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Revista Nerva #2 Encontro com o Insólito

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ENCONTRO COM O INSÓLITO

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Tudo o que cabe na palavra Nordeste. Tudo o que cabe em uma revista de arte. O gesto de imaginar. Um dia estivemos juntes e pensamos que era possível, sim, criar um lugar. Um lugar superfície página aberta, uma chance de encontro e de expansão. Uma festa. Uma infiltração. Estivemos sonhando com uma revista - que se desdobraria entre nós e as outras pessoas que sonhassem junto, uma revista feita de acreditar. Implicamos nossas corpas nesse gesto-revista que é um pouco mofo na parede, um pouco sistema de irrigação, um pouco banho de mar, um pouco cachoeira. Desejamos que, assim como a água infiltrada corre por dentro da parede e mina toda a construção, as obras que se juntam nesse tecido-revista corroam este mundo por dentro. E desse mundo desabrochem outros, em outras temporalidades e em outras formas de cortar o fio - ou de tecê-lo. Um dia estivemos juntes e acreditamos que algo se faria aqui. Se faria a si, porque a Nerva é feita de cada obra que existia antes dela. Só existe porque existe o encontro, o choque, o desacordo, a nordestinidade, o desafio, o desejo.

Essa é uma revista-explosão. Ficção do cotidiano, irrealidade da experiência. Chão de terra vermelha, rua de calçamento, terreiro, palavra dançarina, jeito de seguir, forma de emudecer: cada pedaço de página é universo. Nordeste ficção mentira segredo escombro promessa delírio festejo alimento vento aracati. Seis corpas encontraram entre si um lugar para cozer a Nerva. Nosso trabalho foi feito do exercício do tempo: manejar com cuidado (e também com alguma calma), manejar devagar, olhar de novo, oferecer atenção. Entendemos o risco e a grandeza da tentativa de segurar as quinas as pontas as extremidades as incertezas dessa revista. Aprendemos com todas as obras: são tantos os modos de dizer. E de não dizer. Talvez nossa dança seja muito mais esse exercício de abertura de todo o corpo para ouvir. As falas, as vozes, os cantos, as memórias, as ladainhas, as preces, as pragas, os dizeres:


estão todos aqui. Houve um tempo em que acreditamos na separação entre o insólito e o irreal do mundo e o impossível de quem somos ou do que dizemos sobre nós. Como se não fôssemos nós a beira do indizível. Como se não fabricássemos, a cada dia, a experiência de quem somos no mundo e, ao mesmo tempo, um mundo pra abrigar nossa experiência. Tudo que não faz sentido e que não pode ser explicado nos atravessa e se instaura. É por isso que NERVA é uma revista que é duas, mas é uma só. Porque somos muites. Incontáveis. Mesmo aqui, tão dissonantes tantas vezes. É com os pedaços do impronunciável que contamos nossas histórias. Nerva é isso e é também pra onde isso nos projeta. Rhaiza Oliveira apontando para o extra campo, para o que está fora do enquadramento, para o que ainda não conseguimos ver, mas existe. Aqui dentro, xyz gabi nos oferece um passatempo. Liguem os pontos para encontrar. O insólito é tudo e é nada, é o que não necessitamos explicar - e que, mesmo que quiséssemos, jamais nos seria possível. A sensação por detrás do ouvido ao sair do chuveiro. Aquilo que circula, rodeia, contorna e não finda. O que dividimos, o que é completamente nosso, o que sequer imaginamos existir (mas existe). O grito suspirado. O que surge do chão de areia que cobre a cama de baleia que repousa embaixo e sobre nós. “Sonhei que havia búzios dentro das crateras da lua”: Ionara Senna sonhou e de si fez ela mesma que era outra, de si fez mais de uma e, enquanto mirava a câmera, nos olhou. De cá olhamos Ionara e pedimos passagem pelo seu sonho. Seu colar de pérolas, seu rosto pintado, a palavra gritando no fundo: mim. Nerva é mim, escrita num muro de fundo enquanto Ionara se aproxima de nós.

