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Revista Capoeirando no.8 (Mar/26)

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ÍNDICE

1. CULTURA DE EXISTÊCNIA

2. MESTRE IZAEL

3. GRACIELA SOARES

4. TÂNIA MARIA

5. CORPO ARTÍSTICO

6. SARA RESENDE

7. ENTRE OS VENTOS E AS ANDORINHAS

8. CENTRO CULTURAL RIO-AFRICA

9. VIVÊNCIA INDÍGENA

10. GUILHERME DE ALMEIDA

11. O SAMBA PAULISTA

12. OLHOS D'ÁGUA

Texto por Christian Rodrigues

O Brasil é um projeto que deu certo, diz Luiz Antônio Simas, a nação bem sucedida baseada na exploração colonial, genocídio indígena e escravização negra, dentre otras coisitas mas. Tá tudo nos conformes. Mas assim como ele, aqui também é mais honesto dizer que não é do Brasil que a gente gosta, mas da brasilianidade É essa que define a identidade sobretudo do povo (popular mesmo!) que habita esse território, que cria e vive coisas incríveis. A brasilianidade é a ginga na volta pra casa depois de um dia suado de trabalho, o samba na caixa de fósforo, as sonoridades, contradições, afetos e subversões cotidianas. É capoeira, mato ralo que cresce nas frestas e aí que mora o perigo... Através das frestas cresce o mato que toma conta de tudo.

O povo que outrora servia apenas de objeto de estudo, passa a ser sujeito e fala com sua própria voz sobre si e sobre sua visão de mundo. A dita cultura popular já não necessita da validação da academia, talvez nunca tenha necessitado, mas agora se explicita isso. Pelo contrário, hoje a universidade precisa mais do povo pra se reinventar, pluralizar e ganhar em diversidade, que é um aspecto decisivo pro desenvolvimento tecnológico, científico, conceitual e cultural, do que o povo precisa da universidade. E é disso que trata esta edição da Revista Capoeirando, da brasilianidade enquanto sujeito altivo. Emprestando o vocabulário de Diogo Nazareth, da cultura popular que já superou a fase de resistência e agora é dá seu grito de existência. Cultura de existência! Daí por diante, nem um passo pra trás!

assista ao minidocumentário

FEIRA DA REFORMA AGRÁRIA

E A CULTURA DE EXISTÊNCIA

Mestre Izael

Educação, Ancestralidade e Resistência na Roda de

Entrevista por Gabriel Pinto Costa e Gabriel Borgonove de Oliveira

Em cada toque do berimbau ecoa uma história antiga, de resistência, de corpo e de memória. E, entre tantas vozes que, desde Mestres Bimba e Pastinha, mantêm viva essa tradição, há uma que ressoa com sabedoria, serenidade e força: a voz de Mestre Izael Teixeira.

“VI CAPOEIRA PELA PRIMEIRA VEZ NA DÉCADA DE 60 E, QUANDO VI, ME APAIXONEI.

AQUILO FICOU NA MINHA CABEÇA E NÃO SAIU

MAIS.”

Desde então, Mestre Izael vem escrevendo sua trajetória com o corpo, com o canto e com o exemplo, deixando uma marca em quem já dividiu com ele uma roda de capoeira

Em São Carlos, interior de São Paulo, é fácil ouvir falar de Mestre Izael. Seu nome circula entre gerações de capoeiristas, professores e amantes da cultura popular. Não por acaso, ele recebeu o título de cidadão benemérito de São Carlos, um reconhecimento da cidade à sua dedicação e contribuição cultural. À frente da Associação Cultural e Desportiva Pena de Ouro, Mestre Izael fez da capoeira mais do que uma arte corporal: fez dela não apenas um modo de resistir, mas também um modo de existir no mundo.

A capoeira, que um dia foi perseguida e criminalizada no Brasil, hoje é reconhecida como patrimônio cultural Mas esse reconhecimento não apagou a luta — luta que se expressa na insistência dos mestres em manter viva a tradição, enfrentando desde a falta de recursos até o desafio de transmitir, em plena contemporaneidade, uma prática nascida da resistência negra Mestre Izael expressa essa luta em um lema que costuma compartilhar com seus alunos: “Enquanto descanso,

carrego pedra”

Mesmo nos momentos de pausa, há trabalho; mesmo quando se descansa, há responsabilidade. Essa metáfora aponta para algo profundo: a capoeira exige o esforço silencioso de quem preserva uma história que não pode se perder E esse esforço está sempre ligado à ancestralidade, às raízes que sustentam o sentido da roda e do jogo.

Em suas aulas, o toque do berimbau é o chamado para a escuta. A ginga, o convite para o equilíbrio. E o canto, o elo que liga o hoje ao ontem. Mas nem só de capoeira vive o homem

Muitas vezes,os treinos se transformam em longas conversas, nas quais ele compartilha histórias vividas, transmite conselhos, ri, provoca reflexões e acompanha de perto as trajetórias dos mais jovens.

Como dizia o poeta Abdias Nascimento,

“A HERANÇAAFRICANA É O PULSAR DE UM TAMBOR QUE NÃOCESSA”.

E é esse tambor que ecoa nas rodas da Associação Pena de Ouro, onde a música, a conversa e o movimento se entrelaçam em um mesmo aprendizado: o de existir com consciência, respeito e alegria.

A Associação Cultural e Desportiva Pena de Ouro, onde Mestre Izael atua há décadas, é hoje um espaço de referência em São Carlos. Mais do que um grupo de capoeira, tornou-se um centro de cultura popular Ali se reúnem crianças, jovens, adultos e idosos, em aulas e rodas abertas à comunidade. O aprendizado vai muito além do movimento físico. Há conversas sobre história, racismo, música e, principalmente, sobre pertencimento. Afinal, quem entende de onde veio sabe melhor para onde quer ir.

Entre uma ladainha e uma ginga, Mestre Izael ensina o que os livros não ensinam: que cultura popular é raiz, é corpo, é voz que atravessa o tempo E que a capoeira continua viva porque há mestres que, como ele, carregam pedra, mesmo quando descansam. Como quem diz:

A

RESISTÊNCIA NÃO ESTÁ APENAS EM LUTAR CONTRA, MAS EM SEGUIR EXISTINDO COM BELEZA

Cantar, sorrir e celebrar são também atos políticos.

Após mais de quatro décadas dedicadas à capoeira, Mestre Izael segue firme: ensinando, acolhendo, orientando. Sua trajetória é prova de que a

resistência não se faz apenas nos grandes gestos, mas na persistência cotidiana. E, sobretudo, demonstra que a capoeira é, antes de tudo, uma celebração da vida uma forma de educar, unir e fortalecer — uma cultura de existência. Enquanto o berimbau canta e a roda gira, ele segue ensinando o essencial: que resistir é continuar gingando.

A VIDA DE MESTRE IZAEL

assista aqui

40 ANOS DE PENA DE OURO: HISTÓRIA E MEMÓRIAS documentário

assista aqui

Poesia por PS Raio Negro

Chorooque nãosei o nome

Asvezessinto

Meu movimentocomogritodos aflitos

É banzode um mundoquetalvez nunca seja visto

Mevistocom as roupasda honestidade, Não precisode aval da cidade,

Ondeolhar noolhoé maldade,

Saudadeé palavra que usa quem sabedar

Se aTerra quer me aterrar lá,

Possosentircom osdedo

Asensaçãoqueé nãoter medo deconfluir.

