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Costurar o tempo é mais do que entrelaçar memórias: é reconhecer a presença viva de quem construiu e continua a construir nossa história. Neste7o número da Revista Capoeirando, trazemos à cena a presença feminina na cultura campineira, como fio condutor de uma narrativa que atravessa gerações, corpos e espaços.
Campinas éfeita de vozes que resistem, de mãos que bordam saberes e de corpos que dançam entre tradição e inovação. As mulheres sempre estiveram no centro desse movimento — muitas vezes invisibilizadas, mas nunca ausentes. Seja no toque do berimbau, na firmeza da palavra, na condução de projetos comunitários ou na manutenção da memória coletiva, elas tecem laços que sustentam nossa cultura e nossa cidade.
Este número é, portanto, uma celebração e um convite. Celebração das histórias que nos precederam e ainda ecoam, mostrando que a presença feminina não é apenas parte, mas fundamento da vida cultural campineira. Convite para que possamos enxergar com mais nitidez essas trajetórias, valorizar suas contribuições e reconhecer que o tempo não se constrói sozinho: ele é costura coletiva, feita por muitas mãos. Que esta edição inspire encontros, diálogos e movimentos. E que a Capoeirando siga como espaço de resistência, memória e criação, onde as vozesfemininas seguem tecendo o presente e abrindo caminhos para ofuturo.




Conselho Editorial: Cristiano M Gallep, Christian da Silva Rodrigues, Gina Monge Aguilar
Direção editorial: Beatriz LuMO
Editores: Anthony Moraes, Julia S X da Silva , Lilia Cordeiro França
Editores de texto: Paula Senatore
Redes Sociais: Lilia Cordeiro França
Direção de arte: Beatriz LuMO, Anthony Moraes, Julia S X da Silva , Lilia Cordeiro França
Capa:
Editoração: Beatriz LuMO, Anthony Moraes, Julia S X da Silva , Lilia Cordeiro França
Correção e organização de textos: Anthony Moraes, Lucas Esteves, Enzzo Maiorano e Thiago Marques de Souza
Edição de vídeo: Beatriz LuMO e Celso Niger
Edição de Áudio: Celso Níger
Filmagem: Julia S X da Silva, Beatriz LuMO
Colaboradores desta Edição: Cibele Rodrigues, Poliana Sales Estevam, Dieny da Silva Souza, Nil Sena, Alessandra Ribeiro, Alessandro Silva, Rafael Alves de Oliveira, Matheus Pierri de Oliveira, Bruno Shimooka, Lucas Esteves, Enzzo Maiorano Suplicy, Thiago Marques de Souza, Guilherme de Lima Pereira Silva,
João de Mello Moraes, Miguel Passará, Berílio, Walleria Simony, Andrea Martini, Celso Niger, Be Berílio, Lavinnya de Assis, Lil Uryssé, ManoELtu Marreta, Augusto de Souza
CANTOS, ENCANTOS E RECANTOS DA CAPOEIRA - P. 6
CAPOEIRA EM SÃO PAULO - P. 11
CAPOEIRA EM SÃO PAULO: - P. 12
UMA CAMALEOA NO SAMBA - P. 18
RODANTES E BERRANTES: INFLUXOS CULTURAIS
NO DISTRITO DE BARÃO GERALDO - P. 22
COSTURAS DO TEMPO - P. 30
A ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES NO HIP HOP - P. 38
1.ESTAÇÃO DA RIMA - P. 40
2.O QUE É O HIP HOP PARA VOCÊ? - P. 42
MAMILOS POÉTICOS - P. 44
POTÊNCIA HIPHOP - P. 46
QUANDO A VOZ PRETA ECOA, A CIDADE ESCUTA - P. 50
ENTREVISTA COM LIL URYSSE - P. 55
ALBOOM - P. 67
RECOMENDAÇÕES DE LEITURAS - P. 71

um resgate de nossa
ancestralidade musical
ancestralidade musical um resgate de nossa


Texto por Guilherme de Lima Pereira Silva
Nascido na maior cidade do interior do Brasil, o campineiro Marcos Alberto Simplício é uma daquelas presenças que sentimos antes mesmo de ouvir a primeira palavra. Mestre Griô de capoeira Angola, músico, educador cultural, fundador do Centro Cultural Crispim Menino Levado, contador de histórias e ativista do movimento negro, ele é uma ponte viva entre passado e futuro, entre o canto dos ancestrais e os batuques que ainda ecoam nas esquinas do presente.
Na Estação Cultura de Campinas, fui recepcionado muito bem pelo mestre no seu recanto de música, ancestralidade, capoeira e história. Assim como já foi lindamente retratado na 5ª edição da Revista Capoeirando, Griô é aquele que carrega o tempo nos olhos e o canto de nossos ancestrais na voz: e foi exatamente isso o que senti nesse encontro com o mestre. Foi uma honra e um prazer conhecê-lo. Nossa conversa sobre musicalidade, música negra, capoeira e batuque foi um aprendizado sobre a essência dessas manifestações e sobre a profundidade da resistência através da arte.
Com seu berimbau, suas composições e seu carisma, Marcos Simplício me convidou a mergulhar na essência da capoeira Angolaexpressão artística, política e espiritual de origem africana - me guiando num emocionante percurso na musicalidade negra e na sua importância em uma roda de capoeira. Em um de seus versos mais marcantes durante nossa conversa, Simplício cantou:
EU SOU PRETO, PRETO
EU SOU GUERREIRO DE ANGOLA, DE GUINÉ
SOU POVO MANDINGA, SOU DO CONGO E DO AXÉ
E HOJE EU VIVO NA CIDADE
EU SOU DOUTOR NA UNIVERSIDADE
EU SOU PRETO, PRETO
Nessa letra, que soa como manifesto, está condensada toda uma trajetória: da senzala à sala de aula, do berimbau à biblioteca, da resistência à reinvenção. É um canto de orgulho e pertencimento, uma reafirmação da beleza e da força da identidade negra na reparação e reconhecimento cultural, algo muito presente em seu CD “Encanto e Magia”.
A musicalidade, nesse universo, não é plano de fundo: é fio condutor, é alma, é por ela que a ginga ganha sentido, que o corpo vira palavra e que o jogo se transforma em celebração e em memória A bateria, como é chamado o conjunto de músicos em uma roda, se une em um grupo de instrumentos que carregam muita história de resistência. Cada instrumento pode ser tocado por cada capoeirista, desde que haja muita dedicação, estudo e responsabilidade.
A roda completa é composta por três berimbaus (o Gunga, o Médio e o Viola), além do pandeiro, reco-reco, agogô e atabaque. Um combinado de batuques, harmonias e timbres se junta e compartilha vivências nessa simplicidade aparente que esconde uma riqueza ancestral: cada instrumento tem sua função, sua voz, sua energia.
“Canta, canta, minha gente, deixa a tristeza pra lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar”
Guiados pelo mestre no Gunga, os músicos contam histórias, homenageiam nossos ancestrais e conduzem a ginga como quem dança com o invisível, como quem sabe que a cultura é semente viva que brota no corpo e floresce na comunidade, transformando a roda em um terreiro de cura, de resistência, de encontro.


Texto de Paula Senatori
Parece que as mãos se apoiam no chão.
Mas é no solo da ancestralidade que as palmas sustentam o corpo.
Não, não é o corpo que sustentam. É a vontade de viver que se apoia ali.
Os pés giram no ar.
Não, não é no ar que eles giram.
É no sopro de cada antepassado quefez da roda a sua força.
Não, não gingam dois naquele jogo. Gingam milhões de pessoas e suas dores, suas lutas, suas alegrias.
Não, não é o agora e o ontem apenas. Ofuturo também está ali no bater do pandeiro, na melodia rítmica do berimbau, no atabaque que carrega toques imemoriais.
Não, não é apenas uma roda de capoeira.
É a roda da vida que vibra em cada corpo.

