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Revista Túnel | Vol. 1, n. 1, 2018

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

Entrevista Nerdologia e a ciência no YouTube

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1 você e a ciência comunicação entre

Mulheres cientistas falam sobre as dificuldades da área

Pesquisador desenvolve protótipos para facilitar vida de pessoas com deficiência

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Desafios

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08 34 Acessibilidade 22 edição #1 - 2018 volume 1 / nº1 / 2018


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comunicação entre você 3 e a ciência


comunicação entre você e a ciência

EXPEDIENTE

Projeto Gráfico Luciana Ruiz de Vilhena

Diretor-Geral Prof. Flávio Antônio dos Santos Vice-Diretora Profa. Maria Celeste Monteiro de Souza Costa

Diagramação Andréa Rodrigues Eduardo Rocha Rodrigues Luciana Ruiz de Vilhena

Diretor de Pesquisa e Pós-Graduação Prof. Conrado de Souza Rodrigues Coordenadora Geral de Divulgação Científica e Tecnológica Sônia Miranda de Oliveira

Revisoras Leila Caeiro Sônia Miranda de Oliveira   Organizadores

Secretário de Comunicação Social Luiz Eduardo Pacheco

Diretoria de pesquisa e Pós-Graduação – DPPG Coordenação Geral de Divulgação Científica e Tecnológica - CGDCT Secretaria de Comunicação Social – SECOM

Conselho Editorial André Luiz Silva Flávia Pereira Dias de Menezes Leila Marli de Lima Caeiro Prof. Conrado de Souza Rodrigues Profª Carla Moreira Barbosa Sônia Miranda de Oliveira

Apoio Fundação de Apoio à Educação e Desenvolvimento Tecnológico – Fundação CEFETMinas Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG

Editores Chefes Flávia Dias – MTB 9.167/MG Diogo Tognolo – MTB 19.065/MG Sônia Miranda de Oliveira – CRB6-1381

Contatos www.periodicos.cefetmg.br dct@dppg.cefetmg.br

Equipe de Jornalismo André Luiz Silva Diogo Tognolo Flávia Dias Gilberto Todescato Telini Leila Caeiro Nívia Rodrigues

Gráfica Mafali (31) 3476-6566 Tiragem 500 exemplares

Av. Amazonas, 5253 – Nova Suíça – Belo Horizonte/MG CEP: 30421-169 / Tel: (31) 3319-7110 www.cefetmg.br

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Por quê? A curiosidade está tão enraizada em nós quanto nossos instintos mais básicos. Formular questões e encontrar respostas faz parte da essência humana, e a construção das relações entre causa e efeito é algo que evolui conosco, continuamente. Ciência e Pesquisa Científica são consequências deste processo e refletem muito da maneira como hoje formulamos nossas questões e buscamos respostas a elas. Portanto, o ser humano é, por natureza, cientista. Se é tão natural, por que a ciência e a pesquisa científica às vezes se parecem tão distantes do nosso cotidiano? A todo momento percebermos o impacto das pesquisas científicas em muitos aspectos de nossa vida, como a evolução da medicina e dos fármacos, a produção de alimentos e a forma como nos comunicamos. Entretanto, nem sempre associamos estes efeitos aos esforços de pesquisa que foram empreendidos para alcançá-los. Como consequência da nossa própria evolução e do mundo em que vivemos, as perguntas tornaram-se mais complexas, assim como a busca para as respostas a elas. A ciência teve que se ramificar e se especializar de forma a continuar nos possibilitando construir nossas relações entre causa e efeito. Para tanto, seguimos desvendando as minúcias de cada uma das muitas especialidades que o conhecimento humano criou; cada qual com seus termos e seus métodos próprios. Além da contínua especialização da ciência que hoje divide-se em inúmeras áreas, a evolução do saber também depende do acúmulo e da transferência de conhecimento. Esses foram os fatores que deram origem ao que hoje são nossas bibliotecas, escolas, universidades e centros de pesquisa. Tem sido nessas instituições que desenvolvemos cada vez mais a nossa habilidade natural de formular perguntas e obter respostas. Tais instituições são, portanto, bens preciosos em qualquer sociedade; por outro lado, a evolução da sociedade é a razão de ser destas instituições. A Comunicação Pública da Ciência é um movimento mundial que busca manter cada vez mais viva e efetiva a relação entre as instituições de ensino e pesquisa e a sociedade, buscando aproximar as pessoas da ciência que é realizada hoje. Por parte das instituições, isto se reflete em estabelecer formas adequadas de apresentar a maneira como vivem a ciência e fazem pesquisa científica. Além disso, procuram promover uma interação mais direta e dinâmica com as pessoas, aproximando alunos, professores, pesquisadores, laboratórios e equipamentos da fonte de onde vêm as perguntas mais importantes – a sociedade. A Rede Mineira de Comunicação Científica integra as instituições de ensino e pesquisa no Estado de Minas Gerais desenvolvendo estratégias para o aprimoramento da Comunicação Pública da Ciência nessas instituições. A Coordenação de Divulgação Científica e Tecnológica do CEFET-MG é integrante ativa dessa Rede e, através de projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, a FAPEMIG, apresenta ao público nosso mais novo canal de divulgação científica, a Revista Túnel. Através dela pretendemos não só mostrar a pesquisa que realizamos mas, tanto quanto, integrar cada vez mais a sociedade à pesquisa que fazemos. Pelo projeto gráfico, a seleção de tópicos e a forma pela qual os assuntos são tratados, é fácil perceber que não se trata de um túnel sombrio, com a luz vista só nos extremos. A Revista Túnel reflete a alegria de se fazer pesquisa científica e se conversar sobre ciência e a sua relação com as pessoas. Procuramos fazer deste túnel um atalho para levar nossos laboratórios para a rua e para trazer as pessoas para dentro deles. Sejam bem vindos! Flávio Antônio dos Santos – Diretor-geral do CEFET-MG Conrado de Souza Rodrigues – Diretor de Pesquisa e Pós-Graduação do CEFET-MG

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0814 Entrevista

Tecnologia e Inovação

Ciência no Youtube

Capturando o mosquito da dengue em casa

3234 Ciência e Tecnologia

Mulher na Ciência

Quem planta, conscientiza

Resistência na igualdade entre gêneros

5254 Grupos de Pesquisa

Pós-Graduação

Construção Civil em discussão

Uma década de linguagens

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182228 Ciência e Comunidade

Eu faço ciência

Memória

Agora é a sua vez

Tecnologia para os cuidados com a saúde

Eu sei quem quer falar comigo

404448 Deu Tese

Tecnologia e Inovação

Pesquisa no CEFET

Para além da pesquisa, a arte

Superando o AVC com a realidade virtual

Pesquisando desde cedo

Ciência em casa

Descomplicando

Giro na Ciência

“Quando o vilão vira herói”

Notícia tem perna curta

#Quero likes Eventos

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

CIÊNCIA NO

YOUTUBE Com mais de dois milhões de inscritos, o canal Nerdologia fala sobre ciência de forma divertida e atrai interessados

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Flávia Dias “Seja bem-vindo ao Nerdologia. Como matar o Wolverine? Como os zumbis nos matariam? O que é a zona da morte? A memória genética de Assassin’s Creed? Saiba disso e muito mais aqui no Nerdologia. O canal onde o mundo pop vira ciência. Toda quinta comigo no YouTube, se inscreva para acompanhar...”.

Dessa forma, o canal Nerdologia do biólogo e pesquisador Átila Iamarino chama os internautas para uma viagem no mundo que mistura entretenimento e conhecimento científico. Com mais de dois milhões de inscritos, o pesquisador apresenta todas as quintas-feiras, às 11 horas, um assunto diferente e atual, como os vírus Zika e Ebola, suicídio, entre outros.

A Revista Túnel conversou com o youtuber e comunicador de ciência no ScienceBlogs Brasil sobre a experiência de trabalhar com ciência nessas mídias e como falar de pesquisas, que muitas vezes tratam de assuntos complexos, de forma bem-humorada e de fácil entendimento.

Por que você escolheu especificamente o YouTube, com o canal Nerdologia, e o blog Rainha Vermelha para falar sobre ciência? A escolha começou com o blog: eu comecei escrevendo o Transferência Horizontal por sugestão de um amigo, o Rafael Soares, que até hoje também escreve um blog chamado RNA Mensageiro, que faz parte da rede ScienceBlog. Na verdade, eu já lia blogs, consumia muito desse meio escrito e, por isso, ele me sugeriu que eu começasse a escrever, falando de ciência. A vantagem do blog no começo era porque ele estava sob meu controle. Eu tinha minha agenda para escrever e falar o que eu quisesse, quando quisesse e da forma que eu quisesse. A partir de 2007, começou a popularização de podcast e vídeos, o que me fez escolher especi-

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ficamente o YouTube. Isso foi devido a um vídeo em particular do Eli Vieira respondendo ao pastor Silas Malafaia, que fez um milhão e meio de views na época, falando de ciência, hereditariedade, característica e homossexualidade. Deu para perceber que a audiência estava toda no YouTube. Enquanto o blog foi um movimento de comodidade, de poder escrever no meio que estava mais próximo, o YouTube foi uma escolha ativa de buscar o público no meio onde as pessoas estavam para se informar. Como surgiu a ideia do nome Nerdologia e Rainha Vermelha? O primeiro blog que comecei chamava Transferência Horizontal, uma referência à transferência de informações horizontal em bactérias, que é a transferência que não acontece de pai para filho, mas sim para as bactérias que estão ao redor ou de bactérias para o gene dela, para as bactérias que se dividem. Isso para fazer uma brincadeira com transfe-

rência de informação para os pares e não para cima ou para baixo, mas ninguém entendia muito bem aquele nome. Na época, estava lendo muito sobre evolução e estava empolgado com a “teoria da Rainha Vermelha”, uma teoria evolutiva baseada na personagem do Lewis Carrol de Alice Através do Espelho, em que a Rainha Vermelha fala para a Alice que no país dela a gente tem que correr cada vez mais para continuar parado no mesmo lugar. Isso é muito do que acontece em evolução também, os organismos evoluem, mas continuam mais ou menos na mesma condição ecológica, com as mesmas interações que eles têm desde sempre. O nome Nerdologia é um nome que o Jovem Nerd e o Azaghal (do Jovem Nerd, um grande portal de notícias e entretenimento que abriga podcasts, videocasts e uma central de notícias) já tinham dado para um quadro onde eles explicavam filmes mais a fundo. Até então não estavam usando muito de

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ciência, mas um pouco de ciência e muito de filmes. Como falar de assuntos complexos que envolvem pesquisas científicas para o público leigo? Um dos primeiros caminhos é o uso abusivo de analogias. As pessoas têm que se relacionar com o que a gente está falando e a gente tem que fazer analogias que as tornem acessíveis para elas. No caso do Nerdologia, a gente faz essa mistura com a cultura pop, de fazer analogias que usam elementos culturais ou situações com as quais as pessoas estão preocupadas e se relacionam. Para falar de assuntos complexos que envolvem as pesquisas científicas, o maior desafio é como fazer a relação do assunto complexo com alguma coisa da vida das pessoas para tornar o assunto mais interessante.


