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Habitat 32

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arquitetura | arte | design

JOANA VASCONCELOS

A guardiã das tradições artesanais reinterpreta o universo criativo de Valentino Garavani.

ESPAÇOS PARA VIVER

O balanço Cocoon, do Estúdio Campana, retornou à edição 2026 do Salão de Milão em colaboração com a artista Géraldine Gonzalez, que propôs um revestimento texturizado e furta-cor para o Cocoon Dichron. A peça fez parte da coleção Objets Nomades, da Louis Vuitton. Foto: Divulgação | Cortesia Louis Vuitton

Expediente

Publisher: Cíntia Peixoto|cintia@revistahabitat.com.br (41) 99225-7610|Comercial: Regina Rocha|(41) 98848-1950

Comercialização: Saltori Mídia Estratégica|saltori@saltori.com.br (41) 99996-9995|R SALTORI REPRESENTAÇÕES COMERCIAIS LTDA CNPJ 05.552.266/0001-60

Coordenação de conteúdo: Melissa Crocetti melissa.crocetti@gmail.com

Revisão: Paula Batista – Lide Multimídia

Direção de arte: Igor Dranka|igor@revistahabitat.com.br Foto da capa: Michele Colasuonno | Cortesia FGV Services

Muitos olhos curiosos estiveram voltados para a Itália nos últimos meses – incluindo os nossos. A publisher da Habitat, Cíntia Peixoto, e a foresight strategist, Paula Abbas, estiveram em Milão para conhecer as narrativas que irão inspirar arquitetura, design e artes nos próximos anos. As mais de 1.900 marcas de 32 países que participaram da Semana de Design de Milão 2026 deixaram claro que os caminhos são muitos, porém convergem no conceito de espaços pensados para morar. Não faz mais sentido produzir ambientes inóspitos, nem objetos descartáveis. Os conceitos permeiam identidade, personalidade e memória.

Os processos artesanais estiveram presentes em muitas das propostas de Milão, assim como desde sempre fazem parte das obras de Joana Vasconcelos – artista portuguesa que ilustra a nossa capa e que também está com uma exposição belíssima na Itália, mas em Roma. Ainda da Europa, o arquiteto brasileiro Edson Yabiku nos contou sobre alguns projetos que ajudou a desenvolver nos 25 anos que trabalhou em um dos maiores escritórios do mundo, o Foster & Partners. Trazemos também algumas obras do ganhador do Prêmio Pritzker 2026, o mais destacado prêmio de arquitetura do mundo, que laureou o chileno Smiljan Radić. Nas próximas páginas, além destas histórias, muitos outros artistas, designers e arquitetos que nos brindam com narrativas vibrantes e trabalhos sensíveis, que nos fazem perceber que o importante mesmo é viver.

Boa leitura!

Melissa Crocetti, coordenadora de conteúdo

Colaboraram nesta edição: Jayme Bernardo, Paula Abbas e Rafaella Sabatowitch.

Conselho Editorial: Cristina Fontoura e Paula Abbas.

Colunistas: Paula Campos (Coluna Sobre Morar), Rodolpho Gutierrez (Coluna É Design) e Cesar Franco (Coluna Conexão). Redes sociais: Trentini Comunicação

Impressão: Maxi Gráfica e Editora LTDA. maxigrafica@maxigrafica.com.br

Marca registrada: Capelatto Marcas e Patentes

RM

Revista

habitat

Ano 5 Número 32 | Junho e Julho de 2026

CAPA

10 A artista portuguesa Joana Vasconcelos conta a experiência de criar uma exposição monumental a partir das obras do estilista Valentino Garavani, entre outros assuntos.

ESPECIAL MILÃO

26 A enviada especial Paula Abbas relata suas impressões sobre a Semana de Design de Milão 2026, em O mundo redesenha o silêncio.

ARQUITETURA

48 Conheça algumas obras do chileno Smiljan Radić, laureado com o Prêmio Pritzker de Arquitetura 2026.

58 As casas que Marcos Acayaba projetou e executou na Serra do Guararu, agora em livro.

64 O arquiteto brasileiro Edson Yabiku acredita que arquitetura sustentável deixou de ser uma opção há muito tempo.

ARTE

72 Limiares: a 16ª Bienal Internacional de Curitiba ocupa museus, galerias e as ruas da cidade.

DESIGN

82 A designer Maria Cândida Machado lança uma coleção de móveis e objetos inspirada no caleidoscópio.

88 Seis mesas, seis gestos, seis arquitetos em um lindo projeto de design de Consuelo Cornelsen.

NOTAS DA HABITAT

94 O MoMA de Nova York homenageia Frida Kahlo e Diego Rivera; o arquiteto Edo Rocha revê 60 anos de carreira na OCA do Parque Ibirapuera; a sensibilidade da artista Marina Saleme em novas obras e livro inédito, também em São Paulo; e Vik Muniz, um dos principais nomes das artes contemporâneas, e a maior retrospectiva de sua carreira no Rio de Janeiro.

COLUNAS

100 É Design, por Rodolpho Gutierrez.

102 Sobre Morar, por Paula Campos.

106 Conexão, por Cesar Franco.

114 Ponto de Vista, por Jayme Bernardo e Glei Tomazi.

JOANA VASCONCELOS

A GUARDIÃ DAS TRADIÇÕES

ARTESANAIS

A artista reinterpreta o universo criativo de Valentino Garavani, em Roma, com instalações monumentais que estabelecem um diálogo cênico entre arte, moda e cidade.

Por Melissa Crocetti

Ela já disse que é uma verdadeira artista do barroco pela abundância de cor, de luz, de têxteis, de bordados, de joias. Essa predileção tornou Joana Vasconcelos em uma cenógrafa da beleza e lhe rendeu fama de artista monumental, tanto pelo gigantismo do talento quanto pelas obras de grande porte.

Uma de suas exposições atuais pode ser visitada em Roma, Itália, no espaço PM23, na Piazza Mignanelli. VENUS, Valentino Garavani through the eyes of Joana Vasconcelos estreou em 18 de janeiro deste ano, lamentavelmente um dia antes do falecimento do estilista. Com ele, a artista compartilhou sua visão sobre o belo, além da compreensão da liberdade e da presença da mulher no mundo. O feminino como possibilidade de paz e justiça.

Coube à artista plástica, nascida em 1971 – em Paris, onde seus pais estavam exilados da ditadura portuguesa

– reunir algumas de suas obras emblemáticas, produzidas ao longo de 30 anos de carreira, ao lado de novas criações inspiradas no universo do estilista. O ponto central da exposição é Valkyrie Venus, resultado de um processo participativo que envolveu mais de 200 pessoas, incluindo estudantes, artesãos e membros de diversas comunidades. As obras também se espalham pela cidade, traçando um diálogo entre arquitetura, design e arte. O sucesso estrondoso fez com que a exposição fosse estendida até 19 de julho.

Na Espanha, está em cartaz Joana Vasconcelos. Transfiguración, até setembro, no Museu Picasso Málaga. Já no sul da França, na Cidadela de Villefranche-sur-Mer, The Absurd and the Dreamlike, projeto em colaboração com o artista belga Arne Quinze, até outubro.

A artista portuguesa Joana Vasconcelos é aclamada internacionalmente por suas obras que falam sobre identidade, consumo e a mulher na sociedade. | Foto: Lionel Balteiro

Detalhe de Valkyrie Venus, obra monumental de Joana Vasconcelos inspirada em criações de Valentino Garavani. Cada detalhe revela um diálogo primoroso entre moda e arte. | Foto: Cortesia FVG Services

Com humor e ironia, a artista fala sobre mulheres, sociedade de consumo e identidade coletiva. O reconhecimento veio em 2005, quando A Noiva – então instalada na discoteca Lux, em Lisboa, onde Joana Vasconcelos trabalhava como segurança – foi convidada a integrar a Bienal de Veneza. Desde a estreia, são mais de 900 exposições, sendo a primeira mulher a exibir no Palácio de Versalhes e a primeira artista portuguesa a ter uma individual no Guggenheim de Bilbao. No Brasil, em 2024, apresentou Extravagâncias no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba; recentemente, a obra Jardim do Éden esteve em São Paulo, no Farol Santander.

Em entrevista exclusiva à Habitat, Joana Vasconcelos falou sobre a experiência com Valentino Garavani, a coordenação de um projeto elaborado a muitas mãos, o processo criativo e a satisfação de observar as pessoas saírem de suas exposições com um sorriso no rosto.

O fio condutor da exposição é a Valkyrie Venus, que traduz as obras do estilista e envolveu centenas de participantes e mais de 200 quilos de peças de crochê. Como foi esse processo?

Na exposição VENUS houve um envolvimento comunitário muito amplo e reuniu pessoas de contextos muito diversos. Após esse desafio ter sido lançado, alguns artesãos do atelier encontraram-se com os participantes, onde se fomentou a aprendizagem do crochê. Estes encontros tornaram-se espaços de troca e reflexão sobre o valor da criação manual e sobre o papel da comunidade no processo artístico. Reunir vozes tão diversas exigiu coordenação, mas o trabalho manual e o gesto partilhado aproximaram as pessoas. Este processo deu origem a uma secção da obra Valkyrie Venus (o “braço” em tons prateados).

Da herança de Valentino Garavani ao universo visionário de Joana Vasconcelos, Valkyrie Venus é uma celebração do artesanato. | Foto: Cortesia FVG Services

Como é coordenar um projeto a partir de tantas mãos?

Coordenar um projeto que envolve uma grande equipe é, acima de tudo, um exercício de confiança e articulação. Valkyrie Venus foi um caso particularmente especial e, talvez, a obra que mobilizou o maior número de pessoas. Ainda assim, o trabalho colaborativo faz parte do meu cotidiano e do meu processo de criação. O Atelier Joana Vasconcelos envolve cerca de 60 profissionais de diferentes áreas – da arquitetura à produção, passando pela gestão financeira – num espaço pensado para estimular tanto a criatividade como a eficiência, com zonas especializadas para têxtil, bordado, costura e mecânica.

Dentro deste contexto, qual o seu papel?

Meu papel centra-se na definição da visão criativa. Desenho cada obra e acompanho todo o processo artístico. Mas é a competência de uma equipe altamente qualificada de artesãos e especialistas que materializa essa visão. O diálogo constante é fundamental – cada um contribui com um saber próprio e, embora eu oriente a direção artística, é a mestria coletiva que permite alcançar o nível de rigor e expressão pretendido. No fundo, trata-se de um processo compartilhado, sustentado pelo respeito mútuo.

Coração Independente Vermelho, uma escultura monumental composta por quatro mil utensílios de plástico moldados à mão. O longo vestido vermelho de tafetá de Valentino (coleção de 1992/1993) traz cordões torcidos bordados à mão, organza em camadas, miçangas vermelhas e strass.

Foto: Michele Colasuonno. Cortesia FVG Services

O que a motivou a aceitar reinterpretar o universo criativo de Valentino Garavani?

Desde o primeiro contato com o universo de Valentino Garavani, reconheci uma afinidade profunda entre a sua visão de beleza e a minha compreensão da liberdade e da presença da mulher no mundo. Mais do que uma estética, há no seu trabalho uma ideia de empowerment feminino que se traduz na capacidade de a mulher afirmar a sua própria narrativa. No meu trabalho, isso se materializa na transformação de objetos e símbolos tradicionalmente associados à esfera do feminino em gestos escultóricos que questionam e libertam as representações da mulher. Esta relação de Valentino com a arte, marcada por rigor, poesia e um enorme respeito pelo trabalho artesanal, proporcionou a aproximação do meu universo ao seu legado.

Qual o legado de Valentino?

Valentino deixou um legado marcado pela crença inabalável na beleza como uma força cultural que pode emocionar, unir e resistir ao tempo. A sua dedicação ao artesanato revela um compromisso profundo com a excelência e com a ideia de que a moda pode moldar a maneira como vivemos e sentimos. Cada peça traduz precisão, gesto e presença, equilibrando de forma singular o desejo e a intimidade: criada para mulheres reais, mas envolta em um universo onírico. Por meio das suas criações, Valentino elevou o quotidiano a uma dimensão poética, tornando o seu nome uma referência para artistas e criadores de diversas áreas.

Obra A Todo o Vapor, um conjunto de ferros de engomar a vapor que reinterpreta o desabrochar lento de uma flor-de-lótus.

Foto: Michele Colasuonno. Cortesia FVG Services

Obra I’ll be your mirror, na Piazza Mignanelli. São 255 molduras barrocas em bronze (desenhadas e decoradas pela artista) e 510 espelhos sobrepostos que constroem uma máscara veneziana. O nome da obra é homônimo à música composta por Lou Reed e interpretada pelos Velvet Underground e pela cantora Nico. Foto: Michele Colasuonno. Cortesia FVG Services

Ele veio a falecer um dia depois de a exposição estrear...

A morte de Valentino foi inesperada e, infelizmente, ele não chegou a ver a exposição. Foi uma perda que senti profundamente, mas, ao longo do processo, e desde a sua visita ao meu atelier em 2018, ficou claro para mim que partilhávamos um profundo respeito pelo trabalho feito à mão e a valorização do belo. Creio que a exposição reflete de forma fiel esse diálogo comum.

Na mitologia nórdica, Valkyrie serve a Odin, sobrevoa campos para escolher quais guerreiros irão a Valhalla; Vênus, a deusa do amor, da beleza e da fertilidade. É o feminino a esperança para a paz e justiça social?

Acredito que, em momentos de tensão e ruptura, a beleza torna-se um ato de resiliência. Não vejo a ideia de beleza como algo passivo, mas sim como uma força generativa, capaz de curar e aproximar pessoas. Nesse sentido, o feminino pode, sim, representar uma esperança; e a beleza, quando compreendida dessa forma, pode despertar empatia e criar conexões inesperadas. Se encararmos a moda e a arte como expressões complementares da experiência humana, então a exposição VENUS surge como um convite à reflexão sobre identidade e comunidade.

A obra Marilyn questiona a condição da mulher estabelecendo uma irônica relação de glamour através da sobreposição de tachos em aço inoxidável e das suas tampas, em escala monumental. | Foto: Michele Colasuonno. Cortesia FVG Services

Qual o seu papel na “redescoberta” das obras (e da mão de obra) artesanais?

Fico feliz por ver um interesse renovado pelo saber-fazer e pela manualidade como uma resposta necessária à efemeridade e rapidez da nossa cultura atual, potencializada pelo desenvolvimento tecnológico. Interessa-me a procura pela materialidade, pela marca da mão humana, por processos que transportam história e significado. Tanto na arte como na moda, este reencontro oferece um contraponto à uniformidade industrial e convida-nos a repensar o valor em termos de tempo, perícia e experiência partilhada. Espero que o meu trabalho contribua para este diálogo.

A inteligência artificial contribui de alguma forma para o seu trabalho?

A tecnologia oferece possibilidades enormes de inovação, mas também nos obriga a manter um olhar crítico e consciente sobre a forma como a utilizamos. No meu trabalho, utilizo ferramentas digitais sobretudo em processos de engenharia, materiais e técnicas de produção, mas apenas como um instrumento que pode amplificar a escala e a complexidade da expressão artística. A inteligência artificial pode simular padrões e gerar formas, mas não tem aquilo que considero essencial na arte: a experiência humana, a emoção, a intuição e a imperfeição. É isso que faz com que a criação artística seja profundamente ligada à nossa condição. Ainda assim, não encaro a IA como uma ameaça, mas como um desafio e uma oportunidade. Obriga-nos a refletir de forma mais crítica sobre o uso destas ferramentas e a valorizar e preservar as tradições artesanais, que são cada vez menos praticadas.

O anel de noivado monumental, Solitário, é a representação do amor e do compromisso entre duas pessoas que a sociedade de consumo transformou em símbolo de poder. São 110 rodas de automóvel douradas e uma pirâmide invertida formada por 1450 copos de whisky que simulam um grande diamante. Foto: Michele Colasuonno. Cortesia FVG Services

Geralmente, quem vê suas obras abre um sorriso no rosto. Essa é a função da arte?

