SETEMBRO 2026
Luciana da Costa
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"Mão de obra altamente qualificada, bem treinada. Simplesmente o melhor, desde 1903" Quando uma comunidade se constrói do chão para cima, não existe mão de obra no planeta que seja mais qualificada para completar o trabalho eficazmente à primeira. Os membros da LiUNA e aposentados fizeram um compromisso com as suas carreiras, o que significa um compromisso com a comunidade. Um compromisso para construir as MELHORES escolas, aeroportos, hospitais, escritórios, túneis, usinas de energia, estradas, pontes, edifícios baixos e edifícios altos do país. Quando o trabalho está completo, os membros da LiUNA e aposentados continuam a viver, a jogar e a crescer nas suas comunidades, com a garantia de que a pensão é também... simplesmente a MELHOR!
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entREVISTA AMAR
ENTREVISTA: MADALENA BALÇA
SETEMBRO 2026
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FOTOS: FAMÍLIA DA COSTA
Luciana da Costa H
á mãos especiais. De fada, dizem. As mãos de Luciana seguram uma agulha há mais de vinte anos e sabem o peso certo do fio de linha vermelha e azul, e desenham em pano aquilo que Viana do Castelo lhe ensinou a ver: um bordado não é só algo muito bonito, é memória que se pode tocar.
Luciana Da Costa nasceu em Castelo do Neiva, numa altura em que Portugal ainda respirava ao ritmo das aldeias, devagar, com o mar por perto e os vizinhos por dentro de casa. Há doze anos trocou essa geografia pela pressa de uma cidade norte-americana, onde as pessoas, como ela própria repara, ainda hoje com um misto de espanto e resignação, correm de manhã para o trabalho e correm à noite para casa, como se o dia não coubesse noutro ritmo. Foi uma decisão do marido, que ela abraçou; foi também, de certa forma, uma decisão que o destino já tinha, de certo modo, tomado por ela, porque o pai, emigrante de sempre, lhe tinha deixado, sem querer, a chave de
Mas é nas mãos que a história de Luciana se fecha, e reabre. Porque foi ali, entre um bordado regional de Viana e um lenço de namorados, que Luciana encontrou o fio que a liga, literalmente, à terra que deixou. Hoje ensina o que aprendeu a bordar com uma amiga de família, organiza workshops, participa em instalações criativas onde a linha se cruza Chegou com uma mala de experiência em com aguarela e poesia, e continua, precisa, turismo e voltou a nascer profissionalmente atenta, fiel à tradição, a bordar, sem talvez se numa firma de advogados, onde começou a dar conta, a distância entre duas casas. formatar documentos e, passo a passo, curso a curso, se tornou aquilo que hoje é: prova de Porque a Luciana, apesar de feliz no Canadá, que recomeçar não é apagar o que se sabe, é apesar de grata, apesar do trabalho que ama e aprender a usá-lo doutra maneira. Casou-se do filho que aqui nasceu e cresce, diz uma coicom um carpinteiro que no Canadá encon- sa muito simples quando lhe perguntam pelo trou casas para restaurar em vez de interiores futuro: quer acabar os seus dias em Portugal. de carpintaria para acabar, e teve um filho, É essa saudade, do mar, do jardim, do silêncio o Isaac, que fala português em casa com um sem sirenes, que atravessa esta conversa, fio zelo quase de guardião, corrige a mãe quan- a fio, como um bordado que ainda não está do lhe escapa uma palavra em inglês, como terminado. se soubesse, aos dez anos, que há línguas que não se podem perder por descuido. uma cidadania que tornaria tudo mais simples. Uma coincidência de datas, um ano de diferença entre um papel assinado em 1982 e um nascimento em 1983, e o Canadá deixou de ser um salto no escuro para se tornar um direito adquirido antes mesmo de Luciana saber que precisaria dele.
Antes de emigrar, eu só tinha vindo cá duas semanas e de férias o que é muito diferente. Relativamente ao impacto da mudança de Castelo do Neiva para aqui, acho que nós não podemos comparar. Vir de uma freguesia pequena para uma cidade enorme, com cultura totalmente diferente, maneiras de estar totalmente diferentes, uma agitação que nós não temos nas aldeias em Portugal... não é fácil. Curioso que no início o que eu notava mais é o que ainda hoje noto - as pessoas correm de manhã e correm ao fim do dia. É uma agitação constante! Correr de manhã para ir trabalhar e correr ao fim do dia para regressar a casa. Esta é uma cidade em constante movimento. E isso nós não vemos nas cidades pequenas em Portugal, mas apesar de tudo não achei difícil a adaptação, não me custou muito.
