BRUMAS
JORNAL DO COLETIVO DAS PESSOAS ATINGIDAS DE BRUMADINHO | 2ª EDIÇÃO - JANEIRO DE 2024
5 anos que eu acordo no mesmo dia 25
BRUMAS EDITORIAL Certa vez, uma pessoa perguntou para Matuzinha de Fátima quanto vale uma vida. Tamanha a preciosidade, o preço das 272 joias que perderam a vida no crime da Vale em Brumadinho é a justiça. Os guardiões delas resistem há 5 anos em não ceder à uma luta desigual de poder, movida pelas grandes empresas mineradoras. As noites de Maria dos Anjos continuam mal dormidas e as notícias que chegavam a todo momento com o nome de mais uma vítima conhecida cessaram, restando três joias, Maria de Lourdes, Natália Oliveira e Tiago Tadeu, que seguem desaparecidas. No entanto, no dia a dia, chegam novas vítimas de um crime continuado que sobreviveram à lama de rejeito, e hoje convivem com as dores e marcas da contaminação por metais pesados. Os vestígios desse dia que cisma em não passar, levam ao adoecimento físico e mental de toda uma população. E não os deixam esquecer. Para quem mora em Brumadinho, o tempo parou naquele 25 de janeiro de 2019, que mais parece ter sido uma semana atrás. Nem mesmo os momentos de distração de Alexandra, Nerivaldo, e de tantos outros, deixa de ser atravessada pela lembrança. É a ausência nas datas festivas em família, é o assunto das conversas entre amigos, é a espera por pessoas que não vão chegar. Seu Cambão ainda aguarda no ponto de ônibus por aqueles que lhe pediam a benção no caminho para o serviço. “E agora, cadê eles? Não têm eles mais”. Cirineu era chamado de “pai” na Vale, onde trabalhou por 22 anos. Quando recebeu a notícia de que a barragem do Córrego do Feijão havia rompido, lembrou-se de Mariana. Mal poderia imaginar que o crime da Samarco/Vale/BHP, ocorrido em 2015, se repetiria em Brumadinho. Vanessa passava pelas sirenes, mas não sabia que serviam de alerta em caso de rompimento. Também pudera, mais uma vez, ela não tocou, foi engolida pela lama. Com Maria Matuzinha não foi diferente, de cara pensou “Meu Deus, como que vai ser? Acabou Brumadinho!”. E de fato é este o projeto que as mineradoras desenham, enquanto as pessoas que lá vivem disputam espaço com os caminhões pesados de minério, com as incontáveis obras e com a nuvem de poeira, que vez e outra encobre a cidade. Todo dia Cláudia pensa estar acordando de um pesadelo e, quando abre a janela, vê tomar a paisagem o rastro de destruição ainda causado pelas mineradoras instaladas em Brumadinho. “Criminosos somos nós. Não devíamos ter mandado nossos entes trabalhar e nem deveríamos estar aqui mais”, é o que parece dizer a morosidade das entidades de justiça perante ao processo de reparação. Se por um lado Marilene não perdeu nenhum familiar, viu partir vizinhos, amigos, entes de outras famílias, e se compadece de uma mesma dor como se todos os dias fossem 25. Como cantou Dom Vicente, “Brumas de Brumadinho, se foi embora, seu povo chora”, mas também luta por uma Brumadinho que clama por justiça e resiste na acolhida e união do Coletivo das Pessoas Atingidas pelo crime. E é como instrumento de suas vozes que nasce o Brumas, um jornal feito coletivamente por quem conta a sua própria narrativa, denuncia as violações dos seus direitos, chora as suas dores e luta por uma memória coletiva. .
É UM CRIME CONTINUADO É O QUE EU SINTO NESSES 5 ANOS
É MUITO ESSE 25 QUE A GENTE CHEGA NO E DIVIDE A VIDA EM DOIS EU CONSIGO DIVIDIR ATÉ AQUELE DIA 25 A GENTE SE SENTE DILACERADO E NO DIA, EU SENTI UM APELO DE QUE EU DEVIA ESTAR AQUI PRA QUEM MORA EM A GENTE NÃO SAI DO EU ACORDO TODOS OS DIAS LEMBRANDO DOS MEUS ENTES,
MEUS AMIGOS, DOS QUE SE FORAM
SÃO 5 ANOS QUE ACORDO NO MESMO DIA 25 DÁ A IMPRESSÃO QUE
O DIA 25 NÃO PASSOU
ESSE CRIME CONTINUA
NÃO FICOU LÁ SÓ NO DIA 25
EXPEDIENTE Uma publicação do Coletivo das Pessoas Atingidas de Brumadinho | Redação: Inhana Olga, Joice Valverde e Paulo Faria | Jornalista Responsável: Joice Valverde | Diagramação: Júlia Militão | Foto de capa: Joice Valverde | Apoio: Rede Igrejas e Mineração Minas Gerais e Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário (Renser) | Tiragem: 2.000 exemplares.
