A VIDA DE MESTRE IZAEL
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40 ANOS DE PENA DE OURO: HISTÓRIA E MEMÓRIAS documentário
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Poesia por PS Raio Negro
Chorooque nãosei o nome
Asvezessinto
Meu movimentocomogritodos aflitos
É banzode um mundoquetalvez nunca seja visto
Mevistocom as roupasda honestidade, Não precisode aval da cidade,
Ondeolhar noolhoé maldade,
Saudadeé palavra que usa quem sabedar
Se aTerra quer me aterrar lá,
Possosentircom osdedo
Asensaçãoqueé nãoter medo deconfluir.
Dono nem de mim
E oquecomigo pertence, Não meesquece.
Avida, essa revolta noconcreto, Permanece.
A pressa atropela, afaga prece
Em mundode mercadoria, do preço
Meu passoécurto,
Ocantoé alto, oventodança
Odomoé luto
E oque busco... sãoos astroscom quem me alinho,
Em meio aos bico passandoos niño,
Ta no bicodo passarinho.
Balançar a dança do universo.
canto, memória e cultura de existência
Entrevista
por
André Santos Silva
A trajetória de Graciela Soares se constrói a partir de caminhos atravessados pela música, pela oralidade e pela cultura afro-brasileira. Cantora, compositora, pesquisadora e educadora musical, a artista campineira compreende o canto como território de pertencimento, memória e sobrevivência.
Nesta entrevista, Graciela compartilha sua história, suas pesquisas e reflexões sobre ancestralidade, educação, maternidade, Capoeira e o papel da arte como ferramenta de transformação social, preservando a oralidade e a vivência como fundamentos de sua prática artística.
DA QUÍMICA À MÚSICA: TRAJETÓRIAS ATRAVESSADAS PELA VIDA
Graciela conta que, apesar do envolvimento com a música desde a infância, a arte não aparecia como possibilidade profissional em sua família.
“Eu não vim de uma família que tinha a arte como referência profissional. Apesar de eu ter um envolvimento muito grande na música, eu não tinha o conhecimento de que poderia construir uma trajetória profissional.”
Por conta disso, sua primeira formação foi em Química, em um percurso longo e desafiador, marcado pela busca pelo acesso à universidade pública.
“Às vezes eu penso: ‘Nossa, dez anos da minha vida… Se eu tivesse dedicado esse tempo desde o início ao que eu realmente queria fazer, onde será que eu estaria hoje?’”
Com o tempo, Graciela reconhece que esse caminho contribuiu para sua maturidade pessoal e artística. “Mesmo tendo sido uma trajetória difícil, ela contribuiu para eu ser quem eu sou hoje.”
“FOI
A PARTIR DESSE MOMENTO
QUE EU FUI ENTRANDO MAIS
NESSE LUGAR DA CULTURA DE EXISTÊNCIA, DO QUE É A NOSSA
ANCESTRALIDADE, DO QUE NOS FORTALECE.”
CULTURA DE EXISTÊNCIA E ANCESTRALIDADE
O conceito de cultura de existência se torna mais evidente em sua trajetória a partir da participação no álbum Cultura de Existência, de Diogo Nazaré. A partir desse contato, Graciela aprofunda sua pesquisa sobre ancestralidade e práticas culturais negras.
“Foi a partir desse momento que eu fui entrando mais nesse lugar da cultura de existência, do que é a nossa ancestralidade, do que nos fortalece ”
Essa busca se conecta diretamente ao estudo dos Vissungos, cantos de trabalho de negros escravizados em Minas Gerais. “Quando eu ouvi esses cantos, eu pensei no contexto de pessoas que foram escravizadas e que usavam a música como um meio de sobrevivência.”
Ela destaca também a função social desses cantos como forma de comunicação e resistência.
“A música também era usada como esse meio de comunicação, de passar informações sem que os senhores entendessem ”
VISSUNGOS
E CAROLINA MARIA DE JESUS
O single “Despejo” nasce do diálogo entre a pesquisa dos vissungos e a obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Para Graciela, há uma continuidade histórica entre essas manifestações.
“A força de resistência que existe nos cantos de pessoas escravizadas também está presente na obra da Carolina Maria de Jesus ” Ela ressalta que, mesmo após a abolição, as estruturas de exclusão permanecem. “A violência contra a população negra, a falta de oportunidades e a formação das favelas são extensões da escravidão.”
CORPO,
VOZ E EXPERIÊNCIA
A relação entre corpo e voz é central em seu trabalho artístico. Graciela destaca que o contato com a dança afro foi fundamental para ampliar sua consciência corporal e vocal.
“Quando eu entendi que o instrumento era o corpo todo, a minha voz foi outra.”
Essa percepção atravessa também sua relação com a capoeira, reconhecida como espaço de memória ancestral, ainda que não tenha sido sua vivência principal.
“Eu acredito que tem uma memória de ancestralidade Meu corpo entende aquele movimento.”
MULHER, MÃE, ARTISTA E EDUCADORA
Refletindo sobre sua existência artística, Graciela fala da música como estratégia de sobrevivência e resistência.
“Existe uma força muito grande de sobrevivência na música pra mim.”