Dono nem de mim

E oquecomigo pertence, Não meesquece.

Avida, essa revolta noconcreto, Permanece.

A pressa atropela, afaga prece

Em mundode mercadoria, do preço

Meu passoécurto,

Ocantoé alto, oventodança

Odomoé luto

E oque busco... sãoos astroscom quem me alinho,

Em meio aos bico passandoos niño,

Ta no bicodo passarinho.

Balançar a dança do universo.

canto, memória e cultura de existência

por

A trajetória de Graciela Soares se constrói a partir de caminhos atravessados pela música, pela oralidade e pela cultura afro-brasileira. Cantora, compositora, pesquisadora e educadora musical, a artista campineira compreende o canto como território de pertencimento, memória e sobrevivência.

Nesta entrevista, Graciela compartilha sua história, suas pesquisas e reflexões sobre ancestralidade, educação, maternidade, Capoeira e o papel da arte como ferramenta de transformação social, preservando a oralidade e a vivência como fundamentos de sua prática artística.

DA QUÍMICA À MÚSICA: TRAJETÓRIAS ATRAVESSADAS PELA VIDA

Graciela conta que, apesar do envolvimento com a música desde a infância, a arte não aparecia como possibilidade profissional em sua família.

“Eu não vim de uma família que tinha a arte como referência profissional. Apesar de eu ter um envolvimento muito grande na música, eu não tinha o conhecimento de que poderia construir uma trajetória profissional.”

Por conta disso, sua primeira formação foi em Química, em um percurso longo e desafiador, marcado pela busca pelo acesso à universidade pública.

“Às vezes eu penso: ‘Nossa, dez anos da minha vida… Se eu tivesse dedicado esse tempo desde o início ao que eu realmente queria fazer, onde será que eu estaria hoje?’”

Com o tempo, Graciela reconhece que esse caminho contribuiu para sua maturidade pessoal e artística. “Mesmo tendo sido uma trajetória difícil, ela contribuiu para eu ser quem eu sou hoje.”

“FOI

A PARTIR DESSE MOMENTO

QUE EU FUI ENTRANDO MAIS

NESSE LUGAR DA CULTURA DE EXISTÊNCIA, DO QUE É A NOSSA

ANCESTRALIDADE, DO QUE NOS FORTALECE.”

CULTURA DE EXISTÊNCIA E ANCESTRALIDADE

O conceito de cultura de existência se torna mais evidente em sua trajetória a partir da participação no álbum Cultura de Existência, de Diogo Nazaré. A partir desse contato, Graciela aprofunda sua pesquisa sobre ancestralidade e práticas culturais negras.

“Foi a partir desse momento que eu fui entrando mais nesse lugar da cultura de existência, do que é a nossa ancestralidade, do que nos fortalece ”

Essa busca se conecta diretamente ao estudo dos Vissungos, cantos de trabalho de negros escravizados em Minas Gerais. “Quando eu ouvi esses cantos, eu pensei no contexto de pessoas que foram escravizadas e que usavam a música como um meio de sobrevivência.”

Ela destaca também a função social desses cantos como forma de comunicação e resistência.

“A música também era usada como esse meio de comunicação, de passar informações sem que os senhores entendessem ”

VISSUNGOS

O single “Despejo” nasce do diálogo entre a pesquisa dos vissungos e a obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Para Graciela, há uma continuidade histórica entre essas manifestações.

“A força de resistência que existe nos cantos de pessoas escravizadas também está presente na obra da Carolina Maria de Jesus ” Ela ressalta que, mesmo após a abolição, as estruturas de exclusão permanecem. “A violência contra a população negra, a falta de oportunidades e a formação das favelas são extensões da escravidão.”

CORPO,

VOZ E EXPERIÊNCIA

A relação entre corpo e voz é central em seu trabalho artístico. Graciela destaca que o contato com a dança afro foi fundamental para ampliar sua consciência corporal e vocal.

“Quando eu entendi que o instrumento era o corpo todo, a minha voz foi outra.”

Essa percepção atravessa também sua relação com a capoeira, reconhecida como espaço de memória ancestral, ainda que não tenha sido sua vivência principal.

“Eu acredito que tem uma memória de ancestralidade Meu corpo entende aquele movimento.”

MULHER, MÃE, ARTISTA E EDUCADORA

Refletindo sobre sua existência artística, Graciela fala da música como estratégia de sobrevivência e resistência.

“Existe uma força muito grande de sobrevivência na música pra mim.”

A formação em licenciatura ampliou sua consciência sobre o papel social da arte e da educação. “Eu sou professora, eu sou educadora musical, eu sou mãe e eu sou artista. Essas três atuações têm funções sociais muito transformadoras.”

Para ela, a educação deve ser baseada na troca e no respeito. “Para além do conteúdo, existe a referência que você passa a ser.”

“EU

FICO

FELIZ

DE VER QUE A UNICAMP ESTÁ MENOS SÓ BRANCA.”

CAMPINAS, UNIVERSIDADE E RESISTÊNCIA CULTURAL

Ao falar sobre Campinas, Graciela reconhece os desafios estruturais, mas destaca a existência de espaços de resistência cultural. “Esses lugares são os nossos quilombos.” Ela cita a Casa de Cultura Tainã, a Fazenda Roseira e os Urucungos como territórios fundamentais de memória e pesquisa da cultura popular.

Sobre a universidade, Graciela observa transformações importantes. “Eu fico feliz de ver que a Unicamp está menos só branca.” Para ela, é fundamental que a formação acadêmica esteja conectada à realidade social brasileira. “A gente vai atuar no Brasil real, não no Brasil de dentro da universidade.”

ESPERANÇA E CONTINUIDADE

Apesar dos desafios sociais, Graciela sustenta a esperança como prática cotidiana.

“A hora que perder esperança não faz sentido continuar.”

Para ela, a arte e a educação seguem sendo caminhos possíveis de transformação, memória e continuidade cultural.

Esta entrevista reafirma o compromisso da Revista Capoeirando com as culturas populares, a oralidade e os saberes que se constroem na experiência, na memória e na vida cotidiana.

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Na música brasileira, temos diversos artistas que não possuem o reconhecimento que merecem, especialmente quando pertencem a algum grupo marginalizado. Esse é o caso da nossa maravilhosa artista Tânia Maria.

Tânia, uma mulher negra, nasceu em São Luís, no Maranhão, em 1969, e construiu sua carreira como nada mais nada menos que pianista, cantora, intérprete e líder de banda A artista, ainda viva, é conhecida por suas músicas cheias de brasilidade, com influências do samba, da bossa nova, do pop e do jazz, sendo considerada uma das estrelas da música contemporânea.

O diferencial de suas obras são os ritmos inegavelmente brasileiros, que tornam impossível ficar parado, além da sofisticação de harmonias complexas do jazz, que trazem profundidade refletida em sua poesia. Suas músicas cantadas estão muito vinculadas à sua família, refletindo um dos principais valores de Tânia: a família.

