já vítima dessa discriminação, como afirma na sua entrevista, esta sua declaração é ainda mais estranha. A Senhora Presidente defende que “a jornada da vida deve ser complementada pelos nossos parceiros homens”, mas em que definição de feminismo viu a senhora presidente que as correntes do feminismo defendem o contrário? Todas as mulheres, mas principalmente as que têm responsabilidades sociais e políticas, e que são, de alguma forma, formadoras de opinião, têm uma responsabilidade acrescentada. A responsabilidade de não perpetuar preconceitos. E o que as suas palavras revelam é um grande preconceito em relação ao feminismo. Os discursos, como o de V/Exa., que valorizam as dicotomias, sublinhando que as mulheres são mais isto ou mais aquilo e que são melhores que os homens nesta ou noutra actividade, só ajuda a fomentar a ideia de guerra dos sexos. E como V/Exa. sabe a luta das mulheres é muito mais valiosa e profunda que isso.
Acredita a Senhora Presidente que a sua eventual boa governação deriva do facto de ser mulher? Não derivará da sua competência intelectual e política, da sua sensibilidade social? Estas qualidades têm género? Estará a Senhora Presidente convencida de que tem mais sensibilidade social por ser mulher? E não contribuirá essa visão para a perpetuação do estigma de associar o trabalho das mulheres a actividades cuidadoras? E não será esta estigmatização um atentado contra uma efectiva liberdade de escolha? Imagino que os seus ideais estejam fundados no marxismoleninismo e conheço também as contradições históricas que se colocaram e colocam às mulheres comunistas: a luta de classes será sempre hierarquicamente mais importante que todas as outras. Mas a mim, permita-me que lhe diga, hierarquizar as opressões em nada contribui para a mudança social. Acredita mesmo que só depois da revolução contra o capitalismo se concretizar é que poderemos lutar pelos direitos das mulheres? A luta pelos direitos das mulheres não pode ser enclausurada nas questões das classes sociais porque é transversal a todas as classes, etnias, credos, etc. Reconheço que os direitos cívicos, políticos e económicos de que hoje as mulheres usufruem foram alcançados também com a luta de muitas mulheres comunistas e parece-me altamente contraditório que uma mulher comunista afirme que não é feminista. As mulheres continuam a ser descriminadas, a ser vítimas de violência e de todo o tipo de injustiças. Esta sua posição fragiliza todas e todos os que dedicam muitas horas ao activismo social, inclusive no concelho de Setúbal, em prol de uma vida melhor para as mulheres. Assim, pedia-lhe que repensasse se, de facto, não é feminista. Aproveito para a convidar a vir à estreia, dia 25 de Novembro, do próximo espectáculo do bando, “Rua de Dentro”, uma reflexão sobre a existência, conjugada no feminino. Saudações cordiais, Sara de Castro Coordenação Geral
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06 ACTIVISMOS
Resultado de dinâmicas de transformação económica, tecnológica, social e política, as carreiras deixaram de ser uma sequência previsível de fases, num percurso escolar e profissional marcado pela segurança e estabilidade, para tenderem a ser pautadas por mudança e imprevisibilidade. Este padrão surge na lógica das economias globalizadas, em que a competitividade das organizações, assente na redução de custos, no aumento da produtividade e na flexibilização do trabalho, conduz, muitas vezes, à diminuição do número de pessoas com emprego fixo. Esta realidade, se por um lado permite novas oportunidades, por outro também leva ao aumento do número de desempregados ou dos que vivem situações profissionais precárias. Nestes contextos, os jovens, as mulheres e as populações diferenciadas quanto à sua condição étnica, racial, económica e de saúde, estão na primeira linha de virem a confrontar-se com estes obstáculos ao seu desenvolvimento da carreira. A adolescência é uma fase do ciclo de vida em que muito do desenvolvimento humano é estruturado e do futuro vocacional se joga. Gradualmente, o papel de trabalhador vai ganhando importância relativamente aos restantes papéis da carreira, perspectivando-se como importante factor de realização pessoal, abrindo novos espaços para a expressão do conceito de si próprio e à concretização da autonomia desejada. Também é um período em que a crescente maturidade psicológica faz sentir as tensões entre o sonho e a realidade, aumenta a consciência de que os caminhos a percorrer exigem lidar com múltiplas barreiras, implicando, por vezes, recuar ou seguir caminhos que não estavam previstos.