A formação em licenciatura ampliou sua consciência sobre o papel social da arte e da educação. “Eu sou professora, eu sou educadora musical, eu sou mãe e eu sou artista. Essas três atuações têm funções sociais muito transformadoras.”
Para ela, a educação deve ser baseada na troca e no respeito. “Para além do conteúdo, existe a referência que você passa a ser.”
“EU
DE VER QUE A UNICAMP ESTÁ MENOS SÓ BRANCA.”
CAMPINAS, UNIVERSIDADE E RESISTÊNCIA CULTURAL
Ao falar sobre Campinas, Graciela reconhece os desafios estruturais, mas destaca a existência de espaços de resistência cultural. “Esses lugares são os nossos quilombos.” Ela cita a Casa de Cultura Tainã, a Fazenda Roseira e os Urucungos como territórios fundamentais de memória e pesquisa da cultura popular.
Sobre a universidade, Graciela observa transformações importantes. “Eu fico feliz de ver que a Unicamp está menos só branca.” Para ela, é fundamental que a formação acadêmica esteja conectada à realidade social brasileira. “A gente vai atuar no Brasil real, não no Brasil de dentro da universidade.”
ESPERANÇA E CONTINUIDADE
Apesar dos desafios sociais, Graciela sustenta a esperança como prática cotidiana.
“A hora que perder esperança não faz sentido continuar.”
Para ela, a arte e a educação seguem sendo caminhos possíveis de transformação, memória e continuidade cultural.
Esta entrevista reafirma o compromisso da Revista Capoeirando com as culturas populares, a oralidade e os saberes que se constroem na experiência, na memória e na vida cotidiana.
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Na música brasileira, temos diversos artistas que não possuem o reconhecimento que merecem, especialmente quando pertencem a algum grupo marginalizado. Esse é o caso da nossa maravilhosa artista Tânia Maria.
Tânia, uma mulher negra, nasceu em São Luís, no Maranhão, em 1969, e construiu sua carreira como nada mais nada menos que pianista, cantora, intérprete e líder de banda A artista, ainda viva, é conhecida por suas músicas cheias de brasilidade, com influências do samba, da bossa nova, do pop e do jazz, sendo considerada uma das estrelas da música contemporânea.
O diferencial de suas obras são os ritmos inegavelmente brasileiros, que tornam impossível ficar parado, além da sofisticação de harmonias complexas do jazz, que trazem profundidade refletida em sua poesia. Suas músicas cantadas estão muito vinculadas à sua família, refletindo um dos principais valores de Tânia: a família.
Atualmente, está afastada dos palcos, mas sua família mantém sua memória viva, fazendo de tudo para que seu talento não seja esquecido. Juntamente com eles, temos o DUOzimbado, um duo composto por Marina Kono e Amanda Camargo, alunas de música da Unicamp, que realizaram, no ano passado, uma iniciação científica sobre Tânia, na qual reinventaram diversas músicas de sua discografia.
E são justamente essas duas artistas que aceitaram conceder uma entrevista para a Revista Capoeirando, falando sobre seu projeto. Seguem alguns destaques da entrevista:
Bom, meninas, gostaria que se apresentassem e falassem um pouco mais sobre como surgiu o Duozimbado
Marina: Boa tarde, sou a Mari Kono, graduanda em canto popular, e toco vibrafone. Obrigada por nos convidarem para falar sobre a Tânia!
A gente adora falar sobre ela (risos).
Amanda: A gente se autodenomina “Tania Maníacas” (risos), então adoramos a oportunidade de falar mais sobre ela. Bom, o duo surgiu de uma forma muito natural. Eu conheci a Mari durante a nossa calourada e, com o tempo, fomos nos aproximando Um dia, a Mari precisou de alguém para acompanhá-la no piano enquanto cantava e, a partir daí, não paramos mais de tocar juntas. Assim surgiu a ideia do duo: eu no piano e a Mari cantando e tocando vibrafone.
Amanda: Nosso amor pelas obras da Tânia! Conheci ela pela música Yatra-ta, um pouco antes de entrar na Unicamp, mas me apaixonei por todas as músicas que ouvi dela.
Pergunta: O que levou vocês a escolherem a Tânia como artista para o projeto de vocês?
Marina: Eu também. Comecei a ouvir a discografia dela e fiquei obcecada.
Amanda: Por causa disso, tocamos juntas muitas músicas dela e, quando pensamos em fazer um trabalho, foi unânime a decisão de ser sobre a Tânia.
Pergunta: Na opinião de vocês, qual foi o legado da Tânia para a música popular brasileira?
Marina: O legado da Tânia é ser sua própria bandeira. Para nós, mulheres, e especialmente nós, mulheres racializadas, fazer o que amamos e fazer bem é a nossa bandeira. A Tânia foi um dos principais exemplos disso Ela viveu em uma época de ditadura e até se envolveu em problemas com a polícia, e por isso morou fora do Brasil por alguns anos. Ela é esse símbolo, então não precisa ativamente fazer nada, pois seu legado é ser ela mesma e ser foda no que faz, ocupando esse espaço dentro da música brasileira.
Pergunta: No trabalho, vocês realizaram uma releitura das obras. Como foi o processo de criação para respeitar a obra, mas trazer uma inovação mesmo assim? E qual foi o maior aprendizado de vocês?
