Mercado Velho Mestre Luís, Raimundo e Janaina falam sobre o “novo n o r ma l ” do m e r c a d o v e l h o de Teresina.
Música e Pandemia A banda piauiense Bia e os Becks e os desafios de ser músico em Teresina em tempos de pandemia.
Artistas de Rua
Cinema em Teresina
Cantor e vendedor que canta contam como buscaram nos sinais uma forma sobreviver.
Milena Rocha e Weslley Oliveira contam as suas experiências com o audiovisual independente em Teresina.
Índice Expediente Editorial A voz cansada da música É tempo de música em Teresina? O Último Artesão Mercado Velho: memórias, artesanato e a superação na pandemia Sinal aberto para 30 segundos de Show
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Expediente Repórteres
Diagramação e Edição
Allícia Nascimento Diego Vieira Jardenia Rosa Karolene Veras Layza Mourão Marta de Sousa Sara Nascimento Valentina de Moraes
Diego Vieira Karolene Veras
Editora Chefe Ana Regina Rego
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EDITORIAL A esperança em meio ao caos!
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terceira edição da Revisa Oxente! é publicada ao mesmo tempo em que o Brasil ultrapassa a impensável marca de 450 mil mortos por COVID-19 e se direciona à passos largos para o número de meio milhão de vítimas fatais do novo coronavírus, em poucos meses. É como se mais da metade da cidade de Teresina desaparecesse deixando a capital do Piauí, deserta, deserta de amigos, deserta de amores, deserta de filhos, deserta de pais, mães, irmãos.
Os números de mortos crescem e parte da nossa população segue inconsciente de si e de seu papel na saúde coletiva. Os números crescem e os economistas e empresários neoliberais só pensam em não parar a economia, sem compreender que sem o controle da pandemia não há futuro viável para uma economia que possa trabalhar em prol da inclusão social e do bem estar de nossa população. É, portanto, nesse caos, nesse mundo distópico, um futuro-passado que se pensava não concretizável e no qual estamos mergulhados, que a terceira edição da Revista Oxente! chega ao público trazendo esperança, abrindo as portas da cultura e revelando os meandros de ambientes que sofrem com a pandemia, com o isolamento consciente e todas as consequências para a saúde, inclusive mental, mas que resistem, porque cultura é, antes de tudo, consciência e resistência.
A matéria de Jardenia Rosa e Sara Nascimento nos revela o mundo da música e suas dificuldades na pandemia, através do olhar da
cantora Bia Magalhães e de sua banda Bia e os Becks. Diego Vieira e Marta de Sousa nos trazem os caminhos percorridos pelo coletivo LabCine desde seu início quando Milena Rocha e Wesley Oliveira, além de outros componentes do coletivo eram estudantes de jornalismo da UFPI. As vitórias são ressaltadas bem mais que as dificuldades. O trabalho do LabCine hoje tem reconhecimento nacional e vale a pena ser conferido. Allícia Nascimento nos brinda com uma linda narrativa que tem como foco o mercado central de Teresina, o artesanato e o último artesão, Mestre José Luís que trabalha no mercado há 40 anos. No mesmo ambiente, o mercado velho, Valentina de Moraes nos permite um mergulhar nas vielas e nas histórias dos que vivem das possibilidades oferecidas pelo mercado, do passado ao presente, uma mistura de transeuntes e de beleza. A Revista Oxente! ainda percorre lugares antes não pensados como ideais para a cultura e que em meio às dificuldades dos artistas estão cada vez mais em uso, são os semáforos. Layza Mourão e Karolene Veras nos falam dos 30 segundos de show em Teresina e em Parnaíba. O diferencial da Revista Oxente! extrapola o gênero cultural e a estética literária adotada, e tem como plus principal, o olhar dos futuros jornalistas que ao se encantarem durante o processo de observação e escuta da cultura e de seus personagens, terminam por nos encantar com suas narrativas, ao final. Vale conferir!
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Foto: Arquivo Bia e os Becks
A voz cansada da música “Trabalho em tempo integral para ser artista nas horas vagas” Jardenia Rosa Sara Nascimento
A música é a organização de sons e silêncios. Reflexo do próprio Apolo, deus da beleza e da arte. É nas ondas das melodias que navegamos em meio às emoções do nosso ser. Sentir música é divino. E fazer? É alimento para a alma, por vezes para o corpo, e neste caso requer paixão e coragem. Mas nem só de paixão vive o homem. Quão difícil é transformar as composições em pão? A Bia sabe, ela conseguia há pouco tempo. Bia Magalhães é vocalista e fundadora da banda autoral “Bia e os Becks”. Os “Becks” são os companheiros de trabalho, parceiros na profissão. Lucas Coimbra é o baixista, ama o carnaval e os gatos, é a pessoa que tem foto bonita no RG; Bráulio Miranda é amante da MPB e aquele que fecha os olhos atrás dos óculos quadrados enquanto toca guitarra ou violão; Cássio Carvalho é tecladista, produtor musical, um crente da música piauiense e Jardel de Castro é baterista, também toca outros instrumentos, desenha e adora a natureza. Para eles, a música era mais que uma diversão ou uma forma de demonstrar amor e resistência por meio de palavras, era um sustento.
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as o mundo mudou de repente. No Brasil, era março de 2020 quando a Organização Mundial de Saúde decretou um “estado de pandemia” por conta da covid-19. Não sabíamos muito bem o que isso significava, apenas que deveríamos manter o distanciamento social. Bares e restaurantes foram fechados, as ruas ficaram quase vazias, escolas e universidades pararam. A impressão que tínhamos é de que essa situação duraria pouco tempo e que só precisávamos ficar em casa para evitar o colapso do sistema de saúde e, consequentemente, muitas mortes. As medidas restritivas adotadas no país eram mais leves que os sistemas de lockdown realizados no resto do mundo, mesmo assim foram criticadas por uma parcela da população, inclusive pelo presidente da República, a outra parte dos brasileiros se tornou vigilante constante. Na ausência de propaganda massiva governamental para que a população se prevenisse contra a doença, artistas, projetos sociais e influenciadores incentivaram a sociedade a usar máscaras e, se possível, ficar em casa. O vírus, o inimigo invisível, pode estar em qualquer lugar, nas compras feitas no mercadinho do bairro, no botão do elevador do seu prédio, na caneta utilizada no banco, até mesmo no ar. As preocupações com relação à doença se expandiam cada vez mais em todos as nações. No território brasileiro, o principal ministro do atual Governo, Paulo Guedes, em favor da ignorância, ou seja, de ignorar a gravidade do vírus para a saúde, subestimou o problema e demorou a reagir, se apressou apenas em dizer que a economia não pode se desorganizar.
O catastrofismo nas falas indicava uma necessidade de não prejudicar o “Deus” mercado e para isso, se preciso fosse, faríamos sacrifícios humanos. Mas não se admitia a parte do sacrifício, é claro! Seria rude e nós somos cordiais. É assim mesmo que eles são, Eduardo Galeano já advertia em “As veias abertas da América Latina”, pela economia os tecnocratas estão sempre dispostos a fazer “sacrifícios”. Faltava a opção viável que não fosse morrer de fome ou morrer de covid. Estamos há mais de um ano órfãos dessa alternativa, tropeçando na economia e na saúde.
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o mesmo tempo, a arte busca fôlego enquanto é sufocada pela negligência, que não é tão nova quanto o vírus, mas foi acentuada por ele. Os artistas já imaginavam que não seria dada a devida atenção para sua sobrevivência e profissão. Eles poderiam ter previsto que seriam relegados ao canto escuro do palco governamental, sem holofotes. Desde que a primeira ministra da Cultura do Governo Bolsonaro era alguém completamente impopular dentro do campo artístico, já sabíamos que não haveria preocupação com a arte. A Bia ousou ter esperança para levar a música adiante em um lugar onde a cultura é tão pouco valorizada, ainda mais em um período atípico como este. Em consonância com esse sentimento, o produtor da banda, Noé Filho, propôs um desafio "vamos lançar 20 músicas inéditas, gravadas totalmente de casa em 40 dias”. Foi assim que nasceu o projeto “Músicas de Ficar”, durante esse período difícil, parecia um “mimo” para os fãs; as músicas falam sobre esperança, amor e fazem sátiras divertidas.
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Foto: Arquivo Bia e os Becks
Para o projeto, a Bia e os “Becks” tiraram as músicas de suas gavetas e da gaveta dos amigos. Gravaram todos os clipes usando os celulares e fones de ouvido. Lugares e momentos comuns do nosso cotidiano dão o ar intimista ao projeto, qualquer ambiente de casa se tornou um possível cenário: no terraço de casa, no jardim, no quarto, na calçada, com instrumentos musicais e até de toalha. Tudo foi pensado cuidadosamente e acordado nas reuniões pelo Meet, mas logo surgiu o sentimento de que não dava para continuar fazendo música com a frequência planejada. Não naquele momento. O projeto que deveria ter começado com uma música a cada dois dias se tornou uma música a cada semana e parou quando faltavam apenas três clipes para finalizar. Sem mais forças, eles fizeram no tempo que deu, até que chegou o momento em que disseram “chega! não dá mais!”. Para eles, não fazia sentido continuar cantando enquanto diariamente milhares de pessoas morriam por conta da covid-19, em casa ou em hospitais, sem falar nas muitas outras positivadas com a doença.
