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Ano III - Número 10 Julho de 2010

.txt Vida de cobaia A utilização de animais em aulas práticas e pesquisas na Universidade

Parcerias A condição dos público-privadas restaurantes do campus da UFSM na UFSM página 8

página 10

50 anos depois, o que sobrou do Plano Diretor página 12


sumário 4

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entrevista

“Bate-bola” com Chico Gremista, funcionário mais antigo em atividade na UFSM.

de fora para dentro

Presente e futuro das cotas para indígenas na UFSM.

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de dentro para fora

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geral

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A atuação do Grupo de Agroecologia Terra Sul. A condição dos restaurantes e bares no campus da UFSM.

geral

As parcerias público-privadas na UFSM. 12

geral

O Plano Diretor original e o que sobrou dele depois de 50 anos.

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capa

A vivissecção e o uso de animais em pesquisas na UFSM.

paralelo

Para quem servem os canais universitários?

categorias

A terceirização de motoristas na UFSM.

ONDE VOCÊ JOGA SUAS PILHAS VELHAS? Lugar de pilhas, baterias e outros componentes tecnológicos não é no lixo, é em local adequado. Esses resíduos contêm metais pesados ou elementos tóxicos que podem prejudicar a natureza e a própria saúde da população que os descarta. Para promover maior reflexão sobre o assunto, ocorre a campanha Itens Tecnológicos – Tire essa carga do planeta. Recolher esses resíduos é o objetivo principal da campanha, pois quando em livre decomposição na natureza, esses objetos são altamente contaminados. A campanha acontece desde o dia 10 de junho, na semana nacional do meio ambiente, e continua até 20 de julho. Há vários pontos de recolhimento no campus da UFSM e também na antiga reitoria. A campanha faz parte do projeto OBJETIVAmbiental, que procura através da conscientização, disseminar a cultura da sustentabilidade e responsabilidade ambiental entre toda comunidade acadêmica. A promoção é da Objetiva Jr., empresa júnior de consultoria empresarial, vinculada ao curso de Administração da UFSM, formada por acadêmicos de diversas áreas.

o arco da velha

Fotos históricas mostram curiosidades à respeito da UFSM.

cultura

A história das primeiras Feiras do Livro de Santa Maria.

cultura

Mosaico de versos: os poetas daqui.

perfil

Conheça a história de Taci e Tati.

expediente Revista Laboratório do 5º semestre de Jornalismo UFSM Edição: Marília Denardin Budó Diagramação: Gianlluca Simi, Janayna Barros, João Victor Moura, Luciana Minuzzi, Nathália Costa e Tiago Miotto. Revisão: Caren Rhoden, Felipe Severo, Guilherme Gehres, Liana Coll e Michelle Falcão Professora Responsável: Marília Denardin Budó DRT/ RS 12238 Ilustração da Capa: Rafael Balbueno Endereço: Campus UFSM, prédio 21, sala 5234 Telefone: (55) 3220 8811 Impressão: Imprensa Universitária Data de fechamento: 29 de junho de 2010 Tiragem: 500 exemplares redacao.txt@gmail.com 2 .txt Julho de 2010

UFSM PARTICIPA D DA EFICIÊNCIA

“Percorrer a maior distância possível co eletricidade”. Esse é o desafio da 7ª Marat que contará com a participação de 17 un Paulo de 22 a 24 de julho. A UFSM tem tr últimas três edições. A grande novidade de A UFSM será representada pela Eficiên mais conhecida como Bambuzinho, e irá p gasolina e também com um a etanol. A dele dromo Ayrton Senna, em Interlagos, será d


carta ao leitor ESTUDANTES OCUPAM REITORIA Estudantes da UFSM decidiram ocupar o nono andar da Reitoria no dia 22 de junho, motivados por uma ação anti-democrática da Universidade, como alegam. A UFSM estava revendo e tentando aprovar uma nova forma de ingresso sem debate com a comunidade estudantil. A classe discente procurava debater amplamente com a sociedade e com a classe trabalhadora as ideias e posições sobre o sistema de ingresso à UFSM e como mudá-lo de forma mais democrática. Já a Reitoria pretendia aprovar o mais rápido possível seu sistema para que o vestibular pudesse ser realizado o quanto antes. A ocupação serviu para adiar a aprovação da proposta da Reitoria e abrir espaço para o debate com os alunos sem precipitações. Os estudantes conseguiram evitar a aprovação e o próximo vestibular se manterá no mesmo formato.

DA 7ª MARATONA ENERGÉTICA

Especismo é o termo que designa a discriminação entre seres vivos por serem de espécies diferentes, tendo alguns direito de dispor da vida dos outros. Enquanto a agonia dos outros é tolerada, o sofrimento dos iguais é considerado tortura. O questionamento dessa discriminação está na base dos movimentos de defesa dos direitos dos animais, a partir de uma mudança de paradigma no que tange à postura adotada pelos seres humanos diante dos animais, tomados, em suas idiossincrasias, como seus semelhantes. A reportagem de capa vem trazer à tona o modo como os animais são tratados dentro da universidade, percebendose que os questionamentos protagonizados pelos movimentos sociais de defesa animal estão chegando a passos lentos a essa instituição. Se os juristas costumam afirmar que a lei está sempre defasada, esta é uma matéria na qual a legislação avançou antes dos costumes. Além desse assunto, a edição número dez da revista .txt traz a polêmica discussão sobre as parcerias público-privadas, tendo como foco principal a propriedade intelectual das pesquisas desenvolvidas. Ainda nesse enfoque, apresenta-se a matéria sobre a terceirização do serviço de transporte na UFSM. Para problematizar as condições da alimentação da comunidade universitária, a .txt realizou vistoria em diferentes bares, e conta o que encontrou. A equipe averiguou ainda o porquê da invisibilidade dos indígenas ingressantes pela cota D do vestibular, e realizou uma viagem no tempo para entender os motivos pelos quais parte do projeto inicial da Universidade jamais se concretizou. O mosaico de poesias produzidas por santa-marienses vem enriquecer a editoria de cultura da revista, a qual traz, ainda, a história da Feira do Livro de Santa Maria. Desses e outros assuntos, desejamos uma ótima leitura!

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Foto: Divulgação/DCE

om o menor consumo de combustível ou tona da Eficiência Energética. O evento, niversidades brasileiras, ocorrerá em São radição na competição, com vitórias nas esse ano é o carro a etanol. ncia Energética de Santa Maria (EESM), participar com um carro elétrico, outro à egação de estudantes que vai até o Kartóde 24 estudantes.

Marília Denardin Budó

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Com a UFSM onde a UFSM estiver

entrevista

Instrumento meteorológico que Chico Gremista usa para medir a velocidade do vento

Ananda Müller e Jaqueline Araújo

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Fotos: Jaqueline Araujo

uando Lupicínio Rodrigues compôs a primeira frase daquele que viria a ser o hino do Grêmio Football Porto-Alegrense, certamente não imaginou que se adequaria tão bem a um determinado futuro bom torcedor. “Até a pé nós iremos” foi como José Francisco Medeiros, funcionário mais antigo em atividade dentro da Universidade Federal de Santa Maria, desenrolou a parte inicial da jornada dentro da Instituição. O amor desmedido pela família, pelo trabalho e pelo Grêmio –“com eles onde eles estiverem!”- guiam os passos de um homem de sorriso franco e mente aberta, gaúcho por vocação e por vontade, trabalhador por paixão e quase por teimosia. O gremista mais famoso da UFSM, que lembra com saudade dos tempos em que atravessar o campus era quase uma saga, há quase cinco décadas dedica sua vida ao setor de Meteorologia da Universidade. Chico soube elevar não apenas o nome do Grêmio, seu vício, mas também o da Universidade para e pela qual dedicou sua vida. Através desta entrevista, realizada em sua sala azul-celeste junto às instalações da Unidade Meteorológica da UFSM, conhecemos um pouco do universo de Chico Gremista.

.txt: Quando começou o trabalho na UFSM? Chico: Bom, eu sou natural de Júlio de Castilhos, e quando eu saí do quartel [prestou serviço militar obrigatório] fui pra casa, e onde eu morava havia a Secretaria do Estado, onde meu pai trabalhava. Lá tinha um professor que era agrônomo aqui na Universidade, só que ele trabalhava lá e aqui, e era professor do Departamento de Fitotecnia. Ele precisava de mais gente pra trabalhar aqui, e foi então que ele me perguntou: “Chico, tu não queres trabalhar comigo na Universidade?” Fazia uns quatro meses que eu estava parado, daí prontamente vim pra cá. Isso foi exatamente em 1° de dezembro de 1965. São 45 anos aqui na UFSM. .txt: E quais foram as primeiras atividades que o senhor desenvolveu dentro da Universidade? Chico: Aqui foi o primeiro e único lugar, fora o quartel, que eu trabalhei. Antes eu só estudava, depois fui pro quartel e vim pra cá. Fiquei dois anos trabalhando no Departamento de Fitotecnia. No início, eu ajudava nas aulas práticas, colocava e montava os aparelhos, deixava tudo organizado para que quando chegassem

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o professor e as turmas estivesse tudo pronto. Eu também cuidava do livro ponto dos funcionários, isso tudo em 1965. Em 1968 foi quando veio a estação meteorológica para cá, um convênio entre a Universidade e o 8º Distrito de Meteorologia de Porto Alegre. Daí fui convidado pra trabalhar lá, e eu prontamente disse que sim. Claro, tive que me aperfeiçoar melhor, estudar mais, terminar o segundo grau, pois quando eu vim para cá tinha só o primeiro grau. Aí fui estudar. Eu morava aqui mesmo, dentro do Departamento. Morávamos entre oito. Fui estudar lá no Ginásio em Camobi. Depois que terminei o segundo grau, fiz cursos de aperfeiçoamento para poder entrar no serviço de meteorologia. Entrei como auxiliar de observador, depois fui observador e agora sou técnico em meteorologia. Cheguei ao máximo que podia com o meu grau de estudo. .txt: E a ligação apaixonada com o Grêmio? Chico: Isso foi uma febre que me deu quando eu era ainda bem ‘guri’. Eu tinha oito anos de idade, lá em Julho de Castilhos, e tinha um primo com quem eu convivia bastante. Um dia, ia ter um Gre-


.txt Nal. E daí esse meu primo, que era mais velho do que eu, e achava que por isso entendia das coisas, disse que ia torcer pro Inter nesse jogo. Eu, só pra contrariar, disse que ia torcer pro Grêmio. Pronto, a partir dali foi um amor que eu ‘agarrei’ pelo Grêmio que nem sei. Quando comecei a trabalhar, e comecei a comprar coisas, tudo que imaginava do Grêmio eu tinho. O pessoal da rádio [Rádio Universidade 800AM] descobriu fácil isso. Como eu transmitia os dados todos os dias, em um dia, no momento da minha intervenção na rádio, o Saccol (César Saccol, jornalista da Rádio Universidade) e o Cândido (Cândido Otto da Luz, também jornalista da Rádio Universidade e da TV Campus da UFSM) falaram que tinha que ter um apelido pra me identificar. Bom, pra mim tanto fazia, daí ficou Chico Gremista. Eu comecei a participar falando sobre o futebol e o Grêmio no programa deles, além da parte da meteorologia. E como começou a sair fotos no jornal e tal, e eu participei também de programas na televisão e nas outras rádios, o pessoal do consulado do Grêmio aqui em Santa Maria começou a me observar e vieram me convidar pra participar desse consulado, sendo que eu fiquei três anos participando dele.

