OXENTE! Festas Juninas 2 anos sem o tradicional São João no Piauí e as adaptações para não apagar a chama da festa na pandemia.
Culinária Piauiense Gostos, cheiros, memórias e DNA de um povo.
A vida no circo Os palhaços Nildo e Sardinha falam sobre suas trajetórias como artistas circenses.
Foto: Arquivo Luar do São João
Índice Expediente
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Editorial
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São João cabe numa tela?
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“Se existir vida após a morte, quero continuar sendo artista circense”
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Culinária Piauiense: gostos, cheiros, memórias e DNA de um povo
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Casarão Cultural: arte, resistência e valorização da cultura piauiense
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A Ballroom para além dos bailes
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Expediente Repórteres
Diagramação e Edição
Allícia Nascimento Diego Vieira Jardenia Rosa Karolene Veras Layza Mourão Marta de Sousa Sara Nascimento Valentina de Moraes
Diego Vieira Karolene Veras
Editora Chefe Ana Regina Rego
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EDITORIAL
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a Revista Oxente! nascida em janeiro de 2021, mas computada como do primeiro semestre de 2020, tendo em vista as intercorrências temporais acadêmicas impostas pela pandemia da Covid-19, chega a sua quarta edição exatamente quando concluímos o segundo período de 2020, neste julho de 2021, ainda em plena pandemia. No futuro quando pesquisadores vierem a ler este editorial com certeza ficarão em dúvida quanto à verdadeira temporalidade vivenciada por nós, nos dias atuais. Nossas vidas suspensas em março do ano passado, permanecem suspensas por muito mais tempo do que previsto, logo nossa experiência temporal se encontra em aberto e no ambiente acadêmico em que realizamos este veículo experimental de jornalismo literário, a situação é mais complexa. Como dito, neste julho de 2021 estamos concluindo o ano letivo de 2020 e fora das salas de aula virtuais contabilizamos quase 530 mil brasileiros mortos por Covid19. Algumas incertezas e angústias se aprofundam, outras se tornam certezas, enquanto o Brasil segue à deriva, sem uma gestão digna de seu povo que possa nos dar esperança de dias melhores.
Em meio a todos os problemas de nosso tempo os alunos da disciplina Jornalismo Especializado II do Curso de Jornalismo da UFPI, nos brindam com uma quarta edição da Revista Oxente! rica em afetividades, em histórias e memórias que nos encantam nesses dias sombrios. Nas próximas páginas nossos leitores poderão se deliciar com as comidas piauienses tradicionais e suas reconstruções na cultura gourmet. Poderão rir e se emocionar com as histórias de vida de quem faz circo no Brasil, além de dançar e viver as festas juninas pelas narrativas dos que fazem e vivem as quadrilhas. Mergulhar e conhecer o incrível universo da cultura ballroom em Teresina e se reconhecer nas artes da Casarão de Amarante. Em pleno meados de 2021, finalmente nos despedimos completamente do fatídico 2020 em grande estilo e viajando pelas narrativas do jornalismo literário de nossos futuros jornalistas. Boa leitura!
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Foto: Arquivo Luar do São João
São João cabe numa tela? Diego Vieira Marta de Sousa
Quarta-feira, 16 de junho de 2021. 17h02. Felipe Rodrigues me avisa que está pronto para a entrevista. Dez dias antes, Diego e eu definimos a temática da pauta para a quarta edição da OXENTE!: como estão as quadrilhas juninas que viajavam para apresentações desde que iniciou a pandemia? Pesquisei sobre a Luar do São João, e já veio logo a saudade junto com uma tentativa de consolo pela possibilidade de acompanhar alguma live pela internet. O computador ligado desde às 07h30min da manhã, ficaria assim ainda por mais um tempo. Depois de estágio, almoço, aula, confirmação com o entrevistado… O relógio marcava 17h00! O coração acelerou, estava chegando a hora. Mandei mensagem com destino ao Diego, minha dupla, situando sobre o personagem da entrevista de logo mais. Esse dia foi cheio: estágio, confirmação com o entrevistado, últimos ajustes no roteiro, aula remota, atividades acadêmicas. Ufa! Em questão de minutos Diego criou o link no Google Meeting, e eu corri ao espelho para conferir se o cabelo estava alinhado, retoquei o pó, verifiquei a roupa, alterei o
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plano de fundo da minha tela na chamada, respirei fundo e sentei à mesa do notebook para mais uma etapa da construção da Oxente!. Uma última revisada no documento em word com o roteiro das perguntas aberto em outra aba e, enquanto encaminhava o link para o Felipe, Diego e eu dividimos a tela sob a tensão de saber quem era aquele com quem confirmamos dia, horário e local virtual para ouvir sobre a tradição junina, raiz do Grupo Cultural Luar do São João. Encaminho o link para o entrevistado do dia . Felipe entra. Diego inicia a gravação da chamada. “Boa tarde, Felipe! Bem vindo! Tudo bem?”, assim recebemos nosso entrevistado e abrindo um sorriso a ele, já faço a primeira pergunta do roteiro: “quem é o Felipe e qual a sua história com o São João?” Enquanto ele conectava o fone ao celular para nos ouvir melhor, respondia: “Boa tarde! Primeiramente, quero agradecer a oportunidade, pela disponibilidade dessa troca nesse espaço”, e assim já listou quem ele é: dançarino que vive da arte, professor, coreógrafo, formado em educação física, graduando em arte na educação escolar, professor de dança contemporânea, bailarino do balé da cidade de Teresina, intérprete e criador de companhia de dança independente e, não menos importante, coordenador e noivo junino do Grupo Cultural Luar do São João. A minha expressão foi de surpresa com tantas atribuições, cargos, de uma pessoa só. Felipe Rodrigues ocupa espaços da cultura popular, do jazz, de dança contemporânea, mas se dedica com afinco à cultura popular do período junino e ressalta que a quadrilha junina é mais que um evento tradicional na cultura do Nordeste, “é uma ação formativa, performativa e afirmativa em dança”, declara. Mais à frente, ele revela que essa tríade é o tema do seu projeto da graduação e enfatiza os termos (nessa ordem, respectivamente) com a finalidade de uma conversa mais fluida, com outra subjetividade, para além do entretenimento.
Foto: Captura de tela das entrevistas virtuais
A quadrilha junina piauiense Luar do São João, da qual Felipe é integrante e destaque (noivo junino), tem 10 anos de existência. Na revelação da história do Felipe com o São João e dentro da Luar, ele conta que, além da dança no cenário junino, já comeu mingau, bolo de milho como pagamento por uma apresentação, diferente de hoje, que o grupo ocupa um lugar competitivo e mais profissional, com a quadrilha estilizada para atender a demanda estética e informacional.
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A Cultura Junina é trabalhada o ano inteiro, da coreografia até a dramaturgia. Felipe Rodrigues vive de dança, e ressalta isso em sua fala. Saiu da periferia, da escola pública e começou a estudar arte, dança, e a quadrilha junina. Começou com 16 anos, trabalhando e se inserindo nos grupos com o olhar de responsabilidade, diferenciado, e dançava em quadrilhas de bairro, dançando em ruas que, hoje, não têm mais segurança. Na fala de Felipe, no gesto que faz com o corpo, na expressão do rosto, o levantar das sobrancelhas, percebemos que o peito devia estar dilatado ao contar sua história com o São João e mencionar um clichê: que é dançar por amor. O semblante muda e com o rosto mais entristecido, sem tanta empolgação, Felipe destaca que, em Teresina, viver de arte é muito difícil e relata ainda que superou passando de grupo em grupo, aprendendo a costurar, bordar, coreografar. Chegou na Luar em 2017 a convite do ex-presidente Edilson, já falecido, e permanece até hoje porque vê o trabalho social produzido além da dança. Pergunto então ao Felipe como receberam o diagnóstico de pandemia no Estado, com fechamento de espaços, atividades sem aglomeração, pois, quem vive São João não imagina outra coisa senão um local aberto, grande, cheio de cores quentes, vibrantes, xadrez, cheiro de comida típica e muita gente animada, curiosa, na torcida. E Felipe menciona com a voz mais branda, sem fixar os olhos para a câmera do celular que não ter quadrilha aberta ao público tem sido um desafio: mexe com o afeto de quem assiste e, principalmente, de quem organiza um coletivo cultural junino. Com a pandemia, até o São João precisou caber nas telas. Coube mesmo? Sem o contato físico entre os brincantes, sem a multidão nas arquibancadas, Felipe Rodrigues afirma que a festa junina perde muito com o distanciamento social, que afeta a proximidade entre os pares, “não é fácil”, destaca o noivo junino olhando fixamente para a tela e revela que alguns
aquela troca de olhares, o testa a testa entre os pares, que sentiam o suor, o cheiro, as sensações e até os batimentos um do outro, está cada vez mais distante, literalmente, pela condição imposta pela pandemia. O contato, ressalta Felipe, causa maior sintonia entre os pares e agora causam saudades da troca, da relação, “a gente estava junto todo o tempo, estava trocando energia, porque isso influencia no que vamos mostrar depois, que é um grupo coeso, um grupo harmônico, que tem uma energia”, menciona o dançarino com olhar para o alto. Diego então questiona Felipe sobre o retorno do público durante as apresentações, a relação entre as pessoas e a realização dos eventos de forma virtual. Felipe diz que a resposta é diferente porque são dois grupos: os que não tem acesso à internet e aqueles que são quadrilheiros de outros grupos e se ajudam através dos comentários, participando das lives uns dos outros, tentando sustentar o movimento. Ele comenta ainda que essa diferença é grande porque a internet não chega para todos e que “se fosse presencial, as pessoas poderiam deslocarse para assistir. No virtual é um tipo de público”, ressalta Felipe ao mencionar a expectativa da experiência do primeiro drive-in junino, estava “ansioso para ver a reação das pessoas, vão estar dentro de um carro, mas, vai ter público, então, será se vai ser a mesma coisa? Será que vão receber do mesmo jeito?”, conta com voz e expressão mais acelerada até que, mais calmo, afirma que a falta é não só de passar horas tirando fotos, mas “o atravessamento que as pessoas sentem, não só de elogios, mas a troca mesmo, o carinho”, revela. Todo espetáculo da Luar conta uma história que vai além de transformar o sertão, traz subjetividade para a mente das pessoas. O Grupo Cultural Luar do São João tem referências piauienses, como as músicas juninas, Luiz Gonzaga, também posicionamento político numa questão mais lúdica, personagens nacionais. Cada ano é pensado de forma diferente, a temática é baseada num ponto que a quadrilha
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Pergunto para finalizar (ou não) se Felipe é menos ele sem o São João, e ele responde afirmando repetidamente “com certeza, com certeza, sou super menos. Como falei, eu vivo de arte, o que me move é a arte.” O noivo junino, numa sequência de fala que parece até que já estava preparado para dizer isso, parafraseia a professora, pesquisadora e crítica de dança Helena Katz quando diz que a “dança é que faz o movimento não morrer de clichê” e comenta que tudo o que faz é dança, é arte, “se eu sair daqui pra beber uma água, eu tô dançando, então, quando a gente para de fazer isso, a gente não é, a gente não é a gente mesmo; se eu não
dançar quadrilha, vai ficar faltando um pedaço da minha história, um pedaço de mim, vai ficar faltando eu mostrar quem eu realmente sou porque é na quadrilha junina que eu também expresso as minhas sensações, a minha saudade”, destaca. As adequações decretadas para conter o avanço da doença causada pelo novo coronavírus fragilizou parte dos componentes da Luar, como ressalta Felipe ao apontar os sentimentos expressados durante a produção do último trabalho, o drive-in junino: “as músicas tocam muito. Quando a gente se imaginou ontem no palco, imaginando que vai ter carro, vai ter pessoas, o pessoal desabou a chorar porque realmente é muito forte, isso mexe em lugares muito potentes na gente. Então, se eu ficar sem dançar qualquer coisa, quadrilha ou dança contemporânea, ficar sem dar aula, vai fazer total diferença porque a minha vida só faz sentido porque eu danço e acredito que para muitos quadrilheiros também”, declara Felipe.
A minha vida só faz sentido porque eu danço. - Felipe Rodrigues
Foto: Arquivo Luar do São João
quer evidenciar e Felipe recorda de espetáculos anteriores ao mencionar que em 2017 dançaram, cantaram e falaram sobre os anos dourados, que marcaram a apresentação de um São João americanizado. Em 2018, lembra Felipe, foi o Labirinto, baseado no filme O Labirinto do Fauno, trazendo a ludicidade para o milharal. 2019 foi o ano em que a Luar apresentou o movimento cultural Tropicália a partir de um festival que aconteceu no Brasil em época de silenciamento, ditadura, trazendo artistas através do repertório, destaca Felipe. Ele também revela a temática pensada para 2020, em que trariam a devota que virou santa, com uma história baseada na Irmã Dulce; o projeto ainda segue, mas pode ficar para 2022.
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Diego questiona sobre a intenção do grupo junino ao trabalhar temáticas que não sejam necessariamente sobre o sertão do nordeste, o que impede que desçam lágrimas com o relato do Felipe sobre a reação dos demais dançarinos nesse período. Felipe afirma que é muito subjetivo e a base da história é encaixar os elementos tradicionais da quadrilha junina (casamento, cenário, maquiagem, coreografia, repertório, desenho, grande roda, caracol etc) no pensamento do tema e fugir disso é um desafio principalmente para as quadrilhas competitivas.
