EDIÇÃO 58 • ANO 5 • MENSAL
WWW.REVISTAMAR.COM
José Manuel
Carneiro Mendes JANEIRO2021
Ficha Técnica Direção
Carmo Monteiro Manuel DaCosta
Edição Gráfica Carlos Monteiro
Marketing
Carmo Monteiro MDC Media Group
Fotografia Carmo Monteiro
Colaboradores
Armando Correa de Siqueira Neto Artur F. Guedes Carlos Cruchinho Helena Rodrigues Isabel Rebelo Madalena Balça Manuela Marujo Maria João Rafael Pedro M. Salvador
Participação Especial Ana Tulha Carlos Fernandes José Manuel Carneiro Mendes Sofia Teixeira
Agradecimentos Jornal de Notícias MDC Media Group Notícias Magazine
Conteúdos 4
Janeiro 2021
Carlos Fernandes
Carlos Cruchinho esteve à conversa com o fotógrafo, que atualmente trabalha na produção e direção de cena do Teatro Viriato, em Viseu.
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Carlos do Carmo
É uma das figuras incontornáveis do fado novo em Portugal e um dos responsáveis pela elevação do Fado a Património Imaterial da Humanidade, finalmente assim classificado pela Unesco em 2011. Tinha 81 anos, quase 60 de carreira e, entre inúmeras distinções, a única alguma vez atribuída a alguém que não é chefe de Estado - a chave da cidade de Lisboa. Deixou-nos a 1 de janeiro .
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José Manuel Carneiro Mendes
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Este mês, estivemos à conversa com o Cônsul-geral de Portugal em Toronto
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Arquitetura, arte e história de mãos dadas
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Manuela Marujo leva-nos numa viagem por dois bairros que nos últimos anos sofreram grandes transformações e melhoramentos. Fique a conhecer "Canary" e "Corktown", em Toronto.
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40 Amália - Figura de Estilo: entre jóias e bugigangas Contacto www.revistamar.com info@revistamar.com www.facebook.com/revistamar
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Este mês, Maria Joao Rafael, na sua crónica habitual de moda e styling, fala-nos sobre os artigos pessoais da diva do fado. Autora de uma verdadeira revolução da canção nacional, seria também pioneira na moda entre as fadistas, introduzindo o negro nas vestes e o vestido comprido; o que mais tarde, o jornalista Fernando Dacosta, denominaria os “paramentos de Amália”.
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A auto-estima como arma de arremesso
Revista Amar é uma marca registada e empresa subsidiária dos grupos Cyber Planet Inc. e MDC Media Group.
Custo estimado por exemplar
$5.49
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Isabel Rebelo, na sua crónica mensal de psicologia, aborda o tema da auto-estima e de como pode influenciar de forma diferente as pessoas.
62 Obesidade:
soluções da Medicina Chinesa Helena Rodrigues fala-nos sobre a abordagem da medicina tradicional chinesa a um dos flagelos da sociedade o século XXI - a obesidade.
página 67 Os artigos publicados na presente edição são da inteira responsabilidade dos seus autores, podendo não refletir as opiniões e posições da Revista Amar naquela matéria. A utilização do novo acordo ortográfico, na matéria da presente edição, ficou à inteira descrição dos seus autores. Os conteúdos publicitários publicados na presente edição são da inteira responsabilidade, com autorização e aprovação prévia dos seus autores.
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CARLOS FERNANDES
A fotografia como arte - II
2ª Temporada C
arlos Fernandes (“born” 1979). Atualmente (2020, com início em 2012), trabalha na produção e direção de cena do Teatro Viriato, depois de ter trabalhado na produção gráfica, bilheteira e apoio à construção cénica e exposições da ACERT (Associação Cultural e Recreativa de Tondela – de 2006 a 2011). Antes disso trabalhou na Galiza para a Crearte e Fundácion Caixa Galiza na elaboração de programas didático-educativos para as exposições de arte da Fundação e outros polos expositivos (entre 2005 e 2006). Carteiro durante duas semanas e empregado de mesa/chefe de sala durante 15 anos. Terminou o curso de Artes Plásticas na ESAD das Caldas da Rainha em 2005 e desde então mantém a sua paixão pela fotografia.
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Revista Amar: Recorda-se como começou a sua paixão pela fotografia? Carlos Fernandes: Recordo-me sim. Foi quando pela primeira vez desfolhei alguns álbuns de fotografias antigos dos meus avós e pais e quando peguei numa máquina fotográfica Canon FT que era dos meus padrinhos. Ou seja, há já muito tempo. RA: O percurso na fotografia teve início como autodidata, ou à medida que o tempo foi passando, obter “aquelas” fotografias exigiu um estudo aprofundado da técnica. CF: O meu percurso pela fotografia iniciou-se aquando dos meus estudos superiores. Em 2000 iniciei uma licenciatura em Artes Plásticas na ESAD das Caldas da Rainha e desenvolvi o meu trabalho quase sempre em torno da fotografia. Tendo adquirido algumas ferramentas e técnicas para desenvolver o meu trabalho com a fotografia, contudo, sinto que fui sempre aprendendo mais e melhor com o ato de fotografar e com a repetição desse ato. Estamos sempre a aprender. RA: O seu olhar sobre a realidade fica diferente através de uma objetiva? E esse olhar mudou com o decorrer do tempo? CF: Posso dizer que sim. Contudo, creio que no tempo em que ainda se usava rolos fotográficos, a atenção, a perceção das coisas, através da máquina fotográfica, era mais intrínseca, e tornava o meu olhar, em relação à realidade, mais aberto e suscetível à mudança. Digo isto porque a expectativa de “revelar” o resultado final do ato fotográfico era mais mágico e intrigante. Mas, posso afirmar na mesma, que com o decorrer do tempo, e com as novas tecnologias na área da fotografia, o meu olhar continua a mudar. RA: Como acontece com o impulso de escrever, pintar, desenhar ou esculpir… Fotografar passa a ser uma necessidade, ou surge como um meio de auto expressão pessoal e social? CF: Posso afirmar que é um misto dos três. Digo isto, porque se passo algum tempo sem fotografar, o “bichinho” começa a morder e surge a necessidade de fotografar. Em relação às outras duas premissas, como a fotografia faz parte do meu dia a dia na área das artes performáticas, acaba por estar inerente a necessidade de ser um meio de expressão pessoal, social e comunicante. RA: Em que medida a fotografia pode ser encarada como transgressão, como arte ou como mensagem subliminar de uma sociedade? CF: É uma boa questão. No meu ver, creio que depende da sensibilidade do fotógrafo e da finalidade do seu trabalho. Teremos que abordar sempre essa finalidade. Por exemplo, um fotógrafo jornalístico, será que por vezes não transgride os limites para atingir um fim, só porque o seu objetivo é atingir a imagem perfeita para comunicar? Ou será que sem ele arriscar essa transgressão, nós leitores, público, gente, não teremos acesso a uma imagem que ilustre de facto o que ele estava a querer transmitir e que o resultado dessa imagem no possa fazer indagar, questionar ou criticar o motivo da imagem, do resultado final que o fotógrafo nos oferece? Quem diz fotojornalismo, diz nas artes ou nas mensagens subliminares a que referes. Creio que passa sempre pelo respeito que o fotógrafo demonstre pelo outro, pelo seu semelhante. Às vezes sentimos a necessidade de “transgredir” para atingir um fim. É preciso saber a melhor forma de o fazer sem prejuízo do outro. Amar I 7
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RA: É difícil captar/obter uma boa fotografia? CF: Hoje em dia, creio que a tecnologia ajuda. Nem que seja pela possibilidade de se poder “disparar” a máquina um quanto número de vezes, de uma só vez e ter acesso visual ao resultado logo no momento para tomar uma decisão em relação à qualidade da fotografia que se tirou. Mas… mesmo assim, com as ajudas todas, hoje em dia, ainda não é fácil tirar uma boa fotografia, ou, aquela fotografia. RA: Uma boa fotografia interpela? CF: Se não o faz é porque não é boa. RA: A fotografia tem género? Podemos falar de igualdade de género quando fotografamos a realidade quotidiana. Ou há algo transformador no olhar do fotógrafo quando atrás da objetiva está uma mulher ou um homem? CF: Não creio que tenha género. Conheço trabalhos de fotógrafos dos dois géneros e todos com as suas valias e qualidade. Agora há fotógrafos que se “aproveitam” do seu género para desenvolver um trabalho específico. Como por exemplo o trabalho da Cindy Sherman. RA: A fotografia faz sonhar… É um instante irrepetível? CF: Há fotografias e trabalhos fotográficos que fazem sonhar e instantes irrepetíveis! Como, por exemplo, os trabalhos de Henri Cartier Bresson, Sebastião Salgado, Annie” Leibovitz, Erwin Wurm, entre outros. RA: Ao percorrer as ruas para fotografar a vida quotidiana em espaços públicos, na chamada fotografia de rua, em que medida essa fotografia é uma invasão da privacidade das pessoas anónimas. CF: Voltamos à questão do respeito por parte do fotógrafo e da sua sensibilidade quando fotografa na rua. Sou suspeito, mas na minha opinião não é uma invasão da privacidade da pessoa. Hoje em dia, as redes sociais são mais invasivas do que um fotógrafo de rua. RA: A fotografia é uma espécie de solidão… Ou pelo contrário a fotografia pretende evidenciar o desconhecido aos olhos dos cidadãos comuns. CF: Nunca uma espécie de solidão. Temos sempre o “objeto”, pessoa, momento e espaço envolvente, do que estamos a fotografar. Há uma cumplicidade inerente, independentemente da situação que se esteja a fotografar. Coloca-se assim a questão, que se a fotografia for uma boa fotografia, ou um conjunto de boas fotografias, elas terão sempre a premissa de mostrar algo diferente ao cidadão comum e fazê-lo interpelar.
Carlos Cruchinho
Licenciado no ensino da História e Ciências Sociais
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Carlos do Carmo,
morreu a andorinha e a voz de Lisboa A
manheceu triste o primeiro dia do ano em Portugal, com a morte de Carlos do Carmo, a andorinha e a voz de Lisboa, o fadista do charme e do Bairro da Bica que se despediu dos palcos na data decidida, em novembro de 2019, com três concertos, salas lotadas em Braga, no Porto e em Lisboa, o público de pé, ovação demorada, e ele de lágrimas no rosto antes sequer de começar a cantar o fado que renovou e espraiou pelo mundo. “A vida correu-me bem”, repetiu nas últimas entrevistas. O filho da fadista Lucília do Carmo e do livreiro Alfredo de Almeida foi internado, com um aneurisma na aorta, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na última noite de 2020, morrendo na primeira manhã de 2021. Tinha 81 anos, quase 60 de carreira e, entre inúmeras distinções, a única alguma vez atribuída a alguém que não é chefe de Estado - a chave da cidade de Lisboa. Do seu extenso legado, que inclui 300 canções por muitos de muitas gerações sabidas de cor - “Os Putos”, “Lisboa, Menina e Moça”, “Estrela da tarde”, “Um homem na cidade” - , faz parte um álbum de estúdio que também decidiu que seria o derradeiro, mas não póstumo como acabará por ser. “E Ainda” traz dentro poetas como Sophia e Herberto, Pomar e Palma, e está pronto a ser editado. “Carlos do Carmo deu vida às palavras como ninguém. Muitas vezes visionário, nunca abdicou de levar o Fado para outras dimensões, de lhe introduzir novos instrumentos, de evangelizar novos poetas”, diz o comunicado da editora Universal.