Resistência, Acrobacias e Política nas
Resistência, Acrobacias e Política nas
Rodas de Itapeva, Baixada Santista e Campinas
Rodas de Itapeva, Baixada Santista e Campinas
Texto porAlessandrodeSouza, BrunoShimooka, Lucas Estevese Matheus Pierri
Para abordar a capoeira como representação histórica e artística, é importante ouvir vozes praticantes, e por isso, buscamos informações de três regiões do estado de São Paulo: Campinas, Baixada Santista e Itapeva. Esta matéria explora como a regionalidade dita não apenas os estilos de jogo, mas também o lugar que a capoeira ocupa em cada comunidade.
Itapeva
Capoeira: de Projeto Público a Acrobacias Aéreas
A capoeira em Itapeva tem uma história recente, mas marcante. Heverton Moreira, capoeirista local, explica que a prática chegou com força através de um projeto de aulas nas escolas municipais, durante a gestão do prefeito Cavani. "Foi um período de grande disseminação. Muitos mestres vieram para a região, e a capoeira ganhou espaço", afirma Heverton. Com ofim do projeto, porém, o apoio público desapareceu, e o cenário da capoeira precisou se reinventar. O legado que permaneceu foi um estilo acrobático e dinâmico, herdado do Mestre Beto, um dos pioneiros na cidade "A capoeira aqui tem muitos movimentos aéreos, muita malícia no jogo rápido", descreve o capoeirista.
Mas o desafio atual, segundo ele, é evitar que a prática perca sua essência histórica e cultural. "Tem que tomar cuidado para não virar só espetáculo. Capoeira é luta, é defesa pessoal, é cultura", reforça.
Baixada Santista
Entreo Preconceitoe a Roda como Refúgio
Já na Baixada Santista, a capoeira enfrenta barreiras diferentes. Lucas Pereira, praticante em Santos, relata que, apesar do poder de união que a roda proporciona, ainda há estigmas enraizados, e é preciso lutar diariamente por uma maior representatividade. "Dizem que capoeira não é luta, que é coisa de 'macumba' É uma ignorância que a gente combate no dia a dia", afirma.
Afalta de espaçosfixos é outro obstáculo. "Treinamos em locais emprestados, sempre com receio de perder o lugar", conta. Ainda assim, há conquistas: ele é um dos beneficiados pela bolsa-atleta da prefeitura de Santos, um apoio raro para capoeiristas "Mas muitos grupos não têm nada A gente luta para atender crianças da periferia, masfalta estrutura básica", lamenta. E conclui: “Aqui, a capoeira é resistência pura contra o preconceito, a falta de recursos e a invisibilidade.”


Ancestralidadee Educação na Roda Universitária
Em Campinas, a capoeira destaca-se com contornos políticos e pedagógicos. Daniele Ramirez, conhecida como Dani Pirce, é professora e fundadora da Casa Matriarca, espaço que une capoeira, arte e discussões sociais. "Aqui, a capoeira éferramenta de letramento racial, de conexão com a ancestralidade", explica.
A cidade, com sua riqueza cultural e presença universitária, abriga uma cena diversa: desde a Capoeira Angola até vertentes contemporâneas, com rodas em praças, eventos no SESC e até participação em greves estudantis na Unicamp.
Mas Dani aponta para a contradição: "A capoeira é viva, masfalta apoio contínuo Muitos projetos são temporários, e mestres tradicionaisficam à margem". Para ela, ofuturo depende do reconhecimento da capoeira como prática educativa essencial, não apenas como entretenimento.
Primeiramente, a falta de políticas públicas consistentes. Seja pelo abandono de projetos, como em Itapeva, ou pela escassez de editais, como em Campinas, a capoeira ainda luta por reconhecimento institucional e societário.
Em segundo lugar, a batalha contra estereótipos, batalha contra ofato de ser reduzida a mero espetáculo acrobático ou a ser associada a preconceitos religiosos. A capoeira enfrenta, assim, barreiras que tentam distanciá-la de suas raízes de luta e de resistência.
E, por fim, o poder transformador da roda. Em todas as regiões, ela se mantém como espaço de troca, aprendizado efortalecimento comunitário. É nesses momentos que a cultura se transmite, que histórias são compartilhadas e que a capoeira continua a brilhar, mantendo o gingado e desafiando o tempo e as adversidades enfrentadas durante todo o processo de luta pela valorização da capoeira.
Como bem disse Dani Pirce, de Campinas: "Enquanto houver roda, haverá história sendocontada". E é nessa persistência que a capoeira paulista encontra sua força plural, diversa e, acima de tudo, resistente.



Texto de Paula Senatori
Era uma noite daquelas de verão Daquelas que o calor, a alegria e as roupas leves convidam para a rua. Eu já tinha compromisso. Seria um compromisso diferente: naquela noite eu tocaria numa roda de samba. Não, eu não nasci no samba, nem no samba me criei. Mas desde que a política no Brasil tomou melhores rumos que o samba chegou com todo vigor na minha vida. Sempre no condado de Barão Geraldo. Sempre assistindo, cantando, dançando. Mas como eu disse, naquela noite seria diferente. Diferente também era o lugar, mais para o centro de Campinas: Bar Flor da Lua – lugar alternativo, em uma Campinas sempre muito conservadora Um bar de esquina, a roda ficaria a céu aberto. Ajudei a carregar cadeiras e observei enquanto tudo ia sendo montado: do som, do abajur no centro, ao vaso de arruda: as mãos dela iam colocando tudo em seu lugar. Quase como um último movimento, essas mãos ajeitaram um estandarte em panofino onde se lia: samba da camaleão Isso se dá não apenas pelo fato de muitas mulheres estarem tocando, mas também pelos discursos que Sheyfaz durante as apresentações, trazendo a luta contra o patriarcado como uma presença explicitamente marcada. A Camaleoa é ela, Shey, e essa é sua roda de samba. Rodas de samba têm dono? Sim, foi o que eu descobri. Mas essa roda não apenas tinha uma dona, mas seus integrantes eram, na sua maioria, novatos, como eu. Não apenas novatos, mas mulheres. “Uma roda de protagonismofeminino”, sempre diz Shey ao se apresentar com seu grupo Seja ali, em um bar, seja naquele lugar quefoi a ocupação Lúcia Petit no centro de Campinas, seja em diferentes sindicatos, nessa roda o número de mulheres é sempre muito grande.
Um ambiente normalmente dominado por homens, normalmente bastante machista, a roda de samba, sob o comando de Shey, tem outra configuração. Isso se dá não apenas pelofato de muitas mulheres estarem tocando, mas também pelos discursos que Sheyfaz durante as apresentações, trazendo a luta contra o patriarcado como uma presença explicitamente marcada.
Ela traz essa necessidade porque essa foi a sua luta ao tentar conseguir espaço nas rodas de samba de Campinas, sempre muito machistas, conforme o que ela conta. Mas Shey é marrenta. É briguenta: seu áries com ascendente em áries não deixa dúvida de que Marte é o deus da guerra e que os arianos são seusfieis escudeiros. Mas o papo aqui não é astrologia... Porém, gesto de quem é regido por marte é bem assertivo – efoi o que senti naquela roda de samba em homenagem ao dia das mulheres trabalhadoras No intervalo, Shey me disse: “quando voltarmos, você pega o surdo.”
Eu já tinha resposta: “não vou tocar o surdo! Eu fico tensa, eu erro, não consigo entrar na música, não quero ”
Na última oficina, eu tinha me dedicado ao surdo e Shey tinha conseguido me ensinar a entrar em uma música específica que estávamos ensaiando. Mas eu não me achava capaz de repetir ofeito da aula em uma apresentação, em uma roda aberta. Shey tentou me convencer a tocar Eu estava irredutível Voltamos do intervalo. Sentei no meu lugar com os ins Naquela primeira noite, no Flor da Lua, minha alegria era imensa. Eu estava ali porque era aluna da Shey efazia a sua oficina de samba: em cada encontro um instrumento, que ela didaticamente nos ensinava a tocar. Nem parecia possível, mas a gente saía tocando.
Ali, na casa dela, bem no coração de Campinas, num quintal que a cada dia parecia mais cuidado, a gente aprendia, a gente errava, a gente ria... E o samba ia nascendo em mim Eu ia reconhecendo as letras, decorando versos, me arriscando nos instrumentos. “Você é ousada”, me disse Shey mais de uma vez. É, eu errava muito. Porque aquele lugar tão conhecido do samba me convidava a variações que eu ainda era incapaz de sustentar. Mas como a gente aprende, senão com o erro? trumentos com os quais eu me sentia confortável. Alguns poucos minutos se passaram até que Shey disse no microfone: “Paula, você pode vir para o surdo.” A voz forte e doce. O gesto mais que seguro. “Claro, Shey” – foi o que eu disse E, bastante confiante, com o coração disparado, sentei diante do surdo. Se errei em algum momento? Sim. Mas consegui sair do erro. Toquei
mais de uma música E, satisfeita, alegre, confiante, retornei à minha zona de conforto. Boa professora é também aquela que desafia seus alunos...
Naquela primeira noite, no Flor da Lua, minha alegria era imensa. Eu estava ali porque era aluna da Shey e fazia a sua oficina de samba: em cada encontro um instrumento, que ela didaticamente nos ensinava a tocar. Nem parecia possível, mas a gente saía tocando Ali, na casa dela, bem no coração de Campinas, num quintal que a cada dia parecia mais cuidado, a gente aprendia, a gente errava, a gente ria... E o samba ia nascendo em mim. Eu ia reconhecendo as letras, decorando versos, me arriscando nos instrumentos. “Você é ousada”, me disse Shey mais de uma vez É, eu errava muito Porque aquele lugar tão conhecido do samba me convidava a variações que eu ainda era incapaz de sustentar. Mas como a gente aprende, senão com o erro?
O bonito de uma roda é que, se você errar e estiver atento aos outros, você se encontra novamente – Shey sempre reforça esse aspecto. Na roda, é preciso aprender a estar junto, a tocar junto, a perceber os diferentes instrumentos e até a sorrir enquanto toca, enquanto erra.
É preciso aprender que junto é que existe o samba e que, apesar de sermos todos diferentes, uns mais ousados, outros mais marrentos, a gente pode se unir para dar voz à nossa cultura, para dar voz às mulheres, sempre tão silenciadas. Pode parecer apenas uma roda, mas tem muito do mais forte de muitas vidas que acontece ali.


