Skip to main content

O que você vai ser quando crescer? - Nayara Jaqueline Ledes

Page 1

UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL CURSO DE JORNALISMO

NAYARA JAQUELINE LEDES LIMA

O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO CRESCER?

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

SÃO PAULO - SP 2020


NAYARA JAQUELINE LEDES LIMA

O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO CRESCER?

Relatório de Fundamentação Teórica e Metodológica apresentado ao Curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, como requisito para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientador: Prof. Me. Antonio Lucio R. Assiz

SÃO PAULO - SP 2020


Ficha Técnica TEMPO: 00:29:41 LOCAL: CIDADE TIRADENTES – São Paulo – Brasil TÍTULO: O Que Você Quer Ser Quando Crescer? PRODUÇÃO: Nayara Ledes REPORTAGEM: Nayara Ledes CÂMERA: Nayara Ledes; Willian Ledes IMAGENS: Captação através de plataformas digitais e de forma presencial ROTEIRO: Nayara Ledes EDIÇÃO: Nayara Ledes DIREÇÃO: Nayara Ledes AGRADECIMENTOS: Monica Patrícia; Djalma Góes; Bruna Santos; Milena Araujo; Suilan de Sá; Fernanda Souza; Renan Lavrador; Priscila Lima; Professora Ana Almeida (nome fictício); Projeto Letra Preta; Coletivo de Esquerda Força Ativa.


Resumo Enfatizados na desigualdade educacional presente no bairro Cidade Tiradentes, extremo Leste da Capital paulista, descobrimos o que está por trás de alguns problemas decorrentes na vida escolar dos jovens, como a evasão escolar e o desinteresse nos estudos por parte de algumas crianças e jovens da periferia. Ao longo do projeto de pesquisa retratamos os fatores internos e externos que modificam negativamente os estudantes da Cidade Tiradentes e assim, desencadeiam o total desestimulo ao ambiente escolar. Buscamos incentivar os moradores do bairro a estudarem, apresentamos projetos que possuem o objetivo de auxiliar na construção do saber entre os moradores da periferia, revelamos as “heroínas da resistência”, com relatos importantes sobre a exclusão educacional e mensagens para impulsionar mais pessoas a serem resistência também. Apontamos os resquícios da excludente sociedade em que vivemos atualmente; a exemplo do privilegio de classes no período de isolamento social ocasionado pela pandemia, onde às escolas foram fechadas e os membros da sociedade que não tem acesso a internet e/ou dispositivos digitais foram consideravelmente prejudicados.

Palavras-chave: Educação; Desigualdade; Periferia; Cidade Tiradentes; Pandemia.


Sumário Introdução .................................................................................................................. 6 Objetivos.....................................................................................................................7 Problema e hipóteses de pesquisa: ........................................................................ 8 Problematização ........................................................................................................ 8 Justificativa.................................................................................................................9 Plano estratégico .................................................................................................... 10 Descrição do produto ............................................................................................. 10 Público a ser atingido ............................................................................................. 14 Referencial Teórico ................................................................................................. 15 O retrato da exclusão na Cidade Tiradentes......................................................... 15 Pandemia - Impactos na Educação: Teoria........................................................... 17 Pandemia - Impactos na Educação: Realidade .................................................... 18 Aspectos metodológicos ........................................................................................ 19 REFERÊNCIAS......................................................................................................... 21 Tabela I - Cronograma Geral .................................................................................. 23 Tabela II – Orçamento ............................................................................................. 24 Apêndices.................................................................................................................25 Pautas ...................................................................................................................... 25 Roteiro da Grande Reportagem ............................................................................. 33 Decupagens..............................................................................................................39 Diário de campo ...................................................................................................... 60 Anexos ..................................................................................................................... 64


6

Introdução A história da sociedade até aos nossos dias é a história das lutas de classes. (Karl Marx)

Este Trabalho de Conclusão de Curso teve o objetivo de retratar o que está por trás do desestimulo entre uma quantidade considerável de crianças e jovens da periferia em se dedicar aos estudos e frequentemente abandonar a escola, sendo o bairro Cidade Tiradentes o eixo central de investigação; Segundo Ermínia Maricato (2000; p.122), o planejamento urbano no Brasil não se dedica a realidade, invés disso, ele é comprometido com uma ordem que diz respeito a uma parte apenas. Convivemos com a desigualdade há tanto tempo que parece banalidade questionarmos essa condição em nosso status quo, então a sociedade se cala e aceita, sem compreender o que está por “trás das cortinas”, e na grande reportagem analisamos uma desigualdade ainda mais invisibilizada: à educacional. Vamos ver agora uma parte do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em relação aos direitos estudantis: Art. 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei 8069/901 Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes: I - Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - Direito de ser respeitado por seus educadores; III - Direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;

1

Art. 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) - Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Conteúdo disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em 28/05/2020.


7

IV - Direito de organização e participação em entidades estudantis;

Tomando consciência dos nossos direitos fomos convidados a refletir sobre a questão educacional no Brasil. Será que essa lei está funcionando para todos? Seguindo o conceito de identidade na pós-modernidade, de Stuart Hall (2006), observamos questões essenciais para a repetição de ações dentro de um sistema, fatores internos e externos que contribuem para a existência da desigualdade educacional na Cidade Tiradentes, sob o viés do indivíduo. Também fez parte desse projeto de pesquisa a crítica e interpretação de complexidade do teórico Edgar Morin (2004), e a urbanista Ermínia Maricato, (2000), que nos trouxe também algumas analises que nos levaram a um caminho objetivo, em busca de esclarecer e discutir o fator social excludente. Abordamos o impacto que a pandemia mundial ocasionada pelo novo coronavírus gerou na educação das crianças e dos jovens da Cidade Tiradentes, onde por ser um bairro pleno de pessoas de baixa renda, está sendo intensamente prejudicado pela falta de acessibilidade.

Objetivos •

Mapeamos os problemas inerentes a uma sociedade classicista, este estudo buscou encontrar as causas do contexto de exclusão no setor da educação.

•

Analisamos a limitação imposta ao indivíduo na contemporaneidade, majoritariamente em razão consciente do sistema; assim, propiciando autoconhecimento aos membros e ocasionando mudanças.

•

Produzimos uma grande reportagem televisiva, onde apontamos às causas e às consequências da desigualdade educacional, e também transmitimos uma mensagem de incentivo, de que apesar dos desafios às crianças e jovens da Cidade Tiradentes não devem ir de acordo com os fatores da problemática de ensino.

•

Apresentamos projetos autônomos que tem o objetivo de ajudar os estudantes do bairro a encontrar caminhos para a construção do saber


8

oferecendo acesso gratuito à biblioteca, apresentações de slam e aulas de mediação de leitura e história afro-brasileira. Problema e hipóteses de pesquisa:

Problematização Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado no ano passado (2019)2, o Brasil tem a 2ª maior concentração de renda no mundo, atrás apenas do Catar, porém, apenas 1% da população mais rica do País concentra 28,3% de toda a renda, é o que mostra o relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Com isso, é evidenciado a profunda desigualdade social no Brasil, pois quase um terço da renda está sob o domínio dos mais ricos e, como mencionado, representam apenas 1% em todo território nacional. A desigualdade levanta questões palpáveis em diversos níveis, lugares e seções, mas, ela estaria presente também na educação? A resolução 8069/90 do ECA está sendo aplicada para todos e em todos os lugares? E de fato, existe um fator classicista determinante até mesmo na educação? Por que os jovens da Cidade Tiradentes não estão focados e motivados em estudar e construir uma carreira profissional? No que diz respeito ao paralelo sociedade X identidade, medimos às consequências que isso causa no indivíduo e também investigamos se os profissionais da educação contribuíram ou não para essa situação excludente acontecer.

Hipóteses

2

G1 Notícias. Conteúdo disponível em https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/12/09/brasil-tem-segunda-maiorconcentracao-de-renda-do-mundo-diz-relatorio-da-onu.ghtml. Acesso em 01/06/2020.


9

A correlação entre morar na periferia e viver em uma bolha mental limitada construída pela sociedade entre diversos fatores e níveis é um dos precursores do problema da inconformidade; há também o desatino no investimento do governo nas redes públicas de ensino e a falta de credibilidade proporcionada ao alunado pela reitoria das escolas.

Justificativa Este trabalho se fundamentou na investigação dialética dos estudos sociais; sua importância transcende ao interesse dos moradores do bairro Cidade Tiradentes, que é o objeto de pesquisa, por se tratar de uma reafirmação sob o viés da periferia, com isso, mapeamos os propagadores do que se resulta em desigualdade no setor educacional. Sociedade e política estão completamente conectadas, é essencial que os membros conheçam o papel da política em relação aos diretos e deveres do indivíduo, e também o reconhecimento de si próprio e do conflito existente no sistema onde se está inserido, com isso haverá maior possibilidade de percepção de identidade e gerar mudanças começando pelas urnas. A pedagoga e autora Maria Schefer3, apresentou um estudo de caso feito por ela; é observado e registrado causas que potencializam o caso excludente escolar. Salva algumas exceções, existe uma profunda diferença entre às escolas da periferia e às do centro. Cidade Tiradentes foi o local escolhido para este Trabalho de Conclusão de Curso em razão de ser o local onde a autora estudou até chegar ao nível acadêmico e percebia a necessidade de se debater esta temática.

3

SCHEFER, Maria. Na periferia das periferias: o não-lugar escolar e a pedagogia do destino. 2015. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de pós Graduação em Educação. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, 2015. Disponível em: https://www.capes.gov.br/images/stories/download/pct/2016/MencoesHonrosas/Educacao-Maria-Cristina-Schefer.PDF. Acesso em: 10 fevereiro 2020.


10

Plano estratégico:

Descrição do produto O produto é uma grande reportagem no formato televisivo com o tema “O Que Você Quer Ser Quando Crescer?”. As entrevistas pessoais foram feitas através do meu dispositivo celular; a poesia e a entrevista da professora foram gravadas no dispositivo celular delas e posteriormente enviadas; o programa de edição escolhido foi o Adobe Premiere Pró 2019. A estratégia para a definição de layout do GC veio através de pesquisas sobre a criação dele através do programa Adobe Photoshop e também um breve estudo sobre a psicologia das cores, através disso eu fui anotando as ideias e realizando tentativas, estudando sobre como ficaria o GC sob a imagem da entrevista e percebi que um modelo simples porém harmonioso se adequaria melhor, mas se tratando do resultado final a descrição é: O cinza é classificado pela psicologia, entre outros adjetivos, como a cor da melancolia, da tristeza e do esquecimento; se costuma dizer: “A vida não é feita de pretos e brancos, também existem cinzas”, pode-se dizer que é a cor da desigualdade, pelo menos a que foi escolhida como representante dela nessa grande reportagem em questão, presente tanto na arte desenvolvida com o tema como também no GC. Outra cor presente é o vermelho, entre outros possíveis adjetivos está o perigo, a urgência e políticas socialistas, por isso trouxe essa cor para a composição do GC, a letra branca está apenas para se contrapor ao cinza escuro e ser visível ao telespectador.

Confira o GC através das capturas de tela:


11

Foram feitas duas ilustrações, a ilustração com o tema “O que você quer ser quando crescer?” e a ilustração com uma marcante frase de Nelson Mandela que diz: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, que tem o objetivo de aliviar a tensão gerada pelo decorrer da reportagem, dando a abertura para o copilado de vídeos de “esperança”, com mensagens positivas para a finalização. Para ilustrar melhor a reportagem ser sobre a Cidade Tiradentes e sobre a educação tive a ideia de gravar pelo bairro algumas fachadas de escolas e locais populares entre os moradores do bairro, como o Terminal Cidade Tiradentes por exemplo, para melhor compreensão e design coloquei nessas filmagens uma legenda com o nome do local.


12

Ilustração - Frase de Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.

Ilustração - Tema: “O que você quer ser quando crescer?”.


13

Para a criação da capa do DVD, foi utilizado o programa Adobe Photoshop, o estilo adotado vai de acordo com a cartela de cores utilizada no GC, pelos mesmos motivos em relação ao significado de cores: Vermelho, preto, branco e principalmente o cinza. Como o fundo utilizado no tema remete a televisão, como se estivesse captando sinal antes de transmitir a imagem, achei interessante aproveitar isso e investir em alguns detalhes que reforçam essa percepção ainda mais, como a imagem de uma claquete (Imagem livre para uso acadêmico) e utilizei a cartela de cores da televisão, que representa o marco de quando a teve passou a ser transmitida a cores e não mais em preto e branco, esse detalhe está sob a frase “Grande Reportagem”. Na contracapa algumas imagens representativas do que a reportagem irá falar: possui a imagem da simulação de entrevista de emprego, o Terminal Cidade Tiradentes e a roda de conversa proporcionada pelo Coletivo de Esquerda Força Ativa.

Disco e Capa:

QUER SER QUANDO CRESCER?


14

Público a ser atingido Essa grande reportagem tem o objetivo de atingir os moradores da Cidade Tiradentes e também, por discutir uma problemática em comum, englobar-se aos moradores de todas as periferias do Brasil, incitando a reflexão sobre a análise da desigualdade educacional. De caráter acadêmico, essa grande reportagem poderá ser utilizada para estudos acerca do tema, tanto na área jornalística quanto na área sociológica e pedagógica.