Sim, espero que, na sua essência, a minha arte provoque esse efeito. Acredito que a arte deve ser vivida com o corpo inteiro, não apenas com os olhos. Nas minhas instalações, procuro integrar som, luz, movimento e textura de modo a criar experiências sensoriais e imersivas. Quando a obra ganha essa presença física, cria-se uma intimidade muito particular: o espectador deixa de ser apenas observador e passa a fazer parte da própria obra, como participante. Essa ligação, simultaneamente física e simbólica, é fundamental para mim. A arte deve ser um diálogo entre o artista e o espectador, e procuro que as minhas peças abram espaço para interpretações e projeções pessoais. Fico sempre fascinada com aquilo que cada pessoa descobre e absorve ao ver o meu trabalho.

Em uma outra entrevista você disse: “quase todas as minhas peças começaram por grandes erros”. Pode explicar essa afirmação?

O processo criativo raramente é linear ou impecável, e aprendi que os erros são, por vezes, o terreno fértil para a inovação e a descoberta. Os erros que cometo não são fracassos, mas sim oportunidades para ultrapassar limites, repensar e evoluir. Acredito que aceitar as dificuldades que surgem no processo de criação é essencial para o crescimento de qualquer artista. Todas as obras têm os seus desafios e o processo nunca é linear, surgem adaptações, mudanças de planos, e ter várias cabeças a pensar é essencial para ultrapassar os percalços.

Existe ironia em criar obras que são, muitas vezes, críticas aos modelos sociais e culturais que vivemos e ao mesmo tempo ter essas mesmas obras em alguns dos principais museus do mundo?

O meu trabalho parte da vontade de questionar normas sociais e culturais, abrindo espaço para reflexão e diálogo. Expor em museus e grandes instituições à escala internacional permite que esse questionamento seja ampliado, colocando as obras em contato com diferentes contextos e públicos. Nas minhas obras, frequentemente descontextualizo símbolos históricos, o que abre novas possibilidades de

leitura e de crítica. Se o trabalho conseguir gerar discussão e desafiar perspectivas estabelecidas, então está a cumprir o seu propósito. Interessa-me trabalhar a complexidade, sobretudo no que diz respeito à identidade e ao papel da mulher, que está longe de ser único ou fixo. Vivemos rodeados de narrativas simplificadas – sobre beleza, maternidade, domesticidade – que não refletem a diversidade real das experiências. Ao desconstruir esses estereótipos, procuro criar espaço para ambiguidade, múltiplas leituras e até algum humor, que ajuda a aproximar diferentes públicos e a provocar reflexão de forma mais acessível.

Escultura Strangers in The Night, inspirada na música de Frank Sinatra: uma instalação em forma de um enorme trono com luzes e faróis de automóveis e táxis. | Foto: Michele Colasuonno. Cortesia FVG Services

Quando você decidiu que seria uma artista?

Sou artista porque tinha de o ser. Venho de uma família de artistas: o meu pai é fotógrafo, a minha mãe sempre gostou de desenhar, a minha avó era pintora. Cresci e sempre vivi rodeada de arte, penso que foi um processo natural. Não me lembro de quando me apercebi de que era uma artista, mas criei o meu primeiro estúdio quando tinha 17 anos e comecei a organizar exposições em 1994.

Como foi sua trajetória profissional?

Quando comecei, não fazia ideia de que este percurso seria possível. O meu primeiro objetivo era simplesmente ter um espaço onde pudesse trabalhar. Aos poucos, fui colaborando com amigos que me ajudavam a finalizar as peças e foi aí que percebi algo essencial: para concretizar a minha visão, precisava de uma equipe. Essa aprendizagem foi decisiva. O caminho foi-se construindo de forma orgânica, e tenho orgulho de me ter mantido fiel a mim própria enquanto criava o meu percurso.

A Noiva é resultado de reflexões sobre casamento e intimidade. Tem o formato de um lustre cujos pendentes de cristal foram substituídos por aproximadamente 14.000 absorventes internos (O.B.). Esta foi a obra de Joana Vasconcelos selecionada, em 2005, para Bienal de Veneza e que chamou a atenção internacional para a artista portuguesa.

Foto: Luís Vasconcelos

O quanto suas experiências anteriores, como ter sido segurança de uma discoteca, estão nas suas obras hoje? Trabalhei durante algum tempo como chefe de segurança no Lux Frágil. Foi uma experiência marcante, principalmente pelas pessoas com quem me cruzei. O Manuel Reis (empresário e agitador cultural), por exemplo, era um verdadeiro visionário, com um olhar apurado para a beleza, tanto nos espaços como nas pessoas. Grande

apreciador de design, chegou a oferecer-me cadeiras da sua coleção pessoal, que utilizei mais tarde na peça Ponto de Encontro. Foi também ele quem me convidou a expor A Noiva no Lux, dando-lhe uma projeção internacional decisiva. Paralelamente, a minha ligação à Galeria 111 foi muito importante, onde tive a oportunidade de ser colega da Paula Rego, com quem aprendi imenso.

Obra Família Feliz, da série Esculturas em Cimento, um questionamento sobre a família. São duas esculturas pintadas à mão e envoltas em peças de crochê extremamente elaboradas. Foto: Lionel Balteiro

A monumental Valkyrie Octopus, inspirada nas figuras femininas da mitologia nórdica. Elas sobrevoavam os campos de batalha trazendo de volta à vida os mais bravos guerreiros para se juntarem às divindades em Valhalla. Foto: Lionel Balteiro

Suas obras sempre tiveram grande porte?

Nem sempre foi assim, mas a escala acabou por se tornar uma parte fundamental do meu trabalho. Para mim, não se trata de causar impacto pela dimensão, mas de criar um diálogo entre a obra e a arquitetura que a acolhe. O contexto cultural e histórico de cada espaço desempenha um papel decisivo na construção do significado e do simbolismo das peças. Cada peça é pensada em relação ao espaço onde se insere, procurando criar uma ligação dinâmica com o ambiente. Interessa-me que a obra transforme o espaço e que passe a fazer parte da forma

como esse espaço é vivido. Nesse sentido, a escala muitas vezes surge como uma necessidade, quase como uma resposta ao próprio contexto arquitetônico. Ao longo da história, a arte teve sempre um papel fundamental na forma como nos representamos e como deixamos registo da nossa existência. Desde as primeiras inscrições até às grandes construções, existe essa vontade de criar algo duradouro, que atravesse o tempo. A escala pode reforçar essa presença, essa ideia de permanência e de diálogo entre passado, presente e futuro.

Como é o seu processo criativo?

O meu processo criativo começa, quase sempre, com uma ideia muito nítida, como uma imagem mental da obra antes de existir. O desenho é sempre o primeiro passo. Tenho sempre um caderno comigo e desenho muito, quase de forma meditativa. É nesse gesto contínuo que as ideias se organizam e começam a ganhar forma. A partir daí, o processo vai se tornando mais experimental e concreto, passando por fases de projeto, prototipagem,

testes e desenvolvimento. Interessa-me muito trabalhar com objetos comuns, muitas vezes em pequena escala, e explorar a sua transformação através da repetição e acumulação, até ganharem uma presença quase monumental. Nada disto acontece de forma isolada. Ao longo do processo, conto com uma equipe de especialistas que contribuem com o seu conhecimento técnico e sensível. O atelier é, para mim, um espaço vivo de troca e colaboração, onde as ideias se constroem em conjunto.

Lilicoptère, um helicóptero revestido de folha de ouro e decorado com milhares de brilhantes e penas de avestruz, é uma sugestão da metamorfose da máquina em animal e a concretização do sonho do homem em voar. Foto: Luis Vasconcelos

O MUNDO REDESENHA O SILÊNCIO

Depois de anos de hiperestimulação visual, gigantismo cenográfico e inovação performática, Milão aponta para uma nova sensibilidade: silêncio, permanência, matéria e humanidade. Entre instalações contemplativas, palácios históricos e experiências imersivas, a Semana de Design de Milão 2026 reforça a era do luxo emocional.

Por Paula Abbas, enviada especial

Ainspiração é o motor da criação. E, quando falo de inspiração, não me refiro apenas a referências visuais. Falo de uma mente e de um coração inundados por vivências. É para isso que existe a Semana de Design de Milão. Para que possamos encontrar designers do mundo todo, reunidos em torno do debate sobre a convergência entre moda, design de interiores, arquitetura, branding, cultura e história.

É preciso uma certa distância para compreender uma vivência que não pode ser explicada apenas pelo design. Olhar de cima para integrar todas as partes que compõem

uma imensa profusão de propostas narrativas, de produtos e experiências que marcam a mente e o corpo.

O mais difícil não foi visitar dezenas de instalações, escolher entre as centenas de propostas disponíveis, sustentar a ansiedade de perder algo importante, atravessar distritos, registrar tendências. O mais difícil foi compreender a sensação silenciosa que atravessava Milão inteira, no final do mês de abril: a percepção de que algo mudou profundamente no mundo e de que o design, antes obcecado pela inovação, agora parece buscar novas e melhores perguntas.

A Coleção Objets Nomades, da Louis Vuitton, reuniu designers internacionais e artesãos excepcionais em uma exposição que conectou o espírito do Art Déco ao design contemporâneo – a visão da marca sobre o universo da casa. Foto: Divulgação Louis Vuitton

DA ESTÉTICA DO EXCESSO PARA A ESTÉTICA DA PRESENÇA

Alguns disseram que esta edição da Semana de Design de Milão perdeu o brilho. Outros repetiram o discurso já conhecido de que tudo parecia “mais do mesmo, requentado”. Mas talvez este seja justamente o ponto mais interessante de 2026. O que pude ver fala de forma clara dos movimentos globais de indústria de mobiliário, dos movimentos da geopolítica e da esperança de que o belo ainda pode salvar um mundo em crise.

Durante anos, a Semana operou sob a lógica do excesso: mais impacto, mais estímulo, mais viralização, mais cenografia. Em 2026, algo parece ter mudado. Depois de anos de hiperestimulação estética, gigantismo cenográfico e inovação performática, Milão parece ter reduzido o tom. E reduzir o tom, em um mundo em colapso dopamínico, é um gesto radical. Ainda existe grandiosidade, claro. Mas ela aparece mais contida, quase disciplinada. Como se as marcas tivessem entendido o quanto o consumidor contemporâneo está emocionalmente esgotado.

Essa desaceleração não significa falta de criatividade. Pelo contrário. Revela maturidade. A crise do setor do luxo ajuda a explicar parte desse movimento. Os principais conglomerados globais atravessam um momento

delicado, pressionados por retração de consumo, tensões geopolíticas e mudanças geracionais.

O resultado apareceu claramente em Milão: menos ostentação explícita, mais intimidade. Menos espetáculos monumentais, mais hospitalidade. Menos cenografias feitas apenas para viralizar, mais experiências construídas para gerar vínculo emocional. As maisons continuam ocupando os endereços mais desejados da cidade, produzindo experiências sofisticadas e disputando atenção global, mas agora com uma abordagem menos performática e mais contida.

O luxo reduz o tom. E entendo essa como uma das mensagens mais importantes desta edição.

De qualquer forma, a quantidade de propostas espalhadas por todos os cantos da cidade ainda foi grandiosa. Chegou a ser surpreendente. Um tempo no qual o design invadiu igrejas, palácios, mercados, apartamentos históricos, fábricas abandonadas, hotéis fictícios, jardins secretos e edifícios brutalistas. Milão se converteu em um organismo vivo no qual moda, arquitetura, branding, arte, gastronomia, tecnologia e geopolítica coexistiram como linguagem única.

A tradicional Noritake, de Nagoya, no Japão, apresentou novas peças e celebrou o artesanato em cerâmica com uma oficina ao vivo conduzida por Masami Okada, mestre pintor manual da tradicional casa de porcelana japonesa. Foto: Taran Wilkhu

Luminária Gurunsi, da PET Lamp, inspirada nos conjuntos habitacionais das comunidades Frafra, em Gana. Feita à mão, a partir de tiras de garrafas pet e capim-elefante. Fundada pelo designer espanhol Álvaro Catalán de Ocón, a PET Lamp viaja pelo mundo para colaborar com comunidades locais e de artesanato tradicional. Foto: divulgação PET Lamp

A GRANDE MUDANÇA NÃO ESTEVE NOS LUGARES, MAS NO

ESTADO EMOCIONAL DAS PROPOSTAS

Em um contexto de desaceleração econômica, saturação estética e questionamentos crescentes sobre excesso, sustentabilidade e legitimidade cultural, muitas das grandes casas pareceram abandonar parcialmente a lógica do impacto monumental para investir em experiências silenciosas, intelectuais e atmosféricas. A ostentação explícita perdeu espaço para um luxo mais psicológico.

A Hermès talvez tenha sintetizado isso da forma mais elegante. A maison apresentou uma instalação extremamente depurada, baseada em luz, sombra, vazios, transparências e intervalos como ferramentas compositivas. Em vez de cenografia grandiosa, a marca apostou em espaços rarefeitos, meditativos, onde couro, madeira, cashmere e

superfícies minerais eram tratados com precisão arquitetônica. O foco não estava no produto enquanto objeto de consumo imediato, mas na ideia de permanência, excelência construtiva e relação íntima com a matéria.

A Jil Sander seguiu o movimento apresentando uma das leituras espaciais mais radicais da semana. Não à toa, bastante premiada. A instalação era uma biblioteca que transformava livros em elementos arquitetônicos e culturais de permanência. O espaço operava através de redução formal extrema, utilizando luz natural controlada, tonalidades e superfícies neutras, espacialidades abertas e precisas, propondo uma experiência radicalmente desacelerada e uma atmosfera monástica.

A atuação da Gucci evidenciou o uso do design expositivo como ferramenta de construção de memória cultural. A marca escolheu trabalhar a partir de um dos elementos mais clássicos do imaginário italiano e da própria iconografia do luxo: o jardim, profundamente associado ao barroco, romântico e emocional, da marca.

A instalação partia da imagem da rosa como dispositivo simbólico para construir uma reconstrução atmosférica da memória estética Gucci. Objetos históricos, códigos gráficos, estampas, materiais do arquivo da maison demonstrando que a Gucci Memoria é a compreensão que, no cenário contemporâneo do luxo, patrimônio cultural é um dos ativos mais importantes de diferenciação.

Gucci transforma sua própria herança em linguagem contemporânea, reforçando a leitura sobre o papel da

natureza dentro da estética do luxo. Em 2026, jardins, botânica e paisagismo aparecem repetidamente como recurso decorativo e, principalmente, como resposta ao excesso de artificialidade do mundo digital.

As filas gigantescas deixaram de se formar apenas diante de objetos icônicos. Formavam-se diante de experiências contemplativas. Instalações silenciosas. Ambientes imersivos. Salas escuras onde a luz atravessava blocos translúcidos lentamente. Espaços para respirar. Ler. Escutar. Comer. Permanecer. Muitas das instalações mais impactantes da semana falavam sobre silêncio, regeneração, ancestralidade, comida, leitura, natureza, ritual e tempo. A cidade parecia menos interessada em impressionar e mais interessada em acolher.

A retração cenográfica observada em Milão não representa falta de criatividade, mas uma resposta cultural à fadiga emocional contemporânea. Em um mundo hiperestimulado, experiências mais lentas e íntimas ganham potência simbólica.