Servidores da Universidade Federal de Santa Maria]. Então essa coisa que eu tenho com o futebol, com o esporte, vai além do meu amor pelo Grêmio. Eu pus a mão na massa mesmo. .txt: Algo deixou saudade dos tempos da velha UFSM? Chico: Como eu disse, quando eu vim pra cá tudo era aberto. Lá da estação tu enxergavas tudo, a Base Aérea, que na época era só um pequeno aeroporto... Então esse é um saudosismo que eu tenho, dessa época. Hoje em dia tu não vês, tu não enxergas mais nada. Eu tinha aquele prazer de olhar o cerro ali, enxergar tudo. Agora, tem as árvores que plantaram e cresceram, lógico, isso tem que ser, é muito importante o verde, mas fechou tudo, a visão que se tinha... Então eu tenho saudade de quando se olhava e enxergava tudo. Onde tem a ponte, ali tinha um riacho, e pra passar por ele tinha que se tirar os calçados e ‘arremangar’ as roupas. Isso é uma coisa que ficou na minha cabeça pra sempre. Claro, a gente sabe que com a evolução do mundo a gente tem que se atualizar, se modernizar e tal, mas era uma coisa boa aquela época. .txt

.txt: Olhando para trás, há 45 anos, quando o senhor iniciou seu trabalho aqui na UFSM, quais são as principais mudanças que o senhor vê, tanto positiva quanto negativamente? Chico: Quando eu cheguei em Camobi, no dia 1º de dezembro de 1965, às 18h, estava escurecendo, e só tinha um ônibus que fazia o trajeto até o centro, em três horários: de manhã, de meio-dia e de tarde. Desembarquei lá na entrada da Universidade. Em Camobi, naquela época, dava pra contar o número de casas que tinha, era campo aberto, terrenos. Quando eu cheguei na Universidade eu pensei: “onde eu vou estar metido aqui!”. Só tinha a Engenharia, o resto era tudo campo. Tinha uns bateestacas [espécie de fundação para construções], ‘um que outro’ prédio, mas era tudo muito vazio. E eu vim morar aqui. Fiquei seis anos morando aqui. Então posso te dizer que houve épocas em que a Universidade evoluiu muito. Houve construção de prédios, de vários espaços e ambientes, mas depois deu uma estagnada. E agora, desses últimos anos para cá, deu pra notar que houve uma evolução imensa na UFSM como um todo, tanto para nós como para os estudantes e tudo o mais. .txt: Mas e além da paixão pelo Grêmio, o senhor joga futebol também? Chico: Olha, eu joguei até os 22 anos, quando aconteceu de eu machucar um dos joelhos. Mas nunca desisti do esportes. Continuei como técnico, e vou te dizer, já trabalhei em muitos times e em tudo que é categoria, desde as bases até a gurizada que sabia jogar mesmo. Em 2009, no ano passado, eu fui pro Rio de Janeiro, terra muito linda, linda demais, treinando o time de futebol da ASSUFSM [Associação dos .txt Julho de 2010

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D

de fora para dentro ireitos, everes e emandas

Aproveitamento das cotas D gera discussões entre UFSM e comunidades indígenas.

Índios guaranis preparam demandas para reunião com a UFSM.

Guilherme Gehres e José Luís Zasso

E

Fotos: Arquivo GAPIN e Letícia Gomes

m 2007, com o propósito de “democratizar o acesso ao Ensino Superior público no país, especialmente aos afro-descendentes, alunos oriundos das escolas públicas, portadores de necessidades especiais e indígenas”, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) aprovou a criação do Programa de Ações Afirmativas de Inclusão Racial e Social, que reserva vagas da instituição para os grupos citados. No caso específico das cotas para indígenas, são criadas vagas extras nos cursos de graduação, sendo que, desde o primeiro ano do programa, a UFSM disponibilizou 21 vagas, porém apenas cinco alunos matriculados hoje na Universidade entraram pelo Sistema Cidadão Presente D, como a cota para indígenas é chamada nos manuais de candidato. Por qual motivo as vagas para indígenas não estão sendo ocupadas? A Comissão de

Documento expedido pela FUNAI a indígenas, necessário para confirmação de vaga.

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Ações Afirmativas, criada para acompanhar e auxiliar a execução do programa, ainda busca as respostas, porém é visível que não há na UFSM uma política institucional que atenda às demandas próprias desse grupo. Esse é o desafio da UFSM. Para Matias Rempel, representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE) na Comissão, “a Universidade abre de uma maneira demagógica as vagas e ela não tem uma comunicação com os indígenas. Ela desconhece a realidade deles. Eles querem na verdade um diálogo, pois está acontecendo uma imposição, por mais que a Universidade esteja aberta à conversação com eles”. Para os alunos que vieram de aldeias indígenas, a situação é complicada. Exemplo do que tem acontecido é o acadêmico A.I, que ingressou no começo do ano em Medicina e, por não ter condições de sustentarse financeiramente em Santa Maria, não conseguiu nem terminar o primeiro semestre do curso. Havia também para A.I a preocupação de perder sua identidade cultural, visto que a UFSM não tem nenhum programa que respeite a formação étnica e cultural dos povos indígenas. Há também descendentes de indígenas que encaram melhor a situação. É o caso da também acadêmica de Medicina da UFSM Laura Feliciana Paulo, natural de São Paulo, que veio de Jardim, no Mato Grosso do Sul, onde morava com a família. Filha de pai indígena e mãe branca, Laura morou oito anos na aldeia em que seu pai nasceu, na cidade sulmato-grossense de Anastácio. Aluna do primeiro semestre, Laura tem a intenção de usar o conhecimento adquirido na UFSM em prol dos povos indígenas: “A princípio quero fazer residência em cirurgia geral. Depois quero trabalhar dentro da aldeia”. Para a Universidade, são consi-

derados índios os candidatos que apresentarem na confirmação da vaga, o Registro Administrativo de Índio (Certidão de Nascimento emitida pela Fundação Nacional do Índio – FUNAI), a Declaração da FUNAI de procedência de reserva indígena para residentes em aldeias e/ou Declaração da FUNAI de comprovação de ser residente em território urbano. Em 2008, a UFSM disponibilizou cinco vagas para o sistema no vestibular - número que foi aumentado para oito em 2009 e 2010. A partir do próximo vestibular, serão disponibilizadas dez vagas, número fixo até 2018, quando termina a validade do Programa de Ações Afirmativas. Para o cacique Augusto Kaingang, de uma aldeia em Iraí no norte do Estado, existe a necessidade de um atendimento diferenciado e o receio que se tem de perder a cultura é algo real. Ele afirma que os povos indígenas têm uma visão diferente de mundo e, por mais que existam dificuldades, deve haver também uma convivência e uma troca de conhecimento entre os povos. Neste semestre, a Comissão de Ações Afirmativas encaminhou para as aldeias guaranis e caingangues do Rio Grande do Sul uma correspondência em que convidava cinco representantes de cada grupo para discutir o processo de ingresso e a permanência dos acadêmicos indígenas na UFSM. Em sete questões, a Comissão pede dados, como o número de pessoas por aldeia que têm a intenção de candidatarem-se ao vestibular, além de levantar questões sobre demandas específicas que vão da elaboração de provas em língua indígena até as condições de permanência, com respeito às tradições. A ideia da Comissão é construir um seminário com os representantes indígenas e levantar um diálogo que aponte as demandas mais concretas necessárias para que se avance na consolidação de um programa de ações afirmativas verdadeiro. .txt


de dentro para fora

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Agroecologia em expansão

Liana Coll

N

agroecologia apenas como uma alternativa, quando, na realidade, é outro modelo. Este, assim como agronegócio, também envolve estudos técnicos e linhas de pesquisa. Entretanto, diz Isabel: “A maioria dos meus colegas acha que agroecologia é capinar”. O grupo de agroecologia surgiu no ano de 2000: estava entre as propostas de uma chapa que concorria ao Diretório Acadêmico do curso de Agronomia naquele ano. As eleições foram perdidas, mas a motivação pela ideia não acabou. Os acadêmicos componentes da chapa, e simpatizantes,

Amostra do banco de sementes do GATS

reuniam-se em encontros no vão entre os prédios 42 e 44 do campus da UFSM. Embaixo dos eucaliptos, debatiam e procuravamr meios de consolidar a proposta. No mesmo ano, ainda sem sala para os encontros, surgia o GATS. O grupo é interdisciplinar (hoje tem quinze integrantes de cursos variados, como Agronomia, Engenharia Florestal e Pedagogia, entre outros) e se insere nos

ramos de ensino, pesquisa e extensão. Atualmente é apoiado pela coordenação do curso e pela reitoria. O professor do curso de Agronomia e doutor em Agroecologia, Campesinato e História pela Universidad de Córdoba, na Espanha, José Antônio Costabeber, além de orientador, é um dos grandes apoiadores desde que chegou à UFSM, no ano passado. Segundo ele, “somente com a socialização de conhecimentos e saberes agroecológicos entre agricultores, pesquisadores, estudantes, professores, políticos e técnicos em geral, podemos consolidar um novo paradigma de desenvolvimento rural que considere as seis dimensões (ecológica, social, econômica, cultural política e ética) da sustentabilidade”. O projeto de extensão mais forte do GATS consiste no banco de sementes crioulas. As sementes foram coletas em grande parte através de entrega voluntária de 18 famílias de pequenos produtores. Isabel, sobre o projeto, comenta: “A gente até recebeu o prêmio Mérito Extensionista Professor José Mariano da Rocha Filho. Mas além dos trabalhos de extensão, o grupo eventualmente é chamado por escolas para ministrar palestras explicativas sobre agricultura sustentável. Outra experiência do GATS é com a troca de idéias com grupos de agroecologia de outras cidades, como o de Pelotas e de Porto Alegre. Juntos, estes grupos também se envolvem em organização de seminários, como o Seminário Estadual de Agroecologia. Outra forma de contato com a comunidade se dá em feiras, onde os integrantes conversam com o público em geral sobre agroecologia e sobre as atividades que realizam. Nessas oportunidades, costumam mostrar parte do banco de sementes crioulas aos interessados. A cor destas chama atenção e, espera-se, abre interesse acerca do assunto ‘agroecologia’. Alguns crêem ser uma gota no meio do oceano, com pouca significância. Outros aproveitam os estudos e iniciativas e abrem a cabeça para a reflexão. Iniciar, na comunidade local, a discussão sobre os rumos negativamente impactantes do modelo predominante de agronegócio: essa pode ser a maior tarefa e o maior trunfo do GATS. .txt

Foto: Liana Coll

o ano de 2009, mais um projeto do Grupo de Agroecologia Terra Sul, GATS, foi aprovado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Integrantes do grupo irão trabalhar com os 23 agricultores familiares que formam a Associação dos Guardiães de Milho Crioulo do município de Ibarama e que preservam 28 variedades de milho crioulo. Ao longo de dois anos irão realizar trabalho de etnoconhecimento (conhecer e reconhecer os saberes populares das famílias), mapear os cultivares locais e, então, auxiliar nas técnicas de produção e controle de pragas. Assim, pretendem contribuir para o resgate e o fortalecimento das tradições locais. O projeto, coordenado pela professora Marlove Brião, está em processo inicial de desenvolvimento e é uma das ações desenvolvidas pelo GATS. O Grupo de Agroecologia Terra Sul é orientado pelos professores José Antonio Costabeber e Abel Panerai Lopes e tem como proposta a abertura do debate sobre agricultura sustentável. Isabel Cristina Lourenço da Silva, técnica agrícola, é membro dele. Trabalhou na Emater como extensionista e, depois de nove anos no trabalho, decidiu cursar Agronomia na UFSM. Antes mesmo de entrar no curso já conhecia o GATS e queria inserir-se nele. A justificativa é simples: seus principais interesses estão na área de agroecologia e, em contrapartida, os currículos das Ciências Agrárias remetem a técnicas utilizadas e pensadas na década de 1960, quando os impactos na saúde e no ambiente ainda não eram vistas como grandes problemas. “A formação das Agrárias, como um todo, tem um pensamento para a agricultura de grande escala. Ainda bem que a universidade está se abrindo agora”, diz Isabel. A abertura de que Isabel fala, no entanto, é relativa. O currículo do curso de Agronomia ainda não contém disciplinas que estudem o desenvolvimento rural sustentável. Assim, com falta de debate e conhecimento sobre o assunto, grande parte dos estudantes e professores ainda adere ao modelo do agronegócio. Logo, vem a

O Grupo de pesquisa e extensão “Agroecologia Terra Sul” debate a agroecologia e leva ensinamentos a comunidades.

