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Habitat 31

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arquitetura | arte | design

Chicharra machaco, de Santiago Yahuarcani, representado pela galeria peruana Crisis. As obras do artista indígena do povo Uitoto, radicado na Amazônia peruana, está profundamente enraizada nas tradições orais, na cosmologia e na cultura visual de sua comunidade. Ele é um dos destaques da SP-Arte. | Foto: Cortesia Crisis Gallery

O TEMPO COMO REFLEXÃO

Otempo é a linha invisível que une esta edição da Habitat. Nos anos 1970, um arquiteto transgrediu ao propor morar em uma esfera, a Casa Bola, onde acontece hoje a ABERTO5, nossa matéria de capa. Celebramos os 15 anos da DW! Semana de Design de São Paulo, que elegeu o tema “o tempo como reflexão”. A grandiosidade da SP-Arte, que, há mais de duas décadas, transforma o mercado de arte e design da América Latina. Tempo de silêncio, de desligar o celular, abrir um livro e viajar em um Clube de Leitura. Homenagear Antoni Gaudí, cem anos após sua morte. Celebrar os 50 anos de carreira de Isay Weinfeld, um dos maiores arquitetos do Brasil.

No momento em que o planeta pede urgência, apresentamos soluções arquitetônicas baseadas nos biomas brasileiros, o design de cadeiras elaboradas no Camboja a partir de peças que seriam descartadas, assim como

Expediente

Publisher: Cíntia Peixoto|cintia@revistahabitat.com.br (41) 99225-7610|Comercial: Regina Rocha|(41) 98848-1950

Comercialização: Saltori Mídia Estratégica|saltori@saltori.com.br (41) 99996-9995|R SALTORI REPRESENTAÇÕES COMERCIAIS LTDA CNPJ 05.552.266/0001-60

Coordenação de conteúdo: Melissa Crocetti melissa.crocetti@gmail.com

os materiais da construção civil que encontraram destino sustentável por meio de um projeto louvável em Curitiba. Esses e outros temas estão nesta revista que você tem em mãos.

Em tempo, na próxima edição, teremos as percepções da publisher Cíntia Peixoto e da foresight strategist Paula Abbas sobre o maior encontro de design e de mobiliário do mundo, a Feira de Milão. Sim, elas estarão lá. A revista Habitat também se renova a partir de agora: mantém as referências do passado, dialoga com o presente e contempla o futuro. Sempre para apresentar informações relevantes e surpreendentes a você, caro leitor. Pretendemos ser seu tempo de pausa para a apreciação da arquitetura, do design e da arte.

Boa leitura. Melissa Crocetti, coordenadora de conteúdo

Revisão: Paula Batista – Lide Multimídia

Direção de arte: Igor Dranka|igor@revistahabitat.com.br

Colunistas: Paula Campos (Coluna Sobre Morar), Rodolpho Gutierrez (Coluna É Design), Cesar Franco (Coluna Conexão) e Maria Eugenia Fornea (Coluna Ponto de Vista).

Redes sociais: Trentini Comunicação

Impressão: Maxi Gráfica e Editora LTDA. maxigrafica@maxigrafica.com.br

Colaboraram nessa edição: Carla Bastos Dias, Carolina Kirchner Furquim, Scheila Novaes Schuchovski Sperandio e Rafaella Sabatowitch. habitat RM

Marca registrada: Capelatto Marcas e Patentes

habitat

Ano 5 | Número 31 - Abril e Maio de 2026

CAPA

10 Diálogos entre arquitetura, arte e design na ABERTO5, a plataforma de Filipe Assis em sua mais ousada edição, e a Casa Bola do arquiteto Eduardo Longo.

ARQUITETURA

24 Na primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, o território ganha forma e narrativa a partir dos seis biomas nacionais.

28 Exposição apresenta a trajetória de cinco décadas do arquiteto Isay Weinfeld.

36 Antoni Gaudí continua a inspirar novas leituras sobre criatividade, sustentabilidade e a experiência do espaço construído cem anos após sua morte.

DESIGN

42 São Paulo foi palco da celebração dos 15 anos da DW! Semana de Design.

50 O projeto Cadeiras para Crianças, do artista coreano Taekhan Yun.

CONSTRUÇÃO

56 Conexões, mercados e tendências da Expo Revestir 2026.

SUSTENTABILIDADE

62 Uma rede de reaproveitamento de materiais da construção civil propõe um novo olhar sobre a cultura do descarte.

ARTE

68 Clubes de leitura crescem como espaços de pausa – um retorno ao tempo compartilhado por meio da palavra.

74 A 22ª edição da SP-Arte e a mulher que segue na vanguarda do diálogo entre galerias, artistas e público.

BRANDING

82 Do cigarro ao wellness, por Scheila Schuchovski, estrategista de marca.

NOTAS DA HABITAT

84 Vivi Rosa, a artista finalista do Loewe Foundation Craft Prize; novas exposições no Instituto Inhotim; as fotos que nunca serão postadas; os 100 anos de Verner Panton; e outras notícias.

COLUNAS

92 É Design, por Rodolpho Guttierrez.

94 Sobre Morar, por Paula Campos.

98 Conexão, por Cesar Franco.

106 Ponto de Vista, por Maria Eugenia Fornea.

DIÁLOGOS ENTRE ARQUITETURA, DESIGN E ARTE

A celebração da obra emblemática do arquiteto Eduardo Longo, a Casa Bola, e a esperada ABERTO5, plataforma expositiva criada por Filipe Assis em sua mais ousada edição.

Filipe Assis, criador da ABERTO; Claudia Moreira Salles, designer e curadora da ABERTO; o arquiteto Eduardo Longo, criador da Casa Bola; e Kiki Mazzucchelli, também curadora da plataforma. | Foto: Ruy Teixeira

Filipe Assis, empreendedor cultural e criador da plataforma ABERTO.

Foto: Ruy Teixeira

Filipe Assis é um homem inquieto. Graduou-se em publicidade, passou alguns anos no segmento de incorporação imobiliária, foi para Milão estudar negócios na Bocconi e acabou encontrando sua grande paixão em Londres, em um mestrado no prestigiadíssimo Sotheby’s. Tornou-se consultor de arte ainda na Europa, e eis que teve a ideia de criar um projeto expositivo para investigar o diálogo entre arquitetura, design e arte. Assim nasceu a plataforma ABERTO.

Em vez de museus ou galerias, Filipe seleciona cuidadosamente espaços diferenciados, residências até então inacessíveis ao público, para expor obras de arte, muitas delas inéditas, criadas por artistas e designers convidados, em resposta direta à arquitetura.

A estreia da ABERTO foi em grande estilo e ocupou uma residência particular assinada por Oscar Niemeyer, em São Paulo, em 2022. No ano seguinte, uma casa projetada por Vilanova Artigas foi o cenário expositivo. Em 2024, as obras ocuparam duas casas distintas que representam o legado que duas mulheres incríveis deixaram para a cultura brasileira, Tomie Ohtake e Chu Ming Silveira.

Ano passado, a ABERTO teve sua primeira edição internacional na Maison La Roche, em Paris, casa projetada por Le Corbusier e Pierre Jeanneret. A exposição foi um sucesso estrondoso e os artistas brasileiros encantaram os franceses pela linguagem autêntica e consistente.

Foto:

Em primeiro plano, Sem título [Untitled], 2024. Obra de Daniel Steegmann Mangrané. Cortina de alumínio kriska e moldura de aço inoxidável. Em seguida, Lygia #5, #6, #7, #8, 2019; de Leonor Antunes, em aço. Ao fundo, Untitled (Bocaina), 2026, de Janaina Tschäpe.
Ruy Teixeira

Interior da Casa Bola, do arquiteto Eduardo Longo, uma "escultura habitável" construída nos anos 1970. Foto: Ruy Teixeira

A ARQUITETURA EXPERIMENTAL DA DÉCADA DE 1970

Este ano, a ABERTO5 prestigia um projeto arquitetônico experimental que é um verdadeiro marco na arquitetura brasileira, a Casa Bola, do arquiteto Eduardo Longo, construída manualmente nos anos 1970 e que se impõe e desperta curiosidade em meio aos inúmeros edifícios do Jardim Europa, na divisa com o Itaim Bibi. “A Casa Bola destaca-se pela eficiência estrutural e pela redução do uso de materiais proporcionada pelo formato esférico, que distribui melhor as cargas e diminui desperdícios”, disse Filipe Assis, em entrevista à Habitat. “A geometria curva favorece a ventilação e a iluminação naturais. O uso de materiais industriais e de soluções construtivas racionalizadas também contribuiu para um menor impacto ambiental. Além disso, o projeto antecipa princípios de sustentabilidade ao integrar arquitetura, desempenho térmico e inovação formal”.

Os conceitos empregados por Eduardo Longo dialogam com o das casas esféricas criadas na Holanda, em 1980, as

Bolwoningen, por escolherem a forma esférica como solução estrutural e conceitual. “Os dois projetos propõem uma ruptura com a arquitetura residencial convencional, valorizando a ideia de unidade espacial e melhor distribuição de cargas; além disso, compartilham a intenção de integrar arquitetura e futuro tecnológico, ainda que em contextos culturais e urbanos distintos”.

Esta é a primeira vez que a ABERTO homenageia um arquiteto em vida e Filipe Assis destaca a generosidade de Eduardo Longo ao abrir sua casa e contar suas memórias. “O contato com Eduardo Longo tem sido extremamente enriquecedor. Mantivemos reuniões frequentes ao longo do último ano e cada visita ao espaço — seja para conversas, visitas técnicas ou encontros com os artistas — é sempre uma troca muito potente. De certa forma, a Casa Bola e seu pensamento voltam à pauta contemporânea por meio dessa ocupação”.

Nesta quinta edição, a ABERTO ocupa a Casa Bola, que sintetiza a pesquisa do arquiteto Eduardo Longo sobre a habitação esférica. | Foto: Ruy Teixeira

ALÉM DA ARQUITETURA, UMA VERDADEIRA INSTALAÇÃO

Quem visitar a ABERTO5, em cartaz até 31 de maio, terá uma experiência imersiva, já que a Casa Bola é tratada como uma instalação por sua arquitetura ser extremamente singular. “Na verdade, a ABERTO5 não acontece dentro da Casa Bola, pois qualquer obra inserida ali acabaria competindo com o espaço; por isso, a decisão curatorial foi preservá-la como uma experiência em si, uma obra que o público visita e vivencia”.

Esta é a primeira vez que a ABERTO acontece em uma casa que não é modernista ou brutalista impactou diretamente a curadoria dos artistas selecionados. A opção dos curadores – além de Filipe Assis, são curadoras Claudia Moreira Salles e Kiki Mazzucchelli – foi usar o universo conceitual de Eduardo Longo como partida, com temas como sustentabilidade, reutilização de materiais, humor e experimentação formal.

“A questão da reutilização aparece no trabalho de Luiz Tepedino, com a série das Havaianas, e também na prática de Laura Lima, que tensiona materiais e seus usos. Quando falamos da geometria da bola e dessa atmosfera quase ficcional da casa, podemos citar a obra de Luiz Zerbini, que apresenta a tela Fantástico Mundo de Eduardo, dialogando diretamente com esse imaginário. Já o humor surge em artistas como Marepe e Adriano Costa, que trabalham com deslocamentos e ironias sutis”.

A ABERTO5 acontece na galeria anexa à Casa Bola, com mais de mil metros quadrados de área expositiva. A galeria também foi projetada por Eduardo Longo, o que mantém a coerência do conjunto. A exposição inclui ainda um núcleo dedicado à trajetória do arquiteto, com projetos, desenhos, obras, fotos e maquetes que atravessam décadas de sua produção, sob curadoria de Fernando Serapião.

Em primeiro plano, O pato, 2025, de Marepe; mais ao fundo, obras de Gabriel Sierra, Adriano Costa, entre outros artistas. | Foto: Ruy Teixeira

Em destaque na foto, HBC 428 b/M+W, 2024, de Tomás Saraceno (em aço inoxidável com revestimento em pó, monofilamento e painéis de compensado). | Foto: Ruy

Estudos e fotos de arquivo do arquiteto Eduardo Longo também estão expostos na ABERTO5. | Foto:

Ruy Teixeira
Teixeira

A Obra Athat #7, 2026, de Túlio Pinto, faz parte da ABERTO Rua. Está instalada na Praça Luis Carlos Paraná, em São Paulo.

Foto: Ruy Teixeira

ARTE PARA TODOS

Outra novidade é a estreia da ABERTO Rua, que amplia ainda mais o acesso à arte ao inseri-la em meio à rotina da cidade, com obras distribuídas pela Avenida Faria Lima. A proposta é surpreender e transformar esse contato em experiência. “Alguém indo para o trabalho, para a escola ou para um compromisso descobre, de repente, uma obra no caminho — algo bonito, curioso ou até bem-humorado. Esse fator surpresa transforma o encontro. A arte deixa de ser um programa planejado e passa a acontecer no fluxo da cidade, interrompendo a lógica automática do cotidiano. É essa possibilidade de contato inesperado que torna a ABERTO Rua tão especial dentro do projeto”.

Há semelhanças e diferenças entre a ABERTO5 e a ABERTO Rua, mas Filipe Assis afirma que a intenção é a

mesma para ambas: criar encontros significativos entre obra, espaço e público. A diferença está na previsibilidade do público e na relação que se estabelece com a obra. “Em um ambiente ‘fechado’, como uma galeria ou residência, o visitante escolhe estar ali; há uma disposição prévia para ver arte, e isso permite um tempo de contemplação mais concentrado. Já na cidade, a arte entra no fluxo da vida cotidiana. O público não necessariamente planejou aquela interação. A obra precisa dialogar com o ritmo urbano, disputar atenção e conviver com ruído, trânsito e pressa. É uma dinâmica mais imprevisível, mas também mais aberta e democrática”.