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2ª EDIÇÃO - JANEIRO DE 2024
BRUMAS DOLOROSO É SEMPRE REPETIDO SE TORNOU TODO DIA EXATAMENTE A MINHA VIDA E O PÓS 25
NÃO SAI DO DIA DEUS BRUMADINHO DIA 25
Coletivo das pessoas atingidas pelo crime da Vale em Brumadinho Quando a luta fica pesada, nada melhor do que contar com amigos para seguir a batalha. O Coletivo tem como premissa a acolhida e a escuta das mais diversas pessoas atingidas pelo brutal crime da Vale em Brumadinho. Onde recarregamos nossas baterias para seguir lutando por Justiça e não repetição. Espaço de mística e oração, mas também é um espaço de articulação e resistência. Onde os povos indígenas, comunidades tradicionais, assentados, acampados, familiares de vítimas fatais e Atingidos auto-organizados constroem em comunhão a luta diária dos territórios. Com o lema de memória, justiça, esperança e não repetição, o Coletivo se reúne mensalmente. Fruto da passagem de Dom Vicente pelo território de Brumadinho, o Coletivo foi criado por ele em conjunto com as mais diversas comunidades e familiares de vítimas fatais. Hoje o Coletivo segue auto organizado, contando com o apoio da Rede Igrejas e Mineração MG e da Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário (Renser). Fotos: Joice Valverde
25 É UM DIA INESQUECÍVEL PRO RESTO DA MINHA VIDA, QUE PENA QUE É POR UM LADO RUIM
2019 FOI HÁ 5 ANOS, MAS PARECE QUE FOI HÁ 1 SEMANA
A GENTE NÃO SAI DISSO
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Brumadinho cinco anos: a fé que me fez resistir
Por Dom Vicente Ferreira
Início de tarde, dia 25 de janeiro de 2019. Estava em Belo Horizonte, onde, então, recebi a mensagem: “a barragem se rompeu e estamos apavorados”. Eu era o bispo auxiliar que cuidava da região, do Vale do Paraopeba. Consegui chegar à casa paroquial da cidade por volta das 18h. Imediatamente, iniciei as visitas às famílias. Havia muitos blocos de pessoas reunidas. O povo já vivia seu luto, mesmo não sabendo das reais consequências. 272 pessoas mortas e a Bacia do Paraopeba destruída. Um turbilhão de coisas começou a acontecer nas ruas, casas, quilombos, aldeias etc. No meio do luto e da luta, a reza. Poderia partilhar um universo de lembranças aqui. Mas concentro-me nas preces. Passaram-se cinco anos desse crime que não conhece o ontem. A irresponsabilidade da mineração, nesse caso, das empresas Vale e Tuv Sud, deixou romper a barragem da Mina do Córrego de Feijão, e, a partir daí, incontáveis arranjos existenciais e ecológicos foram se rompendo, em cadeias intermináveis, em cenários de crime continuado. Muitos me perguntaram ao longo do caminho: como manter a fé em contextos tão brutais? Diante de tudo que me afetou naquele dia que é sempre hoje, perguntei e pergunto: Deus onde estás? Rezei, assim, muitas vezes. Confirmei que, nessas horas, a fé só se torna mais clara quando me faço oferta. Uma aposta incerta. Ela ganhou corpo foi na travessia insegura. Foi muito mais itinerância do que segurança. No bruto chão da tragédia/crime, desde dentro, experimentei a manifestação do mandamento do amor, em sua feição samaritana. Nosso Deus também foi/é corpo ferido de amor. Então, seria incoerência segui-Lo, desviando-me das feridas dos irmãos. A consciência de que a ressurreição de Cristo foi a tomada de posição da justiça divina, diante da covardia dos poderosos, motivou-me a não abandonar os crucificados pelo crime. As chagas do corpo de Cristo, violentado pelos poderes econômicos, políticos e religiosos de sua época, passaram a ser as senhas para o meu/nosso itinerário pascal. Ele está vivo e são suas cicatrizes que nos confirmam que é Ele mesmo (Cfr Jo 20, 27). Foi nesse colocar-me, posicionar-me, junto dos gritos dos atingidos de Brumadinho, que afirmo que a fé resultou em resistência. No dizer do povo, “isso não pode terminar assim porque a justiça divina é maior”. Foi na falta de tudo, na proximidade do nada absurdo, que nasceu esperanças, de mãos dadas com os deserdados. A partir disso, provei que a fé cristã, diante de violações tão mortais, deve expressar-se como acolhida solidária, sem fazer acepção de pessoas. Não somente dando coisas, mas doando-me, no serviço ao Senhor da vida para suportar e enxergar o quão é cruel a morte quando ela chega de maneira criminosa.
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Foi necessário fechar os olhos, muitas vezes, para falar com Deus, para que eles não ficassem cegos diante da realidade. Reza boa, no meio dos atingidos, foi aquela que fez a gente ter consciência de todas as violações e gritar por justiça. Para isso, a palavra memória sempre foi carregada de um significado fundamental. Apagar os estigmas da morte, passar por cima, esquecer, seria impossibilitar clareiras de esperança de um mundo novo. As mineradoras são peritas em fazer isso. Matar os vestígios da morte com maquiagens caras. E, infelizmente, elas encontram em discursos religiosos, alienadores, fortes aliados. Quantas vezes os nomes dos mortos não puderam ser ditos, as lembranças do crime não puderam ser expostas, em “rezas infelizes”. Alguns tipos de espiritualidades adoecem ainda mais o que já não se encontra bem. “Foi vontade de Deus”, “ninguém morre antes da hora”, eram frases que faziam doer ainda mais. Por isso, a tarefa contínua foi ajudar a salvar a palavra Deus tão ameaçada por discursos que, na verdade, continuavam crucificando-o. Ritos, romarias, encontros, conversas nos coletivos, quando se dirigiam ao sentido mais pleno da páscoa cristã, contribuíram para a resistência. Reconheço muitas lideranças que sustentaram a narrativa de uma oração libertadora. Que começaram a problematizar o crime não somente enquanto questão humana, mas também como grave pecado ecológico estrutural. Fruto de um sistema capitalista que promove a idolatria do dinheiro. O tema da Ecologia Integral, que parte de uma visão cristã da criação, ganhou força. É claro que algumas posições continuaram com discursos perigosos, tentando isentar as responsabilidades das empresas, segregar grupos, não se posicionar. Mas a fé da qual dou testemunho foi a que buscou construir uma caminhada libertadora. A partir do Deus de Jesus Cristo, vida plena para todos, e de cuidado para com a casa comum. Quantas vezes, no limite da aridez, das incompreensões, do desespero mesmo, eu não conseguia achar palavras para rezar. A única coisa que restava era uma certa prontidão mariana: “eu não posso deixar o crucificado sozinho”. Foi isso que eu reconheci no corpo de tanta gente que se fez doação, no meio da lama, da dor de um trauma incurável. Pode parecer exagero, mas para superar os discursos fatalistas ou indiferentes, a fé que foi capaz de se tornar resistência em Brumadinho, foi a que se transformou em coragem de ajudar a salvar o resto da semente divina no meio de tantos escombros. E que se tornou arte, poesia, afeto, capazes de exorcizar o medo do dragão da mineração que nunca parou de matar. Compreendem? Ao invés de eu insistir em gritar por Deus, passei a ouvir com mais atenção seus gritos dirigidos a mim/a nós. Eu creio que foi essa fé que me fez resistir e participar de uma espécie de narrativa que ninguém pode destruir. Porque ela é um esperançar de novo céu e nova terra. “E a esperança não decepciona” (Rm 5, 5).