O Studio LUGO, do designer Doruk Kubilay, apresentou a série Resonance, com peças criadas a partir do metal alpaca. A coleção combina a imprevisibilidade do fogo, a disciplina da metalurgia técnica e a precisão da alta-costura em um único conjunto de obras. As camadas laminadas de metal são reveladas abertamente e "florescem" suavemente nas bordas, conferindo às peças uma articulação delicada, quase como a de uma joia, apesar de seu peso estrutural. Foto: Divulgação Studio LUGO

A Poliform apresentou sua nova coleção a partir da Multitude, no pátio do Palazzo Clerici. Assinada pelo studioutte, a instalação evocou uma floresta urbana com uma série de postes de alumínio de cinco metros de altura, dispostos em uma sequência rítmica precisa, remetendo a uma floresta de bambu dentro da qual a nova coleção de exteriores da marca emerge como uma série de presenças silenciosas. | Foto: Divulgação Poliform

GRANDES PERGUNTAS

Em conversas com designers e diretores criativos ao longo da semana, uma pergunta aparecia repetidamente: “o hype da inovatividade no design chegou a um platô?”. Algumas perguntas que permearam muitas instalações foram: O mundo realmente precisa de novidades infinitas? O consumidor ainda possui apetite emocional para um ciclo interminável de estímulo, desejo e descarte? Ou estamos entrando em uma era em que o design precisa produzir menos ansiedade e mais estabilidade?

A IKEA apresentou uma das experiências mais concorridas da Semana de Design de Milão: Food for Thought. Em

vez de criar uma instalação futurista ou tecnologicamente exuberante, transformou um mercado e uma cozinha em espaço de reflexão coletiva. A proposta discutia nossa relação contemporânea com alimentação, convivência e domesticidade. Em um mundo marcado por hiperindividualismo e aceleração constante, cozinhar, sentar-se à mesa e compartilhar alimentos apareciam quase como atos políticos. A instalação tinha algo de profundamente humano. Talvez por isso tenha emocionado tanta gente.

Em outro extremo da cidade, o projeto Il Sonno Supermarket transformava pedras naturais esculpidas à mão em

Casa

Via della

explora a casa como um espaço simbólico e ritualístico através de objetos que refletem sobre crenças, arquétipos domésticos e reencantamento. | Foto: Alejandro Ramirez Orozco

alimentos cotidianos. Frutas, pães e legumes apareciam recriados em mármore e minerais, questionando nossa relação descartável com os materiais e propondo uma reflexão sobre permanência. O que é eterno? O que merece durar? O que estamos consumindo rápido demais? Em tempos difíceis, o design tem o papel de produzir esperança.

Ooooh, that’s EpiQ!, concebida pelo arquiteto Ricardo Orts, que coloriu o pátio do Palazzo del Senato, convidou todas as gerações a brincarem juntas em objetos infláveis, multicoloridos, inspirado em formas de argila. Uma das mais comentadas e premiadas da semana, conseguiu

transformar um espaço austero em uma experiência lúdica, vibrante e inesperadamente libertadora. Em vez de apresentar tecnologia de forma fria ou futurista, a marca convidava os visitantes a interagir fisicamente, explorar, rir e recuperar uma dimensão quase infantil da experiência. Em um mundo exausto pela performance constante, brincar aparece como linguagem emocional, ferramenta de conexão e talvez até como estratégia de saúde mental coletiva. Não por acaso, várias instalações pareciam apontar para a mesma direção: para enfrentarmos o futuro precisamos reaprender a sermos mais leves.

La
Magica, na Nilufar
Spiga,

O RETORNO DA MATERIALIDADE

O retorno da materialidade talvez seja o sinal mais forte desta edição. Em um mundo cada vez mais sintético, o toque volta a ganhar relevância. O próprio Isaloni trouxe esse tema como ato principal, colocando a materialidade como centro da discussão do design contemporâneo, não apenas como matéria física, mas como origem, memória, permanência e transformação. O conceito da feira, A Matter of Salone, trabalha com um jogo semântico importante: matter como matéria; e, também, what matters, aquilo que importa.

A madeira apareceu em todos os lugares: nogueira, carvalho claro, superfícies ebanizadas, veios aparentes, imperfeições naturais. Muito dessa linguagem dialoga diretamente com o design japonês contemporâneo de marcas como Karimoku e Time & Style, que trabalham a ancestralidade, a assimetria e o silêncio como forma estética.

As pedras naturais também assumiram protagonismo absoluto. Travertino, alabastro, lava vulcânica, Zellige

A narrativa principal versava sobre o retorno da materialidade, a relação entre gesto e forma, a valorização do artesanal, processos lentos, conversando diretamente com diversos materiais extremamente sensoriais.

Mais

do que apresentar produtos,

as marcas

passaram a disputar imaginação e traduzir o que significa emocionar-se.

(azulejo produzido à mão), entre outras superfícies minerais, deixaram de funcionar como simples acabamento para se tornarem linguagem arquitetônica total. Em muitas instalações, a pedra parecia carregar não apenas peso físico, mas tempo geológico. Como se o design buscasse reconectar o ser humano a algo mais permanente do que a lógica veloz das tendências digitais.

O vidro surgiu como outra obsessão da semana. Não mais como material transparente e neutro, mas como linguagem emocional da luz. Em Alcova – instalação de designers autorais independentes, que é sempre uma verdadeira

Aurea, an Architectural Fiction, trouxe a reflexão do design como narrativa. A proposta foi uma encenação do imaginário em projeto concebido pela Maison Numéro 20. Art Déco, surrealismo, mitologia, cinema de autor e orientalismo se entrelaçaram em uma linguagem que combinou excesso e subtração, matéria e visão. No espaço Midnight Bar, o plástico reciclado renasce em formas luminosas, moldando um espaço que é ousado e sensual.

Foto: Divulgação Salão de Milão

vitrine de novidades –, blocos translúcidos atravessados pelo sol criavam atmosferas quase espirituais. Murano glass, reflexos líquidos e superfícies brilhantes transformavam ambientes inteiros em experiências sensoriais mutantes.

As cores também falavam dessa nova sensibilidade. Os beges amanteigados dominavam grande parte das coleções, contrastando com vermelhos profundos, violetas, verdes azulados e vermelhos intensos usados como pontos de tensão. O amarelo-canário apareceu repetidamente como uma espécie de reação emocional ao pessimismo global. Vibrante, otimista, quase infantil.

A FORÇA SILENCIOSA DO ESSENCIAL

Entre todas as experiências da semana, talvez uma das que mais tenha me atravessado tenha sido a visita a exposição de Vincenzo de Cotiis, em Brera. Em meio à grandiosidade cenográfica e à competição silenciosa entre as marcas de luxo, havia algo profundamente humano naquele espaço. A fusão perfeita entre pedra, murano e vidro deflagrando as fronteiras borradas entre matéria bruta, imperfeição, desgaste, suavidade, criando superfícies que pareciam carregar memória. Nada gritava. Nada implorava atenção. A grandeza só podia ser

percebida muito de perto, no detalhe, e justamente por isso emocionava tanto.

Uma das instalações mais delicadas e conceitualmente sofisticadas veio de Barcelona. Em Inspired in Barcelona: Materia Prima, pão e azeite de oliva, dois elementos centrais da cultura mediterrânea, foram transformados em metáforas para o próprio processo criativo. Curada pelo arquiteto Jordi Queralt Suau, com participação do designer Andreu Carulla, a exposição partiu de uma ideia simples, mas extremamente potente: design não é

Da Maison Numéro 20, o Olfactorium, um espaço pensado para despertar sensações e memórias, também na Aurea, an Architectural Fiction. Cenários que narram o diálogo entre a luz e a matéria. Foto: Divulgação Salão de Milão

apenas resultado, mas equilíbrio contínuo entre matéria, gesto, intuição e transformação. O percurso expositivo conduzia o visitante por ambientes sensoriais onde mesas móveis faziam o azeite escorrer continuamente, criando reflexos luminosos, “auroras líquidas”, que simbolizavam o movimento instável das ideias.

Existe algo muito simbólico nessa proposta dentro do contexto geral da Semana de Design de Milão 2026. Enquanto parte da indústria ainda busca produzir impacto através da escala ou da tecnologia, Inspired in

Barcelona: Materia Prima apontava para outra direção: a valorização do essencial. Pão, azeite, gesto manual, tempo de preparo, transformação lenta da matéria. Em um momento marcado por excesso visual e aceleração digital, a instalação sugeria que talvez o futuro do design esteja menos ligado à complexidade e mais à capacidade de devolver profundidade ao cotidiano. Ali entendi algo importante sobre esta edição: não foi sobre inovação no sentido clássico. Foi sobre presença. Sobre reaprender a ver e sentir.

No Raritas, a Paradisoterrestre assinou o Matta the collector, ambiente inspirado nos anos 1970 e no legado do eclético Dino Gavina, fundador da marca. Destacam-se o biombo em homenagem a André Masson e a luminária de teto Garbo, da artista japonesa Mariyo Yagi, uma escultura de luz que simboliza graça e se move com um sopro de ar. Foto: Divulgação Salão de Milão

CONTRASTES E HOSPITALIDADE COMO LINGUAGEM PROJETUAL

Ao longo da semana, hotéis reais, hotéis ficcionais, apartamentos históricos e residências temporariamente abertas ao público assumiram protagonismo crescente dentro do Fuorisalone. Mais do que apresentar mobiliário ou objetos isolados, muitas marcas passaram a estruturar experiências completas de interiorismo, aproximando o design da lógica narrativa da arquitetura de hospitalidade.

Esse deslocamento ficou particularmente evidente no crescimento das chamadas showhouses, apartamentos e palácios transformados em ambientes plenamente habitáveis, onde o visitante experimenta o design em escala doméstica real.

No Nilufar Depot, por exemplo, a ambientação residencial assumia características próximas às de um hotel conceitual. Os ambientes eram organizados em sucessões cinematográficas, com mobiliário colecionável, peças vintage e elementos escultóricos que atuavam como componentes de uma direção de arte bastante sofisticada. A instalação Aurea, an Architectural Fiction, dentro do pavilhão Rho, explorava a construção de atmosferas através de uma arquitetura narrativa e especulativa.

Durante a visita, o espaço contava a história de um hotel onírico com muitas peças colecionáveis, ambientes lúdicos, design auditivo impecável. Ambos os projetos operaram na fronteira entre instalação, cenografia e interiorismo, utilizando luz, sons e espacialidades rarefeitas para construir ambientes deliberadamente ambíguos entre o residencial, o hoteleiro e o ficcional.

A Artemest talvez tenha apresentado um dos exemplos mais sofisticados dessa abordagem. Em L’Appartamento, instalado no histórico Palazzo Donizetti, cinco estúdios internacionais reinterpretaram diferentes cidades italianas através de ambientes completos de habitação contemporânea. Inspirado na tradição do Grand Tour europeu, o projeto articulava design colecionável, artesania italiana e arquitetura histórica em uma sequência de interiores altamente atmosféricos.

Essa mesma lógica apareceu no chamado Apartamento Spagnollo da Elle Decor Italia, no Palazzo Castiglioni. O projeto, organizado por profissionais ligados ao universo do design e do interiorismo espanhol contemporâneo, transformava um apartamento milanês em uma espécie de manifesto sobre o novo morar mediterrâneo, evocando um diálogo entre intimidade e identidade. Tons terrosos, materiais naturais, mobiliário de linhas orgânicas, integração entre áreas sociais e forte valorização da luz natural construíam uma espacialidade extremamente acolhedora e tátil. Mais do que apresentar tendências formais, o apartamento funcionava como exercício de estilo de vida. Havia uma tentativa clara de traduzir valores culturais, convivência, tempo desacelerado, sensualidade material e informalidade elegante em linguagem arquitetônica.

Detalhes do ambiente do L'Appartamento assinado por Charlap Hyman & Herrera. Os designers equilibraram o esplendor aristocrático com superfícies que sugerem gerações de uso. Os estofamentos em tons profundos e a iluminação aconchegante transmitem a sensação de intimidade. | Foto: Manfredi Gioacchini

A italiana Artemest dedicou-se ao Italian Grandeur nos espaços do L'Appartamento, no Palazzo Donizetti. As salas assinadas por Charlap Hyman & Herrera eram opulentas e acolhedoras, resultado possível a partir da inspiração nos interiores históricos do Palazzo Valguarnera-Gangi, em Palermo, imortalizados por Luchino Visconti em "O Leopardo" (Il Gattopardo). Foto: Manfredi Gioacchini

A ESTÉTICA DA HOSPITALIDADE DEIXA ENTÃO DE SER APENAS VISUAL;

ELA SE TORNA PSICOLÓGICA

Existe um outro movimento importante acontecendo nesse cenário. Durante muitos anos, a linguagem da casa aspiracional esteve restrita ao universo do luxo extremo. Em 2026, percebeu-se um esforço crescente de marcas mais democráticas em disputar também a construção simbólica do habitar contemporâneo. Não apenas vender objetos, mas oferecer imaginários completos de vida.

O apartamento criado por Kelly Wearstler e H&M Home, no Palazzo Arcebi, mostrou como marcas mais acessíveis vêm sofisticando rapidamente sua capacidade de construir atmosfera e experiência. Em vez de apostar apenas em produtos decorativos, o projeto trabalhava a ideia de uma casa contemporânea emocionalmente resolvida: iluminação quente, texturas naturais, composição cromática suave, objetos afetivos e uma organização espacial voltada para bem-estar cotidiano.

Essa aproximação entre design acessível e hospitalidade também ajuda a explicar a crescente presença de marcas de moda, beleza e perfumaria. Casas como Aesop, Le Labo e Isdin passaram a utilizar linguagem arquitetônica e experiência espacial como extensão direta de branding, aproximando suas ativações muito mais da construção de hospitalidade do que da lógica tradicional de varejo.

Outro aspecto importante foi o crescimento de projetos instalados em edifícios históricos parcialmente preservados, onde a intervenção contemporânea acontecia através de contraste. Em diversos cenários, elementos originais como afrescos desgastados, pisos destruídos, figuravam como parte ativa da narrativa arquitetônica. Em vez de apagar o passado, os projetos operavam pela tensão entre temporalidades. Em muitos casos, a arquitetura existente deixava de ser mero recipiente da exposição para assumir protagonismo absoluto na experiência.

Essa relação ficou especialmente evidente em Alcova, onde construções brutalistas abandonadas e vilas aristocráticas tomadas pela vegetação serviam como suporte para pesquisas sobre matéria, luz e espacialidade contemporânea.

O resultado foi menos exposição e mais uma narrativa espacial sobre modos contemporâneos de habitar. Ao abrir palácios, vilas modernistas e apartamentos privados normalmente inacessíveis, Milão transforma o próprio tecido urbano em dispositivo curatorial.

A Draga & Aurel esteve no Raritas e apresentou sua pesquisa dedicada ao vidro e sua relação com a luz em colaboração com a Salviati, marca tradicional de Murano. O vidro vai muito além da função para se tornar um campo de experimentação artística. O resultado é um material vivo que carrega consigo vestígios do fogo, do gesto e da transformação.

Foto: Divulgação Draga & Aurel

Em Alcova, a Haworth, em colaboração com a Cassina, uma instalação da designer Patricia Urquiola que reinterpreta a entrada e as áreas de estar, transformando os espaços em um ambiente fluido e acolhedor.

Foto: Divulgação Cassina

ESPIRITUALIDADE ESTÉTICA

Outra tendência evidente foi o crescimento das experiências ritualísticas e contemplativas. Instalações ligadas aos jogos, ao tarô, práticas de bem-estar, silêncio e ritualidade mostraram como o design passou a ocupar funções antes associadas ao campo terapêutico e espiritual. O design já não organiza apenas espaços físicos. Ele amadurece seu papel de organizar estados internos.

A Nilufar, na exposição chamada La Casa Magica, na Via Spiga, um dos principais endereços do circuito de moda milanês, levou a discussão da casa como espaço ritualístico para um território ainda mais interessante. Com curadoria de Valentina Ciuffi e direção criativa do Studio Vedèt, o projeto tratava a casa como espaço simbólico, ritualístico e ficcional transitando entre tempos, florestas, mitos e arquétipos, transformando ambientes familiares

em cenários oníricos. Uma casa que deixa de ser programa arquitetônico para operar como narrativa psicológica.

Na Armani Casa, mesas de tarô surgiam discretamente inseridas em meio ao mobiliário sofisticado. A Gessi apresentou experiências ligadas à longevidade e bemestar como templos de regeneração corporal.