15

Referencial Teórico: O retrato da exclusão na Cidade Tiradentes O tema “Desigualdade Educacional na Periferia: O Retrato da exclusão na Cidade Tiradentes” foi explorado com os conceitos e reflexões de autores que agregaram profundamente para a realização deste trabalho.

A Teoria da

Complexidade, entre suas vertentes, abrange a temática educacional pelo autor e sociólogo Edgar Morin, que ressalta a questão da problemática de ensino e o enfraquecimento ao estímulo complexo em sala de aula. De acordo com Edgar Morin: Quanto mais multidimensionais se tornam os problemas, maior a incapacidade para pensá-lo em sua multidimensionalidade; quanto mais progride a crise, mais progride a incapacidade para pensá-la; quanto mais globais se tornam os problemas, mais indispensáveis se tornam. A inteligência cega se torna, assim, inconsciente e irresponsável, incapaz de encaixar o contexto e complexo planetários. (MORRIN, 2004, p. 19)

Este estudo respaldou-se por este conceito que, embora esteja se referindo as didáticas de ensino do século XX, é perfeitamente atual em nossa sociedade, principalmente nas escolas públicas localizadas na periferia. A reflexão sobre essa crítica de Morin fundamenta o cotidiano de quem estuda na Cidade Tiradentes, extremo Leste da Capital Paulista, estudantes do bairro enfrentam o desafio de não exigir-se o suficiente e assim, é ocasionado o despreparo e em muitos casos, a falta de satisfação pelos estudos. A distanciação qualitativa notória entre centro e periferia está relacionada diretamente a esta e outras reflexões. Segundo Haroldo Torres: Para os professores, as escolas centrais são menos “problemáticas”, seja em função do tipo do alunado, seja em função da localização mais conveniente em termos do sistema público de transporte ou por serem escolas mais organizadas, contando, inclusive, com recurso financeiro extra. (TORRES, et al. 2006; p.13)

É necessário entender que a diferença na qualidade de ensino é real, mesmo que dificilmente abordada, o tabu apenas justifica o pilar dessa existência, a exclusão de alguns para a promoção de outros. Os alunos matriculados em uma rede pública de ensino no extremo Leste da Cidade Tiradentes, absorve constantemente essa discrepância e, com isso, a falha de ensino na periferia é padronizada. A pedagoga Maria Schefer (2016; p. 58) pontua que existe no ambiente escolar a necessidade de


16

posturas mais ativas por parte dos profissionais de ensino em relação aos gestores públicos, mas devemos compreender que existem outros fatores como causa dessa questão. “Desde o ponto de vista legal, os não-lugares escolares [...] não existem. Estando inacessíveis ao olhar da sociedade, em geral, não são efetivamente atingidos por políticas públicas” (SCHEFER; 2015; p. 170). Vivemos em uma sociedade heterogênea que, apesar de muito rica, é desigual na mesma proporção; reconhecer a lacuna exposta é o primeiro passo para entendermos à raiz do problema: a invisibilidade do sistema. Com isso, á analise apresentou a falha na elaboração e na gestão eficiente das políticas públicas na Cidade Tiradentes. Considera-se assim uma das justificativas dessa diferença, porque se tratando de um comparativo entre às escolas do centro de São Paulo e às escolas da periferia, é evidente a desigualdade e, consequentemente o impacto dela na vida das crianças e dos jovens. “A importação dos padrões do chamado ‘Primeiro Mundo’, aplicados a uma parte da Cidade (ou da sociedade) contribui para que a Cidade brasileira fosse marcada pela modernização incompleta ou excludente” (MARICATO, 2000, p.123). Convive-se com a segregação, exclusão e o preconceito de classes como se não existissem, mas a maior faculdade desse fator está justamente nos efeitos que ele causa: a falha escolar, a evasão do alunado, o desinteresse e perspectiva de ensino do sistema e do próprio indivíduo. A falta de liberdade em referência a padrões de vida, pressupondo que cada membro age como já se é esperado, reafirmando o que já é predefinido e que são orientadas tanto pela forma geográfica quanto pela função que esses estudantes exercem em resposta à estrutura social. (SCHEFER, 2015, p. 38). A resultância da sociedade moderna excludente transforma e descentra os membros da mesma. Conforme o autor afirma: O fato de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores, tornandoos “parte de nós”, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade então costura [...] o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis. (HALL, 2006, p.12)

A soma entre criação, convívio social e estrutura desigual, geralmente, proporciona limites mentais e consequentemente refletidos na realidade de cada


17

membro; o indivíduo é formado também pela sociedade e, assim como Stuart Hall (2006) cita, acontece a internalização de acordo com outras identidades culturais. O padrão entre os estudantes da Cidade Tiradentes é descentrado de forma equivocada desde cedo, de acordo com o conceito de identidade cultural pós-moderna, proposto por Suart Hall (2006) o indivíduo é resultado de muitos fatores relacionados ao sistema em que ele está inserido e constantemente sendo desconstruído sob o viés ideológico. Com isso, mesmo sem entender os motivos, pessoas que estudam no bairro fazem escolhas que vão de acordo, nem sempre com o que acreditam em seu consciente, mas que estão de acordo com o que se espera delas, a aceitação em ser semelhante ao grupo social e assim, ser um membro que faz parte do sistema e se enquadra no que se tem como fator comum “costurado” a essa estrutura. “Assim, a identidade é realmente formada ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo imaginário ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre ‘em processo’, sempre ‘sendo formada’” (HALL; 2006; p.38).

A desigualdade educacional é processada, tanto na internalização do que se está no exterior do indivíduo, como se identifica em resposta a sociedade; até fatores genuinamente externos e excludentes, a exemplo do classicismo interferir na educação de crianças e jovens da Cidade Tiradentes. A ausência na capacidade de escolha aponta à problemática.

Pandemia - Impactos na Educação: Teoria A pandemia mundial ocasionada pelo coronavírus gerou um grande impacto na vida dos estudantes do ensino básico até o ensino superior. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), quase 300 milhões de alunos foram afetados em 22 países, devido ao isolamento social em combate a disseminação do vírus, levando ao fechamento imediato das escolas. Com as escolas fechadas, o mundo digital foi apresentado como a “solução” desse óbice, os alunos em teoria poderiam dar continuidade aos estudos que estavam tendo em sala de aula por meio de plataforma online e, havendo dificuldades em diversas questões como a falta de acessibilidade que em tese não seria um problema pois o Governo Federal, em conjunto com o Ministério da Educação (MEC) informaram


18

a entrega de 3,5 milhões de kits com material pedagógico nas residências dos alunos através do sistema de entrega via Correio. Com isso, todas às crianças e jovens seriam perfeitamente incluídos e bastaria se adaptarem à educação a distância e, não haveria necessidade de suspenderem todo o período letivo alcançado pela pandemia, decisão equivalente foi levada até o final de maio pelo Inep e o MEC, em relação ao Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2020, subtendendo novamente que o conhecimento necessário para a realização da prova poderia ser obtido de forma online.

Pandemia - Impactos na Educação: Realidade Vamos adentrar agora a práxis de um grupo de pessoas em que as medidas tomadas pelo Governo Federal, citadas acima, não surte efeito: àqueles que não têm acesso a internet. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018 quase 46 milhões de brasileiros ainda não tinham acesso à internet. Enfatizando à Cidade Tiradentes, ela comporta diversas comunidades onde o acesso à internet é limitado ou inacessível, assim como para outros demais munícipes. Segundo o site da Prefeitura de São Paulo, o distrito da Cidade Tiradentes contabiliza 82.875 famílias que residem no bairro e, dessa totalidade, 8.064 famílias encontram-se em situação de alta ou muito alta vulnerabilidade. Sem acesso à internet, anulada muitas vezes a possibilidade de portar aparelhos digitais e/ou até mesmo sinal Wi-Fi que permita a continuidade dos estudos em casa, recentemente devido à grande pressão popular, o Inep em conjunto com o MEC decidiram adiar o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 30 a 60 dias com a data prevista nos editais. Somando com o fato de o Correio declarar restrição de entrega na Cidade Tiradentes, quase como um todo, podemos refletir a retratação da desigualdade presente na sociedade. Conforme pontua Ermínia Maricato: Não é por falta de planos urbanísticos que as Cidades brasileiras apresentam problemas grandes. Não é também, necessariamente devido à má qualidade desses planos, mas porque seu crescimento se faz ao largo aprovados nas Câmaras Municipais, que seguem interesses tradicionais da política local e grupos específicos ligados ao governo de plantão. (MARICATO, 2000, p. 124)


19

É necessário que haja mais visibilidade por parte das autoridades governamentais e municipais para uma sociedade melhor, mais justa, com transparência e qualidade de ensino, e neste momento da pandemia mundial pelo coronavírus podemos observar a discrepância classicista em um setor que abrange a lei, as crianças e os adolescentes têm o direito a qualificação para o trabalho, com a alta exigência do mercado de trabalho se faz necessário aplicar o estatuto de forma igualitária, embora não ocorra até então. De acordo com uma pesquisa on-line qualitativa e quantitativa que realizamos para maior feito desse trabalho, focada em alunos e ex-alunos de escolas públicas localizadas na Cidade Tiradentes, podemos observar que 77% reconhece que sofreu ou sofre ainda pela desigualdade educacional; A maioria também (69%) pensou algumas ou muitas vezes em estudar no Centro da Capital para receber educação de maior qualidade; e, para concluir, 92% dos participantes disseram que sentem dificuldades em estudar nesta época de pandemia, sendo a maior parte (42%) em nível elevado (Disponível no banco de dados do site Online Pesquisa). O discurso midiático e até mesmo popular é de que estamos todos no “mesmo barco”, mas isso é mentira, não estamos nem no acesso à saúde, qualidade de vida, na empregabilidade e claro, nem mesmo no acesso à educação. Aspectos metodológicos De acordo com as orientações online, foi possível o levantamento bibliográfico e documental para a realização do estudo exploratório com autores que respaldam o tema "O Que Você Quer Ser Quando Crescer?”, um estudo sobre a desigualdade educacional na Cidade Tiradentes, recorte pouco abordado, o que só torna esse estudo ainda mais relevante socialmente. Com o levantamento de informações e busca pelos livros, artigos, informações e teses que deram o suporte para a análise, foram feitas as leituras necessárias para melhor compreensão e elaboração. Esse trabalho é resultado de uma pesquisa participante, o que agrega a iniciativa de ter trazido esse tema e estudálo com embasamento teórico e reflexões. Stuart Hall, Ermínia Maricato e Maria Schefer foram os principais autores utilizados para apontarmos óbices internas e externas que entornam o tema, enfatizando as causas e consequências da exclusão ao indivíduo. Através de uma


20

pesquisa feita em plataforma online, pudemos levantar dados quantitativos em relação à exclusão educacional e a falta de acessibilidade na educação em meio a atual pandemia do novo coronavírus. Por último, foram realizadas pesquisas de matérias jornalísticas em razão de fundamentar e atualizar este trabalho exploratório. Dito isso, transformamos esse conteúdo em um produto televisivo sob viés qualitativo, com uma grande reportagem que expõe a situação da desigualdade no setor educacional em Cidade Tiradentes, para que os indivíduos possam identificar o problema. Foram realizadas gravações de simulação, poesia e entrevistas de forma presencial e a distância com profissionais da área da educação, um sociólogo, uma colaboradora de um projeto de incentivo aos estudo no bairro, atores, poetisa e alunos e ex-alunos de escolas do bairro, no intuito de que alem de pontuações feitas sobre fatores negativos presentes que foram discutidos, esteja englobado na reportagem o estímulo aos estudos, com histórias de vida ditas por pessoas que apesar das dificuldades sabem da importância dos estudos e incentivam as crianças e jovens da Cidade Tiradentes a tentarem ao máximo se dedicar aos estudos dentro e fora da sala de aula, rompendo a “bolha” de fatores e crenças limitantes.


21

REFERÊNCIAS

Art. 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) - Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Conteúdo disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em 28 Mai. 2020. G1 Notícias. Conteúdo disponível em https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/12/09/brasil-tem-segunda-maiorconcentracao-de-renda-do-mundo-diz-relatorio-da-onu.ghtml. Acesso em 1 Set. 2020. HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. 11 ed. Rio de Janeiro: Editora DP&A, 2006. ÍRIS, Vera. O Texto na TV: Manual de telejornalismo. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2006. Levantamento de dados feito através de plataforma online. Conteúdo disponível em: https://www.onlinepesquisa.com/. Acesso em 04/05/2020. MARICATO, Ermínia; ARANTES; VAINER, Carlos. A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Consensos. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2000. MORIN, Edgar. Educação e Complexidade: Os sete saberes e outros ensaios. 4 ed. São Paulo: Editora Cortez, 2004. O Globo. Conteúdo disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/quase-300-milhoes-de-estudantesestao-sem-aula-por-conta-do-novo-coronavirus-diz-onu-24287461. Acesso em 26 Mar. 2020. Portal Agência Brasil. Conteúdo disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2020-05/ministerio-da-educacaoadia-o-enem-2020. Acesso em 6 jun. 2020. Portal da Subprefeitura Cidade Tiradentes. Conteúdo disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/cidade_tiradentes/ historico/. Acesso em 7 jun. 2020. Portal do Governo do Estado de São Paulo. Conteúdo disponível em: https://www.educacao.sp.gov.br/noticias/governo-de-sp-entrega-35-milhoes-de-kitscom-material-pedagogico-e-de-orientacao-para-periodo-de-aulas-em-casa/. Acesso em 2 jun. 2020.