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geral

Por trás do Balcão

Para conferir aquilo que fica além do balcão, a .txt visitou a cozinha de alguns restaurantes da Universidade. Entre pastéis e empadas, espaços pequenos e quesitos a melhorar.

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Foto: Cristiano Magrini

ocê provavelmente já comeu em algum dos restaurantes da UFSM. Popularmente conhecidos como bares ou lancherias, eles somam um total de doze, fora o Restaurante Universitário (RU). Ao entrar num desses lugares, você repara em tudo o que ele lhe oferece: bebidas, doces, salgados. Porém, tão importante quanto a aparência dos alimentos é a forma como eles são manipulados. O local bonito e um simpático atendimento não são suficientes para garantir a qualidade dos serviços. Segundo a Superintendência de Vigilância em Saúde de Santa Maria, todos os restaurantes da Universidade possuem alvará sanitário, portanto, seu funcionamen-

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Cristiano Magrini e Bianca Villanova to é autorizado. Mesmo assim, a .txt foi verificar as condições sanitárias dos mais movimentados. Acompanhados pelo mestrando em Medicina Veterinária Adriano Mallmann, do Laboratório de Análises Micotoxicológicas (LAMIC), efetuamos uma inspeção não-oficial em nove pontos: Restaurante Etnias, no HUSM; Restaurante e Lancheria Portela, no CCR; Restaurante e Lancheria Sabores da Casa, no CE; Restaurante e Lancheria da Cleo, no CCSH; Restaurante e Lancheria Oliveira, na Reitoria; Restaurante e Lancheria Dakasa, no prédio 20; Restaurante e Lancheria Via Sol, no CT e Restaurante Universitário. O proprietário do nono estabelecimento visitado não permitiu a divulgação do nome do restaurante. Para fazer a verificação das condições sanitárias, foi utilizado um check list baseado em uma das Listas de Verificação em Boas Práticas para Serviços de Alimentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).* Os itens checados vão desde edificação, instalações, equipamentos, móveis, utensílios e sua higienização até as condições de preparo e armazenamento dos gêneros alimentícios e a apresentação dos manipuladores de alimentos. Segundo os critérios de avaliação adotados, são considerados irregulares os estabelecimentos que atingirem entre 0 e 50% de atendimento aos itens. A partir de 51% até 75% estão aqueles classificados

como regulares e acima de 76% os satisfatórios. É importante ressaltar que, conforme enfatizou Heloísa Smaniotto, Coordenadora do Setor de Alimentos da Superintendência da Vigilância em Saúde, são consideradas as condições específicas do momento da vistoria. Atendendo entre 54 e 62% dos itens avaliados, os restaurantes que ficam na Reitoria, no CE, no CCSH, no CCR, e no HUSM atingiram nível regular. Em quatro deles, os manipuladores de alimentos usam uniforme de cores claras, com proteção para os cabelos e calçado fechado. Em apenas um deles o atendente era o responsável pela manipulação do alimento e pelo recebimento de dinheiro ao mesmo tempo. Algumas outras condições inapropriadas foram encontradas em quase todos os locais como, por exemplo, inexistência de controle e de registro da temperatura dos alimentos, lixeiras sem tampa e sem pedal nas cozinhas e a falta de telas de proteção contra insetos nas janelas. O Restaurante Universitário foi o único a chegar ao nível satisfatório, com 95% dos itens atendidos. No RU, todos os funcionários trabalham uniformizados, com toucas e sapatos fechados. A limpeza da cozinha e de todos os utensílios é feita diariamente e são mantidas planilhas com o controle de temperatura tanto das câmaras de resfriamento quanto dos alimentos dispostos no bufê. A infra-estrutura do restaurante também é fator importante para a boa avaliação do local. Existem espaços específicos para cada atividade: banheiro e vestiário para os funcionários, salas de armazenamento especificas para cada tipo de alimento ou produto e áreas exclusivas de preparação *A lista pode ser encontrada no Anexo II da Portaria nº. 542/2006/SES/RS. Resolução – ANVISA, RDC nº. 216 de 15 de setembro de 2004.


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Touca e jaleco são itens do uniforme básico de quem manipula alimentos.

Qualidade fiscalizada Para abrir um restaurante na UFSM é feita uma licitação, que dá prazo máximo de cinco anos de permanência, podendo haver renovação com base em novo processo. Qualquer alteração feita no espaço físico

durante esse período é de responsabilidade total da empresa, isto é, o valor aplicado em obras e melhorias não é ressarcido pela UFSM. A falta de apoio por parte da Universidade é um questionamento levantado por Maria Inês Bertoluzzi proprietária da Lancheria da Casa: “Se eu reformar aqui terei que gastar. Não tem ressarcimento nem abate no valor do aluguel”. Ainda assim, outros proprietários já realizaram melhorias. Cleonara Cechin Oliveira, da Lancheria Sabores da Casa, explicou que já foram feitas diversas reformas no estabelecimento para melhorar as condições higiênicas do local.

O que cuidar • Ao entrar em qualquer estabelecimento, atente para a limpeza geral do ambiente. Procure ver também se as lixeiras possuem tampas e se não há presença de insetos. • Cuide a pessoa que entrega alimentos aos clientes: ela não deve ser a mesma que recebe o dinheiro. • Os manipuladores de alimentos não devem usar joias e suas unhas devem ser curtas e sem esmalte. Eles devem usar uniformes de cores claras e os cabelos presos e protegidos por rede ou touca. Repare ainda se estão com tosse ou resfriados, pois nessas condições podem contaminar os alimentos. • Em bufês, observe se os alimentos são mantidos quentes e se há barreira de proteção no balcão de distribuição. Essa barreira é importante para evitar a contaminação pelos próprios clientes enquanto se servem. • Alimentos perecíveis não devem ficar expostos ao sol e à temperatura ambiente. Coxinhas, pastéis e empadas devem ser mantidos em estufas devidamente aquecidas. Saladas de frutas e sanduíches naturais devem estar em locais refrigerados.

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Foto: Bianca Villanova

para gêneros alimentícios diferentes. Como a estrutura é antiga, pequenas reformas são feitas anualmente para manter as condições de higiene e qualidade do restaurante. Os outros três locais visitados atingiram classificação irregular atendendo a menos de 50% dos itens. Em nenhum deles os atendentes estavam vestidos adequadamente em sua totalidade e não havia pessoa específica para receber o dinheiro. Outros detalhes observados, tais como estufas para a exposição e armazenamento dos lanches desligadas ou inexistentes, pesaram negativamente na avaliação. Muitos dos problemas encontrados nos oito restaurantes correspondem à estrutura física do local onde estão instalados. A maioria desses estabelecimentos ocupa espaços em prédios antigos da Universidade, que não foram projetados para esse fim específico. Sem espaço adequado para que cada atividade seja realizada, as cozinhas acabam virando, além de um lugar para manipulação do alimento, despensa e até vestiário. Conforme os critérios de avaliação, o piso, a parede e as aberturas encontradas são de difícil higienização e o tamanho da edificação e das instalações não é compatível com todas as operações realizadas.

Todo restaurante é fiscalizado pela Superintendência uma vez ao ano em inspeções não agendadas. Caso sejam encontradas irregularidades, o proprietário recebe uma notificação e é destinado um prazo para adequação, após o qual a vigilância volta para nova vistoria. Atendidos os requisitos, o alvará é expedido. Entre uma fiscalização e outra, durante o correr do ano, o proprietário tem a responsabilidade de manter as boas condições do local. A respeito disso, Heloísa afirma que o papel da vigilância é instruir, e não interditar. Ela diz que o proprietário deve ser consciente e oferecer produtos de qualidade, produzidos sob as corretas condições higiênicas e sanitárias. Se um cliente encontrar situações irregulares, a recomendação é a de que seja feita uma comunicação à Superintendência. A denúncia deve ser feita pessoalmente, mas é garantido o anonimato. Merece destaque o fato de que não é somente o dono de um negócio que deve cuidar do estabelecimento; os clientes também devem atentar para as condições daquilo que consomem, pois isso afeta diretamente sua qualidade de vida. .txt

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geral

A UFSM e as parcerias privadas: benefício? As parcerias nem sempre tão favoráveis a ambas as partes entram na pauta diária da comunidade acadêmica. Alguns as executam, outros as criticam.

Bibiano Girard e Tiago Miotto

Ilustração: Rafael Balbueno

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UFSM é, para a região e para todo o país, um recurso exemplar na formação de cidadãos capacitados para beneficiar a sociedade em que se encontra, efetivando a ciência e a educação como construtoras de uma realidade melhor. Para que uma universidade como a UFSM se mantenha, é necessário o financiamento público dos governos à altura de sua escala de graduação, pesquisa e extensão. A maior fonte de recursos que o governo obtém para investir em educação são os impostos, havendo um vínculo autêntico entre ensino e decréscimo das desigualdades, já que economia aquecida gera uma arrecadação maior por parte do governo. Porém, esse financiamento completo por parte da União vem sendo substituído gradativamente há anos. A comunidade acadêmica tem-se deparado com a inserção de entidades privadas no financiamento e até mesmo no gerenciamento do capital de escolas federais. Mesmo já antiga, desde as décadas de 1960 e 1970, quando as primeiras fundações de apoio vincularam-se a algumas universidades no país, a prática está se tornando mais corriqueira. Entram em questão as parcerias público-privadas (PPPs). Na UFSM, a situação de parcerias com empresas e fundações privadas está se tornando conhecida e implica um questionamento popular acadêmico: até onde esse tipo de financiamento é saudável à instituição? A interação com a iniciativa privada se dá basicamente de duas formas: por meio

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de contratos ou de convênios. O responsável pela Coordenadoria de Projetos e Convênios da UFSM (COPROC), João Isaia Filho, salienta que se deve diferenciar um convênio de um contrato. “O contrato é a utilização, por parte da UFSM, dos serviços de uma empresa devidamente remunerada para que esta exerça serviços específicos dentro da instituição. É a conhecida terceirização”. O contrato, que terceiriza os serviços dentro da UFSM, admite o afastamento do Estado em questões como a contratação direta do funcionário e o distancia das questões trabalhistas da União. O servidor terceirizado pode ser demitido pela empresa se houver descontentamento de uma das partes. Elimina assim o vínculo direto entre funcionário e Universidade, o que pode ser problemático (veja a reportagem da página 18). “Já o convênio é diferente”, ressalta a Assistente em Administração da COPROC Elisete Krombauer. “No convênio são firmadas cláusulas e parcerias de ensino, pesquisa ou extensão de interesse de ambas as partes. No caso, a UFSM e a empresa interessada. O interesse, porém, de uma instituição como a UFSM, é viabilizar formas de estudo e pesquisa que usando os recursos recebidos pelo governo seriam impossíveis”. Segundo o professor e diretor Geral do Núcleo de Inovação e Transferência de Tecnologia (NIT) Sérgio Jahn, “as parcerias com empresas privadas são bem re-

centes nos trâmites legais da UFSM”. Nos últimos anos, contudo, a relação de projetos com capital privado vem crescendo progressivamente. É possível constatar tal fato analisando-se a tabela fornecida pela COPROC: em 2004, pela primeira vez, a quantidade de convênios com entidades privadas equiparou-se ao número de convênios públicos. A partir de 2007, o número de convênios com instituições privadas tem superado o número de convênios públicos e internacionais. Dos 1296 convênios em vigência na UFSM em maio de 2010, 716 são firmados com sociedades privadas. Assim, acontece uma privatização lenta de setores da UFSM, que deixam de ser baseados em recursos públicos que o Estado teria a obrigação de provir. Periodicamente, o Plano de Gestão determina as diretrizes e os objetivos da UFSM. O Plano que abrangeu o período 2006-2009 estabeleceu pela primeira vez como meta para a área de extensão: “Viabilizar os recursos necessários às ações de extensão por meio de parcerias institucionais público/privadas”. Oficializa-se, aí, a dependência da Universidade Pública em relação à iniciativa privada. O pró-reitor de Extensão da UFSM João Rodolpho Amaral Flores afirma: “É importante que a Universidade faça, sim, parcerias com o meio privado. O que deve ser observado é a finalidade de cada parceria, ou seja, se ela serve para fins particulares ou se pode ser revertida para a sociedade em geral”.


