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AMAR Agosto 2026

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AGOSTO 2026

Fernanda Silva

entREVISTA AMAR


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entREVISTA AMAR

ENTREVISTA: MADALENA BALÇA

AGOSTO 2026

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FOTOS: FAMÍLIA SILVA

Fernanda Silva A

existência de cada um de nós é sempre marcada por datas e lugares e só se compreende verdadeiramente quem somos, através do conhecimento de tudo aquilo que atravessamos, com mais ou menos dificuldade. O importante é, mesmo quando tudo parece cinzento, nunca perder a vontade de viver e apreciar a beleza da vida. Porque há sempre duas opções – ou vivemos tristes e angustiados, porque valorizamos o lado negativo da vida ou, pelo contrário, apreciamos cada momento da nossa existência, agradecendo a oportunidade que nos é dada de viver. Fernanda Silva pertence ao “clube” dos otimistas. Gosta de viver, aprecia cada momento e agradece ao seu Deus todos os dias, ao acordar e ao deitar, a oportunidade que lhe concede de continuar viva. Uma vida que começou numa terra rodeada de mar (ilha Terceira) e que, décadas mais tarde, ultrapassou

o oceano para procurar atingir o objetivo de que não conhecia, e a generosidade silenciosa sempre – viver uma vida feliz, rodeada da fa- de quem, tendo passado por pouco, escolheu dar mais aos outros do que alguma vez lhe foi mília e dos amigos. dado a ela. Há, nesta história, quedas e recoMas se há quem atravesse o Atlântico e deixe, meços, saudade e gratidão, um marido, três do outro lado, uma parte de si mesma. Fer- filhos, netos de várias línguas e noras que se nanda atravessou-o e trouxe tudo consigo: a tornaram filhas sem que o sangue as ligasse. língua portuguesa, a alcatra, o sabor das cou- Há, sobretudo, uma mulher que decidiu, há ves e das sopas de outrora, as tradições, a fé muito, que a vida se mede pelo que se agradesilenciosa que a acompanha desde pequena, ce, não pelo que falta. e uma forma muito própria de olhar para o mundo, sempre à procura, mesmo nos dias Falámos com Fernanda Silva sobre a Ilha Termais escuros, de um pedaço de céu azul. Foi ceira que a viu nascer, sobre o Canadá que a assim que construiu casa, família e comuni- acolheu, e sobre os quase sessenta anos que dade num país que não era o seu, sem nunca separam uma coisa da outra — e que, no fundo, nunca separaram nada. Porque há pesdeixar de ser também dela. soas que carregam a sua ilha para onde quer Nesta conversa, percorremos o fio dessa vida que vão, e Fernanda é, sem dúvida, uma delas. como quem folheia um álbum de família: uma Esta é a sua história, contada com a mesma infância feliz entre pais, irmãos e vizinhos, simplicidade e o mesmo bom humor com um amor que resistiu à distância e ao tempo, que ela própria a vive, dia após dia, sempre de a coragem de recomeçar do zero num país olhos postos no céu.


A INFÂNCIA NA ILHA TERCEIRA Fernanda Silva teve uma infância feliz na Ilha Terceira, Açores, onde cresceu rodeada de uma família muito unida. Recorda o pai, que sustentava a casa com três empregos e era respeitado por todos, os irmãos com quem partilhava a infância junto ao mar, e a mãe, sempre pronta a receber quem batesse à porta. É por aí que começa a sua história. Fui criada com muito amor pela minha mãe e pelo meu pai. Ele tinha três empregos e era respeitado por todos e eu era a menina dele. Tinha dois irmãos, que adoro. Das memórias da Terceira só guardo coisas boas: fui lá três vezes e, mesmo já não tendo tias, tenho primas de quem sou amiga como se fossem irmãs. Nasci ao pé do mar, e o meu irmão mais velho levava-me até lá. Tenho sempre boas recordações daquela terra. A Terceira é um lugar muito alegre. As pessoas, de um modo geral, são muito boas e acolhem todos de braços abertos. E a minha mãe também era assim: quando alguém passava lá por casa e perguntava alguma coisa, ela dizia logo "Queres entrar e tomar um chá?". Era uma pessoa muito alegre, que vivia a cantar.