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De pequenino se torce o pepino
O conjunto de resultados aponta Investigação que tenho realizado sobre as representações que para que o reduzido crescimento os jovens portugueses têm dos económico do país, associado às obstáculos ao seu futuro escolar elevadas taxas de desemprego e e profissional evidenciam que, de emprego precário, tenha padesde muito cedo, interiorizam ralelo nas representações que os valores e crenças influentes dos jovens constroem da sua carreira planos que fazem para o futuro. no futuro. Os estudos realizados Num dos estudos participaram no âmbito deste projecto mostram que a generalidade 1005 jovens, 221 dos participantes (22%) frequenA têm, desde cedo, a tavam escolas discriminação percepção de que as secundárias do limitações no acesso distrito de Évo- sexual é a barreira ao ensino superior, ra e 784 (78%) do significativamente a precariedade dos distrito de Setú- mais considerada vínculos laborais ou bal. Na amostra pelas raparigas a falta de emprego total, 583 (58%) serão as mais imeram raparigas portantes barreiras e 422 (42%) raao seu desenvolvipazes, de idades compreendidas entre os 13 e os 23 mento da carreira. Para alguns, anos (M = 16 anos), 488 (48,6%) acresce a percepção de barreiras frequentavam o 9º ano (M = 14.5 da carreira específicas do grupo anos) e 517 (51,4%) o 12º ano (M = de pertença. Relativamente às diferenças de 17.5 anos).
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género na percepção de barreiras nos dois níveis de escolaridade, os resultados confirmam outros obtidos em Portugal e no estrangeiro. As raparigas, apesar de terem maiores níveis de aspiração do que os rapazes, também tendem a considerar mais barreiras ou a atribuir-lhes maior grau de dificuldade. A discriminação sexual é a barreira significativamente mais considerada pelas raparigas, relativamente aos rapazes. Entre as raparigas, do 9º para o 12º ano, verifica-se ainda um crescendo da importância da imagem corporal como possível limitador do seu desenvolvimento da carreira: “Ser discriminado no acesso ao emprego devido à idade” e “Ser discriminado no acesso ao emprego devido à minha aparência física”. Os dados de anteriores investigações permitem colocar a hipótese de a percepção deste tipo de barreiras resultar da interiori-
zação de exigências sociais para com a imagem corporal feminina, no geral (e.g. muita da publicidade relativa a dietas e a produtos de beleza são dirigidas ao público feminino), e com a constatação de que em muitas profissões se coloca este tipo de exigências às mulheres. Estes resultados, associados ao facto de as raparigas considerarem o assédio sexual a barreira da carreira mais esperada, permitem questionar quanto à importância das significações associadas à imagem corporal dos adolescentes, para o seu desenvolvimento da carreira. Neste quadro, tendem a emergir sentimentos de desânimo e frustração, muitas vezes partilhados pelos educadores, que minam o valor da escola e do trabalho como possibilitador de um futuro melhor. Paulo Cardoso Docente Universitário – U. Évora
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ACTIVISMOS 07 Há mulheres que vivem 20 e 30 anos sob o jugo de uma relação violenta. São mulheres adultas, e por isso perguntase porquê. Há homens que vivem o mesmo período de tempo no papel de agressores. Saem de casa para ir trabalhar, convivem com amigos/as, vizinhos/ as, colegas e ninguém faz ideia do que se passa “lá dentro”, quando voltam ao fim do dia para casa. Face a esta realidade, podemos reflectir sobre várias “estranhezas”: Por que nos referimos a mulheres no papel de vítimas e a homens no papel de agressores? O que é que paralisa uma pessoa durante tanto tempo numa permanência diária de sofrimento? Seremos nós, os/as amigos/as, vizinhos/as, colegas todos/as cegos e cegas para uma realidade tão gritante que acontece mesmo ali ao lado, muitas vezes na nossa própria família? No dia 25 de Novembro assinala-se o “Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres”. Os números não deixam dúvidas, em Portugal, desde 2004 até final de Outubro deste ano, morreram 216 mulheres, vítimas de homicídio conjugal e, em média, cerca de 90% das denúncias ou pedidos de ajuda para situações de violência doméstica têm a mulher como vítima. Ao nível mundial, e alargando o âmbito da violência contra as mulheres, basta pensarmos que, por ano, 4 milhões de mulheres de todas as idades são compradas como “mercadoria” para prostituição, escravatura e casamentos forçados e que 2 terços das crianças que actualmente nunca foram à escola são raparigas.