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expeDieNTe corpo

ANA ANIE LOUISE MARÍLIA SIMONE TAIS

editorial:

ALINE, BARRETO, FÉLIX, OLIVEIRA BARRETO MONTEIRO, textos editoriais: MARÍLIA OLIVEIRA TAIS MONTEIRO revisão geral: LOUISE FÉLIX s i t e : ANIE BARRETO edição de arte, projeto gráfico, produção gráfica, diagramação, tratamento de imagem: DARWIN MARINHO ELLA MONSTRA


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xyz gabi PASSATEMPO _

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Thaysa Aussuba Arrudeio _

Bruna Acioly Ressignificância

Karina das Oliveiras

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airam Furo ::::::: _

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Maria Macêdo CORPOTERRA _

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agah precaria _

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Alexandra Martins Sonia 2 8

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Silvana Mendes Libertadores Brasileiros

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Paula Hasney _

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Benia _

Ionara Sena

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Luciana Rodrigues como desaparecer completamente

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Misty Queiroz Bolsa das águas _

Renier Silva (aguere) _

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Lira Raízes: onde ensaio minhas firmezas _

Rhaiza Oliveira _

Marianna Viana Desatadora de nós grande _

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Mariana David _

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Elisa Maria PASSATEMPO _

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Rafaela Teixeira _

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Raquel Bacelar _

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Elton Panamby Mãos _

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Nanda Costa _

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Beatriz Salles _

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Luana Diogo _

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Thais Mesquita


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Taciana Santos AMÃOQUELIMPAMEUSANGUETAMBEMSESUJA _

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Levi Banida _

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trexy diaba _

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Ananda Nunes _

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B. Benedicto Oniresi _

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Cibele Nogueira No transe Imergência Rebeca Marinho _

Melissa Gurgel _ Fernanda Luá _

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Madu Moreira Madu Moreira _

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Palito _

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Nardella Vampiskarella _

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xyz gabi PASSATEMPO 9


XYZ Gabi, PE

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Rhaiza Oliveira, PE

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ENCONTRO COM O INSÓLITO

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Mitsy Queiroz, PE Bolsa das Águas, 2015

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Em Desatadora utilizei uma pintura do século XVI do pintor Johann Schmidtner, que representa Nossa Senhora “desatando os nós da desgraça atados por Eva” como receptáculo para disrupções. Construí uma colagem digital montada em símbolos: a pintura, o búzio aberto, a concha fechada, o espelho, um mapa da América do Sul virado de cabeça para baixo. Gosto da nossa senhora desatadora de nós, pois ela nunca existiu em carne e osso, ela é uma interpretação do pintor que ganhou potência ao longo dos anos, ganhou novena própria e capela em seu nome. Transformo seu rosto em búzio aberto para nos contar segredos, destinos, suas mãos desatam a fita que nos une em nós. Sua auréola é uma concha fechada em contraposição. Elementos marinhos me fazem pensar na travessia do Atlântico, caminho que colonizadores percorreram para virar este continente de cabeça para baixo - imagem que me serve de pano de fundo. Mas nesta história também existe subversão. “Nuestro norte es el sur” de Torres de Garcia me serve de referência para concluir: que então se subvertam estes valores coloniais que nos aprisionam em nós. Emoldurando o rosto-búzio da santa, um espelho. Para que quem olhar, se veja nela e lembre de reflexos invertidos, contradições e beleza, em suma, se lembre também de olhar para dentro. Marianna Viana , SE

Desatadora de Nós Grandes

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ENCONTRO COM O INSÓLITO

Renier Silva (aguere)

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serpente e a semente da Fruta proibida

I o presente da cobra chega na troca de pele e “ela só ganha pele nova quando a antiga já não serve” (disse um Baiano). cobra-presente: aceito! agradeço ao incômodo do cheiro ruim de fruta apodrecida cuja carne que cai é: comida da T/terra, afirmação de Vida, prenúncio de vitória pois dá caminho dá passagem à Semente. serpente, ser Ente. ser mais que um só. ser Sendo olhando, ouvindo, nem sempre entendendo, desistindo de entender, de tudo apreender, de prender o que é diferente e está ao redor. sem medo covarde de colonizador. ser Com o mundo: coexisto, compartilho, sem vergonha, eu digo: não compreendo. sem medo de Escuro. veneno é defesa da continuidade da semente do Imprevisível da Vida da Diversidade das árvores que dão frutos a todes. sem medo das árvores que dão frutos a todes! quem se abre para conversar com o mundo nunca está só.