O NAMORO E O PEDIDO DE CASAMENTO

Ele tinha ficado órfão ainda novo (tinha 12 anos), sem pai nem mãe. Deixou a terra dele (Ponta Delgada, São Miguel) à procura de uma vida melhor na Terceira. Quando o conheci, ele já tinha uns dezoito anos e outras namoradas, mas gostámos um do outro. Ele achou que eu era muito nova e disse que ia esperar um pouco. Ainda assim, aos catorze anos fui pedida em casamento; havia sete anos de diferença entre nós. Pouco depois, ele foi para a tropa, e eu fiquei sempre à espera dele. Quando voltou à Terceira, a pessoa que tomava conta dele já tinha emigrado para a América, por isso ele foi viver para casa dos meus pais. A minha mãe não quis nem saber de o ter em casa sem estarmos casados, por isso casámo-nos. Foi tudo muito simples, mas tivemos comida e festa como deve ser.

UM CASAMENTO À DISTÂNCIA... Como tantos casais açorianos da época, Fernanda e o marido viveram, por uns tempos, um casamento à distância. Ele partiu primeiro rumo ao Canadá, a convite de um amigo, e ela ficou na Terceira, junto dos pais e dos irmãos, à espera da altura certa para se juntar a ele do outro lado do Atlântico. Um amigo disse-lhe para vir para o Canadá, e ele veio. O meu marido chegou ao Canadá em 1970, e eu vim no ano seguinte, em 1971. Eu fiquei na Terceira com os meus pais e os meus irmãos. Mais tarde, quando eu já cá estava, o meu irmão mais novo também veio para cá, ficou a viver comigo, e depois veio também o mais velho.

Foi ainda muito jovem que Fernanda conheceu aquele que seria o seu marido. Um rapaz de Ponta Delgada, que tinha ficado órfão demasiado cedo e que, apesar de ter 2 outras pretendentes, se apaixonou por ela. Sete anos os separavam, mas isso não im- ... E A CHEGADA AO CANADÁ pediu que, aos catorze anos, Fernanda fosnão teve coragem de lhe contar que estase pedida em casamento, ainda antes de A partida não foi fácil. Fernanda deixou a va de partida. Fernanda Silva chegou a um ele partir para a tropa. mãe internada num hospital e, por isso, país novo com o coração dividido entre a vida que começava e a família que ficava para trás. Começou a trabalhar poucos dias depois de chegar. Deixei a minha mãe internada no hospital sem lhe dizer que vinha para cá, disse-lhe que a ia visitar no dia seguinte, mas sabia que, nesse dia, já estaria no Canadá. Ela tinha acabado de ser operada, e eu fiquei sempre com o coração apertado por a ter deixado assim. Mais tarde os meus irmãos contaram-lhe que eu tinha partido, e ela ficou contente. Pouco depois tratei de mandar vir os meus pais, porque sabia que esta-

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vam sozinhos e que eu tinha de olhar por eles. O meu pai morreu há 33 anos, e a minha mãe há 20. Cheguei ao Canadá no dia 1 de novembro e comecei a trabalhar logo no dia 7, porque queria estar em casa no dia do meu aniversário. Quando cá cheguei, o meu marido já cá tinha família, uma irmã e um irmão, e ficámos sempre muito unidos. Mas não foi fácil: nem sequer tínhamos onde lavar a roupa em casa, tínhamos de ir lavar fora. Ainda assim, nunca me queixei, estava bem com tudo. Por isso é que hoje, quando vejo pessoas que têm tanto apoio e mesmo assim se queixam, penso: elas não sabem o que é a vida.


LÍNGUAS NOVAS, UMA CARREIRA LONGA

rios lares, mas não gostava de nenhum, até encontrar um limpo, na zona de Erin Mills, e disse: "Ok, aqui vão cuidar bem dela." Não ficava longe, por isso ia lá todos os dias, e o meu marido passava por lá quando saía do trabalho, porque ela era como uma mãe para ele também. Tratávamos dela como se estivesse em casa. No Natal fazíamos a árvore, abríamos as prendas ali mesmo.