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A prevenção da violência doméstica
As mulheres continuam a ser penalizadas pela sua situação de maior vulnerabilidade, que se deve ao simples facto de terem nascido mulheres. E ainda assim, os feminismos continuam a ser olhados “de lado” como se de pragas se tratassem que, apenas pela sua menção, nos tornam a nós, mulheres, subitamente mais feias, mais frias, mais desadequadas e menos femininas. É a altura de nos questionarmos quando é que o “estar errado” está certo. Não, as mulheres vítimas de violência doméstica não têm nada “a menos” que as impeça de dizer “basta”. Estão simplesmente impedidas. Pelo medo que as oprime e as enfraquece anos a fio. Mas também, e muito, pelo olhar social que vive dentro delas e aí entrou subtilmente desde a infância, sem que se distinga
da sua própria vontade ou bém o olhar que nos permite aferir, enquanto crescemos, desejo de mudança. E é aqui que entramos to- se estamos a agir de acordo dos/as, os/as amigos/as, os/ com os cânones estabelecidos as vizinhos/as, os/as colegas e familiar e socialmente. Somos sempre um entre familiares. Este é o nosso olhar. Um olhar colectivo, enraizado outros, na família, nos grupos a que pertencee ancestral que mos, no bairro, representa um na cidade. As poder paralisanDesde 2004 crianças e jovens te no caminho até final de Outubro que são vítimas para a igualdade deste ano, morreram d e v i o l ê n c i a de género. Uma doméstica pela igualdade entre 216 mulheress, os homens e as vítimas de homicídio agressão física, verbal, psicolómulheres e não conjugal gica, económiuma igualdade ca ou sexual, ao em que uns continuam “a ser mais iguais do que crescerem, transformam-se, outros”, sejam eles homens ou em muitos casos, em adultos/ as vítimas ou agressores/as. elas mulheres. Este olhar social é um poder É urgente quebrar o ciclo e inominável, um poder estrutu- franquear um futuro de merante e fundamental quando se nos constrangimentos quando trata de educar para a cidada- se trata de nos auto-determinia e para a igualdade e é tam- narmos, sejamos mulheres ou
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homens. A SEIES - Sociedade de Estudos e Intervenção em Engenharia Social, é uma cooperativa que faz trabalho de intervenção social há 30 anos e que desde 2006, com o apoio da Segurança Social no âmbito do programa PROGRIDE, desenvolve no concelho de Setúbal projectos de prevenção da violência doméstica. Actualmente, através do projecto VOA – Vontade, Optimismo e Autonomia (financiado pelo POPH - Programa Operacional Potencial Humano), o objectivo continua a ser provocar a “desocultação” da violência, quebrar o silêncio, romper com o isolamento “entre 4 paredes”, de betão ou de preconceitos sociais. O caminho é complementar ao de outras instituições e projectos que trabalham para uma maior segurança das pessoas vítimas de violência. O nosso é maioritariamente com crianças e jovens, apoiando-os para que questionem sempre. Aquilo que se instalou como “normal” mas não é. Aquilo que vamos permitindo e com o qual somos cúmplices, aceitando-o ou “voltando a cara para o lado”. A mudança não se faz somente “por decreto” (embora este ajude muito). Faz-se lentamente e por dentro de cada uma e de cada um. Não nos deixemos enganar, a cada denúncia ou pedido de ajuda (e eles estão a crescer todos os anos) não significa que a violência esteja a aumentar, significa antes que alguém adquiriu a consciência do direito a ser feliz. A prevenção passa por todos e todas nós. Joana Peres SEIES | Projecto VOA
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08 ACTIVISMOS
Violência doméstica: Questão/Acção Quando em Portugal falamos de violência doméstica, a realidade espelha uma dualidade que pode ser compreendida, mas que não pode, nem deve ser minimizada. Esta dualidade reflecte por um lado, os resultados advindos de estudos e que apontam para um decréscimo da violência doméstica e, por outro lado, dados que atestam e confirmam um crescimento médio anual de 11,3% quer das denúncias/queixas apresentadas pela prática do crime de violência doméstica nos órgãos de polícia criminal, quer um aumento de pedidos de apoio recebidos e acompanhados pelos Centros, Núcleos de Atendimento e Casas de Abrigo. A leitura que fazemos, é a de que hoje temos maior consciência da violência enquanto violação de direitos humanos e que estamos mais sensibilizados para nos opormos a um fenómeno que é, em si mesmo, resultado e gerador de desigualdades profundas, que coarcta a liberdade, humilha e incapacita para a acção. Hoje, mulheres e homens estão mais conscientes dos seus direitos, têm maior facilidade em obter informação e o acesso a esta é-lhes mais facilitado. De igual forma, a alteração das concepções de família, relação familiar e de intimidade, de vivência das conjugalidades e do casamento como espaço de par-
ou de que pelos filhos havia também porque ainda hoje que tudo suportar, justifican- e com particular incidêndo-se a sua subalternidade e cias nas mulheres, a violênsubjugação ao poder no mas- cia continua a ser denomiculino, em suma, o fardo do nador comum. Milhares de mulheres continuam a ser fado, sem alternativas. Porque de extrema impor- insultadas, ameaçadas, viotância, salienta-se ainda, a lentadas, expulsas de suas visibilidade dada à violência casas, refugiadas e aquardoméstica, a sua discussão no teladas em Casas de Abrigo espaço público, a sua inclu- com os seus filhos e filhas, são na agenda política, o sur- sujeitas a ameaças e persegimento de respostas sociais guições mesmo após a sua específicas e aumento da qua- saída de casa acabando, não lificação para a intervenção, raras vezes, por serem mortas, às mãos de a participação maridos, comdas academias no Neste cenário p a n h e i r o s e melhor entendinamorados, mento do fenó- de terrorismo ou com quem meno, a natureza doméstico, a mantiveram pública do crime violência tem de relações