Após o relato, peço que Felipe defina o São João e a Luar, se possível, numa só palavra. Ele ri e diz que é muito difícil porque ele gosta muito de falar, mas escolhe uma e firmemente responde que são resistência, “a gente tá nesse momento de resistir e lutar em todas as questões, políticas, econômicas, sociais, culturais. Porque a gente tem que tá muito firme pra aguentar muita coisa desse governo, o esquecimento da cultura… E é resistir dançando, mostrando, falando que a gente tá aqui. É amor porque já tá aí, né? Tem que ser uma palavra que faça sentido. São João e Luar são resistência.” A gente finaliza agradecendo e explicando que assim que a revista estiver pronta vamos encaminhar para ele, que diz ainda que seja enviada pra todo mundo e espera que não pare aqui, que a gente pesquise muito, “tem muita coisa aí e vocês vão amar, vamos multiplicar quadrilha junina”, destaca Felipe ao final da conversa. Vem então a despedida. Felipe sai da sala virtual e Diego já verifica logo se a gravação aconteceu e comenta que fez isso há muito tempo, com medo de não ter dado certo. Deu certo. A gravação foi salva no drive. Um intervalo para beber água e preparar para a próxima conversa sobre São João. Dessa vez, com um membro da diretoria da Luar do São João. Consegui o contato com uma amiga, conhecida do Paulo César, ou PC. O agendamento da entrevista se deu via whatsapp e os lembretes também. Nos intervalos de uma aula remota e outra, eu tentava confirmar e alinhar o dia e
horário da conversa com a nossa disponibilidade de estudante na realidade EAD. Depois de adiar, confirmar, mudar horário, dia, enfim, deu certo. A conversa com Paulo César ocorreu poucas horas após a entrevista com Felipe Rodrigues. Ainda na quarta, não mais 17h 02min, mas às 19h, Diego e eu estávamos ainda com a mesma roupa da primeira entrevista e, no intervalo entre uma e outra, combinamos de tomar uma água, revisar o roteiro com as perguntas, criar o link e iniciar a conversa. Nisso, caminhei pelo quarto e voltei à mesa do computador para os últimos ajustes. Cansaço, sono, fadiga por passar o dia inteiro em frente a telas de computador e celular, atividades acadêmicas, pautas de estágio, nada disso foi capaz de impedir nossa alegria. Aliás, quem fica triste falando de São João? Pois bem, Diego cria o link mais uma vez, encaminha pra mim, entro na sala virtual do Google Meeting, compartilho o link com Paulo César e aguardamos. Ele pede participação. Nos poucos segundos entre a notificação do pedido dele e a aceitação, o nervosismo veio novamente. Na tela do notebook mesmo olhei o cabelo, arrumei a tiara bordada na cabeça e sorrindo a gente recebeu o diretor da Luar do São João, que estava em viagem quando entrou na sala virtual. A primeira pergunta foi a mesma feita na entrevista de mais cedo: “quem é Paulo César?”. Até responder, ele ajusta o celular para que a gente possa enxergá-lo melhor. Feito isso, fazendo movimento circular com a mão, como quem expressa algo mais amplo, ele diz que, na vida normal, sem cuidar de cultura, de quadrilha, é psicólogo, trabalha como cerimonial público e privado na realização de eventos institucionais, corporativos e, com muita ênfase nas palavras, quase que ditando sílaba por sílaba, afirma que em todos os dias de sua vida, vive a cultura junina. A Luar do São João está inserida no projeto da Associação Cultural Teresina Show, como carro chefe, e Paulo César é um dos 3 diretores do grupo. Sua história com o São João
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Foto: Arquivo Luar do São João
começa antes da Luar, desde muito pequeno, na participação da quadrilha, antes de ser estilizada, no período em que o coletivo era mais tradicional, explica. Olhando para cima, com um arrastar na voz, como que um recurso de voltar à memória e contar com exatidão os fatos, Paulo César recorda que em maio de 2013 recebeu o convite para conversar com uma pessoa no ensaio de quadrilhas e encontrou a Luar ensaiando na quadra da Telemar, do bairro Mocambinho, zona norte de Teresina. Paulo César conta que no outro dia foi novamente ao ensaio e viu o fundador do grupo, Edilson (já falecido), com quem dialogava durante os ensaios e, com um olhar admirado e sorriso tímido revela que, quando percebeu, estava indo todos os dias ver o ensaio da Luar. Auxiliando o grupo com ajudas, como deixar os dançarinos em casa após o ensaio, Paulo foi inserido no coletivo e recebeu outro convite: participar da diretoria da Luar do São João e atuar nos bastidores. Paulo César pontua ainda que em 2016 recebeu uma ligação para participar como padre do teatro da quadrilha e relata que é um desafio conciliar as duas tarefas, além de cuidar da sincronia da equipe que compõe o coletivo junino, tendo de ser parte no teatro durante as apresentações.
A quadrilha junina Luar do São João tem atividade de forma anual. Os trabalhos começam ou, melhor, continuam assim que encerram um espetáculo. Então, escolhem os temas, acontece a votação e, se aprovados, estudam e dão início aos ensaios, montagem da estrutura, como descreve Paulo César, que tem a expressão mais rígida, como se estivesse tentando convencer a mim e o Diego, quando diz que fazer cultura é deixar um legado, não é só jogar as músicas, é todo um contexto, toda uma história, é bater cabeça todo dia com brincante, com o financeiro, é a despesa da água, da van que leva o brincante pro ensaio e pra casa…mexendo os braços mais uma vez, Paulo César atesta que em toda temporada afirma que é o último ano dele na diretoria, mas, quando dá por si, já se vê organizando o próximo evento do ano seguinte. O tom de voz agora já fica mais calmo e Paulo explica que o movimento envolve jovens de todos os tipos, classes e raças, como aqueles que estão ali para não estarem vulneráveis ou à margem da sociedade. Ele finaliza a fala e aguarda, olhando para a tela, outra pergunta. Já sabemos quem é o Paulo César e como iniciou sua vida no São João até chegar na diretoria do grupo cultural junino. Agora queremos saber:
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quem é o Paulo César sem o São João? Ele se inclina para trás rapidamente, como que surpreso com a indagação, e balançando a cabeça afirma que é muito vazio, principalmente durante o primeiro ano de pandemia, que precisaram reinventar as apresentações e adequá-las ao meio virtual. Paulo César, com a testa mais franzida, com tom de indignação destaca que a cultura junina tem a sua mensagem e a maior satisfação do mundo, para ele, é ver a quadra lotada e as pessoas fazendo aquilo com amor, felizes e se realizando. Este ano, sem estar viajando pelo Nordeste ou pelo Brasil, sem colocar os 72 pares dançando em quadra, o diretor da Luar afirma que não tem uma emoção que explique esse momento e que não se vê sem fazer quadrilha junina nem fora do ciclo junino por muito tempo, mesmo com os problemas familiares. O fundador da Luar se divorciou escolhendo a quadrilha à mulher, conta Paulo. “Edilson mesmo, se separou. A mulher disse: eu ou a quadrilha, e ele disse: a quadrilha”. Eu sorri da minha tela, pois não esperava por essa, e ele continuou contando que Edilson não era só um presidente, era um pai, ensinou a cuidar do legado da Luar com a própria identidade. Ainda na temática do serviço anual do grupo, Paulo César enfatiza que o primeiro bom dia é pra falar com o outro diretor sobre quadrilha junina e, no período característico das festividades, a comunidade espera pelo evento. Para 2020, Paulo César destaca que já estavam com o layout e protótipo do figurino prontos quando veio a pandemia. E já não podiam mais ensaiar. E o que fazer? A equipe se reuniu e pensou: não podemos parar o movimento e nem deixar essa fogueira do São João apagar, não pode ficar nem na brasa, tem que manter a chama do São João acesa, declara Paulo com voz firme. Foi tempo de reinvenção com ações e palestras virtuais para que o grupo não começasse a se dissolver, conta o diretor. A Luar do São João é mais que dançar em quadra. O grupo realizou a I Mostra Junina para movimentar os grupos culturais e atividades
juninas no Piauí enquanto se encaminha para o restante do primeiro ano de pandemia. E Paulo destaca que o grupo de balé, nesse período, começou a montar pequeníssimas turmas, por causa do distanciamento, e em mais um ano de pandemia e sem São João aberto ao público de forma presencial, a Luar completa 10 anos de existência e organiza espetáculo para 3 dias: é o primeiro drive-in junino do estado e do país. Além do evento, a proposta contava com arrecadação de alimentos para auxiliar quadrilheiros que vivem de cultura e precisam sobreviver. Também na tentativa de não deixar a chama do São João morrer, lembra o diretor do coletivo cultural. O modelo de quadrilha estilizada foi um movimento que criou essa característica também nos demais coletivos juninos do Brasil, menciona Paulo. Então, o coreógrafo vê o tema e o que se adequa àquela temática e não se pode perder as características básicas, que é o chiado da chinela, o balançar da saia, não pode deixar que essa identidade cultural se perca, diz Paulo enquanto movimenta o corpo à medida de que apresenta os argumentos e, quando olha para a tela como se estivesse confirmando conosco o que diz, revela que o próprio júri leva esse aspecto temático em consideração nas competições, os temas foram precisando dessa aprimoração e a estilização das quadrilhas foi um processo mais natural, declara. A pandemia fez com o mundo inteiro se adaptasse ou pelo menos buscasse alternativas para fazê-lo e Paulo César menciona com peso na fala que foi difícil se adaptar porque “a gente viu que inovar e fazer eventos híbridos dá um trabalhão”, destaca ao falar pausadamente. A crise sanitária também trouxe ao grupo cultural junino, além do vírus, a indecisão: “como colocar o casal que dança? Tem que testar o casal, ensaiar, parar o ensaio pra ficar de quarentena...”, enfatiza o diretor da Luar do São João enquanto balança a cabeça de um lado pro outro ao falar cada palavra. Para 2021, o grupo preparou o espetáculo drive-in junino e Paulo César comenta a dificuldade na organização porque as pessoas escolhidas estão trabalhando de casa, as saídas
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delas são única e exclusivamente de casa para o ensaio e vice-versa; é preciso fazer a testagem da produção, dos dançarinos, da banda, porque eles dançam lá e voltam pra casa, menciona Paulo com expressão de preocupação ao detalhar a preparação dos eventos em tempo de pandemia de forma virtual. Em fevereiro de 2020, a Luar do São João recebeu o título de Menção Honrosa da Instituição Internacional de Folclore e Artes Populares em parceria com a UNESCO. Perguntei ao Paulo como reagiam com as premiações e reconhecimento, agora internacional. Ele põe a mão no queixo, olha pro lado, pra cima, tenta começar a formulação da resposta quando recorda que estava na cidade de Oeiras quando recebeu a ligação que falava dessa premiação da UNESCO. “Eu juro pra vocês que eu me sentei e quase passo mal”, destaca Paulo César enquanto continua dizendo que tudo é fruto do trabalho e mais ainda: trabalho e responsabilidade com a cultura junina e do nosso estado. Ele sorri largamente e fala do seu afeto pelo estado: “eu sou apaixonado pelo Piauí. Eu ando com minha
bandeira do Piauí debaixo do braço”, ainda com o riso largo ao destacar o amor pelo estado, Paulo relembra do dia em que chegou com a Luar na competição do Globo Nordeste: “não tem coisa melhor do mundo do que chegar lá e abrir a minha bandeira do Piauí e dizer: aqui, oh, Piauí! É o Piauí!”, fala o diretor enquanto gesticula, como se estivesse realmente segurando a bandeiras nas mãos e mostrando a mim e ao Diego a reprodução do que expressou no evento. Paulo César, ainda emocionado ao relatar da paixão que tem pelo estado e como demonstra onde vai, levando a bandeira do Piauí, conta agora sobre a logística de deslocamento do coletivo junino quando precisam apresentar o espetáculo em outras regiões e competições. “Porque a gente não chega lá só. Pra Luar chegar lá, no Globo Nordeste, só pra competir, a gente vai, mas a gente precisa de toda uma estrutura que sai do Piauí: parceiros, patrocinadores, do apoio, e são das pessoas do Piauí”, declara César ao posicionar a mão sobre a região do coração e afirmar que “ a Luar está levando no peito a bandeira do Piauí, acima de tudo”.