e fotos por Andréa Martini
Barão Geraldo é um Distrito do município de Campinas, a segunda maior cidade do estado de São Paulo, no Brasil, hoje polo de inovação científica e tecnológica do sudoeste paulista. O distrito cresce três vezes mais do que o município de Campinas desde o ano 2000. Barão Geraldo foi oficializado como vila, em 1953, tendo a vila original se iniciado em torno da estação de trem fundada em 1908, perto das fazendas Santa Genebra e Rio das Pedras; originárias da sesmaria doada ao brigadeiro Luís Antônio, por Dom Pedro I. Hoje sedia a UNICAMP, a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP), a Faculdade de Administração de Campinas (FACAMP), o ‘Polo de Alta Tecnologia’, que inclui o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), dentre outras importantes instituições da Arte, Ciência e Tecnologia do país. Desde a inauguração da UNICAMP, Barão Geraldo tornou-se, gradativamente, centro irradiador de Ciência, Tecnologia, Cultura e Arte. Como residência temporária ou permanente, finda por agregar, reunir múltiplas linguagens, etnias, países. Visitantes variados de variada procedência.
A população residente atual, chamada por alguns baronenses, integra três ou mais gerações de imigrantes e migrantes Muitos professores e seus parentes ascendentes, aluno(a)s e ex-aluno(a)s. Pessoas-de-fora hoje residentes. Uma população flutuante de dezenas de milhares de pessoas por dia. Quinze bairros compõem hoje o Distrito de Barão Geraldo.
Hoje o Distrito de “Barão”, como é conhecido, possui um dos períodos carnavalescos mais animados do interior de São Paulo, com eventos que duram um mês inteiro. Milhares de pessoas lotam ‘as ruas de Barão’ no período carnavalesco. Ao que parece, seu carnaval de rua está se tornando efetivamente “tradicional” a cada ano que passa. No Distrito há também a ‘Festa do Boi-Falô’, de onde se retirou o nome de um coletivo carnavalesco pioneiro no distrito: o Bloco BerraVaca! que completou 26 anos de existência em 2025. As festas nas ruas de Barão Geraldo são conquistas que, no entanto, ainda sofrem reveses da administração pública.
Possivelmente, o primeiro grupo de danças que se autointitulou como ‘brasileiras’, com sede em Campinas, foi o Grupo de Teatro e Danças Populares Urucungos, Puítas e Quijengues, fundado, pela então professora do Instituto de Artes Raquel Trindade, em 1988, e hoje dirigido por Benê Moraes. O Urucungos foi criado no Instituto de Artes da UNICAMP, e logo passou a ser frequentado não só por alunos, mas por um público de funcionários da Unicamp e da PUCCamp, e de frequentadores de religiões afro-brasileiras. Com a saída da professora do Instituto, o grupo passou a fazer ensaios abertos no chamado “Casarão”: sede, à época, do Diretório Central dos Estudantes (DCE), localizado no centro de Campinas na Rua Quatorze de Dezembro esquina com a Rua Luzitânia. Conheci o grupo através de Henrique, que era porteiro de edifício e filho-de-santo dedicado. Notório saber e conhecedor das danças afro-brasileiras e práticas de orixás e casasde-santo, como a de Mãe Dango de Oxumarê, Sra. Eunice de Souza, que eu visitava em sua companhia. Henrique era também assistente na Lavagem das Escadarias da Catedral de Campinas (e que no ano de 2025, se encontra na sua 40ª edição) ainda hoje realizados por Nengua Dia Nkisi (Mãe Dango) e Mametu Corajacy (Mãe Corajacy)
No entorno, havia também escolas de Capoeira, como a do Mestre Cícero Gabriel Pinto, aprendiz de Mestre Tarzan (Sr. José Alves Borges, Capoeira Beira-Mar) e então vinculado à escola Cordão de Ouro de Mestre Suassuna (Sr. Reinaldo Ramos), que mostrava a tentativa de integração entre os estudantes e moradores da cidade que não estavam ligados à universidade. A sede localiza-se há mais de trinta anos na Rua César Bierrembach, n. 135, no centro de Campinas. Hoje, o coletivo cultural se denomina Capoeira de Valor. Os grupos de Capoeira visitavam-se mutuamente e frequentavam a UNICAMP, onde eram realizados muitos batizados. Geralmente, no ginásio coberto localizado na Faculdade de Educação Física - FEF, reuniam-se os mestres do centro da cidade e dos bairros circundantes. Lembramo-nos de Sebastião dos Santos - Mestre Maya, que batizou a primeira autora na FEF, e seu contramestre à época Antônio Carlos Godoy, hoje Mestre, ambos da Academia de Capoeira Coquinho Baiano. Era 1992.
Já as rodas e escolas de Capoeira em Barão, das quais participei, com o mestre Salvador Alves de Sousa com Mestre Jogo de Dentro (Jorge Egídio dos Santos, Semente do Jogo de Angola), incentiva a integração entre os(as) estudantes e moradores de bairros circundantes do distrito de Barão, como São Marcos, Santa Mônica e do município de Campinas, com Sumaré e Paulínia-SP. Vale lembrar que também na década de 1990 havia na Unicamp um grupo de Capoeira, considerado à época como uma ‘angola artística’ e de estilo muito próprio, dirigida pelo mestreTulé - José Antônio da Silva.
Mediante cursos regulares e currículos abertos, especialmente nas Áreas de Humanidades e Artes, participamos de outras experiências disciplinares, porém, avant-garde. Era-nos permitido e incentivado assistir a cursos de outros Institutos e Faculdades, através da modalidade ‘Aluno Especial’ e/ou mediante as chamadas disciplinas eletivas. Nas Ciências Humanas, por exemplo, o currículo permite até duas disciplinas eletivas em qualquer Instituto da Unicamp E, assim, os futuros profissionais ‘unicampenses’ podiam ter aulas de artes em geral, plásticas, corporais, da cena, fotografia e música com experts do calibre de Fernando Faro produtor musical do