Amanda: Grande parte do processo é absorver as influências ao seu redor, e fizemos muito isso com as músicas da Tânia E, principalmente agora que já tocamos juntas há bastante tempo, vamos desenvolvendo coisas que são muito a nossa cara, tanto eu no piano quanto a Mari na voz e no vibrafone. A gente vai treinando e tocando, e vão surgindo ideias que são muito a cara uma da outra. Sem falar que a gente transcreveu todas as músicas à mão Ficávamos horas sentadas juntas tentando decifrar o que a Tânia fazia em cada música, para podermos replicar e entender o que ela queria com cada parte.
Pergunta: Sabemos que a música é uma forma extremamente importante de preservação e proliferação de culturas e que a pauta da revista deste mês fala sobre culturas de existência. Como vocês veem o trabalho de vocês nesse projeto como uma forma de existência da cultura negra na música popular brasileira?
Amanda: Acho que grande parte é impedir o apagamento e o esquecimento das obras da Tânia. A família dela mantém muito viva a memória e a obra dela e, como tivemos e temos bastante contato com eles, é muito nítido o quão importante isso é. Não permitir o desbotamento dessa cultura é fundamental, e a música tem muito disso. Vários artistas brasileiros são esquecidos e, com eles, vai embora muita cultura Nosso trabalho é justamente não deixar que isso aconteça com a Tânia. Queremos que todo mundo saiba o quão incríveis são os trabalhos dela (risos).
E, para fechar, deixamos aqui algumas recomendações de músicas de Tâ i lhid l i Yatrata, Valei, Come with Me, Zaza
EXPERIÊNCIAS EM CULTURAS PERIFÉRICAS
“ Quando a arte te toca, é quase inevitável levá-la para a vida. Nasci em meio a arte, cresci ouvindo a música clássica, contemporânea, de musicais, vendo cenários sendo montados e discussões sobre figurinos, sapatilhas, quantos oitos uma música tinha ou mesmo quantos sinais faltava para o grande momento.
Faço parte do mundo da dança desde os 3 anos como protagonista do meu próprio ballet e digo com toda certeza que meu corpo fala por mim quando não sou capaz.
A dança chega em você de uma forma estranha, ela resgata dentro do seu íntimo um sentimento que muitas vezes foi ignorado, colocado de lado, e esbanja ele por cada centímetro da sua pele. Ela pode obedecer uma sequência, acompanhar passos e estar perfeitamente controlada em seu corpo. Ela pode ouvir a música e te tornar autora de movimentos que nem mesmo você sabia ser capaz de reproduzir. A dança conta sua história quer você queira, quer não, por que ela é individual e repleta de vivências que não podem ser reproduzidas No meu caso, a dança apareceu como ferramenta de comunicação dos meus sentimentos muito cedo, dividiu espaço com outras artes corporais como a atuação, foi complementada pelo canto e quando me dei conta, relatar minha existência pela arte se tornou a única forma que faria sentido. Passei por dificuldades e dilemas pessoais, sofri o luto por pessoas amadas e por vidas perdidas, vivi a angústia de não poder mudar o mundo quando mais precisava e contei minha luta em cada “oito” passado em cena, transpirando sentimentos e lágrimas na pele de um outro movido por música ou roteiro, carregando verdades cruas num palco sob os holofotes.
Além dos benefícios óbvios associados a habilidades de comunicação e interação com outras pessoas, a arte foi para mim uma ferramenta de sociabilidade, de interação e de abstração da realidade. Aprendi com aqueles que estavam à minha volta sobre respeito, como resolver problemas de forma equilibrada, como trabalhar em equipe e entender a visão do outro. Vi a dança mudar a realidade de diversas pessoas ao meu redor, desde a forma de se posicionar sobre assuntos diversos até a carreira escolhida para o futuro de cada um.
A arte tem esse poder de transformar o jeito como se vê o mundo. O seu e o do outro.
Dançar te aproxima do outro de uma forma única, mostrando que você não está sozinho em seus problemas e dificuldades, o que auxilia também a encontrar soluções e respostas quando sua mente já não consegue mais buscar. Ela funciona como ferramenta de autoconhecimento, culminando numa luta coletiva para questões comuns. Ela te mostra que você não está sozinho e que muitas batalhas percebidas como suas em momentos de desespero, na verdade são maiores e podem ser lutadas com o auxílio do outro, que não está tão distante quanto parecia no início.
Por isso, a dança, a atuação, o canto e todo o grupo de artes corporais são, para mim, uma forma de expressão cultural que tem potencial transformador inigualável. Com elas é possível não só contar sua existência como mudá-la, encontrando aqueles que por meio da mesma linguagem podem se unir à sua causa, te entender e te acolher. Acredito que a ligação do corpo com tais artes é tão natural quanto o falar e, por isso, entendo a arte corporal como essencial para a ilustração das culturas, mas ainda imprescindível para a transmissão de culturas de existência que permeiam nossa sociedade ”


Um dos exemplos de grupos de dança consolidado e presente na região campineira é a Família Eclipse O grupo, com a maior parte de integrantes da região metropolitana de Campinas, iniciou sua trajetória em 2007, se oficializando como uma associação sem fins lucrativos quatro anos depois. Se denominando como uma grande família, eles se fragmentam em pequenos grupos a fim de acolher melhor uma grande diversidade de pessoas e sonhos Essa fragmentação se dá nos horários e espaços distintos destinados aos ensaios e aulas. As divisões comumente contam com dois responsáveis (sendo um deles um diretor ou coreógrafo e o outro um coordenador) e o decorrer do caminho dos grupos se distingue entre si, alguns possuem aulas abertas, outros realizam audições, ensaios de capacitação, etc Além da presença em Campinas, também atuam em outras localidades, em projetos mais específicos.