II estou cuidado de minha horta, quero que cresçam suas folhas, seus caules, que fiquem

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robustas e cheias de flores, futuros frutos. mas eis que aparece uma lagarta, cujo devir é borboleta. e não tiro. abdico da idealização inicial de jardim perfeito. perderei algumas folhas, talvez até a planta inteira, mas não tiro a lagarta. ser planta é servir de alimento para os bichos do mundo, é ser luz e água que engorda e estimula. planta é o combustível inicial. antes de tudo, houve planta. combustível volátil, grama, flor: girassóis são lindos, mas erra quem acha que o girassol comprado na feira é todos girassóis do mundo, e quando ele morrer acabou a beleza. girassóis são lindos e a subjetivação humana não abarca o imenso do plano das plantas. o jardim no meu quintal é uma tentativa de reprodução de um sistema que me antecede, me ultrapassa e que não se me revela: opero no mistério, alimento uma fogueira que aquece mas cuja matéria que queima me escapa à ciência.

saio na mata escura e mudo sem medo. desejo que vira crença: que tudo aconteça naturalmente que tudo seja calmaria depois da tempestade, mas há resquícios do mal-tempo, que sempre volta, pois mar é revezamento e pescador experiente sabe a hora de ficar em casa. o fracasso me constitui -- o que faço com o que fizeram de mim? -minha vingança é construir aldeias. não estou representando não estou atuando sou, não sou, e me aproveito do não-ser para existir em momentos difíceis onde poesia é um respiro. a unidade possível: sendo, que contempla as nuances da pedra e de sua poesia.

a lagarta vira flor. borboleta é girassol voando.

deixo de ser e deixo de negociar quando tentam me engolir.

o que se é, muda. e garante a planta, antes de tudo. garante a espécie dentro do sistema. espécie que vive em si leva à morte -- não muda.

como lagartixa que amputa o rabo para continuar sendo, interrompo fluxos de seiva, não desperdiço.

planta não morre. jardim de vida: comei de todos os frutos de todas as árvores. o proibido: eliminar qualquer uma delas. não destrua: coma o fruto, a folha, não mate a raiz. comer e polinizar. o fim não está em mim.

sou mineral, vegetal, animal, espiritual, humano. não estou desamparado. ser humano sozinho: o desamparo. não temer a queda: o chão é barro, machuca quando seco, floresce se tem água. uma vez caí de cara num pé de cannabis e fiquei felizfeliz. outra, engatei numa corrida de jaguatirica. às vezes caio e fica um rastro em pirita, esmeralda e sodalita, fica o ferro, sou Alegria, Amor e Coragem.

III apesar de São Sebastião, ser Oxóssi. aprender sendo Sebastião com o cuidado de não virar Santo. por saber quem sou,


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22 Luciana Rodrigues, CE como desaparecer completamente


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Bruna Acioly, CE

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30 Silvana Mendes, MA Libertadores Brasileiros


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Thaysa Aussuba, PE Arrudeio

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airam, BA

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ENCONTRO COM O INSÓLITO

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airam, BA

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ENCONTRO COM O INSÓLITO

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Maria Macêdo, CE CORPOTERRA

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Agah Precária, RN

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Minha tia-avó todos os anos comemorava um aniversário para suas bonecas. Com direito a bolo, salgadinhos, docinhos, balões e até chapeuzinhos. E eram mais de uma centena de pequenos objetos de plástico, pano ou porcelana. Uma senhora do interior baiano que era vista pelos outres como solitária, provinda de uma família de muitas irmãs, mas que contra a norma, nunca casara ou tivera parcewires, além de suas bonecas rosadas. Eu a reverencio por criar essa linda performance: uma senhora negra envolta de pequenas bonecas claras. Será que nela não está um dos Brasils que me foi narrado? Eu fico procurando as bonecas brancas nas minhas roupas, músicas, filmes, crushs, filosofias, pensamentos... Estamos ainda cantando parabéns, minha tia-avó? Não sei seu nome direito e nunca a conheci ao vivo. Mais um efeito dessa narrativa brasileira: diáspora. Ela foi alguém que me ensinou a desconstruir solidão.

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Meu avô materno é uma incógnita, ou pelo menos é assim a memória que me chega sobre ele. Minha mãe só o conheceu por um dia, no qual a morte já o abraçava com diversos tumores. Ela me conta hoje que viajara numa jornada digna de Central do Brasil para poder conhecê-lo. E foi assim: “oi” e “adeus”. Era esse lugar um interior baiano, nunca estive por lá também. Minha mãe diz que ele era índio. Eu aprendi a entender Brasil assim: feito de mães. Já os pais são só para os “oi” e “adeus”. Ouvi alguém dizer uma vez que os pais só entendem de afeto quando estão de mãos dadas com o fim. Talvez seja essa a narrativa do masculino brasileira. É, de fato, olhar para raízes uma forma de contar a história de uma nação?