Outra vivência que me marcou profundamente foi a visita à maison recém-inaugurada da Tiziana Terenzi, na Via del Senato. Ali, pude compreender não apenas como o perfume vem se tornando parte central da arquitetura emocional das marcas, mas também conhecer uma marca que ritualiza o próprio processo da perfumaria, construindo narrativas inspiradas em constelações, arcanos do tarô, somadas à experiência humana do verdadeiro luxo que os perfumistas proporcionam.

GIO, cadeira projetada por Philippe Starck para a Kartell, reinterpreta a elegância da tradição italiana através de uma lente contemporânea. | Foto: Divulgação Kartell

A poltrona CARDIO, de Fabio Novembre para a Kartell, traz o coração não como um símbolo romântico, mas como um elemento vital e concreto. | Foto: Divulgação Kartell

CONTEMPLAÇÃO

De todas as peculiaridades projetuais, o discurso mais forte e transversal foi o da contemplação e da aproximação da natureza de uma forma mais essencial. E Electrolux criou a Swedish House, lugar com centralidade projetual em um jardim no qual se ofereciam aulas de yoga e meditação todas as manhãs. Plantas invadindo ambientes internos. Sons de água, terra, folhas e vento aparecendo

como contraponto ao excesso urbano. A natureza deixava de funcionar apenas como estética decorativa e passava a atuar como sistema de regulação emocional. No fim, o que atravessava quase todas as propostas não era uma estética única, mas uma pergunta compartilhada: como continuamos humanos em um mundo cada vez mais artificial? O mundo está cansado. E Milão sabe disso.

A IKEA trouxe o conceito Eat with your mouth open, que enaltece o comer como um ritual social, descontraído e alegre à mesa. O trabalho foi uma colaboração entre cinco designers de interiores e cinco chefs renomados, com a proposta de explorar como a comida molda os espaços e como os espaços influenciam a experiência da comida. Foto: Divulgação Salão de Milão

SONHOS EM MOVIMENTO

Acredito que aquilo que a Semana de Design de Milão continua fazendo de melhor é criar sonhos coletivos. Espaços onde marcas, artistas, arquitetos e visitantes ensaiam emocionalmente possibilidades de mundo. Sonhos não são fantasias passivas; são ensaios para a realidade. Antes de existir como produto, todo futuro existiu como sonho.

Saí desta semana com a sensação de que o design talvez esteja deixando de tentar prever o futuro para começar, finalmente, a tentar cuidar dele. Talvez por isso tantas instalações falaram sobre pão, silêncio, leitura, natureza, tempo, artesanato e memória.

Depois de anos em que inovação significou velocidade, excesso e estímulo permanente, a Semana de Design de Milão de 2026 apontou para outra direção: menos espetáculo, mais presença. Menos consumo performático, mais significado. Menos euforia visual, mais profundidade emocional. Resgatou a importância dos rituais, dos jogos, da brincadeira, da contemplação silenciosa. Como se o mundo inteiro estivesse tentando reaprender a respirar. E é para isso que o design existe. Não apenas para criar objetos, mas para imaginar formas mais sensíveis de permanecermos vivos.

A ARQUITETURA É UMA ARTE

Smiljan Radić foi laureado com o Pritzker 2026, o mais importante prêmio de arquitetura do mundo. Ao longo de mais de 30 anos, o arquiteto chileno criou obras originais e inspiradoras que priorizam contexto, uso e consciência antropológica.

Casa Pite, criação do arquiteto Smiljan Radić. Foto: Cristobal Palma Cortesia Pritzer Prize

Smiljan Radić é um talento discreto. Chileno nascido na capital Santiago, em 1965, é filho de imigrantes da Croácia e do Reino Unido que desembarcaram ali no começo do século XX. Desde 1995, seu escritório no Chile está no mesmo endereço e com uma equipe de poucos profissionais. Ele não usa aplicativo de mensagens instantâneas, não tem site oficial e nem redes sociais. Entre os seus trabalhos atuais, estão cinco grandes obras na Espanha, Reino Unido, Albânia e Suíça. Desde que se graduou na Universidade Católica do Chile, desenvolveu centenas de projetos, sendo dezenas deles premiados internacionalmente.

O arquiteto chileno recebeu o Prêmio Pritzker 2026, no mês de março, a mais alta honraria da arquitetura mundial, pelo conjunto da sua obra, “pois ela incorpora talento, visão e comprometimento excepcionais”, segundo o júri do prêmio. “Por meio de uma obra posicionada na encruzilhada da incerteza, da experimentação material e da memória cultural, Smiljan Radić favorece a fragilidade em vez de qualquer reivindicação infundada de certeza. Seus edifícios parecem temporários, instáveis ou deliberadamente inacabados – quase à beira do desaparecimento –, mas oferecem um abrigo

estruturado, otimista e silenciosamente alegre, abraçando a vulnerabilidade como uma condição intrínseca da experiência vivida”.

Nas pouquíssimas entrevistas que já concedeu, afirmou que estudar história e viajar pelo mundo foram suas melhores escolas. Críticos de arquitetura creditam a qualidade das obras de Radić à prioridade que ele confere ao contexto, à usabilidade do projeto e à sua consciência antropológica. Nada é apenas estrutura; o todo representa a convergência da história, da prática social e da circunstância política de uma época.

“A arquitetura existe entre formas grandes, maciças e duradouras – estruturas que permanecem sob o sol por séculos, aguardando nossa visita – e construções menores e frágeis – efêmeras como a vida de uma mosca, frequentemente sem um destino claro sob a luz convencional”, disse Radić na ocasião da premiação. “Dentro dessa tensão entre tempos tão díspares, nos esforçamos para criar experiências que carreguem presença emocional, incentivando as pessoas a pausar e reconsiderar um mundo que tantas vezes as atravessa com indiferença”, finalizou.

O arquiteto chileno Smiljan Radić, laureado com o Prêmio Pritzker de Arquitetura 2026. Foto: Cortesia Pritzker Prize

Se em um primeiro momento suas obras transmitem austeridade ou simplicidade, escondem um trabalho minucioso de engenharia e construção perfeitas. Entre os materiais mais utilizados pelo arquiteto estão concreto, pedra, madeira e vidro, reforçando os conceitos de interação entre o externo e o interno; a construção e o que está em torno dela. “Em cada obra, ele consegue responder com originalidade radical, tornando óbvio aquilo que não era evidente”, comentou Alejandro Aravena, presidente do júri do Pritzker. “Ele retorna às bases mais irredutíveis da arquitetura, explorando, ao mesmo tempo, limites ainda não tocados. Desenvolvendo-se num contexto de circunstâncias adversas, a partir dos confins do mundo, com um escritório de poucos colaboradores, ele é capaz de nos levar ao âmago mais profundo do ambiente construído e da condição humana”.

Aqui nestas páginas da Habitat estão as imagens de alguns projetos emblemáticos de Smiljan Radić, exemplos de sua arquitetura extremamente original e fundamentada em suas referências arquitetônicas, históricas, filosóficas e literárias. “Por nos lembrar que a arquitetura é uma arte, na medida em que toca o cerne da condição humana; por permitir que a disciplina abrace a imperfeição e a fragilidade, oferecendo abrigos silenciosos num mundo moldado pela incerteza, sem a necessidade de ser mais alta ou mais espetacular para ter importância; por criar edifícios cuja natureza híbrida reflete o contemporâneo borramento das fronteiras disciplinares, e que não falam em nome das pessoas, mas permitem que as pessoas encontrem sua própria voz por meio deles, Smiljan Radić é o Laureado do Prêmio Pritzker de 2026”, foram as considerações finais dos jurados.

TEATRO REGIONAL BIOBÍO

O Teatro Regional de Biobío, projeto de Smiljan Radić de 2018, é descrito por várias publicações do segmento como um esqueleto teatral coberto por uma membrana translúcida. A estrutura de aço é envolta por uma “cortina” de policarbonato semitranslúcido, favorecendo a luz e o desempenho acústico. “Radić demonstra que a arquitetura pode alcançar presença sem monumentalidade, ser estruturada sem excessos e, ainda assim, luminosa sem exibicionismo”, descrevem os jurados do Prêmio Pritzker.

Foto: Iwan Baan. Cortesia Pritzker Prize
Foto: Iwan Baan. Cortesia Pritzker Prize

VINÍCOLA VIK

A vinícola chilena Vik, situada aos pés da Cordilheira dos Andes, foi projetada por Smiljan Radić em 2013 com o objetivo de impactar minimamente a paisagem. O desenho é baseado em uma única cobertura com estruturas tensionadas que permite a entrada de luz natural. Para acessar a vinícola, um piso suavemente inclinado com água correndo sobre o espaço e a instalação escultural de Marcela Correa, esposa de Radić. Foto: Cristobal Palma. Cortesia Pritzker Prize

RESTAURANTE MESTIZO

Localizado nos arredores de Santiago, no Chile, o Restaurante Mestizo foi construído em 2006 como uma extensão da paisagem. O telhado, sustentado por pedras, torna-se ao mesmo tempo horizonte e abrigo, oferecendo sombra e continuidade. O vento, a luz e as vistas distantes dos Andes são modulados pela profundidade e proporção, criando uma condição espacial enraizada no solo, no clima e na presença compartilhada.

Foto: Iwan Baan. Cortesia Pritzker Prize

SERPENTINE GALLERY

Smiljan Radić projetou o Pavilhão da Serpentine Gallery, em Londres, em 2014 – uma grande concha translúcida sobre pedras brutas de origem local. No espaço provisório, destacou-se a relação com o espaço e a luz: nem totalmente claro, nem totalmente escuro; nem totalmente aberto, nem totalmente fechado.

Foto: Gonzalo Puga. Cortesia Pritzker Prize
Foto: Iwan Baan. Cortesia Pritzker Prize

Arquitetura

CASA PITE

Enraizada no terreno rochoso da costa central do Chile, a Casa Pite, de 2005, explora a relação entre habitação e paisagem. A estrutura é formada por uma sequência de muros de arrimo e terraços, vinculando a arquitetura à rocha em vez de simplesmente colocá-la sobre a terra. Paredes espessas de concreto emolduram a imensidão do oceano.

Foto: Cristobal Palma. Cortesia Pritzker Prize

Fotos acima: Cristobal Palma. Cortesia Pritzker Prize

NAVE, PERFORMING ARTS CENTER

Em 2015, Smiljan Radić restaurou esta residência do início do século 20 que hoje é um espaço para performances contemporâneas. Ele preservou a estrutura externa e inseriu novos volumes em seu interior, criando um ambiente onde salas de ensaio,

oficinas e espaços abertos para performances coexistem. No terraço na cobertura, foi colocada uma tenda de circo que introduz uma leveza inesperada que contrasta com o espaço abaixo.

ARQUITETURA NA SERRA DO GUARARU

Há 40 anos, Marcos Acayaba começou a desenhar casas em meio à Mata Atlântica, com grande respeito à fauna e à flora da Serra do Guararu e uma inventividade técnica que lhe valeu prêmios e reconhecimento como um dos grandes arquitetos do país.

Casa Marcos Acayaba, em Tijucopava, na Serra do Guararu. O terreno, coberto pela Mata Atlântica, teve, além das árvores, sua cobertura vegetal e solo preservados. Projeto muito premiado. | Foto: Nelson Kon

ASerra do Guararu, no litoral paulista, pode ser descrita como um dos territórios mais sensíveis e conservados do Brasil, mesmo antes de classificada como Área de Proteção Ambiental (APA), em 2012. Localizada no município do Guarujá, representa uma das últimas grandes porções bem preservadas de Mata Atlântica que reúne floresta ombrófila, mangue, restinga e numerosas nascentes do rio Iporanga.

É nessa região – entre as praias de Tijucopava, São Pedro, Iporanga e Taguaíba – que estão as casas projetadas por Marcos Acayaba que podem ser conhecidas no livro Arquitetura e natureza, 23 casas na Serra do Guararu, que

reúne quatro décadas de trabalho do arquiteto em um belíssimo material bilíngue organizado por sua esposa, a também arquiteta Marlene Milan Acayaba, e recémlançado pela Romano Guerra Editora.

O livro vai muito além de uma coletânea de residências e revela o trabalho minucioso de um arquiteto que estudou profundamente a Mata Atlântica, seus terrenos de topografia íngreme e extremamente acidentada, o clima, os acessos precários e as condições construtivas da região. A obra, que traz uma belíssima curadoria fotográfica de Nelson Kon, constrói uma narrativa que entrelaça memória pessoal e documentação arquitetônica.

Perspectiva de casa construída em Taguaíba, uma das praias da Serra do Guararu, que faz parte do livro recém-lançado. Imagem: Divulgação

Perspectiva da Casa Baeta, considerada um verdadeiro clássico da arquitetura brasileira e um dos mais refinados usos de madeira em construções. | Foto: Divulgação

AS CASAS DA SERRA DO GUARARU

Desde seu início profissional, as casas projetadas por Acayaba adotam soluções discretas e adaptadas à topografia local, demonstrando que é possível equilibrar ocupação humana e preservação do meio ambiente. Quando o arquiteto começou a desenvolver projetos na região, a Serra do Guararu ainda não era uma APA. “A sua presença ali, a partir de 1986, mostrou-lhe a existência de uma natureza intocada no litoral de São Paulo, próxima ao Guarujá, den-

samente ocupado”, conta Marlene Milan Acayaba. “Manter o que viu, e o surpreendeu tão profundamente, tornou-se um valor inestimável. Proteger a Mata Atlântica, pelo menos ao redor das casas que projetou, fez parte da sua forma de conceber cada uma. Andar pela praia apontando suas casas invisíveis nos morros, recobertas pela mata, sempre foi um grande prazer”.

Casa Baeta, construída em Iporanga, em 1991. Terreno no pé da Serra do Guararu, muito íngreme para o fundo. A estrutura, composta na maior parte por pequenas peças de madeira, foi toda produzida na fábrica e montada no local por três operários, sem auxílio de nenhum equipamento pesado, o que permitiu baixo impacto ambiental. | Foto: Nelson Kon

No livro, o arquiteto descreve cada uma das 23 casas como uma pequena crônica. “O grande aprendizado que ele teve, durante as quatro décadas que vivenciou este lugar, foi que no manejo com a natureza o homem a destrói por ignorância ou ganância”, continua a organizadora. “Mas, quando tratada com todo cuidado, as chuvas, os pássaros, os morcegos, os bichos-preguiça, os répteis e mamíferos que se alimentam dela e vice-versa, fazem com que se refaça rapidamente”.

O maior desafio arquitetônico ao criar casas em uma região serrana como a do Guararu foi não concorrer com a beleza paradisíaca do lugar. “O céu, o mar e o horizonte rumo ao infinito, cercados por pedras e uma mata verde formada por espécies tropicais que cobrem toda a serra, o tornam um ambiente único, inesquecível”, diz. “À noite, proibidos de acender as luzes para proteger os bichos, o céu coberto de estrelas, a lua e as ondas do mar prolongam a sensação do prazer diurno”.

Casa em Sítio São Pedro, construída em terreno muito íngreme, coberto integralmente pela Mata Atlântica.

Foto: Nelson Kon

ARQUITETURA E ENGENHARIA

Marcos Acayaba formou-se nos anos 1960, quando arquitetura e engenharia “andavam juntas”. Para ele, a questão estrutural, e como faria para construí-la, sempre foi a condição primordial para enfrentar qualquer projeto. “Para isso, sempre estabeleceu grandes parcerias com engenheiros, com os quais discutia exaustivamente até chegar à solução estrutural necessária para alcançar a leveza requerida e facilitar a construção. Os mestres de obra tornavam-se, em pouco tempo, seus melhores amigos. Eles concretizavam os seus sonhos”, afirma Marlene.

