FEBRATEX.COM.BR Agência de Viagens OOcial:
Empresa Associada:
EDITORIAL
A REVISTA TEXTIL é uma publicação da R. da Silva Haydu & Cia. Ltda. Inscr. Eat.: 104.888.210.114 CNPJ/MF: 60.941.143/0001-20 MTB: 0065072/SP End. Rua Albuquerque Lins 635 - Cj 44, Santa Cecília, São Paulo, SP. Brasil CEP:01230-001 Diretor-Presidente: Frederico Haydu Editor Chefe: Frederico Haydu Diretor de redação: Ricardo Gomes Designer: André Luiz Vilela Gaiteiro Diagramação: Plataforma Editorial Comercial: Frederico Haydu Digital: Daniela Marx, Henrique Pereira, Enzo Vavolizza Fortunato, Danila Salvatori e Eric Rodrigues Capa: Ângela Brito em um passeio por Milão, foto Fred Haydu, arte Carlos Viera Quarta capa: arte Carlos Viera Colaboradores: Daniela Marx, Sarah Caldas, Clarissa Magalhaes, Vanessa San Jorge, Bruno Leonard, Guia Jeanswear, Carla Angelini, Laura Yamane, Senai-SP textil e moda e Senai-Cetiqt RJ. Agradecimentos: Dani Marx, Dudu Bertholini, Marta De Divitiis, Guia Jeanswear, Carlos Vieira e a Reachr, Henrique Pereira, Carlos Tartaglioni, Bruno Leonard, Ricardo Gomes, Lea T, Ursula Orlando, Guia Jeanswear, Enzo Vavolizza Fortunato,Sinditextil, Abit, ABTT e FCEM. Representantes Comerciais comercial@revistatextil.com.br •
Europa: Felix Emesto Arias Huck ernesto.arias@revistatextil.com.br/ +49 173 6741626
•
China: Andrew Tianya Andrew.tianyu@revistatextil.com /+86 187 52703321
•
America Latina: Carola Gonzalez Okuingthon +55 62 981509035
•
Índia: Amarjeet Singh Gianni | Diljeet Singh Advertising Representatives as_gianni@yahoo.co.in/ +91 98390 35458
•
Argentina: Ecodesul + (541) 49-2154
•
Estados Unidos: Daniella Ambrogi +(1) 640-1840
Redação/Administração São Paulo/SP - Brasil Tel/Phone: +55 11 995952104 E-mail: revistatextil@revistatextil.com.br Site: www.revistatextil.com.br Instagram: @revistatextil Publicação bimestral com circulação dirigida às fiações, tecelagens, malharias, beneficiadoras, confecções nacionais e internacionais, universidades e escolas técnicas. Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a filosofia da revista. A reprodução total ou parcial dos artigos desta revista depende de prévia autorização da Editora. Redação Releases, comentários sobre o conteúdo editorial, sugestões e críticas a matérias. Pedidos de informação relacionados às matérias e à localização de reportagens: revistatextil@revistatextil.com.br Publicidade Anuncie na REVISTA TÊXTIL e fale diretamente com o público leitor mais qualificado do setor têxtil no Brasil e no mundo: revistatextil@revistatextil.com.br comercial@revistatextil.com.br
Ricardo e Vivi Haydu
UMA MISSÃO QUE MEU PAI ME PREPAROU PARA ASSUMIR Pai, há momentos na vida em que compreendemos que determinadas experiências não aconteceram por acaso. Hoje, ao assumir a Revista Têxtil, depois da sua passagem para a Pátria Espiritual, no dia 14 de julho, olho para os últimos dois anos e meio e percebo que, enquanto eu acreditava estar cuidando de você, talvez você também estivesse me preparando. Preparando-me para este momento. Foram dois anos e meio de tensão, sobrecarga, dúvidas e aprendizados. Precisei começar a compreender, pouco a pouco, a dimensão de uma história que ultrapassa uma empresa. A Revista Têxtil é um legado construído ao longo de décadas, feito de relações, conhecimento, confiança e, sobretudo, de uma profunda ligação com a indústria e a sociedade. E, nesse caminho, fui entendendo também que levar adiante o legado não significa simplesmente repetir o que foi feito. Significa respeitar a história e, ao mesmo tempo, ter coragem para acrescentar a minha própria visão e firmar todos os valores que o Senhor e Dona Vivi me ensinaram. E, para quem os conheceu, sabe da inspiração que o amor e a cumplicidade que vocês emanavam juntos transmitiam a todos, principalmente da paixão de vocês pelo setor têxtil. Vou preparar uma edição especial para você, para compartilhar com todos as suas conquistas, os seus feitos e a sua firmeza de longa data. Foram 56 anos à frente da Revista. Este ano, comemoramos 95 anos de história e, no final do ano, teremos a edição especial nº 800, que trará muita história, lembranças e, certamente, muitos sorrisos sobre seu legado. Continuarei com a Revista Têxtil por sentir você e a mãe tão perto, presentes em todas as conexões necessárias para continuar informando e fortalecendo a indústria têxtil. Te amo, Pai. Obrigado por tudo. Estaremos sempre juntos. Sempre. Do seu filhão, Frederico
Revista Têxtil #797
03
CARTA DO EDITOR
DE RICARDO PARA RICARDO
M
eu eterno e amado Xará! O dia 14 de julho não será mais o mesmo. Nos primeiros anos vindouros, a data ainda vai nos trazer um pouco de dor e de tristeza. Depois de um tempo ficaremos apenas com o sentimento que esta data marcou o dia da sua passagem, do fim da sua luta contra a enfermidade e daí em diante o dia 14 de julho será um dia celebrar sua existência e o seu encontro com a sua Vivi Haydu. No dia que você nos deixou eu escrevi em uma rede social que você foi um dos homens mais elegantes com os quais eu tive prazer de conviver. Você foi meu patrão, meu chefe, meu instrutor e acima de tudo um amigo. Te encontrar Mister Haydu era sempre uma alegria. Seu sorriso, seu beijo e seu abraço acalmavam o mundo. Sim você vivia em outro ritmo, quase que em outra dimensão. As suas horas tinham outra minutagem e seu tempo tinha outro compasso. Claro que Vivi, sua esposa, companheira e cúmplice que nos deixou em 2024, assumia todos os embrolhos do relógio digital frenético para que você pudesse viver no time dos relógios de bolso movidos a corda. Você adorava meus textos cheios de metáforas! As minhas lembranças mais gostosas são das nossas noites no seu apartamento em Higienópolis, tomando whisky, fumando charutos, cigarros e depois nos esbaldando com as comidas deliciosas da Vivi acompanhadas de vinhos primorosos. Nossas conversas eram infindáveis. Ouvir suas his-
04
Revista Têxtil #797
tórias, suas peripécias e casos do setor têxtil era maravilhoso. E nós misturávamos tudo, trabalho, vida pessoal, história, comportamento e um pouquinho, bem pouquinho de mexerico à vida alheia. Você me apelidou de RG, com ainda sou chamado por várias pessoas que conviveram conosco. Quando fui trabalhar contigo como editor da sua Revista Têxtil você me disse: quando você não trabalhava comigo podia ser Ricardo, mas trabalhando juntos vai dar muita confusão. Eu como mais velho fico como Ricardo e você que é mais novo será o nosso RG. E por falar em Revista Têxtil, temos que te agradecer por ter continuado o legado do professor José Haydu (seu pai) e levado em frente o projeto da revista mais longeva da história do setor têxtil nacional. Obrigado também ter apoiado a Vivi na empreitada de retomar a Fenit e transformá-la mais uma vez no grande encontro de setor têxtil e de moda novamente à época. Obrigado também por ter sido um guardião da história do setor têxtil não só do Brasil, mas do mundo todo. A suas chegadas aos eventos nacionais e internacionais deixavam claro que o mundo o reverenciava como uma autoridade e, mais que isso, você como um grande entusiasta e amigo da cadeia produtiva têxtil em todas as paragens e destinos por onde passou. Mister Haydu, muito obrigado por tudo e por tanto. Ao universo agradeço a generosidade de me ter permitido viver no mesmo tempo que você
e mais que tudo: conviver com você. Que você tenha muita paz ao lado da Vivi e de tantos outros seus que já nos deixaram. Que a sua alegria e generosidade continue nos contagiando e nos guiando com leveza entre as fibras do nosso coração, entre os fios do nosso labor e entre as tramas deliciosas do nosso dia a dia. Que o seu eterno tear de doçura continue nos enviando cachecóis, meias e gorros dos mais acolhedores para que nunca nos esqueçamos seu abraço, que era um ACALANTO! Um Beijo do seu RG, mas que certamente representa milhares de pessoas que formam coro comigo nesta carta. Ricardo Gomes (RG)
ADATEX, RUMO AOS 100 ANOS DESENVOLVENDO SOLUÇÕES. ENTREGANDO QUALIDADE COM SUSTENTABILIDADE. Fios de alta tecnologia para confecção, malharia, tecelagem, artigos esportivos, produtos descartáveis, meias e fitas elásticas, além de muitas outras aplicações.
ADATEX • Rua Marco Mehler, 45, Jacareí/SP
Tel. +55 12 2127-2300 - Celular +55 12 99209-7824
www.adatex.com.br • comercial@adatex.com.br adatex.oficial
adatex-oficial
adatex.oficial
SUMÁRIO ITMF
08
ADRIANA GALIJASEVIC VEM PARA DENIM CITY SP
60
ABIT: CONGRESSO INT. BRASIL
09
CANATIBA: INOVAÇÃO PARA A MODA INFANTIL
62
RICARDO HAYDU IN MEMORY
10
FUTURE FABRICS EXPO 2026
64
SINDITEXTIL
11
SENAI CETIQT RJ: INTELIGÊNCIA PARA A SUSTENTABILIDADE
70
MULHERES DE FIBRA: SÔNIA GONÇALVES
12
REACHR: O CUSTO QUE NÃO ESTÁ NO DRE
72
RIETER: RECICLAGEM EM ESCALA INDUSTRIAL
14
MERCADO: O PRODUTO PRECISA VALER MAIS
74
ITMA ASIA + CITME 2026 PREVIEW
15
O CONSUMIDOR DO FUTURO
79
ITMA 2027 PREVIEW
16
A TRANSFORMAÇÃO DA ESTAMPARIA
80
BENNINGER E GRUPO NS
17
DRAGÃO FASHION BRASIL
84
MILANO UNICA
18
DENIM GANHA NOVA RELEVÂNCIA
88
CAPA: ÂNGELA BRITO
30
CHARLES HERMANN BRILHA EM CANNES
90
INTERTEXTILE HOME TEXTILES SHANGHAI
36
COLOMBIAMODA 2026
92
MEGA ARTESANAL
40
SANDRA ANSELMI NO MATA LAB
94
CASA COR SP
41
EURO FIOS E SANDRA ANSELMI
96
FUTURE PRINT
42
CRÔNICA: IA E HUMANIDADES
97
GOTEX SHOW 2026 PREVIEW
44
RICARDO HAYDU IN MEMORY
98
FEBRATEX 2026 PREVIEW
46
INSPIRA MAIS
50
LEONIÊ: O SONHO DE MARLU FONSECA
52
RESÍDUO TÊXTIL, QUANTO VALE?
54
XII CONTEXMOD PREVIEW
58
EPSON E YKK APRESENTAM ZÍPER RECICLADO
59
06
Revista Têxtil #797
Acesse nossas edições anteriores pelo site www.revistatextil.com.br
Siga-nos no instagram: @revistatextil
COLABORADORES Clarissa Magalhães
Jornalista e consultora, atua com estratégia, bioeconomia e inovação para a trasformação do setor têxtil
Dani Marx
Palestrante e Mentora de Negócios de Moda e 20 anos de experiencia no mercado de moda e varejo
Vanessa San Jorge Braga
Sócia Co-fundadora e COO Reachr
Sarah Caldas
Agente AVA e Coordenadora do Núcleo São Paulo da ABTT
Bruno Leonard
Representante de moda e eventos para Revista Textil
Laura Yamane
Consultora de moda, tecelagem e estamparia , Dra. Em Moda e Cultura Popular
Carla Angelini
Engenheira têxtil e consultora em energia, com atuação em eficiência energética, geração distribuída fotovoltaica, armazenamento e transição energética no setor industrial
Frederico Haydu Editor chefe Revista Textil
ITMF
FORTALEZA REÚNE O MUNDO TÊXTIL EM TORNO DO FUTURO DA INDÚSTRIA
ITMF, IAF E ABIT UNEM FORÇAS PARA DISCUTIR TRANSFORMAÇÃO, INOVAÇÃO E NOVAS REALIDADES
F
ortaleza será, em outubro, o ponto de encontro da indústria têxtil, de confecção e de moda mundial. Nos dias 14 e 15 de outubro de 2026, a capital cearense receberá a conferência conjunta da International Textile Manufacturers Federation (ITMF) e da International Apparel Federation (IAF), em parceria com a ABIT – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção. Paralelamente, acontece o Congresso ABIT, ampliando a programação e reunindo diferentes representantes da cadeia brasileira e internacional. Com o tema “Future in Motion – Transformation, Innovation and New Realities”, o encontro coloca em pauta as grandes transformações que estão redefinindo a indústria. Tecnologia, inovação, sustentabilidade, competitividade, transformação digital, novas relações comerciais e os impactos das mudanças econômicas e geopolíticas estarão entre os temas centrais dos debates. A união entre ITMF e IAF aproxima diferentes elos da cadeia global. A ITMF reúne fabricantes e organiza-
ções da indústria têxtil, enquanto a IAF conecta os diversos agentes do universo do vestuário, incluindo fabricantes, marcas e fornecedores. A participação da ABIT fortalece essa conexão com o mercado brasileiro e cria uma oportunidade estratégica para ampliar o diálogo entre a indústria nacional e os principais mercados internacionais.
mento, confecção, marcas e varejo, além de um crescente ecossistema de tecnologia e inovação.
Ao mesmo tempo, a realização do Congresso ABIT em paralelo cria uma agenda ainda mais abrangente para o setor. A proximidade entre os dois encontros favorece a circulação de conhecimento, o relacionamento entre empresas e instituições e a aproximação de lideranças brasileiras com especialistas e executivos internacionais.
Fortaleza, portanto, será mais do que o cenário de uma conferência. Durante os dias do encontro, a cidade se transformará em um ponto de conexão entre diferentes visões, experiências e estratégias para o futuro da cadeia têxtil e de moda.
BRASIL EM EVIDÊNCIA Receber ITMF e IAF em Fortaleza representa também uma oportunidade para apresentar ao mundo a dimensão e a diversidade da indústria brasileira. O país possui uma cadeia produtiva ampla, que reúne fibras, fiação, tecelagem, beneficia-
Para a indústria nacional, a presença de representantes internacionais permite discutir caminhos para aumentar a competitividade, incorporar novas tecnologias, avançar em sustentabilidade e ampliar a participação brasileira nos mercados globais.
Em um setor que atravessa profundas mudanças, a reunião de ITMF, IAF e ABIT, somada ao Congresso ABIT realizado em paralelo, coloca o Brasil no centro das conversas sobre o futuro da indústria. A grande questão será como transformar inovação, colaboração e conhecimento em ferramentas para construir uma cadeia mais competitiva, sustentável e preparada para as novas realidades do mercado.
C
M
Y
CM
MY
CY
CMY
K
08
Foto: Jade Queiroz – MTUR
Revista Têxtil #797
ABIT
CONGRESSO INTERNACIONAL BRASIL 2026
A
Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) anuncia o Congresso Internacional Brasil 2026 com o tema: “Futuro em Movimento: Transformação, Inovação e Novas Realidades”. Desta vez, o evento será realizado conjuntamente com a International Textile Manufacturers Federation (ITMF) e a International Apparel Federation (IAF), no Centro de Convenções de Fortaleza (CE), nos dias 14 e 15 de outubro, e reunirá grandes nomes das áreas de pesquisa, produção e gestão para discutir assuntos de destaque no setor. As inscrições para o evento já estão abertas. O Congresso propiciará a convivência de executivos, industriais, pesquisadores e lideranças associatiAnuncio Congresso Abit.pdf 1 11/08/2026 16:11:21 vas de diferentes países. Em pauta estarão assuntos que já moldam o
presente da indústria: inteligência artificial, circularidade, materiais inteligentes, digitalização e eficiência produtiva. Apresentações, palestras e mesas-redondas subsidiarão as decisões estratégicas da cadeia têxtil e de confecção. No primeiro dia acontecerá a palestra de abertura com tema “Geopolítica e Geoeconomia: Tendências de um mundo em transformação”. O painel 1 será sobre “A nova geografia da indústria e as oportunidades para as economias emergentes”, já a segunda apresentação terá como foco o “Futuro das Fibras” e encerrando o dia, a palestra “Modelos produtivos: velocidade, flexibilidade e proximidade com o mercado.” No dia 15 haverá a Sessão de Premiação ITMF - International Textile Manufacturers Federation (Federa-
ção Internacional de Fabricantes de Têxteis) seguida pelo painel 5: “Comércio e Regulamentação: O Novo Cenário”. A programação também conta com a explanação sobre as “Novas expectativas, dados e mudanças de comportamento de mercado imprevisível” e para finalizar a discussão sobre o tema “Brasil: capacidades, cadeia de valor integrada e oportunidades de investimento.” “Em um momento em que o mundo passa por transformações profundas, o evento posiciona-se como espaço essencial para reflexão e construção de caminhos”, afirma Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit. De acordo com Pimentel, o encontro cria oportunidade estratégica para fortalecer a indústria, ampliar a competitividade e ganhar espaço num cenário econômico. Fonte: ABIT
INSCRIÇÕES ABERTAS
Garanta seu lugar em um dos maiores eventos do setor T&C 14 e 15 de outubro Fortaleza, Ceará
Garanta sua vaga!
Revista Têxtil #797
09
HOMENAGEM
HOMENAGENS PARA O AMIGO RICARDO HAYDU Ricardo Steinbruch: “A indústria têxtil e de confecção brasileira perde um dos profissionais que melhor soube compreender e retratar a importância do nosso setor. Ricardo Haydu exerceu o jornalismo com independência, competência e profundo conhecimento, construindo ao longo de sua trajetória uma relação de respeito e confiança com toda a cadeia produtiva. Em nome da Abit, presto nossa homenagem e expresso minha solidariedade à sua família, aos amigos e aos colegas de profissão” Fernando Pimentel: “Ricardo Haydu é um daqueles profissionais cuja trajetória se confunde com a própria história da indústria têxtil e de confecção brasileira. Ao longo de décadas, ele e sua querida esposa, Vivi Haydu, construíram uma referência de credibilidade, seriedade e profundo conhecimento do setor por meio da Revista Têxtil. Mais do que registrar os fatos, Ricardo ajudou a contar a evolução da nossa indústria, dando voz às empresas, às entidades, aos empresários e aos profissionais que fazem desse setor um dos mais importantes do Brasil. Sempre o fez com competência, equilíbrio e um olhar genuinamente comprometido com o desenvolvimento da cadeia têxtil. Mas Ricardo também é reconhecido por sua alegria contagiante, seu bom humor permanente e pela forma cordial e elegante com que construiu amizades ao longo da vida. Sua presença sempre tornou os encontros mais leves e agradáveis. Nosso profundo reconhecimento e gratidão por sua extraordinária contribuição ao jornalismo especializa-
10
Revista Têxtil #797
Da esq.: Luiz Arthur Pacheco, presidente do Sinditêxtil-SP, Ricardo Haydu, Fernando Pimentel, presidente da Abit, e Renato Leme, diretor Administrativo da Abit, durante homenagem do Sinditêxtil-SP, em 2017, a Ricardo Haydu pelo trabalho realizado a frente da Revista Têxtil
do e ao fortalecimento da indústria têxtil e de confecção do nosso país . Agora o bastão está nas mãos do seu filho Fred a quem desejamos o mesmo sucesso na jornada profissional e pessoal.” Rafael Cervone: “Ricardo Haydu, além de um grande amigo, é um ícone para o setor têxtil e vem de uma raiz muito forte, o pai dele, o professor José Haydu, que foi um educador pioneiro em São Paulo, tendo organizado a primeira escola de fiação e tecelagem do estado de São Paulo, que sempre foi líder no setor têxtil e até hoje é. José Haydu criou a Revista Têxtil e o Ricardo ajudou desde o início, tocando a revista a vida inteira também. Ricardo teve uma participação imensa nas feiras têxteis brasileiras, na época de FENITE e FENATEC, e teve a missão, junto com o pai dele, de ter criado essa memória do setor, que tem muito a ver com a memória da Revista Têxtil também, que está caminhando para os seus 90 anos.
Então, é um orgulho muito grande para nós e para a Revista Têxtil ter o Fred, filho do Ricardo, continuando esse legado do pai e da mãe, a Vivi Haydu, que também é um ícone saudoso do nosso setor. Eu tenho com muito carinho o Ricardo, desde o meu início de engenharia têxtil, ainda na faculdade, tendo o Ricardo e a família Haydu como grande referência.” Renato Leme: Sempre foi muito fácil perceber a entrada dele, em qualquer ambiente. Sua chegada era precedida de um sorriso largo e inconfundível. Carregava elegância, educação, “finesse’ e um enorme carisma. Excelente conversa, afiado em assuntos dos mais diversos teores, mas especialmente apaixonado pelo desenvolvimento do setor têxtil e de confecção brasileiro. Transformava rapidamente seu discurso em um entusiasmo contagiante, quando falava deste tema. E falava com conhecimento, do alto de suas muitas décadas de experiência neste meio, no comando de sua REVISTA TÊXTIL e ao lado da sua Vivi. E
HOMENAGEM como era boa uma conversa com ele, fosse por seu assunto preferido, fosse pelas suas muitas histórias, sempre muito ricas, tanto por seu modo de enxergar e aproveitar a vida, como pelos fatos, que não poucas vezes, deslisavam para o lado hilário e divertido de suas múltiplas experiências. Estar em uma mesa onde estivesse Ricardo era sempre garantia de boas conversas e muitas risadas. E, felizmente para mim, participei de muitas dessas reuniões, especialmente aquelas chamadas de “Diretoria da Assubit,” nas mesas do bar da sede da Abit e do Sinditêxtil-SP. Dizíamos que ali sim eram decididos os destinos e resolvidas as questões, não só dos setores, mas dos grandes problemas da república. E não era só diversão,
havia discussões filosóficas importantes, sempre acompanhadas de um bom “scotch”. Ah, bons tempos. Por tudo que era como pessoa e profissional, mas especialmente como amigo, a partida de Ricardo Haydu, acabou deixando um vácuo enorme entre os muitos que conquistou ao longo dos anos. Ricardo, onde você estiver e espero que esteja ao lado de sua Vivi, dos antigos companheiros que já se foram e, com certeza, dos novos amigos que você já fez logo que chegou por aí, esteja bem e saiba que você faz muita falta. Saiba que tenho muito orgulho de ter convivido contigo e especialmente de ter sido seu amigo, aqui neste pequeno planeta. Grande Abraço. Saudades sempre.
Luiz Arthur Pacheco: "Recebi a notícia da partida de Ricardo Haydu com profunda tristeza. Além de um grande amigo, o Ricardo foi uma das personalidades mais importantes da história da indústria têxtil brasileira. Sua dedicação ao setor se traduziu na atuação em feiras que marcaram época, como a FENIT e a FENATEC, e, ao lado de sua esposa, Vivi Haydu (in memoriam), deixou uma contribuição inestimável para a comunicação da nossa cadeia produtiva por meio da Revista Têxtil. Seu legado permanecerá vivo na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com ele e continuará inspirando as novas gerações que constroem a indústria têxtil e de confecção do Brasil".
CENÁRIOS NOTÍCIAS CASES GESTÃO Tudo sobre a indústria têxtil você acompanha aqui!
Disponível nas principais plataformas Revista Têxtil #797
Fio de Prosa é o podcast oficial do
11
MULHERES DE FIBRA
SÔNIA GONÇALVES: CONSTRUINDO HISTÓRIAS ENTRE A MODA E O TÊXTIL Por Sarah Caldas
P
oucas profissionais acompanharam tão de perto a transformação da moda brasileira quanto Sônia Gonçalves. Pioneira na assessoria de imprensa especializada em moda e lifestyle no Brasil, ela construiu uma trajetória baseada em relacionamento, observação e, principalmente, na capacidade de transformar marcas em histórias. Hoje, à frente da MSG Comunicação, continua atuando na conexão entre marcas, imprensa, mercado e novos territórios da moda. Sua formação no setor começou muito cedo, aos 17 ou 18 anos, na Cori. Foi ali que aprendeu, como conta, o que faz uma marca ser uma marca. Depois, criou sua própria assessoria, iniciando com nomes como Arezzo, Patachou, Gloria Coelho, Osklen e H. Stern. Ao longo de mais de três décadas, seu portfólio se ampliou e acompanhou a chegada de grandes grifes internacionais ao Brasil: Fendi, Ralph Lauren, Dior, Roberto Cavalli, Vivienne Westwood, Kenzo, Issey Miyake e Christian Lacroix. Mais do que divulgar coleções, Sônia sempre enxergou a comunicação como construção de identidade. “Gosto de construir marcas, não de trabalhos pontuais”, afirmou. Essa visão explica a longevidade de relações como a mantida com Gloria Coelho, que registra a MSG Comunicação como sua assessoria desde 1989. Sua trajetória também é recheada de histórias que revelam a dimensão humana por trás da indústria.
12
Revista Têxtil #797
Em Paris, encontrou Christian Lacroix no Le Bristol, apresentou-se como responsável pela marca no Brasil e guardou até hoje a fotografia daquele encontro. Com Kenzo, conversou sobre sua paixão por decoração e recebeu uma almofada que permanece em seu sofá. Seu acervo guarda ainda peças de Vivienne Westwood, Thierry Mugler e Issey Miyake. Sônia diz não ser nostálgica, mas romântica: guarda memórias porque foram importantes. Essa capacidade de observar e criar conexões também aproxima sua atuação do universo têxtil. Ao longo dos anos, a comunicação deixou de falar apenas de moda para incorporar tecnologia, materiais, inovação e sustentabilidade. É nesse contexto que entra a REPREVE, fibra produzida a partir de materiais reciclados e uma das referên-
cias na transformação da conversa sobre matérias-primas na indústria. A presença desse universo na atuação de Sônia revela como a comunicação pode ajudar a traduzir a complexidade da cadeia têxtil para o mercado e para o consumidor. A MSG continua ativa no relacionamento com marcas e empresas. Atualmente, a Oetker Collection identifica a MSG Comunicação, com Sônia Gonçalves, como sua agência de imprensa no Brasil. Curiosamente, apesar de trabalhar há décadas com moda, Sônia mantém uma relação muito particular com ela. Diz ser minimalista, prefere preto e branco e gosta de misturar elementos masculinos ao guarda-roupa feminino. Admira Miuccia Prada e Sofia Coppola e acredita que a moda contemporânea precisa recuperar diferenças e comprometimento.