Créditos © Carlos do Carmo/Facebook
Créditos © Carlos do Carmo/ Facebook 14 I Amar
Da casa “O Faia” ao mundo
Carlos do Carmo, cavalheiro e “maluco”, amante da palavra, da liberdade e de Judite, a mulher de uma vida inteira, nasceu em Lisboa, em 21 de dezembro de 1939, iniciando a carreira aos 25 anos, até aos 34 em censura. Ao mesmo tempo geria “O Faia”, no Bairro Alto, casa de fados da família em que a mãe era diva. O pai, que fizera questão de que o filho estudasse na Suíça, morrera-lhe quatro anos antes. “2021 amanheceu sem charme, triste e mais pobre”, lê-se na página de Facebook d”O Faia, amostra do desalento que inesperadamente ensombrou todas as casas idênticas da capital. “Esta era a notícia que não queríamos no começo do novo ano.” Primeiro português a ser distinguido com o Grammy Latino de Carreira, subiu aos palcos do Olympia de Paris, da Ópera de Frankfurt, do Canecão do Rio de Janeiro, do Royal Albert Hall de Londres, e aos palcos de centenas de salas espalhadas por todas cidades do mundo que acolhem as comunidades portuguesas. E cantou com dezenas de fadistas, homens e mulheres, a maioria tratava-o por mestre, mesmo quando na crítica não era manso. “Miúdas a cantar com bateria não é fado, é cabaret”, chegou a dizer. Como chegou a mandar calar as palmas do público. O fado exigia-lhe silêncio e respeito. Era também essa dignificação do fado, pela qual lutou incansavelmente depois do 25 de abril, que os outros procuravam nele. “A parede negra da ausência das pessoas que nos são próximas é coisa muito triste”, escreveu Sérgio Godinho, que para ele escreveu “Velho Cantor”. Chocado, Camané manteve o tom. “É difícil de lidar, vai ser sempre uma das pessoas mais importantes do fado.”
pulsionador da criação do Museu do Fado, em Lisboa, e embaixador da candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, finalmente assim classificado pela Unesco em 2011. É “o representante máximo do chamado fado novo”, lê-se na Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX, acentuando também a diferença literária. Com ele, “a tónica passa da saudade para a liberdade, e da tristeza passiva para a enérgica vontade ativa”. Quando quis descer o pano, escolheu fazê-lo como andorinha. “Vivo a vida como dantes a cantar/ Não tenho menos nem mais do que já tinha”. Despediu-se dos palcos no passado dia 9 de novembro de 2019, com um concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Dias antes, tinha estado no Coliseu Porto Ageas, a cujo público se dirigiu emocionado, já com uma ovação no bolso e com a voz embargada: “Não é meu costume, mas os velhos controlam-se com mais dificuldade.” Na despedida dos concertos, recebeu a Medalha de Mérito Cultural, do Ministério da Cultura, pelo seu “inestimável contributo” para a música portuguesa. “Fiz este meu caminho que não foi das pedras, mas que considero um caminho sempre saudável e que me levou sempre a ter uma perspetiva de ser solidário com os meus companheiros (...). Não me recordo de ter feito uma sacanice a um colega de profissão. E, para esta nova geração, estou de braços abertos”, disse, na ocasião, em entrevista à Lusa.
Mas Carlos do Carmo, para quem Ary dos Santos escreveu tantos poemas, não se confinou a cantar. Foi um dos fundadores da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, o principal im-
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Língua Portuguesa
Ana Teresa Pereira Ana Teresa Pereira nasceu em 1958 no Funchal, onde vive. Ainda estudante e guia intérprete, viu publicado em 1989 o seu primeiro livro, Matar a Imagem, com o qual ganhou o Prémio Caminho Policial. Em 1990 na coleção Campo da Palavra publicou o romance As Personagens. Estreou-se na literatura infantil com A Casa da Areia e A Casa dos Penhascos, dando assim início a uma nova coleção para jovens. Desde o seu primeiro livro tem vindo a publicar regularmente. A singularidade da sua temática e a concisão da sua escrita dão a Ana Teresa Pereira um lugar próprio na literatura portuguesa atual. 16 I Amar
Fontes: Wikipedia, FNAC, Wook Fotografia: DR
Tem colaboração nos jornais Público e Diário de Notícias (Funchal) e nas revistas Islenha e Margem 2. Ao longo da sua carreira recebeu os seguintes prémios: Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB (2011), o Prémio Literário Edmundo Bettencourt (2006; 2010), o Prémio Máxima de Literatura (2007), o Prémio PEN Clube Português de Narrativa (2005); o Prémio Caminho de Literatura Policial (1989); o Prémio Revelação de Ficção APE/DGLB (1989) e o Prémio Oceanos de Literatura Portuguesa (2017).
Obra Literária
OS PERSEGUIDORES
Sinopse «Para mim, era só mais um homem a destacar-se do fundo prateado. Aceitei o bilhete azul e rasguei-o em dois. Não olhei para o rosto dele; nunca olho para os rostos deles. Fato cinzento, camisa cinzenta. Camisa limpa. Foi o meu corpo que o sentiu primeiro. A mão na cintura, a mão que segurava a minha, eram firmes mas não insistentes. Sentia o cheiro dele, uma água-de-colónia fresca e cigarros. Alguns meses an-
tes, gastara o ordenado de uma semana na compra de um pequeno frasco de perfume: jasmim-branco. Não era o meu género; gosto do aroma de pétalas, de flores de cerejeira. Mas queria um perfume intenso, para me proteger do cheiro deles. Não deu resultado. Por algum motivo, o meu corpo aceitava as mãos dele, o hálito dele, e os meus mamilos estavam duros. Talvez nem se notasse através do vestido de noite preto, mas detestei a ideia.»
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José Manuel
Carneiro Mendes A Espero que, em 2021, quando isto acabar, que nos saibamos reunir, unir esforços, analisar o que é necessário fazer e como poderemos “dar a volta por cima”. Todos juntos, sem fraturas ou frações. Contem com este Cônsul-Geral para isso!
Nasceu em Lisboa a 18 de maio de 1961 e da capital do ex-Império traz consigo a vontade de conhecer o mundo, de desbravar novas culturas e espalhar a alma portuguesa. José Manuel Carneiro Mendes foi advogado e chegou a experimentar o mundo da comunicação, mas foi a vida de diplomata que o levou a países tão distantes e distintos como - Bósnia e Herzegovina, Venezuela, Áustria, Ucrânia, Paquistão, Alemanha e, embora por períodos mais curtos, Indonésia e Timor-Leste. Na Alemanha, mais concretamente em Düsseldorf, em 2018, recebeu o prémio de “Homem do Ano”, pelo seu trabalho de representação de Portugal na área e arredores. Hoje é Cônsul-Geral de Portugal em Ontário, Manitoba e Território Nunavut. Com o Sporting no coração, o Liceu Camões e a Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa na sua bagagem de formação, José Manuel Carneiro Mendes corre o mundo assumindo a sua vida um tanto nómada que tenta articular, o mais possível, com a vida familiar. A 29 de agosto de 2020, chegou ao Canadá e assumiu a missão que tem agora em mãos, não temendo enfrentar os desafios de manter unida a comunidade portuguesa e promover a cultura em tempos de isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19. O atual Cônsul-Geral de Portugal considera-se um servidor da comunidade luso-canadiana e um representante da mesma, ao mesmo tempo que representa o Estado Português. José Manuel Carneiro Mendes encontra na célebre frase de John F. Kennedy - “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas sim aquilo que tu podes fazer pelo teu país” - um dos pensamentos basilares de toda a sua ação como diplomata e como português, mas é a Fernando Pessoa que vai buscar a inspiração para nunca esquecer a importância da divulgação da língua portuguesa no mundo – “a minha Pátria é a língua portuguesa”. Amar I 21
Revista Amar: Nasceu em Lisboa e lá viveu a sua infância e juventude. Apesar de, entretanto, ter corrido mundo, o que permanece de Lisboa na sua personalidade e maneira de ser? José Manuel Carneiro Mendes: A pergunta é interessante, nunca tinha pensado nisso… Bem, talvez um certo cosmopolitismo e curiosidade pelo que é novo, por novos mundos, pela vivência multicultural, a vontade de pôr os “outros” a conviver entre si… Sabe, Lisboa já foi uma capital de um Império, uma cidade aberta ao mundo, habituada a receber e, talvez também por obrigação, a “gostar” de tudo o que é novo. Imagine como seria a cidade de Lisboa entre os secs. XV e XVI, por exemplo, a multiplicidade de costumes, cheiros e cores, ainda não vistos nem sentidos em nenhuma outra cidade europeia… era, seguramente, então a capital mais cosmopolita do mundo, a mais exótica, nela convivendo uma multiplicidade de culturas e de raças, que Portugal estava, então, a pôr em contacto umas com as outras, por termos sido a primeira nação europeia a ousar, de uma forma sistemática, sair deste espaço geográfico, onde nos encontrávamos “encurralados” (não esqueçamos que o nosso caminho para a Europa estava barrado pela Espanha) e, com um projeto “globalizante”, pela primeira vez à escala planetária, sairmos à descoberta da novidade, à procura do inédito, lançando pontes entre os povos e trazendo, para o espaço europeu, a Ásia, a África, a América, a Oceania... Este gosto pelo mundo inteiro como “espaço de conforto”, a vontade de conhecer outros lugares, outros povos, outras culturas, a valorização do que é português, a abertura ao convívio multicultural, tudo isto são elementos que fazem parte do património genético de Lisboa e que eu creio que, talvez por osmose, igualmente farão parte do meu... daí eu me afirmar como “alfacinha convicto e militante” (sorrisos)… RA: Frequentou uma das mais conhecidas escolas de Lisboa, por onde passaram grandes figuras da cultura portuguesa – o Liceu Camões. Que memórias tem desse tempo? JMCM: As memórias próprias de um adolescente, em primeiro lugar, e julgo que todos sabem a que é que me estou a referir. Em segundo lugar, as memórias da transição para uma fase da vida mais responsável e, também, mais consciente, principalmente do ponto de vista social. Aliás, entrei no Liceu em 1973, antes do 25 de Abril, o que levou a ter vivido todo o PREC e os primeiros passos e dores da construção e de crescimento da nossa democracia no Liceu Camões, de forma muito intensa. E tem razão, no que respeita aos grandes vultos da cultura portuguesa que passaram por lá, como professores… lembro-me bem de Virgílio Ferreira, o Mário Dionísio também passou por lá... RA: Quem visita o seu perfil de Facebook fica a perceber que é sportinguista. Os adeptos leoninos costumam afirmar que se trata do único clube verdadeiramente nacional – não de “Lisboa e Benfica”, nem do “Porto” ou “Braga”… é Sporting Clube de Portugal. Para um diplomata esse fator é determinante ou a paixão clubística é mesmo irracional? JMCM: (Risos) Tem razão, a paixão futebolística tem muito de irracional e, na sua pergunta, colocou já um elemento próprio dessa irracionalidade: os sportinguistas, talvez para “picarem” os adeptos dos outros clubes, podem dizer que o Sporting, por ter Portugal na denominação, será o único clube verdadeiramente nacional; mas, se na realidade fosse assim, só por causa do nome, também os adeptos do Atlético o poderiam fazer (recorde-se que o nome deste clube é Atlético Clube de Portugal…)... ou seja, tão nacionais são uns como os outros – aliás, que eu saiba, os estatutos dos clubes não os impedem de ter, como associados, os nascidos noutras áreas geográficas que não as do local da sua sede ou fundação… (sorriso) RA: Para além do futebol, que imagino goste de ver principalmente quando joga o seu Sporting, o que mais ocupa os seus tempos livres? JMCM: Ler, navegar pela Internet, ver cinema, ver televisão, viajar, acompanhar a vida política, sei lá… já gostei mais de escrever, mas ainda gosto, também… o mesmo se passa com a filatelia, tudo atividades que espero retomar de forma mais intensa e sistemática no futuro… não tenho medo dele, aliás, como diria o poeta, em certa medida, tenho até “saudades do futuro”... 22 I Amar
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RA: Há escolhas cruciais para o rumo das nossas vidas e a decisão que se toma quando se opta por um determinado curso superior é, normalmente, determinante para o futuro profissional. Quando escolheu cursar Direito na Universidade de Lisboa já desejava que o seu caminho passasse pela vida diplomática? JMCM: Não, de todo. Nunca pensei na carreira diplomática, só mesmo quando concorri para aceder a esta. O que eu queria era ser advogado – e ainda fui, exerci advocacia durante sete anos. RA: Entre o final do curso em 1984 e a entrada na carreira de diplomata, em 1992, por onde passou a sua vida profissional? JMCM: Fui jurista, advogado, inscrito na Ordem e tudo. Também “dei uma perninha”, como costuma dizer-se, na área do jornalismo, nomeadamente no “Mundo Desportivo” e numa revista que pouco tempo teve de existência, de seu nome “Europa”… RA: Todos sabemos que a conciliação da vida de um diplomata, que é um pouco (ou muito…) nómada, com uma vida familiar estável, nem sempre é fácil. No seu caso, é casado e tem um filho com 22 anos. Como conseguiu articular estes dois lados tão importantes da sua vida?