22

SCHEFER, Maria. Na periferia das periferias: o não-lugar escolar e a pedagogia do destino. 2015. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de pós Graduação em Educação. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, 2015. Disponível em: https://www.capes.gov.br/images/stories/download/pct/2016/MencoesHonrosas/Educacao-Maria-Cristina-Schefer.PDF. Acesso em 10 fev. 2020.

TORRES, Haroldo, et al. Educação na periferia de São Paulo: ou como pensar as desigualdades educacionais. Texto apresentado no Workshop “Neighborhood effects, educational achievements and challengesfor social policies”. Rio de Janeiro, agosto, 2006. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/266042975_EDUCACAO_NA_PERIFERIA _DE_SAO_PAULO_OU_COMO_PENSAR_AS_DESIGUALDADES_EDUCACIONAI S. Acesso em 10 fev. 2020.


23

Tabela I - Cronograma Geral: Atividade s

set

out

Produção do relatório final

X

X

Revisão do relatório final

X

X

Escolha do tema e pesquisa

jan

fev

mar

abr

mai

jun

X

X

ago

nov

X

Delimitação do tema

X

Seminário de delimitação

X

Produção do projeto de pesquisa

X

Pesquisa de referencias

X

X

X

Leitura das referencias

X

X

X

Fichamento

X

X

X

X

Seminário de aspectos teóricos e metodológic os

X

Pesquisa de fontes

X

Contato com as fontes

jul

X

X

X

X

Banca

Elaborado pela Universidade Cruzeiro do Sul – Padrão.

X

X

dez


24

Tabela II – Orçamento

Investimento

Quantidade

Valores R$

Livros

3

R$140,00

Microfone Lapela

1

R$80,00

Tripé c/ suporte

1

R$200,00

Impressão em gráfica

16

R$80,00

Transporte

5

R$70,00

Cinegrafista (apoio)

5

R$150,00

Elaborado pela autora.


25

Apêndices: Pautas


26


27


28


29


30


31


32


33

Roteiro da Grande Reportagem -Descrição de cores (Diferenciam intenção): Verde: Iniciar, antes das entrevistas mostrar um copilado verde falando diretamente do problema, depois vem a entrevista com as estudantes para estimular ainda mais a revolta com a situação na educação. O que entrar no inicio verde ou demais cores, não deve entrar de novo, sem repetição. Vermelho: Assunto pandemia. Amarelo: Assunto esperança na educação, para finalizar. Time code in: 00:00” Time code out: 01:38” Abertura: Poema – Título: Educação Com Fronteiras Time code in: 01:39” Time code out: 03:51”

Off 1: Na periferia a juventude sonha com uma vida de mais igualdade e oportunidades, se sonha com o futuro. Muitos procuram na escola o apoio para conquistar uma vida melhor. [PAUSA] (imagens aéreas e terrestres da Cidade Tiradentes). Localizada no extremo leste de São Paulo, a Cidade Tiradentes tem 36 anos de idade e uma população de aproximadamente 220 mil habitantes. O bairro foi construído de forma precária e como consequência revela a falta de investimento. A desigualdade adentra diversos espaços, muitos deles não são fáceis de identificar a princípio, mas, se analisarmos um pouco as salas de aula, por exemplo, estaremos diante de uma das várias perspectivas desse problema: a desigualdade educacional. (imagens de escolas da periferia e escolas públicas da Cidade Tiradentes). A escola seria o caminho para sair da pobreza, do descaso, da ignorância de não saber os porquês do abandono, da exclusão, violência e das decisões dos governos que reforçam ainda mais o abismo social.


34

Vídeos de entrada na cor verde • •

•

Vídeo 10 da Fernanda: Aqui ela fala sobre o direito a ter educação. Ótimo para iniciar. Vídeo 5 do sociólogo: Ele fala do preconceito da polícia devido ao genocídio com pobres, pretos e favelados e sobre a falta de investimento na Cidade Tiradentes, que ainda entra no assunto de influências do meio para a colaboração da desigualdade educacional e desestímulo do alunado. Vídeo 3 das estudantes: A Bruna e a Milena falam sobre a falta de oportunidade que persegue os moradores da Cidade Tiradentes, principalmente para conseguir um trabalho, sem deixar de lado a questão educacional elas dizem que até mesmo cursos gratuitos seriam bem vindos no bairro, caso de necessidade que não ocorre no centro, já que lá as oportunidades e meios de aprendizado, inclusive gratuitos e de qualidade, estão presentes de forma concentrada. Apenas o trecho final da resposta 3 irá entrar como verde no copilado do início.

Aqui entra uma arte com o tema da reportagem: O que você quer ser quando crescer? Time code in: 03:52” Time code out: 07:04”

Entrevista 1: Estudantes Bruna e Milena: •

•

•

•

Vídeo 1: Elas começam se apresentando como estudantes da Cidade Tiradentes e relatando um resumo da trajetória estudantil delas, sendo o ponto alto a descoberta do slam e como tem sido a experiencia delas com essa modalidade poética. Vídeo 2: Elas vão direto ao ponto, falam da desigualdade educacional de forma prática, apontando o ensino em sala de aula, o comportamento dos professores em relação aos alunos e a falta de incentivo dos pais como precursores desse problema, pois essas questões só agravam a situação. Vídeo 3: A Bruna e a Milena falam sobre a falta de oportunidade que persegue os moradores da Cidade Tiradentes, principalmente para conseguir um trabalho, sem deixar de lado a questão educacional elas dizem que até mesmo cursos gratuitos seriam bem vindos no bairro, caso de necessidade que não ocorre no centro, já que lá as oportunidades e meios de aprendizado, inclusive gratuitos e de qualidade, estão presentes de forma concentrada. O finalzinho é copilado verde, o restante entra aqui, como entrevista na integra. Vídeo 10: Elas falam sobre o Letra Preta, o que é e qual o objetivo desse projeto que tem sido presente na vida delas.

Time code in: 07:05”


35

Time code out: 11:08”

Off 2: Foi o desejo de transformar a vida dos jovens da periferia que levou Suilan de Sá do Vale a participar do Projeto Força Ativa e se tornar a coordenadora da Biblioteca Comunitária Solano Trindade.

Entrevista 2: Coordenadora da biblioteca comunitária Suilan: •

•

•

Vídeo 7: Ela fala sobre aprendizados da vida e o que a experiencia trouxe a ela como coordenadora da biblioteca comunitária do Força Ativa, o propósito do coletivo justamente de combater a desigualdade educacional, trazendo a leitura para os jovens periféricos. Vídeo 8: A Suilan fala sobre o Slam Letra Preta, seu alcance nas escolas e em como essa atividade tem atraído os jovens até a biblioteca na realização de atividades educativas. Vídeo 10: Ela fala de forma mais subjetiva sobre o impacto que gerou na vida dela o envolvimento com o Força Ativa, um lugar que deu oportunidade e voz a ela, conta como se tornou a coordenadora e como se descobriu a partir desse propósito.

Off 3: Graduada em pedagogia, educação artística e pós graduada em educação infantil, contação de histórias e artes visuais, a professora, que prefere não ser identificada, revela com tristeza as diferenças sociais que estão dentro da estrutura educacional.

Entrevista 3: professora do ensino médio Carla: • • •

Vídeo 2: Ela fala sobre a experiência de lecionar na Cid. Tiradentes, bairro no qual ela é moradora. Vídeo 3: A professora nos conta sobre a falta de investimento nas escolas do bairro Vídeo 4: Ela faz um paralelo entre os jovens da periferia e os que moram no Centro e como os dificultadores impactam na vida do jovem periférico como um todo, a exemplo a falta de lazer.

Time code in: 12:32”


36

Time code out: 13:17” Passagem da repórter dando gancho para o assunto: matéria online, como anda a educação na pandemia? Enquanto o Estado esconde a realidade e não assume que a periferia precisa de investimentos superiores às regiões com maior renda, políticas públicas podem funcionar para alguns e representar um verdadeiro desastre para outros. É o caso da educação a distância adotada emergencialmente durante a pandemia. O Estado mostrou como uma vitrine o aparato envolvendo professores e toda a produção das videoaulas, mas escondeu as dificuldades vividas pelo estudante da periferia, como a falta de acesso a internet e de dispositivos eletrônicos, dificultando ou até impossibilitando para muitos a construção do saber.

-Vídeos da cor vermelha, assunto pandemia.

• • • •

Vídeo 6 das estudantes: Em suma elas falam sobre a dificuldade que estão tendo com as aulas online. Vídeo 6 da Fernanda: Ela fala da incompreensão da coordenação diante da dificuldade dela nas aulas online Vídeo 5 da professora: Aqui ela pontua como tem sido dar aulas online na pandemia, trazendo essa visão do professor. Vídeo 9 das estudantes: Já nesse vídeo, o assunto ainda entra na questão pandemia, mas em relação ao que elas pensam sobre a previsão das aulas presenciais nas escolas, ainda nesse ano e em meio a pandemia.

Time code in: 13:18” Time code out: 22:50”

Off 4: Djalma Góes, conhecido como Nando, é mestre em educação e graduado em Ciências Sociais. Além de morar e atuar na Cidade Tiradentes como professor e sociólogo, o Nando é rapper, militante do coletivo de esquerda Força Ativa e do Fórum Hip Hop Municipal.

Entrevista 4 - Djalmo/ Profº Nando: • • •

Vídeo 1: Ele contextualiza o tema de forma resumida e fala sobre a razão da desigualdade existir, dando início a reflexão. Vídeo 2: O sociólogo abrange quais são as consequências desse modelo educacional cheio de falhas para a vida do estudante. Vídeo 3: Fala sobre as consequências no comportamento, competividade entre os alunos sustentada pela falsa meritocracia.


37

•

•

Vídeo 4: Como o meio-social age para reforçar e ainda piorar essa situação. Ele fala de os pais serem agentes do desestímulo em muitos casos, por conta da necessidade de dinheiro, veem os filhos como uma fonte de renda acima de um estudante que pode se tornar um grande profissional se lhe for dado incentivo e apoio para isso. Alem dos pais, fala sobre o governo que segrega e é o maior vilão de toda essa história por determinadas razões. Vídeo 10: Ele fala sobre o Coletivo Força Ativa, sua origem e seus propósitos.

Time code in: 18:31” Time code out: 20:54”

Simulação da entrevista de emprego.

Time code in: 22:51” Time code out: 27:04”

Off 5: Fernanda Souza presta vestibulares desde que concluiu o ensino médio. Ano passado ela prestou para a ETEC Cidade Tiradentes e foi aprovada, desde então estuda técnico em Nutrição e Dietética, mas permanece decidida em seu sonho: adentrar a universidade. Entrevista 5 - Fernanda: •

•

•

•

Vídeo 11: Ela fala sobre um momento muito importante e emocionante na vida estudantil que ela vivenciou, onde ganhou uma atividade referente a uma redação no ensino médio e conta como se sentiu. Vídeo 2: Ela faz uma retratação do sistema caótico escolar em que teve de ser submetida no ensino médio, como com as aulas vagas e a falta de merenda na escola. Faz um paralelo das escolas da Cidade Tiradentes com as escolas do Centro de São Paulo. Vídeo 4: A identificação gerada nas aulas de sociologia pelo professor Nando, transformou a visão dela de mundo, Fernanda também nos conta sobre a luta por oportunidade que enfrenta, para conseguir adentrar espaços que hoje entende que tem direito, como a universidade. Vídeo 8: Ela fala de como percebe e percebia o comportamento dos colegas em relação ao desinteresse na escola e conta das raízes psicológicas que resultam nisso e são ignoradas e infelizmente colabora para que aquele estudante que esteve ao lado dela, hoje seja um adulto com mais responsabilidades, ainda menos escolas e possivelmente o arrependimento pela falta de aproveitamento estudantil.


38

Time code in: 27:05” Time code out: 29:38”

Arte que criei com a frase de Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.

-Vídeos na cor amarela, para finalizar a reportagem com esperança.

• • •

• • •

Vídeo 6 da professora: Ela fala sobre a importância do estudo. Vídeo 7 da professora: Finaliza com uma reflexão sobre a importância da educação. Vídeo 6 do sociólogo: Não vou incluir por causa do tempo e momento, não está no clima de encerar com esperança. Aqui é falado sobre como o jovem pode se tornar uma exceção diante de todos os fatores que vão contra ele por ser estudante da periferia Cidade Tiradentes, o primeiro passo é conhecer sua identidade. Vídeo 12 do sociólogo: Ele fala sobre como se sente por fazer parte dessa luta proposta pelo Força Ativa. Vídeo 9 da Fernanda: Ela fala da importância da educação, deixando uma linda mensagem sobre resiliência. Vídeo 11 das estudantes: Para concluir, qual a importância da educação para elas. Nesse vídeo, a conclusão transmite a mensagem da importância e necessidade da educação na vida de todos, sem exceção, primeiramente para a identificação de nós mesmos, quem somos como indivíduos.

Time code in: 29:39” Time code out: 29:47” Créditos finais.