A que você atribui o sucesso dos seus canais? É uma combinação de vários fatores. Primeiro, é falar no meio no qual a audiência já está: há um público muito grande no YouTube que está buscando informação. A gente está falando em vídeo, que é o meio que mais cresce, que as pessoas mais usam para se comunicarem. A gente está fazendo um conteúdo tanto quanto ou mais de entretenimento do que de educação e informação propriamente dita. As pessoas estão na internet para se entreter, principalmente. Daí a produção, trilha sonora, telas animadas, bem desenhadas, empolgação na hora de falar... Mas a gente está recheando com algo mais que não é todo canal que tem: a informação e educação que está por trás disso. Muito do sucesso é entender que as pessoas na internet estão buscando entretenimento e é isso que a gente está tentando prover também. Qual a importância do trabalho que realiza para com os jovens? É grande. Não sei avaliar o tamanho dessa importância, mas um dos sinais que mostram que o trabalho é importante é ver os vídeos sendo incorporados em sala de aula. O vídeo tem o formato de ser curto, rápido, de cinco minutos e de só introduzir os temas. Eu não explico em exaustão e nem de forma abrangente, então ele acaba sendo um formato muito bom, prático e rápido para o professor incor-

porar em sala de aula e usar como motivador de discussão. Estou fazendo o que eu faço de melhor que é relacionar um assunto com a vida real ou cultura pop e vida irreal dos filmes e quadrinhos e trazer para a vida mais próxima dos alunos. Outras consequências muito legais que me dizem que o trabalho pode ser importante é ver os vídeos do Nerdologia sendo recomendados pelo Google, YouTube, hospitais, escolas, faculdades. Eles estão sendo passados em salas de espera em hospitais para falar sobre vacinação, sendo compartilhados em tempos de Ebola, Zika, assuntos quentes. Um dos assuntos mais delicados foi sobre suicídio, que precisou de uma sensibilidade enorme em torno do tema,

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questionando o papel da mídia, e se tornou um dos episódios mais compartilhados. Foi um trabalho complicado de fazer, mas muito recompensador. Quais as suas expectativas com relação à comunicação da ciência? As minhas expectativas com relação à comunicação da ciência são várias, não é à toa que estou fazendo isso e cada vez mais envolvido. Uma delas é a gente conseguir sair da postura passiva de esperar que a mídia e o público se interessem pelo o que a gente quer falar e entender que, cada vez mais, comunicação da ciência está próxima do marketing. A gente quer ir atrás de envolver o público e cativá-lo. Tem muito mais coisa na internet


disputando a atenção das pessoas e quem concorre com o Nerdologia é qualquer canal do YouTube e qualquer outra fonte de informação que vai distrair quem deveria estar vendo o meu vídeo, do meu ponto de vista. Preciso conquistar a atenção e não posso contar só com quem está interessado por aquilo. Outra expectativa é com relação a discutir o senso crítico e o senso de razão para quem comunica ciência. É como a gente consegue retratar o processo de construção do conhecimento científico, especialmente em tempo de fake news circulando com muito mais facilidade que a informa-

ção real. É como a gente vai discutir o modo como a ciência é construída. Em meio a tantas fake news, até mesmo envolvendo a ciência, qual o seu papel como comunicador dessa área? Quando a gente quer comunicar a ciência o tom é sempre mais neutro, muito mais sem ideologia, muito menos carregado que o tom das fake news e propaganda ideológica, que é o que circula mais fácil. O papel do comunicador é saber entreter, amarrar bem o conteúdo para embutir o senso crítico. O Nerdologia tem dentro do vídeo esse processo: eu cito quem foram os pesquisadores

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que descobriram o que estou afirmando, as fontes de informação, de onde eu tirei aquilo e porque a gente começou a pensar naquele processo. A comunicação científica assume o papel de levantar fontes, discussão, credibilidade e processo de construção do conhecimento. É um desafio enorme.

“As pessoas têm que se relacionar com o que a gente está falando e a gente tem que fazer analogias que as tornem acessíveis para elas.” Átila Iamarino


Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

CAPTURANDO O

Diogo Tognolo Em 2016, o Brasil atravessou uma grande crise de infecções pelos vírus da dengue, chikungunya e Zika. Nesse ano, o Ministério da Saúde confirmou 861 casos de dengue grave e 8.402 casos de dengue com sinal de alarme. Foram 642 óbitos em todo o país. O problema continuou no ano de 2017, quando o país também enfrentou uma alta propagação da febre amarela. Entre julho de 2017 e fevereiro de 2018, foram 353 casos no Brasil, com 98 mortes. Em comum em todas essas infecções está o mosquito Aedes aegypti: é ele o transmissor dessas doenças. Foi pensando nesse cenário que a professora de Biologia da Unidade Belo Horizonte do CEFET-MG Rosiane Leite lançou um desafio aos seus alunos: construir uma armadilha para captura de mosquitos. Segundo a professora, ela sempre busca em suas aulas trabalhar com a iniciação dos alunos na ciência. Três estudantes do curso técnico em Edificações, Isadora Brandão, Maira Carvalho e Maria Luísa Amancio, então no primeiro ano, partiram da proposta e criaram a “BECA: Armadilha para captura do mosquito Aedes aegypti”.

MOS Como explica Isadora Brandão, a ideia era criar algo simples, de baixo custo e fácil montagem. “Somente as campanhas de conscientização não conseguem controlar esses surtos”, afirma a estudante. Maria Luísa complementa, dizendo que, nas pesquisas realizadas, as alunas viram que a maioria das armadilhas é cara e complexa. “Nossa armadilha é inovadora, pois todos podem fazer em casa, com materiais que temos ou podemos arranjar com facilidade”. A BECA é feita a partir de garrafa pet, cano de PVC, cola entomológica e um atrativo para o mosquito. Mesmo tendo encerrado a disciplina da professora Rosiane

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em 2016, as alunas seguiram com o projeto. Desde então, apresentaram a armadilha em diversas feiras e eventos. Na primeira delas, a Mostra Específica de Trabalhos e Aplicações do CEFET-MG (META), o feedback recebido pelas estudantes foi combustível para continuar melhorando o trabalho. “A 26ª META foi realizada no Expominas e recebeu um público muito variado. As próprias pessoas discutiam conosco soluções para os problemas na primeira fase de teste”, explica Isadora. A armadilha foi testada em quatro fases, variando aspectos como o comprimento do material, localização e atrativos, até chegar no seu melhor resultado. Além do


QUITO DA DENGUE EM CASA

Alunas do CEFET-MG criam armadilha de baixo custo para o combate ao Aedes aegypti Rosiane, Isadora, Maira e Maria LuĂ­sa observam os mosquitos capturados pela armadilha BECA

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COMO FAZER A ARMADILHA BECA: Aedes aegypti, a armadilha já coletou outras espécies, como mosquitos Culex (gênero Culidae), abelhas (gênero Apidae), moscas (Musca domestica) e baratas (gênero Blattodea). As constantes evoluções do projeto têm dado resultado. Maria Luísa conta que “durante a feira trocamos experiências e temos um feedback interessante do público falando que é bem simples e que dá para eles fazerem em casa”. As alunas buscam agora melhorar os atrativos usados na armadilha. Apesar de terem capturado Aedes aegypti, a maioria dos mosquitos capturados foi do gênero Culex quinquefaciatus, o pernilongo doméstico. O projeto já foi apresentado em duas edições da META, na Feira Brasileira de Colégios de Aplicação e Escolas Técnicas (Febrat) e na UFMG Jovem. Em abril de 2018, as estudantes seguiram para sua primeira experiência internacional: o Edinburgh International Science Festival, na Escócia.

materiais:

Atrativos (escolha um): - Infusão de capim-colonião (Panium maximum) - Concentrações de 200g, 400g ou 600g em 1L de água. - Infusão de açúcar mascavo (Saccharum officinarum L.) – Concentrações de 50g, 80g ou 110g em 1L de água. - Infusão de bambu taquara (Bambusa tuldoides) - Concentrações de 200g, 400g ou 600g em 1L de água.

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Estrutura: - Garrafas PET (uma de 2L e outra de 3L) - Cano de PVC de 20mm de diâmetro e 19cm de comprimento - Joelho 90º de PVC de 20mm de diâmetro - Tela - Fita isolante - Cola entomológica (sem cheiro) - Tinta spray, cor preta


1.

Prepare o atrativo (infusรฃo) escolhido e coloqueo na garrafa de 2L. Feche com a tampa e deixe decompor por sete dias.

2.

Corte a parte superior da garrafa de 3L e encaixe o joelho na boca da garrafa. Prenda com fita isolante. Encaixe o cano de 19cm na outra extremidade do joelho, fixando com fita isolante.

3. Corte

um pedaรงo de tela de aproximadamente 4cm por 4cm e cubra a extremidade do cano. Passe cola entomolรณgica na tela e prenda com fita isolante.

4.

Encaixe a extremidade do cano na boca da garrafa de 2L e use fita isolante novamente para prender. Passe cola entomolรณgica na parte superior da garrafa de 3L.

5. Pinte toda a รกrea externa

da armadilha com tinta spray preta.