MULHERES DE FIBRA Talvez essa seja a síntese de sua trajetória: Sônia Gonçalves nunca esteve interessada apenas em colocar uma marca nas páginas de uma revista. Seu trabalho sempre foi criar conexões verdadeiras, construir reputações e transformar produtos, pessoas e empresas em histórias capazes de permanecer. Da moda ao têxtil, sua atuação mostra que comunicar também é construir memória, e que, em uma indústria movida pela velocidade, relações duradouras continuam sendo um dos ativos mais valiosos.
ENTREVISTA Revista Textil: Qual foi o maior desafio para conquistar credibilidade em um mercado de grandes decisões e negociações? Sonia: Sempre pensei em fazer bem o meu trabalho. Disciplina, respeito e dedicação foram fundamentais. A credibilidade veio com o tempo, com a consistência e, principalmente, com os resultados. RT: Você costuma dizer que prefere construir histórias a realizar trabalhos pontuais. Essa visão de longo prazo nasceu da experiência profissional ou também da forma como você enxerga a vida? Sonia: Das duas coisas. Gosto do tempo para refletir, compreender e também saber mudar quando é preciso. Nunca me interessou apenas realizar um trabalho, mas construir algo que permaneça. É assim com uma marca e, de certa maneira, também com a vida. Continuar construindo coisas, e quando possível, coisas extraordinárias. RT: Existe alguma dificuldade que, em dado momento, pareceu um obstáculo intransponível, mas acabou
se transformando na oportunidade mais importante da sua carreira? Sonia: Várias. E continuam existindo. Os desafios sempre me fizeram crescer. Há alguma coisa neles que me instiga, me provoca e, muitas vezes, tira de mim algo que não tem nome. Talvez as maiores oportunidades tenham surgido justamente desses momentos. RT: Hoje qualquer empresa consegue divulgar seus produtos nas redes sociais. O que continua sendo insubstituível quando o objetivo é construir confiança e reputação? Sonia: As redes sociais são um canal poderoso e indispensável para muitas empresas. Mas divulgação não é necessariamente reputação. Confiança se constrói com coerência, qualidade, relações e tempo. RT: Você acredita que ainda existe espaço para relações duradouras entre empresas, imprensa e profissionais da comunicação ou a velocidade do mercado tornou tudo mais descartável? Sonia: Sim, acredito muito. A velocidade mudou a forma de nos comunicarmos, mas não deveria mudar a qualidade das relações. Para mim, o essencial continua sendo ser verdadeira. Relações consistentes sobrevivem às mudanças de mercado. RT: Você sempre transitou entre criação, comunicação e negócios. Como mulher, precisou provar mais de uma vez que era capaz de ocupar esses diferentes espaços?
pelo que eu tinha a oferecer. RT: Muitas empresas da cadeia têxtil atuam no mercado B2B. Como elas podem construir marcas fortes e inspiradoras sem perder autenticidade? Sonia: Entendendo primeiro quem são e o que realmente têm a dizer. Uma marca forte,precisa reconhecer a sua própria história, seus valores, sua qualidade e comunicá-los com clareza. Autenticidade não se fabrica. RT: Sustentabilidade, rastreabilidade e tecnologia estão redefinindo a moda. Como comunicar inovação de forma humana, transparente e verdadeira? Sonia: Com informação, transparência e responsabilidade. Sem transformar sustentabilidade ou tecnologia apenas em discurso. Quanto mais complexo o tema, mais simples e verdadeira deve ser a comunicação. É preciso mostrar o que realmente está sendo feito. RT: Que conselho você daria para uma jovem que sonha construir uma carreira sólida na comunicação, na moda ou na indústria têxtil? Sonia: Faça o que deseja com paixão. Tenha disciplina, curiosidade e respeito pelo seu trabalho e pelas pessoas. Aprenda sempre — e não tenha medo de mudar de caminho quando sentir que é preciso.
Sonia: Certamente houve momentos em que precisei provar minha capacidade, mas nunca fiz disso o centro da minha trajetória. Preferi trabalhar, observar, aprender e ocupar os espaços naturalmente, Revista Têxtil #797
13
MAQUINÁRIO
RECYCLING POWERHOUSE: RECICLAGEM TÊXTIL GANHA ESCALA INDUSTRIAL
A
indústria têxtil dá mais um passo em direção à economia circular com a criação da Recycling Powerhouse Ltd., empresa estabelecida em julho de 2026, na Suíça, com a missão de industrializar, padronizar e ampliar a reciclagem de resíduos têxteis. O novo empreendimento reúne Rieter Group, Säntis Textiles e Valvan e adotará um modelo de negócios baseado em franquias para viabilizar a produção de fios reciclados de alta qualidade e certificados. A iniciativa surge diante de um dos maiores desafios da cadeia global. O crescimento dos volumes de resíduos, a pressão regulatória e a demanda por produtos mais sustentáveis aumentam a necessidade de soluções de reciclagem capazes de operar em escala. Embora a reciclagem têxtil-para-têxtil já exista, menos de 1% dos têxteis usados retorna à produção de novos têxteis. Entre os obstáculos estão a complexidade tecnológica, o baixo custo das fibras virgens e um mercado de reciclagem ainda fragmentado, no qual muitas alegações são difíceis de verificar. A Recycling Powerhouse pretende criar uma rede internacional de unidades capazes de transformar resíduos têxteis pré e pós-consumo em fios reciclados certificados. Como integradora e franqueadora, fornecerá aos parceiros conceitos padronizados de reciclagem, tecnologias, procedimentos operacionais, soluções digitais, auditoria, certificação, treinamento e suporte técnico. A produção das unidades será comercializada
14
Revista Têxtil #797
sob uma marca estabelecida, com rastreabilidade de ponta a ponta. A Rieter contribuirá com sua experiência em desfibragem e fiação de fibras descontínuas. Sua tecnologia transforma retalhos de tecido em fibras, preservando sua qualidade em um nível superior ao das tecnologias convencionais — condição essencial para obter fios reciclados de alto desempenho em escala industrial. A Valvan, especializada em tecnologias de triagem, contribuirá com equipamentos como a Fibersort, solução automatizada baseada em inteligência artificial para separação de resíduos têxteis, e a Trimclean, desenvolvida para preparar retalhos antes do processo de desfibragem. A Säntis Textiles agregará sua experiência em engenharia têxtil e fabricação de fios. Para Thomas Oetterli, CEO do Rieter Group, a nova empresa representa uma oportunidade de aplicar competências desenvolvidas ao longo de décadas a um dos desafios mais urgentes da indústria: “Com a Recycling Powerhouse Ltd., estamos levando nossos maiores pontos fortes para uma das questões mais urgentes do mundo: os resíduos têxteis. Ao combinar tecnologia de fiação de ponta, décadas de experiência em reciclagem e soluções avançadas de rastreabilidade, o empreendimento cria uma plataforma estratégica para abrir novas oportunidades nos mercados de máquinas, serviços de engenharia, tecnologias de reciclagem e fios reciclados.”
O primeiro projeto baseado no modelo da Recycling Powerhouse está previsto para entrar em operação no início de 2027, no Catar, em parceria com o Suhail Industrial Holding Group. O grupo, que já atua na reciclagem de metais, aço e plástico no Oriente Médio e em outras regiões, pretende expandir sua atuação para o segmento têxtil. A unidade será concebida como um modelo de referência global, demonstrando a viabilidade comercial da reciclagem têxtil em escala industrial. O Suhail já planeja novas plantas em diferentes regiões, com a ambição de se tornar um dos líderes mundiais do setor. O projeto representa uma mudança importante na forma como a reciclagem têxtil pode ser estruturada: em vez de iniciativas isoladas, a proposta é criar um sistema global, padronizado e rastreável, capaz de transformar resíduos em matéria-prima para novos produtos. A combinação entre triagem inteligente, preservação das fibras, fiação avançada e certificação aponta para uma nova etapa da circularidade na indústria têxtil.
Nossos sentimentos pela passagem de Rohit Patankar, Marketing Rieter India
PREVIEW
ITMA ASIA + CITME 2026: SHANGHAI SERÁ O PALCO DA NOVA INDÚSTRIA TÊXTIL
T
ecnologia, automação, sustentabilidade e inteligência digital estarão no centro de uma das principais plataformas mundiais de máquinas e soluções para a indústria têxtil
a setores como automotivo e aeroespacial. Soluções de tecelagem 3D e malharia multiaxial mostram como a tecnologia têxtil ultrapassa as fronteiras tradicionais da moda e do vestuário.
Shanghai volta a ocupar posição estratégica no calendário mundial da indústria têxtil. De 20 a 24 de novembro de 2026, o National Exhibition and Convention Center (NECC), em Shanghai, recebe a ITMA ASIA + CITME 2026, uma das mais importantes plataformas internacionais para máquinas, tecnologia e inovação na cadeia têxtil.
Na edição de 2024, a feira ocupou cerca de 160 mil metros quadrados, reuniu mais de 1.700 expositores de 22 países e regiões e recebeu aproximadamente 90 mil visitantes de 111 países e regiões. Para 2026, a organização prevê uma participação ainda maior. Para a indústria brasileira, estar em Shanghai significa acompanhar de perto tecnologias que poderão definir os próximos anos do setor: maior produtividade, redução de desperdícios, eficiência energética, economia de recursos, rastreabilidade, automação e integração de processos.
A expectativa é de uma edição de grande dimensão. Segundo os organizadores, a procura por espaço já supera os níveis registrados nas edições anteriores, demonstrando a força do mercado asiático e a confiança dos fabricantes no futuro da indústria. A feira reunirá soluções para praticamente toda a cadeia produtiva: fibras químicas, fiação, tecelagem, malharia, estamparia, tingimento e acabamento, não tecidos, bordados, confecção, reciclagem, testes, embalagem, componentes e produtos químicos têxteis. Entre os grandes nomes internacionais estão Barmag, Dornier, Itema, Karl Mayer, Murata, Picanol, Rieter, Santoni, Saurer, Shima Seiki, Stäubli, Trützschler e Vandewiele. O grande destaque está na transformação tecnológica da indústria. Automação, digitalização, inteligência artificial, sustentabilidade e produção baseada em dados ganham cada vez mais espaço. Robótica, sistemas inteligentes de sensoriamento, realidade virtual e aumentada, comissionamento virtual e digital twins apontam para fábricas mais conectadas, eficientes e precisas. A ITMA ASIA + CITME também amplia seu olhar para materiais de alto desempenho e compósitos, com tecnologias destinadas
MISSÃO REVISTA TÊXTIL E GOTEX E a Revista Têxtil quer levar você para viver essa experiência. Em parceria com a GOTEX SHOW, a Revista Têxtil está preparando uma missão especial para a ITMA ASIA + CITME 2026, em Shanghai, reunindo empresários, profissionais e representantes da indústria brasileira para uma imersão nas principais tecnologias e tendências do mercado mundial. Será uma oportunidade para visitar a feira, conhecer fabricantes, descobrir novas tecnologias, ampliar relacionamentos e prospectar negócios, com a experiência e o olhar especializado de quem acompanha a transformação da indústria têxtil.
Revista Têxtil #797
15
ITMA 2027
ITMA 2027
DA INOVAÇÃO À ESCALA INDUSTRIAL: RECICLAGEM TÊXTIL AVANÇA PARA UMA NOVA ETAPA
A
economia circular entra em uma nova fase na indústria têxtil mundial. Após anos de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, o setor começa a concentrar esforços em um desafio ainda maior: transformar tecnologias já consolidadas em produção industrial competitiva. Essa foi a principal conclusão do webinar “Scaling Textile-to-Textile Recycling: From Fibre Innovation to Factory Implementation”, promovido pela ITMAconnect, plataforma de conteúdo da ITMA. Moderado por Sophie Ridler, Recycled Engagement Manager da Textile Exchange, o encontro reuniu especialistas da Infinited Fiber Company, além de representantes das áreas de fiação, reciclagem mecânica e tecnologias de separação de resíduos têxteis. Apesar de atuarem em diferentes etapas da cadeia produtiva, todos compartilharam a mesma visão: o futuro da reciclagem fibra a fibra dependerá menos do desenvolvimento tecnológico e mais da capacidade da indústria de ampliar sua implementação em escala comercial. Segundo Tanja Karila, Chief Commercial Officer da Infinited Fiber Company, “a tecnologia funciona; agora toda a cadeia de valor precisa estar preparada para crescer junto com ela”. A afirmação resume a mudança de cenário vivida pelo setor. Hoje, o desafio não é provar que a reciclagem é possível, mas criar as condições econômicas, industriais e comerciais para que ela se torne parte da produção têxtil global.
Os participantes destacaram que essa transformação exige colaboração entre todos os elos da cadeia: fabricantes de máquinas, recicladores, produtores de fibras, fiações, confecções, marcas, centros de pesquisa e formuladores de políticas públicas. Parcerias de longo prazo, investimentos consistentes e maior integração serão fundamentais para ampliar a oferta de matérias-primas recicladas e consolidar novos modelos de negócios. Outro desafio apontado foi a disponibilidade de matéria-prima. Diferentemente dos resíduos industriais, os produtos pós-consumo apresentam grande diversidade de fibras, cores e acabamentos, tornando a separação e o processamento muito mais complexos. Nesse contexto, tecnologias de classificação automatizada, rastreabilidade e sistemas eficientes de coleta ganham importância estratégica. O webinar também destacou que a evolução do mercado dependerá do fortalecimento da demanda por fibras recicladas e de políticas públicas que estimulem investimentos de longo prazo, criando um ambiente favorável para a expansão da economia circular. Na mensagem final, Bertram Wevers resumiu o espírito do encontro: “Pare de falar. Comece a fazer”. Outros participantes reforçaram a necessidade de trabalhar em conjunto e desenvolver produtos já concebidos para a circularidade,
demonstrando que a próxima etapa será marcada pela execução e não apenas pela inovação. Essa visão estará no centro da ITMA 2027, que reunirá fabricantes de máquinas, produtores de fibras, recicladores, confecções, marcas, pesquisadores e especialistas de todo o mundo para apresentar soluções capazes de acelerar a reciclagem têxtil em escala industrial. Mais do que uma vitrine de tecnologia, a ITMA consolida seu papel como o principal ponto de encontro da indústria global, promovendo parcerias, compartilhando conhecimento e impulsionando a transição para uma cadeia têxtil mais circular, eficiente e sustentável. A ITMA 2027 será realizada de 16 a 22 de setembro de 2027, no Messegelände Hannover, em Hanôver, Alemanha. Organizada pela CEMATEX, a feira é considerada a principal plataforma mundial de tecnologia para a indústria têxtil e do vestuário, reunindo fabricantes de máquinas, produtores de fibras, recicladores, confecções, marcas, pesquisadores e especialistas de toda a cadeia produtiva. Fonte: ITMA 2027
16
Revista Têxtil #797
BENNINGER E GRUPO NS APROXIMAM TECNOLOGIA SUÍÇA DA INDÚSTRIA TÊXTIL BRASILEIRA
A
suíça Benninger AG, referência mundial em tecnologias para beneficiamento têxtil, firmou uma parceria estratégica com o Grupo NS para ampliar sua atuação no Brasil. A iniciativa combina mais de 160 anos de experiência da Benninger em processos de tingimento, acabamento e chamuscagem com a presença técnica e comercial do Grupo NS, oferecendo aos fabricantes brasileiros soluções completas e suporte local especializado. Mais do que fornecer equipamentos, a parceria busca atender às demandas da indústria por consultoria, treinamento, automação, assistência técnica e otimização de processos. O portfólio da Benninger contempla tecnologias para preparação, lavagem, mercerização, Cold Pad Batch, tingimento em Jet e Jigger, além da tecnologia de chamuscagem SingeRay, que melhora a uniformidade da superfície dos tecidos e a qualidade das etapas posteriores de tingimento e acabamento.
FabricMaster – Feito para o seu sucesso!
O FabricMaster é a nova máquina de tingimento de fluxo suave da Benninger, que representa valores de consumo notavelmente melhores e impressiona com a aparência de alta qualidade e toque elegante do tecido. Seu tecido será lindo: nós cuidamos disso. Você sente que é da Benninger!
Outro destaque está no foco em sustentabilidade. Os sistemas foram desenvolvidos para reduzir o consumo de água, energia e produtos químicos, incorporando soluções como recuperação de calor, reciclagem de água e recuperação de soda cáustica, contribuindo para menor impacto ambiental e redução dos custos operacionais. Segundo Rolf Erik Schoeler, Global Head of Sales & Marketing da Benninger AG, a parceria aproxima a tecnologia suíça dos fabricantes brasileiros, oferecendo ganhos em qualidade, produtividade e sustentabilidade. Já Rogério Esau, diretor NS Quimica do Grupo NS, destaca que a união amplia o acesso da indústria nacional a soluções de alta performance, aliando inovação tecnológica ao suporte técnico local.
Benninger AG | 9240 Uzwil | Suíça T +41 71 955 85 85 | F +41 71 955 87 47 info@benningergroup.com | www.benningergroup.com
MILANO UNICA
INOVAÇÃO E IDENTIDADE COMO MOTOR DA COMPETITIVIDADE NA MODA ITALIANA
Por Fred Haydu
N
os dias 7, 8 e 9 de julho, o centro de exposições Fiera Milano Rho recebeu a 43ª edição da Milano Unica, a principal feira italiana de têxteis e acessórios de alto padrão e uma das mais importantes referências internacionais para a indústria da moda. Durante a Milano Unica, uma das principais mesas-redondas do evento discutiu o tema “Das raízes ao futuro: o caminho da inovação no têxtil e na moda”, destacando a inovação como fator estratégico para fortalecer a competitividade da cadeia produtiva italiana. Moderado pelo jornalista Nicola Porro, o debate reuniu especialistas de diferentes áreas. Entre eles, Chiara Beghelli, abordou a inovação como uma releitura contemporânea da tradição artesanal italiana. Erika Andreetta, da PwC Itália, destacou a importância das competências profissionais e da transformação digital. Já Mauro Sampellegrini, da Confindustria Moda, enfatizou a relação entre inovação, pesqui-
18
Revista Têxtil #797
sa e política industrial. O consenso entre os participantes foi claro: o futuro do Made in Italy depende da capacidade de transformar pesquisa, conhecimento, tradição manufatureira e sustentabilidade em vantagens competitivas. O presidente da Milano Unica, Simone Canclini, ressaltou que a confiança dos expositores italianos e internacionais representa o maior reconhecimento do trabalho realizado pela feira.”Inovar significa investir em pesquisa e novas tecnologias, mas também valorizar o patrimônio manufatureiro italiano, desenvolver novas competências, fortalecer o diálogo entre empresas e instituições e transformar a sustentabilidade em um fator de competitividade”. Canclini acrescentou que a feira pretende continuar sendo um espaço de encontro entre indústria, inovação e sustentabilidade, acompanhando as transformações dos mercados globais para gerar novas oportunidades de negócios para as empresas do setor.
MILANO UNICA Por Cristina Navotti em Paris, St. Moritz e Xangai e emprega cerca de 1.400 colaboradores. O restaurante já conquistou personalidades como a Rainha Elizabeth II, o ex-presidente Barack Obama e o ator Leonardo DiCaprio.
Cristina Navotti e Bobo Cerea, chef da DaVittorio
As coleções para o Outono/Inverno 2027/2028 foram apresentadas por 737 expositores, sendo 460 italianos e 144 europeus, distribuídos entre os espaços Ideabiella, Moda In e Shirt Avenue. O número de empresas europeias cresceu 15,2% em relação à edição de julho de 2025, reforçando o posicionamento da Milano Unica como a principal vitrine dos produtos Made in Europe. Além disso, outras 119 empresas participaram das Áreas Especiais, com destaque para os tradicionais Japan Observatory e Korea Observatory.
A programação também privilegiou a cultura. A festa de abertura foi realizada no Museo Diocesano, permitindo aos convidados visitar um dos importantes espaços culturais de Milão. Durante a cerimônia oficial de abertura, foi anunciado que a próxima edição da Milano Unica, de 2 a 4 de fevereiro de 2027, proporcionará aos participantes uma experiência exclusiva no histórico Teatro alla Scala, repetindo o sucesso da edição de julho de 2025, quando os convidados assistiram ao balé O Lago dos Cisnes. Mais do que uma feira de negócios, a Milano Unica reafirma seu compromisso em oferecer uma experiência completa, combinando excelência têxtil, hospitalidade, cultura e networking em um dos eventos mais prestigiados da indústria mundial.
Outro diferencial da Milano Unica foi a atenção dedicada a expositores, compradores e jornalistas. Cada pavilhão contou com um restaurante exclusivo, oferecido gratuitamente aos convidados e operado pelo premiado Da Vittorio, restaurante três estrelas Michelin desde 2010. A família Cerea, responsável pelo grupo, serviu um sofisticado buffet com serviço impecável. Com sede em Brusaporto, próximo a Bérgamo, o Da Vittorio também possui unidades
Museo Diocesano
Revista Têxtil #797
19
MILANO UNICA THE CUBE PROJECT REVELA AS TENDÊNCIAS DA MILANO UNICA Por Fred Haydu Muito além de uma feira de negócios, a Milano Unica reafirma seu papel como referência internacional em pesquisa, inovação e desenvolvimento de tendências para a indústria têxtil. Logo na entrada do evento, os visitantes são recebidos pelo The Cube Project, espaço de curadoria, localizado na Toscana, que traduz o conceito da temporada em uma experiência imersiva, reunindo tecidos, cores, texturas, processos produtivos e inspirações que servirão de referência para toda a cadeia da moda. Coordenado pelo diretor artístico Stefano Fadda, o projeto funciona como um verdadeiro laboratório criativo. A cada edição, apresenta uma pesquisa aprofundada desenvolvida em parceria com os expositores da feira, transformando tendências em propostas concretas para a indústria. Para o Outono/Inverno 2027/28, o conceito escolhido foi “MU IS PUNK! HANDCRAFT IS PUNK!”, um manifesto que propõe uma reflexão sobre o futuro da criatividade.
O NOVO SIGNIFICADO DO PUNK A proposta não resgata o punk como movimento musical ou estético, mas como símbolo de ruptura com a padronização e defesa da autenticidade. Em um momento em que a indústria vive uma forte homogeneização das coleções, a Milano Unica defende que o verdadeiro ato revolucionário é criar peças únicas, capazes de expressar
20
Revista Têxtil #797
Punk Icon Vivianne Westwood
identidade e emoção. “Não é preciso gritar ou provocar. É necessário voltar ao artesanato, ao gesto humano que confere identidade à peça, utilizando a tecnologia para dialogar com as matérias-primas e alcançar resultados inéditos, capazes de despertar emoção e beleza”, destaca o manifesto da Milano Unica.
Segundo Stefano Fadda, diretor artístico da feira, o termo Punk foi escolhido justamente para provocar uma reação positiva diante da estagnação criativa. “Precisamos recuperar a capacidade de surpreender e reconhecer, em tudo o que produzimos, a marca humana que faz a diferença e torna cada criação única”, afirma Fadda.
MILANO UNICA O ESTUDO APRESENTADO PELO THE CUBE PROJECT FOI ORGANIZADO EM TRÊS GRANDES FAMÍLIAS CRIATIVAS. MU IS PUNK | Classic - Uma proposta baseada no luxo silencioso, na elegância discreta e na beleza das imperfeições. Lãs nobres, cashmeres e flanelas aparecem com superfícies levemente desgastadas, acabamentos refinados e uma cartela composta por castanhos, cinzas, prata oxidada e branco fosco. MU IS PUNK | Freestyle - A segunda direção aproxima moda e performance. Materiais técnicos convivem com fibras naturais, bordados, efeitos gráficos e detalhes artesanais, criando peças funcionais sem abrir mão da sofisticação. MU IS PUNK | Romance - A terceira proposta valoriza uma estética intimista, em que o luxo está nos pequenos detalhes. Texturas desfiadas, bordados delicados, acabamentos tridimensionais e materiais nobres reforçam a ideia de exclusividade e autenticidade. O futuro da indústria passa pela originalidade Mais do que apresentar tendências, a Milano Unica lança uma mensagem para toda a cadeia têxtil: inovação não significa apenas tecnologia. Significa preservar o saber artesanal, investir em pesquisa, estimular a criatividade e transformar identidade em diferencial competitivo. Ao reunir pesquisa, curadoria, fotografia, materiais exclusivos e a excelência dos produtos apresentados pelos expositores, o The Cube Project reafirma a Milano Unica como uma das mais importantes plataformas mundiais de inspiração para o setor têxtil, antecipando os movimentos que deverão influenciar as coleções internacionais do Outono/Inverno 2027/28.
Revista Têxtil #797
21
MILANO UNICA MILANO UNICA HOMENAGEIA GIAN PAOLO BARBIERI A 43ª edição da Milano Unica prestou homenagem ao fotógrafo Gian Paolo Barbieri com a exposição “The Radical Elegance”, realizada em parceria com a Fondazione Gian Paolo Barbieri ETS. A mostra percorreu mais de três décadas de sua carreira, revelando como suas imagens contribuíram para construir a identidade visual do Made in Italy. Seu trabalho eternizou grandes nomes da moda, entre eles Valentino Garavani, Giorgio Armani, Krizia, Dolce & Gabbana, Gianni Versace e Vivienne Westwood, além de personalidades como Jerry Hall, Claudia Cardinale, Rudolf Nureyev, Christopher Lambert e Ewan McGregor. Dividida em duas seções, a exposição apresentou retratos icônicos da moda internacional e estabeleceu um diálogo entre a fotografia de Barbieri e as tendências Outono/ Inverno 2027-2028 da Milano Unica, destacando a relação entre pesquisa têxtil, criatividade e inovação.
22
Revista Têxtil #797
A exposição, que também reuniu uma seleção de produtos desenvolvidos por empresas expositoras, reforçando a proposta da Milano Unica de integrar cultura, arte e excelência da indústria têxtil italiana. Ao lado da exposição conceitual, o visitante encontrava uma ampla seleção de tecidos e aviamentos desenvolvidos pelos próprios expositores da Milano Unica. Lãs superfinas, cashmeres, sedas, gabardines, denim couture, tecidos tecnológicos, materiais recicla-
dos e superfícies tridimensionais ilustravam, na prática, como as tendências podem ser transformadas em produtos comerciais de alto valor agregado. Os mostruários permitiam observar de perto acabamentos sofisticados, efeitos desgastados, bordados artesanais, texturas irregulares, tratamentos especiais e novas combinações de fibras naturais com tecnologia, evidenciando a capacidade da indústria italiana de unir tradição manufatureira e inovação.