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Foto: Wigde Arcangelo
MEMÓRIA
“Após quase dois anos de negociação com a Vale para que o Memorial fosse uma instituição livre da gerência da empresa responsável pela tragédia, no início de agosto assinamos os instrumentos jurídicos que garantem legitimidade à fundação que irá gerir o espaço, sem intervenção da Vale. No momento estamos nas tratativas da formação da diretoria que será responsável pela condução dos trabalhos no Memorial. O conselho curador tem trabalhado muito para que a inauguração aconteça em breve. Estamos nos empenhando muito para fazer naquele espaço homenagem àqueles que se foram, reflexão sobre o valor da vida, o lucro acima da vida, bem como contar a história da tragédia crime que matou 272 vítimas.” Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM)
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Comunidades tradicionais
Foto: Breno Botelho
Foto: Felipe Cunha
Rua Amianto reconhecida como comunidade ribeirinha
Povos Indígenas reivindicam uma terra para viver e cuidar Na procura por uma terra segura para manter os modos de vida da sua comunidade, para viver do plantio e do cultivo, preservar os saberes tradicionais e cultos religiosos, o povo Pataxó e os Pataxós Hã Hã hãe chegaram em Brumadinho no ano de 2017, pouco antes do desastre-crime da Vale. É o que conta a cacica Célia Ãgohó, da aldeia Katurãma, em entrevista concedida ao antropólogo Breno Botelho: “A gente não chegou aqui com interesse a nada, chegamos só com o interesse de preservar essa área e não deixar que as mineradoras fossem implantadas aqui na região de mata atlântica. Mas infelizmente, após o crime da Vale, você vai ver que ali na frente agora já tem uma mega mineradora”. A cacica Célia alerta para um crime continuado, que ignora os danos causados pelo rejeito da Vale e que segue permitindo a mineração no território. Em 2021, seguindo os caminhos por uma terra fértil e segura,
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Foto: Joice Valverde
A Comunidade Tradicional Ribeirinha da Rua Amianto está localizada entre a linha do trem e a beira do Rio Paraopeba. Ali, os modos de vida simples, cercados por árvores frutíferas e pelo rio abundante, há 6 gerações vive uma família. “Maioria formada por mães solo, que trabalham durante o dia e deixam os filhos com avó que ainda mantém a característica de vovó zelosa e acolhedora. Uma comunidade onde tem a famosa peladinha a tarde após a escola!”, como nos conta Maria dos Anjos, moradora da comunidade. Seguindo a sabedoria de uma dessas avós, a vó Noeme, as ervas do quintal serviam de chás e as frutas, verduras e legumes eram compartilhadas entre os vizinhos. Costumes que foram violados com o rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, em 2019, e que seguem usurpados da comunidade pelas consequências do crime continuado: “Atualmente não podemos mais colher nada no quintal, devido à lama de rejeito do rompimento da Barragem que se alojou, contaminando tudo com metais pesados. Hoje, ou compra um produto caro e cheio de agrotóxico ou, por vezes, fica sem comer”, acrescenta Dos Anjos. Para proteger a cultura e as memórias da comunidade tradicional ribeirinha da Rua Amianto, foi construído pelas pessoas atingidas, com o apoio da Equipe de Povos e Comunidades Tradicionais da Assessoria Técnica Independente Aedas, um protocolo de consulta, em que elas puderam contar suas histórias e registrar os modos de vida de suas famílias. É importante destacar que as comunidades tradicionais ribeirinhas são protegidas pelo Decreto nº 6.040/2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.
o povo Xucuru Kariri forma a aldeia Arapowâ Kakya no terreno de uma fazenda abandonada, que fora adquirida pela Vale após o rompimento da barragem. O que encontraram foi uma truculenta disputa fundiária com a mineradora, que pouco a pouco tira dos povos originários o território que é deles por direito. “Nós viemos depois [do rompimento da barragem] mas hoje nós somos impactados, pelo que nós sofremos. Uma vez que ela [a Vale] fala que isso aqui é uma área para compensação ambiental, então o próprio Governo do Estado tem o conhecimento que nós queremos viver a nossa vida aqui”, afirma o Cacique Arapowãnã.
Comunidade quilombola resiste em Brumadinho As comunidades quilombolas de Sapé, Marinhos, Rodrigues
e Ribeirão estão localizadas no interior de Brumadinho e resistem através da cultura e ancestralidade em seus territórios. Passada de geração para geração, os quilombolas vivem da tradição com suas festividades, Congados e Moçambique. Senhor Antonio Cambão e Matuzinha de Fátima, duas respeitadas lideranças quilombolas da região, reconhecem a comunidade do Sapé como o lugar de origem da cultura quilombola em Brumadinho. Quando a barragem da Vale rompeu, em 2019, os quilombolas tiveram seus deslocamentos no município prejudicados, devido aos caminhos bloqueados pelo rejeito. Além disso, a comunidade perdeu muitos amigos que trabalhavam na mineradora. Uma comunidade cheia de tradição e com muito conhecimento vindo de suas ancestralidades, os quilombolas são um povo de muita luta e cultura. E costumam celebrar suas raízes ao longo do ano por meio das festas tradicionais das comunidades. As principais celebrações são: São Benedito, São Vicente de Paulo, Nossa Senhora do Rosário, organizadas pelas guardas de Congado, e a festa da Consciência Negra, para reforçar a luta pela liberdade e a resistência ao racismo, buscando pela justiça e igualdade. As comunidades quilombolas de Brumadinho são territórios de muitas histórias, resistência e conhecimento, além de serem responsáveis pela preservação dos modos de vida tradicionais, do meio ambiente, e de uma cultura diversa por meio da preservação da ancestralidade através da oralidade e em respeito aos mais velhos.