Saia Rodada - Experiências Pessoaise Redes
Foi apenas em 1994, através da comadre e palhaça Margarida - Adelvane Néia de Lima (Humatriz Teatro), com quem fazia capoeira com Mestre Salvador, que fiquei sabendo das aulas com o Mestre Tião Carvalho; maranhense de Cururupu - MA, residente em São Paulo - SP. Em julho de 1992, o músico e compositor Tião Carvalho ofereceu uma oficina de danças maranhenses a um grupo de professores/educadores do Projeto Sol, em Paulínia-SP. Quem iniciou as tratativas com o Mestre foi a educadora Nilza Alves de Souza, que à época trabalhava na Secretaria de Educação de Paulínia-SP; cidade vizinha ao distrito de Barão Geraldo e Campinas.
José Antônio Pires de Carvalho, o ‘Tião’, é músico e dançarino, natural de Cururupu-MA. Fundador e mantenedor do Grupo Cupuaçu - Centro de Estudos de Danças Populares Brasileiras, com sede em São Paulo-SP. Também participou do grupo Piaçaba e Cazumbá, em São Luís - MA, Saia Rodada, em Campinas-SP, Retalhos de Cultura Popular, em Londrina - PR, Encaixa Couro, em Belo Horizonte - MG, e Flor de Babaçu em Brasília - DF. É Caboclo-de-Pena do Bumba-Meu-Boi do bairro da Madre-Deus, também em São Luís - MA. Em 2024, comemorou quarenta e cinco anos de carreira. É também compositor, com músicas gravadas por Cássia Eller, dentre outros artistas
As aulas com Tião foram gerando um grupo de seguidoras que se organizaram num grupo para espetáculos em danças brasileiras. Diz a lenda que o nome do Grupo surgiu da boca do próprio Tiãozinho, como é carinhosamente chamado, durante uma apresentação já em andamento. O grupo ainda não tinha nome, mas já se apresentava em espetáculos de rua ou para palco-plateia. O Grupo Saia Rodada teve várias produtoras ao longo do tempo, como Renata Bittencourt Meira - hoje professora da Universidade Federal de Uberlândia - e Tânia Valeriano, uma das educadoras responsáveis por trazê-lo de Sampa. Vale ressaltar que ambas, ao produzirem inicialmente as aulas, apoiaram a criação de um grupo que se manteve ativo por uma década (1993-2004), mesmo após a saída de ambas. O Saia Rodada apresentou-se em dezenas de eventos e festivais, com diversos espetáculos. Salvo engano, a primeira apresentação deste ‘grupo’ foi no estacionamento do IFCH/UNICAMP, ainda em 1994. Fez-se pela primeira vez um espetáculo com base nas chamadas danças-de-caixa, especificamente o Cacuriá, para o público campineiro.

Mediante um passo básico e sequência de evoluções em duplas, trios e individualmente, o Cacuriá tem a suave cadência das caixas do divino e belas músicas que entretém com graça. Animava incrivelmente seu público que, aos poucos, se tornou cativo e seguia o Grupo para participar, pois Tião sempre abria a brincadeira para o público ao final. Ele ainda realizava várias cirandas antes de encerrar o espetáculo que, mais das vezes, era realizado na rua. No repertório havia ainda uma coleção de Sambas-de-Roda. Muitos espectadores, assim, tornaram-se brincantes e, depois, intérpretes no Grupo.
Hoje, muitos dos então intérpretes do Grupo Saia Rodada mantêm grupos relacionados às artes corporais, musicais e cênicas. Em 1995, o já então batizado ‘Grupo de Danças Brasileiras Saia Rodada’ participa do Primeiro Festival de Folclore de Paulínia-SP Com o espetáculo de rua: O Cacuriá do Saia Rodada. No ano seguinte, participou do Segundo e último Festival de Paulínia com O Bloco do Baralho. Em 1996, o grupo volta a Paulínia com O Bloco do Baralho: trata-se de uma brincadeira carnavalesca extinta em São Luís-MA, uma ‘dança-morta’ - realizada até meados do século XX, que foi proibida por reunir pessoas consideradas de índole duvidosa Jogadores de cartas, prostitutas e estivadores do cais do porto em São Luís - MA. Tornada crime por incitação aos jogos de azar.
Em 05 de fevereiro de 1997, uma parte do Grupo Saia Rodada forma um cortejo e brinca o Baralho pelas ruas do centro de Campinas com participação da autora. É ideia original dela e de Fabiana Victor à época, “produtoras” do Saia Rodada. É o começo de uma ação de rua, sem cordão e com participação livre do público que, literalmente, entra na brincadeira para fazer história.
Já em 2001, Tião Carvalho e o Grupo Saia Rodada ganham o Prêmio Estímulo de Auxílio Montagem em Dança, oferecido pela Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo para a obra inédita O Bloco do Baralho. O projeto teve como ensaiadores Grácia Navarro e Lilian Vilela, pesquisa documental desta autora e produção de Fabiana Victor O espetáculo reunia composições coreográficas do Carnaval maranhense, ainda desconhecidas pelo público paulista: blocos-de-sujos, fofões, blocos de ritmo e a própria ‘dança do baralho’: considerada extinta, naquele ano 2000, em São Luís.
O Saia Rodada realizou outras montagens posteriormente, como a Dança do Lelê das Águas Doces e Marinhas, concepção de Grácia Navarro e direção de Tião Carvalho. O Grupo, enquanto existiu, participa anualmente das festas de Bumba-Meu-Boi do Morro do Querosene, dirigido por Carvalho e mantido pelo Grupo Cupuaçu e moradores da Vila Pirajussara, Butantã, em São PauloSP, há trinta anos.


Essa efervescente cena cultural e os interesses variados dos alunos à época, muito se relacionam à efervescente cena atual, especialmente a cena carnavalesca e artística, no Distrito de Barão Geraldo. No entanto, as relações com as chamadas culturas e movimentos populares também são intensificadas ao longo das décadas de 1980-1990. O alunado de então, que majoritariamente provinha da classe média e ‘branca’ da região Sudeste, procurava novos termos para a convivência social-pessoal-interétnica
Há, pois, um influxo de pessoas, coletivos e grupos que fomenta e da qual emerge a cena atual no Distrito de Barão Geraldo Na década de 1990 havia variada inspiração – a Capoeira, as Danças Brasileiras, as aulas da Universidade que permitiam um diálogo entre alun@s e seus respectivos cursos. Não havia mentor, mas sim uma criatividade livre, pulsante. Uma massa de gente ‘sem cordão’; integrada numa ‘rede’, como diria Bruno Latour. Rede que ligava corpos, desejos, música, dança, política, (des)esperanças, surdos, atabaques, capoeiras, universidades, amores, parentescos... Cordão invisível. Vívido. E vigoroso.
Numa síntese, do que se viu e para onde se vai, estão explícitos aspectos positivos deste carnaval popular em Barão Geraldo. Sem esquecer quem veio antes, como é praxe na ‘economia criativa’ atual E, sem esquecer quem vem depois. A vida segue. As vacas mugem e berram. Saias rodam, rodopiam. Voltaremos ao assunto, numa próxima oportunidade.

O movimento cultural campineiro é um ponto significativo da cidade, tão delicado quanto potente, irrigado por muitas mãos determinadas e sugado por descasos. Muito se fala do movimento cultural de Campinas não ser suficiente, mas só quem o vive e o constrói sabe exatamente a força que pulsa na rede que o estrutura. São jovens sonhadores, mães, anciãos e crianças tecendo relações e ações que possibilitem que a arte e a expressão do povo continuem pulsando nesse território e que nós nos mantenhamos vivos.
As respostas podem ser diversas, de acordo com diferentes perspectivas - a realidade é sempre complexa. Em Itoju Ará, 6ª edição da revista, falou-se sobre como a comunidade e as relações são fundamentais para a manutenção da nossa saúde e da vida ao nosso redor. Já em Costuras do Tempo, olhamos para a importância da mulher na construção da comunidade e, por consequência, da sua cultura.
5 mulheres se encontraram para falar de suas trajetórias e perspectivas de vida, sendo líderes culturais. Cada uma traz consigo uma história única dentro do território, salvaguardando conhecimentos, movimentando pessoas, cuidando de muitas outras, criando artes e comunidades - sejam elas pequenas ou grandes - mas, sobretudo, construindo e vivendo suas vidas.

É multiartista e mulher de muitas vozes: negra, mãe, rezadeira, cantadeira, atriz. Nascida no sertão maranhense e residente de Campinas há muitos anos, movimenta a arte de Campinas com força e sensibilidade através da dança, da música e do teatro. Nil atua também como uma das Promotoras Legais Populares, que defendem os direitos das mulheres.

Historiadora, urbanista e mestra jongueira. Neta de Dito Ribeiro, lidera com firmeza e afeto a Comunidade Jongo Dito Ribeiro, na ocupação e preservação da Fazenda Roseira.
Seu trabalho articula tradição, território e política cultural, sendo uma das principais vozes na valorização da cultura afro-brasileira em Campinas.