39

Decupagens

Entrevistada: Monica Patrícia Realização da Gravação: 5 de Novembro de 2020 Vídeos: Declamação de poema (Autoral) - Monica Áudio: VID_20201103_202004033~2.mp4 Obs: Procure a pontar o time code de 10’’ em 10’’ inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora

Time code in 00:00”

DESCRIÇÃO DA TOMADA E/OU TRANSCRIÇÃO DA SONORA “EDUCAÇÃO COM FRONTEIRAS A FILHA DA FAXINEIRA ENTROU NA FACULDADE DIZ QUE BUSCA POR IGUALDADE E OPORTUNIDADE A PRETA QUE ERA TAXADA DE DESINTERESSADA GANHOU BOLSA SEUS PROFESSORES ANTIGOS CUSTAM ACREDITAR QUE ISSO É VERDADE A MENINA DE MIL ROTINAS PRECISARIA DE MAIS DE 24H POR DIA AMANHECE CORRENDO PRO BAIRRO DA LUZ QUATRO HORAS DE CURSO UMA HORA PARA CHEGAR NO TRABALHO MAIS 6 HORAS PEGANDO NO BATENTE DUAS HORAS ATÉ A FACULDADE QUATRO HORAS DE AULA E UFFA... É HORA DE IR EMBORA MAIS DUAS HORAS NO TRÂNSITO CHEGA ÀS 00H30 EM CASA DORME A 1H00 QUATRO HORAS DA MATINA O DESPERTADOR NÃO HESITA, DE UM LADO A MENINA DO OUTRO O CANSAÇO SEU CORPO PEDE SOCORRO MAS A BUSCA POR SUCESSO VALE O ESFORÇO... VALE? O DESTROÇO? NA CORRERIA DO DIA A DIA E NESSAS 24 HORAS CORRIDAS

Time code out 01:38”


40

A MENINA INTERCALA OS ESTUDOS ENTRE A LOTAÇÃO GUILHERMINA QUE SAI LÁ DO FUNDO DA TIRA E A ESTAÇÃO SANTA CRUZ, SEU ÚLTIMO DESTINO DO DIA. A MENINA SÓ QUERIA QUE CONVERSAS DO TIPO “SÓ NÃO CRESCE QUEM NÃO QUER”, “NÃO ESTUDA QUEM NÃO QUER” NÃO FOSSEM MENTIRAS. NO SEU TRAJETO ELA OBSERVA OS MENINOS QUE FAZEM DE CASA AS ESQUINAS, AS CRIANÇAS QUE PEDEM ESMOLAS A CHAMANDO DE TIA, OS JOVENS QUE VENDEM BALA NO FAROL, O SER QUE NÃO TEM ESTRUTURA EM SUA FAMÍLIA, E ENTENDE, QUE SÓ NÃO CRESCE E ESTUDA QUEM NÃO TEM ACESSO AO MÍNIMO. CASA, SAÚDE, ESTRUTURA FAMILIAR E O MAIS IMPORTANTE: CARINHO”.

Entrevistados: Priscila Lima e Renan Lavrador Realização da Gravação: 15 de Outubro de 2020 Vídeos: Simulação da entrevista de emprego – Renan e Priscila Áudio: VID_20201015_211743.mp4 Obs: Procure a pontar o time code de 10’’ em 10’’ inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora

Time code in

DESCRIÇÃO DA TOMADA E/OU TRANSCRIÇÃO DA SONORA

00:00“

ANDRÉIA ESTÁ AO TELEFONE REALIZANDO UM DIÁLOGO COM SUA COLEGA: “-RANIELI, EU VOU COMEÇAR UMA ENTREVISTA AGORA, A GENTE JÁ SE ENCONTRA, TÁ? SIM, NO SHOPPING ANÁLIA FRANCO. TÁ, EU TÔ NO CENTRO DO TATUAPÉ, É RAPIDINHO, EU PEGO UM UBER E JÁ CHEGO, TÁ BOM? EU TE LIGO. TA, OBRIGADA, BOA TARDE”.

Time code out 02:23“


41

AGORA ANDRÉIA DA INÍCIO A ENTREVISTA DE EMPREGO COM MATEUS: “ANDRÉIA -BOA TARDE. MATEUS -BOA TARDE, TUDO BEM? ANDRÉIA -MATEUS, NÉ? MATEUS -ISSO. ANDRÉIA -OI, MATEUS. MATEUS -TUDO BEM? ANDRÉIA -O MEU NOME É ANDRÉIA, EU TRABALHO AQUI NA PARTE DE MARKETING DA EMPRESA. MATEUS -CERTO, É... EU VOU DEIXAR MEU CURRÍCULO. ANDRÉIA -PODE DEIXAR QUE EU JÁ TENHO AQUI NO BANCO DE DADOS, MATEUS -TÁ, BELEZA. ANDRÉIA -MATEUS, EU VOU DIRETO AO ASSUNTO, A VAGA QUE ESTÁ EM ABERTO É PARA TRABALHAR NA ÁREA DE VENDAS ATIVAS, VOCÊ TEM EXPERIÊNCIA NESSA ÁREA? MATEUS -OLHA, EU JPA FIZ UM CURSO GRATUITO ONLINE SOBRE VENDAS, EU TAMBÉM JÁ TIVE EXPERIÊNCIA NA ÁREA DE TELEMARKETING, ENTÃO É UMA ÁREA ASSIM QUE EU CURTO. ANDRÉIA


42

-AH, LEGAL. MAS VOCÊ GOSTA MESMO DESSA ÁREA? MATEUS -SIM, EU GOSTO BASTANTE DA ÁREA DE MARKETING, NÉ? VOCÊ CONVERSAR COM O CLIENTE, APRESENTAR O PRODUTO DA EMPRESA, FAZER COM QUE ELE CONHEÇA, COM QUE ELE COMPRE TAMBEM, NÉ? ENTÃO É UMA ÁREA ASSIM QUE EU CURTO BASTANTE. ANDRÉIA -LEGAL, LEGAL, EU TÔ GOSTANDO DE VOCÊ, HEIN, MATEUS. MATEUS -PERFEITO. ANDRÉIA -MATEUS, SEM ENROLAR, VOCÊ MORA AQUI NAS REDONDEZAS OU VOCÊ MORA UM POUCO MAIS LONGE? MATEUS -ENTÃO, EU MORO NA CIDADE TIRADENTES. ANDRÉIA -CIDADE TIRADENTES? MATEUS -ISSO, CIDADE TIRADENTES. ANDRÉIA -MEU DEUS, É LONGE, HEIN, VOCÊ DEVE TER DEMORADO UMA ETERNIDADE PARA CHEGAR AQUI NO CENTRO DE TATUAPÉ. MATEUS -NA VERDADE EU JÁ ME ACOSTUMEI, ENTÃO É TRANQUILO PARA MIM PARA CHEGAR AQUI. ANDRÉIA -CERTO, MATEUS. EU NÃO SEI NEM COMO EU FALO ISSO, PORQUE A GENTE ESTÁ PROCURANDO UMA PESSOA DO SEU PERFIL, MAS QUE MORE MAIS PRÓXIMO, NÉ, VOCÊ DEMORA MUITO TEMPO PARA CHEGAR E NA VERDADE A VAGA QUE A GENTE TÁ PRECISANDO É DE UMA PESSOA QUE MORE


43

NAS REDONDEZAS E INFELIZMENTE VOCÊ MORA MUITO LONGE, DESCULPA, MATEUS. MATEUS -TÁ CERTO, EU AGRADEÇO PELA OPORTUNIDADE E SE SURGIR UMA OUTRA OPORTUNIDADE EU APAREÇO, SEI LÁ, VOCÊS ME CHAMAM, ALGUMA COISA ASSIM, TÁ? MUITO OBRIGADO”.

Entrevistado: Djalma Góes (Nando) Realização da Gravação: 27 de Agosto de 2020 Vídeos: Entrevista com o Professor e sociólogo “Nando” Áudio: Ao todo são 9 áudios. Obs: Procure a pontar o time code de 10’’ em 10’’ inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora

Vídeo/ Time code in Vídeo 1/ 04:44”

Vídeo 2/ 00:10”

01:48”

DESCRIÇÃO DA TOMADA E/OU TRANSCRIÇÃO DA SONORA “QUANDO ÀS CLASSES RICAS SAEM DAS ESCOLAS PÚBLICAS, A ESCOLA PÚBLICA VOLTADA PARA À POPULAÇÃO, PARA TODOS EM GERAL, ELA VAI PERDENDO QUALIDADE, NÃO POR CONTA DISSO, MAS POR FALTA DE INVESTIMENTO E ESSA MENTALIDADE TAMBÉM DOS GOVERNANTES DESSE PAÍS, ENTÃO ESSAS SÃO AS RAZÕES QUE VÃO PROPICIANDO ESSA DESIGUALDADE EDUCACIONAL E QUE VAI PONDO ESSE MODELO DE EDUCAÇÃO BRASILEIRO COMO INEFICIENTE, MAS “INEFICIENTE” ENTRE ASPAS, ELE É EFICIENTE PORQUE VOCÊ FORMA AS PESSOAS PARA SEREM CONTROLADAS”. “AS CONSEQUÊNCIAS DESSE MODELO EDUCACIONAL PARA A PESSOA VÃO GERAR DESIGUALDADES, MAS A DESIGUALDADE NÃO NO CAMPO MAIS OBJETIVO, COLETIVO; INDIVIDUAL”. “ESSA EDUCAÇÃO VOLTADA AO LETRAMENTO DE APENAS APRENDER A LER E ESCREVER E

Time code out

05:26”

00:29”

02:45”


44

Vídeo 3/ 01:12”

Vídeo 4/ 01:13”

03:11”

QUE NÃO OFERECE AS CONDIÇÕES DE DESENVOLVER ESSE SABER DIVERSIFICADO COM CULTURA, COM PASSEIOS, COM ACESSO AS TECNOLOGIAS DIGITAIS, ELA VAI CAUSAR UMA INFERIORIZAÇÃO DE QUEM TEM MENOS CONDIÇÕES DE ESTUDAR EM ESCOLA DE QUALIDADE. ENTÃO EVIDENTEMENTE QUANDO CHEGA NOS MOMENTOS DE DISPUTA HÁ UMA FALTA DE EQUIDADE PORQUE AS PESSOAS DE OUTRA CLASSE SOCIAL QUE ESTUDARAM EM BONS COLÉGIOS PARTICULARES PRIVADOS E PAGOS, EVIDENTEMENTE QUE ESTÁ EM UMA CONDIÇÃO MELHOR DE ACESSO A VAGA DO EMPREGO, DA ESCOLA TÉCNICA E DA UNIVERSIDADE PÚBLICA.”. “ESSE ESTUDANTE, ELE VAI TER UM COMPORTAMENTO DE COMPETITIVIDADE, DE SUPER INDIVIDUALISMO, DE EGOCENTRISMO, DE SUPERIORIDADE, OU SEJA, VAI REPRODUZINDO ÀQUELA LÓGICA DE DOMINAÇÃO E OPRESSÃO QUE A SOCIEDADE VAI ALI “ENCUCANDO” NA CABEÇA; ESSA FALSA MERITOCRACIA”. “O QUE QUE OS PAIS PENSAM? DOS FILHOS TERMINAREM O ENSINO MÉDIO PARA IR TRABALHAR. PORQUE TRABALHANDO ELE AJUDA NO PAGAMENTO DAS CONTAS, A FAMÍLIA PODE CONSUMIR MAIS UM SERVIÇO QUE O SISTEMA CAPITALISTA OFERECE E SEM ESSE SERVIÇO VOCÊ NÃO É NINGUÉM, ENTÃO VOCÊ TEM QUE ESTAR CONECTADO, TEM QUE ESTAR COM INTERNET, ETC. ENTÃO ÁS FAMÍLIAS APOSTAM NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DESSE ESTUDANTE E QUE ELE VAI SER UM REPRODUTOR DESSA LÓGICA DA SOCIEDADE CAPITALISTA, OS PROFESSORES TAMBÉM ENCAMPAM ESSA VISÃO EQUIVOCADA DE QUE O ESTUDANTE TEM QUE SER FORMADO PARA ARRUMAR UM EMPREGO, E NO CASO AQUI DOS ESTUDANTES POBRES É PARA IR PARA UM EMPREGO, NEM PARA IR PARA A UNIVERSIDADE, MUITO MENOS PARA A ETEC; ENTÃO OS PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA AINDA ESTÃO COM A VISÃO DISTORCIDA DO PAPEL DA EDUCAÇÃO”. “PARA ESSES ESTUDANTES BASTA SABER LER E ESCREVER PARA IR TRABALHAR NO TELEMARKETING, PARA IR TRABALHAR NOS PIORES POSTOS DE TRABALHO, ENTÃO VOCÊ VÊ QUE EXISTE UMA SELEÇÃO NA ETEC,

01:41”

02:26”

03:37”


45

04:41”

Vídeo 5/ 01:17”

03:30“

04:57“

Vídeo 6/ 00:40“

EXISTE UMA SELEÇÃO NO CURSO UNIVERSITÁRIO, JUSTAMENTE PARA SEGREGAR, PARA IMPEDIR QUE ESSAS PESSOAS ENTREM OU VEJAM O MUNDO COM AMPLITUDE”. “ENTÃO, OU SEJA, EXISTEM N CAMPOS, MAS O SISTEMA, A LÓGICA DOS GOVERNOS QUE FORNECEM ESSA EDUCAÇÃO MASSIFICADA E DE PÉSSIMA QUALIDADE, A FAMÍLIA QUE ESTÁ PENSANDO NO IMEDIATISMO, NO RETORNO ECONÔMICO E OS PROFESSORES COM UMA MENTALIDADE DE UMA EDUCAÇÃO ULTRAPASSADA BANCÁRIA TRADICIONAL. ENTÃO ISSO VAI MODELANDO O ESTUDANTE, MODELANDO O SUJEITO DA EDUCAÇÃO”. “SÓ PARA TER UMA IDEIA, EM PINHEIROS NÃO MORRE NENHUM JOVEM PRIVADO POR BALA, NÃO MORRE NENHUM JOVEM NA MÃO DA POLÍCIA, DIFERENTE JÁ DE CIDADE TIRADENTES, SAPOPEMBA, ITAIM PAULISTA, LAJEADO E GUAIANASES, ONDE EXISTE UM EXTERMÍNIO E UM GENOCÍDIO DA JUVENTUDE POBRE, PRETA E PERIFÉRICA”. “ENTÃO, O QUE ESSE BAIRRO OFERTA PARA OS JOVENS? PARA OS ESTUDANTES? ENTÃO EVIDENTEMENTE QUE O TERRITÓRIO, O LUGAR INFLUENCIA NA FORMAÇÃO DO SUJEITO”. “ESSA SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL DE NÃO FORNECER OS MEIOS BÁSICOS PARA REALIZAR A VIDA, COMO EMPREGO, ACESSO À CULTURA- ATIVIDADES CULTURAIS- ACESSO A ARTE, ACESSO AO LAZER QUE É PAGO PELOS PRÓPRIOS MORADORES QUE FORMAM OS SEUS TIMES, ACESSO AO TEATRO, ACESSO A CINEMA”. “O JOVEM CONSEGUE EXTRAPOLAR O QUE O ESTADO E A SOCIEDADE BRASILEIRA OFERECEM PARA ELE A PARTIR DA ASCENSÃO DA IDENTIDADE”.