A artista Laura Lima assina a obra Ninho Comunal #13, 2026, instalada na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. Foto: Ruy Teixeira

ABERTO4 – O BRASIL (NOVAMENTE) NA FRANÇA

Em 2025, Filipe Assis organizou a ABERTO4, com obras de arte e de design assinadas por artistas brasileiros históricos e contemporâneos, exibidas na Maison La Roche, em Paris, considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO. Filipe diz que a experiência foi extremamente positiva, e o público realmente se interessou pela diversidade de linguagens e consistência conceitual das obras.

“Um dado que nos marcou foi o fato de termos quebrado os recordes diário, semanal e mensal de visitação da Fundação Le Corbusier durante o período da mostra. Isso

não é apenas um número, mas um indicativo claro de que havia interesse real e mobilização em torno da arte brasileira. A experiência mostrou que, quando apresentada em um contexto sólido e bem estruturado, a produção brasileira tem força e capacidade de dialogar internacionalmente em pé de igualdade. Não se trata apenas de representar o país, mas de afirmar a relevância da nossa cena. Ao realizar edições fora do Brasil e propor formatos inovadores, a ABERTO fortalece a imagem da produção brasileira como relevante e contemporânea”.

Torre de Cacau com Notícia, 2025. De Erika Verzutti. | Foto: Ruy Teixeira

A CULTURA BRASILEIRA SOB A LENTE DA ARQUITETURA

Na primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, o território ganha forma e narrativa. Projetos de todos os Estados do país, organizados a partir dos seis biomas nacionais, revelam cenários, identidades e modos de habitar.

OParque Ibirapuera transforma-se em ponto de encontro de projetos arquitetônicos com a primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB), em cartaz até o dia 30 de abril. O conceito é fomentar o debate sobre a produção contemporânea no país, reunindo obras de todos os Estados em pavilhões temáticos organizados a partir dos seis biomas brasileiros.

Os espaços expositivos combinam ambientações reais e ativações sensoriais, além de funcionarem como vitrine para marcas e novos talentos. Na área externa, a reprodução de uma cidade reúne experimentações construtivas.

A arquiteta Anna Rafaela Torino, fundadora da BAB ao lado de Raphael Tristão, conta que o evento é resultado de uma construção iniciada há dez anos, a partir das experiências acumuladas com a plataforma digital Archa, também idealizada pela dupla.

A constatação de que a maioria dos brasileiros realiza reformas sem o acompanhamento de um arquiteto também foi determinante para o desenho da Bienal. “O público é a peça central da nossa exposição. Tudo é pensado para as pessoas, desde a comunicação visual mais acessível até a experiência informativa com um chat conversacional que detalha os espaços”, revela.

Casa Empate Mulheres Seringueiras. O Acre (bioma Amazônia) na interpretação de Marlúcia Cândida em colaboração com Marcelo Rosenbaum. | Foto: Divulgação BAB

A RIQUEZA DOS BIOMAS BRASILEIROS

Bioma Mata Atlântica, Estado de São Paulo. Projeto Tão paulista quanto a avenida. Os Gêmeos Arquitetura e Engenharia. | Foto: Divulgação BAB

Bioma Mata Atlântica, Rio de Janeiro. Projeto Casa Corcovado. Paula Martins Arquitetura. Foto: Divulgação BAB

A proposta imersiva e educativa vai além da democratização do acesso à arquitetura ao valorizar a produção nacional e as diferentes formas de habitar. Para ampliar a visibilidade de profissionais e abrir espaço para novos talentos, os projetos foram selecionados por meio de concursos públicos nacionais organizados pela Archa.

O Estúdio Leonardo Zanatta Arquitetura, de São Paulo, desenvolveu o masterplan do evento. Nos pavilhões que traduzem o morar de cada bioma, os projetos celebram a diversidade estética do país e expressam identidades re-

gionais a partir da riqueza da Amazônia, da Caatinga, do Cerrado, da Mata Atlântica, do Pantanal e do Pampa. O desafio foi o mesmo para todos: representar seus Estados em pavilhões com 100 m² de planta. A diversidade de linguagens já configura, por si só, um debate arquitetônico contemporâneo — assim como a possibilidade de comparar distintas regiões do país em um mesmo espaço. “Isso contribui para que as pessoas entendam as diferenças arquitetônicas que existem no Brasil. Essa será a nossa contribuição educativa para o público”, afirma.

A inspiração do projeto "A casa que dança" foi a arquitetura modernista paranaense. Foto: Divulgação BAB

Projeto Paraná: fruto de uma ampla pesquisa sobre o jeito de morar dos paranaenses. Foto: Divulgação BAB

Uma casa carrega memórias; as pessoas, o jeito de morar. | Foto: Divulgação BAB

O PARANÁ, “A CASA QUE DANÇA” E A MATA ATLÂNTICA

Inspirado nas referências da arquitetura modernista paranaense, o projeto do escritório Boscardin Corsi foi escolhido para representar o Paraná no bioma Mata Atlântica. “A Casa que Dança” traduz o modo de morar dos paranaenses a partir de dois protagonistas: a própria casa e o morador.

“Pegamos um trecho de uma poesia de Paulo Leminski, poeta curitibano, que diz que ‘tudo dança em uma casa em mudança’. Isso foi muito forte, porque o personagem compra a casa com as memórias que ela carrega e incorpora o seu jeito contemporâneo de morar. Ele traz uma gravura de Poty Lazzarotto, herdada do avô, e a integra ao espaço. Tudo dança em uma casa em mudança. A ideia é mostrar essa evolução”, conta o arquiteto e urbanista Edgard Corsi.

O desenvolvimento do projeto foi colaborativo, com a participação de toda a equipe do escritório. Para embasar a criação, foi realizada uma ampla pesquisa sobre o jeito de morar paranaense, com destaque para o modernismo e nomes como Lolô Cornelsen, Vilanova Artigas e Jaime Lerner. “Desde o conceito, uma das nossas premissas foi ter praticamente 100% dos designers, artistas, fornecedores e parceiros paranaenses”, celebra.

Para Corsi, o principal destaque da Bienal é inserir a arquitetura de interiores no cotidiano das pessoas, retirando-a de um caráter estritamente comercial e incorporando a mostra ao calendário cultural do país. “É muito rico ter pavilhões representando os 26 Estados e o Distrito Federal. A questão é a arquitetura como cultura e como expressão do povo de cada lugar”, conclui.

Bioma Mata Atlântica, Paraná. Projeto A casa que dança. Boscardin Corsi. | Foto: Divulgação BAB

AS MÚLTIPLAS CAMADAS DE ISAY WEINFELD

Exposição apresenta a trajetória de cinco décadas e os múltiplos talentos de um dos mais importantes arquitetos do país.

Farmacinha, do arquiteto Isay Weinfeld, é um pequeno armário para remédios. Criado em 2010, para a Dpot. Foto: Pierre Refalo

Isay Weinfeld transita com naturalidade entre a arquitetura, as artes visuais, o design, o cinema e a fotografia. Aos 74 anos, sua trajetória desafia rótulos e resiste a leituras lineares — assim como a própria obra. A única certeza é o legado construído ao longo de cinco décadas de produção intensa e coerente, agora reunido na exposição Isay Weinfeld — Etcétera, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, até 17 de maio.

Com curadoria de Agnaldo Farias, identidade gráfica de Giovanni Bianco e catálogo fotográfico assinado por Bob Wolfenson, a mostra revela o modo de pensar e criar de Isay Weinfeld, evidenciando as múltiplas camadas de sua produção artística contemporânea. “A ideia que orientou a

construção da narrativa curatorial foi demonstrar que ele não é apenas um arquiteto, mas alguém que conjuga diferentes facetas e transita pelos mais diversos campos como poucos”, afirma Farias.

Para o curador, os múltiplos talentos de Weinfeld dialogam entre si e reverberam diretamente em sua arquitetura. “Ele atua mais como um diretor de cinema ou um maestro. No escritório, o trabalho é bastante horizontalizado; ele estimula cada equipe e cada profissional a pensar, inventar e buscar novas soluções. É uma lição para os dias atuais, porque já não faz tanto sentido uma produção autoral. O trabalho precisa ser coletivo, assim como a inteligência também precisa ser coletiva”, avalia.

“A visão de mundo se constrói a partir do diálogo, e a exposição do Isay fala sobre isso. Gostaria que as pessoas saíssem com essa impressão. É a lição que ele tem a nos oferecer.

Uma lição inestimável”.

Agnaldo Farias, curador da exposição

Isay Weinfeld — Etcétera

Foto: Bob Wolfenson

ARQUITETURA COM HUMOR

Cerca de 180 itens compõem a exposição, entre eles este desenho feito na infância.

Logo na entrada, o desenho de uma casa feito ainda na infância indica que a exposição não seguirá caminhos previsíveis. “A mostra reúne produções distintas das artes plásticas, textos, trabalhos de cenografia e arquitetura propriamente dita. Inclui trabalhos realizados ainda na faculdade, muito transgressivos, marcados por uma ironia muito ácida, aguda e bem-humorada. Ele lida com o humor, fez muita coisa com Marcio Kogan, como aquelas maquetes que eram engraçadas e a arquitetura está meio que perdendo isso. De um modo geral, o humor não é muito bem visto, e isso eu acho uma contribuição muito importante”, considera o curador.

Casa Cubo, em São Paulo, realizada em 2011. No destaque, a escada caracol flutuante. | Foto: Fernando Guerra
The Elisa Building, Nova York, 2024. Condomínio residencial de luxo projetado por Isay Weinfeld. | Foto: Ivane Katamashvili

“NÃO HÁ UMA VERDADE, ESSA É A VERDADE”

Cerca de 180 itens, entre referências que integram sua formação criativa, maquetes, peças de moda, filmes, fotografias, joias, móveis, documentos e textos, apresentam a trajetória desde a abertura do primeiro escritório, em 1973. Para Farias, arquitetos são tradicionalmente reconhecidos por uma formação ampla, com sensibilidade estimulada pelo contato com diversas expressões artísticas, além do domínio técnico. “Isso tem sido reduzido pela própria formação, e acompanho esse movimento com receio. A exposição será importante para evidenciar como uma trajetória tão singular é marcada pelo diálogo com diferentes linguagens”, destaca.

A exposição brinca com o espaço recortado, como se o visitante caminhasse por uma cidade, dobrando esquinas e se deparando com situações contrastantes — uma diferente da outra. “Não há uma verdade. Essa é a verdade. Tudo depende de contexto, de interlocução. A visão de mundo se constrói a partir do diálogo, e a exposição do Isay fala sobre isso. Gostaria que as pessoas saíssem com essa impressão. É a lição que ele tem a nos oferecer. Uma lição inestimável”, conclui.

Isay Weinfeld: um homem de múltiplos talentos. Foto: Bob Wolfenson

GAUDÍ, UM SÉCULO DEPOIS

Cem anos após sua morte, Antoni Gaudí permanece como uma das figuras mais singulares da história da arquitetura. Suas obras, marcadas pela fusão entre natureza, engenharia e imaginação formal, continuam a inspirar novas leituras sobre criatividade, sustentabilidade e a experiência do espaço construído.

Em 2026, completam-se cem anos da morte de Antoni Gaudí, o arquiteto catalão que transformou Barcelona em um dos mais singulares laboratórios de arquitetura do mundo. Poucos criadores conseguiram imprimir, de maneira tão profunda, sua visão sobre uma cidade e, ao mesmo tempo, expandir os limites da disciplina para além do seu tempo histórico.

Ao longo das últimas décadas, sua obra passou de expressão singular do modernismo catalão a referência incontornável para arquitetos, designers e engenheiros que

buscam compreender as relações entre natureza, estrutura e forma. Um século após sua morte, Gaudí continua a ser redescoberto – não apenas como autor de edifícios emblemáticos, mas como pensador de uma arquitetura capaz de integrar ciência, espiritualidade e observação da natureza. Essa atualidade explica por que 2026 foi declarado Ano Gaudí, mobilizando instituições culturais, museus e espaços arquitetônicos em uma extensa programação dedicada ao legado do arquiteto.

Detalhe da Casa Batlló (1904-1906), de Gaudí. Com formas orgânicas únicas e cores vibrantes, apresenta uma fachada adornada com azulejos de mosaico e elementos escultóricos que refletem o mundo natural. O telhado é formado por grandes escamas que simulam o dorso de um animal. | Foto: Freepik

Casa Vicens (1883-1885) foi a primeira encomenda que Gaudí recebeu e anunciou toda a sua obra arquitetônica posterior. É a sua primeira obra-prima e um dos primeiros projetos que inauguram edifícios do modernismo na Catalunha e na Europa. | Foto: Adobe Stock

ARQUITETURA COMO ORGANISMO VIVO

Nascido em 1852, Gaudí desenvolveu uma linguagem arquitetônica profundamente enraizada na observação do mundo natural. Em suas obras, a linha reta cede lugar a curvas orgânicas, superfícies ondulantes e estruturas que evocam formas vegetais ou geológicas. Mais do que uma escolha estética, tratava-se de um princípio construtivo.

O arquiteto costumava afirmar que a natureza continha as soluções estruturais mais eficientes, cabendo ao projeto interpretá-las. Dessa ideia nasceram sistemas inovadores de cálculo e construção, como os arcos catenários e as estruturas inclinadas, que distribuem o peso de forma quase orgânica.

Essa abordagem pode ser percebida em projetos que hoje fazem parte do imaginário coletivo da arquitetura mundial. A Basílica da Sagrada Família, iniciada em 1882 e ainda em construção, talvez seja o exemplo mais conhecido. Concebida como uma síntese entre engenharia, simbolismo religioso e experimentação formal, a obra alcançou um de seus momentos mais significativos justamente em 2026, quando a torre central de Jesus Cristo foi concluída, marcando um novo capítulo na longa história do templo.