Atualmente, está afastada dos palcos, mas sua família mantém sua memória viva, fazendo de tudo para que seu talento não seja esquecido. Juntamente com eles, temos o DUOzimbado, um duo composto por Marina Kono e Amanda Camargo, alunas de música da Unicamp, que realizaram, no ano passado, uma iniciação científica sobre Tânia, na qual reinventaram diversas músicas de sua discografia.

E são justamente essas duas artistas que aceitaram conceder uma entrevista para a Revista Capoeirando, falando sobre seu projeto. Seguem alguns destaques da entrevista:

Bom, meninas, gostaria que se apresentassem e falassem um pouco mais sobre como surgiu o Duozimbado

Marina: Boa tarde, sou a Mari Kono, graduanda em canto popular, e toco vibrafone. Obrigada por nos convidarem para falar sobre a Tânia!

A gente adora falar sobre ela (risos).

Amanda: A gente se autodenomina “Tania Maníacas” (risos), então adoramos a oportunidade de falar mais sobre ela. Bom, o duo surgiu de uma forma muito natural. Eu conheci a Mari durante a nossa calourada e, com o tempo, fomos nos aproximando Um dia, a Mari precisou de alguém para acompanhá-la no piano enquanto cantava e, a partir daí, não paramos mais de tocar juntas. Assim surgiu a ideia do duo: eu no piano e a Mari cantando e tocando vibrafone.

Amanda: Nosso amor pelas obras da Tânia! Conheci ela pela música Yatra-ta, um pouco antes de entrar na Unicamp, mas me apaixonei por todas as músicas que ouvi dela.

Pergunta: O que levou vocês a escolherem a Tânia como artista para o projeto de vocês?

Marina: Eu também. Comecei a ouvir a discografia dela e fiquei obcecada.

Amanda: Por causa disso, tocamos juntas muitas músicas dela e, quando pensamos em fazer um trabalho, foi unânime a decisão de ser sobre a Tânia.

Pergunta: Na opinião de vocês, qual foi o legado da Tânia para a música popular brasileira?

Marina: O legado da Tânia é ser sua própria bandeira. Para nós, mulheres, e especialmente nós, mulheres racializadas, fazer o que amamos e fazer bem é a nossa bandeira. A Tânia foi um dos principais exemplos disso Ela viveu em uma época de ditadura e até se envolveu em problemas com a polícia, e por isso morou fora do Brasil por alguns anos. Ela é esse símbolo, então não precisa ativamente fazer nada, pois seu legado é ser ela mesma e ser foda no que faz, ocupando esse espaço dentro da música brasileira.

Pergunta: No trabalho, vocês realizaram uma releitura das obras. Como foi o processo de criação para respeitar a obra, mas trazer uma inovação mesmo assim? E qual foi o maior aprendizado de vocês?

Amanda: Grande parte do processo é absorver as influências ao seu redor, e fizemos muito isso com as músicas da Tânia E, principalmente agora que já tocamos juntas há bastante tempo, vamos desenvolvendo coisas que são muito a nossa cara, tanto eu no piano quanto a Mari na voz e no vibrafone. A gente vai treinando e tocando, e vão surgindo ideias que são muito a cara uma da outra. Sem falar que a gente transcreveu todas as músicas à mão Ficávamos horas sentadas juntas tentando decifrar o que a Tânia fazia em cada música, para podermos replicar e entender o que ela queria com cada parte.

Pergunta: Sabemos que a música é uma forma extremamente importante de preservação e proliferação de culturas e que a pauta da revista deste mês fala sobre culturas de existência. Como vocês veem o trabalho de vocês nesse projeto como uma forma de existência da cultura negra na música popular brasileira?

Amanda: Acho que grande parte é impedir o apagamento e o esquecimento das obras da Tânia. A família dela mantém muito viva a memória e a obra dela e, como tivemos e temos bastante contato com eles, é muito nítido o quão importante isso é. Não permitir o desbotamento dessa cultura é fundamental, e a música tem muito disso. Vários artistas brasileiros são esquecidos e, com eles, vai embora muita cultura Nosso trabalho é justamente não deixar que isso aconteça com a Tânia. Queremos que todo mundo saiba o quão incríveis são os trabalhos dela (risos).

E, para fechar, deixamos aqui algumas recomendações de músicas de Tâ i lhid l i Yatrata, Valei, Come with Me, Zaza

EXPERIÊNCIAS EM CULTURAS PERIFÉRICAS

“ Quando a arte te toca, é quase inevitável levá-la para a vida. Nasci em meio a arte, cresci ouvindo a música clássica, contemporânea, de musicais, vendo cenários sendo montados e discussões sobre figurinos, sapatilhas, quantos oitos uma música tinha ou mesmo quantos sinais faltava para o grande momento.

Faço parte do mundo da dança desde os 3 anos como protagonista do meu próprio ballet e digo com toda certeza que meu corpo fala por mim quando não sou capaz.

A dança chega em você de uma forma estranha, ela resgata dentro do seu íntimo um sentimento que muitas vezes foi ignorado, colocado de lado, e esbanja ele por cada centímetro da sua pele. Ela pode obedecer uma sequência, acompanhar passos e estar perfeitamente controlada em seu corpo. Ela pode ouvir a música e te tornar autora de movimentos que nem mesmo você sabia ser capaz de reproduzir. A dança conta sua história quer você queira, quer não, por que ela é individual e repleta de vivências que não podem ser reproduzidas No meu caso, a dança apareceu como ferramenta de comunicação dos meus sentimentos muito cedo, dividiu espaço com outras artes corporais como a atuação, foi complementada pelo canto e quando me dei conta, relatar minha existência pela arte se tornou a única forma que faria sentido. Passei por dificuldades e dilemas pessoais, sofri o luto por pessoas amadas e por vidas perdidas, vivi a angústia de não poder mudar o mundo quando mais precisava e contei minha luta em cada “oito” passado em cena, transpirando sentimentos e lágrimas na pele de um outro movido por música ou roteiro, carregando verdades cruas num palco sob os holofotes.

Além dos benefícios óbvios associados a habilidades de comunicação e interação com outras pessoas, a arte foi para mim uma ferramenta de sociabilidade, de interação e de abstração da realidade. Aprendi com aqueles que estavam à minha volta sobre respeito, como resolver problemas de forma equilibrada, como trabalhar em equipe e entender a visão do outro. Vi a dança mudar a realidade de diversas pessoas ao meu redor, desde a forma de se posicionar sobre assuntos diversos até a carreira escolhida para o futuro de cada um.

A arte tem esse poder de transformar o jeito como se vê o mundo. O seu e o do outro.

Dançar te aproxima do outro de uma forma única, mostrando que você não está sozinho em seus problemas e dificuldades, o que auxilia também a encontrar soluções e respostas quando sua mente já não consegue mais buscar. Ela funciona como ferramenta de autoconhecimento, culminando numa luta coletiva para questões comuns. Ela te mostra que você não está sozinho e que muitas batalhas percebidas como suas em momentos de desespero, na verdade são maiores e podem ser lutadas com o auxílio do outro, que não está tão distante quanto parecia no início.