Coordenadora do Acampamento Marielle Vive e liderança no movimento por moradia e soberania alimentar. Atua na construção de uma comunidade solidária e agroecológica, onde alimento, cultura e educação andam juntos. Integrante do MSTe do coletivo de mulheres As Marielles, fortalece o cuidado com a terra, com as pessoas e com a vida das mulheres da comunidade.

É uma das vozes mais presentes na cultura hip hop de Campinas. Integrante das Casas de Cultura Tainã e Urucungos, ela promove encontros, oficinas e ciclos urbanos quefortalecem a cena local e ampliam espaços de expressão para jovens periféricos. Reconhecida como referência na construção do hip hop na cidade, Cibele conecta arte, luta, solidariedade e educação no cotidiano comunitário.

É educadora, ativista cultural e presidenta da Casa de Cultura Urucungos, Puítas e Quinjengues. Filha de Rosa Pires e do mestre Alceu Estevam, fundadores da casa, cresceu entre tambores e saberes populares. Atua com crianças e jovens das periferias, fortalecendo a identidade negra por meio da arte, da oralidade e da ancestralidade.

OQUE ACONTECE SE ESQUECEMOS DE NÓS MESMAS?

QUEM CUIDA DE QUEM CUIDA?
QUAISOS LUGARESQUE NOS ENCONTRAMOS?
COMOAQUELASQUE VIERAM ANTES NOSACOLHEM E MOTIVAM?


dentro do movimento uma possibilidade de transformação e reestruturação de comunidades.
O movimento que nasceu na década de 70, nas quebradas dos estados unidos, preencheu o tempo e o propósito de muitos meninos e meninas ao redor do mundo.
Quem já ouviu que “O Hip Hop salva vidas”?
Em uma rima existe uma nova visão, uma motivação pra sair da cama, em uma tag existe o senso de pertencimento e resistência nos encontros de break há ad disciplina e a dedicação - o hiphop é um lugar onde se pode reconstruir identidades, retomar territórios e fortalecer perspectivas. O Hip Hop é tecnologia.
Mas, justamente por ser fruto da sociedade e da junção de pessoas, ele não está livre de conflitos e necessidades de reavaliação. Seu palco sempre foi a cidade - transportes, muros, praças locais de encontro - e aqui cabe o questionamento:
Se vivemos em uma sociedade machista, onde mulheres sempre foram submetidas a domesticação e a submissão, de diversas maneiras e recortes, em uma dinâmica ditada por recortes de classe e raça: como se torna possível a presença e a integridade de minas e monas no Hip Hop?
Nas próximas páginas vamos conhecer uma parte das organização realizadas por mulheres da cena 019, que tem marcado a história cultural de Campinas e seus arredores.

No dia 26 de maio foi comemorado a aniversário de 2 anos da Batalha Estação da Rima. A batalha mais legal organizada pelas minas é um marco na história do hip-hop de Campinas, sendo organizada por mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ a Estação da Rima representa passos gigantes dentro da nossa cultura. Desde o impacto de uma equipe inteira protagozinada por pessoas historicamente marginalizadas - até mesmo dentro do próprio movimento hip-hop - até a coleta de absorventes, a mobilização realizada pela Estação da Rima não só expõe as questões das quais precisamos cuidar, mas também é o próprio cuidado em ação.
Se o conhecimento e a união são pilares estruturais do hip-hop, se os espaços de encontro e diálogo são cruciais para o desenvolvimento da autoestima e a identidade de muitos jovens, o resultado de assistirmos mulheres sendo empresárias, produtoras, mcs, fotógrafas, comunicadoras, de estarem sobre o palco falando sobre suas realidades, denunciando suas dores e materializando seus próprios êxitos, é no mínimo, termos mais meninas e mulheres com novas perspectivas de possibilidades e realizações, é a possibilidade de um respiro em meio a opressão.
Walleria Simoni, ao conversar sobre a importância de um evento como aquele, contou que o que mais brilhou os seus olhos foi a imagem de uma criança dançando e brincando em segurança, regada por boas referênciasvocê pode ouvir o áudio na íntegra a baixo.
O aniversário da Batalha Estação na Rima foi uma alegria no peito de todos que torcem a favor da movimentação, dos que sabem dos desafios de manter a cultura viva em uma cidade tão elitizada e cristalizada em dinâmicas tão antigas, foi um presente para o seu público e o brilho merecido de todas as envolvidas.
Não nos tiram a habilidade de sonhar e muito menos de nos encontrarmos para tornar nossos sonhos ação. Essa é mais uma semente.

BATALHA ESTAÇÃO DA RIMATE RESPONDE





MAMILOS POÉTICOS É MOVIMENTO.
PORQUE AARTE NÃO PARA, PULSA.
PORQUE A PALAVRA NÃOSE PRENDE, SE ESPALHA.
PORQUE OCORPO NÃOSE LIMITA, DANÇA.
SOMOS RITMO, VERSO,TRAÇO E IDEIA.
SOMOSO ENCONTRO DAS RUAS, DASVOZES, DAS MARGENS.
OQUE NOS MOVE NÃOCABE EM UM NOME FIXO, É EXPANSÃO, ÉTROCA, É RESISTÊNCIAVIVA.
SE A POESIA PRECISA DE ESPAÇO, NÓS SOMOSA RUA.
SE OSOM PRECISA DE ECO, NÓS SOMOSOGRITO.
SE AARTE PRECISA DE CORPO, NÓS SOMOSO
MOVIMENTO -NUS
Mamilos Poéticos é um coletivo movido pelo propósito de proporcionar a meninas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ a inserção e a permanência no hip-hop. Refletir sobre quais são as barreiras que nos afastam da realização dos nossos sonhos e da participação ativa em nossas comunidades é um compromisso de quem deseja abrir espaço para uma nova realidade possível.
Quando pensamos na formação da nossa sociedade, não podemos negar que nossas meninas e mulheres enfrentam uma série de ataques, desde os mais silenciosos até os mais cruéis.
Diante dessa realidade, cabe o questionamento: quais são os caminhos para retomarmos nossa integridade?
MINIDOC
MAMILOS POÉTICOS
2 ANOS DE RESISTÊNCIA


De onde veio a motivação desse projeto?
qual sonho ele surgiu?
O Projeto Potência Hip-Hop nasceu do desejo de somar forças com a trajetória de artistas e profissionais criativos que atuam na cena do Hip-Hop. A frase “O Hip-Hop salva vidas” foi uma das grandes inspirações para dar forma a essa ideia
Eu já sonhava há tempos em realizar um projeto cultural que unisse troca de conhecimento, formação prática e um encerramento interativo e participativo. Ao alinhar esses elementos com o universo do Hip-Hop, tudo fez sentido.
Nos dois encontros formativos, desenhados intencionalmente para gerar rede, troca e novas possibilidades, as participantes tiveram acesso a conteúdos e vivências que ampliaram seus horizontes. Já no encerramento, reunimos as participantes das oficinas e abrimos as portas para o público, gratuitamente, para vivenciar na prática os elementos do Hip-Hop dança, música, desenho, escrita e muita potência
Além dessa motivação inicial, o Potência Hip-Hop também foi construido para marcar oficialmente a chegada da Tarimbo Cultural ao mundo, e se tornou ainda mais especial por ter sido pensado por mulheres e para mulheres. Desta primeira edição, novas iniciativas já estão ganhando forma e fortalecendo a rede que construímos durante o projeto
O Potência Hip-Hop foi realizado em formato híbrido e estruturado em duas etapas principais. Na primeira, aconteceram dois encontros formativos com seis participantes, reunindo cinco oficinas complementares: Reconhecimento das Potencialidades
Política, Direitos e Hip-Hop
Escrita Criativa e Expressão Artística
Marca Pessoal
Planejamento deTrajetória
Na segunda etapa, tivemos o encerramento da jornada formativa: uma tarde aberta ao público, repleta de atividades interativas, com a participação especial da MC Soffia, que compartilhou sua trajetória artística e nos inspirou com sua presença e história.