O coletivo Vulcana reúne e celebra as mães da periferia de Campinas, ressaltando sua força e resistência que são continuamente postas à prova no cotidiano. É um coletivo voltado para a evolução das mulheres de Campinas, e oferece diversas oficinas focadas principalmente no teatro, elaborando peças destinadas à toda a população. Um dos projetos de maior visibilidade elaborado pelo coletivo é o Espetáculo “Djanira, Mulher mãe do Campo Grande” que salienta exatamente os valores do grupo, sendo uma homenagem à maternidade e seus pormenores, que além disso remonta à ancestralidade que toda a questão carrega, relembrando nomes como os de Dona Deijanir, que atuou diretamente na luta por acesso à água e Laudelina de Campos, que foi pioneira no movimento de trabalhadoras domésticas A encenação conta principalmente com a participação de mães-artistas que fazem parte do coletivo.
Foto - crédito: CRFOTOGRAFIA / divulgação
O coletivo Gargarejo Cia Teatral é formado por artistas que se interessam na produção de arte popular, principalmente focada no prisma étnico-racial, ao refletir sobre colonização versus identidade, utilizando esta indagação para articular a vivência periférica como a protagonista em cena. Em 2014, iniciava sua trajetória em Campinas, por meio de uma parceria com a Universidade Estadual de Campinas para a realização de adaptações de obras literárias - aquelas que constavam na listagem de leituras obrigatórias para os vestibulares mais buscados no país - A intenção era estabelecer uma ponte que conectasse principalmente os jovens periféricos, estudantes do ensino médio, com as obras, notáveis e valiosas à cultura brasileira. Nos anos iniciais, nos quais o coletivo trabalhou principalmente no interior, as principais peças foram: “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, “A Cartomante” de Machado de Assis e “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente.
A porta que se abriu para a adaptação de cenas a partir do olhar do coletivo começou a se revelar em 2015, quando o grupo inicia uma pesquisa sobre “O Cortiço”, que os leva a produzir uma cena focada em Bertoleza - que no romance é uma escrava que vive com João Romão, o protagonista da narrativa. A personagem é explorada por ele que, aproveitandose de sua força e dedicação ao trabalho, a utiliza para constituir seu patrimônio - A cena foi intitulada como: “Bertoleza - uma pequena tragédia”, e se estabeleceu como a largada para o processo de investigação “O Cortiço por elas”, a partir da qual a cia adapta a obra “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo. O projeto posteriormente é apresentado como espetáculos protagonizados pelos personagens femininos presentes na obra Nos anos seguintes o
Foto - crédito: Coletivo Gargarejo Cia Teatral / Reprodução Instagram
Pesquisa por
Lukas Victor de Araújo
"Algumas vezes no meu dia a dia, entre trabalhos, vivências e inspirações, me pego pensando sobre o que é “existir”.
Não apenas estar aqui, mas ser parte de algo. Parte de uma história, um propósito, ou algum movimento maior que eu.
Acredito que pertencer é algo que construímos juntos. Em gestos e trocas sinceras. Assim nos reconhecemos e entendemos nosso espaço, nosso valor e nossa voz.
E quando alguém se sente visto, reconhecido, algo muda. A pessoa respira diferente e floresce.
E é nesse florescer que o mundo ao redor também se transforma.
Sobre cultivar espaços para que cada um floresça do seu jeito. Porque existir não é só estar no mundo, mas sentir que pertencemos a ele.
Meu nome é Sara Rezende, sou artista visual de Campinas/SP. Meu trabalho se desenvolve principalmente através da pintura sobre tela, e minha pesquisa vem justamente no olhar para o humano. Acompanho processos, histórias e gestos, e comunico de forma silenciosa a sutil presença de cada um
Texto por Estela Luz
Demorei pra entender, mas acho que sou do vento. Gosto de circular — entre pessoas, lugares, linguagens Comecei na música, transitei pela poesia e um dia me demorei mais nas artes visuais. Houve momentos de muita dúvida e angústia com tanto movimento, tantasformas, e tive medo de não pertencer a nada.
Foi assim que encontrei as andorinhas Elas me lembram que o movimento também é casa. Já falo mais sobre isso.
Gosto de histórias.
A transição de carreira foi intensa, cheia de dúvidas e descobertas. Precisei começar do zero, aprender a sustentar um trabalho autoral, entender como vender, como me estruturar.
