Skip to main content

Habitat 34

Page 1

N ú m e ro 34 | O u t u bro e Novem bro

arquitetura | arte | design

PAOLA LENTI

As cores, a beleza e a sofisticação inconfundíveis das criações da designer italiana.


Editorial

Dialoghi, de Paola Lenti, explora a possibilidade de vozes diversas, por meio de uma troca mútua, compreenderem e valorizarem umas às outras. Foto: Maurizio Natta

F

elice chi può guardare ogni cosa con mente tranquilla, escreveu o poeta Lucrécio há milênios. É esta a frase que finaliza um dos vídeos que narram a relação da designer italiana Paola Lenti com as cores – e que pode ser assistido no site da marca. Ter uma mente tranquila para olhar ao redor parece ter sido um dos grandes ensinamentos recebidos por Paola desde a infância, pois a paleta de cores da natureza é a grande inspiração para suas premiadas criações. Em entrevista exclusiva à Habitat, a designer falou sobre o seu recém-lançado Alfabeto Cromático, o projeto Dialoghi, apresentado na Semana de Design de Milão, e as três décadas da sua marca. Esta edição traz também o trabalho da artista brasileira Tadáskía, que já expôs no MoMA de Nova York, na França,

na Alemanha e agora está com uma individual no Rio de Janeiro, e um perfil da artista plástica Ana Lecticia Mansur, que construiu uma bela trajetória baseada na observação e no autoconhecimento. Os Teatros da Amazônia, reconhecidos como patrimônio cultural mundial pela UNESCO, também estão nas próximas páginas. Ainda em arquitetura, dois hotéis em Berlim, Château Royal e Michelberger Hotel, que representam o charme e a história da cidade alemã. A partir de agora a Habitat conta com mais dois colunistas: a cool hunter Cristina Fontoura assina a We Trend; e Mau Bittar traz a história de peças de design na coluna Ícones do Design. Esses e outros assuntos estão aqui, para você. Boa leitura! Melissa Crocetti Coordenadora de conteúdo

Expediente Publisher: Cíntia Peixoto|cintia@revistahabitat.com.br (41) 99225-7610|Comercial: Regina Rocha|(41) 98848-1950 Comercialização: Saltori Mídia Estratégica|saltori@saltori.com.br (41) 99996-9995|R SALTORI REPRESENTAÇÕES COMERCIAIS LTDA CNPJ 05.552.266/0001-60 Coordenação de conteúdo: Melissa Crocetti melissa.crocetti@gmail.com Revisão: Paula Batista – Lide Multimídia Direção de arte: Igor Dranka|igor@revistahabitat.com.br Colaboraram nesta edição: Rafaella Sabatowitch e Tansy Kaschak.

6

Foto capa: Paola Lenti fotografada por Maurizio Natta. Colunistas: Paula Campos (Sobre Morar), Rodolpho Guttierrez (É Design), Cesar Franco (Conexão), Cristina Fontoura (We Trend) e Mau Bittar (Ícones do Design). Conselho Editorial: Cristina Fontoura e Paula Abbas. Redes sociais: Trentini Comunicação Impressão: Maxi Gráfica e Editora LTDA. maxigrafica@maxigrafica.com.br Marca registrada: Capelatto Marcas e Patentes

habitat

habitat

RM


Índice

habitat Revista

Número 34 | Outubro e Novembro de 2026

CAPA

10 Paola Lenti, a designer italiana que há mais de

três décadas é referência mundial na criação de mobiliário com cores e materiais inconfundíveis. Em entrevista exclusiva, ela fala sobre intuição, pesquisa, experimentações e evolução técnica.

ARQUITETURA

28 Os hotéis Château Royal e Michelberger representam

as camadas e os contrastes da cosmopolita Berlim. 42 Os Theatro da Paz e Teatro Amazonas são agora Patrimônio Cultural Mundial pela UNESCO. 50 Projeto de interiores estabelece uma continuidade visual entre um apartamento e a natureza da Praia Brava.

DESIGN

60 Recém-inaugurada, a Galeria Teo Cleveland apresenta um recorte do imenso acervo de peças do mobiliário moderno brasileiro.

ARTE

70 Um perfil de Ana Lecticia Mansur, para quem a arte é

resultado de observação, pesquisa e autoconhecimento. 78 O termo que está na moda, mas que envolve pesquisa, repertório e responsabilidade: curadoria. 88 Das paredes do MoMA para uma individual no Rio de Janeiro: a delicadeza e a potência das obras de Tadáskía.

NOTAS DA HABITAT

98 Miró: Mestre das Formas traz mais de cem obras de um dos artistas mais inovadores e influentes do século XX; e o encontro entre tempo e linguagem na exposição do artista contemporâneo Eder Santos.

COLUNAS

104 We Trend, por Cristina Fontoura 110 É Design, por Rodolpho Guttierrez 112 Sobre Morar, por Paula Campos 116 Ícones do Design, por Mau Bittar 122 Conexão, por Cesar Franco

EPÍLOGO

130 Efigênia, uma singela homenagem.

8

habitat


CAPA

O UNIVERSO COLORIDO DE

PAOLA LENTI Designer da beleza e da inovação, a italiana Paola Lenti é referência mundial por sua interpretação inconfundível das cores, habilidade que a acompanha desde a infância. Na criação de peças de mobiliário, encontrou a possibilidade de expressar suas crenças no equilíbrio, na harmonia e no bem-estar que uma casa pode proporcionar. Por Melissa Crocetti

10

habitat


Paola Lenti, para quem as combinações das cores é um dom, pura intuição. Foto: Maurizio Natta/Cortesia Paola Lenti

habitat

11


Capa

Ambiente externo protagonizado pela premiada mesa Altopiano, com pés de alumínio e tampo e acessórios em grés. As charmosas luminárias podem ser usadas suspensas e a bateria foi projetada para seis horas de autonomia. Todas as peças são Paola Lenti. Foto: Sergio Chimenti

P

oucas pessoas têm a capacidade de olhar ao redor e ver uma paleta de cores em harmonia. Talvez porque a vida seja muito urbana, cheia de concreto cinza; talvez porque não olhemos para o céu entre o luscofusco e o ocaso ou, então, para os verdes possíveis em um chão de grama. Mas há aqueles que cresceram com um olhar diferenciado para perceber o equilíbrio entre as formas e as cores da natureza. É o caso da designer italiana Paola Lenti, para quem relacionar-se com uma paleta de cores é um dom, quase que uma intuição, resultado de uma educação voltada para a beleza. “Desde sempre, o maior empenho, para mim, é tornar real aquilo que imagino na minha mente, porque é dali que nasce cada tonalidade”, afirma. 12

Esta habilidade, desenvolvida ao longo de mais de três décadas, aliada à linguagem sofisticada e criativa do design, tornou a marca homônima internacionalmente conhecida. Hoje, suas criações estão presentes em 60 países, 300 showrooms espalhados pelo mundo e em diversas flagship stores. No Brasil, a marca é parceira da Casual Móveis. Na Semana de Design de Milão 2026, a marca apresentou a exposição Dialoghi, que extrapolou o significado da tradução literal para expressar um conceito muito mais amplo, baseado nas interações entre elementos como cores, formas, texturas e matérias-primas. Também estreou seu Alfabeto Cromático, um sistema de 44 famílias de cores inspiradas na natureza, pensado para relacionar tecidos,


Poltronas Berni, mesa Giro, estrutura decorativa Stelo em majólica (uma cerâmica esmaltada) e tapete Zoe, todos Paola Lenti. Foto: Sergio Chimenti

fios, cordas, superfícies e materiais diferentes. Durante mais de um ano, centenas de insumos, acabamentos e superfícies foram analisados, classificados e conectados para criar um sistema coerente que reflete a filosofia do trabalho de Paola Lenti: a natureza não é apenas a fonte das cores individuais, mas também o modelo de como elas coexistem. Nascida no Piemonte, noroeste da Itália, ela estudou design gráfico na Scuola Politecnica di Milano e passou por algumas experiências profissionais antes de dar os primeiros passos para sua marca própria, há 32 anos, quando identificou um grande potencial para mobiliário outdoor. Desde o início, ao seu lado está Anna Lenti, irmã e CEO da marca, seu contraponto e equilíbrio: a abordagem criativa e experimental de Paola; o método, o rigor e o processo

de Anna. Pela trajetória profissional marcada por inovação e pesquisas contínuas, foi agraciada este ano com o prêmio Compasso d’Oro, concedido pela Associazione per il Disegno Industriale (ADI). O que começou como coleções para ambientes externos hoje se transformou em um universo completo, com tapetes, sofás, poltronas, mesas, estantes, painéis móveis e muitos outros acessórios de mobiliário. Materiais como madeira, cerâmica, vidro e metais foram introduzidos ao lado dos fios e tecidos exclusivos, ampliando as possibilidades de composição dos ambientes. Em entrevista à Habitat, Paola Lenti falou sobre a coerência de um trabalho moldado por muita pesquisa, experimentações e evolução técnica, além das cores que tornam suas criações imediatamente reconhecíveis. Abordou ainda o equilíbrio entre o artesanal e o industrial, a importância da durabilidade e a linguagem acolhedora, alegre e informal que define seus produtos. 13


Capa

Para Paola Lenti, a cor é mais que uma inspiração, é uma ferramenta de design. A linha Cove é composta por plataformas modulares. Foto: Sergio Chimenti

Você já afirmou que as cores, para você, são um dom. Quais foram as suas referências desde a infância que moldaram esse dom? Felizmente, fui educada pelos meus pais para o belo, para reconhecer a harmonia entre formas e cores, para desenvolver a atenção à natureza e às suas diversas expressões, mas o modo como me relaciono com a cor só pode ser definido como um dom precioso. Desde sempre, meu maior empenho é tornar real aquilo que imagino na minha mente, porque é nela que nasce cada tonalidade. É a imaginação que me propõe, no momento mais oportuno, cores que talvez eu tenha captado inconscientemente anos antes, que me marcaram e permaneceram vivas em mim como em um arquivo virtual. E quase sempre são nuances que derivam de inspirações naturais, porque a natureza já contém tudo em si, basta saber ouvir com a devida atenção o que ela nos conta.

14

Você acredita que a coerência seja um dos elementos que melhor descrevem o percurso da marca Paola Lenti? Sim, se por coerência entendermos a capacidade de permanecer fiel a uma visão e evoluir ao mesmo tempo. Desde o início, escolhemos um caminho sem perseguir modismos: trabalhar sobre a qualidade, sobre a pesquisa dos materiais, sobre a cor e sobre o têxtil, colocando sempre no centro o bem-estar das pessoas e o modo como vivem os espaços. Com o tempo, as tecnologias mudaram, ampliaram-se as coleções e surgiram novas possibilidades de expressão, mas o nosso modo de projetar permaneceu reconhecível. Cada inovação nasce daquilo que construímos antes e se torna parte de uma linguagem que continua a se enriquecer sem perder a própria identidade. Para mim, coerência é justamente isso: não repetir o que já se fez, mas manter firmes os próprios valores.


O premiado guarda-sol Bistrò e peças da linha Mae, criados para ambientes externos. Foto: Sergio Chimenti 15


Capa

A marca nasceu pequena, mas cresceu muito. Qual foi o maior desafio ao crescer nessa escala? O maior desafio foi crescer sem perder aquilo que nos torna únicos: aumentar a escala mantendo uma abordagem quase artesanal da produção, o cuidado com o detalhe e a possibilidade de realizar produtos que conservam o valor da peça única. Escolhemos manter uma cadeia produtiva curta e o mais próxima possível de nós, porque isso nos permite conhecer e controlar os processos, expe-

rimentar e intervir diretamente na qualidade. Ao mesmo tempo, investimos em pesquisa para tornar materiais e processos cada vez mais responsáveis, trabalhando a durabilidade, a redução do desperdício e a possibilidade de recuperar e valorizar recursos. Crescer, para nós, não significou, portanto, simplesmente produzir mais, mas conseguir levar ao mundo o nosso modo de fazer, preservando a autenticidade.

Sofá Légère de dois lugares, reedição de um design original da década de 1970. A linha inclui também uma poltrona e um pufe. Foto: Sergio Chimenti

16


A linha Move é composta por sofás de dois e três lugares, elementos modulares de assento e chaise longue. Foto: Sergio Chimenti

Qual é o papel da sua irmã Anna na expansão global da marca Paola Lenti? A presença de Anna foi fundamental para o crescimento e a afirmação internacional da empresa. A sua formação em engenharia nuclear trouxe método, rigor e uma atenção particular aos processos, complementares à minha abordagem mais criativa e à minha propensão natural para a experimentação. Com o tempo, construímos uma organização capaz de conjugar o valor do gesto artesanal com uma visão industrial, transformando a criatividade em um sistema capaz de crescer sem perder autenticidade. As escolhas mais importantes sempre nasceram do diálogo en-

tre nós. Temos competências e sensibilidades diferentes, mas compartilhamos a mesma visão e os mesmos valores. Acredito que esse equilíbrio entre a liberdade de experimentar e o rigor de transformar ideias em algo concreto e sustentável ao longo do tempo, tenha sido determinante para a construção de uma identidade hoje reconhecível internacionalmente. Somos sócias na condução da empresa, mas, antes de tudo, somos irmãs. A confiança mútua que nos une nos permitiu, em mais de trinta anos, crescer, investir em pesquisa e também assumir riscos, sem nunca perder a nossa coerência.

17


Capa

A linha Portofino foi premiada no Good Design Awards, na categoria Mobiliário. Foto: Sergio Chimenti

O que representa a Semana de Design de Milão para a marca? Representa o ponto de chegada de um ano inteiro de trabalho, pesquisa e experimentação. É o momento em que tudo aquilo em que trabalhamos finalmente toma forma e é apresentado ao mundo. Não se trata apenas de mostrar novos produtos, mas de contar, a cada ano, um novo capítulo do nosso percurso: por meio de materiais, cores, montagens e novas formas de interpretar o espaço, buscamos expressar a evolução da nossa pesquisa e da nossa visão. Milão, naquela semana, se torna um lugar extraordinário de encontro e diálogo internacional.

18

habitat


Este ano vocês apresentaram o projeto Dialoghi na Semana de Design de Milão. Qual é a essência deste conceito? O empenho constante da marca em pesquisa e experimentação gerou um patrimônio rico e estratificado de cores, tecidos, materiais e superfícies, que se tornou um código distintivo, capaz de definir uma identidade e de inspirar direções sempre novas. A palavra “diálogos”, para nós, expressa um conceito muito mais amplo do que a simples interação entre seres humanos. Ela define uma narrativa unitária que nasce da aproximação de cores, formas, texturas e materiais. Por meio dessa interação, cada

Naga é o banco criado pelo Atelier Oï para a Paola Lenti. O projeto une formas essenciais a um trabalho artesanal expressivo. Texturas vibrantes, variações sutis de cor e detalhes refinados criam uma experiência dinâmica e sensorial. Foto: Sergio Chimenti

Elegância nas formas e uma combinação de cores única. Foto: Sergio Chimenti

elemento encontra a própria identidade em relação àquilo que o cerca, dentro de um espaço que não é simplesmente um contêiner vazio e neutro. Assim, a flagship store Paola Lenti Milano é um espaço não apenas físico, mas também conceitual, um laboratório de pensamento em contínua evolução, onde as montagens de produtos indoor e outdoor entram em diálogo com uma presença incomum de ecossistemas naturais – jardins e plantas caracterizados por diferentes sazonalidades – para contar a história de uma empresa que construiu a própria força sobre a criatividade e a experimentação.

habitat

19


Capa

O Alfabeto Cromático de Paola Lenti foi apresentado na Semana de Design de Milão 2026. É o resultado de mais de três décadas de experimentação que moldaram a linguagem de design distintiva da empresa. Foto: Maurizio Natta

O que é o Alfabeto Cromático? Ao longo dos anos, desenvolvemos uma gama cromática muito ampla, que hoje organizamos no Alfabeto Cromático: um sistema de 44 famílias de cores inspiradas na natureza, pensado para relacionar tecidos, fios, cordas, superfícies e diferentes materiais. Para nós, importa menos a cor individual do que a relação entre as cores. Quando projetamos um ambiente, trabalhamos por afinidades, contrastes, intensidades e nuances, buscando sempre um equilíbrio capaz de gerar harmonia e bem-estar. O Alfabeto Cromático nasce justamente para transformar esse nosso modo de trabalhar em uma ferramenta de projeto, aberta a combinações sempre diferentes. Simplicidade, harmonia e atemporalidade: esses três conceitos definem o seu trabalho? Certamente, porque o design não é um exercício formal nem um gesto autorreferencial. É responsabilidade. Os produtos são pensados para fazer bem às pessoas ao longo do tempo. A linguagem é sóbria, suave e essencial; não segue modismos. Um produto projetado para durar é um investimento no tempo.