MILANO UNICA ACCADEMIA COSTUME E MODA Fundada em 1964, a Accademia Costume & Moda é uma das mais tradicionais instituições de ensino de moda da Itália e marcou presença na Milano Unica apresentando projetos desenvolvidos pelos alunos do Master em Fabric Innovation Design. Com campi em Roma e Milão, a escola direciona suas atividades de acordo com as vocações de cada cidade: enquanto Roma concentra os cursos de Design de Moda, Milão é voltada para Comunicação, Negócios, Styling e Sustentabilidade. O mestrado combina formação teórica e prática, aproximando os estudantes da indústria desde o início do curso. Executivos, CEOs e diretores de marcas e empresas têxteis apresentam desafios reais aos alunos, que desenvolvem soluções em projetos individuais e coletivos, posteriormente avaliados pelos próprios profissionais do setor.
Na Milano Unica, a instituição exibiu tecidos produzidos manualmente pelos estudantes durante laboratórios de experimentação têxtil. As peças, desenvolvidas em parceria com empresas, refletem a criatividade, a identidade e a visão de cada aluno. Muitos dos trabalhos fazem parte das teses de conclusão do curso e desper-
tam o interesse de compradores internacionais, embora sejam protótipos exclusivos e não comercializados. A iniciativa evidencia a forte integração entre academia e indústria, proporcionando aos futuros profissionais uma valiosa rede de contatos e experiência prática antes mesmo de ingressarem no mercado.
Tecidos produzidos pela Academia Moda e Costume
Revista Têxtil #797
23
MILANO UNICA LANÇAMENTOS ANTARIX, empresa sediada na Itália e na Alemanha, que faz rastreabilidade do algodão. Se analisa em laboratórios a fibra, o solo, se existe todos os processos de onde é a procedência do algodão. ACREFLEX fabrica uma película / tecido, aonde esse é constituído de bits de vidro que colados ao tecido, fazem essa união de forma refletora, como se fosse um espelho ou um prisma, o que melhora a combinação da necessidade refletora para tecidos de segurança, de trabalho e de para moda. DEB’S de Osaka, no Japão, uma tecelagem tradicional desde 1917, traz a grande parceria com a Lenzing, e eles produzem a seda vegana com jacquard também. O cupro, que é utilizado na confecção da seda vegana, a película externa da semente do algodão que dá o toque de seda. Eles trazem também um highlight, que é o barravento em nylon, extremamente fino e impermeáveis.
ANTARIX
DEB’S
MERRY
SILKOMO
VEGEA, empresa italiana de Milão, que fabrica tecidos feitos com resíduos e sementes da uva. A base do tecido, ela é sobre algum
tecido e sobre essa, consegue-se criar, com a semente de uva, texturas de couro, de cobra, com ou sem brilho.
A MERRY, com 102 anos de existência, fabrica rendas tradicionais e industriais em Alençon, na França. Tem muitas variedades de cores. O grande diferencial é a confecção de renda sob poliamida e não poliéster. SILKOMO, com tradição em seda, tinge o fio e depois tece, uma técnica feita na seda, aonde que os dois lados ficam iguais, que isso se chama o icati ou chinois. Pode ser feita com diferentes bases de algodão, sarja e tafetá. Outra é o jacquard, que pós o tecido é cortada e se faz texturas de fios ou fiapos. Um outro highlight é a aplicação de lurex na seda.
24
Revista Têxtil #797
MILANO UNICA A CARDATO CICLATO PRATESI, é uma empresa que reúne mais de 100 empresas catalogadas com a finalidade de proteção ao polo têxtil ICP da região de Prato, na parte de lã. Eles têm um projeto de lã reciclada que pegam restos de lã e distribuem para essas empresas, para fazerem novos tecidos de lã, porém reciclados. com empresas de mais de 200 anos de tradição, agora a Cardato certifica com o selo de sustentabilidade. A MARTIN MILLS, empresa da Inglaterra, fabrica tecidos de lã pura e tradicional inglesa, com texturas diferentes de lã, 64 diferentes tipos de padrões e com diferentes lãs, como o eganton. A tradicional austríaca GOTTSTEIN traz a tradicional lã, a lã tem tingimento com cores fluorescentes e traz também toda a gama tradicional de lã europeia.
CARDATO RICICLATO PRATESE
MARTIN MILLS
GOTTSTEIN
POSITIVE MATERIALS
têxtil europeia na criação de matérias-primas de alto desempenho para a moda contemporânea Spiber, que é uma fibra produzida
através de uma proteína criada por DNA e produzida em laboratório por fermentação. Muito semelhante à caxemira e aceita misturas de fibras.
A LENZING apresentou o HV100, que é a grande novidade feita de aproveitamento de diferentes tamanhos de fios de celulose Lenzing-Tencel™ A TESSUTI Di SONDRIO, empresa italiana de tecidos para roupas masculinas e alfaiataria impecável. Produzem para Ralph Lauren e para Via Veneto, empresa brasileira. Muita variedade e produtos de extrema qualidade e tradição. POSITIVE MATERIALS, de Portugal, levou ao evento uma coleção de highlights focados em sustentabilidade e inovação. As novidades incluem materiais desenvolvidos com processos de menor impacto ambiental, fibras de origem responsável e soluções alinhadas aos princípios da economia circular, evidenciando o avanço da indústria
Revista Têxtil #797
25
MILANO UNICA JULES TOURNIER, com seus tradicionais tweeds, uma das especialidades da centenária manufatura francesa. Reconhecidos pela riqueza de texturas, misturas de fios e efeitos sofisticados, os tecidos fazem parte do universo das grandes casas de moda e são especialmente associados à estética consagrada pela Chanel. Produzidos na região de Mazamet, na França, os tweeds combinam tradição artesanal, criatividade e inovação, mantendo a Jules Tournier entre os nomes de referência da alta moda têxtil. A.N.G.E.L.O., de Angelo Caroli, é um dos grandes nomes do second hand e do vintage de luxo. Em um momento em que a moda discute cada vez mais circularidade, o trabalho desenvolvido por Caroli ganha ainda mais relevância: peças de alta qualidade permanecem em circulação, prolongam sua vida e continuam contando histórias. Fundada em 1978, em Lugo. nasceu muito antes de conceitos como moda circular e consumo consciente ganharem espaço no setor. Hoje, seu Vintage Palace reúne milhares de peças cuidadosamente selecionadas, classificadas e preservadas, incluindo criações de grandes nomes da moda. Mais do que uma loja, é um verdadeiro arquivo vivo da história do vestuário, onde uma curadoria impecável transforma o second hand em patrimônio, pesquisa e inspiração para novas gerações. A NORTHERN LINEN representa a força do linho europeu e a permanência de uma fibra que atravessa gerações sem perder sua relevância. A empresa holandesa carrega uma história ligada à tradição da fiação de linho, com raízes que remontam à Severlyon, fundada em 1851, Sua coleção reúne linhos
26
Revista Têxtil #797
JULES TOURNIER
A.N.G.E.L.O
NORTHERN LINEN
100% e uma ampla variedade de misturas com algodão, viscose,
Tencel, seda, lã e outras fibras, além de cânhamo e rami.
MILANO UNICA
JÓZWIAK POZNAN
PRINA TESSUTI, da Lombardia, representa uma tradição italiana voltada à transformação e à valorização dos tecidos. Presente no mercado desde a década de 1970, a empresa é especializada em nobilitações e transformações têxteis, desenvolvendo materiais que combinam pesquisa, criatividade e tecnologia. transformar a matéria-prima que está um dos grandes diferenciais da Prina: tecidos que ganham novas dimensões, volumes e efeitos por meio de processos técnicos aplicados após a construção convencional do material. A JÓŹWIAK POZNAN representa a tradição polonesa na produção de tecidos para a alfaiataria e o vestuário masculino. Com mais de 30 anos de história, a empresa combina o clássico com um design contemporâneo, desenvolvendo coleções que acompanham as transformações da moda e as necessidades de diferentes mercados. Um de seus diferenciais está na especialização em forros, elemento fundamental para a construção e o acabamento de peças de alfaiataria
PRINA TESSUTI
LOCHCARRON
LOCHCARRONL, a escocesa traduz em tecido uma das expressões mais emblemáticas da identidade escocesa: o tartan. Com uma história que remonta a 1892, a empresa tornou-se referência mundial na fabricação desse tecido, preservando técnicas tradicionais ao mesmo tempo em que incorpora tecnologia, novos equipamentos e design contemporâneo. A coleção reúne mais de 500 tartans autênticos, além de diferentes qualidades de lã destinadas tanto ao tradicional universo dos kilts e do Highland wear quanto à moda internacional. Revista Têxtil #797
27
MILANO UNICA STYLEM, de Osaka, no Japão, traz o conceito farm to wear, que se diz que uma roupa é de verdade sustentável quando ela se aplica a todo um conceito desde o plantio até a sua confecção e venda. A styling diz que esse processo dura em torno de quatro anos, porque se conta a rotatividade de solo e produção com meios sustentáveis.
LA DOLCE VITA DELLA MODA E DEL TESSILE A convite da ITA – Italian Trade Agency, a Revista Têxtil integrou a delegação brasileira formada por empresários do setor de confecção e moda que visitou a 43ª edição da Milano Unica, em Milão. Registramos nosso especial agradecimento à ITA pelo convite, pela impecável organização da missão, pela hospitalidade e por toda a logística cuidadosamente planejada, com excelentes facilidades de traslado e uma equipe extremamente atenciosa, simpática e sempre pronta a atender os participantes. A Milano Unica também impressionou pela excelência de sua organização. Muito mais do que uma feira de negócios, o evento proporcionou um ambiente de integração entre compradores, expositores, imprensa e instituições do setor, recebendo todos com profissionalismo, cordialidade e acolhimento. A infraestrutura impecável, a limpeza, o conforto dos pavilhões, a magnífica padronização dos estandes e a qualidade dos serviços merecem destaque. Mesmo com temperaturas externas próximas dos 38°C, os ambientes internos permaneceram climatizados e extremamente confortáveis. Com corredores movimentados e grande presença
28
Revista Têxtil #797
STYLEM
O edifício Bosco Verticale em Milão
Delegação brasileira na Milano Unica
de visitantes internacionais, a Milano Unica reafirmou seu prestígio como um dos mais importantes en-
contros mundiais da indústria têxtil e da moda. Bravo!! Bravissimo e grazie mille
MILANO UNICA DEPOIMENTO SOBRE A MILANO UNICA Sou a Lorena Miranda e criei a Mist Intimates há dois anos, em Belo Horizonte. A Mist é uma marca de pijamas e lingeries, e buscamos desenvolver nossas coleções acompanhando a evolução do mercado têxtil, pesquisando novos materiais, modelagens, tecnologias e tendências. Participar da Milano Unica fez parte desse processo. A feira me proporcionou contato com fabricantes e tecelagens de diferentes países e me permitiu compreender os movimentos que influenciam o desenvolvimento de coleções em escala global. Além das referências em tecidos e aviamentos, a experiência enriqueceu minha visão sobre inovação, sustentabilidade e os desafios da
cadeia têxtil. Esse contato amplia as possibilidades para a Mist e contribui para o desenvolvimento de produtos cada vez mais consistentes e alinhados ao mercado internacional. Tam-
bém fortalece nossa capacidade de antecipar movimentos do setor e transformar essas referências em produtos com maior valor agregado para o consumidor brasileiro.
Inauguração loja conceito Mist no Meeting Shops em 10/10/2025. Foto: Renata Melo/ Acervo
Grazie al meraviglioso staff. Arrivederci - Milano Unica Fotos: Fred Haydu
CONNECTED BY NARROW FABRICS. Your World. Our technologies. www.mueller-frick.com
CAPA
ÂNGELA BRITO: UMA ASSINATURA DE ELEGÂNCIA E IDENTIDADE DA HERANÇA CABO-VERDIANA À PROJEÇÃO INTERNACIONAL, A ESTILISTA TRANSFORMA CULTURA, MEMÓRIA E EXCELÊNCIA TÊXTIL EM COLEÇÕES AUTORAIS. Por Fred Haydu
E
xistem estilistas que acompanham tendências. Outros criam linguagens capazes de atravessar o tempo. Ângela Brito pertence a esse segundo grupo. Nascida em Cabo Verde e radicada no Brasil, a estilista construiu uma marca reconhecida pelo refinamento da alfaiataria, pela elegância atemporal e por uma estética que une ancestralidade, arquitetura e sofisticação contemporânea. Suas coleções não apenas vestem mulheres: contam histórias, preservam memórias e revelam uma visão de mundo em que a moda é também patrimônio cultural. Em um mercado cada vez mais acelerado, Ângela escolheu outro caminho. Suas criações valorizam o tempo do fazer, a qualidade dos materiais e o respeito à identidade de quem veste suas peças. É uma moda que privilegia permanência em vez de efemeridade.
A FORÇA DE UMA TRAJETÓRIA A carreira de Ângela Brito ganhou projeção nacional com sua estreia na Casa dos Criadores e alcançou um novo patamar ao integrar o calendário da São Paulo Fashion Week e neste ano a Rio Fashion Week, tornando-se a primeira estilista nascida em Cabo Verde a desfilar na principal semana de moda da América Latina. Desde então, suas coleções vêm Créditos foto: Mateus Rubim / acervo
30
Revista Têxtil #797
CAPA conquistando espaço nas passarelas brasileiras por unir pesquisa, rigor estético e narrativas profundas sobre ancestralidade, migração, pertencimento e identidade. Desfiles como Fuga, Estrangeira, Crioula, Romaria e Pangeia consolidaram sua assinatura como uma das mais autorais da moda brasileira contemporânea. Ao longo dessa trajetória, Ângela também marcou presença em outros importantes eventos de moda do país, ampliando o reconhecimento de seu trabalho e levando para as passarelas uma estética que aproxima África, Brasil e Europa por meio do design e da cultura. Seu talento conquistou reconhecimento muito além das passarelas. Hoje, suas criações vestem primeiras-damas, diplomatas, empresárias, executivas e mulheres que ocupam posições de liderança, além de artistas
Revista Têxtil #797
31
CAPA como Ludmilla, Aline Midlej, Camila Pitanga, Maju Coutinho, Poliana Abrita e Patrícia Poeta. “Minha marca tem o propósito de mudar as narrativas, principalmente estéticas, relacionadas à África. Quero mostrar um continente contemporâneo, sofisticado e plural.” Essa declaração sintetiza a essência de seu trabalho: apresentar uma nova perspectiva sobre a estética africana, livre de estereótipos e profundamente conectada à inovação e à excelência.
A PESQUISA COMO PARTE DA CRIAÇÃO Para Ângela Brito, criar começa muito antes do desenho de uma coleção. A pesquisa de materiais é parte fundamental do processo criativo. Foi com esse olhar que a estilista foi convidada e participou da 43ª edição da Milano Unica, considerada uma das principais feiras mundiais de tecidos e acessórios para moda premium. Durante três dias, percorreu os estandes dos mais importantes fabricantes italianos e europeus, pesquisando as coleções Outono/ Inverno 2027/2028 e acompanhando de perto as inovações em fibras naturais, tecidos tecnológicos, acabamentos de alto desempenho e soluções sustentáveis. Mais do que observar tendências, Ângela buscou compreender como os avanços da indústria têxtil podem dialogar com sua identidade criativa. “Os tecidos são o primeiro diálogo entre a ideia e a roupa. É na matéria-prima que muitas histórias começam a ser contadas.” Sua presença na Milano Unica re-
32
Revista Têxtil #797
força a importância da conexão entre criação e indústria, demonstrando que o futuro da moda passa pela inovação têxtil, pela pesquisa e pela sustentabilidade.
ELEGÂNCIA CONSTRUÍDA PELA IDENTIDADE O trabalho de Angela Brito dialoga naturalmente com um movimento que hoje conquista o mercado internacional: o luxo silencioso. Mas sua moda nunca foi construída para seguir tendências. Antes mesmo de conceitos como quiet luxury ganharem destaque, a estilista já defendia uma elegância baseada na excelência dos materiais, no caimento perfeito, na alfaiataria precisa e na valorização da individualidade. Sua herança cabo-verdiana aparece de forma sutil, não como ornamento, mas como essência. Está na escolha das formas, na construção das narrativas e no respeito pelas tradições que atravessam gerações. Enquanto a indústria têxtil avança em direção a processos mais inteligentes, sustentáveis e inovadores, a estilista demonstra que tecnologia e tradição podem caminhar juntas quando existe um propósito claro. Sua obra conecta Cabo Verde, Brasil e Itália por meio da criatividade, da excelência têxtil e da cultura. Mais do que vestir mulheres, Ângela Brito veste histórias. Histórias de identidade, pertencimento e transformação. É essa capacidade de transformar memória em elegância que faz de sua assinatura uma das mais respeitadas da moda contemporânea e confirma seu lugar entre os grandes nomes da criação autoral internacional.
CAPA ENTREVISTA Revista Textil: Por Ângela, o que é a moda, o têxtil e a criação? Ângela: Vivo no Brasil há mais de trinta anos, e isso molda meu olhar, minha maneira de pensar, criar e interpretar. Não consigo dizer onde começa a Ângela cabo-verdiana e termina a brasileira. Sou uma mescla das duas coisas, porque os dois lugares me moldaram. Essa identidade construída entre duas culturas molda minha maneira de criar e de colocar minhas ideias no mundo. E acho que é justamente isso que torna minha moda muito única. Para mim, moda e criação estão interligadas, são praticamente a mesma coisa. Não existe moda sem criação, nem criação sem moda, principalmente porque crio moda autoral. Para mim, moda e criação sempre foram um lugar de expressão livre. Como menina negra e, depois, mulher negra, nem sempre o que eu tinha a dizer era considerado relevante ou ouvido. A criação me possibilitou me expressar de maneira livre e autêntica. É onde coloco minha alma, minhas ideias, o que penso. Desde pequena, sinto que, com a moda, não preciso falar. Você alcança culturas e países que sequer entendem a sua língua, mas entendem o que você faz. É uma comunicação sensível, que toca as pessoas. E o têxtil é o que me possibilita dar forma a todas essas ideias. Na moda, você concretiza através dos materiais, e o principal é o têxtil. Então, o têxtil é a possibilidade de materializar as ideias. RT: Fala para nós um pouco sobre suas modelagens, o minimalismo, cores e a busca da silhueta que traduz sua elegância e autenticidade que sua marca traz.
Ângela: As pessoas sempre interpretaram minha modelagem e minha marca como minimalistas, e eu acho isso um elogio muito grande. Porque as modelagens têm tantas camadas e sobreposições e isso me define muito, mas eu sou muito mínima nas cores. O DNA da marca é preto, branco, off-white e cores neutras. Acho que a marca se apresenta de uma maneira minimalista, mesmo com construções complexas, modelagens mais trabalhadas e muitas camadas. São raras as peças de silhueta realmente limpa; normalmente é uma silhueta mais construída. A complexidade tem que estar na
construção da roupa, não em quem vai comprar e vestir. Para o cliente, ela precisa ter essa imagem de simplicidade, mas o design acontece justamente nessa construção mais trabalhada, eu gosto desse contraste. A arte, o mobiliário e a escultura também me influenciam muito. RT: Qual tipo de mulher que você veste? Ângela: Eu não acho que exista um tipo de mulher. Acho que existe uma mulher muito curiosa, contemporânea, culta e multifacetada. Mulheres independentes, conscientes do tempo em que vivem, que
Revista Têxtil #797
33
CAPA se aperfeiçoam no nível pessoal, intelectual, espiritual e físico. Uma mulher antenada, curiosa, eternamente jovem em qualquer idade, muito ativa mentalmente. Minhas roupas se desdobram de várias formas, transformam-se e podem ser usadas de dia ou à noite, em diferentes situações, dependendo dos acessórios e do estilo. É uma roupa que você não precisa ficar se explicando: o mundo te vê e já entende que você é uma mulher moderna, contemporânea, do seu tempo, que gosta de design, de algo autêntico, diferente e com identidade. RT: Quais as dificuldades do mercado? Ângela: Eu acho que a maior dificuldade, falando da minha experiência pessoal, é escalar. Minha marca não tem investidor, nunca tive patrocínios ou apoios. Eu sei muito bem para onde quero ir, o tamanho que quero que a marca tenha e onde quero que ela chegue, mas, para escalar, é necessário investimento. Na moda, você precisa produzir para depois vender. Para atender pedidos maiores, fazer showrooms ou vender para mais multimarcas, você precisa ter dinheiro para produzir. Então, é necessário investimento para produzir em maior escala, ter mais funcionários, maquinário, melhores tecidos, abrir uma loja própria. Faço doze anos de marca este ano e para mim, a maior dificuldade na moda é realmente escalar. RT: Como foi ser convidada pela Milano Unica? Ângela: Fiquei encantada com o convite. Foi uma experiência incrível poder passar dias numa feira, olhando aviamentos, tecidos, forne-
34
Revista Têxtil #797
cedores e pessoas do mundo todo. Você percebe que não está isolado. E acho que minha moda se comunica com o mercado europeu também pela alfaiataria. A minha moda é alfaiataria, e isso tem muito da cultura cabo-verdiana, porque nossa roupa típica é tradicionalmente construída pela alfaiataria, mas também tem uma origem portuguesa, pela nossa história. Como mulher africana que vive na diáspora, no Brasil, essa alfaiataria ganha outra identidade, a partir das minhas vivências e experiências. Recebo muitas mensagens, de compradores, clientes e convites da Europa, então acho que as pessoas entendem e apreciam o que faço. Mas acho que minha moda se comunica com o mercado global. Sou uma mulher global. RT: Você tem uma parceria com a Santista, como o denim se integra na sua moda? Ângela: A Santista foi parceira nos dois últimos desfiles, Pangeia e Entropia, e nos apoiou com um jeans de muita qualidade. Minha marca é de alfaiataria, então o jeans não era um tecido para o qual eu olhava dentro da moda. Mas o jeans da Santista me fez ter várias ideias, entre elas trabalhar o jeans dentro da alfaiataria, e não da forma tradicional. É engraçado porque as pessoas me mandam mensagens dizendo: “Amei essa saia nesse tecido de alfaiataria”, e eu respondo: “É jeans!”. Elas ficam espantadas. Foi muito legal desco-
brir essa maneira de trabalhar o jeans dentro da identidade da minha marca. A Santista me possibilitou repensar como trabalhar um tecido que não era característico da marca, de uma maneira que ele casasse com a minha identidade. E isso é algo que eu não abro mão: qualquer coisa que eu traga precisa ganhar a identidade da marca. Foi uma parceria maravilhosa. Sou muito grata à Santista, à Sueli e à Andrea, que são pessoas maravilhosas, e espero que essa parceria dure muitos e muitos anos. Ângela: Duas mensagens que eu deixaria seriam: Primeiro entenda quem você é como indivíduo! trabalhe a sua identidade, lembre-se que o ponto forte de cada pessoa é a sua identidade individual, porque nunca haverá outro individuo igual a você. Então numa sociedade onde as pessoas buscam ser e parecer iguais umas às outras, a coragem de ser quem vc é se torna o seu diferencial mais importante. Segundo: Estudar é fundamental, por mais brilhante que você ache que tenha nascido, você precisa estudar, e muito, e sempre… resumindo: ser autêntico e estudar!
Conheça a nossa linha
No Wash
Cortou
Costurou
Vestiu
Nas versões: Blue No Wash, Light Blue No Wash e Black No Wash. @santistatextil
TEXTIL LAR
INTERTEXTILE SHANGHAI HOME TEXTILES 2026 AMPLIA DIVERSIDADE DE PRODUTOS E APOSTA EM TENDÊNCIAS PARA O MERCADO GLOBAL Por Revista Têxtil
A
Intertextile Shanghai Home Textiles – Autumn Edition 2026 reunirá, de 18 a 20 de agosto, no National Exhibition and Convention Center, em Xangai, expositores de diversos países para apresentar as principais novidades do setor de têxteis para o lar. A feira amplia sua oferta com novos participantes e uma programação voltada à inovação, design, sustentabilidade e oportunidades de negócios. Segundo Wilmet Shea, gerente-geral da Messe Frankfurt (HK) Ltd, a edição deste ano reflete o dinamismo do mercado de home textiles, reunindo materiais inovadores, novas soluções sustentáveis e tendências que acompanham a evolução das preferências dos consumidores em todo o mundo.
36
Revista Têxtil #797
NOVIDADES EM CAMA, ESTOFADOS E DECORAÇÃO Entre os destaques da feira estão empresas especializadas em produtos para cama, tecidos para es-
tofados e revestimentos de parede. No segmento de cama, a sul-coreana The Cozynest Company apresentará seu edredom All-in-One Quilt, desenvolvido para oferecer praticidade, higiene e fa-
TEXTIL LAR cilidade de lavagem, além de coleções produzidas com lã natural e algodão biológico. Já a portuguesa Antonio Salgado & Ca Lda levará sua reconhecida linha de têxteis premium produzidos com algodão orgânico, linho europeu e lã, reforçando sua atuação em produtos sustentáveis. Na área de estofados e tecidos para sofás, a taiwanesa Green City Textile exibirá tecidos com fios refrescantes, materiais resistentes a manchas e coleções voltadas para ambientes com animais de estimação. A cambojana New Tex Cambodia destacará sua estrutura integrada de tecelagem e tingimento, voltada ao fornecimento para grandes marcas internacionais. Já no segmento de revestimentos de parede, empresas chinesas apresentarão novas soluções em revestimentos têxteis sem emendas, papéis de parede, murais decorativos, tintas artesanais e acessórios para decoração residencial.
CONTEÚDO, TENDÊNCIAS E SUSTENTABILIDADE Além da área de exposição, a Intertextile Home Textiles oferecerá uma programação paralela dedicada à pesquisa de tendências, inovação e expansão internacional. O programa deste ano será desenvolvido sob o conceito “Palette, Connector, Go-Green e NextGen”, explorando criatividade, economia circular, novas tecnologias e materiais sustentáveis. Entre os destaques estão a apresentação de tendências conduzida pela diretora criativa global da
Revista Têxtil #797
37
TEXTIL LAR agência francesa NellyRodi™, Cécile Rosenstrauch, painéis sobre regeneração urbana e sustentabilidade, visitas guiadas para designers de interiores e debates sobre inteligência artificial aplicada à indústria têxtil.