Outros edifícios igualmente emblemáticos ajudam a compreender a amplitude de sua visão arquitetônica.

O Parque Güell, inaugurado em 1926, transforma paisagem e urbanismo em uma composição de mosaicos coloridos, colunas inclinadas e plataformas panorâmicas. Já residências como a Casa Batlló e a Casa Milà, conhecidas por suas fachadas ondulantes e pela riqueza artesanal dos detalhes, revelam um arquiteto atento tanto à estrutura quanto à experiência sensorial do espaço. Mais do que projetos isolados, essas obras compõem um repertório que transformou Barcelona em uma espécie de museu a céu aberto da arquitetura modernista.

“Acredito que, entre todos os arquitetos de seu tempo, Gaudí foi aquele que mais aproximou a arquitetura da arte. Suas obras impressionam não apenas pela qualidade arquitetônica, mas também pela liberdade e pela potência das formas”, avalia o arquiteto Eduardo Borges. Para ele, em duas das obras de Gaudí mais visitadas – a Casa Milà e a Basílica da Sagrada Família –, esse elo entre arte e arquitetura torna-se ainda mais evidente. “As formas orgânicas parecem esculpidas ou modeladas, e é impressionante observar como essa linguagem se materializa na pedra”, continua.

La Pedrera - Casa Milà (1906-1912). O edifício é emblemático tanto pelas inovações construtivas e funcionais como pelas soluções ornamentais e decorativas, que rompem com os estilos arquitetônicos da sua época. | Foto: Freepik

ENTRE ARTE, TÉCNICA E ESPIRITUALIDADE

Uma das razões para a permanência de Gaudí no debate contemporâneo é justamente a dificuldade de classificá-lo. Sua produção atravessa fronteiras disciplinares e desafia categorias tradicionais da arquitetura. Para alguns estudiosos, ele foi um precursor da arquitetura paramétrica ao experimentar sistemas estruturais que hoje seriam modelados digitalmente. Para outros, sua obra representa uma síntese rara entre arte, artesanato e engenharia, em um período em que essas áreas ainda se entrelaçavam no processo construtivo.

“Gaudí ocupa um lugar singular na história da arquitetura porque tensiona as fronteiras entre construção, arte e imaginação formal. Sua obra revela uma compreensão muito sofisticada da natureza como princípio estrutural e não apenas como repertório decorativo. Um século de-

pois, ela continua a nos desafiar a pensar a arquitetura para além da repetição de modelos, como um campo aberto à invenção e à experimentação”, diz o arquiteto, curador e professor de História da Arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), Agnaldo Farias.

Há também uma dimensão espiritual que atravessa grande parte de seus projetos. Nos últimos anos de vida, Gaudí dedicou-se quase exclusivamente à Sagrada Família, concebida como uma expressão arquitetônica da fé cristã. O edifício, com suas torres esculpidas e fachadas narrativas, traduz em pedra uma complexa simbologia religiosa. Essa combinação entre rigor estrutural, imaginação formal e significado simbólico ajudou a consolidar sua reputação como um dos arquitetos mais originais da história.

UM LEGADO EM CONSTANTE REDESCOBERTA

Cem anos após sua morte – ocorrida em 1926, após ser atropelado por um bonde em Barcelona –, a obra de Gaudí continua a gerar novas interpretações e descobertas. Recentemente, por exemplo, estudos técnicos confirmaram a autoria do Xalet del Catllaràs, na Catalunha, ampliando o conjunto de projetos atribuídos ao arquiteto.

Essa redescoberta permanente é também reflexo do caráter experimental de sua produção. Ao explorar materiais, estruturas e sistemas construtivos pouco convencio-

nais para sua época, Gaudí deixou um legado que ainda hoje inspira pesquisas sobre sustentabilidade, biomimética e inovação estrutural.

Não por acaso, muitas leituras contemporâneas de sua obra destacam justamente a atualidade de seus princípios. A atenção aos ciclos da natureza, o uso eficiente dos materiais e a integração entre edifício e paisagem antecipam debates que hoje ocupam o centro da agenda arquitetônica.

Detalhe da Escadaria do Dragão, no Park Güell. O dragão, coberto por um mosaico decorativo de fragmentos de azulejos, tornou-se a imagem mais popular do parque. | Foto: Freepik

UM ANO

DE CELEBRAÇÕES

Para marcar o centenário, instituições culturais da Espanha e de outros países organizaram uma ampla programação de exposições, congressos, concertos e intervenções urbanas dedicadas à obra do arquiteto.

Em Barcelona, edifícios como a Casa Batlló, o Parque Güell e a própria Sagrada Família recebem atividades especiais ao longo de 2026, incluindo exposições, instalações de arte e encontros internacionais sobre arquitetura e patrimônio.

Entre as iniciativas internacionais, uma das mais aguardadas é a exposição Gaudí: Back to the Origins, que estreou em Tóquio e apresenta ao público asiático a trajetória do arquiteto catalão a partir de seus primeiros experimentos formais e estruturais. A mostra segue em itinerância internacional, com próxima parada prevista para Osaka, em março de 2026.

Detalhe de um dos pavilhões da entrada principal do Parque Güell. O telhado foi construído com as tradicionais telhas de barro catalãs cobertas com "trencadís", um mosaico feito de fragmentos de telha. | Foto: Freepik

Detalhe do Parque Güell, projetado por Gaudí a pedido de Eusebi Güell. Na época, a relação entre eles já estava bem estabelecida devido a encomendas anteriores, como El Capricho, a propriedade Güell e o Palácio Güell. Foto: Freepik

GAUDÍ E O FUTURO DA ARQUITETURA

Ao revisitar a obra de Gaudí cem anos depois, o que se revela não é apenas a singularidade de um arquiteto, mas a persistência de um pensamento arquitetônico que continua a dialogar com o presente. Em um momento em que a arquitetura busca novas formas de conciliar tecnologia, sustentabilidade e experiência sensorial do espaço, suas obras reaparecem como um campo fértil de investigação. Nelas, forma e estrutura não se opõem; surgem, antes, como manifestações de um mesmo princípio construtivo.

“A riqueza de detalhes certamente faz parte desse legado, mas acredito que a mistura quase alquímica entre os materiais seja um de seus aspectos mais marcantes. A meu ver, essa forma de combinar matéria e forma continua a orientar muitos caminhos da arquitetura contemporânea. A elegância que emerge dessa composição revela um pensamento muito à frente de seu tempo – e talvez, em certos aspectos, ainda à frente do nosso próprio”, finaliza Eduardo. Talvez seja justamente essa capacidade de ultrapassar seu próprio tempo que explique a permanência de Gaudí no imaginário da arquitetura. Mais do que um autor de edifícios extraordinários, ele deixou uma pergunta aberta sobre o que a arquitetura ainda pode ser quando observa, com atenção, as leis da natureza e as aspirações humanas.

O DESIGN É PARA TODOS

A cidade de São Paulo foi palco de um amplo circuito criativo e reuniu marcas, estúdios e profissionais da arquitetura e do design durante duas semanas de março. Com o tema Legado Criativo, o evento foi uma grande celebração pelos 15 anos da DW! Semana de Design.

Em 2012, Lauro Andrade conseguiu implementar uma ideia que já o acompanhava havia alguns anos e criou a DW! Semana de Design de São Paulo. Inspirado em dois eventos de grande expressão mundial – a Semana de Design de Milão e a London Design Week –, já na primeira edição reuniu 40 criativos em aproximadamente cem eventos, realizados em um único fim de semana. Passados 15 anos, uniu 150 marcas, instituições e estúdios em mais de 400 atividades, majoritariamente gratuitas, para um público de cerca de 120 mil pessoas.

“A cidade se transforma em um circuito pulsante de ideias, experiências, repertório e conexões — e isso, por si só, já é democratização”.
Lauro Andrade

Não à toa, o festival urbano é hoje um dos maiores do mundo neste setor. O tema não poderia ter sido mais apropriado: Legado Criativo, expressão que traduz a pluralidade e a colaboração. “Ao longo destes anos, a DW! evoluiu em sintonia com o mercado e com o design brasileiro. Juntos, estruturamos propostas, ferramentas e ações capazes de posicionar o Brasil no cenário internacional com autenticidade e um legado criativo e coletivo que se destaca não apenas pelos números, mas também pelo reconhecimento da crítica”, contou Lauro Andrade em entrevista à Habitat.

Lauro Andrade, idealizador da DW! Semana de Design de São Paulo, o maior festival urbano de design e arquitetura da América Latina. Foto: Gal Oppido

Feira na Rosenbaum, no Centro, um dos nove distritos da edição comemorativa de 15 anos da DW! Semana de Design. Foto: Fabiano Sanches

A arquiteta Luize Andreazza Bussi acredita que o legado criativo da DW! reside na ampliação contínua de repertório que o evento proporciona. “Em um campo como o do design e das artes, é fundamental manter o olhar atento tanto ao que acontece no cenário global quanto ao que está sendo criado e pensado no Brasil”, diz a arquiteta. Para ela, ano após ano, a DW se firma como um momento privilegiado de encontro com o universo autoral brasileiro.

“É um ambiente fértil de trocas, no qual novas linguagens, materiais e ideias circulam e permanecem como referências. São Paulo se torna um palco vivo, em que os espaços urbanos reforçam suas identidades e relevância, contaminando criativamente todos que os vivenciam. Visitar a DW é um convite à reflexão que ecoa e reverbera por muito tempo dentro do nosso acervo imagético e conceitual”, finaliza a arquiteta.

AS TRAMAS COMO METÁFORAS

Espalhados pela cidade estavam os Distritos – como são chamados os territórios criativos que são desenhados para o evento, que não coincidem com a divisão geopolítica oficial. O estúdio Colletivo Design foi o responsável por traduzir o conceito de indivíduo múltiplo em identidade visual. “Inspirada na metáfora das tramas, a proposta entende cada indivíduo como um fio que, ao se entrelaçar a outros, forma uma força coletiva plural e perene. Presente em saberes ancestrais e práticas culturais, a trama traduz o legado como construção compartilhada, transmitida e constantemente transformada”, conta Lauro.

A autenticidade e o DNA são os elementos de convergência desse caldeirão criativo chamado Brasil. “De norte a sul, designers e marcas estão em busca daquilo que lhes é regional, da tradução contemporânea de suas origens e referências culturais. Ao mesmo tempo, há uma capacidade muito brasileira de combinar repertório técnico com identidade local, transformando diversidade em linguagem própria. Essa síntese entre cultura, inovação e contexto é, a meu ver, o que cria unidade dentro da pluralidade de um país continental”.

Instalação especial com peças assinadas por Karim Rashid, para a Natuzzi Italia, apresentadas no evento BOOMSPDESIGN, um dos principais fóruns criativos do Brasil, que fez parte da programação da DW! | Foto: Divulgação Natuzzi São Paulo

Além de um grande movimento cultural que inspira e conecta pessoas, Lauro destaca o papel da DW! na formação de um diálogo permanente entre indústria, varejo e designers. “Sempre trabalhamos com a premissa de ampliar o acesso ao que está sendo produzido. Ainda que nem todos possam adquirir determinadas peças, durante o evento é possível conhecer os processos, dialogar com os criadores e vivenciar essa produção de perto. A cidade se transforma em um circuito pulsante de ideias, experiências, repertório e conexões — e isso, por si só, já é democratização”.

O arquiteto Jayme Bernardo, que acompanha a DW! desde a primeira edição, afirma que o mais lhe impressiona é a mobilização que a feira traz para expositores, artistas e visitantes. “O Lauro consegue unir todas as tribos do design com um objetivo plural e muito rico para a comunidade”, conta o arquiteto. “Quando falamos de design e de criatividade, pensamos em perpetuação, em perenidade. Nestes 15 anos de existência, vejo que o legado é a própria DW!, é a consolidação de uma ideia e de sua função muito bem definida e eficaz. É inspiracional”, finaliza.

O aparador VÊ: o corte em V que divide a porta e cria um nicho integrado. Criado pelo Studio DIEEDRO, do arquiteto e designer Jayme Bernardo, especialmente para a DW!15. | Foto: Divulgação Studio DIEEDRO

A DW! impulsiona reflexão, inspiração, negócios e conexões no arqdesign nacional, além de ampliar repertórios ao promover a criatividade, a autenticidade e a pluralidade da produção brasileira. De forma integrada, diversa e descentralizada, apresenta os variados elos da cadeia produtiva do setor e seu legado autoral. “O design é — e

deve ser — para todos. Existem, naturalmente, diferentes camadas de mercado e perfis de consumo, mas o design, em essência, está ligado à forma como vivemos e nos relacionamos com o mundo. Costumo dizer que não há nada mais autoral do que a flora brasileira: é design em estado puro”, finaliza Lauro Andrade.

Linha HAAZ de luminárias, criadas pelo Studio DIEEDRO, do arquiteto e designer Jayme Bernardo, lançada durante a DW!15. | Foto: Divulgação Studio DIEEDRO

PEQUENOS DESIGNERS

O artista coreano Taekhan Yun apresenta o projeto Cadeiras para Crianças, no qual os alunos de uma escola no Camboja transformaram a imaginação em objeto palpável.

Foram 140 desenhos, feitos por 70 crianças, que resultaram na produção de sete cadeiras no projeto Cadeiras para Crianças, do artista coreano Taekhan Yun. | Foto: Divulgação Taekhan Yun

Amaterialização de cadeiras desenhadas por crianças não é algo inédito ou necessariamente original. Ainda assim, parece que sempre acontece algo mágico quando uma criança se expressa em um desenho e, depois, ele se torna um objeto. Assim é o projeto do coreano Taekhan Yun, 32 anos, nascido em Seul. Depois de se graduar em Geografia e trabalhar com fotografia e arte ainda na Coreia, mudou-se para a França para estudar design de produto na École Supérieure d'Art et Design de Saint-Étienne (ESADSE).