Foto: Arquivo Luar do São João
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Foto: Arquivo Luar do São João
Em 2019 ganharam o título de melhor quadrilha do Brasil e depois receberam o reconhecimento da UNESCO. Paulo compara as competições de grupos juninos no Globo Nordeste com a Copa do Mundo: “tu imagina? Tem Copa América, outras copas, mas, Copa do Mundo, só vão os melhores”. Paulo recorda ainda da emoção ao receber a menção honrosa da instituição internacional: "E quando a gente escutou o nome da gente, eu olhei assim, tomei um susto e peguei bandeira e fui lá. É o Piauí acima de tudo! Tá aqui o suor do povo piauiense, de cada um desses brincantes, das famílias que ficam em casa, das costureiras que produzem o figurino, aqui tá o suor do staff que carrega o cenário super pesado”, detalha César ao contar sobre uma das bases de um palco dos espetáculos, que precisam de mais de 20 pessoas para levantar, de tão pesada. Minha expressão foi de admiração porque numa apresentação é contemplada a beleza das roupas, da coreografia, da sincronia, não de peso ou valor de uma base de palco. Chegar nas competições, ser destaque, exige compromisso e respeito, diz a nós Paulo César, num tom mais baixo, como se estivesse contando-nos um segredo. “Exige mais respeito, respeitar o outro quadrilheiro, a nossa cultura, desde aquilo que é base, pra não perder a característica de São João, até aquilo que foi se estilizando. Porque todo mundo quer saber quem é a Luar do São João, os olhos crescem pra cima da gente; a cobrança aumenta, de fazer a cultura com mais zelo, mais cuidado”, ressalta César. O Piauí foi ganhando seu espaço na cultura junina e Paulo César, com um olhar mais firme para a tela, como que estivesse olhando em nossos olhos, tem um pesar na fala ao apontar que muitas vezes chegavam em eventos e as pessoas já contavam que o Piauí ficaria nas últimas colocações, esquecendo que o estado tem sim cultura junina, que faz cultura junina e faz bem feito. E enfatiza que vive quadrilha junina todos os 365 dias do ano, dorme e acorda falando de quadrilha junina, que é uma festa, conta ele, cujo final acaba com o casamento, é o momento ápice.
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Paulo César detalha ainda que as características da Luar demonstram o que o Piauí tem de bom, o que podem oferecer de melhor do estado para os outros, e sorri novamente ao falar que os demais grupos precisam ter um toque “piauizê” lá no final do seu tema, e exemplifica que, se um dia falar lá da França, tem de procurar alguma coisa do Piauí que junte à França, ou seja, a gente não pode esquecer o que é nosso, o que nos identifica, a nossa marca. “Eu amo falar da minha Luar do São João”, Paulo fala quase fechando os olhos, como se estivesse visualizando uma cena satisfatória. Mas logo enrijece o rosto nas expressões ao tocar na questão orçamentária do grupo. “Para viajar, é uma cultura cara, tem que ser pelo menos 4 ônibus e a premiação não paga a metade de um ônibus desse. Como é que vai ter a água, o gelo do ensaio do domingo, como é que vai pagar a banda, o transporte? Para fazer cultura hoje é caro”, lamenta Paulo com a face mais entristecida ao destacar que o valor custeado não é só no evento, mas, até lá. “Poucas pessoas apoiam; tem que valorizar mais porque é caro colocar um espetáculo em quadra, é caro colocar os brincantes toda noite pra tá ensaiando”, menciona, e logo expressa indignação quando afirma que ainda existe quem diz que não se gasta com ensaio: “quem foi que te disse? tem que ter a vanzinha porque três horas da manhã
eu tenho aquele que mora onde o ônibus não vai chegar e eu preciso mandar deixar em casa, senão eu não o tenho aqui pra dançar; é caro pra fazer cultura. E, muitas vezes, desanima quando você bate na porta e quem tá dentro nem pergunta quem tá fora”, ressalta. Os brincantes (dançarinos) fazem rifa, alugam figurino, pegam um do ano anterior e revendem para começar os trabalhos de confecção de protótipo, conta Paulo que, agora, em tom de consolo revela que, ainda com muita luta, é gratificante. E agradece a mim e ao Diego pela conversa que já se encaminha para o final: “esse espaço também é uma forma de manter viva a tradição de São João e a cultura junina.” A gente agradece de volta e terminamos a entrevista ainda sorrindo, satisfeitos, dando o tchau pela tela, com o sentimento de dever (quase) cumprido. Depois que Paulo saiu da sala virtual, faço um coque no cabelo que estava solto, Diego configura a gravação para salvar no drive. Já eram quase 21h. O título da matéria é um questionamento a todas as alternativas que têm a finalidade de continuar o que era normal. Dizem que este é o novo normal: isolamento, distanciamento, telas. Normal para quem? E mesmo que acompanhasse pela tv com todas as polegadas, cores e brilhos, São João, ainda assim, não caberia numa tela. E para você, leitor, São João cabe numa tela?
Foto: Arquivo Luar do São João
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Jardenia Rosa Sara Nascimento
“Se existir vida após a morte, quero continuar sendo artista circense”
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em ideia dos prazos eu esperava o resultado da entrevista da Sara com o Nildo. Por ser artista de circo e estar sempre em movimento, pensamos que seria ideal perguntar como preferiria realizar a entrevista, considerando a questão logística. “Será que tem internet? ”, “Qual a qualidade da internet? ” A Sara mesmo, que acabara de se mudar, enfrentava dificuldades para se conectar à rede. Para o bem de todos e para a realização dessa entrevista ele respondeu todas as perguntas por áudio em aplicativo de mensagens. A conversa aconteceu durante alguns dias, sempre muito solicito ele contava a história como quem conta a um amigo que não via a muito tempo, explicando cada pedacinho do que aconteceu na sua trajetória. A Mãe de Nildo era adolescente quando saiu de casa fugida para casar com um artista tradicional de circo, o Veridiano, que começou como violonista, cantor e em seguida se transformou em domador de onças.
A adolescente depois de casada trabalhava no teatro do circo Spadoni, que nos dias de hoje já não existe, foi o lugar onde Nildo nasceu. Na queda d’água dos céus, no mês de janeiro, em meio ao terreno ocupado apenas pelas estruturas do circo que se preparava para mudar da Bahia para Pernambuco, tentando fugir das chuvas mais constantes, começaram as dores do parto, Aurenildo Acioly nasceu no circo e nele viveu até os dias de hoje. Nildo e os pais permaneceram no Spadoni por vários anos. Chegando o ano de 1969 fundaram o Circo Acioly. Com apenas 11 anos de idade, Nildo já acumulava uma série de funções artísticas no circo da família, era palhaço, trapezista, fazia truques ilusionistas, atos nas peças teatrais, entre outras coisas. Durante quase cinco anos, ele, os pais e os quatro irmãos trabalharam por conta própria, mas depois desse período voltaram para o Spadoni. Daí em diante eles sempre carregaram o material e a estrutura do Circo Acioly, mesmo que trabalhando em vários outros circos, foram tantos que eles nem lembram mais os nomes de todos.
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Em uma dessas paradas, tão comuns aos nômades, os pais de Nildo ficaram em Belo Horizonte, enquanto ele seguiu viagem para o Rio de Janeiro, onde trabalhou e estudou Música. Nas tantas voltas da vida, em Belém ele reabriu o Acioly, seguindo a estrada do Norte em direção ao Nordeste. Chegando na capital do Maranhão, os animais que Nildo utilizava nas apresentações foram apreendidos pelo IBAMA, só restou uma leoa pequena, de nome Madonna, que estava com a jaula em manutenção na época e por isso não foi levada com os outros. “O Ibama acabou com meu circo. Os animais eram a atração”. Não era a intenção da instituição ‘acabar’ com o circo de Nildo, o que eles queriam era proteger os animais e o respeitável público. Pouco tempo antes uma tragédia em circo envolvendo animais considerados perigosos espantava os brasileiros. Era noite de 09 de abril do último ano do século XX quando, acompanhado do pai e da irmã, o menino José Miguel Fonseca Júnior, de 6 anos de idade, tinha ido assistir às apresentações do Circo Vostok, na época localizado no estacionamento do Shopping Center Guararapes, em Recife. No intervalo do espetáculo, a família tirava fotos com os cavalos, do lado de fora do picadeiro.
Ao voltarem para a arquibancada, o menino foi arrancado das mãos do pai por um dos leões do Vostok e puxado para dentro da jaula onde estavam mais quatro felinos. Após ser mordida na cabeça, a criança foi arrastada por cerca de 30 metros em um corredor gradeado que terminava em uma caçamba de caminhão, tamanha foi a força do leão que a grade que tinha 10 cm de espaço entre as barras, ficou com 16 cm. Uma plateia com aproximadamente 3 mil pessoas testemunhou a consequência da negligência com os animais de circo; até às 22 horas e 30 minutos ainda esperavam a chegada do IML. Dos cinco leões que participavam dos espetáculos, quatro foram abatidos por continuarem atacando o corpo de José Miguel Júnior. Por coincidência ou ironia do destino, o delegado que instaurou o inquérito de homicídio culposo nesse caso se chamava Dorgival do Carmo Accioly.
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Desde esse tempo houve um aumento na quantidade de Projetos de Lei para proibir animais em circos no país. A finalidade era tanto evitar que um caso como o de Recife acontecesse novamente, como proteger os animais vítimas de maus-tratos. Apesar disso, nenhum projeto a nível nacional foi aprovado até hoje. A Madonna, leoa que permanecia em posse do Nildo, não ficou muito tempo com ele, pois começaram a surgir muitas denúncias de que a felina era alimentada com gatos coletados nas ruas pelos artistas do circo. Na mesma época, a leoa do Parque Zoobotânico de Teresina morreu; com um leão viúvo, precisando de uma nova parceira, Nildo achou que seria adequado doar Madonna para o parque, e assim também evitaria receber mais denúncias, pois já estava cansado da situação. O show não podia parar. Com ou sem os animais a família Acioly precisava seguir em frente, permaneceram vivendo de acrobacias, ilusões, palhaçadas e sorrisos. Nildo confirma muitas vezes seu orgulho de ser do circo, não só disso, mas também de ter sido criado embaixo da lona, de fazer
parte de família circense, “nunca saí de circo, passei a idolatrar minha profissão”. A grande desvantagem para ele é quando a família se afasta, como ele e um de seus quatro irmãos que não tem notícias desde a década de 90 “não sei por onde é que anda, como é que tá nesse mundão de meu Deus”. Assim que a situação piorou com a bilheteria e com o circo já velho, os filhos de Nildo procuraram outros lugares para ganhar a vida, levando consigo as habilidades de artista que aprenderam com o pai na observação e na repetição. Com o irmão ele perdeu a proximidade antes de ter acesso às tecnologias da comunicação, com os filhos é mais fácil manter o contato nos dias de hoje. Outra dificuldade que ele aponta é relacionada à área da educação. “O circo é muito discriminado no Norte e Nordeste. Eu conheço um pessoal de circo que não sabe nem assinar o nome, mas nasceu e se criou em circo, tem mais de 60 anos que trabalha com a arte circense”. Em tempos passados as crianças do picadeiro tinham muitas dificuldades para aprender a ler e a escrever,
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A deficiência no índice de alfabetização dessas crianças resultou em adultos e idosos circenses que hoje se sentem constrangidos por não saberem assinar o próprio nome, como os conhecidos de Nildo. A mudança constante de escola fazia com que os diretores não aceitassem os pequenos nômades. “Eles interferem nas matérias, bagunçam as disciplinas”, era assim que negavam educação às crianças. Nildo teve oportunidade de estudar, mesmo que um pouquinho em cada escola no Sul do país. Mas hoje é bem mais fácil colocar uma criança de circo em escolas, ele conta que na maioria das vezes são bem recebidos pelos diretores, e quando têm problemas é só ligar para o Conselho Tutelar. As viagens constantes dificultaram o acesso à educação, mas facilitaram o contato com outras culturas. O palhaço se gaba de ter conhecido países vizinhos do Brasil, como o Paraguai, Uruguai, Argentina e quase todos os estados brasileiros; isso nos melhores momentos do artista, e agora, infelizmente, não é um deles. Com dificuldades em conseguir bilheteria suficiente há algum tempo, Nildo vinha acumulando dívidas, e para piorar, em janeiro sua lona rasgou por conta das chuvas e ventanias. A família circense conseguiu recuperar parte do material perdido na força da natureza, mas não tudo, e no mês seguinte a chuva voltou a castigar o circo Acioly, deixando a lona inviável para o uso. Dessa vez, mesmo com uma ajuda do Governo, por meio da Lei Aldir Blanc, Nildo não conseguiu recuperar a estrutura do circo, o dinheiro foi todo encaminhado para o pagamento de artistas e das dívidas, principalmente de alimentação, por comprarem com crédito da confiança de alguns
mercadores dos bairros por onde estacionaram. Parados, os familiares que ainda permanecem no Acioly se mantêm vendendo algodão doce, maçã do amor, pipoca e até equipamentos elétricos do circo, como: baterias, motores de motocicletas e um guincho elétrico. Tanta sorte quanto o Coyote perseguindo o Papaleguas, Nildo ainda foi roubado, levaram os equipamentos de som e de luz, só o essencial para os shows, fora a contínua proibição de aglomeração por conta da pandemia.