BRASIL EM DESTAQUE A programação contará ainda com a participação do brasileiro Adriano Tadeu Barbosa, que ministrará um seminário sobre oportunidades de negócios e estratégias de entrada no mercado latino-americano, fortalecendo a presença da região nas discussões sobre comércio internacional. Outro destaque será o Furniture & Home Textiles Go Global Summit, fórum dedicado à expansão internacional das empresas e ao desenvolvimento de parcerias comerciais entre compradores e fornecedores. Com uma combinação de lançamentos, conteúdo técnico e networking internacional, a Intertextile Shanghai Home Textiles 2026 reafirma sua posição como uma das principais plataformas globais para o setor de têxteis para decoração, reunindo inovação, design e sustentabilidade em um único ambiente.
PRÓXIMO EVENTO A Messe Frankfurt também confirmou a realização da Vietnam International Trade Fair for Apparel, Textiles and Textile Technologies (VIATT), que acontecerá de 24 a 26 de fevereiro de 2027, em Ho Chi Minh City, no Vietnã, consolidando sua estratégia de fortalecer os negócios da indústria têxtil em toda a Ásia.
38
Revista Têxtil #797
TEXTIL LAR
MEGA ARTESANAL 20 ANOS ,IA: ARTE , SUPERAÇÃO E SUSTENTABILIDADE Por Laura Yamane
A
Mega Artesanal, maior feira de artesanato da América Latina, celebra sua 20ª edição consolidando o setor como força da economia criativa brasileira. Mais do que uma feira, a Mega Artesanal é um movimento que conecta tradição e inovação, talento e capacitação, arte e negócio. Ao reunir mais de 300 expositores e marcas nacionais e internacionais, o evento reforça o papel do artesanato como engrenagem silenciosa da economia brasileira, capaz de gerar renda, fortalecer comunidades e abrir caminhos para o empreendedorismo feminino. Helena Fanger, Luis Moreira, Iran Silva e o AiLou são protagonistas dessa narrativa que une arte, superação e futuro.
ESPAÇO HELENA FANGER A curadora Helena Fanger apresenta a exposição “Desembrulhando o Natal”, que transforma embalagens em peças de decoração natalina. Técnicas como cartonagem, bordado, crochê e pintura realista reforçam o valor das memórias afetivas e da sustentabilidade, criando um ambiente sofisticado e acolhedor.
LUIS MOREIRA E IRAN SILVA Histórias de superação mental e física ganham destaque com os artistas Luis Moreira e Iran Silva, que unem arte, tecnologia e inclusão. Suas trajetórias inspiram pela coragem e pela
40
Revista Têxtil #797
inovação, mostrando que o artesanato é também um espaço de resiliência e transformação social.
AILOU E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL O AiLou, mascote tecnológico da feira, simboliza a integração entre arte e inteligência artificial. A presença da IA mostra como a tecnologia pode ser parceira da imaginação, ampliando possibilidades de design, sustentabilidade e inclusão. O AiLou reforça que a inovação não substitui o humano, mas potencializa sua criatividade. O AiLou, mascote tecnológico da Mega Artesanal 20 Anos IA, simboliza a fusão entre criatividade humana e inteligência artificial. Representa o olhar do futuro sobre o artesanato — um diálogo entre o toque manual e o pensamento digital.
SUSTENTABILIDADE E RECICLAGEM A feira valoriza práticas de reciclagem e reaproveitamento, mostrando
Espaço Helena Fanger
que criar é também cuidar do planeta. Cada peça exposta reforça a consciência ambiental e o impacto positivo do artesanato na sociedade. A Mega Artesanal 20 Anos IA celebra duas décadas de história, mostrando que o artesanato é mais do que tradição: é força econômica, inclusão social, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental. Essa integração reforça o propósito da Mega Artesanal — unir arte, superação e tecnologia para transformar o cotidiano em expressão criativa e consciente.
TEXTIL LAR
CASACOR SP 2026: TECIDOS QUE CONTAM HISTÓRIAS, ESPAÇOS QUE INSPIRAM FUTURO
A
edição 2026 da CASACOR São Paulo reafirma que arquitetura é emoção e experiência, guiada pelo tema “Mente e Coração”. Cada ambiente traduz sensibilidade e bem-estar, mas também provoca reflexões sobre identidade e modos de habitar. Materiais reciclados ganham protagonismo, mostrando que o reuso pode ser sinônimo de beleza e inovação. A economia criativa transforma resíduos em arte e design, revelando que reciclar é reinventar. Paisagismo, formas e texturas se unem para criar espaços que acolhem e despertam consciência ambiental.
DO FIO ANCESTRAL AO DESIGN SUSTENTÁVEL: A ARTE DE HABITAR COM MENTE E CORAÇÃO O grande destaque foi o Co-Living Chiquitano, assinado pelo arquiteto boliviano Eduardo Baldelomar.
Por Laura Yamane Em apenas 32 m², o espaço trouxe ao Brasil a força ancestral da Chiquitânia, região marcada pelo encontro entre povos indígenas e missionários jesuítas. Mais de 200 peças originais — pinturas, máscaras, instrumentos musicais, cerâmicas e, sobretudo, tecidos artesanais indígenas — revelaram a riqueza cultural da Bolívia. Cada fio tecido à mão carrega séculos de memória, traduzindo cosmovisões e sustentando comunidades por meio da economia criativa. “Comecei essa incursão em novembro do ano passado e, desde então, fui quatro vezes à Chiquitania. Cada viagem foi de grande aprendizado e tive a oportunidade de conversar com líderes indígenas e os próprios artesãos”, relata Baldelomar. Esses têxteis não são apenas ornamentos: são narrativas visuais que expressam cosmovisões, símbolos espirituais e o vínculo profundo com a natureza. Ao lado das igre-
EDUARDO BALDELOMAR - Foto - Carolina Mossin
jas barrocas da Chiquitânia — Patrimônio Mundial da UNESCO — e das mais de 3.000 partituras barrocas indígenas preservadas, os tecidos reafirmam que a cultura boliviana não se apaga, mas se reinventa.
ARTE E RESISTÊNCIA Esses tecidos não são apenas ornamentos: são narrativas visuais que expressam espiritualidade e o vínculo profundo com a natureza. Baldelomar mostra que decorar é conservar — transformar o design em resistência e dar voz às mãos que tecem o passado e o futuro. A CASACOR 2026 se torna, assim, uma celebração da cultura popular e da sustentabilidade. Entre cores, tramas e materiais reciclados, a mostra reafirma que o futuro do design está em dialogar com a ancestralidade, preservar tradições e reinventar o modo de habitar. Revista Têxtil #797
41
IMPRESSÃO TEXTIL
CONHECIMENTO, INOVAÇÃO E TECNOLOGIA MARCAM A FUTUREPRINT 2026
A
Future Print 2026 mostrou que a indústria de impressão e estamparia vive um momento de transformação. Durante quatro dias, o Distrito Anhembi reuniu mais de 40 mil visitantes e 600 marcas expositoras. Quem percorreu os corredores da feira encontrou muito mais do que novos equipamentos. Inteligência artificial, automação, impressão 3D, sustentabilidade e personalização em escala apareceram de forma integrada nas soluções apresentadas pelos expositores, mostrando que o mercado busca produtividade sem abrir mão da qualidade e da flexibilidade. Mas a FuturePrint não se destacou apenas pelos lançamentos. A programação de palestras durante toda a feira confirmou que o conhecimento continua sendo um dos principais ativos da indústria. O Talk FutureTêxtil reuniu especialistas para discutir temas como inovação, sustentabilidade, processos produtivos, desenvolvimento de produtos e os desafios da transformação digital na cadeia têxtil. A programação contou com a participação de associados da ABTT – Associação Brasileira de Técnicos Têxteis, Confecção e Moda. Taísa Peralta, Ramon Mendes, Wania Christinelli, Raquel Lucena, Silvia Nitti, Adelina Pereira, Camilla Borelli e Sarah Caldas compartilharam experiências e casos práticos e futuro da mão de obra que aproximaram o público da realidade vivida pelas empresas e pelos profissionais do setor. Entre as apresentações, a palestra
42
Revista Têxtil #797
“Estamparia Eficiente – Do design à impressão: o que fazer para a estampa sair como planejado”, conduzida por Sarah Caldas e Adriana Moraes. A proposta foi mostrar que uma estampa bem impressa começa muito antes da produção. Sarah apresentou a importância da preparação correta das imagens, do gerenciamento de cores e da organização dos arquivos, enquanto Adriana abordou os cuidados necessários na impressão sobre fibras naturais e na implantação de processos produtivos eficientes. A mensagem foi clara: quando criação, pré-impressão e produção trabalham de forma integrada, a fidelidade da estampa aumenta, os desperdícios diminuem e o resultado final ganha em qualidade e previsibilidade. Entre as atrações, o programa Têxtil Show, apresentado por Henri Kanji, gravou um episódio especial durante a Future Print 2026 com o tema “A evolução da estamparia: do quadro ao digital”, com a participação de convidados do setor.
Sarah Caldas e Yeda Monteiro
Ao fazer um balanço da edição, Yeda Monteiro, Business Manager da FuturePrint, resumiu o papel que a feira vem desempenhando para o setor: “A FuturePrint acompanha as mudanças do mercado e busca oferecer um espaço de conexão entre empresas, profissionais e fornecedores. A feira permite o contato com novas tecnologias, a troca de experiências e oportunidades de negócios para toda a cadeia produtiva.”
Convidam:
MISSÃO EMPRESARIAL CHINA
INTERTEXTILE (AGOSTO 2026 / MARÇO 2027)
CANTON FAIR 3ª FASE (OUTUBRO/NOVEMBRO) DE 2026
AGOSTO DE 2026: A principal feira asiática do setor de têxteis para casa. Uma plataforma internacional para networking, tendências, novos fornecedores e inspirações em design para o setor home têxtil.
Uma plataforma internacional para networking, tendências, novos fornecedores e oportunidades globais de negócios em diversos segmentos de consumo.
Shanghai – China
Destaques da última edição: • •
Quase 900 expositores Mais de 35 mil visitantes profissionais
MARÇO DE 2027: Apresenta as últimas tendências de
tecidos e acessórios. É o ambiente ideal para negócios e parcerias entre fornecedores e clientes.
Guangzhou - China
Destaques da 3ª Fase: • • • •
Moda e vestuário Têxteis e acessórios Bolsas e malas Outros
Ideal para empresas e profissionais que buscam fornecedores internacionais, inovação, novos produtos e conexões estratégicas com o mercado chinês.
Destaques da última edição: • Mais de 3.000 expositores • Mais de 96.000 visitantes de 119 países e regiões Ideal para empresas e profissionais que buscam inovação, negócios e conexões globais no mercado têxtil.
OS PACOTES TERRESTRES INCLUEM: • • • • • • • •
Hotel 4 estrelas com café da manhã Traslados com assistência em português Visitas técnicas + transporte local Tradutor português/mandarim durante a agenda Transporte diário para a feira Seguro-viagem internacional Acompanhamento de especialista técnico Apoio local especializado
VAGAS LIMITADAS Informações e reservas:
Aéreo opcional com voo oficial
Encontro Internacional Têxtil, de Moda e Negócios
DE 23 A 25 DE SETEMBRO DE 2026 Expo Center Norte - São Paulo gotexshow.com.br
(11) 91605-7348
eliezer.chung@chinatradecenter.com.br
PREVIEW
GOTEX SHOW 2026 AMPLIA CONEXÃO GLOBAL DA INDÚSTRIA TÊXTIL
S
ão Paulo volta a ocupar posição estratégica no calendário da indústria têxtil e de moda com a 13ª edição da Gotex Show – Encontro Internacional Têxtil, de Moda e Negócios, que acontece de 23 a 25 de setembro de 2026, no Expo Center Norte – Pavilhão Amarelo. Criada em 2013, a feira se consolidou como plataforma de global sourcing, aproximando fornecedores brasileiros e internacionais de confeccionistas, importadores, distribuidores, varejistas, estilistas e compradores. Em um cenário marcado pela reorganização das cadeias globais, disputas comerciais e mudanças no comportamento do consumidor, diversificar fornecedores, buscar inovação e ampliar a competitividade tornou-se estratégico. A edição de 2026 reúne empresas do Brasil, China, Índia, Bangladesh, México e Peru. A relação de expositores já ultrapassa 200 empresas, contemplando tecidos, fios e fibras, aviamentos, acessórios, denim, malhas, rendas, jacquard e produtos para moda, fitness, praia e casa.
44
Revista Têxtil #797
A oferta acompanha as transformações da indústria. Entre os materiais estão tecidos tecnológicos com elastano e four-way stretch, proteção UV, propriedades antibacterianas, secagem rápida e controle de umidade, além de opções em algodão, poliéster reciclado, bambu, Tencel, modal, viscose, cânhamo e linho. Mais do que apresentar produtos, a Gotex aposta na geração de negócios e conhecimento. O Business Lounge retorna em 2026 para reuniões entre compradores e expositores, com suporte em importação e exportação, oportunidades de representação e joint ventures e intérpretes gratuitos. Os resultados da edição anterior
ajudam a dimensionar o evento. Em 2025, foram mais de 7 mil visitantes únicos, mais de 220 expositores e mais de R$ 20 milhões em negócios gerados. Tecidos foram o segmento de maior interesse, citado por 63,2% dos visitantes, enquanto 89,5% afirmaram intenção de retornar. A programação de conteúdo também ganha força. Em 2025, 12 palestras reuniram mais de 5 mil espectadores. Para 2026, os debates abordam Indústria 4.0, Lean Manufacturing, gestão, tendências, sustentabilidade, varejo, marketplace, creator economy, live commerce e perspectivas para a indústria têxtil brasileira. Para Henrique Reis, gerente de Relações Internacionais do Comitê Organizador, a aproximação internacional deve ser uma via de mão dupla: ampliar o acesso a fornecedores e tecnologias, mas também criar condições para que empresas brasileiras desenvolvam produtos, estabeleçam parcerias e conquistem mercados externos. Assim, a Gotex Show reforça São Paulo como ponto de encontro entre a indústria nacional e as transformações do mercado global.
PREVIEW
FEBRATEX 2026: UM CONVITE PARA CONHECER, EM BLUMENAU, O FUTURO DA INDÚSTRIA TÊXTIL
DE 18 A 21 DE AGOSTO, BLUMENAU (SC), REUNIRÁ TECNOLOGIAS, TENDÊNCIAS, CONTEÚDOS E SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS EM UMA EDIÇÃO RECORDE, COM DEZ PAVILHÕES E MAIS DE 3.300 MARCAS DE 65 PAÍSES Por Annally Fontes
Q
uem acompanha a indústria têxtil sabe que as grandes transformações do setor não acontecem de forma isolada. Elas surgem quando tecnologia, criatividade, conhecimento e capacidade de fazer negócios se encontram. É justamente esse movimento que eu convido você a acompanhar na Febratex 2026. Entre os dias 18 e 21 de agosto, Blumenau volta a receber profissionais de diferentes partes do Brasil e do mundo para quatro dias de novidades, conexões e discussões sobre os caminhos de uma das cadeias produtivas mais importantes da nossa economia. Realizada no Parque Vila Germânica e no Ginásio Galegão, a 19ª edição será a maior da história
46
Revista Têxtil #797
da feira. Serão aproximadamente 40 mil metros quadrados de área expositiva, distribuídos em dez pavilhões — uma expansão de 4.765 metros quadrados em comparação com a edição anterior. A expectativa é receber até 80 mil visitantes e reunir cerca de 670 expositores, responsáveis por apresentar mais de 3.300 marcas de 65 países. Os números impressionam, mas não contam tudo. Para compreender a dimensão da Febratex, é preciso imaginar o que acontece dentro desses espaços: fabricantes, compradores, empresários, estilistas, pesquisadores, engenheiros, fornecedores e especialistas circulando entre máquinas, matérias-primas, softwares e soluções capazes de
Annally Fontes, jornalista e gerente de Comunicação do Febratex Group
mudar uma etapa — ou várias — do processo produtivo. Em quatro dias, diferentes elos da cadeia se encontram em um mesmo lugar, o que permite observar o setor de maneira ampla, da cria-
PREVIEW ção ao produto acabado. Por isso, a feira interessa tanto a quem está à frente de uma grande indústria quanto a quem busca compreender para onde o mercado caminha. Será possível conhecer lançamentos em máquinas e equipamentos, acompanhar avanços em automação, avaliar novos insumos, descobrir ferramentas digitais e conversar diretamente com quem desenvolve essas tecnologias. Mais do que ver uma novidade em funcionamento, o visitante poderá comparar soluções, esclarecer dúvidas e avaliar o que realmente faz sentido para a realidade de seu negócio. Essa proximidade faz da Febratex um ambiente de decisões. Segundo dados levantados com os expositores, aproximadamente 40% do volume anual de transações do mercado têxtil nacional está relacionado a negociações iniciadas ou concretizadas nos corredores da feira. É uma medida importante do peso econômico do encontro e também da confiança construída ao longo de quase duas décadas. Muitos investimentos que depois aparecem nas fábricas, nas coleções e nos novos modelos de produção começam com uma conversa em Blumenau. Em um setor pressionado a produzir com mais eficiência, reduzir desperdícios, responder rapidamente ao consumidor e incorporar critérios ambientais, decidir bem tornou-se ainda mais estratégico. Visitar a feira é uma oportunidade de enxergar possibilidades antes de investir, confrontar promessas com aplicações práticas e compreender como determinadas soluções podem afetar custos, produtividade, qualidade e competitividade.
UMA FEIRA MAIOR PARA UM SETOR EM TRANSFORMAÇÃO O crescimento desta edição também será visível na estrutura. Pela primeira vez, a Febratex utilizará o novo setor do Parque Vila Germânica, complexo conhecido nacionalmente pela Oktoberfest e que, em agosto, assume mais uma vez seu papel como palco de inovação industrial. Localizada atrás dos setores 1 e 4, a nova área tem 2.600 metros quadrados e amplia em quase 15% a capacidade total do centro de eventos. O espaço estreia com ocupação comercial completa: todos os estandes foram vendidos antecipadamente e há uma lista de espera para empresas interessadas em expor. Além da nova área, a organização instalará pavilhões temporários nas proximidades do Ginásio Galegão. É uma ampliação que responde a uma demanda concreta dos expositores e acompanha o crescimento da própria feira, sem perder a ligação histórica com Blumenau e com a indústria têxtil de Santa Catarina.
CONHECIMENTO PARA ALÉM DOS ESTANDES Embora máquinas, equipamentos e lançamentos sejam parte central da experiência, a programação não se limita à exposição. A Febratex 2026 terá uma agenda de conteúdo criada para quem precisa entender as mudanças do mercado e transformá-las em decisões. Quatro iniciativas ajudam a mostrar a diversidade dessa proposta: Preview Febratex Summit, Radar Têxtil, Workshop Priscila Faiad e Startup Corner. O Preview Febratex Summit levará ao evento debates sobre tecnologia, sustentabilidade e as transformações que já afetam os modelos produtivos. Em vez de tratar o futuro como algo distante, a programação aproxima esses temas da realidade das empresas. A intenção é discutir como a indústria pode se preparar para novas exigências, incorporar inovação com propósito e construir operações mais competitivas e responsáveis.
Essa parceria ganhou um novo capítulo em 2024, quando a Febratex inaugurou o Boulevard do Parque Vila Germânica. Agora, ao colocar em operação outra estrutura, o evento ajuda a ampliar a capacidade da cidade de receber grandes encontros. Para quem visita, a mudança representa mais empresas, soluções e possibilidades de negócios. Para Blumenau, significa movimento na hotelaria, na gastronomia, no transporte e em diferentes serviços durante os quatro dias.
Revista Têxtil #797
47
PREVIEW Para as equipes de criação, estilo e produto, o Radar Têxtil oferecerá uma imersão em tendências. Desenvolvida pela plataforma New & Now, a iniciativa conectará macrotendências internacionais, matérias-primas inovadoras e possibilidades de aplicação comercial. Essa ponte é especialmente valiosa porque uma tendência só ganha relevância para a indústria quando pode ser traduzida em escolhas concretas de materiais, cores, processos e produtos capazes de dialogar com o consumidor. A engenheira têxtil Priscila Faiad, especialista em engenharia da qualidade e desenvolvimento de fornecedores, comandará workshops voltados à excelência fabril e ao controle de processos. A proposta é trabalhar conteúdos práticos, próximos dos desafios encontrados no dia a dia da produção. Em um mercado no qual qualidade, prazo e eficiência caminham juntos, rever processos e desenvolver fornecedores pode ser tão decisivo quanto adquirir uma nova tecnologia. Já o Startup Corner reunirá hubs de inovação e startups com soluções para a cadeia têxtil. O público poderá conhecer ferramentas de gestão, automação industrial, rastreabilidade e inteligência artificial. É um espaço importante para observar como empresas jovens estão respondendo a problemas antigos e novos do setor — da organização de dados à visibilidade da cadeia, passando pela integração de processos e pelo uso mais inteligente dos recursos. As quatro frentes criam percursos diferentes dentro do mesmo evento. Um empresário pode buscar
48
Revista Têxtil #797
eficiência fabril; um profissional de estilo, pesquisar referências; uma equipe de tecnologia, avaliar softwares; e uma liderança, acompanhar debates capazes de auxiliar o planejamento dos próximos anos. Minha sugestão é chegar com algumas prioridades definidas, mas reservar tempo para o inesperado. Em uma feira desse porte, uma descoberta fora do roteiro pode abrir uma possibilidade que ainda não estava no radar.
SUSTENTABILIDADE QUE SAI DO DISCURSO Outro eixo que atravessa a edição de 2026 é a sustentabilidade. O tema estará presente nas discussões, nas soluções apresentadas e também na própria operação do evento. Um exemplo estará, literalmente, vestido pela equipe: os uniformes oficiais serão produzidos com uma tecnologia brasileira capaz de capturar dióxido de carbono durante o ciclo de uso das peças. Chamada Ar.voree, a solução foi desenvolvida pela Malwee. A malha retém CO₂ enquanto a camiseta está em circulação e permite que ele seja eliminado de forma segura durante as lavagens domésticas. Ao todo, serão usadas 160 peças durante o evento. Conforme estimativas da Engenharia de Materiais da marca, depois de 25 lavagens uma camiseta pode alcançar desempenho equivalente à capacidade de absorção de dióxido de carbono de uma árvore adulta. Há uma história interessante por trás dessa escolha. A tecnologia foi apresentada ao mercado no Febratex Summit, em agosto de 2025.
Helvio Pompeu, presidente da FCEM
Um ano depois, deixa de ocupar apenas o espaço de lançamento e passa a integrar a rotina operacional do principal evento do grupo. É uma maneira concreta de mostrar que as inovações debatidas pela indústria podem sair do palco, ganhar uso real e estimular novas práticas. As camisetas também poderão continuar em circulação após o encerramento da feira, prolongando os benefícios da iniciativa. Caso todas completem o ciclo de 25 lavagens considerado na estimativa, o resultado acumulado poderá corresponder ao potencial de até 160 árvores adultas. Mais do que transformar essa equivalência em uma promessa grandiosa, a ação chama a atenção para o ciclo de vida das peças e para o papel que materiais, processos e escolhas de uso exercem na construção de uma indústria mais responsável. A iniciativa se soma às metas ambientais de longo prazo da Febratex, que incluem coleta seletiva e boas práticas na gestão dos resíduos.
PREVIEW Em um evento capaz de receber dezenas de milhares de pessoas, lidar corretamente com tudo o que é gerado exige planejamento, parceiros e acompanhamento. O objetivo é destinar os resíduos de forma adequada e reaproveitar o maior volume possível, com critérios técnicos, transparência e consistência. Esse cuidado importa porque sustentabilidade não se resume a uma atração ou a um produto isolado. Ela envolve toda a cadeia: origem da matéria-prima, consumo de água e energia, durabilidade, rastreabilidade, condições de produção, logística e destino de cada material. Ao colocar o assunto em diferentes pontos da programação, a feira permite que o visitante conheça avanços, faça perguntas e avalie como esses compromissos podem entrar, de maneira viável, em sua operação.
UM ENCONTRO PARA OBSERVAR O PRESENTE E PREPARAR O FUTURO É difícil percorrer dez pavilhões seguindo uma única direção. E talvez essa seja uma das melhores características da Febratex: cada visitante pode construir sua própria experiência. Há quem chegue para fechar negócios, quem procure fornecedores, quem queira atualizar uma linha de produção e quem esteja em busca de repertório. Há também estudantes, pesquisadores e profissionais interessados em compreender melhor um setor que combina conhecimento técnico, criatividade e capacidade industrial.
tar antecipadamente a relação de expositores e a programação, selecionar os conteúdos mais relevantes e planejar os deslocamentos entre os pavilhões. Mas não faça uma agenda tão rígida a ponto de eliminar os encontros espontâneos. Feiras são feitas de demonstrações e palestras, mas também das conversas que surgem entre um estande e outro e ajudam a enxergar um problema por um ângulo diferente. Eu vejo a Febratex como um grande retrato da indústria têxtil em movimento. Ali estarão empresas tradicionais e startups, tecnologias já consolidadas e soluções que começam a ganhar escala, demandas urgentes e apostas de longo prazo. Automação, inteligência artificial, sustentabilidade, qualidade, ten-
dências e negócios não aparecerão como assuntos separados, mas como partes de uma mesma transformação. É por isso que deixo este convite aos leitores: entre os dias 18 e 21 de agosto, venham a Blumenau observar de perto o que está mudando, conversar com quem constrói essas mudanças e descobrir oportunidades para seus próprios projetos. Em uma edição recorde, a Febratex 2026 quer mostrar não apenas o tamanho da indústria, mas também sua capacidade de se renovar. Quem participa desse encontro tem a chance de voltar para casa com contatos, ideias e perguntas melhores — e, muitas vezes, é daí que começam as decisões mais importantes.