Foto: Captura de tela de reunião virtual
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Foto: Arquivo Bia e os Becks
Conviver com a alta carga de estresse emocional é a nova realidade da banda durante a pandemia. A Bia começou a fazer terapia a fim de que um profissional a ajude a lidar com este momento em que a crise sanitária força o distanciamento entre nós e nos aproxima dos nossos conflitos, como a vida e a morte iminente, a todo instante a sensação de alerta e perigo, o comprometimento da saúde, das finanças e das relações interpessoais. A pessoa que mora só enfrenta a solidão, a falta do calor físico, do abraço e dos espaços de socialização. Quem mora com outras pessoas, encara as discordâncias da convivência intensa forçada pelo cuidado de ficar em casa para proteger a si e aos outros. Com a Bia não foi diferente, os conflitos bateram na porta da cantora que morava com a família, chegou um momento em que ela teve de tomar coragem e dizer para a mãe “eu resolvi me mudar”. E assim aconteceu. O novo apartamento dela é enorme. Há quadros nas paredes brancas, um alce feito com traços finos pretos, mesclado a triângulos em tons de cinza, um outro quadro mostra uma paisagem em cores alegres e para combinar uma moldura azul. À frente dos quadros ela conversa conosco. Por meio dos aparelhos eletrônicos nós nos conectamos.
Foto: Arquivo Bia e os Becks
Foto: Arquivo Bia e os Becks
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omo quem assiste a própria história na cabeça, a cantora fala sobre a paixão pela música “escrevia músicas desde criança, sempre sonhei em ser cantora e a gente não pode desistir dos nossos sonhos!”, ela diz enquanto ri com um olhar de satisfação. A verdade é que a Bia cantava desde pequena nas apresentações da escola evangélica onde estudava, era quando se sentia livre, sem as amarras por ser mulher e gorda. Assim sem meias palavras. Ela aprendeu a se libertar pela música, não esconde o corpo por pressão estética, nem aceita ser diminuída por ser mulher. Foi incentivada pelos pais a estudar música quando, aos 16 anos, ganhou o primeiro violão. Três anos depois ela entrou para a Escola de Música de Teresina, lá estudou violão e canto. No ano de 2012, além da música a jovem tinha Mário, outra paixão. Os dois começaram a compor músicas para o primeiro CD, um esboço do que é hoje a “Bia e os Becks”. A Bia não esperava que a banda, que em 2021 ano completa nove anos, durasse mais que o relacionamento. Ela fez realidade o sonho de criança. A Bia menina que cantava na escola e compunha músicas românticas era muito influenciada por Sandy e Júnior. No começo, a banda funcionava mais como uma dupla, era só Bia e suas duas paixões fazendo “muita música de amorzinho”, como ela diz. Com o passar do tempo a composição da banda de hoje foi tomando forma, o primeiro a entrar foi o Lucas, depois Cássio, Jardel e Bráulio, que colocaram suas perspectivas para que as composições de “amorzinho” se transformassem em vários ângulos de muitos amores.
Foto: Arquivo Bia e os Becks
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Foto: Arquivo Bia e os Becks
Além da ausência de ações eficazes do governo, o espaço dado pela mídia é diminuto, muitas vezes reservado a notas e resenhas de eventos, o pouco espaço que a cultura, principalmente a música, ocupa é disputado entre os grupos autorais e covers. São “incontáveis as vezes que os jornalistas de televisão marcam comigo e depois desmarcam porque preferem uma banda cover tocando no lugar de uma banda autoral ‘porque dá mais audiência’”. Ela fala enfatizando a dúvida que tem da validade da justificativa dos jornalistas. A opção que a banda tem é divulgar o trabalho na internet, e o resultado disso é que hoje são tocados mais fora do que dentro do Piauí.
odos eles são profissionais da música. Artistas que mesmo antes da pandemia já enfrentavam o difícil mercado em Teresina. E quando falamos nesse assunto, a fisionomia da Bia, de cabelos em mechas vermelhas, traz um olhar de insatisfação e lábios franzidos; ela tem certeza de que o problema é a falta de oportunidade e de incentivo do Estado, falta empenho em disseminar as bandas e os músicos autorais piauienses.
O cenário musical teresinense tem tradicionalmente o rock como agente dominante, mas isso não é um problema para a Bia e os Becks, já que os ritmos podem coexistir, e eles são prova disso. A banda é uma mistura de uma série de ritmos e gêneros: blues, pop, soul, funk americano, MPB e brega. A Bia é uma pessoa que acredita no potencial da própria música e para ela não é uma questão de público “porque se as pessoas conhecerem, elas começam a gostar, porque eu não considero a Bia e os Becks uma banda ruim, é uma banda muito boa, musicalmente falando”.
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Foto: Arquivo Bia e os Becks
Foto: Arquivo Bia e os Becks
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Foto: Arquivo Bia e os Becks
Apesar disso, a renda que eles conseguiam com a música era satisfatória. A cantora diz que era “patricinha, mexxxxmo!”. O orçamento com certeza era bem mais folgado, ainda que para a maioria da banda contasse como renda auxiliar. A Bia sobrevivia do teatro e da música. O Bráulio vivia só da música, mas precisava tocar em mais de duas bandas; o Lucas vivia da música e da renda do trabalho como professor da Escola de Teatro; o Cássio, além de músico, é professor da Escola de Música; O Jardel é músico, entregador de comida para a plataforma Uber Eats e coloca placa de energia solar, um profissional diversificado que traz na biografia de sua rede social a frase que nos serve de resumo para tratar dos ardores e amores de ser um artista piauiense “Trabalho em tempo integral para poder ser artista nas horas vagas”. Não é como se antes da pandemia fosse fácil, mas durante está sendo muito mais difícil para quem faz arte e tenta viver dela.
A Bia precisou de outro emprego para pagar as contas. Deixou a profissão oficial porque nem só de paixão o homem viverá.
“Não tem como a gente sobreviver de música durante essa pandemia, então para mim está sendo foda! Muito foda!” Ela conta com pesar diante da câmera. Dos componentes da banda, o mais atingido foi o Bráulio, que só trabalhava com música e agora conta com a ajuda dos pais para se manter na cidade, enquanto espera o retorno dos shows presenciais. Há saudade dos eventos com a presença física do público. Eles aguardam a melhora da situação, enquanto isso, continuam produzindo arte e cultura, em meio as corroídas bases da sociedade brasileira.
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Foto: Arquivo Bia e os Becks
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esperança é de que com a vacinação da população eles possam voltar às apresentações. No momento, estão lançando um novo disco, um universo distópico chamado “Universo Quenga”, voltado para questões políticas e sociais que tem como motivação a necessidade de reflexão do período histórico que estamos vivendo e como vivemos. “Paraíso” é a apresentação desse novo projeto da banda. O segundo clipe é “Panela de Pressão”, lançado recentemente. A Bia explica que a música fala do “amor pelas pessoas, pela vida, pelo planeta. O amor é o que nos move, é o que nos torna humanos. Panela de pressão vai falar sobre o encontro desse amor que quando vem, chia que nem panela de pressão”, assim como o amor que os músicos sentem pela música. Dádiva de quem faz o que ama e castigo divino de quem precisa viver disso. Sentenciados pelo próprio Apolo, pobres sortudos, os amantes da música!
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Foto: Arquivo do Coletivo LabCine
É Tempo de Cinema em Teresina? Diego Vieira Marta de Sousa
O relógio marca 19h50 e eu preciso entrar em uma vídeo chamada. Poderia ser mais uma aula da educação à distância adaptada para um longo período de pandemia, mas, essa reunião virtual era diferente. Primeiro, entro como organizador da reunião para aceitar a minha colega, também entrevistadora, Marta, dez minutos antes da entrevista com Milena e Weslley, para nos contar sobre as suas experiências com o audiovisual independente em Teresina. Com o celular no tripé na mesa de estudos - que também é de reunião, de entrevistas, trabalho e até de ver filmes e séries -, o roteiro de perguntas escrito à mão no caderno, uma caneta para fazer anotações e os fones no ouvido, Marta e eu alinhamos os últimos pontos para a entrevista e esperamos os entrevistados. De um lado para o outro na cadeira giratória investimento involuntário de algum momento da pandemia -, conversando com a Marta e reclamando de alguma coisa do EAD, aguardamos os ponteiros do relógio - que nem ponteiro tem, pois
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é digital - marcar vinte horas para começar a entrevista. Poucos minutos antes das oito, Weslley pede permissão para entrar na sala. Permito e digo que vamos aguardar alguns minutinhos até a hora marcada para dar tempo da Milena entrar; na hora exata em que ela entra, já é pedindo desculpas pelo atraso que nem aconteceu. Pronto, estamos todos na tela que mostra quatro janelas, uma mostrando a mim, um estudante de Jornalismo amante de filmes e séries e que nunca foi ao cinema, outra filmando a Marta, uma estudante de Jornalismo, que busca o que é infinito, e as outras duas mostrando os nossos entrevistados, dois jovens jornalistas apaixonados por cinema e pelo que a sétima arte pode oferecer em todo o seu potencial. Antes das oito, sabíamos que Weslley e Milena estudaram juntos no curso de Comunicação Social - Jornalismo na Universidade Federal do Piauí e hoje fazem parte do coletivo de audiovisual piauiense LabCine. O coletivo existe desde 2015 e foi criado por alunos do curso de Comunicação Social da UFPI, que faziam juntos o curso de Introdução ao Cinema do Monteiro Júnior, da Casa da Cultura, em Teresina. Os projetos que o coletivo desenvolve são colaborativos, por meio de empréstimos, parcerias, apoios e contemplações.
A pesquisa prévia sobre o LabCine nos mostrou que o coletivo conta com 7 produções premiadas em festivais de cinema piauienses e de outros estados brasileiros. A primeira produção premiada foi “Reação do Gueto'', em 2017. Com a direção de Weslley Oliveira, esse documentário retrata o contexto dos jovens do grupo de rap Reação do Gueto no bairro Santa Maria da Codipi, periferia de Teresina. A produção foi selecionada para diversas mostras nacionais e venceu a categoria de melhor filme pelo Júri Popular do 12º Festival de Cinema e Vídeo dos Sertões e como melhor filme na 1º Mostra Fale de Cinema. E não demorou muito para encontrarmos outra produção premiada, o filme “Mulheres de
Visão”, que tem como diretora Milena Rocha e em 2018 recebeu o prêmio de melhor direção no festival Cine Virada Cachoeira, Bahia. Produzindo juntos, os dois também foram premiados. O documentário “O Pranto do Artista”, distribuído pelo Laboratório e Núcleo de Produção Audiovisual – LABCINE e dirigido por eles, recebeu o Prêmio Bernardo Almeida para o melhor longa-metragem maranhense em 2019.