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Para que os circos sejam armadas praças é necessário o pagamento de taxas e impostos, mas um circo pequeno como o Acioly não tem tais condições, então eles se ‘escondem’ no meio dos bairros e ‘nas pontas de rua’. Em Teresina, é necessário que haja uma licença de funcionamento para cada zona onde os circos forem se instalar, assim como é também para os parques de diversão. Para que tenha uma ideia ao solicitar essa autorização é preciso ter em mãos o requerimento do interessado, um alvará de funcionamento do município, uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), um atestado de regularidade do Corpo de Bombeiros e um CNPJ. A insatisfação de Nildo é justificada em quatro palavras: burocracia e impostos caros. Apesar disso ele continua apaixonado pelo circo, pretende recuperar a cultura circense tradicional, do circo itinerante, que passa de cidade em cidade levando alegria e arte, principalmente, para os bairros e comunidades periféricas, onde além das apresentações embaixo da lona ele vai às escolas e, por vezes, até doa alguns ingressos para crianças de comunidades carentes
“Eu gosto de mostrar meu trabalho pra comunidade, foi o meu erro, é por isso que eu tô sempre capengando. Nos bairros onde eu vou, dou aula de teatro, de palhaçaria, de malabarismo...” No último bairro que ele passou compartilhando conhecimento com crianças e adolescentes, foi mandado embora pelas condições do circo. “Saí porque mandaram eu sair, o superintendente da Lagoas do Norte disse que meu circo era muito feio”. Esse é um daqueles casos em que a gente dá risada mesmo com pesar; sem intenção, o palhaço nos faz sorrir até do que é trágico.
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Antes mesmo de concluir a entrevista com o Nildo, comentei com a Jardenia o quanto estava encantada com a minha conversa com ele, o quanto é contagiante ouvi-lo falar do amor pelo circo. Seu Nildo, como eu o chamava, me convidou para conhecer o Circo Acioly e estendeu o convite aos meus colegas universitários, respondi a ele que com certeza haverá uma oportunidade para eu conhecê-los. Disse isso não só por querer ver a família Acioly fazer o que mais gosta, por ser uma arte que eu tanto admiro, mas também por querer presenciar o amor que identifiquei só ao ouvir. Seria esse um pré-requisito para ser circense? Ao entrevistar o Vinícius eu percebi o mesmo sentimento. Assim como Nildo, o Vinícius também teve o primeiro contato com a arte circense por intermédio dos pais. Mais conhecido como palhaço Sardinha, o criador da Trupe que leva o nome artístico dele conta com alegria que a mãe fazia parte do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua. Dos vários núcleos do Movimento, Vinícius, aos 16 anos, participava do projeto Pé de Moleque, que depois deu vida à Trupe do Sardinha. Crescendo em meio à dança, oficina de teatro de boneco, percussão e circo, já tinha sangue de artista, o pai dele é compositor, um dos autores da música Teresina “Ai, troca, quem troca destroca, minha Teresina não troco jamais”, você deve conhecer. No começo da conversa ele parecia meio tímido, depois entendi que ele estava receoso dos áudios ficarem muito grandes, eu esqueci de avisá-lo antes que não precisava se preocupar com isso. A partir de então ele contou a própria história como se estivesse revivendo todos os momentos.
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Vinícius disse que quando criança sonhava em ser piloto de avião, mas que sempre se encantava ao assistir os espetáculos circenses. “Gostava de ver os palhaços, os acrobatas e os malabaristas”. Ele sempre gostou muito de conversar, na escola, às vezes era chamado a atenção pelos professores, “me mandavam ir pra diretoria e me chamavam de palhaço. Quando eu saía, a sala ficava triste”, ele disse rindo. Sardinha participou do primeiro Festival de Circo quando tinha 18 anos, em Recife, lá aprendeu várias técnicas e habilidades. Essa grande experiência, antecedeu sua participação em vários outros festivais pelo país; depois disso deixou de ser aluno e passou a ser instrutor. Comentando sobre o Festival de Circo de Londrina, Vinícius relembra que na época o sonho dele era participar do Circo de Soleil, mas por conta da idade ele acreditava que as chances eram muito poucas, por isso preferia apostar no próprio grupo. “Trabalhar com a Trupe do Sardinha é a realização de um sonho pra mim”.
Antes da pandemia, o palhaço Sardinha conta que a equipe chegou a ter 16 profissionais, que estavam com um bom nome no mercado, pois abriam grandes shows, além de se apresentarem em escolas tanto públicas quanto particulares. Mas essa realidade infelizmente não se aplica ao momento atual; os integrantes foram reduzidos em 75%. "A situação está muito difícil! tem gente que tem outros empregos, mas para quem se sustenta principalmente da arte circense, tá muito difícil! ” Diferente do período anterior a março de 2020, os artistas circenses não têm como reunir grandes públicos como consequência a vida financeira não está das melhores. Por vários meses o Sardinha viu o sinal de trânsito como um meio para sobreviver, fez malabarismos próximo aos semáforos para garantir alimento e seguir com o sonho de dar continuidade à Trupe. “Enfrentei sol, chuva, vento, areia, encontrei algumas janelas com sorrisos e outras com desprezo, mas sigo em frente sem desistir”.
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Sardinha confessa que, por medo do vírus da covid-19, deixou de ir para as ruas e está sobrevivendo com doações e com pequenos trabalhos que voltou a fazer, por conta da flexibilização de restrições da pandemia; há alguns meses, por exemplo, se apresentou em uma unidade de ensino, em alusão ao Dia do Circo, comemorado no dia 27 de março. Para ele o ditado “trabalhe com o que ama e você nunca mais precisará trabalhar na vida” faz muito sentido, desde a adolescência teve experiências com espetáculos e festas infantis, além de oportunidades para desenvolver técnicas diferentes durante as viagens onde participou de festivais. O que começou como uma diversão, se tornou um sustento. Mas Vinícius sempre quis mais que só se divertir, queria também ser independente; ainda no começo da carreira começou a juntar dinheiro para investir em um negócio relacionado à arte circense. Ele acreditava que poderia progredir mais e enriquecer a cultura do Piauí, aplicando todos os conhecimentos adquiridos desde à época em que a mãe dele, Gilsa Queiroz, era a coordenadora da Escola de Circo Pé de Moleque, movimento que fazia parte da rede Circo do Mundo Brasil, orientado pelo Cirque du Soleil.
Sardinha conta que eles trabalhavam com mais de 200 crianças e adolescentes só em Teresina, juntando todos os núcleos do Movimento, “só na parte circense eram 40 meninos e meninas. Nosso objetivo sempre foi ajudar pessoas, salvar vidas”. E qualquer apoio era bem-vindo. À época, um homem que se identificou como presidente da Associação dos Pastores de Timon pediu para utilizar parte do espaço do Pé de Moleque; a justificativa do pastor foi de usar o ambiente para fazer uma casa de oração. Pensando que não haveria problema, a equipe do Pé de Moleque concordou em doar parte da casa onde treinavam as habilidades circenses. Depois disso, os alunos do Movimento não tiveram mais onde exercer as atividades. “Um dia cheguei pra ministrar aula e notei que os cadeados eram outros; ele tinha trocado todas as fechaduras. Disse que agora a casa era toda dele, simples assim! ”. Vinícius conta com insatisfação e diz que o grupo da Escola não esperava tanta maldade, “caímos em um golpe, aplicado por um pastor”. Ele explica que tem todos os documentos, mas que, apesar disso, ficaram desamparados pela Justiça, esperando a autorização para a reintegração de posse da sede; que nunca aconteceu, isso já tem mais de cinco anos.
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“Teve uma audiência há quatro anos, sempre que vamos na Defensoria não tem nenhuma atualização no processo”. Foram muitos anos à espera de um lugar fixo para fazer os treinamentos do Movimento, os poucos anos vividos lá ficaram só na lembrança. O espaço do Pé de Moleque e onde começou a Trupe do Sardinha, se dividia em uma casinha que “no começo só tinha mato e pedras atrás e dos lados. Dentro desse terreno nós construímos outra casa, onde tinha a sala do picadeiro pedagógico, sala para guardar os materiais, um galpão com telhado de ferro, sala de informática, tinha até cama elástica, ficou tudo lá, trancado”. Mais que o local e os materiais, as dezenas de alunos, alunas e instrutores perderam o sorriso diário em estarem juntos aprendendo diferentes técnicas, perderam a oportunidade de estarem frequentemente dividindo momentos divertidos, novas habilidades, que certamente seriam repassados ao público com muito mais intensidade. Não arrancariam da plateia só as gargalhadas, mas também a admiração, como aquela que sentimos ao ver as acrobacias aéreas, sejam elas em elástico, trapézio ou corda lisa. Sem contar com o auxílio da Justiça ou do Estado, não foi possível continuar com o Pé de Moleque. Mas Sardinha não desanimou, continuou investindo na carreira circense. O palhaço já representou o Piauí e o Nordeste em Convenções Brasileiras de Malabarismo e Circo; esses encontros reúnem profissionais circenses de todo o país e realizam espetáculos, oficinas e competições entre vários circos.
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Na Convenção do ano passado, realizada em janeiro, no Ceará, quando jamais imaginávamos que o surto de Coronavírus na China se tornaria uma pandemia, Sardinha foi classificado em primeiro lugar na atração Malabarismo de Moeda, um número de resistência; um presente para os piauienses que foram muito bem representados na primeira vez em que a Convenção aconteceu no Nordeste. “Infelizmente, por conta da pandemia, este ano não teve. Não sei quando vai ter de novo.” Além da palhaçaria, o Vinícius tem afinidade com música, recebeu essa herança do pai. Em 2006, ele participou de uma banda autoral chamada Capiau, junto com o irmão. Mas mesmo descobrindo outro ramo da arte, o circo estava sempre presente. Ao final dos shows ele apresentava números circenses, “eu
terminava o show com a música ‘fico zen’ e fazia malabarismos e outras performances”. A Capiau fez parte da vida do Sardinha por um alguns anos, participou ainda dos festivais Teresina é Pop, Festival de Pedro II, Piauí Pop, Teresina Capital do Rock e outros realizados em municípios piauienses, sempre unindo a arte musical com a circense. Nesse período aprendeu a tocar instrumentos como flauta doce e flauta transversal, que serviriam mais à frente para acrescentar nos seus números circenses. Depois de encerrar a carreira musical, ele passou a se dedicar exclusivamente à palhaçaria, o próximo passo dele foi concluir formações na área de Educadores de Circo Social, organizada pela Rede de Circo do Brasil e pela rede Cirque du Soleil. “Uma dessas formações eu não fui como aluno, mas como arte-educador, passando ensinamentos pra 22 artistas”.
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Mas Vinícius não conseguiu mais participar da rede, “disseram que a Escola ficou sem recursos e nós teríamos que contribuir com uma quantia todo mês. Uma política que eu não concordo, se é circo social é porque já temos dificuldades, como vamos pagar pra participar?, sendo que antes, a rede que disponibilizava recursos. O circo tem o lucro e uma parte vai para o núcleo de formação.” Sardinha se sentiu muito desmotivado, mas, como desde o início, não viu isso como uma justificativa para desistir da sua paixão pelo circo, continuou a realizar os treinos, apostando no esforço e na dedicação, mesmo sem ter espaço próprio para isso - os treinamentos eram realizados na casa dele, na verdade, é até hoje. E a persistência trouxe bons resultados, ele é feliz fazendo arte circense, não se imagina fazendo outra coisa. “Até tentei, mas não consigo”. Sardinha fez curso de Design gráfico e Montagem e manutenção de computadores, ainda na adolescência. “Foi bom eu aprender nesses cursos porque eu mesmo faço minhas edições, principalmente neste momento de pandemia, tenho um cenário aqui em casa, eu mesmo gravo tudo.”
Mas ele diz que o design e informática, assim como a música, são para acrescentar nas atividades de circo, que não se compara ao amor pela arte circense.
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Ele conta que um dos momentos mais marcantes na palhaçaria foi quando se apresentou em uma edição do Magic Day Parade, com a finalidade de levar alegria para as crianças em tratamento contra o câncer. “Foi emocionante, foi o desfile mais bonito que já vi e participei. Chorei no final e pensei que realmente não me vejo fazendo outra coisa senão arte circense”. A solidariedade é um sentimento comum aos dois artistas, tanto Nildo quanto Vinicius, compartilham o que aprenderam desde criança, levam alegria para as pessoas mesmo sabendo que há possibilidade de chorar ao final da apresentação. Não pensam só na felicidade deles, mas na que podem proporcionar aos outros, isso basta para quererem que o paraíso seja um circo, como dizem tantas vezes, e às vezes sem palavras dizem “se existir vida após a morte, quero continuar sendo artista circense”.
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Contatos @circo.acioly Fotos de Arquivo Pessoal
Contatos 9 9547 2268 @Palhacosardinha Fotos de: @jonathandouradophoto
“Uma Pirueta, duas piruetas. Bravo! Bravo!” OXENTE!