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Minha avó paterna tinha o costume de “aparecer”, de nos fazer muitas visitas, trazia consigo sempre docinhos de presente, dos quais eu tive que aprender a dividir com os meus irmãos mais novos (eu e a minha mania de gula). Fui ensinadE a sempre orar escondidE e pedir a Deus para “tirar todo espírito mal” dos docinhos antes de comê-los. Fui educadE a demonizar a minha própria avó, a chamavam de “macumbeira”. Eu precisei de uma vida inteira pra durante minha formação em artes, conseguir visitá-la, depois de anos sem vêla, pra pedir desculpas, sua benção e ouvir a sua história que me foi negada, ainda bem que tive tempo, que cheguei a tempo. Ela também foi a única que, quando eu “revelei” que tinha um namoradO, respondeu sem pudor enquanto comia sua macarronada caseira: “quê?! Quer dizer que vc é gay? ... ah, tudo normal né, já tem até na novela hoje em dia”. Enquanto minha mãe ao lado: “dói até a minha alma ouvir isso”. As gerações são tão contraditórias. No cantinho esquerdo da foto, escondido, assim como todas as minhas raízes, aparece “meu tio” que morreu antes de eu aprender a falar. Elu foi aceite e acolhide em casa na condição de ser “ex-travesti, homem nasceu para ser homem”. Sua vida também foi negada na sociedade e na minha história. Até eu descobrir que eu carrego literalmente uma marca no pulmão que, de alguma forma mórbida, fico feliz que seja provinda delu. A AIDS definhava o corpo delu na época, uma das consequências foi a tuberculose, que eu contraí enquanto bebê. Minha mãe repete até hoje que “Deus testou o amor dela para com Ele”, porque ela me amava mais que a Deus. Sua punição foi uma jornada de jejum e oração, pra provar que ela amava a Deus acima de tudo. E assim, “só por causa disso”, eu fui curado. E minha tia travesti? Não teve ninguém para provar um amor maior a Deus? Ela não foi curada... Queria ter podido abraçar elu. Por conta desse Deus ciumento muitos afetos que eu poderia ter tido com as minhas raízes foram borrados. Pessoas que mais uma vez foram hostilizadas por uma crença cega em um Deus ausente para com quem mais precisa

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Alexandra Martins, BA Sonia 2

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Mariana David, BA

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Lira, PB

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Raiz


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Sonhei que haviam búzios dentro das crateras da Lua. Esse foi um impulso para escavações dentro de mim. Essas fotos são no meu quintal, onde vivo desde que nasci. Uma cratera se abre em memória. E essas memórias são como preciosos búzios. Ionara Sena, CE

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ENCONTRO COM O INSÓLITO

Carrego comigo o nome de minhas avós e de muitas avós. Essas outras posso até não ter conhecido, mas tenho algo em comum com elas. Minhas meninas, tendo sido avós ou não, têm outros tantos entrelaces. Exatamente o que seriam eu não sei dizer... Será que elas sentiram dor? Choraram? Encheram e esvaziaram o peito? Prenderam o pente no cabelo? Tomaram banho de açude? Tiveram decepções? Foram paridas? Sentiram sede? Perderam alguém? Furaram o dedo? Tomaram gota santa depois de comer demais? Será que quem as fotografou perguntou de suas dores? Elisa Maria , CE

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Rafaela Teixeira , CE

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Raquel Bacelar , BA

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Elton Panamby, MA

SOBRE AS MÃOS DE MINHA AVÓ ESCREVI PALAVRAS PARA LIVRAR-NOS DO MAL 74


FIRMAMENTO FUNDAMENTO FORJA Espremi os olhos na hora do parto, mas era ela mesma sentada ali, sapatilha Moleca e calça branca, camisa branca de botão e o xale vermelho de lã que ela mesma havia tecido. O cabelo preto preso com fivela e os óculos multifocais. Era ela ali tangendo a abertura da minha bacia, regendo as fissuras abertas em meu corpo para trazer à tona do mundo a criança sua bisneta. Rita Maria da Silva, que seu nome seja dito em voz alta. 75


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PRODUZIRSOMDOSILÊNCIO PRODUZIRIMAGENSDOESCURO O silêncio Brincadeira Teto

era

um

estalo

de

que

deixava

a

gente

surdo. desmaiar. preto.

Jota, você jogou no vento uma vez se o silêncio era um uníssono. Eu tive pensando muito Acho que o silêncio poder ser uníssono, mas quase sempre 78

nisso. não.


“O tempo é o gás, o ar, o espaço vazio” (Stela do Patrocínio)

TECNOLOGIAS Hoje Minha Vejo O

DA

eu

pensei em três pessoas e elas se manifestaram . avó conversa comigo nos sonhos. passado presente e futuro quando reviro os olhos pra trás. vento que bate em setembro trançando as pernas.