Para aproveitar a visita, vale consulRevista Têxtil #797
49
FEIRAS
INSPIRAMAIS 2026
N
os 7 e 8 de julho, aconteceu em São Paulo o Salão de Inovação, Design e Sustentabilidade Inspiramais, que teve como tema principal a palavra Essência. O Núcleo de Pesquisa do InspiraMais coordenado por Walter Rodrigues, definiu a palavra Essência como o ponto de partida. Nesse momento estamos vislumbrando um questionamento mundial, sobre o luxo – seu valor, sua importância e sua potência histórica. Fica claro que o que estamos vivenciando é uma crise de legitimidade e reposicionamento diante da necessidade de repensar o luxo não apenas esteticamente, mas sim seu valor, sua narrativa e seu poder simbólico. Durante décadas o luxo se sustentou em três pilares: raridade, herança his-
tórica e autoridade cultural. Em 2025, esses pilares passaram a ser tensionados por vários fatores: consumidores mais informados, que entendem custos de produção e margem; exposição das cadeias produtivas e práticas corporativas; saturação do “luxo aspiracional” via redes sociais; e a crise econômica global que torna o preço um fator mais sensível, mesmo para classes altas. O resultado é um descolamento entre preço e valor percebido. Sendo assim muitos consumidores passaram a perguntar: “O que exatamente estou pagando aqui: qualidade, história, status ou apenas marketing?” Esse questionamento não destrói o luxo, mas obriga as marcas a redefinir o que elas vendem. As mudanças dos diretores criati-
Entrada do Projeto Conexão Inspiramais, exposição dos materiais desenvolvidos com o tema Essência realizado em parceria com o Sebrae
50
Revista Têxtil #797
Walter Rodrigues - Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Design do Inspiramais
vos de marcas como Dior, Chanel, Gucci e Valentino não são apenas ciclos criativos normais. Elas revelam uma busca por uma reancoragem identitária – retomar códigos históricos, e até uma ruptura controlada para reconquistar relevância em um cenário repleto de marcas concorrentes. Assim diretores criativos hoje são considerados gestores de significado e não apenas estilistas. Ou seja, o foco passou de “chamar atenção” para reconstruir confiança simbólica. Diante do mercado de baixos preços, o luxo precisa justificar sua existência não pelo acesso restrito, mas pelo sentido profundo que oferece. O sucesso das próximas décadas dependerá da capacidade dessas marcas de responder a uma pergunta central:
FEIRAS “Por que este objeto merece existir — e ser desejado — neste mundo específico em que vivemos?” Tudo isso se resume na palavra ESSÊNCIA.” Apresentamos mais de mil materiais novos, para os setores de calçados, mobiliário, bijuteria, automotivo, pet e decoração de interiores. Desenvolvidos pelas 150 empresas participantes a partir da Metodologia da Pirâmide de Produtos do Inspiramais. Foram dias de muito movimento, encontros inspiradores, novos negócios, networking e parcerias que fortalecem o nosso propósito de inovar e construir o futuro ao lado dos nossos associados, visitantes e parceiros.
fechados na hora e uma projeção de ultrapassar os R$ 61 milhões nos próximos meses. Nessa edição apresentamos também o Preview do Couro juntamente com o Centro das Indústrias de Curtume do Brasil o CICB, onde a pesquisa denominada Camuflagem 2028_II revelou as inspirações que serão transformadas em materiais para o próximo Salão Inspiramais que se realizará nos dias 26 e 27 de janeiro de 2027, no Centro de Eventos FIERGS em Porto Alegre – RS.
O Salão Inspiramais tem como patrocinadores as empresas: Cipatex, Altero, Branyl, Bertex, Caimi Liasion, Grupo Cofrag, Colorgraf, Componarte, Maurício Sintéticos, Next, Sansuy, Smart Group, Soares Materiais, Tellaio, York. Realização – Brazilian Materials, Tex Brasil, Brazilian Leather e Brazilian Furniture. Promoção – Assintecal, Abit, Cicb e Abimóvel Apoio – Sebrae e Apex
Nossos espaços criativos – Conexão Inspiramais, Hub Conexão Criativa e Preview do Couro receberam visitantes de todo o Brasil e de outros países, tais como Peru, Colômbia, Argentina, Equador e Turquia entre outros! Promovemos trocas de conhecimento, experiências memoráveis e momentos que reforçam a importância da colaboração para impulsionar a indústria. Recebemos 11 jornalistas da América Latina, para a divulgação da pesquisa de inspiração e dos resultados dos negócios realizados nos dois dias do Salão. O Inspiramais mais uma vez provou a força da produção nacional. Com o projeto Brazilian Materials que tem apoio da Apex Brasil, foram realizadas 520 rodadas de negócios entre empresas brasileiras e 30 compradores de 7 países. O resultado foram R$ 15,4 milhões
Exposição dos materiais da etapa 10_ da Metodologia da Pirâmide de Produtos do Inspiramais
Projeto Hub Conexão Criativa - Mentores Flávia Vanelli e André Barbi, a sustentabilidade e a inovação tem um espaço exclusivo no Inspiramais
Revista Têxtil #797
51
SUSTENTABILIDADE
LEONIÊ: O SONHO DE MARLU FONSECA
U
Por Bruno Leonard
ma bolsa que surgiu primeiro em um sonho e, anos depois, se transformou em um produto patenteado. Dessa ideia nasceu a Leoniê, marca criada por Marlu Fonseca, que une design autoral, inovação e sustentabilidade para propor uma nova forma de consumir moda. Natural de Flores, no sertão de Pernambuco, Marlu teve seu primeiro contato com a costura ainda jovem, aprendendo o básico da técnica com a avó, Maria Leônia. Aos 18 anos, mudou-se para São Paulo em busca de novas oportunidades. Trabalhando na região da 25 de Março, despertou o interesse pela moda, pelos tecidos e pelo design, o que o levou a cursar Design de Moda. O nome da marca homenageia Maria Leônia, costureira que sempre foi sua maior inspiração. Para criar uma identidade mais neutra, Marlu adaptou a grafia do nome, dando origem à Leoniê. A homenagem também está presente na bolsa Leonia, carro-chefe da marca. Os primeiros passos da Leoniê foram simples. A marca começou com uma camiseta, mas foi nas bolsas que Marlu encontrou espaço para desenvolver sua identidade criativa. O modelo que representa a marca nasceu de um sonho: uma bolsa completamente desmontável e personalizável. A ideia deu origem a um sistema exclusivo, patenteado pelo fundador, que permite substituir partes específicas sem descartar a bolsa inteira. O conceito dialoga diretamente com o slow fashion. Em vez de in-
52
Revista Têxtil #797
Bolsa mini Leonia Cacto verde
SUSTENTABILIDADE Em parceria com a modelo e artista plástica Samara Sampaio, desenvolveu uma coleção de bolsas pintadas à mão. Ao lado de Rafael Leite, criou uma linha para casa confeccionada com renda renascença, aproximando moda e artesanato brasileiro.
Costura vestido cacto
centivar a troca constante de produtos, a bolsa foi pensada para acompanhar diferentes momentos e estilos, prolongando sua vida útil e reduzindo o desperdício. Durante a entrevista, Marlu apresentou o primeiro protótipo desenvolvido pela marca, preservado até hoje.
Os retalhos que restam da produção também ganham novo destino. Marlu transforma resíduos têxteis em quadros autorais, ampliando o ciclo de vida dos materiais e reforçando a proposta da marca de enxergar valor criativo no que normalmente seria descartado.
A sustentabilidade continua guiando as escolhas da Leoniê. A empresa trabalha com biomateriais e matérias-primas reaproveitadas. Entre os destaques está o biocouro da empresa mexicana Desserto, produzido a partir do cacto nopal e reconhecido como uma alternativa vegetal ao couro animal. Marlu fez questão de conhecer pessoalmente o processo de fabricação durante uma viagem ao México.
Marlu acompanha de perto todas as etapas da Leoniê, da pesquisa de materiais ao desenvolvimento dos produtos, da escolha dos fornecedores ao acabamento das peças, garantindo que design, inovação e sustentabilidade caminhem juntos. A busca por inovação também se estende às colaborações criativas.
Atualmente, a Leoniê movimenta uma cadeia produtiva que envolve cerca de 30 pessoas diretamente e mais de 100 de forma indireta, entre cooperativas e comunidades parceiras. O próximo passo é transformar o ateliê na Casa Leoniê, espaço pensado para aproximar o público dos biomateriais, do processo criativo e das experiências que unem moda, arte, design e gastronomia. “Nós queremos construir uma marca centenária”, resume Marlu. Ao transformar um sonho em uma invenção patenteada, Marlu mostra que inovação nasce da pesquisa, do conhecimento sobre materiais e da busca constante por soluções que unem design, tecnologia e responsabilidade ambiental. A Leoniê propõe novas possibilidades para a indústria têxtil, mostrando que criatividade e sustentabilidade podem caminhar lado a lado na construção da moda do futuro.
Além do biocouro de cacto, a Leoniê utiliza palha de milho coletada por uma comunidade em Resende, derivados de soja, cacau, folhas de alocasia e látex nativo da Amazônia. Também reaproveita lonas de caminhão, câmaras de ar e tecidos reciclados produzidos a partir de garrafas PET, reforçando seu compromisso com a inovação têxtil e a economia circular. Revista Têxtil #797
53
SUSTENTABILIDADE
RESÍDUO TÊXTIL, QUANTO VALE? E OUTRAS VERDADES
EM CONTINUAÇÃO AO ARTIGO ANTERIOR SOBRE DESTINAÇÃO DE RESÍDUOS TÊXTEIS, COM JOSÉ GUILHERME TEIXEIRA, FUNDADOR DA PLATAFORMA CIRCULAR - COTTON MOVE®, SEGUIMOS A CONVERSA COM JONAS LESSA, COFUNDADOR DA RETALHAR E TAMBÉM DIRETOR DA COTTON MOVE®. Por Carla Angelini
A ORIGEM DA RETALHAR®: MEIA TONELADA DE RESÍDUOS POR MÊS INDO PARA ATERRO Tudo começou com um desafio. Implantar um setor de sustentabilidade dentro da confecção de uniforme, em parceria com um colega de infância. A fábrica gerava meia tonelada de resíduo têxtil por mês, tudo indo para aterro. Encontrar empresas que fossem capacitadas a beneficiar este material foi o maior desafio. Desta dificuldade veio a oportunidade e começou-se a desenhar o que hoje é a Retalhar®. O upcycling, através das cooperativas de costureiras, entrou como solução para retalhos de corte e posteriormente, para uniformes pós-consumo.
NA BALANÇA, PREVENÇÃO E COMPENSAÇÃO A gestão de resíduos opera numa balança que vai da prevenção à compensação. Quando o olhar é direcionado à prevenção, a compensação torna-se desnecessária. Portanto, esta é a lição de casa: inclinar a balança para a prevenção, o que começa no design. “No design é que são tomadas as decisões que vão dizer se essa empresa vai abordar o problema prevenindo, mitigando ou só compensando. A lição de casa passa pela modelagem, pelo risco, (determinação do corte), pelo aproveitamento de tecido.” Quando uma empresa procura a Retalhar® para o serviço de descarte de resíduos, encontra mitigação, não solução mágica. A Retalhar
vai falar: ‘Certo, vamos ver como a gente minimiza essa poluição, porque só de transportar esse resíduo já poluiu.’ Um exemplo prático, é a separação de resíduos na mesa de corte, a qual reduz custos e viabiliza a reciclagem. Sem ela, há custos adicionais por esta triagem.
POSSÍVEIS DESTINAÇÕES APÓS A TRIAGEM Ao receber resíduos vindos de fábricas, ou dos diversos pontos de coleta destinados a produtos pós consumo, a Retalhar realiza a etapa de triagem para o correto e apropriado direcionamento do material. A primeira, (e mais nobre alternativa), é a Reciclagem. Uma das formas de reciclagem, (e a utilizada comercialmente no Brasil), é a desfibragem, onde o tecido é destruído
Centro de triagem de resíduos têxteis - Retalhar®
54
Revista Têxtil #797
SUSTENTABILIDADE mecanicamente, volta a ser fibra e fica apto a gerar novos produtos. Mas é bom lembrar! Nem todo produto reciclado é reciclável. Esta diferença entre reciclado e reciclável é extremamente importante. Um produto reciclado, é aquele feito a partir de matéria prima reciclável. Se houver uma mistura de fibras inapropriada, este novo material não poderá ser reciclado, rompendo-se assim o ciclo e conceito de Economia Circular. Um 2º destino possível é o Upcycling, o qual começa com a remoção da marca, corte da logomarca e demais aviamentos, deixando o material apto a ser transformado num novo produto de maior valor agregado. Nesta alternativa, a Retalhar® aciona sua rede de costura inclusiva. “A gente junta as duas pontas: a gestão de resíduos e a inclusão social.” Como 3º caminho, vamos para o downcycling, quando o material é transformado em um produto de menor valor e de baixa durabilidade. São
exemplos: panos de limpeza, enchimentos e cobertores simples. Esta alternativa prolonga um pouco o ciclo de vida, mas a probabilidade de no final ser reaproveitado, é baixa. E finalmente temos o coprocessamento ou coincineração. Quando nenhuma das alternativas anteriores é aplicável, o material segregado é destinado à queima controlada para geração de energia para a indústria de cimento. Trata-se da última alternativa antes do aterro e recupera-se apenas 4% da pegada energética do material, informa a Retalhar®. Importante lembrar que a destinação a aterros sanitários em nenhuma hipótese é alternativa dentro dos ciclos de destinação da Retalhar®.
O MITO DO VALOR DO RESÍDUO TÊXTIL Há uma crença no setor de que resíduo têxtil tem valor de mercado. Jonas desmonta o argumento com dois paralelos. O primeiro é a latinha de alumínio.
Não fica cinco minutos no chão na rua, diz Jonas. É moeda, é monomaterial, fácil de reciclar e substitui matéria-prima virgem, escassa. Tem cadeia estruturada em toda a cidade. O segundo é o lixo eletrônico. Complexo na triagem, com múltiplos componentes e composições variadas. Parecido com roupa, que mistura tecidos, aviamentos e estruturas diferentes. Mas o eletrônico tem cobre, ouro, chips. “No fim, sobra na mão de quem beneficia, materiais os quais ele tem certeza absoluta que vai vender por um ótimo valor. A ponto de pagar a conta.” O resíduo têxtil não tem metal precioso. O algodão por exemplo, embora renovável, tem preço regido por oferta e demanda e não incorpora as externalidades ambientais da sua produção. “O resíduo têxtil não é um resíduo que vale dinheiro. Pelo contrário, é um resíduo que custa pra ser tratado pra que se possa, talvez, reaproveitá-lo.”
TABUS O upcycling tem limitações de escala, custo e aproveitamento. “Gera muito desperdício pra pouco aproveitamento”, alerta Jonas. “Funciona para acessórios, não para o volume do setor. Confundir upcycling com economia circular plena, alimenta narrativas falaciosas. “
Retalhar® e Plataforma Circular Cotton Move® Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite
Hoje uma das fibras mais empregadas na confecção é o poliéster e suas misturas. Atenção aqui! A reciclagem de poliéster fibra-para-fibra não existe em escala no Brasil. Os processos químicos, necessários em caso de misturas íntimas de fibras, exigem investimentos bi-
Revista Têxtil #797
55
SUSTENTABILIDADE
Consumo consciente e a gestão de resíduos
lionários e infraestrutura complexa. São processos que estão iniciando na Europa, mas sem viabilidade imediata aqui. Então, qual o caminho? Quando o material não pode ser reaproveitado ou reciclado, o coprocessamento em indústrias de cimento é a alternativa menos danosa. O resíduo têxtil substitui combustível fóssil no forno cimenteiro. “Não é o destino ideal, mas é honesto. E honestidade é o que falta nas narrativas que ainda vendem enchimento de almofada como solução viável. “ Jonas alerta para a banalização de termos como “circular” e “sustentável”. Uma peça de upcycling não transforma uma operação linear em circular. Um programa de logística reversa não neutraliza o impacto de uma coleção produzida em volume dez vezes maior que a demanda.
56
Revista Têxtil #797
O VAREJO COMO ALAVANCA Entre a indústria que produz e o consumidor final, está o varejo com poder de pressão nas duas direções. “O varejo tem força tanto pra dialogar com a indústria: ‘confecções, vocês que querem fornecer pra mim, têm que fazer a gestão de resíduos’, quanto com o consumidor: ‘esse produto aqui é o mais limpo que tem, vamos comprar dele’.” Mas não basta cobrar da indústria e do consumidor. Apenas produtos desenvolvidos com estratégia de sustentabilidade permitem uma real e viável circularidade. Fora isto o que temos é apenas um prolongamento de ciclo de vida de um produto projetado linearmente e com foco em redução de custo, onde
fatalmente o destino final serão os aterros sanitários. A solução passa portanto por todas as etapas da cadeia têxtil, do desenvolvimento de produtos, da comercialização, além claro, das formas de consumo e destinação de resíduos. O foco em resultados de curto prazo mascara custos socioambientais que não aparecem no DRE. “O foco exclusivo no retorno financeiro imediato ignora custos socioambientais que estão sendo cobrados em eventos climáticos, interrupção de cadeia produtiva e perda de ativos. A conta chega.”, conclui Jonas.
PASSO A PASSO Para empresas que querem começar, o primeiro passo é o diagnóstico. A Retalhar® precisa entender o inventário de resíduos: volume,
SUSTENTABILIDADE frequência, localização e composição, (algodão, poliéster, misturas, etc). Com esses dados, desenha um plano de destinação personalizada: tipo de logística, beneficiamento, destino final mais viável e orçamento. A operação roda com rastreabilidade, laudos de destinação e relatórios de impacto. São oferecidos também treinamentos em economia circular e implementação de planos de gerenciamento de resíduos sólidos, da alta liderança ao operacional. “Não existem regras fixas. A viabilidade de cada solução depende do tipo de material e da demanda do momento.”
OS DESAFIOS A indústria têxtil produz 100 bilhões de peças por ano no mundo (Ellen MacArthur Foundation) e gera 92 milhões de toneladas de resíduo, o
equivalente a um caminhão de roupas descartado a cada segundo. Menos de 1% disso volta a ser roupa (Global Fashion Agenda / Ellen MacArthur Foundation). Dados da ABIT apontam que no Brasil, são 4 milhões de toneladas de resíduo têxtil por ano, (incluindo o pós-consumo). Destes, apenas 20% são reciclados, segundo dados do Fashion Revolution Brasil. O setor emprega 1,34 milhão de pessoas, fatura R$ 221 bilhões e é o 5º maior parque têxtil do mundo (dados: ABIT). Os desafios são imensos, mas basicamente três frentes precisam convergir: Tecnologia, com automação de triagem e viabilidade técnica para reciclagem fibra-para-fibra no Brasil; Regulação, voltada principalmente ao descarte de resíduos têxteis por confecções e finalmente a Mentalidade.
Durante a conversa com Jonas Lessa, em diversos momentos voltamos às questões culturais e de conscientização. A importância de substituir a ótica trimestral pela leitura de custo total. “Consumidor, Estado, varejo e indústria precisam reconhecer sua posição como parte do problema ou da solução. Não existe neutralidade nisso.” A solução não será única. Mas começa com honestidade sobre o que o resíduo têxtil é e o que não é. E ele não é lucro. É passivo, e passivo se gerencia. Próxima edição: Hábitos de consumos e destinação de peças do vestuário. Jonas Lessa é cofundador da Retalhar e diretor da Cotton Move. A Retalhar é certificada como Empresa B, pioneira em logística reversa têxtil no Brasil.
Resíduos têxteis e possíveis destinações
Revista Têxtil #797
57
PREVIEW
XII CONTEXMOD: CIÊNCIA, INDÚSTRIA E FORMAÇÃO Por Daives Arakem Bermamasco - Coordenador de curso na Fatec Americana – Ministro Ralph Biasi e Camilla Borelli – Presidente ABTT
E
ntre os dias 22 e 24 de setembro de 2026, a Fatec Americana – Ministro Ralph Biasi sediará o XII Congresso Científico de Têxtil e Moda, o CONTEXMOD. Realizado no interior paulista, o evento reafirma a importância estratégica de um dos principais polos industriais têxteis da América Latina e reúne, em um mesmo ambiente, pesquisa acadêmica, formação profissional e atividade empresarial. A edição de 2026 tem significado especial: a Fatec Americana celebra os 40 anos do curso de Tecnologia em Produção Têxtil, marco de sua contribuição contínua para o desenvolvimento da indústria e a formação de profissionais qualificados. O Polo Têxtil de Americana e Região (RPT) engloba os municípios de Americana, Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa, Sumaré e Hortolândia. Com mais de 1,2 mil indústrias e cerca de 2,2 mil confecções, a região responde por aproximadamente 85% da produção nacional de tecidos planos sintéticos e artificiais. Fios químicos, tinturarias e estamparias completam uma especialização consolidada ao longo de décadas, formando um ecossistema que articula todas as
58
Revista Têxtil #797
etapas da cadeia – da produção de fibras e fios ao beneficiamento e à confecção – e favorece a inovação e a circulação de conhecimento. Nesse contexto, destaca-se a atuação da Associação Brasileira de Tecnologia Têxtil, Confecção e Moda (ABTT). Fundada em 1962, a entidade promove o intercâmbio de ideias e experiências entre profissionais do setor, no Brasil e no exterior. Ao criar e consolidar o CONTEXMOD, estabeleceu um espaço dedicado à difusão de pesquisas em Têxtil e Moda e ao debate científico a serviço da indústria. A escolha da Fatec Americana como sede tem, portanto, forte significado institucional. Criada em 1986 como Faculdade de Tecnologia Têxtil de Americana, a ins-
tituição nasceu da necessidade regional de formar mão de obra qualificada. Em quatro décadas, o curso de Tecnologia em Produção Têxtil acompanhou as transformações tecnológicas e econômicas do setor, mantendo vínculo estreito com a cadeia produtiva local e formando gerações de tecnólogos, pesquisadores e gestores. Durante o congresso, alunos, professores, pesquisadores e empresários poderão compartilhar experiências e discutir desafios ligados a tecnologia, produção, sustentabilidade, gestão e inovação. A programação incluirá trabalhos acadêmicos e palestras institucionais de empresas locais, valorizando tanto a produção científica quanto o conhecimento do ambiente industrial. Mais do que um encontro acadêmico, o XII CONTEXMOD será um espaço de integração. Sua realização em um polo de reconhecida importância econômica e histórica, no ano em que a Fatec Americana celebra 40 anos de seu curso têxtil, reforça o papel da ciência e da educação na construção de soluções para a indústria e evidencia a vocação da região para promover conhecimento, cooperação e desenvolvimento no setor têxtil e de moda.
DENIM
EPSON E YKK APRESENTAM ZÍPER PRODUZIDO A PARTIR DE ROUPAS RECICLADAS NA ALTACOSTURA DE PARIS
Por Guia Jeanswear
A
inovação em materiais sustentáveis ganhou mais um capítulo durante a Semana de Alta-Costura de Paris. Em parceria com a YKK e o estilista japonês Yuima Nakazato, a Epson desenvolveu um conceito de fita para zíper produzida a partir de folhas de não tecido obtidas da reciclagem de roupas usadas e outros materiais têxteis, utilizando sua tecnologia proprietária Dry Fiber. A novidade foi aplicada aos zíperes premium EXCELLA, da YKK, e integrou a coleção INFERNO, apresentada por Yuima Nakazato no último dia 8 de julho, demonstrando que materiais reciclados podem ir além dos tecidos e chegar também aos componentes de acabamento das peças. Segundo as empresas, o principal desafio foi adaptar o material reciclado às exigências técnicas de uma fita de zíper, garantindo resistência, flexibilidade e espessura adequadas para o uso. O resultado é um produto conceitual que amplia as possibilidades de aplicação da tecnologia Dry Fiber na indústria da moda. A colaboração entre Epson e Yuima Nakazato teve início em 2022 com foco em soluções de menor impacto ambiental. Desde então, o material reciclado vem sendo aperfeiçoado para aplicações em vestuário e, recentemente, também passou a ser utilizado em calçados da marca. Agora, a tec-
nologia avança para um novo território, mostrando que a circularidade pode alcançar também os aviamentos.
POR QUE IMPORTA PARA O DENIM? Embora ainda seja um conceito, o projeto sinaliza um caminho promissor para toda a cadeia têxtil. Em um momento em que a sustentabilidade exige inovação em cada detalhe do produto, iniciativas como essa mostram que aviamentos — historicamente mais difíceis de reciclar — também podem evoluir para soluções de
menor impacto ambiental. Para o universo do jeanswear, onde o zíper é um componente essencial, a novidade reforça que o futuro da moda circular dependerá da inovação integrada entre tecidos, acabamentos e acessórios. Fonte: Anny Garcia Foto Divulgação e dos desfiles: Mika Inoue
Revista Têxtil #797
59
DENIM CITY
ADRIANA GALIJASEVIC VEM AO BRASIL PARA DISCUTIR O FUTURO CIRCULAR DO DENIM Por Mieko Cabral, estilista, coordenadora acadêmica da Denim City SP e mestre em Ciências pela USP, onde pesquisou caminhos para a evolução do jeans produzido com responsabilidade no Brasil. a cadeia. Mais do que reduzir impactos ambientais, a circularidade considera a escolha das matérias-primas, o design, a produção, a durabilidade, o reparo, a reutilização e o destino dos materiais.
A
lgumas trajetórias profissionais chamam atenção não apenas pelo que construíram, mas pelas perguntas que continuam provocando. A de Adriana Galijasevic é uma delas. Designer, pesquisadora, educadora e fundadora da Cocircular Lab, Adriana construiu sua carreira na intersecção entre design, inovação, sustentabilidade e negócios. Durante quase uma década na G-Star RAW, liderou projetos de inovação de produto e circularidade, transformando pesquisas em soluções aplicáveis à indústria da moda. Seu trabalho é baseado nos princípios do Cradle to Cradle, abordagem que propõe repensar os produtos desde sua concepção para que seus materiais permaneçam em ciclos produtivos ou naturais, substituindo a lógica linear de produzir, consumir e descartar por sistemas regenerativos. Na moda, essa mudança representa uma nova forma de pensar toda
60
Revista Têxtil #797
No denim, essa discussão ganha ainda mais relevância. O jeans percorre uma cadeia complexa, que envolve fibras, tecelagem, tingimento, lavanderia, confecção e varejo. Pensar sua evolução exige uma visão sistêmica, capaz de integrar inovação, tecnologia e colaboração entre todos os elos da cadeia. É justamente essa perspectiva que Adriana traz ao Brasil. Sua experiência no ecossistema holandês de inovação convida o setor a refletir sobre como construir soluções adequadas à realidade brasileira, estimulando o diálogo entre indústria, pesquisa e design. No dia 16 de setembro, às 12h45, no auditório Nelson Levada, na Denim City SP, Adriana compartilhará sua visão sobre circularidade e os caminhos para um denim mais inovador e responsável. Um encontro para quem acredita
Mieko Cabral
que o futuro da moda começa com uma nova maneira de pensar os sistemas que a sustentam.