05:04”

01:42”

03:47“

05:37“

00:54“


46

04:21“

“PARA NÃO SER AQUELE TRABALHADOR QUE O SISTEMA ESTÁ ENXERGANDO EM VOCÊ, QUE VAI ASSUMIR AS FUNÇÕES PRECARIZADAS, QUE VAI RECEBER OS PÉSSIMOS SALÁRIOS, QUE VAI DEPOIS CONTRAIR MATRIMÔNIO E REPRODUZIR MAIS FORÇA DE TRABALHO, MAIS TRABALHADORES PARA O SISTEMA, PARA O SISTEMA EXPLORAR, PARA A BURGUESIA BRASILEIRA EXPLORAR”.

04:44“

Vídeo 7/ 05:51“

“O SISTEMA EDUCACIONAL NÃO TEM CONDIÇÃO DE VIABILIZAR UM PROCESSO DE EDUCAÇÃO NÃO-PRESENCIAL, QUE OS ESTUDANTES, PRINCIPALMENTE OS ESTUDANTES DA PERIFERIA, ESTÃO FORA, ESTÃO SEGREGADOS, ESTÃO EXCLUÍDOS DO ACESSO AS TECNOLOGIAS DIGITAIS. SEGUNDO, ESTÃO EXCLUÍDOS DO ACESSO À BANDA LARGA, OS ESTUDANTES FALAM: “Ó PROFESSOR, ASSIM QUE MEU PAI OU MINHA MÃE CHEGAR DO TRABALHO, VOU PEGAR O DISPOSITIVO DELE E TENTO MANDAR A ATIVIDADE. EXCLUÍDOS DOS DISPOSITIVOS; EXCLUÍDOS DA BANDA LARGA, DO ACESSO À INTERNET E EXCLUÍDOS DO LETRAMENTO DIGITAL E AGORA EXCLUÍDOS DO ACESSO E DO DIREITO A EDUCAÇÃO”. “O FORÇA ATIVA SURGIU LÁ NA PRAÇA DO METRÔ SANTANA, ONDE OS JOVENS SE REUNIAM, SE ORGANIZAVA, PARA FAZER AÍ O MOVIMENTO HIP HOP. EM 1985, A FORÇA ATIVA MIGRA PARA A CIDADE TIRADENTES, EU MUDEI PARA CÁ E ALGUNS OUTROS MEMBROS ESTAVAM DISPERSOS, EU FALEI: “VAMOS ORGANIZAR A FORÇA ATIVA LÁ NA CIDADE TIRADENTES”, ENTÃO NÓS ORGANIZAMOS A FORÇA ATIVA AQUI E VIROU NÚCLEO CULTURAL. ENTÃO A FORÇA ATIVA É UM AGRUPAMENTO DE PESSOAS, DE JOVENS, QUE BUSCA PELA LINGUAGEM DO HIP HOP, DISCUTIR E COMBATER O RACISMO”. “E A GENTE PENSA NUMA LÓGICA MAIS HUMANA, QUE POSSA CONTEMPLAR A DIVERSIDADE DE SERES HUMANOS QUE EXISTEM COM IGUALDADE, JUSTIÇA E LIBERDADE PARA TODO MUNDO, POR ISSO VIROU UM COLETIVO DE ESQUERDA. ATUALMENTE A GENTE FAZ ATIVIDADES VOLTADAS PARA O ACESSO AO LIVRO, QUE É A BIBLIOTECA COMUNITÁRIA SOLANO TRINDADE,

06:45“

Vídeo 8/ 01:09“

02:19“

01:57“

03:39“


47

Vídeo 9/ 01:00“

LITERATURA, QUE A GENTE FAZ MEDIAÇÃO DE LEITURA, OS SLAM´S , O SARAU E TEM O LETRA PRETA, QUE A GENTE FAZ FORMAÇÃO NAS ESCOLAS TAMBÉM SOBRE MEDIAÇÃO DE LEITURA E SOBRE A LEI 10. 639 QUE FALA DA OBRIGATORIEDADE DA HISTÓRIA E CULTURA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA NA EDUCAÇÃO BÁSICA E FAZEMOS PARTE DA REDE LITERASAMPA QUE É UMA REDE DE BIBLIOTECAS COMUNITÁRIAS DA REGIÃO METROPOLITANA DO ESTADO E DA REDE NACIONAL DE BIBLIOTECAS COMUNITÁRIAS, QUE É A RNBC. ENTÃO, A GENTE FAZ UM TRABALHO AUTÔNOMO, OU SEJA, SEM FINANCIAMENTO PÚBLICO”. “SE EU SOU HOJE O QUE EU SOU, PROFESSOR, SOCIÓLOGO, MESTRE EM EDUCAÇÃO, FOI POR CONTA DA FORÇA ATIVA, FOI POR CONTA DO RAP, ENTÃO EU ME SINTO PARTE DA PRÓPRIA FORÇA ATIVA, COMO POTÊNCIA HUMANA DE PODER SE ORGANIZAR E LUTAR E DAR CONTINUIDADE TAMBÉM, JUNTANDO, TRAZENDO OUTRAS PESSOAS PARA CONTINUAR A NOSSA HISTÓRIA (01:00/ 01:35). E NA LUTA É ASSIM, ENQUANTO A GENTE NÃO MATERIALIZA A UTOPIA A LUTA NÃO ACABA E SE A LUTA NÃO ACABA ELA É UM ESTILO DE VIDA E A POSSIBILIDADE DE TRANSFORMAÇÃO E DE TRANSIÇÃO PARA UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA, IGUALITÁRIA E FRATERNA”.

01:35“

Entrevistado: Ana Almeida (Nome fictício) Realização da Gravação: 23 de Agosto de 2020 Vídeos: Entrevista – Professora Ana (Nome fictício) Áudio: Ao todo são 4 áudios Obs: Procure a pontar o time code de 10’’ em 10’’ inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora

Vídeo/ Time code in

DESCRIÇÃO DA TOMADA E/OU TRANSCRIÇÃO DA SONORA

Time code out


48

Vídeo 1/ 00:00“

“LECIONAR AQUI NA CIDADE TIRADENTES TEM SIDO UMA EXPERIENCIA MUITO GRATIFICANTE E AO MESMO TEMPO MUITO SIGNIFICATIVA PORQUE EU MORO AQUI DESDE OS DOIS ANOS DE IDADE, EU SOU MORADORA, EU NASCI AQUI, EU CRESCI AQUI.”.

00:17“

00:32“

“OPTEI POR DAR AULA NO MEU BAIRRO, ENTÃO, É UMA ALEGRIA, É UM PRIVILÉGIO MUITO GRANDE PODER LECIONAR AQUI”.

00:40“

00:51“

“EU ME VEJO MUITAS VEZES EM CADA CRIANÇA”.

00:55“

Vídeo 2/ 00:00“

“OLHA, NA PERIFERIA O INVESTIMENTO E A VISIBILIDADE SEMPRE VÃO SER INSUFICIENTES”

00:06“

00:19“

“JÁ AVANÇOU BASTANTE, AINDA TEM MUITO O QUE MELHORAR, MAS JÁ AVANÇOU BASTANTE. EM RELAÇÃO AO CENTRO, O QUE ACONTECE É QUE AS PESSOAS NA REGIÃO CENTRAL, EM SUA MAIORIA, OS PAIS SÃO MAIS CONHECEDORES DOS SEUS DIREITOS, ENTÃO CONSEQUENTEMENTE ELES COBRAM MAIS”.

00:36“

00:43“

“LÁ ACABA SENDO MAIS BONITA PORQUE É MAIS VISITADA, NÃO DEVERIA SER ASSIM, MAS ACABA SENDO”. “FAZENDO UM PARALELO ENTRE AS DESIGUALDADES: CRIANÇAS E JOVENS QUE MORAM AQUI NA PERIFERIA E ÁS QUE MORAM EM REGIÕES CENTRAIS, EU PERCEBO QUE A DISTÂNCIA É UM DIFICULTADOR, PARA O ACESSO AO LAZER, PARA O ACESSO AO ESPORTE, À CULTURA, AO EMPREGO, À APRENDIZAGEM, À UM CURSO; ENTÃO, O FATOR DISTÂNCIA É MAIS UM DIFICULTADOR PARA O JOVEM QUE MORA NA PERIFERIA POR EXEMPLO”. “HÁ JOVENS E CRIANÇAS QUE MORAM AQUI QUE ÀS VEZES VÃO ESTUDAR EM UMA OUTRA REGIÃO, CENTRAL, POQUE ELAS JULGAM QUE ÀS ESCOLAS CENTRAIS, AS REGIÕES CENTRAIS À EDUCAÇÃO É MELHOR”.

00:56“

“AULAS ONLINE NESSA PANDEMIA [SUGIRO QUE VOCÊ CORTE ESSA FALA DELA, PORQUE FICOU FORÇADO, COMO SE ESTIVESSE LENDO A FRASE E, INVÉS DISSO, COLOQUE UMA ARTE

00:41“

Vídeo 3/ 00:00“

00:39“

Vídeo 4/ 00:00“

00:32“

00:52“


49

COM O NOME: PANDEMIA OU ESCRITO A PRÓPRIA FALA DELA, TALVEZ] OLHA, NO COMEÇO FOI BASTANTE DIFÍCIL ORGANIZAR OS HORÁRIOS, NOS FAMILIARIZAR COM AS PLATAFORMAS, COM AS TECNOLOGIAS, MAS EU ACHO QUE O MAIOR DIFICULTADOR TÊM SIDO EM RELAÇÃO ÀS FAMÍLIAS DAS CRIANÇAS, FAZER COM QUE ACESSEM AS PLATAFORMAS, QUE NOS DÊ A DEVOLUTIVA DAS ATIVIDADES, FAZER COM QUE ÀS CRIANÇAS PARTICIPEM, FAÇAM AS ATIVIDADES E ISSO PARA PROFESSORES DAS ESCOLAS PÚBLICAS TÊM SIDO MUITO DIFÍCIL, TÊM SIDO O MAIOR DESAFIO DAS AULAS ONLINE”.