20

A cor nunca foi concebida como um simples tratamento de superfície, mas sim como uma qualidade intrínseca do material que a expressa. Foto: Maurizio Natta

habitat


O seu trabalho sempre valorizou a sustentabilidade, muito antes que ela se tornasse um tema urgente. Hoje, quais são as principais iniciativas da empresa nesse sentido? Quando se fala em sustentabilidade, frequentemente o foco recai sobre materiais e processos, mas, para nós, o valor essencial é a durabilidade. Um produto sustentável é, antes de tudo, capaz de atravessar o tempo: nesse sentido, a durabilidade se torna um princípio ético, ambiental, projetual, cultural e econômico. Essa visão, que sempre esteve na base de todas as nossas atividades, se traduz em três âmbitos fundamentais: a ética dos processos produtivos, a sustentabilidade dos materiais e a responsabilidade nas relações. Do ponto de vista produtivo, controlamos inter-

namente todo o processo, desde a pesquisa do fio até o desenvolvimento do tecido, privilegiando uma cadeia curta e inteiramente italiana, que permite qualidade, rastreabilidade e uma redução do impacto ligado ao transporte. Os nossos tecidos não passam por tratamentos químicos e são finalizados utilizando apenas a quantidade mínima necessária de água e vapor. Os estofamentos também são projetados para serem desmontáveis, separáveis e, em parte, recicláveis ou compostáveis. Paralelamente a essas atividades, sempre adotamos a economia circular: os resíduos têxteis são selecionados por composição e encaminhados a processos de reciclagem para serem transformados em novos materiais, evitando o uso de recursos virgens.

Mesa da linha Sciara. A estrutura é em aço inoxidável e o tampo é de pedra de lava com vidro. Os desenhos do tampo são feitos à mão, tornando cada peça única. Foto: Sergio Chimenti

habitat

21


Capa

Mesa de jantar Taol, cadeiras Mia e biombo Senkai: um diálogo entre cores, materiais naturais e superfícies têxteis artesanais. Foto: Sergio Chimenti

As pesquisas sobre materiais não são rápidas. O fio Rope foi resultado de quatro anos de trabalho, certo? Acredito que os melhores resultados, e isso vale para qualquer setor, só podem ser obtidos com tempo e com uma atividade de pesquisa constante. Chegar à primeira formulação do Rope, um dos nossos fios para exterior mais versáteis e de melhor desempenho, significou, antes de tudo, selecionar um material que pudesse responder da melhor forma a exigências precisas; depois, foi necessário avaliar as suas possibilidades de melhoria, sem nunca se deixar desanimar pelos inevitáveis fracassos. Colaborar com técnicos especializados e com institutos universitá-

22

rios que tinham o know-how necessário para obter os resultados desejados foi fundamental. Mas o mais importante, que sempre faço questão de destacar, é que, para nós, o processo de pesquisa não parou no primeiro resultado; ao contrário, continua todos os dias, porque cada dia pode trazer resultados ainda mais significativos. Rope, como muitos outros fios e materiais em coleção, é hoje diferente do que era há vinte anos: é algo que o cliente não percebe, mas que nos permite garantir desempenhos cada vez mais refinados e enfrentar os projetos mais desafiadores e ambiciosos. E o caminho está sempre aberto para novas possibilidades.

habitat


O uso sensível da cor e os detalhes de textura, frutos de um trabalho artesanal refinado, ganham forma em mobiliários que criam espaços de elegância serena. Foto: Maurizio Natta

O que torna as suas peças tão desejadas pelo público brasileiro? Acredito que exista uma afinidade natural. A cor é certamente um elemento importante, assim como a linguagem acolhedora, alegre e informal que define os nossos produtos. Penso, porém, que o público brasileiro também reconheça o conteúdo têxtil e artesanal do nosso trabalho: a atenção à matéria, aos processos manuais, às texturas e aos detalhes. São elementos que dão vida a ambientes espontâneos e vitais, pensados, antes de tudo, para serem vividos e para fazer as pessoas se sentirem bem.

habitat

23


ARQUITETURA

BERLIM, EM DOIS ATOS Cada um a seu modo, Château Royal e Michelberger Hotel representam as camadas e contrastes de Berlim. Para entender a cidade melhor, vale ficar nos dois. Por Tansy Kaschak

O Château Royal costura edifícios históricos a uma nova ala e a uma cobertura contemporânea desenhada pelo estúdio de arquitetura britânico David Chipperfield Architects. A irregularidade dessa junção foi incorporada ao projeto: mudanças de nível, corredores e escadas resultam em 26 tipologias diferentes para apenas 93 quartos. Foto: Robert Rieger

B

erlim nunca se resolveu numa identidade só. Passou quase três décadas dividida por um muro, entre 1961 e 1989, e a reunificação derrubou a fronteira política sem apagar as diferenças que ela havia produzido. No antigo lado oriental, edifícios vazios, aluguéis baratos e uma quantidade extraordinária de espaço disponível criaram o laboratório em que uma geração inventou, com o que tinha à mão, boa parte da cidade que hoje se reconhece como um dos polos criativos da Europa. A capital alemã ganhou meu coração na primeira vez em que a visitei, em 2019. Desde então, volto sempre que posso — às vezes por dois dias, outras por dois meses. O que me prende é uma mistura pouco óbvia: um ritmo curiosamente suave, sem a pressa, a ambição ou o consumo desenfreado de outras metrópoles e, ao mesmo tempo, um desejo de viver com intensidade total. Isso 28

aparece na arte, na música, na maneira como as pessoas se relacionam e passam seu tempo. Uma pista de dança lotada às nove da manhã de um domingo é, para Berlim, uma forma séria de devoção. E eu acredito que essa fome de liberdade ímpar venha de uma cidade que aprendeu, da maneira mais difícil, que o presente é a única coisa que nos pertence de verdade. Entre Mitte e Friedrichshain, Château Royal e Michelberger são meus dois hotéis preferidos em Berlim. Bem diferentes um do outro, juntos dizem muito sobre o que a cidade é hoje. E cada um, à sua maneira, extrapola a hotelaria. Ficam a poucos quilômetros de distância e representam uma tentativa de encarnar um paradoxo: o que a sofisticação aristocrática ainda pode ser aqui e o que o engenho do improviso pode criar.

habitat


O prédio de 1906 que abriga o Michelberger, já foi curtume, fábrica de processamento de madeira e fábrica de iluminação; sobreviveu à guerra remendado, serviu de repartição administrativa da Alemanha Oriental e ficou vazio após a reunificação, até que Tom e Nadine Michelberger decidissem, em 2009, transformar aquele galpão junto à ponte Oberbaum num hotel. Foto: Philipp Obkircher

ARTE SEM HORA MARCADA Conheci o Château Royal na semana de seu lançamento, em 2022. Não dormi ali, não vi os quartos, não tinha estudado a história do edifício nem mesmo sabia os detalhes do seu intricado programa artístico. Mas senti no ar a eletricidade de ideias pulsando. Três anos depois, voltei para ficar. E, àquela altura, eu já sabia que cada um dos 93 quartos é assinado por um artista contemporâneo. Mas o grande trunfo do hotel é que a coleção de arte não chega anunciada e muito menos rouba a cena. As obras não dominam os ambientes; conversam com eles e com aquilo para que eles existem: receber, alimentar, acolher, divertir. Isso nos coloca numa posição diferente

daquela que assumimos diante de uma parede de museu ou galeria. No Château Royal, a arte não é só vista: ela é vivida. Você a encontra antes do café, passa por ela a caminho do elevador, dorme ao lado dela, revê depois do jantar. A experiência artística deixa de ter hora marcada. Essa informalidade é particularmente interessante porque nada no Château Royal é casual. Existe precisão por toda parte — na arquitetura, na gastronomia, na curadoria, no serviço — mas ela raramente se apresenta como tal. A sofisticação está justamente no que não precisa ser explicado.

habitat

29


Arquitetura

O lobby do Michelberger Hotel acolhe com seus sofás confortáveis e ​​ estantes repletas de livros. Foto: Zoe Spawton

UMA IDEIA EM MOVIMENTO O Michelberger fica em Friedrichshain, onde a antiga divisão da cidade ainda pode ser adivinhada na trama das ruas. A poucos metros dali, a ponte Oberbaum atravessa o rio Spree rumo ao bairro Kreuzberg, no ponto em que uma fronteira política um dia separou dois mundos que hoje atravessamos a pé. Conheço o hotel há anos e sempre me surpreendo com a sua contínua evolução. A cada retorno, há algo de novo, sem que ele deixe de ser reconhecível. Tom e Nadine Michelberger fundaram o hotel em 2009 movidos por um desejo relativamente simples: independência. Queriam criar, dizem, “uma plataforma para nossas ideias e para que as ideias dos outros pegassem fogo”, um espaço compartilhado em que cada um pudesse

30

fazer o seu, mas todos sob o mesmo teto. Assim, os 119 quartos, restaurante, pátio e lobby, que recebem hóspedes e vizinhos com a mesma naturalidade, se estabeleceram como um pilar social e cultural de uma Berlim mais casual e pouco preocupada com perfeição. "A perfeição não cria memórias", me disse Tom certa vez, "porque memórias só nascem do movimento, de uma experiência viva de interação”. Essa mesma lógica define como o casal pensa a experiência do hotel: desenham uma moldura com valores, direção e propósito claros, ao passo que deixam a tela o mais aberta possível para que cada um a preencha à sua maneira.

habitat


O Michelberger é um moderno hotel-butique de Berlim e remete mais a uma casa comunitária que a um hotel tradicional. Nele tudo convida a entrar e ter bons momentos – o café de torra local, almoço orgânico ou os doces caseiros durante o dia. Foto: Philipp Obkircher

habitat

31


Arquitetura

Uma dobra na parede, que poderia se passar por um capricho decorativo, revela-se, na terceira ou quarta olhada, uma escultura: Wallpaper Fold, de Thomas Demand, ali o tempo todo, esperando ser notada de verdade. Não tem legenda. Não tem convite. "A arte pode simplesmente existir", dizem Kirsten e Stephan Landwehr, dois dos fundadores do Château Royal. Foto: Felix Brueggemann

O TEMPO COMO MATÉRIA Château Royal reflete várias camadas de Berlim, reunindo arte, história e hospitalidade. No hotel, essas camadas não são apenas conceituais. O conjunto de dois prédios históricos tombados, de 1850 e 1910, foi articulado a um novo volume e a uma extensão da cobertura projetados pelo estúdio de arquitetura britânico David Chipperfield Architects. O resultado dessa união é deliberadamente irregular: os diferentes edifícios produzem mudanças de nível, corredores, nichos, escadas e plantas que não se repetem. Para 93 quartos, há 26 tipologias diferentes. Essa complexidade espacial é também consequência de um endereço que acumulou muitas vidas. O lugar passou por usos comerciais e bancários, sobreviveu à guerra e, durante a Alemanha Oriental, abrigou a agência estatal de turismo. Evidências encontradas durante a reforma indicaram que o local teria sido usado pela Stasi para observar a então Embaixada dos Estados Unidos, do outro lado da rua. Depois da queda do Muro, ficou vazio por décadas. Dentro, há mármore colorido, carvalho, níquel, parquet 32

em espinha de peixe e azulejos craquelê feitos à mão. Os tijolos e azulejos esmaltados remetem às antigas estações U-Bahn; os vidros coloridos, a interiores históricos de Berlim Ocidental. Nos corredores, passadeiras de sisal cobrem parcialmente pisos de asfalto fundido — o chamado “terrazzo berlinense”, comum em antigas construções residenciais. Uma parede de Dallglas colore a escada principal. Nos quartos, a marcenaria de carvalho funciona simultaneamente como armário, divisória e elemento arquitetônico, separando cama e banheiro. Pias de mármore colorido e azulejos escuros trazem referências que atravessam Schinkel, Art Nouveau e Bauhaus. Ao mesmo tempo que usa a história como matériaprima para a contemporaneidade sem tentar recriar uma Berlim de outro tempo, o Château Royal parece existir há muito mais tempo do que desde 2022. Os materiais foram escolhidos para envelhecer, ganhar marcas e pátina; televisores são camuflados atrás de cortinas ou dentro de bancos e a tecnologia evita competir visualmente com aquilo que deve permanecer.

habitat


Entre interiores que equilibram referências históricas e uma linguagem decididamente contemporânea, está Portrait of Who, obra do artista britânico-japonês Simon Fujiwara, que eu havia descoberto no ano anterior na Fondazione Prada, em Milão. Foi um sinal imediato de que a arte, no Château Royal, não fazia só papel de decoração. Foto: Tansy Kaschak

Em um dos quartos do Château Royal, uma obra do Honey-Suckle Company, um coletivo de arte fundado em Berlim nos anos 1990. Foto: Felix Brueggemann

habitat

33


Arquitetura

O Michelberger chama os Hideouts de universos autocontidos, brinquedos em tamanho real, prontos para serem descobertos uma dobradiça de cada vez. Cada ângulo é rigorosamente pensado, mas o resultado não tem nada de rígido. Parece um playground. Um playground muito bem pensado. Esse é o Hideout 304, projetado por Sigurd Larssen. Foto: Divulgação Michelberger Hotel

No Michelberger, a relação entre arquitetura e tempo acontece de maneira quase inversa. O hotel ocupa um edifício industrial do início do século XX, construído quando ferrovias, indústria e infraestrutura urbana estavam transformando essa parte da cidade. A estrutura original ajuda a explicar muito do que veio depois: grandes vãos, concreto, janelas monumentais e um pátio revestido por tijolos esmaltados. Em vez de apagar essa escala industrial, as sucessivas intervenções foram introduzindo nela ambientes cada vez mais íntimos. Os primeiros quartos privilegiavam inteligência espacial e eficiência, lugares bonitos e simples para se dormir bem antes de voltar à cidade. Outras tipologias vieram depois, respondendo a novas maneiras de usar o hotel. Uma das inovações surgiu quando Thom Yorke, o cantor líder do Radiohead, se hospedou e praticamente não saiu do quarto durante uma semana: alguns hóspedes queriam um bom motivo para ficar. Assim nasceram os quatro Hideouts, espaços multifuncionais e independentes que parecem ter brotado dentro dos quartos. 34

O Hideout 304, projetado por Sigurd Larsen, arquiteto e designer dinamarquês radicado em Berlim, em colaboração com a equipe do hotel, leva essa ideia quase literalmente à escala de uma casa. A estrutura de madeira cria arquitetura dentro da arquitetura industrial: volumes menores, portas, janelas e variações de altura transformam um único espaço numa sequência de ambientes. A referência à casa de brincar é intencional, mas a geometria limpa impede que se torne cenográfica. Em outra intervenção, o escritório de design londrino Tuckey Design Studio adotou estratégia diferente. Sobre a laje aberta, entre as grandes janelas e as vigas curvas de concreto existentes, sobrepôs quartos e materiais de escala doméstica sem esconder a estrutura industrial. Elementos verticais de madeira criam uma espécie de dossel sobre diferentes áreas e remetem à cabine de sinalização do trem S-Bahn visível do hotel. Móveis desenhados por eles usam, entre outros materiais, Panzerholz — madeira laminada submetida a alta compressão, extremamente resistente, mas trabalhada em perfis finos.

habitat


O bar é o coração vibrante do Château Royal, ponto de encontro de hóspedes e moradores de Berlim. Ao fundo, a parede de Dall glass em tons de dourado, rosa e verde retoma um material muito presente na arquitetura berlinense das décadas de 1910 e 1920. A iluminação ressalta a textura e profundidade dos blocos de vidro, ainda hoje produzidos artesanalmente. Em primeiro plano, a escultura Souvenir, de Mandla Reuter. Foto: Felix Brueggemann.