Nunca achei a vida de artista fácil - nem romântica. Lá no começo, eu acreditava que “dar certo” era uma questão de sorte, como se alguém fosse me escolher Essa síndrome de ser especial aos olhos de alguém importante é uma prisão. Mas às vezes é preciso sefrustrar pra pegar o trem na unha. Pelo menos comigofoi assim. Hoje entendo que é um processo - feito de vento, de paciência e de muitos recomeços.
m 2019, durante uma aula com crianças de oito anos, estávamos criando coletivamente um mural. As crianças estavam indignadas com as queimadas na Amazônia quando uma delas disse: “Nossa, como o ser humano é horrível.” Ficamos em silêncio. Então ela pensou mais um pouco e completou: “Já sei! É como se nossa pintura fizesse um carinho na Amazônia.”
Essa frase me atravessou Foi a memória que deu origem ao mural Sob um céu de andorinhas - a primeira empena pintada por uma mulher em Campinas.
Enquanto pesquisava sobre as andorinhas e as narrativas, descobri que as andorinhasazuis têm hoje dificuldade de chegar à cidade, possivelmente por causa da contaminação por mercúrio na Amazônia. Foi assim que encontrei as andorinhas, e desde então elas estão presentes, de alguma forma, em todos os meus murais.
Depois vieram outras paredes: em 2025, pintei a primeira empena da USP, no prédio da Sociedade Brasileira de Física, e também um mural na Casa do Sol, em homenagem a Hilda Hilst. Em todas essas obras, busco o mesmo: as histórias que inspiram, a memória a ser acolhida - não como algo perene, mas como uma música que vem pelo vento, um acalanto, ainda que os temas sejam, às vezes, densos e difíceis.
No fundo, acho que minha arte é sobre isso: aprender a estar em movimento sem se perder. Seguir o vento, mas também encontrar um lugar dentro dele.
A artista Punka tem origem no extremo leste de São Paulo e atualmente atua em Campinas, onde se destaca como MC, poetisa, arte-educadora, circense e empresária. A sua trajetória representa mais do que música: é uma voz da periferia que assume protagonismo e transforma espaços culturais
No episódeo piloto do Podcast Capoeirando a artista conta um pouco mais sobre sua trajetória, desafios e o poder da poesia na construção de uma sociedade mais sã
Poesia por PS Raio Negro
Desperdicio, Vistoestrupício E forçado aoofício Cedo
Viveo mundo na camada dosdedos
No acalmardos receios, refúgio Busco mesmo
Atanto a vida é um interlúdio, Minhasestóriassãodeestúdios Penso“Uau, Disney"!
Estudosestáticos pela estética, Ética patética deconversaçãosintética, É sintática, peroessin tácticas, sem afeto
Abstrato mesintocompleto
Concreto nem ta no livreto Mevetodoseu olhar maldoso. Eu com sol pertotedeixa ansioso Eu com sal no retoecê'querendo rancar meu osso! Vagabundo não, precisoocioso...
Porquedes-perdicio
Mefez des-perdido Apósodes-prendido Que metornei com desprezo
Pelo seu jeito de torturar meu povo, amor
Tudo que vai volta, amor.
Vocês queriam eu com a peça, agora eu faço as peças, Peço Flor.
Pulsa nas veias que é ver as véinha feliz, Sou pulga na besta que controla atriz, Sou pó...esia e fiz
as asas que cês' me tiraram,
Achei o coração que cê me esconderam,
Voei e provei pra Deus que cês' tava errado, Desde então meus curumim comeram.
A poesia que eu fiz foi o que me fez, amor
Me humanizou, amor.
Pus minha vida nos versos, esses verso se tornou minha vida,
Vivo o que escrevo, e o que escrevo faço vivo, Fui Deus com esses escrito, celestial com meu corpo em dança
Sentir que as trança balança a banza e poder ser no mundo
Mesmo no poço, onde cês' me queria a peça,
A arte foi a ponte pro fundo…
Catei as moedas
Do desejo, hoje sou realizado,
Sigo no processo, sinto o banzo,
Cada arte um manipanso
Quando se põe verdade. Eu também sou um anjo.
Viva a Arte e a Cultura na Base
A arquitetura como meio de valorização da cultura, da existência e memória afrobrasileira.
Texto por Lucas
Pavan e Julia
Sarti


O Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), em trabalho conjunto com a Prefeitura da cidade, organizou um concurso arquitetônico público internacional para a seleção de um projeto, em estágio de estudo preliminar, para um novo centro cultural carioca, intitulado como Centro Cultural Rio-África. Implantado no lote da antiga Maternidade Pró Matre, próximo à região portuária carioca, o concurso propôs a idealização de um espaço de valorização da cultura e da memória afro-brasileira na Pequena África e no Cais do Valongo o qual buscasse reconhecer o valor simbólico cultural do Circuito da Herança Africana, que deslancha nos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Pela competição projetual, buscou-se um espaço que invocasse interpretações sobre a ancestralidade afrodiaspórica, a cultura, o passado e o futuro da região portuária. O requisito para participação neste concurso inaugurou a intenção do projeto: arquitetos e urbanistas participantes deveriam ser autodeclarados pretos ou pardos e naturais do Brasil ou africanos de língua oficial portuguesa.
Um espaço para o povo preto e feito pelo povo preto. Sem mal-entendidos, sem constrangimentos, sem exceções.