.txt inovador. É esse tipo de relação que é questionável. “É preciso evitar que a universidade se torne um local de prestação de serviço para entidades privadas. O custo muito inferior ao mercado torna a pesquisa utilizando os recursos da UFSM mais atraente, mas a questão é que vantagem isso traz para a sociedade e para a comunidade acadêmica”, sanlienta o pró-reitor de Extensão. As próprias diretrizes governamentais da área da pesquisa recorrem às parcerias. Ceretta afirma que “hoje, grande parte dos editais dos principais fomentadores da pesquisa no país, CNPq e CAPES, são voltados às parcerias público-privadas”. O presidente da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (SEDUFSM) Rondon de Castro também se opõe a este tipo de relação com as empresas: “a universidade púlica deve ser útil à sociedade em geral, ao invés de submeter-se à lógica do mercado. Essas práticas, muitas vezes, acabam distanciando o ensino, a pesquisa e a extensão”. Como exemplo desse caráter privatizante, Rondon destaca as defesas de dissertações que ocorrem em sigilo. Com o intuito de proteger a propriedade intelectual, este tipo de conduta priva a sociedade do acesso ao que é produzido na Universidade. A SEDUFSM adota, também, uma postura crítica em relação à presença das Fundações de Apoio na Universidade. Neste caso, a parceria que existe entre a Universidade Federal de Santa Maria e a Fundação de Apoio a Tecnologia e Ciência (FATECIENS) foi firmada como um contrato de prestação de serviços. As fundações de apoio são instituições de direito privado, sem fins lucrativos, criadas com a finalidade de dar apoio a projetos de pesquisa, ensino, extensão e de desenvolvimento institucional, científico e tecnológico, de interesse das instituições federais de ensino superior e das instituições de pesquisa. Uma das principais razões para sua existência é a agilidade no gerenciamento dos recursos das universidades, devido

João Rodolpho ainda afirma que a prioridade da Pró-reitoria de Extensão (PRE) é de cunho social. A extensão serve para inserir o aluno nas questões da sociedade e colocá-lo em contato com a realidade. Por isso, o foco está nas parcerias com instituições públicas e movimentos sociais. Neste ponto, a PRE diverge um pouco da postura da Pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PRPGP). “A grande preocupação hoje é que, para se dar sentido a uma pesquisa, seu resultado tem que chegar ao setor produtivo”, afirma Carlos Alberto Ceretta, próreitor adjunto da PRPGP. “As críticas a esse tipo de parceria [público-privada] fazem com que a Universidade tenha se fechado, o conhecimento gerado não sai dela, não se reverte à sociedade”. Quem é o dono do conhecimento? Sobre as questões referentes à propriedade intelectual no caso das parcerias com entes privados, o professor e diretor Geral do NIT Sérgio Jahn deixa claro que “cada caso é tratado de maneira diferente. Em muitos deles, a propriedade intelectual é estabelecida pelo investimento realizado pela parte privada. Ou seja, a parcela da propriedade intelectual que lhe cabe é proporcional ao investimento em dinheiro que faz”. Deste modo, uma empresa que cubra grande parte dos custos de determinado projeto, tornar-se-á proprietária de mais de 50% de todo o conhecimento produzido, mesmo que os reais produtores e pesquisadores dessa ciência sejam professores e alunos da UFSM. Em suma, é o que estabelece a “Lei do Bem” (nº 11.196/2005), que prevê incentivos fiscais a empresas que desenvolverem inovações tecnológicas na concepção de produtos ou no processo de fabricação e agregação de novas funcionalidades ao produto. Acontece, então, a aproximação de empresas com a UFSM para a utilização de sua estrutura física e de seus recursos humanos para a concepção de um projeto

a uma série de facilidades administrativas que lhes são concedidas. Essa liberdade exacerbada concedida à Fundação, que firmava convênios e contratos sem afirmação prévia da UFSM, possibilitou os supostos desvios de verbas deflagrados em 2007 pela Operação Rodin. Desde então, a autonomia da Fundação diminuiu. A Assistente em Administração da COPROC Elisete Krombauer acredita que se a UFSM obtivesse maiores recursos próprios que não fossem diretamente repassados à Fundação e aperfeiçoasse seus recursos humanos, poderia exercer funções que hoje ainda ficam a cargo da FATECIENS. João Rodolpho argumenta que a fundação é necessária para prestar serviços que seriam prejudicados ou atrasados caso ficassem a encargo da Universidade, mas que a orientação é de operar, sempre que possível, via UFSM. Dados em desordem A interação da Universidade com entidades privadas é cada vez mais significativa e abrangente. Dentro da UFSM, no entanto, não existe uma listagem efetiva e clara de todos os convênios e contratos mantidos com empresas. Há listagens dos projetos realizados em cada Centro; no entanto, elas não incluem informações sobre parcerias. As informações disponíveis ao acesso do público no site da Pró-Reitoria de Planejamento (PROPLAN) não discriminam de forma clara as relações econômicas da UFSM em cada parceria que envolve capital privado. A falta de clareza acerca desses dados impossibilita à comunidade acadêmica ter um panorama amplo e atualizado do quanto as atividades da UFSM dependem do capital privado e estão ligadas a ele. Independentemente da postura adotada em relação a esse tipo de interação, a transparência a respeito da situação é requisito básico para uma discussão verdadeira sobre os rumos que se quer dar – ou não – para a UFSM. .txt

Número de convênios assinados por setor (até maio de 2010)

207 183

Público Privado Internacional 70 53 14

21 5

5

19

5

38

38

26 2

3

31 8

76

73

65

62

52

45

95

93

87

122 124 89

75

74

91

79

66

63

40

27 7

107 106

9

12

1

14

32 10

7

12

5

9

4

1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Fonte: Coordenadoria de Projetos de Convênio (COPROC)

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Plano Diretor de 1961. Legenda no box da página 13

O que resta do Plano Dire O que saiu e o que não saiu do papel: o projeto modernista dos anos sessenta João Victor Moura e Nathália Costa

Imagem: Departamento de Arquivo Geral da UFSM

A

época era de pensar grande. O presidente era Juscelino Kubitschek, eleito com a promessa de um desenvolvimento de 50 anos em 5. Na arquitetura vivia-se o movimento chamado de ‘Modernista’, que tem como maior exemplo a cidade de Brasília, idealizada pela equipe de Oscar Niemayer e Lúcio Costa. Em Santa Maria não seria diferente. O reitor Mariano da Rocha contrata o escritório carioca FOMISA para projetar a cidade universitária do futuro, com o intuito de ser capaz de “...atender com possibilidade de contínuo aperfeiçoamento a mocidade estudiosa do interior do Rio Grande do Sul e do Brasil, (...) não para 10, 20 ou 50 anos (...) mas para sempre”, como publicado em 1962 no livreto UFSM: a nova universidade. O Plano Diretor foi o método encontrado para organizar eficientemente a área da Cidade Universitária, formando os diversos setores da Universidade e mantendo uma linha bem definida de funções para cada área. Ao longo de 1961 são feitos cinco planos diretores para organizar o campus. Enfim, em 1962, a Reitoria seleciona o quinto destes planos como o ideal para a Universidade. Mas a existência de um plano diretor

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foi capaz de realmente organizar o campus? O arquiteto da Pró-Reitoria de Infraestrutura da UFSM, Alberto Brilhante, afirma que do projeto inicial ao projeto atual, a Universidade tem 50% de suas construções colocadas em prática. Ele é responsável por uma pesquisa com o objetivo de diagnosticar os problemas de algumas construções no campus da UFSM. A análise estipulava o que era característico das construções da Universidade, o que poderia ser considerado como patrimônio histórico e quais eram os traços modernistas implantados no projeto original. Aí se encaixa, por exemplo, o estilo de construção dos prédios retangulares, afastados uns dos outros, que possibilitam a criação de espaços verdes. Tal separação foi calculada como três vezes o número da altura do prédio para todos aqueles que estivessem situados fora do eixo da Avenida Roraima. Para os prédios localizados no eixo da avenida, como a Biblioteca Central, foi estipulado um distanciamento de 50 metros, o que nos conceitos modernistas dá destaque à construção. E por que não foi possível a concretização dos outros 50% do plano original? Parece não existir uma resposta apenas. São diversos os motivos que contribuíram,

ao longo da história da UFSM, para o que hoje existe no campus. Alguns dos fatores podem ser especulados, tais como a falta de verbas por parte da Universidade e o golpe de 1964, que levou ao poder os militares, pouco simpáticos ao pensamento livre das universidades. O projeto inicial dos arquitetos cariocas Oscar Valdetaro e Roberto Nadalutti estipulava três fases de construção para a obra. Destas fases, apenas uma deveria estar concluída antes do golpe. Os tempos já não eram propícios para se ‘pensar grande’ como antes, mas sim para se manter aliado ao regime. Documentos da época confirmam. Em um requerimento de 1967, a Universidade, por meio de seu reitor, Mariano da Rocha, demonstra interesse em construir no campus um Centro Militar dentro do campus universitário. As conclusões por parte do comando da UFSM parecem óbvias: “tendo sido estruturada em ‘centros’, residencial , comercial, de ensino, etc. - poderia ter, também um Centro Militar [sic]”. Uma medida um tanto que desesperada, vista a situação econômica da Universidade e a necessidade de se conseguir manter toda a estrutura. Um projeto que também não


.txt sairia do papel. Além da falta de verbas, outros motivos fizeram com que algumas ideias ficassem apenas no plano inicial. Primeiramente, estava prevista a construção de um lago que atravessasse o campus da UFSM, perpassando a ponte, com um grande reservatório ao lado da União Universitária. A ideia era dividir o campus ao meio, mais uma prática da arquitetura modernista. O projeto, baseado nas ideias de Lúcio Costa e do francês Le Corbusier para o campus da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, mostrou-se inviável e, até mesmo, absurdo dentro das circunstâncias físicas, geológicas e ambientais de Santa Maria. “Em um campus como o do Rio de Janeiro essa ideia funcionaria, já que lá o ambiente seria propício. Aqui, em nosso campus, a probabilidade que alguns defendem é de que o lago inundaria a União, aumentando também a umidade, não sendo ambientalmente viável”, confirma Alberto. Outros dois planos também não aconteceram: a Casa das Nações e a Praça Cí-

as funções de alguns dos projetos extintos. Um Depois de passar pelo arco na entrada, percorrer prédio para Professores a Avenida Roraima com diversas construções, e Funcionários não chepassar pela ponte acima do lago, o visitante gou a existir, mas alguns veria uma Praça, que daria maior imponência à funcionários vivem em Reitoria, algo semelhante ao que ocorre com a apartamentos dentro da Praça dos Três Poderes em Brasília Universidade; a Imprensa hoje está alocada no último andar da Reitoria; um Centro de Con- blioteca de Humanidades, que estão sendo venções, adaptável a apresentações de tea- construídos nas proximidades do prédio tro e cinema, está sendo construído, e um 74, tampouco respeitam este espaçamento. Centro Ecumênico também deve ganhar Vistos de cima, os prédios descaracterizam forma nos próximos anos. a ideia inicial de grandes áreas verdes entre as construções. Situação Atual Um novo Plano Diretor começou a ser elaborado em 2008. Algumas ideias já esÉ comum que a organização de um pla- tão sendo colocadas em prática, como é o no não faça com que ele aconteça, do iní- próprio caso dos novos prédios do CCSH, cio ao fim, exatamente como foi projetado. do novo prédio para o curso de Música Segundo Alberto Brilhante, algumas coisas (previsto para ter uma concha acústica), no campus da UFSM estão projetadas de e a construção do Centro de Convenções, forma controversa, como é o exemplo da ao lado da Reitoria. Existe também uma própria disposição dos prédios. Eles de- ideia para que a própria Reitoria tenha uma veriam ter sido construídos transversal- fachada artística (semelhante a do Teatro