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Alternativas econômicas frente à mineração Brumadinho é um dos maiores municípios da região metropolitana de Belo Horizonte em extensão territorial, com 639,43 km², 5 distritos reconhecidos e outros povoados rurais. A espelho de outras cidades mineiras que convivem com a atividade minerária em seu território, têm sua subsistência econômica à mercê de uma minero-dependência que não só limita a diversidade de geração de empregos da cidade, como também conduz as relações político sociais da comunidade. De acordo com estudo feito pela Caravela Dados e Estatísticas, com base em dados do IBGE, o setor da indústria representa 67,6% do PIB da cidade. Ainda segundo o IBGE, em 2019, o município possuía uma área de 20,5 mil hectares de lavoura, o que nos coloca a importância da produção agrícola para a população. Sendo assim, a estatística mostra que outras possibilidades surgem da organização comunitária, na formação de cooperativas, associações, dos assentamentos de reforma agrária e a produção de artesanatos, como uma forma de resistência frente à mineração. Foto: Valéria Carneiro
ra da Lei 11.947, do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que determinou que 30% dos produtos destinados à alimentação escolar fossem adquiridos da agricultura familiar. Além da produção de leite, a Associação passou a forneAssentamento cer produtos de alimentação básica, como feijão, fubá e frutas, Pastorinhas é cultivados em Brumadinho. Após o desastre-crime da Vale, referência em em 2019, a Associação se tornou a principal fonte de renda agricultura familiar de muitas famílias agricultoras, diretamente atingidas. “Após o rompimento da barragem, a produção de leite foi afetada devido O Assentamento Pastorinhas está localizado no município à logística de transporte de recolhimento para o laticínio e os oude Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte. A tros produtos, que até hoje sofrem o preconceito de aceitação no ocupação ocorreu em 25 de julho de 2001 e foi reconhecida mercado, pelo fato do medo de contaminação. Basicamente hoje como assentamento da reforma agrária pelo Instituto Nacional a associação é a nossa melhor fonte de receita para a venda de de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em 2006, ao ser nossa produção para o mercado do PNAE”, relata João Carlos, caracterizada como média propriedade improdutiva que não agricultor e membro da ASPRUB. cumpria a sua função social. A área total é de 156 hectares, Foto: Maria Aparecida sendo 142 hectares de Mata Atlântica preservados. Outros 14 hectares são utilizados para a produção de alimentos e agroflorestas. A agricultura é a principal atividade econômica das famílias assentadas, se tornando referência no cultivo agroecológico. Com o rompimento da barragem da mina Córrego Mulheres unidas do Feijão, a produção foi diretamente afetada, como nos conta pela Cozinha Valéria Carneiro, agricultora e assentada do Pastorinhas: “Com & Sabores o rompimento da barragem da Vale S.A, em 2019, o assentamen- do Paraopeba to foi muito prejudicado na produção, tendo em vista o grande medo de se consumir os produtos oriundos do município de BruA cooperativa Cozinha & Sabores do Paraopeba nasceu de madinho, fazendo com que as vendas da produção caíssem 70%, um projeto de geração de renda para as comunidades atingiprejudicando a vida das assentados. Após cinco anos do rompi- das, construído de forma autônoma, a partir de uma multa mento, a comunidade ainda aguarda a reparação integral”. Va- aplicada pelo Ministério Público do Trabalho contra a Vale. léria é parte das 25 famílias que vivem hoje no assentamento, Este recurso foi destinado para a aquisição de maquinário para sendo 5 delas formadas por filhos de assentados que se mantia produção de pães, doces e salgados. Há 2 anos, 30 mulheres veram no território. da comunidade do Tejuco partiram desta iniciativa e criaram Foto: João Carlos a cooperativa. Maria Aparecida, conhecida como Paré, é uma destas mulheres que estão desde o início do projeto. Para ela, A Cozinha & Sabores do Paraopeba não é apenas um empreendimento para fonte de renda, mas também um lugar de encontro, união e apoio entre a comunidade. “Ajuda as mulheres Associação de a saírem um pouco da rotina, da depressão. Quando está lá, é Produtores Rurais uma alegria só. E é muito bom mexer principalmente com coisa é fonte de renda em de comida, né. Aqui no Tejuco, como é um lugar muito próximo Brumadinho das mineradoras, a gente é muito atingido, muito mesmo. E A Associação de Produtores Rurais de Brumadinho (AS- essa cozinha foi uma forma diferente da gente ver que não é só PRUB) foi fundada em agosto de 2020, inicialmente com o ob- do minério que se vive, que tem outras coisas também que dá jetivo de reunir pequenos produtores de leite da região para pra tirar o sustento para uma casa”. Atualmente, a cooperativa a comercialização em maior escala. A expansão da associação está instalada na sede da associação da comunidade, mas o para produção agropecuária ocorreu em 2009, com a assinatu- objetivo é conquistar um espaço próprio.
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Três joias ainda precisam ser encontradas Familiares de Maria de Lurdes, Nathália Porto e Thiago Tadeu aguardam o momento da última despedida A cada dia 25 de todos os meses, familiares das vítimas do desastre-crime da Vale se reúnem no letreiro de Brumadinho em um clamor por “Encontro, Justiça e Memória”. Tem sido assim desde o primeiro mês da tragédia que ceifou, precocemente, a vida de suas 272 joias. Passados cinco anos do trágico dia 25 de janeiro de 2019, os clamores seguem ecoando, já que a dolorosa realidade persiste: os responsáveis ainda não foram punidos e as famílias de Maria de Lurdes da Costa Bueno, de Nathália de Oliveira Porto de Araújo e de Tiago Tadeu Mendes da Silva ainda vivem a angústia de não poder sepultar dignamente suas joias. A última vítima identificada foi Cristiane Antunes Campos, em dezembro de 2022. Tiago Tadeu, com 34 anos na época, tinha acabado de se formar em Engenharia Mecânica e foi transferido para trabalhar em Brumadinho dias antes do rompimento da barragem. Thiago teve sua vida abruptamente interrompida na empresa em que desde a infância sonhou em trabalhar, seguindo os passos do pai. Deixou a esposa e dois filhos. Nathália Porto sonhava em trabalhar na mineradora, na expectativa de estabilidade. Aos 25 anos, mãe de duas crianças, a estagiária saiu de casa apressada no fatídico dia e nunca mais retornou. Guardava suas economias para comprar a casa própria. Momentos antes do rompimento falou, pela última vez, com o marido. Fotos: Reprodução das Redes Sociais
Maria de Lourdes estava hospedada com a família na pousada Nova Estância, que ficava perto da barragem do Córrego do Feijão. Moradora de São José do Rio Pardo (SP), aos 59 anos, a corretora veio a Brumadinho para conhecer o Inhotim. O marido, dois enteados e a nora que estava grávida também morreram na tragédia-crime. O Corpo de Bombeiros e equipes de resgate continuam as operações na região, utilizando tecnologias avançadas e equipes especializadas. No entanto, a complexidade do terreno e a extensão da área afetada apresentam desafios significativos. Para a Avabrum, “sem o encontro das joias, sem a responsabilização criminal, sem alterações das leis minerárias que coloquem de fato a vida em primeiro lugar, não existirá reparação para familiares”. A presidente Andresa Rodrigues, afirma que a entidade segue acompanhando, com esperança, a busca das três joias e que desistir de localizá-los segue não sendo opção para Avabrum.