Foto: Arquivo do Coletivo LabCine
Com essas informações, estávamos a postos para perguntar e descobrir o que eles estavam prontos para contar. - Já é hoje, assim? Eu tinha entendido que vocês iam falar o que que é... mas vocês já querem fazer a entrevista hoje? Achávamos que estava tudo pronto, até surgir essa pergunta da Milena logo após eu fazer os alinhamentos iniciais e apresentar com mais detalhes a proposta e destino da entrevista que foi marcada poucos dias antes daquela noite de 29 de abril. - A gente pensou em fazer hoje, mas se quiserem remarcar, pode ser. Respondo. - Assim, a gente não conversou antes, então vai ser tudo assim… tipo, eu e o Weslley, a gente não se falou sobre isso, mas pode ser…
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concorda Milena. Explicamos que a entrevista - que mais pode ser chamada conversa - é para ser de forma espontânea mesmo e que essa era a nossa ideia quando marcamos. E como esses acordos começamos a conversar, pedindo licença para fazer a primeira pergunta:
Quem é o Weslley? Quem é a Milena?
Os dois jovens jornalistas encontram o audiovisual na Universidade e desde então não existiu mais espaço para desencontro. Para Weslley, o audiovisual entra de forma mais clara em sua caminhada no Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação (ENECOM), numa oficina de audiovisual. A partir dessa sementinha, surgiu o interesse em continuar conhecendo e descobrindo esse mundo. Começou pelo audiovisual dentro do jornalismo e logo saiu do padrão televisivo.
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ascido em Teresina, criado entre rios (Teresina e Timon), é como se define Weslley Oliveira, que vivenciou muitos cotidianos da capital piauiense na experiência das cidades dormitórios. Entrou na universidade aos 21 anos - e considera tardiamente - observando a dinâmica dos jovens que têm ingressado cada vez mais cedo nas faculdades. Selecionado para o Curso de Comunicação Social - Jornalismo, Weslley conta que já tinha certo conhecimento autodidata na área por gostar de experimentar edição de vídeo quando era mais jovem. Criado na cidade de Timon, Maranhão, por sua mãe, que se divorciou muito cedo, cresceu com os irmãos sob auxílio dos avós maternos. Milena Rocha é do interior do Piauí - “sou VIP, vinda do interior do Piauí”, como se define - e sempre quis fazer Jornalismo. Ainda no interior, era muito envolvida com movimentos sociais, rádios comunitárias e na comunicação da Igreja. Mudou-se para Teresina em 2013 para estudar e entrou para o Curso de Comunicação Social Jornalismo na Universidade Federal do Piauí em 2014. Primeiro, foi aprovada no curso de Sociologia e, depois, Jornalismo. Por coincidência, Milena ingressou na mesma turma que Weslley e outros colegas que também compartilharam as vivências do audiovisual teresinense: “Germano, Fabrício, Leo...”, cita.
Foto: Arquivo do Coletivo LabCine
Foto: Arquivo do Coletivo LabCine
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A Enecos é, para os dois, um elo e como uma escola que fortalecia as ideias que eles tinham. “A gente ia para um evento de comunicação e tava lá gente do Brasil que já convivia com mídia independente, que já fazia fotografia, que já lidava com essas coisas de audiovisual experimental. Acabou que esses encontros ajudaram muito a gente nessas conexões que a gente mantém até hoje”, explica Milena. Milena trabalhava com ONGs e, nesses trabalhos, em 2013 e 2014 já ministrava oficinas de rádio para mobilização local, oficinas de texto e organizava seminários. “Sempre fui assim, de comunicação popular, comunitária, independente mesmo”. Nas vivências, a jovem estudante de Jornalismo se aproximou do audiovisual. Assim como Weslley, conta que ficou mais perto do audiovisual nas disciplinas do curso, na universidade, fazendo na prática. “O que as professoras pediam, a gente fazia em um formato mais experimental, uma coisa que a gente gostava”, relembra Milena. A época da universidade marca a vida deles porque estavam envolvidos com tudo: centro acadêmico, a mostra, Enecos e com a ocupação, ao mesmo tempo que pensavam em projetos. “Eu não sou saudosista, mas, eu acho que foi uma vivência que influenciou esse cinema do vivido que a gente se inspira tanto”, descreve Milena. Como cinema do vivido, ela explica que é aquele que filma as rotinas. Milena conta que, junto dos colegas, eram todos muito empolgados. “Eu lembro que a gente acordava às 04h da manhã porque queria foto grafar a horta no horário que a galera tava amanhecendo mesmo. Tipo assim, se a gente quisesse ir mais tarde, também teria foto, mas a gente queria fazer as coisas nessa empolgação toda. E aí, eu acho que foi isso que levou a gente para produção audiovisual, assim, com mais fé e com mais garra. Sei lá, a gente era muito
futurístico, sabe?”. Ela detalha e também acrescenta que o que as pessoas estão fazendo agora, ela e os colegas já conversavam em 2013 e 2014. Ouvindo a história dos dois, também podemos dizer que o audiovisual na Universidade é um reencontro. Quando revisita o passado, Weslley conta que sua mãe trabalhava numa empresa de aluguel de DVD. “Ela gosta de filmes de terror e sempre me chamava para ver com ela. Eu, a criança traumatizada”, brinca Weslley. Naquele momento, já começa a sua internalização de audiovisual que traz até hoje nos trabalhos que realiza. Ele já gostava de fotografia e lembra da sua primeira câmera digital, que levava sempre com ele. Com Milena não foi diferente, sobre os marcadores de infância, ela conta da sua relação com a câmera de filme do pai. “Aquela câmera de 26 poses”. E fala também da influência que ele gerou, pois também tinha gosto por comunicação. Dos outros, ouvia o que é comum para quem foge de profissões mais tradicionais. “Ele falava: ‘É massa! Eu acredito que dá certo!’. Porém, outras pessoas também falavam: ‘Ai, comunicação? É tão inteligente, por que não faz uma enfermagem?”, em suas palavras. Nas memórias da infância, Weslley percebe que ainda não entendia a relação com o audiovisual e a conexão teve início mesmo na Universidade. Antes da Enecos, no decorrer do curso, nas disciplinas práticas (de Telejornalismo, por exemplo), começou a pensar como funcionavam as produções de forma coletiva. A empolgação da universidade, “de todo mundo querendo fazer tudo”, faz com que o jovem se interesse mais e adentre no audiovisual.
Na vida acadêmica é possível ter um período de maior experimentação e, nos relatos dos dois jovens jornalistas, percebemos que hoje, quando a prática do audiovisual na universidade atravessa a vida profissional e o mundo do
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trabalho, junto às consequências da instabilidade na produção de cinema independente e periférico, o espaço de experimentação dos tempos de faculdade faz toda a diferença para lidar com a precariedade de fazer audiovisual dessa forma aqui no Piauí e no Brasil como um todo, com todas as incertezas de não saber o que lhe aguarda amanhã. Foi assim, dividindo-se entre projetos, oficinas, vídeos institucionais ao tempo que realizavam filmes, que Milena, Wesley e os colegas chegaram na cena do audiovisual independente de Teresina. Hoje, um audiovisual que é feito “sem pensar muito no futuro”, como destaca Milena. Em tempos em pandemia, por exemplo, em que o futuro é ainda mais incerto, Milena conta que o coletivo continuou a ser produtivo desengavetando projetos e finalizando aqueles que ficaram pelo caminho.
Os desafios de fazer audiovisual no Piauí são muitos e talvez o maior deles seja fazer parte de uma cena que ainda está em construção. Hoje, os profissionais do audiovisual piauiense ainda precisam lidar com todas as etapas da produção, desde a parte de criação até a parte burocrática e administrativa, por falta de recursos. É assim que a cena em construção toma forma, à medida que as pessoas realizam e vivem com muito “pique e disposição”, nas palavras de Milena. Weslley concorda com a amiga e menciona a falta de aparato institucional e a ausência de um curso de cinema na universidade.
“Não tem um mercado de cinema, acaba que as coisas vão sendo muito numa atmosfera de descoberta.” Até fazer a sua arte, Weslley conta que precisa fazer política, marketing e construir o caminho para chegar às mínimas condições de produzir, revelando que precisa ser apaixonado para estar nessa posição de artista.