Para além do português e do inglês, Fernanda decidiu, ao longo dos anos, aprender espanhol e italiano, não por necessidade, mas por gosto de se ligar a mais pessoas. Essa abertura acompanhou também o seu percurso profissional, que já dura mais de três décadas na Mary Kay, uma empresa Foi lá que comecei a reparar que muitas multinacional do mercado de cosmética. outras pessoas não tinham visitas. Sentia Eu já tinha aprendido um pouco de inglês lá isso profundamente. Havia residentes que na Terceira, mas quando cheguei ao Canadá me pegavam no braço, pensando que eu ia quis também aprender espanhol e italiano. visitá-las a elas também. E pensei: tenho de Consegui, aprendi e isso ajudou-me muito. fazer alguma coisa. Desde então, todos os Fiz isso porque queria poder falar com mais anos, pergunto a conhecidos e a clientes se pessoas. Gosto de ter amigas, e se soubesse querem oferecer algo aos idosos e, depois, apenas português e inglês não teria tantas. compro peluches, cachecóis, luvas, café Para além disso, sou diretora na Mary Kay descafeinado, chá, bolachas, e ponho tudo há já 34 anos, e tenho clientes espanhóis e dentro de sacos. Às vezes as pessoas dão italianos. Quando vêm falar comigo, falam vinte dólares, e eu completo até chegar aos na sua língua, e eu respondo-lhes na mesma. cinquenta. No Natal, levo cestos cheios a É bom podermos ter essa proximidade. Ain- essas casas, porque vejo que é Natal e eles da gostava de aprender francês; não sei se não têm nada. Às vezes levo até o Pai Natal um dia o farei, mas gosto de aprender. Tra- para entregar os presentes. Há quem me balho a partir de casa, e isso sempre me aju- diga "nunca tive nada assim", e eu respondo: "Mas este presente é para ti, o Pai Natal dou a poder procurar saber cada vez mais. deixou-o para ti." E dou-lhe um abraço. Sinto-me agradecida por poder fazer isto. Já o CUIDAR DA MÃE, faço há mais de vinte anos.

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E O INÍCIO DE UMA MISSÃO

Foi a doença da própria mãe, com Alzheimer, que aproximou Fernanda da realidade dos lares de idosos e que despertou nela uma missão que mantém há mais de vinte anos: levar conforto e presentes a quem, no Natal, não tem visitas nem lembranças de ninguém.

UM SUSTO, E UMA PROVA DE AMOR

A família de Fernanda esteve também presente num dos seus momentos de maior fragilidade: uma queda em casa que lhe partiu o pé em dois lugares levou-a a um internamento de oito semanas. Foi um dos A minha mãe teve Alzheimer e chegou a filhos gémeos, de visita ao Canadá, quem a uma fase em que já não conseguia levantá-la socorreu na hora, mas foi toda a família que sozinha para a levar ao médico. Fui ver vá- a apoiou ao longo do tempo de recuperação. 6

Tenho três filhos: o Robert, o Paul e o Michael, que são gémeos. Um deles vive na Holanda e, quando vem cá, às vezes vem sozinho, outras vezes vem com a namorada. Ele estava cá, nesse ano, quando eu caí e parti o pé em dois lugares. Ele tem um ouvido muito bom e ouviu-me cair. O meu marido estava a dormir e nem deu por nada. Eu ia a descer as escadas para fazer o pequeno-almoço tropecei e caí mal. Vi logo o que me tinha acontecido. O meu filho perguntou "Mãe, o que aconteceu?", e eu disse-lhe que tinha partido o pé. Ele chamou a ambulância, foi acordar o pai, e fomos para o hospital.

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Fiquei lá oito semanas. Fui operada dois dias depois de entrar, e depois transferiram-me para outro hospital para recuperar. As enfermeiras diziam sempre que eu era a melhor paciente, porque estava sempre agradecida por tudo. Sou uma pessoa que gosta de ver sempre o lado positivo, tenho muito sentido de humor. Sabe, eu quando acordo e olho para o céu, penso "que azul tão bonito", porque adoro essa cor. E digo sempre que tenho de agradecer a Deus por estar viva e por estar bem. Ao meu marido, que já passou por muita coisa má e é um pouco mais negativo, digo sempre: "Tens o frigorífico cheio, tens o carro na garagem, tens amor, não penses nessas coisas negativas. Olha para o que tens de bom nesta vida"»

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INFÂNCIA NA TERCEIRA: FERNANDA SILVA (AO CENTRO, À DIREITA) ACOMPANHADA PELOS PRIMOS FERNANDO COSTA, LUÍS ALBERTO, GRACE ALMEIDA E JOSÉ LUÍS. FERNANDA SILVA EM JOVEM EM FESTA: FERNANDA SILVA E O MARIDO, JOSÉ. XXX FERNANDA E JOSÉ COM O FILHO MAIS VELHO, RENO (À DIREITA), E OS GÉMEOS MICHAEL E PAUL FERNANDA SILVA. JOSÉ E FERNANDA.