Adriana Galijasevic
Verão 2028
SAVE THE DATE 15.16.17 SETEMBRO DCSP RUA CASIMIRO DE ABREU, 604 BRÁS - SÃO PAULO
16 de Setembro ÀS 15:30 Denim Talk Santista
DENIM
CANATIBA BLUE CLUB CONSOLIDA PLATAFORMA DE INOVAÇÃO PARA A MODA INFANTIL
A
moda infantil vive um momento de transformação. Muito além de reproduzir tendências do vestuário adulto em escala reduzida, o segmento tem direcionado seus investimentos para compreender o comportamento das novas gerações, criando produtos que unem conforto, funcionalidade, sustentabilidade e conexão emocional. Foi justamente essa visão que norteou a terceira edição do Canatiba Blue Club, promovida pela Canatiba Têxtil, no showroom da empresa, na Denim City, em São Paulo. Realizado em 15 de julho, o encontro reuniu confeccionistas, estilistas, marcas e profissionais da cadeia produtiva em uma programação dedicada à pesquisa, à inovação e ao desenvolvimento de produtos para o mercado infantil. Ao longo dos últimos anos, o Blue Club consolidou-se como uma importante plataforma de relacionamento e compartilhamento de conhecimento, aproximando a indústria das principais transformações do setor.
NOSTALGIA INSPIRA NOVAS GERAÇÕES Com o tema “Casa de Vó”, a edição de 2026 explorou um dos movimentos mais relevantes observados no comportamento do consumidor: a valorização das memórias afetivas, do acolhimento e das experiências que despertam
62
Revista Têxtil #797
sentimentos de pertencimento. A proposta mostrou como elementos tradicionais podem ser reinterpretados pela moda contemporânea, criando produtos que unem emoção, autenticidade e inovação. O conceito também dialoga com um movimento crescente na indústria, que busca desenvolver coleções capazes de estabelecer conexões mais profundas com consumidores e famílias. A programação teve início com a participação de Isabella Guizio, especialista da WGSN, que apresentou uma análise sobre os perfis de consumidores para 2027 e os principais movimentos que deverão influenciar o mercado nos próximos anos. A palestra destacou como mudanças sociais, tecnológicas e culturais impactam diretamente o
desenvolvimento de produtos, reforçando a necessidade de marcas e confeccionistas compreenderem novos hábitos de consumo antes mesmo da criação das coleções. Na sequência, Karen Silva, pesquisadora do Canatiba Trends dedicada exclusivamente ao segmento infantil, aprofundou a discussão ao apresentar uma pesquisa sobre os comportamentos, desejos e referências estéticas das novas gerações. Sua apresentação abordou oportunidades para o desenvolvimento de produtos mais alinhados ao universo infantil contemporâneo, considerando aspectos como conforto, identidade, ludicidade e novas formas de interação entre crianças, famílias e moda. Entre as novidades está o 600/2650 Listrado Denim, tecido 100% algodão de peso médio que aposta nas listras largas, uma das principais tendências observadas para as próximas temporadas. Outra novidade apresentada foi o 600/2623 Matilda PT Maxskin, desenvolvido com algodão e viscose. A combinação proporciona respirabilidade, toque macio e conforto, características cada vez mais valorizadas no vestuário infantil. Completando os lançamentos, o 600/2643 Prado Denim chega como um denim rígido de 11,5 onças, com forte efeito ring, desenvolvido para acompanhar o retorno da estética inspirada nos anos 2000.
ENTRE FIOS, IDEIAS E POSSIBILIDADES, CONSTRUIMOS O FUTURO. NA CANATIBA, A INOVAÇÃO QUE PAUTA NOSSAS CRIAÇÕES É O FIO QUE IMPULSIONA SUA MARCA.
CONSULTE SEU REPRESENTANTE E CONHEÇA A NOVA COLEÇÃO.
WWW.CANATIBA.COM.BR @CANATIBATEXTIL
SUSTENTABILIDADE
FUTURE FABRICS EXPO 2026: MATERIAIS E CIRCULARIDADE Por Clarissa Magalhães
N
ão dá mais para criar sem planejar o descarte. A nova regra da União Europeia que proíbe a destruição de estoques de roupas e calçados não vendidos acaba de entrar em vigor, como parte da implementação do Regulamento de Ecodesign (ESPR). Nesse novo contexto regulatório, um casamento de propósitos aconteceu: a tradicional Future Fabrics Expo saiu de Londres para realizar sua edição de 2026 ao lado da Textiles Recycling Expo, em Bruxelas. A mudança estratégica para o coração político da Europa foi justificada pela própria fundadora do evento, Nina Marenzi. Em comunicado oficial da feira, ela afirmou que as novas políticas da União Europeia estão reformulando a indústria, tornando Bruxelas o local ideal para que o setor têxtil atinja suas metas climáticas e se adapte a esse novo ambiente regulatório.
teriais. Suas áreas, desenvolvidas com curadoria especializada, abordam esses temas de forma criteriosa e aprofundada, explorando seus impactos mais amplos e destacando inovações pioneiras, tecnologias comerciais e iniciativas orientadas pela pesquisa que respondem aos desafios apresentados. Em 2026, a curadoria se concentrou em três grandes frentes:
A AMEAÇA INVISÍVEL: MICROFIBRAS E POLUIÇÃO QUÍMICA Microfibras, acabamentos químicos e poluentes tóxicos estão conectados ao longo de todo o ciclo
de vida dos têxteis, mas seus efeitos permanecem, em grande parte, invisíveis. O problema começa nas próprias fibras e nos processos utilizados para transformá-las em tecidos e produtos e se estende muito além da fábrica, atingindo pessoas e ecossistemas. Repensar os materiais utilizados em escala industrial significa, portanto, olhar também para aquilo que não aparece na etiqueta: o que é liberado durante a produção, o uso e o descarte. A área dedicada ao tema na FFE reúne pesquisas e soluções que buscam enfrentar essa questão, desde tecnologias capazes de reduzir a liberação de
Ao unir o design de novos materiais à engenharia reversa da reciclagem sob o mesmo teto, o evento deixa de ser apenas uma vitrine de materiais e inovação e passa a funcionar como um centro de sobrevivência prática para marcas que agora precisam se adaptar a um novo ambiente regulatório. Mas a mudança de endereço e a aproximação entre materiais e reciclagem não foram as únicas novidades. A cada ano, a FFE identifica os temas mais urgentes e relevantes que estão moldando o futuro da indústria em relação a sourcing e ma-
64
Revista Têxtil #797
Entrada Future Fabrics Expo & Textiles Recycling Expo. Foto: acervo pessoal Joy Pires
SUSTENTABILIDADE
Visão geral da Future Fabrics Expo. Foto: Divulgação FFE/JasminePhotos
microfibras até alternativas aos PFAS: substâncias químicas sintéticas extremamente persistentes, conhecidas como forever chemicals, utilizadas em diversos tratamentos e acabamentos têxteis. Exemplos de soluções relevantes apresentadas por expositores da FFE incluíram: • WTRLSS: Um processo patenteado de tingimento e acabamento digital em uma única etapa, pronto para aplicação comercial. Segundo testes internos, a tecnologia reduz em mais de 99% o uso de água em escala, além de diminuir significativamente as emissões e a utilização de auxiliares químicos tóxicos. • Beyond Surface Technologies: Acabamentos têxteis produzidos a partir de microalgas, ceras naturais e óleos de sementes vegetais. A tecnologia substitui produtos químicos derivados do petróleo por alternativas renováveis e de base biológica, reduzindo a dependência da indústria de insumos petroquímicos.
• Södra Liquid Forest® Tannin: Um tanino vegetal produzido a partir de um subproduto industrial de casca de árvore. Desenvolvido pela Södra, oferece uma alternativa ao curtimento convencional à base de cromo, substituindo insumos metálicos associados à contaminação de águas residuais e a riscos à saúde dos trabalhadores dos curtumes.
formadora, e não destrutiva. Por isso, a curadoria explora diferentes processos naturais capazes de decompor e recuperar materiais complexos, transformando-os em subs-
APRENDENDO COM A NATUREZA: BIODEGRADAÇÃO E CIRCULARIDADE TÊXTIL E se o design têxtil trabalhasse com os próprios processos de decomposição da natureza? Esta área da FFE parte da biodegradação como uma etapa possível para um sistema têxtil verdadeiramente circular, repensando os materiais desde o início para que possam, ao final de sua vida útil, retornar aos ciclos naturais. Mas biodegradar não significa necessariamente regenerar. A biodegradação precisa ser transOnceMore® da Södra. Foto: Divulgação FFE/JasminePhotos
Revista Têxtil #797
65
SUSTENTABILIDADE tâncias mais simples, por meio de rotas como a fermentação e o uso de fibras naturais regenerativas. Os expositores da FFE apresentam diferentes soluções para recuperar fluxos de materiais complexos: • CIRCULOSE®: Produzida a partir de resíduos têxteis pós-consumo ricos em algodão, a CIRCULOSE® utiliza um processo patenteado para transformar esse material em uma polpa que dá origem a fibras regeneradas semelhantes à viscose e ao liocel. Feita a partir de 100% de resíduos têxteis reciclados, a solução substitui a necessidade de utilizar matéria-prima virgem na produção dessas fibras.
Activewear Lenzing Tencel™. Foto: acervo pessoal Joy Pires
• RCO100TM: Fios e tecidos de algodão 100% reciclado produzidos a partir de resíduos pré e pós-consumo. O processo exclusivo da Säntis Textiles é totalmente mecânico, sem branqueamento ou uso de produtos químicos, reduzindo a dependência de matéria-prima virgem e de processos químicos. Ao preservar o comprimento das fibras, a tecnologia mantém a qualidade necessária para aplicações têxteis. • OnceMore®: Combina celulose de algodão recuperada de resíduos de tecidos de policotton no fim de sua vida útil com celulose de madeira. Desenvolvido pela Södra, o processo enfrenta um dos desafios da reciclagem têxtil, a recuperação de tecidos mistos, e permite utilizar essa celulose recuperada na produção de novas fibras, reduzindo a necessidade de fibras celulósicas artificiais virgens.
Regen Bio, o elastano de cana-deaçúcar. Foto: acervo pessoal Joy Pires
66
Revista Têxtil #797
• LENZING™ ECOVERO™ x REFIBRA™: Combina fibras de viscose com 20% de conteúdo têxtil reciclado pós-consumo, unindo madeira de fontes certificadas a matérias-primas têxteis recuperadas. A solução reduz a depen-
dência de matéria-prima virgem ao incorporar resíduos têxteis na produção de novas fibras.
O FUTURO DOS TÊXTEIS: BIOSSINTÉTICOS Os biossintéticos são produzidos total ou parcialmente a partir de fontes não fósseis, como biomassa, captura de CO₂ e carbono renovável. É uma categoria em rápido crescimento, mas que também levanta questões sobre a origem das matérias-primas, os processos utilizados e o fim de vida. Para as marcas, a origem biológica do material não deve ser confundida com biodegradabilidade. Por isso, não deixem de perguntar como o material é produzido e o que acontece após o uso: ele é biodegradável ou pode ser reciclado, reutilizado ou, ainda, seguir outra rota de circularidade? Embora os biossintéticos já tenham sido explorados pela FFE, 2026 foi o primeiro ano em que a feira dedicou uma área curada exclusivamente ao tema. Com o apoio da Hyosung TNC, a área explora o potencial desses materiais para transformar o setor têxtil em um momento em que a indústria busca reduzir sua dependência de insumos petroquímicos e enfrenta um cenário geopolítico cada vez mais complexo. As soluções apresentadas pelos expositores da FFE incluem: • RegenBIO: Um elastano à base de cana-de-açúcar que reduz significativamente a dependência de matérias-primas fósseis sem comprometer o desempenho. Na versão regen™ BIO Max, até 98% do conteúdo é derivado da cana-de-açúcar, representando a
SUSTENTABILIDADE maior aproximação da substituição de recursos fósseis alcançada pela indústria até o momento. Produzido em uma cadeia verticalmente integrada, que conecta o processamento da matéria-prima à fabricação da fibra, o material utiliza uma fonte renovável escolhida por sua capacidade de produção em escala e eficiência agrícola, com rastreabilidade na origem segundo critérios ambientais e sociais. Mesmo vindo da cana-de-açúcar, este material mantém a composição química do elastano comum: ele não é biodegradável, mas o seu fio pode ser reciclado isoladamente. Foi esse material que a Riachuelo utilizou no Pool Loop jeans, lançado este ano. • AMSilk: Proteínas de seda de base biológica produzidas por fermentação de precisão a partir de recursos renováveis, como açúcares vegetais. A AMSilk utiliza engenharia de proteínas para produzir fibras inspiradas na seda de aranha, sem recorrer a animais ou recursos fósseis. Seus fios são compostos por proteínas e aminoácidos e, segundo a empresa, são biodegradáveis, sem deixar microplásticos ao final de sua vida útil. Ao mesmo tempo, a estrutura molecular é desenvolvida para garantir resistência ao uso, permitindo aplicações que combinam desempenho e biodegradabilidade. Mas, além da curadoria oficial, fiquei curiosa para saber como as novidades apresentadas este ano foram percebidas por quem esteve na feira. Por isso, conversei com a empreendedora brasileira Joy Pires, cofundadora da REPAR(E), startup brasileira e britânica de infraestrutura de reparo impulsionada por inteligência artificial. Esta foi sua segunda participação na Future Fabrics Expo.
Para Joy, a edição deste ano se destacou pela maior presença de materiais com aplicação prática e pela aproximação entre inovação têxtil, performance e bem-estar. Clarissa: Esta foi sua segunda participação na Future Fabrics Expo. O que mudou em relação ao ano passado? Joy: Achei a edição de 2026 mais interessante porque encontrei uma variedade maior de tecidos com aplicação prática, que já podem ser utilizados no desenvolvimento de produtos. Também chamou minha atenção o crescimento dos functional fabrics, tecidos voltados para activewear e performance, mostrando uma conexão cada vez maior entre moda, bem-estar e wellness. Clarissa: Qual inovação mais chamou sua atenção este ano? Joy: O que mais me chamou a atenção foi a evolução das fibras de origem natural e celulósica, especialmente voltadas para performance e activewear. A feira apresentou uma presença forte de fibras como cânhamo, linho e alpaca, mostrando um movimento crescente de valorização de matérias-primas naturais combinadas com novas tecnologias. Um dos estandes mais movimentados foi o da Positive Materials, com uma ampla oferta de tecidos para performance e activewear. As soluções em TENCEL™, da Lenzing, voltadas para tecidos de alta performance, também foram um destaque, assim como o Hyosung regenBIO, um elastano de origem vegetal produzido a partir da cana-de-açúcar, com menor pegada de carbono e desempenho equivalente ao elastano convencional.
A empresa de corantes biossintéticos brasileira Aiper. Foto: acervo pessoal Joy Pires
O movimento do stand da Positive Materials focada em materiais de alta performance. Foto: acervo pessoal Joy Pires
Revista Têxtil #797
67
SUSTENTABILIDADE Na área de fibras e processos alternativos, a PLNTmatter apresentou o CleanBamboo, um lyocell sem madeira, produzido com química de circuito fechado e já testado para reciclagem. O Nano-Pulse™ chamou a atenção ao transformar cânhamo bruto em uma fibra semelhante ao algodão, o chamado cottonised hemp, adequada para produção têxtil comercial. O BioFleax, da LeafBio, trouxe uma alternativa ao PET produzida a partir de resíduos agrícolas. A OzoneBio apresentou nylon 66 de origem biológica produzido a partir de biomassa renovável, enquanto a NOOSA mostrou fibras totalmente vegetais com tecnologia proprietária de reciclagem contínua.
68
Revista Têxtil #797
Também me chamou a atenção a inovação em processos de acabamento e tratamento de materiais, como o Södra Liquid Forest® Tannin, uma alternativa de curtimento vegetal sem uso de cromo. A biotecnologia aplicada à química têxtil, especialmente aos processos de tingimento, foi outro ponto forte da feira. A WTRLSS apresentou uma tecnologia digital de tingimento que reduz o consumo de água, produtos químicos e emissões. A Octarine Bio trouxe corantes produzidos por fermentação de açúcares vegetais, e a AIPER, empresa brasileira fundada por Aliton Pereira, apresentou biopigmentos biodegradáveis produzidos a partir
de resíduos agroindustriais, com aplicação já desenvolvida para poliamida. O ponto em comum entre essas inovações é que elas já estão em escala comercial ou industrial. Isso mostra uma transição importante da fase experimental para soluções prontas para adoção pela indústria têxtil. Clarissa: O que achou da parceria com a Textiles Recycling Expo esse ano? Trouxe algum insight diferente para você? Joy: Achei a parceria uma combinação perfeita, pois trouxe uma visão complementar à inovação em materiais. A Textiles Recycling Expo destacou novas rotas de fim
SUSTENTABILIDADE de vida, como biodegradação controlada, separação molecular e recuperação de matérias-primas por processos biológicos, além do avanço das tecnologias de triagem com inteligência artificial. A SPECTRO T8, por exemplo, utiliza câmeras de infravermelho e inteligência artificial para identificar e separar resíduos têxteis por composição de fibras, incluindo poliéster, fibras naturais e misturas com predominância de fibras naturais ou sintéticas. A Trosort apresentou um sistema automatizado com IA para triagem, classificação e valorização de peças e resíduos têxteis. Já a Samsara Eco utiliza enzimas desenvolvidas com IA para reciclar nylon e poliéster em materiais equivalentes aos materiais virgens, mostrando o avanço dessas tecnologias para a escala industrial.
e fortalecer o network com empresas, pesquisadores e profissionais que estão liderando essa transformação. Este ano, a reciclagem teve um grande destaque, mas acredito que, nos próximos anos, o reparo ganhará mais espaço, por ser uma etapa funda-
mental da circularidade e um dos pilares relacionados ao Digital Product Passport (DPP). Muitas empresas ainda concentram suas estratégias na reciclabilidade, mas uma economia realmente circular precisa priorizar também o prolongamento da vida útil dos produtos.
Uma das minhas tecnologias preferidas foi a Climatex AG, empresa suíça focada em economia circular têxtil. A empresa desenvolve soluções como a DUALCYCLE, que permite a separação limpa de tecidos mistos, e os Dissolvable Threads, fios dissolúveis que facilitam a desmontagem dos produtos e a recuperação dos materiais no fim da vida útil. Clarissa: Mas o que realmente te motivou a voltar à Future Fabrics Expo esse ano? Joy: O que me motiva é acompanhar de perto as inovações que estarão no mercado, principalmente em materiais, circularidade e novas tecnologias para a indústria têxtil. Além disso, a FFE é um espaço importante para construir conexões, trocar conhecimento
Revista Têxtil #797
69
SENAI CETIQT RJ
OBSERVATÓRIO DA INDÚSTRIA TÊXTIL E DE CONFECÇÃO: INTELIGÊNCIA SETORIAL PARA IMPULSIONAR A SUSTENTABILIDADE Por: Marcelo Ramos, Gerente de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT Aglaé Tumelero , Especialista em Inteligência e Análise de Dados da gerência de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT
A
indústria têxtil e de confecção atravessa um período de profundas transformações que estão redefinindo a forma de produzir, consumir, inovar e competir em escala global. Exigências crescentes relacionadas à sustentabilidade, às mudanças climáticas, à gestão de recursos naturais, às condições de trabalho e à transparência das cadeias produtivas somam-se a tensões geopolíticas, avanços em inteligência artificial e um ambiente competitivo cada vez mais dinâmico. Essas exigências vêm impulsionando uma rápida evolução do ambiente regulatório internacional. Novas legislações e mecanismos de controle estão sendo implementados em diferentes regiões do mundo — especialmente nas Américas, na União Europeia e na Ásia —, estabelecendo diretrizes para rastreabilidade, devida diligência, economia circular e divulgação de informações ambientais, sociais e de governança (ESG). Essas mudanças são particularmente
70
Revista Têxtil #797
relevantes para o Brasil, já que importantes parceiros comerciais da indústria têxtil nacional, tanto na importação quanto na exportação, estão entre os mercados que lideram essa transformação regulatória. Mais do que acompanhar essas mudanças, a indústria brasileira tem condições de participar ativamente delas. O país reúne ativos estratégicos que o diferenciam no contexto internacional: trata-se da quinta maior indústria têxtil do mundo, posicionamento que decorre da combinação entre escala produtiva, mercado interno robusto e uma cadeia de valor completa e
presente em todo o território nacional, da produção de fibras e manufaturas têxteis à confecção e ao varejo. Com faturamento consolidado de R$ 221 bilhões em 2024, a cadeia produtiva têxtil envolve cerca de 25,7 mil empresas, mantém cerca de 1,34 milhão de empregos diretos, posicionando-se como o segundo maior empregador da indústria de transformação brasileira. Liderar processos de transformação, porém, exige decisões qualificadas e informadas por dados e informações confiáveis. Foi com esse entendimento que o SENAI CETIQT e a ABIT
SENAI CETIQT RJ lançaram, em 2025, o Observatório da Indústria Têxtil e de Confecção. Trata-se do primeiro observatório setorial da Rede de Observatórios do Sistema Indústria, com atuação estruturada em dois núcleos temáticos — o Núcleo de Estudos de Futuro (NUEF), dedicado à produção de estudos de cenários e tendências setoriais, e o Núcleo de Sustentabilidade e Economia Circular (NUSEC), orientado às questões de sustentabilidade e economia circular da cadeia têxtil e de confecção. Instalado no SENAI CETIQT, no Rio de Janeiro, o Observatório encontra na instituição um ambiente naturalmente vocacionado para essa missão. Há sete décadas, o SENAI CETIQT acompanha de perto as transformações da indústria têxtil e de confecção, consolidando-se como um dos principais polos de formação e desenvolvimento tecnológico do setor, conectando educação, pesquisa aplicada e soluções industriais.
O Observatório reúne infraestrutura tecnológica para coleta e processamento de dados, acesso a bases de dados nacionais oficiais e uma equipe multidisciplinar formada por especialistas em sustentabilidade, materiais, confecção, têxtil e análise de dados, dedicada à produção de conhecimento estratégico para o setor. Seu principal projeto hoje é a construção dos indicadores de sustentabilidade da indústria têxtil e de confecção: um conjunto de 102 indicadores capazes de acompanhar a evolução do setor ao longo do tempo em temas como meio ambiente, capital humano, capital social, inovação e governança. A iniciativa busca qualificar as decisões setoriais, apoiar as atividades de defesa de interesse da ABIT e comunicar de forma transparente a realidade socioambiental da cadeia produtiva têxtil e de confecção nacional. A construção dos indicadores também responde a um desa-
fio histórico. Grande parte das informações relacionadas à sustentabilidade do setor é produzida pelas próprias empresas e encontra-se dispersa entre diferentes bases de dados e órgãos governamentais, como o IBAMA, o IBGE e o Ministério do Trabalho e Emprego. Essa dispersão dificulta a consolidação de uma visão integrada sobre a evolução do desempenho socioambiental do setor. Como consequência, reduz-se a capacidade de identificar prioridades, monitorar avanços e demonstrar resultados de forma consistente, transparente e confiável. O projeto representa um passo estratégico para superar essa fragmentação, ao consolidar informações atualmente dispersas e criar as condições necessárias para sua integração e análise. Com isso, fortalece a capacidade do setor de monitorar seu desempenho, identificar oportunidades de melhoria e subsidiar a formulação de estratégias de longo prazo.
Revista Têxtil #797
71
REACHR
O CUSTO QUE NÃO ESTÁ NO DRE
N
a indústria têxtil, produtividade, qualidade e prazo dependem de máquinas, processos e das pessoas que os operam. Ainda assim, muitas empresas analisam seus indicadores de forma departamental: a operação acompanha produtividade, o financeiro observa custos e receitas, e o RH monitora quem entra e quem sai.
O salário da vaga aberta deixa de ser pago, mas o trabalho não desaparece. Ele é redistribuído, adiado ou executado com menor eficiência. Surgem gargalos, retrabalho, refugo, instabilidade na qualidade, horas extras e perda de velocidade. Em funções técnicas ou de liderança, a ausência pode comprometer decisões e o ritmo de equipes inteiras.
Quando a qualidade da entrega cai, a margem diminui ou a rotatividade aumenta, cada área tende a olhar para os próprios números. Assim, a empresa pode deixar de enxergar causas relacionadas.
O mesmo ocorre quando a urgência leva a uma contratação desalinhada. Salário, encargos e rescisão são apenas a parte visível. Há também nova seleção, treinamento sem retorno, tempo do gestor, queda de produtividade e resultados não entregues. São perdas reais, embora não apareçam reunidas em uma linha específica do DRE.
Por trás desses resultados, pode existir uma origem que poucas organizações medem com mais clareza: o impacto da cadeira vazia. Uma posição aberta não representa apenas a ausência de um profissional. Ela reduz a capacidade da equipe e transfere responsabilidades.
Por isso, contratar não deve ser tratado apenas como atividade administrativa. Toda contratação é uma decisão econômica: envolve
Reachr - Plataforma de Recrutamento e Seleção com Inteligência Artificial
72
Revista Têxtil #797
Por Vanessa San Jorge investimento, curva de aprendizagem, expectativa de entrega e retorno esperado. Quanto mais crítica a posição, maior o impacto da demora ou do erro sobre produção, qualidade e atendimento. Empresas que conectam recrutamento à eficiência operacional acompanham mais do que vagas abertas e fechadas. Avaliam tempo até produtividade, turnover inicial, custo de reposição, qualidade da contratação e impacto das posições críticas. Esses dados ajudam a identificar gargalos, revisar critérios e evitar decisões tomadas apenas pela urgência. Em um setor pressionado por produtividade e competitividade, contratar melhor significa proteger prazo, qualidade e margem. A pergunta não é apenas quanto custa contratar, mas quanto a indústria perde quando não consegue colocar as pessoas certas nos lugares certos.