etor nos 50 anos da UFSM e as transformações que o campus atravessou nestas cinco décadas vica. A Casa das Nações ficaria situada na área onde hoje é a COPERVES, ao lado da Reitoria. Com dez andares, teria um ambiente para exposições no hall do térreo e nove pavimentos com espaço para quarenta países exporem suas culturas e tradições. No último andar um anfiteatro e um terraço com bar. Depois de passar pelo arco na entrada, percorrer a Avenida Roraima com diversas construções, passar pela ponte acima do lago, o visitante veria uma Praça, que daria maior imponência à Reitoria, algo semelhante ao que ocorre com a Praça dos Três Poderes em Brasília (situada no final da Esplanada dos Ministérios e à frente do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional). Mesmo assim a praça não saiu e o Memorial Mariano da Rocha hoje é a única construção num grande espaço aberto. Atualmente, existe um projeto para que a área receba mais atenção, com um museu em semicírculo ao redor da pirâmide e a urbanização da área que, enfim, receberia bancos e canteiros. Ainda se previa originalmente Casas para Professores e Funcionários, uma grande Capela Ecumênica, um Teatro-Cinema, uma Concha Acústica e um prédio para a Imprensa. Na maioria desses planos, houve ajustes em outros prédios para agregar

mente, no sentido da Avenida Roraima, por conta do sol que bate em excesso pela manhã e no fim da tarde. Porém, os prédios seguiram o modelo do CT (Centro de Tecnologia), o qual, por ser um dos primeiros prédios construídos, foi moldado no sentido paralelo e forçou os demais a manterem a estrutura. Atualmente, o campus sofre bastante com este problema de espaço e de organização. Conforme Alberto, as novas construções não respeitam as diretrizes de espaço, nem priorizam a estrutura modernista do início. Os novos prédios do CCSH e a nova Bi-

Caixa Preta, no Centro de Artes e Letras) com a arte assinada por Eduardo Trevisan. O maior problema com relação aos prédios que hoje existem no campus da UFSM é que nenhum deles possui normativas que coíbam reformas e construções indevidas. Por não serem considerados legalmente como patrimônio histórico, são submetidos a alterações pouco criteriosas, o que pode levar, em alguns anos, ao seu desaparecimento, dando lugar a uma grande cicatriz no projeto arquitetônico do campus. .txt

Legenda do Plano Diretor: 1. Serviços Gerais 2. Colégio Técnico - Industrial 3. Centro Politécnico 4. Centro Médico a)Hospital das Clínicas b)Hospital de Neurologia e Psiquiatria c)Faculdade de Medicina d)Escola de Enfermagem e)Faculdade de Odontologia f) Faculdade de Farmácia 5. Conjunto de Institutos 6. Faculdade de Filosofia 7. Faculdade de Direito 8. Faculdade de Ciências Econômicas 9. Faculdade de Belas Artes 10. Faculdade de Veterinária 11. Faculdade de Agronomia 12. Centro Residencial para Estudantes a)Clube Universitário b)Restaurante Universitário 13. Centro de Esportes a)Esportes Náuticos b)Ginásio e Escola Superior de Ed. Física 14. Casa das Nações 15. Imprensa Universitária - Rádio - Televisão da UFSM 16. Teatro e Cinema 17. Reitoria 18. Prefeitura da Cidade Universitária 19. Museu 20. Planetário e Observatório 21. Residências para Professores e Funcionários 22. Capela 23. Centro Comercial 24. Praça Cívica com Concha Acústica 25. Lago 26. Centro Agrotécnico .txt Julho de 2010 13


capa

Vida de

cobaia A questão da vivissecção e uso de animas em pesquisas é polêmica e o debate também ocorre na UFSM.

Ilustrações: Rafael Balbueno

N

ascer marcado para ter seu corpo usado em um experimento científico. Viver tomando drogas; a pele como campo para teste de cosméticos. E depois, a morte certeira. Nascer como um instrumento para a cura de milhares de pessoas. Ser muito bem tratado, com acompanhamento, boa comida, boas condições de moradia. E depois, a eutanásia certeira. A vida dos bichos de laboratório tem uma versão diferente dependendo do posicionamento adotado em relação ao uso dos mesmos em pesquisas. Seja pelo bem da ciência, seja pelo não sofrimento, o debate em torno do assunto sempre existiu, e foi reacendido com a implantação da Lei Arouca (confira o quadro). Provavelmente, a discussão perdurará por muitos anos ainda. Na UFSM também, pois muitos cursos usam os animais para aulas práticas e pesquisas. Mas não são todos que estão contentes com isso. O caminho das cobaias na UFSM começa no Biotério Central. Lá os ratos, camundongos e coelhos são reproduzidos e distribuídos para os ratários dos departamentos. O berçário dos ratinhos é coordenado pelo bioterista Silvandro Antonio Noal, que aponta um problema do biotério: “Nós estamos com uma deficiência de pessoal. Estamos com duas bolsistas em turnos distintos e quatro funcionários. É muito pouco”. O biotério tem em torno de quatro mil matrizes animais e libera cerca

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Luciana Minuzzi e Janayna Barros de dois mil animais por mês. Do Biotério Central para o setorial: depois de solicitadas ao biotério, através de um protocolo que exige justificativa da quantidade, os espécimes seguem para seus destinos finais. Os dados do biotério apontam para 50% da demanda é destinada para o Centro de Ciências da Saúde, 30% para o Centro de Ciências Naturais e Exatas e 20% para o Centro de Ciências Rurais. Os ratários dos departamentos devem manter as mesmas condições do biotério central, com controle de temperatura, luz, sistema de exaustão e rigorosa higienização. A questão ética A salubridade para bichos e pesquisadores é garantida através de normas de

tratamento de biotérios e ratários e de fiscalização regular da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O que ainda não foi resolvido é a questão ética que permeia o uso dos animais. Os defensores dos testes em animais partem de uma premissa básica: a segurança e a eficácia de experimentar compostos nos bichos antes dos humanos. É necessário, segundo os cientistas que apóiam o uso, ter os animais para observar como um sistema biológico inteiro reage ao experimento, o que não é possível de se checar in vitro, ou seja, nos processos biológicos desenvolvidos nos laboratórios, fora de animais vivos. Mas o argumento de uma vida por milhares é válido? Os animais são a única maneira ou há desinteresse por parte dos pesquisadores em procurar alternativas? Os estudantes de

O que diz a Lei Arouca A Lei Arouca (nº 11.794, de 8 de outubro de 2008) tem como pontos principais a criação, em cada instituição que utilize cobaias, das Comissões de Ética no Uso de Animais (Ceua), e a criação do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea). A lei permite o uso de animais em nível técnico e superior, restringe o número de animais utilizados, exige que o responsável pela experiência justifique o motivo do uso dos mesmos, a relevância da pesquisa para a ciência e para o prolongamento ou melhoramento da vida dos futuros beneficiados, e demonstre a falta de outros métodos viáveis. Através do que é tratado na lei Arouca, é possível utilizar as cobaias para experimentação e testagem de produtos destinados ao tratamento de doenças. Mais sobre em: www.mct.gov.br/index.php/content/view/308551.html


.txt Veterinária não deveriam ser os primeiros a lutar pelo não sofrimento animal? A professora adjunta de Farmacologia e presidente substituta do Comitê de Ética e Bem-Estar Animal da UFSM, Eliane Maria Zanchet, defende que os animais são necessários, mas é possível diminuir o uso: “Estão se buscando novas formas de pesquisa para diminuir bem mais o uso de animais, fazendo testes in vitro. Mas em algumas áreas é extremamente difícil a substituição”. Já no caso das aulas práticas de cirurgia e anatomia, o animal vivo é a única alternativa apontada por Vagner Rossato, aluno do 8º semestre de Veterinária: “Não é possível saber qual vai ser o teu comportamento quando for atuar profissionalmente usando uma peça de frigorífico, por exemplo; não vai sair sangue”. Para os que defendem o uso de animais, a preocupação com o bem-estar animal é imperativa, e trabalhos que inflijam sofrimento ao animal são minimizados com ambiente, anestesia e sacrifício adequados. A professora Cristina Wayne Nogueira, professora do Departamento de Química, afirma haver um cuidado em não estressar os animais para não modificar os resultados, representando o interesse científico. “Se ele está estressado, a resposta poderá ser diferente, gerando a necessidade do uso de mais animais”, relata Cristina. Nas aulas práticas do curso de Veterinária, os alunos devem seguir uma rigorosa disciplina de acompanhamento. “Parte da nota é o passeio com o cachorro, seguir

os parâmetros, ver os batimentos, a temperatura. E os professores são exigentes”, conta Rossato. Já a veterinária Marlene Flores do Nascimento é totalmente contra os testes com animais. Ela atua e foi uma das fundadoras do Clube dos Animais, associação que trabalha desde 1993 pela conscientização das pessoas em relação ao bom trato dos animais através de campanhas de saúde e bemestar animal. Marlene afirma que não importa se são bem tratados durante as pesquisas, os animais sofrem sem motivo: “Se os animais são iguais a nós, não devemos submetê-los a experimentos que não gostaríamos que fossem feitos conosco. Se são diferentes, qual a validade dos experimentos?”. Os comitês e a validade da lei

No biotério, os ratinhos vivem nessas caixas antes de rumarem para seus destinos finais.

questão da aplicação da lei: “Vamos precisar que a instituição reforce ou auxilie na adequação para a lei, pois a gente adéqua ou para de trabalhar. Por isso, já estamos entrando em processo de capturação de recursos”. A Lei Arouca prevê que os comitês sejam formados por pessoas das áreas de saúde e rurais, docentes e pesquisadores na área e um representante de sociedades protetoras de animais legalmente estabelecidas no Brasil. “O fato de ter alguém de fora do meio no comitê amplia a discussão. É um grande passo para parar e pensar sobre”, diz Eliane. No entanto, o fato de haver, em sua quase totalidade, pessoas ligadas à pesquisa, abre espaço para questionamentos sobre a imparcialidade dos comitês em julgar os trabalhos que são submetidos a ele. Marlene diz que será muito difícil para um membro de sociedade protetora participar do comitê e apóia a criação de cursos para que os membros das ONGs estejam preparados. “Vai ser difícil que todo o comitê tenha um voluntário da proteção animal e que vá realmente influenciar no trato com os animais. Sabemos que as comissões foram criadas seguindo o modelo estrangeiro, apenas como paliativos para as denúncias de monstruosidades que pipocaram”, pondera Marlene. Fabrício Monteiro Neves e Mari Cleise Sandalowski, ambos professores do Departamento de Ciências Sociais, acreditam que é necessário um comitê plural. “A questão ética não pode ser

Fotos: Luciana Minuzzi

O Comitê de Ética e Bem-Estar Animal da UFSM ainda não está seguindo as normas da nova lei, mas sim o que está previsto pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária, segundo Eliane. “O que muda com a nova lei, é que o comitê estará mais exigente”, conta a professora. Eliane também espera que o número de projetos, cerca de 15 por mês enviados para avaliação, aumentem: “No momento, ainda não é obrigatório para a liberação de animais que o projeto tenha sido aprovado pelo comitê de ética. Mas já tem alguns congressos que exigem o número do processo da aprovação no comitê, o que faz muitos nos procurarem”. Limitar ao máximo o uso de animais é um dos aspectos da lei que preocupa os pesquisadores. “Não vejo como vamos propor novas drogas, no nosso caso, se estivermos muito limitados no uso de animais”, afirma Cristina. A aluna de pós-graduação em Zootecnia, Denize Tyska, reitera a professora: “Com um número pequeno de animais não tem como ter certeza do resultado”. A professora também levanta uma

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A professora Cristina com alunas em um dos laboratórios do departamento de química que usam animais em pesquisas.

burocratizada, nem normatizada, ela precisa ser reflexiva. Quanto mais plurais forem os comitês de ética, quanto mais reflexivos forem e menos normativos e burocratizados, de certa forma, o debate será mais reflexivo e representativo”, defende Mari Cleise. Já Neves atenta para a necessidade da participação popular nos comitês como forma de estímulo à reflexão: “As pessoas têm preocupações práticas da sua vida cotidiana que, geralmente, não levam a grandes reflexões do porquê usar estes animais, infelizmente. E é por isso que talvez a gente deva compor esses quadros especializados de participação em decisões científicas com grupos muito variados, já que cotidianamente as pessoas não participam”. Quem ganha essa briga?