Entrevistada: Fernanda Souza Realização da Gravação: 12 de Setembro de 2020 Vídeos: Entrevista – Estudante Fernanda Áudio: Ao todo são 7 áudios. Obs: Procure a pontar o time code de 10’’ em 10’’ inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora

Vídeo/ Time code in

DESCRIÇÃO DA TOMADA E/OU TRANSCRIÇÃO DA SONORA

Vídeo 1/ 00:21“

“É BEM NÍTIDA A DIFERENÇA NAS ESCOLAS PRINCIPALMENTE ESTADUAIS AQUI EM CIDADE TIRADENTES E NAS OUTRAS PERIFERIAS, EU LEMBRO QUE NO ÚLTIMO ANO EU ESTUDEI A NOITE E NÃO TINHA AULA, NÃO TINHA ALIMENTO E NÃO TINHA UMA DISCIPLINA ESCOLAR, QUANDO EU FALO DISCIPLINA ESCOLAR NO SENTIDO DE QUE A GENTE NÃO TINHA HORÁRIO PARA ENTRAR, NEM PARA SAIR E NEM DEMANDA DE AULAS MESMO DENTRO DA ESCOLA. E EU, ENQUANTO UMA ESTUDANTE NA ÉPOCA, EU ME SENTIA MUITO SENSIBILIZADA PORQUE EU IA NO PROPÓSITO DE ESTUDAR SÓ QUE É ATÉ RUIM, UM POUCO, FALAR SOBRE ESSA IDEIA

Time code out 01:56“


50

Vídeo 2/ 00:17“

DE ESTUDAR, UMA VEZ QUE SEMPRE FOI NEGADA PARA A GENTE TAMBÉM O ESTUDO, NÉ. PORQUE A GENTE DESDE O EMEI, DA CRECHE, ATÉ O ENSINO MÉDIO QUE É GARANTIDO PELO ENSINO PÚBLICO, SEM PRESTAR VESTIBULAR, QUERO DIZER, A GENTE NÃO TEM MUITOS DIREITOS E CONTUDO NA ESCOLA FORMAL NO ENSINO MÉDIO NÃO TÊM, ENTÃO MUITO FALA COMPARADO A UMA ESCOLA NO CENTRO, MESMO PÚBLICA, EU ACREDITO POR CONTA DO DISTANCIAMENTO GEOGRÁFICO, NÉ, E OBVIAMENTE POR AQUI SER UMA PERIFERIA, ENTÃO ME SINTO REVOLTADA A PALAVRA CERTA MESMO, PORQUE É UM DIREITO NEGADO QUE É A EDUCAÇÃO GARANTIDO PELA CONSTITUIÇÃO, NÉ, E QUE A GENTE NÃO TEM ESSE PODER, ATÉ PORQUE A GENTE NEM É ESTUDADO MESMO, ALIÁS CRIADO A ESTUDAR, A GENTE É SEMPRE MAIS PELA IDEIA DA MÃO DE OBRA, NÉ, QUE É UM TRABALHO, ENTÃO, EU UM POUCO ATUANTE TAMBÉM EM QUESTÕES SOCIAIS FICO MEIO SENSIBILIZADA E REVOLTADA, CONFESSO, POR CONTA DESSA ESTRUTURA QUE NÃO EXISTE, A GENTE NÃO PODE NÉ, ESTUDAR”. “FOI A PARTIR DAS AULAS DE SOCIOLOGIA, QUE O NANDO NÉ”.

00:41“

00:25“

“ELE É PROFESSOR DE SOCIOLOGIA, NA ESCOLA QUE EU ATUEI QUE FOI O E. E. FERNANDO PESSOA AQUI NA CIDADE TIRADENTES, E EU LEMBRO MUITO CLARAMENTE ASSIM, QUE AS IDEIAS QUE ELE CONTAVA PARECIA QUE ERAM LIGADAS DIRETAMENTE A MIM. EU LEMBRO QUE EU SENTAVA NO MEIO DA SALA E PARECIA QUE ELE ESTAVA FALANDO PARA MIM, PORQUE ELE TEM UMA DIDÁTICA UM POUCO MAIS PERIFÉRICA QUE TODO MUNDO SE IDENTIFICOU DE ALGUMA FORMA”.

00:50“

01:00“

“PELO MENOS EU, ME DESCOBRI UMA MULHER PRETA E PERIFÉRICA A PARTIR DELE, POR CONTA QUE AS FALAS DELE ERAM VOLTADAS TOTALMENTE A GENTE QUE AQUI A MAIORIA É, NÉ, E EU FICAVA MUITO SENSIBILIZADA COM AQUILO, QUANDO EU FALO DE SENSIBILIZADA, É NO SENTIMENTO DE ENTENDER QUE ESSE SISTEMA QUE A GENTE VIVE, ELE REALMENTE TÊM PESSOAS QUE ELES QUEREM TIRAR DE

01:29“


51

01:32“

02:19“

Vídeo 3/ 00:00“

00:26“

Vídeo 4/ 00:13“

CENA, NÃO QUEREM DAR OPORTUNIDADE EM SI”. “A CORRIDA É CONTÍNUA, EU TERMINEI A ESCOLA COM 17 (ANOS), EU ESTOU COM 21 (ANOS) E AINDA NÃO CONSEGUI ENTRAR EM UMA FACULDADE, SEJA ELA PÚBLICA, FEDERAL... POR MAIS QUE EU ENTREI NA ZUMBI (FACULDADE) ERA PAGA E POR CONTA DO EMPREGO NÃO DEU CERTO DE EU CONTINUAR PORQUE EU LEMBRO QUE FIQUEI DESEMPREGADA NA ÉPOCA E AINDA ASSIM É UM CAMINHO QUE CONFESSO QUE TEM MAIS PEDRA DO QUE CAMINHO LIVRE PORQUE EU ME SINTO MUITAS VEZES INSUFICIENTE EM AINDA NÃO TER ACESSADO UM ESPAÇO QUE É UM DIREITO MEU DE ESTAR”. “É MAIS DIFÍCIL ENTENDER, MAS EU ACABO COMPREENDENDO POR CONTA DISSO, PORQUE EU ENTENDO QUE A GENTE VIVE EM UMA SOCIEDADE MACHISTA, HIGIENISTA, QUE NÃO NOS DÁ OPORTUNIDADES PARA TODOS, QUE GARANTIDO POR, NÉ, NA CONSTITUIÇÃO ESTÁ LÁ O ARTIGO 5 QUE TODO MUNDO É IGUAL PERANTE A LEI, MAS NA PRÁTICA INFELIZMENTE NÃO”. “EU SINTO DIFICULDADES NAS AULAS ONLINE PORQUE EM CIDADE TIRADENTES A BANDA LARGA NÃO É RÁPIDA E NÃO É ACESSÍVEL A TODOS, EU MESMA FIQUEI SEM INTERNET UNS DOIS MESES ATRÁS E COMO EU DISSE EU FAÇO CURSO DA ETEC, ATÉ MESMO CONVERSANDO COM A COORDENAÇÃO ELES NÃO COMPREENDEM”. “E OLHA QUE NA ETEC ONDE EU FAÇO, COM ELES AINDA EU CONSIGO CONVERSAR, TER UM DIÁLOGO E VER AS AULAS GRAVADAS, SÓ QUE OS MEUS PRIMOS QUE TEM IDADE DE 13 A 15 ANOS, ESTUDANTES DE ESCOLA PÚBLICA MUNICIPAL, ELES NÃO TEM ACESSO À INTERNET EM CASA E NEM APARELHO, NEM DE CELULAR, NEM COMPUTADOR, ELES NÃO ESTÃO PARTICIPANDO”. “EU PERCEBIA ESSE TAL DESINTERESSE DOS MEUS COLEGAS DE CLASSE. EU FUI REPRESENTANTE DE CLASSE OS TRÊS ANOS DO ENSINO MÉDIO E EU TENTAVA ARTICULAR COM ELES SÓ QUE ERA UM DIÁLOGO MEIO COMPLICADO DEVIDO ALGUMAS SITUAÇÕES CASEIRAS, EU ACREDITO, PORQUE A NOSSA

02:07“

02:39“

00:17“

00:46“

01:10“


52

01:26“

Vídeo 5/ 00:30“

01:07“

01:30“ Vídeo 6/ 00:49“

PRIMEIRA ESTRUTURA SOCIAL É A FAMÍLIA APÓS A ESCOLA, NÉ, DESDE PEQUENO, E MESMO TENTANDO CONVERSAR MUITOS RELATAVAM PARA MIM A DIFICULDADE QUE TINHA DA MÃE, TALVEZ SER ENFERMA, O PAI ALCOÓLATRA OU ATÉ MESMO A QUESTÃO FINANCEIRA. EU NÃO ENXERGAVA, EU CONFESSO QUE ATÉ JULGAVA A MENTE QUE EU TINHA, ERA UMA ADOLESCENTE, “AH, DESINTERESSADO, NÃO QUER FAZER NADA E AINDA ATRAPALHA QUEM QUER ESTUDAR”, MAS NÃO, NO CONTEXTO EM QUE A GENTE VIVE, PERIFÉRICO, EU ENTENDO QUE É MUITO DIFÍCIL VOCÊ COLOCAR NA MENTE DE UM JOVEM A IMPORTÂNCIA DA LEITURA, A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO”. “O PSICOLÓGICO ABRANGE MUITO NAS NOSSAS RELAÇÕES, ENTÃO TINHA MUITO, MUITO MESMO, ACHO QUE A MAIORIA - DA MINHA SALA PELO MENOS ERA, A MAIORIA HOMENS E HOMENS NEGROS E HOJE INFELIZMENTE TRANSITANDO PELO BAIRRO, ELES ESTÃO NESSA SITUAÇÃO, MUITOS NO CRIME, MUITOS JÁ SÃO PAIS, MUITOS SEM EMPREGO, ENTÃO INFELIZMENTE CONTUDO TAMBÉM POR CONTA DA NOSSA ESTRUTURA SOCIAL, HOJE EU CONSIGO ENXERGAR QUE É IMPEDIDO ESSE DIREITO A PARTIR DO QUE JÁ NOS FORMA, NÉ, UM ESTUDANTE”. “EU CONSEGUI PÔR EM MENTE QUE EU NÃO POSSO DESISTIR TÃO FÁCIL DOS MEUS SONHOS, QUE EMBORA EU SEJA UMA MULHER PRETA, PERIFÉRICA E ESSE CONJUNTO DE OPRESSÃO QUE A GENTE CARREGA, EU NÃO DESISTI”. “E ISSO SÓ FOI CONTRIBUINDO PARA UMA BAGAGEM, TENTAR E SEMPRE PERSISTIR E TRAZER ISSO TAMBÉM AQUI, NÃO ENTRAR NA PONTE DE ACADEMIA E ESQUECER DO MEU BERÇO PERIFÉRICO, PORQUE EU ACREDITO QUE O CONHECIMENTO, ELE LIBERTA, SIGO MUITO A FRASE DE PAULO FREIRE QUE ELE SEMPRE AFIRMA”. “QUE A EDUCAÇÃO É O PRIMÓRDIO DE TUDO, NÉ”. “ENTÃO A EDUCAÇÃO, SOBRETUDO PARA MIM ELA É O PONTO INICIAL PARA A GENTE PODER TER PONTA PÉ A TUDO, E QUANDO EU FALO DE EDUCAÇÃO NÃO É UM “BOM DIA”, “BOA TARDE”, É O DIREITO DE TER ESSA EDUCAÇÃO, É O

02:00“

00:43“

01:28“

01:32“ 01:07“


53

Vídeo 7/ 00:00“

01:15“

DIREITO DE ADENTRAR ESPAÇOS NEGADOS COMO AS UNIVERSIDADES, É A DISCUSSÃO SOBRE COTAS”. “UM MOMENTO MUITO IMPORTANTE NA MINHA CONSTRUÇÃO FOI QUANDO EU CONSEGUI NO ENSINO MÉDIO, CONSEGUI O PRIMEIRO LUGAR DA REDAÇÃO DO SENADOR, ONDE A PROPOSTA ERA O QUE EU FARIA SE FOSSE UMA SENADORA. VAGAMENTE EU ME RECORDO, MAS ACREDITO QUE ESSE FOI O PONTO: QUE MELHORA À SAÚDE, À EDUCAÇÃO VOLTADA AO NOSSO BAIRRO PORQUE AQUI QUE EU VIM NÉ, E EU LEMBRO QUE A MINHA REDAÇÃO COM ESSAS ESCRITAS VINDO DE UMA JOVEM DE 15 ANOS, NA ÉPOCA, DESPERTOU MUITA ADMIRAÇÃO, TANTO DOS PROFESSORES QUANTO MEUS COLEGAS DE CLASSE E TAMBÉM A MIM PORQUE A PARTIR DISSO EU TIVE ALCANCE, EU CONSEGUI ACREDITAR QUE EU PODERIA IR LONGE A PARTIR DA ESCRITA QUE É IMPORTANTE, NÉ”. “EU LEMBRO QUE EM CASA A MINHA FAMÍLIA, TODOS FICARAM ADMIRADOS E FELIZ POR ISSO, E OS PROFESSORES TAMBÉM FICARAM DESLUMBRADOS, ASSIM, PORQUE ESTAVA REPRESENTANDO O NOME DA ESCOLA TAMBÉM, ESSE BAIRRO E TAMBÉM POR SER UMA MULHER, NÉ, EU ACREDITO ESCREVENDO ALGO QUE SEMPRE... PORQUE O NOME ERA COMO SE FOSSE UM SENADOR, NO CASO EU QUEBREI ESSE PARADIGMA E FUI A SENADORA, NÉ”.

00:42“

01:41“

Entrevistadas: Bruna Santos e Milena Araújo Realização da Gravação: 23 de Setembro de 2020 Vídeos: Entrevista com as estudantes – Bruna e Milena Áudio: Ao todo são 7 áudios. Obs: Procure a pontar o time code de 10’’ em 10’’ inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora


54

Vídeo/ Time code in Vídeo 1/ 00:32” 00:19”

01:35”

Vídeo 2/ 00:48”

DESCRIÇÃO DA TOMADA E/OU TRANSCRIÇÃO DA SONORA

Time code out

“OI, MEU NOME É BRUNA, TENHO 15 ANOS”.