Créditos © José Manuel Carneiro Mendes
JMCM: Ao colocar a pergunta da forma como o fez já está, de facto, a dar a respetiva resposta. Nem sempre foi fácil, principalmente quando tive a missão de, como Encarregado de Negócios, reabrir a Embaixada de Portugal em Islamabad, no Paquistão, por força da necessidade de reativar a sua Secção Consular. Foi um enorme desafio, muito gratificante sob vários aspetos, mas, pela primeira vez, a família esteve separada pois, fundamentalmente por razões de segurança, não podia ter comigo um filho adolescente e a minha mulher… e ainda estive por lá entre 2013 e 2015… mas todos os dias, mercê das novas tecnologias, falava com a minha mulher e com o meu filho, por Skype. Tentei ser, sempre, um pai e um marido presente, apesar de tudo, mas reconheço que não foi fácil. Sabe, nestas coisas da vida diplomática os cônjuges já sabem ao que vão, o que é que isso implica. Já no que respeita aos filhos, eles não escolheram nada, não foram “tidos nem achados” nas opções dos pais. E é, muitas vezes, extremamente difícil dizer a um filho, principalmente quando pré-adolescente (ou já quase adulto), faz as tuas malas e vamos mudar de país, pois o pai foi colocado noutro posto. É que lhes estamos a pedir que abandonem, radicalmente, os seus amigos, as suas namoradas, toda a sua atual vida, enfim. É duro e nem sempre as coisas correm bem… RA: A sua primeira missão diplomática levou-o para Sarajevo, numa altura ainda muito difícil para a região dos Balcãs. Digamos que não foi um início muito meigo… que memórias tem desse tempo e do trabalho que lá desenvolveu? JMCM: Muito boas! Por um lado, no entanto, foi muito duro, claro, porque, quando lá cheguei, em meados de 1996, a guerra tinha acabado, de facto, há poucos meses ainda, sem os Acordos de Dayton, posteriormente confirmados em Paris, terem sequer feito um ano. A cidade encontrava-se muito danificada, mostrando ainda alguns dos seus bairros completamente arrasados pelos bombardeamentos durante o cerco a Sarajevo (como o de Dobrinja, junto ao aeroporto)… Éramos protegidos pelo GOE (Grupo de Operações Especiais da PSP) e cheguei a usar colete à prova de balas. A cidade racionava ainda o abastecimento de gás e de eletricidade, com cortes frequentes e prolongados. Existiam apenas dois ou três restaurantes e os seus menus eram extremamente limitados, quase reduzidos às pizzas. Mas a camaradagem dentro da Missão Diplomática era ótima, o convívio com os militares portugueses da missão de paz era excelente e muito agradável e o trabalho diplomático foi enormemente enriquecedor (a comunidade diplomática era, também, muito unida...). Representou, para mim, de facto, um enorme desafio, mas também ficou em mim, reconheço-o, o “bichinho” dos Balcãs - em tempos de pandemia seria de mau gosto dizer agora “vírus” (sorrisos). RA: De então para cá foram muitos os destinos da sua vida profissional – olhando para trás é possível escolher o que lhe ficou mais na memória e no coração? Se sim, porquê? JMCM: Costuma-se dizer que não há amor como o primeiro… mas não, não consigo escolher nenhum, entre Bósnia e Herzegovina, Venezuela, Áustria, Ucrânia, Paquistão, Alemanha e, embora por períodos mais curtos, Indonésia e Timor-Leste… Amar I 25
RA: Chegou a Toronto, como Cônsul-Geral de Portugal em plena pandemia. Assume funções numa cidade que tem uma importante comunidade portuguesa e que por razões várias nem sempre teve um bom relacionamento com os serviços consulares. Nestes primeiros meses quais têm sido as suas prioridades? JMCM: Como diria o Senhor de La Palice, fazer por perceber, primeiro, o meio em que estou inserido, tentar compreender tudo o que está à minha volta, nomeadamente o que é que levou a colocar-me esta pergunta da forma como o fez… mas, concordo consigo, com esta pandemia não está a ser fácil. Por isso, para já, a minha principal prioridade é assegurar que os serviços consulares não colapsem e que os mesmos estejam garantidos, obviamente nos termos a que esta pandemia nos obriga, seguindo as instruções, recomendações e diretivas das autoridades políticas e sanitárias deste país e, também, naturalmente, do governo português. Seguidamente, tentar melhorar o que houver a melhorar, no âmbito do atendimento consular (salvaguardando, desde já, que encontrei uma equipa consular de excelência, neste aspeto considero-me muito afortunado…) e, logo que possível, aplicar e desenvolver o que tem sido, noutros postos por onde tenho passado, a minha habitual política de proximidade com a Comunidade Portuguesa e Lusófona, apoiando e estimulando as suas iniciativas culturais e associativas, dando-lhes visibilidade e apoiando a afirmação cívica, cultural e política de todos os portugueses na minha área de jurisdição consular no Canadá. RA: E quais são os grandes objetivos que pretende atingir durante o tempo que estiver a exercer estas funções no Canadá? JMCM: Creio que já terei respondido na pergunta anterior. Contudo, posso ainda reforçar a resposta: o meu grande objetivo, quando deixar de exercer aqui funções, é a Comunidade e a Lusofonia em geral poderem fazer um balanço largamente positivo da minha passagem por aqui enquanto Cônsul Geral. E, também, contribuir para que todos se apercebam da força da Língua Portuguesa e da importância que o seu ensino representa. Somos a quarta ou quinta língua mais falada no mundo (depende dos critérios utilizados), a mais falada no hemisfério sul, centenas de milhões de falantes!!! Neste enquadramento, cada vez mais aquela afirmação de Fernando Pessoa, “A minha Pátria é a Língua Portuguesa!”, adquire uma dimensão mais importante, projetando, em todos nós, um conceito radicalmente provocador: assumamos a condição de compatriotas na língua com todos os que falem português!… E ajamos em consonância!...
RA: A comunidade portuguesa na GTA, que ao longo dos anos tem sido o verdadeiro motor de promoção e consolidação da cultura portuguesa nesta região, está a viver tempos particularmente difíceis. O que pode o Sr. Cônsul fazer para ajudar os luso-canadianos aqui residentes a continuar o trabalho das Associações e Clubes da comunidade? JMCM: Enquanto os efeitos desta pandemia estiverem assim, sejamos realistas, o que eu posso fazer é tentar manter a “chama” viva, a par dos apoios que o Ministério dos Negócios Estrangeiros continua a dar, no âmbito das iniciativas culturais promovidas pelo Movimento Associativo e pelas Direções Escolares, nomeadamente através da Direção Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas e do Instituto Camões. Esta pandemia não durará para sempre e, para já, importa apelar a todas as nossas forças, a toda a nossa capacidade de resiliência, a toda a nossa esperança, para que, quando isto acabar, possamos retomar as celebrações da nossa portugalidade. Pelo meu lado, cá estarei para apoiar, promover e dar visibilidade a todas essas iniciativas, reconhecendo, simultaneamente, o trabalho e o empenho da Comunidade Portuguesa e Lusófona, bem como dos seus líderes ou representantes. E, principalmente nos tempos que correm, tendo em mente aquela afirmação do Presidente John Kennedy que eu gosto de recordar: “Não perguntes tanto o que é que o teu país pode fazer por ti, mas sim o que é que podes fazer pelo teu país”... RA: Estamos no início de um novo ano. A esperança parece que se renova com a chegada do dia 1 de janeiro. O que espera que 2021 represente para a humanidade, para a comunidade portuguesa residente no Ontário e para si, pessoalmente? JMCM: No fundo, a resposta à sua pergunta é muito simples: tempos melhores, para todos e cada um, eu inclusive, pois estes estão a ser terríveis para todos, sem exceção. E isso passa por tanta coisa! Claro que, numa perspetiva do que poderá ser melhor para a humanidade e para cada um de nós, em primeiro lugar, que esta pandemia acabe! E, depois, então, faremos o balanço dos seus efeitos e agiremos em conformidade. Todos nós, em conjunto, fundamental e essencialmente sempre com base numa perspetiva comunitária. Espero que, em 2021, quando isto acabar, que nos saibamos reunir, unir esforços, analisar o que é necessário fazer e como poderemos “dar a volta por cima”. Todos juntos, sem fraturas ou frações. Contem com este Cônsul-Geral para isso! Pelo meu lado, conto com a vossa ajuda, com a vossa entre-ajuda e com a vossa união. Todos juntos, haveremos de vencer isto!