habitat

35


Arquitetura

O Château Royal nasceu da rede de relações que Kirsten e Stephan Landwehr construíram ao longo de anos entre arte, gastronomia e cultura, dando a essa comunidade mais um lugar de encontro. Nayara Branco-Saeuberlich, brasileira radicada em Berlim, é diretora de marca do Château Royal, onde conecta hospitalidade, arte e cultura através da identidade, experiências, parcerias e projetos especiais do hotel. Da esquerda para a direita: Nayara, Kirsten e Stephan. Fotos: Felix Brueggemann

ALÉM DO HOTEL Nenhum dos dois surgiu propriamente da hotelaria. E talvez isso explique por que ambos acabaram se tornando muito mais do que hotéis. O Château Royal nasceu de uma rede de relações que Stephan e Kirsten Landwehr vinham construindo há décadas entre arte, gastronomia e cultura. Antes do hotel veio o ateliê de molduras de Stephan — um lugar de troca e amizade entre artistas — e restaurantes como o icônico Grill Royal. Ela já trabalhava há décadas como stylist e curadora. O hotel não inventou a comunidade que hoje o frequenta; deu a ela mais um lugar de encontro. No Michelberger, o hotel foi o começo de um movimento. Ao invés de replicar a fórmula em novos endereços, Tom e Nadine ampliaram esse seu alcance em outras direções — entre elas, uma fazenda biodinâmica. É uma ideia de 36

crescimento que não está só interessada em expansão mas, em aprofundar um conceito. “Hospitalidade é um ecossistema humano complexo”, diz Tom. O festival musical PEOPLE, criado e produzido pelo hotel, volta ao Funkhaus Berlin depois de oito anos - o monumental complexo de radiodifusão construído nos anos 1950 para a Alemanha Oriental, projetado por Franz Ehrlich e hoje convertido em estúdios e espaços de música e eventos. Reverberando tudo aquilo que o Michelberger representa, o festival reunirá cerca de 180 artistas em 40 estúdios para aproximadamente 200 performances únicas, sem line-up anunciado, hierarquia ou apresentações predeterminadas: apenas as condições para que algo novo aconteça.

habitat


Nadine e Tom Michelberger se conheceram em Berlim em 2002 — ela vinda de uma fazenda, ele de uma família de artesãos. "Sonhávamos com um espaço que servisse de plataforma para nossas ideias", contam, "e para que as ideias dos outros pegassem fogo". Berlim, dizem, "era o solo perfeito para os aventureiros". "Criamos espaços para que pessoas se conectem e experimentem”. “Podemos criar ativamente o mundo no qual gostaríamos de viver”, diz Tom. Foto: Divulgação

No Château Royal, essa relação com a cidade também ganha forma. Ao redor do hotel existe uma rede de artistas, galeristas, restaurantes, colecionadores e instituições construída ao longo de décadas; durante momentos como Berlin Fashion Week e Gallery Weekend, ele próprio se torna parte ativa desse circuito. O hotel mantém ainda uma relação contínua com a Boros Collection, importante acervo de arte contemporânea instalado num bunker da Segunda Guerra. A arte ali não funciona como valor agregado: pertence à mesma rede humana que produziu o lugar. Pode-se pensar nesses hotéis como instituições porosas: lugares em que a fronteira entre aquilo que

acontece dentro e fora é deliberadamente permeável. O Château Royal absorveu uma rede cultural que já existia, e, ao reuni-la sob um novo teto, passou também a produzir encontros e novas possibilidades para essa mesma comunidade. É uma definição mais ampla de responsabilidade cultural: não apenas um lugar dedicado a exibir ou preservar cultura, mas capaz de sustentar as relações que permitem que ela seja produzida. Num momento em que os espaços independentes que ajudaram a formar a identidade cultural de Berlim enfrentam custos crescentes e financiamento público cada vez mais instável, essa capacidade ganha ainda mais peso.

habitat

37


Arquitetura

Até os móveis ajudam a construir essa continuidade: boa parte foi desenhada especificamente para o para o Château Royal e misturada a peças vintage; Christian Haas criou poltronas, sofás e pufes revestidos em veludo de mohair. Neste quarto, a obra Shoot your shot, de Julian Göthe. Foto: Felix Brueggemann

FIQUE NOS DOIS Acordar no Château Royal significa estar em Mitte, entre Unter den Linden, o Portão de Brandemburgo, a Ilha dos Museus, galerias e algumas das principais instituições culturais da Alemanha. É estar a poucos passos de grandes teatros e restaurantes renomados e, para chegar neles, dividir a calçada com quem molda o panorama político do país. No Michelberger, a experiência de Berlim é mais local, conectada ao ritmo cotidiano de quem vive ali. Friedrichshain é menos imponente e mais espontâneo:

38

cafés de bairro, mercados, parques, bicicletas, música e uma vida social que acontece tanto na rua quanto atrás de portas que passam despercebidas para quem não sabe onde entrar. E os hotéis mudam a maneira de viver esses bairros. Cada lobby tem seu ritmo e as pessoas que ali circulam são diferentes. Muda o lugar onde você começa a manhã e termina a noite. Até a relação entre quarto e rua é outra.

habitat


Os novos quartos da categoria Luxus, do Michelberger, estão situados no último andar do hotel e oferecem as melhores vistas da cidade. Espaçosos e muito iluminados, apresentam acabamentos em madeira e pedra, com um luxo discreto. Foto: Philipp Obkircher

Château Royal é elegante, mas tem humor; estabelecido, mas experimental. Michelberger é informal, mas nada nele é descuidado. Um pode soar highbrow; o outro, laid-back. Os dois são muito mais interessantes do que essas definições. Quem só se sente em casa no rigor do Château Royal ou no despojamento do Michelberger pode escolher um deles — e vai se sair muito bem. Para quem tem tempo e curio-

sidade, porém, vale a pequena inconveniência de fazer as malas no meio da viagem. Trocar de hotel, nesse caso, não é apenas trocar de cama. É mudar de perspectiva. É por isso que, se você me perguntar onde ficar em Berlim, minha resposta continua a mesma: nos dois. Não porque sejam duas Berlins opostas, mas porque cada um abre uma porta diferente para a mesma cidade. E é na travessia entre uma e outra que Berlim aparece por inteiro.

habitat

39


ARQUITETURA

TEATROS DA AMAZÔNIA Reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO, os Theatro da Paz e Teatro Amazonas passam a ser denominados conjuntamente Teatros da Amazônia.

O

Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, são testemunhas de um importante período histórico do Brasil ocorrido no fim do século XIX e começo do XX. Desde julho, ambos integram a Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, reconhecidos pelo valor arquitetônico e cultural. Idealizados por uma elite que ambicionava colocar o norte do Brasil no circuito cultural mundial, foram construídos durante um período de prosperidade econômica da região amazônica. O primeiro a ser inaugurado foi o Theatro da Paz, em 1878, na Praça da República, centro histórico de Belém, no Pará. Em 1896, abriram-se as portas

do Teatro Amazonas, no Largo São Sebastião, em Manaus. Na década de 1960, os edifícios foram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os projetos dos edifícios foram desenvolvidos por equipes independentes, porém a presença de políticos nos bastidores, o apreço pela grandiosidade das construções, a influência das escolas europeias de arquitetura e artes e a urgência de modernização urbana eram fatores comuns. Nesse período, a Amazônia ampliava sua inserção no comércio internacional por meio da navegação fluvial e das intensas relações com a Europa.

Detalhes do belíssimo Teatro Amazonas, um dos monumentos culturais mais importantes do Brasil. Foto: Divulgação Departamento de Patrimônio Histórico Teatro Amazonas 42

habitat


Fachada do Teatro Amazonas, em Manaus, inaugurado em 1896, agora Patrimônio Mundial pela UNESCO. Foto: Divulgação Departamento de Patrimônio Histórico Teatro Amazonas

TEATRO AMAZONAS No fim do século XIX, a cidade de Manaus passava por uma profunda transformação econômica e o Teatro Amazonas integrava um projeto de modernização que buscava projetar a capital no cenário cultural internacional. A monumental casa de espetáculos foi construída no coração da floresta, em uma época em que o acesso à cidade dependia fundamentalmente dos rios. Jane dos Santos Fontenelle, diretora do departamento de Patrimônio Histórico do Teatro Amazonas, afirma que o projeto vai muito além da reprodução de um modelo europeu, pois combina estruturas, tecnologias e materiais importados a elementos de inspiração europeia, madeiras amazônicas, pinturas que fazem referência à natureza e à cultura regional, além de soluções paisagísticas adaptadas ao contexto local. “A arquitetura do Teatro Amazonas é

emblemática em uma dimensão que ultrapassa a ideia de um belo edifício histórico”, diz. “Ela é uma das expressões mais completas de como a Amazônia se conectou ao mundo sem deixar de revelar, em seus detalhes, a própria identidade amazônica”. Àquela época, vivia-se o auge do Ciclo da Borracha, período econômico baseado na extração do látex para abastecer uma indústria internacional ávida pela matériaprima, impulsionada pela Revolução Industrial. Décadas mais tarde, pela Segunda Guerra Mundial, a exploração da borracha na Amazônia ganharia novo impulso. Mas é preciso ter cuidado, pois a narrativa, geralmente se concentra na riqueza deste ciclo, nos grandes empresários, nos governantes, na arquitetura e no esplendor de Manaus. Essa, porém, é apenas uma parte da história.

habitat

43


Arquitetura

“A própria documentação da candidatura à Patrimônio Mundial reconhece que a construção dessa riqueza envolveu trabalhadores vindos de regiões empobrecidas do Nordeste, além daqueles que trabalhavam diretamente na extração do látex e nas obras públicas”, continua Jane. “Muito antes da construção do Teatro Amazonas, povos indígenas já habitavam, conheciam, manejavam e construíam suas próprias relações culturais. Precisamos ter cuidado para não romantizar, transformando o seringueiro em um personagem folclórico. A história precisa mostrar também as relações de trabalho, desigualdades, exploração, deslocamentos, violência e dificuldades que

marcaram os ciclos econômicos da Amazônia”. O reconhecimento contribui também para ampliar uma visão muitas vezes limitada da Amazônia, associada exclusivamente à natureza. “Essa valorização também cria uma oportunidade importante para fortalecer políticas de preservação urbana, qualificação do espaço público, valorização do patrimônio e recuperação do Centro Histórico, além de colocar a região Norte no mapa mundial do patrimônio cultural e ampliar a visibilidade internacional da produção cultural amazônica”, finaliza a diretora.

A sala de espetáculos do Teatro Amazonas tem capacidade para 701 pessoas, entre plateia e camarotes. Foto: Divulgação Departamento de Patrimônio Histórico Teatro Amazonas 44

habitat


Fachada do Theatro da Paz, em Belém, no Pará, também Patrimônio Mundial pela UNESCO. Foto: Divulgação/Iphan

THEATRO DA PAZ No centro histórico de Belém, no Pará, está o Theatro da Paz, instalado na Praça da República. Seu edifício imponente impacta pela beleza de traços neoclássicos, bustos de mármore, estátuas de bronze, pisos de pedras, lustres de cristal. Mas assim como o Teatro Amazonas, a história vai muito além da aparência e passa pela floresta, pelos rios, pelo trabalho dos seringueiros, dos trabalhadores da construção, dos artesãos e de muitas outras pessoas que fizeram parte das transformações vividas pela Amazônia naquele período do Ciclo da Borracha. Para Nilo Nunes, coordenador geral da gestão do Theatro da Paz, o reconhecimento internacional dá uma oportunidade maior de apresentar a história desses edifícios de forma completa. “Não apenas falar dos monumentos, mas também das pessoas e dos processos que tornaram sua existência possível”, afirma Nilo. “É fundamental reconhecer a presença e a história dos povos indígenas para compreender de maneira mais ampla esse processo, inclusive suas contradições e seus

impactos. O patrimônio ganha outra dimensão quando alguém entra admirando sua arquitetura e sai entendendo melhor tudo aquilo que tornou essa arquitetura possível”. Além das projeções nacional e internacional, a distinção aumenta a responsabilidade quanto à forma como os bens são apresentados. A expectativa é que haja fortalecimento do turismo cultural, da pesquisa, da educação patrimonial e do intercâmbio. “Também chama a atenção para algo importante: o Theatro não deve ser visto isoladamente da paisagem urbana da qual faz parte”, continua Nilo. “Em Belém, o componente inscrito reúne o Theatro da Paz e a Praça da República (que inclui o Parque João Coelho e a Praça da Sereia). Isso faz diferença porque a experiência não começa apenas quando entramos no Theatro. A chegada, a paisagem, as perspectivas do edifício e sua relação com os espaços públicos ao redor também fazem parte dessa leitura. Em Manaus, há uma relação semelhante entre o Teatro Amazonas e o Largo de São Sebastião”.

habitat

45


Arquitetura

A Sala de Espetáculos do Theatro da Paz hoje comporta 880 pessoas. As cadeiras conservam o estilo da época em madeira e palhinha adequadas ao clima da região. A balaustrada é toda em ferro inglês folheado a ouro. Nas paredes, com motivos florais, as pinturas imitam o papel de parede. Foto: Marivaldo Pascoal

A pintura em afresco do teto central apresenta elementos da mitologia greco-romana fazendo uma alusão ao Deus Apolo conduzindo a Deusa Afrodite e as musas das artes à Amazônia. Foto: Marivaldo Pascoal 46

habitat


O Theatro da Paz foi a primeira casa de espetáculos construída na Amazônia. Tem características grandiosas, acústica perfeita, lustres de cristal, piso em mosaico de madeiras nobres, afrescos nas paredes e teto e dezenas de obras de arte. Foto: Marivaldo Pascoal

COMPREENDER E PRESERVAR O Teatro Amazonas e o Theatro da Paz fazem parte da identidade de suas cidades e possuem muitas singularidades, mas ajudam a contar capítulos de uma mesma história regional. “Talvez essa seja uma das maiores forças dos Teatros da Amazônia: conseguir falar de um período histórico e de uma região inteira sem apagar as particularidades de cada cidade”, diz Nilo. “Preservar esse patrimônio é preservar essa capacidade de compreender e contar a Amazônia por diferentes perspectivas”. Com o reconhecimento, vêm também a responsabilidade e o compromisso com a preservação, já que os bens

inscritos na Lista do Patrimônio Mundial estão sujeitos ao sistema de acompanhamento da organização. “Pode-se afirmar que o título não é simplesmente uma medalha que se recebe e fica permanentemente sem novas obrigações”, explica Jane. “A UNESCO possui mecanismos de monitoramento do estado de conservação dos bens e pode solicitar informações aos Estados”, conclui. Daqui para frente, será cada vez mais importante garantir uma gestão adequada de ambos os espaços, com planos de conservação de longo prazo.

habitat

47


ARQUITETURA

UM LUGAR PARA (BEM) VIVER O contraste entre a neutralidade dos acabamentos e a presença marcante do mobiliário confere ao projeto de interiores um caráter descontraído, alegre e contemporâneo.

50

habitat


No living, o mobiliário foi orientado para o exterior, privilegiando a vista para o mar e transformando a paisagem em parte da experiência cotidiana do ambiente. Em destaque, peças Paola Lenti: sofá e chaise Santorini, poltrona Ami, mesas de centro Isole e laterais Strap. Poltrona de palha do acervo do cliente. Foto: Mariana Boro

E

nquadrar a natureza e dialogar com ela, estabelecendo uma continuidade visual entre o espaço interno e a paisagem da Praia Brava, em Santa Catarina, foi o conceito que guiou o projeto de interiores deste apartamento, assinado pelo escritório do arquiteto David Bastos. O imóvel de 330 m2, em um prédio com arquitetura

e concept design do renomado Arthur Casas, tem como protagonista uma imensa janela de frente para um mar azul, também emoldurada pelo verde da mata. A proposta potencializou a relação entre interior e exterior por meio da disposição e da paleta de cores do mobiliário Paola Lenti. A designer italiana, por sinal, participou da seleção das peças a partir da concepção do arquiteto.

habitat

51


Arquitetura

As peças da designer Paola Lenti, além da força estética, oferecem conforto e funcionalidade alinhados à proposta de uma casa contemporânea, descontraída e pensada para viver e receber. Na varanda, destacam-se os tons de azul das poltronas Baleari e da mesa Giro. Foto: Mariana Boro

“A intenção não foi reproduzir literalmente as cores da natureza, mas trazer essa atmosfera para dentro do apartamento de maneira sofisticada”, diz David Bastos. As cores se relacionam com a paisagem e a luz natural e criam ambientes vibrantes, mas, ao mesmo tempo, leves e acolhedores. “Os verdes fazem uma conexão direta com a vegetação do entorno e os tons mais profundos acrescentam densidade e elegância à composição”, completa.