E como você se sente por ter produzido essa formação e quais são suas vontades daqui
Realizar o Potência Hip-Hop me trouxe enorme satisfação profissional e uma alegria pessoal difícil de colocar em palavras. Desde que comecei a atuar com produção cultural em 2021, carrego o desejo de materializar um projeto autoral e a realização do Potência foi um importante marco nessa jornada.
Essa experiência abriu meus olhos para novas possibilidades de atuação e de contribuição com a jornada criativa de outras pessoas. A partir dessa construção, sigo com mais vontade de ampliar o alcance do projeto, realizar novas edições, explorar outras linguagens culturais e criar mais oportunidades para que ideias e talentos ganhem o mundo de forma estruturada e sustentável.



Texto por Celso Niger e fotos por Lavinnya de Assis
No coração da Estação Cultura, onde outrora o trem levava corpos, agora a arte traz histórias. No dia 26 de julho, Campinas parou pra escutar quem sempre teve muito a dizer.
A Feira Cultural Julhodas Pretas fez sua segunda edição com a força de quem sabe que ofuturo é ancestral. E ali, no calor da quebrada reunida, Dustin Maia e Nyak acenderam o palco com o show UNYDUS.
Nãofoi só música. Foi oração rítmica. Foi manifesto em tom maior. Quandoocorrevira verso eles não vieram do centro. Vieram com ele no alvo.
Vieram das bordas que sustentam a cidade, das madrugadas no estúdio improvisado, dos cadernos cheios de ideia e das noites em que a arte era o único plano Dustin e Nyak transformaram dor em batida, riso em composição, e colocaram tudo no palco como quem joga flor no asfalto: pra nascer algo novo mesmoquandodizem que nãodá.
O EP “Se é importante pra você, invista!” é o grito cantado de quem não tem tempo pra esperar salvador, edital ou permissão. No palco, cada verso carregava um recado pra quebrada: não abaixa a cabeça, afina o micefala alto.
Ela égestora, cantora, preta e jovem. E isso incomoda. Nyak é dessas quefala doce, mas gesticula como quem comanda navio em mar bravo. Com 24 anos, já lidera projetos, distribui funções e planta futuro. “Sou autodidata. Nãofui na faculdade dos ricos, masfui na escola do território. E ali, eu aprendi tudo que sei.”
Enquanto uns colecionam diplomas, ela coleciona impacto.
E ainda sorri Eleétécnicodesom.Também écantor.Também é não-binário.Também é preto.
Dustin carrega caixas, mas prefere empilhadeiras. Porque não romantiza o perrengue. Já viu muita gente se machucar achando que ser técnico é sofrer em silêncio. “A gente quer estrutura. Quer respeito. Quer outro tipo de produção: mais digna, mais humana, mais leve.”
E se o microfone cortar, ele sabe ligar do zero.

Mas o que corta mesmo é o racismo diário. “Já me chamaram pra ser assistente enquanto uma pessoa branca sem experiência era a técnica principal. Nofim, quem salvou o show? Nós.”
Entre um beat e outro, a denúncia
Durante um grande evento de tecnologia, a equipe da Catalisadora Maisfoi confundida com prestadores de serviço. Um dos colaboradores, homem preto com uma câmera na mão, foi mandado tirar fotos como sefosse funcionário do evento Nem boa noite teve
Mais tarde, uma mensagem: “Oi. Me envia asfotos.”
Sem “por favor”.
Sem “quem é você?”
Sem nem perguntar se ele era ofotógrafo. Nyak não deixou passar.
“Essa câmera não é extensão de um uniforme. É ferramenta de luta.”
E foi.
Julhodas Pretas, palcodefuturo
Enquanto isso, a Feira Cultural borbulhava. Com roda de conversa, desfile, empreendedoras, mães com crianças no colo, batuque ecoando entre as pilastras da estação.
O Movimento Rosalina, que organiza a feira, sabe bem o que está fazendo: transforma territórioem templo, cuidadoem política ecultura em potência econômica.
E ali, diante de tudo isso, Dustin e Nyak nãofizeram show. Fizeram história
UNYDUSé isso:
É quando a arte não pede permissão.
É quandoo palcovira quilombo.
É quando a voz preta ecoa e a cidadeescuta.
Seé importante pra você, invista.
Mas invista deverdade: em quem cria, em quem transforma, em quem vem de longe pra deixartudo mais perto.


E N T R E V I S T A
Lil Urysse é um artista de rap indígena, vindo da Terra Indígena do Xingu. Recentemente, apresentou na ADUNICAMP o Rap em Defesa do Xingu!. Também já se apresentou no Festival do Futuro. Nesta matéria, ele é entrevistado sobre suas criações.
Entrevistador: Como você vê o papel do rap na resistência indígena?
Urysse: Eu vejo como uma ferramenta de luta Para mim, o rap é como se fosse arco e flecha pra denunciar tudo o que tá acontecendo ali no nosso território. E eu acho que o grande problema da nossa comunidade é a marginalização, tipo, não tem espaço, não tem espaço de voz dos jovens dentro desse movimento. Tudo que acontece, o slam e o rap, é uma forma da gente ganhar visibilidade, de ganhar voz, é isso!
Entrevistador: Você já recebeu comentários negativos sobre os temas que aborda?
Urysse: Sim, teve bastante, principalmente nas redes sociais. Quando eu comecei a postar os vídeos rimando, fazendo freestyle, tipo, pintado assim, com cocalzinho, aí teve bastante Quando eu postava, teve bastante comentários de pessoas não indígenas, falando coisas racistas e preconceituosas. Diziam que indígena não pode rimar, que rap não é lugar de indígena. Na verdade, eles nem usam "indígena", usam “índio”, “pajé”, essas coisas. Teve um comentário que eu lembro bem: “Você não pode fazer rap, tem que fazer dança da chuva.” Dança da chuva nem existe dentro da nossa cultura, não entendo… De vez em quando fico pensando nisso... como assim, dança da chuva? Tem muitas pessoas que não aceitam ver indígena fazendo rap Dizem que a gente não pode usar roupa. Por exemplo, quando eu posto alguma coisa no TikTok usando tênis Jordan, falam: “Você não pode fazer isso, você tem que se pintar.” Essas pessoas estão acostumadas a ver os indígenas com trajes tradicionais, tipo cocar, colares e tudo.
Mas quando veem um indígena diferente, com um estilo diferente, não aceitam. E também não aceitam o indígena fazendo rap, poesia, outra forma de expressão e dizem que a gente não tem mais cultura. Eu acho isso muito errado. Eles não entendem que a cultura indígena está em evolução. Eles acham que a gente tá no passado, andando peladão no mato, mas, na real, a gente tá aqui na cidade, fazendo arte e trabalhando em outras profissões também.
Entrevistador: Você acha que o fato de o rap ter vindo de uma cultura já marginalizada influenciou na sua escolha de usar o rap como gênero musical de luta indígena?
Urysse: Foi exatamente isso o que me influenciou, mano. Quando eu comecei, eu tinha um professor não indígena na aldeia. Aí eu perguntei a ele sobre o rap, sobre a resistência do rap. Aí ele falou que vem lá da gringa, contou toda a história. Eu falei "caraca! a gente pode usar o rap pra abordar as coisas que tão acontecendo!”. Ele me ajudou bastante nesse processo.
Depois disso, eu fui pesquisando sobre a história do rap, sobre beats, sobre subgêneros do rap. Eu acho que isso não dá pra fazer no sertanejo, falar da realidade, da luta, do desmatamento, poluição, colocar isso em cima da batida de forró ou sertanejo... acho que não combina. Por isso escolhi o rap pra abordar essas coisas, pra denunciar tudo o que tá acontecendo ali.
Entrevistador: Como você vê a presença indígena no cenário do rap brasileiro?
Urysse: Mano, eu vejo como resistência. Porque, tipo, a gente não tem espaço dentro desse rap nacional. A gente luta bastante pra ganhar visibilidade, mas, mesmo assim, não tem tudo o que a gente merece. E tem artistas indígenas muito bons, que produzem músicas fodas. A gente grava as vozes na aldeia mesmo, depois manda pra outro indígena mixar. Ele faz a mixagem, masterização e tudo mais. Aí, depois, eu mando a capa É realmente produzido por jovens indígenas Toda nossa música é feita por nós mesmos. E eu acho que a gente podia ganhar visibilidade, podia ganhar tudo o que a gente merece por esse trabalho. Mas, por enquanto, a gente é muito apagado desse rap nacional. E é isso, mano. Uma forma de resistência, de luta. A gente quer ocupar esse movimento de rap Pô, espero daqui pra frente, mano, ocupar e ganhar mais visibilidade. Ganhar tudo o que a gente merece!