Fotos: Luciana Minuzzi e Rafael Berlezi

Os defensores do uso de animais vivos em pesquisas alegam não haver alternativas viáveis para substituí-los. Já os opositores dizem que existe má vontade em buscar outros meios de testar produtos. Marlene observa que uma das dificuldades dos defensores no combate à vivis-

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secção e testes com animais é a insensibilização progressiva que acontece quando os alunos das universidades começam a frequentar disciplinas que utilizam os bichos. Segundo Marlene, quando passam a ver o uso dos animais como normal, a rotina acaba deixando os alunos acomodados: “eles não exigem técnicas alternativas, não procuram pesquisar sobre o tema e seu custo/benefício, e alguns até defendem a vivissecção”. Para os alunos das áreas de saúde, ciências naturais e rurais parece ser habitual o uso dos animais. As alunas Letícia Dallagnol e Janislene Trentin, ambas do 7º semestre de Veterinária, afirmam ser natural lidar com os animais nas aulas práticas. As alunas asseguram que com todos os cuidados empregados aos cães utilizados e o rigor com que o professor exige a supervisão do animal, os bichos são melhores tratados lá do que na rua. “Se vir eles lá agora, tem muitos que estão de roupinha, todos estão com cobertor”, comenta Letícia. A professora Eliane atesta que os alunos lidam bem com a situação: “dou aula há mais de 10 anos e só tive uma aluna que realmente não quis participar de aula prá-

tica”. Marlene diz que a Lei de Objeção da Consciência, que permite que os estudantes optem por não participar dessas aulas, foi um grande avanço para quem é contra os testes: “existe muita informação, técnicas alternativas, mas pouca mudança no comportamento dos pesquisadores. Ainda temos um longo caminho pela frente. Acredito que a Lei de Objeção da Consciência foi a melhor conquista até o momento. Pelo menos agora ninguém está obrigado a ser cruel com animais”. A visão do pesquisador vilão é criticada pela professora Eliane: “o que eu acho mais difícil mesmo é conscientizar a sociedade. Quem está tratando mal os bichos? O pesquisador que está tentando fazer a ciência evoluir? Ou as pessoas que vão para a praia, por exemplo, e abandonam seus bichos?”. Os contrários aos testes rebatem usando os princípios da senciência animal, capacidade que os animais teriam de sentir dor e emoções. Sobre isso, Marlene diz: “é inevitável o questionamento de como os animais são tratados, passando a ser uma obrigação moral dos seres humanos garantirem o bem-estar dos animais. Está na hora de haver uma mudança profunda da relação dos animais humanos com os animais nãohumanos”. O professor Neves acredita que se deveriam investir mais recursos em formas alternativas para evitar o sofrimento: “a gente já desenvolveu uma sensibilidade para com a dor e sentimentos animais. Desde Darwin já se falava nisso. Então, se é possível atenuar isso, deve ser feito com todo o empenho”. O debate em torno do assunto é longo, porém necessário. A UFSM, como produtora de conhecimento, não pode deixar de sentar à mesa e ouvir todos os lados da questão. Será possível aliar o progresso científico com o respeito pelos animais? De um lado, os contra a pesquisa com animais e de outro, os a favor. Ainda há os moderados que tentam apartar a briga defendendo a ética acima de tudo. No meio, os ratos, cachorros, coelhos. De que lado eles ficariam? .txt A vida de cobaia em vídeo

O estudante de Artes Visuais da UFSM, Rafael Berlezi, produziu um documentário artístico que retrata a vida dos ratos de laboratório na UFSM. “Mantive minha neutralidade artística, mas está calcado em mim até hoje”, conta Berlezi. “Os ratos” foi premiado no Santa Maria Vídeo e Cinema e no Festival Nadalin de Vídeo e Cinema. Para assistir, acesse: www.youtube.com/rafaelberlezi


paralelo

: s a i r á t i s r e v i Vs un ão?

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ç T o e m s o r o Rádi ório ou autop t labora

Canais para a sociedade ou para propaganda institucional? Como funcionam algumas estações de rádio e de TV universitárias pelo Brasil. Gianlluca Simi

A

so de Comunicação. Isso não faz com que os estudantes tenham espaço garantido. Em entrevista à .txt, Frank Lopes, coordenador de programação da TV UnB (Universidade de Brasília), disse que a principal contribuição de um canal universitário para os estudantes é a prática: “Muita prática. O aluno sai a campo todos os dias para fazer matérias. Ele põe a teoria na prática”. Geralmente, os alunos entram como estagiários e, segundo Lopes, a maioria já se forma empregada. Das 21 pessoas envolvidas com a TV Campus hoje, por exemplo, nove são estudantes e oito deles são do curso de Jornalismo. A participação dos estudantes é muito pequena se considerarmos que entram, atualmente, 30 alunos por ano no curso. A Rádio Universidade, criada em 1968, segue a mesma linha, mas cede mais espaço para os estudantes de Jornalismo. Sua programação, como a da TV Campus, no entanto, circunda os temas relacionados à UFSM. Sete horas semanais da programação são destinadas ao Programa Rádio-Escola, que existe desde 1994 e através do qual, como diz o portal da estação, “os programas produzidos e apresentados por alunos tornaram-se mais frequentes”. Fora isso, nove estudantes de jornalismo participam da produção e apresentação de outros dois programas. O foco maior das universidades, no entanto, é dado às TVs universitárias, pois, segundo Daniel Thomaz, coordenador de produção da TV Mackenzie (Universidade Presbiteriana Mackenzie), “é a chance de cada universidade mostrar o melhor de si, já que cada uma tem o seu espaço”. A diferença, no entanto, é que Thomaz se refere à produção do canal que coordena, em que 90% da programação é fruto do trabalho dos alunos. Vem de São Paulo, inclusive, uma iniciativa que, desde 1997, reúne oito TVs universitárias no chamado Canal Universitário de São Paulo (CNU). O CNU está no ar 24 horas por dia e cada universidade tem o mesmo espaço de tempo e a ordem da grade

é determinada por sorteio. As universidadesmembro do CNU são responsáveis por suas produções, ou seja, arcam com todos os custos. A maioria delas sustenta as TVs com verbas próprias, mas à TV USP, por exemplo, são repassados recursos da arrecadação do ICMS do estado de São Paulo. Enquanto as rádios podem ser sintonizadas por qualquer aparelho de som, as TVs universitárias, geralmente, só podem ser vistas por TV a cabo. Isso por causa da legislação brasileira, que estreita o alcance das TVs universitárias. A lei 236 só permite a uma IES concorrer a uma outorga de transmissão aberta se a instituição puder arcar com todas as despesas do canal. A norma nº 13/1996 do Ministério das Comunicações permite patrocínio somente às TVs universitárias que se encaixam na lei 8.977, conhecida como Lei da TV a cabo, pela qual todas empresas de TV por assinatura devem disponibilizar um canal a veicular produções das IES locais (por isso que, desde 2008, a TV Campus divide o canal 15 da NET com a TV UNIFRA). Ou seja, a maioria das TVs universitárias não têm os recursos necessários para, segundo a lei, tornarem-se canais abertos e, assim, acabam se limitando à transmissão pelos canais a cabo para poderem receber patrocínio. Uma exceção é a TV Universitária, da UFPE, que faz parte da Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec), e transmite seu sinal abertamente. Os desafios dos canais universitários são muitos: impedimentos legais, falta de recursos e de equipamentos. Além das dificuldades burocráticas, entretanto, falta ainda iniciativa das próprias universidades em criarem canais que tratem da sociedade para a sociedade, com maior participação dos cursos de Comunicação de modo a deixarem de ser canais de mera autopromoção institucional. A TV Campus e a Rádio Universidade, como qualquer órgão universitário, estão ligadas à Reitoria - isso não implica, no entanto, que suas programações sejam guiadas pela agenda do reitor. .txt .txt Julho de 2010

Ilustração: Gianlluca Simi

s estações de televisão e de rádio das Instituições de Ensino Superior (IES) haveriam de servir como ponte entre a academia e a sociedade. No entanto, a falta de investimento, as deficiências técnicas e a distância que elas mantêm dos cursos de Comunicação são exemplos dos obstáculos que não as permitem exercer plenamente sua função. Na UFSM e pelo Brasil inteiro, essa situação se repete. A primeira estação de rádio e de televisão universitárias surgiram na Universidade Federal de Pernambuco, respectivamente em 1962 e em 1968, como mostra o portal da UFPE. Desde então, já são em torno de 107 IES que dispõem desses dois meios de comunicação. Em princípio, eles deveriam levar à população da região uma programação de caráter educativo-cultural, cuja produção contasse com a participação de seus estudantes, professores e funcionários, como propõe, por exemplo, a Associação Brasileira de Televisão Universitária (ABTU). Em seus objetivos, a ABTU ainda cita “o aprimoramento dos profissionais do setor [da comunicação]” e diz que “entende a televisão brasileira como aquela voltada exclusivamente para o desenvolvimento da cidadania, a melhoria da qualidade de vida da população, o apoio à educação, o incremento à cultura regional e a democratização da informação e do conhecimento”. Gabriel Priolli, fundador da ABTU, em entrevista à Revista Ensino Superior em 2006, disse que há dois tipos de programas nas TVs universitárias brasileiras: os laboratoriais - oriundos da produção dos estudantes - e os institucionais - ligados à Reitoria e que buscam a promoção da universidade. A segunda categoria é bem mais visível na programação da TV Campus, da UFSM, que prima por reportagens sobre temas internos à universidade, sem muito contato com o ambiente extra-acadêmico. A universidade que tem uma rádio ou um canal de televisão, em geral, tem um cur-

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categorias

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A Terceirização que nem todos perceberam Desde 2009, os motoristas da UFSM são contratados através de empresas privadas. Michelle Falcão

Foto: Michelle Falcão

O

s funcionários terceirizados já fazem parte da rotina do campus. Os serviços de segurança e de limpeza são realizados, em sua maioria, por empresas privadas. Consideradas atividades meio (veja box abaixo), os concursos públicos para tais categorias estão suspensos pelo Governo Federal. A orientação do Ministério da Educação (MEC) é de que os prestadores de serviços sejam contratados via licitação. A primeira licitação no Setor de Transportes aconteceu em agosto de 2009. Desde então, nove motoristas terceirizados dividem o trabalho com outros 15 motoristas concursados. A contratação foi emergencial, tendo em vista a iminente aposentadoria dos funcionários públicos em atividade, a maioria há mais de vinte anos trabalhando na UFSM. A empresa vencedora da licitação foi a Sulclean, que já atuava na Universidade no setor de limpeza. O contrato teve duração de um ano, com possível renovação de quatro anos, que já foi efetuada. Com um salário de cerca de R$ 2.000,00 a menos do que os motoristas servidores, os terceirizados reclamam de atraso no pagamento de suas horas extras. Depois de inúmeras tentativas de acordo com a Sulclean, a medida que os motoristas encontraram foi recorrer diretamente ao Sindicato dos Trabalhadores e Condutores de Veículos Rodoviários de Santa Maria (SITRACOVER). “Depois desse um ano, eles falaram