52

Ao desenhar um projeto de interiores essencialmente claro, as cores vibrantes ganham protagonismo e trazem personalidade. “A arquitetura cria uma base luminosa, enquanto o mobiliário introduz cor e textura. O resultado não busca apenas uma composição visual, mas ambientes pensados para serem efetivamente vividos, receber amigos, descansar e aproveitar a relação com a paisagem”.

habitat


No lounge, poltronas Berni, mesas laterais Strap e mesa de centro Giro, da designer italiana Paola Lenti. A tela Terra Roubada é da artista brasileira Agrippina Manhattan. Foto: Mariana Boro

As cores se relacionam com a paisagem e a luz natural e criam ambientes vibrantes, mas, ao mesmo tempo, leves e acolhedores.

habitat

53


Arquitetura

No home, o sofá se volta para a televisão e estabelece uma relação mais intimista, ao mesmo tempo que delimita o espaço. No mobiliário, destaque para peças Paola Lenti, como o sofá Cove, a poltrona Legère, os tapetes Asira e Wadi e a mesa de centro Cerchi. A mesa lateral de resina é do ateliê Draga & Aurel. Objetos Casual Conceito e do acervo do cliente. Foto: Mariana Boro

54

habitat


No jantar, uma divisória vazada da linha Bambou, da Paola Lenti, com desenho inspirado no bambu, delimita o ambiente de maneira sutil, sem interromper a integração visual. Destaque para a cadeira Steltman, redesenhada por Alessandro Guerriero para a Coleção Alchimia Redesign, em colaboração com o Studio Superego. A peça é uma homenagem à famosa cadeira Steltman, desenhada pelo designer Gerrit Rietveld. É elaborada com plexiglasscolorido e cada uma possui uma sequência de cores diferentes, tornando-as peças únicas. Edição limitada, assinada e numerada. Foto: Mariana Boro

habitat

55


Arquitetura

A integração é uma característica importante da arquitetura de interiores de David Bastos. Ao eliminar barreiras desnecessárias, o projeto amplia a percepção espacial e permite que os ambientes sejam compreendidos como parte de uma mesma composição. Mobiliário, objetos e divisórias organizam o espaço sem a necessidade de fechamentos rígidos. Foto: Mariana Boro

56

habitat


Nos quartos, a opção foi a mesma das áreas sociais: uma base clara e neutra sobre a qual o mobiliário introduz cor e personalidade. Cada suíte recebeu uma tonalidade predominante, criando uma identidade própria. Na suíte máster, o vermelho de Paola Lenti na cama Elisio, mesas de cabeceira Walt, poltrona Tapio e tapete Zoe. Foto: Mariana Boro

O arquiteto acredita que uma casa para morar precisa, antes de tudo, refletir quem a habita. Aqui, a personalidade do proprietário aparece na linguagem maximalista e alegre, expressa pelas cores, pelos objetos e pela criação de espaços leves, confortáveis e acolhedores para o cotidiano. Além disso, a coleção de peças e referências do

cliente torna a produção mais rica e pessoal. “O mobiliário italiano também tem um papel importante nessa identidade. A combinação entre design, cor e objetos revela um morador que valoriza peças com personalidade e que gosta de ambientes menos óbvios, mais afetivos e cheios de histórias”, finaliza.

habitat

57


DESIGN

UMA COLEÇÃO DE HISTÓRIAS A Galeria Teo Cleveland apresenta um recorte do vasto acervo de mobiliário moderno brasileiro reunido ao longo de quase duas décadas pelos irmãos Lis e Teo Vilela Gomes. Por Melissa Crocetti

Os irmãos Lis e Teo Vilela Gomes, sócios na Galeria Teo Cleveland, em ensaio com mobiliário Giuseppe Scapinelli. Foto: André Scarpa.

Q

uem passa em frente ao número 508 da Avenida Cleveland, no bairro Campos Elísios, região central de São Paulo, se depara com um edifício de 2.000 m2 dedicado a um dos capítulos mais importantes do design nacional. Inaugurada em agosto, a Galeria Teo Cleveland materializa décadas de pesquisa, conservação e valorização da produção modernista pelos irmãos e sócios Lis e Teo Vilela Gomes. O nome do espaço faz referência à Avenida Cleveland, endereço do imóvel histórico onde funcionou a fábrica Cerello, inaugurada no início do século 20. A localização reforça a vocação cultural da galeria – nas proximidades estão a Sala São Paulo, a Pinacoteca de São Paulo e o Museu de Língua Portuguesa, instituições que fomentam a revitalização da região. A Galeria Teo Cleveland soma-se a outros dois espaços já existentes na capital paulista: a Casa Teo, dedicada a an60

tiguidades, objetos, curiosidades e mobiliário de diferentes períodos e estilos, do clássico ao industrial; e a Galeria Teo, voltada ao design modernista nacional, que concilia a atividade comercial com exposições abertas ao público. O espaço recém-inaugurado abriga parte da coleção em seu estado original, além dos ateliês de restauro e das atividades de pesquisa e documentação histórica desenvolvidas em colaboração com pesquisadores convidados. A equipe técnica da Galeria Teo atua em seis ateliês, dedicados às diferentes etapas de conservação e recuperação das peças – marcenaria, preparação (lixa e massa), pintura, verniz e secagem, acabamento, estofamento e elétrica e metal. “O acervo reúne cerca de 36 mil itens, entre objetos decorativos e mobiliário”, conta Lis Vilela Gomes. “As cadeiras representam uma parcela expressiva desse total, sobretudo por aparecerem muitas vezes em conjuntos ou em múltiplos exemplares, mas é bastante diverso”.

habitat


Cadeira Recurva (1949) e mesa retangular de tampo verde flutuante (1956) assinadas por Joaquim Tenreiro, nome fundamental no design moderno brasileiro. Foto: André Klotz

habitat

61


Design

Cadeiras inspiradas nas peças de Michael Thonet, que mudou a história do mobiliário ao explorar as possibilidades da madeira curvada a vapor. Foto: Ramanaik Bueno

ESTÉTICA MODERNISTA BRASILEIRA O interesse dos irmãos pelo design de mobiliário vem de família; já a predileção pelos modernistas brasileiros surgiu quando Teo percebeu que muitas obras destes autores não eram devidamente reconhecidas. “Sempre convivemos com antiguidades, pois nossa mãe apreciava esse universo. O mobiliário moderno chamou a atenção quando Teo viu, em uma revista internacional, uma campanha que usava o sofá Presidencial, de Jorge Zalszupin, sem saber do que se tratava”, conta Lis. “Depois, trabalhando com antiguidades em feiras como a do MASP e a da Benedito Calixto, ele foi descobrindo e estudando o design moderno brasileiro. Esse interesse se transformou em uma grande paixão e, em novembro de 2007, levou à abertura da Casa Teo, dedicada a esse segmento”.

62

A produção modernista brasileira compreendida entre os anos de 1940 e 1970 é tão relevante para a nossa cultura porque consolidou uma linguagem própria que dialogava com a arquitetura da época. “A identidade visual do Brasil moderno exigiu uma integração entre espaços e objetos. Para acompanhar a nova arquitetura, o mobiliário se afastou do tradicionalismo palaciano europeu. Consolidou-se uma estética brasileira, focada no conforto, nas matérias-primas locais e na leveza do estilo de vida tropical. O design nacional passou a afirmar uma produção própria, projetando o país como uma referência criativa no cenário internacional”.

habitat


Criada em 1972, essa escrivaninha da linha Worktop, produzida pela L’Atelier/Forsa, nasceu do trabalho colaborativo da equipe reunida por Jorge Zalszupin, com Oswaldo Mellone, Paulo Jorge Pedreira, Marcelo Resende, Lilian Weinberg e Arnold Wolfer. Foto: André Klotz

habitat

63


Design

A Galeria Teo Cleveland materializa décadas de pesquisa, conservação e valorização da produção do mobiliário moderno brasileiro. Foto: Nelson Kon

MEMÓRIA DO DESIGN NACIONAL A Galeria Teo Cleveland concretiza a trajetória de pesquisa e preservação desenvolvida pelos irmãos Lis e Teo ao longo dos anos. Depois da escolha do antigo galpão, teve início um minucioso processo de restauração do prédio. Assinado pelo escritório Tacoa Arquitetos, e concluído em dois anos, o projeto buscou preservar ao máximo as características originais da arquitetura, como a linguagem industrial e seus elementos construtivos. Máquinas da antiga fábrica foram preservadas como testemunho da atividade que um dia ocupou o local. Fernanda Carvalho, historiadora e curadora vinculada ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, conduziu uma espécie de arqueologia do imóvel, trabalho que deu origem a uma linha do tempo de aproximadamente 130 anos. As máquinas remanescentes, por exemplo, receberam placas com informações sobre marca, ano e função.

64

Há também uma outra linha do tempo que organiza os profissionais e empresas que marcaram o design nacional e que hoje estão representados no acervo. Desenvolvido em colaboração com a professora e pesquisadora Ethel Leon, este trabalho reforça uma vertente que acompanha a trajetória dos irmãos. “A pesquisa e a catalogação do mobiliário moderno brasileiro sempre estiveram no DNA da Teo”, comenta Lis. “Com a abertura da unidade Cleveland, esse compromisso se consolidou: unimos nossa equipe interna e especialistas do setor para manter um estudo permanente da área. O projeto liderado pela Ethel Leon é uma construção viva e colaborativa, funcionando como um convite aberto para que outros estudiosos tragam novas contribuições e nos ajudem a organizar a memória do design nacional”.

habitat


O projeto da Galeria buscou preservar as características originais da arquitetura do galpão, a linguagem industrial e seus elementos construtivos. Foto: Nelson Kon

O estudo das matérias-primas empregadas nas peças antigas é outra frente de investigação da Galeria. Conduzido pelo arquiteto, escritor e curador Francesco Perrotta-Bosch, busca identificar as diferentes espécies de madeira presentes na coleção. “A produção do mobiliário moderno brasileiro fez amplo uso de madeiras nobres, então disponíveis em maior abundância, como jacarandá, caviúna, cabreúva, imbuia, jatobá e louro, entre outras. A identificação correta dessas madeiras é importante para compreender os materiais empregados em cada peça e confrontá-los com suas características históricas e construtivas. Esse trabalho contribui para a documentação, a atribuição e a avaliação da originalidade do mobiliário”. A atenção aos detalhes e a dedicação conquistam clientes que buscam colecionar histórias. “Cada peça exige uma leitura cuidadosa de seus materiais, técnicas construtivas, acabamentos e intervenções anteriores, e é esse conhecimento acumulado que permite definir

a melhor forma de atuar, preservando ao máximo suas características originais”. Na Teo Cleveland, os móveis são comercializados antes de serem restaurados, o que também valida sua origem e autenticidade. “O cliente de mobiliário moderno brasileiro é movido pela relevância cultural e estética dessas peças, mas também por seu valor e permanência ao longo do tempo”. Enquanto um antiquário costuma reunir peças de diferentes épocas, estilos e procedências, uma galeria como a Cleveland estabelece critérios mais específicos para a formação de sua coleção, com foco no Modernismo e no design de autor. “O acervo não é definido apenas pelo fato de ser antigo, mas por pertencer a um movimento estético e cultural fundamental para a história do design”, explica Lis. O conhecimento técnico e a experiência dos artesãos são essenciais para um restauro bem-sucedido.

habitat

65


Design

A exposição “Scapinelli e seus esbeltos elementos”, na Galeria Teo Cleveland, reuniu peças do designer ítalo-brasileiro Giuseppe Scapinelli, com destaque para suas linhas elegantes e formas escultóricas. Foto: André Scarpa 66

habitat


Peças de mobiliário criadas por Giuseppe Scapinelli integram alguns dos ambientes da Galeria Teo Cleveland. Foto: André Scarpa

ACERVO EM MOVIMENTO Lis conta que ao longo dos anos ela e Teo construíram uma coleção particular formada por várias peças que convivem com eles em suas casas. “Mas esse acervo não é estático: quando necessário, elas voltam para a galeria, integram exposições ou são emprestadas para instituições e projetos, como já aconteceu em um empréstimo ao MoMA. Existe uma circulação natural entre a nossa coleção particular, a galeria e aquilo que compartilhamos com o público”. Identificar qual foi a primeira peça, aquela que teria dado início a essa história, não é tarefa simples. Teo já

mantinha uma coleção particular, e parte dessas peças permanece com eles até hoje, integrando o acervo. “Se pensarmos pela datação, temos peças que remontam ao final do século XVIII. Mas a história dos primeiros objetos do nosso acervo começa antes mesmo da abertura do primeiro espaço, há quase 20 anos”, finaliza. Na Galeria Teo Cleveland, o conjunto está organizado por designers e manufaturas. Aberto à visitação, o espaço também oferece visitas guiadas mediante agendamento. Para conduzir pelo percurso de maneira fluida e educativa, a sinalização apresenta verbetes biográficos e históricos.

habitat

67


ARTE

DE DENTRO PARA FORA Da Biologia às artes visuais, Ana Lecticia Mansur construiu uma trajetória em que observação, pesquisa e autoconhecimento alimentam uma produção em permanente transformação. Por Rafaella Sabatowitch

A

na Lecticia Mansur cresceu cercada por arte. A primeira imagem que lhe vem à memória é a sala da casa da infância, com pinturas, esculturas e objetos trazidos pelos pais de viagens. Há também os domingos na Feirinha do Largo da Ordem ao lado do pai, em Curitiba, onde conheceu o trabalho de Rogério Dias, artista a quem admirava ainda menina e que, décadas depois, escolheria como patrono na Academia de Letras do Brasil, seccional Paraná. As lembranças se multiplicam. Frequentou cedo o ateliê do mestre Luiz Carlos de Andrade Lima, sendo uma das alunas mais jovens em meio a muitos adultos. Desenhava, pintava e observava. Na hora de escolher uma carreira, Ana Lecticia ficou entre dois caminhos que, vistos de longe, poderiam parecer opostos. Aos 16 ou 17 anos, durante um teste vocacional, recebeu sucata e objetos para representar o ambiente em que imaginava trabalhar. Montou no chão um laboratório, com bancada, microscópio e até uma célula com suas organelas. As opções eram Belas Artes e uma formação na área biológica. Escolheu Ciências Biológicas na Universidade Federal do Paraná. Gostava especialmente de genética e começou a estagiar já no segundo semestre da graduação, em um labora-

70

tório de técnicas histológicas. Ali, preparava lâminas para estudo microscópico, num trabalho que envolvia coloração, precisão e observação. “Hoje eu entendo isso muito relacionado ao que eu faço. A coloração, a técnica, aquela coisa minuciosa”, conta. Depois da graduação, especializou-se em Reprodução Humana Assistida, área ainda relativamente nova no Brasil no início dos anos 2000, e foi estudar na França. Tornou-se embriologista e construiu uma trajetória da qual se lembra com orgulho. Até que permanecer fechada em um lugar deixou de fazer sentido. A saída levou cerca de um ano e significava abrir mão de uma carreira consolidada. Com o apoio do marido, permitiu-se descobrir o que viria adiante. A resposta estava, de certa maneira, onde sempre estivera: na pintura. Por volta de 2011, passou a frequentar o ateliê de Carla Schwab, no Solar do Rosário. Vieram o aprimoramento técnico, as exposições, a assistência curatorial e as encomendas. Pela maneira orgânica como essa transição aconteceu, Ana Lecticia prefere não falar em uma decisão de se tornar artista. Para ela, houve uma espécie de autorização interna, quando se viu comprometida com a arte para sempre.