Foto: Inhana Olga
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Foto: Reprodução AVABRUM
JUSTIÇA “A injustiça torna a dor ainda mais latente. Para nós, familiares, a reparação nunca será feita, pois vidas não se reparam, mas é possível que tenhamos um pouco de alento, e isso ocorrerá quando a justiça for feita. Quando os responsáveis por esse crime forem devidamente julgados e pagarem pelos crimes cometidos.” Andresa Rodrigues, mãe da joia Bruno Rocha Rodrigues, presidente da AVABRUM
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Reparação socioambiental “para inglês ver” Não há reparação no mundo que devolva 272 vidas depois de um crime socioambiental de gigantescas proporções
Entenda um pouco mais sobre o acordo de reparação em Brumadinho O conhecido Acordo Global firmado entre a Vale S.A, as Instituições de Justiça (O Ministério Público de Minas Gerais, a Defensoria Pública de Minas Gerais e o Ministério Público Federal) e o Governo de Minas Gerais em fevereiro de 2021 prevê a reparação dos danos socioambientais causados pela Vale com o desastre-crime de 2019. O texto do acordo divide as obrigações da Vale em Reparação Socioeconômica (Anexos I) e Reparação Socioambiental (Anexo II). Além disso, algumas medidas previstas no acordo devem ser executadas diretamente pela mineradora (obrigação de fazer); outras devem ser desembolsadas pela Vale e executadas pelo Poder Público (Obrigações de pagar). O Anexo II (Recuperação Socioambiental) se refere ao Plano de Recuperação Socioambiental da Bacia do Rio Paraopeba, que está sendo elaborado desde 2019 por uma multinacional contratada pela Vale S.A., a Arcadis. A construção do plano tem supervisão do Estado de Minas Gerais, através da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e do Ministério Público, através da auditoria socioambiental da multinacional Aecom do Brasil. Todavia, os atingidos não participam de sua construção. Desde o desastre-crime da mineradora Vale em Brumadinho, a população atingida vem sofrendo com incontáveis obras, com o aumento da população e da poluição ambiental, o recrudescimento da violência urbana, o adoecimento físico e psíquico e diversos outros problemas, que vitimizam todos os dias as pessoas já afetadas por um dos maiores crimes socioambientais da nossa história.
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Foto: Washington Alves / Light Press
Há 5 anos o município de Brumadinho vem sofrendo com o chamado processo de reparação dos danos causados pelo desastre-crime da Vale. São obras, milhares de trabalhadores de fora circulando pela cidade e muitos problemas. Em 2021, um acordo foi firmado entre a mineradora Vale, as Instituições de Justiça e o Governo de Minas Gerais. A cidade, que antes era uma típica cidade do interior de Minas, bem pacata e na qual praticamente todos os moradores conheciam uns aos outros, convive, hoje, com muitas obras e várias mudanças drásticas depois do rompimento da barragem da Vale, em janeiro de 2019. Muitas famílias e pessoas resolveram sair da cidade depois de perderem um parente ou algum amigo no desastre-crime, no qual 272 pessoas tiveram suas vidas ceifadas. A população convive com violações de direitos cotidianas, como congestionamentos pra acessar a cidade, causados pelo aumento populacional e do número de veículos de empresas após o desastre. São vários caminhões carregados de minério, além de caminhonetes que estão atuando nas obras de reparação. Silas Fialho, liderança comunitária em Brumadinho e morador do bairro Parque da Cachoeira, desabafa: “eu não reconheço mais aquela Brumadinho tranquila e boa de se viver, onde a maioria se conhecia. O Parque da Cachoeira acabou, muitas famílias foram embora depois do rompimento da barragem. Precisamos manter a originalidade da cidade”.
Será que os atingidos de Brumadinho são ouvidos? Um fato que chama a atenção no acordo feito pela mineradora Vale S.A. e as Instituições de Justiça, é que a população de Brumadinho não foi escutada e não participou diretamente do processo. Ela apenas sofre com as mudanças que estão sendo feitas em suas vidas e no município onde nasceram, ou escolheram viver. “Quando a gente pensa em reparação integral dos danos de um desastre, seja ele ambiental e humano, como no caso do rompimento da barragem, a gente imagina uma sequência de ações com uma lógica mínima”, afirma Fernanda Perdigão, moradora do distrito de Piedade do Paraopeba, em Brumadinho. “Óbvio que tem aquele primeiro momento que é de extrema relevância, que é de abraçar os familiares e os amigos. Mas tem um processo por trás e após, que é: quais as consequências desse desastre-crime? E a partir desse momento a gente começa a pensar o que reparar. O que é a reparação integral dos danos? É voltar a devolver ao estado anterior ao que estava ou melhor do momento do evento”, reafirma Fernanda Perdigão.
“Nada será como antes” Um acordo de reparação integral sem a participação das comunidades e pessoas atingidas é uma afronta ao verdadeiro direito à reparação integral e possível do povo atingido de Brumadinho e da bacia do rio Paraopeba. Nesse sentido, a reparação não vem garantindo o retorno ao estado anterior, tampouco o acesso a uma vida ainda mais digna. A tão aludida reparação é controlada pela política e pelo poder econômico e segue sua lógica própria. A confiança e a legitimidade do processo de reparação ficam prejudicadas. O processo de reparação causa novos danos. A economia da mineração predatória na região é a grande beneficiada. Ouvindo os atingidos, a percepção é a de que o balanço da dita reparação socioambiental nos 5 últimos anos representa, em realidade, a absoluta ausência de construção de um futuro que anuncie o fim da exploração desenfreada dos territórios, das pessoas e da natureza e a perpetuação de um crime continuado. Dia 25 é todo dia.
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Impunidade e dor: cinco anos após o desastre-crime da Vale, famílias clamam por Justiça
Fotos: Arquivo pessoal
caminhada contra a impunidade ainda será longa. Para o advogado Danilo Chammas, a demora em definir o juízo competente prejudicou o andamento do processo, que atualmente está na fase de citação dos acusados, porém algumas pessoas indiciadas pela Polícia Federal e pelas CPIs sequer estão sendo processadas. Chammas ressalta a importância de manter a acusação de homicídio doloso, com dolo eventual, ao longo de todo o processo. Ele explica: "Embora não possamos afirmar que os acusados tinham a intenção de matar as 272 vítimas, eles assumiram um risco inaceitável de que isso poderia de fato acontecer".
Fotos: Fred Tonucci
O fatídico rompimento da barragem em Brumadinho deixou cicatrizes profundas e inapagáveis nas famílias das 272 joias que tiveram suas vidas ceifadas. Flávia Coelho, filha de Olavo Henrique Coelho, trabalhador na Mina de Córrego do Feijão por mais de quatro décadas, compartilha a dor incessante: “Cinco anos se completam, mas para nós parece que foi ontem. A dor da impunidade e a saudade só aumentam”. Flávia conta que a ausência do pai marca todos os eventos de sua vida, desde as conquistas cotidianas até os episódios marcantes.