“MANO, EU QUERO SEGUIR A VIDA ARTÍSTICA, PRODUZINDO TUDO QUE EU GOSTO, FAZENDO MÚSICA.
Entrevistador: Como é o seu processo de composição? Você incorpora elementos da língua ou tradições kuikuro nas suas composições?
Urysse: Eu comecei a escrever com uns 12 anos, quando descobri a existência do rap, do freestyle, das Batalhas de Rima e tal. Aí comecei a acompanhar e me apaixonei, mano, pelo movimento. Decidi escrever também. Comecei a acompanhar o movimento do rap indígena, do Bruno MC, que é um dos pioneiros do rap indígena aqui no Brasil. Aí tive a ideia de fazer o rap na nossa língua também, na língua kuikuro, que é do tronco linguístico karib Comecei com 12, tudo na língua indígena, mesmo no começo. E, quando completei 15 ou 16, comecei a usar a língua portuguesa. Eu estudei bastante, li muitos livros, estudei poesia, escrita... tudo pra dominar a língua portuguesa e fazer rap nessa língua também. E, agora, eu faço em duas línguas. No rap, na minha música, eu misturo versos e estrofes na língua kuikuro e na língua portuguesa. Tem uma música que a gente produziu com duas línguas indígenas e mais o português Ficou em três línguas, mano E eu faço isso pra mostrar nossa língua pro mundo, porque tem muitas pessoas, principalmente as não indígenas, que não têm acesso à língua e cultura indígena. E a gente produz essa música pra chegar nessas pessoas. Talvez assim a gente possa ganhar apoio, respeito.
Entrevistador: Que artistas te influenciaram bastante?
Urysse: Mano, eu escutava bastante Eminem e outros artistas internacionais que meu pai ouvia. Mas eu nem sabia o que era rap ou hip hop na época, só escutava mesmo. Desde que me entendo por gente, eu gostava bastante, entendeu? De rap, da batida. Eu repetia a melodia da música, tipo... era eu.
Na época, não tinha celular, não tinha internet Pra você ter ideia, a internet só chegou durante a pandemia, bem recente. Aí, quando tive meu primeiro celular - na verdade, um tablet, lembro que fui com meus pais pra cidade e ficamos lá uma semana. Durante esse tempo, baixei vários vídeos do YouTube, músicas e batalhas de rima. Acho que isso me inspirou bastante. Eu fazia batalha de rima com meus primos na aldeia, e foi assim que me apeguei ao movimento do rap.
Também pesquisei bastante sobre o rap nacional. Aí descobri Racionais, Sabotage, Criolo, Haikaiss, Oriente, Projota na época de 2016, 2017.
E também fiquei sabendo da existência do rap indígena. Como falei, o BMC, que eu já conhecia, surgiu em 2009, mas só fui descobrir depois, com uns 15 ou 16 anos. Lá no Mato Grosso, não tem esse espaço de rap, é mais voltado pro agro, sertanejo, forró. Então é difícil ter acesso ao rap. Aí eu pensei: mano, vou fazer rap na aldeia. É algo novo dentro da nossa comunidade Ainda hoje, tem algumas pessoas que criticam, que falam que eu tô acabando com a cultura, que é coisa de branco e tudo mais. Mas eu vejo esse movimento como uma nova arma pra gente.
Tem uma frase que eu uso, que é: “Antigamente, nossos antepassados lutavam com arco e flecha Hoje em dia, a gente luta com caneta e papel.” É isso, mano. Eu vejo isso como uma nova arma que a gente usa pra denunciar tudo o que tá acontecendo: desmatamento, poluição, entre outras coisas. Foi assim que comecei a produzir música. Minha inspiração vem da causa indígena mesmo.
Entrevistador: A visibilidade da arte indígena tem crescido nos últimos anos? E como você vê isso?
Urysse: Sim, mano, eu acredito que tem. Porque, quando a gente lançou a música, a gente saiu em várias matérias, jornais e tudo mais. Páginas de Instagram divulgaram bastante o primeiro lançamento da minha carreira. E é isso, mano, eu acredito que tem. Porque teve alguns relatos dos artistas que eu conheci, que já começaram há bastante tempo, que não tiveram essa oportunidade de divulgar, de gravar as músicas. E como a gente tem home studio lá na aldeia... Eles não tiveram essa oportunidade de gravar dentro da aldeia mesmo Pra ir na cidade é bem difícil, chegar e ficar lá alguns dias, ter contato com os produtores, com os beatmakers. Agora, mano, a gente já tem. Eu tô falando do meu território, Xingu. Porque a galera que eu conheço, mano, os povos de outra região - sim, povos indígenas, eles já tiveram bastante tempo de contato com o mundo de fora, com as pessoas não indígenas e com a internet também. Mas a gente teve, assim, bem recente, o contato com a internet, com o mundo de fora e tal. E eu eu já conheci bastante gente que desistiu por causa da dificuldade mesmo de achar beat, de gravar música.

Tô falando das pessoas da minha região, que eu conheço. E agora a gente, graças a Deus, tá conseguindo levar a nossa arte, mesmo com dificuldades. A gente fica juntando dinheiro pra investir na música, tipo pra pagar beats, pra pagar mix, master, pra pagar capa - que é caro, mano, bem caro mesmo É por isso que leva bastante tempo pra gente lançar, porque a gente fica juntando dinheiro pra conseguir ter lançamento. E a gente já saiu em várias matérias. Isso nos ajuda também bastante, tipo, a levar a nossa arte pra frente, pra chegar nas pessoas que não têm acesso à cultura indígena
Entrevistador: Como seu trabalho é recebido dentro e fora da sua comunidade?
Urysse: Então, mano, no começo, quando eu comecei a fazer slam e o rap dentro da minha comunidade, comecei bem novinho, bem criança ainda. Então eu recebi bastante críticas, falando que eu tô acabando com a cultura Assim, pessoas mais velhas não aceitavam eu fazer o rap ali. E eles me chamavam de má influência, porque eles não deixavam os filhos andarem comigo, porque eu era má influência. Eles enxergavam o rap como se fosse um perigo. E, no caso, eu, que tava ali, levando esse rap pra aldeia, para as crianças ouvirem. E... mano... Teve um dia que eles me chamaram pro centro da aldeia. Toda a comunidade me chamou, e eles falaram pros meus pais que eu tô acabando com a cultura, que eu não posso fazer isso, que eu sou má influência pros filhos deles, que eu fico chamando os filhos pra batalhar, pra fazer as coisas, tal. Aí, por esse motivo, mano, eu desisti do rap. Eu fiquei uns dois - acho que um ano - sem ouvir rap. Eu entreguei o celular pro meu pai. Só fiquei com notebook, sem internet, nada. Queria esquecer a existência do rap. Aí comecei a escutar sertanejo, que é uma coisa que eu não gostava, que eu não gosto até agora. E comecei a ouvir hip-hop, tentando esquecer a existência do rap. Entendeu? E, mesmo assim, não esqueci. Aí eu voltei a produzir, fazer freestyle escondido em 2020, no final de 2020.
Aí, tipo, eu gravei um videozinho e coloquei no TikTok. Eu apaguei o Instagram, o Facebook e postava escondido no TikTok, porque as pessoas da minha aldeia não tinham TikTok. Somente as pessoas de fora viam. Aí, por esse motivo, eu comecei a produzir vídeos escondido, assim. Eu ia fora da aldeia pra produzir, pra gravar o videozinho, pra postar no TikTok E foi assim que a galera me conheceu. Eles entraram em contato comigo assim, no TikTok mesmo. Me mandaram mensagem e tal e aí eu consegui ter acesso ao beatmaker. E, assim, comecei a produzir a música, a primeira música da minha carreira mesmo. Eles me mandaram o beat. Aí, comecei a gravar, mesmo com as críticas das pessoas, das pessoas mais velhas ali. Eu entendo o lado deles, que são resistentes, que ficam ali valorizando a cultura, a língua e tal. Eu entendo muito bem. Mas eles não entendem também que eu tô fazendo a mesma coisa, tipo, levando a cultura, lutando e mostrando tudo que a gente tá passando ali pro mundo, mano, pra saber.
E, realmente, mano, eu tô conseguindo, eu sinto tudo que eu tô conseguindo levar. Tipo, fazer agora esta entrevista, mano, já é uma divulgação pra gente, mano, porque eu sonhava com isso. Eu sonhava sair em várias matérias, tipo, fazer a apresentação e tal. E agora, mano, eu tô realizando isso, graças a Deus. Tipo, levando tudo que acontece ali: desmatamento, que é ameaça, assim, grande ameaça pra gente É isso, mano. Eu acho que no começo eu sofri bastante. Eu passei por crises por causa disso. Mesmo assim, voltei. E é isso, mano. Agora, atualmente, quando eu chego lá na aldeia, é tudo diferente. Minha aldeia é no Xingu e o meu território é dividido em quatro partes: tem Alto Xingu, onde eu moro; tem Médio Xingu, Baixo Xingu e Leste Xingu Aí, quando acontece o movimento, eu vou lá. E a galera, jovens da minha idade, me recebe falando que eu sou inspiração pra eles, que estão fazendo a mesma coisa dentro das suas comunidades. Falo: caraca! Então eu percebo que o ABD é o caminho para esses jovens ganharem a voz também. E é isso. Mas... e, agora, as pessoas que me criticavam bastante lá no começo - principalmente meus tios e talagora eles aceitaram, mano. Eles entenderam, eles começaram a entender a importância desse movimento, mano Sim Tipo, eu falo bastante de luta, de resistência, da língua. E, tipo, eles... eles, no começo, achavam que eu ia fazer a mesma coisa dos não indígenas, que produzem trap pra falar de sexo, dinheiro, joia. Mas eu peguei isso e transformei em outra coisa. Tipo, pra falar da luta.
Entrevistador: Como foi pra você participar desses eventos? O da Adunicamp e, antes disso, o Festival do Futuro?

Urysse: Foi uma grande oportunidade quando eu fui me apresentar em Brasília. Eu tava de boa no sofazinho. Aí eu tava, na época, no Rio de Janeiro, passando férias, também produzindo um EP Recebi uma mensagem dizendo que a gente ia ter a apresentação lá na posse do Lula. Então, caraca! Tipo, a gente só ficou... tipo, eu comecei a lançar as músicas com o meu grupo no começo de 2022 e, no primeiro semestre de 2023, eu já tava me apresentando ali no palco principal. Falei: caraca! Eu chorei bastante. Tipo, tudo aconteceu muito rápido. Então esse movimento, mano, de rap, é uma força. Tipo, a gente ganha visibilidade. É por isso que eu falo: ser poeta me permite escrever o que não consigo dizer. E, realmente, mano, a gente ganha visibilidade, a gente ganha voz
Eu comecei, tipo, com 16 anos. Eu já tava me apresentando com 16. Então, é isso, mano. Pra você ver, tem bastante, assim, jovens indígenas com a mesma idade que estão marginalizados, que não têm voz, até na própria comunidade. Então eu vejo o rap, como eu faleivou repetir de novo - é uma arma pra gente. Uma nova arma.
Entrevistador: E quais são os seus planos pro futuro?
Urysse: Mano, eu quero seguir a vida artística, produzindo tudo que eu gosto, fazendo música. Também tentando escrever. Eu tenho paixão por contos, eu escrevo bastante contos Também quero seguir essa carreira. E também eu penso em seguir a vida acadêmica mesmo, e talvez voltar pra minha comunidade e ajudar a galera lá. Tipo, fazer um monte de coisa, talvez dar aula. É isso. Mas tudo que eu quero mais é seguir a vida artística mesmo. Tipo, produzir mais álbuns, EP, gravar clipes e melhorar a qualidade da nossa música. E ganhar mais recursos.
Entrevistador: O que te inspira?
Urysse: A influência na música é a minha realidade mesmo. Tudo que eu vivo ali no território, na aldeia, as coisas que eu pratico - tipo dança, rituais, entre outras culturas que a gente faz lá, tudo isso me inspira bastante. Também a luta indígena me inspira bastante. A causa indígena, tudo que acontece aqui no Brasil, me inspira. Causa indígena, lutas, demarcação de territórios indígenas. Eu tenho uma poesia que eu escrevi assim: “A minha casa é uma ilha, Oxingu ” Quer dizer que nosso território é tipo uma ilha. Tem desmatamento em torno do nosso território. Só tem floresta alta, mata alta no território. Aí, quando você sai do território, é tipo um deserto ali. Tipo lavoura, não tem nada. Não tem beleza. Eu acho que essa é a grande inspiração que eu tenho: abordar os temas que nos afetam ali.
“ESSA
QUE EU TENHO: ABORDAR OS TEMAS QUE NOS AFETAM...”


foto de gasalucinacao

O multiartista, compositor, brincante, documentarista das manifestações populares, rabequeiro e artivista de rua ManoELtu Marreta vem bombando com seu 1º disco: "ALBooM!". Na trilha dos tambores e torés ancestrais ManoELtu mistura sonoridades rurais com elementos afro-latino-americanos contemporâneos, tudo isso acompanhado de letras recheadas de crítica social.
Em suas 14 faixas o disco conta com 42 músicos de varias gerações e nações, além de 11 artistas visuais que fazem de ALBooM! um trabalho triplo, sendo também um álbum de figurinhas e para colorir.
O disco foi gravado em trânsito pela América Latina. Como músico itinerante ManoELtu viajou por vários estados brasileiros e países latino-vizinhos, sempre de forma autônoma, buscando levar suas canções de forma acessível, firmando parcerias com grupos e artistas locais.
Nessa caminhada desenvolveu seu trabalho musical, uma colagem de ritmos, inspirações e sons, na busca da síntese entre o popular e o moderno, misturando elementos do bumba-meu-boi ao rock, da salsa ao forró, entre outros. Desorganizando para organizar.
Dentro da sua pesquisa ManoELtu se utiliza de instrumentos rústicos, cavados por mãos muito habilidosas, adquiridos pelo caminho e que dão características peculiares a sonoridade que desenvolve.
Entre os instrumentos, os mais presentes são a rabeca, tradicional da cultura caiçara, confeccionada pelo grande mestre Zé Pereira de Cananéia e um pandeirão, tradicional do bumba-meu-boi, feito por Zé Pretinho de São Luis do Maranhão. Tais elementos se somam a guitarras, baixos, distorções, samples e outras ondas elétricas. "O futuro é ancestral" é o lema que conduz o disco.
Agora ManoELtu Marreta está novamente na estrada para os shows de lançamento, "a idéia é retornar aos lugares que fizeram parte das composições e levar o disco a novas localidades" planeja o artista. As apresentações contam com um time incrível de músicos, artistas das mais diversas formações e experiências, representando uma rede que foi se formando pela estrada, reafirmando a pluralidade da música 'améfrikana' e suas possibilidades.

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O livro é uma autobiografia abolicionista, um dos primeiros relatos escritos por uma mulher negra escravizada nos Estados Unidos. Harriet Jacobs descreve sua vida desde a infância até conquistar a liberdade, denunciando não só a violência da escravidão, mas também as formas específicas de opressão que recaíam sobre as mulheres negras: assédio sexual, exploração do corpo, separação da família e falta de direitos sobre osfilhos.
Fanon, psiquiatra e intelectual martinicano, analisa como o racismo estrutural e o colonialismo afetam profundamente a subjetividade da pessoa negra Ele mostra que o racismo não é apenas uma questão social ou política, mas também psicológica, interferindo na forma como negros e brancos se percebem e se relacionam.

A obra éformada por11 histórias de mulheres que se entrelaçam em uma narrativa conduzida pela própria autora, que se coloca como personagemouvinte. Cada relato traz dores, resistências e esperanças de mulheres africanas em meio a um contexto marcado por machismo, colonialismo, violência, pobreza e desigualdade, mas também por força, solidariedade e capacidade de transformação.
Paulina Chiziane dá voz às mulheres silenciadas, revelando suas lágrimas não submissas, mas rebeldes - contra uma sociedade que as oprime

Kilomba mostra que o racismo cotidiano é a continuação da escravidão em novasformas, e que só é possível superá-lo descolonizando a linguagem, a memória e o conhecimento, reconhecendo plenamente a voz negra.


(Do ensaio “ATransformação do Silêncio em Linguagem e Ação”, 1977)