habitat


Paz, Linhas da Vida (2024), de Ana Lecticia Mansur. Foto: Divulgação

habitat

71


Arte

Sintonia, Linhas da Vida (2021), de Ana Lecticia Mansur. Foto: Divulgação

MATÉRIA DE INVESTIGAÇÃO Nesse percurso, a Biologia não ficou para trás. “A bióloga mora na artista. Ou será que a artista mora na bióloga?”, brinca. A formação científica permanece na maneira de observar, investigar e construir perguntas. Se antes olhava para seu objeto de estudo pelo microscópio, hoje se volta para si mesma. “O assunto do meu trabalho é o autoconhecimento, sou o meu próprio objeto de estudo”, afirma. É desse exercício que nasce boa parte de sua produção. Uma curiosidade, uma inquietação ou algo que a deixe feliz, triste ou desconfortável pode ser o ponto de partida. 72

Ana Lecticia pensa sobre o assunto, escreve, pesquisa, conversa e, em algum momento, transforma a reflexão em gesto. Algumas obras passam antes por estudos em aquarela, lápis ou acrílica; outras surgem diretamente na tela, abertas ao imprevisto. Suas séries convivem no ateliê sem obedecer a uma sequência rígida. Há as flores de Polinização, as Linhas da Vida, Intrecciato e as Revoadas, que produz há anos e que também se transformam. Nas obras mais recentes desta última série, as aves aparecem menos agrupadas, mais soltas. O voo remete à liberdade, mas as revoadas carregam

habitat


Petit Jardin II, Polinização (2023), de Ana Lecticia Mansur. Foto: Divulgação

outras reflexões. “Poder voar é uma liberdade; poder alcançar outros continentes com as próprias asas”, diz. Ao mesmo tempo, interessam a ela a coletividade, a liderança, a migração e o pertencimento. “A gente está sempre indo para algum lugar, vindo de algum lugar, muitas vezes sozinhos, mas nunca solitários, porque a gente sempre leva alguma coisa de todo mundo que passou pela nossa vida”. Intrecciato, sua série mais recente, nasceu durante a pandemia, a partir de reflexões sobre a vastidão do mundo e a ilusão humana de controle. “Um vírus invisível tirou o chão da humanidade”, lembra. Aos poucos, as próprias séries começaram a se encontrar. Aves das Revoadas

surgiram em trabalhos de Intrecciato, por exemplo, numa atividade que ela prefere manter aberta a cruzamentos. A cor também não chega com um significado determinado. “O vermelho, que para um é sangue, dor, para outro é explosão, energia”, diz. “Minha paleta é construída com base nas emoções que eu sinto. Acho mais justo que o significado das cores seja descoberto pelo espectador”. Referências para esse universo vêm de diferentes lugares. A música faz parte da rotina. A leitura ocupa pelo menos uma hora de seus dias, entre clássicos, livros técnicos, de arte e autores contemporâneos.

habitat

73


Arte

Paz II, Linhas da Vida (2024), de Ana Lecticia Mansur. Foto: Divulgação 74

habitat


A artista Ana Lecticia Mansur em seu ateliê. Foto: Nizo Gomidet.

UM OLHAR EM MOVIMENTO Curadoria, escrita e produção cultural formam hoje outras frentes de sua atuação. Depois de trabalhar como assistente curatorial, Ana Lecticia passou a desenvolver projetos próprios e, desde 2022, é responsável pela curadoria do Espaço Cultural Eco. Em 2026, esteve à frente da organização do Salão Graciosa de Artes Plásticas, que recebeu inscrições de 228 artistas. A experiência de acompanhar o processo de seleção ao lado do júri foi, para ela, uma oportunidade de formação. “Não foi uma aula; foi um curso inteiro”, diz. Conhecer outros ateliês, pesquisar trajetórias e construir exposições interfere inevitavelmente em sua própria produção. “Tudo isso ajuda a formar o olhar. Não tem como separar. São setores diferentes, mas de um mesmo organismo”. Agora, esse organismo segue produzindo em várias direções.

Ana Lecticia trabalha simultaneamente em um jardim, uma nova revoada e uma obra da série Linhas da Vida. Paralelamente, prepara uma exposição própria e outra de Katia Velo, na qual atua como curadora. Nada precisa, portanto, ser definitivamente encerrado. Uma pintura provoca outra; uma série encontra a seguinte; uma experiência curatorial modifica seu olhar. Ela mesma prefere pensar seu percurso menos em termos de evolução do que de transformação. A curiosidade que um dia a levou a montar uma célula no chão durante um teste vocacional permanece ativa. Mudaram as ferramentas e o campo de investigação. A necessidade de observar, experimentar e procurar significados, não. A bióloga nunca precisou deixar o ateliê para que a artista pudesse entrar.

habitat

75


ARTE

PROFISSÃO: CURADOR O termo está na moda. Mas quando se trata do mundo das artes, envolve pesquisa, repertório e responsabilidade. Por Rafaella Sabatowitch

E

m 2020, o New York Times publicou a matéria Everyone Is a Curator Now. Nela, a britânica Lou Stoppard, escritora e também curadora, dissertou sobre como o marketing e a indústria da moda se apropriaram do termo para comunicar apuro estético diante de tantas opções disponíveis aos consumidores que, além de não quererem errar, sentem que não podem. Essa apropriação generalizada não é nova. Pelo menos 11 anos antes, o mesmo NYT já trazia o assunto à tona, então

78

associado a uma espécie de autoengrandecimento. Mas é claro que hoje, em tempos de mídias sociais e infoxicação – a sobrecarga mental e emocional causada pelo excesso de dados e conteúdos que recebemos diariamente – , o uso genérico do termo curadoria ganhou outra dimensão. Derivada diretamente do latim curator – usado na Roma Antiga para designar guardiões e administradores – , a palavra “curador” carrega em sua origem o verbo curare, que significa, literalmente, “cuidar de”. E era justamente

habitat


Imagem da exposição O princípio do conhecimento, de Santiago Yahuarcani, no MASP, com curadoria de Amanda Carneiro. Foto: Eduardo Ortega

essa a atribuição dos primeiros curadores nos museus: tomar conta dos acervos. A chamada virada curatorial ganhou força a partir dos anos 1960 e 1970, tendo no suíço Harald Szeemann uma de suas figuras centrais. A atividade deixava de estar restrita à conservação e organização de coleções para assumir uma dimensão autoral, capaz de conectar ideias, estabelecer relações e produzir discursos. Se hoje a palavra pode aparecer associada à seleção de roupas, objetos, restaurantes, destinos ou conteúdos

digitais, no universo da arte “escolher” é apenas uma parte do trabalho. Por trás de uma exposição há pesquisa, construção de conceitos, relações entre obras, artistas e contextos, decisões espaciais e uma série de questões práticas que vão do orçamento à conservação. E há, sobretudo, um ponto de vista.

habitat

79


Arte

O curador Marc Pottier, francês radicado no Brasil. Foto: Divulgação

CRIAR CONEXÕES Para o curador independente francês Marc Pottier, conectar artistas e público continua sendo uma das atribuições essenciais da profissão. É o curador quem pesquisa e contextualiza as obras, cria o tema central de uma exposição, seleciona os trabalhos e pensa como eles irão dialogar entre si e com quem os verá. Nesse processo, pode dar visibilidade a novos talentos, recuperar nomes esquecidos e propor leituras capazes de estimular o pensamento crítico. O trabalho também mudou à medida que a própria arte ampliou seus territórios. “O grande diferencial dos últimos anos foi o esforço para democratizar a arte, tirando-a de elites restritas e levando-a para as ruas, aeroportos, metrôs e edifícios”, afirma Marc. Ao mesmo tempo, luz, som, projeções e outros suportes passaram a integrar obras à arquitetura e à paisagem, fazendo do curador um parceiro dessas experimentações. A escolha das obras, portanto, não acontece isoladamente. Para ele, não existe um método único para construir uma exposição. O tema costuma nascer do percurso de pesquisa e da urgência em abordá-lo. A partir daí, conceito e seleção de artistas caminham juntos. O espaço expositivo, o país e a cidade onde a mostra acontece interferem diretamente nas decisões. 80

Essa relação com o contexto aparece nos diferentes projetos dos quais está à frente no Brasil. Na Usina de Arte, em Pernambuco, artistas são convidados a mergulhar na cultura do Nordeste e na história da antiga usina de cana-de-açúcar, criando obras em diálogo com o lugar e a comunidade. No Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, o desafio envolve a programação de uma grande instituição, conciliando artistas brasileiros emergentes e nomes internacionais. Já no futuro Pompidou Paraná, em Foz do Iguaçu, Marc vê a possibilidade de aproximar exposições vindas de Paris da produção dos países da Tríplice Fronteira e da América do Sul. Há também criação nesse processo. “Certamente, o curador é um autor. Cada um deles deseja testemunhar seus encontros, manifestos, certezas e dúvidas”, diz. É o que, segundo ele, permite reconhecer a assinatura de determinados curadores e torna importante que instituições culturais trabalhem com profissionais diversos, ampliando a variedade de perspectivas apresentadas ao público. Autoria, porém, não significa unanimidade. O público pode discordar, assim como outros curadores podem questionar uma proposta. Para ele, essa divergência integra “o diálogo sem fim do mundo das artes”.

habitat


A obra Claro-Escuro, de Alfredo Jaar, instalada na parede da destilaria da Usina de Arte, sob curadoria de Marc Pottier. A frase em néon é de Antonio Gramsci: “O velho mundo está morrendo, o novo tarda a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros”. Foto: Divulgação

Marc Pottier foi o curador da “invasão criativa” que aconteceu em São Paulo, em 2014. Na foto, obra da artista portuguesa Joana Vasconcelos, exposta na capela do antigo Hospital Matarazzo. Foto: Divulgação

habitat

81


Arte

Amanda Carneiro, curadora do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Foto: Aline Barcessat Lewinski

EDUCAR E DESEDUCAR O OLHAR Mas o que faz alguém perceber relações entre determinadas obras, identificar um artista relevante ou enxergar uma questão capaz de sustentar uma exposição? Para Amanda Carneiro, pesquisadora, historiadora da arte e curadora do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e da próxima Bienal de São Paulo, é preciso começar desmontando a ideia de que exista uma espécie de dom natural para isso. “Não acho que exista um ‘olhar curatorial’ como talento inato. Ele é formado”. E falar apenas em olhar, observa, talvez seja insuficiente. Curadoria envolve também “ouvir, experimentar, ler, lembrar e esquecer”. Essa formação exige estudo e tempo. Passa por obras, exposições, acervos, arquivos e ateliês, assim como por livros, filmes, cidades, músicas e conversas. É atravessada ainda pelas experiências de cada pessoa e pelo lugar que ela ocupa no mundo. “Não existe um olhar inteiramente neutro”, afirma. O repertório é fundamental, mas Amanda chama atenção para um paradoxo: aquilo que permite reconhecer relações pode limitar a capacidade de descobrir outras. Ao visitar uma exposição, ela conta que procura escapar, ao menos inicialmente, da posição profissional que imediatamente observa a iluminação, a disposição das obras, as legendas e os textos. É uma tentativa de experimentar antes de saber. O mesmo vale para a pesquisa. Em vez de procurar 82

apenas aquilo que confirma conhecimentos anteriores, interessa-lhe encontrar trabalhos capazes de desorganizar certezas. “Um olhar curatorial precisa continuar sendo educável e deseducável. Aprender a desaprender também é importante”. A chamada intuição tampouco surge do nada. Para Amanda, muitas vezes ela é uma forma condensada de repertório e experiência. Uma associação aparentemente evidente precisa ser submetida à pesquisa, que pode aprofundá-la, complicá-la ou simplesmente demonstrar que ela não se sustenta. Há espaço, inclusive, para o erro. Depois de uma exposição montada, a convivência com as obras pode produzir um conhecimento que não existia antes. É aí que entra outra dimensão central do ofício: a responsabilidade. Ela está na pergunta sobre o que significa aproximar duas obras ou sustentar determinada interpretação, mas também nas condições concretas oferecidas aos artistas. Uma exposição envolve empréstimos, plantas, textos, montagem, orçamento, produção e conservação. Decisões conceituais e materiais não ocupam universos separados. “A curadoria exige liberdade para formular hipóteses, rigor para submetê-las a exame e responsabilidade para assumir o que finalmente se torna público”, resume Amanda.

habitat


Imagem da exposição Cinco ensaios sobre o MASP – Artes da África, com curadoria de Amanda Carneiro. A mostra reúne mais de 40 obras do acervo do museu, principalmente do século 20, oriundas da África ocidental. Foto: Eduardo Ortega

Exposição Hulda Guzmán: frutas milagrosas, primeira mostra individual da artista dominicana Hulda Guzmán em um museu. Curadoria de Amanda Carneiro. Foto: Eduardo Ortega

habitat

83


Arte

As fotos acima são da exposição Quando a Lua Não Está Longe, que esteve inserida na Art Week, no circuito da Bienal Internacional de Curitiba. O curador Vini Maia construiu uma piscina que simulou sangue dentro da galeria. Fotos: Ricardo Perini 84

habitat


Vini Maia, curador e um dos criadores da Anous Galeria, em Curitiba. Foto: Divulgação

O QUE NÃO CABE NA TELA Vini Maia chegou à curadoria enquanto buscava outras possibilidades de trabalhar com arte. Formado em gravura, começou como artista, passou pela produção cultural e hoje concilia diferentes funções na Anous Galeria, espaço independente de Curitiba que criou com Renata Maciel. A experiência de ocupar simultaneamente os lugares de artista e curador interfere diretamente em sua maneira de trabalhar. Existe uma fronteira que ele procura respeitar. “O curador não pode adentrar dentro do trabalho, ele não é o artista”, afirma. Mas conhecer o outro lado dessa relação permite identificar inseguranças, fragilidades e potências durante o processo. Como artista, Vini diz conseguir conversar a partir de uma experiência compartilhada, sem perder de vista que, naquele momento, ocupa outra posição. Essa proximidade também aparece quando ele fala sobre sua parte preferida do trabalho: conversar com artistas. Na relação curatorial, conta, surgem trabalhos que provavelmente nunca chegarão a uma exposição, esboços e imagens que pertencem ao processo e ajudam a compreender como determinada obra se construiu. Para ele, é justamente aí que mora parte da graça da profissão. Na Anous, essa troca se desdobra em experiências nas quais as fronteiras entre obra, curadoria e expografia

podem se tornar menos rígidas. Na recente exposição Quando a Lua Não Está Longe, por exemplo, foi construída uma piscina que simula sangue dentro da galeria. O elemento operava como paisagem, dispositivo e livro. Para a mostra, foram convidados 28 artistas, em sua maioria das artes visuais, a escrever poemas — deslocando-os também de suas práticas habituais. A experiência traz ainda uma questão particularmente contemporânea para a curadoria. Se grande parte do nosso contato com a arte hoje acontece mediado por telas, o que uma exposição pode oferecer que uma imagem no celular não entrega? Vini diz não pensar uma mostra a partir da maneira como ela será projetada no Instagram ou de como determinado trabalho ficará em uma fotografia. Sua preocupação está na experiência de quem efetivamente ocupa o espaço. Além da imagem, entram elementos sensoriais capazes de construir um ambiente, aspectos que podem ser percebidos presencialmente. É uma discussão que devolve a curadoria ao significado que está na própria origem da palavra. Cuidar, neste caso, já não se restringe à preservação. Envolve as relações que a obra estabelece, as condições em que é apresentada, o contexto em que será percebida e as perguntas que pode colocar em circulação.

habitat

85


ARTE

A LEVEZA DE TADÁSKÍA Ela é delicadeza na vida e na obra. Pintora, escultora, escritora e educadora, Tadáskía levou seu trabalho de Santíssimo, no Rio de Janeiro, para as paredes do MoMA, em Nova York. Observadora inquieta, traduz os mistérios da vida em obras de grande leveza, mas de imenso impacto, como pode ser visto na exposição individual no espaço carioca Carpintaria, até outubro. Por Melissa Crocetti

T

adáskía, assim mesmo, com dois acentos agudos, é uma mulher fascinante. Seus trabalhos misturam força, leveza, realidade, imaginação, universalidade, minorias. De Santíssimo, periferia do Rio de Janeiro, suas obras já foram para Nova York, França, Barcelona, Amsterdã, Áustria, Suíça, São Paulo. Hoje representada pela renomada galeria Fortes D’Aloia & Gabriel, Tadáskía pode ser vista na exposição espírito jardim humana, em cartaz na Carpintaria, até 28 de outubro. Na mostra, novos trabalhos que mesclam memória familiar e imaginação. “Apresento três cascas de ovo de galinha com linha prateada. Faço essa espécie de desenho, costurando as cascas de ovo, desde os meus 18 anos. As que estão presentes na mostra são novas, com ligação com as primeiras costuras em casca que já fiz”, conta em entrevista à Habitat. “Além delas, tem a espantalha I, com elementos já usados: cabelos, roupas, chapéus, tecidos, sapatos e taças com líquido transparente, que precisa ser trocado; e também a espantalha II, com gravetos e frutas renovadas, no mínimo, uma vez por semana. Ou seja, além desses trabalhos, na mostra será possível ver outros em que o novo coincide com meus trabalhos antigos. Diria também que será possível ver o inédito, mas, tal como em um labirinto, cada pessoa vai se deparar com o que conhece ou não da minha criação”.