Apesar da formação acadêmica, não se considera um designer. “Acredito que o papel do designer é resolver problemas públicos, o que não se vê nos meus projetos. Sou alguém que quer contar as histórias que se desenrolam ao redor, sejam pessoais ou sociais, por meio de objetos. E, na maioria das vezes, esse objeto é uma cadeira”, disse em entrevista à Habitat.

O projeto aconteceu em três etapas: a primeira envolveu desenhar cadeiras e bancos; a segunda, medir os corpos e criar protótipos em argila; e, por fim, colorir as cadeiras finalizadas com giz de cera.

Foto: Divulgação Taekhan Yun

DE CRIANÇA PARA CRIANÇA

O projeto Cadeira para Crianças foi implementado no Camboja, na cidade de Siem Reap, em uma escola de inglês dirigida pelos pais de Taekhan. “Observei crianças pequenas frequentando as aulas enquanto ajustavam seus corpos a cadeiras projetadas para adultos. Aquela cena pareceu mais do que um simples inconveniente. Revelou como o mobiliário e o espaço são rotineiramente projetados com base em padrões adultos, enquanto se espera que as crianças se adaptem e permaneçam complacentes dentro desses ambientes”.

O projeto começou com uma tentativa de criar cadeiras para o tamanho exato dos alunos, mas foi muito além. O artista percebeu que seria mais interessante se as crianças experimentassem um processo no qual seus próprios corpos e escolhas se tornassem a base para o design. O projeto consistiu em três etapas: a primeira envolveu desenhar cadeiras e bancos; a segunda, medir os corpos e criar protótipos em argila; e, por fim, colorir as cadeiras finalizadas com giz de cera.

A ideia nasceu da observação: o designer Taekhan Yun constatou que as crianças ajustavam seus corpos a cadeiras projetadas para adultos. | Foto: Divulgação Taekhan Yun

Ao todo, surgiram 140 desenhos, feitos por 70 crianças, que resultaram na produção de sete cadeiras. “Quando chegava a hora do recreio, elas corriam para o espaço de trabalho e observavam atentamente como suas cadeiras estavam sendo feitas. Não se tratava simplesmente de esperar pelo resultado – era um momento para testemunhar como os materiais gradualmente ganham forma. A experiência de ver sua imaginação se tornar uma estrutura real foi um momento especial para elas, e para mim também”.

Os objetos não estão expostos, nem à venda. São continuamente usados na escola. Taekhan guardou os desenhos, os registros das medidas corporais e os protótipos

Mais do que reciclar, o artista trabalha com a proposta de reparar; não envolve um novo ciclo de produção ou consumo. | Foto: Divulgação Taekhan Yun

As cadeiras não estão expostas, nem à venda: são usadas no dia a dia da escola. | Foto: Divulgação Taekhan Yun

para futuras exposições. “Uma cadeira é uma estrutura que pressupõe o assento de alguém. As histórias que quero expressar exigem um momento em que algo exista. Traduzo esse momento em um assento e dou a ele uma forma física. Uma cadeira materializa essa história de forma simples, porém clara. É por isso que repito a cadeira”.

O artista explica que, apesar de sempre ter se interessado por reciclagem, o ato de reciclar, muitas vezes envolve outro ciclo de produção e consumo. Por isso, concentra-se mais em reparar. “Coleciono objetos quebrados ou descartados e, mantendo sua estrutura original, adiciono novas camadas para que possam existir novamente com forma e significado diferentes. Para mim, é menos sobre criar algo totalmente novo e mais sobre estabelecer um relacionamento renovado com algo que já existia”.

CONEXÕES, MERCADOS E TENDÊNCIAS NA SUPERFÍCIE DO PROJETO

A Expo Revestir 2026 revelou como a indústria cerâmica se inscreve em uma lógica global de produção e design, reafirmando dados de mercado, caminhos sustentáveis e narrativas estéticas que começam a desenhar o futuro do espaço construído

Michelangelo Natura, nova linha da Michelangelo Mármores do Brasil, propõe valorizar a essência natural do mármore aliada ao desempenho técnico. | Foto: Divulgação Michelangelo Mármores do Brasil

São Paulo voltou a sediar, em março, um dos principais encontros do calendário da construção civil e do design de interiores: a Expo Revestir, promovida pela Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos, Louças Sanitárias e Congêneres (Anfacer), no pavilhão São Paulo Expo. Reconhecida como ponto de convergência para profissionais de revendas, construtoras, arquitetos e designers, a feira reiterou seu papel como espaço de articulação entre negócios, indústria e projeto.

Mais do que uma vitrine de produtos, a 24ª edição da Expo Revestir apresentou um panorama das movimentações que atravessam o mercado de revestimentos e acabamentos – dos desafios relacionados à sustentabilidade e ao cenário econômico global à consolidação do Brasil e da

América Latina no circuito internacional de design e produção. Com mais de 300 expositores distribuídos em cerca de 65 mil metros quadrados, o evento funcionou como um recorte do momento atual do setor, marcado por ajustes estratégicos e busca por diferenciação.

“Nossa proposta foi a de ultrapassar a simples apresentação de produtos, fazendo um convite à reflexão sobre a interação entre arquitetura, forma, função, design e tecnologia”, diz o presidente executivo da Expo Revestir e Anfacer, Maurício Borges. Segundo ele, cada ambiente foi concebido para estimular o olhar. “Buscamos evidenciar como a criatividade, associada à inovação, tem o poder de transformar a maneira como vivemos e ocupamos os espaços”, comenta.

DO NEGÓCIO ÀS CONEXÕES

Nos corredores do São Paulo Expo, a dinâmica foi além da exposição de superfícies. Programas como o Buyer Projeto e o Exporta Mais reforçaram a intenção de ampliar o diálogo com compradores estrangeiros e estruturar oportunidades comerciais. Na edição de 2025, foram realizadas mais de mil reuniões entre expositores brasileiros e importadores internacionais, com expectativa de geração relevante de negócios.

Esse movimento sinaliza uma mudança de escala: a feira deixa de operar apenas como palco de lançamentos e

assume a função de ferramenta estratégica de internacionalização, conectando indústria, mercado e especificadores. “Penso que nos consolidamos como um pilar de estabilidade e articulação estratégica. Ao impulsionar negócios no mercado interno e ampliar as oportunidades de exportações, a feira fortalece toda a cadeia da construção civil e projeta o setor para um novo patamar de competitividade”, argumenta Maurício.

TENDÊNCIAS QUE EMERGEM NO MATERIAL

A edição de 2026 também evidenciou diretrizes que devem orientar o setor nos próximos anos. Sustentabilidade e rastreabilidade produtiva aparecem como requisitos cada vez mais incorporados às cadeias industriais. A ampliação de formatos, a evolução dos processos de impressão e a busca por maior desempenho técnico das superfícies indicam um avanço consistente da tecnologia aplicada ao revestimento.

No campo estético, nota-se a valorização de repertó-

UM SETOR QUE SE AFIRMA GLOBALMENTE

A presença da Anfacer como promotora da Expo Revestir está diretamente relacionada à posição que a indústria cerâmica brasileira ocupa no cenário internacional. Segundo dados divulgados pela entidade, o Brasil é o terceiro maior produtor e consumidor mundial de revestimentos cerâmicos e ocupa a sexta posição no ranking das exportações, com produtos destinados a mais de 110 países.

rios que dialogam com matérias-primas naturais, texturas minerais e referências latino-americanas, reforçando uma identidade que transita entre tradição e contemporaneidade. Falar sobre arquitetura, aliás, foi parte central da programação. A Central da Arquitetura, um espaço concebido para expor, discutir e registrar a história viva da arquitetura brasileira, contou com programação e curadoria exclusiva, com nomes como Gustavo Garrido, Felipe Abbud, Murilo Vidal, Marcelo Rosenbaum, Alê Salles e Thiago Bernardes.

A linha Mármore de Carrara, da Portobello, ressurge combinando memória e vanguarda. | Foto: Divulgação Portobello

A Guararapes lançou, em parceria com o arquiteto Arthur Casas, o MDF Carvalho Nórdico. |Foto: Divulgação Guararapes

Os números dimensionam a escala de um segmento que, embora vinculado à cadeia da construção, opera em uma lógica cada vez mais conectada ao design, à inovação tecnológica e à inserção internacional. Nesse contexto, a Expo Revestir atua como plataforma de visibilidade e negociação, alinhando produção nacional, demandas globais e estratégias de expansão. “Hoje, a Expo Revestir representa uma solução estratégica completa para empresas que buscam ampliar mercados, ganhar eficiência comercial e fortalecer seu posicionamento”, avalia o diretor executivo do evento e também da Anfacer, André Soares. Visibilidade, fechamento de negócios, aumento da competitividade e o desenvolvimento do setor, segundo ele, estão entre os resultados esperados.

Nova linha de Painéis Ripados em WPC (Wood Plastic Composite) da Ruffino Acabamentos: versatilidade, facilidade de manutenção e durabilidade superior. Foto: Divulgação Ruffino Acabamentos

LEGADO E FUTURO

O acabamento Linho une inovação técnica, sensorialidade e sofisticação. Este lançamento do PR Grupo Paraná, autoridade em rochas naturais, foi inspirado na delicadeza e na trama orgânica do tecido que lhe dá nome. Foto: Divulgação PR Grupo Paraná

Ao final de cinco dias de atividades, a Expo Revestir 2026 apresentou um retrato objetivo de um setor em transformação. Em meio a pressões econômicas, exigências ambientais e reconfigurações de mercado, a indústria cerâmica brasileira reafirma sua capacidade produtiva e sua inserção internacional.

Eventos dessa natureza evidenciam que a construção do espaço – em suas dimensões técnica, econômica e cultural – depende de articulações que extrapolam o produto. O revestimento, nesse cenário, deixa de ser apenas acabamento para assumir papel estrutural na experiência do ambiente construído. Mais do que apontar modismos, a feira delineia movimentos que tendem a repercutir nos projetos e nas cidades nos próximos anos.

CONSTRUINDO O FUTURO

Projeto criado pela designer Marília Bender Almeida estrutura uma rede de reaproveitamento de materiais da construção civil e propõe um novo olhar sobre a cultura do descarte no setor.

Em uma área historicamente marcada pelo excesso de resíduos — segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), em 2024 o setor da construção civil produziu cerca de 48 milhões de toneladas —, a Caçamba do Bem propõe um deslocamento de lógica. Aquilo que seria entulho volta a circular como material, mobiliário ou insumo para novos projetos. Idealizada pela designer de interiores Marília Bender Almeida, a iniciativa já transformou mais de 15 mil descartes em oportunidades.

Na prática, funciona como uma ponte entre quem quer

se desfazer de materiais e quem busca alternativas viáveis para construir ou reformar. Ao propor uma revisão da cultura do descarte, a Caçamba do Bem insere a circularidade no centro do debate da construção civil. E desloca o conceito de qualidade da obra para além da estética, envolvendo responsabilidade e permanência, seja qual for o porte ou o padrão da obra. “Para mim, o alto padrão do futuro é o que melhor decide”, afirma a designer. “Não se trata de sair substituindo tudo sem consciência, mas ter critério para entender o que realmente precisa ser renovado e o que ainda tem valor de uso”.

A designer Marília Bender Almeida, idealizadora da Caçamba do Bem | Foto: Divulgação

COMO A TROCA ACONTECE

Em outubro de 2025, Caçamba do Bem e WoodSkull promoveram uma collab inédita em um bazar especial de itens Quase Perfeitos. | Foto: arquivo Caçamba do Bem

Com pessoas físicas, o trabalho ocorre exclusivamente por meio de doações. Já com construtoras, lojas e fábricas, a atuação acontece em modelo consignado, viabilizando a venda de estoques parados. Assim, em ambas as frentes, transforma-se um possível passivo em oportunidade, conectando excedentes e necessidades.

“Sempre defendemos a ideia de uma corrente do bem. O doador ou lojista é beneficiado porque resolvemos um problema de espaço e damos destino ao que está sobrando. Os compradores ganham porque conseguem adquirir materiais de boa qualidade por valores mais acessíveis.

O fotógrafo Pedro Mamoré garimpou no bazar da Caçamba do Bem estas peças que hoje fazem parte do seu acervo pessoal.| Foto: Pedro Mamoré

E as instituições também se beneficiam ao receber doações que ajudam a melhorar sua infraestrutura”.

O crescimento do projeto, fundado em 2018, exigiu estruturação de processos. Hoje, é feita uma curadoria prévia para avaliar o potencial de reaproveitamento de cada item. Quando aprovado, a Caçamba organiza a logística de desmontagem e retirada, direcionando os recursos aos galpões, onde ficam armazenados e catalogados. De acordo com Marília, esse fluxo organizado é essencial para equilibrar logística, curadoria e armazenamento.

O objetivo do projeto é ganhar escala sem perder a essência. | Foto: Divulgação

“Não se trata de sair substituindo tudo sem consciência, mas ter critério para entender o que realmente precisa ser renovado e o que ainda tem valor de uso”. Marília Bender Almeida, idealizadora da Caçamba do Bem

Ela revela que, entre os descartes frequentes, chamam atenção os móveis planejados. “Em reformas, é muito comum as pessoas acharem que, fora do ambiente original, aquele mobiliário não tem mais vez, e ele acaba sendo descartado quase automaticamente”, conta. “Só que, olhando de forma mais técnica, muitos desses móveis estão estruturalmente preservados e com alto potencial de reaproveitamento, seja com pequenas adaptações de medida, reconfiguração de módulos ou até uso em outros ambientes. Aqui na Caçamba, a gente vem batendo bastante nessa tecla: mesmo tendo sido pensado para um espaço específico, esse mobiliário pode, e muitas vezes deve, continuar em circulação”. Depois de oito anos à frente do projeto, Marília observa uma mudança de pensamento entre os profissionais, cada vez mais questionadores em relação ao descarte imediato e mais atentos à busca por caminhos de reaproveitamento. Por isso, é tão difícil hierarquizar os efeitos da iniciativa.