de e alterações legisser repudiada e intimidade ou lativas recentes, o seu combate, conjugalidade. assim como uma Neste cenácrescente consci- encarado como rio de terroência cívica de que tarefa colectiva rismo domésesta é uma questico, a violêntão em que se deve cia doméstica, meter a colher. Estes são, entre outros, fac- tem de ser repudiada e o seu tores que somados, têm tor- combate, encarado como nado possível uma prática tarefa colectiva. A construe uma resposta mais eficaz ção da igualdade, da vivência neste domínio e que determi- plena de direitos e deveres, da nam, pela maior confiança no educação para a cidadania e sistema de apoio, que mais se respeito ao outro, do dizer e denuncie a situação de violên- viver o “NÃO À VIOLÊNCIA!”, cia que se vivencia e se pro- assumem-se como imperativos categóricos, para mulhecure apoio. Não obstante o alcan- res e homens. çado, a realidade demanda acção continuada, com espeElisabete Brasil cial acuidade junto dos mais Jurista jovens e na área da prevenDirectora Executiva para a ção. A realidade exige acção, Violência de Género - UMAR
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tilha, de encontro, de afectos e de igualdade, tem vindo a ganhar espaço e a desmistificar a crença e a herança que a
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grande maioria das mulheres carregaram por séculos: a de que o casamento era para toda a vida, custasse o que custasse,
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screamst
“Homens contra a Violência”
Seguindo a tendência europeia e norte americana no que respeita ao surgimento de movimentos masculinos contra a violência, um grupo de homens, socialistas e independentes, afirmando a sua identidade de género e a sua responsabilidade cidadã e política, tomam posição pública contra a violência afirmando os seguintes princípios: Afirmamos uma masculinidade responsável e não violenta;
Defendemos uma representação social da masculinidade pacífica e positiva; Subscrevemos o artigo 5º da Carta dos Direitos Humanos “ninguém será submetido a tortura, nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”; Reafirmamos a legislação portuguesa e o dever de todos os cidadãos e cidadãs de denunciar actos de violência doméstica de que tenham conhecimento assim como o
dever das entidades públicas, com responsabilidades nesta matéria, de agirem eficazmente contra este flagelo; Defendemos as relações privadas entre homens e mulheres na base da liberdade, da igualdade e do respeito mútuo; Condenamos as relações familiares que afirmam o poder pela violência; Repudiamos a violência física, psicológica e institucional e defendemos que a violência
de género não pode continuar a ser encarada com uma visão assistencial mas tem de ser colocada no domínio do crime que é; Defendemos que os homens dentro das suas famílias e na sociedade têm de contribuir de forma presente para uma educação das crianças assertiva, afectiva, saudável e não violenta; Queremos contribuir positivamente para uma sociedade onde homens e mulheres, afir-
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mando a igualdade de direitos e deveres de cidadania, promovam a solidariedade e a justiça social, combatendo lado alado a violência de género; Afirmamos publicamente, por todos os motivos enunciados, o nosso total repúdio por qualquer forma de violência e o nosso total empenho na erradicação da violência de género. Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres Setúbal, 25 de Novembro de 2006
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Frei António das Chagas, reformador e homem de valores cristãos, numa das suas numerosas missivas do Século XVII, foi o primeiro a deixar em escrito a sua preocupação face à situação de fragilidade em que se encontravam as órfãs e viúvas de Setúbal: “Este papel de V. R. me busca na Serra da Arrábida e me acha pouco menos que nos campos de Tróia; não naquela a quem o incêndio desfez em cinzas, mas outra, a quem o mar tem submergido em areias. Tanta ruína padecemos à vezes por acendidos como por areados, tantas pelo fogo que nos abrasa, como por um mar que nos cerca; porque, se naquele o ardor é o maior perigo, neste a frieza não vem a ser menor dano. Chegado a Tróia, ou mal escapado de Tróia, onde me vi areado com minhas culpas, porque lá me devia mais advertir-me este dia que a Arrábida, apenas, me deram o papel de V. R., que estimo quanto devo, e ao mesmo passo em que sinto que V. R. não esteja, como eu cuidava, pobre de espírito, pois tem próprio para mandar, não querendo nada para ter. Deixemos isto, e vamos aos medos que V. R. me escreve. E bem faz, que as cousas más não se podem tentar sem medo; mas já este pudera estar perdido,
josé luís neto
Antecedentes históricos do apoio às vítimas femininas em Setúbal
pois sabe que neste mundo não sirvo mais que espantalho. Aqui cheguei a Setúval, para ver se podia dar princípio a um recolhimento que desejo para certas mulheres. Brevemente entendo que deixarei este povo; porque em tão pouco tempo não se pode fazer muito, e é necessário recolher-me algum tempo. Se antes disso passar a Lisboa, como suspeito que será em breves dias, lá nos veremos e satis-
faremos a tudo, com o favor de Deus.” (Cartas Espirituais, I, 60, 1673-74) Conjuntamente com a fundação do Seminário de Brancanes, procurou instigar a criação de um recolhimento para mulheres pobres e honradas, que seria de erigir junto à capela de Nossa Senhora da Saúde, da confraria de pescadores que aí se encontrava. Frei António das Chagas veio a falecer sem con-
seguir os seus intentos, porém, os sacerdotes de Brancanes fizeram uma petição ao monarca, monarca que obrigou a Câmara a deliberar e construir esse recolhimento, pelo que esta reuniu várias entidades locais para esse intento, a 4 de Dezembro de 1700. Todavia, só em 1746, desta vez instando junto da confraria dos pescadores, conseguem os padres de Brancanes o apoio para a sua construção.