AS TRADIÇÕES AÇORIANAS EM CASA Depois de mais de cinco décadas no Canadá, há coisas que Fernanda nunca deixou de fazer em casa, sobretudo à mesa. As tradições açorianas continuam bem vivas sempre que a família se junta, dos pratos típicos às celebrações que juntam todos à volta da mesa e enchem a casa de alegria.

ZZZZZZFILHOS, NETOS E UMA FAMÍLIA SEM FRONTEIRAS Fernanda chegou ao Canadá ainda sem filhos. O primeiro, Robert, nasceu três anos depois. Criá-los entre duas línguas e duas culturas mais do que uma escolha foi uma necessidade. Afinal, o Canadá é o país deles, mas para Fernando e José foi essencial garantir que uma cultura não abafava a outra ao longo do crescimento dos 3 rapazes. Hoje, Fernanda vê os frutos dessa educação numa família alargada e multicultural da qual tem imenso orgulho. Tem

3 noras – uma filipina, outra indiana e ou- portuguesa, mas todas gostam da comida tra holandesa – que considera como filhas. que eu faço, e eu tento sempre preparar algo que elas apreciem. E os meus netos Em casa, o meu marido falava sempre com são muito meus amigos. Adoro-os.» eles em português, e eu falava em inglês, porque queria que percebessem bem a lín- UMA MENSAGEM PARA SI gua quando fossem para a escola. Foram sempre bons filhos, bons miúdos, e hoje Para encerrar a conversa, pedimos a Ferdou graças a Deus por eles, porque conti- nanda uma mensagem para quem vive, nuam muito meus amigos e estão sempre a atualmente, tempos de incerteza e agitaperguntar se preciso de alguma coisa. O que ção no mundo. A resposta veio carregada vive nos Países Baixos (antiga Holanda) liga da mesma serenidade e gratidão que atrasempre a perguntar como está o pai, como vessam toda a sua história de vida. estou eu... somos muito próximos. Acho que temos sempre de ver o lado poSabe, eu sempre quis ter uma filha: tive o sitivo, porque se formos à procura do mal, Robert, depois tentei outra vez e tive gé- ele está sempre lá, mas porque não olhar meos, o Paul e o Michael. Aí disse "não mais para o lado bom. Eu prefiro! Todos tento mais, que na minha família há mui- os dias agradeço a Deus quando acordo e tos gémeos, e não quero acabar com uma quando me deito, porque é uma coisa que equipa de futebol inteira." Mas hoje tenho temos mesmo de fazer: agradecer. Digo as minhas noras, que são como filhas para sempre "obrigada por tudo o que fizeste mim. A mulher do Robert chama-me mãe, por mim hoje." Pode haver coisas menos é filipina; a do Paulo é indiana; e a namora- boas, posso ter vários problemas, mas vejo da do Michael é da Holanda. Nenhuma é sempre algo positivo em tudo.

A minha mensagem é essa: pensem positivo. Apesar de todas as dificuldades da vida, há sempre algo bom para ver, basta olharmos para o céu. Quando estamos dentro de um avião, vemos que por baixo pode haver nuvens, mas por cima está sempre o céu azul. Em pequena, costumava dizer que queria apanhar um bocadinho desse céu e guardá-lo numa caixinha, para ter sempre algo bonito para ver. Gosto sempre de agradecer ao bom Deus, e talvez seja por isso que tenho tantas amigas verdadeiras. Quando estou doente e elas sabem, mandam-me flores. Costumo pensar: quem é que tem isto? Eu tenho, felizmente, porque são mesmo minhas amigas, e agradeço a Deus por elas. Temos de ter amigos, porque a família, um dia, parte e nós ficamos. Sem amigos, ficamos mais em baixo. Eu tenho amigas por todo o Canadá, e agradeço a Deus por cada uma delas.


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