Por isso, a dança, a atuação, o canto e todo o grupo de artes corporais são, para mim, uma forma de expressão cultural que tem potencial transformador inigualável. Com elas é possível não só contar sua existência como mudá-la, encontrando aqueles que por meio da mesma linguagem podem se unir à sua causa, te entender e te acolher. Acredito que a ligação do corpo com tais artes é tão natural quanto o falar e, por isso, entendo a arte corporal como essencial para a ilustração das culturas, mas ainda imprescindível para a transmissão de culturas de existência que permeiam nossa sociedade ”

Um dos exemplos de grupos de dança consolidado e presente na região campineira é a Família Eclipse O grupo, com a maior parte de integrantes da região metropolitana de Campinas, iniciou sua trajetória em 2007, se oficializando como uma associação sem fins lucrativos quatro anos depois. Se denominando como uma grande família, eles se fragmentam em pequenos grupos a fim de acolher melhor uma grande diversidade de pessoas e sonhos Essa fragmentação se dá nos horários e espaços distintos destinados aos ensaios e aulas. As divisões comumente contam com dois responsáveis (sendo um deles um diretor ou coreógrafo e o outro um coordenador) e o decorrer do caminho dos grupos se distingue entre si, alguns possuem aulas abertas, outros realizam audições, ensaios de capacitação, etc Além da presença em Campinas, também atuam em outras localidades, em projetos mais específicos.

O coletivo Vulcana reúne e celebra as mães da periferia de Campinas, ressaltando sua força e resistência que são continuamente postas à prova no cotidiano. É um coletivo voltado para a evolução das mulheres de Campinas, e oferece diversas oficinas focadas principalmente no teatro, elaborando peças destinadas à toda a população. Um dos projetos de maior visibilidade elaborado pelo coletivo é o Espetáculo “Djanira, Mulher mãe do Campo Grande” que salienta exatamente os valores do grupo, sendo uma homenagem à maternidade e seus pormenores, que além disso remonta à ancestralidade que toda a questão carrega, relembrando nomes como os de Dona Deijanir, que atuou diretamente na luta por acesso à água e Laudelina de Campos, que foi pioneira no movimento de trabalhadoras domésticas A encenação conta principalmente com a participação de mães-artistas que fazem parte do coletivo.

Foto - crédito: CRFOTOGRAFIA / divulgação

O coletivo Gargarejo Cia Teatral é formado por artistas que se interessam na produção de arte popular, principalmente focada no prisma étnico-racial, ao refletir sobre colonização versus identidade, utilizando esta indagação para articular a vivência periférica como a protagonista em cena. Em 2014, iniciava sua trajetória em Campinas, por meio de uma parceria com a Universidade Estadual de Campinas para a realização de adaptações de obras literárias - aquelas que constavam na listagem de leituras obrigatórias para os vestibulares mais buscados no país - A intenção era estabelecer uma ponte que conectasse principalmente os jovens periféricos, estudantes do ensino médio, com as obras, notáveis e valiosas à cultura brasileira. Nos anos iniciais, nos quais o coletivo trabalhou principalmente no interior, as principais peças foram: “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, “A Cartomante” de Machado de Assis e “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente.

A porta que se abriu para a adaptação de cenas a partir do olhar do coletivo começou a se revelar em 2015, quando o grupo inicia uma pesquisa sobre “O Cortiço”, que os leva a produzir uma cena focada em Bertoleza - que no romance é uma escrava que vive com João Romão, o protagonista da narrativa. A personagem é explorada por ele que, aproveitandose de sua força e dedicação ao trabalho, a utiliza para constituir seu patrimônio - A cena foi intitulada como: “Bertoleza - uma pequena tragédia”, e se estabeleceu como a largada para o processo de investigação “O Cortiço por elas”, a partir da qual a cia adapta a obra “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo. O projeto posteriormente é apresentado como espetáculos protagonizados pelos personagens femininos presentes na obra Nos anos seguintes o

Pesquisa por

"Algumas vezes no meu dia a dia, entre trabalhos, vivências e inspirações, me pego pensando sobre o que é “existir”.

Não apenas estar aqui, mas ser parte de algo. Parte de uma história, um propósito, ou algum movimento maior que eu.

Acredito que pertencer é algo que construímos juntos. Em gestos e trocas sinceras. Assim nos reconhecemos e entendemos nosso espaço, nosso valor e nossa voz.

E quando alguém se sente visto, reconhecido, algo muda. A pessoa respira diferente e floresce.

E é nesse florescer que o mundo ao redor também se transforma.

Sobre cultivar espaços para que cada um floresça do seu jeito. Porque existir não é só estar no mundo, mas sentir que pertencemos a ele.

Meu nome é Sara Rezende, sou artista visual de Campinas/SP. Meu trabalho se desenvolve principalmente através da pintura sobre tela, e minha pesquisa vem justamente no olhar para o humano. Acompanho processos, histórias e gestos, e comunico de forma silenciosa a sutil presença de cada um

Texto por Estela Luz

Demorei pra entender, mas acho que sou do vento. Gosto de circular — entre pessoas, lugares, linguagens Comecei na música, transitei pela poesia e um dia me demorei mais nas artes visuais. Houve momentos de muita dúvida e angústia com tanto movimento, tantasformas, e tive medo de não pertencer a nada.

Foi assim que encontrei as andorinhas Elas me lembram que o movimento também é casa. Já falo mais sobre isso.

Gosto de histórias.

A transição de carreira foi intensa, cheia de dúvidas e descobertas. Precisei começar do zero, aprender a sustentar um trabalho autoral, entender como vender, como me estruturar.

Nunca achei a vida de artista fácil - nem romântica. Lá no começo, eu acreditava que “dar certo” era uma questão de sorte, como se alguém fosse me escolher Essa síndrome de ser especial aos olhos de alguém importante é uma prisão. Mas às vezes é preciso sefrustrar pra pegar o trem na unha. Pelo menos comigofoi assim. Hoje entendo que é um processo - feito de vento, de paciência e de muitos recomeços.

m 2019, durante uma aula com crianças de oito anos, estávamos criando coletivamente um mural. As crianças estavam indignadas com as queimadas na Amazônia quando uma delas disse: “Nossa, como o ser humano é horrível.” Ficamos em silêncio. Então ela pensou mais um pouco e completou: “Já sei! É como se nossa pintura fizesse um carinho na Amazônia.”

Essa frase me atravessou Foi a memória que deu origem ao mural Sob um céu de andorinhas - a primeira empena pintada por uma mulher em Campinas.

Enquanto pesquisava sobre as andorinhas e as narrativas, descobri que as andorinhasazuis têm hoje dificuldade de chegar à cidade, possivelmente por causa da contaminação por mercúrio na Amazônia. Foi assim que encontrei as andorinhas, e desde então elas estão presentes, de alguma forma, em todos os meus murais.