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CIÊNCIA E COMUNIDADE

AGORA É

A SUA VEZ... Jogos didáticos desenvolvidos em Contagem rediscutem métodos tradicionais de ensino ao mesmo tempo que entretêm e ensinam estudantes Gilberto Todescato Telini “Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.” Com essa reflexão de Carlos Drummond de Andrade, um cientista das palavras, é possível entender o quanto os métodos mais simples de ensino precisam ser repensados para atender às necessidades das atuais e futuras gerações de alunos. Inquieto com o tradicionalismo que ainda impera nas salas de aula, o professor de Física do CEFETMG em Contagem Rodolfo Vieira Maximiano desenvolveu o projeto “Infecção – aprenda biofísica se divertindo”, ao lado das alunas de iniciação científica júnior Letícia Lima e Gabriella Gonçalves. Antes de dar detalhes sobre o trabalho, o professor Rodolfo foi enfático ao falar sobre jogos educativos: “Jogos que não são divertidos não são jogados. Simples assim. Então, a função principal do nosso jogo é se divertir com um grupo de até quatro amigos. Sorrir, gargalhar, ficar com raiva por ter perdido... Todas as coisas que fazem os jogos serem memoráveis e criar bons momentos para os envolvidos. ” Com o entusiasmo de quem, há 15 anos, cria jogos narrativos e que, por meio deles, aprendeu Inglês, Matemática, Didática e, principalmente, a inovar, Rodolfo teve a ideia desse trabalho que, na prática, simula um organismo e em que, cada jogador, representa um microrganismo vivendo dentro dele. O desafio? Lutar por sobrevivência, contra o ambiente e contra os outros jogadores.

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Professor Rodolfo, acompanhado de Letícia e Gabriella apresentam o jogo “Infecção” Foto: Júlio Sardinha

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Já que estamos falando de aplicabilidade de teorias, nada melhor do que um exemplo do jogo, que conta com tabuleiro, peças e cartas. A mitocôndria funciona no nosso organismo como uma “usina energética” de nossas células, que é movida a açúcar. Esse sistema foi representado no jogo por meio da junção de duas cartas (mitocôndria e açúcar) que, juntas, garantem um turno extra ao jogador, por ser mais eficiente que seus concorrentes. Esse combo pode ser utilizado de diversas maneiras estratégicas dentro da competição para surpreender os concorrentes.

Por seu ineditismo e criatividade, o “Infecção” foi apresentado durante a Mostra Específica de Trabalhos e Aplicações (META) da Instituição, em que foi premiado na categoria “Melhor Modelo Didático”, em 2017, e na Feira Internacional de Negócios, Inovação e Tecnologia (FINIT), no mesmo ano. Durante a feira, o trabalho não foi apenas exposto, mas também jogado. “Levamos quatro mesas de jogos nos dois dias de evento, que ficaram lotadas. Apresen-

Divertindo-se, os estudantes aprendem conceitos novos em um “jogo que pode ser utilizado em aulas de ciências naturais, como química, física, matemática e biologia, afinal estamos tratando de reações químicas e processos celulares”, explica o professor Rodolfo.

“O ensino tem que mudar. Esse não é mais um tópico a ser debatido, mas uma meta a ser implementada. ” Professor Rodolfo Maximiano

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tamos o jogo do melhor jeito: jogando ele com os visitantes. O nosso índice de satisfação foi de 97%, o que significa que a maioria esmagadora dos playtesters (os jogadores que nos ajudaram a testar o jogo) tiveram bons momentos”, relembra o professor Rodolfo. De fora para dentro, como deve ser o novo modo de ensinar na contemporaneidade, o trabalho do pesquisador e das jovens cientistas está sendo aprimorado a partir das rea-

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ções e dos comentários dos jogadores e ainda não conta com um modelo definitivo. “Precisaremos refinar algumas mecânicas apontadas pelos nossos playtesters, e isso será feito este ano”, completa. O projeto, mais do que uma nova ferramenta para o ensino, também propõe um novo olhar para a educação na era digital. “O ensino tem que mudar. Esse não é mais um tópico a ser debatido, mas uma meta a ser implementada. A importância deste trabalho é mostrar aos alunos que já existem novas práticas de aprendizado, e que a escola pode voltar a ser interessante para a população que não vê mais atrativos nela”, finaliza.


EU

FAÇO CIÊNCIA!

Renato Zanetti, professor do Departamento de Eletrônica e Biomédica Foto: Júlio Sardinha

TECNOLOGIA PARA OS CUIDADOS COM A SAÚDE

Pesquisador e alunos desenvolvem protótipos com o objetivo de facilitar a vida de pessoas com deficiência 22


Flávia Dias Quando se pensa em professor, qual é a primeira imagem que vem à cabeça? Em sala de aula com giz ou pincel, com o quadro negro ao fundo? Muitos podem pensar que o papel dele se restringe a essa função, porém a atuação do professor vai além do ensino: muitos trabalham com pesquisa e extensão, produzem conhecimento e desenvolvem projetos inovadores que trazem benefícios e facilitam a vida das pessoas. É o caso do pesquisador e professor do CEFET-MG Renato Zanetti. Mestre em Engenharia Elétrica e professor do curso técnico em Equipamentos Biomédicos do Departamento de Eletrônica e Biomédica (DEEB) desde 2014, ele busca desenvolver com os alunos produtos que relacionam tecnologias para novos tratamentos médicos ou de cuidados em saúde. Os alunos são envolvidos em uma metodologia de projetos no primeiro ano do curso e várias propostas inovadoras são desenvolvidas. Muitos dos projetos são de cunho assistivo, relacionados a alguma deficiência. “Todo tipo de conhecimento aplicado é importante para o desenvolvimento social, para aumentar a acessibilidade das pessoas a produtos mais baratos e/ou melhores e para que tenhamos cada vez mais soluções para os problemas do dia a dia. Assim, para mim, a ciência é essencial para que consigamos incluir socialmente nossa população e para que todos tenham acesso ao bem-estar merecido”, destaca Zanetti.

fundamental para o crescimento sustentável de nossa sociedade”, afirma. A ciência e os benefícios para a sociedade O professor Zanetti trabalha com projetos de engenharia visando a soluções diferentes que sejam baseadas em novas tecnologias ou que sejam novas tecnologias que barateiem soluções existentes. “Por serem uma parcela menor da sociedade, pessoas com alguma deficiência têm mais dificuldade em acessar certas tecnologias ou mesmo para executar tarefas cotidianas. Considerando que a tecnologia seria em prol de facilitar nossa vida, em geral, para pessoas com deficiência, certas tecnologias são a garantia de uma vida mais comum. Assim, creio que também cabe à comunidade científica fazer esforços para ampliar o leque de tecnologias assistivas, já que muitas das grandes empresas não veem lucro nesse ramo de atuação e assim não possuem versões de seus produtos que fomentem acessibilidade”. Para o professor, todos, com um pouco de orientação, têm capacidade de criar algo que seja útil para a sociedade. “Claro que para se ter tecnologia de ponta precisa-se de investimentos, equipamentos, equipes altamente especializadas. Porém, muitas soluções bacanas podem sair de pessoas comuns. Gostaria de ver ideias e projetos virarem produto para que atendam a quem foram inicialmente destinadas”, conclui.

Renato Zanetti: Envolvimento com a pesquisa O contato com a pesquisa se deu como aluno de iniciação científica, em 2007, no Laboratório de Engenharia Biomédica do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A motivação para seguir a carreira acadêmica foi o contato com outras pessoas envolvidas em pesquisa, a participação em congressos e a direção dada na carreira profissional (mestrado após graduação). “A pesquisa nos envolve e, quando vemos, não podemos sair dela quando temos consciência de que é

“A pesquisa nos envolve e, quando vemos, não podemos sair dela quando temos consciência de que é fundamental para o crescimento sustentável de nossa sociedade”. Renato Zanetti

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PROJETOS DESENVOLVIDOS COM OS ALUNOS: SISTEMA DE CONTROLE HANDS FREE PARA UMA CADEIRA DE RODAS MOTORIZADA Criação de um protótipo para substituir o joystick de uma cadeira de rodas motorizada (CRM) por outra interface de controle (acelerômetro e comandos de voz – usando um app para Android) para que pessoas com reduções severas de mobilidade (tetraplégicos, portadores da ELA, etc.) tenham a possibilidade de usar tal equipamento. O estudante Walther Humberto, participante da criação do protótipo, destaca a importância do projeto para a sociedade. “Eu vejo como uma grande base para projetos na área e para o CEFET-MG, pois conseguimos baratear e simplificar a locomoção por voz de deficientes. Caso algum estudante no futuro queira dar continuidade ou tiver algo em mente, não precisará começar do zero”, ressalta. A satisfação do trabalho concluído vai além do aprendizado: há a possibilidade de produzir um produto que pode facilitar a vida das pessoas com deficiência. “Depois que o projeto ficou pronto, senti uma incrível sensação de trabalho feito. É algo gratificante produzir um produto que pode beneficiar tantas pessoas, sentir que to-

Walther testa os comandos por voz da cadeira de rodas motorizada Foto: Júlio Sardinha

dos esses três anos no CEFET-MG me proporcionaram conhecimento para ajudar os outros em problemas que são constantemente esquecidos”, resume Walther.

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DIFERENCIADOR DE CÉDULAS DE DINHEIRO PARA DEFICIENTES VISUAIS Criação de um protótipo que detecta e diferencia as cédulas de dinheiro por meio de suas respectivas cores e informa o valor da nota ao usuário por meio de áudio. A estudante Maria Clara Avelar explica que o objetivo principal do protótipo é dar mais autonomia, liberdade e segurança para pessoas com deficiência visual ao lidarem com dinheiro. “Enxergo o projeto como liberdade. É uma autonomia que por direito as pessoas com deficiência visual possuem”. A estudante ressalta a importância do projeto para a sua vida acadêmica e profissional também. “É muito importante, abre novos horizontes e novas oportunidades. Proporciona uma nova visão para um futuro melhor, aumenta os conhecimentos diversos e garante novas experiências na vida”, explica.

COACHING DE BRAILE O coaching de braile é um sistema para ensinar Braile, pelo qual um usuário poderia memorizar cada símbolo (equivalente a uma letra ou número) apresentado em um teclado de computador adaptado ou desenhar cada símbolo em um teclado 3x4, ambos com retorno sonoro. “No caso do nosso protótipo didático ajudaria todas as pessoas que se interessam em aprender o Braille, não apenas para as pessoas que necessitam, aumentando assim a capacidade de comunicação através da escrita de ambos, contribuindo para a inclusão social”, explica a estudante Júlia Aline, uma das criadoras do projeto.