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Foto: Wikipedia Prato: Baião de dois e carne de sol
Culinária Piauiense: gostos, cheiros, memórias e DNA de um povo Layza Mourão Karolene Veras
Por ser considerado um país de dimensões continentais, o Brasil possui múltiplas culturas, costumes e vivências. A região Nordeste oferece, além das inúmeras belezas naturais com praias paradisíacas e regiões serranas que rementem ao clima europeu, uma gastronomia muito particular e rica de costumes dos povos que aqui viviam na época da colonização. Diferente dos outros oito estados da região, o Piauí teve o seu processo colonial partindo do interior para o litoral, com isso, é o único em que a capital não está localizada à beira-mar, fazendo com que a procura para o turismo de viagens seja o menor entre todos os estados, mesmo tendo belas paisagens tanto no litoral quanto no interior. Apesar de não atrair o devido olhar para as belezas naturais, o piauiense acaba conquistando pela boca quem aqui chega. Assim como diversas outras tradições, as comidas nordestinas se diferenciam entre si. Cada estado conta sua história, também, através da culinária. Junto com cada prato que surge, também nasce uma história, e ela ajuda a entender os diversos processos que as sociedades viveram ao longo dos séculos. Há contradições que não chegam a um consenso para
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origem da Maria Isabel, carro chefe da culinária piauiense. Há quem conte que a origem do nome e do prato seja uma homenagem dos escravos que criaram o prato a esposa de Simplício Dias, um dos mais importantes e rico comerciante do litoral piauiense. Entretanto, existe ainda uma segunda versão, que conta que o prato surgiu no sertão piauiense, onde as famílias eram numerosas e havia pouco alimento, com isso, uma esposa resolveu cortar a carne em picadinhos, para que as mulheres da família também pudessem comer, já que o alimento era uma exclusividade dos homens. Ao juntar a proteína cortada com o arroz, acabou surgindo Maria Isabel, uma homenagem as duas filhas da mulher que resolveu enfrentar o marido para dividir a refeição entre todos.
A carioca Juliana Teixeira é uma dentre as milhares de pessoas que se apaixonou pela culinária que o estado oferece “adoro a carne de sol, o preparo. paçoca é a minha comida piauiense favorita.” Entretanto, por conta do léxico muito particular e curioso que tem o Nordeste e em específico o Piauí, Juliana quase deixa esse “amor a primeira vista” escapar “eu tava em Salvador, e lá a comunidade de Teresina é muito grande, e na casa de um amigo teresinense, me ofereceram ‘paçoca’ e eu não aceitei pensando ser o doce, e eu não gosto muito de doces de uma maneira geral”, após a explicação do que era composta o até então desconhecido prato, ela provou e ali mesmo se rendeu aos sabores da carne de sol com farofa.
Outro xodó que conquistou um espaço no coração da professora foi o creme de galinha, cria da cidade de Teresina “amo, é imbatível”. Ela conta que ama o gosto de ‘comida caseira’ que as comidas regionais daqui têm. Os termos usados também chamam a atenção dela que diz “amo o pregado da panela de Maria
Foto: Conheça o Piauí
Mesmo não sabendo qual a real história por trás da origem, ninguém pode negar que o arroz com picadinhos de carne, quando preparado, começa a atrair pelo cheiro, é como se ao abrir a panela, o aroma se transformasse no canto da Iara, atraindo todos que estão por perto, e não importa se nasceu no Piauí ou não, .
a Maria Isabel e muitas outras delícias conquistam todos.
Prato: Maria Isabel
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Foto: Layza Mourão
Isabel”. Galinha caipira, arrumadinho, cuscuz com carne de sol, e tapioca estão entre as comidas favoritas da docente. Já na parte dos doces, ela é sincera ao dizer “não gosto muito, mas é porque não gosto de doces de uma forma geral, não é só com os piauienses não”.
Prato: creme de galinha
estava borbulhando, muito legal ver aquilo, aqui nos Estados Unidos não é assim, aqui é tudo muito rápido”. O carinho pela culinária piauiense foi tão latente no americano, que ao chegar na sua cidade, ele pesquisou lugares que vendem produtos brasileiros. A paçoca de carne de sol também é seu prato favorito, e a esposa entrega “ele saiu comprando farinha por onde passava, Layza, porque aqui não tem, e ele se apaixonou”. Outro prato típico da região que marcou o paladar de Mike foi o arrumadinho: “Incrível, eu não gosto de misturar tanta coisa num prato só, mas essas misturas são incríveis.
A gastronomia é uma área que aguça os outros sentidos sensoriais humanos além do paladar. Quem nunca usou a expressão “comendo com os olhos”? Essa é a sensação que a paçoca desperta nos amantes de uma boa farofa. O prato tradicional, aquele originado dos índios, tem em seu preparo a trituração da carne juntamente com a farinha em um imenso pilão de madeira, entretanto, a receita se adapta, e cada região tem o seu próprio jeito de preparar a receita, mas a essência do sabor c ont i nu a, po r i s s o c o nq uis t a m uit o s admiradores ao redor do mundo. A culinária piauiense se tornou o xodó de Mike Tobin, um americano nascido em Nova York que casou com a piauiense Aritana de Carvalho “o creme de galinha é incrível, amo a textura, a mistura dos ingredientes, tudo é gostoso ali”. Ele conta que têm memórias muito boas das visitas aos restaurantes da cidade de Teresina, e a sua experiência em um que fica às margens de um dos rios que corta a capital é uma delas “a comida veio servida numa panela de barro e
A textura e leveza do creme de galinha com a acidez do vinagrete é muito bom”. Outro fator que mostra que esse americano foi conquistado pelo tempero piauiense está no fato de ter aprendido a cozinhar alguns pratos típicos “eu aprendi a cozinhar por dois motivos: um para que minha esposa se sinta perto do país dela, e também pelo fato de que sinto saudades da comida brasileira”.
Foto: Arquivo Aritanade Carvalho
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Foto: Arquivo Igor Rocha
Prato: Galinha Caipira com Farofa de Cuscuz e Baião de Dois
Mike garantiu que assim que a pandemia passar, eles virão ao país, e ele testará novos sabores, mas a galinha caipira, a paçoca, o arrumadinho e creme de galinha sempre se farão presente nas refeições quando estiver por aqui. Entretanto, nem todos os sabores piauienses agradaram Mike, e assim como Juliana, o sarapatel não foi bem visto, ou melhor, bem digerido. “Me causou o estranhamento ver em um aniversário, onde geralmente se encontra muitos doces, ter algo salgado. Mas eu provei e é muito gostoso”. Essa é a primeira lembrança que Jason Mulvaney tem do creme de galinha, que é muito comum nos aniversários do estado. O irlandês, que é casado com a piauiense Layanny Mourão, se considera um apreciador da culinária regional, e por gostar muito de carne vermelha, afirma “paçoca e Maria Isabel são os preferidos,
gosto muito de carne de sol.” Ele também deixa claro o seu apreço pelo arrumadinho. Outro ponto que chamou atenção do jovem irlandês foi a textura dos peixes encontrados aqui, segundo ele “os peixes tem uma textura grossa, e boa, não quebra fácil, e é muito gostoso de comer.” Dentre os hábitos piauienses que ele cita e que envolve a culinária está na realização de churrascos “gosto muito da carne de cupim do boi, já da galinha caipira eu não gostei muito não.” Jason também tem memórias relacionadas as bebidas, “gostei da cajuína, entretanto quando provei, esperava o gosto ácido encontrado nos refrigerantes, mas depois eu me acostumei e hoje gosto.” Entre as cachaças que provou em sua passagem pelo estado a que gostou mais foi a
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Prato: Panelada
Foto: Arquivo Igor Rocha
lira “a lira é muito boa, gostei dela.” Já em relação aos doces, ele afirma que não teve contato, mas que gostou muito da castanha de caju, entretanto o doce, compota, caju cristalizado e outras iguarias feitas do pseudofruto, ele não teve contato. Ao observar Mike e Jason perguntar a suas esposas se eles haviam comido determinado prato, deu para perceber que, além de alimentar o estômago, a culinária alimenta as memórias. Histórias são construídas através de novas descobertas, sair para um restaurante, viajar e comer o prato típico da região, comprar em umas dessas carrocinhas de comida, pedir um delivery para comer em casa com os amigos, tudo isso constrói momentos que em algum momento serão verbalizados. Quem não tem uma boa história para contar enquanto estava em volta de uma bela refeição?
O brasiliense Igor Rocha é cozinheiro e personal chef e cresceu cercado pelo tempero piauiense, principalmente após a sua chegada definitiva ao estado, em 2000 “quase todas as minhas memórias afetivas com gastronomia são com comidas piauienses, porque os meus avós são de Teresina, então todas as minhas férias desde criança eram aqui, por isso as
Foto: Arquivo Igor Rocha
Através da gastronomia pode-se conhecer muito da história de um povo, seus antepassados, costumes e hábitos. O Piauí é um dos estados que teve a presença maciça dos índios, com isso, é muito intrínseco à culinária os costumes dos povos que habitavam essas terras. O uso frequente de farinhas, cheiro verde, pimenta de cheiro, azeite de coco, entre outras especiarias; transformam e particularizam a comida que é produzida até hoje. Além de alguns tipos de carne(capote, bode, carneiro, carne de sol, alguns tipos de peixe, galinha), o tempero é o outro grande destaque que diferencia a culinária das demais encontradas pelo nordeste. Prato: Arroz com capote
minhas principais lembranças são de galinha caipira, vatapá, bolo frito, bolo de goma”. A identidade dos pratos, segundo Igor também se deve ao processo colonizador que estava presente na região piauiense Por passar muito tempo longe de suas casas, com longas viagens e muitos períodos expostos ao sol, os
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sertanejos precisavam ressecar as carnes para que elas durassem mais tempo, já que quanto mais água presente no alimento, mais rápido ele se desgastava. Com isso, o alimento era enlatado e ressacado para durar vários dias. Segundo Igor “ a cozinha nordestina, e piauiense é criativa, mas não pela fartura de ingredientes, ela é criativa pela escassez deles. A gente conseguia e consegue fazer muito com pouca coisa que aqui a gente tinha e tem. Sempre são pratos de uma panela só, então é uma galinha caipira, Maria Isabel, arroz de galinha”. A carne de sol e o cheiro verde (coentro e cebolinha), de acordo com ele, são os elementos que mais definem o sabor da comida piauiense. Apesar de ter uma essência mais simples, os ingredientes regionais são atribuídos a técnicas nacionais e internacionais, o que faz com que surja pratos sofisticados, o que é chamado pelo chef de “Fusion Food” “esses dias eu fiz um risoto, que é da culinária italiana, com carne de sol, então foi um risoto de Maria Isabel”.
Foto: Arquivo Igor Rocha
Essa repaginação além de construir novos pratos, ajuda a difundir os sabores piauienses em outras regiões, uma vez que ainda permeia o preconceito e a resistência em relação ao que é originário do estado.
Prato: Risoto de caju e castanha, carne de sol de bode e couve crispy
Foto: Arquivo Igor Rocha
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Foto: Arquivo Igor Rocha
Prato:Steak Tarta de Carne de Sol com melaço de cajuína
Então, de acordo com Igor, essa união de técnicas e ingredientes ajuda a pulverizar a gastronomia regional, valorizando ainda mais a cultura do estado. O papo rendeu inúmeras histórias e novas descobertas que mudam a nossa visão em relação a assuntos até então desconhecidos, e esse é um dos grandes prazeres do jornalismo: conhecer o desconhecido. Enquanto voltava à nossa conversa, que acontecia de forma on-line por conta da pandemia, Igor nos ouviu comentar sobre o prato vegano que é feito do bagaço do caju e que remete ao creme de galinha tradicional e explica o porquê do gosto ser similar “isso acontece por conta das nossas memórias afetivas. O caju consegue ser bem neutro nas receitas, tanto que eu faço uma paçoca de caju e você jura que tá comendo a de carne de sol.” A curiosidade em explorar o universo gastronômico, tão rico de sabores, cores e cheiros, em muitos momentos nos leva de volta ao passado.
É muito interessante a forma como nosso cérebro trabalha, principalmente quando você nutre sentimentos afetuosos por uma pessoa e ela cozinha “ah, o creme de galinha da minha mãe é o mais gostoso que já comi na vida, e paçoca e a Maria Isabel da minha tia são imbatíveis, e essa é a minha opinião pessoal.” Quem nunca ouviu a expressão “Eita, ela comeu que ficou triste” quando na verdade a pessoa tá feliz por estar de barriga cheia? As falas, os acontecimentos e as situações são elementos que enriquecem ainda mais o povo, e eles fazem parte do processo que engloba as refeições, principalmente quando essas são servidas em confraternizações familiares.
“Essa eu aprendi com a minha avó” outra expressão bastante usada, principalmente por mães, pais, tios ou avós que cozinham com frequência, e quando você ouve o Igor contar que a culinária está atrelada a história de uma sociedade, percebe que sempre houve o passado naquelas receitas e falas “você consegue identificar traços culturais de um povo através das comidas que ele come.” Conhecer
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Foto: Arquivo Igor Rocha
Prato: Galinha caipira
uma cidade através da culinária com certeza será o principal item a ser colocado no roteiro da primeira viagem pós lockdown. A conversa com o chef trouxe o ápice do que consegue representar bem Juliana, Jason, Mike, a Layza, a Karolene, e todos que tem a oportunidade de provar os sabores piauienses: “A nossa cozinha é democrática. O rico e o pobre comem carne de sol, a diferença vai tá na apresentação do prato”. A essência é a mesma, e é ela que une nossos personagens e tantos
outros amantes da comida piauiense num só lugar: a paixão pelo tempero. O Igor também nos mostrou o outro lado da moeda, o lado de quem se dedica à criação e tem orgulho de falar, e que de um jeito ou de outro, faz parte muitas histórias que vão além dos sabores. Criar pratos é criar novas histórias, histórias essas que serão perpetuadas, e tudo que é presente hoje, no futuro será um passado rico de sensações, cheiros e memórias.