O impacto ambiental é muito claro no momento em que se evita que materiais em perfeito estado virem entulho. O social também é nítido, com a conexão desses itens com quem realmente precisa. “Mas, olhando de forma mais ampla, diria que hoje o maior impacto da Caçamba do Bem é cultural. Para mim, esse é o bem mais precioso da Caçamba: quando a mentalidade muda de forma coletiva, o alcance da transformação se multiplica”.

No horizonte, a meta é ganhar escala sem perder a essência. E que iniciativas como essa deixem de ser casos isolados. “A principal virada ainda é de mentalidade. Quando o setor parar de ver sobra e começar a ver recurso, a circularidade deixa de ser exceção e passa a ser regra. No fim, a mudança que falta não é técnica. É cultural”.

LEGADO QUE SE VIVE:

MEMÓRIA, CIDADE E FUTURO NO ENCONTRO

ENTRE BATEL E BIGORRILHO

Iniciativa da Piemonte Incorporadora, a Praça Legado conecta histórias, território e novas formas de viver a cidade

Em uma das regiões mais emblemáticas de Curitiba, onde tradição e transformação caminham lado a lado, a Praça Legado convida a cidade a olhar para o passado para projetar o futuro. Mais do que uma área de convivência, o espaço propõe uma experiência urbana baseada em memória, pertencimento e continuidade.

Localizada no encontro entre os bairros Batel e Bigorrilho, dois territórios que ajudam a contar a história da capital paranaense, a iniciativa da Incorporadora Piemonte resgata um elemento essencial da vida urbana: a valorização das narrativas que moldaram a identidade dos lugares.

A Praça Legado integra o Piemonte GentiU, progra-

ma de gentilezas urbanas criado pela incorporadora para transformar terrenos em fase pré-obra em espaços temporários de uso público. A proposta é antecipar a relação dos empreendimentos com o entorno, oferecendo à cidade áreas abertas, acessíveis e pensadas para a convivência.

“Entendemos que o desenvolvimento urbano pode, e deve, gerar impacto positivo desde o início. O Piemonte GentiU nasce com esse propósito, de contribuir com a cidade antes mesmo das obras, criando espaços que estimulam encontros, permanência e conexão com o entorno”, afirma o diretor-presidente da Incorporadora Piemonte, Filipe Biscaia Demeterco.

Iza Grein, Silvana Meucci, Luiza Tosin, Beatriz Tosin, Yara Mendes, Irene Gomm, Zilda Fraletti e Mada Pereira.

MEMÓRIAS QUE GANHAM VOZ — E ROSTO

Com cerca de 4.975 m², a praça reúne jardim, parquinho, área pet e espaços de convivência, além de uma exposição a céu aberto com fotografias das protagonistas da websérie “As Dóras das nossas vidas”. A série apresenta, ao longo de oito episódios, histórias reais de mulheres que contribuíram para a construção social, cultural e afetiva dos bairros Batel e Bigorrilho e, consequentemente, de Curitiba. Protagonizada por figuras que atravessam gerações, a websérie resgata memórias, vivências e transformações que seguem presentes no cotidiano da cidade.

Na praça, essas histórias ganham forma também no espaço físico: as imagens das Dóras ocupam o ambiente como um convite à contemplação e ao reconhecimento, conectando passado e presente e reforçando a proposta de integrar urbanismo, identidade e pertencimento. Entre as protagonistas estão Iza Grein, Silvana Meucci, Luiza Tosin, Beatriz Tosin, Yara Mendes, Irene Gomm, Zilda Fraletti, Mada Pereira e Yasmin Bonilha, cujas trajetórias atravessam gerações e ajudam a preservar a memória viva da cidade.

Com episódios publicados semanalmente, sempre às segundas-feiras, no Instagram da incorporadora (@piemonte.inc) e no site www.legadopiemonte. com.br, a série teve início no dia 08 de março e segue até a semana que antecede o Dia das Mães, em maio, uma escolha simbólica que reforça o papel feminino na construção dos legados urbanos e familiares.

Ao conectar espaço físico e narrativa, a Praça Legado se consolida como um convite à experiência da cidade sob uma nova perspectiva. No encontro entre o dinamismo do Batel e o perfil residencial e acolhedor do Bigorrilho, o projeto propõe uma pausa no ritmo urbano para valorizar aquilo que realmente sustenta o desenvolvimento das cidades: as histórias.

Mais do que ocupar um terreno, a iniciativa evidencia que construir também é preservar — e que o futuro se fortalece quando reconhece o valor do que veio antes.

Certificada pela norma ISO 9001:2008 e integrante do Nível A do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), a Piemonte Incorporadora é referência em excelência construtiva e comprometida com as melhores práticas do setor. A empresa integra o Grupo Plenaventura, holding que desde 1998 atua com foco na geração de valor aos acionistas e na plena satisfação de seus cliente.

Saiba mais: www.legadopiemonte.com.br @piemonte.inc

O LUGAR DA PALAVRA

Em meio à saturação das telas, clubes de leitura crescem como espaços de pausa, escuta e encontro. Um retorno ao tempo compartilhado por meio da palavra.

Oque Gucci, Oprah Winfrey, Reese Witherspoon, Dua Lipa, Natalie Portman, Astrid Fontenelle e Zeca Camargo têm em comum? À lista, de forma esporádica, ainda é possível incluir Chanel, Miu Miu, Prada e Sarah Jessica Parker. Entre shows e gravações, essas marcas e celebridades abriram espaço em suas agendas para escolher um livro e convidar outras pessoas a lê-lo também.

Os clubes de leitura não são uma novidade. Pelo contrário. A prática de ler e discutir textos em grupo remonta à Antiguidade — na Grécia, diálogos filosóficos e leituras públicas já estruturavam reuniões em torno da escrita. No entanto, o formato mais próximo ao atual começou a se delinear na Europa moderna.

Nos séculos 17 e 18, os salões literários franceses reuniam escritores e leitores para debater obras e ideias; na Grã-Bretanha, as reading societies organizavam grupos em torno de livros compartilhados. No século 19, o modelo expandiu-se para os Estados Unidos com os reading circles. Desde então, a lógica permanece essencialmente a mesma: um título em comum e a disposição para conversar sobre ele.

Durante a pandemia, quando o mundo encolheu ao tamanho das telas, as reuniões literárias multiplicaram-se por meio de lives e encontros por vídeo. Se o relacionamento digital se impunha, a literatura ressurgia como opção tanto de descompressão quanto como tentativa de conexão em meio ao isolamento.

Passado o caos, os clubes continuam aí. Enquanto a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que, nos últimos anos, o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores e que mais da metade da população não leu nenhum livro nos três meses anteriores à sua realização (2024), os grupos não param de crescer. Sem números oficiais, proliferam os organizados por livrarias, bibliotecas, coletivos independentes, marcas e pessoas comuns. Pequenos núcleos que se reúnem em cafés, bibliotecas, salas de estar ou plataformas digitais.

Luciana Gerbovic, mediadora há mais de 15 anos, inclusive na Escrevedeira, centro cultural dedicado à leitura e à escrita do qual é sócia, confirma o boom. “As pessoas começaram a procurar a sustentação que a arte traz nessas horas, um filme, uma música, e aproveitaram o tempo de deslocamento para voltar a ler ou começar”, avalia.

PARA TODOS OS PERFIS

Na Escrevedeira, Luciana media dois clubes, o de Clássicos Estrangeiros e o de Contemporâneos. Mas, acredite, há grupos para todos os interesses. Literatura brasileira, inglesa, afro-brasileira, LGBTQIA+, ficção científica, fantasia, poesia, escritos por mulheres… Assim é a Amora, um clube de assinatura que promove uma sessão on-line mensal sobre o livro que chega às casas das assinantes.

“Nosso objetivo é mostrar que existe uma produção literária vasta, rica e diversa escrita por mulheres, que merece ser conhecida, discutida e celebrada. Ler mais autoras é uma forma de ampliar as referências literárias e iluminar histórias contadas sob a perspectiva feminina, oferecendo maior identificação e novas maneiras de pensar, habitar o corpo e o território”, explica Fernanda Ávila, sócia e mediadora da Amora.

Ela conta que, desde o começo, em 2022, as conversas já faziam parte do conceito, pelo poder transformador do compartilhamento. “Percebemos que muitas assinantes queriam discutir, questionar e se emocionar juntas, crian-

do um espaço seguro e acolhedor para refletir sobre as histórias, as personagens e os temas que esses livros trazem. Era, e ainda é, uma forma de transformar a leitura em diálogo”, diz.

Segundo ela, apesar de o público ser formado por mais de 90% de mulheres, não há um perfil rígido de participantes. Há quem busque conexão social, quem deseje discutir as obras e quem queira compartilhar experiências e sentir-se parte de uma comunidade. O que as une é o interesse em ouvir, aprender e se deixar tocar por histórias que ampliam horizontes e desafiam modos de pensar já estabelecidos.

Mas há alguns pontos em comum. “Quem participa dos encontros costuma ser alguém aberto à reflexão, que gosta de compartilhar perspectivas e de ouvir diferentes interpretações — mas não é necessário ser especialista em literatura. O que as une é o amor por boas histórias e a vontade de se conectar”, define Fernanda.

Clube Literário Miu Miu, durante a Semana de Design de Milão, em 2025. A marca mostrou que vai muito além da estética ao promover leituras e debates sobre obras de grandes autoras mundiais. | Foto: Divulgação Miu Miu

Criado por Paola Gulin há 10 anos e produzido pela NomadRoots, o ClubeNomad tem como propósito dar a volta ao mundo e expandir visões por meio da literatura. “Acreditamos que a literatura, essa expressão universal da arte, é uma das formas mais profundas de conhecer culturas. Por meio dos livros, conseguimos acessar modos de vida, valores, conflitos e afetos que dificilmente seriam compreendidos de maneira superficial. Ler, nesse sentido, é um caminho privilegiado para compreender o outro”, afirma Maria Claudia Cassou, mediadora em Curitiba.

Ela diz que os livros escolhidos têm sempre forte representatividade dentro do país ou cidade selecionados. Carregam marcas da cultura local, acontecimentos históricos e contextos sociais. “Ao conhecer essas camadas, entramos em contato com realidades que podem estar distantes geograficamente, mas que, ao serem vividas por meio da narrativa, despertam identificação e é nesse movimento que a reflexão retorna para dentro de cada leitor”, explica.

As reuniões acontecem presencialmente. São duas turmas em Curitiba: no Pátio Batel e na AG7, esta exclusiva no condomínio Mandala, em parceria com a incorporadora. “As dinâmicas são semelhantes, mas cada grupo ganha características próprias. As participantes criam intimidade e passam a conversar de forma mais aberta e profunda sobre as obras. É um processo muito interessante de acompanhar”, diz.

Mesmo que o foco seja a troca, Maria Claudia acredita que os ambientes influenciam os grupos. No Pátio Batel, a comodidade conta. “O Pátio oferece uma experiência de refinamento e cuidado em cada detalhe. É um ambiente que valoriza o tempo, o encontro e a experiência de quem está ali”, analisa. Já no condomínio, por ser um ambiente extremamente aconchegante, há uma sensação de estar em casa, o que favorece conversas mais abertas, leves e espontâneas. O espaço cria um clima que convida à troca.

Luciana também acredita que os lugares interferem na

O Circolo Filologico Milanese, associação cultural fundada em 1872 para promover e difundir a cultura e o estudo das línguas e civilizações, foi o local escolhido para sediar o encontro do clube literário da Miu Miu, em 2025. | Foto: Divulgação Miu Miu

experiência e observa o aumento da procura pelos clubes presenciais, até como uma forma de fugir das telas. No entanto, não descarta a importância dos encontros on-line. Afinal, permitem que pessoas de cidades onde não há reuniões ao vivo participem. “Sempre que desligo a câmera, penso: onde mais essas pessoas se juntariam?”, questiona. “Tem psicanalista, advogado, arquiteto, professora… Gente da Bahia, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, São Paulo, às vezes brasileiro que mora fora, vidas tão diferentes. Então o formato on-line tem as suas maravilhas também”.

Seja onde for, e sobre qual tema, é unânime o desejo de pausa. Em um cotidiano mediado por telas, notificações e fluxos contínuos de informação, ler um livro torna-se um gesto de desaceleração. Exige tempo não fragmentado, atenção e silêncio. E, quando essa experiência individual se desloca para o contexto do clube, incorpora outra dimensão: a da escuta.

Não apenas falar sobre o que se leu, mas ouvir como o outro leu. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, autor de A Sociedade do Cansaço, afirma que vivemos sob uma lógica de excesso — de estímulos, de desempenho, de exposição — que produz fadiga e dispersão. Nesse contexto, escolher um livro, marcar uma data e sentar-se em roda, ou on-line, para conversar pode funcionar como antídoto. O crescimento recente dos clubes dialoga com essa necessidade de pausa: menos rolagem infinita, mais presença; menos resposta imediata, mais elaboração. A literatura oferece interioridade, e o clube amplia essa experiência ao transformá-la em conexão — uma forma de estar consigo e, simultaneamente, com os outros. Pode parecer pouca coisa, mas é justamente o que conecta celebridades e anônimos — e desperta o interesse de marcas em fazer parte. Em diferentes escalas, todos respondem à mesma inquietação contemporânea.

ANTES E DEPOIS DE FF

Fernanda Feitosa segue na vanguarda do diálogo entre galerias, artistas e público na 22ª edição da SP-Arte, o maior encontro entre arte e design do Brasil, que este ano retoma sua vocação internacional.