Depois vieram outras paredes: em 2025, pintei a primeira empena da USP, no prédio da Sociedade Brasileira de Física, e também um mural na Casa do Sol, em homenagem a Hilda Hilst. Em todas essas obras, busco o mesmo: as histórias que inspiram, a memória a ser acolhida - não como algo perene, mas como uma música que vem pelo vento, um acalanto, ainda que os temas sejam, às vezes, densos e difíceis.

No fundo, acho que minha arte é sobre isso: aprender a estar em movimento sem se perder. Seguir o vento, mas também encontrar um lugar dentro dele.

A artista Punka tem origem no extremo leste de São Paulo e atualmente atua em Campinas, onde se destaca como MC, poetisa, arte-educadora, circense e empresária. A sua trajetória representa mais do que música: é uma voz da periferia que assume protagonismo e transforma espaços culturais

No episódeo piloto do Podcast Capoeirando a artista conta um pouco mais sobre sua trajetória, desafios e o poder da poesia na construção de uma sociedade mais sã

Poesia por PS Raio Negro

Desperdicio, Vistoestrupício E forçado aoofício Cedo

Viveo mundo na camada dosdedos

No acalmardos receios, refúgio Busco mesmo

Atanto a vida é um interlúdio, Minhasestóriassãodeestúdios Penso“Uau, Disney"!

Estudosestáticos pela estética, Ética patética deconversaçãosintética, É sintática, peroessin tácticas, sem afeto

Abstrato mesintocompleto

Concreto nem ta no livreto Mevetodoseu olhar maldoso. Eu com sol pertotedeixa ansioso Eu com sal no retoecê'querendo rancar meu osso! Vagabundo não, precisoocioso...

Porquedes-perdicio

Mefez des-perdido Apósodes-prendido Que metornei com desprezo

Pelo seu jeito de torturar meu povo, amor

Tudo que vai volta, amor.

Vocês queriam eu com a peça, agora eu faço as peças, Peço Flor.

Pulsa nas veias que é ver as véinha feliz, Sou pulga na besta que controla atriz, Sou pó...esia e fiz

as asas que cês' me tiraram,

Achei o coração que cê me esconderam,

Voei e provei pra Deus que cês' tava errado, Desde então meus curumim comeram.

A poesia que eu fiz foi o que me fez, amor

Me humanizou, amor.

Pus minha vida nos versos, esses verso se tornou minha vida,

Vivo o que escrevo, e o que escrevo faço vivo, Fui Deus com esses escrito, celestial com meu corpo em dança

Sentir que as trança balança a banza e poder ser no mundo

Mesmo no poço, onde cês' me queria a peça,

A arte foi a ponte pro fundo…

Catei as moedas

Do desejo, hoje sou realizado,

Sigo no processo, sinto o banzo,

Cada arte um manipanso

Quando se põe verdade. Eu também sou um anjo.

Viva a Arte e a Cultura na Base

A arquitetura como meio de valorização da cultura, da existência e memória afrobrasileira.

Texto por Lucas

Pavan e Julia

Sarti

O Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), em trabalho conjunto com a Prefeitura da cidade, organizou um concurso arquitetônico público internacional para a seleção de um projeto, em estágio de estudo preliminar, para um novo centro cultural carioca, intitulado como Centro Cultural Rio-África. Implantado no lote da antiga Maternidade Pró Matre, próximo à região portuária carioca, o concurso propôs a idealização de um espaço de valorização da cultura e da memória afro-brasileira na Pequena África e no Cais do Valongo o qual buscasse reconhecer o valor simbólico cultural do Circuito da Herança Africana, que deslancha nos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Pela competição projetual, buscou-se um espaço que invocasse interpretações sobre a ancestralidade afrodiaspórica, a cultura, o passado e o futuro da região portuária. O requisito para participação neste concurso inaugurou a intenção do projeto: arquitetos e urbanistas participantes deveriam ser autodeclarados pretos ou pardos e naturais do Brasil ou africanos de língua oficial portuguesa.

Um espaço para o povo preto e feito pelo povo preto. Sem mal-entendidos, sem constrangimentos, sem exceções.

Após o trabalho avaliativo de um júri conhecedor da cultura de vivência afro-brasileira, o projeto concebido pelo Estúdio Módulo, cujo autor do projeto trata-se do arquiteto e urbanista, sócio fundador do escritório em questão, Marcus Vinicius Damon, foi declarado vencedor do concurso. A “8ª Edição da Revista Capoeirando: um Tributo à Cultura Popular” teve a honra de conversar com o arquiteto autor do projeto vencedor e entender mais a fundo desde o processo de imersão cultural e descobrimento acerca da riqueza plural da cultura afro-brasileira até as referências projetuais e simbolismos adotados no Centro Cultural Rio-África.

ENTREVISTA Clique aqui para acesso ao podcast da entrevista!

Para que o proposta pudesse ter um partido forte e rico, como se deu o processo de pré-projeto e quais foram os meios de imersão nas diversas culturas africanas?

Durante a pré-produção, houve um grande período de pesquisa. O intuito era realizar uma retomada dos valores intelectuais e culturais africanos para o desenvolvimento de escolhas projetuais - tais como iluminação, materialidade e forma - mas também agregar à proposta uma carga de resistência e caráter simbólico.

Além disso, iniciou-se um processo de busca por referências projetuais africanas, já que, sendo o Centro Cultural Rio-África uma proposta que visa aproximar a afrodescendência brasileira à África propriamente dita, não seria prudente realizar um projeto nos moldes de uma arquitetura brutalista paulista, por exemplo. Nesse contexto, Angela Mingas, arquiteta e pesquisadora angolana, serviu como inspiração em uma de suas palestras. Suas referências a arquitetos africanos, como Francis Keré, David Adjaye e arquitetos contemporâneos adeptos do afroculturismo, influenciaram as escolhas projetuais.

Assim, desenvolveu-se um repertório vasto que contemplou não apenas a cultura de um povo, religião ou grupo étnico, mas um mosaico de saberes para a formação do projeto como é hoje.

De que forma os saberes ancestrais africanos foram incorporados ao projeto e como eles refletem a visão cosmológica desses povos?

Como o projeto não é apenas um ensaio teórico, é preciso que exista um trabalho entre as relações funcionais e simbólicas do edifício, de maneira que a proposta seja factível às exigências construtivas. Nesse sentido, há um enlace entre a ancestralidade africana e o legado da modernidade, principalmente no contexto brasileiro

O enfoque no modernismo brasileiro, como forma de viabilizar a construção, reside no fato de que o moderno no Brasil talvez seja o único no mundo em que existe uma relação muito íntima entre arquitetura e paisagismo, e não uma relação desassociada - como em

Projeto vencedor do concurso para o Centro Cultural Rio-África - Estúdio Módulo

De que forma os saberes ancestrais africanos foram incorporados ao projeto e como eles refletem a visão cosmológica desses povos?

Como o projeto não é apenas um ensaio teórico, é preciso que exista um trabalho entre as relações funcionais e simbólicas do edifício, de maneira que a proposta seja factível às exigências construtivas. Nesse sentido, há um enlace entre a ancestralidade africana e o legado da modernidade, principalmente no contexto brasileiro.