Ex-presidente da Vale busca habeas corpus prematuro
Um sonho não realizado do senhor Olavo, segundo Flávia, era a reforma da Igreja São Francisco de Assis em Brumadinho. Em honra a ele, ela destinou parte de sua indenização para concretizar esse desejo, preservando a memória de seu pai e das joias nesse local sagrado, onde a comunidade busca consolo e forças para seguir em meio às dores e devastação que se arrasta por Brumadinho. A luta das famílias, como a de Flávia, não é apenas por justiça pelos seus entes queridos, mas também para que nenhuma outra família passe pelo sofrimento que elas enfrentaram. O vazio persiste, mas as lutas continuam, é o que aponta também a diretora da Avabrum, Andresa Rodrigues, mãe do Bruno, vítima fatal do desastre-crime da Vale. “Só teremos um pouco de alento quando a justiça for feita”, afirma. Fotos: Inhana Olga
Responsáveis seguem impunes A morosidade da justiça só intensifica a angústia daqueles que anseiam por justiça, ao mesmo tempo em que beneficia os responsáveis pelo desastre-crime da Vale. Infelizmente, a
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O ex-presidente da Vale, Fábio Schvartsman, figura entre os réus e pode se ver prematuramente liberto do processo por meio de um habeas corpus, com julgamento iniciado em dezembro de 2023 e até o momento não concluído. O Desembargador Relator Flávio Boson Gambogi votou favorável ao pedido de Schvartsman. Chammas ressalta que o posicionamento “foi de certa forma surpreendente, dado que o trancamento prematuro de uma ação penal é medida excepcionalíssima, que somente ocorre quando há uma acusação claramente errada ou injusta”. O advogado explica ainda que, historicamente, são raros os casos exitosos de habeas corpus apresentados com esse objetivo, visto que é proibido se valer do recurso para antecipar uma discussão sobre a culpa ou não de um acusado. Andresa Rodrigues ressalta que a Avabrum entende que as acusações existentes contra Schvartsman são consistentes, suficientes e aptas a justificar a existência de um processo criminal contra ele. “Se ele entende que a acusação é injusta, que apresente sua defesa ao longo da ação penal”, finaliza. O processo do habeas corpus tramitou em sigilo e gerou revoltas. O voto do Desembargador Relator, favorável ao trancamento do processo, causou indignação. O pedido de vista do Desembargador Pedro Felipe trouxe um alívio temporário, mas a incerteza persiste até o julgamento ser retomado. A Avabrum segue realizando atividades que buscam sensibilizar os desembargadores e a sociedade de que conceder o habeas corpus ao ex-presidente da Vale é um grande equívoco. Apesar dos desafios, as famílias das vítimas, organizadas pela Avabrum, perseveram incansavelmente em busca de justiça. O acompanhamento popular e a preservação da memória histórica são instrumentos vitais para garantir que o caso não caia no esquecimento. Enquanto aguardam as decisões judiciais, essas famílias resistem, mantendo viva a chama da esperança por um desfecho justo.
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É direito do Tejuco o acesso às suas nascentes! Fotos: Evandro França
Cinco anos após o rompimento, a água do Tejuco ainda sai das torneiras misturada à lama
O Tejuco é uma comunidade tricentenária, localizada no perímetro urbano de Brumadinho, mas com características rurais, marcada por modos de vida que resistem às investidas da mineração, como a agricultura familiar e a agropecuária. Comunidade cercada pelas montanhas, próxima à Serra do Pico dos Três Irmãos, Tejuco é reconhecida pela notável riqueza hídrica de suas nascentes, que já foi responsável por abastecer toda a região de Brumadinho. No entanto, com o avanço da mineração no início dos anos 2000, três empresas se instalaram nas divisas do território: de um lado a Tejucana S.A. Mineração; um pouco adiante a Mineral do Brasil; e do outro a Vale, responsável justamente pela barragem do Córrego do Feijão, rompida em 2019. Com o desastre-crime da Vale, a estrada que liga a Mina ao Tejuco, utilizada para o socorro às vítimas e posteriormente para a retirada do rejeito, foi reaberta em cima de um reservatório aproveitado pela comunidade para captação de água. Como resultado, o descarte do rejeito de minério foi todo despejado no reservatório, encobrindo a tubulação que abastecia das nascentes à comunidade e entupindo de lama as caixas d’água das casas. Desde então, as famílias sofrem com a falta de abastecimento e com a contaminação da água. Evandro França, conhecido como Vandeco, membro da Associação de Defesa Ecológica do Pico dos Três Irmãos, criada após o rompimento para requerer o direito à água, reclama da falta de reparação dos danos causados ao território. “Nós enviamos um ofício para a Vale, Ministério Público e Defensoria Pública, solicitando a troca de toda a rede da comunidade, que até hoje está contaminada, porque não foi feita manutenção nenhuma. Até hoje ainda sai resíduo do impacto de 2019. A gente solicitou essa reparação, porém não tivemos sucesso”. Em resposta, foi anexado um aditivo ao Termo de Ajuste de Conduta (TAC) Água, firmado em 2019 entre Vale, Copasa, Ministério Público e Defensoria Pública. Este aditivo prevê a construção de poços artesianos, geridos pela empresa de água, para atender às demandas do Tejuco. No entanto, a medida é contestada pela comunidade, que reclama não ter participado das negociações e não reconhece
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como solução o acordo. “A própria Vale criou esse TAC, onde a comunidade mesmo não foi ouvida. A gente tentou que esse TAC não fosse à frente, porém o Ministério Público e a Defensoria Pública não viram os impactos causados pela Vale, que nós encaminhamos vários documentos para eles, e também não viram que as nascentes são suficientes para abastecer nossa comunidade”, reivindica Vandeco. Apesar deste retrospecto demonstrar que a crise hídrica enfrentada pelo Tejuco está diretamente ligada ao rompimento, apenas em dezembro de 2020 a Vale reconheceu o território como atingido e o enquadrou nos critérios de fornecimento de água mineral. Até então, a água para consumo e uso doméstico era a mesma contaminada por metais pesados da barragem do Córrego do Feijão. Maria de Fátima, a Zizinha, enfrenta essa realidade desconfortável quanto ao fornecimento de água e relata como a contaminação não só ameaça o consumo, como também alterou toda a relação da comunidade com os rios. “Com a falta de água, começou o nosso transtorno e nossa humilhação. Depois de muitas informações e lutas, que hoje a Vale doa, entregando apenas 10 fardos de água, nem sempre sendo o suficiente. Tínhamos sempre a nossa água com abundância, da nossa nascente que da Serra chegava e abastecia o Tejuco. Depois do rompimento não temos mais área de lazer, íamos aos rios pescar e nadar nos dias de calor, ia à casa da minha irmã que era um sítio no Parque da Cachoeira e que hoje não se localiza mais devido a lama passada no local, levando a casa e os animais de lá. Perdemos nosso lugar de lazer, a nossa liberdade de ir aos rios, e até hoje a gente sofre pela falta de água”. Abruptamente a Vale foi tirando do povo a maior riqueza de suas terras. A vazão de água das nascentes foi alterada pela atividade minerária, as redes de abastecimento assoreadas e a água das torneiras contaminadas pelo rejeito. Enquanto isso, o Tejuco permanece unido na luta pela soberania hídrica que sempre lhes pertenceu, aguardando por reparação socioambiental e por uma água limpa e de qualidade para o consumo de suas famílias.