00:35”

“SOU ESTUDANTE DO ENSINO MÉDIO, MORO EM CIDADE TIRADENTES, ESTUDO EM ESCOLA PÚBLICA E FOI MUITO DIFÍCIL TER UM ESTUDO PRA MIM BOM, SABE?! EU VIM DA BAHIA PARA ESTUDAR, EU QUERIA ESTUDAR, EU QUERIA TER UM CONHECIMENTO BÁSICO, EU QUERIA SER AUTÔNOMA E EU FUI ME À FLORESCENDO, TIPO, EU CHEGUEI AQUI, MAS EU NÃO TINHA FÉ NENHUMA QUE EU IA CONSEGUIR TER AQUELE FOCO E TER O ANSEIO QUE EU SOU HOJE, ENTÃO FOI, EU CONHECI O NANDO, ELE ME APRESENTOU O SLAM, PORQUE EU NÃO SABIA O QUE ERA SLAM, ELE ME APRESENTOU, EU ME VI LÁ NO SLAM, MAS EU SEMPRE ESTAVA COM AQUELE PENSAMENTO: “EU NÃO SIRVO PARA ISSO, EU NÃO VOU CONSEGUIR”, MAS COMO QUE A GENTE SABE SE A GENTE NÃO TENTAR? ENTÃO FOI O QUE EU FIZ, EU TENTEI”. “FOI O QUE EU FALEI PARA A MILENA, A GENTE TEM QUE TENTAR MILENA, COMO QUE VOCÊ SABE SE VOCÊ NÃO VAI CONSEGUIR SE VOCÊ NÃO TENTAR? E, ESTAMOS AÍ ATÉ HOJE, TENTANDO EVOLUIR COMO PESSOA. - O MEU NOME É MILENA, EU TENHO 16 ANOS, ESTUDO NA ESCOLA PÚBLICA DA CIDADE TIRADENTES, EU ME CONHECI ATRAVÉS, NA ESCOLA, NO MEU DESEMPRENHO NO POEMA ATRAVÉS DA LETRA PRETA, DO SLAM TAMBÉM QUE FOI ONDE EU CONHECI A BRUNA E OUTRAS PESSOAS TAMBÉM QUE RECITAVAM E A MAIORIA DOS NOSSOS POEMAS QUEREM PASSAR A MENSAGEM DE COMO CONVIVEMOS AQUI, AQUI DENTRO, NÃO SOMENTE OS PRETOS, MAS SIM AS MULHERES E OUTRAS PESSOAS TAMBÉM, É ESSA A VISÃO QUE NÓS “QUER” PASSAR NOS POEMAS SÃO ESSAS, DA NOSSA SOCIEDADE, DA NOSSA COMUNIDADE. - MOSTRAR O CONHECIMENTO QUE A OUTRA PESSOA NÃO TEVE ACESSO”. “- SIM, TEM UMA GRANDE DIFERENÇA ENTRE O ENSINO DAS ESCOLAS DAQUI DA CIDADE TIRADENTES, MUITA DIFERENÇA DO CENTRO, INCLUSIVE DA DESIGUALDADE DO ENSINO,

01:27”

02:31”

01:44”


55

Vídeo 3/ 00:17“

01:41“

AQUI ENSINAM, TIPO, O BÁSICO, COISAS QUE NÃO SÃO NECESSÁRIAS PARA LEVARMOS LÁ NA FRENTE, OU SEJA MELHOR PARA O PROFESSOR E NÃO PARA O ALUNO. - QUANDO A GENTE FALA DE ESCOLA, TEM TIPO, A GENTE TEM QUE ABORDAR VÁRIOS ASSUNTOS, PORQUE A GENTE FALA DE DESIGUALDADE, A GENTE TEM QUE FALAR TAMBÉM DE OPORTUNIDADE, PORQUE A GENTE TENDO OPORTUNIDADE DE CRESCER NUMA ESCOLA QUE TE ENSINA, TE EDUCA, TER UM APOIO DOS PAIS É DIFERENTE DA GENTE DA PERIFERIA, A GENTE TEM QUE IR POR SI MESMO. OS PAIS TRABALHAM O DIA INTEIRO, A GENTE NÃO TEM AQUELA MOTIVAÇÃO QUE A GENTE PRECISA, O PROFESSOR SÓ VAI PARA LÁ SENTA E FALA: “EU GANHO PARA EDUCAR VOCÊS, MAS SE EU QUISER EU POSSO FICAR SENTADO” ”. “SE EU FOR NUMA ENTREVISTA DE TRABALHO E FALO QUE SOU DA TIRADENTES, EU SOU PRETA, PERIFÉRICA E UMA PESSOA LÉSBICA, EU NÃO TENHO CHANCE NENHUMA DE PASSAR NA ENTREVISTA”. “- ENTÃO SIM, TEM DESIGUALDADE. - E A GRANDE DESIGUALDADE ESTÁ EM DISPONIBILIZAÇÃO DE EMPREGOS OU ATÉ MESMO CURSOS DISPONÍVEIS PARA OS JOVENS, VOCÊ CHEGA NA CIDADE TIRADENTES, VOCÊ NÃO VÊ OPORTUNIDADES PARA OS ESTUDANTES, SÃO MÍNIMAS, SÃO MÍNIMAS, MÍNIMAS AS CHANCES DE UM ALUNO PODER PASSAR PARA PODER GANHAR UM CURSO, E MUITAS JOVENS DA CIDADE TIRADENTES GOSTAM DE PROCURAR CURSOS GRATUITOS, VÃO NO INTUITO DE FAZER UMA PROVA E TAL, NÃO PASSAM NESSA PROVA, TIPO, DISPONIBILIZAM TAXA PARA PAGAR, COISAS QUE NÃO TEMOS CONDIÇÃO, ENTÃO HÁ UMA GRANDE DESIGUALDADE, TANTO QUE NO CENTRO JÁ NÃO TEM ESSA DIFICULDADE DE CONSEGUIR UM CURSO, DE CONSEGUIR UMA EMPREGO, NÃO TEM, É MUITO DIFERENTE, É MUITO DESIGUAL. - AS VERBAS, NÉ, SEM VERBAS A GENTE TEM A GENTE, A GENTE TEM A MENTE, A NOSSA EDUCAÇÃO É O QUE NOS RESTA, É TER AUTONOMIA NA NOSSA EDUCAÇÃO, É TER UM FOCO DE VIDA”.

00:27”

02:43”


56

Vídeo 4/ 00:41“

01:22“

Vídeo 5/ 02:27”

Vídeo 6/ 00:15”

00:28”

“SIM, HÁ UMA GRANDE DIFICULDADE NO ENSINO DAS AULAS ONLINE POIS JUSTAMENTE NÃO TEMOS AQUELA EXPLICAÇÃO ESPECÍFICA SOBRE O CONTEÚDO PASSADO, SE PRESENCIAL JÁ NÃO É DESSE JEITO, AQUI NA CIDADE TIRADENTES POUCOS PROFESSORES SE IMPORTAM COM O APRENDIZADO DO ALUNO, DIGITAL É PIOR AINDA, ENTÃO, BASICAMENTE ESSE ANO ESTÁ SENDO RESUMIDO NO EMPENHO DO PRÓPRIO ALUNO, SE ELE QUER OU SE NÃO QUER ESSE TIPO DE CONHECIMENTO”. “E FALTA DE ORGANIZAÇÃO É O EPICENTRO DA PREFEITURA, PORQUE ELES MEIO QUE SE CONTENTA COM OS RESTOS PRA GENTE, ENTENDEU? FALA: “COLOCA UM APLICATIVO AÍ, JOGA QUALQUER VÍDEO E ELES QUE SE VIRAM”, NÃO É ASSIM QUE FUNCIONA, GENTE, A GENTE TEM DÚVIDAS, A GENTE PRECISA DE UM PROFESSOR À TONA, A GENTE PRECISA DE UM INCENTIVO. TODAS AS PERGUNTAS A GENTE TEM QUE TER O NEGÓCIO DO INCENTIVO, É TUDO CALCULADO PELO INCENTIVO”. “-UMA PÉSSIMA IDEIA, NÉ, O RETORNO DAS AULAS EM PLENO 2020, NESSA SITUAÇÃO QUE ESTAMOS. O QUE HOUVE UMA GRANDE DIFERENÇA FOI QUE EU VI PASSANDO NA TELEVISÃO QUE OS PRÓPRIOS MÉDICOS PEGARAM, SE CURARAM EM MENOS DE UMA SEMANA, ATORES, MÚSICOS JÁ PEGARAM, SE CURARAM EM MENOS DE UMA SEMANA; VAI NÓS DA PERIFERIA. -VÊ OS NÚMEROS QUE ESTÃO CRESCENDO DE MORTE. -DIZEM QUE: “AH, MORREU PORQUE PEGOU A SEGUNDA VEZ”, SÃO DESCULPAS QUE ELES DÃO, ENTÃO DISPONIBILIZAM QUEM TEM DINHEIRO E QUEM NÃO TEM ELES LAVAM A MÃO”. “LETRA PRETA RESUMIDAMENTE SOMOS NÓS, É A NOSSA VOZ, É ALGO QUE A GENTE USA PARA COMUNICAR, É O NOME QUE A GENTE DEU PARA O NOSSO COLETIVO, PARA O NOSSO SLAM”.

01:12“

“LETRA PRETA É MOSTRAR QUE A GENTE TEM VOZ, É A NOSSA LETRA, É A RESISTÊNCIA, LETRA PRETA É RESISTÊNCIA, LETRA PRETA É CONVÍVIO E A GENTE MEIO QUE CRIOU ESSE

00:49“

01:53“

02:43“

00:26”


57

Vídeo 7/ 01:53”

03:11“

PROJETO, O NANDO ME PROPORCIONOU A PARTICIPAR DE LETRA PRETA E É GRATIFICANTE SABER QUE EU TENHO VOZ PARA OUTRAS PESSOAS QUE QUEREM ME OUVIR”. “ESTUDAR TEM BASE DE VÁRIOS CONHECIMENTOS, NÉ? TIPO, QUE NEM ELA FALOU ADQUIRIR CONHECIMENTO É SEMPRE BOM , NÃO APENAS, RETOMANDO O QUE ELA FALOU, NÃO APENAS EM TRABALHO, VOCÊ ESTUDANDO VOCÊ SABE DA ORIGEM DA SUA ETNIA, SABE DA ORIGEM DOS SEUS POVOS PASSADOS, SABE DO QUE OCORREU, SABE DE VOCÊ, DA SUA PELE, DA SUA COR”. “A GENTE ESTUDA O MUNDO, A GENTE NÃO ESTUDA SÓ QUANTO É DOIS MAIS DOIS, QUANTO É OITO MAIS OITO, A GENTE NÃO SÓ ESTUDA ISSO, NÃO EXISTE SÓ ISSO NA NOSSA BOLHA, A NOSSA BOLHA É COMPLEXA, ENTENDEU? A GENTE RODA, A GENTE SE EVOLUI COMO PESSOA, ENTÃO NÃO ADIANTA EU ESTUDAR MATEMÁTICA, EU ESTUDAR QUÍMICA E CIÊNCIAS SENDO QUE EU NÃO ESTUDO A MINHA PRÓPRIA IDENTIDADE, EU NÃO SEI O QUE EU QUERO, A GENTE PRECISA MUDAR ESSA CONCEPÇÃO QUE ESTUDO É SÓ ESCOLA. A GENTE ESTUDA O MUNDO, A GENTE ESTUDA A VIDA”.

02:18”

03:44”

Entrevistada: Suilan de Sá Realização da Gravação: 15 de Setembro de 2020 Vídeos: Entrevista – Coordenadora da Bibliot. /Mediadora de leitura Suilan Áudio: Ao todo são 3 áudios Obs: Procure a pontar o time code de 10’’ em 10’’ inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora

Vídeo/ Time code in

DESCRIÇÃO DA TOMADA E/OU TRANSCRIÇÃO DA SONORA

Time code out


58

Vídeo 1/ 00:54“

“NA TRAJETÓRIA DA VIDA EU ENTENDO QUE MEUS MELHORES APRENDIZADOS NÃO PARTIRAM DA ESCOLA, PARTIU DE CASA DE ACORDO COM O QUE OS MEUS PAIS TINHAM PARA ME PASSAR, DE ACORDO COM AS LIMITAÇÕES DELES TAMBÉM. MAS FOI NESSA CONVIVÊNCIA COM O COLETIVO DE MODO GERAL, NÃO COM O COLETIVO AQUI DA BIBLIOTECA, MAS TER ESSA RELAÇÃO COM A COMUNIDADE TAMBÉM E CONHECENDO AQUI O ESPAÇO EU PERCEBI QUE O PROBLEMA NÃO ERA FALTA DE VONTADE OU QUESTÃO DE DINHEIRO E ETC., MAS DE OPORTUNIDADE MESMO. SÃO COISAS QUE ATÉ O PRÓPRIO ANTÔNIO CÂNDIDO TRAZ, NÉ, QUE SÃO DIREITOS HUMANOS, ENTÃO EU ME COMPROMETI COM O FATO DE QUERER PROPORCIONAR O QUE ERA NOSSO POR DIREITO TAMBÉM, MAS A GENTE NÃO TINHA CONDIÇÕES NEM FINANCEIRAS, NEM PSICOLÓGICAS, NEM... ENFIM, DE TEMPO NA VIDA PARA FAZER E PRINCIPALMENTE COM AS NOSSAS CRIANÇAS TAMBÉM, NÉ, QUE É O NOSSO FOCO, QUANTO MEDIADOR DE LEITURA E ETC., E AÍ A GENTE COMEÇOU A FAZER CURSOS, GRUPO DE ESTUDOS, MEDIAÇÃO DE LEITURA, IR ATÉ AS ESCOLAS “SE AS CRIANÇAS NÃO VÃO ATÉ A BIBLIOTECA, O QUE A GENTE PODE FAZER PARA ATINGIR ESSAS CRIANÇAS QUE ESTÃO DENTRO DO TERRITÓRIO?” VAMOS FAZER MEDIAÇÃO DE LEITURA NA ESCOLA, ENTÃO É FAZER CAMINHOS PARA QUE CHEGUE O QUE É NOSSO POR DIREITO TAMBÉM”.