Após o trabalho avaliativo de um júri conhecedor da cultura de vivência afro-brasileira, o projeto concebido pelo Estúdio Módulo, cujo autor do projeto trata-se do arquiteto e urbanista, sócio fundador do escritório em questão, Marcus Vinicius Damon, foi declarado vencedor do concurso. A “8ª Edição da Revista Capoeirando: um Tributo à Cultura Popular” teve a honra de conversar com o arquiteto autor do projeto vencedor e entender mais a fundo desde o processo de imersão cultural e descobrimento acerca da riqueza plural da cultura afro-brasileira até as referências projetuais e simbolismos adotados no Centro Cultural Rio-África.
ENTREVISTA Clique aqui para acesso ao podcast da entrevista!
Para que o proposta pudesse ter um partido forte e rico, como se deu o processo de pré-projeto e quais foram os meios de imersão nas diversas culturas africanas?
Durante a pré-produção, houve um grande período de pesquisa. O intuito era realizar uma retomada dos valores intelectuais e culturais africanos para o desenvolvimento de escolhas projetuais - tais como iluminação, materialidade e forma - mas também agregar à proposta uma carga de resistência e caráter simbólico.
Além disso, iniciou-se um processo de busca por referências projetuais africanas, já que, sendo o Centro Cultural Rio-África uma proposta que visa aproximar a afrodescendência brasileira à África propriamente dita, não seria prudente realizar um projeto nos moldes de uma arquitetura brutalista paulista, por exemplo. Nesse contexto, Angela Mingas, arquiteta e pesquisadora angolana, serviu como inspiração em uma de suas palestras. Suas referências a arquitetos africanos, como Francis Keré, David Adjaye e arquitetos contemporâneos adeptos do afroculturismo, influenciaram as escolhas projetuais.
Assim, desenvolveu-se um repertório vasto que contemplou não apenas a cultura de um povo, religião ou grupo étnico, mas um mosaico de saberes para a formação do projeto como é hoje.
De que forma os saberes ancestrais africanos foram incorporados ao projeto e como eles refletem a visão cosmológica desses povos?
Como o projeto não é apenas um ensaio teórico, é preciso que exista um trabalho entre as relações funcionais e simbólicas do edifício, de maneira que a proposta seja factível às exigências construtivas. Nesse sentido, há um enlace entre a ancestralidade africana e o legado da modernidade, principalmente no contexto brasileiro
O enfoque no modernismo brasileiro, como forma de viabilizar a construção, reside no fato de que o moderno no Brasil talvez seja o único no mundo em que existe uma relação muito íntima entre arquitetura e paisagismo, e não uma relação desassociada - como em
Projeto vencedor do concurso para o Centro Cultural Rio-África - Estúdio Módulo
De que forma os saberes ancestrais africanos foram incorporados ao projeto e como eles refletem a visão cosmológica desses povos?
Como o projeto não é apenas um ensaio teórico, é preciso que exista um trabalho entre as relações funcionais e simbólicas do edifício, de maneira que a proposta seja factível às exigências construtivas. Nesse sentido, há um enlace entre a ancestralidade africana e o legado da modernidade, principalmente no contexto brasileiro.
O enfoque no modernismo brasileiro, como forma de viabilizar a construção, reside no fato de que o moderno no Brasil talvez seja o único no mundo em que existe uma relação muito íntima entre arquitetura e paisagismo, e não uma relação desassociada - como em outros países Em outros casos, essa relação foi descrita de acordo com o destaque figura-fundo , sendo a arquitetura algo que sobressai à paisagem.
A relação se torna imprescindível no projeto paisagístico, já que ele exibe a união de espécies brasileiras e africanas. Essa condição evoluiu para o que ficou chamado de Jardim Transatlântico, já que foram incorporadas especies que transitaram entre os dois países ou que permeiam as crenças da cultura africana na questão da cura/rituais. Dessa maneira o jardim passa a ter função não só ornamental como também simbólica.
Além disso, diversas outras referências às culturas africanas foram estabelecidas Na tradição existe o costume do encontro sob o domo celeste, assim criou-se um espaço, que simboliza estrelas e constelações importantes para a ancestralidade africana e brasileira, por meio de luzes no piso da praça. Também foi representada a figura das árvores nas bases da cobertura, elementos vazados (como a claraboia e o vazado da fachada) que produzem efeitos de luz e sombra inspirados no jogo de luz das pirâmides do Egito e espelhos d'água que remetem aos rios.
Como entender o dialogo entre Brasil e África no projeto e o papel dessa relação na manutenção da cultura africana no pais?
A região da Pequena África, localizada na Gamboa e espaço de implantação do Centro, possui diversos pontos turísticos de grande importância cultural, marcos da história de luta e resistência simbólica desse território, conhecido como o maior local de aporte de africanos escravizado do continente americano. Um desses pontos é o Cais do Valongo, Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO em 2017, redescoberto devido às obras do Porto Maravilha, na época das Olimpíadas.
A partir dessa contextualização, o projeto foi pensado para compor esse conjunto, e não se sobressair ao resto do percurso. Assim, o Centro agregaria à área um ponto de permanência em si, já que os outros locais turísticos atendem mais à necessidade de preservação de espaços histórica e culturalmente relevantes.