É um contexto em construção, de melhora com o tempo e de escolhas. Nesse contexto de desafios, Weslley e Milena escolhem falar sobre o que vivem, trazendo em suas produções temas que os envolvem ou que eles escolhem se envolver, imersos no cinema do vivido tão mencionado por Milena, que corre a passos largos do cinema glamourizado, mercadológico e mostra quem são as pessoas que estão fazendo e por que estão fazendo sobre aquilo. “Antes de pensar num tema, eu já penso o por quê de estar pensando sobre aquele tema”, descreve Weslley. Por falar em tema, a escolha deles é sempre feita de forma quase involuntária. Milena, Wesley e todos os integrantes do coletivo LabCine defendem e vivem a ideia da escolha de temas nos quais já estão envolvidos ou escolhem se envolver. Desde muito cedo, com a ajuda da internet, Weslley conta que teve acesso a conteúdo de idealizadores que fogem do audiovisual padrão e começou a querer fazer o audiovisual que fosse no caminho contrário e que as temáticas já o envolvessem de alguma forma. O processo de escolha do documentário “Reação do Gueto”, por exemplo, foi feito no decorrer de uma disciplina do curso de Jornalismo, em um trabalho com temática livre. O primeiro curta com maior repercussão do coletivo foi escolhido em uma conversa rápida entre os estudantes porque eles já tinham conhecimento e uma relação de proximidade com o grupo “Reação do Gueto”. Além da música, o grupo tinha projetos sociais no bairro Santa Maria. O processo dessas escolhas também revela a afetividade que os realizadores possuem com as suas obras. Wesley conta que, antes de pensar que a sua produção vai ser algo que as pessoas vão assistir, ele reflete que vai revisitar a obra e guardar para rever daqui a 10 anos, com um olhar diferente do que ele tinha na época que produziu. Milena não se distancia desse olhar do Wesley e começa a descrever como pensa nas temáticas: “viajando nas coisas” do dia-a-dia e
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percebendo que é possível fazer filmes sobre tudo. Enquanto ela fala, embarcamos na viagem dela, nas palavras e gestos que quase atravessam a tela do celular. “Eu vou limpar o quarto e aí eu penso assim: ‘hum, como eu enquadraria uma personagem limpando o quarto?’”. Milena fala que isso se torna um exercício para pensar. E descreve mais uma cena. “Gente, dramática, né! Às vezes você tá no espelho a noite escovando os dentes, aí você fica pensando coisas: ‘o que você falaria? O que uma personagem falaria?’ Eu fico super viajando assim nessa construção de cenas”. Dessa forma, ela conclui que antes ia muito só pela temática das coisas; hoje, ultrapassa e amplifica esse olhar para as outras possibilidades.
O seu processo é muito próximo do próprio “Reação do gueto”. E a semelhança não se limita ao fato da escassez de recursos, que dificulta as produções no nosso estado. A vivência também influenciou bastante em todo o desenvolvimento dessa obra. Milena nos conta que era domingo quando foram gravar, pegaram ônibus com destino à Santa Maria da Codipi. Quem mora em Teresina sabe a distância que o bairro possui do centro, visto que se reuniram na praça da bandeira e, no domingo, a quantidade de pombos geralmente é maior que a de pessoas. A distância não era problema sozinha, pois a dificuldade do acesso a transporte público em Teresina nos dias de domingo consegue ser pior que nos outros dias da semana. Milena conta que eles até questionaram se ia ter ônibus mesmo, mas, no Com os depoimentos, eles revelam que a fim das contas, o ônibus passou e eles seguiram temática é importante, mas não só ela: as suas viagem. vivências, a construção de memórias, o processo de produção que vai sendo costurado, tudo A Santa Maria era o lugar onde a gente, um influencia nas escolhas que muitas vezes dia, ia em uma festa tocar, ia ajudar eles (reação acontecem de forma natural. Para ilustrar melhor, do gueto), e ia para vivenciar o espaço”. Antes de Milena começa a explicar sobre o cinema de ser um filme, “É tempo de Pipa no Padre processo. “O processo de fazer o filme é tão Humberto” eram várias ideias. Milena lembra que, importante quanto o filme feito. E as pessoas que estão fazendo o filme também podem ser protagonistas daquela contação de história porque vai influenciar o que ela tá fazendo”. Com muitas histórias, vivências, memórias e processos parecidos, Milena e Weslley, da universidade, seguem juntos na vida profissional como dois construtores da cena audiovisual teresinense. O mais recente projeto dos dois é o documentário “É tempo de Pipa no Padre no Padre Humberto”. Em processo de finalização, essa produção pode ilustrar bem toda a cena em construção do audiovisual em Teresina, já que só consegue sair dos arquivos dos jovens, após ser aprovada no edital de emergência cultural Aldir Blanc Teresina. Cartaz “É Tempo de Pipa no Padre Humberto
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enquanto gravavam, ela registrou várias coisas no celular e recorda que queria fazer um vídeo com “as meninas que tavam grafitando”. Já Weslley, estava focado em cuidar do microfone de lapela que colocaram em um dos personagens do documentário. imersos no festival, vivenciando o processo, parte tão importante das suas obras. Foi uma imersão, o dia inteiro no festival, almoço na casa da “galera”. Milena lembra que Weslley, mais organizado, estava com um planejamento de filmagens e ela não. Ela lembra que dormiu depois do almoço e foi com o pessoal do festival no rio. No dia, ainda encontraram um professor mexicano, que não recorda o nome, que estava participando do festival e ficou interessado em saber mais sobre o coletivo LabCine e o grupo Reação do Gueto. “Era muito isso, desse lugar que não só iam muriçocas”. O mergulho nas memórias de Milena e Weslley sobre as suas histórias e as dos bastidores desse e de outros documentários, mostra para nós como esse cinema é feito. Esse
documentário, por exemplo, é uma produção que surgiu de um convite do Doka, do grupo Reação do Gueto, para o coletivo ir em evento, e se transformou na ideia de uma cobertura que até o final de 2021 será finalizada e transformada em um documentário. Mais uma produção audiovisual independente com o selo LabCine. Ao contar pelas suas lentes a história de Pablo e outros jovens durante o III Festival de Pipas da Comunidade Padre Humberto, Weslley e Milena constroem essa cena do audiovisual independente de Teresina. O coletivo LabCine, Rua2 produtora, o artista Doka, do grupo Reação do Gueto e o Quilombo Louco Beats, envolvidos na produção do documentário, também testemunham e embarcam nessa coletividade para a construção de um cinema nosso.
E, assim, costurando essas histórias e tantas outras que surgem em todas as zonas da cidade, arriscamos dizer - caso ainda não tenham percebido - que em Teresina, sim, é sempre tempo de Cinema.
Foto: Arquivo do Coletivo LabCine
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Foto: Allícia Nascimento
O ÚLTIMO ARTESÃO e o novo normal do mercado velho de Teresina Allícia Nascimento
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A rua de calçamento que passa em frente ao Mercado Central, tem início numa esquina da rua Areolino de Abreu. É bem ali, naquela bifurcação, em um sinal de trânsito, onde a avenida continua para um lado e o calçamento cobre o outro, que iniciamos nossa jornada. Os ônibus de todas as regiões da cidade costumam passar pela praça da bandeira, uma das mais conhecidas e movimentadas de Teresina. O metrô, que possui apenas uma linha com 11 estações, tem uma parada no Shopping da Cidade, localizado naquela mesma praça.
Quando pensamos no centro dessa, que é uma das cidades mais quentes do Brasil, o que nos vêm à mente é o movimento, e é isso que faz a cidade. Movimento de gente, de carro, de mercadoria, de pombos… Esses estão em todas as partes: na praça, nas paradas de ônibus, no teto das lojas, andando pelas ruas ou sobrevoando as cabeças dos transeuntes que, desatentos aos bichos, muitas vezes acabam se sujando - quem nunca?-. Na rua de calçamento os pombos estão em todos os lugares, mas quando olhamos para a quantidade de pessoas, nem os notamos.
É tanto produto e tantos vendedores na rua que alguns despejam seus objetos nas calçadas, sob tecidos, e é bom olhar bem para onde anda, pois há, na rua do mercado, uma infinidade de possibilidades de compra. Se você é novo na cidade é bem provável que você desça a rua de calçamento sem saber para onde olhar, sem saber que sons, cheiros e rostos pode encontrar. Se, como eu, você passou a adolescência descendo aquela mesma rua, sabe que os rostos mudam constantemente, mas sempre vai sentir um cheiro de churros, um gosto de sorvete, e ouvir um reggae, ou um forró ali em algum ponto de vendas. Não é preciso muito para que você acabe ouvindo a conversa de alguém, ver uma família inteira fazendo compras, ou ouvir um choro de bebê.
- Par de meia, 5 reais! Esse é o som característico de um vendedor passando o preço de seus produtos para possíveis clientes. - Menina bonita, vem comprar?
Em um dos lados da rua o que se vê são muitas lojas, uma igreja, e algumas lanchonetes, até o Museu do Piauí fica bem ali, entre uma loja e uma esquina. Do lado oposto estão as paradas de ônibus, sempre lotadas de gente. Gente com pressa, gente cansada, gente que conversa alto no telefone ou com suas companhias, gente com os braços cheios de sacolas, gente com nada nas mãos… Gente sorrindo ou não, agora já não se sabe, a maioria dos rostos estão cobertos.
Mas agora que já os situei no espaço, vamos ao tempo em que nossa história acontece. É 2021 e o Brasil já enfrenta, há mais de um ano, uma crise pandêmica mundial. O coronavírus fez com que o mundo inteiro parasse e que as pessoas mudassem seus hábitos pela sobrevivência. O ideal é que se utilize máscara e mantenha distanciamento de 2 metros nos convívios com outras pessoas, além, claro, do uso do álcool em gel constante e de lavar sempre as mãos com água e sabão.
Mas o que não falta na rua de calçamento são os vendedores ambulantes. Eles estão dos dois lados, seja em frente às lojas, ou na calçada das paradas de ônibus, e se você acha que as lojas físicas do centro apresentam uma variedade de produtos é porque ainda não notou a mercadoria desses vendedores. Mas como não notar?
De fato, em 2020 quando tudo começou no Brasil, a cidade de Teresina teve seu centro fechado por alguns meses. Foi uma época onde quase não se via nenhum movimento de gente nas ruas (a não ser, seus próprios moradores, que não tinham escolha senão permanecer nas praças e fachadas de lojinhas).
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Foto: Allícia Nascimento
O movimento que se via crescer era o dos entregadores, que nesse ano passaram a entregar todo tipo de mercadoria nas casas, desde comida a produtos de higiene. Os carros de aplicativos de carona também aumentaram seu fluxo, levando passageiros que queriam ir de uma casa a outra - mesmo que não fosse recomendado.
localiza uma das entradas para o mercado. Em frente às paradas de ônibus da praça da bandeira, é onde também podemos ver mais vendedores de frutas e bombons. Também é ali, onde, de um lado da rua temos uma fileira de mototáxis estacionadas e do outro, nas calçadas do mercado, os mototaxistas conversam, todos sem máscara.