TUDO Casear A

COMUNICAÇÃO:

ISSO a b

vida:

o

abrir

t

É buracos

o

e

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ANUNCIAÇÃO as -

bordas m

para e

caber. . 79


Benia, CE

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ENCONTRO COM O INSÓLITO

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ENCONTRO COM O INSÓLITO

Paula Hasney, CE

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Trojany, Trojan, malware, ataca o computador de forma silenciosa e estratégica, sistemática instala-se junto com um software e causa diversas complicações ao sistema operacional do computador. O cavalo de tróia destrói a imunidade da cidade-sistema, revoga e confronta de forma brutal os direitos e privilégios de uma cidade imune, protegida. Trojany é um rito ou sinal difuso da desistência de tentar entrar pela porta da frente, pois não seria necessário ter uma porta, ou a frente, ou dentro. Confrontar a imunidade de um sistema artístico, cisgênero, de um projeto de humanidade e de imunidade racista. Certificado de imunização para andar por aí ou mesmo qual a diferença do vírus e do protozoário ? Memória ram, placa mãe. Grandes, são muros, rigidos em sua matéria, frágeis em complexidade, estritamente binárias ou 0 e 1, vou na voadora quântica, na radiação do corpo negro, atravessando como massa escura, viro buraco negro. E você 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 000000001111111000000101100111010101111100111110 000001111100. Viralizou total, sucesso na internet, é vírus virtual, é mortal, é erótico, looner. AAAAAAAAR, ar entre os balões, pulmão virtual, é a matéria o ato, forte, mas basta uma agulha, nos falta ar e vida. Inteligência artificial é falha, é humana. Como aprender com o vírus e observar o revelar da desorganização proposital, da polarização forçada, da sócio política - political society - e da máquina necro-necro-necro-necro-anti-política e o revelar de nossa fragilidade enquanto "humanos", que humanos, quem? Que humanidade? Que se finde o brazil e o normal, pois além de tudo que nos resta seria o corpo o limite ou a morada? Uma esponja, um pulmão? oi, ta me ouvindo? vocês estão vendo? Enclausuradas, descoletivizada, assustada com o barulho da janela, não dorme pois passou o dia olhando para uma tela, e buscando a ajuda da polícia digital vai e digita: azul, vermelha. A luz ? Sim, a luz piscou e você correu com medo, ou não? Apagou-se a luz. Vão te pegar, é um IP e foda-se o RG, é um vídeo e dura 24h, um dado no bigbrotherdata. Não sabe mais que horas começa a trabalhar e quando vai dormir, trabalha e dorme no mesmo quarto desde o home office. É quase invisível, é quase imaterial, mas ainda não o é, e buscará a todo dia o além do corpo, talvez a corpa, a corporeidade sim, e a imunidade talvez, gengibre. 87


Karina das Oliveira, CE

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Nnda Costa, CE Miragem

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Beatriz Salles, CE

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Luana Diogo, CE

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Luana Diogo, CE

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Thais Mesquita, CE

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AMÃOQUELIMPAMEUSANGUETAMBEMSESUJA é uma perfomance de protesto. Criada em 2018,ela surge da inquietação com as tentativas de silenciamento que atravessam mulheres negras, periféricas, LBTs, e suas multiplicidades. A performance, que consistia em permanecer deitada no chão, e que, ao passo que eu me levantava, outras mulheres liam uma carta-manifesto, transforma-se a partir de sua reapresentação em 2019, quando conheço a música Breu, de Xênia França e também a mitologia da orixá Nanã, que conta que ela quem cedeu o material para a criação da humanidade, que ela é a guardiã dos portais do ciclo da vida. Assim, este trabalho passa a versar sobre algo que nos irmane, algo além da dor, que permita que este ciclo se encerre, para poder dar passagem a construção de novas formas de afetos.

Taciana Santos, CE

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AMÃOQUELIMPAMEUSANGUETAMBEMSESUJA


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Levi Banida, CE

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trexy diaba, PB

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Ananda Nunes, BA

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Cibele Nogueira , SE Solitude 2020. No transe Imergência

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acordei levantei fui fazer o café ainda sonolenta não percebi o pano na boca do fogão esperando ansiosamente para queimá-lo em suas labaredas-mãos percebi antes do fogo se alastrar o pano e o tirei intacto é preciso de tempo pra queima

Rebeca Marinho, CE

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B Benedicto, CE


Padmateo, BA

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Melissa Gurgel, CE

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Fernanda Luá, CE

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Madu Moreira, CE Aura Partida

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Palito, CE Pachamama

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Nardella Vampiskarella, RN

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XYZ Gabi, PE

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