No livro, o arquiteto conta como conheceu o engenheiro Hélio Olga, proprietário da fábrica de estruturas de madeira ITA. Foi Hélio quem despertou em Acayaba a percepção de que era possível realizar os mais diversos projetos utilizando a madeira como elemento construtivo. “Em 1987, Hélio pediu ao Marcos que fizesse a sua casa em São Paulo, num terreno muito barato, mas com alta declividade. Acayaba criou então a

Casa Hélio Olga que, pela solução como trabalhou o terreno, tocando-o com apenas quatro tubulões que sustentam a casa suspensa, recebeu o primeiro lugar na Premiação Nacional de Arquitetura em 1991, no Rio de Janeiro”.

Em 1991, Acayaba criou a Casa Baeta, em uma encosta com um sistema de peças triangulares de madeira, fabricadas pelo Hélio Olga. A perspectiva da Baeta, por exemplo, é tão expressiva que faz parte do acervo do Centro de Pompidou em Paris e já foi publicada no The Phaidon Atlas como uma das principais obras de arquitetura do século XX. A Casa Acayaba (1996) ganhou o Grande Prêmio na 3ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo e foi publicada na GA Houses, de grande prestígio entre profissionais da área. “A intenção do livro é materializar o legado do arquiteto por meio de croquis, plantas técnicas, fotografias e textos para que esta documentação tenha uma função educativa e venha a ser uma referência para muitas gerações”, finaliza a organizadora.

UM TRIPULANTE DA TERRA

O arquiteto brasileiro Edson Yabiku, que durante 25 anos integrou a equipe de um dos maiores escritórios de arquitetura do mundo, o Foster + Partners, em Londres, acredita que planejar e construir de maneira sustentável deixou de ser uma opção há muito tempo – é uma questão moral para as próximas gerações: precisamos ser os tripulantes da Terra.

Ele nasceu em Maringá, formou-se em arquitetura na Universidade Federal do Paraná, em seguida foi para o Japão – onde morou por 8 anos em Tóquio e dois em Yokohama –, e depois seguiu para Londres, onde vive desde 1997. Durante 25 anos fez parte da equipe do Foster + Partners, um dos escritórios de arquitetura mais respeitados do mundo, pelo qual participou de projetos extremamente relevantes em todo planeta. Atualmente à frente do Bridge Arquitetura, Edson Yabiku acredita que bons projetos urbanísticos ou arquitetônicos são os que procuram conectar pessoas ao invés de separá-las. Conceito este que se soma a certeza de que todos devemos mudar nossas atitudes em relação à Terra. “Em 1968, astronautas da NASA, em sua missão Apollo 8, nos presentearam com a primeira fotografia da Terra em sua plenitude”, diz Yabiku, em entrevista à Habitat. “Imagino que lá de cima deve ser bem fácil enxergar que somos todos astronautas, viajando ao redor do Sol a mais de 100 mil quilômetros por hora. Imagino também que deva ser muito difícil de entender por que criamos tantas barreiras e brigamos tanto aqui embaixo, e por que não

cuidamos melhor da frágil camada atmosférica que nos protege e mantém vivos. Penso ser imperativo que todos deixemos nossos confortáveis assentos de passageiros desta espaçonave e assumamos a atitude de tripulantes, exercendo nossas responsabilidades de cidadãos globais”.

A responsabilidade pelo coletivo é um dos princípios que norteia o trabalho de Yabiku desde o início de sua carreira. O modelo de arquitetura ideal prevê espaços públicos e privativos totalmente integrados e permeáveis. “Planejar e construir de maneira sustentável é uma questão moral perante as próximas gerações”, afirma. “Há muito tempo deixou de ser uma opção ou um discurso, tornando-se uma necessidade. Apesar das dificuldades, me mantenho otimista, pois tenho a certeza de que a governança de nossas cidades e o setor privado da construção estão cientes de nossas responsabilidades, e em contínua busca pela redução de nossa pegada ecológica. É importante, porém, que o cidadão, o investidor e o consumidor exijam produtos e soluções ambientalmente melhores para que a mudança ocorra na velocidade que precisamos”.

Central Market, Abu Dhabi, Foster + Partners. Um dos locais mais antigos da cidade, o Mercado Central é uma releitura do mercado tradicional e um novo coração cívico para Abu Dhabi. Edson Yabiku fez parte da equipe do projeto.
Foto: Divulgação Foster + Partners

ARQUITETURA IDEAL NÃO PODE SER UTOPIA

Os projetos dos quais participa e suas convicções sobre o modelo ideal de arquitetura e urbanismo fazem com que seja convidado para diversas palestras, como ocorreu no último Smart City Expo Curitiba. Yabiku esteve na capital paranaense a convite da incorporadora Porto Camargo quando do lançamento do Espaço Porto das Artes, na Praça da Ucrânia.

Para Yabiku, existe um modelo ideal de arquitetura e urbanismo, e não é utopia. “Eles incluiriam empreendimentos de uso misto, e com fachadas ativas

no térreo que contribuam com a segurança e dinamismo das ruas. Seriam localizados em áreas bem conectadas por transporte público, permitindo usuários possuírem carros próprios por pura opção e não por necessidade. Seriam desenhados de uma maneira elegante, atemporal, e adaptável a mudanças futuras, garantindo sua durabilidade emocional e longa vida. O Conjunto Nacional em São Paulo, projetado por David Libeskind, nos anos 1950, é um clássico que simboliza o modelo ideal de arquitetura sustentável”.

Edson Yabiku, arquiteto brasileiro que reside há décadas em Londres, fez parte da equipe do escritório Foster + Partners por 25 anos e hoje atua no desenvolvimento de diversos projetos de arquitetura e urbanismo em todo mundo à frente do Bridge Arquitetura. | Foto: Divulgação Bridge Arquitetura

Institute, Abu Dhabi, Foster + Partners. Este projeto foi muito ambicioso, elevando todos os limites de sustentabilidade ambiental viáveis na época, procurando criar uma cidade com zero carbono e lixo em pleno clima de deserto. Edson Yabiku fez parte da equipe do projeto. | Foto: Divulgação Foster + Partners

Masdar

REFERÊNCIA INTERNACIONAL

Norman Foster é um dos grandes nomes da arquitetura mundial e fundou o escritório Foster + Partners em 1967, em Londres. Ganhador do Prêmio Pritzker de Arquitetura em 1999, Lord Foster é o idealizador de centenas de projetos inovadores que unem estética e funcionalidade de forma ímpar. Yabiku, que trabalhou lá por 25 anos, conta que o maior aprendizado foi questionar absolutamente tudo. “A ideia de iniciar todos os projetos do zero, sem nenhum conceito pré-definido, e questionando a fundo a situação socioambiental, os requerimentos dos stakeholders e as demandas do mercado. E, com isso, procurar definir, juntamente com o cliente e toda a equipe, o verdadeiro propósito do projeto e sua narrativa”.

Yabiku teve a oportunidade de atuar em vários projetos no Japão, nos Emirados Árabes e Catar, que contaram com a participação constante de Foster. Destes trabalhos, destaca a busca incansável do fundador pelas respostas mais apropriadas para cada ideia. “A energia, a intensidade e a dedicação que Norman aplica ao trabalho são simplesmente impressionantes e inspiradoras”, conta. “A maneira como ele destrincha questões complexas e as sintetiza em esboços tão claros e precisos chega a ser emocionante. Eu o vejo como um dos gênios da arquitetura”.

Sicredi Dexis, Maringá, coautoria Bridge Arquitetura + Construtora Design. Primeiro projeto do Bridge, fundada por Edson Yabiku, elaborado a partir dos conceitos de conectividade social, conforto ambiental e integração urbana. Foto: Divulgação Bridge Arquitetura

Supreme Court Singapore, Foster + Partners. Importante centro judicial concebido em resposta ao rápido crescimento populacional e às instalações limitadas do antigo edifício. Localizado no Distrito Colonial, na margem norte do rio Singapura. Edson Yabiku fez parte da equipe do projeto. | Foto: Divulgação Foster + Partners

Entre as inúmeras obras das quais participou ao longo de duas décadas, Yabiku salienta as seguintes: Kawana House, Century Tower e Kamakura House Complex, no Japão; Jiushi Headquarters e Bund Global Financial Center, em Shanghai; The New Supreme Court, em Singapura; The Index Tower, em Dubai; Central Market, Masdar Institute e Masdar Project 1, em Abu Dhabi; e Brooklin Tower, em São Paulo Entre os projetos urbanísticos estão Blue City, em Omã; The Forestias, em Bangkok; Manoel Island Redevelopment, em Malta; e Dubai Design District East Quarter, em Dubai.

“Devido à enorme quantidade de projetos, uma das constantes preocupações da diretoria do Foster + Partners foi sempre prevenir silos, compartilhando experiências e assim garantindo qualidade”, conta. “Todas as áreas de trabalho e de reunião eram abertas, e todos os projetos eram expostos nas paredes e revisados em conjunto com um conselho de design que procurava conectar as várias equipes. Essa transparência e a ideia de que sempre tínhamos alguém para discutir questões de arquitetura, meio ambiente, tecnologia, engenharia, interiores, infraestrutura, urbanismo, paisagismo e tantas outras disciplinas fazem deste escritório um lugar muito especial”.

Kamakura House, Japão, Foster + Partners. Um conjunto de edificações, originalmente desenhados para servir de residência para a família e sua coleção de arte moderna e budista, em um terreno histórico da cidade de Kamakura. Edson Yabiku fez parte da equipe do projeto. | Foto: Divulgação Foster + Partners

PONTES NO LUGAR DE MUROS

Em 2017, Yabiku decidiu que era hora de recomeçar. “O trabalho dentro de uma estrutura tão bem estabelecida como aquela era, sem dúvida, muito gratificante e confortável, mas, após 25 anos, havia chegado a hora de buscar novos desafios.” Então ele fundou o Bridge Arquitetura. “Aproveitei para refletir muito sobre o meu trabalho. Um denominador comum em todos os meus projetos, sejam edifícios ou bairros, é a intenção de gerar espaços onde pessoas possam se conectar com outras pessoas, com a natureza, e também consigo mesmas. O nome bridge foi escolhido como um símbolo daquilo que procuramos fazer, que é conectar e inspirar, construindo pontes no lugar de muros”.

Atualmente, Yabiku está envolvido em diversos projetos. Em Meca, na Arábia Saudita, contribuiu com a equipe do renomado escritório alemão Albert Speer and Partner (AS+P) para o masterplan da King Salman Gate, ainda em desenvolvimento. Trata-se da área adjacente à Mesquita Sagrada Al Haram, que é o epicentro da religião muçulmana, projeto de localização e relevância inigualáveis. No Brasil, atua em projetos na cidade de Maringá, para Catuaí Shopping e Eurogarden, e, em Curitiba, como consultor para a Proa Arquitetura em um residencial na Praça da Ucrânia. “Ter experiências com outras culturas sempre me fascinou muito e desenvolver projetos em diversos países oferece uma oportunidade única de imersão cultural inestimável”, finaliza.

FRONTEIRAS SENSÍVEIS

Limiares: arte, tecnologia e ocupação urbana definem a 16ª Bienal Internacional de Curitiba.

Curitiba se transforma em um grande laboratório de arte contemporânea até o mês de novembro. A 16ª Bienal Internacional de Curitiba — intitulada Limiares — chega com a proposta de investigar os estados de transição que marcam nossa época, as zonas de atrito do humano e o tecnológico, o natural e o artificial, o sensível e o programável. Com curadoria de Adriana Almada e Tereza de Arruda, ocupa museus, terminais de ônibus e outros lugares da capital.

O conceito de limiar — entendido como “habitar a fronteira, permanecer no entre, criar a partir da incerteza, gerando novos caminhos” — organiza toda a proposta curatorial. Em um mundo marcado pela onipresença dos algoritmos e pela ascensão da inteligência artificial, o evento convoca a imaginar futuros possíveis. Instalações imersivas, arte generativa, ambientes interativos e simulações em realidade virtual compõem o repertório de linguagens presentes na mostra, que retorna agora ao formato

A instalação Chiharu Shiota: O Espaço Entre Nós é parte da programação da Bienal. | Foto: Timothy Schenck

presencial — a última foi em 2019, com mais de um milhão de visitantes.

"Uma bienal ganha relevância quando consegue produzir pensamento crítico e experiências significativas conectadas às urgências do presente", afirma Tereza de Arruda, uma das curadoras. "Não basta reunir artistas de diferentes países; é preciso criar diálogos consistentes entre contextos culturais, sociais, políticos e tecnológicos”.

Ela enfatiza ainda que é fundamental que o legado seja construído a partir do microcosmo identitário onde a bienal acontece. “É importante que a mostra agregue à comunidade local e que também a conduza, assim como os artistas participantes, para contextos até então inatingíveis pelas vias cotidianas”.

CIDADE OCUPADA

Com isso em mente, um dos diferenciais desta edição é a expansão para além dos museus. Ônibus, terminais e ruas de Curitiba se tornam suporte e cenário para as obras, em prol da democratização do acesso à produção atual. "Quando a arte sai do espaço institucional e entra no cotidiano da cidade, interrompe automatismos e provoca novas formas de percepção", explica Tereza. "O público deixa de ser apenas visitante e passa a encontrar a arte no fluxo da vida cotidiana". Para a curadora, esse contato inaugural

com a produção artística no espaço público tem um efeito duradouro.

Curitiba, conhecida pelo planejamento urbano, oferece condições particulares para esse tipo de experimentação. "Existe uma escala humana que favorece experiências mais próximas entre artistas, curadores e público", observa Tereza. A isso se soma a Curitiba Art Week, que neste ano integra a programação oficial da mostra, com o objetivo de promover eventos para fomentar o mercado.

Obra de André Azevedo. | Foto: Estúdio Em Obra

O evento convoca a imaginar futuros possíveis. Instalações imersivas, arte generativa, ambientes interativos e simulações em realidade virtual compõem o repertório de linguagens presentes na mostra.

Fluxos, de Marina Camargo. | Foto: Divulgação Marina Camargo

Obra do artista espanhol Max de Esteban. | Foto: Divulgação

ARTE COMO RESISTÊNCIA

O statement curatorial da 16ª edição não se esquiva das tensões do presente. A inteligência artificial e os sistemas algorítmicos são tratados como estruturas moldadas por interesses políticos, econômicos e ideológicos. Nesse cenário, a arte emerge como dispositivo de resistência contra o extrativismo de dados, a vigilância em massa e os mecanismos de controle que operam nos bastidores da era digital.

E Tereza de Arruda é direta ao falar sobre o papel da arte diante disso. "As tecnologias digitais transformaram nossa percepção do tempo, da imagem, do espaço e da memória. Hoje vivemos simultaneamente em ambientes

físicos e virtuais, e isso altera nossa maneira de olhar, sentir e construir relações”.

Ao mesmo tempo, a curadora foge da idealização. "A tecnologia expandiu enormemente as possibilidades da experiência estética", reconhece, "mas existe também um excesso de estímulos visuais e informacionais que produz saturação e dispersão. A arte ganha um papel ainda mais importante: criar experiências de pausa, profundidade e presença”.

Por isso, a 16ª Bienal se apresenta de forma mista — imersa no universo analógico e tecnológico ao mesmo tempo. "As vivências presenciais não podem ser substituí-

Pacific Colonnade, de Sandra De Berduccy. | Foto: Daniel Han

das pelas baseadas exclusivamente nos recursos tecnológicos ou através das redes sociais", ressalta Tereza. "Este momento único de imersão potencializa canais sensoriais não atingidos fora desta vivência física”.

A edição, que apresentará exposições de grandes artistas com diversidade de linguagens e presença internacional articulada à realidade brasileira e latino-americana, também reflete sobre as mudanças na curadoria. "Hoje o curador não atua apenas como organizador de exposições, mas como mediador de narrativas, contextos e experiências", diz Tereza. "O pensamento curatorial contemporâneo envolve pesquisa, escuta, aproximação institucional

e construção de diálogos". Nesse sentido, o tema Limiares nasce de uma compreensão específica do presente. “Vivemos em zonas de transição constantes”, descreve. “A curadoria busca criar conexões possíveis dentro dessa complexidade”.