O projeto tem como princípio norteador a função de ser um ponto de encontro entre culturas, promovendo uma efervescência artística, cultural e social. Sendo assim, o Centro busca ser um edifício de resistência e memória, por meio do partido arquitetônico, das referências projetuais, das materialidades e formas, mas também um local de celebração de ambas as culturas e do sincretismo de tradições brasileiras e africanas
Como o prédio foi estruturado para abrigar as produções culturais, projetualmente falando?
A grande praça central foi projetada justamente com essa função. A proposta
REALIZADO PELO COLETIVO
ETNOCIDADE, O ENCONTRO
REUNIU ARTE, CULINÁRIA ANCESTRAL, OFICINAS, CINEMA E REFLEXÕES SOBRE A PRESENÇA INDÍGENA NO CONTEXTO URBANO
No último dia 7 de março, Campinas recebeu o Festival Vivência Indígena, uma realização do Coletivo Etnocidade que transformou o espaço do Jardim Bom Retiro em um ponto de encontro entre memória, ancestralidade, arte e resistência dos povos originários. Ao longo do dia, o público acompanhou uma programação diversa, marcada por apresentações culturais, oficinas tradicionais, mostra artística, culinária ancestral, venda de artefatos e a exibição do documentário Etnocidade.
Mais do que um evento cultural, o festival propôs uma experiência de aproximação com saberes e modos de vida indígenas que seguem vivos no presente. A programação articulou diferentes dimensões da experiência originária como território, espiritualidade, arte e convivência criando um ambiente de troca entre públicos diversos e reafirmando a potência das culturas indígenas contemporâneas em contexto urbano. A PRESENÇA DE MARIANO M’BYA TAMBÉM DEU AINDA MAIS DENSIDADE AO ENCONTRO. INTEGRANDO A PROGRAMAÇÃO E A CONSTRUÇÃO ARTÍSTICA DO FESTIVAL, ELE SINTETIZOU O ESPÍRITO DA INICIATIVA AO AFIRMAR: “ESSE PROJETO É SOBRE PERTENCIMENTO, IDENTIDADE, ANCESTRALIDADE, ESPIRITUALIDADE, SOBRE AMOR À NOSSA CULTURA.”
O NASCIMENTO DE UMAVOZ POÉTICA
Sua estreia literária ocorreu em 1916, em parceria com Oswald de Andrade. Logo depois, vieram seus primeiros livros de poesia, como Nós (1917) e A Dança das Horas (1919), marcando o surgimento de uma voz sensível, musical e em busca de liberdade expressiva. Nesse momento, sua poesia já revelava um impulso essencial: afirmar a própria existência por meio da palavra.
PROTAGONISTA DO MODERNISMO
Em 1922, Guilherme de Almeida teve participação ativa na Semana de Arte Moderna, ao lado de grandes nomes da cultura brasileira. Também colaborou na criação da revista Klaxon, importante veículo de divulgação das ideias modernistas. Além da escrita, destacou-se pela inovação visual, criando capas e anúncios com estética avançada para a época — antecipando tendências da arte e da publicidade modernas.
O AUGE CRIATIVO
Durante a década de 1920, sua produção atingiu o ponto mais alto. Obras como Raça e Meu representam o equilíbrio entre tradição e inovação, característica marcante de sua obra. Nesse período, sua poesia passa a dialogar intensamente com a identidade nacional, valorizando o território, a cultura e a experiência coletiva.
“QUERO A PALAVRA QUE ME É NATURAL, QUE NASCE NO MEU SANGUE, DO MEU BRASIL.”
POESIA E RESISTÊNCIA
Em 1932, participou ativamente da Revolução Constitucionalista, chegando a se alistar como soldado. A experiência trouxe um novo tom à sua obra, mais engajado e cívico. “A resistência que não cede e não se cala.”
Seus poemas passam a expressar não apenas sentimentos individuais, mas também ideais coletivos, transformando a poesia em instrumento de luta e afirmação.
RECONHECIMENTO E LEGADO
Ao longo da vida, Guilherme de Almeida publicou mais de 70 obras e atuou também como jornalista, tradutor e crítico de cinema sendo pioneiro nessa área no Brasil. Em 1959, recebeu o título de “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, consolidando sua importância no cenário literário nacional. Faleceu em 1969, em São Paulo. Sua casa tornou-se, posteriormente, um museu dedicado à sua memória e à literatura.
UM POETA ENTRE O NOVO E O CLÁSSICO
Dotado de grande domínio técnico, Guilherme transitou entre diferentes formas poéticas, conciliando tradição e modernidade. Mais do que um escritor, foi um autor que transformou a poesia em um modo de existir — um espaço de criação, resistência e identidade.