Aos poucos tudo foi reabrindo, não porque a doença se foi, mas “pelo bem da economia”. O resultado é que quando alguém tem que ir fazer alguma compra no centro da cidade, é quase impossível não temer pela própria vida, em meio a tanta gente aglomerada em todas as ruas e lugares possíveis.
Alguns vendedores ambulantes, e até mesmo das lojas físicas, param para tomar um café e conversar em frente ao mercado. Mais uma vez, não se vê distanciamento e tampouco há cuidado com o manuseio das máscaras. Vendedores de frutas e hortaliças também se aglomeram mais ali na frente, disputando pelos espaços de suas banquinhas, e pelos clientes.
Mas vamos voltar ao Mercado Central São José, mais conhecido como Mercado Velho (afinal, já são 161 anos de existência). É exatamente na rua de calçamento onde se
Nos degraus que levam para dentro do Mercado, uma mãe e sua filha estão sentadas conversando abafadamente por conta das
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Foto: Allícia Nascimento
batendo em um prego que atinge alguma coisa, e quanto mais vamos nos enfiando entre esses produtos, entrando nos espaços disponíveis dos corredores, mais alto o som fica. É Mestre José Luís, sentado em frente à sua loja, próximo à galeria do Mercado. É ali onde, há 40 anos, o artesão trabalha. O serviço do dia é uma placa de madeira, para a entrada de um estabelecimento, e o mestre, usando máscara, trabalha sozinho com a ajuda das duas mãos e é dessa forma que ele permanece por longos minutos. Alguns outros vendedores ou clientes, ao passarem pelo mestre, o cumprimentam e logo recebem uma resposta simpática do mesmo. Um homem que parece conhecer o artesão há muitos anos, para de longe e o observa antes de comentar:
máscaras, de repente a menina chora. Mais na frente, um senhor está sentado na entrada de uma loja, usando uma máscara do São Paulo e observando tudo com olhos atentos. Pelo reflexo das vidraças nas primeiras lojas que ficam dentro do mercado, é possível ver o fluxo de pessoas nas paradas de ônibus, chegando no centro ou saindo dele. Assim como as lojas, a galeria do Mercado Velho, localizada acima delas, está vazia. Não de obras, mas de gente.
- A paciência, meu mestre… - Paciência… - responde José Luis, e segundos depois do breve diálogo, o homem vai embora. Em outro momento, um senhor chega sem
Se formos além, lá no final dos corredores da parte reformada do mercado, onde cestas, tapetes, vasos e chapéus estão empilhados por toda parte e algumas lojas permanecem fechadas, podemos ouvir um som, agudo e constante. É um som de construção: um martelo Foto: Allícia Nascimento
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máscara e senta bem próximo ao artesão, onde conversam por um bom tempo antes que ele se retire e o mestre volte a trabalhar em silêncio.
osé Luís de Sousa é o seu nome, “tudo com S” como ele me instruiu a escrever. Viveu na região da Taboca do Pau Ferrado, zona rural da capital do Piauí desde que nasceu, e na infância já transformava galhos secos em esculturas de animais e o que mais viesse à sua imaginação. Mestre Luís foi trabalhar no mercado fazendo esculturas simples para vender aos lojistas do setor de artesanato e só depois de um tempo trabalhando dessa forma, conseguiu seu espaço fixo.
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O mestre só saiu dali no tempo da reforma, onde os trabalhadores foram realocados para onde hoje fica a galeria do mercado, “mas logo que acabou, voltou tudo pro seu lugar”. E ele acredita que a reforma trouxe melhorias para os vendedores e um grande incentivo para quem estava desmotivado a continuar no Mercado Central.
Em 1982, teve as encomendas mais marcantes e memoráveis de sua profissão, quando fez o troféu Cabeça de Cuia para intelectuais e o mesmo troféu para o programa do Chacrinha. Desde essa época o mestre tornou-se um artesão muito conhecido na cidade, o que aumenta muito o fluxo de pessoas que, ao passarem pela loja, param para falar com ele. Muitas dessas pessoas o mestre nem conhece, mas em algum momento o viram na tv e quando passam por ali resolvem cumprimentá-lo. “Sou simples, prestativo, humilde e muito educado e isso leva você a qualquer lugar que você quiser”. Por ser um mestre de ofício, o Sr. José Luís já ensinou muita gente, desde Castelo do Piauí até a cidade de Teresina, mas em todo trabalho que faz, já sente que está ensinando alguém. Sua loja é procurada por muitos artesãos que se interessam e almejam fazer peças como as dele e ele está sempre incentivando e passando seus conhecimentos, para que essas pessoas não desistam da profissão. “Ou você trabalha por amor à profissão ou vai ser artesão só para sofrer”.
Hoje em dia ele é o único artesão que trabalha no Mercado Velho que tem como maioria dos trabalhadores, lojistas. Ele trabalha com madeira, cestarias e peças de couro, mas seu forte é a arte santeira. Quando o pergunto qual a sensação de trabalhar tantos anos em um mesmo lugar ele me responde de imediato:
O único problema em trabalhar em um local com tanto fluxo de pessoas foi que teve que se afastar por um ano, devido à epidemia do coronavírus. Isso fez com que ele não tivesse um resultado bom nos seus trabalhos. Mesmo tendo que ficar sem trabalhar por tanto tempo, para evitar estar em contato com outras pessoas, o mestre garante que foi a melhor coisa que fez.
- “É ótimo! Eu gosto muito. Eu acho que é muito triste quando você trabalha em um lugar e é obrigado a sair pra passar pra um outro”.
“Eu vi muitos amigos meus morrendo. Tinha um que trabalhava comigo aqui e morreu. Não foi só eles né, muita gente”. Ele tem três filhos, mas em sua casa só moram 2, e ele não é o único responsável pela renda familiar. Suas filhas, uma professora de língua espanhola e a outra que trabalha com
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“Eu vi muitos amigos meus morrendo. Tinha um que trabalhava comigo aqui e morreu. Não foi só eles né, muita gente”.
óculos de grau desde nova, o ajudaram nos momentos em que precisou. Assim como muitos brasileiros, o mestre encontrou dificuldades desde o início da pandemia de covid-19. Ele pegava encomendas para trabalhar de casa e ia ao mercado apenas para dar uma olhada na loja, hoje em dia sua rotina praticamente voltou ao normal, mas mesmo morando só com suas duas filhas, a sensação que tem é de que antes resolviam as coisas com mais facilidade. Agora que voltou a trabalhar presencialmente no mercado, após o expediente o mestre costuma almoçar no restaurante Belas Artes, localizado ainda no centro da cidade. É ali onde ele costuma beber algo antes de voltar para casa, que fica no Mafrense, bairro da zona norte de Teresina. “Nunca bebi cachaça na minha vida, mas eu gosto de tomar campari, ou um vinho, ou uma cajuína. Aí de lá eu vou direto pra minha casa”. Aos 65 anos de idade, o mestre Luís recebeu a primeira dose da vacina contra covid19 no dia 16 de abril deste ano. A vacina foi a AstraZeneca, e agora ele aguarda pela segunda dose, que só poderá ser aplicada após 90 dias. No Piauí, até o dia 17 de maio de 2021, foram registrados 258 mil casos da doença, tendo
ocorrido mais de cinco mil mortes por covid-19. A nível nacional os números são muito mais assustadores, são mais de 15 milhões de casos. Enquanto isso, as aglomerações nas filas de vacinação continuam acontecendo, bares estão com permissão para abrir aos dias de domingo mesmo com a medida do lockdown em vigor. Festas clandestinas acontecendo e muitas empresas que deixaram de tomar medidas para a segurança de seus funcionários, ou sequer chegaram a cogitar essa hipótese, estão funcionando normalmente. O centro da cidade reflete a realidade das outras zonas de Teresina, seja em escalas maiores ou menores. O movimento agora é o que causa o perigo para a população. Esse é o verdadeiro novo normal que atinge não só o mercado velho da cidade, como todo o estado, e o país. Já não se vê a hora de que tudo seja encarado com mais seriedade, como algo real, que está acontecendo há mais de um ano no mundo inteiro. Para que a segurança de todos os trabalhadores de todos os mercados centrais seja garantida, e que nosso último mestre artesão do mercado, permaneça vivo e saudável.