O enfoque no modernismo brasileiro, como forma de viabilizar a construção, reside no fato de que o moderno no Brasil talvez seja o único no mundo em que existe uma relação muito íntima entre arquitetura e paisagismo, e não uma relação desassociada - como em outros países Em outros casos, essa relação foi descrita de acordo com o destaque figura-fundo , sendo a arquitetura algo que sobressai à paisagem.

A relação se torna imprescindível no projeto paisagístico, já que ele exibe a união de espécies brasileiras e africanas. Essa condição evoluiu para o que ficou chamado de Jardim Transatlântico, já que foram incorporadas especies que transitaram entre os dois países ou que permeiam as crenças da cultura africana na questão da cura/rituais. Dessa maneira o jardim passa a ter função não só ornamental como também simbólica.

Além disso, diversas outras referências às culturas africanas foram estabelecidas Na tradição existe o costume do encontro sob o domo celeste, assim criou-se um espaço, que simboliza estrelas e constelações importantes para a ancestralidade africana e brasileira, por meio de luzes no piso da praça. Também foi representada a figura das árvores nas bases da cobertura, elementos vazados (como a claraboia e o vazado da fachada) que produzem efeitos de luz e sombra inspirados no jogo de luz das pirâmides do Egito e espelhos d'água que remetem aos rios.

Como entender o dialogo entre Brasil e África no projeto e o papel dessa relação na manutenção da cultura africana no pais?

A região da Pequena África, localizada na Gamboa e espaço de implantação do Centro, possui diversos pontos turísticos de grande importância cultural, marcos da história de luta e resistência simbólica desse território, conhecido como o maior local de aporte de africanos escravizado do continente americano. Um desses pontos é o Cais do Valongo, Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO em 2017, redescoberto devido às obras do Porto Maravilha, na época das Olimpíadas.

A partir dessa contextualização, o projeto foi pensado para compor esse conjunto, e não se sobressair ao resto do percurso. Assim, o Centro agregaria à área um ponto de permanência em si, já que os outros locais turísticos atendem mais à necessidade de preservação de espaços histórica e culturalmente relevantes.

O projeto tem como princípio norteador a função de ser um ponto de encontro entre culturas, promovendo uma efervescência artística, cultural e social. Sendo assim, o Centro busca ser um edifício de resistência e memória, por meio do partido arquitetônico, das referências projetuais, das materialidades e formas, mas também um local de celebração de ambas as culturas e do sincretismo de tradições brasileiras e africanas

Como o prédio foi estruturado para abrigar as produções culturais, projetualmente falando?

A grande praça central foi projetada justamente com essa função. A proposta

REALIZADO PELO COLETIVO

ETNOCIDADE, O ENCONTRO

REUNIU ARTE, CULINÁRIA ANCESTRAL, OFICINAS, CINEMA E REFLEXÕES SOBRE A PRESENÇA INDÍGENA NO CONTEXTO URBANO

No último dia 7 de março, Campinas recebeu o Festival Vivência Indígena, uma realização do Coletivo Etnocidade que transformou o espaço do Jardim Bom Retiro em um ponto de encontro entre memória, ancestralidade, arte e resistência dos povos originários. Ao longo do dia, o público acompanhou uma programação diversa, marcada por apresentações culturais, oficinas tradicionais, mostra artística, culinária ancestral, venda de artefatos e a exibição do documentário Etnocidade.

Mais do que um evento cultural, o festival propôs uma experiência de aproximação com saberes e modos de vida indígenas que seguem vivos no presente. A programação articulou diferentes dimensões da experiência originária como território, espiritualidade, arte e convivência criando um ambiente de troca entre públicos diversos e reafirmando a potência das culturas indígenas contemporâneas em contexto urbano. A PRESENÇA DE MARIANO M’BYA TAMBÉM DEU AINDA MAIS DENSIDADE AO ENCONTRO. INTEGRANDO A PROGRAMAÇÃO E A CONSTRUÇÃO ARTÍSTICA DO FESTIVAL, ELE SINTETIZOU O ESPÍRITO DA INICIATIVA AO AFIRMAR: “ESSE PROJETO É SOBRE PERTENCIMENTO, IDENTIDADE, ANCESTRALIDADE, ESPIRITUALIDADE, SOBRE AMOR À NOSSA CULTURA.”

CRIADO POR LU AHAMY MYRYM MBYA E AWA MBARETE PATAXÓ CAMACÃ, O

COLETIVO ETNOCIDADE NASCEU COM FOCO EM AÇÕES EDUCATIVAS E, AO LONGO DO TEMPO, AMPLIOU SUA ATUAÇÃO

COMO

ESPAÇO DE APOIO E ACOLHIMENTO

A INDÍGENAS EM CONTEXTO URBANIZADO

.

A iniciativa responde a uma realidade muitas vezes invisibilizada: a presença de diferentes povos originários no município, que seguem produzindo cultura, fortalecendo vínculos comunitários e reivindicando reconhecimento também fora das aldeias.

Entre os destaques da programação esteve a exibição do documentário Etnocidade, que reúne reflexões sobre identidade, permanência, território e o que significa ser indígena em um contexto urbanizado. Na culinária, o festival também apresentou sabores atravessados pela memória e pela tradição, com preparos como peixe, pirão, mandioca cozida, paçoca de banana verde, bolo de milho, bolo de mandioca, doce de banana e farinha alimentos que carregam histórias, vínculos e ancestralidade.

AO OCUPAR A CIDADE COM VOZES, IMAGENS, SABORES E EXPRESSÕES INDÍGENAS, O FESTIVAL VIVÊNCIA INDÍGENA DEIXOU COMO MARCA A REAFIRMAÇÃO DE QUE OS POVOS ORIGINÁRIOS NÃO PERTENCEM AO PASSADO. ESTÃO NO PRESENTE, PRODUZINDO CONHECIMENTO, ARTE, ESPIRITUALIDADE E FORMAS DE EXISTÊNCIA QUE

SEGUEM FUNDAMENTAIS PARA AMPLIAR O OLHAR SOBRE O TERRITÓRIO, A CONVIVÊNCIA E A PRÓPRIA IDEIA DE CIDADE.

Guilherme de Andrade e Almeida nasceu em Campinas, SP, a 24 de julho de 1890. Filho do jurista e professor de direito Estevão de Araújo Almeida e de Angelina de Andrade Almeida, passou os primeiros anos da infância nas cidades de Limeira, Araras e depois Rio Claro, onde realizou os estudos primários. Em 1902 tornou-se aluno do Ginásio de Campinas e, em 1903, com a vinda da família à cidade de São Paulo, ingressou no Colégio de São Bento Formou-se, em 1907, no Ginásio Nossa Senhora do Carmo, dos Irmãos Maristas. Em 1912, concluiu o curso da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, tendo, após a formatura, atuado como promotor público em Apiaí e em Mogi-Mirim. De volta à Capital em 1914, trabalhou com o pai até 1923, quando passou a se dedicar prioritariamente à atividade de escritor, iniciada alguns anos antes.

O NASCIMENTO DE UMAVOZ POÉTICA

Sua estreia literária ocorreu em 1916, em parceria com Oswald de Andrade. Logo depois, vieram seus primeiros livros de poesia, como Nós (1917) e A Dança das Horas (1919), marcando o surgimento de uma voz sensível, musical e em busca de liberdade expressiva. Nesse momento, sua poesia já revelava um impulso essencial: afirmar a própria existência por meio da palavra.