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NÃO REPETIÇÃO
Fotos: Florian Kopp
“A barragem estourou em 2019, no dia 25 de janeiro, mas a cada dia ela estoura um pouquinho, porque a cada dia é uma família que vai embora, cada dia a gente fica sabendo de uma pessoa que falece de tristeza. Eu falo que a gente vive o dia 25 todos os dias, porque eu saio no portão, olho uma casa fechada de alguém que já foi embora, eu passo na pracinha e lembro dos meninos sentados lá, dos meninos que foram trabalhar e não voltaram. Hoje o Córrego do Feijão é uma comunidade triste. A gente não tem liberdade de sair, de deixar as filhas sozinhas hora nenhuma porque a gente não sabe mais quem está aqui. Com essas obras que estão acontecendo [de reparação] tem muitas pessoas desconhecidas que vieram trabalhar. Mas quem vai aproveitar essas melhorias se não está ficando ninguém? Se os que querem ficar eles convidam a sair porque é tanta coisa que acontece que a gente acaba tendo que sair pra não ser mais prejudicado. Então eu não acredito que essas obras não sejam para a comunidade porque a comunidade está acabando.” Carmem Sandra, moradora do Córrego do Feijão, no documentário “Brumadinho - Relatos do crime continuado”
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Mineração ainda causa transtornos em comunidades tradicionais de Brumadinho e Mário Campos Cidades convivem com o terror e resistem contra o avanço da mineração predatória Passados cinco anos do rompimento da barragem da Vale, em Córrego do Feijão, a mineração segue causando problemas para algumas comunidades de Brumadinho, em Minas Gerais. A exploração predatória ainda assombra, por exemplo, as populações das comunidades de Ponte das Almorreimas e Aroucas. O medo também alcança quem vive em Mário Campos, cidade vizinha ao local da tragédia de Brumadinho. Isso tem gerado muitos problemas, porque as comunidades sempre foram lugares tranquilos e com muitos sítios. Entre os principais impactos negativos dessa nova atuação da mineração em territórios de Brumadinho estão a destruição do meio ambiente, a desintegração de comunidades e a cooptação e coerção de habitantes. As mineradoras podem até gerar empregos para a região, mas os postos são sempre de menor remuneração e arriscados; as pessoas adoecem no trabalho e vivem em instabilidade constante. Os cidadãos tentam resistir aos assédios das mineradoras e lutam, bravamente, pelo lugar onde sempre viveram. Eles, que construíram suas casas em um lugar pacato, hoje convivem com a desleal batalha contra a exploração da terra.
afirma que viu apenas uma vez o diálogo da mineradora “Mineral do Brasil” com a população de Mário Campos durante uma audiência pública. “Foi um discurso manipulado e bem artificial tentando ludibriar a população”. Para Claudia Saraiva, “não há fiscalização sobre a atuação da mineração no território e as mineradoras vêm destruindo o meio ambiente e prejudicando a vida das pessoas que moram perto da mineração. A luta contra a mineração predatória é diária”. Claudia ainda afirma que conseguiu provar que uma obra de captação de água feita pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), em parceria com a Vale, em Ponte das Almorreimas, não funciona e não capta água para a comunidade.
O avanço da mineração desenfreada preocupa até cidades próximas a Brumadinho
A mineração segue avançando drasticamente em nosso município e em cidades vizinhas. Em Mário Campos, cidade ao lado de Brumadinho, a mineração causa transtornos no centro da cidade e na principal via local, onde muitos caminhões das mineradoras passam, promovendo danos e prejuízos para os comerciantes e problemas à saúde da população. Precisamos mesmo da mineração? “Somos afetados pelas mineradoras que atuam em Brumadinho, Depois de tanto sofrimento proporcionado à comunidade de Sarzedo e São Joaquim de Bicas, cidades que fazem divisa com MáBrumadinho devido ao rompimento da barragem de responsa- rio Campos, estamos no meio dessas cidades que possuem minerabilidade da empresa Vale S.A., em 2019, o povo passou a convi- ções em seu município”, afirma Jessica Matos, moradora da cidade. ver com problemas de saúde, poluição sonora, visual e caos no Foto: Kamila Goulart / Epicentro Urihi trânsito da cidade, que convive com um aumento exponencial de carros e caminhões utilizados nas obras de reparação. Precisamos mesmo que a mineração assombre as nossas vidas e cause temores em boa parte da população? É preciso respeitar as comunidades tradicionais do nosso território e preservar o meio ambiente. Foto: Washington Alves / Light Press
Será que existe diálogo entre as mineradoras e as comunidades? “Existe uma política da mineradora, voltada para as comunidades, que varia entre as empresas, mas é sempre voltada às questões empresariais; vende um discurso de responsabilidade social e ambiental”, afirma Alexandre Gonçalves, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O problema é que esse discurso de responsabilidade social e ambiental não é visto na prática. Em Brumadinho, o rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão causou muitos estragos na fauna e na flora: incontáveis animais mortos, destruição do rio Paraopeba e centenas de árvores arrancadas. Alguns agricultores perderam suas plantações e muitos pescadores não podem mais usar o rio para pescar. Jessica Matos
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Precisamos preservar nossas comunidades É fundamental entender que a mineração não é a principal fonte de renda na região e que é preciso explorar outro tipo de atividade econômica que não seja tão maléfica para as nossas vidas, como a mineração vem sendo nesses últimos cinco anos, trazendo muita dor e sofrimento. Para Thaís Martini, diretora do Epicentro Urihi, localizado na comunidade de Aroucas, a agroecologia e o agroflorestamento são possibilidades viáveis para auxiliar a comunidade local. Essas ações além de causar um impacto ambiental positivo na região, geram renda e podem trazer benefícios para a saúde mental das pessoas. Essa forma de cultivo sustentável pode melhorar a qualidade do solo e a preservação das nascentes. Além de garantir um alimento de qualidade para as famílias. As comunidades precisam ser tratadas com respeito para que possam seguir suas vidas nos lugares em que escolheram viver, sem o transtorno das mineradoras. Também é urgente criar medidas para restaurar e preservar a natureza da região.