O objectivo não podia ser mais claro: Num termo de 13 de Fevereiro deste ano, lavrado pelos vogais da Mesa e mais irmãos da Irmandade de Nossa Senhora da Saúde, consta que o juiz da mesma Irmandade declara que os padres missionários de Brancanes, tendo reconhecido pelas suas missões, que muitas donzelas honestas, virtuosas e recolhidas se achavam em perigo iminente de se perderem pela força da necessidade, não lhes sendo possível acolherem-se a algum dos dois mosteiros que existiam em Setúbal, por carecerem dos meios indispensáveis para conseguirem admissão em qualquer deles; e considerando que sendo Setúbal a terra mais populosa do reino depois de Lisboa, não tinha contudo um recolhimento para essas pessoas pobres e virtuosas, falta que era sentida por muita gente, que tanto desejava que esse estabelecimento […]. Só vem a abrir, todavia, em 1748, sendo acautelados os direitos paroquiais, impedindo, a partir de 1761 a entrada a quem não tivesse dinheiro para se sustentar ou que não se pudesse sustentar com o seu trabalho de mãos, tendo as recolhidas votos de obediência e clausura. José Luís Neto
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Jantar cultural seguido de debate sobre a “violência de género” com Elisabete Brasil JANTAR 10 folias (8 folio divinus)
Jantar Cultural com Sara de Castro do Teatro O Bando “teatro com causas e causas para o teatro”
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CULTURA Mudar o paradigma – porquê? para quê? II PARTE (Parte I inclusa no n.º 8) A viragem de século, correspondendo a um fim de ciclo político de lógica geracional, as dinâmicas impostas pelas novas elites mais qualificadas e com maior grau de exigência em relação às políticas locais alteraram profundamente a vida da cidade. No entanto, embora estejam já no seu terceiro mandato no poder local os comunistas e aliados não alteraram significativamente, no que diz respeito ao campo do teatro, (por inércia ou falta de coragem?) as circunstâncias herdadas dos finais do século passado. Outras cidades já o fizeram, tendo incentivado movimentos culturais mais dinâmicos e abrangentes, por comparação com as realidades anteriores, que se projectam no país e noutras regiões do mundo. É claro que para estas novas realidades contribuíram os investimentos feitos em espaços físicos, como os teatros municipais, os centros de artes e casas da camente) o facto de não gostar de teatros, por estes corcultura. Percebe-se assim a urgência responderem por natureza a da reabertura do Teatro Muni- espaços cívicos e de particicipal de Luísa Todi. Chamo- pação democrática. As obras de requalificação lhe Teatro e não Fórum porque, na minha opinião, deve do teatro municipal, a reedifiser esta a sua designação. cação do histórico espaço do Círculo CultuPor ser esta a ral (futura Casa forma mais corPercebe-se da Cultura) são recta para desigprovas evidennar um espaço assim a urgência tes da existêncom as funções da reabertura do cia de invescomuns a uma Teatro Municipal timentos no sala de espectá- Luísa Todi sector cultural. culos, ao cumTodavia, esse primento das investimento tarefas próprias de um pólo cultural virado não compensa as necessipara a sua comunidade, con- dades de “alojamento” das ferindo-lhe dignidade efec- diversas estruturas activas. O tiva. O termo Fórum é um teatro municipal não substidisfarce de que se socorreu tui a verdadeira dinamização quem nunca assumiu (publi- cultural, só conseguida atra-
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vés da diversidade da programação dos espaços, feita pelas próprias companhias e os seus públicos. É, repito, importante o reconhecimento público do esforço feito pela autarquia (e pela comunidade, sobretudo, no caso do Luísa Todi). Investimento que está em muitos aspectos ao nível de outros concelhos, embora com largo atraso temporal, no âmbito do património material e dos equipamentos culturais. Todavia, no terreno das parcerias com os agentes culturais e dos apoios (de vária ordem) às actividades persiste uma situação que se caracteriza, inadmissivelmente, por configurar uma desequilibrada distribuição dos investimentos locais. As medidas neste
campo orientam-se por um único critério: o da continuidade das políticas anteriores, o que facilmente conduz à manutenção do status quo discriminatório existente há décadas. Para alterar esta situação é necessário mudar o paradigma (ainda) subjacente às políticas para a área da cultura e das artes. Abandonar a visão meramente assistencialista que as (des)orienta. Entender o investimento na cultura e nas actividades artísticas como o cumprimento de competências regulares das entidades do Estado. Os apoios, financiamentos ou subsídios atribuídos para o desenvolvimento de actividades artísticas fazem parte das relações de parceria no