Sobre as surpresas que a arte contemporânea provoca, Tereza destaca a capacidade de continuar inventando novas formas para nos deslocar emocional e, também, intelectualmente. "Ainda me surpreende a potência do encontro entre obra e público, aquele momento em que algo inesperado acontece e transforma a percepção de quem vivencia a experiência”.

LIMIARES: 16ª Bienal Internacional de Curitiba 2026

De 14 de junho a 15 de novembro de 2026 www.bienaldecuritiba.org | Instagram: @bienaldecuritiba

CASAS PÁTIO:

O VIVER ALÉM DAS QUATRO PAREDES

No coração do PARC Autódromo, 17 casas inauguram uma nova forma de morar: integração total com a rua, jardins abertos e qualidade de vida medida em experiência

As 17 unidades contam com 135 m2 privativos, três suítes, cozinha e copa amplas e integradas e áreas que se conectam aos jardins frontal e posterior.

Qualidade de vida não se mede em metros quadrados. A forma de incidência da luz natural, um jardim que se abre para as ruas, ter a possibilidade de levar o filho a pé para a escola ou ir ao mercado caminhando são pequenos confortos revolucionários para nossas vidas. As Casas Pátio no PARC Autódromo nascem com esse perfil e propósito: uma estrutura única, onde é possível encontrar absolutamente tudo que se precisa para viver muito próximo.

As Casas Pátio criam um paradoxo desejado por qualquer um: o conforto do ambiente interno se encontra com o convite para viver mais fora das quatro paredes, em comunhão com o bairro e com a cidade. São 17 unidades projetadas pela Baggio Schiavon Arquitetura, com 135 m2 privativos, três suítes, cozinha e copa amplas e integradas e áreas que se conectam aos dois jardins (frontal e posterior).

Uma planta que privilegia ventilação cruzada, iluminação natural e uma relação diferente com o exterior.

Este olhar para integração é uma preocupação que vai além do espaço interno: ela se estende à rua. Em vez de garagens dominando a fachada, os veículos ficam nos fundos do projeto. A frente é voltada e devolvida às pessoas, transformada em espaço de jardim e de convivência com a família, vizinhos e comunidade. Uma mudança de lógica ainda incomum no Brasil, mas presente no exterior, que coloca o carro em segundo plano e valoriza o encontro e a vitalidade urbana.

“Percebemos que as Casas Pátio são empreendimentos muito comuns fora do Brasil em grandes centros já consolidados, o que possibilita que o usuário não necessariamente precise de um veículo. Isso ainda é contraintuitivo no Brasil, já que a nossa cultura é zelar pelo carro próprio. O principal desafio foi propor um espaço para o veículo, mas, ao mesmo tempo, teria que garantir essa proposta de integração entre o usuário e o bairro”, explica Lucca Baggio, arquiteto da Baggio Schiavon.

Casas Pátio devolvem a rua às pessoas, deslocando as garagens para o fundo dos projetos.

Em pé, a gerente de Produto da BairrU, Yasmin de Nadai, e o arquiteto da Baggio Schiavon Arthur Monteiro. Sentados: a head Comercial e Marketing da BairrU, Camila Jardim, e os arquitetos da Baggio Schiavon Manuel Baggio e Lucca Baggio.

UM BAIRRO COMO EXTENSÃO DA VIDA

As Casas Pátio fazem mais sentido dentro de um ecossistema urbano planejado, exatamente o conceito do PARC Autódromo. A ideia é que a vida não se desenrola apenas dentro de casa: estende-se às calçadas, ao parque central, ao comércio de proximidade e aos serviços do dia a dia. É a lógica de um bairro aberto e caminhável, que coloca as pessoas em primeiro lugar. É ter privacidade sem abrir mão da convivência e ver as crianças longe das telas.

“Queremos ser um marco em sustentabilidade e inovação e já somos reconhecidos com a maior pontuação LEED do mundo, com inspiração em Viena, Barcelona e até mesmo Curitiba. A escala humana está no centro, integrando edificações e comunidade. As Casas Pátio são um exemplo disso, no residencial Casas do Bosque, buscando essa conexão com os mais de 130 mil m2 de áreas verdes”, afirma o CEO da BairrU e líder deste projeto, Fernando Bau.

O PARC Autódromo terá O PARC Autódromo terá 35 torres residenciais e 5 corporativas, 300 terrenos, passeios gastronômicos com restaurante, bares e cafés, shopping ao ar livre e circuito de corridas e caminhadas e equipamentos de lazer e diversão. É a aplicação do conceito de bairro de 15 minutos, colocando Curitiba e região na vanguarda do planejamento e da qualidade de vida mais uma vez.

Saiba mais: www.parcautodromo.com.br @parcautodromo

KALEIDOSCOPE

Inspirada no instrumento que revela combinações simétricas a cada movimento, a arquiteta e designer Maria Cândida Machado lança uma coleção de móveis e objetos que une a elegância, o rigor técnico e a versatilidade da madeira para alcançar a atemporalidade das formas.

A mesa central Ares faz parte da coleção Kaleidoscope, da arquiteta e designer Maria Cândida Machado. Foto: Divulgação

Apalavra caleidoscópio resulta da junção de três radicais gregos, explica sua etimologia. Kalós, belo ou bonito; Eidos, forma, figura ou imagem; e Skopéo, olhar, observar ou ver. O aparelho ótico permite inúmeras combinações e cada uma delas revela uma nova forma. Essa é a inspiração para a coleção de móveis e objetos que a designer Maria Cândida Machado lançou recentemente e que pode ser encontrada nas principais lojas do segmento em todo o Brasil.

A coleção é composta por diversos formatos de mesas de centro e laterais (redondas, quadradas e retangulares), além de bancos, buffet, aparador e escrivaninha, bem como objetos (caixas, bandejas e cerâmica), que permitem compor ambientes completos. “Essa coleção surgiu quando pensei em móveis com os quais eu pudesse montar vários cenários”, afirma a designer. “As peças foram desenhadas para possibilitar combinações dinâmicas que exploram o equilíbrio, o contraste e a presença da madeira”.

NOBRES MADEIRAS

A madeira é o material predileto da designer, que também aprecia os encaixes aparentes da marcenaria tradicional. “A madeira é um material que aquece os ambientes. Temos muitas madeiras brasileiras maravilhosas, elas têm cor, cheiro, textura, veios. É um material vivo que, com as suas imperfeições, torna-se único. Além da madeira, complementei algumas peças com couro e tampos de vidro”.

Alguns objetos, todos produzidos pela Movelaria Hadra, foram elaborados com as belíssimas tauari, madeira nobre brasileira, freijó e pau-ferro, entre outras. “O meu trabalho se desenvolve a partir do desenho, primeiro à mão livre e depois em 3D, para que eu possa visualizar melhor os detalhes”, conta. “Vou alterando a minha ideia original até a conclusão de cada peça. Acompanho todo o processo de produção, a Hadra tem prototipistas eficientes e experientes, o que facilita muito o trabalho”.

“A madeira está presente, assim como a valorização do feito à mão – sempre buscando a atemporalidade das formas”.
Maria Cândida Machado
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

FEITO À MÃO

A designer busca sempre incorporar às suas criações elementos que carreguem a assinatura “feito à mão”. Nessa coleção, é possível observar o trabalho de artesãos marceneiros nos entalhes dos Bancos Bello e Bellino e na execução minuciosa da treliça das Mesas Cós, entre outros exemplos. Há também os objetos em cerâmica, desenhados por Maria Cândida e executados por Alice Felzenszwalb.

Para chegar às suas coleções, a designer percorre um longo processo criativo que envolve uma ampla biblioteca

de imagens, livros, filmes, movimentos artísticos e exposições. “Acredito que uma marca do meu trabalho é desenvolver coleções. Ao longo de mais de 30 anos criei várias, sempre com temas diversos – ora provenientes da história das civilizações humanas, ora vindos dos movimentos artísticos ou culturais. O tema é um fio condutor que norteia e orienta a minha pesquisa. Às vezes, aparece em um detalhe de um produto, nas cores que vou utilizar ou nos objetos”.

Acima, o Aparador Kalos e o banco Pirro. A madeira é o material predileto da designer Maria Cândida Machado. Foto: Divulgação

As peças foram desenhadas para possibilitar combinações dinâmicas que exploram o equilíbrio, o contraste e a presença da madeira.

Foto: Divulgação

CASACOR PARANÁ 2026

A participação da GT Building na CASACOR Paraná 2026 reforça a conexão da incorporadora com arquitetura, design, comportamento e novas formas de viver.

Nesta edição, a mostra acontece em um terreno da GT Building, no Bigorrilho, onde em 2027 será lançado um empreendimento residencial de altíssimo padrão, composto por residências exclusivas de 3 e 4 suítes.

Em parceria com a Arquitetare, da Arquiteta Elaine Zanon e Designer Cláudia Machado, a GT Building desenvolveu um espaço inspirado em um de seus lançamentos do segundo semestre. O ambiente foi concebido para traduzir um conceito cada vez mais presente nos projetos da incorporadora: a hospitalidade aplicada ao mercado imobiliário, especialmente nos empreendimentos com vocação para short-stay de luxo.

O espaço apresenta um teaser do novo lançamento da GT Building, localizado em frente ao Círculo Militar e ao Passeio Público, em Curitiba. O projeto possui inspiração no lifestyle nova-iorquino e na arquitetura Art Déco, conectando sofisticação, urbanidade e serviços em uma proposta contemporânea de moradia.

O lançamento dá continuidade à linha de empreendimentos de short-stay de alto padrão da incorporadora, seguindo o posicionamento de projetos como Lange, Turin e Andersen, reconhecidos pela forte identidade arquitetônica e pelo conceito internacional de experiência de morar.

Por GT Building

Dentro do ambiente, a GT Building também apresenta um apartamento de 22 metros quadrados, desenvolvido para demonstrar como funcionalidade, design, sofisticação e hospitalidade podem coexistir em metragens compactas — uma tendência crescente nos grandes centros urbanos e no mercado global de moradia contemporânea. O espaço também apresenta a parceria da incorporadora com a Suyts by HCC, plataforma de hospitalidade e serviços que integra a experiência dos empreendimentos GT Building.

A participação na CASACOR Paraná 2026 também reforça o compromisso da GT Building com sustentabilidade e inovação. Como empresa Climability, a incorporadora neutralizou 100% das emissões de carbono geradas tanto no canteiro de obras do espaço da GT quanto em toda a operação da CASACOR Paraná 2026, consolidando a sus-

tentabilidade como parte estratégica da atuação da marca. Mais do que apresentar empreendimentos, a GT Building utiliza a mostra como uma plataforma para compartilhar sua visão sobre o futuro do morar: experiências mais conectadas ao comportamento contemporâneo, à hospitalidade, ao design e à responsabilidade ambiental.

Saiba mais: www.gtbuilding.com.br @gtbuildingoficial

MÓVEIS MUITO ALÉM DO DESIGN

Dar significado a um pedaço de madeira e construir uma nova história. Essa foi a premissa do projeto Seis Mesas, Seis Gestos, Seis Arquitetos, desenvolvido por Consuelo Cornelsen em benefício do Instituto TMO.

Os arquitetos Flávio Schiavon, Jayme Bernardo, Marcos Bertoldi, Fernando Canalli, Diego Motta e o escritório Arquea – de Pedro Amin, Fernando Lacerda e Bernardo Richter – foram convidados pela arquiteta, curadora e produtora cultural Consuelo Cornelsen a emprestar seus talentos e desenhar os pés de mesas que, posteriormente, seriam leiloadas em benefício do Instituto TMO, entidade que atua no acolhimento de pessoas que estão em tratamento de transplante de medula óssea.

Tudo começou quando Consuelo foi convidada para assinar a expografia de uma mostra de mobiliário da Jaime Lerner Design. As peças ficaram expostas sobre plataformas de madeira e, ao término da exposição, Consuelo percebeu

que aquele material poderia ser ressignificado. “Eu havia desenhado as bases e decidi requalificá-las, dar um novo destino àqueles materiais que seriam jogados fora”, conta. “Então, produzi tampos em madeira maciça e convidei seis arquitetos, que são também meus amigos, para desenhar os pés de uma mesa”, completa.

A partir dessa iniciativa, o projeto Seis Mesas, Seis Gestos, Seis Arquitetos tomou forma e conquistou patrocinadores como Apolar Concept, GT Building, Momenttum e Planeta Brasil. Posteriormente, as mesas assinadas por nomes da arquitetura brasileira foram leiloadas. O valor arrecadado foi totalmente destinado ao Instituto TMO, dirigido por Bettina Muradás.

MESA POR

FERNANDO CANALLI

Para o arquiteto e planejador urbano Fernando Canalli, a inspiração foi unir a obra de dois gênios: o tampo Jaime Lerner e a base Oscar Niemeyer (Palá cio do Planalto). A peça traduz alguns dos predicados atribuídos ao traba lho de Canalli: eficiência, criatividade e inovação.

MESA POR

DIEGO MOTTA

Diego Motta é sócio-fundador da Attom Design, empresa que desenvolve produtos utilitários sustentáveis. O desenho desta mesa vai ao encontro ao conceito de todos os seus projetos: peças que tenham qualidade e que proporcionem conforto explorando o encontro entre natureza e técnica construtiva.

MESA POR ESCRITÓRIO ARQUEA

O Arquea, dos arquitetos Pedro Amin, Fernando Lacerda e Bernardo Richter, assina a estrutura desta mesa a partir dos princípios de clareza e proporção. Os pés seguem uma lógica direta em que cada elemento revela sua função, formando um conjunto equilibrado e de fácil leitura. É um projeto limpo e preciso que valoriza o essencial, com foco em funcionalidade, durabilidade e proporção.

MESA POR

MARCOS BERTOLDI

A flora brasileira e a imensa riqueza paisagística, que oferece madeiras de tanta qualidade, e espetaculares nas suas mais diversas tonalidades, foram a inspiração do arquiteto Marcos Bertoldi. Especializado em arquitetura paisagística, professor universitário e palestrante convidado a compartilhar sua experiência em todo o país, seus trabalhos já mereceram quase duas centenas de publicações nacionais e internacionais.

MESA POR

FLAVIO SCHIAVON

O resultado da criação de Flavio Schiavon é “a síntese formal em contraponto às infinitas variações elípticas, possíveis pela secção progressiva dos apoios da mesa”, define. À frente da Baggio Schiavon Arquitetura, é reconhecido não apenas pelos desenhos primorosos de seus projetos, mas também pela preocupação em relação à inserção urbana de suas obras.

MESA POR

JAYME BERNARDO

A base da mesa assinada pelo arquiteto Jayme Bernardo foi concebida com foco em proporção, estabilidade e clareza formal, adotando volumes definidos alinhados ao tampo, priorizando a funcionalidade e a leitura imediata do conjunto. Reconhecido pelos projetos arquitetônicos impecáveis, além dos traços exclusivos de seu mobiliário, o arquiteto optou por um acabamento interno contrastante que emprestou uma sutil profundidade visual e culminou em uma solução precisa e equilibrada.

CASA COM ALMA

Na 32ª edição da CASACOR Paraná, cor, textura e memória apontam para um morar mais íntimo, afetivo e sensorial.

Oelenco da edição 2026 da CASACOR Paraná parece menos interessado em apresentar ambientes perfeitos do que espaços que revelam a identidade de quem vive neles. Ao ocupar uma residência no Bigorrilho com 41 projetos assinados por arquitetos e designers paranaenses, a mostra deste ano transforma o tema nacional Mente e Coração em algo bastante concreto: a tentativa de devolver afeto e personalidade aos interiores.

“A cada ano a CASACOR se reinventa e vem como um verdadeiro laboratório de tendências e ideias”, afirma a diretora do evento, Marina Nessi. “Neste ano, constatamos o verdadeiro luxo interpretado como o conforto para o cotidiano. Tecnologia na medida certa, sem exageros, e o design e a arte como grandes protagonistas. Uma supervalorização do autêntico”.