PROTAGONISTA DO MODERNISMO

Em 1922, Guilherme de Almeida teve participação ativa na Semana de Arte Moderna, ao lado de grandes nomes da cultura brasileira. Também colaborou na criação da revista Klaxon, importante veículo de divulgação das ideias modernistas. Além da escrita, destacou-se pela inovação visual, criando capas e anúncios com estética avançada para a época — antecipando tendências da arte e da publicidade modernas.

O AUGE CRIATIVO

Durante a década de 1920, sua produção atingiu o ponto mais alto. Obras como Raça e Meu representam o equilíbrio entre tradição e inovação, característica marcante de sua obra. Nesse período, sua poesia passa a dialogar intensamente com a identidade nacional, valorizando o território, a cultura e a experiência coletiva.

“QUERO A PALAVRA QUE ME É NATURAL, QUE NASCE NO MEU SANGUE, DO MEU BRASIL.”

POESIA E RESISTÊNCIA

Em 1932, participou ativamente da Revolução Constitucionalista, chegando a se alistar como soldado. A experiência trouxe um novo tom à sua obra, mais engajado e cívico. “A resistência que não cede e não se cala.”

Seus poemas passam a expressar não apenas sentimentos individuais, mas também ideais coletivos, transformando a poesia em instrumento de luta e afirmação.

RECONHECIMENTO E LEGADO

Ao longo da vida, Guilherme de Almeida publicou mais de 70 obras e atuou também como jornalista, tradutor e crítico de cinema sendo pioneiro nessa área no Brasil. Em 1959, recebeu o título de “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, consolidando sua importância no cenário literário nacional. Faleceu em 1969, em São Paulo. Sua casa tornou-se, posteriormente, um museu dedicado à sua memória e à literatura.

UM POETA ENTRE O NOVO E O CLÁSSICO

Dotado de grande domínio técnico, Guilherme transitou entre diferentes formas poéticas, conciliando tradição e modernidade. Mais do que um escritor, foi um autor que transformou a poesia em um modo de existir — um espaço de criação, resistência e identidade.

Se o samba for a voz da alma negra no Brasil, em São Paulo ele é o eco de um grito teimoso de existência em meio ao concreto e ao cimento. Por décadas, a narrativa oficial tentou pintar São Paulo como a fria "capital do trabalho", uma metrópole que teria apagado suas raízes culturais em nome do progresso. Essa visão, no entanto, é a negação de uma história rica, ancestral e profundamente ligada à militância e à resistência negra. O samba paulista, em suas diversas manifestações, seja ele o Samba de Bumbo do interior, o Batuque de Umbigada que resgata o ancestral samba banto, ou a poesia urbana dos grandes compositores sempre foi um exercício de contramemória. Enquanto o sistema jogava o povo negro e pobre para as periferias e morros, o samba se instalava nos terreiros da Barra Funda e nos bairros como o Bixiga, transformando a dor do despejo, a vida no cortiço e o preconceito em arte. O samba aqui se manifesta como uma prática de resistência cultural onde a comunidade se reafirma. É a prova de que a identidade, forjada na diáspora africana, não se desintegrou sob o peso das chaminés das fábricas ou da verticalização impiedosa.

Essa Cultura de Existência, no entanto, não tem uma só face. Ela é a luta pela ancestralidade, como na obra-documento de Geraldo Filme (1927-1995). Radicado na Barra Funda, ele rejeitava o rótulodequeSão Paulo nãoteria samba autêntico. Geraldo é o geógrafo da memória negra no samba paulista; suas composições são documentos de história oral. Ele lutou contra o apagamento histórico imposto pela urbanização, registrando em verso não só a vida da capital, mas as festas e tradições de Pirapora e a história de heróis negros invisibilizados, como Tebas, o escravo arquiteto Sua arte é a prova de que a identidade afro-diaspórica, sustentada pela Capoeira, Candomblé e Samba, é a própria baseda cultura deexistência em São Paulo.

Geraldo Filho

Se Geraldo Filme era o guardião da ancestralidade, Adoniran Barbosa (19101982) foi o cronista das feridas urbanas. Figura fundamental, ele utilizou a linguagem popular e o humor para expor as contradições da modernidade, dando voz à massa de imigrantes, operários e desabrigados que construíam a cidade Suas composições, como "Saudosa Maloca" e "Despejo na Favela", são hinosquedenunciam a estrutura social injusta eodestinotrágicodequem não podia pagar o aluguel. O compositor exerce uma resistência ao expor a cultura dos estratos sociais invisíveis, provando que o "falar errado" dos seus personagens era, na verdade, uma fala "bela, poética e corretíssima", plena de identidade.

Porfim, essa cultura é a pontefilosófica que liga a academia à rua, pontotrazido por Paulo Vanzolini (1924-2013). Doutor em Zoologia por Harvard e um dos fundadores da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ele personificava o intelectual que se recusava a ter uma vida em compartimentos fechados. Seu legado está na intersecção única entre a pesquisa científica de alto nível e a poesia da boemia paulistana. Músicas como "Volta por Cima" e "Ronda" não são sobre festas, mas sobre a luta diária para resgatar a moral e o amor-próprio após a queda. A Cultura de Existência, segundo Vanzolini, está na coragem de encarar a dor e ter a força para dar a volta porcima.

CHOREI, NÃO PROCUREI ESCONDER

TODOS VIRAM, FINGIRAM PENA DE MIM, NÃO PRECISAVA

ALI ONDE EU CHOREI

QUALQUER UM CHORAVA

DAR A VOLTA POR CIMA QUE EU DEI

QUERO VER QUEM DAVA UM HOMEM DE MORAL NÃO FICA NO CHÃO

NEM QUER QUE MULHER

LHE VENHA DAR A MÃO

RECONHECE A QUEDA E NÃO DESANIMA

LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA

Aofinal, a jornada pelos mestresdosamba paulista deGeraldo Filme, oguardião da ancestralidade negra, a Adoniran, ocronista do povodesalojado, eVanzolini, ofilósofoda superação nosensina que aCultura de Existência éum verbo ativo.

Embora venham deuniversosdistintos, ostrêsconvergem em alguns pontos. Todosusam osamba para darvoz aoque a metrópoletentava calar. Para ostrês, a músicatranscendeoentretenimentoesetorna um registro: emGeraldo, um documentode história oral da memória afro-diaspórica; em Adoniran, um documentosocial dasferidasurbanas; em Vanzolini, um documentofilosófico da resiliência individual. São Paulo, capital dotrabalhoeda pressa,tem sua alma mais profunda revelada poresse ritmoque, assim como a capoeira,transforma a luta em ginga e a dorem poesia, provandoque a identidadecultural das ruas jamaisserá silenciada

Aofinal, a jornada pelos mestresdosamba paulista deGeraldo Filme, oguardião da ancestralidade negra, a Adoniran, ocronista do povodesalojado, eVanzolini, ofilósofoda superação nosensina que aCultura de Existência éum verbo ativo. Embora venham deuniversosdistintos, ostrêsconvergem em alguns pontos. Todosusam osamba para darvoz aoque a metrópoletentava calar. Para ostrês, a músicatranscendeoentretenimentoesetorna um registro: emGeraldo, um documentode história oral da memória afro-diaspórica; em Adoniran, um documentosocial dasferidasurbanas; em Vanzolini, um documentofilosófico da resiliência individual. São Paulo, capital dotrabalhoeda pressa,tem sua alma mais profunda revelada poresse ritmoque, assim como a capoeira,transforma a luta em ginga e a dorem poesia, provandoque a identidadecultural das ruas jamaisserá silenciada.