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Brumadinho: entre enchentes e poeira População sofre com os danos continuados da atividade minerária
Impacto psicológico A tensão nas comunidades atingidas é constante. Além do medo das enchentes e da poeira tóxica, a população convive com o receio de novos rompimentos de barragens. Como sua residência está localizada na área da mancha da barragem Menezes II, situada na mina Córrego do Feijão, da Vale S.A, Rejane revela a dificuldade de encontrar paz durante as chuvas, questionando se terá tempo suficiente para deixar sua casa e salvar seus filhos caso ocorra um desastre. “Não temos sossego
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Foto: Florian Kopp
Quem vive em Brumadinho conhece bem essa realidade. Os impactos da atividade minerária predatória na região são imensuráveis e contínuos. Alguns exemplos são as enchentes periódicas e a constante presença de poeira que invade os lares dos moradores, trazendo consigo não apenas sujeira, mas também danos para a saúde física e mental da população. Rejane Fernandes, moradora da comunidade Pires, em Brumadinho, lembra os estragos causados pela enchente do ano de 2022, que além da água, levou lama para as residências. “A enchente chegou em minha casa, fez um buraco enorme no meu muro. Perdi tanquinho, perdi máquina. Tive um grande prejuízo porque, mesmo tirando as coisas antes da água chegar, elas estragam nessas mudanças”. Rejane conta ainda que a limpeza após as enchentes demandou dias de trabalho árduo, com um grande gasto de água e materiais de limpeza para enfrentar a lama que se agarrava a tudo, além do persistente mau cheiro. A neta de Rejane, que na época tinha 6 anos, sofreu com coceiras, feridas e manchas na pele após a enchente. A suspeita é de que esses problemas estejam relacionados à lama tóxica, fato que torna a situação ainda mais preocupante. Fora do período chuvoso, são as nuvens de poeira que pairam sobre Brumadinho. Os trens carregados de minério, acima dos limites dos vagões, em sua maioria, passam no interior da cidade e na zona rural sem proteção, permitindo que o vento espalhe partículas tóxicas pela cidade. A invasão desse “pozinho” afeta a saúde respiratória da população, especialmente das crianças. A quantidade de poeira é tão alarmante que, em algumas ocasiões, pode ser observada em diversas localidades a olho nu, como aconteceu nos últimos meses de 2023, em que até o trânsito na BR-356, próximo à Nova Lima, foi afetado.
Foto: Fred Tonucci
Poeira na estiagem e tensão durante as chuvas
Foto: Arquivo Renser
O planeta enfrenta uma crescente emergência climática, evidenciada não apenas pelos eventos climáticos extremos, mas também pelos desastres industriais que colocam em xeque a segurança ambiental. O setor mineral tem sido, frequentemente, associado a impactos socioambientais negativos. Os crimes vinculados às empresas Samarco, Vale, BHP e Braskem ilustram os danos causados pela mineração. A liberação de gases de efeito estufa, o desmatamento, a degradação do solo, a contaminação da água e a morte de trabalhadores são apenas alguns dos efeitos prejudiciais que permeiam as operações das empresas mineradoras.
nessa época de chuva, mal consigo dormir. Fico muito ansiosa, com crises, aí tenho que tomar remédio para ansiedade”. As consequências da mineração predatória e o clima de tensão, que já trazem prejuízos para a saúde física e mental dos moradores, podem resultar em danos imensuráveis a longo prazo. A luta contra os impactos da mineração se torna não apenas uma batalha ambiental, mas também um grito por justiça e segurança para as comunidades atingidas, ou seja, para a preservação da vida acima do lucro. É urgente a necessidade de equilibrar as necessidades econômicas com a responsabilidade socioambiental. Regulamentações e fiscalizações mais rigorosas e comprometidas com os modos de vida e não repetição dos desastres-crime, além da promoção de práticas de extração que respeitem as comunidades fixadas em seus territórios com centralidade. Esses são alguns passos essenciais para mitigar os impactos negativos da atividade minerária, respeitando a nossa “Casa Comum” - o planeta Terra.
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BRUMAS Foto: Theresa Mentrup
É preciso olhar com carinho para a saúde das pessoas de Brumadinho Nestes cinco anos do rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, em que 272 pessoas tiveram suas vidas ceifadas pelo maior acidente de trabalho do país, um dos principais impactos socioambientais na população da cidade identificado é a saúde dos moradores. Essas consequências estão relacionadas à contaminação por metais pesados, de acordo com estudos realizados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e na saúde mental, em que os números apontam um crescimento no uso de antidepressivos e ansiolíticos na população e na procura por atendimento psicossocial. De acordo com dados da Secretaria de Saúde de Brumadinho, em 2018, o número de remédios para a ansiedade era de 777, já no ano de 2019, esse número passou para 972. Além disso, houve um aumento de doenças não transmissíveis, como as cardiovasculares e os transtornos mentais, que estão ligadas diretamente à saúde mental. Os danos causados pelo desastre-crime na vida das pessoas atingidas em razão do rompimento da barragem, a partir do contato com a liberação de rejeitos do minério e da exposição de metais pesados, podem ser identificados em quatro grupos entre os metais que interferem na saúde humana: i) metais tóxicos principais (arsênio, berílio, cádmio, cromo, chumbo, mercúrio e níquel); ii) metais essenciais com potencial toxicidade (cobalto, cobre, ferro, magnésio, manganês, molibdênio, selênio, cromo trivalente e zinco); iii) metais com indicação terapêutica (alumínio, bismuto, gálio, ouro, lítio e platina); e iv) grupo de menor relevância (antimônio, bário, césio, flúor, germânio, índio, paládio, prata, telúrio, tálio, estanho, titânio, urânio e vanádio). Desde 2019, a partir das coletas das amostras do rio Paraopeba, foram identificados a presença de metais
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pesados com concentração acima da média, além de superbactérias resistentes a antibiótico, tornando-se danos incalculáveis à saúde da população no território atingido ao longo da bacia. Outro índice que também aumentou após o desastre-crime foi a de tentativa de autoextermínio da população atingida. A população está adoecida, usando medicamentos para lidar com a depressão em razão da falta do familiar, do cônjuge, dos amigos, além da incessante luta por justiça, convivendo também com os impactos causados pelo avanço da mineração no município desde então. Silas Fialho cita que o natal de sua família não é mais o mesmo sem a presença de seu primo, falecido no rompimento da barragem. É uma perda irreparável e muito emotiva para a minha família, o natal não tem mais aquele clima festivo. Um dos pontos críticos relacionados à saúde da população atingida em Brumadinho são as políticas do Programas de Saúde da Família (PSF), diante da grande rotatividade de médicos e da centralidade dos atendimentos na sede do município, deixando de priorizar também as zonas rurais e o interior. Merece atenção a falta de profissionais da saúde mental e dos especializados em vigilância sanitária, na área de contaminação por metais pesados. Podem ajudar muito a população nessa batalha para melhorias na saúde de Brumadinho, afirma Shirlene Gerdiken, da comunidade de Aranha, no interior de Brumadinho. É urgente que o poder público se comprometa a acompanhar de forma aprofundada a situação de saúde de população de Brumadinho e das cidades atingidas, atendendo às demandas das pessoas impactadas pela mineração por meio de uma política pública nacional, investindo em profissionais e pesquisas a partir da cadeia produtiva do setor mineral.
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