A VIDA PROFISSIONAL ANTES E DEPOIS DO CANADÁ
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A DECISÃO DE SAIR DE PORTUGAL E A CHEGADA AO CANADÁ Meu nome é Luciana Costa, tenho 42 anos, nasci em Castelo do Neiva, Viana do Castelo e mudei-me para o Canadá há cerca de 12 anos. Tomar essa decisão foi uma escolha inicialmente feita pelo meu marido, já éramos casados na altura e eu apoiei. O meu pai foi emigrante no Canadá praticamente toda a vida e, quando decidimos vir para cá, eu tratei da minha cidadania canadiana o que não foi difícil porque apesar de ter nascido em Portugal, o meu pai estava cá e ele já tinha a cidadania canadiana quando nasci. Nessa altura, a lei dizia que se à data do meu nascimento o meu pai ou mãe tivessem a cidadania canadiana, eu tinha direito a obter a cidadania canadiana. Ora eu tive a sorte do meu pai conseguir a cidadania dele em 1982 e eu nasci em 1983. Portanto, foi uma coincidência muito boa, que resultou muito bem. Para mim, tornou tudo mais fácil. E viemos. Já tínhamos cá família, e além disso, existe cá uma comunidade muito grande da minha freguesia, e decidimos arriscar. Apesar de tudo, esta foi uma decisão que não foi tomada assim de forma leve, porque aos 30 anos já tínhamos a vida instalada em Portugal, mas naquela altura estava uma crise muito grande em Portugal, o meu marido trabalhava na altura por conta própria e eu trabalhava numa agência de viagens e basicamente uma pessoa trabalhava para pagar as contas. E pronto, foi uma questão mais de pensar no futuro, de criar uma estabilidade para o nosso futuro. portanto,
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Em Portugal, tirei um curso profissional de turismo e antes de vir eu trabalhava numa agência de viagens que era focada somente em alojamento e as reservas eram todas efetuadas online. Eu trabalhava com uma cadeia de hotéis de Espanha semelhante às Pousadas de Portugal e trabalhava muito para o mercado inglês. Era isso que eu fazia na altura. Portanto, o inglês para mim não foi um obstáculo. Claro que é diferente, não é? Mas, realmente a língua não foi um problema. Foi muito fácil para mim. Além de ter a questão da comunicação facilitada, eu e o meu marido tivemos muito apoio quando cá chegámos. Posso agradecer à minha família de cá, que me ajudou imenso, porque na altura era muito difícil conseguir ter casa, não é? Nós nunca cá tínhamos estado a residir aqui e as pessoas querem ter a garantia de que vamos pagar a renda. Não é como em Portugal. Claro que nós não tínhamos forma de dar essa garantia, não é? E a minha família, que já aqui vivia, ajudou-nos. Portanto, nesse sentido, só posso agradecer. E em termos de trabalho... eu ainda estava em Portugal e já estava a fazer a aplicação para trabalhos cá. Então uma semana depois de chegar tive uma entrevista
e comecei a trabalhar na Banana Republic em part-time e pouco tempo depois, talvez nem um mês depois, comecei a trabalhar na empresa em que trabalho atualmente, onde estou há 12 anos, ou seja, desde que cá cheguei. E, portanto, foi rápido, não foi nada difícil arranjar trabalho. Foi um trabalho onde me ambientei rapidamente, mas completamente distinto do que fazia em Portugal. Eu trabalho numa numa firma de advogados e somos uma empresa relativamente grande. Somos cerca de 200. Na realidade, eu comecei a trabalhar numa empresa que prestava serviços nessa empresa de advogados e depois eu comecei a ver tudo ao meu redor e a pensar assim: “acho que consigo fazer melhor que isto, não é?”