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CONTROLE ÓPTICO O objetivo do sistema é proporcionar certa autonomia para pessoas com deficiência temporária ou definitiva dos movimentos dos membros superiores, como é o caso dos tetraplégicos. No projeto, foi utilizado um eletro-oculograma que monitora os diferentes níveis de potenciais para cada movimento do olho humano. Um sistema microprocessado

faz a análise e codificação dos movimentos oculares. Esta informação é utilizada para controle de aparelhos eletrônicos. No protótipo, foram colocados eletrodos sobre a pele do paciente que captam os sinais provenientes dos movimentos oculares e enviam este sinal para um circuito analógico para o condicionamento dos biopotenciais captados. O sinal condicionado é transferido

SOCEGO - SENSOR DE OBJETOS PARA CEGOS Foi desenvolvido um sensor de objetos para auxiliar na locomoção e independência de deficientes visuais. O projeto utiliza o mesmo princípio de ecolocalização dos morcegos: a propriedade de reflexão das ondas sonoras para localizar objetos. No projeto é utilizado um sensor que envia ondas ultrassônicas e recebe um sinal de resposta, sendo que o tempo de retorno é proporcional à distância do sensor aos objetos ao redor.

DAMA - DISTRIBUIDOR AUTOMATIZADO DE MEDICAMENTOS AUTORIZADOS O projeto tem como finalidade criar um sistema de distribuição automatizado de medicamentos para Unidades de Pronto Atendimento (UPA’s) e postos de saúde, visando automatizar a distribuição de medicamentos de entrega periódica aos pacientes. A ideia é obter um sistema semelhante ao de máquinas de vendas no qual um paciente pode retirar medicamentos sem interferência de terceiros.

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para o micro-controlador, que é programado para identificar os movimentos oculares de acordo com os valores de tensão que cada um possui determinando, por exemplo, se a pessoa olhou para cima ou para baixo, para direita ou esquerda, gerando resoluções. Outro código no microcontrolador envia então comandos para controle do equipamento eletrônico, dando autonomia ao usuário.


BECA - BICICLETA ERGOMÉTRICA PARA CADEIRANTES Foi criado um sistema adaptável a bicicletas ergométricas voltado à prática de exercícios para pessoas com deficiência motora com pouco ou nenhum movimento dos membros inferiores. Foi utilizado um motor elétrico para movimentação dos pedais, visto que apenas a movimentação dos membros inferiores do usuário propicia a redução de atrofia muscular e a melhoria do seu condicionamento físico.

MPAS - MONITORAMENTO DE PORTADORES DE ALZHEIMER OU SONAMBULISMO O protótipo realiza o monitoramento noturno dos pacientes portadores do Mal de Alzheimer ou sonambulismo. Ele emite um sinal de alerta para o portador e seu responsável quando acontece uma movimentação sem acompanhamento ou em situações de queda, reduzindo, assim, riscos ao portador da doença.

SMART GAIT MONITOR O equipamento é capaz de mapear pontos estratégicos de pressão entre o solo e os pés do usuário, possibilitando aplicações nas áreas de podologia, ortopedia e fisioterapia. Tratamento de dados e protocolo de coleta variados permitem alterar aplicações do dispositivo, que, nesse trabalho, será voltado ao monitoramento de pacientes portadores de uma complicação da Diabetes Mellitus que gera úlceras nos pés. A ideia é identificar se o paciente está caminhando de modo a evitar o aumento de úlceras existentes e avisá-lo caso contrário, com um alarme sonoro. Assim, espera-se apresentar um equipamento confortável para uso, de baixo custo e capaz de reconhecer pressões de risco ao desenvolvimento e aumento de lesões.

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena


EU SEI QUEM QUER

FALAR COMIGO...

Uma breve história do BINA, equipamento criado por um ex-aluno do CEFET-MG

Leila Caeiro Atualmente, ao menor sinal do telefone, nosso instinto imediato nos leva a olhar o visor do aparelho para identificar o número que aparece ali e só depois resolvemos qual a importância ou a urgência em atender. Mas isso nem sempre foi assim: os equipamentos de telefonia fixa mais antigos não dispunham de visores e muito menos existia a possibilidade de saber quem estava do outro lado da linha. Até chegar a esse facilitador, existe uma longa história que envolve a invenção de um equipamento capaz de processar a identificação do número de onde partiu a chamada. Essa história tem um ponto em comum com o CEFET-MG. Você sabia que um ex-aluno da instituição pode ser o inventor do Bina? Isso mesmo. O sistema de identificação de chamada foi desenvolvido por Nélio José Nicolai, um ex-aluno da antiga Escola Técnica de Belo Horizonte, o atual CEFET-MG. Para saber como isso aconteceu precisamos voltar um pouco no tempo e usar como fonte uma pesquisa intitulada “O BINA como artefato tecnológico: B identifica A na tecnociência (1960-2016)”, feita pelos estudantes Daniel Vertelo Porto (Mecânica) e Lívia Metzker Glória Alves de Deus (Eletromecânica), orientados pelos professores Bráulio Silva Chaves e Trícia Zapula Rodrigues, da Unidade Belo Horizonte. O trabalho buscou registros dessa trajetória do ex-aluno e desse aparelho criado por ele. De acordo com a pesquisa, o BINA foi desenvolvido no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Para o professor Bráulio Chaves, o BINA é “um artefato que reflete um contexto da educação profissional

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e uma trajetória pessoal, de vínculos entre a formação na área técnica e o mundo do trabalho”. Isso porque Nicolai foi aluno da antiga Escola Técnica no início dos anos 1960, nos cursos de Ginásio Industrial e Eletrotécnica. Depois, ele atuou na área de telecomunicações, primeiro na Ericsson (entre 1967 e 1971) e na Telebrasília (entre 1971 e 1986). Associando teoria e prática, trabalhou na ideia de um identificador de chamadas. Naquele tempo, o sistema de telefonia ainda era limitado e a telefonia móvel ainda era um sonho distante. Porém, nessa época, já havia uma demanda pela identificação das chamadas, principalmente nos setores de prestação de serviços, como a polícia e os bombeiros, por conta dos trotes. Esse período coincidia, também, com a substituição das “centrais eletromecânicas de telefonia” pelas “centrais eletrônicas”. Por curiosidade e interesse, Nicolai trabalhou no que seria o algoritmo, uma sequência que determinaria a identificação das chamadas, buscando desvendar o que poderia ser a chave do BINA. A importância do registro das invenções O reconhecimento da invenção do BINA envolve, atualmente, debates e disputas judiciais entre pessoas, grandes conglomerados da telefonia mundial e até interesses governamentais. Mesmo que o BINA tenha sido criado no final dos 1970, o fato do registro da patente ter acontecido apenas

CIT - como proteger seu conhecimento Patente ou Modelo de utilidade? A estrutura do CEFET-MG conta com a Coordenação Geral de Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual (CIT) no resguardo da criação/invenção produzida dentro da Instituição. A coordenação é responsável por reunir tais produções e tem, ainda, o papel de fazer com que a Instituição desperte para os temas relativos à inovação e propriedade intelectual. Vinculada à Diretoria de Pesquisa e Pós-Graduação (DPPG), a CIT é o setor responsável pelos processos que envolvem a propriedade intelectual, a inovação tecnológica e a transferência de tecnologia da Instituição. Uma das tarefas da CIT consiste na busca pela anterioridade, que é “uma pesquisa feita nas bases de patentes e publicações científicas para conhecer o estado da técnica, ou seja, se já existe algum processo acerca daquela produção”, explica Miriam Oliveira, integrante da CIT. Assim, toda a orientação sobre o processo de depósito de patentes; registros de marcas, softwares e desenhos industriais são avaliadas pelo setor, que busca, também, conscientizar para a necessidade de registrar e proteger toda produção intelectual. Responsáveis: Nilton da Silva Maia e Miriam C. A. Oliveira Contatos: (31) 3319-7173 cit@adm.cefetmg.br

em 1992 no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) provocou uma série de polêmicas. Na verdade, Nicolai entrou com um pedido de patente ainda em 1980, que não deu certo. O objeto de disputa, na verdade, é um outro registro feito por ele em 1992, porém, as contestações já estavam colocadas antes disso. Há um outro pedido similar ao do BINA, de Valdir Bravos Salinas, de 1977, que também reivindica a invenção do identificador

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de chamadas. A disputa pela invenção envolve, também, japoneses e americanos. Nélio Nicolai morreu em 11 de outubro de 2017, sem ver a conclusão do processo judicial que se arrastava há mais de 30 anos. Foi uma figura muito ativa na mídia concedendo várias entrevistas e depoimentos, num esforço em tornar pública a controvérsia em torno do BINA e se colocar como seu real inventor. Nicolai chegou a criar um site


Nélio José Nicolai Foto: Sílvio Santos de Souza

em que destaca o quanto o não reconhecimento dele comprometia também o Brasil, que, segundo ele, perderia um volume significativo de capital vindo dos royalties gerados pela invenção. A história de José Nicolai e do Bina se relaciona com a função social das instituições de educação profissional, técnica e tecnológica no Brasil nesse período. Em suas falas, Nicolai ressaltava, sempre, o fato de ser um “técnico”, não um “cientista”, atribuin-

do à Instituição um papel importante por sua formação. O Bina, que é utilizado em escala global, resulta desse vínculo do inventor com o CEFET-MG. O professor Bráulio Chaves, um dos orientadores da pesquisa, aponta que Nicolai se orgulhava de possuir o conhecimento prático e a habilidade técnica para criar o equipamento. A pesquisa aponta também para uma visão crítica da ciência e da tecnologia que, como produções

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sociais, estão vinculadas a interesses, disputas de poder, estruturas econômicas. Isso permite compreender e ao mesmo tempo questionar sobre as dinâmicas da tecnociência na sociedade atual. No caso do invento de Nicolai, apesar de a tecnologia estar disponível em muitos telefones fixos e em virtualmente todos os celulares do mundo, ele nunca foi remunerado por sua criatividade. Isso reflete a necessidade em registrar e proteger toda a produção intelectual.


Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

CIÊNCIA E COMUNIDADE

QUEM

PLANTA, CONSCIENTIZA

Projeto de educação ambiental cria hortas de permacultura, dialoga com a comunidade e finca raízes nos campi Contagem, Curvelo e Divinópolis Leila Caeiro Você sabe o que é uma horta de permacultura? O nome pode parecer estranho, mas não é nada difícil de ser co-

locado em prática. O nome refere-se a uma proposta de uma “cultura permanente”, ou seja, uma cultura que visa a nossa permanência aqui na Terra em harmonia com a natureza. É trabalhar com a na-

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tureza, aproveitando o que ela nos oferece sem nos esquecer de restituir tudo aquilo que vai sendo tirado. E como funciona? A permacultura está ligada à preservação


do meio ambiente, à sustentabilidade. Dessa forma, precisamos pensar no meio ambiente, na natureza, no espaço em que vivemos com nossos aliados e cuidar para que sejam preservados. Assim, alia filosofia de vida e práticas de convivência entre homem e natureza para harmonizar nossa vida no planeta. A base fundamental da cultura permanente são três princípios: 1) o cuidado com a terra; 2) o cuidado com as pessoas e 3) o compartilhamento do que for produzido a mais. A implantação de uma horta de cultura permanente é uma das práticas promovidas pelo projeto “Educação ambiental e horta permacultura no CEFET-MG”, que envolve alunos e professores dos campi Contagem, Curvelo e Divinópolis. Em parceria com líderes comunitários, empresas e associações sem fins lucrativos,

buscam viabilizar a realização das atividades junto à comunidade de entorno da Instituição e uma maior integração com essa população. O projeto tem como objetivo promover a conscientização ambiental na comunidade escolar interna e nas comunidades escolares da rede pública municipal/estadual próximas. E como fazer isso? “Através de cursos sobre a importância ambiental e social da reciclagem, a importância da horta orgânica e da alimentação saudável”, explica a professora Ana Cecília Estevão, orientadora do projeto no campus Curvelo. A primeira experiência foi implantada em Curvelo com o cultivo de uma horta em mandala (formato circular), em uma área de aproximadamente 8 m2, com uma variedade de verduras e legumes de acordo com espécie e as estações do ano. Para isso foram aplicadas algumas técnicas de produção, de forma a utilizar recursos que pudessem ser de alguma forma devolvidos à natureza. O projeto pretende estenderse na implantação de hortas comunitárias em alguns bairros do município, visando o consumo próprio das famílias envolvidas e a geração de trabalho e renda. O desenvolvimento e prática de ações que envolvem a permacultura aparecem, assim, como uma tendência de sustentabilidade e de preservação do planeta.

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IGUAL RESISTÊNCIA NA

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena


LDADE ENTRE OS GÊNEROS

Trajetórias femininas na ciência ainda são marcadas por silenciamentos e desafios

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Nívia Rodrigues A ciência vem se mostrando um espaço de luta e resistência para as mulheres. Nas últimas décadas, principalmente a partir do século XX, a presença mais frequente nos bancos das universidades e a participação nas pesquisas científicas comprovam que as pesquisadoras estão menos fadadas ao anonimato, porém ainda à custa de muitos desafios. Pesquisa realizada pela editora holandesa Elsevier e divulgada em julho do ano passado analisa a participação de mulheres na ciência em várias partes do mundo, nos períodos compreendidos em 1996 e 2000 e também de 2011 a 2015. O relatório “Gender in the Global Research Landscape” (Gênero no cenário global de pesquisa) levanta algumas facetas dessa nova realidade e comprova que, de forma geral, a participação das mulheres em todas as áreas da ciência vem crescendo. No Brasil, por exemplo, é pequena a diferença entre os gêneros no número de citações em artigos científicos, além de ser o país, juntamente com Portugal, que mais conta com autoras em trabalhos científicos (49% do total). Em algumas áreas, como a medicina, já há predominância de mulheres nesses trabalhos. Em contrapartida, os dados negativos ainda são bastante frequentes como o que comprova, segundo a pesquisa, a baixa participação de mulheres no registro de patentes (19%). Outro número desfavorável quando se analisa a mulher na ciência é a pequena concessão do Prêmio Nobel, outorgado àqueles que contribuíram para o desenvolvimento social ou científico em todo o mundo. Iniciado em 1901, apenas 44 dos 851 agraciados nas seis categorias do Nobel são mulheres. Dessas, somente 18 receberam os prêmios ligados às ciências (Física, Química e Medicina). No Brasil, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), sociedade científica que reúne pesquisadores renomados para a formulação de políticas públicas, possui atualmente 820 homens no seu quadro de acadêmicos e 135 mulheres. Número que cresceu na última década e

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que se aproxima de outras academias no mundo, como as dos Estados Unidos, da Alemanha e da França, mas que reforça a discrepância entre os gêneros na ciência. Exclusão A população mundial já ultrapassou 7 bilhões de pessoas e, segundo relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU), são cerca de 101,8 homens para cada 100 mulheres. Com uma diferença tão pequena, por que, ainda, os homens são maioria nas instâncias decisórias e de poder? A coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Gênero e Diversidades (NEGED) do CEFETMG, professora Karla de Souza Torres, do campus Curvelo, explica que os desafios enfrentados pelas mulheres na ciência têm, pelo menos, dois componentes: “um horizontal, também conhecido com ‘labirinto de cristal’, que são aspectos sociais e culturais que afetam o ingresso e a permanência de meninas e mulheres na ciência (principalmente nas áreas exatas e tecnológicas) e outro vertical, que é caracterizado pela exclusão de mulheres cientistas das promoções e das posições de prestígio e poder”, avalia. Karla completa que, nos dois casos, o “cristal” e o “vidro” são metáforas para uma suposta invisibilidade desses obstáculos. A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e acadêmica da ABC, Márcia Cristina Bernardes Barbosa, exemplifica com os desafios para conciliar carreira e família, além do preconceito de colegas que usam estratégias para inibir as mulheres, fazendo com que elas se recusem a competir nesse ambiente hostil. Márcia, além de reunir prêmios pelas conquistas acadêmicas sobre água e suas anomalias, destaca-se por seu posicionamento em defesa do espaço da mulher no ambiente científico. A professora cita expressões em inglês que denominam essas estratégias como mansplaining (quando um homem explica algo óbvio, como se a mulher não fosse capaz de entender) e manterrupting (quando um homem interrompe sistematicamente a mulher, não permitindo que ela conclua sua fala).


“Meninas não são motivadas a seguir carreiras em ciência. Aliás, são treinadas a se calar e a não confiar na sua inteligência e na habilidade com ferramentas”, argumenta Márcia. Estudo publicado na revista Science (Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests) corrobora a informação da professora de que as distribuições por gênero nas áreas acadêmicas parecem ser afetadas pelas percepções sociais. No grupo de crianças de 6 anos analisado, as meninas estavam propensas a agrupar e reconhecer os homens como “inteligentes” e as mulheres como “esforçadas”. E como reverter essas distorções? A professora Márcia ressalta a importância de se avaliar o problema, obtendo dados discriminados por gênero e revendo os processos institucionais. “Urge olharmos como estamos educando nossos jovens e, igualmente, promovendo educadores e pesquisadores”, conclui.

Professoras do CEFET-MG falam sobre o papel e os desafios da mulher pesquisadora

Raquel Quirino

Professora do Departamento de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação Tecnológica. Pós-doutora em Educação, coordena o Grupo de Pesquisa em Formação e Qualificação Profissional (Forquap).

“Com uma cultura baseada no modelo masculino de carreira que envolve compromisso em tempo integral para o trabalho, produtividade em pesquisa, relações academicamente competitivas e a valorização de características ditas masculinas, em certa medida, dificultam, restringem e direcionam a participação das mulheres nesse contexto. Ressaltam-se ainda a desigual divisão sexual do trabalho doméstico que as obrigam a uma dupla jornada e as exigências impostas pela maternidade. Tais fatores limitam a sua dedicação exclusiva à ciência, além das situações de preconceito e discriminação, a crescente competitividade no mundo da pesquisa, as exigências da quantidade de publicações, a experiência da maternidade e a conciliação do trabalho e das relações entre a vida doméstica, familiar e acadêmica”.

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“Registro a importância da família, das interfaces acadêmicas entre os departamentos e das políticas públicas, no que diz respeito às possibilidades de, a cada dia, nos desenvolvermos como pesquisadores. Meu acesso à educação, desde à infância, devo ao meu Pai que alimentava nossa curiosidade deixando nossa casa repleta de livros, revistas e filmes. Hoje tenho amplo apoio dos meus três filhos”

Vera Lúcia Souza e Lima

Professora do Dep. de Engenharia Civil, doutora em Linguística Teórica e Descritiva. Participa do programa de aceleração FIEMG Lab como líder do SignWeaver, que busca métodos computacionais que auxiliem na produção de novos sinais na Língua Brasileira de Sinais (Libras) para conceitos técnicos

“A sensibilidade e intuição são peculiaridades bastante expressivas no universo feminino e vão contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento da Ciência, já que a percepção das demandas da sociedade podem ser mais facilmente identificadas e direcionadas. Apesar da grande capacidade organizacional das tarefas domésticas e profissionais, acredito que o grande desafio das mulheres na ciência ainda seja o tempo de dedicação das atividades profissionais no ambiente doméstico”.

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Cristina Roscoe Vianna

Professora do Departamento de Formação Geral de Varginha, doutora em Ciências – Microbiologia. Pesquisa, entre outros temas, sobre desenvolvimento de derivados de microrganismos para aplicações industriais.


Karla de Souza

Professora do Dep. de Engenharia Civil e Meio Ambiente (Curvelo), doutora em Engenharia e Tecnologia Espaciais. Desenvolve pesquisas sobre astrobiologia, formação planetária e origens da água nos planetas terrestres. No ano passado, publicou capítulo em livro internacional sobre o tema.

“Precisamos estimular o interesse e a participação de meninas em todas as áreas da ciência, em particular nas áreas de ciências exatas, como matemática e física. Temos que promover a ideia de que não existem carreiras femininas e masculinas, qualquer pessoa pode e deve fazer aquilo que tem interesse. Um exemplo prático disso, seria acabar com a divisão por sexo em lojas de brinquedos, com a ‘ala rosa’ para meninas, com bonecas, bebês, panelinhas e outros brinquedos relacionados ao cuidado da casa e dos filhos, e a ala masculina, com brinquedos que estimulam a curiosidade, a aventura e a engenharia”.