88

Graduada em Artes Visuais pela UERJ e mestre em Educação, a artista transita entre desenho, pintura, escultura, fotografia, instalações e textos. Diz que ainda não há uma definição única para sua arte, pois preza pelo mistério. “As pessoas que acompanham meu trabalho já devem ter se deparado com algumas personagens, nomes como a ave preta mística e a lua coelho negra, e visto parcialmente meu interesse por criar algo entre natureza, organismo vivo, mistério, e aquilo que está aqui e também acolá – um desconhecido nascido nada religioso, igualmente crente na transformação da vida”. Na mostra espírito jardim humana, as obras combinam formas abstratas e elementos orgânicos que assumem configurações híbridas. É como se a alma da sua criação começasse a se confundir entre atmosferas, paisagens e personagens, diz. “As cascas shells, pinturas em óleo feitas em papel couro e folhados de madeira dobrados, primeiramente criadas a partir da personagem ladybug little silly agora estão sendo renomeadas e indo para outro lugar: se transformam em as híbridas e as nascidas. Há também labirinto céu noturno, desde uma personagem perdida nas vielas, passagens e caminhos trocados num labirinto aparentemente igual à estranha Veneza. Ou mesmo humanamente humana, minha segunda personagem declaradamente humana, que nasce depois da queda da minha primeira humana”.

habitat


labirinto céu noturno II, 2026, Tadáskía. Óleo sobre tela e graveto. Foto: Rafael Salim. Cortesia da artista e Fortes D'Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro.

habitat

89


Arte

Tadáskía, artista brasileira que atravessa as fronteiras entre desenho, pintura, escultura e instalações. Foto: Jéssica Senra. Cortesia da artista e Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro.

UMA ARTISTA “EM ASCENSÃO” Tadáskía escreve desde criança e apresentou seu primeiro poema aos 11 de idade. “Fiquei em terceiro lugar no festival de poesia da minha escola. E achei que esse poema estivesse perdido. Porém, ele voltou para mim. E, quando fui relendo, vi que desde nova eu reunia sentimentos ambíguos em relação ao amor, indo da vida à morte, desesperadamente romântica”. Aos 18 anos, começou o ofício de artista, circulando pela universidade pública, instituições e apresentando trabalhos em coletivos de arte. Hoje, aos 33 anos, grande parte da mídia a chama de artista “em ascensão”, o que Tadáskía entende, a depender do contexto. “Em 2016/2017 começo a apresentar publicamente trabalhos de maneira solo. Entre 2019 e 2020 meu trabalho começa a ganhar maior circulação em São Paulo. Já em 2022/2023 faço viagens internacionais e exponho fora. Logo depois estou 90

no Panorama da Arte Brasileira, em seguida na Bienal de São Paulo e na lista da Forbes Under 30BR. Em 2024, estou no MoMA de Nova York. Recebo, em 2025, o K21 Global Art Award e no mesmo ano apareço na lista Time100 Next como estrela em ascensão”. Um ponto de virada foi a exposição no MoMA, em Nova York, sendo a primeira artista a pintar diretamente nas paredes do museu. “O MoMA foi o primeiro museu onde apresentei uma exposição individual. Não apenas isso, ali eu tive minha estreia solo institucional e internacional, além de ter me aberto à possibilidade de viajar pela primeira vez aos Estados Unidos. Seria impossível não mencionar isso como um marco na minha carreira, sendo ele também uma grande plataforma de legitimação do meu trabalho”.

habitat


Arranjo e tinturas de língua, 2019-2026. Tadáskía. Frascos de vidro com tintura sobre taboa. Foto: Rafael Salim. Cortesia da artista e Fortes D'Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro.

habitat

91


Arte

jour nuit papillon/day night butterfly, 2025, Tadáskía. Exposição no Musée d'Art Contemporain de La Haute-Vienne, em Rochechouart, França. Foto: Cortesia Musée d'Art Contemporain de La Haute-Vienne, Rochechouart, France.

(QUASE) TUDO É MATÉRIA-PRIMA

A artista utiliza diferentes materiais, como carvão, lápis de cor, pastel seco, papel reciclado, esmalte de unha, casca de ovos, frutas, legumes, entre outros, além de diversas técnicas e suportes. Em suas esculturas, os gravetos são comuns. “Para a exposição espírito jardim humana fiz um trabalho chamado espantalha II com lona, tinta óleo, gravetos e frutas. Comecei a combinar o graveto também com a pintura, e estou gostando desse início de jogo, pois as frutas nunca ficam no mesmo lugar”.

92

A fotografia tem espaço no que Tadáskía chama de aparições, feitas exclusivamente com uma câmera 35mm. “É uma cena não ensaiada e a imagem que aparece ou não depois de revelada se torna o trabalho. Sem ensaiar, já coloquei chifres, distribuí carne dourada e suco preto, revirei os olhos com a minha família (assim que as pessoas diziam “olha o passarinho!”), e assim por diante. O click acontece e, depois de algum tempo não calculado, eu revelo os filmes”.

habitat


Tadáskía foi a primeira artista a ter permissão para desenhar diretamente nas paredes do MoMA, em Nova York. Foto: Jonathan Dorado. 2024. The Museum of Modern Art, New York.

Em 2024, a artista Tadáskía expôs no prestigiado MoMA de Nova York e ganhou elogiosa resenha no jornal The New York Times. Foto: Jonathan Dorado. 2024. The Museum of Modern Art, New York.

habitat

93


Arte

Casca híbrida hybrid shell, 2026, Tadáskía. Óleo sobre folheado de madeira, spray e carvão sobre tela e MDF. Foto: Rafael Salim. Cortesia da artista e Fortes D'Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro.

“Muitos dos desenhos começo com os olhos fechados. Em alguns, fecho os olhos no meio da ação; em outros, estou completamente de olhos abertos. Com os olhos fechados, acabo confiando no que posso fazer no ato, no presente: o grafite tocando a superfície, o lápis de cor escorregando da minha mão, o pastel driblando para outro lado. Sou eu confiando que, ainda que em um ínfimo instante, meu desvio da linha e da cor possa me levar a algum lugar que me surpreenda. Eu chamo de mistério”.

Tadáskía

94

habitat


e.e. flying one-um. Tadáskía. Foto: Rafael Salim. Cortesia da artista e Fortes D'Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro.

habitat

95


Arte

língua de boi língua de vaca, 2019-2026. Tadáskía. Jato de tinta sobre papel algodão. Díptico. Foto: Eduardo Ortega. Cortesia da artista e Fortes D'Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro.

OS CAMINHOS DE UMA VIDA Santíssimo, na zona oeste do Rio de Janeiro, foi um dos primeiros locais onde Tadáskía começou a desenvolver sua sensibilidade, influenciada também pelas mulheres da família. “Antigamente eu ouvia muitas histórias dos Sete Riachos e de assombração por aquelas bandas; eu costumava passar de madrugada pelo caminho aberto que dividia o chuchuzal — eram árvores, muitas estrelas e ruídos de insetos. Dava um tanto de medo passar na estrada de barro, sem asfalto, nesses períodos antes do nascer do sol e tarde da noite, principalmente quando eu ia para a escola na favela vizinha, Senador Camará, ou quando voltava do Maracanã, já na universidade. Porém os caminhos com montanhas e a natureza, além da convivência com essas

96

histórias da minha infância, continuam me despertando até hoje uma feliz curiosidade”. Mãe, irmã, avó, tia são mulheres que habitam histórias de muita intensidade, ao lado de referências como Audre Lorde, Conceição Evaristo, Stela do Patrocínio, bell hooks, Alice Coltrane. “Partindo de uma metáfora, vi minhas tias, minha mãe, minha avó e minha irmã transformarem água em néctar – a despeito de toda crueza que o mundo pode entregar. Lembro quando eu estava desenhando no chão da casa dos meus pais e, ao me observarem, minha tia e minha mãe disseram: “você poderia adicionar mais cor no desenho”. Depois, acrescentaram: “cor é vida”. Minha tia, ainda contemplando, pensou alto: “eu amo cor”.

habitat


linha prata | silver line, 2012-2026, Tadáskía. Cascas de ovo, linha e cálice de prata. Dimensões variáveis. Foto: Rafael Salim. Cortesia da artista e Fortes D'Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro.

Instigante, naquele momento, qualquer pessoa que a ouvisse poderia pensar que ela também ama a vida”. Foi com a mãe, Elenice Guarani, que ela aprendeu a ‘abraçar o mistério’. “Quando criança, eu a via falando com as plantas e estrelas, olhando para o céu, dando felicitações, bom dia e boa noite para aquilo que, ao observá-la, fui aprendendo a reconhecer. Ela é especial, sempre foi”. Assim como muitas daquelas mulheres inspiradoras, Tadáskía tem suas lutas – entre outras, a de mulher trans, negra e periférica. “Uma das maiores lutas que aprendi é a de distribuir acesso e a de transformar dignamente as condições de vida. Mulheres, pessoas trans, pessoas negras, indígenas, as que vêm da periferia e as que ascendem

socialmente advindas da pobreza, parecem formar uma espécie de grupo heterogêneo que ainda precisa lutar por qualidade em todas as esferas da vida”. E é um trabalho de formiguinha remover muralhas, pois existe um impedimento social comum quando se toma consciência e entende que sua posição no mundo precisa mudar. “Pequena, eu exercitei a imaginação ao ver acontecer aquilo que não estava tão disponível. Às vezes só fico na imaginação, outras consigo efetivamente atuar na realidade. Lembro quando eu imaginava, criança, uma asa crescendo desde um cômodo familiar habitado com bastante infiltração de água”, finaliza.

habitat

97


NOTAS HABITAT

MIRÓ: MESTRE DAS FORMAS Exposição apresenta mais de 100 obras de um dos artistas mais inovadores e influentes do século XX.

R

econhecido por suas formas orgânicas, símbolos oníricos e uso expressivo das cores, o catalão Joan Miró (1893-1983) é um dos nomes mais influentes da arte moderna. Sua produção foi marcada pela liberdade criativa e pela constante experimentação, tornando-se uma referência para gerações de artistas ao redor do mundo.

Joan Miró, Woman and dog in front of the moon, 1935. Successió Miró, AUTVIS, Brasil, 2026.

Joan Miró, Mont-roig III, 1974. Fundació Joan Miró, Barcelona. Successió Miró, AUTVIS, Brasil, 2026.

98

O universo visual do artista pode ser visto em São Paulo na mostra Miró: Mestre das Formas, até 12 de outubro, no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado (MAB FAAP). Com curadoria do espanhol Jordi J. Clavero, o percurso expositivo é dividido em cinco núcleos temáticos que exploram diferentes aspectos da trajetória de Miró, revelando a construção de uma linguagem singular, desenvolvido ao longo de mais de seis décadas de produção. São mais de 100 obras originais, entre pinturas, esculturas, gravuras, tapeçarias e fotografias, dezenas delas inéditas no Brasil. O conjunto inclui peças que nunca haviam saído da Espanha e objetos raros apresentados conjuntamente ao público pela primeira vez.

habitat


Notas Habitat

Vídeo-escultura Oxalá, de Eder Santos. Foto: Divulgação MON

ENCONTRO ENTRE TEMPO E LINGUAGEM MON realiza exposição do artista contemporâneo Eder Santos.

U

m dos pioneiros na arte multimídia no Brasil, o mineiro Eder Santos está com a mostra Daquilo que nos escapa, no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, até fevereiro de 2027. Com curadoria de Luiz Gustavo Carvalho, a exposição reúne 12 obras que traçam um panorama da produção do artista, em um espaço de investigação das relações entre imagem, memória, tecnologia e percepção.

100

“Cartas, garrafas, fios, aquários e mares atravessam o espaço expositivo e instauram uma geografia fluida, na qual a fronteira deixa de ser entendida como uma linha estanque de separação para converter-se em espaço de passagem, no qual toda trajetória comporta também a possibilidade do extravio”, diz Carvalho. A exposição propõe uma experiência na qual imagens e sons conversam com a arquitetura do museu de maneira não linear.

habitat


ARTE

MOVIMENTO DE VALORIZAÇÃO

DO CENTRO DE CURITIBA GANHA GUIA IMPRESSO Criada pela Oene Arquitetura, publicação reúne mais de 50 endereços da região central. Fotos Loiro

Lorenza Ribeirete, Danusa Patel, Laís Graf, Emilia Jurach e Maria Miqueletto.

O

movimento de valorização do Centro de Curitiba ganhou uma nova iniciativa dedicada a estimular a circulação e a ocupação da região: um guia impresso e colaborativo com mais de 50 sugestões que passam pela gastronomia, cafés, vida noturna, arte, cultura, design, compras e bem-estar – criado pela Oene Arquitetura. Com cinco anos de atuação e sede na Alameda Cabral, no Centro de Curitiba, a Oene parte da relação de seus sócios com a região para definir o recorte da publicação. Os arquitetos Nicolau Mader Romanó Malschitzky e Octávio Swinka Rodrigues vivem nas proximidades e têm no Centro parte de seus percursos cotidianos. O guia não se 102

restringe, portanto, ao marco zero da cidade e contempla endereços desse entorno. Desenvolvido ao longo de três meses, o guia conta com a participação de nomes importantes da cidade, entre empresários, jornalistas e profissionais ligados à gastronomia, à arte e à música, que vivem ou mantêm uma relação próxima com a região central. Participam da curadoria André Bezerra, Ber Pasquali, Beto Madalosso, Dana Patel, Gustavo Santos, Jussara Voss, Rê Gugli, Tati Gayas e Victoria Sperandio. A seleção inclui ainda marcas, ateliês e iniciativas locais, museus, galerias e centros culturais, além de espaços voltados às crianças.

habitat


Danusa Patel, Nicolau Malshizky, Herick Carcereri, Nicolle Nogueira, Alexandre Berton e Luiza Berton.

O casal Celso e Cristiane Freire e Leonida de Azevedo Romanó.

Nicolau Maeder, Cintia Peixoto, Leonida de Azevedo Romanó e Fernando Canalli.

Octávio Swinka Rodrigues e Nicolau Maeder Romanó com Fernando.

Jussara Voss e Danusa Patel, curadoras convidadas do Guia

Octávio Swinka, Pedro Muniz, Marcella Peçanha, Danusa Patel, Leticia Murcia, Felipe Cornel e Nicolau Malschizky.

habitat

Confira a versão digital com mapa e endereço. 103


COLUNA WE TREND por Cristina Fontoura

Anok Kai fotografada por Rafael Pavarotti. Foto: Rafael Pavarotti/ Divulgação

MONTENEGRO

FOTOGRAFIA

HOME LISTENING ROOMS

Rafael Pavarotti, o fotógrafo brasileiro que já clicou Rihanna, A$AP Rocky e Beyoncé e figura essencial da imagem contemporânea, terá uma grande exposição no Museu de Artes Decorativas em Paris, até 7 de fevereiro de 2027.

Dentro de casa, a tendência substituiu o antigo conceito de home theater focado em telas, abrindo espaço para um refúgio analógico. Tornou-se um elemento de bem-estar residencial, pensado para desacelerar. Vinil e radiola de volta!

Budva medieval, praias, vida noturna e locais como Sveti Stefan tornam a costa de Montenegro um destino emergente, hot spot do verão europeu. De um lado surge o Adriático, surpreendentemente calmo, azul e luminoso. Do outro, quase encostadas à costa, erguem-se as montanhas de Montenegro. O hotel Aman Sveti Stefan, seduz pela sua localização, história e wellness levado a sério.