Existe um movimento claro em direção ao aconchego, mas não aquele previsível. O que aparece nos projetos é uma estética envolvente. Há muita madeira revestindo paredes, tetos e pisos. Há tecidos encorpados, superfícies táteis, pedras naturais, tramas e estampas. O contraste entre texturas é um dos elementos recorrentes. E junto, vem a cor.

Tons terrosos, verdes, azuis profundos, mostarda, marsala e marcenaria em diferentes tons criam espaços sem timidez em busca de atmosferas calorosas. Embora o minimalismo marque presença com bastante sofisticação, divide espaço com ambientes expressivos, marcados pela mistura de materiais, camadas visuais e elementos afetivos.

Piano Bar, por Flávia Glanert. | Foto: Bia Nauiack

BASTIDORES SUSTENTÁVEIS

Se a edição da CASACOR Paraná propõe uma casa mais humana e consciente, essa discussão também aparece na operação da mostra. Neste ano, foi implementado um plano estruturado de sustentabilidade que envolve desde a montagem até a desmontagem do evento. A iniciativa inclui inventário e compensação das emissões de carbono, rastreabilidade de materiais, gestão de resíduos

A construção narrativa também é impactada por essa ideia. Muitos projetos abandonam a lógica de cenários idealizados para assumir características de casas vividas. Há livros antigos espalhados pelas estantes, objetos pessoais, obras de arte com história, mobiliário garimpado e peças de acervo.

Os espaços priorizam as conversas, a leitura, a contemplação, a pausa. Ao que parece, a resposta encontrada pelos profissionais é o resgate daquilo que torna uma casa singular: memória e identidade.

e soluções energéticas. Entre os destaques está a parceria com a Orbis Protocol, responsável por um sistema que acompanha o destino dos materiais utilizados após o encerramento da mostra — tecnologia adotada pela primeira vez em uma edição da CASACOR no mundo.

Saiba mais: casacor.abril.com.br @casacor_oficial

Cápsula do Tempo, por Rebeca Zanuthi. | Foto: Matheus Kaplun
Tempo de Estar. Sala de Convivência, por Camila Rocha. | Foto: Bia Nauiack
Quarto do Casal, por Marcelo Lopes. | Foto: Samuel Berger

ETERNAMENTE, FRIDA E DIEGO

Pinturas fundamentais de ambos os artistas mexicanos, desenhos e fotografias

históricas do casal podem ser apreciadas no MoMA, em Nova York.

Frida Kahlo e Diego Rivera sempre foram assunto no mundo das artes, mas retornaram à imprensa mundial com fôlego nos últimos meses. Aqui no Brasil também, porque a coreógrafa Deborah Colker dirigiu e coreografou a ópera El Último Sueño de Frida y Diego, que estreou em junho, no Metropolitan Opera, em Nova York.

O Met Opera estabeleceu uma parceria artística com

o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York para a exposição, que pode ser compreendida como uma extensão do espetáculo de uma das mais prestigiadas companhias de ópera do mundo. Em Frida and Diego: The Last Dream, em cartaz até 12 de setembro, a ambientação das obras ganhou contornos teatrais, pois o cenário foi desenhado por Jon Bausor, cenógrafo e também cocriador de figurinos da ópera.

Instalação central da exposição Frida and Diego: The Last Dream, em exibição no Museu de Arte Moderna de Nova York. Foto: Jonathan Dorado |Museu de Arte Moderna de Nova York

Frida Kahlo. Fulang-Chang e Eu. 1937 (montado após 1939). Em duas partes, óleo sobre placa (1937) com moldura de espelho pintada (adicionada após 1939); e espelho com moldura de espelho pintada (após 1939).

Foto: John Wronn. | Museu de Arte Moderna de Nova York

No espetáculo, a narrativa fictícia começa três anos após a morte de Kahlo e acompanha um Rivera envelhecido que convoca a falecida de volta à vida no Dia dos Mortos. No MoMA, o projeto de galeria de Bausor transporta os visitantes para o cenário surreal da produção, oferecendo um novo contexto para as obras célebres de Kahlo e Rivera. Ao invés de paredes brancas, cortinas e andaimes de coxias teatrais.

Uma árvore vermelha torna-se o centro da exposição, em referência à obra Árvore da Esperança, Permaneça Forte, 1946, de Frida Kahlo – que representa a força de uma mulher que passou por imensos sofrimentos físicos e psicológicos durante toda sua vida, que manteve alguma esperança e criou obras que inspiram artistas pelo mundo.

Vista da instalação de Frida e Diego: The Last Dream em exibição no Museu de Arte Moderna de Nova York.|Foto: Jonathan Dorado |Museu de Arte Moderna de Nova York

PENSAMENTO QUE ATRAVESSA DISCIPLINAS

Uma grande exposição retrospectiva sobre o arquiteto Edo Rocha.

É um privilégio poder visitar uma exposição que conta a trajetória de 60 anos de um dos principais nomes da arquitetura, do urbanismo e das artes plásticas do Brasil. Edo Rocha: Arte e Arquitetura, com curadoria de Agnaldo Farias, é uma grande exposição retrospectiva com mais de 400 trabalhos entre desenhos, pinturas, esculturas, fotografias e instalações, além de maquetes e plantas.

Edo Rocha, que começou sua produção artística ainda na adolescência, tornou-se um dos grandes arquitetos brasileiros, criando obras de extrema relevância como o famoso Allianz Parque, em São Paulo, que transcendeu sua função esportiva ao se posicionar como um dos maiores centros de entretenimento do Brasil – foi o local de dois shows históricos de Paul McCartney, em 2014.

Projetos como WT Nações Unidas e J&F Instituto Germinare são outros exemplos da arquitetura de Edo Rocha. O premiado projeto de urbanismo do Parque VillaLobos & Cândido Portinari também leva a sua assinatura. Na exposição, em cartaz até 19 de julho, na OCA do Parque Ibirapuera, em São Paulo, é possível conhecer os diversos momentos da carreira deste verdadeiro artista.

Fotografia de Edo Rocha da Série Japão, No Palácio Astro Rei.
Abstrato mais concreto, Bahia, obra de Edo Rocha, de 1966. | Foto: Divulgação

O DERRETIMENTO DO MUNDO

Exposição de Marina Saleme apresenta obras inéditas e celebra os 40 anos de trabalho da artista com lançamento de livro.

Sunset com ralo (2025-2026), de Marina Saleme. Óleo sobre tela.| Foto cortesia: artista e Galeria Luisa Strina

As obras da pintora, desenhista e fotógrafa Marina Saleme são cheias de camadas. Muitas pinturas trazem cores vivas, aparentemente alegres, que contrastam com temas de emoções muito mais doloridas que festivas. Suas séries repetem formas enquanto alteram os cenários, sugerindo contextos e histórias diferentes em cada tela.

Páginas do livro Marina Saleme, 2026. Foto: Estúdio em Obra, cortesia Act Arte

Temas existenciais e da condição humana se mesclam a rios, mares, céus e rochas. Algumas delas estão nas 20 obras da exposição individual intitulada Ralo, em cartaz na galeria Luisa Strina, em São Paulo, até 25 de julho. O nome da mostra é uma referência ao sentimento de “derretimento do mundo” que perpassa as obras.

A trajetória da artista, desde os anos 1980, pode ser conhecida no livro Marina Saleme, recém-lançado pela Act Arte, que reúne pinturas, desenhos e trabalhos que atravessam distintos momentos de sua produção.

A ARTE DE UM ILUSIONISTA

Exposição retrospectiva traz mais de 220 obras de um dos mais relevantes artistas brasileiros contemporâneos, Vik Muniz.

Família, da série Álbum, revela um retrato de Vik Muniz na infância, junto aos pais. | Foto: Divulgação

“Vik Muniz é um ilusionista – um mágico na construção de imagens que não existem, mas que se tornam reais. Suas obras possuem camadas que tensionam diferentes questões de cunho poético – aspectos formais e processuais – e político, abordagens e relações que estabelece com o sistema da arte”, afirma Daniel Rangel, curador da exposição Vik Muniz – A Olho Nu, a maior e mais abrangente sobre o artista.

São 43 diferentes séries, entre fotografias e esculturas, desde as obras tridimensionais, passando pelas suas fotografias mais conhecidas (e que o tornaram

Santo Agostinho, a partir de Philippe de Champaigne, 2018, da Série Imaginária. | Foto: Divulgação

mundialmente famoso), chegando em trabalhos mais recentes, alguns inéditos. Um dos destaques é a escultura Ferrari Berlinetta, da série Veículos Mnemônicos, vinda da Itália, onde foi produzida em Turim. Com mais de quatro metros de comprimento e 650 quilos, a obra reproduz, no tamanho de um automóvel real, um carrinho de brinquedo que o artista tinha na infância. É destaque ainda Família, da série Álbum, um retrato de Vik Muniz na infância, junto de seus pais. A mostra ficará em cartaz até 7 de setembro, no Centro Cultural do Banco do Brasil Rio de Janeiro.

O FUTURO DO MORAR É EMOCIONAL

Morar hoje é mais sobre sentir do que habitar um espaço. Essa foi, talvez, a principal percepção que tive na Semana de Design de Milão. A cidade continua sendo a grande referência mundial do design, mas o que chamou minha atenção foi a mudança no olhar sobre a casa: os ambientes estão mais humanos, acolhedores e emocionais.

Percebi uma busca muito forte por autenticidade. O luxo está mais silencioso, conectado à qualidade dos materiais, à iluminação, às texturas e às sensações que os espaços transmitem. Madeiras naturais, pedras com aspecto mais bruto, tecidos táteis, formas orgânicas e uma paleta suave dominaram muitos dos projetos.

Também a valorização do artesanal e do tempo. As casas contam histórias, misturam peças contemporâneas com itens vintage, arte, memórias e objetos que trazem

identidade. Há uma integração muito bonita entre interior e natureza. Os espaços buscam luz natural, transparência, vegetação e uma sensação constante de bem-estar. Essa tendência conversa com o estilo de morar brasileiro. Temos naturalmente essa relação leve e acolhedora com os ambientes, a integração entre living, varanda e convivência. Vi referências que remetem a esse lifestyle contemporâneo, sofisticado e, ao mesmo tempo despretensioso.

Saiba mais: www.swellconstrucoes.com.br @swellconstrucoes

COLUNA É DESIGN

O DESIGN POR TRÁS DA MAGIA

Tokie Esaka fala sobre memória afetiva, criatividade e os desafios de criar para uma das marcas mais icônicas do mundo.

Existe um tipo de design que não apenas organiza formas, cores e objetos. Ele desperta memória, pertencimento e afeto. Conversar com Tokie Esaka é entender justamente esse território, onde estética, emoção e narrativa coexistem de maneira quase invisível, mas profundamente poderosa.

À frente da área de Design de Produto para Produtos de Consumo da The Walt Disney Company na América Latina, Tokie carrega uma trajetória construída entre culturas, sensibilidades e repertórios visuais diversos. Formada em Arquitetura, Urbanismo & Design pela FAU-USP e especializada em Design de Ambiente em Tokyo, ela traduz no dis-

curso a mesma delicadeza que parece conduzir seu olhar criativo.

O design, para ela, nunca foi apenas uma escolha profissional. Foi uma forma natural de observar o mundo. “Desde pequena, sempre fui fascinada pela maneira como espaços, objetos e experiências influenciam emoções e comportamentos”, conta.

Talvez venha daí sua relação tão íntima com o design emocional. Ao longo de 35 anos de carreira, Tokie transitou por diferentes áreas do design estratégico multidisciplinar até compreender algo essencial: design não é somente estética. É narrativa. É conexão. É experiência humana.

Sua herança japonesa aparece com delicadeza nessa construção criativa. Conceitos ligados ao Wabi-Sabi, filosofia que valoriza a beleza da imperfeição, da simplicidade e da autenticidade, moldaram sua percepção visual e emocional. “Cresci admirando a beleza do imperfeito, da assimetria e da simplicidade. Isso influenciou profundamente meu olhar para um design mais humano e sensível”.

Ao mesmo tempo, a vivência latino-americana adicionou outra camada à sua visão criativa. Se o Japão trouxe contemplação, a América Latina trouxe intensidade. Emoção. Cor. Movimento.

Segundo ela, liderar equipes criativas na região significa lidar diariamente com diferentes repertórios culturais, hábitos de consumo e formas de expressão. E é justamente nesse encontro de referências que surgem as soluções mais autênticas. “Grandes ideias raramente nascem de forma isolada”, reflete.

Existe também uma questão inevitável quando se fala em Disney: o peso simbólico da marca. Trabalhar criativamente dentro de um universo tão reconhecível exige um equilíbrio constante entre inovação e memória afetiva.

Tokie fala sobre isso com naturalidade, mas também com evidente senso de responsabilidade. Afinal, não se trata apenas de desenvolver produtos. Existe um vínculo emocional construído ao longo de gerações. “Estamos lidando com infância, memória e pertencimento”.

Talvez esse seja um dos maiores desafios contemporâneos das grandes marcas globais: permanecer relevantes sem perder a autenticidade. Para ela, inovação não significa romper com a essência, mas reinterpretá-la.

Na prática, isso se traduz em novas linguagens visuais, colaborações inesperadas, experiências culturais e produtos capazes de dialogar com diferentes públicos sem abandonar o coração emocional da marca. E existe espaço para ousadia, mais do que se imagina. “O público percebe quando existe verdade criativa”, afirma.

Em tempos de inteligência artificial, velocidade e excesso de imagens, sua visão sobre o futuro do design também chama atenção pelo equilíbrio. Ela acredita no potencial transformador da tecnologia, especialmente em pesquisa, prototipagem e expansão criativa. Mas reforça que sensibilidade, empatia e repertório cultural continuam sendo atributos profundamente humanos. “O futuro do design será uma combinação entre tecnologia e sensibilidade”.

No fim, talvez seja justamente isso que torna sua trajetória tão interessante: a capacidade de unir precisão e emoção, estratégia e delicadeza, global e local. Ao falar com jovens designers, Tokie evita fórmulas prontas. Prefere incentivar algo mais raro e duradouro: curiosidade, escuta e autenticidade. “Não tentem seguir tendências o tempo todo. Construam uma visão autoral”, ensina.

COLUNA SOBRE MORAR

UM APARTAMENTO

COM ALMA DE CASA

Em um dos edifícios mais clássicos do Batel, a arquiteta Camila Trombini Krieger e sua família encontraram o cenário ideal para viver cercados por arte e memórias.

A arquiteta Camila Trombini Krieger em sua poltrona Diz, de Sérgio Rodrigues, cercada por uma tela de Paolo Ridolfi, uma luminária que pertenceu ao seu avô e uma escultura geométrica de Lygia Clark. | Foto: Celso Pilati

Camila, arquiteta à frente da ARQ+CO Studio, divide a vida com o marido Fernando Pospissil, a filha Alice e Olivia, a cachorrinha da família. Juntos há quinze anos, Camila e Fernando compartilham a rotina familiar, profissional e, também, a paixão pelo design, pela arquitetura e pelo ato de receber. Enquanto ela desenvolve, em seu escritório, projetos que refletem a identidade de cada cliente, ele atua em seu estúdio de

iluminação, mantendo contato frequente com a arquitetura. Sociáveis e cercados por uma família muito presente, os dois acreditam que a casa deve refletir a história de quem a habita. Após a reforma, o apartamento foi sendo construído aos poucos, com objetos de viagem, peças restauradas e lembranças de família, como uma luminária herdada dos avós de Camila e um antigo bar transformado em altar.

Na sala de estar e TV, a base branca contemporânea valoriza o acervo de mobiliário modernista da família, entre os quais estão as poltronas de Percival Lafer e a mesa de centro de Jorge Zalszupin. | Foto: Eduardo Macarios

O APARTAMENTO

Localizado em um edifício clássico dos anos 70, em Curitiba, o apartamento foi escolhido por reunir aquilo que a família procurava: uma planta ampla, bem iluminada, com a sensação de morar em uma casa e ideal para receber seus amigos e familiares.