Realize qualquer pesquisa sobre a arte no Brasil e haverá sempre uma unanimidade: existe um mercado artístico brasileiro antes e um depois de Fernanda Feitosa. E isso não é retórica. Gestora cultural, colecionadora de arte e advogada, ela iniciou seu relacionamento profissional com as artes quando ainda nem havia algo que pudesse ser chamado de “mercado nacional”; sua contribuição para a evolução da cultura artística no país é vanguardista – e imensa.

Fernanda criou a SP-Arte, evento que concentrou e impulsionou um segmento até então disperso e fragmentado. Mais de duas décadas depois, entre os dias 8 e 12 de abril,

“Essa ebulição de histórias, referências, criatividade e beleza não acontece com frequência, mas, quando acontece, é algo a ser testemunhado”.
Fernanda Feitosa, criadora da SP-Arte

todos os olhos se voltam novamente para o Pavilhão da Bienal, onde acontecerá a 22ª edição da SP-Arte. “A SP-Arte é o maior encontro de arte e design realizado no Brasil. É o evento que marca o início do calendário – e não à toa muitas galerias reservam as exposições mais emblemáticas para abrir no período da feira. Temos galerias de arte com artistas históricos e contemporâneos, os estúdios de design que levam à feira o mobiliário moderno pelo qual o Brasil ficou conhecido, mas também designers cujas peças únicas, ou produzidas em pequena escala, ultrapassam o caráter funcional e são verdadeiramente obras de arte”, diz Fernanda em entrevista à Habitat.

Há mais de duas décadas, Fernanda Feitosa criou a SP-Arte, evento que concentrou e impulsionou um segmento até então disperso e fragmentado. | Foto: Divulgação

Estarão reunidas no Pavilhão 180 galerias de arte, design, instituições culturais e editoras. “A feira cresceu ainda mais e inaugura setores com galerias internacionais e projetos contemporâneos de design. Essa ebulição de histórias, referências, criatividade e beleza não acontece com frequência, mas, quando acontece, é algo a ser

testemunhado. Neste ano, vale destacar que o setor de design comemora 10 anos na SP-Arte – e não como um apêndice, mas como uma parte estruturante do evento, responsável por expandir e consolidar o design no mesmo nível da arte”.

Obra Mijano (2023) do peruano Santiago Yahuarcani. O artista visual e líder dos povos Uitoto é um dos destaques das galerias internacionais. | Foto: Cortesia da Crisis Gallery

A obra de Beatriz Milhazes, Fleur de la Passion Maracujá, 1995–1996, estará no estande da Almeida & Dale. Foto: Thomas DuBrock, Beatriz Milhazes Studio

PARA A ARTE, NÃO HÁ FRONTEIRAS

Outra novidade é a retomada do espaço para as galerias internacionais. “Teremos 16 galerias internacionais vindas de países como Espanha, Colômbia, Peru, EUA, Portugal, Uruguai, Reino Unido, Itália, Argentina e México, por exemplo. O ímpeto desses galeristas de estarem aqui significa um desejo de interagir não apenas com o mercado brasileiro e seus principais players, mas também com a cultura do Brasil e seus artistas”.

Fernanda conta que não há uma linha curatorial que guie os expositores, mas existem critérios que garantem a excelência dos participantes. “As galerias podem escolher o projeto que faz mais sentido para o momento da casa, seja de artistas com os quais pretendem trabalhar mais ao longo do ano, seja de narrativas que desejem associar aos seus programas. Muitas galerias escolhem apresentar artistas que estão em exposições importantes. É o caso de Ayrson Heráclito, destaque na Bienal de Veneza deste ano,

que estará nos estandes das galerias Paulo Darzé e Portas Vilaseca; e de Eustáquio Neves, também selecionado para a Bienal de Veneza, que estará nas galerias Vermelho e Cavalo”. As brasileiras Adriana Varejão, que estará na Flexa, e Rosana Paulino, na Mendes Wood DM, também ocuparão o Pavilhão do Brasil em Veneza.

“Outro destaque é na galeria peruana Crisis, com o trabalho de Santiago Yahuarcani, artista que terá uma individual no Masp neste ano (de 3 de abril até 2 de agosto). Nascido em 1960, é um autodidata e líder indígena do povo Uitoto, radicado em Pebas, uma comunidade remota da Amazônia peruana. Suas pinturas ilustram as cosmologias, histórias orais e conhecimentos ancestrais de sua comunidade, retratando mitos amazônicos, práticas de cura e a inteligência viva da floresta”. Outro exemplo é o artista pernambucano Montez Magno, que terá um livro retrospectivo lançado durante a feira e obras na galeria Marco Zero.

Adriana Varejão, Monocromo Branco #11, 12, 13 (tríptico), 2000, estande da Flexa. | Foto: Divulgação SP-Arte

UM MERCADO EM EXPANSÃO

Apesar de o mercado de arte brasileiro representar apenas 0,86% do mercado global, dado de uma pesquisa da Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABACT), em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Fernanda afirma que o Brasil se coloca como exemplo de maturidade, resiliência e crescimento sustentável. “Sem sofrer os abalos mais drásticos (seja para cima ou para baixo) que observamos na Ásia, Estados Unidos e Europa. Isso ficou claro na pandemia e se repete nos últimos anos”.

Além disso, Fernanda acredita que os colecionadores brasileiros estão entre os mais ativos do mundo e que o cenário é promissor. “O relatório Art Basel and UBS Survey of Global Collecting de 2025 indicou que 72% dos colecionadores brasileiros pretendem, em 2026, comprar

obras de arte e 69% visitar mais feiras e eventos de arte. No mesmo relatório, o Brasil lidera a preferência dos colecionadores por comprar em eventos presenciais, como feiras. O relatório do ano anterior, de 2024, apresentou a quantidade média de obras nas coleções. A média global é 37; no Brasil, 44”.

Um dos motivos desse comportamento resiliente é o fato de o mercado brasileiro se aperfeiçoar continuamente – além de o público da SP-Arte se renovar a cada edição. “O Brasil é reconhecido por sua produção riquíssima, de qualidade e originalidade informadas pela diversidade e história do próprio país – o que, globalmente, tem sido buscado por instituições e colecionadores para ampliar o escopo de seus acervos e preencher lacunas históricas”, finaliza.

Thomaz Rosa, Minha catenary (wipe the slate clean) para johns, 2024, estande da Quadra. | Foto: Edouard Fraipont
Gerson de Oliveira e Luciana Martins, bancos Rio, seixo de rio e aço carbono, estande da Ovo. | Foto: Ruy Teixeira

DO CIGARRO AO WELLNESS

Se as tendências são cíclicas, qual será o novo símbolo de status?

Scheila Schuchovski, estrategista de marca, reflete sobre o comportamento de consumo. | Foto: Caroline Castella

O cowboy fumando já foi símbolo de charme, liberdade e rebeldia. Hoje não é mais; mas até quando?

Foto: Imagem criada na IA.

Sabe o que eu aprendi estudando comportamento de consumo? Que nada é isolado.

O mundo se move em ondas e cada hábito, cada produto, cada marca é um sintoma do seu tempo.

Houve uma era em que o cigarro era protagonista. Era símbolo de charme, liberdade, rebeldia. A propaganda dizia venha para o mundo de Marlboro, e as pessoas iam. O cowboy de chapéu era aspiracional; fumar era status. Era cool.

Hoje? O cigarro é vilão. Não pode aparecer em filme, não pode ter anúncio, não pode nada. Porque a cultura mudou e a comunicação ajudou a enterrar esse símbolo.

O mesmo aconteceu com o álcool. Décadas de campanhas glamourizando o brinde, o exagero, a farra. Até que começaram as restrições, as políticas de controle e a narrativa também virou. De repente, o que era “diversão” virou “cuidado”.

E outra onda começou a subir: a onda do bem-estar. O movimento wellness. A geração saúde tomando as ruas. Pilates, iogurte proteico, matchá, corrida de rua, academias cheias às 6 da manhã, bebida Zero. A saúde virou estética, virou performance, virou estilo de vida.

Mas aqui existe um ponto de atenção. Porque nunca tivemos tantos casos de ansiedade crônica e exaustão emocional. É como se estivéssemos vivendo uma dicotomia curiosa: uma sociedade que performa para esconder o caos interno. Porque, se lá atrás a gente afogava a mágoa na bebida, hoje a gente tenta afogar a ansiedade na rotina perfeita.

Acrescente aqui um agravante explosivo: a comunicação digital ilimitada, perfeita para gerar uma enxurrada de informações.

Gente dizendo o que comer, como treinar, quanto dormir, quem você deveria ser. Você acorda já devendo: saúde, foco, performance. E, sem perceber, viver virou uma tarefa.

Não é só excesso de estímulo. É excesso de direção. E, como todo excesso, isso também vai se ajustar. Vai ter contraponto. Vai ter rebote. Vai ter ressaca.

Porque o mundo é cíclico. E, talvez, lá na frente, o novo símbolo de status não seja cigarro nem performance. Seja paz. Viver sem excesso de regra. Comer sem culpa. Desacelerar sem justificativa. E, principalmente, ter tempo para digerir a própria vida.

@scheila.schu

A ARTE QUE CARREGA A MEMÓRIA

As memórias de uma infância lúdica inspiraram a escultura Ressonância, da artista brasileira Vivi Rosa, finalista do prêmio LOEWE Foundation Craft Prize.

A escultura Ressonância, à esquerda de Vivi Rosa, finalista do prêmio LOEWE Foundation Craft Prize. |

Vivi Rosa está entre os 30 finalistas do LOEWE Foundation Craft Prize, prêmio de destaque mundial que reconhece a excelência do artesanato moderno. Artista autodidata nascida em Cascavel, no Paraná, possui uma longa carreira que começou no teatro, passou pelo trabalho artesanal com madeira até chegar nas esculturas. Desde sempre, Vivi Rosa é artista.

“Minha formação foi construída a partir da prática, da observação e da experimentação”, disse em entrevista à Habitat. “Cresci em um sítio, e essa vivência influenciou profundamente minha relação com a matéria. Cresci com a ideia de que era possível construir qualquer coisa com as próprias mãos, e isso sempre esteve presente em mim”.

Foram as memórias de infância, quando estava cercada pela natureza, que inspiraram a escultura Ressonância,

finalista do prêmio. “Todas as manhãs, meus pais tiravam leite das vacas. O gesto da ordenha me marcou pela precisão do toque, pela repetição, mas principalmente pelo som do leite atingindo o fundo da caneca. A escultura se organiza a partir desse gesto real. Na obra, a caneca aparece como forma de recepção; as protuberâncias derivam da ubre cheia, prestes a ser ordenhada; a grande curva funciona como estrutura e como memória de um objeto de uso, aquilo que permite segurar, transportar e aproximar. Ressonância é essa escuta transformada em matéria: o eco de um gesto simples preservado na escultura”.

O vencedor do prêmio será anunciado em maio, e as peças finalistas estarão em exposição na Galeria Nacional de Singapura até o mês de junho.

Foto: Hadrien Raitani

20

ANOS DO INSTITUTO

INHOTIM

A comemoração pelas duas décadas do Instituto Inhotim – o maior museu aberto da América Latina, localizado em Brumadinho, em Minas Gerais – reúne intensa programação ao longo de todo o ano. Um dos destaques é a requalificação da galeria Cildo Meireles, que passa a abrigar a instalação Missão-missões, obra grandiosa deste que é um dos principais artistas brasileiros contemporâneos. Em abril, três novas exposições abrem ao público: a mostra que reúne obras sobre história e cultura afro-brasileira, de Dalton Paula; Contraplano (2025), de Lais Myrrha, artista que trata do tema “ausência”; e a estreia de davi de jesus do nascimento, com uma instalação inspirada nas margens do rio São Francisco, apresentada na recém-reformada Galeria Nascente.

FOTOS QUE NUNCA SERÃO POSTADAS

A premissa de que a fotografia é a linguagem artística mais filtrada da contemporaneidade, seja por censura explícita, algoritmos, razões morais, políticas ou culturais, originou a exposição Fotos que Nunca Serão Postadas, em cartaz no Instituto ViaFoto, em São Paulo, até maio. “É preocupante perceber que a fotografia, nascida tão livre quanto a pintura, tenha se tornado uma das linguagens mais cerceadas do nosso tempo”, afirma Marcello Dantas, curador da exposição juntamente com Luciana Brafman.

A proposta é que o espectador compreenda o ato de ver como uma escolha consciente e que as imagens sejam contempladas em uma experiência analógica e silenciosa. O público não pode fotografar, e cada uma das 35 obras permanece protegida por uma cortina preta. Para vê-la, o visitante precisa puxar uma cordinha e escolher olhar. As imagens reunidas são de artistas como Miguel Rio Branco, Claudia Jaguaribe, Artur Lescher, Nuno Ramos, Tuca Reinés, entre outros.

Foto: Divulgação Instituto ViaFoto

Obra Missão-missões (1987), de Cildo Meireles.
Foto: Edouard Fraipont

OS 100 ANOS DE PANTON

Ele foi um dos mais geniais arquitetos e designers de todos os tempos e, em 2026, completaria 100 anos. Em homenagem ao centenário do nascimento do dinamarquês Verner Panton, a Vitra e o Vitra Design Museum, juntamente à família Panton, programaram uma série de eventos e reedições de suas peças, como a Cadeira Heart Cone, em uma versão bicolor: a frente e as costas possuem dois tons diferentes de azul. A Cadeira Cone, e posteriormente a Heart Cone, expressa o fascínio pela geometria e pela funcionalidade, aliados ao apelo emocional. Ambas foram criadas em 1958, tornaram-se rapidamente ícones do design e são a tradução perfeita da linguagem estética de Panton. Desde os anos 1960, a Vitra desenvolve, concretiza e preserva as obras deste designer que foi absolutamente revolucionário.