“A nossa cozinha é democrática. O rico e o pobre comem carne de sol, a diferença vai tá na apresentação do prato”.
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Casarão Cultural: arte, resistência e valorização da cultura piauiense Valentina Moraes
O sonho de viver a arte em sua plenitude fez Valdemar Carvalho, o Negro Val, transpassar diversas barreiras. Para ele, seguir a carreira artística foi a melhor escolha que fez ao longo da vida. Realização e felicidade, são sentimentos que o motivam a continuar resistindo em meio as dificuldades de ser um artista em um país que pouco investe em cultura popular. É perceptível sentir o orgulho presente na potência da sua voz grave e no modo firme como se posiciona, Negro Val é um grande sobrevivente, um professor que acredita no mundo transformado por meio da arte e da valorização cultural. Por estar em Amarante, interior do Piauí e, nesse momento, a pandemia da covid-19 ainda limitar o contato presencial, o diálogo com Valdemar foi viabilizado pelo Telefone. Ainda assim, o meio virtual não diminuiu a percepção de todo o sentimento que ele emana ao revirar as lembranças e falar da sua história. Nos depoimentos enviados por whatsapp, o seu dia a dia foi externado nos variados horários nos quais conseguiu um tempo para responder aos questionamentos, sendo perceptível sentir traços de cansaço resultantes da sua rotina.
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jornada como artista teve início quando criança. Valdemar se afeiçoou à dança e ao teatro e fez o que pôde para integrar-se às artes locais e, assim, descobriu o caminho que o fazia sentir mais firmeza ao trilhar. “Comecei fazendo cavalo Piancó, uma dança típica da região, com o grupo da Sibita, uma grande Baluarte da Cultura Amarantina. Depois, na adolescência, participei de um grupo de teatro, o Amarantus. Tive meu próprio grupo de dança, o “Cor e Suor”, que era formado por jovens da minha rua. Isso foi o começo de tudo”, disse. Até os 17 anos, permaneceu na sua terra natal se constituindo por meio de uma formação autônoma e autodidata na dança e em várias outras produções culturais. E, depois, escolheu abraçar as possibilidades e alçou voos maiores.
Teresina, Brasília e Rio de Janeiro, foram alguns dos locais onde precisou se desdobrar para estudar e se aperfeiçoar. A Capital teresinense, foi onde começou a engrandecer o currículo cultural. “Fui um dos fundadores do Ballet Folclórico do Piauí. Participei do Ballet Popular do Piauí, Ballet da Cidade, colaborei na fundação da Companhia Equilíbrio de Dança e nos projetos “Dança Eficiente” e “Danças que Temos Feito”. Em Teresina, desenvolvi projetos de formação em dança no bairro Dirceu. Montei a minha própria formação em Dança, na Escola de Dança do Piauí e na Escola de Teatro Gomes Campos. Depois, no Rio de Janeiro, fiz uma especialização em uma faculdade chamada Angel Viana. Em seguida, passei um tempo em Brasília e, com o início da pandemia, decidi que era hora de voltar para o Piauí”, contou.
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Foto: Reprodução/ Arquivo Negro Val
“Grupo Amarantus: unidos pela arte de interpretar, dançar e atuar. Foi aqui que tudo começou” Negro Val.
a cidade que tem cheiro de poesia e cultura, terra do poeta simbolista da Costa e Silva, que é banhada pelos rios Parnaíba, Canindé e Mulato, Negro Val deu vazão ao seu sonho. Junto com seus dois amigos Paulo Gomes e Vicente de Paula, criou “A Casarão Cultural”, que oferta à comunidade um contato com as mais variadas expressões culturais produzidas em Amarante e região. Os grafites e o colorido na fachada do Espaço reafirmam a personalidade e revelam a diversidade presente no local. A Casarão também destaca personalidades amarantinas, conta com galeria “Nega Ana”, a sala de dança “Sibita” e o hostel “Rosimary”, que são os três principais ambientes do Espaço. Lá, a comunidade tem acesso a aula de libras, dança, reforço escolar, teatro, literatura, leitura, fotografia, e ainda, há uma galeria de arte, lojinha de souvenirs, biblioteca, e uma brinquedoteca. “O Casarão Cultural é um espaço que possibilita a nossa cidade e ao nosso Estado um respiro e, assim,
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como faz com que acreditemos todos os dias que é possível transformar e ser transformado através da arte e da cultura”, falou de forma descontraída.
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urante toda a conversa, Valdemar não deixou de destacar o amor ao Estado e por . Amarante. Amplamente reconhecida pela tradição do Cavalo Piancó, pagode do Mimbó, festa do Divino, reisados, danças portuguesas, quadrilhas e é também onde reside o primeiro quilombo reconhecido no Piauí: o Mimbó. A pluralidade cultural e as riquezas da cidade, chamam atenção de visitantes e fazem de cidade uma rota turística. Sabendo disso, Negro Val, pensou em um nome que carregasse toda essa identidade. “O nome ‘A Casarão Cultural’ foi escolhido pela sonoramente e autoafirmação. Somos uma grande casa, com muitos quartos, inclusive com um lindo hostel. Aqui é um espaço de dedicação e fomento à Cultura e a diversidade”, explicou.
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ara além do reconhecimento do seu trabalho, Negro Val sonha também com mais incentivo à Cultura piauiense, por isso, pretende fazer do local um espaço de mudança social. “Além do reconhecimento ao trabalho, faço tudo também pelo prazer de estar desenvolvendo algo que começa com uma ideia e que vai para a ação. Acredito nesse poder que emana de cada indivíduo, que sai de mim para o outro e que vai contagiando de um por um até transformar e contagiar a todos. O que puder fazer para destacar a riqueza piauiense, eu farei. Isso é o que venho fazendo e pretendo seguir nesse caminho”, finalizou. Atento às orientações dos órgãos de saúde, a Casarão Cultural segue levando alegria a todos por meio de eventos online e realizando projetos gratuitos voltados à interação da comunidade.
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Visite “A Casarão Cultural” A Casarão Cultural fica localizada na rua das Flores, s/n, centro de Amarante - Piauí. A cidade está situada na região do médio Parnaíba, há 160 km da Capital. O Espaço está aberto para visitas de segunda à sábado, das 09h às 21h, com intervalo para almoço, das 13h às 15h. O agendamento pode ser feito pelo telefone: (86) 9 9561-5514, Instagram: @acasaraocultural ou E-mail: casaraocultflores@gmail.com.
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Espaço é autofinanciado e conta com apoio de patrocinadores e apoiadores, os coordenadores Negro Val, Paulo e Vicente promovem também o projeto Bixanikas. Um grupo de experimentos cênicos e musicais do Casarão que realiza lives e intervenções artísticas, já produziu marchinhas, sambas, funks, paródias, que são apresentados com toda a animação pelo instagram oficial @acasaraocultural.
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Allícia Nascimento
Foto de Kelson Fontinele
A Ballroom para além dos bailes A cena Ballroom no Piauí e a Casa di Monique
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ra por volta das 16:30 hrs da tarde quando cheguei no local de encontro marcado com meus entrevistados a praça Floriano Peixoto, ao lado do “25 BC” (25º Batalhão de Caçadores), localizada na Avenida Miguel Rosa. Mesmo passando das 16 horas, os raios de sol ainda faziam a pele arder, mas sendo em Teresina, uma das cidades mais quentes do Brasil, isso não incomodava as pessoas que passeavam naquele horário com a família e cachorros.
Próximo do final da praça, na quadra de basquete, já chegando na Rua Desembargador Pires de Castro, haviam quatro pessoas jogando em uma metade da quadra e outras seis dividindo espaço em um semicírculo, elas intercalavam quem ia pro meio dançar enquanto uma outra pessoa filmava os movimentos. Ao ver aquilo me senti contagiada, quase que hipnotizada enquanto dava os últimos passos que ainda me distanciavam daquelas pessoas.
Depois que desci do carro que pedi em um aplicativo de carona, andei por alguns metros e comecei a ouvir uma música que saía de uma caixa de som e um vozerio de pessoas que se divertiam e pareciam comemorar algo. Quanto mais passos eu dava, mais conseguia sentir a energia mudando enquanto o som ia ficando mais alto, e então, logo pude ver corpos se movendo enquanto outros gritavam. Era dança
Na dança estavam Eloi, Peste Nega, Transtorno, Kaytson, Tay e Nilton, todos da Casa di Monique. Enquanto eu os observava e admirava seus movimentos, Peste, que havia marcado a entrevista, notou minha presença ali e veio em minha direção para trocar um abraço comigo, que prontamente retribuí.
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Membros da Casa Performando para gravação do videoclipe
Ele falou alguma coisa sobre estarem terminando a filmagem do novo clipe do Transtorno e que logo viria falar comigo. “Cola aí”, pediu, e então me aproximei deles e vendo aqueles corpos dançando eu resolvi tirar fotos (que não ficaram muito boas, mas me diverti fazendo). Logo as outras pessoas vieram falar comigo e poucos minutos depois pudemos começar as entrevistas. Meus entrevistados eram Peste Nega, Eloi e Kaytson e a primeira pessoa com quem conversei foi Eloi di Monique, que se apresentou como Mai da Casa di Monique. Professore de dança na Escola de Dança Estadual Lenir Argento, Eloi tem 22 anos, me conta ainda ofegante devido a performance que gravava para o vídeo. Artista da dança no geral, como me disse, é uma pessoa não binária que trabalha e está no movimento Ballroom com a comunidade. “A Ballroom, atualmente, acho que na minha concepção e na concepção do que a gente anda conversando, é fortalecimento, é empoderamento, é acolhimento, é afeto, é potência, sabe? É força e energia.”
Eloi, sentade ao meu lado e me olhando nos olhos, explicou que a Ballroom é um movimento que começou nos anos 70 com a House (Casa) Of Labeija. Um movimento afrolatino centrado, feito por mulheres trans pretas, que tinha o objetivo de criar um ambiente seguro para que as pessoas que eram marginalizadas tivessem um lugar de expressão artística, acolhimento e reformulação do que até então se entendia sobre família e o que é o afeto familiar. Ballroom? “O que é Ballroom”? Como todas as questões coletivas, não existe uma resposta das mais simples para minha principal pergunta. Ao mesmo tempo que Eloi me contava sobre uma história geral do movimento, me disse que não é possível afirmar que a Ballroom é uma coisa só, já que isso é muito particular de cada região. A Ballroom que é feita no Piauí não é a mesma de Alagoas, nem do Ceará e que cada uma dessas regiões possui seu jeito de fazer Ballroom. “A gente também tá falando de Ballroom da cena kiki, né? A cena kiki é sobre as cenas regionais, que não são da cena mainstream. (…) tipo, cena
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internacional. Então a nossa kiki constrói a nossa energia.”
Quando perguntei pra elu o quê é, de fato, uma Casa e como se dá uma Casa, o que me respondeu é que se dá por afeto. De acordo com Eloi, a Casa é composta daquele grupo de pessoas que se auto acolhem e às vezes, ou não, denominam uma construção relacionada à família. Ela disse que isso dialoga com os pilares da Ballroom, que é a construção de gênero, reconstrução do que é o conceito de família e o padrão artístico. Aqui em Teresina a Casa di Monique ainda não possui um espaço físico, mas a rede de afetos entre seus membros constrói essa casa de forma coletiva. Quando uma pessoa está em situação de risco e precisa de um local seguro na cidade, as pessoas da Casa com condições cedem um espaço em seus próprios lares para que o acolhimento seja feito. Agora no período pandêmico, a Ballroom e o afeto que ela mobiliza permite maneiras de sobrevivência das pessoas que compõem a Casa di Monique. Porque tava todo mundo muito inseguro financeiramente, emocionalmente e aí a Ballroom, a casa, chegou pra gente como um momento de reagrupar para não se perder, sabe? Assim, “vamo se juntar aqui porque a gente precisa se fortalecer”. Mesmo no meio daquelas novas expressões e linguagem própria do movimento, a essência do que o movimento Ballroom quer construir não é nenhum pouco incomum ou avesso ao que se precisa desde sempre nessa sociedade brusca que vivemos. Sobretudo no Piauí em que corpos rebeldes e diversos que expressam suas sexualidades e gêneros dissidentes são intensamente reprimidos.
Muitas vezes buscar se entender fora da caixa da heteronorma binária - homem, mulher, heterossexual - é uma experiência solitária. Na Ballroom, quando uma pessoa se movimenta na cena sozinha, sem uma casa, ela é chamada de 007. A cena piauiense inicialmente construída pelas 007 teve um começo bem diferente dos demais contextos e que culminaria na fundação da Casa di Monique. Conta Eloi com um sorriso no rosto.
A gente começou com a vivência Ballroom, que todo mundo saiu dali 007. Então tipo, a cena começou com os 007s. 007 é quando você não tem casa, mas participa da comunidade. A Casa di Monique teria surgido já no período pandêmico do Coronavírus, e sua fundação se deu depois que Eloi, Ayra (antiga mãe da casa) e Peste Nega, enquanto 007s na cena Ballroom, resolveram se juntar e acolher pessoas que estavam sofrendo violências de diversas formas possíveis, se sentindo perdidas e afetadas pela pandemia.