REACHR
Colocar as pessoas certas no lugar certo reduz o impacto da cadeira vazia A Reachr é a plataforma de recrutamento e seleção com IA que apoia empresas a colocar as pessoas certas nos lugares certos. Reúne vagas, candidatos, avaliações, etapas e indicadores em um único ambiente para acelerar contratações, reduzir erros de escolha e diminuir o impacto das posições abertas sobre produtividade, qualidade e margem. Saiba mais em reachr.com.br
Revista Têxtil #797
73
MERCADO
QUANDO O DINHEIRO FICA MAIS CARO, O PRODUTO PRECISA VALER MAIS Por Daniela Marx
E
xiste uma mudança acontecendo no consumo brasileiro que já começa a aparecer nos números. Depois de mais de 20 anos trabalhando nos bastidores da moda, passando por empresas como Bershka, do Grupo Inditex - ZARA, GUESS Europe, Topshop, Renner, Riachuelo e AMARO, aprendi que alguns dos movimentos mais importantes do mercado começam muito antes de aparecerem claramente nas vendas. Eles surgem no comportamento, na economia, nas decisões de compra e, principalmente, naquilo que o consumidor passa a considerar prioridade. E os sinais atuais merecem atenção. Não porque estejamos necessariamente diante de uma recessão ou porque seja possível decretar que o brasileiro deixará de consumir. Economia não funciona dessa maneira. Mas porque existe hoje uma combinação de endividamento elevado, forte comprometimento da renda, crédito caro e menor espaço para expansão do consumo que coloca empresas e indústrias diante de um cenário que exige atenção. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias chegou a 49,8% em março de 2026, apenas 0,1 ponto percentual abaixo do recorde da série, registrado em julho de 2022. O comprometimento da renda com o pagamento das dívidas chegou a 29,3%, depois de atin-
74
Revista Têxtil #797
gir 29,6% no mês anterior. O próprio Banco Central destaca que o endividamento permanece em patamar elevado desde o final de 2021. É este segundo indicador que considero particularmente importante para quem acompanha o consumo. Quando quase 30% da renda considerada pelo indicador está comprometida com operações de crédito, sobra menos espaço para novas decisões de consumo. E quanto maior a parcela destinada a dívidas, juros e despesas essenciais, maior tende a ser a disputa pelo restante do orçamento. Para setores discricionários, como moda, vestuário e calçados, é um sinal que não deveria ser ignorado.
OLHAR PARA O CENÁRIO COM PREOCUPAÇÃO NÃO SIGNIFICA CONSTRUIR UMA NARRATIVA DE CATÁSTROFE Os últimos dados disponíveis do varejo mostram justamente por que precisamos tomar cuidado com generalizações. Em maio de 2026, o comércio varejista brasileiro variou apenas 0,1% em relação ao mês anterior. Tecidos, vestuário e calçados, porém, avançaram 3,5% na comparação com maio de 2025. Mas o resultado de maio, isoladamente, não representa o desempenho do setor. No acumulado de
MERCADO 2026, as vendas de tecidos, vestuário e calçados cresceram apenas 0,1%. E, considerando os últimos 12 meses, houve queda de 0,5%. Ou seja, apesar do crescimento registrado em maio, o setor permanece praticamente estagnado quando analisamos um período mais longo. Não existe, até aqui, evidência suficiente para dizer que o brasileiro parou de comprar roupas. Existe, sim, um mercado com baixo crescimento, comportamento irregular e inserido em uma economia na qual a capacidade financeira das famílias está bastante pressionada. E essa combinação importa porque a pressão não está acontecendo apenas no Brasil.
O CENÁRIO INTERNACIONAL TAMBÉM MOSTRA DESACELERAÇÃO O relatório The State of Fashion 2026, produzido pela McKinsey em parceria com o The Business of Fashion, descreve um mercado global marcado por crescimento baixo, volatilidade econômica, tarifas, mudanças no comportamento do consumidor e uma busca muito maior por valor. Entre os executivos de moda entrevistados, 46% esperavam uma piora das condições da indústria em 2026, contra 39% no levantamento anterior. Ao mesmo tempo, 25% acreditavam em melhora, mostrando um cenário desafiador, mas longe de ser uniforme. Segundo a McKinsey, 70% dos consumidores pesquisados globalmente disseram que pretendiam gastar menos e 80% apresentavam algum comportamento de busca por valor, como pesquisar mais
antes da compra ou esperar uma oportunidade melhor. A palavra importante aqui é valor. Não necessariamente preço. Um consumidor mais cauteloso não deixa automaticamente de consumir. Mas começa a estabelecer prioridades diferentes para o dinheiro disponível. E essa mudança está acontecendo ao mesmo tempo em que outro elemento reorganiza a indústria mundial: o comércio internacional.
TARIFAS VOLTARAM AO CENTRO DAS DECISÕES DA MODA Durante décadas, uma das principais lógicas da globalização da moda foi relativamente simples: buscar produção onde fosse possível obter maior eficiência de custo. Esse cenário está mudando. No State of Fashion 2026, 76% dos executivos afirmaram que as disrupções comerciais e o aumento das tarifas terão impacto sobre a indústria neste ano. Nos Estados
Unidos, a tarifa média ponderada sobre importações de vestuário e calçados chegou a saltar de 13% para 54% durante 2025, antes de recuar para 36% quando o relatório foi produzido — ainda muito acima dos níveis históricos. As consequências ultrapassam os Estados Unidos. Empresas estão revendo países fornecedores, custos, produtividade, automação, tecnologia, estoques e a própria configuração de suas cadeias produtivas. O Brasil também está inserido nesse movimento. Nos últimos meses, decisões envolvendo tarifas e medidas de defesa comercial passaram a atingir diferentes produtos da cadeia têxtil e de vestuário, tanto nas exportações brasileiras quanto nas importações de matérias-primas e produtos provenientes de outros mercados. Para uma indústria inserida em uma cadeia global, essas mudanças acrescentam novas variáveis às decisões das empresas: onde produzir, de onde comprar, para quais mercados vender e a que custo.
Revista Têxtil #797
75
MERCADO
E existe um caso recente que ajuda a entender essa discussão por outro ângulo — e que diz muito sobre competitividade na indústria da moda.
bricantes que aderiram ao projeto abandonou a parceria diante das exigências de preço e velocidade de produção.
É o que aconteceu quando a Shein tentou reproduzir no Brasil parte do modelo produtivo que sustenta sua operação na China.
O caso revelou algo importante sobre competitividade. O modelo da Shein não depende apenas de mão de obra barata. Na China, a empresa está conectada a cerca de 7 mil fábricas e opera dentro de um ecossistema construído ao longo de décadas, reunindo escala, fornecedores especializados, matérias-primas, tecnologia, logística e capacidade para produzir pequenos lotes e responder rapidamente à demanda.
O QUE A TENTATIVA DA SHEIN DE PRODUZIR FORA DA CHINA NOS ENSINA Em 2023, a Shein anunciou um plano ambicioso para o Brasil: investir US$ 150 milhões e estabelecer parcerias com 2 mil fábricas brasileiras. Mas uma investigação publicada pela Reuters em 2026 mostrou que parte dos fa-
76
Revista Têxtil #797
E o Brasil não foi uma exceção. A tentativa de ampliar a produção no Vietnã também foi reduzida.
Segundo a Reuters, fornecedores chegaram a retornar para a China diante das dificuldades de reproduzir a mesma eficiência encontrada no país. Esses movimentos ajudam a desconstruir uma comparação recorrente na indústria: competitividade não é apenas preço. A vantagem chinesa está na integração de todo um sistema produtivo — algo que não pode ser simplesmente transferido de um país para outro. E isso levanta uma questão importante para o Brasil: em vez de tentar competir apenas com o custo da produção chinesa, em quais atributos podemos construir vantagens que outros mercados terão dificuldade de reproduzir?
MERCADO A Argentina oferece um alerta próximo. Após a redução das tarifas de importação sobre roupas e calçados e a flexibilização das compras internacionais, a participação chinesa nas importações argentinas de têxteis e vestuário passou de aproximadamente 55% em 2022 para 70% em 2025. Ao mesmo tempo, o setor perdeu milhares de empregos e empresas da indústria passaram a operar abaixo de sua capacidade. Brasil e Argentina têm estruturas econômicas e industriais diferentes, portanto não se trata de prever que o mesmo acontecerá aqui. Mas o caso reforça uma questão central: quando consumo, importações e custos de produção mudam simultaneamente, saber onde e como competir deixa de ser uma escolha e passa a ser uma decisão estratégica.
O QUE AS EMPRESAS QUE ESTÃO CONSEGUINDO CRESCER ENTENDERAM? Mesmo em um cenário de baixo crescimento, alguns segmentos continuam avançando. O State of Fashion 2026 aponta o mid-market, segmento intermediário, como a faixa de crescimento mais rápido da moda global. Enquanto parte do luxo elevou preços sem entregar ao consumidor uma percepção equivalente de qualidade e criatividade, marcas intermediárias vêm ganhando espaço ao investir em produto, design e experiência. A mensagem é importante: valor não é sinônimo de preço baixo. É a relação entre o que o consu-
midor paga e aquilo que percebe receber em qualidade, tecnologia, funcionalidade, design, durabilidade e inovação. Para o Brasil, essa discussão ganha ainda mais relevância. Temos uma cadeia têxtil e de confecção ampla, proximidade do mercado consumidor, capacidade de desenvolvimento, tecnologia têxtil, design e conhecimento das particularidades do consumo local. Ao mesmo tempo, precisamos avançar em produtividade e eficiência. É também o movimento observado internacionalmente. Segundo McKinsey e BoF, empresas e fornecedores globais vêm ampliando investimentos em automação, digitalização, inteligência artificial, planejamento de demanda e maior integração da cadeia para ganhar produtividade e agilidade. Portanto, não se trata de escolher entre eficiência e diferenciação. Precisamos ser mais eficientes onde o custo importa e gerar mais valor onde competir apenas por preço não é sustentável. E quanto mais desafiador o mercado, maior o custo das decisões erradas.
Quantidade, matéria-prima, categoria, preço, timing e posicionamento passam a exigir ainda mais precisão. É por isso que indicadores de endividamento, consumo, produção industrial, importações e comportamento não deveriam ser vistos apenas como dados econômicos. Eles precisam ajudar a orientar as decisões sobre o que produzir, quanto produzir e onde estão as oportunidades de mercado.
A INDÚSTRIA TÊXTIL TAMBÉM PODE ASSUMIR UM NOVO PAPEL Existe ainda uma oportunidade que considero particularmente importante para a nossa cadeia. A indústria têxtil conhece profundamente aquilo que produz, mas nem sempre todo esse conhecimento chega ao consumidor final. Uma fibra nova, uma construção diferente, uma tecnologia de performance, maior durabilidade, conforto térmico, elasticidade, respirabilidade ou um processo produtivo mais eficiente podem representar anos de pesquisa e investimento.
Revista Têxtil #797
77
MERCADO Mas existe uma diferença entre ter inovação e conseguir transformar inovação em valor percebido. Em um mercado mais disputado, talvez a indústria precise se aproximar ainda mais de quem transforma seus tecidos em produto e de quem coloca esses produtos diante do consumidor. Não apenas fornecendo matéria-prima, mas oferecendo informação, tecnologia, dados, possibilidades de aplicação e argumentos capazes de percorrer toda a cadeia. Tecelagem, confecção, marca, varejo e consumidor não podem mais funcionar como universos completamente separados. Quanto mais informação circular entre esses elos, maior a capacidade de desenvolver o produto certo, na quantidade certa e para uma de-
78
Revista Têxtil #797
manda que realmente existe.
ONDE A INDÚSTRIA BRASILEIRA REALMENTE CONSEGUE COMPETIR? Quais produtos ainda estamos tentando vender apenas porque sempre produzimos dessa maneira? Em quais categorias tecnologia e inovação podem aumentar nosso valor agregado? Quanto daquilo que desenvolvemos como inovação chega de fato até o consumidor? Estamos utilizando dados para decidir o que produzir ou continuamos reagindo ao que já aconteceu? Como aproximar indústria, confecção e varejo para responder mais rapidamente às mudanças do mercado?
E, principalmente: se o consumidor tiver menos dinheiro disponível para moda, o que fará o produto brasileiro merecer uma parte maior desse orçamento? Não vejo os números atuais apenas como um anúncio de tempos mais difíceis. Vejo como um chamado para elevar a qualidade das decisões. Porque mercados mais competitivos não eliminam oportunidades. Eles mudam onde elas estão. E talvez a maior vantagem dos próximos anos não pertença necessariamente a quem conseguir colocar mais produtos no mercado, mas a quem conseguir entender antes o que o consumidor continuará considerando valioso quando precisar escolher melhor onde gastar.
MERCADO
PALESTRA CONSUMIDOR DO FUTURO 2028 CONSCIENTE, ESPIRITUAL E EMOCIONAL: WGSN REVELA
D
efinir o perfil do consumidor brasileiro nos próximos anos vai englobar pilares como emoção, um cliente mais consciente, mas ainda polarizado e até mesmo uma fuga da hiper conexão. É o que revela uma pesquisa da consultoria WGSN América Latina, apresentada no segundo dia (29) do Fórum E-Commerce Brasil 2026. Rafael Araújo, head da consultoria, afirma que a emoção será um dos pilares principais para as empresas, diante da intensidade emocional que facilita a construção de customização, trazendo diferenciação e lembrança.
EMOÇÕES PASSAM A INFLUENCIAR O CONSUMO De acordo com a pesquisa, 80% dos brasileiros se declaram felizes atualmente, apesar da imprevisibilidade vista com tarifas, inflação e outros fatores. O estudo também revela, que a felicidade dos brasileiros está intrinsecamente ligada à quietude, 22% a relacionam com a fé ou a vida espiritual. “Há uma busca por bem-estar mental e atividades que tragam mais espiritualidade”, disse Araújo. Outro valor presente no estudo é a resiliência criativa. Segundo boa parte dos brasileiros, a criatividade não é mais acessível para todo mundo. O estudo aponta que 43% da Geração Z acredita que, até 2030, a criatividade será reduzida pela uniformização. Por outro lado, o pensamento criativo ainda permanece no top 4 das habi-
Por Laura Yamane lidades corporativas até 2030. Para 86% dos brasileiros é importante que as marcas mostrem empatia e se conectem com as necessidades do consumidor. Quais são os perfis de consumidores? O estudo destaca que em 2028, quatro perfis de consumidores devem coexistir: otimizadores, guardiões, restauradores e questionadores. 1. Os otimizadores são aqueles movidos por emoções que levam a descobertas e desenvolvimento pessoal. Muitos deles, segundo Araújo, já estão lidando bem com a tecnologia. “O medo de perda de empregos com IA e tecnologia diminuiu de 56% para 48%, enquanto a camada mais informada que não tem medo aumentou de 41% para 49%”, observa o especialista. Essa mudança de pensamento fica nítida no fato que 71% dos profissionais brasileiros usaram IA nos últimos 12 meses, patamar acima da média. O mesmo percentual também quer que a IA seja integrada ao varejo, “O que vai contar é o nível de credibilidade”, aponta. 2. Já em relação aos guardiões, o principal motor é o senso de segurança, com 83% dos consumidores preocupados com a proteção de dados para confiar nas marcas. Além de selos de vida útil dos produtos, como o caso dos relógios Rolex, que possuem um selo de certificação de que a vida útil do produto é maior que a jornada de um cliente, exemplifica Araújo.
3. No perfil dos restauradores estão os consumidores que enxergam mudanças com certa ansiedade e buscam restaurar a calma com experiências sensoriais e práticas holísticas e espirituais. É o cliente que quer se desligar de um mundo hiper conectado. Araújo explica que muitas marcas se aproximam deste tipo de consumidor com estratégias para auxiliá-los a se reconectar com o mundo físico, como fragrâncias, sabores, processos. 4. O último tipo de consumidor é o questionador, sobre o que é verdade e o que não. De acordo com o estudo, 7 em cada 10 brasileiros possuem mentalidade insular, ou seja, não conseguem se conectar com quem pensa diferente. “Um consumidor cada vez mais polarizado com outras pessoas e marcas”, disse o especialista. Apesar de ser um perfil complexo, o jogo não está perdido para Araújo e muitas marcas já conseguiram usufruir deste tipo de consumidor, usando estratégias como incentivar as críticas ou usar a sagacidade como arma.
Revista Têxtil #797
79
ESTAMPARIA
A TRANSFORMAÇÃO DA ESTAMPARIA TÊXTIL: DIGITALIZAÇÃO, PRODUÇÃO SOB DEMANDA E NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO Por Sarah Caldas
E
m entrevista à Revista Têxtil, Felipe Sanchez, CEO do Grupo Bloom, apresenta uma análise abrangente sobre o momento vivido pela indústria da estamparia têxtil e os principais desafios e oportunidades que moldam o futuro do setor. Para ele, o mercado atravessa uma transformação estrutural que vai muito além da substituição de tecnologias analógicas por equipamentos digitais. Trata-se de uma mudança na forma de produzir, vender e responder ao comportamento de um consumidor cada vez mais exigente, conectado e imprevisível. Segundo o executivo, a estamparia mundial enfrentou nos últimos anos uma das maiores retrações de sua história, com redução significativa dos volumes produzidos. Entretanto, os sinais atuais indicam uma retomada consistente, impulsionada por novos modelos de produção e pelo crescimento da digitalização. No Brasil, essa recuperação acontece em paralelo a uma revisão profunda dos processos industriais, marcada pela necessidade de reduzir desperdícios, aumentar a velocidade de resposta ao mercado e tornar as empresas mais competitivas. Felipe destaca que o consumidor deixou de aceitar longos ciclos de desenvolvimento e coleções rígidas. Hoje, a demanda está cada vez mais pulverizada, personali-
80
Revista Têxtil #797
zada e dinâmica. Nesse contexto, manter grandes estoques representa um risco crescente. A competitividade deixa de depender exclusivamente do menor custo de produção e passa a estar diretamente relacionada à capacidade de entregar rapidamente aquilo que o mercado deseja consumir. Para o CEO do Grupo Bloom, a digitalização não pode ser confundida apenas com a aquisição de novos equipamentos de impressão. Ela envolve uma transformação completa do modelo operacional, baseada na integração entre criação, vendas, produção e logística. O uso de dados, sistemas conectados e processos automatizados passa a orientar a tomada de decisões, reduzindo retrabalhos, aumentando a produtividade e permitindo respostas muito mais rápidas às mudanças do mercado.
Embora reconheça que o Brasil tenha avançado significativamente na adoção da impressão digital têxtil, Felipe considera que o país ainda está distante do nível de maturidade observado em mercados mais desenvolvidos. Muitas empresas já compreenderam o potencial das novas tecnologias, mas ainda mantêm estruturas organizacionais e modelos de gestão voltados para grandes volumes e baixa flexibilidade. A mudança cultural, segundo ele, continua sendo um dos maiores desafios para acelerar a transformação digital. Além da resistência natural à mudança, o executivo aponta outros fatores que dificultam esse avanço. Entre eles estão a escassez de profissionais qualificados, capazes de operar tecnologias cada vez mais sofisticadas, e principal-
ESTAMPARIA mente o elevado custo do capital no Brasil. Enquanto empresas europeias conseguem acessar linhas de financiamento com juros reduzidos, a indústria brasileira frequentemente enfrenta taxas elevadas e condições pouco favoráveis para investimentos em inovação, limitando a velocidade de modernização do parque industrial. Um dos temas centrais da entrevista é a produção sob demanda, apresentada como uma das principais estratégias para reduzir desperdícios e aumentar a eficiência econômica da cadeia têxtil. Felipe explica que comparar apenas o custo unitário de uma peça produzida sob demanda com o da produção convencional é uma análise incompleta. Mesmo que a fabricação individual apresente um custo ligeiramente superior, a redução de estoques, remarcações, perdas comerciais, capital imobilizado e descarte de produtos faz com que o resultado financeiro global seja mais favorável.
produzir em resposta à demanda real do mercado. Para isso, torna-se fundamental integrar departamentos tradicionalmente isolados, acelerar processos de aprovação e incorporar tecnologias como inteligência artificial, automação e análise de dados como ferramentas permanentes de gestão. Outro ponto amplamente discutido é o modelo de impressão como serviço. Em vez de adquirir equipamentos de alto valor, as empresas passam a utilizar a tecnologia me-
diante pagamento proporcional ao uso, transformando investimentos de capital em despesas operacionais. Segundo Felipe, esse formato reduz barreiras de entrada, amplia o acesso à inovação e cria uma relação mais próxima entre fornecedor e cliente, já que ambos passam a compartilhar a responsabilidade pela eficiência operacional e pelos resultados da produção. O executivo destaca ainda que esse modelo garante atualização tecnológica constante. Em um mercado
Na sua avaliação, o futuro da indústria será híbrido. A produção em larga escala continuará existindo para determinados segmentos, especialmente produtos básicos e commodities têxteis. Entretanto, coleções de moda, produtos personalizados, lançamentos frequentes e reposições rápidas tendem a migrar cada vez mais para modelos flexíveis, capazes de produzir exatamente aquilo que será vendido, reduzindo significativamente o risco de excedentes. Essa mudança exige uma nova mentalidade empresarial. As organizações deixam de produzir para formar estoques e passam a
Tecidos impressos podendo esconder a área de impressão
Revista Têxtil #797
81
ESTAMPARIA onde novos equipamentos são lançados em intervalos cada vez menores, pagar pelo uso da tecnologia pode representar uma alternativa financeiramente mais eficiente do que investir continuamente em máquinas sujeitas à rápida obsolescência. Ao abordar a sustentabilidade, Felipe propõe uma reflexão importante. Para ele, o principal problema ambiental da indústria da moda não está apenas no consumo de água, energia ou insumos químicos, mas principalmente na produção de itens que nunca serão efetivamente vendidos. A verdadeira sustentabilidade, afirma, está na capacidade de produzir apenas aquilo que será consumido, eliminando desperdícios ao longo de toda a cadeia produtiva. Nesse sentido, a impressão digital e a produção sob demanda tornam-se ferramentas fundamentais para reduzir impactos ambientais e melhorar simultaneamente os resultados econômicos das empresas. Segundo o executivo, sustentabilidade e rentabilidade precisam caminhar juntas para que a transformação aconteça em larga escala. Felipe também analisa o papel do Grupo Bloom como integrador de tecnologias internacionais no mercado brasileiro. Após duas décadas de atuação, a empresa busca adaptar soluções globais às condições específicas da indústria nacional, oferecendo suporte técnico, modelos financeiros, treinamento e desenvolvimento de novos formatos de negócio capazes de acelerar a adoção das tecnologias digitais. Apesar do avanço tecnológico, ele reconhece que ainda existe um descompasso entre a oferta das soluções mais avançadas e a realidade
82
Revista Têxtil #797
produtiva brasileira. Tecnologias de altíssima produtividade, como sistemas Single Pass, exigem volumes de produção que muitas empresas nacionais ainda não conseguem atingir. Para superar essa limitação, será necessário reduzir o chamado “Custo Brasil”, ampliar o acesso ao crédito e criar condições para que a indústria nacional ganhe escala e competitividade frente aos concorrentes internacionais. Questionado sobre o futuro da estamparia digital, Felipe acredita que o crescimento ocorrerá tanto pela evolução das empresas já consolidadas quanto pela entrada de novos players, normalmente mais leves, digitais e inovadores. A convivência entre grandes grupos e novos empreendedores deverá acelerar o ritmo das transformações nos próximos anos. Ele também prevê uma integração cada vez maior entre design, plataformas de e-commerce, inteligência artificial e produção industrial. Essa conexão permitirá reduzir drasticamente o tempo entre criação, fabricação e entrega dos pro-
dutos, transformando a estamparia em um centro estratégico de informação, produtividade e tomada de decisão dentro da cadeia têxtil. Encerrando a entrevista, Felipe apresenta algumas das novidades que o Grupo Bloom pretende lançar nos próximos meses. Entre elas estão soluções de impressão digital com pigmento para tecidos em rolo com câmeras que controlam a área do tecido onde se quer imprimir, impressão de áreas inteirara de uma cor psra subistituir a tinturaria para metragens menores, novos modelos comerciais baseados em pagamento por uso, maior integração entre inteligência artificial, automação de fluxo e digitalização completa dos processos produtivos. O objetivo, segundo ele, é democratizar o acesso às tecnologias mais modernas, permitindo que empresas de diferentes portes aumentem sua produtividade, reduzam custos e fortaleçam sua competitividade em um mercado cada vez mais orientado por velocidade, inteligência e eficiência.
DESIGN & IMPRESSÃO TÊXTIL
DA CRIAÇÃO À IMPRESSÃO Uma estrutura completa para transformar ideias em estampas prontas para o mercado.
01
02
03
Estampas autorais, coleções, ilustrações e colorways.
Digitalização, separação e gerenciamento de cores, testes e amostragem.
Impressão têxtil rolo a rolo e localizada, com acompanhamento técnico.
CRIAÇÃO
PREPARAÇÃO TÉCNICA
IMPRESSÃO DIGITAL
FALE COM A GENTE
+55 11 99631-4977 @avacadcamgroupltd sarah.caldas@avacadcam.com
+55 11 97614-9475 @studioraquelucena contato@studioraquelucena.com
MODA
DRAGÃO FASHION BRASIL CELEBRA A IDENTIDADE DO CEARÁ MODA, ANCESTRALIDADE E CRIATIVIDADE NORDESTINA MARCARAM A 27ª EDIÇÃO DO DFB FESTIVAL, EM FORTALEZA Por Fred Haydu Fotos: Paula Matos/Ducker Studio
F
ortaleza voltou a ser palco de uma das principais celebrações da moda autoral brasileira. De 9 a 12 de junho, o Dragão Fashion Brasil – DFB Festival 2026 ocupou a Praia de Iracema, retomando um dos territórios mais emblemáticos da história do evento. A edição integrou as comemorações dos 300 anos da capital cearense e aproximou moda, memória, cultura e identidade regional. O retorno à Praia de Iracema reforçou a proposta de conectar a moda ao território e à história de Fortaleza. Com o conceito “Praia de Iracema: coração e cérebro da Cidade Dragão”, o festival apresentou uma programação que valorizou a produção criativa do Nordeste e a diversidade de suas expressões culturais.
84
Revista Têxtil #797Vai Maria
MODA Nas passarelas, o artesanato cearense ganhou protagonismo, traduzido em diferentes interpretações contemporâneas. Técnicas, materiais e referências tradicionais foram incorporados às coleções, mostrando como a herança cultural pode dialogar com design, inovação e novos códigos de moda. Entre os destaques esteve Lino Villaventura, um dos nomes mais importantes da moda brasileira e figura histórica do DFB.
Lino Villaventura
Mais do que uma semana de desfiles, o DFB mantém sua vocação como plataforma de formação, descoberta de novos talentos e valorização da moda autoral. A presença de criadores, estudantes e marcas de diferentes regiões amplia o diálogo entre tradição e contemporaneidade. Ao celebrar Fortaleza e suas raízes, o Dragão Fashion Brasil reafirma uma característica que acompanha sua trajetória: transformar a cultura brasileira em linguagem de moda. Em um mercado cada vez mais globalizado, o festival mostra que identidade, território e memória continuam sendo matérias-primas poderosas para criar o novo.