Madalena Balça 26 I Amar
Créditos © José Manuel Carneiro Mendes/Facebook
Créditos © José Manuel Carneiro Mendes
Créditos © José Manuel Carneiro Mendes/Facebook Amar I 27
Arquitetura, arte e história de mãos dadas Q
uando em 2015, a cidade de Toronto foi anfitriã dos XVII Jogos Pan-Americanos, uma zona pobre, na parte leste de Toronto, sofreu grandes transformações e melhoramentos. No princípio do século XIX tinha sido habitada, maioritariamente, por imigrantes irlandeses que trabalhavam em fábricas de tijolos e nas destilarias de uísque implantadas naquela área, de cariz essencialmente industrial. Nos últimos cinco anos, dois bairros floresceram ali: um, é conhecido como “Canary”, (um restaurante muito popular “The canary” com uma imagem desse pássaro no prédio mais antigo inspirou o nome) e o outro denominado “Corktown”, nome originário dum distrito na Irlanda, local de nascimento de muitos imigrantes desse país na altura da Grande Fome da Batata.
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Corktown Common Créditos © Manuela Marujo Amar I 29
Little Trinity Church Créditos © Manuela Marujo
Dada a localização privilegiada, muito próximo da Baixa da cidade – fica ligado ao turístico Distillery District -, os condomínios em prédios de arquitetura moderna de vanguarda têm atraído casais jovens, empresários e artistas sendo esta parte da cidade um exemplo de urbanização de bom gosto. Poucos edifícios restam do século XIX – a igreja Little Trinity Church de 1843 (no 143 da King Street East) e o prédio da escola pública mais antiga da cidade de 1849, graças ao visionário Enoch Turner, hoje transformada em museu e património histórico, sita no número 106 da Trinity Street.
Enoch Turner Schoolhouse Créditos © Manuela Marujo 30 I Amar
Caminhar ao longo da Front Street leva-nos à “Diamond Jubilee Promenade”, uma larga e extensa alameda, onde no verão de 2015 foram plantadas 41 árvores simbólicas, dedicadas a cada país ou território participante nos Jogos. Nesse ano, mais de 10 000 atletas, treinadores e outros técnicos ocuparam os apartamentos, e ainda 20 000 voluntários circularam na área que abraçou o maior evento desportivo internacional na história do Canadá. Hoje, restaurantes, boutiques, estúdios de artistas, spas e outros serviços dão à alameda cor e muita vivacidade.
Diamond Jubilee Promenade Créditos © Manuela Marujo Amar I 31
The Water Guardians Créditos © Manuela Marujo 32 I Amar
Peças uscultóricas criadas por Hadley e Maxwell (um lado) Créditos © Manuela Marujo
Ao caminhar naquela área, o que mais me agradou foi o destaque dado a instalações de arte, ao alcance de todos, nessa “Promenade”. Gostei em particular de duas: “The Water Guardians” e “Garden of Future Follies”. Na primeira, os artistas Jennifer Marman e David Borins criaram um arco, formado por três figuras que simbolizam a força da água, sob o qual se pode circular e que à noite surgem com olhos luminosos para nos guiar. “The Water Guardians” ajuda a valorizar e a lembrar os benefícios da proximidade das águas do rio (Don) e do lago (Ontário), ali ao lado. A segunda impressiona pela sua localização sobre o cimento da calçada e pelas inúmeras leituras que evoca. As peças escultóricas fazem lembrar outras de jardins franceses e ingleses, onde surgem pagodes, pirâmides, máscaras, figuras humanas e de seres fantasmagóricos. Criada pelos artistas Hadley e Maxwell, esta instalação presta homenagem ao passado, à história universal. Os artistas quiseram que qualquer transeunte tivesse acesso a peças que, normalmente, só se veem nos museus.
Os arquitetos responsáveis pela urbanização de “Canary” e “Corktown” não se esqueceram de os integrar na natureza. Um parque bem delineado, conhecido como “Corktown Common”, permite circular por meio de árvores, arbustos e espécies endémicas. Há pequenas lagoas com vida animal, parque infantil, complexo desportivo, mesas de piqueniques e trilhas com ligações a outras zonas pedonais junto do Rio Don e do Lago Ontário. É neste parque que se encontra uma placa histórica que explica a origem do nome, de certo modo pejorativo, dado a Toronto: “Hogtown” (cidade dos porcos). A conhecida marca “Maple Leaf Meats” tem origem numa grande empresa de carne suína que existia naquela zona “William Davies Company” (1874-1927) e que na época era a maior produtora de carne de porco de todo o Império Britânico. A zona leste de Toronto tem-se desenvolvido de modo muito mais lento do que a zona ocidental da cidade. As transformações, no entanto, estão à vista de todos. Para se conhecer bem a zona história, não basta entrar no St. Lawrence Market - e deliciar-se com a tradicional sandes de “pealmeal bacon” - onde o próprio William Davies começou a vender essa carne, nos primeiros anos, antes de se tornar milionário. Na mesma rua, uma caminhada de 15 minutos, surpreende pela simbiose entre história, arquitetura e arte na cidade.
Peças uscultóricas criadas por Hadley e Maxwell (lado oposto) Créditos © Manuela Marujo
Manuela Marujo
Professora Emérita da Universidade de Toronto
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VĂŁo nascer as primeiras
cidades do futuro 34 I Amar
CrĂŠditos: Direitos Reservados Amar I 35
A
Arábia Saudita, o maior exportador mundial de petróleo bruto, anunciou a criação de uma cidade ecológica com zero carros. O projeto futurista e turístico ganhará forma no noroeste da Arábia Saudita e foi batizado como THE LINE.
“Como presidente da direção da NEOM, apresento-vos THE LINE, uma cidade que pode acomodar um milhão de habitantes, tem 170 quilómetros de comprimento e preservará 95% das áreas naturais”, anunciou o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman num comunicado transmitido na televisão. “Não haverá carros, estradas e terá emissões zero de carbono”, referiu o líder do país, que é a maior economia do mundo árabe mas regularmente classificada entre os estados mais poluidores do mundo. A cidade pensada para peões terá serviços, tais como escolas e centros de saúde, bem como espaços verdes e transportes públicos de alta velocidade, que não fazem mais de 20 minutos de viagem. “Devemos transformar as cidades em cidades do futuro”, disse Mohammed bin Salman, referindo-se a uma “revolução civilizacional... O novo centro urbano será também baseado em tecnologias de inteligência artificial (IA) e “equipamento de baixo impacto de carbono, alimentado a 100% por energia renovável”. A construção da THE LINE terá início no primeiro trimestre deste ano e será financiada pelo Fundo Saudita de Investimento Público (PIF), o principal instrumento da política de diversificação económica do país. O projeto irá criar 380 mil empregos e a sua contribuição para o PIB está estimada em 180 mil milhões de riyals (mais de 39 mil milhões de euros) até 2030.
Créditos: Direitos Reservados
Vai nascer no Japão a primeira cidade-laboratório No espaço de uma antiga fábrica na cidade japonesa de Susono, junto ao monte Fuji, vai começar a ser construído o ‘modelo perfeito’ da cidade do futuro, a que será dado o nome de Woven City (cidade entrelaçada ou interligada). Tudo estará conectado, só haverá carros autónomos, mobilidade partilhada, materiais de construção sustentáveis e um ecossistema totalmente livre de carbono e poluição. O plano é da Toyota, que quer pôr 2 mil pessoas a viver nesta cidade e que vai lançar a primeira pedra no início de 2021, segundo a empresa anunciou durante a semana da CES 2020, a maior feira de tecnologia do mundo, realizada em Las Vegas. O plano para esta cidade prevê que todos os edifícios estejam ligados a uma rede de distribuição subterrânea de entrega de compras em casa, operada por robôs autónomos, que irão distribuir os produtos necessários. Mas a ideia é ir mais longe: serão os sensores instalados nas habitações que irão detetar o que está em falta. Neste momento, até já há muitos eletrodomésticos inteligentes no mercado que disponibilizam este tipo de assistência automática e que poderão no futuro estender-se a outro tipo de sensores que monitorizem a saúde dos proprietários, uma funcionalidade útil em sociedades tão envelhecidas como a japonesa.
Artur F. Guedes 36 I Amar
Joe & Andrew Amorim Toronto 590 Keele Street (Keele & St. Clair) 416.760.7893 ÂŽRegistered Trademark of Recipe Unlimited Corporation
Vaughan 3737 Rutherford Road (Rutherford & Weston) 905.264.4017
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Estreia O filme estreou em Portugal, nos hospitais pediátricos, no dia 23 de dezembro e no Canadá, a 25 de novembro.
2
Curiosidades A Pixar é conhecida por dar vida a carros, monstros, brinquedos e até sentimentos. Mas como representar algo tão abstrato quanto uma alma? Este foi o primeiro desafio com o qual a equipa criativa se deparou ao fazer Soul. A alma não poderia ser como um fantasma, mas ao mesmo tempo não devia ser idêntica a uma pessoa de carne e osso. A equipe de animação experimentou com formas, cores e linhas para tentar criar algo etéreo. Durante o processo de pesquisa para o filme, um membro da equipe se deparou com o aerogel. O material sintético tem densidade próxima à do ar, e é considerado o sólido mais leve do mundo. Não à toa, sua composição chega a ser 99,8% de ar. Até as cores não parecem ser algo desse mundo. Conceção dos personagens Após decidir qual seria a aparência das almas, os animadores fizeram testes para ver como o aerogel apareceria na tela. O único impasse da substância etérea é que seria difícil distinguir a forma dos dedos e mãos quando estivessem na frente do corpo. Por isso, os animadores optaram por desenhar linhas para delimitar os membros.
Sala de Cinema “Soul” conta a história de Joe Gardner, um professor de música apaixonado pelo jazz. Alimentando o sonho de ser músico profissional, Joe aceita a hipótese de abrir um espectáculo num prestigiado clube. Depois da atuação sofre um acidente que separa a sua alma do corpo e vê-se transportado para um centro onde as almas se desenvolvem e ganham paixões antes de serem transportadas para um recém-nascido. Joe tem de pedir ajuda e acaba por obrigar a Alma 22 a auxiliá-no no regresso à Terra. Ficha Técnica Filme com realização de Pete Docker, produção de Dana Murray, argumento de Pete Docter, Kemp Powers e Mike Jones, que contou com a participação vocal de Jamie Foxx, Tina Fey, Ahmir-Khalib Thompson, Phylicia Rashād, Daveed Diggs, John Ratzenberger, Richard Ayoade, Graham Norton, Rachel House, Alice Braga, Angela Bassett, na sua versão original e de Jorge Mourato, Ana Cloe, José Nobre, Pedro Penas, Mónica Garcez, Filomena Cautela, entre outros, na versão dobrada em português. Duração: 102 minutos Género: Aventura, Comédia, Animação e Fantasia Origem: EUA
Fontes: IMDB e FilmSpot - Imagens: Direitos Reservados
Pedro M. Salvador
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Styling
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40 I Amar
Amália
Figura de Estilo: entre jóias e bugigangas Q
uando me resolvi a escrever sobre o centenário de Amália Rodrigues, estava longe de imaginar que viria a escrever sobre os artigos pessoais de Amália. Autora de uma verdadeira revolução da canção nacional, seria também pioneira na moda entre as fadistas, introduzindo o negro nas vestes e o vestido comprido; o que mais tarde, o jornalista Fernando Dacosta, denominaria os “paramentos de Amália”.