Projeto de Timóteo destaca biografias de mulheres cientistas Leila Caeiro Discutir o papel das mulheres na ciência é o tema de um dos projetos desenvolvido no CEFET-MG, campus Timóteo. O Astronomia no Vale do Aço, coordenado pelo professor Weber Feu, além da divulgação da ciência e astronomia entre a população, apresenta e discute a biografia de quinze mulheres cientistas que colaboraram para as áreas de astrofísica, astronomia e astronáutica. A contribuição dessas mulheres gerou grandes impactos, porém elas quase não são citadas e são pouco reconhecidas pelo papel importante que exerceram. “A ideia é fazer com que os alunos percebam a participação e atuação das mulheres em áreas que ainda são consideradas de domínio masculino”, diz o professor. Para reforçar essa ideia, um dos telescópios adquiridos pelo projeto recebeu o nome de Annie, em homenagem à Annie Jump Cannon, astrônoma estadunidense que catalogou cerca de 350.000 estrelas, trabalho crucial para o desenvolvimento do Catálogo de Henry Draper. Ela desenvolveu o Esquema de Classificação de Harvard, que foi a primeira tentativa de organizar e classificar estrelas baseadas em suas temperaturas. Na sequência do projeto, o grupo pretende gerar uma publicação em formato de cartilha para levar o trabalho para as escolas públicas da região. Com essa ação o que se espera é alimentar o espírito de curiosidade entre as alunas e incentivar uma maior participação das mulheres na ciência, principalmente na astronomia, mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser.

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DEU TESE

PARA ALÉM DA PESQUISA, A

ARTE 40


Defendida em 2013, O amor é um cão mamaluco, do artista plástico André Araujo, extrapola a noção da pesquisa e rende pinturas, desenhos, fotografias, vídeo

André Luiz Silva

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Se se buscar a palavra “pesquisa” no Novo Aurélio Século XXI, encontra-se a seguinte definição: “indagação ou busca minuciosa para averiguação da realidade; investigação e estudo, minudentes e sistemáticos, com o fim de descobrir ou estabelecer fatos ou princípios relativos a um campo qualquer de conhecimento.” Nesses termos, a dissertação O amor é um cão mamaluco: a imagem do amor na poesia de Charles Bukowski e Sebastião Nunes, de André Araujo, não seria uma pesquisa. Mas só nesse contexto... Isso porque o trabalho do artista-pesquisador é uma pesquisa, e das boas. Na dissertação, defendida em novembro de 2013 no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (Posling) do CEFET-MG, sob orientação do professor Wagner José Moreira, André comparou as obras O amor é um cão dos diabos, de Charles Bukowski, e Antologias mamalucas, de Sebastião Nunes, em relação à construção da imagem do amor e, como forma de suplementar a pesquisa, realizou uma série artística, transformando a linguagem verbal presente nos dois livros em linguagem visual, por meio da criação de uma série de pinturas, desenhos, fotografias, gravuras e uma vídeo-animação. Durante o período do mestrado, André realizou intercâmbio na Universidade de Ciências Aplicadas de Karlsruhe, na Alemanha, a partir de uma bolsa obtida por meio da Secretaria de Relações Internacionais do CEFET-MG. “Foi um dos acontecimentos mais importantes de toda a minha carreira. Lá, o trabalho consistiu em percorrer a cidade aleatoriamente e ir captando imagens de vídeo e fotografias, identificando elementos abordados na minha dissertação e presentes na poesia de Bukowski e de Sebastião Nunes. Foi montado um ateliê-residência, em que produzi diversas pinturas, desenhos e fiz uma coleção de coisas que eu achava nas caminhadas. No final do projeto fiz uma exposição das obras produzidas na Alemanha – pinturas, desenhos e a vídeo-instalação Amor Rarefeito (Rarefield Love, em inglês)”, lembra o artista. Essa criação foi exposta ainda no campus I do CEFET-MG (Belo Horizonte) e na Conferência de Cinema de Avanca, em Portugal.

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Descobrindo a pesquisa Apesar de ter feito o mestrado e estar cursando o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (Posling) do CEFET-MG, o artista plástico não era um “aluno nota dez” quando criança. “Confesso que nunca pensei na carreira acadêmica. Sempre fui um péssimo aluno e sempre odiei a escola. Meus cadernos eram para desenhar. Expresso-me através de imagens desde criança. Tenho uma história em quadrinhos que fiz aos oito anos de idade em que criei o roteiro, as personagens e passei as férias desenhando”, lembra André.

Ao longo da carreira, trabalhou em agências de publicidade, como arte-finalista, layoutman e diretor de arte, e criou o próprio estúdio de animação Alfavaca (em atividade até hoje) em parceria com a mulher, Simone, mas nunca deixou de produzir arte. “Sempre tive ateliê e nunca deixei de fazer meus trabalhos autorais de artes plásticas, tendo realizado várias exposições em galerias e centro culturais e ganhado alguns prêmios”, diz. Entre 2007 e 2010, cursou Artes Plásticas na Escola Guignard da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). “Eu amava todas as disciplinas. Minha

SUGESTÃO DE VÍDEO (QR Cod e): Para assistir ao vídeo Amor Rar efeito, posicione seu smar tphone e leia o Q R Code https://goo.gl/2 sgE5V

menor nota foi 98! Pela minha experiência como artista, fui convidado por alguns professores para ser aluno bolsista e participei do Projeto Redesenho com o professor Sérgio Vaz, que consistia em oficinas de desenho em escolas públicas de Belo Horizonte. A recepção dos alunos e professores foi muito boa e eu percebi que tinha talento para dar aulas”, conta. Terminado o curso na Escola Guignard, um amigo indicou o mestrado do Posling/CEFET-MG a André, que fez uma disciplina isolada com o professor Wagner Moreira e, dali por diante, decidiu entrar para o Programa como aluno regular. Atualmente, André Araujo realiza a pesquisa doutoral A construção da imagem do corpo em Hilda Hilst e Iberê Camargo, com bolsa concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig).

e em urbana” - foto )- pág. 42, “Paisag “Via Láctea” (2013 ) – André Araújo - pág. 43. 13 “A cara da gata” (20

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

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SUPERANDO O

AVC

COM A REALIDADE VIRTUAL

Usando óculos de realidade virtual, smartphone e um software próprio, grupo de pesquisadores de Leopoldina alia Computação à Fisioterapia

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André Luiz Silva Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Acidente Vascular Cerebral (AVC) mata 6,2 milhões de pessoas no mundo a cada ano; só no Brasil são 130 mil mortes por ano. Do grupo de pessoas que sofre AVC e não morre, a maior parte (70%) sofre algum dano, seja físico (falta de equilíbrio, perda de força, paralisia de um dos lados do corpo), seja cognitivo (dificuldade em compreender ordens, ou mesmo de se expressar e reconhecer pessoas).

controlado por um smartphone, e um software que reproduz o membro em recuperação virtualmente; dessa forma, o paciente tem a ilusão de realizar o movimento fisioterapêutico, auxiliando na melhora do quadro físico-motor.

Diante disso, a dupla Davi Guerra e Antony Leme, alunos do curso de Informática de Leopoldina, sob orientação do professor Samuel da Costa Basílio e da fisioterapeuta Rafaela Satil, realizou a pesquisa “Realidade aumentada como terapia espelho no tratamento pós-AVC”. Baseado na terapia do espelho (tratamento fisioterápico utilizado na recuperação de pacientes com membros amputados ou com deficiência motora causada por Acidente Vascular Cerebral e outras hemorragias encefálicas), o grupo de pesquisadores do campus Leopoldina criou óculos de realidade virtual,

De acordo com Samuel da Costa Basílio, professor das disciplinas “Lógica de programação e algoritmos” e “Estruturas de dados para a engenharia”, o trabalho foca a recuperação física do paciente. “Consequentemente os aspectos psicológicos vão sendo afetados positivamente com a progressão do tratamento. A Rafaela (fisioterapeuta e coorientadora da pesquisa) nos contou que, quando contou do projeto para alguns dos pacientes dela, eles chegaram a chorar de emoção pela expectativa de uma melhora no tratamento”, diz Samuel.

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Frutos da pesquisa

A ideia de utilizar realidade aumentada na recuperação de pacientes no pós-AVC, diz o aluno Antony Leme, surgiu a partir de conversas com a fisioterapeuta Rafaela Satil. “Já pensávamos em fazer algo visando a integração da Computação com a Fisioterapia e, como eu tinha contato direto com a Rafaela, decidimos ir até ela para apresentar essas ideias e discutirmos a possibilidade de empregá-las. A partir disso, a Rafaela comentou conosco sobre uma terapia de espelhos que era realizada de maneira bem rudimentar, colocando a mão dela por cima da mão do paciente, já que ela não tinha uma caixa de espelhos para realizar tal terapia. E, então, a partir disto tivemos a ideia de aplicar essa técnica usando a realidade aumentada”, explica Antony.

O trabalho foi tão bem aceito que foi escolhido para representar o CEFET-MG na 16ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), realizada em março de 2018, na Universidade de São Paulo (USP), com outros sete projetos desenvolvidos na Instituição mineira. Lá, o grupo expôs os óculos de realidade virtual, inclusive para uso dos participantes da Feira, bem como houve a exibição de um vídeo mostrando uma sessão fisioterápica com uma paciente vítima de AVC. Antony Leme, que pela primeira vez realizou uma pesquisa científica, diz que a participação na Febrace “foi uma experiência incrível”. “Você se identifica com todos que estão lá e conhece muita gente, tanto outros jovens que estão fazendo projetos, quanto pessoas importantes, empresas e outras instituições. Como aluno me sinto privilegiado de poder participar de um evento como esse e espero ano que vem poder participar novamente”.

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

PESQUISA NO CEFET

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PESQUISANDO

DESDE CEDO

Iniciação científica: oportunidade de aprendizado e interação para os alunos em todos os níveis de ensino

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Nívia Rodrigues A experiência adquirida na iniciação científica tem sido propulsora do conhecimento e do desenvolvimento acadêmico e profissional dos alunos do CEFET-MG: essa constatação vem refletindo no interesse constante dos estudantes pela prática, inclusive nas atividades voluntárias. Em especial ao longo da última década, o CEFET-MG vem investindo em formas de promover e estimular a participação dos alunos nas atividades de iniciação científica desde o ingresso na Instituição. A criação do Programa Institucional de Iniciação Científica e Tecnológica, que completa 15 anos em 2019, tem sido uma das formas de sistematizar e difundir a prática da pesquisa, da inovação e do pensamento científico. À época da criação do programa, foram concedidas 15 bolsas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e 22 pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). Comparativamente a 2017, o aumento foi significativo: foram cinco editais voltados para a iniciação científica, sendo um deles exclusivo para alunos voluntários, com 61 propostas aprovadas. Os demais editais ofertaram 342 bolsas, além das oportunidades voluntárias previstas para planos de trabalho aprovados e não contemplados com bolsas.