Cadeira Heart Cone, de Verner Panton.

Foto: Divulgação Vitra

Totem o Homem Tatu, de Kulikyrda Mehinaku, uma das obras expostas. | Foto: Divulgação MON

ARTE ALÉM DAS PAREDES

O projeto MON sem Paredes – Vila Velha, com curadoria de Marc Pottier e conceito de Fernando Canalli, integra arte, patrimônio natural e território ao levar obras inéditas ao Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa (PR). Ao romper seus limites físicos, o Museu Oscar Niemeyer cumpre sua premissa de disseminar a arte e fazê-la chegar até a um número maior de pessoas.

O Parque Estadual de Vila Velha é um paraíso ecológico e uma das mais importantes unidades de conservação ambiental do Brasil, além de um local com muitas lendas, como explicou Marc Pottier. “Antigamente era chamada de Itacueretaba, ou ‘cidade extinta de pedras’, segundo os apiabas que ali moravam”, diz. “Entre as falésias históricas e as formas curiosas que elas encerram, encontram-se temas únicos de reflexão para artistas contemporâneos”, comenta. Diversos artistas foram convidados a criar obras que dialogam com esse lugar tão especial. A exposição ficará em cartaz até março de 2027.

BRANDED RESIDENCES

A marca britânica de ultraluxo Aston Martin chegou ao mercado residencial brasileiro em parceria com a Setai Grupo GP, com sede em João Pessoa (PB). A curitibana Baggio Schiavon Arquitetura (BSA) assina a arquitetura do Setai Residences Interiors by Aston Martin, ampliando sua atuação em empreendimentos vinculados a grifes internacionais. O residencial será construído na capital paraibana e prevê uma torre de 47 andares, com mais de 30 mil metros quadrados de área construída. A conclusão da obra está prevista para 2031. Para Flavio Schiavon, a colaboração evidencia o papel estratégico da arquitetura em projetos que unem identidade de marca e mercado imobiliário. “Quando uma grife internacional chega ao Brasil, a arquitetura precisa traduzir seu DNA com precisão técnica e clareza conceitual. Nosso trabalho é construir essa ponte entre a personalidade da marca e a realidade urbana brasileira”, afirma.

Foto: Antônio More

CADEIRA FRESTA

O lançamento da cadeira Fresta, colaboração exclusiva da Hype Empreendimentos com a Woodskull, acompanhou o anúncio do Fresta Hype Living, projeto que vai ao encontro à tendência de retomada do centro das cidades – neste caso, Curitiba (PR). A cadeira é uma das peças que integrarão o mobiliário do futuro edifício, funcionando como uma prévia do que será o estilo arquitetônico do empreendimento. Com linhas minimalistas, curvas contínuas e poucos pontos de ligação, a peça combina leveza visual com estabilidade e conforto. O nome faz referência à “fresta” entre encosto e base, detalhe que representa conexão em equilíbrio. O conceito é que a cidade se transforma quando se abrem espaços – justamente, uma fresta.

Foto: Divulgação Aston Martin

PORTO DAS ARTES

Transformar um espaço que ficaria ocioso durante meses em uma oportunidade de encontro entre arte, cidade e comunidade. Essa é a proposta da Construtora e Incorporadora Porto Camargo ao lançar o Porto das Artes, uma galeria instalada nas proximidades da Praça da Ucrânia, em Curitiba (PR). O espaço nasce inspirado no conceito de “gentileza urbana” e proporciona à população um lugar de cultura, tempo e conexão com histórias, imagens e expressões que dialogam com a cidade. Com curadoria assinada pela Galeria Zilda Fraletti, a seleção de artistas priorizou diversidade de linguagens e a atuação no Paraná.

Foto: OSFR CREATIVE

BIENAL DE SÃO PAULO NO MON

O poema "Da calma e do silêncio", de Conceição Evaristo, uma das vozes mais expressivas da literatura brasileira, foi a inspiração da 36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, que chega com sua versão itinerante ao Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba (PR), por meio da parceria com a Fundação Bienal de São Paulo. Até 7 de junho, os visitantes terão acesso às obras de 18 artistas, um recorte da exposição apresentada no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, na capital paulista. Para cada uma das dez cidades que a mostra percorrerá, foram selecionadas obras que dialogam com o contexto local. Para o MON, obras com os temas relacionados as origens e à terra “a partir de perspectivas biológicas, ecológicas e espirituais”.

TECHNOLOGICAL DANCES

Fotos: Divulgação Alice Anderson

A francesa Alice Anderson vai além do conceito de uma artista plural e, provavelmente, não há apenas uma palavra que defina sua arte. O público poderá conhecer 75 obras – entre pinturas, esculturas e instalações, algumas de grandes dimensões – na exposição Technological Dances, em cartaz no Olho do Museu Oscar Niemeyer (MON), até 31 de maio. As pinturas são os registros criados pela artista durante performances de danças que mesclam culturas ancestrais, animismo, tecnologia e inteligência artificial. A união entre a rigidez da tecnologia e a fluidez da dança originou o nome da exposição. “Essas duas palavras realmente parecem contraditórias. No entanto, ambas evocam movimento. A tecnologia é como um movimento criado por sua constante evolução. Ela é projetada para

interagir com o corpo e responder a ele, seja pressionando um teclado de computador ou imitando gestos humanos por meio da robótica”, diz Alice Anderson.

Francesa radicada em Londres, Alice começou a pintar desde muito nova. Computadores, tecnologia e internet sempre a fascinaram, assim como objetos como dispositivos eletrônicos. Em meados de 2010, deparou-se com uma bobina de cobre ao desmontar um despertador. Desde então, desenvolveu uma técnica de tecelagem utilizando fio de cor cobre, material ecológico que representa as conexões neuronais e tecnológicas dos primórdios da internet. A curadoria da Technological Dances é de Marc Pottier.

Fotos: Natt Fejfar/Fundação Bienal de São Paulo

COLUNA É DESIGN

O MENINO QUE QUERIA DESENHAR O MUNDO

Entre a música clássica da infância, o urbanismo de Curitiba e a delicadeza da aquarela, a trajetória de Sérgio Póvoa Pires revela como arte e cidade podem nascer do mesmo gesto criativo.

Sérgio Póvoa Pires, arquiteto, urbanista e aquarelista. | Foto: Gabriel Miranda

Na trajetória de Sérgio Póvoa Pires, arte, cidade e sensibilidade caminham juntas como partes de uma mesma composição. Antes de existir o arquiteto, o urbanista ou o aquarelista, existia um menino sentado à mesa de domingo, cercado por música e papel em branco.

A história começa na casa dos avós, onde a família se reunia todos os domingos para o almoço. O avô, engenheiro mecânico formado pela Georgia Tech, e a avó, pianista formada no Conservatório de Música do Rio de Janeiro, criavam um ambiente em que técnica e arte conviviam naturalmente. Para manter o menino quieto durante as lon-

gas conversas de adultos, os pais lhe entregavam pilhas de papel e lápis. “Enquanto minha avó tocava piano e a música clássica preenchia a casa, eu desenhava”.

Sem perceber, ali nascia uma relação profunda com o desenho. Um gesto simples que, mais tarde, se transformaria em profissão e também em forma de interpretar o mundo. Na adolescência, Sérgio chegou a imaginar outro caminho. Sonhava em ser veterinário e passou uma temporada em uma fazenda perto de Castro, ajudando a cuidar de animais. A experiência no campo acabou trazendo uma descoberta. “Aquilo me fez perceber que meu caminho seria a arquitetura”.

O desenho então ganhou outra escala. Primeiro nos projetos, depois nas cidades. Apaixonado por idiomas, fala inglês, alemão e espanhol fluentemente. Depois de estagiar no escritório do arquiteto Lubomir Ficinski e trabalhar no planejamento urbano do IPPUC, recebeu um convite que mudaria sua trajetória: estudar em Berlim e trabalhar no Departamento de Planejamento Urbano de Köln, em 1977.

A Alemanha ainda estava dividida, e as cidades carregavam marcas profundas dessa separação. Viver aquele momento histórico ampliou sua visão sobre planejamento urbano e sobre o próprio mundo.

De volta ao Brasil, trouxe uma visão mais sistêmica do urbanismo e passou a atuar também com preservação do patrimônio cultural dentro do planejamento das cidades. Sua atuação ajudou a estruturar instrumentos pioneiros no país, como as Unidades de Interesse de Preservação e a primeira legislação brasileira relacionada ao potencial construtivo.

Durante mais de 40 anos, participou de projetos que marcaram Curitiba, entre eles os Jardins Ambientais da Schiller e da Arthur Bernardes, o Bosque do Papa, a valorização do setor histórico da cidade, a revitalização dos imóveis históricos de Santa Felicidade e o Plano Diretor de 2015. “Meu maior orgulho é ter ajudado a transformar Curitiba em um lugar melhor para se viver”.

Se a arquitetura organiza o espaço urbano, a aquarela revela o olhar mais íntimo do artista. É uma paixão antiga que o acompanha desde cedo. “A aquarela é a arte de pintar com a própria luz da água”.

Diante de um papel em branco, ele imagina aquilo que ainda está escondido ali. A cor se espalha lentamente, revelando paisagens, atmosferas e memórias. Arquitetura, pintura e design podem parecer universos distintos, mas, para Sérgio, todos nascem da mesma fonte: a curiosidade diante do mundo.

Ao falar de legado, ele prefere um conselho simples. Inspirar-se em tudo que está ao redor. Filosofia, arte, história e geografia. Aprender idiomas e percorrer caminhos diferentes. Criar é cultivar um olhar curioso sobre o mundo e transformá-lo em desenho, cidade e sensibilidade.

Santa Ceia, por Sérgio Póvoa Pires. Aquarela sobre papel, 2020. Foto: Divulgação Sérgio Pires.
Marilyn, Sérgio Póvoa Pires. Aquarela sobre papel, 2023. Foto: Divulgação Sérgio Pires

UMA CASA DE CAMPO QUE UNE MEMÓRIAS E ENCONTROS

Há cinco gerações, a Fazenda Santo André reúne memórias e encontros da família da arquiteta Marina Carnevale.

A arquiteta Marina Carnevale, responsável pela renovação da casa de campo de sua família. | Foto: Guilherme Rocha

Na região dos Campos Gerais, perto de Carambeí (PR), a Fazenda Santo André guarda uma história tecida a muitas mãos. A propriedade foi adquirida nos anos 60 pelo bisavô de Marina Carnevale, o então senador Arthur Ferreira dos Santos. Anos depois, sob os cuidados de seu filho, Arthur Claudino dos Santos, e de sua esposa, Marilena Bueno dos Santos, avós de Marina, a casa de campo original passou a revelar todo o seu charme e elegância, transformando-se em um cenário digno de novela, onde encontros familiares, celebrações e memórias são hoje compartilhados pela quinta geração da família. Originalmente térrea, a casa seguia o modelo tradicional das residências de campo. Com o crescimento da fa-

mília, quatro filhos, genros, nora e netos, surgiram novas necessidades. Foi sob o olhar cuidadoso de Lena, como Marilena era carinhosamente chamada, que a casa ganhou novos espaços e novos capítulos.

A primeira grande intervenção foi conduzida por ela, uma importante decoradora de Curitiba, com o apoio do arquiteto Mário Siqueira Campos. O projeto ampliou a área térrea, melhorando o dia a dia da fazenda e criando ambientes de convivência, como a varanda. Voltada para o jardim e com vista para a piscina, ela rapidamente se tornou um dos espaços mais vivos da casa, reunindo conversas demoradas, amigos, crianças brincando e a paisagem sempre presente como pano de fundo.

Vista da suíte principal. | Foto: Carol Ritzmann

Na mesma reforma, foi construído um segundo pavimento com três suítes, entre elas a do casal, com um mirante voltado para as terras da fazenda, o jardim e a piscina. A cozinha também foi ampliada, refletindo um hábito que sempre marcou a vida da família: receber. Ao todo, a casa passou a contar com nove suítes, cuidadosamente projetadas para refletir a personalidade de cada familiar.

A decoração traduz diretamente a personalidade de Marilena. Cheia de cores, texturas e referências diversas, a casa reúne peças descobertas ao longo de muitas viagens a São Paulo, Rio de Janeiro, Nova Iorque e Europa, além de objetos de antiquários e itens de família. O resultado é uma composição rica, onde estilos e épocas diferentes convivem com naturalidade.

Sobre
Na sala de estar com lareira, união entre tradição, conforto e elegância evidenciando a obra de Theodoro de Bona.
Foto: Leonardo Costa
Jardim em frente ao terraço da suíte principal.
Foto: Guilherme Rocha

RENOVAÇÃO

Com o passar dos anos, a família percebeu que o novo momento pedia também um olhar atual. Coube a Marina, arquiteta da nova geração, conduzir essa etapa com a missão de preservar o legado dos avós. Com sua experiência técnica e delicadeza, soube respeitar a essência do projeto de Lena. As intervenções foram pontuais. Entre elas, a criação de uma área gourmet próxima à piscina, com um terraço mais amplo para contemplar a paisagem, além da renovação de tecidos e acabamentos nos nove quartos, cada um com uma paleta de cor diferente.

Entre os ambientes mais marcantes estão um quarto de inspiração francesa, em tons de azul; o chamado quarto vermelho, com mistura de estampas xadrez e toile de Jouy; e o antigo escritório de Arthur, de inspiração inglesa, com treliças de madeira aparente e poltronas de couro verme-

lho, que, assim como a charmosa bay window anexa à cozinha, estão entre seus ambientes preferidos. A casa abriga ainda obras de artistas como Poty Lazzarotto e Theodoro de Bona, reflexo do apreço da família pela arte paranaense. Outro registro afetivo é o livro de memórias mantido pela família, onde visitantes deixam mensagens e relatos sobre os momentos vividos ali há muitas décadas.