domínio do Serviço Público, estabelecidas entre a autarquia e os agentes culturais. O investimento na cultura e nas artes é garante de democracia, por fomentar a igualdade de oportunidades no acesso à fruição cultural, o desenvolvimento artístico-estético das populações e a coesão social. O investimento nas actividades culturais e artísticas, dirigido para a promoção da diversidade dos projectos contemporâneos de criação, preservação e actualização do património identitário, garante o desenvolvimento integral da pessoa enquanto indivíduo e membro de um colectivo social. Fernando Casaca
fernandocasaca@teatrodoelefante.net
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CULTURA 13 Após a publicação no número anterior de um breve artigo sobre os negros do Sado, queríamos expor alguns dados sobre aquela que foi das maiores, senão a maior diáspora mundial. Como é previsível as marcas deixadas por essa migração são profundas, significativas nas sociedades de acolhimento, mas, de igual modo, nas de envio. Várias foram as formas criadas por essas sociedades para lidar com esse património secular. Ignorá-lo é recorrente, tal como o é relembrá-lo. Duas grandes linhas culturais se podem encontrar nesse esforço de preservação da memória. A primeira é a cultura anglo-saxónica. Em Inglaterra podemos encontrar algumas instituições que são relevantes deste ponto de vista. É o caso do The International Slavery Museum, inaugurado em 2007, descendente da Transatlantic Slavery Gallery, do Merseyside Maritime Museum de Liverpool, que havia sido criada em 1994. A galeria era uma estrutura museológica de pequena dimensão, mas com uma lin- muito bem conseguidos, bem guagem museográfica muito como a documentação acadéforte, geradora de emoções mica que estava disponível na intensas, uma vez que toda loja do museu. Actualmente, a explanação de conteúdos o The International Slavery Museum é uma era feita a partir de estrutura de um porão de navio Várias foram grande dimennegreiro recriado. são, referência A ausência de luz as formas criadas impor tantísnatural e a indu- para lidar com sima na museção de sensações esse património. ologia especíde claustrofobia Ignorá-lo é recorfica de direieram transmititos humanos, das ao visitante rente, tal como é variante do Tráatravés da ceno- relembrá-lo fico Negreiro grafia expositiva, o que aumentava a eficácia transatlântico. Encontramos da mensagem. Os materiais ainda em Inglaterra outros pedagógicos de apoio eram museus dentro desta temática,
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Memórias do tráfico negreiro transatlântico
como a Wilberforce House, em Hull, casa-museu de um destacado abolicionista, bem como, em Londres, o London Sugar & Slavery, integrado no Museum in Docklands, criado em 2007. Nos Estados Unidos muito são os museus que tratam esta temática, como o The African American Museum of Philadelphia, criado em 1976, sendo o primeiro museu municipal sobre esta temática. O The Charles H. Wright Museum of African American History, em Detroit, é o mais antigo, saído directamente das lutas emancipadoras do Orgulho Negro,
criada pelo activista e médico Charles Wright, em 1965. Com a nova construção, que decorreu entre 1987 a 1997, tornou-se no maior museu dedicado ao tema no mundo, apenas agora ameaçado pelo projecto de Washington, promovido pelo Estado Central. Contudo, muitos outros museus existem nos Estados Unidos dedicados ao tema da história dos afro-americanos. Chicago, Dallas, Baltimore, New Orleans, etc., albergam-nos, mas é em S. Francisco que existe o MOADS – Museum of Africa Diáspora, bem distinto dos anteriores, pois fun-
ciona em rede internacional, bem aberta. Trata-se de um museu com uma missão global e total, algo evidentemente inatingível. Privilegia, mais que o tráfico transatlântico, as mais valias económicas, sociais e culturais das diásporas mundiais, em todas as épocas e em todas as latitudes, pois assume que todos os povos do mundo são provenientes de África, de acordo com as teorias aceites sobre o processo de hominização. Foi criado em 2005, tendo uma existência tanto física como virtual. José Luís Neto
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joão lino
Trago um “Pedaço” de natureza até vós para que a possam contemplar