A Casa di Monique tem esse nome em homenagem à Monique dos Santos (12/05/1966), mulher travesti maranhense, pioneira do movimento travesti no Piauí. Foi fundadora do extinto Grupo Babilôniai e da Associação de Travestis e Transsexuais do Piauí - ATRAPI; ajudou a fundar o Grupo Matizes e PSOL Teresina. A ativista também foi uma das 27 travestis a fazer parte da campanha Travesti e Respeito, que culminou na escolha do 29 de janeiro como o dia da visibilidade trans. Em 2019 Monique foi homenageada pela Fiocruz-Pi com o prêmio de direitos humanos que leva o seu nome.
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A Casa de Monique surgiu após o contato com outra Casa, a House of Amu’a. Mas claro, cada casa constrói uma demanda e que, assim como as outras, a Casa di Monique também tem as suas demandas específicas. Foi após uma reunião que surgiu o manifesto da Casa que está disponível no instagram @casadimonique, e através dele as Moniques expõe o motivo da formação da Casa.
“Lá diz que a gente é contra a xenofobia porque quando a gente chegou na Ballroom, a Ballroom Norte e Nordeste tava sofrendo xenofobia por parte da Ballroom Sul. Porque enfim, né, a gente é comunidade que tá atrás de desconstrução mas a gente não se desfaz de violência, a gente acaba trazendo junto com a gente, às vezes. Ai nesse bolo que a gente tava vivendo, esse ápice de raiva, revolta e afeto e vontade de se abraçar e tentar falar assim “estamos aqui juntas, vamos passar por esse momento”, foi o que nos motivou a criar a casa.”
Com uma formação em dança majoritariamente binária, como me conta Eloi, foi só quando entrou na Ballroom que ela teve liberdade para se entender como uma pessoa NB (não binária). Esse entendimento refletiu na sua arte quando passou a questionar tudo que estava fazendo e o que cada uma dessas questões representava. A partir dali era professore, não mais professor. Quando eu me apresento pros meus alunos eu tenho que construir toda a narrativa por parte de quem eu também quero trazer porque não tem como eu continuar- eu assumir, né? Essa corpa queer não binária e ainda perpetuar padrões machistas que tinham no hip hop, por exemplo. Ela contou que dentro da comunidade Hip Hop também busca instigar esses questionamentos da Ballroom, tentando quebrar a barreira do machismo que ainda existe dentro do
movimento e acaba moldando os corpos de quem o pratica com excesso de masculinidade. Para Eloi, a contrapartida disso tudo se deu quando através das danças urbanas ela conheceu o Vogue, e por fim, o movimento Ballroom. A partir daí, em contato com discussões sobre gênero e racialidade, notou que alguns desses diálogos ainda não chegaram na comunidade hip hop, que é onde dá aulas. “Não interessa pra onde eu vou, em cursos e tal, acaba que a minha corpa causa questionamentos em relação a “ah, essa coreografia é binária?” [...] Então, tipo, em contrapartida, não existem referências de dança trans aqui na cidade. E aí isso acaba afetando aonde eu vou enquanto corpa trans de sempre tá tendo que pontuar “olha só isso aqui pode ser que esteja… Não é por aí.. Tem isso aqui também”, sabe? “esse outro ponto de vista”. Então nesse sentido afetou sim o meu trabalho enquanto professore, enquanto corpa artista na cidade.”
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Em dado momento da entrevista fomos interrompidas por Kaytson, que apareceu com uma sacola de garrafinhas de água e ofereceu a Eloi e em seguida a mim que, surpresa com a oferta, aceitei com um agradecimento sincero. Após bebermos a entrevista seguiu normalmente, e logo perguntei a Eloi quais mudanças foram mais perceptíveis desde que ela entrou na casa, além de tudo que já havia me dito até ali. Ela respondeu a minha pergunta com muitas pontuações. A primeira delas foi em relação a dança, onde pontuou a hierarquia presente nos grupos que possuem um diretor, um coreógrafo e o restante são bailarinos.
É uma coisa meio piramidal que eu acho que a Casa desconstruiu total. No sentido que a gente trabalha com circularidade, a gente trabalha com o conceito de afrocentrado, então tipo, tudo isso afeta também em mim, porque estou lidando com outras metodologias, outras didáticas. Depois, Eloi falou sobre as diferentes profissões das pessoas que compõem a casa e como os diálogos com essas diferentes visões de mundo acabaram afetando seu “eu artista”. Elu concluiu a fala contando que depois de todas essas mudanças, optou por mudar também a sua pesquisa em dança. Eu converti toda a minha pesquisa pra dança queer agora, porque é por aqui. Não tem outra forma de eu dizer que danço sem falar das corpas que dançam a dança que eu danço. Para Eloi, a cidade de Teresina ainda enxerga a Ballroom como “Pose” e “Legendary” (séries e reality shows que mostram as balls, bailes que acontecem dentro do movimento). Sendo uma casa nova, com apenas um ano de existência, a Casa di Monique possui o recorte regional (Nordeste, Piauí, Teresina), o que a distancia das séries norte-americanas e da Ballroom dos anos 90. A preocupação da Casa é
em como construir a Ballroom de Teresina, sabendo que na cidade existem pessoas com vivência de mais de 5 anos no movimento. Além disso, ela conta que a Casa já fez diversas parcerias pela cidade, como por exemplo o Slam Nós Por Nós, que teve sua primeira edição ainda neste ano de 2021, realizado pela Agência Fios Afro com a comunidade do bairro São João. A casa também já chegou a interagir com a Batalha da Cultural (batalha de freestyle que acontece uma vez por semana na praça cultural do Dirceu I), atualmente tendo realizado também uma oficina no Junta Festival de Dança. Nas manifestações de Fora Bolsonaro que se iniciaram no dia 29 de maio com o 29M, a casa teria performado e se manifestado com dança durante o trajeto e finalizado com uma fala potente de Ayra Dias a respeito da população trans e suas demandas que são invisibilizadas a nível nacional. A gente não quer ser só a casa do close e a gente tá tentando meio que pensar num corre pra poder não transformar isso nessa estética, sabe? A cidade ainda é machista, elitista, transfóbica, então é muito difícil às vezes... Apesar da fala forte que Eloi traz, elu finaliza nossa entrevista com um sorriso no rosto.
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Mas a gente também tá gritando, né? Da nossa forma. O próximo entrevistado foi Willames Kennedy, de nome artístico Peste Nega. Aos 24 anos, Peste é pai da Casa di Monique, bailarino, coreógrafo e professor de dança. No início da nossa entrevista, Peste Nega bolou um beck de maconha e, sentado ao meu lado, em um banco de concreto extenso nos fundos da praça, respondia às minhas perguntas enquanto alguns raios de sol batiam nas suas costas.
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Ele avisou que iria fumar enquanto falava comigo e respondi que tudo bem, mesmo que ele não tivesse me perguntado. Peste me contou que, assim como Eloi, sua maior preocupação é a Casa di Monique, onde ele trabalha questões artísticas e sociais, mas que durante a pandemia fez vários bicos de dança. Ele disse ainda que não trabalhava em nenhuma escola ou companhia na qual fizesse parte e recebesse dinheiro. Apesar de dançar desde os 6 anos de idade, Peste considera que iniciou no meio artístico de Teresina apenas aos 19, através do curso técnico em dança, onde descobriu as danças urbanas e se identificou com o estilo. Ele passou 2 anos em um grupo de dança chamado Conexão Street, onde participou de festivais e ganhou prêmios na categoria trio com Eloi e Nilton (na época nenhum deles era da Casa di Monique). Só que chegou um momento que pra mim não tava dando mais pra fazer parte de dança de rua porque, enfim… Várias questões. E aí eu comecei a estudar por conta própria, sabe? E durante esse tempo que eu tava estudando, eu tava investigando umas coisas do meu corpo, e assim... Sou uma bicha preta, e não gostava muito de estilos de dança- não é que eu não gostava assim, visualmente… Eu não gostava no meu corpo- estilos de dança no qual trabalhava a feminilidade. Peste contou que existia um preconceito com ele mesmo, já que achava bonito ver outras pessoas dançando daquela forma mas, quando fazia com o próprio corpo, não achava legal. Eu era uma pessoa muito heteronormativa, ainda sou um pouco né? Tento tá sempre quebrando essa barreira. Durante o seu processo de desconstrução, Peste Nega e Eloi di Monique resolveram fazer um
movimento de Vogue na cidade. Ambos tinham conhecimento do estilo de dança através das danças urbanas, mas na época, mesmo ele já tendo tido contato com a Ballroom, não sabia que se tratava do movimento. Também não tinha tido consciência de ir atrás da origem do Vogue, sabe? Tava mais interessado no Vogue dança técnica do que enfim… O que ele realmente significava. De toda a sua história, contexto social e político. E no meio desse processo aconteceu a vivência do Junta, né? Que foi em 2019, e eu fiz a inscrição, sabe? Foi em novembro de 2019... Em outubro ou em novembro, uma coisa assim. E nessa vivência foi assim, tipo, Allícia... Foi um encontro comigo mesmo.
Peste Nega contou que essa vivência do Junta Festival o marcou como artista e como pessoa, e enquanto falava de suas descobertas a respeito do movimento Ballroom, seus olhos ganharam um brilho que não estava ali antes, como que emocionado ao recordar do momento em que sua vida mudou. Nessa vivência de 3 dias, esteve presente Ítalo Guajajara, father da Casa de Onijá (cena Ballroom do Distrito Federal), que falou que o estado do Piauí era o único na cena que estava se iniciando sem uma Casa. A maioria das cenas se iniciava com uma house e essa house começava a difundir todo o movimento pela cidade, pelo estado, e por aí ia surgindo outras house e as house iam fazendo diálogo sobre coisas que atravessavam entre elas, como corpo lgbt, como corpo periférico… Como corpo bicha imerso à sociedade. Já dentro do movimento Ballroom, se viu diante de diversos diálogos sobre corpo preto periférico e isso o fez investigar o próprio corpo por um viés diferente. Peste Nega acredita que o momento em que entendeu que não precisava pressionar a
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Eloi
Peste Nega si mesmo para iniciar sua desconstrução foi de extrema importância. A partir daquele momento era uma outra pessoa, um outro artista. ”Eu sabia que eu era uma pessoa preta mas eu não me entendia como pessoa preta. Sabia que era pessoa preta porque, enfim… Me olhava no espelho e sabia que eu era preto, mas eu não entendia a questão da minha pretitude.” Assim como boa parte das pessoas pretas do Brasil, Peste sabia que sofria racismo, mas isso não o afetava a ponto de buscar entender as raízes do problema. Somente dentro do movimento e em diálogo com as pessoas é que começou a estudar e entender tudo isso. Em suas próprias palavras, o ano de 2020 teria sido um ano de descobrimentos a respeito de quem ele era uma pessoa preta que passa 20 anos vivendo
assim, normal, e do nada surgem vários estalos de coisas como: porque as pessoas te olhavam daquele jeito, porque as pessoas te tratavam daquele jeito... E tu nunca entendia, aí depois tu começa a entender do nada, isso pra mim foi muito surreal.
Membros da Casa Aproveitando quePerformando o assunto erapara o ano de gravação do videoclipe 2020, perguntei a ele sobre o momento
pandêmico e como foi para ele se aproximar da Ballroom nesse período. Ele me disse que antes do surgimento da Casa di Monique seus membros já tinham contato com a Ballroom e reforçou a fala de Eloi sobre a xenofobia no movimento. Isso também foi incentivo para a formação de uma casa. Para ele, quando uma pessoa preta entende as dores da outra e lhe estende a mão, ali se inicia
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um afeto. Além de tudo até ali vivido, o acolhimento entre eles foi o que fez com que a Casa fosse pensada e fundada. Eu, por exemplo, no começo da pandemia tive um episódio de depressão, então se eu não tivesse os meninos pra me aparar ali virtualmente, pra eu estar conversando, eu tinha surtado. Peste trouxe ainda a questão do processo de virtualização que o Brasil entrou desde o início da pandemia, e pontuou que isso foi e tem sido um processo dificultoso, já que o movimento acontecia muito em festas presenciais, como era o caso da parceria que tinham com eventos do Stouradas (movimento de celebração e ocupação LGBTQIA+ da cidade). Ele próprio havia saído das redes sociais, mas voltou a usá-las quando entendeu que, hoje em dia, redes como o Instagram, por exemplo, servem de portfólio para artistas.