Hoje, mais do que uma casa de campo, a Fazenda Santo André permanece como um lugar de convivência e memória familiar, um espaço que continua reunindo gerações e mantendo viva a atmosfera criada por aqueles que deram forma à sua história.

Para Marina, o morar está ligado justamente a esse sentimento: estar em um lugar que transmita paz, conforto e a faça se sentir bem junto às pessoas que ama.

Terraço da piscina, natureza e contemplação. | Foto: Guilherme Rocha

FLORENSE, PLAENGE E PININFARINA

A Florense Carlos de Carvalho, referência internacional em mobiliário high-end, e a construtora Plaenge receberam, no dia 8 de abril, um seleto grupo de arquitetos para um almoço exclusivo na nova central de vendas da incorporadora, em Curitiba.

O evento, assinado pelo party designer Marcos Soares, marcou a apresentação da cozinha Arco, lançamento da Florense com design Pininfarina, além do apartamento decorado do Plaenge Design by Pininfarina, reforçando a união entre arquitetura, design autoral e alto padrão em um dos mais icônicos empreendimentos da capital.

A cozinha Arco traduz a expressão contemporânea de design, funcionalidade e integração. Desenvolvida em colaboração com o estúdio italiano Pininfarina, conhecido mundialmente pelo design autoral e pela imponência de seus projetos, ela reforça o conceito de espaço pensado para integrar preparo, convivência e permanência.

A proposta acompanha as transformações do morar contemporâneo e consolida a cozinha como um dos principais pontos de encontro da casa.

Fotos: Patricia Amancio

Da esquerda para a direita: Mateus Corradi (CEO Florense), Luiz Gustavo Salvático (Diretor de Unidade de Negócios), Thaisa Bohrer (Bohrer Arquitetos), Eduardo Calcagnotto (Diretor Florense Carlos de Carvalho), Paulo Corradi (Conselheiro Florense), Daniel Turchetti (Superintendente Regional Plaenge), Nelson Calcagnotto (Diretor Florense Carlos de Carvalho).

Da esquerda para a direita: Eduardo Calcagnotto (Diretor Florense Carlos de Carvalho), Walter Petruzziello (Representante do Conselho Geral dos Italianos no Exterior), Angelo Sirico (Cônsul em Exercício do Consulado da Itália no Paraná), Paulo Corradi (Conselheiro Florense) e Mateus Corradi (CEO Florense)

Coluna Conexão por Cesar Franco

A cozinha Arco traduz a expressão contemporânea de design, funcionalidade e integração.

O lançamento da cozinha Arco contou com a presença de um seleto grupo de arquitetos.

YARA MENDES

Yara Mendes construiu sua trajetória com um olhar atento e sensível, profundamente ligado às artes. Conhecida pela escuta cuidadosa, traduz sonhos, desejos e necessidades em ambientes que refletem a personalidade de cada cliente. Com muitos anos de história, é uma das figuras mais respeitadas da decoração em Curitiba.

GT BUILDING

Marcos Figueiras Pires, Fernanda Viana, Zemyr Werner, Andrea Zapparoli, Rodrigo Mendes de Camargo e Sergio Tadeu Ferreira Couceiro na reinauguração da loja da W Investments no Pátio Batel, que agora conta com um espaço exclusivo dedicado à GT Building. A parceria leva os empreendimentos de alto padrão da incorporadora para uma vitrine em um dos endereços mais sofisticados de Curitiba.

DECA

A convite do grupo Dexco, Rodolfo Fontana assina o Loft Deca na CASACOR 2026. Fontana irá trazer novidades e lançamentos de mercado, com sua assinatura única, que mistura o contemporâneo e o clássico em projetos sempre elegantes.

CHÂTEAU CARMELO

A diretora de Marketing da Construtora San Remo, Aline Perussolo, o paisagista Wolfgang Schlögel e a diretora de Engenharia da empresa, Michele Perussolo, durante o evento exclusivo que marcou a entrega do residencial de luxo Château Carmelo, no Batel. O empreendimento, inspirado no charme da Provence francesa, reúne arquitetura refinada e soluções voltadas ao bem-estar e ao viver contemporâneo. Foto: Patrícia Amancio.

Coluna Conexão por Cesar Franco

TECNOGRAN

Valéria Denes, diretora executiva e proprietária da Tecnogran, lidera a empresa com foco em inovação, qualidade e proximidade com o mercado. À frente de uma indústria especializada em revestimentos cimentícios, a empresária consolida a marca como referência em soluções completas para grandes obras e projetos de arquitetura no Brasil.

Foto: Thamy Poli

ARTE

Ao longo de mais de quatro décadas, a Galeria Zilda Fraletti — primeira galeria de arte contemporânea de Curitiba — consolidou-se como um importante ponto de encontro entre artistas, colecionadores e público. Entre exposições, encontros em ateliês, presença constante em feiras como a SP-Arte e experiências internacionais, vive um momento de grande vitalidade, fortalecendo sua presença no circuito da arte brasileira. Na foto de Gerson Lima, os sócios Zilda Fraletti e Carlos Cavet.

ESTRUTURAR

Sergio Zimmermann, diretor executivo da Estruturar Imóveis Comerciais, anunciou o primeiro hospital de transição da Região Sul do Brasil. O empreendimento, que será operado pelo grupo Royal Care, no bairro Rebouças, em Curitiba, contará com 60 leitos e quatro centros cirúrgicos, voltados ao cuidado e à recuperação de pacientes antes do retorno definitivo para casa.

CLUB&CASA

Daí Panizo e Amanda Schroh, da Green House, Márcia Fujimoto, da Arquitetare, e Maristela Bodanese, da Bonaconchego, na prestigiada noite de premiação do Club&Casa, encontro que celebrou alguns dos mais reconhecidos escritórios de arquitetura e design de Curitiba.

COLIBRI

Louise Lamb Pancier, Bruna Castro Antoniazzi e Rafael Rodrigues Antoniazzi, da Razzi Imóveis, Luiz Gustavo Salvático e Daniel Turchetti durante a entrega do Prêmio Colibri 2026, promovido pelo Grupo Plaenge, formado pelas construtoras Plaenge e Vanguard, na nova Central de Vendas Plaenge. A premiação reuniu profissionais do setor imobiliário e reconheceu os destaques do ano no Paraná.

ARTEFACTO

Paulo Bacchi, Bruna Demarchi e Jayme Bernardo na abertura da Mostra Artefacto Beach & Country 2026, em São Paulo. O arquiteto assina o living “Refúgio”, um espaço que celebra o tempo, a pausa e o bem-estar, em sintonia com os 50 anos da marca e com o tema desta edição, que é maturidade.

Foto: Cleiby Trevisan

LCZ LAREIRAS

Renata Odilon, gerente nacional de abertura de novos negócios da LCZ Lareiras, e Valéria Oliva, gerente da marca no Paraná, nos preparativos para mais uma participação na CASACOR. Presente na mostra há 22 anos, a LCZ leva às diferentes edições pelo Brasil lareiras que reúnem tecnologia, design e segurança.

FLY 357

Marcia Cardoso de Almeida recebeu convidados para um almoço no FLY 357, loteamento exclusivo em uma das regiões mais especiais do Batel. Na foto, Marcia, Marila Riella, Cris Nacli, Suely Brofman e Elvira Ramon. O encontro apresentou o empreendimento e celebrou o espaço ambientado pela Villa Batel, com assinatura de Marcos Soares.

Coluna Conexão por Cesar Franco

MORRETES

Henry Fukner, da Zireh Imóveis, os arquitetos José Mendes Júnior e Cristian Santus, da Montipê Arquitetura, e Marcelo Ciscato, da Rocas Incorporadora, durante apresentação do Arví – Condomínio Design, projeto que reforça Morretes como destino de segunda moradia de alto padrão, a apenas 66 quilômetros de Curitiba, unindo natureza preservada, privacidade e qualidade de vida.

LEGADO

Filipe Biscaia Demeterco, diretor-presidente da Incorporadora Piemonte, com os pais Ruy e Dora Demeterco, e a irmã Leticia Demeterco na entrega da Praça Legado, espaço temporário de convivência criado pela incorporadora no encontro entre Batel e Bigorrilho. A família Demeterco chegou a morar no terreno que hoje se abre à cidade como área pública.

SWELL

Vanessa Pissetti Muniz, da Swell Construções, e a arquiteta Patrícia Anastassiadis, diretora criativa da Artefacto, no ano em que a marca celebra 50 anos. A coleção Cosmos, assinada por Patrícia, integra a mostra 2026, que tem como tema a maturidade e propõe um olhar mais consciente sobre o morar contemporâneo.

CALLIARI

O arquiteto Arthur Calliari está à frente de um dos escritórios que mais crescem em Curitiba. Neste ano, participa pela terceira vez da CASACOR Paraná e celebra a ampliação da área física do escritório, marcando uma nova fase de expansão e consolidação no cenário da arquitetura.

ÁSIA

Camila Fleischfresser, head de marketing, e Fernando Bonamico, superintendente do Pátio Batel, no primeiro dia do Pátio Gastronômico – Edição Ásia. A experiência reuniu gastronomia autoral, performances culturais e oficinas inspiradas em diferentes países do continente, transformando o terraço em um circuito sensorial entre sabores, música e tradição.

Foto: Loiro

LAGUNA

A Construtora Laguna e André Marin conquistam reconhecimento internacional pelo IWBI, referência global em construções voltadas ao bem-estar. A empresa recebe o Building Performance Leadership Award, enquanto Marin é destacado como Executivo WELL, reafirmando uma trajetória marcada por visão, inovação e compromisso com a qualidade de vida nos espaços que desenvolve.

DREAMIS

Daniel Pizzatto e Leonardo Bibas, sócios da incorporadora Dreamis, apresentam o residencial Tauá, no Ahú. Com 18 mil m², o projeto reúne duas torres e 58 unidades de alto padrão, com plantas amplas e bem resolvidas. A proposta combina sofisticação e potencial de valorização.

Foto: Daniella Araújo

CIRQUE DU SOLEIL

Curitiba recebe, a partir de 19 de novembro, no Expotrade, “Alegría – Um Novo Dia”, do Cirque du Soleil. Uma releitura sofisticada de um de seus maiores clássicos, que combina acrobacias, música ao vivo e cenários imersivos em uma experiência única. Ingressos à venda em eventim.com.br e na bilheteria oficial do Pátio Batel. Foto: Anne-Marie Forker

Coluna Conexão por Cesar Franco

BIENAL

Edgard Corsi e Ana Carolina Boscardin, à frente do escritório Boscardin Corsi, representaram o Paraná na 1ª Bienal de Arquitetura Brasileira com “A Casa que Dança”. O projeto partiu de uma leitura contemporânea do morar, inspirada no modernismo paranaense, com atenção à memória e à permanência.

Foto: Adriano Pacelli

ANIVERSÁRIO

Roselena Abujamra celebrou seu aniversário no Mabu Thermas Grand Resort, em Foz do Iguaçu, reunindo amigos de Curitiba. Na foto, a aniversariante (de vermelho) com Luiza Mattos e Andrea Flavia, em um clima leve, marcado por afeto e boas conversas.

AMIZADE

Cynthia Ferroni Miró, Roselena Abujamra, Lia Mara Coitinho e Cíntia Peixoto na comemoração de aniversário no Mabu Thermas, em Foz do Iguaçu. Uma festa daquelas que ficam na memória, muito bem pensada, com atenção aos detalhes e o cuidado de quem sabe receber.

FESTA

Vick Lorenzetti, Daiane Mauad e Manu Abujamra na festa que movimentou o Mabu Thermas, em Foz do Iguaçu.

O MOMENTO DO MERCADO IMOBILIÁRIO EM CURITIBA

Maria Eugenia Fornea, presidente da ADEMI-PR. | Foto: Eneas Gomez

Curitiba é frequentemente lembrada por sua tradição em planejamento urbano. Mas há outro aspecto que também ajuda a explicar a cidade construída nas últimas décadas: a qualidade da sua produção imobiliária.

O mercado imobiliário curitibano consolidou um padrão de exigência técnica e arquitetônica raro no país. Boa execução, projetos bem resolvidos e uma cadeia produtiva qualificada fizeram da capital paranaense uma referência em qualidade construtiva.

Em 2025, o setor movimentou cerca de R$ 7,4 bilhões em vendas e manteve estabilidade mesmo em um cenário econômico desafiador. No último trimestre, os lançamentos somaram R$ 2,1 bilhões em VGV. Embora o volume lançado tenha recuado cerca de 17% em relação a 2024 – muito em função do avanço dos apartamentos compactos, de menor ticket médio –, o mercado demonstrou resiliência. Os segmentos de luxo e superluxo, com

unidades acima de R$ 2 milhões, responderam por cerca de um terço do valor lançado na cidade, mantendo participação estável desde 2022.

Foram comercializadas cerca de 2,5 mil unidades em Curitiba e 1,3 mil na Região Metropolitana de Curitiba. O programa Minha Casa, Minha Vida representou apenas 8,7% das vendas.

A Região Metropolitana lançou cerca de 4 mil unidades do programa, número ainda insuficiente para atender a própria demanda regional e também à parcela da população que acaba deixando Curitiba pela impossibilidade de adquirir moradia na capital.

Produzir habitação onde já existe infraestrutura urbana continua sendo um dos principais desafios do planejamento das cidades.

A política habitacional e os parâmetros urbanos adotados hoje determinam quem poderá viver em Curitiba nos próximos anos.

Maria Eugenia Fornea é presidente da gestão 2026–2027 da ADEMI-PR, engenheira civil, economista, mestre em Gestão Urbana e CEO da incorporadora curitibana Weefor.

Coluna Ponto de vista por Maria Eugenia Fornea

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