Atualmente, as bolsas são divididas entre os programas institucionais de Iniciação Científica (PIBIC), de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI), voltados para alunos de graduação; e de Iniciação Científica Júnior (PIBIC-Jr), voltado para alunos do ensino médio técnico. Ao todo, somente no ano passado, foram desenvolvidos 509 projetos nos editais disponibilizados. “Mesmo com o contingenciamento das bolsas nos últimos anos, o interesse dos alunos tem sido crescente. É o que mostra, principalmente, a presença de voluntários envolvidos nos projetos de pesquisa”, avalia o diretor de Pesquisa e Pós-Graduação (DPPG),

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professor Conrado Rodrigues. O crescente interesse pela iniciação científica se reflete também no aumento de trabalhos na Semana de Ciência e Tecnologia (Semana C&T) promovida anualmente na Instituição. A semana busca, entre seus objetivos, incentivar o desenvolvimento de trabalhos de iniciação científica e tecnológica nas áreas de ensino e pesquisa desenvolvidas no CEFET-MG. Em 2017, foram 430 trabalhos apresentados.

Qualificação Conforme explica Conrado, são três os principais motivos para a participação cada vez mais interessada e qualificada

dos alunos: maior número de orientadores envolvidos, graças ao aumento de docentes permanentes e de doutores; incorporação das atividades às matrizes curriculares de forma a garantir crédito aos alunos participantes e reconhecimento, por parte dos empregadores, da iniciação científica como um diferencial nos processos seletivos para a contratação de novos estagiários ou funcionários. O modelo de ensino verticalizado adotado na Instituição, também é um diferencial que reflete na iniciação científica ofertada ao favorecer o contato e a troca de experiência entre estudantes do ensino mé-

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dio técnico, da graduação e da pós-graduação. “A vinculação da iniciação científica aos grupos de pesquisa permite a integração do aluno de diferentes níveis de ensino e desperta o interesse pela pesquisa desde cedo”, considera o diretor. No final de 2017, a Instituição possuía 115 grupos cadastrados no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, gerenciado pelo CNPq, com aumento crescente nos últimos anos e ampliação dos trabalhos nas unidades do interior.


Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

GRUPOS DE PESQUISA

CONSTRUÇÃO CIVIL EM DISCUSSÃO

CERAMIC reúne pesquisadores do CEFET-MG e de outras instituições para pesquisar o manejo de rejeitos e sustentabilidade Diogo Tognolo Em Timóteo, um grupo de pesquisa tem expandido seus laços para além do campus: o CERAMIC – Grupo de Pesquisa em Síntese, Processamento e Caracterização de Materiais Cerâmicos reúne professores dos campi Timóteo e Belo Horizonte do CEFET-MG, além de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Itaúna (UIT), Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (Unileste) e empresas do Vale do Aço. O CERAMIC é liderado pelo professor Evandro Tolentino, do Departamento de Computação e Construção Civil do campus Timóteo. Criado em

2011, chamado então de grupo de pesquisa em Tecnologia de Edificações, o CERAMIC se volta hoje para a pesquisa em materiais cerâmicos. O objetivo é gerar conhecimentos por meio de pesquisas que envolvam as metodologias e os processos necessários à atividade de desenvolvimento de novos produtos cerâmicos, racionalizando o uso das matérias-primas e a demanda de energia nos processos de fabricação. O professor Evandro conta que o grupo surgiu de contatos estabelecidos por ele durante o seu doutorado na UFMG e pósdoutorado no CDTN. As parcerias possibilitam trocas de conhecimento e até materiais e equipamentos. “Os contatos

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nas universidades e empresas viabilizam a nossa pesquisa por meio de materiais e equipamentos não existentes no campus Timóteo”, explica. “Quando abre um edital para pesquisa (bolsa de Iniciação Científica, etc.), eu faço contato com alguns membros do grupo que pelo seu perfil poderiam contribuir para uma pesquisa sobre um determinado tema”. Atualmente, o grupo tem desenvolvido pesquisas na área de manejo de rejeitos e sustentabilidade, além de tecnologia de concretos. Segundo Evandro, entre os trabalhos que estão sendo desenvolvidos pelos pesquisadores do CERAMIC há alguns passíveis


de proteção intelectual. Ele destaca três: um software que viabilizará um engenheiro de produção de uma concreteira obter a composição ideal para um determinado concreto; um aditivo químico para o concreto utilizando o rejeito “licor negro” de uma indústria de celulose da região do Vale do Aço; e material didático para a disciplina Tecnologia das Construções com visualização tridimensional, para suprir a carência de bibliografia que contenha imagens elucidativas para os alunos.

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PÓSGRADUAÇÃO

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UMA DÉCADA DE

LINGUAGENS

Com cursos de mestrado e doutorado gratuitos, o Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens já titulou 157 mestres e teve sua primeira defesa de tese em abril 55


André Luiz Silva O que tem em comum entre peças de um processo penal, livros didáticos, telejornais, edição de livro, ensino de LIBRAS, teatro do Giramundo, prosa de Chico Buarque? A princípio, nada. Mas tudo isso tem sido objeto de análise das dissertações defendidas pelos alunos do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens, conhecido como Posling. O Programa, que começou só como mestrado em 2009 – tendo sido recomendado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em 23 de outubro de 2008 –, foi concebido com o intuito de refletir sobre a relação entre tecnologia, linguagens e discursos, associando as diversas práticas e produtos do homem às realizações de leitura e de produção discursiva. Logo na sua primeira avaliação quadrienal pela Capes, o Posling recebeu nota 4, tendo em vista as pesquisas e dissertações de qualidade e a boa produção docente e discente, com publicação de artigos em periódicos e participação em eventos científicos nacionais e internacionais. A boa receptividade ao mestrado foi benéfica em duas frentes: a aprovação do curso de graduação em Letras (Tecnologias em Edição), em 2010, e a recomendação do curso de doutorado

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em Estudos de Linguagens, em 2014, possibilitando, dessa forma, uma formação verticalizada aos alunos, desde a graduação até o doutorado.

Heterogeneidade como marca Embora o Posling esteja vinculado à grande área de Linguística, Letras e Artes, o Programa tem por característica a interdisciplinaridade com diversas áreas, como Comunicação Social, Design, Belas Artes, Cinema, História, entre outras. De acordo com a vice-coordenadora do Posling, professora Ana Elisa Ribeiro, essa heterogeneidade que compõe o Programa é um desafio para todos, alunos e professores, os quais têm que fazer dialogar essas áreas. “Somos um Programa com um caráter multidisciplinar muito em razão de dialogarmos com profissionais e pessoas formadas em tantas áreas diferentes, com suas experiências, demandas e contribuições” diz a vice-coordenadora. Prestes a completar dez anos, o Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens conta com 458 alunos atualmente, sendo 261 do mestrado e 197 do doutorado, são 157 defesas de dissertação e, no dia 2 de abril de 2018, teve sua primeira defesa de tese, da aluna Laura Márcia Luiza Ferreira, com a pesquisa “Avaliação da proficiência oral: uma análise fatorial e de discriminação dos itens do exame Celpe-Bras”.

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

CIÊNCIA EM CASA

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QUANDO O

VILÃO VIRA HERÓI

Como fazer sabão em barra em casa a partir do óleo de cozinha

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Gisele Nunes - professora de Química do campus de Belo Horizonte Os alunos do curso técnico em Química do CEFET-MG aprendem na aula de Laboratório de Processos Industriais I como fazer sabão com óleo de fritura reaproveitado. Uma oportunidade de associar a teoria à química presente em nosso dia a dia, além de contribuir com a preservação do meio ambiente, pois segundo André Luís Gois Rodrigues (Químico da Sabesp, empresa responsável pelos serviços públicos de saneamento básico no Estado de São Paulo) cada 1 litro de óleo descartado em um rio é capaz de poluir até 20 mil litros de água. Aprenda você também com essa iniciativa. Para você que deseja fazer sabão em casa e reaproveitar o seu óleo de cozinha, segue a receita:

Material: Para cada 1 litro de óleo reaproveitado, você vai precisar de: 250 ml de água (um copo de requeijão) 150 g de soda cáustica (em pastilhas) Você pode ainda usar: corante e essência, ambos em quantidades a gosto. Darão um toque especial ao seu sabão.

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Vamos a receita: Primeiramente, filtre o óleo para retirar os resíduos de fritura, isso você pode fazer utilizando um pedaço de palha de aço (o famoso “bombril”). Após limpo, coloque o óleo em um recipiente plástico e aguarde. Em uma vasilha plástica, coloque a soda cáustica e misture a água aos poucos. Use uma espátula plástica para a mistura.

CUIDADO! Haverá muita geração de calor, por isso não se deve usar recipiente de vidro, pois pode haver rompimento com riscos de corte. Além disso, use luvas plásticas e máscara (daquelas que dentista usa) pois há formação de vapores que podem fazer mal caso você respire. Não utilize utensílios de metal (colher, panela), pois a soda pode danificar o metal! Depois, misture a solução ainda quente ao óleo. Você pode utilizar uma colher de pau.


Adicione na sequência o corante, que deve vir já misturado com água. Não use muito, pois pode deixar seu sabão muito mole, caso exagere. Vá pingando aos poucos, gota a gota e verificando a transformação na cor. Mas isso pode mudar ainda, pois o sabão continua reagindo e leva alguns dias para se formar totalmente. Por fim adicione a essência. Pode ser que não dê muito cheiro, pois o óleo residual possui um odor muito forte. Continue misturando a massa até que adquira consistência bem pastosa (parecida com doce de leite). Coloque o sabão em fôrmas, pode ser aquelas bandejas plásticas que tem em lojas de utensílios domésticos. Coloque um plástico por baixo, antes de virar o sabão (pode ser uma sacolinha plástica), para que facilite desenformar depois, quando o sabão estiver seco. No dia seguinte, com uma faca, corte e já tente desenformar o sabão. É recomendado que fique por mais alguns dias secando, entretanto se não desenformar logo depois pode ser que fique muito quebradiço e não consiga desenformá-lo inteiro.