Quando olhamos para um objecto artístico podemos sentir, raras vezes, espanto. E quando o espanto se sobrepõe é impossível esquecê-lo. Não profiro o espanto perante a beleza dos cânones clássicos, não pronuncio o do despertar de sensações e sentimentos de ternura e adesão, falo de espanto elementar e contundente. Foi assombro que subjugou as pessoas que passaram por aqueles dias no passeio marítimo de Cascais, junto à praia da Poça e se confrontaram com um cubo de areia com 2 metros de lado. Os olhos pasmaram-se perante o que tinham defronte dos olhos, um sólido de areia com forma perfeita. “Não, não é possível”, bradaram incrédulos. Durante toda a nossa vida percepcionámos que não existe essa possibilidade. Ela choca com a nossa percepção do mundo. Um cubo de areia é um contrasenso. Seria isto ilusionismo? Tivemos de lhe ir tocar … e era mesmo areia. Logo ali se reuniu uma pequena multidão para opinar sobre a situação e três correntes dali sobressaíram. Uns proferiam: “Isto não deveria existir. Queime-se na fogueira das
heresias!”, enquanto outros para chegar à mostra tem de defendiam: “Milagre, mila- se passar por uma pré-segre! Vamos erigir um santu- lecção e João Lino fez parte ário” e, por último, uma outra do restrito grupo de 15 finafacção que dizia: “Isto é uma listas. Tal constituiria, por si, dádiva. Levemos o cubo para motivo de regozijo. Ver um a Marinha Grande, para pro- ainda jovem artista concordução de vidro e ajudemos a rer com outros nomes a nível nacional e internacional de economia nacional.” Afinal, era apenas uma peça créditos firmados despoleta a concurso na 3.ª exposição internamente o famoso síninternacional de escultura, a drome sentimental do “David Artemar Estoril 2010, intitu- vs. Golias”. A exposição internacional lada “Pedaço”. Trata-se de um sólido monólito de areia da Artemar-Estoril tem como autoria de João Pedro Alves objectivo veicular uma consLino, mestrando em escultura ciência ambiental através da pública na Faculdade de Belas arte pública, o que a torna Artes de Lisboa, licenciado num projecto impar no nosso em escultura pela FBAUL, país. Foi a partir deste objecvencedor dos prémios revela- tivo que o autor realizou o ção nas duas edições do Con- projecto, procurando reunir curso de Artes da RESARTE duas realidades em conflito. O cubo representa e Menção de milenarmente Mérito, Cono humano. A curso Artes Um cubo de areia, de forma P l á s t i c a s areia é um contraevidente, repre“Oriente/Ocisenso. Seria isto senta a natureza. dente – MisciAssim, “Pedaço” genações” da ilusionismo? pode ser analiFBAUL. João sado através de Lino, natural de Setúbal, nasceu em 1987 níveis de leitura sobrepose é um dos mais promissores tos, num jogo de interpretajovens artistas plásticos da ções quase infinitas. Pareceregião. Ter sido seleccionado nos legítimo entender, nesta para participar na Artemar manifestação plástica, uma é disso prova decisiva, pois asseveração da manipula-
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ção humana do mundo natu- nam-se perigosamente infiral, conformando-o às suas nitos, deixando a cada um a necessidades, num processo sua ideia, pois mais reflecde artificialismo que, em rigor, tirá os princípios e valores duvidosamente beneficia o seus, que os do artista, que transformado. É certo que as numa exposição bruta de 8 zonas costeiras já pouco de m3 consegue ludibriar-nos, selvagem têm. Os portos, as oculto no silêncio ensurdecedragagens, as construções, dor do seu monólito. Temos determinaram a domestica- de recorrer à memória descrição de barras, estuários, mar- tiva da peça, inclusa no catágens e arribas, conforman- logo, para perceber bem que, do-as à mansidão necessá- para ele: “Temos de ter em ria às actividades humanas. conta que a natureza existe sem o Homem, A partir daqui não precisa dele podemos tamQue perguntas para nada, mas bém vislumque o Homem brar uma crí- faz o monólito à não existe sem a tica, atendendo Tróia recriada? natureza. Somos à a b e r r a n t e E ao Portinho da eminentemente forma como se Arrábida? dependentes da distribui a areia, natureza.” Atenanómala e inopinada. Enfim, tratar-se-á de dendo às manifestações desta um manifesto ambientalista? realidade, aqui tão perto e há Não sabemos, mas podemos bem pouco tempo, que perperceber que “Pedaço” pro- guntas faz o monólito a Tróia cura também demonstrar que recriada? E ao Portinho da por mais que o homem trans- Arrábida? Em rigor nada forme, será sempre apenas muda, “mas é um alerta para um fracção da totalidade da a união da beleza da natunatureza afectada. Aí, tanto reza com a perfeição humana, poderemos seguir um cami- levantando a questão sobre nho interpretativo que ali vê a forma como nos deveríaum estímulo ao progresso, mos equilibrar com a natucomo podemos observar uma reza e com o mundo.” crítica à vaidade humana. A partir daqui os caminhos torJosé Luís Neto
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As elites demitidas, ou a demissão dos cidadãos? Há hoje por trás de muitas críticas a que assistimos, feitas a eito, contra Sócrates, o Governo, e o sistema, inúmeras confusões, e alguns até confundem o sistema, com Sócrates, Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes, Cavaco. Mas todas elas vivem de um substrato cultural reaccionário, que têm um pé em Berlusconni, machismo e xenofobia, e outro em Sarkozy, populismo e oportunismo. E eu pergunto, tal como vejo perguntar na imprensa estrangeira? Como é que os (nossos) políticos, eleitos democraticamente por todos nós, são em tão pouco tempo sujeitos a campanhas de desprestígio tão terríveis, por parte dos seus adversários, com a conivência passiva de todos aqueles que são seus supostos apoiantes? Isto denota uma falta de confiança entre os políticos e os cidadãos. Mas isso justifica insultar sistematicamente, quem ocupa cargos de poder, desde as Câmaras, aos Governos? Insultar para destruir, fulminar, fazer assassínios de carácter, com tanta sanha, e tanto ódio? Há dias, o Presidente da República deitou mais uma acha na fogueira que ele próprio acendeu, há vinte anos, ao referir, publicamente no facebook, que existe uma “desconfiança das pessoas nos políticos”. Este estado de alma, agora tornado público, é grave, pois estamos a atravessar um momento crucial, em que precisamos de lideranças e de credibilidade, até internacional, que essa expressão não facilita. Não andamos muitos de nós à procura de bodes expiatórios, para cobrir a nossa indi-
ferença, as nossas faltas e egoísmo sobre o serviço público, e só sabermos ser retro -activos, em vez de ser pró -activos? Os cidadãos quando depositam o seu voto esquecem-se, ou ignoram, que muitos daqueles em quem votaram, e votam sempre nos mesmos, entraram nos partidos não tanto por convicção ideológica, mas por puro oportunismo. E, depois de terem votado neles, acham que tudo ficou resolvido, como se os homens/ mulheres votados não fossem gente como nós, fossem sobre-dotados, e não precisassem de ser escrutinados nas suas acções, vigiados, sujeitos à nossa crítica, e ao comentário. São deixados ao abandono, e entregues aos aparelhos partidários, deixando assim, de ter qualquer contacto com a vida real, e com quem os elegeu. Aproveitando
liberta dos seus tiques de sectarismo, de umbiguismo, e de rigidez, com medo de avançar no caminho da abertura e da invenção, de novas formas de convivência que respondam às necessidades do mundo novo que está inevitavelmente a aparecer. É tempo de deixar todas essas velhas praticas que nos enredam, e avançar mais no futuro, sem repetir os erros do passado. Só assim seremos ouvidos, e seremos mobilizadores. Senão, vamos ter de assistir a muitos “Tea Parties” europeus, que Aznar, Berlusconni e Sarkozy pré-anunciam, já que já temos entre nós muitas televisões ou programas do tipo “Fox News”, dos EUA.
isto, certa cidadania, mascarada de democracia, está em guerra (civil) com os políticos, e a blogoesfera é um dos seus teatros mais activos, e faz disso seu apanágio. Entretanto, alguma esquerda vendo-se atascada, tal como a direita, compraz-se em demonizar os seus adversários/ inimigos, mas esquece muitas das suas complacências com imensas tiranias, e governos autoritários–nacionalistas. Esquece-se que não há Democracia sem Justiça, e vai deixando adiar esta, tornando por isso, cada vez mais, a Democracia um cenário formalista que afasta o cidadão. E a dita esquerda, que ostenta tantas bandeiras modernizadoras, não se
Vamos tentar aproveitando a crise, e as que ainda aí vêm, para como cidadãos activos e conscientes, dar a volta por cima, e pela solidariedade! De forma nova e criativa ! António Serzedelo Director
FICHA TÉCNICA: Propriedade e Editor: Prima Folia - Cooperativa Cultural, CRL Morada: Rua Fran Paxeco nr 178, 2900 Setúbal Telefone: 96 388 31 43 NIF: 508254418 Director: António Serzedelo Subdirectores: José Luís Neto Consultor Especial: Fernando Dacosta e Raul Tavares Conselho Editorial: Catarina Marcelino,Hugo Silva, Leonardo da Silva, Maria Madalena Fialho, Paulo Cardoso Directora de Arte: Rita Oliveira Martins Consultor Artístico: João Raminhos Morada da redacção: Rua Fran Pacheco n.º 176 1.º andar 2900-374 Setúbal E-mail: info@ jornalosul.com Site: http://www.jornalosul.com Registo ERC: 125830 Depósito Legal: 305788/10 Periodicidade: Mensal Tiragem: 10.000 exemplares Impressão: Tipografia Rápida de Setúbal Morada da tipografia: Travessa Gaspar Agostinho, nr 1 - 2º - 2900-389 Setúbal Telefone: 265 539 690 Fax: 265 539 698 E-mail: trapida@bpl.pt
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