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Trouxe ao fado uma cerimónia e um requinte, que até então não existia. Ela própria, que se dizia triste; escondia uma alegria prodigiosa, que revelava amiúde. Mas é especialmente nas “suas bugigangas”, como se referia aos seus objetos de culto, que se transnude uma Amália com olho para o detalhe e para a elegância, moldado pela vertente cosmopolita; uma personalidade colorida e eclética; por vezes a roçar um estilo aciganado que combinava com o seu espírito nómada, desprovido de pretensões. A grande dualidade de Amália, que vivia as noites como se fossem dias; toda ela sombra e simultaneamente, um sol radioso; revela-se no seu guarda-roupa e nos demais objetos de uso pessoal.
Pormenor do roupeiro da casa de Amália; atualmente Fundação Amália Créditos: Direitos Reservados 42 I Amar
Um dos três vestidos que usou nos 50 anos de carreira, no Coliseu de Lisboa, da autoria de Dona Ilda Aleixo Créditos: Direitos Reservados
Em palco, diz-se que Amália se tornava imensa. Um efeito criado pela astúcia da sua modista pessoal, Dona Ilda Aleixo; uma dupla de sucesso, que começou em 1967, quando Dona Ilda lhe fez o primeiro vestido com que atuou no Olympia. Antes desse encontro prodigioso, colaborou com diversos estilistas portugueses, como Pinto de Campos, Ana Maravilhas e Teresa Mimoso.
Vestido desenhado por António José Pinto de Campos (1908-1975) com que Amália cantou no Lincoln Center for the Performing Arts, New York Créditos: Direitos Reservados
A partir da década de 70 e até ao final da vida de Amália, é Dona Ilda Aleixo que lhe irá confecionar os vestidos, muitos dos quais idealizados por Amália. A modista, através de um truque rigoroso e matemático, cosia a cintura dos vestidos abaixo do corpo, para que se criasse a ilusão de equilibrio; e era assim que Amália se erguia do seu metro e cinquenta e oito, em palco. Dona Ilda ter-lhe-á talhado cerca de 200 vestidos de cena.
Vestido usado no Olympia, em 1980; criação de D. Ilda Aleixo Créditos: Direitos Reservados Amar I 43
Este truque, aliado à coleção de 17 pares de sapatos de palco, com plataforma e feitos por encomenda, em Portugal, que tinham entre 15 a 17 centímetros.
Para além dos sapatos de palco, Amália tinha culto por os sapatos. Sendo uma senhora abnegada e de grande generosidade com todos os que lhe pedissem ajuda; a única coisa que se recusava a dar, eram os seus adorados sapatos.
A coleção da sua Fundação, é detentora de 177 pares de sapatos, maioritariamente para eventos formais; com exemplares da Prada, Sergio Rossi, Versace, Yves Saint Laurent; Salvatore Ferragamo, Charles Jourdan, Baldinini, Di Sandro, Bruno Magli… muitas marcas italianas mas também portuguesas, como a Mabelle ou a Mariazinha. Mas no dia-a-dia, optava por socas de cunha, para usar com os seus confortaveis balandraus; uns vestidos compridos, largos, e leves, sempre coloridos. Tinha cerca de 20. 44 I Amar
Por estrear, ficou um vestido em renda branca, feito para o espetáculo dos seus 50 anos de carreira, onde recebeu a condecoração das mãos do então Presidente Mário Soares. Contudo, ao vestir o vestido acabado de fazer; exclamou: “Vão dizer que pareço uma noiva!” E acabou por nunca o usar. Por acabar, ficou um vestido vermelho. Um dos seus vestidos favoritos, era o “Vestido dos Malmequeres”.
Amar I 45
Como em tudo, nada obedecia ao ciclo natural dos dias; mas das vontades e estados de espírito. Tanto podia fazer provas dos vestidos às três da tarde, como às três da manhã. Dona Ilda passou a morar com ela, e desde muito cedo se tornou cúmplice e amiga de Amália. A maioria das vestes da fadista, eram confeccionadas à mão; contudo se gostasse de alguma peça que visse numa montra, pedia a alguém para ir comprar; já que não gostava de entrar em lojas. Por vezes, pedia até que comprassem a mesma peça em várias cores, já a pensar como haveria de conjugá-las com a roupa que tinha. Mas o que a divertia, era “surripiar” as blusas de extremo bom gosto, à sua amiga Maluda; reconhecida pintora que a retratou, entre outros artistas. De espírito brincalhão, Maluda, chegou a perguntar-lhe no programa “Parabéns”, de Herman José; quando poderia comprar uma blusa para ela própria, sem que Amália a “roubasse”.
Ainda na década de 80, doou inúmeros vestidos de palco ao Museu Nacional de Teatro. Cada vestido, sapato, jóia, contam histórias da sua carreira. A Fundação Amália Rodrigues é detentora de uma extraordinária colecção de jóias como pulseiras, anéis, pregadeiras e brincos; trabalhados em ouro, filigrana, diamantes, ametistas, rubis e esmeraldas. A maioria delas são de fabrico nacional, datadas dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX. Os brincos teriam de “ser visíveis da última fila da sala”, segundo a vontade de Amália; por isso, eram longos e brilhantes. Exemplo disso, eram os seus brincos “Coliseu”. Mas a sua jóia de eleição, que juram ser mesmo um talismã, era o alfinete “Estrelinha”, jóia do século XIX, em ouro e diamantes, e também a mais admirada pelo público. Em Paris, chegou a perdê-lo, e só por sorte, o foram encontrar caído numa sarjeta. Contudo, as jóias de valor inestimável que nunca podiam faltar em palco, mas que estavam resguardadas do olhar da audiência, eram as medalhinhas dos seus protectores: Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora de Fátima e Jesus Crucificado. Dizem que se recusava mesmo a entrar em palco sem o fio com as medalhinhas. 46 I Amar
As jóias assumiram um papel preponderante na vida de Amália: adorava-as, quer fossem bugigangas ou verdadeiras. Tinha gavetas e gavetas cheias de pulseiras, brincos, alfinetes de dama, colares compridos. No dia a dia, Amália usava joias “aciganadas” como ela gostava de lhes chamar. A cor e os brilhos eram indispensáveis.
A ourivesaria Ouronor, na Póvoa do lanhoso, em 2008, começou a recriar as jóias mais emblemáticas da artista. Uma das mais icónicas são os “Brincos da Deusa”, oferecidos pelo marido César Seabra, antes de casarem, no Rio de Janeiro. Amália também inovou a forma de se usar jóias; veja-se por exemplo, como exibia os alfinetes junto à anca. Quanto aos acessórios, Amália dava preferência aos óculos de sol enormes, aos lenços, écharpes e leques. Gostava de usar maquilhagem, desde cedo passou a traçar a preto os olhos e o vermelho nos lábios. As suas marcas de eleição, eram a Christian Dior e a Yves Saint Laurent. Já o seu perfume favorito, era Joy, de Jean Patou, que usava até à exaustão. Todos estes objectos pessoais, como os vestidos, sapatos e até os seus próprios produtos de maquilhagem, poderá encontrar inalteráveis; quase como se ela ainda lá vivesse, naquela que foi durante mais de trinta anos, a casa de Amália Rodrigues; e é presentemente, por vontade expressa da fadista, a Fundação Amália.
Resta-me escrever sobre o derradeiro vestido de Amália; aquele que foi o mais trabalhoso, e único, nas palavras de Dona Ilda; um como não há igual. Um vestido que estreou no Japão, em 1984, com 153 metros de folhos de mousseline, grandioso. O vestido que ficou imortalizado no retrato de Luis Pinto Coelho. E que foi o escolhido, para sua mortalha, levando-o pela eternidade. Amar I 47
Saxofone:
só não soube soprar a controvérsia
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CrĂŠditos: Direitos Reservados Amar I 49
Estátua de Adolph Sax junto à sua casa (hoje um pequeno museu), na cidade de Dinant, Bélgica Créditos: Direitos Reservados 50 I Amar
N
azis, soviéticos e até o Vaticano: a lista de detratores do saxofone dá pano para mangas. Que o diga o criador, condenado a um triste fim.
Um período de vida relativamente curto (179 anos passaram desde que foi inventado, algures na Bélgica) não impede o saxofone de ser candidato a um dos instrumentos musicais mais polémicos da história. Banido pela Alemanha de Hitler, pela União Soviética de Estaline e temporariamente – pasme-se – até pelo Vaticano, a história deste instrumento de sopro compreende uma prodigiosa sucessão de êxitos e obstáculos que atirou o seu criador, Adolphe Sax – daí o nome -, direto para o abismo. Recuemos, então, até esse 1841 em que o belga de origem judaica, músico talentoso, exímio fabricante de instrumentos musicais, se saiu com a ideia, aparentemente insana, de colocar a palheta de um instrumento de sopro num corpo de latão. A invenção despertou uma paixão instantânea às bandas militares, mas também um desdém compulsivo à indústria de fabricantes de instrumentos então estabelecida. O desamor agravou-se quando Sax se mudou para França. A concorrência tornou-se de tal forma feroz que, além de terem tentado roubar os projetos de Sax e incendiado a fábrica que este montou no país, os competidores diretos chegaram mesmo a tentar matá-lo. Não lograram os seus intentos, é certo, mas o pai do saxofone não se livrou de um destino infeliz: foi duas vezes à falência e viveu os últimos dias na penúria.
Quanto ao instrumento em si, prosseguiu numa existência de altos e baixos. Na década de 1920, foi mais vendido do que a guitarra elétrica nos anos de 1960, mas a popularidade saiu-lhe cara. Por o ver como um símbolo da música jazz, relacionado com a cultura afro-americana, a Alemanha nazi considerou-o parte de uma “arte degenerada”. Foram tempos difíceis, perigosos até, para os saxofonistas. E a história de iniciativas persecutórias não termina aqui. Também Estaline baniria o instrumento da União Soviética pela conotação com a cultura imperialista americana. Além de ter sido riscado de todas as orquestras, chegou a valer a uns quantos músicos ordens de prisão (e até exílios!). Neste percurso acidentado, até o Vaticano chegou a vedar-lhe a entrada nas igrejas. Ele resistiria bravamente ainda assim. Valha isso a Adolphe Sax.
Ana Tulha NM
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905.955.2562 Amar I 51
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História da garrafa: no princípio eram as lágrimas V
inho, perfumes e memórias foram os primeiros “conteúdos” a ser armazenados em garrafas. Já lá vão 3 500 anos.