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

DESCOMPLICADO

FAKE

NEWS NOTÍCIA TEM PERNA CURTA

Pós-verdade e fake news: na era da informação rápida e digital, a verdade dos fatos vem perdendo espaço, especialmente no campo político

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Gilberto Todescato Telini

O que a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, e a saída da Inglaterra da União Europeia têm em comum? As fake news (notícias falsas) que, segundo analistas mediáticos, influenciaram diretamente nos rumos políticos dos dois países. Esse fenômeno recente deu origem, inclusive, ao termo “pós-verdade”, que, em 2016, passou a figurar no Dicionário Oxford, editado pela universidade britânica de mesmo nome. O substantivo pode ser entendido como “circunstâncias nas quais os fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” o que, na prática, seria uma indiferença com a verdade dos fatos, que, especialmente no debate político, vem perdendo importância. Atenta a esse novo campo de estudos, a ciência também tem gerado contribuições para repensar o modo como a verdade e a mentira se espalham, especialmente nas redes sociais,

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ferramentas utilizadas pelos propagadores de desinformação. A revista científica Science, uma das mais respeitas em divulgação científica no mundo, publicou recentemente um artigo sobre o assunto na sua edição 6380, em março de 2018. Intitulada “A disseminação de notícias verdadeiras e falsas online”, em tradução livre, o artigo realizado por cientistas do Instituto de Tecnologia de Masachussetts (MIT, na sigla em inglês) se propôs a investigar a difusão de notícias verdadeiras e falsas distribuídas pelo Twitter entre 2006 e 2017. Os dados compreendem 126.000 histórias tweetadas por três milhões de pessoas mais de 4,5 milhões de vezes. Para verificar a procedência das informações, seis organizações independentes verificaram os fatos publicados pelos internautas, considerando título e conteúdo. E os resultados atestaram a seriedade sociológica da difusão de fake news. Segundo os pesquisadores do MIT Soroush Vosoughi, Deb Roy e Sinan Aral, que encabeçaram


o estudo, as notícias falsas se difundiram com maior alcance, amplitude e agilidade do que a verdade em todas as categorias de informações. E mais: os rumores têm 70% mais chances de serem replicados do que a verdade e alcançam muito mais gente. E engana-se quem pensa que, para difundir informações falsas, é preciso ter uma rede social muito ativa e cheia de seguidores. Os usuários que espalham desinformação tiveram menos seguidores, seguiram menos pessoas e foram significativamente menos ativos no Twitter. O que pode ajudar a explicar esse fenômeno, segundo os pesquisadores, é o fator novidade: os rumores falsos eram significativamente mais novos do que a verdade em todas as métricas. Para ajudar a embasar a discussão, usaram a teoria da decisão bayesiana, que diz que a novidade atrai a atenção, contribui para a tomada de decisão e incentiva o compartilhamento de informações. E onde houve mais novidade e rumores? Coincidência ou não, nos

assuntos sobre política, seguidos por lendas urbanas, negócios, terrorismo, ciência, entretenimento e desastres naturais. Como boa parte dos estudos científicos, a pesquisa deixa em aberto para futuros trabalhos inquietações do tipo: como a verdade e a falsidade se difundem de forma tão diferente e quais os fatores do juízo humano explicam essas diferenças? E, para começar a refletir criticamente sobre esses aspectos e também sobre as fake news no âmbito da pesquisa, a Túnel conversou com a pesquisadora e professora do CEFET-MG Ana Elisa Ribeiro. Ana Elisa fez pós-doutorado em Comunicação pela PUC Minas, é sócia da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e consultora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A professora desenvolve pesquisas nas áreas de tecnologias da escrita e da leitura; letramentos, leitura e tecnologias digitais e processos de edição.

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PAPO COM O PESQUISADOR Túnel: Uma das mais respeitadas revistas de ciência do mundo, a Science, publicou recentemente um estudo que conclui que rumores falsos, especificamente no Twitter, são difundidos com maior alcance, agilidade e mais amplamente do que a verdade. Na sua opinião, as tecnologias digitais podem ter contribuído para a disseminação de notícias falsas ou para a desinformação da população? Ana Elisa: Não tenho dúvida de que as tecnologias digitais e as redes sociais, especificamente estas, contribuem para que notícias se espalhem. Aliás, se há uma etapa dos fluxos editoriais em que as tecnologias fizeram diferença foi na distribuição. É mais rápido, é virtual, é viral. A notícia falsa ainda tem um componente qualquer que causa buzz, que parece meio sensacionalista, às vezes, e isso faz com que as pessoas se apressem em curtir, compartilhar, replicar. Se a notícia falsa for bem produzida, bem-feita, ela confunde o leitor e ele se vê emaranhado nessa rede, o que pode ter consequências graves.

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Túnel: Há uma escassez bibliográfica sobre os problemas gerados pelas notícias falsas e também sobre conceitos como pós-verdade, incluído recentemente no dicionário Oxford. Qual deve ser a postura do pesquisador em relação às fake news e como ele pode contribuir para amenizar os problemas causados por elas? Ana Elisa: Se há escassez bibliográfica é porque o fenômeno também é recente. Ainda é preciso pesquisar e estudar isso, de maneira séria. Os pesquisadores em Comunicação, Ciência da Informação, Linguagens e outras áreas do conhecimento certamente estão mobilizados. A questão é que a postura científica demora a produzir efeitos, quando produz, nas práticas sociais. As pessoas vão continuar com dificuldades de identificar conteúdos falsos ou de baixa confiabilidade. Alguns produtores continuarão alimentando nosso dia a dia com notícias falsas bem-feitas, e leitores e leitoras precisarão administrar melhor suas práticas a fim de identificar isso, não repassar, barrar os fluxos. É uma conjugação entre pesquisa científica e educação para as mídias.

Túnel: Como as notícias falsas podem atingir a ciência e quais são seus impactos para a pesquisa e para a vida das pessoas? Ana Elisa: Os impactos para a vida das pessoas talvez sejam mais fáceis de mencionar. Em alguns casos, as pessoas podem mudar comportamentos ao tomar conhecimento de uma informação falsa, sem saber que é falsa. Isso ocorre quanto a quase qualquer coisa, mas, por exemplo, quanto a uma doença, uma vacina ou mesmo quanto a um candidato à presidência da República. Se uma massa de pessoas é manipulada dessa forma, as consequências para o país são ruins e graves. A ciência é atingida quando seus achados mais confiáveis são ofuscados por informações falsas ou quando precisa se desgastar para dirimir dúvidas que poderiam não estar ali, que não precisavam estar ali. Túnel: Em se tratando de processos de leitura em ambientes digitais, quais estratégias poderiam ser utilizadas pelos leitores para verificar a confiabilidade de suas fontes de informação?

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Ana Elisa: Os leitores mais fluentes, mais expertos (com x mesmo, também podem ser os mais espertos) podem identificar as fontes das informações que chegam até eles ou que eles mesmos procuram. São modos de perceber se uma notícia é falsa: verificar o site ou a fonte de onde são tiradas, apurar diretamente com as fontes (quando é possível), procurar e comparar com outras fontes, desconfiar sempre, verificar outros canais (TV, rádio, etc.), que agem no mesmo sistema de mídias. Mas não é exatamente simples fazer isso. É comum que as pessoas repassem a primeira informação ajeitadinha que veem, sem ler novamente (às vezes até sem ler!), sem verificar a origem do link, sem verificar autoria. Trata-se de uma questão de aprender a ler nessa selva que é a internet.

“A ciência é atingida quando seus achados mais confiáveis são ofuscados por informações falsas ou quando precisa se desgastar para dirimir dúvidas que poderiam não estar ali.” Ana Elisa Ribeiro


Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

GIRO NA CIÊNCIA

#QUERO

LIKES Canais no YouTube explicam ciência de forma simples e divertida

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Manual do Mundo: www.youtube.com/iberethenorio Nerdologia: www.youtube.com/nerdologia Papo de Biólogo : www.youtube.com/papodebiologo Ciência Todo Dia: www.youtube.com/CienciaTodoDia Alimente o Cérebro: https://www.youtube.com/canaldocerebro Space Today: http://bit.ly/YT-SpaceToday Minuto da Terra: www.youtube.com/MinutoDaTerra Primata Falante : www.youtube.com/mrprimatafalante Ponto em Comum: http://bit.ly/YT-PontoemComum Poligonautas: www.youtube.com/poligonautas

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Ilustração: Luciana Ruiz de Vilhena

GIRO NA CIÊNCIA

EVENTOS 15 a 20 de outubro: Semana C&T tem como foco a redução das desigualdades “Ciência para a Redução das Desigualdades” é o tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) deste ano. No CEFET-MG, a 14ª edição da Semana C&T acontece entre 15 e 20 de outubro em todos os campi e busca fomentar e premiar atividades inovadoras de divulgação científica que aproximem a ciência da população e instiguem o debate e o aprofundamento sobre o assunto. O tema foi definido com base na Agenda 2030 e seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). A agenda tem como foco as pessoas, o planeta e a prosperidade com o objetivo de promover a paz mundial com liberdade e erradicar todas as formas de pobreza. De acordo com a coordenadora geral de Divulgação Cientifica e Tecnológica do CEFET-MG, Sônia Miranda de Oliveira, nos últimos três anos, os critérios para aceite de trabalhos tem se tornado mais rigorosos para garantir a qualidade das apresentações. “A nossa expectativa para 2018 é das melhores, pois temos tido aumento ano a ano no número de trabalhos submetidos, inclusive despertando o interesse de pessoas que desenvolvem atividades na Instituição que não estão ligadas diretamente à Diretoria de Pesquisa e Pós-Graduação (DPPG)”, comemora. Para Sônia, a grande visibilidade obtida graças à cobertura da imprensa e ao aumento da interação com as escolas, por meio das visitações de alunos externos, são outros pontos que vem fortalecendo e consolidando o trabalho desenvolvido na Semana C&T do CEFET-MG.

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24 de novembro: Dia Mundial da Ciência Qual o papel da ciência no desenvolvimento humano? É para pensar sobre isso que se comemora, no dia 24 de novembro, o Dia Mundial da Ciência. A data busca destacar os grandes nomes da ciência, colocar desafios para o futuro e instigar o gosto pela ciência nas gerações mais novas. A data é comemorada em vários países, mas tem destaque em Portugal, onde foi oficializada em 1996, em comemoração ao nascimento de Rómulo de Carvalho, professor de Física e Química, além de poeta, que contribuiu para a divulgação da ciência no país europeu. Para marcar o dia, escolas e universidades realizam mostras, palestras e discussões para despertar o interesse na área e destacar a importância da ciência no nosso dia a dia.

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Revista Túnel | Vol. 1, n. 1, 2018 by Túnel - Issuu