OLHOS D’ÁGUA

Existência e resistência, vida e sobrevivência na obra de Conceição Evaristo

Resenha por Mariana Sáber Rezende e Rebeca Cordeiro Yamashita

Publicado em 2014 pela editora Pallas, o livro “Olhos d’água” de Conceição Evaristo é um compilado de 15 contos que abordam temas voltados à ancestralidade, à pobreza, à violência e ao preconceito. Nos colocando no lugar de personagens negras, na sua maioria mulheres, a obra renova a maneira de colocar autora e leitores em diálogo por meio da prática da escrevivência, conceito central daqui em diante.

Em “Olhos d’água” são recriadas com firmeza e sem meias-palavras essas duras condições enfrentadas pelo povo negro do Brasil: “sem sentimentalismos facilitadores, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, os contos de Conceição Evaristo apresentam uma significativa galeria de mulheres… Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura, em variados instantâneos da vida?” (Heloisa Toller Gomes).

Elaborar estórias que se con(fundem) com sua própria história é uma característica marcante de Conceição. “Escrevivência, antes de qualquer domínio, é interrogação. É uma busca por se inserir no mundo com as nossas histórias, com as nossas vidas, que o mundo desconsidera Escrevivência não está para a abstração do mundo, e sim para a existência, para o mundo-vida.” Ao trazer suas experiências para a obra, a ficção evoca seu verdadeiro potencial de transformação. Conceição consegue trazer a essência daquilo que é real, daquilo que há na sociedade, que existe e resiste.

“Uma das marcas dessas narrativas e de toda a minha obra é uma maneira de funcionalizar a comunidade negra de uma outra forma. É uma ficção que traz personagens talvez nunca construídos da forma que construo na Literatura Brasileira.” As personagens “criadas” por Conceição Evaristo são a definição de resistir para existir. A realidade vivida por elas não é fácil, deixando em evidência a luta diária pela vida, para existir em espaços que as desafiam diariamente, onde são marginalizadas pela sociedade. A resistência está presente nas obras de Conceição não só na luta pela existência, mas por contrariar as representações já feitas de personagens negros na Literatura Brasileira, mostrando-os sob uma óptica humana e real “Os dramas existenciais nos perseguem e caminham com as personagens que crio. [...] São personagens ficcionalizados que se con(fundem) com a vida, essa vida que eu experimento, que nós experimentamos em nosso lugar ou vivendo con(fundido) com outra pessoa ou com o coletivo, originalmente de nossa pertença [ ] Creio que conceber escrita e vivência, escrita e existência, é amalgamar vida e arte, Escrevivência.” (Conceição Evaristo, 25 jul. 2020).

RESENHAS DE CONTOS ESCOLHIDOS

Olhos d’água

Nessa história, que dá título ao livro, Conceição Evaristo nos conta sobre uma mulher que se esqueceu da cor dos olhos de sua mãe. Aquele questionamento havia surgido há meses e durante seus afazeres, a personagem insiste em rebaixar o que a inquieta, mas por alguma razão esta é uma pergunta difícil de suportar sem resposta. Numa certa noite esse questionamento voltou de uma forma abrupta, fazendo com que a mulher se sentisse culpada por não saber a cor dos olhos de sua mãe.

pequena precisou dar conta das próprias dificuldades, tendo em razão disso uma adolescência breve. Por sempre estar ao lado de sua mãe, aprendeu a conhecê-la, sabia dizer quando ela estava triste, passando por dificuldades ou quando estava feliz. “Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela… Mas de que cor eram os olhos dela?” A protagonista começou a se lembrar de alguns momentos de sua infância, muitas vezes, quando sua mãe cozinhava, não subia nenhum cheiro da panela, “era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento” e era nesses dias que a mãe mais brincava com suas filhas. Ela inventava brincadeiras para distrair a fome das meninas. Em meio a essa e outras lembranças, a mulher ainda tentava lembrar a cor dos olhos de sua mãe e a cada vez que essa pergunta surgia ela ficava mais atormentada e agoniada por não conseguir chegar a uma resposta. Havia uns anos que ela havia deixado sua cidade em busca de melhores condições de vida, mas naquele momento o desespero por não ter uma resposta a fez voltar para casa, para sua mãe. Assim que chegou e encontrou sua mãe, ela viu “só lágrimas e lágrimas. Entretanto, sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face”. Então ela viu: a cor dos olhos de sua mãe, eram olhos d’água.

“Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma se tornam o espelho para os olhos da outra”. Durante esse jogo, sua filha pergunta muito baixinho, como se fosse algo só pra ela: “Mãe, qual é a cor tão úmida de teus olhos?”

“MÃE, QUAL

É A COR TÃO ÚMIDA DE TEUS OLHOS?”

De uma forma sutil, mas impactante, Conceição Evaristo traz questões acerca das desigualdades sociais, como a insegurança alimentar. Ao longo desse relato, a personagem fala das vezes em que não tinha nada para comer em casa e a mãe inventava brincadeiras para distraí-las da fome. Essa situação tem flutuado nos últimos anos no Brasil, visto que o número de famílias nessa condição varia muito lentamente, nunca rompendo definitivamente com um passado de muitas mães, pais e crianças de olhos d’água.

Apesar de dados positivos nos últimos anos, ainda há pessoas que passam por esse tipo de privação e ficam grandes questões para nós: Será que nos sensibilizamos o suficiente para o fato de alguns vivam e se realizem despreocupados enquanto tantos resistem, sobrevivem? O conto, como dito anteriormente, dá nome ao livro e o título se vale de sua poderosa metáfora. A água que surge dos olhos das personagens é como lágrimas e sofrimento, mas também afeto e ancestralidade, elementos que vão do início ao fim da obra.

Toda a obra de Conceição Evaristo nos faz refletir sobre essas questões, abrindo caminho através da sensibilidade para nos questionarmos, nos percebermos, nos movermos.

A totalidade de Olhos d’água nos coloca em um lugar que, familiar ou estranho a quem se envolve com a obra, é de experimentar a resistência em cada ato, cada gesto, da fragilidade e do amor que persistem duramente contra as adversidades de sociedades carregadas de estruturas coloniais.

Conceição Evaristo avança pela sensibilidade até o ponto que, ao ser tocado com a delicadeza de uma lágrima, nos faz desejar o movimento, a emancipação de nossos corpos, nossas histórias e nossos futuros para além da resistência.

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Revista Capoeirando no.8 (Mar/26) by Revista Capoeirando - um tributo à cultura popular; UNICAMP - Issuu