“Eu me vi voltar pra rede social porque me tornei pai da Casa di Monique, idealizo ser pioneiro da cena Piauí, então quanto a isso eu tenho que tá ali. [...] E foi muito tenso pra mim, sabe? Porque eu tenho uma pancazona sobre exposição, sobre ser visto demais. “ Como coreógrafo, Peste demonstrou preocupação a respeito das dancinhas do Tiktok, que durante a pandemia ganharam mais força nas redes sociais. Para ele é problemático quando surge uma apropriação de cultura dentro das danças sem que haja um estudo disso. Aí vem uma gata branca: “vou ensinar passinho de dança”, aí pega assim uns passos de dança que é do movimento hip hop, que é um movimento que tem mais de 60 anos. Que fala sobre luta, sobre luta dos corpos pretos e ela vai e pega um passo do movimento, um passo que tem nome, que tem fundamento e bota qualquer passo e fala
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“eu não sei o nome desse passo mas a gente vai chamar de forma tal”, sabe? Nesse processo de virtualização, a Casa di Monique recebeu ajuda do Núcleo Norte Nordeste (cena NONE Ballroom), com referências e fontes, para que todo o processo de estrutura da casa e do movimento no Piauí fosse organizado. Além da NONE, Peste citou outros movimentos que formam a rede de apoio da Casa na cena Ballroom, rede essa de extrema importância no que se diz respeito a movimentos sociais de “minorias”. Entre eles a Casa Fios Afro (agência citada também por Eloi), com o ensaio fotográfico feito por Kelson Fontinele (afroempreendedor e também barbeiro e dreadmaker da agência), Yagaga Kengaral (mãe da House Of Kengaral, cena Ceará), pioneira da cena Nordeste e da cena Ceará. Fênix Zion (House of Zion, moda e pioneirismo no Ballroom de Alagoas), e ainda a Diamond Muzi (Sara, mother da House of Muzi, do Alagoas). As pessoas olham para o movimento e enxergam apenas os bailes, a festa, a dança, o Vogue. Mas quem vive Ballroom entende que se trata de algo muito maior que isso. Os bailes são uma forma de celebração das nossas corpas que geralmente são invisibilizadas em meio a nossa sociedade. Então os bailes é pra isso, uma celebração dos nossos corpos. No meio de sua fala, Peste tragava seu beck e olhava em direção às pessoas que jogavam basquete mais à frente, onde os sons de conversas e pessoas correndo de um lado para o outro na quadra às vezes se sobressaiam ao nosso diálogo. Naquela hora havia muito mais movimento do que quando eu iniciei a entrevista e os raios solares, agora mais fracos, indicavam que o sol estava se pondo e que provavelmente já eram 18 horas da tarde.
Não demorou para que Peste voltasse a olhar pra mim e, sorrindo, concluísse o que estava falando. Porque o movimento em si, Allícia, ele é sobre militância, sabe? É sobre luta por direitos LGBTQIA+ sabe? Sobre a ascensão desses corpos que sempre foram marginalizados, colocados como marginais, corpos invisibilizados. Sempre dando hype pras mulheres trans que foram elas fundadoras do movimento. Entender que quando tiver uma mulher trans ali é o local de fala dela, sabe? Por mais que eu seja uma pessoa preta periféricaque foram pessoas pretas periféricas que criaram esse movimento-, eu ainda sou uma pessoa cisgênero. Eu ainda tenho meu espaço de privilégio como um homem também, como homem cisgênero. Para ele, o movimento Ballroom não se trata de serem todos melhores amigos um do outro, mas de se olharem e se entenderem enquanto sociedade. Rindo, ele disse ainda que seria ótimo se fossem todos amigos, mas que entendia que as pessoas têm pensamentos diferentes umas das outras e que é normal não possuírem amizade, contanto que se entendam como sociedade e entendam as vivências de cada um, respeitando e ajudando na luta uns dos outros. Eu sofro homofobia, mas tu sofre de feminicídio, sabe? A tua população de mulher, vocês sofrem com o feminicídio. E quando um boy for levantar a mão pra mim e querer me bater por homofobia, vocês tão lá pra me defender e quando um boy for querer bater em vocês por ser machista, a gente tá lá pra defender. A gente tá lutando pelo direito de todas, sabe? Mesmo pelo direito daquela bicha ali que é uó, que eu não vou com a cara dela, mas que eu entendo que ela passa por corre, por dificuldades tão parecidas quanto as minhas, ou não.
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Ao fim da entrevista, quando perguntei a ele que memória mais marcante ele tinha do movimento Ballroom, ele voltou a falar sobre a vivência do Junta Festival. Perguntei se havia sido a coisa mais marcante pra ele, que prontamente reafirmou: Foi a semana mais foda assim da minha vida. Mudou a minha vida literalmente, literalmente Allícia! Sou outra pessoa depois daquele dia.
Minha última entrevista começou quando já não havia mais luz do sol. Apenas os postes da praça nos iluminavam quando Peste Nega levantou de onde estava sentado e ali em seu lugar Kaytson sentou. Aos 23 anos, ele estuda direito na Uespi e é filho da Casa di Monique desde sua formação. A minha primeira pergunta foi sobre o que mudou na vida dele desde que entrou na casa e, sentado de frente para mim, ele contou que ao conhecer novas pessoas teve outras visões de mundo. Afirmou ainda que, mesmo pessoas assumidamente LGBTs passam por mudanças dentro da Ballroom, onde todos os padrões de cisgeneridade são quebrados. Até porque a Ballroom, ela foi criada por mulheres trans, então elas não queriam obedecer essa estrutura (cisgênero), não faz sentido. Ainda sobre as novas vivências como filho da Casa di Monique, Kay afirmou que as pessoas cis LGB’s do movimento e da casa ainda reproduzem a estrutura cisgênero na qual foram inseridas desde cedo, e que a descontrução é constante no movimento. É um processo de troca também. Então em um certo momento você vai, de certo modo, trabalhar, ajudar na desconstrução de outros, no processo de outras pessoas. Eu acho que é um
Kay rolê cíclico, um rolê de trocas, de passagem, acho que é isso. Ele disse ainda que dentro da Casa busca ser a pessoa que apazigua as discussões, pois entende que ali estão inseridas muitas visões de mundo diferentes. Mesmo que estejam buscando a quebra de padrões heteronormativos e da branquitude, ainda existem, lá dentro, interpretações de mundo que são racistas, homofóbicas e transfóbicas. Mas eu acredito que, já que a gente tá se propondo a construir em coletivo, a quebrar isso, a gente tem que quebrar principalmente com os que tão do nosso lado, aqueles que a gente decidiu construir em conjunto. Quando perguntei o que era a Ballroom para ele, Kaytson e eu rimos quando sua primeira reação foi dizer que havia achado minha pergunta “pesada”, de difícil resposta. Disse então que a Ballroom era muita coisa. E, antes de explicar que “muita coisa” era essa, respirou fundo, parecendo pensar bem na resposta que ia me dar.
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Em primeiro lugar, eu acho que ela seria um espaço de troca, mas ela vai pra muito além disso. Ela seria um espaço onde você pode literalmente ser tudo que você quiser, não importa a estrutura, o que os outros mais velhos ou os que dominam o poder dizem. Porque ali dentro você não está sendo julgado, você não está cumprindo padrões de ninguém. Ali você é você, da forma que você quiser, sem amarras, sem barreiras, sem nada. Ele falou então sobre uma das categorias da Ballroom, nos bailes, chamada Realness (realidade), onde as pessoas performam quem elas são de acordo com cada realidade apresentada. Para explicar melhor, deu um exemplo que criou baseado em onde estávamos, na praça ao lado de um Batalhão Militar. Por exemplo, tem uma categoria Realness do Exército, já que a gente tá aqui (no 25 BC). Você é uma bicha preta, ou mulher trans, ou uma preta gay cis, mas você tá la performando aquela realidade de um exército, de ser um militar, de ser uma pessoa que aparentemente é aquilo ali, mas que você nunca seria aceito daquela forma ali. Dentro da Ballroom não, dentro da Ballroom você é o que você quiser ser, literalmente. Kaytson começou a dançar na escola, em atividades artísticas, e mesmo com essa abertura para arte, não sentia que era incentivado a continuar nesse ramo de estudo. O foco é o conhecimento técnico e querendo ou não, tem uma cobrança pra que esse conhecimento técnico retorne. A parte artística nunca é válida, pelo menos pras pessoas que lhe sustentam enquanto você é menor de idade.
Apesar disso, ele continuou focado em estudar dança e em 2016 participou de um grupo chamado Shinning Diamonds que dançavam covers de Kpop (música pop coreana).
Kaytson confessou que leva muito do Kpop para dentro da Ballroom, com referências de figurinos e jogos de câmera. Perguntei a ele se a Ballroom dava essa facilidade de levar seu próprio estilo em performances nos bailes, e ele disse que sim. Assim como Eloi e Peste Nega, Kaytson também afirmou que o movimento não é uma única cena Ballroom geral, já que cada região possui seus recortes e personalidade. Além da categoria Realness, ele explicou outras duas: Runaway e Face. O que é o Runaway? É sua caminhada do dia a dia, aquela caminhada que apesar de tá com medo tu vai com a cabeça erguida e passa na frente daquelas pessoas se achando a bicha mais gostosa e linda da face da Terra, entende? E tu coloca do teu conhecimento, do teu caminhar, da tua forma de passar por aquilo ali do teu jeito. [...] E quando uma gata trans vai lá, bota a cara no sol literalmente, ela tá fazendo o que a gente chama de Face, mostrando a beleza dela pra todo mundo, entende? Entramos no assunto do convívio de Kaytson com outras pessoas que não estão inseridas na Ballroom, e ele afirmou que não esconde de ninguém que faz parte da Casa di Monique. Então perguntei como ele fazia para explicar para as pessoas próximas que não eram do movimento, o que era a Ballroom. Ele contou que busca divulgar ao máximo para quem não faz parte, principalmente para quem é LGBT. Porque elas (pessoas) podem não entender, elas podem não se identificar enquanto Ballroom, mas elas fazem Ballroom sim. O Vogue ficou conhecido mundialmente quando Madonna o levou para um clipe e logo subiu nos palcos com performances de sua música de mesmo nome. Mas esse Vogue tão conhecido foi
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uma apropriação da cena Ballroom. Com o recorte Brasil, Piauí, Teresina, se notam as mudanças desde o estilo de dança, à forma de se fazer Ballroom.
Como última pergunta, quis saber dele o mesmo que perguntei a Peste Nega. Qual memória mais marcante ele tinha da Casa e do movimento Ballroom?
A Madonna fez o Vogue dela daquele jeito. Mas a gente, do nada, tá fazendo um vogue femme aí começa um batecu, as bicha vai lá e batecuzão belas. Então a gente sempre tenta não só explicar, mas contextualizar também, e facilitar essa comunicação. Porque querendo ou não, é uma cultura das bichas pretas? É. Mas é uma cultura ainda norteamericana, ainda tem aquele certo domínio deles. Porque querendo ou não, é a cena que tem mais história, é o pessoal que tem mais produção audiovisual de tudo isso.
“Sempre que a gente terminava os treinos ou as rodas, a gente saía e ia pro meio da Frei Serafim grelhar e bichar mesmo, e fazer um escândalo e chamar atenção. As bicha no meio da Frei Serafim passavam e, tipo assim, você não sentia o medo. Mesmo que todo mundo tava olhando, porque a gente diz “a gente tá no megazord”, entende? A gente tá junta, e tipo assim, se vier, não vai peitar só uma, vai peitar tudin. E as bicha não peita, mulher! E eu acho que a melhor coisa é isso, depois das obrigações, do que a gente tem que fazer, da parte tensa, sempre tinha essa coletividade e essa união depois.”
De acordo com ele, a cena do Ballroom no Brasil não é tão nova, mas ainda está começando, e as produções audiovisuais nacionais ainda são sobrepostas pelas internacionais.
Após nossa entrevista, as pessoas da Casa que ainda estavam por ali resolveram que iriam até o Parque da Cidadania, localizado do outro
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lado da Avenida Miguel Rosa. Eu tentei pedir um outro carro no aplicativo de caronas para ir embora, mas após alguns problemas de preço e cancelamento por parte dos motoristas, resolvi caminhar junto deles até o parque e de lá pedir meu carro. No meio do trajeto, entre diálogos mais descontraídos, Transtorno e Nilton, que também fazem parte da casa, chegaram de moto. Estavam voltando do lugar onde haviam sido gravadas as últimas cenas do clipe de Transtorno. Kaytson então deu a ideia de Nilton me dar uma carona, já que a distância entre o parque e minha casa era pequena. Tentei dizer que não precisava, se isso fosse atrapalhar, mas logo Peste e os outros estavam insistindo para que eu fosse e Transtorno prontamente desceu do veículo, quando Nilton disse que poderia sim, me levar. Durante o trajeto de volta pra casa, nos perdemos algumas vezes pelas ruas da zona leste da cidade. Nesse percurso entramos em conversas descontraídas sobre nossas vidas
na cidade e não pude deixar de pensar que aquele devia ser o acolhimento no qual tanto ouvi falar naquela tarde. Em outras oportunidades em que estive entre membros e ex-membros da Casa di Monique, pessoas que constroem a Ballroom da cidade, pude ter novamente essa sensação de ser acolhida. Quando, por exemplo, em um certo dia, Peste Nega me mandou um áudio e pediu que eu ouvisse no volume máximo dentro do carro pedido em um aplicativo de caronas, quando contei a ele que estava em uma situação de perigo. Ou em outro momento em que vi preocupação sobre como eu iria pra casa após estar no mesmo espaço que eles. Do pouco que estive imersa aprendendo sobre a grandeza do movimento Ballroom, acredito que consegui entender o motivo de ser difícil explicá-lo. Talvez não haja palavra sozinha que dê conta disso, já que se trata de algo coletivo. E se me perguntarem, posso afirmar, que para além dos bailes e do Vogue, o Movimento Ballroom é afeto.
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