A relação com o imóvel começou desde a infância de Camila, que cresceu neste mesmo edifício, onde também moram seus pais. Quando surgiu a oportunidade de morar ali, o projeto foi resolvido rapidamente com o auxílio de sua sócia Luiza Monclaro. O apartamento foi praticamente reconstruído para dar lugar a ambientes integrados,

circulação fluida e espaços voltados ao convívio. Tudo foi pensado para que Alice pudesse brincar com liberdade. O que mais encanta é a sensação de morar em uma casa suspensa entre as árvores. As grandes janelas permitem que a copa verde invada os ambientes, enquanto a luz natural e a ventilação cruzada transformam o morar em algo cheio de sensações. Da sala, é possível observar o movimento dos galhos ao vento e acompanhar a mudança das estações. A mesa de jantar ocupa um lugar especial na rotina da família. É ali que acontecem encontros e muitas das histórias que marcam a vida da casa.

Na sala de jantar e gourmet, a mistura entre elementos contemporâneos e peças clássicas é enaltecida pela tela de Pedro Amin e pela obra em papelão de Veralu. Foto: Eduardo Macarios

DETALHES E ARTISTAS

O apartamento reúne uma coleção construída de forma espontânea. Mais do que objetos decorativos, cada peça carrega uma memória, a maioria delas presenteadas por pessoas queridas da família. Obras de artistas que fazem parte da trajetória afetiva da família, como trabalhos de Veralu, tia de Camila, fotografias de André Nacli, uma tela de Pedro Amin, grande amigo de Fernando, e outras de Rita Wainer, Paolo Ridolfi, Instituto Maria do Barro, Denise Roman, Hércules Barsotti, André Mendes, Nara Ota, Fernanda Perez e do renomado artista paranaense Carlos Eduardo Zimmermann. Mas uma das mais especiais é um conjunto de quadros em linho bordado por Camila por cima de desenhos feitos pela sua pequena Alice.

O design brasileiro também marca presença em peças restauradas com cuidado, como as cadeiras de Jorge Zalszupin, a poltrona Diz de Sérgio Rodrigues, um

presente de Fernando para Camila em comemoração ao seu casamento, e outros móveis incorporados ao apartamento, entre eles peças de Percival Lafer, Jean Gillon, Jader Almeida e Gustavo Bittencourt. Cerâmicas, esculturas, objetos de viagem e presentes de familiares completam um acervo que valoriza a memória. O resultado é um espaço equilibrado, atual e acolhedor, onde arte, arquitetura e afeto convivem naturalmente.

Para Camila, sua casa é o lugar onde a vida acontece. Receber as pessoas que ama, construir memórias e ver a história da família refletida em cada ambiente são prioridades. Mas a definição mais bonita veio de Alice. Em uma atividade da escola, ao perguntarem qual era o melhor lugar do mundo, ela respondeu sem hesitar: “a minha casa”.

Sobre Morar por Paula Campos

MILÃO

Cintia Peixoto, publisher da Habitat, e a cool hunter Cristina Fontoura na Semana de Design de Milão 2026, na Pinacoteca de Brera, conferindo a instalação imersiva Seratonin - The Chemistry of Happiness - Fuori Salone.

ORNARE

Esther Schattan e Jayme Bernardo, em Milão. A fundadora da Ornare participou das ações que marcaram os 40 anos da marca durante a Milan Design Week 2026, reforçando a conexão entre design, arquitetura, arte e estilo de vida que acompanha a trajetória da empresa.

PIEMONTE

Lucas Demeterco, Karine Staben, Daniel Peruzzo, Filipi Demeterco e Silvia Soares durante a première de As Dóras das Nossas Vidas, realizada pela Piemonte Incorporadora no Cinépolis do Pátio Batel. A noite foi dedicada a histórias, lembranças e personagens que ajudaram a construir a identidade de uma das regiões mais emblemáticas de Curitiba.

CASACOR

Na abertura da CASACOR São Paulo 2026, Marcelo Sallum recebeu convidados na Casa Brastemp, espaço que assina na mostra e que conta com uma obra do artista paranaense Eleutherio Netto. Na foto, Susana Nogiri, Marcelo Sallum, Eleutherio Netto, Marina Nessi e Eliseu Portugal.

Coluna Conexão por Cesar Franco

ARTE

A Galeria Zilda Fraletti recebeu o lançamento de Tensão sob a Calma, publicação dedicada à trajetória de Celso Orsini e acompanhada por ensaio crítico de Maria Alice Milliet. Durante o encontro, o público também pôde visitar uma exposição com pinturas, gravuras e colagens do artista, aproximando-se de uma produção marcada pelo rigor, pela pesquisa visual e pela sensibilidade. Na foto, Zilda Fraletti, Celso Orsini e Carlos Cavet.

GT BUILDING

Marcello Malucelli Thá, Fernanda Viana, o prefeito de Curitiba Eduardo Pimentel, a primeira-dama Paula Mocellin, Marina Nessi e Elias Rodrigues, da HCC Hospitality, durante visita à CASACOR Paraná 2026. Na ocasião, o prefeito passou pelo Lounge GT Building, espaço que marca a parceria entre a incorporadora e a HCC Hospitality dentro da mostra.

MAXFLEX

O arquiteto Fábio Petillo e Filipe Augusto Cury, diretor da Maxflex, durante a apresentação, em Milão, da cama desenvolvida em parceria com a marca. A novidade reforça a aproximação entre o olhar autoral da arquitetura e o universo do bemestar, e já está disponível em todos os showrooms da Maxflex.

Foto: Marcelo Elias

GESTÃO

A Piemonte Incorporadora inicia um novo ciclo de gestão com a chegada de Ricardo Kitamura à Diretoria Geral. Com sólida trajetória no mercado imobiliário, o executivo assume a condução integrada das principais áreas da companhia, reforçando a estratégia de crescimento, eficiência e expansão da incorporadora nos mercados do Paraná e Santa Catarina.

SOLIDARIEDADE

Paula Ferraz de Campos comemorou seu aniversário em uma noite marcada pela solidariedade. Em vez de presentes, a aniversariante pediu aos convidados contribuições para o Instituto João Ferraz de Campos, que realiza um importante trabalho de acolhimento, desenvolvimento e profissionalização de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Na foto, Marcos Soares, responsável pela impecável organização da noite, Paula Ferraz de Campos, Ana Paula Leandro e Luciano Câmara.

WINDSOR

A Construtora San Remo recebeu convidados nos jardins do Castelo do Batel para o lançamento do Windsor Gardens, novo residencial inspirado na elegância e na tradição inglesa. Na foto, Michele Perussolo, diretora de Engenharia da San Remo; João Carlos Perussolo, CEO da construtora; o arquiteto João Armentano; e Aline Perussolo, diretora de Marketing da San Remo, durante o evento que apresentou o conceito do empreendimento.

Foto: Adalberto Rodrigues
Foto: Rodrigo Torrezan
Foto: Rafael Gusso
Coluna Conexão por Cesar Franco

LIDO

Os sócios do Cine Lido Bruno Neves e Gian Zambon, também à frente da SevenX, e Malu e Patrik Cornelsen, da Planeta Brasil. O grupo comanda a revitalização de um dos endereços mais emblemáticos da cultura curitibana, transformado em uma moderna casa de espetáculos. O novo Cine Lido nasce com a proposta de receber grandes atrações nacionais e internacionais, ampliando a oferta cultural e de entretenimento da capital paranaense.

BIOOS

O arquiteto Ricardo Amaral, autor do projeto arquitetônico do BIOOS Home & Health, e Norton Mello, referência em bioengenharia aplicada à área da saúde, prestigiaram a entrega do empreendimento da Construtora Laguna. Premiado internacionalmente, o BIOOS propõe um novo conceito de moradia ao integrar arquitetura, tecnologia, saúde e bem-estar em um projeto pensado para promover autonomia, conforto e qualidade de vida.

CINEX

Na reinauguração da Cinex Arch Curitiba, Patricia Dias, Juliano Hermes, Mariane Hermes, César Cini, Patrícia Bringhenti Bordignon Rodrigues, Luana Hermes, Elaine Montipo e Vicente Moriguchi celebraram a nova fase da marca. Após um retrofit que atualizou a loja e ampliou suas possibilidades, o espaço passou a apresentar novas soluções, produtos e conceitos alinhados à inovação e ao design.

Foto: Patrícia Amancio
Foto: Patrícia Amancio

TON SUR TON

À frente da Ton Sur Ton, Wilson e Sonia Elias receberam convidados para a apresentação das novas vitrines da loja. Assinadas por Luisa Fabri, Marcelo Calixto e Studio Volarque, as ambientações marcam a chegada da coleção 2026 e refletem a curadoria da marca, reconhecida por reunir design, sofisticação e personalidade.

Foto: Marcelo Stammer

CASACOR

Thalita Peron, Clemilda Thomé e Marina Carvalho durante a abertura da CASACOR Paraná 2026. Instalada em uma residência no Bigorrilho, a mostra reúne 41 espaços assinados por arquitetos e designers do Paraná e convida o público a refletir sobre novas formas de morar. Com o tema Mente e Coração, a edição deste ano propõe ambientes voltados ao bemestar, ao autocuidado e ao equilíbrio em um mundo cada vez mais conectado e acelerado.

Foto: Patrícia Amancio

LAGUNA

Isabel Raad, Gabriel Raad, André Marin, Cristina Raad e Maria Bernadete Raad durante a entrega do BIOOS. Desenvolvido pela Construtora Laguna, o empreendimento apresenta um conceito inédito na América Latina ao reunir, em um mesmo endereço, residências 60+, serviços de saúde e medicina. A entrega também marca os 30 anos da incorporadora, reafirmando sua trajetória de inovação e sua contribuição para a transformação urbana de Curitiba por meio da arquitetura.

Foto: Patrícia Amancio

Coluna Conexão por Cesar Franco

ABÓBADA

No espaço Lapinha Experience, Arthur Calliari traz para a CASACOR Paraná 2026 uma releitura contemporânea da Abóbada Catalã. Executada com tijolos maciços, a estrutura resgata uma técnica construtiva centenária e evidencia a valorização dos materiais, do fazer artesanal e de uma arquitetura capaz de atravessar o tempo sem perder relevância.

PORTO CAMARGO

Os diretores da Construtora Porto Camargo, Roberto Linhares Porto, Rodrigo Linhares Porto, Diogo Linhares de Camargo e Tomaz Linhares de Camargo, durante o lançamento oficial do Monṭez. Inspirado pela relação entre arquitetura e natureza, o empreendimento foi apresentado em um evento que destacou seu compromisso com a preservação ambiental, simbolizado pelo plantio de mudas nativas e pela valorização da paisagem como parte essencial do projeto.

MAISON

Ivy Tavares na inauguração da sua Maison, novo espaço dedicado à moda sob medida em Curitiba. Com atendimento personalizado e produção autoral, o endereço foi concebido para unir elegância, acolhimento e atenção aos detalhes. Obras de arte integradas ao ambiente reforçam a proposta de um espaço onde moda, estética e expressão pessoal convivem de forma harmoniosa.

Foto: Gerson Lima

Foto: Antonio More

FRANCCINO

Curitiba acaba de ganhar um novo endereço para quem aprecia design brasileiro, matéria-prima nobre e experiências que vão além do mobiliário. A Franccino, marca mineira que este ano completa 25 anos, inaugurou seu showroom no coração do Batel, apresentando peças voltadas ao viver contemporâneo, para áreas internas e externas, com uma curadoria de designers que valorizam linhas autorais. Mais do que um showroom, a Franccino Curitiba nasce como um espaço para contemplar — daqueles que convidam a observar os detalhes, sentir os materiais e viver o design brasileiro de forma genuína.

Coluna Conexão por Cesar Franco
André Panatto (armanarq), Jorge Elmor (Estúdio Elmor), Pedro Silveira (TFPS Arquitetos Associados), Shirlene Guimarães, Alexsandra Szuberski (Club Casa), Felipe Ferreira (Eira Arquitetura) e Felipe Prestes.
Glei Tomazi (escritório Jayme Bernardo Arquitetura), Daniela Ferro, Fernanda de Stefano e Fernando Kersting.
A arquiteta Luccianá Quadrado.
Alvaro Andre Francino (diretor Franccino), Fernando Kersting (diretor Franccino Curitiba), Claudia Pritsch (diretora Franccino Curitiba) e Isaac Francino (diretor Franccino).

DESIGN WEEK 2026

A Design Week de Milão continua incomparável e brilha solitária na agenda mundial do design e indicadores de tendências que contaminam o mercado de forma viral com novidades.

Engana-se quem pensa que a direção mira apenas no mobiliário, fruto da nossa visualização direta do uso do design. Muito pelo contrário: as setas apontam para diversos segmentos que bebem da mesma fonte. Não é de agora que vemos o mercado fashion se apropriar do público sem pedir licença, é uma pré-disposição e vai continuar cada vez mais forte.

E o fashion não está sozinho. Como ele, as marcas de automóveis, relógios, alimentação, entre outras, não perdem a oportunidade midiática desta valiosa fatia de mercado reunida: tomadores de decisão, influenciadores, empresários, creators.

Muitos visitantes comentaram não ter percebido grandes mudanças; outros alegam uma redução de público, algo que discordamos, em parte. Realmente tivemos endereços fantásticos na edição anterior e comparar é humano! Mas espaços incríveis têm um custo difícil de replicar nesta frequência. Lembramos com saudades das instalações sofisticadas e imersivas da brand de luxo Loro Piana, intitulada La Prima Notte di Quiete. Iluminação, tema, roteiro, surpresa, cenários ao invés de uma vitrine estática. Resumindo, as marcas se alteram, precisam pegar um fôlego! E não há nada de mal nisso.

Outra boa notícia foi a volta da holandesa MOOOI, de Marcel Wanders, no epicentro da Zona Tortona. Explorando um generoso pé-direito, apresentou seus principais designers em impressões gigantes de corpo inteiro. Num espaço repleto de significados, pinheiros natalinos giravam, painéis com o famoso grafismo zoomórfico capturavam a atenção. Não é somente o móvel e objetos, é a forma como são apresentados.

Há também espaço para os clássicos, cada vez mais arrojados, como a consolidada marca de mobiliário de luxo Minotti, com uma curadoria impecável. Ali encontramos quem dita as regras em materiais nobres como aço e couro, apresentados em cores diversas, mas extremamente elegantes.

Vamos ser justos, este ano tivemos boas surpresas percorrendo os paralelepípedos de Milão. Dior, Gucci e Hermès apresentaram instalações surpreendentes, com extrema conexão com a marca, sempre amarrando uma referência histórica, como fez Dior resgatando o jardim de infância de seu criador numa leitura poética utilizando fibra natural mimetizando flores.

Cada destino revelava uma surpresa, uma novidade.

Não podemos deixar de citar a contemporaneidade da Kartell, que fez bonito apresentando um grande estande, completamente branco, com peças num colorido intenso e uma grande tela de arte ao fundo. Um show de criatividade. Mas Milão também abraça uma nova geração que briga por espaço – o hub Alcova continua como epicentro do design experimental, e não nos referimos a jovens talentos, mas à ousadia e irreverência. Um grande laboratório onde o design é a linguagem internacional, que une profissionais das mais diversas origens e grandes empresas também. Um lugar disruptivo – antigas instalações militares dando espaço à criatividade.

Acompanhamos esta “bagunça” boa por muitos anos e não tem como negar que a visita é obrigatória. Milão, seja no incrível Saloni de Fuksas ou explorando suas estreitas vie das áreas centrais, entrega muito e surpreende mais uma vez seu público cativo, ávido por novidades.

Jayme Bernardo e Glei Tomazi | Jayme Bernardo Arquitetura
Foto: Vilma Slomp
Coluna Ponto de vista por Jayme Bernardo e Glei Tomazi

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