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Foto: Valentina de Moraes
Mercado Velho: memórias, artesanato e a superação na pandemia Valentina de Moraes
Olhares atentos, esperando por quem quisesse chegar. Pessoas conversando alto, umas sentadas e outras em pé. Corredores amontoados de objetos: cestas de palha, bolsas de pano, produtos de couro e bonecos de madeira. Durante o percurso de carro, essa era a lembrança que me recordava daquele lugar. Quando criança, descia na praça da Bandeira com a minha mãe para comprar lá “as coisas mais baratas”, como dizia. E hoje, mesmo diferente, tudo estava igual as recordações infantis. Chegando ao majestoso e rico Mercado Central São José, popularmente conhecido como Mercado Velho, um expoente da cultura e artesanato piauiense, é possível ver que as paredes grossas e as portas largas em forma de arco seguem marcantes, relevando muito sobre os seus 161 anos de história. O destoante das cenas imaginativas de criança, foi perceber as pessoas usando máscaras e, logo na entrada, um local para
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Foto: Valentina de Moraes
Raimundo, muitas lembranças e fé em dias melhores
a higienização das mãos, o que não havia antes , mas que faz parte da realidade do mundo nesse mais de um ano de pandemia que vivemos. Depois de entrar e descer os três degraus de escadas é possível ver as belas peças de artesanato. Os vendedores sorrindo com os olhos, atendem os clientes que chegaram curiosos e maravilhados pelas peças feitas à mão. No primeiro box, a vendedora baixinha de vestido branco não quis conversar, completou dizendo que era “tímida e sem jeito”. Seguiu encorajando a procurar no final do corredor, “as pessoas antigas que poderiam falar como é viver daqui do Mercado”, orientou. Quase no final no espaço de artesanato, no canto direito, um grupo proseava. Interrompi a roda de conversa. Lá, encontrei Raimundo Guedes de Araújo Neto, um senhor de trejeitos frenéticos e fala aperreada. Os seus cinco amigos
de bate-papo o incentivaram a conceder a entrevista “Vai lá com a moça!”, um disse. Os outros assentiram positivamente com a cabeça. E, em seguida, mais um brincou: “Não perde a oportunidade. Diz o que você viveu aqui enquanto ainda tá vivo, para vê se fica famoso”, e todos gargalharam. Raimundo concordou em conversar “deveria que ser coisa rápida”, alertou. Em um banco de madeira alto sentou sem que suas chinelas de couro conseguissem tocar o chão. A cada pergunta, pensava com olhar distante. Conferiu o relógio, acompanhou as pessoas passando pelos corredores e voltou os olhos às mercadorias expostas, como se isso refrescasse e trouxesse fluidez às lembranças. A história de Raimundo confunde-se com a história do Mercado Velho. Ele é um dos mais antigos permissionários que ainda trabalham no local, vendendo os mais variados produtos artísticos. Foi levado pelo pai e o avô aos oitos anos para
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ajudar a sustentar seus outros sete irmãos. As mãos cansadas são fitadas enquanto fala sobre como o artesanato contribuiu na manutenção dos familiares. “Aqui, me criei. Criei minha família, paguei faculdade para minha família. Todos comeram, viveram do Mercado Central. Aqui é a minha vida. O mercado é meu lar”, disse olhando novamente para o relógio e observando mais clientes chegarem. Um homem pergunta o valor da Esteira. Raimundo responde “é R$ 30”. Uma mulher procura por abanos de palha. Dali a pouco tempo, pessoas passam o cumprimentando e ele acena com a mão em resposta. Seu Raimundo é bem famoso pela longa trajetória como comerciante. Hoje, aos 62 anos, com mais de 50 anos trabalhando no local, lembra que a pandemia foi um período difícil de viver. Ao falar, passa as mãos por cima uma da outra e mantém o olhar fixo nas suas mercadorias. “Ficamos uns 5 meses parados sem vender nada praticamente. A pandemia foi crítica, sentimos muito. As pessoas demoram para voltar a comprar, mesmo quando o comercio já tinha retornado. Eu sempre tive fé que conseguiria vencer logo”, contou. Mais otimista diante do aumento das vendas dos presentes para as mães e da ascendente circulação de pessoas em busca dos artesanatos, disse apontado timidamente para cima: “Deus há de nos abençoar ainda mais, que continue assim melhorando. Voltei a vender e já consegui pagar as contas direitinho. Vamos levando como ele permitir. Quero continuar a trabalhar até morrer, bem aqui”, completou. Raimundo finaliza o relato com o sorriso escapulindo pela máscara e externado pelas suas rugas marcadas, que não escondem os seus anos de trabalho duro. Depois da despedida e agradecimentos, seu Raimundo seguiu atendendo quem procurava seu box. Agitado, seguiu apresentando os peões de
madeira e negociando os preços dos chapeis de palha, com aquela pressa de viver e o jeito que lembra os nossos avós. Sigo em frente em busca de uma nova história. Logo no fim do corredor do espaço de artesanato, encostada na parede conversando com uma mulher, estava Janaína Moura de Oliveira. Após o convite para uma conversa, foi possível ver no seu olhar penetrante um toque de simpatia e firmeza. Janaína, que logo se despediu da conversa de corredor, seguiu até seu box. O espaço é cheio de arranjos de flores, embrulhos de presentes, misturados com peças de palha e madeira. Ela continuou de pé, enquanto externava as recordações e experiências marcantes no mercado. Olhou para o espaço pequeno e disse ter muita satisfação de trabalhar no local há 15 anos. A família obteve o sustento por meio da venda do artesanato feito, primeiramente, por sua mãe, a fonte de sua inspiração. “Sou oriunda, venho da raiz que é a minha mãe. Comecei a trabalhar aqui depois que tive meu filho. Tinha 25 anos, na época. Trazia meu bebê e ajudava a minha mãe. Ele dormia pequenininho em um moisés aqui no meu box. Hoje, tenho 45 anos e ainda continuo aqui. Tenho muito orgulho de tudo isso”, contou emocionada. A sua voz marcante, cabelos pretos e o jeito atencioso de Janaina não passam despercebidos. O box é movimentando. A cada momento algum cliente interrompe suas respostas para adquirir ou perguntar sobre alguma mercadoria. Com o cessar do fluxo de clientes, volta o sentido ao seu raciocínio dizendo que não sabe quando começou a gostar do que faz, mas afirmou não ter paixão que supere o ofício. O artesanato está presente nas suas lembranças mais remotas. Ainda quando criança era trazia com o irmão para ajudar nas vendas. “Comecei de casa, na parte de imãs de geladeira e lembrancinhas para turistas feitas com palhas do buriti. Fui indo e
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Foto: Valentina de Moraes
criando amor. Hoje, isso aqui é a minha vida. Quero vir para cá até ficar bem velhinha”, completou. Os olhos marejados evidenciam o sentimento de felicidade que sente. Apesar de ser “pouco tempo” trabalhando no Mercado, comparado a outros permissionários, como mesmo disse, a cada menção à sua vida como comerciante, Janaina abre aquele sorriso no olhar. Ainda na juventude, procurou outros caminhos, mas o transcurso da vida a levou pelos menos passos da mãe, que trabalhou no local por 38 anos, fazendo arranjos de flores, trabalho com palhas de milho e confecção de tapetes. “Minha mãe trabalhou aqui até os 65 anos. Desde que se aposentou, há dois anos, ela trabalha de casa. Invertemos os papéis. Ela continua produzindo de lá e eu vendendo aqui”, contou apontando carinhosamente as peças produzidas pela mãe. A superação do casamento foi lembrada como algo que marcou a sua vivência. E lá mais uma vez, o Velho Mercado teve destaque no quadro da sua parede de lembranças. A recordação sobre a separação e término do casamento, trouxe ainda mais sentimento a sua face. O período foi destacado como muito difícil. “Superei a separação de 23 anos de casada aqui, trabalhando duro. Meu filho ligava: ‘mãe onde a senhora está?’ Eu ficava aqui até às 19h. Não queria ir para casa. O trabalho me ajudou muito nisso”, contou levando rapidamente o olhar ao chão. As gotas de suor percorriam seu rosto, ao passo que Janaína externava como a pandemia da covid-19 havia afetado negativamente as vendas e a de seus colegas de Mercado. As redes sociais foram o ambiente onde reinventou-se. As vendas dos itens de decoração para casa e jardim foram o alento, sendo responsáveis por mudar o cenário difícil e trazer refúgio e esperança para ela. “Comecei vender pelas redes sociais quadros, produtos para jardins, luminárias, jarros de Janaina, seguiu os passos da mãe e reinventou-se na pandemia, por meio das redes sociais.
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Foto: Valentina de Moraes
Mais que artesanato. Vidas, memórias e superação.
parede feitos de cipó. As cestas também saíram muito. As pessoas que estavam em casa, e delas muitas desempregadas, começaram a fazer cestas de café da manhã para vender. Isso me tirou de uma situação bem complicada”, lembrou. “O Mercado é o passado e o presente unidos em um só lugar. Gerações se sustentam daqui. Somos uma família. Todos e todas se ajudam como podem. Acho lindo quando vejo os pais trazerem os filhos para ver e comprar brinquedos que eles tinham na infância. Isso é lindo demais, minha filha. É história e beleza. Essa pandemia tem que acabar logo para voltar a vendermos como antes. Esse é o meu desejo”, narrava Janaina quando foi interrompida pela fome e o aviso que seu almoço havia chegado. Despediu-se carinhosamente e se aconchegou no seu lugar, em meio a tantas superações e memórias”. Logo, foi a vez de me despedir. “Até mais! Obrigada pela história”. Assim, o Mercado Velho marcou-me pela segunda vez. Antes pelas idas com minha mãe e, agora, pelas histórias de vida que tive o prazer de ver, ouvir e tecer neste breve texto.
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Foto: Karolene Veras
SINAL ABERTO PARA 30 SEGUNDOS DE SHOW Karolene Veras Layza Mourão
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os domingos, mesmo diante da pandemia, alguns moradores de Parnaíba, no litoral do Piauí, não deixam de frequentar um dos locais mais visitados da cidade, principalmente por aqueles que desejam comer uma boa refeição com toque piauiense, seja Maria Isabel, vatapá ou feijão tropeiro. Há opções para aqueles que preferem uma comida rápida, como hambúrgueres artesanais, pasteis recheados e pizzas dos mais variados sabores. O local recebeu o nome de Praça do Amor, e fica próximo a rotatória que dá acesso aos principais pontos da cidade. É conhecida pelo fluxo intenso de carros e pedestres que passam pela região diariamente, cercado por postos de gasolina
e uma farmácia que encadeia quase que por completo o acesso ao centro da cidade. A brisa litorânea movimenta as folhas das árvores que cercam a imensa avenida, mostrando que a todo momento, em um som ambiente, a natureza está presente mesmo quando o barulho do tráfego de veículos cruza as faixas da quilométrica via. No canteiro central, muitos quiosques movimentam e dão vida àquela avenida. Entretanto, intenso fluxo de carro perdeu espaço para o som emitido pela voz e as notas de um violão que a cada 30 segundos entoava sons que eram levados pelo vento do litoral. “Amor da minha vida, daqui até a eter -
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nidade nossos destinos foram traçados na maternidade” esses eram os versos que flutuavam junto com a brisa vinda da Pedra do Sal. Cazuza, muito mais do que um cantor, foi um poeta que verbalizou seus amores e sentimentos através das músicas. As letras são atuais mesmo 30 anos após a sua morte, e estava presente naquele momento na voz de um jovem que sequer era nascido quando Cazuza nos deixou. Os cabelos loiros, a estatura média, pele clara e os olhos castanhos deram vida à voz que já embalava a São Sebastião há algum tempo. O sinal é um palco onde o público se renova a cada minuto, então o artista precisa estar alinhado com o relógio. E pela sua vasta experiência de 4 anos trabalhando naquele segmento, Odair dos Santos Júnior aprendeu a o timing perfeito para apresentar suas canções, passar por entre os carros para receber o “cachê” pelo show e a hora exata de voltar para calçada e dar passagem aos veículos. O tempo de 30 segundos, o mesmo tempo em que a maioria das pessoas usa para descongelar uma comida no micro-ondas ou tempo daquela propaganda chata do Youtube, é o que Bakker usa para cantar e tentar garantir o seu sustento.
“Eu sou músico, trabalho no semáforo há 4 anos, morei na rua por dois. Aprendi a ganhar dinheiro cantando.” O sotaque logo entregou aquele jovem rapaz, que decidiu sair do interior de São Paulo para tentar sobreviver às ironias do destino. A decisão foi tomada após diversos problemas enfrentados na família, como a separação dos pais e as escolhas pessoais; tudo isso acabou levando aquele jovem até o extremo norte do Piauí. - Eu queria entrar em certas coisas, fiz muitas escolhas erradas. Se eu tivesse ficado lá, corria o risco de ser preso ou morrer, então decidi sair pra tentar uma vida melhor. A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Assim como nos filmes, o jovem pegou sua mochila, suas roupas, seus sonhos e resolveu abraçar o mundo. Acompanhado de um amigo que tinha o desejo de viver na praia, Bakker começou a construir suas histórias. Desde criança, o violão chamava atenção e despertava nele o interesse e a curiosidade pela sonoridade, entretanto, àquela altura
Foto: Karolene Veras
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Fotos: Karolene Veras
da vida, só sabia tocar 6 músicas, mas o desejo de mudar de realidade não impediu que ele seguisse seu destino.
Junto com o amigo que compartilhava das mesma ambições, decidiu seguir o fluxo da vida, e o primeiro destino foi o litoral paulista, que é cercado por uma intensa movimentação de carros que diariamente cruzam as estradas da região. Um desses motoristas aceitou dar carona aos jovens, e essa é a primeira grande marca que a rua trouxe para eles, que além de longe de casa, enfrentaram o clima, que naquela região marcou - 2º graus. - Nos primeiros anos que eu sai para viajar, não sabia de quase nada, fui na sorte, era meio difícil ganhar uma grana para comer, tinha que depender de favor. Fui aprendendo com a história da rua e conhecendo outras pessoas, mas nada programado. Grande parte do estado de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Brasília, Paraná, Rio de Janeiro e Ceará estão entre os lugares por onde já passou, mas ele afirma que nada é programado. Ao ouvir falar de um bom lugar, Bakker arruma suas coisas, e como as notas de uma música, voa livremente até o novo destino. A pandemia da covid-19, que já tirou a vida de mais de 430 mil brasileiros, impactou também a vida de Bakker, que como músico viu sua renda cair diante do cenário caótico que o país enfrenta. Em março de 2020, com o aumento do número de casos da doença que até então era desconhecida, o jovem teve que deixar os palcos das ruas de Goiás e passou a sobreviver com o dinheiro que conseguiu juntar.
“Foi um período muito mais baixo do que alto, fiquei sem dinheiro, tive que depender dos outros porque eu não podia trabalhar, eu estava morando no Goiás, mas a situação ficou muito difícil para mim. Nos últimos anos sempre comi bem, vesti bem. Durante a pandemia, como já estava treinado, não passei fome.” 32
Após quatro meses do início da pandemia da covid-19, foi aprovada a Lei Aldir Blanc que busca apoiar os artistas que sofreram com os impactos das medidas de contágio contra o coronavírus. Como muitos artistas de rua, Bakker não teve direito ao benefício. Diante dos problemas causados pela grave crise sanitária e sem receber nenhum auxílio governamental, o artista decidiu viajar novamente. Seguiu para o Ceará e logo depois veio para o Piauí. Por indicação de uma amiga, Bakker dessem barcou em uma das mais belas praias do litoral piauiense, Barra Grande, localizada a quase 70km de Parnaíba. Logo no primeiro dia, o cantor fez um chapéu - pedir contribuições financeiras por sua apresentação aos clientes, em um restaurante. Durante os dois meses que passou por lá, o artista se apresentava em alguns restaurantes com um colega colombiano, tocando triângulo, percussão e zabumba, além de tocar para algumas famílias na praia. No entanto, com as medidas mais restritivas adotadas pelo governo do Piauí, como o fechamento de restaurantes e praias, Bakker decidiu vim para Parnaíba. A classe artística é a mais prejudicada pela crise sanitária, as medidas de isolamento social e proibição de eventos com aglome -
rações atingiu em cheio a classe que vive do que o público consome, e piorando o cenário, a desvalorização, a falta de apoio financeiro e as incertezas para o futuro assustam e preocupam quem decidiu apostar e viver do próprio talento. Para Bakker, um jovem que sonha em fazer a diferença através da sua música, com a chegada da pandemia viver de arte para alimentar o corpo é um desafio constante. Diante da falta de incentivo do governo e do público, o jovem que, ao direcionar o olhar para os carros que paravam diante do sinal vermelho, admite que a principal dificuldade de trabalhar na rua durante a pandemia são as pessoas. “A maior dificuldade ainda continua sendo as pessoas. A pandemia só serviu como uma desculpa de ignorância, tanto que a galera não tá nem aí do mesmo jeito para os artistas de rua. São uns 10 carros por farol e um ou dois que ajudam. A pandemia não mudou nada até agora. A galera não sabe aplaudir, não sabe valorizar, não é pelo dinheiro. O dinheiro é consequência da nossa arte.”
Foto: Karolene Veras
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Foto: Karolene Veras
Bakker carrega consigo a missão de tentar transformar o ponto de vista de quem passa pelo sinal e encontra ali um artista. Com toda sua animação ele solta um “boa noite” que na maioria dos casos não é respondido, mas o jovem não desiste. Por meio da sua voz, ele busca encantar e distrair quem passa, mas também precisa continuar para garantir o seu sustento.
Atualmente, o artista além de cantar também pratica malabares no semáforo, duas artes que foram aperfeiçoadas quando ele ali chegou. Com o desejo incessante de aprender, Bakker encontrou pessoas em situação de rua que tinham muito a ensinar.
“Tem muita gente na rua que tem o que ensinar, e as pessoas julgam só de olhar, porque não entendem o interior do outro. Foi com essas pessoas que a galera julga o dia inteiro, que eu aprendi a ser quem sou.”
Há um mês em Parnaíba, o artista sente que o cenário cultural do litoral piauiense não é muito diferente do resto do Brasil. Com a pandemia vários artistas, além de Bakker, passaram a se apresentar nos semáforos das principais avenidas da cidade. Sem traçar um novo destino, por conta da segunda onda da covid-19, e se vendo obrigado a permanecer na capital do Delta, o cantor decidiu começar a dar aulas de violão para melhorar sua renda. Em suas redes sociais, criou uma campanha para arrecadar violões usados, e assim se dedicar a mais uma arte: a de ensinar. Ao final da nossa conversa, o jovem que já viveu. muitas experiências boas e ruins como artistas nesses últimos quatro anos, compartilhou uma experiência de acalentar corações de artistas e não artistas. - Uma vez eu estava tocando em um semáforo lá em São Paulo, na cidade do interior de Barra Bonita, e tinham dois faróis e no farol que não estava trabalhando, a moça parou o carro, depois que abriu o semáforo ela veio até mim e ofereceu uma ajuda em dinheiro e um abraço, e disse que era muito importante o que eu fazia.
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Saindo de Parnaíba, viajamos 332 quilômetros e chegamos a capital do estado. Teresina é o novo cenário para continuação dessa história que pretende dar visibilidade a quem busca através da arte se manter com o mínimo de dignidade possível. Bakker provavelmente não sabe e nem conhecerá pessoalmente, mas apesar de ter um objetivo diferente, entre as águas do Poti e do Parnaíba também existe uma pessoa que encontrou no sinal uma forma de sobreviver. - Aí canta ruim, meu amigo!! Às gargalhadas, é assim que Sérgio, mais conhecido como Marrom, me conta uma das inúmeras histórias que já aconteceram em um dos mais movimentados sinais da zona norte de Teresina. Deitado em sua rede, ele procurou no Youtube por uma forma de ganhar dinheiro de forma rápida onde o investimento fosse compatível com a sua realidade. Foi então que, ele viu nos vídeos uma boa oportunidade e que estava dentro das possibilidades: - Mãe, a senhora me empresta R$ 40,00 pra eu comprar bombom?
E assim tudo começou. A avenida Duque de Caxias quando se encontra com a Petrônio Portela forma um dos cruzamentos que ligam e movimentam Teresina através do intenso fluxo de carros, motos, ônibus e pedestres. E foi lá que o autônomo decidiu reiniciar com seu trabalho. - Primeiro eu fui tentar vender os bombons dentro do metrô. Mas fui barrado por um policial, até muito educado, que me falou que não podia vender ali dentro. Então eu desisti de trabalhar lá e resolvi procurar outro lugar.
Segunda-feira é considerada por muitos o dia internacional da preguiça, mas esse foi o dia em que Marrom decidiu começar a colecionar suas histórias, ao definir a avenida Petrônio Portela como local para suas vendas. No começo, eram só bombons e uma meta: fazer 40 reais em venda por dia. E essa era a rotina, de domingo a domingo, com 6 horas diárias divididas em dois turnos. “Essa era e é minha meta até hoje, fazer 40 reais por dia, o que ia dá 280 por semana, o que me daria pouco mais de 1100 por mês. Daria para custear algumas despesas. Mas o sinal é muito imprevisível, até o dia 15 do mês dá bom, depois vai ficando mais fraco.”
E foi assim por 1 ano, alternando entre jujubas, paçoquinhas e chocolates, que Marrom saia de sua casa no Monte Verde, extremo norte de Teresina, para garantir o seu literalmente suado dinheiro, já que o sol da nossa capital castiga todos que a ele são e estão expostos, mas esse nunca foi um empecilho para aquele vendedor. Com o passar dos dias, Marrom percebeu que precisava levar algum atrativo para o sinal, só as guloseimas já não estava mais sendo suficiente para garantir as vendas. E mais uma vez, lá foi ele recorrer ao Youtube, para buscar ideias que pudessem incrementar nas vendas, e então ele viu aquilo que mudaria os rumos do seu empreendimento: a música. Porém, ele tinha ciência das dificuldades que encontraria ao longo da tentativa de acrescentar essa modalidade. No comecinho, era só uma caixa de som, um microfone e uma vontade muito grande fazer aquilo acontecer. - Primeiro, eu tive que pedir autorização pro dono da casa, se você observar - fala ele apontando para casa - ali é a casa de um senhor,
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Eu não quero fama não, sabe? Eu quero continuar aqui vendendo meus bombons. Já veio várias pessoas aí me chamar para ir cantar em programas, mas eu recuso. Sabe por quê? Porque as pessoas vão se achar no direito de dizer o que eu tenho que fazer pelo simples fato de ter me ajudado, e eu não quero isso, prefiro ficar aqui vendendo, me divertindo e entretendo quem espera o sinal abrir. e a janela dá pra avenida onde eu ficava. Eu precisava colocar a caixa de som em cima da calçada, pedi uma extensão, e garanti ao dono que ajudaria nas despesas da conta, já que eu ia usar a energia dele, não queria nada de graça. Só que não deu muito certo, não fiquei muito tempo lá, eu entendo que incomodava, o som ia todo pra dentro da casa, e ali era onde ele assistia TV. Por isso que eu vim pra esse lado, mas eu não tenho raiva não, até falo toda vez que ele passa por aqui, são coisas que acontecem e eu entendo o lado dele. A venda dos bombons têm gerado um bom lucro para Marrom, e ele mostra todo orgulhoso as suas conquistas ao tirar do bolso várias notas e moedas, uma média de 150 reais, que foi conquistado somente naquele dia, um domingo calmo e quente de abril. Por ser muito simpático e trabalhar com doces, falar em bombons e não
ouvir histórias de crianças é algo que não faria muito sentido quando se conversa com vendedores como Marrom, que cita que as crianças, em sua maioria, são o seu público, já que muitos pedem que os pais comprem na mão dele. - Um dos casos mais marcantes foi o de uma menininha, acho que é Mariana o nome dela, não lembro, a mãe veio por aqui, numa Hilux branca, e ao dobrar ali, parou em frente a estofaria e me chamou, então eu fui. Chegando lá, ela me entregou 50 reais e disse que a filha dela a fez prometer que ela iria me entregar esse dinheiro. Essa é uma das histórias com criança que mais marcaram nesse tempo que eu tô aqui. Aí passou uns dias e como esse trecho é caminho pra muitos lugares, elas passaram novamente, e eu fiz questão de pegar uma caixa de chokito e levei até lá, mostrei que tava lacrada, né?
- Eu fiz questão de pegar uma caixa de chokito e levei até lá, mostrei que tava lacrada, né? Não queria que ela imaginasse algo de mim, e perguntei se ela autorizava eu entregar pra filha dela abrir e tirar dois. 36
Não queria que ela imaginasse algo de mim, e perguntei se ela autorizava eu entregar pra filha dela abrir e tirar dois. Ela disse que sim, então eu entreguei a caixa e a criança abriu ali na frente de todos e pegou dois chocolates, e eu disse que era pelos 50 reais. Ao falar das crianças os olhos brilham, e ele lembra do filho, que também canta mas que já é um adulto de 26 anos, e morador da cidade de União, interior do Piauí e distante 57 kms da capital, e por lá perpetua os gostos musicais que divide com o pai. Como um pavão que adora exibir suas plumas, Marrom exibe com muito orgulho os primeiros frutos conquistados com a venda de seus bombons, uma caixa de som nova, um pedestal para o apoio, uma mesa de som e um microfone novo. - Tudo isso aqui, já foi comprado com o dinheiro dos bombons. Essa caixa - ele aponta eu comprei sexta feira, e paguei a vista. Eu fui juntando até conseguir comprar. Essa mesinha de som e o microfone eu comprei no cartão, né? Me programei direitinho, para comprar tudo isso aqui, e comprava uma coisa aqui e outra ali, e finalmente comprei a caixa de som. A relação com o pagode é talvez um dos pontos que mais marcam a presença do vendedor naquele local. Raça Negra é a banda mais cantada por ele, que garante gostar muito das letras e do estilo que parece agradar quem passa. O processo é simples, garante ele: - Eu boto no Youtube a música que eu quero em forma de karaokê, conecto o celular na caixa de som, e com o microfone aqui, eu vou ali pra faixa e começo a cantar. Quando o cliente sinaliza, eu levo a caixa de bombom até ele e continuo cantando. Eu gosto das letras do Raça Negra, aquele cara tem a língua embolada e mesmo assim canta.
Um dos pontos mais marcantes que se destaca naquela jornada de trabalho é a simpatia de Marrom com quem passam a todo momento por ali. É um aceno com a mão, uma saudação, um beijo, um alô. O sorriso também sempre está estampado em seu rosto, e é o cartão de visita para quem tem que ali parar enquanto o sinal está vermelho. Marrom não gosta de pensar no futuro, ele tem seus motivos, porém prefere guardar para si, entretanto, ele diz que está satisfeito com os frutos que vem colhendo ao longo dos últimos meses. Em outubro de 2021 ele completará dois anos de sinal, um ano só vendendo bombons e o primeiro ano em que ele se tornou visível ao começar a cantarolar entre os carros. - Vai fazer 1 ano em outubro que eu trouxe a música como diferencial. Acho que eu sou o primeiro aqui em Teresina, não sei se existem outros vendedores que cantam, e eu sempre digo: você consegue ter um dinheirinho vendendo no sinal. A música me ajudou muito. Apesar de conseguir um bom dinheiro ali, os sinais físicos do desgaste que aquele tipo de trabalho traz já é perceptível. Marrom canta uma média de 50 músicas por dia, e como não é um cantor profissional, sua voz começa a dar indícios de que se não houver um cuidado, no futuro problemas poderão atrapalhar aquela dinâmica. - Eu queria fazer aula de canto, sabe Layza? Eu fico rouco muito ligeiro aqui, porque como não sou profissional, não sei as técnicas. Aqui é muito quente e isso também atrapalha minha voz. Então eu queria fazer aula, mas só pra mim mesmo, não tenho vontade de ser cantor profissional, é uma coisa pra mim mesmo. O que antes era apenas uma atividade corriqueira para ajudar no orçamento de casa, se transformou na única fonte de renda do vendedor, que hoje conta até com um pedestal para o micro -
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fone, camisas personalizadas e um banner. Isso mostra que o trabalho está dando certo. O vendedor que canta e encanta quem passa pela Duque de Caxias vai deixar saudades quando resolver aposentar o microfone.
adversidades e com o desgaste físico, a pessoa que passar pela manhã quando ele começa o seu trabalho se passar a noite quando está finalizando as vendas do dia, vai encontrar a mesma disposição e carisma.
- Eu não pretendo ficar aqui pra sempre, mas não gosto de pensar no futuro. Por enquanto eu tô aqui, mas não sei até quando. A única coisa que eu sei é que eu sou um vendedor que encontrou uma forma de chamar atenção pras vendas e graças a Deus tá dando certo, muita gente me ajuda, os caras ali do posto guardam meu material, as pessoas que passam aqui na maioria dos casos são simpáticas comigo, mas tem aqueles que não gostam, é um direito deles não gostar. Tem um cara que sempre que passa por aqui deixa o carro parado lá naquele poste ele aponta na direção de um poste que fica a uns 60 metros de distância da caixa de som - pra não escutar a música, mas eu não me importo, no geral o pessoal que passa gosta muito mais do que não gosta.
A pandemia de covid causou grandes impactos negativos na economia, e a onda de desemprego se alastrou. No Piauí não foi diferente, muitas pessoas perderam seus empregos, e com isso, precisaram recorrer a alternativas para garantir o sustento de suas famílias. Nos últimos meses houve um notório crescimento no número de vendedores em sinais.
Marrom preenche os seus dias com essa rotina, 3 horas pela manhã e 3 horas pela tarde, de domingo a domingo. E mesmo diante de várias
No meio dessa comercialização, algumas pessoas buscam no próprio talento uma forma de chamar atenção e garantir que seu serviço seja visto e com isso, a venda de seus produtos seja feita. Cresceu também o apelo para as artes, malabarismo com bolas, cones, argolas e até mesmo, com fogo; além da música, estão entre os talentos que usam as faixas de pedestre como palco e quem espera pela abertura do sinal como espectador. Para muitos, aquela é a única chance de garantir o próprio sustento e da família.
Foto: Layza Mourão
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