Hoje será difícil não pensar na garrafa como um recipiente para guardar líquidos, maioritariamente bebíveis. Mas não foi sempre assim. Há mais ou menos 3 500 anos, quando se pensa que ela terá surgido, algures no Antigo Egito, tinha outras serventias, bem mais inusitadas. Se as maiores – primeiramente de barro, a partir do século I a.C. de vidro – já serviam para guardar vinho, as mais pequenas respondiam a propósitos distintos, como o de guardar perfumes e, pasme-se, as lágrimas das pessoas mais chegadas. Sem surpresa, foi graças ao vinho que se eternizaram. Primeiro eram transportadas do Egito para Roma. Mais tarde, os gregos adaptaram a invenção, incluindo-lhe uma pequena asa para facilitar o transporte. A maior revolução chegaria, no entanto, da Síria, por volta do ano 100 a.C. Foi lá que se começou a fabricar vidro com a técnica de sopro, o que escancarou as portas à popularidade da garrafa. Algures na Idade Média, o vidro ainda passou por uma fase de menor fulgor, começando a recorrer-se às garrafas de pele, que garantiam menor fragilidade no transporte. Pelo meio, apareceram também as de madeira e as de metal. Mas, no século XVII, também graças à utilização das rolhas de cortiça, as garrafas de vidro voltaram em força. Nesta história, cabe ainda Michael Owens, o americano que em 1904 construiu uma máquina capaz de produzir garrafas de forma automática. Onde já iam as lágrimas…
Sofia Teixeira
NM
Bradfordwolves @bradfordwolvessoccer
www.bradfordwolves.com Amar I 53
A auto-estima como arma de arremesso
54 I Amar
Créditos © Adrian Swancar Amar I 55
I
ncrível como um mesmo evento toca de forma tão diferente pessoas que, aparentemente parecem estar em condições semelhantes e outras que tinham tudo para ser atingidas, e não são. As pessoas dizem-me “eu tenho um problema de auto-estima”, “isso é mais um problema que eu tenho, não acabo as coisas”; “fujo do espelho e das fotografias”, “ganhei peso e a minha auto-estima está um caos”, “não faço nada bem”; “gostava de ser boa mãe e de ter algo para dar”, estas e outras afirmações nascem soltas, baseadas numa auto perceção, onde o emocional ganha força, descolando-se do real. No entanto, por vezes, estas mesmas pessoas demonstram atitudes reveladoras de uma auto-estima com alguma consistência. Tem falta de auto-estima e aventura-se em projetos em que é preciso acreditar, projetar e pôr em prática todos os dias? Tem falta de auto-estima e define bem os seus limites para que os outros não usem e abusem de si, da sua boa vontade e do seu querer agradar? Tem falta de auto-estima e destacaram-no para gerir um novo projeto na sua empresa porque acreditam na sua performance? Tem falta de auto-estima e investe numa alimentação mais saudável para se sentir melhor consigo?
Auto “desconhecimento”
Quando desvalorizamos o autoconhecimento, é normal sentir que não correspondemos á forma como os outros nos identificam e nos veem. Fica até estranho. Magicamos justificações que sustentam recursos, qualidade, conquistas, mérito pessoal, como sendo do acaso. Fugimos de nós, como o diabo da cruz. Assim torna-se mais difícil olhar para dentro, chegar á essência. Identificar e aceitar. Segundo a escola humanista da psicologia de Carl Rogers, “Não podemos mudar, não nos podemos afastar do que somos, enquanto não aceitarmos profundamente o que somos”. Rogers cita também “Todo ser humano, sem exceção, pelo mero fato do ser, é digno do respeito incondicional dos demais e de si mesmo; merece estimar-se a si mesmo e que se lhe estime”.
Auto-estima
A auto-estima deriva dos processos de avaliação subjetiva que o indivíduo faz das suas qualidades, desempenhos ou virtudes e é fundamental para o bem-estar mental e físico de qualquer pessoa, já que a aceitação de si mesmo se reflete em cada aspeto da vida. É a forma como nos atribuímos valor e nos sentimos a nosso respeito (sentimento de estima de si). Ocupa, por isso, um lugar proeminente na compreensão e na explicação dos transtornos emocionais. Segundo Albert Bandura, psicólogo canadiano, a autoeficácia é a crença que o indivíduo tem sobre a sua capacidade de realizar com sucesso determinada atividade.
Autoconhecimento
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Conhecermo-nos a nós mesmos ajuda-nos a tomar decisões com maior clareza, a pensar de forma mais confiante e a saber o que devemos fazer em cada situação. A consciência da nossa identidade torna a nossa vida mais simples e facilita os nossos relacionamentos intrapessoais e interpessoais. A partir da perceção de nós próprios, a nossa forma de agir e pensar acontece, podendo gerar sentimentos de inferioridade ou superioridade, autocrítica, autocensura, narcisismo ou egoísmo. Todas essas características influenciam diretamente a nossa auto-estima, bem estar e funcionalidade.
Fortalecer a auto-estima
A auto-estima pode ser treinada e desenvolvida. As pessoas que não acreditam em si, foram ensinadas, por algum motivo não consciente, a não acreditar em si. Por isso, é possível ensinar o caminho inverso. Pode não ser um caminho fácil, mas pode ser possível na medida de cada caso, fomentando atitudes e promovendo a aquisição de competências. A lista de atitudes benéficas para desenvolver auto-estima é imensa, mas fica uma lista de apenas 8: 1. Liberte-se da culpa, a responsabilidade de a terra ser redonda não é sua. Desresponsabilize-se do que não é da sua responsabilidade. 2. Deixe de lado as comparações com os outros. Seja justo e compare-se consigo. Quando se trata da vida, não existe base de comparação. Faça o que satisfaz as suas necessidades psicológicas e promove o seu bem estar. 3. Seja honesto consigo próprio. Mentir é prejudicial, e quando é connosco, pode-nos colocar em situações nefastas. Assim, abrace as suas qualidades e limitações, desqualificando o perfeccionismo excessivo, bem como o individualismo desmedido. 4. Pratique a gratidão no seu dia a dia. Fomentar a prática da gratidão diária, promove resiliência e impulsiona melhores atitudes. 5. Aceite aquilo que não pode mudar. A aceitação promove o desenvolvimento a partir desse ponto, desbloqueando caminhos. 6. Tenha a sua rede de apoio (amigos/ família). 7. Pratique exercício físico. Cuide do básico. O exercício tem altíssimos benefícios ao nível psicológico e físico. Atua na regulação do humor, diminui sentimentos de depressão, ansiedade e stress. Ajuda a melhorar a circulação sanguínea, fortalecer o sistema imunológico e dos ossos. Contribui para a diminuição do risco de doenças cardíacas, atua no emagrecimento, entre outros. 8. Viva no presente. Viva no agora. Independentemente do que foi feito ou do que irá acontecer, tire partido do momento presente. O poder do aqui e agora liga-nos ao momento presente, ao querer agarrar este tempo e oportunidade de viver. A melhor parte é que cada dia é uma oportunidade para fazer melhor ou diferente.
uma atividade muito elevada, donde podemos deduzir a predominância de diálogo interno muito acentuada. Daniel H. Pink (2006), considerado o maior especialista mundial na análise das emoções humanas e expressão das mesmas, no seu livro, “A nova inteligência”, alerta-nos para o facto de que o futuro pertence a quem for capaz de usar o lado direito do seu cérebro.
O sentido da vida
Justificando com o paradoxo da prosperidade, a abundância brindou a nossa existência com objetos maravilhosos, mas, entenda-se que a quantidade de bens materiais não nos faz necessariamente mais felizes, derivado da procura crescente de sentido de vida que se impõe. “As pessoas têm o suficiente para viver, mas nada para que viver. Possuem os meios, mas nenhum fim”, Victor Frankl. Segundo Pink, hoje a procura assenta, essencialmente, na conjunção de 2 fatores: “a capacidade de sentir empatia pelos outros, entender as subtilezas da interação entre as pessoas, saber encontrar a satisfação de viver dentro de nós próprios, bem como de ajudar os outros a fazê-lo e, também, ser capaz de perseguir um sentido para a vida além da rotina diária”. Qualquer trabalho baseado em rotinas, que pode ser reduzido a um conjunto de regras ou decomposto numa série de passos que se repetem, estará em risco, dado a falta de sentido Profissões como artistas, inventores, designers, contadores de histórias, prestadores de cuidados de saúde, psicólogos, tendencialmente estão em ascendência. E porque é que isto está a acontecer? Muito devido ao paradoxo da prosperidade, ou seja, a abundância que nos abordou nas últimas décadas uma quantidade de com objetos maravilhosos e bens materiais, não nos faz necessariamente mais felizes. A capacidade de criar beleza artística e emocional, detetar padrões e oportunidades, elaborar uma narrativa satisfatória e combinar ideias desconexas num novo objeto. Já não chega possuir. Vivemos num mundo de riqueza material, pelo que muitos procuram objetivos mais significativos: a transcendência, a realização espiritual e o sentido da Vida. Assim, a viagem e o encontro com o sentido da vida, leva-nos também á nossa essência, a sermos nós próprios, a viver com auto-estima e a sermos mais felizes.
Hemisférios
Segundo o trabalho experimental desenvolvido por Andrew T. Austin, psicoterapeuta e formador, a ansiedade é predominantemente um fenómeno fisiológico do hemisfério esquerdo. Se tirarmos uma fotografia ao cérebro de um ansioso a funcionar, seria comum observar esta parte do cérebro com
Isabel Rebelo
Psicóloga e Hipnoterapeuta
HAPPY NEW YEAR Amar I 57
A psicologia
das autonomias e das influĂŞncias
58 I Amar
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D
as várias perguntas sobre a psicologia, uma irrompe-se destacadamente na direção do avanço e da defesa, à espera de importantes respostas que auxiliem na compreensão dos comportamentos que tanto nos mantêm separados enquanto espécie, feito unidades claramente diferenciadas umas das outras, quanto nos une ao oferecer e estimular a influência mútua. A sofisticação evolutiva produziu refinadas artimanhas de sobrevivência, aperfeiçoamento e transmissão de tais informações contidas nos genes, capazes de manter o projeto de evolução ao qual nos submetemos silenciosa e ininterruptamente, a despeito de o sabermos ou não, desde o ontem até ao porvir.