02:37“

Vídeo 2/ 01:00“

“COMECEI TAMBÉM A PRODUZIR, A GENTE COMEÇOU A CRIAR O SLAM LETRA PRETA QUE É UMA ATIVIDADE QUE A GENTE FAZ AQUI PARA ESTIMULAR MESMO A ESCRITA LITERÁRIA, E AÍ HOJE É UMA ATIVIDADE QUE A GENTE LEVA PARA DENTRO DAS ESCOLAS TAMBÉM”.

01:10“


59

01:40“

“TÊM PESSOAS QUE PASSARAM PELO ESPAÇO COMO MEDIADOR DE LEITURA, QUE FORAM PESSOAS QUE FREQUENTARAM ESSAS ATIVIDADES QUE A GENTE FEZ NAS ESCOLAS E AÍ ACHO QUE É MAIS QUESTÃO DE COMO ISSO É LEVADO PARA A GENTE, PORQUE SE É LEVADO DE UMA FORMA OBRIGATÓRIA A GENTE NÃO QUER FAZER, MAS SE A GENTE LEVA E LEVA JUNTO COM ESSE PRAZER QUE PODE SER PROPORCIONADO PELO ESTUDO, PELA LITERATURA E NÃO SÓ DE LITERATURA, MAS OUTROS CAMPOS DA ESCRITA TAMBÉM, SÃO MARAVILHOSOS QUE AGREGAM NA NOSSA VIDA”.

02:21“

Vídeo 3/ 02:30“

“FOI O PRIMEIRO ESPAÇO QUE ME DEU OPORTUNIDADE DE FALAR O QUE EU PENSAVA, SE SURGISSE UMA PAUTA DE EU TER O DIREITO DE EXPOR A MINHA OPINIÃO, INDEPENDENTE DE TUDO, SE EU NÃO QUERIA, EU NÃO QUERIA, ENTÃO FOI ESSE MOMENTO QUE EU COMECEI A INTERAGIR COM O ESPAÇO, E AÍ QUANDO EU COMECEI A VIR PARA A BIBLIOTECA, EU VIM COM MAIS DUAS MENINAS, A GENTE É CONSIDERADA UM TRIO ATÉ HOJE”. “QUANDO ELAS SAÍRAM DO ESPAÇO, EU COMECEI A... SURGIU A PROPOSTA DE EU FICAR NA POSIÇÃO DE COORDENADORA, MAS NÃO SÓ PARA COORDENAR O ESPAÇO, MAS PENSANDO NESSA IDEIA QUE A GENTE JÁ TINHA UMA FORMAÇÃO”.

02:50“

04:54“

“ERA NÓS TRÊS, QUE ÉRAMOS AS MAIS JOVENS QUE DAVA CONTA AQUI DO ESPAÇO, AÍ EU FIQUEI, ESTOU ATÉ HOJE, TEM UM ANO MAIS OU MENOS QUE ELAS SAÍRAM”.

05:08“

06:28”

“FOI UMA EXPERIENCIA QUE EU NÃO TERIA SE EU NÃO TIVESSE QUE ASSUMIR ESSA RESPONSABILIDADE, E AÍ ASSUMINDO ESSA RESPONSABILIDADE COMEÇOU A SURGIR O QUE EU QUERIA, O QUE EU REALMENTE QUERIA FAZER DA VIDA E TUDO ISSO PROPORCIONADO PELO FORÇA ATIVA TAMBÉM, QUE TEM ESSA PACIÊNCIA, ESSE TRABALHO DE BASE DENTRO DA COMUNIDADE, DO TERRITÓRIO DE QUALQUER LUGAR QUE CHAMAR, A GENTE VAI”.

06:56”

04:22“

04:39“


60

Diário de campo

No início de 2020 eu não sabia sobre o que eu queria falar no meu TCC, com reflexões em sala de aula e fora dela eu procurava um tema no qual me envolveria com aquela paixão que sentimos em especial por algumas pautas específicas, até que em um uma dessas reflexões no caminho de volta para casa até o meu bairro, na Cidade Tiradentes, pensei sobre como a vida de quem mora na periferia tem mais dificuldades, longos trajetos, poucas oportunidades e então pensei: E a educação daqui, como ela é? Lembrei da época em que estudava na escola pública do bairro e como um despertar me lembrei do dia em que recebi na escola uma lembrancinha de fim de ano, onde a professora entregou aleatoriamente e a que ganhei tinha um pequeno papel com uma frase que me marcou de forma instantânea, apesar de ser uma criança na época, estava escrito: "Estudar é o maior ato de rebeldia contra o sistema"; nesse momento sabia qual seria o meu tema, não apenas por querer falar sobre como funciona a rede pública escolar na periferia, mas por sentir que precisava falar disso, que havia muito a ser dito. Então, começou a jornada em busca de informações, livros, verificar se minha perspectiva do problema possuía relevância e qual produto eu iria criar, porque apesar de adorar o desafio da reportagem, eu não sabia editar e isso me trouxe insegurança, e com isso, decidi que faria uma rádio reportagem, pois pensei que seria a melhor opção pra mim, mais simples para editar e de fazer porque as fontes aceitariam participar e se abririam mais em pontuar a questão da desigualdade educacional, que é um tema tabu, principalmente porque está ligado diretamente ao governo, mas não seria o meu desejo genuíno esse modelo de produto, ciente da minha situação o meu orientador Antonio Assiz me incentivou a seguir meu maior desejo que era o de produzir uma grande reportagem. Já havia feito uma entrevista em áudio com um colega morador do bairro, mas tomei a decisão de mudar para o formato televisivo e assim criar uma grande reportagem; um tema que me marcou há mais de dez anos atrás e o formato de produto no qual eu mais me identifiquei: a reportagem. A soma dessas duas coisas resultou em muita dedicação e amor na criação desse projeto. Após pensar, anotar todas as ideias, eu sabia quem deveria fazer parte desse projeto, os personagens que dariam voz a essa causa. Consegui a primeira


61

fonte, uma professora da rede pública municipal, ela preferiu gravar sozinha as respostas e me enviar, eu sempre procurei dar opções e conforme a vontade da fonte me adaptar. A professora escolheu não ser identificada, eu que já não sabia editar aceitei mais esse desafio, porém nesse momento não havia mais limitações para mim, o que eu não saberia eu iria aprender e pôr em prática com o objetivo de dar voz ao meu tema e só isso importava. Então, comecei a procurar um sociólogo, preferencialmente professor, e foi o maior desafio, fazia questão que a minha reportagem tivesse apenas profissionais da Cidade Tiradentes, que moram aqui pois vivenciam o problema. Estava preocupada, com receio de não encontrar este perfil de fonte; em busca do sociólogo do bairro, eu criei uma arte para usar como chamamento em grupos da Cid. Tiradentes, mas não foi necessário esse feito, me lembrei de uma professora que tinha em minha rede social (Facebook) e pedi ajuda. Demorou, mas através disso eu consegui não apenas o sociólogo e professor Nando Góes, como também outros personagens que vieram através dele, sem esquecer do projeto Letra Preta e do Coletivo de Esquerda Força Ativa; valeu a pena, o meu sentimento foi de muita gratidão a Deus e a ele. Na realização das entrevistas pessoais, começando pela dele, eu deixava claro que haveria um cuidado necessário por conta da pandemia, perguntava novamente se a fonte não gostaria de realizar a entrevista pela internet ou ela mesma gravar os vídeos e me enviar, como ocorreu no caso da professora, mas por se tratar de um trabalho que tem base no bairro essa aproximação territorial gerou maior receptividade para que as fontes optassem em sua maioria pela entrevista pessoal. As entrevistas foram longas, algumas duraram até a parte da noite, como no caso da entrevista com o sociólogo Djalma Góes. Após entrevistá-lo, ele me aproximou de verdadeiras heroínas da resistência, meninas que fizeram parte da aula dele e decidiram sair da bolha em que a sociedade coloca os jovens da periferia, mas eu tinha em mente que histórias assim são exceções. Através dessa aproximação com essas meninas eu pude tomar a liberdade de escolher como abordar cada personagem. Decidi que a estudante de menor traria o relato de quem atualmente faz parte do ensino da rede pública do bairro; a coordenadora da biblioteca falaria sobre a possibilidade de gerar conhecimento fora da sala de aula, a importância de haver lugares como o coletivo Força Ativa para fazer caminhos em direção ao conhecimento;


62

decidi que uma das meninas por ser adapta ao Slam seria perfeita para criar e declamar uma poesia na abertura da reportagem; com a última personagem que ele me apresentou, eu vi nela uma jovem de luta, que representa o desejo do jovem em adentrar espaços negados. Assim as entrevistas foram acontecendo e eu fui aprendendo e me dedicando ao máximo, adquiri um microfone lapela e um tripé para fazer as entrevistas sozinha, até então eu tive o auxílio do meu irmão para filmar enquanto eu fazia as perguntas, por uma questão de ângulo pois aprendi que a fonte não deve estar de frente para a câmera e deve procurar olhar para o entrevistador, alcançando assim uma maior naturalidade. Neste momento, com esses equipamentos pude realizar totalmente sozinha as entrevistas. Com as entrevistas feitas estava na hora de aprender a editar, a orientação foi de utilizar o Premiere, aprendi o básico desse editor de vídeos e fui montando conforme o roteiro que eu criei. Continuei estudando e anotando ideias que surgiam, apesar de não ter experiência com o programa busquei deixar agradável o resultado, a intenção do roteiro foi justamente fazer uma reportagem que apesar do tema ser delicado, não ficasse cansativo de assistir para o telespectador, então coloquei a poesia, dividi algumas partes por assunto e intenção, e para melhorar ainda mais tive a ideia de montar uma simulação de entrevista de emprego. O meu tema está ligado diretamente a falta de oportunidade, a desigualdade e a segregação, então achei propício dar vida a esse problema que é tão comum para o morador da periferia, eu mesma já passei por essa dificuldade diversas vezes e na construção do roteiro da simulação pude me inspirar em situações pessoais. Consegui os atores através do WhatsApp, onde eu coloquei no status a minha ideia, entretanto não achei que ela sairia do papel, foi uma vitória conseguir os dois atores da minha simulação, criei o roteiro, dirigi e gravei a simulação já no processo de edição da reportagem. Uma jornada de aprendizagem constante para minha vida profissional, poder ser a diretora do meu TCC e ter a liberdade de usar minha criatividade foi indescritível pra mim. Continuei editando, neste momento já havia aprendido tudo o que eu precisava de mais essencial, felizmente eu não desisti e busquei superar os meus próprios limites. Coloquei efeitos, gravei os offs, coloquei as imagens de apoio que


63

havia feito com cada entrevistado e então percebi que faltavam imagens de apoio, mas isso era ótimo porque seria o momento ideal de realizar uma outra ideia que eu havia tido, a de mostrar a fachada das escolas do bairro. Então, gravei pela Cidade Tiradentes as imagens de apoio: a praça mais visitada do bairro, gravei a frente do terminal de ônibus e a fachada das escolas, sempre uma afastada da outra para diversificar. Começou a chover, mas mesmo assim eu continuei seguindo com o meu objetivo de gravar pelo bairro, no fim quatro escolas estão fazendo parte das imagens de apoio. Coloquei algumas trilhas sonoras, fiz uma arte simples com o tema, a claquete, a finalização com os créditos, pude aprender como fazer através de tutoriais no YouTube, em suma tudo foi um processo de aprendizagem, eu posso dizer que eu sempre gostei de me envolver nos meus trabalhos propostos pela faculdade até então, mas esse caso foi o mais especial, porque alem de ser um projeto tão importante para minha formação acadêmica, foi o que mais me desafiou, muitas coisas eu não sabia fazer e aprendi, como usar o Photoshop e o Premiere, por exemplo. Muitos desafios e muito aprendizado, meu produto é uma grande reportagem que fala da educação e da importância dela independente se o alunado é de classe alta ou baixa. E a própria autora desse projeto é quem mais aprendeu sobre as raízes do problema e sobre si mesma. Uma experiência gratificante, transformadora e com grandes desafios que geraram saberes, conquistas e a confiança de ir para o mundo profissional muito mais confiante no meu trabalho, na minha capacidade e no meu compromisso de abordar as questões sociais, os tabus que precisam ser expostos para criarmos "uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna", como disse uma das minhas fontes. Sou muito grata ao meu orientador Prof. Me. Antonio Assiz por ter me dado todo o apoio, auxílio e incentivo nessa jornada inesquecível, agradeço também todo o corpo docente da Universidade e a você que está lendo esse relatório que expressa o meu eu jornalístico de essência. Muito obrigada!


64

Anexos Ilustração – Coletivo de Esquerda Força Ativa:


65

Ilustração – Slam Letra Preta


66


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
O que você vai ser quando crescer? - Nayara Jaqueline Ledes by Rede Código - Issuu