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em modificar o contrato, mas nós não ficamos sabendo de nada que foi decidido ainda”, diz um motorista que prefere não ser identificado. Para cada viagem que os motoristas terceirizados fazem, o valor que a Sulclean destina para os custos com hospedagem e alimentação é de R$ 22,50 por dia. Como o valor é insuficiente para cobrir essas despesas, os motoristas têm que pagar a diferença. Para completar a renda, alguns empregados necessitam realizar trabalhos paralelos. O gerente da Sulclean Marlus Tombesi diz que o contrato tem limitação de quatro horas extras por motorista ao dia. A cada mês, o total acertado equivale a 100 horas extras. Em algumas ocasiões, os motoristas chegam a fazer até 140 horas extras. Quanto às diárias, Tombesi ressalta que o valor foi fechado em convenção junto ao Sindicato. A adaptação dos novos motoristas foi rápida. “Eles pegaram direto como é que funciona toda a máquina da Universidade”, diz o motorista Helio José da Silva, que tem 26 anos de UFSM. A expectativa da Pró-Reitoria de Infraestrutura é de que, no máximo, até o fim de 2011 outra licitação para a contratação de motoristas seja realizada. Segundo o pró-reitor Valmir Brondani, essa rotatividade de empregados “é um vínculo inseguro com a Instituição. Isso deixa muito difícil essa relação. Nós sempre trabalhamos com funcionários novos, sem compromisso com a continuidade”. O pró-reitor reconhece que muitos dos contratos firmados com a iniciativa privada

são uma forma de ‘escravidão’ dos trabalhadores. As licitações vencedoras são as que oferecem o menor preço. Dessa forma, os salários pagos correspondem ao valor mínimo exigido pelos sindicatos. Indagado sobre alguma possibilidade de reativação dos concursos públicos para as atividades meio, Brondani conta que, em visita recente à UFSM, representantes do MEC foram taxativos: “não há a menor possibilidade”. A Sulclean está em negociação com a SITRACOVER e com a UFSM para que o contrato atenda à demanda. Caso contrário, a Sulclean irá pedir sua rescisão. Com outros contratos vigentes com a Universidade, a Sulclean acredita em uma solução para o impasse e a continuidade do trabalho prestado pelos motoristas. .txt Atividades meio e Atividades fim Essas denominações dependem da finalidade de cada empresa ou instituição. No caso da UFSM, sendo a educação o objetivo principal, as atividades que giram em torno disso não podem, de forma alguma, serem terceirizadas. Os cargos de professor, por exemplo, são atividades fim. Os serviços que circundam as atividades ligadas à educação, como segurança e transporte, sendo atividades meio, são terceirizados, seguindo normas do Estado.


o arco da velha

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Dando continuidade à seção em homenagem aos 50 anos da UFSM, mais algumas fotos de importância histórica. O foco desta edição é a Universidade no centro de Santa Maria. Felipe Severo Caren Rhoden

Dezembro de 1952 Início da construção do prédio da antiga Faculdade de Farmácia e Medicina, no centro de Santa Maria, onde mais tarde funcionaria a Reitoria da UFSM. Ao centro, a rua Astrogildo de Azevedo, no sentido Floriano Peixoto - Acampamento

Fotos: Departamento de Arquivo Geral da UFSM

Setembro de 1960 Construção da Casa do Estudante do Centro, na rua Professor Braga. Interessante notar o contexto urbano da época, em que predominavam casas e árvores ao invés dos prédios de hoje. .txt Julho de 2010 19


cultura

“Quem não lê ...

...mal ouve, mal sente, mal vê, mal fala” Com esse slogan, surgiu a primeira Feira do Livro de Santa Maria, em 1973 Lara Niederauer e Mariana Soares

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ano de 2010 marcou uma nova fase para a já tradicional Feira do Livro de Santa Maria. A Prefeitura Municipal firmou convênio com a Comissão Organizadora para a liberação de R$ 110 mil. O apoio para a realização do evento veio em forma de recursos financeiros, garantindo, assim, a programação integral do evento.

instalar um espaço destinado à promoção cultural na cidade e isso inquietava os alunos. “A gente se questionava muito na aula sobre as poucas opções de leitura que tinham em Santa Maria. Nós estávamos na época da ditadura e a gente realmente não tinha uma grande oferta de obras”, explica Walter Oppermann, integrante da primeira turma de Comunicação Social da UFSM.

rias existentes na cidade, alguns alunos viajavam até Porto Alegre para fazer acordos com editoras e livrarias da capital, que disponibilizavam um número grande de variadas obras. Além disso, os organizadores aproveitaram as viagens à capital gaúcha para realizar a divulgação do evento. Era trabalho dos alunos, também, selecionar e catalogar os exemplares que seriam

A chuva não impediu a realização das primeiras edições da Feira do Livro.

Mas nem sempre os recursos foram fartos. Os primeiros organizadores, acadêmicos da UFSM, precisaram trabalhar duro para realizar as edições iniciais.

Foto: Departamento de Arquivo Geral da UFSM

Uma ideia... Na manhã do dia 26 de maio de 1973, a Praça Saldanha Marinho foi palco de uma movimentação cultural. Acadêmicos do curso de Comunicação Social (FACOS) da UFSM levaram livros para o local e foi assim que eles determinaram rumos da área cultural da cidade de Santa Maria que se refletem ainda hoje. Dez anos antes, o então prefeito Miguel Sevi Viero sancionou a lei nº 1133/63, que oficializava a Feira do Livro de Santa Maria a ser realizada durante dez dias na Praça Saldanha Marinho. Porém, até 1973, haviam sido poucas as tentativas de se

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A partir desses questionamentos, os acadêmicos da FACOS tiveram a ideia de realizar em Santa Maria um evento em praça pública aos moldes do que acontecia em Porto Alegre - cidade que mantém uma Feira do Livro desde o ano de 1955. Assim, a primeira Feira Universitária do Livro foi realizada na Saldanha Marinho, em 1973. Como destaca um jornal da época, “é a cultura, pela mão dos jovens, que está indo ao encontro do povo”. ...muito trabalho... No primeiro ano, o trabalho foi intenso e exigiu bastante esforço dos organizadores. Apesar do apoio da UFSM e da Prefeitura Municipal, eram os estudantes que realizavam visitas às distribuidoras de livros e que se encarregavam de realizar a venda dos livros na praça. Com as poucas livra-

vendidos. Essa atividade era realizada durante as madrugadas anteriores à abertura diária da feira. Cada dupla envolvida ficava responsável por cuidar o movimento de uma banca e atender o público. Esses mesmos alunos, em todos os dias de atividade de feira, buscavam os livros em determinados locais, pois estes não podiam permanecer no local de venda. “A gente carregava braçadas de livros e era o pessoal do Clube Comercial que nos emprestava uma sala, no porão, para guardarmos os livros durante a noite. Então, todos os dias, a gente ia ao porão do clube, recolhia os livros, levava para a praça e organizava banquinha por banquinha”, relata Aurea Evelise Fonseca, integrante da turma responsável pela feira de 1978. Apesar do trabalho árduo no desenvolvimento da feira, os alunos não recebiam por isso. “Era um movimento totalmente pessoal, sem a visão de lucro. A


.txt turma assumia esse compromisso e tinha escala de trabalho”, continua Aurea. Os livros, inclusive, eram vendidos com desconto. O trabalho durou alguns anos. Tornouse tradição, no curso de Comunicação Social, a organização da feira pelos estudantes do segundo ano de cada turma. Assim, os alunos da FACOS tinham o compromisso de levar os livros para a praça. Apesar de o movimento cultural ser realizado em um local público no período de ditadura civil-militar, diversas obras que não circulavam normalmente no mercado - principalmente as de teor político - chegaram às mãos dos santa-marienses. Livros como O Capital, de Karl Marx, foram vendidos durante o evento. “Era meio camuflado, mas nem tanto, porque a gente estava em praça pública. A prefeitura emprestava as barracas e a gente vendia os livros que

evento só foi retomado em 1982, quando a UFSM assumiu as despesas. A estrutura inicial, se comparada com a das edições atuais, era bem menor. A feira contava com poucos estandes, o que delimitava a sua abrangência. Além de serem poucos, os estandes não tinham a estrutura ideal. “Eu já olhei muitas feiras depois daquele dia e acho que agora o pessoal da feira está mais beneficiado. Tanto os que vão comprar quanto os que vão vender, porque hoje, por exemplo, a chuva não pega”, compara Orozimbo Penna, jornalista formado pela segunda turma de comunicação que acompanhou diversas edições como fotógrafo da UFSM. Apesar de não visar ao lucro, os alunos comparavam os resultados de vendas de um ano para o outro. A partir dessas avaliações, constatavam vendas menores em alguns anos e atribuíam isso a dois fatores:

da organização do evento que já era marco na cidade. Nesse ano, a Feira do Livro se configurou com o apoio da prefeitura Municipal, Serviço Social da Indústria (SESI), Oitava Delegacia de Educação, Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (CESMA) e Editora da UFSM. Essa edição da feira contou com a escolha de um patrono, tradição que se estende até hoje. O primeiro patrono foi José Mariano da Rocha, fundador da UFSM. A participação dos alunos de Comunicação Social diminuiu ao longo dos anos, uma vez que as demandas da feira aumentaram. Dessa forma, a organização coube à Prefeitura Municipal, através da Secretaria de Cultura. Atualmente, o único vínculo do curso da UFSM com o evento se dá através dos acadêmicos de Publicidade e Propaganda, responsáveis pela campanha publicitária do evento.

Alunos eram os responsáveis pela venda dos livros.

não eram bem-vindos pela ditadura”, relembra Aurea. ...e alguns empecilhos

Os livros voltam para a praça A feira retomou suas atividades quando a integrante da primeira turma da FACOS Eugênia Maria Mariano da Rocha Barrichello voltou ao curso, dessa vez como professora. Em 1995, Eugênia impulsionou os alunos a participarem novamente

Com o passar dos anos, apesar dos impasses, a Feira do Livro de Santa Maria cresceu e se tornou um dos maiores eventos culturais do município. Segundo Aurea Evelise Fonseca, que hoje faz parte da equipe de assessoria de imprensa do evento, atualmente a feira se consagra pelo seu “caráter interdisciplinar, multicultural, que envolve teatro, música, eventos, palestras, divulgação diversa, oportunidades de divulgação, tem praça de alimentação. Quer dizer, as pessoas não vão lá só para comprar livros, as pessoas vão lá para se servir de cultura, de várias formas”. O agradecimento àqueles primeiros organizadores veio em 1999 com uma homenagem no evento. A “promoção altamente louvável” - como adjetiva uma edição de 1973 do jornal A Razão – dos acadêmicos de Comunicação Social alcançou seu objetivo, criando um espaço cultural na cidade. .txt

Foto: Orozimbo Ramos Penna

Nem o período político nem o intenso trabalho barraram o esforço dos alunos. Foram outros os motivos que dificultaram a realização da Feira do Livro em alguns anos. A mesma prefeitura que auxiliava em alguns momentos na realização da feira, foi alvo de críticas, tais como: “incapaz e desrespeitosa quanto à cultura”, segundo reportagem do jornal A Razão, do ano de 1980. Naquele ano, o tradicional empréstimo dos estandes foi suspenso sem aviso prévio aos acadêmicos, e, além disso, a prefeitura não enviou o transporte prometido aos alunos. Os atritos foram um dos impasses responsáveis pela não-realização da Feira do Livro no ano seguinte. Assim, o

baixo poder aquisitivo da maioria da população e o próprio nível cultural de Santa Maria. E era esta realmente a força motriz da realização da feira na cidade, como diz Walter Oppermann: “o maior objetivo realmente era proporcionar melhor leitura para a comunidade de Santa Maria”. A falta de auxílio na organização da feira, em algumas edições, levou ao desinteresse de algumas turmas em realizar o evento. Assim, no começo da década de 1990, a feira teve suas atividades suspensas.