A formação psíquica se dá através dos movimentos da percepção estimulada pelo ambiente (influências) e das respostas desencadeadas pela genética, servindo-se programada e eficientemente das estruturas biológicas e da fisiologia, culminando na estruturação da unidade, ou o que se pode denominar de personalidade, o conjunto resultante do universo contido na ordem do alfabeto genético (fruto da gigantesca árvore da espécie em permanente transformação; um sem número de gerações e suas características a passar o bastão da vida) e da ascendência daquilo que nos toca ao chegar do mundo exterior. Com efeito, dentro e fora há colaborações na formação psicológica da qual nos servimos permanentemente. Note-se, contudo, que tal progresso é marcado pela conquista gradativa da autonomia, pois o sistema que impulsiona a evolução baseia-se na unidade capaz de ultrapassar-se por forças íntimas e pessoais, utilizando-se das influências das outras unidades. São trocas essenciais que, no entanto, se limitam à porosidade (permeabilidade aos estímulos recebidos) conveniente do que é aceito ou rejeitado, sobretudo com o amadurecimento advindo da experiência, posterior ao período de dependência que caracteriza a infância. Então surge uma questão: Não reside aqui uma diferença crucial entre as pessoas, que podem se aproximar caso os interesses sejam convenientemente superiores e interessantes, permitindo uma maior porosidade, ou, na via contrária, o afastamento, ao sufocar tal permeabilidade nos casos em que o desinteresse se imponha? Ou seja, pequenos mundos privados (unidades) jogam uns com os outros (grupo) na convivência, e conforme os seus interesses, permitem uma maior influência vinda de fora (mesmo sob a parcial ou a total incompreensão do outro), todavia, quando a disposição é reduzida, a discordância original ganha terreno na ordem das relações, agora, com menor entorpecimento do autoengano, ao “se permitir” enxergar sem o doce convencimento das necessidades e desejos tão caros à aproximação e à manutenção das relações humanas. Um jogo primordial à evolução, que conta com vários aspectos, e, dentre eles, as emoções e os sentimentos, fortes o suficiente para criar as condições de aproximação ou de afastamento. 60 I Amar
Por que agimos desta forma? Uma resposta razoável diz respeito ao nível de desenvolvimento em que nos encontramos, ainda presos ao importante egoísmo (mecanismo defensivo da sobrevivência evolutiva), cujo predomínio carece de transformação e conquista de outro mecanismo que já se encontra disponível, porém pouco desenvolvido: o altruísmo, parte também da engrenagem defensiva à sobrevivência da informação genética. O egoísmo preserva zelosamente a unidade, o altruísmo resguarda a unidade em conjunto (e se opõe aos exageros do egoísmo), estabelecendo astuciosamente uma defesa mais eficiente. Duas jogadas estratégicas por excelência.
ção autoimposta e despercebida por hora? Não seria o momento de avançar, transformando o essencial egoísmo em um pouco mais de altruísmo (sem a ilusão de acabar -- seria impossível -- com qualquer engenho da natureza, que tanto sabe mais do seu antigo e imenso conjunto vital do que as partes separadas) a fim de extrair rica evolução disponível? Não está em nós esta maravilhosa capacidade de observar e refletir aos tons filosóficos da existência?
Desta forma, impedimo-nos, boa parte das vezes, de nos colocarmos no lugar do outro, usando a empatia para tentar compreender o seu mundo, para além do nosso. Não contextualizamos as situações, e nos mantemos limitados a avaliar outras circunstâncias tão somente através da parcial ótica do nosso mundo. Não interpretamos conforme o contexto alheio, ou pobremente o fazemos, tornando insuficiente a compreensão necessária e esclarecedora sobre as outras unidades. Prevalece, carentemente, a opinião centrada no próprio universo, a órbita que não alcança outras esferas, ou vastidões a serem entendidas e delas se extrair ainda mais e melhores estímulos a serem então devidamente ponderados e processados à porosidade das influências. Assim, ressalve-se novamente o fato de que a autonomia do desenvolvimento ocorre pela intransferível responsabilidade pessoal, logo, depende de cada um a formação do caminho que conduz ao crescimento e, não obstante a tal imperativo, vale indagar: acaso não perdemos com a limita-
Armando Correa de Siqueira Neto
Psicólogo e Mestre em Liderança
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Saúde
Obesidade: soluções da Medicina Chinesa
A
obesidade está a tornar-se num verdadeiro problema social.
Quantas vezes se tem questionado relativamente à razão pela qual uma dieta saudável, com proporções corretas de alimentos, nem sempre é suficiente para manter um peso saudável? A medicina chinesa tem algumas respostas que, por vezes, são contrárias ao pensamento Ocidental... A ciência tem demonstrado recentemente que um excesso de peso pode conduzir ao desenvolvimento de diabetes tipo 2, cancro do cólon, do rim, do útero e da mama, colesterol elevado, hipertensão, doenças cardiovasculares (incluindo enfarte do miocárdio), artrite, cálculos biliares, infertilidade, apneia do sono, ressonar durante o sono e cataratas. Podemos assim concluir, que mais do que um capricho, perder peso está a tornar-se numa necessidade médica para muitos de nós.
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1 - A causa da obesidade Na medicina chinesa é essencial compreender o processo patológico deste distúrbio. Após séculos de estudo e de observação, a medicina chinesa defende que não existe só um tipo de sobrepeso ou obesidade, existem vários. Como a natureza de cada tipo é diferente, os tratamentos são também eles diferentes. A forma como a medicina chinesa analisa e compreende a fisiologia humana é diferente da medicina Ocidental (portanto, diferente também da homeopatia, naturopatia, osteopatia, etc.). Na medicina chinesa, a gordura é vista como o produto da “fleuma”, que é um fluído acumulado no corpo e condensado numa forma mais sólida. A fleuma pode ser gerada por uma dieta desadequada ou pelo mau funcionamento do baço, dos rins e do fígado.
2 - Os quatro tipos de obesidade 2.1) Fleuma-Humidade devido a um Estilo de Vida Impróprio A fleuma que provoca excesso de peso ou obesidade advém, principalmente, de uma dieta desequilibrada. Do ponto de vista chinês, o objetivo do processo digestivo é receber alimentos líquidos e sólidos e transformar tudo num tipo de “sopa digestiva morna”, que é assimilada nutrindo o corpo. Mas afinal, o que impede a formação desta "sopa digestiva morna" e, consequentemente, a assimilação dos alimentos? Demasiados alimentos crus e/ou frios, bebidas frias, alimentos açucarados e demasiados alimentos geradores de humidade (mais concretamente, produtos lácteos, álcool, fritos, carnes processadas, bolos, doces...). Por outro lado, comer a horas irregulares, muito tarde durante a noite, ou não comer o suficiente ao pequeno-almoço e demasiado ao jantar, aumenta a hipótese de desenvolver humidade no sistema digestivo o que, mais cedo ou mais tarde, irá transformar-se em fleuma, provocando excesso de peso. Neste caso, mesmo que os órgãos estejam a funcionar corretamente e que a digestão pareça ser boa, este tipo de dieta acabará por provocar ganho de peso. Uma pessoa pode parecer estar saudável e, mesmo assim, estar lentamente a ganhar peso em excesso. 2.2) Vazio do Qì do Baço O qì (energia) corresponde às funções de um órgão. Na medicina chinesa, o baço é o responsável pela transformação dos alimentos. Se ele ficar fraco, a humidade no sistema digestivo não pode ser transformada de forma correta, acumulando-se e transformando-se em fleuma. Neste caso, mesmo que se tenha uma boa dieta e se evitem os tipos de alimentos acima mencionados, poderá haver ganho de peso! Isto explica a razão pela qual muitas pessoas que comem pouco, continuam a ganhar peso. Se, para além desta condição, a dieta for desequilibrada, duplica-se o risco de ganhar peso... 64 I Amar
Quais são, então, as principais causas de um vazio do qì (energia) do baço? Uma dieta desregulada, o consumo excessivo de doces e refrigerantes, pensar ou preocupar-se em demasia, falta de atividade física, excesso de trabalho, uma doença grave ou de longa duração... Este tipo de excesso de peso é muito comum nas mulheres. 2.3) Vazio do Yang do Rim O yang também está relacionado com as funções dos órgãos e a sua capacidade de aquecer o corpo. Na medicina chinesa, os rins são responsáveis por “governar a água”. Isto significa que eles asseguram que os fluídos fisiológicos sejam devidamente assimilados, transformados e transportados para nutrir e humedecer os tecidos do corpo. Se os rins estiverem em vazio, estes líquidos orgânicos têm tendência a estagnar e, eventualmente, concentram-se sob a forma de fleuma, que é a fonte do excesso de peso. Quais são as causas principais de um vazio de yang do rim? O envelhecimento, a utilização de alguns tipos de medicamentos que "arrefecem”, uma atividade sexual excessiva, fraqueza constitucional, uma doença grave ou de longa duração... Mais uma vez, apesar de se ter uma dieta perfeita, se existir um vazio do yang do rim, é possível que haja um ganho anormal de peso. Claro que uma dieta descuidada pode agravar a situação. O vazio de yang do rim está normalmente associado ao ganho de peso durante a menopausa e a andropausa. 2.4) Ascensão do Qì do Fígado O fígado “chinês” é diferente do fígado “ocidental” ou aquele dos naturopatas. Ele possui muitas funções, e entre elas encontra-se a função que promove um suave fluxo de qì, sangue, fluídos e emoções no corpo. Quando existe stress emocional intenso, humilhação, amargura, sentimentos de injustiça, raiva (recalcada ou expressa), a função reguladora do fígado é interrompida e a energia estagna. Esta condição denomina-se como “ascensão do qì do fígado”. Nesta situação, ele perde a sua capacidade de fazer circular os fluídos fisiológicos do corpo que se acumulam, condensam-se e transformam-se em fleuma. Além disso, a ascensão do qì do fígado quase sempre enfraquece o baço, o que também provoca fleuma... ou seja, este é um excesso de peso de origem emocional. Pessoas com esta síndrome frequentemente desejam doces. O sabor doce age como um “antidepressivo”, que por um lado pode ser algo bom, mas por outro também causa aumento de peso. É importante ter em consideração que, por vezes, algumas pessoas podem desenvolver dois ou três tipos diferentes de obesidade ao mesmo tempo, o que faz com que o seu tratamento seja mais complexo.
3 - Como pode a Medicina Chinesa ajudar? Independentemente da causa, o tratamento envolve sempre a implementação de uma dieta. Isto implica evitar alimentos nocivos e restaurar o funcionamento correto do baço, o que passa por:
4 - Estilo de vida
• Esqueça a ideia de que beber mais água o vai ajudar a per-
der peso. Esta é uma noção completamente errada que, na verdade, esgota o baço e os rins
• Parar com todas petiscos (snacks). • Consumir alimentos de fácil digestão e uma quantidade
• Faça exercício físico, de preferência diariamente, porque
• Reduzir consideravelmente o consumo de alimentos açu-
• Faça as suas refeições a horas regulares, com um peque-
• Comer alimentos mornos e eliminar os frios. • Não beber ao início da refeição e tomar só bebidas mornas
Se necessitar de ajuda, procure um profissional credenciado para o(a) ajudar neste processo.
abundante de vegetais.
carados, produtos lácteos, álcool e comidas ricas em gorduras.
no final das refeições.
• Reduzir a metade o consumo de carboidratos (pão, mas-
assim ativa a circulação do qì, estimula o peristaltismo intestinal e ajuda a eliminar gorduras armazenadas.
no-almoço substancial e apetitoso e um jantar mais leve, o que promove o bom funcionamento do baço.
E, não se esqueça de… SORRIR COM SAUDE!
sas, batatas, cereais...) durante várias semanas e, ao mesmo tempo, aumentar o consumo de vegetais e peixe (cavala, arenque, salmão, atum, linguado, sardinha, robalo, truta arco-íris, camarão, mexilhões, ovas...). Consumir mais arroz, millet (milho-painço), cevada, quinoa e legumes, e evitar cereais da família do trigo, que são produtores de humidade e geradores de fleuma.
Contudo, não se esqueça que existem três em quatro tipos de obesidade que não estão relacionados diretamente com a dieta, mas com a disfunção de certos órgãos. Uma dieta sem o equilíbrio destes órgãos é inútil. Em conjunto com a alteração da dieta, deveríamos também tratar o caso que se nos apresenta:
• Tonificar o baço com medicamentos chineses que são conhecidos pela sua ação na redução do peso, tais como: Rhizoma atractylodis macrocephalae (Bai Zhu), Radix astragali membranacei (Huang Qi), Fructus crataegi (Shan Zha).
• Tonificar e fortalecer os rins com medicamentos chineses que são conhecidos pela sua ação na redução do peso, tais como: Radix polygoni multiflori (He Shou Wu), Cortex radicis acanthopanacis (Wu Jia Pi), Rhizoma drynariae (Gu Sui Bu).
• Desintoxicar o fígado com medicamentos chineses que
são conhecidos pela sua ação na redução do peso, tais como: Pericarpium citri reticulatae viride (Qing Pi), Fructus immaturus citri aurantii (Zhi Shi), Fasciculus vascularis citri reticulatae (Ju Luo), Radix bupleuri (Chai Hu).
• Eliminar ou controlar as causas de stress, raiva e frustração, tratando a raiz emocional que leva a comer compulsivamente.
Helena Rodrigues
Especialista Especialista de de Oncologia Oncologia em em Medicina Medicina Chinesa Chinesa
FELIZ ANO NOVO
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AQUÁRIO
O seu lado intuitivo e não racional da vida terá nesta altura grande importância e significado, fazendo com que sinta necessidade de mostrar aos outros o seu mundo interior, íntimo e sensível. Nesta fase de maior nostalgia e hipersensibilidade faça um retiro espiritual, aproveitando para relaxar. Na última quinzena é natural que se sentia com bastante mais energia e impulsividade.
Janeiro Horóscopo
J
aneiro é um dos meses mais importantes em termos de horóscopo. Para muitas pessoas, inconscientemente implica a chegada de um novo começo, a altura em pode transformar uma folha em branco. Pode começar a escrever na página não escrita, e é como vai construir a sua vida. No mês de janeiro, a posição das estrelas dará aos signos de terra, principalmente aos capricornianos, muita força física. Se decidir praticar um desporto, vai gostar desde o primeiro momento. Caso tenha muitas responsabilidades, isso também o ajudará a relaxar. Ficará mais tranquilo após as férias e começará a dar ouvidos aos outros. Vénus pode trazer um novo conhecido para a vida de virginianos ou sagitarianos, principalmente. No término do mês, tome cuidado com doenças respiratórias, como gripe ou dor de garganta. Atualmente, há mais hipóteses de adoecer. O horóscopo para janeiro de 2021 tem de ter em conta o que as pessoas têm enraizado. Mesmo que as estrelas lhe mostrem um determinado caminho, em janeiro, é provável que não o siga, se não gostar da direção que lhe estão a indicar.
Planetas em janeiro de 2021 O Sol em Capricórnio
Neste período pode haver uma espécie de desaceleração em relação às suas ambições. Pode sentir a necessidade de estar sozinho e em reclusão. Eventualmente, isso pode levar a agir em benefício próprio, independentemente de outras pessoas. Pode parecer inacessível ou mesquinho e, em situações extremas, egoísta. Vai gostar de trabalhar e terá a possibilidade de descansar, você será minucioso e perfecionista.
Vénus em Sagitário
Durante este período, um relacionamento íntimo pode desenvolver-se através da educação. Você realmente gosta de aprender sobre coisas novas, então não admira que se sinta atraído por pessoas com a mesma intenção. No entanto, não vai deixar que esses casos de amor entrem na sua cabeça porque, para si, a sua liberdade pessoal é o mais importante. Você tem absoluta certeza sobre isso.
Mercúrio em Capricórnio
Neste período, anseia ser respeitado para que não se sinta perturbado se alguém pensar que é um tolo. Por isso, está em silêncio e à espera. Graças a esta posição, o pensamento conservador pode aparecer, especialmente quando se trata de relacionamentos e humor seco.
Marte em Carneiro
Durante este período, não terá problemas por reagir impulsivamente. Será um bom líder. O seu amor será persistente e com propósito. A sua energia pode dar-lhe tudo o que deseja. No entanto, preste atenção às situações estressantes, porque sua tendência vai ser comportar-se de forma irrefletida e até mesmo arrogante.
CAPRICÓRNIO
Está a iniciar um novo ciclo de vida muito propício ao êxito. Sente-se muito enérgico e com grande criatividade, o que lhe pode ser francamente útil em termos de trabalho. Também poderá sentir que está mais virado para si mesmo e para os seus assuntos pessoais e que presta menos atenção ao mundo que o rodeia. É provável que no final do mês a sua vida financeira esteja em evidência.
SAGITÁRIO
É aconselhável agir com cautela no que toca a gastos. As finanças são agora o fator de maior preocupação, a requerer a sua atenção e até mesmo alguma cautela extra, no sentido de não gastar dinheiro de forma leviana. A nível afetivo sentir-se-á envolvido numa onda de romantismo, simpatia e intimidade. Nos últimos dias o discernimento, clareza de ideias e comunicação estão favorecidas.
ESCORPIÃO
Vai ter necessidade de ação. Terá aversão à rotina. Esta é uma altura favorável para apresentar projetos devido à sua grande capacidade de comunicação. Nas duas últimas semanas mostrará grande interesse por todas as questões relacionadas com a família, que é para si um fator de equilíbrio. Sentirá necessidade de conforto, calor, de um ambiente intimista que lhe permita recuperar energias.
BALANÇA
Poderá sentir necessidade, durante este mês, de olhar mais para dentro de si e perceber de que forma o seu passado condiciona o seu presente. É um bom momento para fazer uma autoanálise profunda e libertar-se de alguns complexos que o perturbam. A sua criatividade e generosidade, ultimamente um pouco abafadas pelos afazeres do dia-a-dia, estarão na última quinzena em evidência.
VIRGEM
Agora é provável que não sinta vontade de fazer coisas pequenas e rotineiras. Pelo contrário vai ter necessidade de ser espetacular, de dar nas vistas, de ser o centro das atenções. Estará também mais voltado para o relacionamento com as crianças, participando nas suas brincadeiras. No final do mês não deve correr riscos desnecessários que possam pôr em perigo a sua saúde.
LEÃO
A sua atenção irá estar voltada para o lado prático da vida. Serão encontrados métodos mais eficazes de organização e resolução de tarefas diárias, cumprindo rapidamente as suas obrigações. Faça exercício físico, inicie um regime alimentar equilibrado e aproveite para se libertar de vícios. No final de janeiro poderá ter de tratar de assuntos diretamente ligados com a lei.
CARANGUEJO
Dê maior atenção ao seu mundo dos afetos, não deixe que ervas daninhas sufoquem a flor que cultivou com tanto carinho. Haverá uma facilidade de expressão de sentimentos que poderá fazer muito bem à sua disposição. Dê ouvidos ao seu coração e dedique algum do seu tempo ao seu par. Nos últimos dias poderá ser dominado por algum pessimismo e sentir-se abalado psicologicamente.
GÉMEOS
Poderá sentir que a sua atenção está mais voltada para o seu mundo interior. Este é um momento de transformação, sobretudo em termos psicológicos. Desejará explorar o seu psiquismo, as suas emoções e os seus sentimentos mais profundos. Este período poderá ainda trazer-lhe algumas preocupações financeiras. Nas duas últimas semanas sentirá maior interesse por temas do campo espiritual.
TOURO
Este é um bom período para fazer uma análise dos seus objetivos de vida. A sua mente estará muito ativa e ávida de novas experiências e conhecimentos. Será um período de crescimento e de otimismo tanto a nível do seu mundo interior como do exterior. É possível que sinta um especial interesse pelas ciências ocultas ou tudo o que tenha a ver com o sobrenatural.
CARNEIRO
Neste mês estarão favorecidos os assuntos profissionais. Poderá ser o momento certo para mostrar realmente o que vale. Investa na sua vida profissional e procure concretizar um plano que tenha vindo a amadurecer. Também não deve deixar de concluir os projetos que tem em mão. Nas duas semanas finais de janeiro, nas reuniões em que participar, aproveite para expor as sua ideias e opiniões.
PEIXES
O trabalho de equipa deverá ser estimulado agora. Sem se deixar dominar dê-se a conhecer, integrando-se e envolvendo-se nos trabalhos de grupo. Permita que o ajudem, verá que trabalhar em conjunto é bem mais gratificante que o trabalho solitário, aumentando em eficácia e rapidez os seus resultados. No final de janeiro é possível que se interesse menos pelo convívio.
Lombos de
bacalhau no forno
com legumes
Culinária
PREPARAÇÃO 1. Pré-aqueça o forno a 180º C. 2. Disponha os lombos de bacalhau já demolhados num tabuleiro e regue-os com o leite a ferver. Tape e deixe de molho. 3. Ponha o puré de batata num tacho e reserve. 4. Entretanto prepare os legumes. Descasque o alho e a cebola e corte-os em rodelas finas. Corte o alho-francês também em rodelas. Limpe o pimento de sementes e peles brancas e corte-o em tiras. 5. Numa frigideira larga antiaderente frite o bacon ligeiramente. Adicione os 100ml de azeite, deixe aquecer e junte a cebola, o alho, o alho-francês e a folha de louro. Deixe cozinhar até os legumes estarem moles e translúcidos. Adicione as tiras de pimento, tempere com o sal e pimenta moída no momento e cozinhe durante mais 5 minutos. 6. Enquanto isso, escorra cuidadosamente os lombos de bacalhau e coloque-os num tabuleiro de forno. 7. Use o leite com que escaldou o bacalhau para preparar o puré de batata. 8. Leve o bacalhau ao forno com os legumes e o puré, durante 20 minutos. 9. Sirva decorado as azeitonas pretas e salsa. Acompanhe com a salada e com o tomate. Bom apetite!
E
stes lombos de bacalhau no forno com legumes são um prato imprescindível à mesa dos portugueses. Acompanhe com salada e tomate cherry. Delicie-se!
SERVE 4 PESSOAS TEMPO MÉDIO DE PREPARAÇÃO: 50 MINUTOS DIFICULDADE: MÉDIA INGREDIENTES • • • • • • • • • • • • • • • •
600 g lombos de bacalhau demolhados 200 ml leite meio-gordo 1 Kg puré de batata congelado 5 dentes de alho 200 g (2 unid.) cebolas médias 250 g (1 unid.) alho-francês 150 g (1 unid.) pimento vermelho 50 g bacon em cubos 100 ml + 2 c. de sopa azeite 1 folha de louro 1 c. de café sal qb pimenta de moinho 30 g azeitonas pretas descaroçadas qb salsa fresca 200 g (1 emb.) salada gourmet 100 g tomate cherry
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