Se o samba for a voz da alma negra no Brasil, em São Paulo ele é o eco de um grito teimoso de existência em meio ao concreto e ao cimento. Por décadas, a narrativa oficial tentou pintar São Paulo como a fria "capital do trabalho", uma metrópole que teria apagado suas raízes culturais em nome do progresso. Essa visão, no entanto, é a negação de uma história rica, ancestral e profundamente ligada à militância e à resistência negra. O samba paulista, em suas diversas manifestações, seja ele o Samba de Bumbo do interior, o Batuque de Umbigada que resgata o ancestral samba banto, ou a poesia urbana dos grandes compositores sempre foi um exercício de contramemória. Enquanto o sistema jogava o povo negro e pobre para as periferias e morros, o samba se instalava nos terreiros da Barra Funda e nos bairros como o Bixiga, transformando a dor do despejo, a vida no cortiço e o preconceito em arte. O samba aqui se manifesta como uma prática de resistência cultural onde a comunidade se reafirma. É a prova de que a identidade, forjada na diáspora africana, não se desintegrou sob o peso das chaminés das fábricas ou da verticalização impiedosa.


Essa Cultura de Existência, no entanto, não tem uma só face. Ela é a luta pela ancestralidade, como na obra-documento de Geraldo Filme (1927-1995). Radicado na Barra Funda, ele rejeitava o rótulodequeSão Paulo nãoteria samba autêntico. Geraldo é o geógrafo da memória negra no samba paulista; suas composições são documentos de história oral. Ele lutou contra o apagamento histórico imposto pela urbanização, registrando em verso não só a vida da capital, mas as festas e tradições de Pirapora e a história de heróis negros invisibilizados, como Tebas, o escravo arquiteto Sua arte é a prova de que a identidade afro-diaspórica, sustentada pela Capoeira, Candomblé e Samba, é a própria baseda cultura deexistência em São Paulo.
Geraldo Filho
Se Geraldo Filme era o guardião da ancestralidade, Adoniran Barbosa (19101982) foi o cronista das feridas urbanas. Figura fundamental, ele utilizou a linguagem popular e o humor para expor as contradições da modernidade, dando voz à massa de imigrantes, operários e desabrigados que construíam a cidade Suas composições, como "Saudosa Maloca" e "Despejo na Favela", são hinosquedenunciam a estrutura social injusta eodestinotrágicodequem não podia pagar o aluguel. O compositor exerce uma resistência ao expor a cultura dos estratos sociais invisíveis, provando que o "falar errado" dos seus personagens era, na verdade, uma fala "bela, poética e corretíssima", plena de identidade.


Porfim, essa cultura é a pontefilosófica que liga a academia à rua, pontotrazido por Paulo Vanzolini (1924-2013). Doutor em Zoologia por Harvard e um dos fundadores da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ele personificava o intelectual que se recusava a ter uma vida em compartimentos fechados. Seu legado está na intersecção única entre a pesquisa científica de alto nível e a poesia da boemia paulistana. Músicas como "Volta por Cima" e "Ronda" não são sobre festas, mas sobre a luta diária para resgatar a moral e o amor-próprio após a queda. A Cultura de Existência, segundo Vanzolini, está na coragem de encarar a dor e ter a força para dar a volta porcima.
CHOREI, NÃO PROCUREI ESCONDER
TODOS VIRAM, FINGIRAM PENA DE MIM, NÃO PRECISAVA
ALI ONDE EU CHOREI
QUALQUER UM CHORAVA
DAR A VOLTA POR CIMA QUE EU DEI
QUERO VER QUEM DAVA UM HOMEM DE MORAL NÃO FICA NO CHÃO
NEM QUER QUE MULHER
LHE VENHA DAR A MÃO
RECONHECE A QUEDA E NÃO DESANIMA
LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA
Aofinal, a jornada pelos mestresdosamba paulista deGeraldo Filme, oguardião da ancestralidade negra, a Adoniran, ocronista do povodesalojado, eVanzolini, ofilósofoda superação nosensina que aCultura de Existência éum verbo ativo.
Embora venham deuniversosdistintos, ostrêsconvergem em alguns pontos. Todosusam osamba para darvoz aoque a metrópoletentava calar. Para ostrês, a músicatranscendeoentretenimentoesetorna um registro: emGeraldo, um documentode história oral da memória afro-diaspórica; em Adoniran, um documentosocial dasferidasurbanas; em Vanzolini, um documentofilosófico da resiliência individual. São Paulo, capital dotrabalhoeda pressa,tem sua alma mais profunda revelada poresse ritmoque, assim como a capoeira,transforma a luta em ginga e a dorem poesia, provandoque a identidadecultural das ruas jamaisserá silenciada
Aofinal, a jornada pelos mestresdosamba paulista deGeraldo Filme, oguardião da ancestralidade negra, a Adoniran, ocronista do povodesalojado, eVanzolini, ofilósofoda superação nosensina que aCultura de Existência éum verbo ativo. Embora venham deuniversosdistintos, ostrêsconvergem em alguns pontos. Todosusam osamba para darvoz aoque a metrópoletentava calar. Para ostrês, a músicatranscendeoentretenimentoesetorna um registro: emGeraldo, um documentode história oral da memória afro-diaspórica; em Adoniran, um documentosocial dasferidasurbanas; em Vanzolini, um documentofilosófico da resiliência individual. São Paulo, capital dotrabalhoeda pressa,tem sua alma mais profunda revelada poresse ritmoque, assim como a capoeira,transforma a luta em ginga e a dorem poesia, provandoque a identidadecultural das ruas jamaisserá silenciada.