CONVERSATION PIT

HAMPTONS

VITROLA

O Conversation Pit está de volta, junto com o prazer de se reunir. Um espaço arquitetônico com uma área de estar rebaixada no piso e assentos embutidos, criado para aproximar as pessoas e estimular a convivência. A tendência explodiu nos anos 1960 e 1970 no design moderno.

104

Nos Hamptons, o The Surf Lodge Montauk, um famoso hotel boutique, restaurante e ponto de encontro à beira-mar, mistura design descolado, clima de praia relaxante e vistas para o pôr do sol sobre o Fort Pond. Sunset com a presença de Snoop Dogg, Diplo, Jack Harlow, alguns músicos e DJs desta temporada.

habitat

Desejo do dia desta colunista: a vitrola da Bang & Olufsen. A marca combina precisão de engenharia com um design escandinavo minimalista e distinto e é referência mundial em equipamentos de áudio e vídeo de alta gama.


DESIGN

INOVE 10+30:

QUATRO DÉCADAS À FRENTE DO OLHAR Para celebrar 40 anos de história, a Inove Design reúne 11 escritórios em um circuito de arquitetura, decoração e design inédito em Curitiba Por Inove Design

Festa Inove 10 + 30. Foto: Patrícia Amancio

A

Inove Design completa 40 anos fazendo o que sempre soube fazer: criando movimento. Em vez de transformar a própria história em uma retrospectiva, a marca abre a loja para novas leituras e celebra sua trajetória olhando para o que ainda pode ser criado. Neste mês de setembro, 11 escritórios convidados assinam instalações especiais no Circuito Inove 10+30. Em cada ambiente, profissionais da arquitetura e do design de interiores estabelecem um diálogo com uma marca, coleção ou assinatura selecionada pela Inove. O resultado é um percurso que transforma o showroom em espaço

de experimentação, encontros e diferentes maneiras de pensar o morar. O nome da ação sintetiza a trajetória da empresa: dez anos dedicados exclusivamente ao estúdio de design, seguidos por três décadas de atuação no varejo, mas também sempre guiados pela criação e pela curadoria própria. Uma equação que ajuda a compreender por que, antes de chegar à loja, o olhar da Inove passou pela prancheta, pelo desenvolvimento de produtos e pela indústria. “Não somos apenas uma empresa de varejo. Nosso olhar para o design nasceu muito antes da atividade comercial”, explica Eviete Dacól, fundadora da Inove.

habitat

105


Design

ANTES DA LOJA, A ESTRADA

Inove 10 + 30 - Celebração. Foto Patrícia Amancio

UM CIRCUITO DE ENCONTROS Participam da mostra Boscardin Corsi, com a Dopo; Catherine Moro, com Zanini de Zanine; Diane Justus, com a Sette7; Giuliano Marchiorato, com o estudiobola; Jorge Elmor, com a Carbono; Kuster Brizola, com o Corporativo Inove; Marcos Bertoldi Arquitetos, com a ,ovo; Pinheiro Lima e Mattioli, com Aristeu Pires; Rauen Garbers, com a Folio; Talita Nogueira, com a Cória; e Volpato Arquitetura, com Signature Inove e Bruna Bomfim. Cada instalação parte da identidade do escritório convidado e de sua relação com a marca escolhida. Mais do que apresentar produtos, os ambientes constroem atmosferas, aproximam diferentes repertórios e revelam como uma mesma peça pode assumir novos significados a partir do contexto. Hoje, a Inove Design está presente em dois endereços físicos em Curitiba: no Água Verde, onde acontece o circuito, e no Jardim Social. Além disso, a marca possui mais uma ampla área de negócios, que é o espaço corporativo. Ao longo das comemorações, as duas lojas receberão uma programação especial, pensada para celebrar os 40 anos da marca ao lado de clientes, profissionais, parceiros e admiradores do design.

A história começou em 1986, quando o design ainda buscava espaço dentro da indústria brasileira. “Eu sou formada em Design de Produto pela Universidade Federal do Paraná, conheci então o Alceu Bomfim Jr., e o nosso encontro acabou reunindo experiências complementares para dar vida ao estúdio”, comenta Eviete. Enquanto Eviete transitava entre criação, marketing e negociação, Alceu se dedicava ao desenvolvimento de mobiliário e gestão. Como Curitiba ainda possuía um parque industrial limitado, os dois seguiram para os pólos moveleiros de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, apresentando às fábricas o potencial do design para transformar produtos e negócios. “A pesquisa sempre fez parte da nossa rotina, frequentemente estamos em feiras internacionais na Alemanha, em Milão e na Espanha, e as referências também acabam se somando de eventos nacionais, da observação das lojas em grandes cidades e do contato permanente com o mercado”, conta Eviete. Em 1996, após uma década dedicada ao estúdio, veio a mudança que completaria a equação. “Construímos esta sede no Água Verde. A loja nasceu como um laboratório”, relembra a fundadora. A proposta autoral era ousada para a Curitiba daquela época. A resposta foi ampliar o repertório, incorporando criações dos Irmãos Campana, Fernando Jaeger e Marcelo Rosenbaum, além de marcas como Alessi e Ligne Roset. A Inove aproximava - como até hoje aproxima -, a capital paranaense das discussões que movimentavam importantes centros de design do Brasil e do mundo. Essa experiência consolidou uma característica que permanece no centro do negócio. “Aos poucos, você educa o olhar e desenvolve uma curadoria própria”, afirma Eviete. Foi esse olhar que aproximou a Inove de Flávio Borsato e Maurício Lamosa quando o estudiobola ainda se estruturava. A parceria cresceu com as duas empresas e se tornou uma das relações mais importantes da trajetória da marca.

Alceu Bomfim Junior e Eviete Dacól. Foto: Divulgação 106

habitat


Inove 10 + 30. Foto: Patrícia Amancio

UMA HISTÓRIA, DUAS GERAÇÕES Entre as novidades do 10+30, uma criação histórica da Inove ganha novo significado. Lançada há três décadas e agora redesenhada por Eviete Dacól, a Poltrona Medusa retorna com uma intervenção artística de Bruna Dacól Bomfim. Designer de joias, moda e artista plástica, Bruna desenvolveu para a peça uma personalização exclusiva em tecido pintado à mão. A Medusa faz parte de uma das 15 obras da artista presentes na instalação, criando um diálogo entre mobiliário, arte e memória afetiva. A colaboração Inove Design + Bruna Bomfim aproxima duas gerações e transforma um ícone da trajetória da marca em uma expressão contemporânea.

Essa continuidade também está presente na gestão. Bernar Dacól Bomfim, filho de Eviete, atua hoje ao lado da mãe como diretor administrativo da Inove, participando da construção dos próximos capítulos da empresa. É nesse encontro entre legado e renovação que o conceito 10+30 encontra sua força. O circuito reforça o olhar formado nos primeiros anos de estúdio - que segue até hoje -, celebra as três décadas de varejo, abrindo espaço para novas linguagens, interpretações e experiências. Aos 40 anos, a Inove não se limita a revisitar o passado. Reafirma sua capacidade de transformar a própria história em matéria-prima para o futuro.

branded content

107


COLUNA É DESIGN

DO PORÃO À FÁBRICA, DA GAMBIARRA AO PROCESSO por Rodolpho Guttierrez

A

ntes de existir uma fábrica na China, uma empresa, uma bancada de desenvolvimento ou um produto chegando a milhares de consumidores, existia um porão. Um porão cheio de ferramentas à disposição de Rodrigo Dangelo, hoje um premiado designer de produtos. Havia também um ferro-velho, onde qualquer pedaço de metal ou madeira poderia se transformar em uma nova invenção. A escala, a tecnologia e o mercado mudaram; a curiosidade de descobrir como as coisas funcionam e a inquietação de imaginar como poderiam funcionar, não. Na infância, era preciso inventar. Rodrigo fazia a manutenção da própria bicicleta, construía um carrinho de rolimã, uma casa na árvore com tirolesa e rampa de skate. O porão do avô fornecia as ferramentas; o ferrovelho, os materiais. Dali saíram coisas como um spray de tinta pressurizado com uma bomba de encher bola e um pedal de guitarra construído com madeira, mola e potenciômetro. Não havia manual. Havia curiosidade, tentativa, erro e liberdade absoluta para experimentar. Quando chegou a hora de escolher a faculdade, um teste vocacional confirmou o que ele fazia intuitivamente. Desenho Industrial, em primeiro lugar; Engenharia Mecânica, em segundo. A escolha pelo design não significou abandonar a engenharia: Rodrigo encontrou na combinação entre criatividade, função e construção uma maneira própria de trabalhar. “Design é centrado no usuário e tem mais liberdade, sem as amarras rígidas da engenharia. Só que design totalmente solto vira arte, e não era isso que eu queria”, afirma. Seu primeiro estágio foi em uma empresa pequena, então ele precisava colocar a mão em praticamente tudo. Foi ali que percebeu que, no desenvolvimento de um produto, nenhuma decisão está isolada. Uma escolha pode interferir no ferramental, no custo, na montagem, na logística, na embalagem e até na experiência do consumidor. O menino do ferro-velho começava a descobrir que inventar era apenas o começo. 110

Rodrigo Dangelo, hoje um premiado designer de produtos. Foto: Divulgação

Então veio o Shark Tank Brasil. Rodrigo vinha se dedicando ao desenvolvimento de um produto próprio. Investiu, testou, fabricou na China, montou no Brasil, trabalhou o marketing, participou de premiações. No programa, aconteceu algo ainda mais importante: Robson Shiba enxergou a capacidade da DXID de transformar ideias em produtos.

habitat


A participação no programa aproximou Rodrigo de empresários e investidores e deu início a uma relação de mentoria com Shiba que mudaria sua trajetória. Foi Shiba quem o incentivou a olhar para a China. A partir daí, a conexão com João Apolinário levou a um novo desafio: desenvolver para a Polishop um produto completamente novo. O sucesso abriu caminho para outros projetos e, pouco depois, Rodrigo deu o passo que mudaria definitivamente sua relação com a indústria: abriu uma operação na China. Lá, encontrou uma realidade industrial completamente diferente daquela que conhecia. Se no Brasil havia aprendido a criar dentro das limitações, na China descobriu ferramentas mais acessíveis, fornecedores especializados, processos sofisticados, velocidade e escala. Rodrigo passou a enxergar o design de outra maneira. “O maior desafio não é criar. É encontrar o produto vencedor, com o preço certo e no timing certo”. Antes da forma, vêm os recursos disponíveis, o custo-alvo, os processos possíveis e o prazo. Depois, busca-se extrair a máxima funcionalidade dentro dessas condições. Só então entra a estética, responsável por elevar a percepção de valor. Uma das grandes habilidades de Rodrigo é conectar coisas que, isoladamente, não parecem conversar: design e engenharia; Brasil e China; criatividade e indústria; ideia e mercado. Essa capacidade de conexão ganhou força quando a China passou a ser sua casa – desde 2019, Rodrigo vive no país com a família. A experiência trouxe aprendizados que nenhum briefing seria capaz de proporcionar. “Quando você tira algumas preocupações das costas, sobra energia para aquilo que realmente importa”.

A Suzan Pro é uma panela mexedora elétrica. Mais do que um eletrodoméstico, virou uma ferramenta que transformou a vida de confeiteiras em todo o Brasil, Portugal e Estados Unidos. Foto: Divulgação

A GT2000 é uma esteira ergométrica com um sistema inovador que permite regular a velocidade apenas com a palma da mão. Foi esse projeto que impulsionou a criação do escritório do designer na China. Foto: Divulgação

A história da DXID acompanha essa evolução. O que começou como Design Integral foi crescendo junto com a visão de Rodrigo sobre o papel do designer. Primeiro, conceito e detalhamento técnico. Depois, identidade visual, branding, estratégia, fabricação, certificação e importação. Até chegar ao ponto em que a empresa passou a entregar praticamente tudo: da ideia ao produto, do produto à fábrica e da fábrica ao consumidor. Agora, a próxima aventura leva Rodrigo para mais perto daquele menino do porão. Só que, desta vez, com uma estrutura industrial. A criação de uma marca própria, baseada no conceito F2C (factory to consumer), pretende colocar diretamente no mercado produtos desenvolvidos pela própria empresa. “O porão do meu avô virou uma fábrica na China; a gambiarra virou processo”. Talvez essa seja a parte mais bonita dessa história: o processo não matou a criatividade, a indústria não matou a curiosidade, a escala não matou o prazer de inventar.

habitat

111


COLUNA SOBRE MORAR

ENTRE A RAZÃO E A CRIATIVIDADE O designer Lucas Machado transforma repertório e experimentação em um apartamento em constante construção. por Paula Campos

No living, equilíbrio entre ousadia e racionalidade. Foto: Fábio Junior Severo

T

alvez uma casa revele tanto sobre quem a habita quanto aquilo que se escolhe deixar de fora. No apartamento de Lucas Machado, nada está ali por acaso. Designer de formação, com passagens por Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Londres, Lucas construiu sua trajetória entre a arquitetura, o design de produto e, mais tarde, o design gráfico. Hoje, à frente de seu estúdio, trabalha principalmente com projetos ligados à arquitetura, à arte e à cultura.

112

Voltar para Curitiba foi uma escolha menos nostálgica do que parece. Depois de viver em cidades mais intensas, Lucas queria recuperar uma certa tranquilidade sem abrir mão daquilo que o atraía nelas: arquitetura, cultura, exposições, restaurantes, gente criando. Escolheu o centro justamente por essa combinação. O edifício, projetado pelo escritório Triptyque, foi o primeiro encantamento. Antes mesmo de conhecer a planta do apartamento, foi a força de sua arquitetura e a relação com a cidade que fizeram com que ele quisesse morar ali.

habitat


A bancada em Granito Piracema, elemento que dá nome ao apartamento, flutua sobre o piso amarelo. Foto: Fábio Junior Severo

A casa, então, começou a ser pensada quase como se fosse um projeto gráfico: primeiro a estrutura, depois as escolhas, por fim aquilo que dá sentido ao conjunto. Lucas se define como racional, pragmático, cartesiano. Mas basta entrar no apartamento para perceber que essa lógica não significa ausência de emoção e criatividade. O amarelo que percorre o piso e traz personalidade ao projeto, o vermelho profundo da marcenaria, o azul intenso do banheiro e a pedra que batiza o projeto mostram que, para ele, racionalidade também pode ser uma forma de organizar a liberdade. Há ainda as memórias que escapam ao desenho. Os vinis são uma delas. Filho de um antigo DJ de rádio, Lucas cresceu cercado por discos e capas que, antes mesmo que percebesse, ajudaram a formar seu olhar para o design. Hoje, a coleção ocupa um lugar especial na casa, dando espaço também para aqueles que ainda serão garimpados, no momento certo, sem pressa.