. Comecei a observar o trabalho das assistentes administrativas que trabalhavam lá e pensei “acho que eu quero tentar algo melhor” e pronto, foi quando decidi que iria tirar um curso de pós-laboral. E tirei no George Brown College o curso de “legal assistant”. Fiz esse percurso escolar durante um ano e depois pedi para fazer o meu estágio profissional na empresa e fui aceite. Deram-me uma oportunidade e, no fim, ofereceram-me trabalho, no departamento de Document Services, que é basicamente formatar documentos. E foi assim. E depois, uns anos mais tarde, fiquei com uma posição de Assistente Administrativa, que é onde estou agora e era o que queria. Estou muito feliz com a minha vida profissional. Noto que aqui as pessoas valorizam o nosso empenho, o nosso trabalho, a nossa dedicação, de uma forma muito diferente do que acontece em Portugal. Aqui os meus patrões agradecem, dizem mesmo obrigado, porque reconhecem o nosso valor. O que eu acho extraordinário, não é? O meu marido é carpinteiro, que em Portugal é quem faz tudo o que é interior. Era esse o trabalho que ele já fazia no nosso país. Quando veio para cá, trabalhou no metal, depois começou a trabalhar também em renovações de casas, que é o que o que ele faz atualmente. E, portanto, a adaptação profissional dele também foi relativamente fácil. Creio que tudo o que é relacionado com os trades,
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com a construção, por aqui é relativamente fácil conse- nas celebrações do Dia de Portugal. Acho que todos nós, guir trabalho, principalmente se houver experiência pro- portugueses, sentimos o gosto de fazer parte daquilo que é nosso, não é? Por isso, pelo menos eventos como esse fissional na área. eu gosto de participar, de assistir, embora não faça parte, mas assistir, sim gosto. O CANADÁ, O ISAAC E PORTUGAL Tenho um filho, um menino, um Isaac. Ele já nasceu cá, cerca de dois anos depois de eu cá chegar. Portanto, ele tem dez anos, faz este ano 11. Nós temos tido a sorte de conseguir ir todos os anos a Portugal. O único ano que não fomos foi o primeiro, porque o meu marido estava a tratar do processo dele e demorou cerca de um ano e meio até regressarmos a Portugal. A partir daí vamos sempre, sempre no verão, em agosto. Nós temos lá a nossa casa, portanto, torna-se mais simples. Mas, para além disso, no meu dia a dia, tento manter o máximo de ligação ao nosso país. Faço a comida completamente igual ao que fazia quando vivia lá. Aliás, o meu filho adora ir a Portugal. Ele adora Portugal. Na família do meu marido são vários irmãos, então o meu filho tem um número considerável de primos e gosta imenso de ir a Portugal e de conviver com eles. Nós cá somos mais isolados, somos os três, e ele lá em Portugal tem muitas pessoas em redor dele. E em relação à língua portuguesa, falamos 100% português, os três falamos sempre, exclusivamente, em português. Claro que quando estamos em ambientes em que o inglês é necessário, falamos inglês. É uma coisa completamente natural. Aliás, muitas vezes qualquer palavra que eu diga em inglês, o meu filho vem logo chamar-me à atenção, ou seja, ele faz mesmo questão de falar português. E mantemos a ligação a Portugal também quando estamos aqui, Participamos nos eventos da comunidade portuguesa embora não com muita frequência, mas de vez em quando sim. Por exemplo, gosto de participar
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1. O INÍCIO DE UM BORDADO 2. A ENSINAR A TÂNIA ANJEIRA . 3. WORKSHOP DE BORDADO. 4. DIAS DE VERÃO NO SOAJO 5. EM CASTELO DO NEIVA. 6. ROMARIA D'AGONIA. 7. DIA DE JOGO COM O ISAAC 8. CAMINHOS DE FESTA 9. EM FAMÍLIA NA COSTA NOVA. 10. AZULEJOS E SORRISOS. 11. COM A IBÉRINA E A BRIGITTE.