George Azevedo
Rodrigo Tremembé Rebeca Sampaio
Revista Têxtil #797
85
DRAGÃO FASHION
Jô de Paula
David Lee Almir França 4Town
Lindebergue
Orla
86
Revista Têxtil #797
Orla
Casa Aika
DRAGÃO FASHION
Morada Mãos da Moda
Oco Club
407 AA
Patú
Nordestesse
Mancunda
Intui
Lino Villaventura
Revista Têxtil #797
87
MODA
DENIM GANHA NOVA RELEVÂNCIA O JEANS CONQUISTA AS PRINCIPAIS PASSARELAS MASCULINAS DE MILÃO E PARIS Por GuiaJeanswear
C
omeçou a temporada do Verão 2027 europeu, para nós, 2028; e já estamos de olho no que aconteceu durante as Semanas de Moda Masculina de Milão e Paris. Cores vibrantes, tecidos leves, mix de estampas e modelagens que transitam entre o slim e o amplo definem a estação. Nesse cenário, o denim ganha nova relevância e aparece renovado em lavagens, texturas, efeitos artesanais, brilho, alfaiataria e proporções. Na Celine, de Michael Rider, o jeans vem clássico, no raw ou baby blue, enquanto as sarjas ganham shapes cenoura em black e amarelo com pinceladas pretas. Referências dos anos 60, 70 e 80 aparecem em sobreposições, calças Aladim, franjas metalizadas e muitas modelagens slim.
jas estruturadas, enquanto o leather denim continua forte. Suspensórios usados como amarração na cintura
e o cós do jeans branco aparente reforçam as sobreposições, tendência que ganha espaço no varejo.
Dior
Dior
Louis Vuitton
Prada
A Willy Chavarria aposta nos microflorais, calças amplas, shorts boxer, jaquetas de couro e jeans com gola em sarja. Blazers de ombros marcados, camisaria e bermudas até o joelho completam a proposta. Na Jacquemus, o denim divide espaço com sarjas de algodão plissadas, saias mídi volumosas e tops recortados. A cartela traz amarelos, rosas, azuis e verdes. Em Dries Van Noten, o nude aparece no double denim com bordados no mesmo tom. O homem da Prada surge elegante e sensual, com cintura baixa, pernas ajustadas e lavagens ousadas, como o white denim resinado. Looks all denim aparecem em sar-
88
Revista Têxtil #797
MODA Na Dior, o jeans vintage ganha puídos, esbranquiçados e muitos rasgos, contrapondo metalizados e diferentes texturas. Camisas jeans usadas com casacos de veludo, xadrezes e peças de alfaiataria mostram a força do mix entre clássico e contemporâneo. Amarelo-limão, vermelho marmorizado e acabamentos com aspecto de couro também entram em cena.
diferentes códigos da temporada: do jeans amplo ao skinny de cintura baixa, passando pela flare setentista e pela cargo.
téria-prima de experimentação.
Mais do que um básico indispensável, o denim surge nas principais passarelas masculinas como ma-
Entre luxo, alfaiataria, artesanato, novas lavagens e proporções, o jeans reafirma sua capacidade de acompanhar as transformações da moda — e, para o Verão 2027/28, volta ao centro das atenções.
Egon Lab
Philipp Plein
Vetements
Willy Chavaria
A Dolce&Gabbana leva o denim ao território do luxo, com pedrarias, broches, strass, bordados e aplicações, sem abandonar o jeans tradicional de corte reto e efeitos used. Sarjas terrosas, rendas artesanais e flores vazadas reforçam o trabalho manual. Entre os novos volumes, Hed Mayner e Issey Miyake apostam em formas amplas, pregas e geometrias. Já Egonlab destaca o short curtinho, o denim combinado ao nylon e os looks all denim. KidSuper mistura alfaiataria, jeans amplo, cintura baixa e estampas. Louis Vuitton aproxima alfaiataria e sportswear, com denim slim, patches e tecidos naturais. O denim também ganha ousadia na Philipp Plein, com pedrarias, bordados, laser, respingos de tinta, rasgos e diferentes lavagens. A Acne Studios acrescenta tachinhas ao raw denim, enquanto Ralph Lauren explora o styling, o denim natural e o raw premium. No universo japonês, Shityakosuta, Feng Chen Wang, Songzio e Setchu trabalham pregas, pinturas, bordados, geometrias e efeitos de couro. Wales Bonner aposta em patches milimetricamente recortados e mix de lavagens, enquanto Vetements reúne
Fonte:Vanessa de Castro | Fotos: Divulgação
Revista Têxtil #797
89
MODA
CHARLES HERMANN LEVA A ALTA-COSTURA BRASILEIRA AO BRILHO DE CANNES Por Fred Haydu
A
presença brasileira no circuito internacional da alta-costura ganha cada vez mais relevância com o trabalho de Charles Hermann, estilista que vem conquistando espaço entre as grandes produções do tapete vermelho do Festival de Cannes. À frente da Victoria Alta Costura, o criador combina técnicas artesanais, modelagem de precisão e acabamento impecável para desenvolver peças exclusivas que unem elegância, sofisticação e identidade. Natural de Salvador (BA), Hermann iniciou sua trajetória como modelo internacional antes de dedicar-se integralmente à criação de moda. A experiência em centros como Paris e Nova York ampliou seu repertório criativo e consolidou uma linguagem estética marcada pelo luxo
Mônica Carvalho esboço
90
Revista Têxtil #797
contemporâneo, pelos bordados manuais e pelo cuidado extremo na construção de cada vestido. Em Cannes, suas criações passaram a vestir artistas, influenciadoras e personalidades de diferentes países, reforçando a capacidade da alta-costura brasileira de dialogar com um dos mais prestigiados palcos da moda mundial. Silhuetas sofisticadas, tecidos nobres, aplicações de cristais e detalhes executados artesanalmente tornaram-se características de uma assinatura que valoriza a exclusividade e o trabalho sob medida. O reconhecimento internacional alcançado por Charles Hermann demonstra a crescente projeção da moda brasileira no segmento do luxo. Mais do que criar vestidos para grandes eventos, o estilista
Charles Hermann
representa uma geração de profissionais que alia criatividade, excelência técnica e produção artesanal para posicionar o Brasil entre os protagonistas da alta-costura contemporânea, levando talento, inovação e refinamento aos mais importantes red carpets do mundo.
Mônica Carvalho
MODA
MUITO ALÉM DO TECIDO: QUANDO A ALTACOSTURA VESTE IDENTIDADE
E
m grandes eventos como o Festival de Cannes, é comum que os olhares se voltem para o brilho, o glamour e as tendências do momento. Mas, para mim, a alta-costura começa muito antes do tapete vermelho. Ela nasce na escolha do tecido, passa pelas técnicas artesanais e ganha sentido quando consegue traduzir a identidade de quem vai vestir aquela criação. Sempre digo que um vestido não deve chamar atenção apenas pela beleza. Ele precisa contar uma história. Antes de pensar em modelagem, bordados ou cores, procuro entender quem é aquela pessoa, o que ela deseja comunicar e como quer ser lembrada naquele momento. Essa busca pela personalização é o que guia todo o meu trabalho. Em Cannes, tive a oportunidade de vestir mulheres com
Por Charles Hermann estilos completamente diferentes. Cada criação foi desenvolvida para refletir uma personalidade única, e os tecidos tiveram um papel fundamental nessa construção. Para a atriz Mônica Carvalho, escolhi um setim bouclé dupla face, com um lado com brilho e outro sem, combinado a uma renda trabalhada manualmente com aplicações de cordões. O resultado foi uma peça de presença marcante, que uniu delicadeza com drama por meio de um trabalho artesanal minucioso. Já o vestido amarelo de Daniela Albuquerque foi desenvolvido em tafetá de seda pura estruturado, reforçado internamente para criar volume e arquitetura. O bordado acompanhou a construção da peça, valorizando cada recorte e mostrando como o tecido também pode expressar força e ângulo. O efeito não estava apenas no brilho, mas na maneira como o tecido reagia ao corpo em movimento. As produções de Josi Aoas, Catarina Dantas e Isabela Crociolli também seguiram esse mesmo princípio. Entre tafetás, tules, cetins italianos, flores confeccionadas manualmente e bordados em pedrarias, cada escolha foi feita para traduzir uma identidade específica, nunca para reproduzir um padrão. Acredito que tenha sido justamente essa busca pela exclusividade que me levou a Daniela Albuquerque
Look de Catarina Dantas
viver um dos momentos mais marcantes da minha carreira. Receber o prêmio Fashion Designer Stylist of the Year, em Cannes, foi uma grande honra. Mais do que um reconhecimento profissional, enxerguei essa conquista como um sinal de que a moda brasileira tem espaço para ser valorizada pela criatividade, pelo trabalho artesanal e pela capacidade de criar peças que carregam personalidade. Os tecidos, por si só, não fazem uma roupa extraordinária. São as mãos que os transformam, o cuidado em cada detalhe e a história que cada criação carrega que fazem com que um vestido permaneça na memória muito depois de deixar o tapete vermelho. Quando uma cliente me procura, ela não está atrás apenas de uma peça. Ela quer se sentir representada. É nisso que acredito e é essa a essência que pretendo levar para cada coleção e para cada pessoa que confia no meu trabalho.
Revista Têxtil #797
91
MODA
COLOMBIAMODA 2026: A MODA LATINOAMERICANA EM MOVIMENTO MEDELLÍN REÚNE NEGÓCIOS, CRIATIVIDADE, SUSTENTABILIDADE E AMPLIA A PRESENÇA BRASILEIRA NA SEMANA DA MODA DA COLÔMBIA
M
edellín voltou a ser o centro da moda latino-americana com a 37ª edição da Colombiamoda, realizada de 25 a 31 de julho. Sob o conceito “Uniqueness is the New Luxury”, o evento reuniu mais de 600 marcas e uma programação que ultrapassou os limites do pavilhão de exposições, transformando a cidade em um grande circuito de moda, negócios, conhecimento, cultura e criatividade. A expectativa dos organizadores era receber mais de 70 mil visitantes durante a semana, entre eles 17 mil compradores especializados, sendo 4 mil internacionais, provenientes de 50 países. Ao todo, foram programados 143 eventos em 46 diferentes locais de Medellín, reforçando a importância da cidade como polo de negócios e criação para o Sistema Moda. A abertura das passarelas ficou por conta da designer Manuela Álvarez, que apresentou pela marca MAZ a coleção Oh My Heart. O desfile marcou oficialmente o início da programação de moda e trouxe para a cena uma proposta autoral conectada à identidade contemporânea colombiana. Na programação também estiveram nomes e marcas como J Balvin × Vélez, SBQ, Santísimas, KIA × Alado, Annaiss Yucra, Eugenia Fernández × Falabella, Isabel Henao × Bronzini, Chevignon, Diego Guarnizo, Agua Bendita, Ayni × Malva e outros re-
92
Revista Têxtil #797
presentantes da moda colombiana e latino-americana. O segundo dia reforçou dois pilares estratégicos para a indústria: conhecimento e sustentabilidade. Mais de 30 atividades acadêmicas, 33 passarelas e encontros direcionados a empresários, com-
MODA pradores e designers colocaram em discussão inovação, competitividade, responsabilidade e os novos caminhos do mercado.
BRASIL AMPLIA SUA PRESENÇA
po Cristina, Lucitex e Rovitex. As marcas levaram aos compradores internacionais propostas de moda íntima, fitness, vestuário e moda infantil, ampliando a conexão da indústria brasileira com o mercado latino-americano.
O Brasil marcou presença com uma delegação apoiada pelo Texbrasil, programa de internacionalização realizado pela Abit em parceria com a ApexBrasil. Sete empresas participaram da mostra comercial: Bree Intimate, Clube FTS, CVL Moda, Evidenza, Gru-
A participação brasileira acontece em um momento estratégico. Na edição anterior, 11 marcas apoiadas pelo Texbrasil realizaram 311 contatos comerciais, gerando US$ 225 mil em negócios imediatos e uma expectativa de US$ 1,09 milhão em negociações futuras. Os
resultados ajudam a explicar por que Medellín se tornou uma plataforma relevante para a internacionalização da moda brasileira. Mais do que uma feira, a Colombiamoda confirma sua vocação como plataforma de conexão para a América Latina. Ao aproximar marcas, compradores, designers, indústria, sustentabilidade e conhecimento, o evento evidencia que o futuro da moda regional passa pela valorização da identidade — justamente o conceito que dá nome à edição: a singularidade como novo luxo.
1- Alado by Kia 2- Socarro X Bata 3- Cemadier 4- Eugenia Fernandez X Falabella 5- Studio F
Revista Têxtil #797
93
ARTE TÊXTIL
SANDRA ANSELMI BEBE DA NATUREZA PARA SUA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL NO MATA LAB Por Bruno Leonard
A
natureza sempre foi uma das maiores fontes de inspiração para a estilista e artista gaúcha Sandra Anselmi. Agora, essa relação ganha forma em “Natureza Tecida – Somos Um Único Fio”, sua primeira exposição individual em São Paulo, em cartaz no Mata Lab até 31 de agosto, com curadoria de Lilian Pacce. Desenvolvida ao longo dos anos, a mostra nasceu do desejo de transformar o que seria descartado em novas possibilidades. Utilizando materiais reaproveitados de sua própria marca, Sandra construiu um universo têxtil composto por cerca de 42 mil quilômetros de fios. O resultado são esculturas e instalações inspiradas em cogumelos e micélios, estruturas naturais que simbolizam conexão, colaboração e interdependência entre todos os seres vivos. Ao percorrer a exposição, o visitante é convidado a observar a vida
Sandra Anselmi e Lilian Pacce
sob uma nova perspectiva. Por meio do tricô e de outras técnicas artesanais, a artista cria obras que revelam a força do fazer manual e propõem uma reflexão sobre as conexões humanas, a diversidade e a nossa relação com a natureza. Essa pesquisa também dialoga com a própria trajetória de Sandra, construída a partir da experimenta-
ção têxtil e da valorização dos processos artesanais. Autodidata, ela desenvolveu sua linguagem artística explorando diferentes materiais, texturas e volumes, fazendo do fio não apenas um elemento construtivo, mas uma ferramenta para contar histórias. Em suas mãos, resíduos da indústria da moda deixam de representar descarte e passam
Fotos: Divulgação
94
Revista Têxtil #797
ARTE TÊXTIL a integrar narrativas que evidenciam o potencial transformador da criação consciente. A escolha dos cogumelos como ponto de partida não é por acaso. Assim como os micélios formam extensas redes subterrâneas responsáveis por conectar e fortalecer ecossistemas inteiros, as obras propõem uma metáfora sobre as relações humanas e a importância da coletividade. Cada trama, nó e entrelaçamento remete à ideia de que indivíduos, memórias e experiências estão permanentemente conectados, formando uma grande rede de trocas e aprendizados. “Eu sempre acreditei que uma das grandezas da humanidade é a gente entender que nada se faz sozinho”, afirma Sandra Anselmi. Para a artista, todo o processo de criação foi guiado pela escuta, pelo tempo e pelo entrelaçamento de ideias, pessoas e materiais. É dessa visão que nasce o título da exposição, inspirado na compreensão de que todos fazemos parte de um mesmo organismo vivo. Além de marcar sua estreia em uma exposição individual na capital paulista, Natureza Tecida – Somos Um Único Fio reforça a potência da arte têxtil como linguagem contemporânea. Ao aproximar moda, design, sustentabilidade e arte, Sandra Anselmi amplia as possibilidades do fazer manual e convida o público a refletir sobre consumo, pertencimento e os vínculos invisíveis que sustentam a vida. Entre fios, tricôs e formas orgânicas, Sandra faz da natureza um espelho da vida e nos convida à reflexão sobre a nossa própria existência.
Revista Têxtil #797
95
SUSTENTABILIDADE
EUROFIOS E SANDRA ANSELMI: O ENCONTRO ENTRE SUSTENTABILIDADE, ECONOMIA CRIATIVA E ARTE
Por Laura Yamane
A
moda contemporânea enfrenta o desafio de conciliar estética, inovação e sustentabilidade. Nesse contexto, tanto a indústria quanto a arte têm buscado soluções criativas para o reaproveitamento de resíduos têxteis. Este artigo analisa os processos de desenvolvimento da EuroFios (SC), empresa referência mundial em reciclagem industrial de fibras, e da artista de Farroupilha RS, Sandra Anselmi, cuja obra “Natureza Tecida – Somos Um Único Fio” propõe uma reflexão sensível sobre interdependência e memória. Apesar de atuarem em campos distintos — indústria e arte — ambos convergem na valorização da reciclagem e na ativação da economia criativa. Fundada em 2004, a EuroFios nasceu da necessidade de dar destino adequado aos resíduos da indústria têxtil. Seu processo de desenvolvimento caracteriza-se por: Verticalização produtiva, coleta, desfibramento e transformação de resíduos em fios reciclados; tecnologia limpa, com processo 100% mecânico, sem uso de água ou químicos, com baixa emissão de carbono; certificações internacionais, como a Global Recycled Standard (GRS), que assegura ras-
96
Revista Têxtil #797
treabilidade e conformidade socioambiental e a expansão de marcas como a EuroRoma (artesanato), a Retêxtil (gestão de reciclagem) e Infinitex (fios de alta qualidade). O impacto da EuroFios transcende a produção industrial: ao fornecer insumos sustentáveis para artesãos, designers e indústrias, a empresa fomenta a economia criativa, transformando resíduos em recursos de valor cultural e econômico. A artista gaúcha Sandra Anselmi desenvolveu, ao longo de seis anos, a instalação “Natureza Tecida – Somos Um Único Fio”, composta por esculturas têxteis monumentais em forma de cogumelos. Seu processo criativo envolve: uso de resíduos têxteis com cerca de 1,3 tonelada de sobras de malhas, equivalentes a 40.000 km de fios; trabalho coletivo, crochês realizados por mulheres com câncer de mama, reforçando vínculos sociais e afetivos. A metáfora biológica na inspiração no micélio, fungos que em rede subterrânea conecta organismos, simbolizando interdependência e memória; e uma metodologia orgânica expressa em tricô de braço, sem agulhas, em processo contínuo e intuitivo. A obra ativa a economia cria-
tiva pela via estética e simbólica, transformando resíduos em experiência imersiva que conecta público, natureza e ancestralidade. Apesar das diferenças de escala e finalidade, EuroFios e Sandra Anselmi compartilham pontos fundamentais: reciclagem como eixo central, economia criativa, sustentabilidade e conexão simbólica. A análise evidencia que a sustentabilidade na moda não se limita ao âmbito técnico-industrial, mas também se manifesta no campo artístico e cultural. A EuroFios representa a força da indústria em reintegrar resíduos à cadeia produtiva, enquanto Sandra Anselmi revela o poder da arte em transformar resíduos em narrativas coletivas e experiências sensoriais. Juntas, suas trajetórias demonstram que o futuro da moda depende da capacidade de tecer conexões entre economia, ecologia e cultura, provando que cada fio — seja industrial ou artístico — pode ser um elo de transformação.
CRÔNICA
ENTRE IA E HUMANIDADES: O FUTURO PODE SER CARAMELO
E
ntre SP Innovation Week, Rio2C e tantos outros eventos, o tema dominante tem sido a inteligência artificial. As visões oscilam entre o fascinante e o assustador, mas a inquietação não é nova, toda grande transformação tecnológica traz consigo a mesma pergunta: o que será de nós? Curiosamente, enquanto refletia sobre tudo isso, minha manhã não tinha nada de tecnológica. Eu conversava com minha filha durante um café da manhã. Ao nosso lado, meu cachorro insistia para que eu largasse tudo e jogasse bola. Eu poderia escrever, poderia brincar com o cachorro, poderia lavar a louça. Escolhi escrever. E foi justamente aí que me ocorreu a ideia, de que ser humano talvez seja, acima de tudo, um exercício contínuo de escolhas. Enquanto discutimos se as máquinas serão capazes de pensar, vale uma pergunta mais importante: nós estamos pensando e elaborando? A conversa com minha filha passou pela educação e me fez lembrar de Another Brick in the Wall. A imagem das crianças marchando em fila rumo à máquina continua atual. Porque o medo nunca foi exatamente da tecnologia, mas da padronização. Do risco de nos tornarmos apenas mais uma peça da engrenagem e perdermos aquilo que nos torna singulares. O muro é tudo aquilo que nos impede de pensar, sentir, criar e questionar por conta própria. Se o Pink Floyd me fez pensar nos riscos da padronização,
Por Sueli Pereira
uma fala que ouvi na SP Innovation Week apontava para outra direção. Na apresentação “Até a IA quer ser brasileira”, o psicanalista Jorge Forbes provocou a plateia com uma questão que dialoga com algo profundo da nossa cultura. A tal “síndrome de vira-lata”, expressão criada por Nelson Rodrigues para descrever a tendência de acreditar que tudo o que vem de fora é melhor. Uma herança que remonta aos processos históricos de colonização e dependência cultural. Foi então que aconteceu mais um daqueles desvios de percurso, sem sentido à primeira vista, me peguei discutindo com minha filha se era hora de ter mais um cachorro. Pensei imediatamente em um caramelo. E me perguntei: será que estou sendo induzida a pensar assim? Achei curioso, em meio a discussões sobre tecnologia e futuro, minha mente parar justamente no mais brasileiro dos cães: sem pedigree, sem padronização, adaptável, inteligente, afetuoso e capaz de se virar em qualquer situação. O caramelo não foi desenhado para vencer concursos. Ele simplesmente emergiu, assim como a cultura brasileira, a criatividade e muitas das melhores ideias emergem. O caramelo pode ser uma metáfora melhor para o futuro do que imaginamos? Aquilo que muitas vezes consideramos defeito pode estar se tornando uma vantagem. À medida que algoritmos assumem tarefas previsíveis e padronizadas, cresce o valor daquilo que escapa aos padrões: a
capacidade de improvisar, conectar referências distantes, formular boas perguntas, criar vínculos. A inteligência artificial aprende padrões, a vida, porém, acontece nas exceções. Por isso, não me preocupa tanto a possibilidade de as máquinas se parecerem conosco. Até porque, quando falamos sobre inteligência artificial, costumamos destacar nossas melhores características: criatividade, empatia, imaginação e capacidade de criar, mas raramente lembramos que a inteligência humana também é capaz de crueldade, preconceito, vaidade, destruição e estupidez. A tecnologia não inventou essas características. Elas já estavam aqui. Talvez a questão central não seja apenas preservar aquilo que temos de melhor, mas também reconhecer e assumir responsabilidade por aquilo que temos de pior e nossas escolhas. O que faremos com a liberdade que ela nos oferece? Nenhuma dessas correlações era previsível naquela manhã. Talvez essa seja uma das diferenças fundamentais entre inteligência e experiência. Enquanto a IA aprende padrões, nos hesitamos e construímos sentido a partir dos encontros, das memórias, dos afetos, das contradições e das circunstâncias. Porque um café da manhã nunca acontece duas vezes da mesma maneira. Talvez, seja justamente nessa capacidade de criar conexões inéditas imperfeitas, subjetivas e profundamente humanas, que resida uma parte importante do nosso valor no futuro.
Revista Têxtil #797
97
HOMENAGEM
RICARDO HAYDU E A ABTT: HOMENAGEM A UM LEGADO QUE NOS MOVE
H
omenagear Ricardo da Silva Haydu é reconhecer uma presença que atravessou o tempo com serenidade, compromisso e profundo sentido de missão. Sua contribuição à indústria têxtil brasileira não se mede apenas pelos registros que ajudou a construir ou pelas conexões que promoveu. Mede-se, sobretudo, pela marca humana deixada em todos que com ele conviveram. Pessoa sempre alegre e agradável, que gostava de conversar e de ouvir, Ricardo fazia a diferença em qualquer ambiente, fosse nas feiras, nos congressos ou nas conversas de corredor, tratando a todos com o mesmo interesse genuíno. À frente da Revista Têxtil, fundada pela família Haydu em 1931, Ricardo tratou a herança como um chamado. Sob sua direção, a editora atravessou décadas de transformações e a revista seguiu chegando às mãos de quem vive o têxtil no dia a dia, porque ele entendia que uma publicação setorial não é feita de papel, é feita de gente. Ao lado da esposa, a saudosa Vivi Haydu, companheira na vida e no ofício, fez dela escola, referência e ponto de encontro para gerações de profissionais. Na história da ABTT, essa presença permanece como referência. Ricardo compreendeu que o conhecimento técnico ganha permanência quando é compartilhado e que uma entidade se torna relevante quando serve de ponte entre pessoas, ideias e gerações. Sempre incentivou a divulgação de novas tecnologias, pois só
98
Revista Têxtil #797
Vivi Haydu, Camila Borelli, Helvinho, Helvio Pompeu, e abaixo os Ricardos, Ricardo Rossi e Haydu - Febratex 2017
com alta tecnologia nos processos a produtividade aumenta, os custos diminuem e a indústria conquista mercados. Abriu as páginas da Revista Têxtil, órgão oficial da ABTT, para a ampla divulgação de seus congressos, artigos e eventos tecnológicos, aproximando empresas, pesquisadores, fornecedores e lideranças. Numa cadeia em que os holofotes apontam para as marcas, ele fazia questão de iluminar quem está atrás das máquinas: os técnicos têxteis. Esse reconhecimento ultrapassou fronteiras. Em 2017, o FCEM|Febratex Group criou o “Destaque Ricardo Haydu”, premiação que leva seu nome às novas gerações como sinônimo de excelência. Na ocasião, com a elegância discreta que lhe era característica, ele falou não de mérito próprio, mas de contribuir para a valorização da indústria têxtil. Era assim que enxergava o trabalho: como serviço.
Move-nos a gratidão por sua contribuição, respeito por sua trajetória e a responsabilidade de manter viva a chama do conhecimento, da cooperação e da valorização técnica que sempre estiveram no centro de sua atuação. A ABTT segue movida por esse mesmo compromisso: reunir pessoas, promover o aprendizado, preservar a memória setorial e estimular a inovação. Legados verdadeiros não se encerram; permanecem como inspiração e chamado à continuidade. Que este legado não seja apenas lembrado, mas assumido como compromisso, porque uma indústria se fortalece quando preserva sua memória, valoriza suas lideranças e transforma conhecimento em desenvolvimento. Reinaldo Aparecido Rozzatti, Camilla Borelli, Presidente e vice presidenta da ABTT.