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cultura

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- De onde é que vem tanta água, [compadre? Raul Bopp

vamos deixar os corpos os corpos de cada número e ver toda vida se dar na finitude alheia regressiva dos suspiros que ainda temos perdido Uiliam Ferreira Boff

David Machado Gomes

Fatias de mar dissolvem-se na areia Parece que o espaço não tem fundo...

você e eu tu e teu tic e tac

Não existe caminho

Chegam ondas cansadas da viagem Descarregando montanhas

Quero gritar um silêncio, mas tudo que escrevo é um tic-tac infinito que poderia ser trocado por um minuto vivo e , assim, ver morrer a dor do tempo

Existe se for feito a cada passo Mas eu não passo Fico

Mar desarrumado De horizontes elásticos Passou toda a noite com insônia Monologando e resmungando

Perdas

Felippe d’Oliveira

...E a noite veio e eu me perdi dentro da noite... Vago na sombra...Vago dentro do mistério... Perdido! Ando a buscar um canto em que me açoite, E, alucinadamente, entro num cemitério...

XIX

Entorno o desconhecido No interior apenas dúvidas Em nenhuma das direções existe um caminho

Foto: Liana Coll

O

rlando Fonseca, professor do curso de Letras, disse-nos: “usem alguma poesia para falar dela”; ela é em si um caminho de significados e sensações. Um desaguar cotidiano em alguns casos, em outros uma aprimoração constante da poesia quanto arte. A UFSM possui uma grande movimentação de pessoas e, naturalmente, diferentes em suas propostas de vida. Alguns pontos nos unem; aquilo que um verso provoca, por exemplo, pode não ser igual, mas é algo brotando a partir daquilo que brotou e já se consolida em letra. Longe dos assuntos factuais, buscamos, então, o que se perpetua. Nesse mosaico de poemas, encontrarão a voz de nomes já consagrados de Santa Maria como: Felippe d’Oliveira, Prado Veppo, Raul Bopp e o emergente Vitor Biasoli, professor do curso de História da UFSM, que possui livros publicados. Além desses, irão se deparar com André Ramalho da Silveira e Daniel Retamoso Palma, formados em filosofia; Daniella Paez, Felipe Freitag e Tex Júnior, estudantes do curso de Letras; Uiliam Ferreira Boff, formado em Letras e graduando de Ciências Sociais; David Machado Gomes, estudante de Artes Cênicas. Olhos aguçados para o factual, sim. .txt

A tarde vai morrendo... A agonia da nuança, Em delíquios de tons, plange pelos espaços. Vésper quase desmaia... É uma rosade-França, No alto despetalando os seus reflexos baços...

Caren Rhoden e Felipe Severo

Um punhado de terra e cal (trecho)

MOSAICO DE VERSOS


Prado Veppo

E, no vai e vem Da vida, Só a morte É nunca mais.

Há alegrias, De Natal, Há tristezas Quaresmais.

Cai a onda Sobre a praia, Volta a onda Para o mar

Morre o dia, Surge a noite, Torna o sol A despontar.

O pêndulo

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Testemunho ontológico do reflexo de Narciso E a crença no acontecer mostra-se como o fundamento da natureza, Na qual funda-se a normatividade cotidiana, uma imputação pela destreza, Ou pela falta dessa, mas ainda assim o julgamento exprimi-se como vileza, Como um resíduo não transparente aos absortos no cotidiano da medíocre [realeza. O desacontecer é a manifestação originária da temporalidade, Cuja compreensão ontológica revela-se como constatação de si próprio, Pela qual o desfazer iminente torna visível a falta de necessidade, A qual é a pressuposição para se crer no acontecer como natureza do brio. E o espelho nunca é carregado, pelo temor de Narciso, Mas a constatação do reflexo em sua solidão não torna possível O afogamento nas próprias lágrimas, nesse determinar de tudo o que é impreciso.

(...)

Cânticos ferozes, Catherine! Na inconstância engolindo Nossos nomes, nossos filhos E Saturno nos devora Pois somos filhas das horas Somos as horas perdidas Em resquícios lunares Que nos concedem lugar Nas graças partidas: Estelares Somos Maiores Somos Marias: A viúva que canta à lua -A esperar os lençóis secaremA funesta mulher que não geme -A gozar em seus prantos de dorA virgem que move estrelas -E se afoga em silêncio, inerme

A sanidade é apenas um defeito da senilidade, E o amor... apenas o envolver-se no acontecer impróprio no esquecimento [da maldição. Mas não temo a verdade, não temo a ilusão, são apenas perspectivas de [uma debilidade.

Esprememo-nos, Catherine! Desfrutando do suco e da flor Do que sai de dentro nós Das heras secas em nossas tranças Das teias nos enxovais VERSOS MATERNAIS Das costuras embevecidas no tempo >>>me vem a Putapoesia<<< Das ervas em nossos cálices pernas abertas àquilo que falo Das ervas que nos aprazem cheio de sangue... E nos causam devaneios afins

Tex Junior

sussurros

Se aos olhos espreita a morte (vento que violenta a pena): teu manto não mais a sanha; teu canto não mais silêncio.

Vitor Biasoli

Que abriria a porta Desta cidade

Poema

...um vampiro tecnocrata testa a paternidade dos meus filhos com Ela enquanto os embala em uma brochura mas paimãe mesmo

A palavra é inútil é aquele que adota os filhos do Carnaval Mas seus dentes Invisíveis Daniel Retamoso Palma Revelam a flor Que me assombra

E dos ciclos sem fim das eras seculares dos destroços dos corpos Dos ramos e rezas Dos cânticos dos mortos Cantemos, Catherine! (...) ” (Somos fonte dos que virão) Daniella Paez

Vitor Biasoli

Felipe Freitag

Se for pra ver a lua – neste fim de tarde, que seja sem armas, sem alarde, como morrer no domingo.

Raiva do raio Desta chave

Raiva de tudo Quanto me cerca

CANTO DA REDENÇÃO Se for pra contestar o canto que seja ao fim da tarde, quando o estopim é findo.

(depois)

Mais amor. Mais e mais carinho. Daquele nó que se dá na garganta quando vejo-te. Do cheirinho de erva macerada. Do mel, e da água. Mais sexo nas madrugadas de lua nova. Mais sonhos partindo sem avisar. Daquele jeito que só você mexe no meu cabelo. Do teu peito na minha boca. Da tua língua na minha coxa. Mais amor, mais rima, mais sinestesia. Eu colado. Tu colado. Minha calça jeans roçando a tua calça xadrez. Meu beijo na testa, e a tua boa noite, Volto em breve. Teu cigarro babado na minha boca quente. Almas acesas.

Que quero entender E não acho a chave

Raiva de mim E desta cidade

Mastigo um pastel E tenho raiva

Mastigo um pastel Como se fosse a cidade

André Luiz Ramalho da Silveira

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perfil

Entre princesas e teorias

Q

Fotos: Luciana Minuzzi

uem costuma frequentar o campus da UFSM, já deve tê-las visto por aí. No Restaurante Universitário, na Casa do Estudante Universitário II (CEU II), no prédio 74 e até nos festivais e shows de músicas que, eventualmente, acontecem pela UFSM. A semelhança física logo entrega que há algum laço familiar entre as duas gurias. Seriam irmãs? Primas? Mãe e filha? Os mais observadores acabam deduzindo que mãe e filha é a resposta correta. Mas mesmo os mais detalhistas não conseguiriam captar ou identificar os pequenos gestos que demonstram toda a amizade e união entre a Taci e a Tati. Subindo as escadas do bloco 15 da CEU II estão lá as gurias, em um apartamento que mal cabe toda a coleção de DVDs, que Tati faz questão de mostrar com carinho e as mãozinhas pequeninas. A mãe, Taciane Hermann, 23 anos, tenta acordar a baixinha que odeia levantar cedo. Taci desperta a filha, que reclama, com toda doçura que só as mães têm. Tatiana Hermann, cinco anos, tem tanta personalidade e atitude que muito cinquentão sonha ter. A pequena pode até ser a princesa da mamãe, mas quer mais

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Luciana Minuzzi é a independência. As roupas, ela mesma separa e veste. As músicas, ela que escolhe. E não pense que é música para bebês. “Ela gosta bastante de Inseto Social, ela escuta muito em casa e eu também, quando ela deixa, né?”, conta Taciane. As duas já são figuras confirmadas nos shows que acontecem no campus. O gosto musical é, em grande parte, influência da mãe: “Eu era bem punk antes de ter ela. Agora só mudou o visual. O espírito continua o mesmo”. Quando pensava em fazer algo quando crescesse, Taci se imaginava jornalista. Tentou vestibular três vezes. Fez cursinho no Práxis e no Alternativa. Com uma bolsa em uma Faculdade à distância de Publicidade e Propaganda e o conhecimento dos cursinhos, Taciane descobriu a Filosofia. “Me apaixonei, passei no vestibular, cursei o primeiro semestre. Mas no segundo semestre comecei a trabalhar e não venci o trabalho, o curso e cuidar da casa. Precisei largar”, conta Taciane. Ela trocou a licenciatura pelo bacharelado para poder estudar à noite e ficar mais com Tati em casa. “Mas quero voltar para a licenciatura”, fala Taci, decidida. Mesmo com a difícil tarefa de conciliar a Faculdade de Filosofia, o trabalho e a família, Taci não altera o tom ou volume da voz, numa calmaria contrária à tempestuosidade da filha. Tati já era companheira da mãe mesmo antes de nascer: “Quando estava grávida, eu estava estudando ainda. Ela nasceu e no quinto dia já ia pra aula comigo no carrinho”. Hoje ela ainda acompanha a mãe onde quer que ela vá. “De noite, levo ela para a aula comigo. Quando o laboratório de informática está aberto, ela fica jogando a noite toda. Se não, ela fica comigo na aula”, conta Taciane. Enquanto a mãe discute sobre Kant, a filha desenha e pinta princesas em papéis, comportada até a hora de bater uma fome. “Depois do intervalo ela começa ‘mãe, tô com fome’, ‘mãe, quero ir pra casa’. Mas, em geral, ela se comporta. Nenhum professor reclamou”, relata Taci. A pequena também já está inserida na política ao ir com a mãe nas reuniões do DCE: “A gente costuma dizer que ela é a militante mais nova”.

O sonho de ser jornalista de Taci já foi superado pelo amor à Filosofia, e, enquanto não for professora, em um futuro mais próximo, pensa em se aprofundar no trabalho atual: “Eu queria um emprego para poder dar um lugar melhor para a Tati morar, que eu pudesse conciliar com a faculdade e com ela. Hoje trabalho em um salão de beleza no centro. É uma coisa que eu gosto e sei fazer bem. Quem sabe no futuro eu abra um salão de estética”. Mas a mãe não faz planos para a filha: “Isso aí eu vou deixar pra ela”. Talvez Taci não faça planos, pois Tati está determinada: “Eu não quero crescer”. “Ela não quer crescer, quer ser criança pra sempre, ela chora quando a gente tenta explicar que as pessoas crescem”, diz a mãe. Será que Tati não está certa? Afinal, quando estuda em casa, Taci brinca com a filhinha de escolinha e de inventar histórias. Assim, divididas entre princesas e teorias, vivem mãe e filha. Uma alimentando os sonhos da outra, matando os dragões e chegando até o príncipe, pois no fundo, são apenas duas gurias. .txt


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