MÃOS DE FADA, OS BORDADOS, A TRADIÇÃO E MUITA ARTE
e os lenços dos namorados. Depende do traje penso eu, tureza. Portanto, vou passar a andar mais por essa área aressa não é a minha área, por isso eu não quero falar muito tística. Vamos tentar isto e vai ser o primeiro que estamos sobre essa parte, mas depende do traje. Cada traje tem as a organizar as três. Vamos tentar e vamos ver se resulta. Os bordados estão muito presentes na cultura minhota. suas regras. Aliás, por Portugal inteiro, mas principalmente no Minho. E O FUTURO?... Os bordados de Viana especificamente são muito únicos, É curioso que no outro dia eu e Madalena estávamos a não é? Comecei a bordar através de uma amiga de famí- falar e estava a dizer-me que queria ver os meus borda- Quanto ao futuro, eu não me vejo a reformar-me e ficar lia. Ela bordava e sempre me convidava para bordar com dos. Eu realmente já bordei imenso, mas não tenho assim a viver cá. De forma alguma. Gostava de regressar. Essa ela. E foi assim que eu comecei. Claro que fazia sempre tantos bordados meus porque, normalmente, é tudo feito não é uma decisão que seja tomada de um dia para o oucoisas simples. Depois parei algum tempo, mas sempre mediante o pedido do cliente. Faço o que o cliente pede, tro, nem com tanta antecedência, mas esta é a minha ideia tive aquele gosto pelo manual. E hoje em dia, desde há trata-se de um pedido personalizado e é feito conforme hoje, terminar os meus dias em Portugal. Eu creio que sim, cerca de talvez sete anos, seis ou sete anos. Uma amiga o que me é solicitado, tanto em termos de tecido, cor das que será possível. O meu filho fala muito em querer viver daqui desafiou-me para eu ensinar a bordar e isso reatou linhas, de tudo. Se bem que o trabalho final tenta man- em Portugal, mas não sei se é porque eu falo muitas veeste gosto que eu tinha e as pessoas realmente mostraram ter-se o mais próximo possível da tradição do bordado zes que foi difícil a decisão de vir para cá. Porque foi muita muito interesse. E, recentemente, comecei a organizar de Viana, não é? E sim, eu faço coisas distintas, mas isso incerteza, instabilidade, não é, porque foi uma mudança workshops que têm tido uma adesão muito maior do que é o que eu chamo bordado livre, por exemplo, há quem muito grande. Mas também é difícil voltar. Sinto-me diaquela que eu esperava. Eu fico imensamente feliz que me peça para fazer trabalhos para um batizado ou para vidida, sem dúvida. Eu digo muitas vezes que eu gostava as pessoas gostem, que tenham interesse em aprender. um casamento e as pessoas acabam por gostar. Mas, dos de poder escolher o melhor de Portugal e o melhor de cá. E nós em Viana temos muitos tipos de bordados, temos bordados tradicionais, bordo lenços dos namorados, faço Mas é impossível, não é? Mas pronto, se calhar a solução o Bordado Regional de Viana, que é aquele mais tradi- vários workshops e também Bordado de Viana. Quando passa por um vaivém. Ainda é muito cedo para pensar cional, que é um bordado associado ao lar que se vê em eu bordo no âmbito do bordado livre é quando eu aplico nisso. A verdade é que em Portugal existe um sentido de toalhas, toalhas de mesa, que é aquele bordado vermelho, mais a criatividade para fazer o bordado mais personali- pertença, nós sentimos que pertencemos ali, aquele é o azul e branco. Depois temos o bordado dos nossos trajes, zado (conforme o gosto do cliente), quando são os borda- nosso lugar. Aqui não. Mesmo estando a viver nas zonas não é? E temos também o que se vê muito no Minho, os dos tradicionais, como é o caso dos lenços dos namora- portuguesas, tudo é diferente. Além disso, sinto muitas lenços dos namorados, que são aqueles mais coloridos e dos, isso é para manter a tradição e não alterar nada. Mas saudades do mar ali à porta de casa? Daquela brisa, aquemais tradicionais. Toda a gente conhece os lenços dos na- também tenho um outro tipo de trabalho que explora o le cheiro. Quando vou a Portugal, eu já fico feliz só de me morados que estão muito mais associados a Vila Verde, meu lado mais criativo que é quando trabalho com pes- sentar no meu jardim a tomar o meu café. Só aquele silêntalvez, do que a Viana. Em Viana nós temos os lenços de soas como a Raquel Ibérina Vi e a Brigite Reis, que são cio de não ouvir carros de bombeiros, carros de polícia, a amor, que são aqueles mais bordados em ponto cruz. Nos artistas e a quem eu me associei. Agora vamos organizar agitação constante da cidade... Mas essa saudade vai senpróprios fatos das mordomias temos os lenços de amor na Saudade, em Toronto, um workshop onde vamos in- do colmatada com a ida a Portugal todos os anos. cluir pintura em aguarela, bordado e poesia, ou seja vão ser pintados os óculos de Fernando Pessoa em aguarela e depois eu bordo a palavra “saudade” e vamos aplicar o bordado na pintura. E depois vai levar atrás um poema. Este é o primeiro passo para mais colaborações desta na-
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