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Catálogo Exposição Arte e Gênero

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ARTE E GÊNERO 9ª Exposição Coletiva dos Professores do Curso de Licenciatura em Artes Visuais da Unochapecó 2017


FICHA INSTITUCIONAL Prof. Dr. Claudio Alcides Jacoski Reitor Prof. Me. Gláucio Wandre Vicentin Diretor Área de Ciências Humanas e Jurídicas Prof.ª Me. Sonia Monego Coordenadora do Curso de Licenciatura em Artes Visuais Prof.ª Me. Márcia Moreno Coordenadora da Galeria de Arte Agostinho Duarte

CRÉDITOS DA EXPOSIÇÃO Prof.ª Me. Aracéli Nichelle Prof.ª Me. Janaina Shavambach Prof.ª Me. Márcia Moreno Prof.ª Dr.ª Mari Netto Prof. Me. Ricardo Garlet Prof.ª Me. Sonia Monego Artistas participantes Prof.ª Dr.ª Myriam Aldana Vargas Santin Texto Prof. Me. Ricardo (Garlet) de Pellegrin Produção visual e edição


ARTE E GÊNERO


APRESENTAÇÃO Com uma trajetória de mais de 20 anos, o Curso de Artes Visuais da Unochapecó vem contribuindo para a transformação educacional e cultural local e na região de Chapecó/SC. O principal objetivo do corpo docente do curso é formar profissionais capacitados para além da sala de aula, mas que sejam professores comprometidos com o ensino, pesquisa e extensão e que saibam compreender o processo de criação da arte, associando a teoria com a prática. Neste percurso, da mesma forma que falamos e pesquisamos SOBRE Artes Visuais em seus diferentes contextos, deveríamos desafiar-nos quanto à produção EM Artes Visuais e poéticas, explorando os limites do ser professor-artista na Universidade e disponibilizando a comunidade acadêmica um contato com trabalhos produzidos pelos seus docentes. Assim se originou a ideia de uma exposição anual dos docentes do curso, iniciada em 2008, cuja receptividade e desafio têm sido de muita valia, não apenas para os docentes e alunos do curso, como também para a comunidade interna e externa. Desde sua primeira edição, os docentes promovem encontros destinados à seleção do recorte temático problematizado. Em seguida, o grupo realiza leituras direcionadas e pesquisas, assim como discussões acerca das propostas que cada participante pretende desenvolver. Nessa perspectiva, a 9o Exposição coletiva dos docentes do curso de Artes Visuais-licenciatura, que tem como tema “Arte e Gênero”, conta com seis obras de Arte e uma reflexão teórica, proposta pela professora Myriam Aldana Vargas Santin (Doutora em Ciências Humanas), abordagem que é somada às percepções e às vivências de cada docente a respeito das questões de gênero na contemporaneidade. Márcia Moreno, Ricardo Garlet de Pellegrin e Sonia Monego.


Arte e Gênero

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No transcurso do século XXI, tanto em âmbito nacional como internacional, a categoria de gênero tem adquirido grande relevância, concentrando em seu redor disputas politicas, quando irrompe no mundo teórico para trazer explicações da complexidade das relações sociais da vida humana, colocando em pauta a urgência de refletir sobre as identidades, na medida em que cada ser humano tem o direito de ser, existir, e se identificar, sendo reconhecido e respeitado na sua escolha no seu meio social.


A exposição coletiva dos professores do curso de Artes Visuais que se propõe trazer à tona a temática de gênero por meio de expressões artísticas, colocam no cenário universitário a import ân cia da in corporação da perspectiva de gênero no currículo universitário, indispensável para oferecer uma formação de qualidade aos seus estudantes. Os estudos de gênero explicam os diversos significados atribuídos ao masculino e ao feminino em cada sociedade e em cada época da historia. Assim, cada sujeito, a partir de suas vivências, vai determinar como esses significados se concretizarão na sua identidade, podendo se identificar com os atributos determinados pela cultura para masculino e feminino ou exercendo sua liberdade de ser, escolhendo significados diferentes das expectativas predeterminadas. A partir desta consideração, rompese com a concepção exclusivamente biológica em que o masculino e o feminino são determinados pelo sexo biológico. Igualmente, a identidade de gênero,

assumida não determina a orientação sexual, já que as diferentes formas da vivência da sexualidade se definem pelo desejo e não por um órgão. A categoria de gênero permite a discussão de diversas temáticas relativas à identidade sexual, identidade de gênero, corpo, preconceitos, sexualidade, reprodução, concepções modificadas quando fogem do padrão universal da explicação biológica. Vejamos como esta exposição de arte visuais nos permite reflexões importantes sobre elas. Márcia Moreno, ao referir-se à origem biológica do ser humano, em tempos em que o termo gênero estabelece diferenças entre sexualidade e reprodução, remete-nos a refletir sobre a importância da separação entre reprodução humana e sexualidade. No mundo ocidental cristão a sexualidade vista como pecado, eliminando o prazer trouxe sérias deformações na compreensão das identidades sexuais. Ricardo Garlet em seu trabalho aborda a presença ou ausência da representação do nu masculino na arte


ocidental, lembrando-nos que, no cenário das discussões de gênero, se dá uma nova visão sobre a concepção dos corpos, afirmando como essas não são naturais, modificam-se, criam-se nas culturas, e cada ser humano o modifica de acordo com sua identidade de gênero. A norma heterocêntrica estabelecida em nossa cultura, adotada pelas instituições sociais, compondo a hegemonia de uma ordem social estabelecida, produz os preconceitos e intolerâncias marginalizando as comunidades lésbicas, gays, bissexuais, trans ou queer, tolhendo a possibilidade de uma vida com mais dignidade alegria e liberdade. Isto é o que nos alerta a arte apresentada por Sonia Monego ao representar as diversas formas de amar que não se encaixam nos padrões binários. De igual maneira Mari Neto em seu trabalho denuncia como nos processos de colonização e evangelização com a população indígena a homossexualidade passa a ser julgada como práticas culturais desviantes, provocando sérias interferências na cultura desses povos.

Ao exigir das teorias feministas explicações sobre a dominação masculina, a existência do patriarcado e as violências sofridas pelas mulheres, a categoria de gênero permite compreender os mecanismos da reprodução permanente da violência de gênero. Assim, a arte expressada no trabalho de Janaina Schvambach mostra “a sucessão de dias iguais onde o peso de ser mulher esmaga sonhos irrealizáveis”. Lugar social atribuído as mulheres pelo sistema patriarcal. Da mesma forma Araceli Nichelle aponta o sofrimento da mulher neste sistema como algo que compõe sua identidade deixando marcas que ficam registradas na alma. Contudo, sua arte representa a força, a luta e ação da figura feminina colocando-a como protagonista de mudanças indispensáveis na construção de uma sociedade menos desigual. A perspectiva de gênero contribui na identificação das injustiças construídas nas relações humanas,


ancoradas nos desvios da norma heterocêntrica, do sistema patriarcal, da dominação masculina, da superioridade do branco, pessoas que não se enquadram nas normas estabelecidas por estes marcadores sociais, são assediadas, agredidas e assassinadas. Que através da linguagem da arte possamos continuar refletindo sobre estudos que tragam desafios para a construção de uma sociedade mais humana e justa. Prof.ª Dr.ª Myriam Aldana Vargas Santin Possui Graduação em Sociologia, Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1994) e Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (2005). Professora titular da Universidade Comunitária Regional de Chapecó - UNOCHAPECÓ. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Políticas Públicas e Cidadania, Relações de Gênero.


ARTISTA

Aracéli Nichelle

Título: Sem título. Técnica: Desenho a grafite. Ano: 2017.

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Como representar a força, a luta e a ação da figura feminina sem isentar o silêncio, a submissão e a segregação que a acompanharam durante sua trajetória histórica? Algumas marcas são visíveis aos olhos, porém as mais profundas, sem poderem ser representadas, ficam registradas na alma.


ARTISTA

Janaina Shavambach

Título: Pés ou Dia de uma mulher qualquer (homenagem a Ana C.). Técnica: Fotografia digital sobre PVC e múltiplo. Ano: 2017.

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O trabalho é uma narrativa ficcional que se passa durante o dia de uma mulher anônima. A personagem vive angustiada, sofre com relações superficiais, trabalhos humilhantes, dores físicas e psíquicas. Ela apenas existe, uma sucessão de dias iguais onde o peso em ser mulher esmaga sonhos irrealizáveis.


ARTISTA

Márcia Moreno

Título: A tua origem. Técnica: Técnica mista. Ano: 2017.

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A obra “A tua origem” propõe uma reflexão em relação ao que concerne o biológico do ser humano. Em tempos em que o termo gênero é evidente nos diferentes espaços de convivência, procuro retomar, independente da orientação sexual, o sujeito é “resultado” do sexo biológico, ou seja, do masculino e do feminino. Segundo o autor Tilio (2014) “Dos sexos biológicos (macho/fêmea) decorreriam os gêneros (masculino/feminino) e seus papéis, numa relação de complementaridade sustentada pela necessidade de perpetuação da espécie humana. ” Trago o desenho de um pênis e de uma vagina junto aos seus “conceitos”, enfatizando o sexo biológico, de onde provêm os “Paulos”, as “Marias”, as “Danielas”, as “Paulas”, os “Augustos” ..., sem questionar a identidade de gênero, orientação sexual e expressão de gênero, apenas dizer que, se estamos aqui, estamos porque em algum momento “usou-se” do masculino e feminino para tal “realização”!


ARTISTA

Mari Netto Título: Sem título. Técnica: Imagem digital e arte textil. Ano: 2017.

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Para o povo Tupinambá aqueles que não são nem homens, nem mulheres, são 'tibira' e nas populações Guaicurus são chamados de 'cudinhos'. Os Mbya aceitam o 'guaxu', os Krahò, o'cuni'; e do mesmo modo, os Kadiwéu, o 'kudina'. Assim como eles, Krembreji do povo Guayaki, nem homem, nem mulher, usa cabelo comprido, tece, fabrica colares com dentes de animais e sementes. Considera o lugar das mulheres, seu mundo natural. Em sua tribo, os homens usam o arco na caça e as mulheres fazem as cestas. O lugar do homem é a mata, das mulheres, o acampamento. Ele está no acampamento entre elas, ele se aceita mulher e os Guayaki o aceitam desde que Krembegi não se coloque no papel de caçador, ele deve observar os limites, usar o cesto e não o arco. “Krembegi é homossexual porque é 'pane' [tem azar na caça]. [...] para os próprios Guayaki ele era um kyrypymeno (ânus-fazer amor) porque era pane.” (CLASTRES, 2003, p.126). CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de Antropologia Política. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.


ARTISTA

Ricardo Garlet

Título: P.P.I.C. (Protótipo de Projetor para Imagem Censurada). Técnica: Prototipagem tecnológica, materiais variados. Ano: 2017.

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O projeto P.P.I.C. (Protótipo de Projetor para Imagem Censurada) consiste em um dispositivo de projeção construído com materiais variados, o qual foi concebido para tornar visível a imagem de uma pintura censurada em meu processo criativo. O trabalho aborda a presença da representação do nu masculino na arte ocidental, recorrendo a uma gambiarra óptica para reproduzir uma imagem em pequeno formato, constituindo, dessa forma, uma visualidade mais fluida para a nudez. O intuito foi o de conceber um protótipo tecnológico que tornasse possível, devido a sua passagem técnica, a exibição da pintura de um nu masculino frontal, discurso que aproveitou da própria censura como uma potência poética.


ARTISTA

Sonia Monego

Título: Isso te Incomoda? Técnica: Objeto/Instalação. Ano: 2017.

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Muitas mudanças sociais, culturais, religiosas, sexuais têm ocorrido ao longo dos séculos. A forma de relacionamento entre as pessoas têm mudado e provocado intolerância, indignação, existe a dificuldade de muitos em aceitar a união de pessoas do mesmo sexo ou de etnias diferentes. Desde os anos 80 um movimento chamado queer procura estudar populações marginalizadas como os gays, lésbicas, drag queens, transgêneros e afins. Em uma leitura queer a questão de gênero se afasta da origem biológica hetero/homo ou masculino/feminino questionando a ordem social imposta que prevê uma continuidade entre sexogênero-desejo-práticas sexuais. Com o trabalho denominado “Isso te incomoda”, proponho uma reflexão sobre as diversas formas de amar. A rejeição sexual fora da heteronormalidade remete a fala do psicanalista Condardo Calligaris que diz, “Ninguém se incomoda com algo a não ser que isso seja objeto de um conflito interno. O homofóbico tem dificuldade em conter traços de homossexualidade que estão dentro dele”.


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