Lucas Machado em seu apartamento. O projeto une minimalismo, contemporaneidade e cor. Foto: Fábio Junior Severo

habitat

113


Sobre Morar por Paula Campos

UMA CASA QUE AINDA NÃO TERMINOU O projeto foi entregue aos escritórios Boscardin Corsi e Nommo Arquitetos, que já faziam parte do universo profissional e pessoal de Lucas e que aceitaram o desafio de trabalhar em conjunto. A afinidade ajudou, mas havia também uma intenção clara: ele não queria uma casa neutra, previsível ou excessivamente pronta. Queria um espaço com uma base que tivesse personalidade, mas que pudesse ir ganhando forma ao longo do tempo. Comprado na planta, o apartamento passou por algumas mudanças para se ajustar ao modo de viver de Lucas. O segundo banheiro virou lavanderia, a circulação foi revista e a churrasqueira simplesmente desapareceu. A partir daí, o projeto ganhou uma espécie de rigor silencioso: tudo precisava ter razão para estar ali. O piso amarelo é talvez a síntese mais evidente dessa ideia. Inspirado na Villa La Roche, de Le Corbusier, foi testado incansavelmente até chegar a um amarelo fosco, próximo ao tom de manteiga, que não fosse nem neutro demais nem uma cor passageira. O azul e o vermelho aparecem em diferentes intensidades, numa referência sutil à paleta da Bauhaus, que ganha aqui uma interpretação mais pessoal. Na ilha, o granito Piracema interrompe a precisão do conjunto com sua textura, movimento e força. Foi da pedra escolhida que nasceu o nome do projeto: Apartamento Piracema. As cadeiras de Jean Prouvé e a luminária Nelson Ball Bubble em destaque na sala de jantar junto à mesa desenhada por Lucas. Foto: Fábio Junior Severo

No banheiro, a releitura das cores da Bauhaus chamam a atenção. Foto: Fábio Junior Severo 114

Mas talvez a característica mais interessante da casa esteja justamente naquilo que ainda não está definido. A marcenaria organiza cozinha, lavanderia, banheiro e até a coleção de vinis, escondendo funções e deixando o restante do apartamento livre para receber novos elementos. A mesa de jantar foi desenhada pelo próprio Lucas. Algumas cadeiras vieram de sua coleção, outras foram escolhidas depois. O mobiliário não segue um roteiro fechado. Ele vai acontecendo criteriosamente. É assim também com os objetos. Lucas não tem interesse em acumular. Prefere esperar por uma peça que faça sentido, que tenha uma história ou que dialogue com aquilo que já existe. Um calendário, um livro, um disco, uma cafeteira de design encontrada em uma viagem podem carregar mais significado do que uma casa inteira preenchida de uma vez. No fundo, seu apartamento traduz as mesmas linhas que orientam suas escolhas: uma combinação de racionalidade e experimentação. Um lugar onde razão e criatividade convivem e cada nova camada ajuda a revelar aquilo que o torna único. “Morar é estar rodeado de coisas belas e que reflitam quem eu sou”, finaliza.

habitat


COLUNA ÍCONES DO DESIGN

POLTRONA UP, DE GAETANO PESCE: A ARTE ENCONTRA O DESIGN Concebida por Gaetano Pesce como metáfora do feminino, a obra-prima da B&B Italia une manifesto político e vanguarda produtiva. Por Mau Bittar

A série UP, criação de Gaetano Pesce, é um clássico do design italiano. Foto: Divulgação

U

ma das expressões mais marcantes do design, a série UP, da B&B Italia, é um clássico impossível de ignorar. Assinada por Gaetano Pesce e lançada em 1969, evoca as antigas estátuas das deusas da fertilidade. Além disso, o design discute a opressão feminina por meio do pufe ligado à poltrona, que simula a bola de ferro e a corrente de uma prisioneira. “Eu buscava contar uma história pessoal sobre a minha visão a respeito da mulher: acredito que as mulheres sempre foram, involuntariamente, suas próprias carcereiras. Por isso decidi dar a esta peça a forma de uma mulher acorrentada”, destacou Pesce. Além de sua força artística, a UP – também chamada 116

de Donna ou Mama – revolucionou o mercado por sua composição. Feita em espuma, vinha prensada e embalada a vácuo; ao abrir a embalagem, a peça expandia e “subia”, dando origem ao nome UP. O formato gerou enorme economia de transporte, mas a produção foi interrompida em 1973 devido à proibição do gás Freon, usado na expansão. Em 2000, a peça teve um retorno triunfante com um novo processo produtivo: espuma de poliuretano injetada em molde aquecido que, após resfriar por 48 horas, é limpa e revestida com tecido elástico costurado à mão. Novamente um best-seller global da B&B Italia, o design original faz parte do acervo exclusivo do grupo Casual Móveis.

habitat


DESIGN

UMA EXPERIÊNCIA IMERSIVA A tecnologia, a eficiência e o conforto térmico dos produtos da Vesta Piso Aquecidos estão nos ambientes da Casa Vesta, na Mostra Glass, no Rio Grande do Sul. Por Vesta Piso Aquecido | Fotos Divulgação

O coquetel de preview da Mostra Glass contou com a participação surpresa do renomado saxofonista Derico Sciotti, ex-integrante do icônico Sexteto do Jô. Na foto, Fabio Almeida, Kauê Bandeira, Derico Sciotti, Vanessa Ribeiro, Solange Peixoto, Leandro Almas e Jeff Sabbag.

A

rquitetura, design e paisagismo ganham vida em ambientes funcionais assinados por arquitetos renomados na Mostra Glass, que acontece em Nova Hamburgo, Rio Grande do Sul, até 22 de novembro. Em um terreno de 16 mil m², no centro da cidade gaúcha, estão as cinco casas que foram construídas para uma completa experiência imersiva. Cada espaço 118

é pensado para oferecer uma vivência real, sensorial e inspiradora. A Vesta Piso Aquecido, fornecedora oficial da mostra, assina a Casa Vesta - Essência Brasileira, projetada pelo arquiteto Kauê Bandeira. Nela é possível conhecer os principais produtos de aquecimento de ambientes da marca.

habitat


O lançamento do projeto, que aconteceu dia 17 de setembro, contou com a presença de mais de 50 profissionais de arquitetura de Novo Hamburgo, Porto Alegre, Lajeado e região, consolidando a Mostra Glass como uma excelente oportunidade para estreitar relacionamentos e fortalecer a presença no mercado gaúcho.

branded content

119


Coluna Conexão por Cesar Franco

NOVOS CAMINHOS A Estruturar Imóveis Comerciais celebrou 18 anos de trajetória com novidades para Curitiba: dois novos empreendimentos, no Atuba e em Santa Felicidade. A noite também marcou a apresentação da Academia Estruturar, iniciativa criada para promover qualificação e contribuir para um atendimento de alto nível nas negociações de imóveis comerciais. Na foto, Sergio Zimmermann, diretor executivo da Estruturar, e Almir Bonatto, secretário municipal de Urbanismo de Curitiba. Foto: Gerson Lima

PARCERIA A Blue Empreendimentos e a Invespark anunciaram a entrada de seis empreendimentos das linhas Aya e Cena no programa Condomínios Parceiros do Airbnb, na maior parceria do país em número de unidades. Na foto, Rodrigo Dalla Bona Swinka, Arthur Almeida, Luiz Augusto Brenner Rose, Eduardo Pimentel, José Mário Marin Junior, Almir Bonatto e Pier Petruzziello durante o anúncio.

CENTRO A Oene Arquitetura lançou o Guia da Região Central de Curitiba, publicação que reúne mais de 50 endereços de gastronomia, arte e design, selecionados com a participação de curadores convidados. O lançamento, no Estúdio Latino de Design, teve ainda um talk com o arquiteto Fernando Canalli. Na foto, Octávio Swinka Rodrigues, Fernando Canalli e Nicolau Maeder Romanó Malschitzky. Foto: Loiro

122

habitat


MATURIDADE Elaine Zanon e Claudia Machado, do escritório Arquitetare, assinam “A beleza revelada pelo tempo” na Mostra Artefacto Curitiba 2026, que celebra os 50 anos da marca. Inspirado no tema Maturidade e em referências da cultura japonesa, o loft de 80 m² valoriza materiais naturais, formas atemporais e a passagem do tempo. Na foto, Bruna Demarchi Bacchi, Paulo Bacchi, Elaine Zanon e Claudia Machado. Foto: Gerson Lima

ACERVO Eloisa Taques, Maria Cristina Gulin, Juliana Vosnika, diretora-presidente do Museu Oscar Niemeyer, e Luciana Bazan, durante encontro do Programa Sou Patrono. A iniciativa reúne apoiadores que contribuem para a aquisição de novas obras para o acervo do MON e participam da escolha dos trabalhos que passam a integrar a coleção do museu. Foto: Antonio More

ZEN O arquiteto Giuliano Marchiorato e a lighting designer Regina Bruni, responsáveis, respectivamente, pelos projetos de interiores e iluminação do Zen, novo empreendimento da Bidese em frente ao Parque Barigui. Com apenas 11 residências, o projeto foi apresentado a clientes, parceiros e convidados durante a entrega do empreendimento.

RETROFIT O arquiteto Francisco Almeida, responsável pelo projeto, e André Siniscalchi, CEO da CasaSul incorporadora. A empresa vai revitalizar o antigo Hotel Clímax, no Centro de Curitiba, para receber uma operação do Holiday Inn Express, com 132 apartamentos. O projeto terá investimento de R$ 30 milhões e integra o movimento de recuperação da região central da cidade.

Foto: Melvin Quaresma

habitat

123


Coluna Conexão por Cesar Franco

MADEIRA Carlito Calil Neto, CEO da Rewood; Alvaro Scheffer, CEO da Águia Florestal; Leonardo Kossatz Scheffer, seu neto; e Alvaro Scheffer Jr., diretor florestal da Águia Florestal, no prélançamento da Tiny House de 24 m² da empresa. Apresentado durante a Lignum Latin America, em Curitiba, o projeto explora as possibilidades da madeira engenheirada na construção contemporânea.

RESSIGNIFICAR O arquiteto Celso Rayol, Lauro Andrade, Cintia Peixoto e Eudoxios Anastassiadis, CEO e fundador da Alfa Realty, durante o DW! Talks, na Casa Dexco, em São Paulo. O encontro reuniu profissionais para discutir novos caminhos para edifícios e espaços urbanos, conciliando arquitetura, preservação do patrimônio e valorização do que já foi construído.

TATAME O ex-lutador, treinador e empresário Cristiano Marcello inaugurou a CMSystem Ecoville, em Curitiba, reunindo mais de 500 convidados. Com 2 mil m², a academia tem capacidade para receber até 300 alunos simultaneamente e conta com dois tatames, um deles com 700 m², o maior da América Latina. Na foto, Mama Brito, Clemilda Thomé, Raquel Pizzatto e Cristiano Marcello. Foto: Alba Films

124

habitat


PERSONALIDADE A Franccino Curitiba promoveu um encontro sobre cor, personalidade e personalização no morar contemporâneo, com a designer de móveis Daniela Ferro. Na foto, Maria Fernanda Kersting, Daniela Ferro, designer de móveis, Fernando Kersting, diretor da Franccino Curitiba e Juliana Gibaile, arquiteta.

OLHAR Fernando Bonamico, superintendente do Pátio Batel; a curadora Ana Carolina Ralston; e Camila Fleischfresser, head de marketing do shopping, na abertura da segunda edição de Vestir o Olhar. A ocupação reuniu trabalhos de nove artistas em torno das conexões entre arte e moda e contou com uma programação de talks, oficinas e visitas guiadas. Foto: Vitor Augusto

CONEXÕES A jornalista Dani Brito conduziu uma conversa com o designer Jum Nakao, na Ferragamo do Pátio Batel. Referência na interseção entre moda, arte e design, Jum ganhou projeção com “A Costura do Invisível”, de 2004. O encontro integrou a programação do Vestir o Olhar, projeto que promove conexões entre arte e moda.

habitat

125


Coluna Conexão por Cesar Franco

LITOGRAVURA “No meio do caminho… a matriz angular” levou à Galeria Zilda Fraletti um olhar especial sobre a litogravura. Com curadoria de Jhon Voese, a exposição reuniu 11 artistas e aproximou o público do processo, da pedra-matriz à impressão no papel. Um dos destaques foi a prensa de litogravura instalada na própria galeria, ao lado das pedras utilizadas pelos artistas. Na foto, André Nacli, Fernanda Cassou, Zilda Fraletti, Eduardo Bragança e Silvia Schussel. Foto: Gerson Lima

ILÚNIA A TUO Empreendimentos inaugurou sua nova Central de Vendas, em Curitiba. Pensado para proporcionar uma experiência imersiva aos clientes, o espaço reúne recursos tecnológicos, ambientes de convivência e o apartamento decorado do ILÚNIA, novo empreendimento da incorporadora. Na foto, os diretores Rômulo e Tiago De Mio, com Felipe Felitto, gerente de incorporações, e Paulo Gouveia, gerente comercial.

ELEGÂNCIA À frente da Ferragamo Curitiba, no Pátio Batel, o store manager Milton Luiz Peres acompanhou de perto a programação do Vestir o Olhar, que aproximou arte e moda em diferentes encontros. Atencioso e sempre cordial, Milton comanda a operação da grife italiana na capital paranaense e faz do bom atendimento uma das marcas da loja.

126

SOLIDARIEDADE A Obra Nossa, associação sem fins lucrativos que reúne arquitetos, designers, engenheiros, lojistas e profissionais de diferentes áreas, comemora o sucesso de seu bazar beneficente, realizado no Shopping Novo Batel. Toda a renda arrecadada será destinada ao projeto de requalificação da Vila Esperança, em Curitiba, dando continuidade ao trabalho da entidade junto a comunidades em situação de vulnerabilidade.

habitat


REPÚBLICA TCHECA Em agosto, uma comissão composta pela Vesta Pìso Aquecido, pela Construtora Laguna e pela AsBIM Gerenciamento de Projetos, esteve na República Tcheca para uma missão técnica que incluiu uma visita a Fênix Heating, maior fabricante de sistemas de aquecimento elétrico de superfície da Europa. Na foto, Pavel Kudelka e Beata Vaculik, da Fênix Eating; Robson Vieira, da Construtora Laguna e AsBIM; Mateus Palmquist, da Vesta; Katerina Jezerská, da Fênix Eating; Leandro Almas, da Vesta; e Robson Vieira, da Construtora Laguna e AsBIM.

INFINITO A Holy Home apresentou, em Curitiba, a Coleção Infinito, da Design by Somers × Bespoke Life. A novidade marca também a chegada da Design by Somers à loja, que passa a comercializar a marca com exclusividade. Inspirada na arte de receber, a coleção aposta em formas orgânicas e linhas contínuas. Na foto, Márcia Primo Costa, da Bespoke Life; Karina Lago, diretora da Holy Home; e Gisele Loyola, da Bespoke Foto: Ryco

TAPETE PRESERVAÇÃO A Moov Arch reuniu convidados na Casa Belotti, em Curitiba, para apresentar seu trabalho em arquitetura corporativa. A empresa reúne mobiliário corporativo e decor, peças de design e soluções para projetos, com suporte técnico especializado. Na foto, André Luiz Ferreira, diretor da Moov Arch, e Lislié Olegário, arquiteta responsável pela conservação da casa.

habitat

A Botteh Handmade Rugs recebeu, em Curitiba, o arquiteto Felipe Hess para um talk sobre arquitetura e a trajetória de seu escritório. Autor da premiada loja conceito da marca em São Paulo, ele posa na foto com Amir Shahrouzi, proprietário da Botteh.

Foto: Divulgação

127


Coluna Conexão por Cesar Franco

TRAJETÓRIA Veterana na Mostra Artefacto, a arquiteta Viviane Loyola apresenta, neste ano, um ambiente de mais de 80 m² inspirado no tema “Maturidade”. À frente do escritório que leva seu nome há mais de 20 anos, ela posa na foto com a galerista Zilda Fraletti, que forneceu para o projeto uma obra da artista Cristina Barrancos. Foto: Farid Majid

RIO Um grupo de convidados do Paraná visitou a CASACOR Rio 2026, que celebra 35 anos no Edifício Aliança da Bahia, ícone modernista recémretrofitado no Centro do Rio de Janeiro. Com o tema “Mente e Coração”, a mostra reúne 47 ambientes. Na foto, Cesar Franco, Ana Brixel, Carla Grüdtner, Caroline Figueiredo, Karol Venturi, Alessandra Gandolfi, Marina Nessi, Patrícia Quentel, franqueada da CASACOR Rio, Camila Rocha e Juliana Marques.

CELEBRAÇÃO A Inove Design celebrou 40 anos com o lançamento do Circuito Inove 10+30, em Curitiba. A iniciativa traduz a trajetória da marca: dez anos como estúdio de design e três décadas no varejo. Para marcar a data, 11 escritórios de arquitetura e design de interiores criaram instalações especiais no showroom. Na foto, Bruna Dacól Bomfim, Alceu Bomfim Junior, Eviete Dacól e Bernar Dacól Bomfim. Foto: Patrícia Amancio

128

habitat


Epílogo

Efigênia, que nos deixou em março deste ano, é homenageada pelo Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, com a mostra Efigênia Rolim: A Poética do Resíduo. Artista tão necessária, dona de uma obra empírica que reorganizou o mundo a partir do que foi descartado, costumava contar que quando viu um papel de bala na rua brilhando ao sol, ficou encantada com aquela beleza simples, enxergando no papel infinitas possibilidades. Para nós, Efigênia é pura delicadeza e beleza. Nos faz crer que existem infinitas possibilidades.

Xamã (instrumento musical), 2012, de Efigênia Rolim. Foto: Divulgação/Museu Oscar Niemeyer (MON) 130

habitat


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook