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Universidade Cruzeiro do Sul | 2014 | Ano 3 | Número 4

O JORNALISTA POR TRÁS DO MITO

FOCA NO JORNALISMO: VALE A PENA SEGUIR CARREIRA?

QUANDO O JORNALISMO MUSICAL DEITA NO DIVÃ

FILTRO DE SENSIBILIDADE: O OUTRO LADO O FOTOJORNALISMO DA MOEDA: A SOB A LENTE ASSESSORIA DE FEMININA IMPRENSA

ESTRADA NA FRENTE, NOTÍCIA NA CABEÇA, MOCHILA NA MÃO UFOS E A COBERTURA DA MÍDIA, 50 ANOS DE PLAYBOY, E MUITO MAIS.


EDITORIAL

Reitora Prof.ª Dra. Sueli Cristina Marquesi Pró-Reitora de Graduação e Extensão Prof.ª Dra. Janice Valia de Los Santos Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Prof.ª Dra. Tania Cristina Pithon-Curi Pró-Reitor de Educação a Distância Prof. Dr. Carlos Fernando de Araujo Jr. Coordenadora do Curso de Jornalismo Prof.ª Dra. Angela Fernandes

Novembro de 2014 | Ano 3 | Número 4

ISSN: Tiragem: 500 exemplares Editor de Conteúdo Prof.ª Ms. Regina Tavares MTb 41649/SP Jornalista Responsável Prof.ª Ms. Regina Tavares MTb 41649/SP Idealização Prof. Ms. Bruno Tavares Diagramação e Capa Cristian Drovas Revisão Prof.ª Ms. Regina Tavares Allyne Pires Impressão Rettec Artes Gráficas (11) 2063-7000

Em nome da Reitoria e demais instâncias superiores da Universidade Cruzeiro do Sul, a Pró-reitoria da Universidade Cruzeiro do Sul parabeniza as equipes docente e discente do Curso de Jornalismo que nos brindam com mais uma edição da Revista Código, revelando parte da produção dos futuros profissionais da área. Criado em 1997, o Curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul chega em sua maioridade. Ao longo de seu percurso, realizou inúmeras conquistas, destacando a formação de profissionais em consonância com um Projeto Pedagógico que mantém diálogo com as Diretrizes Curriculares Nacionais, colocadas pelo Ministério da Educação, e com o Plano de Desenvolvimento Institucional da Universidade, constantemente atualizado. Em meados de 2009, nosso país assistiu à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que instituiu a desregulamentação da profissão de jornalista, cessando a exigência do diploma para o exercício da atividade. Por outro lado, fortaleceram-se os movimentos e o pensamento coletivo sobre a importância da continuidade da formação profissional em nível superior, haja vista seu papel e importância para a comunicação social. Fruto destes movimentos, em 2013, o Ministério da Educação (MEC) instituiu novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo, adequando-o à realidade e às exigências de nossa sociedade, em atendimento às necessidades de informação e expressão dialógica dos indivíduos. Desta forma, o Projeto Pedagógico do Curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul foi revisto, buscando a adequação de sua Matriz Curricular em que as atividades didáticas passam de 2.700 horas para 3.000 horas, contemplando as orientações que determinam os diversos eixos de formação para o profissional de jornalismo, incluindo o Estágio Curricular Supervisionado, que passa a ser obrigatório, compondo 200 horas de atividades específicas da área. Registre-se, também, a oferta do Curso, a partir de 2015, no campus Liberdade da Universidade Cruzeiro do Sul, ampliando as possibilidades de formação na área para candidatos de outras regiões da cidade de São Paulo. O que nos chama a atenção em relação às orientações emanadas das novas Diretrizes Curriculares é o caráter interdisciplinar recomendado para a formação do profissional de Jornalismo, orientações que se fazem presentes no Projeto Pedagógico do Curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul desde sua criação, há dezessete anos, indicando a atualização do seu fazer pedagógico que prima pela formação acadêmica do futuro profissional sob uma vertente generalista, humanista, crítica, ética e reflexiva, favorecendo sua atuação não somente sob a perspectiva técnica, mas também como agente social e da cidadania, capaz de responder à complexidade e à diversidade de uma sociedade permeada pelas comunicações em rede. As matérias apresentadas neste volume são exemplo desta formação, revelando parte dos resultados que os futuros profissionais de jornalismo alcançam durante a jornada de sua formação acadêmica na Universidade Cruzeiro do Sul. Com nossos cumprimentos à Comunidade Acadêmica Cruzeiro do Sul e, em especial, dos Cursos de Comunicação, desejamos prazerosa e proveitosa leitura.

COORDENAÇÃO Prezados leitores, É com grande orgulho, compartilhado com as equipes docente e discente dos Cursos de Comunicação, que trazemos a público o quarto volume da Revista Código, por meio do qual destacamos parte da produção do Curso de Jornalismo. Ao escrever esta apresentação, queremos compartilhar, também, uma reflexão sobre o cenário midiático atual, em que alguns aspectos sobre a relação mídia e poder se entrecruzam. Pesquisadores como Gustave Le Bon, Gabriel Tarde, Paul Lazarsfeld, Charles Steinberg, Hans Speier, Noam Chomsky, Jürgen Habermas, Vincente Price, entre outros, deixaram importante contribuição teórica para pensarmos sobre a questão: quem tem poder – mídia ou opinião pública? E a partir desta questão, como pensar em um espaço público genuíno, com cidadãos autônomos no debate sobre temas de interesse público, ao tempo que são influenciados por notícias editadas segundo os interesses de quem as veicula?

Prof.ª Dra. Angela Fernandes - Coordenadora de Jornalismo

A questão torna-se ainda mais ampla na medida em que nos deparamos com a era da complexidade noticiosa, citada pelo jornalista Carlos Castilho, para quem “a indústria da distorção da notícia torna cada vez mais difícil distinguir dados de interesse público de fatos, números e interpretações de interesse privado” , exigindo dos leitores não só uma leitura simples e prazerosa, fluida, mas um exercício diário de leitura crítica, buscando identificar a credibilidade das fontes. Soma-se a estes o fato de que, em tempos de redes sociais, tanto jornalistas quanto os diversos públicos experimentam a convivência na produção de informação, haja vista o protagonismo dos indivíduos na geração e comunicação de notícias. Smartphones e suas câmeras, utilizadas informalmente, disputam espaço com microfones e pautas previamente elaboradas, fruto de pesquisa. Diante deste cenário, sobressai a necessidade de pensarmos sobre a importância da formação qualificada do profissional jornalista. Longe de defendermos reserva de mercado, numa sociedade em que a cocriação da notícia pode representar ganhos para a democratização da informação, é preciso, por outro lado, ressaltar a importância do aprendizado que leva o futuro profissional da área a refletir, entre outros conteúdos, sobre a ética da profissão, a produção da notícia a partir da pesquisa e da investigação aprofundada, com vistas ao interesse público, e a produção de texto cuja construção sirva de estímulo ao debate racional, favorecendo a formação da genuína opinião pública. Como se vê, não basta ter nas mãos uma câmera, um microfone ou um teclado. Antes é preciso saber por que, para que, para quem e como utilizá-los, se o objetivo for um jornalismo sério e comprometido com a sociedade em que vivemos. Em 2014, o Curso de Jornalismo na Universidade Cruzeiro do Sul completou dezessete anos. Um jovem nas contínuas aspirações e ideais, mas maduro na trajetória que contempla realizações significativas, como a formação de centenas de jornalistas que hoje, no mercado, produzem as matérias que ajudam a formar a nossa opinião. A produção aqui apresentada, realizada pelos graduandos do Curso de Jornalismo, a quem cumprimentamos, denotam o compromisso da Universidade Cruzeiro do Sul em relação à formação deste profissional. Equipes docente e discente do Curso sabem que o fenômeno opinião pública é um processo em constante construção, sujeito a uma série de interferências de natureza socioeconômica, política e cultural, ainda mais em um país de grandes contrastes, certezas e incertezas como o nosso; assim como sabem, também, que o uso da câmera, do microfone e do teclado podem fazer a diferença nesta construção, quando utilizados sobre a orientação da teoria aplicada, interdisciplinar, conjugada com o profissionalismo ético e responsável, exercitado a partir do espaço acadêmico. Este é o desafio que, há dezessete anos, o Curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul decidiu abraçar. Boa leitura a todos. À Comunidade Acadêmica Cruzeiro do Sul


SUMÁRIO SUMÁRIO

33 XX SOB ANÁLISE

38 NA ESTRADA

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SUPER ASSESSOR DE IMPRENSA RESENHA - HI, HAVE YOU MET TED? MULHERES QUE PILOTAM MÁQUINAS FOTOGRÁFICAS POSTURA EM PAUTA

JORNALISMO: SER OU NÃO SER?

POR TRÁS DA MANCHETE

COMUNICAÇÃO: O TEMPERO QUE A POLÍTICA PRECISA SUBINDO DE NÍVEL

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CRÔNICA - TECNOFOBIA ARTIGO - JORNALISMO DO ABSURDO PINGUE-PONGUE: RAFAEL CORTEZ

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60 ANOS E COM TUDO EM CIMA

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CRÔNICA - QUE QUÉ ISSO, FIA?

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CRÔNICA - NOSSO PACAEMBU

QUE TRANSFORMA

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CRÔNICA - LUTO POR 40


Ele se coloca na frente de uma enxurrada de críticas para defender os interesses de seu assessorado, sem o temor de ser atingido. O “Super Assessor de Imprensa” salvará a imagem do seu protegido, não importam quais vilões ele irá enfrentar.

POR VINICIUS BUZZETTI, DRIELLY SANTANA, RAÍSSA FERNANDES, AUDREY PUJOL, MAYARA ALMEIDA ILUSTRAÇÕES FERNANDA OLIVEIRA

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urante muito tempo ele foi tratado como o vilão da história. Mas, hoje em dia, é considerado um super-herói. Auxiliando os jornalistas com seus poderes, o assessor de imprensa é o principal escudo entre as críticas e seu assessorado. Dentre os profissionais que atuam nessa área, grande parte tem formação em Jornalismo ou Relações Públicas. Entretanto, o cargo não é visto com bons olhos por outros colegas da profissão. Para os jornalistas que cobrem o dia a dia, os repórteres especiais e muitos editores, os assessores de imprensa são profissionais de jornalismo frustados. A rixa aumenta quando o assunto é reportagem. A maioria quer falar direto com a fonte, seja por sentir-se privilegiado ou por acreditar que esta vai dizer sempre algo a mais além

do que seria dito pelo assessor. Pior: a maioria pensa que o assessor existe para impedir o acesso à informação. Tal qual o Batman que salva o dia sem receber aplausos dos cidadãos de Gotham City, esse tipo de sacrifício se mostra necessário na rotina do assessor. Mas e quando a empresa ou assessorado liga o bat-sinal para pedir ajuda?

Isso me parece um trabalho para... Lembra quando a cantora norte-americana Britney Spears “surtou” diante das câmeras e raspou a cabeça? Pode ser que você nunca tenha pensado dessa forma, mas para que a artista tivesse sua imagem recuperada, foi pensada pela equipe de assessoria uma estratégia para gerenciamento de crises.

CINTO DE UTILIDADES Release – Pauta fornecida pelo assessor para divulgar assunto de interesse do assessorado, enviada para mailing interessado. Mailing ou Cadastro de Jornalistas – Lista de contatos de diversos veículos da imprensa (jornais, rádios, revistas, sites) para onde é enviado o release. Entrevistas Coletivas – Organização de coletivas de imprensa para divulgação de informações de interesse público, ou possíveis esclarecimentos. Press Kit – Conjunto de material entregue como apoio a jornalistas durante uma cobertura, lançamento, coletiva etc. Funciona como ferramenta para ajudar o profissional de mídia no seu trabalho. Nota oficial – Documento distribuído à imprensa, contendo declarações, posicionamento oficial ou esclarecimentos sobre um assunto relevante e urgente de interesse público.

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Problemas como esse acontecem o tempo todo. Outros exemplos podem ser encontrados no futebol, como quando um tradicional clube como o Palmeiras, sendo rebaixado para a Série B do campeonato brasileiro. Ou ainda quando uma figura pública causa polêmica com alguma declaração O ex-assessor do Palmeiras, Fábio Finelli, falou sobre a importância de um bom profissional da área para conservar a boa imagem de um cliente. No caso do futebol, entrevistas dadas por atletas, assuntos envolvendo a vida fora dwos gramados, lances polêmicos, tudo pode se tornar uma bomba relógio se não for tratado com o devido cuidado. Para ele, um bom assessor depende muito do perfil da pessoa. “Eu acho que precisa ter talento, ter faro. Existem

muitos jornalistas que não se adaptam em ser assessores, porque são melhores atuando como repórteres ou produtores. Outros encontram seu potencial como assessor.” Finelli comparou o assessor a um escudo, alguém que zela pelo assessorado. E apontou o comprometimento como uma das principais características para alcançar o sucesso nesse segmento. “É preciso estar sempre disponível, mesmo que isso ocorra à noite, aos finais de semanas ou feriados. A disponibilidade muitas vezes faz você perder ou ganhar um cliente”, afirma. A pró-atividade é outra das características de destaque em um bom assessor, segundo os assessores Vanessa Argollo, e Silmar Batista. “A assessoria de imprensa é somente uma das muitas formas de trabalhar a comunicação”, ressaltou Silmar Batista. Ele complementa dizendo que o profissional deve buscar sempre fazer além do que foi solicitado inicialmente, sem medo de explorar as várias formas de comunicar. Batista acrescenta a importância de não se prender apenas as principais mídias dentro do segmento de atuação, para oferecer mais opções de pauta. Mas é preciso tomar cuidado para que o herói não se torne o vilão da historia.

Código de Ética dos Heróis Eis as regras de um super assessor de imprensa: 1. Sempre falar a verdade; 2. Conhecer a cabeça dos jornalistas e de seu assessorado; 3. Estar sempre antenado no que está acontecendo dentro e fora da assessoria; 4. Ler, escrever e se comunicar ao máximo. Conhecimento é poder; 5. Nunca ser a estrela, apenas um suporte para ela; 6. Estar um passo à frente da notícia, sempre em busca de mais segurança para o cliente; 7. Ter atenção constante até aos pequenos fatos. Uma fogueira pode começar da menor fagulha; 8. Um bom assessor de imprensa está acessível 24 horas; 9. Conhecer as técnicas jornalísticas e estar por dentro do mercado midiático; 10. E, sobretudo, obter resultados satisfatórios para o assessorado. Sem resultados, não há o que justifique uma assessoria.

Grandes poderes, grandes responsabilidades Como o assessor é o responsável por mediar o contato entre a voz do assessorado e as mídias em geral, deve-se ter extremo cuidado e atenção com a função que está sendo desempenhada. Um erro de comunicação pode desencadear uma crise difícil de controlar. Por isso, o planejamento é uma das tarefas mais

importantes no trabalho desse herói, segundo Mariasch. Sem definir metas e prioridades, erros podem se tornar comuns. Desde o contato com o público interessado naquela informação, por exemplo, por meio de redes sociais, até um não pronunciamento em um caso que atinge toda a sociedade e merece um esclarecimento, o assessor deve ter sensibilidade e jogo de cintura para orientar o assessorado da melhor maneira possível.


O Esquadrão da Desinformação

A Liga da Assessoria

Eles podem vir de qualquer lugar e tentar destruir a quaquer custo a imagem do assessorado. Conheça os pricipais vilões de nossos herois

Cada um dos herois têm uma função primordial no combate à tirania contra a imagem. Eis os escudeiros da assessoria:

Capitão Intriga – Funcionários problemáticos, intrigas, fofocas, problemas financeiros… Tudo isso pode gerar crises internas que mancham a imagem de uma empressa.

Social Lady – As redes sociais se tornaram tão importantes hoje em dia que criou-se um departamento na assessoria exclusiva para elas. Tem a missão de ligar o assessorado aos cidadãos comuns.

Dr. Furacão – Alguns fatos imprevisíves causam crises externas difíceis de controlar. Um rato econtrado dentro de um refrigerante pode corromper a imagem de uma marca por inteiro.

Super Clipador – O grande observador da mídia. Verifica como estão as noticias do assessorado. Se forem negativas, ele toma providências para reverter a situação.

Cidadóides – A pressão da sociedade é a principal forma de sujar a imagem de um órgão público. Como ocorrido nas manisfestações de julho de 2013.

Mega Eventos – Encarregado pelo bom andamento dos eventos, ocasiões importantes para o contato entre funcionários, consumidores e possíveis clientes.

Mrs. Polêmica – Na busca por audiência, jornalistas mal intencionados não se importam em fazer notícias sensacionalistas, aproveitando-se de meias verdades e de erros cometidos por entrevistados.

Homem Entrevista – Agenda e monitora as entrevistas feitas pelo assessorado. Responsável pela ligação entre a fonte e o jornalista, sempre tomando cuidado com a “Mrs. Polêmica” (vide box ao lado). Releaseman – O release é tão importante na assessoria que é considerado o líder do grupo. É ele quem divulga o nome do assessorado e o torna relevante para a midia.

O Bocão – A inexperiência do assessorado pode prejudicar sua própria imagem, em entrevistas. Cabe ao assessor treiná-lo e fortalecê-lo para situações de risco.

Também é necessário muito conhecimento para detectar possíveis crises e evitar que elas aconteçam. Segundo Finelli, o trabalho do assessor é constante. “O Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, foi demitido em uma madrugada de sexta para sábado, às 3h da manhã. Eu estava dormindo, acordei com as centenas de ligações da imprensa. Achei que

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alguém tivesse morrido”, afirma entre risos. A disponibilidade muitas vezes faz você perder ou ganhar um cliente. Assim como o Homem-Aranha que mesmo com todos os seus conflitos internos, consegue se resolver a tempo de salvar a Mary Jane, o assessor tem que ser capaz de lidar com situações de extrema pressão, movido também pelo seu super instinto.

Para o alto e avante Você sabe por que existem poucos heróis de verdade? Porque poucas pessoas são capazes de se sacrificar pelo outro. Da mesma forma, poucos são os jornalistas que podem ser assessores de imprensa. E ainda assim, destes, poucos realmente gostam do que fazem. Convenhamos que se colocar na frente para proteger o

outro não é tarefa das mais fáceis. Mas esta é a verdadeira essência do herói, proteger aquele que não consegue lutar sozinho, ou que por algum motivo precisou de alguém entre ele e o mal para sair vitorioso, mesmo que esse não mereça tal ajuda. Existem milhares de pessoas más em metrópoles, mas isso não impede que o Superman salve a cidade inteira quando um

meteoro está prestes a cair. Da mesma forma, o verdadeiro assessor não mede esforços para salvar a imagem de seu protegido, mesmo quando os atos de seu assessorado são questionáveis até por ele mesmo. Ele cumpre o seu dever, mesmo que isso impacte na sua própria imagem. Como o Homem-Aranha, que sempre é repudiado nas pá-

ginas do jornal que trabalha, o assessor nem sempre é agradecido pelo que faz. Mas dorme tranquilo, pois sabe no fundo de si mesmo que fez o que devia fazer. E assim como o Batman que sempre se esconde na escuridão, o assessor de imprensa nunca é visto, mas está sempre ali, orientando seu assessorado e, assim, salvando o dia mais uma vez.


RESENHA

Hi, have you met Ted? Por Denise Bonfim

A turma de amigos é heterogênea o suficiente para arrancar risadas do público. Marshall faz o gênero ‘grandalhão com sentimentos’. Estudante de direito, sonha em trabalhar em uma empresa de proteção dos direitos da natureza, e conheceu Ted na faculdade. Ao término do curso, foi morar com o amigo em Nova York junto com Lilly, sua namorada. Lilly fala o que pensa quando pensa, e não consegue se controlar quando o assunto é gastar. Artista plástica e professora do jardim de infância, tem o dom de manipular os amigos - para o “bem” - sempre que necessário. Se o trio que divide o mesmo apartamento já garante o divertimento do público, Barney não

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deixa a desejar. Cruel com as mulheres, é um conquistador que faz de tudo para ‘se dar bem’. Considera-se o melhor amigo de Ted, embora ele sempre desminta isso categoricamente. É egoísta, autossuficiente e excepcionalmente rico. Robin, a repórter que nasceu no Canadá, é a última a se juntar ao grupo. Jornalista, apresenta um telejornal na cidade, e logo nos primeiros capítulos começa a ter um relacionamento com Ted. How I Met You Mother consegue ser divertido e misterioso ao mesmo tempo. Não só torna óbvio que qualquer tipo de relacionamento e situação pode ser passageiro na vida dos personagens – assim como em nossa vida cotidiana, como também deixa bem claro: o telespectador só vai saber quem enfim é a mãe dos filhos de Ted no fim dos capítulos. Leve, ácida, e com um humor feito para maiores, essa série promete aprisionar os aficionados por histórias em seus sofás pelas próximas temporadas. INTERNET

‘Hi, Kids!’ - Quem já assistiu ao menos a um episódio de How I Met Your Mother, transmitida no Brasil pelo canal FOX, já está famigerado com a expressão. A série narra a saga do arquiteto Ted Mosby, que procura pela mulher de sua vida. Em 2030, ele conta aos filhos, episódio por episódio, todas as suas tentativas de arrumar uma nova namorada e as confusões da sua turma de amigos.


ARQUIVO PESSOAL - OLÍVIA TESSER

balhava com fotografia para os jornais Agora e O Diário do Grande ABC. “Eu cresci no meio de rolos de filmes e químicos. Meu banheiro era um laboratório e a cozinha estava sempre cheia de fotos penduradas. Admirava o trabalho dele sempre que via suas fotos em jornais e ouvia suas historias”, relata. Informada sobre as manifestações por alguns colegas, a fotógrafa foi até o local indicado realizar o trabalho. No primeiro dia, a confusão rendeu algumas fotos e desde então, Olívia decidiu que continuaria cobrindo o evento. Como a violência já era prevista, alguns amigos a aconselharam a permanecer com eles. Os protestos continuaram e, no quarto dia, a Polícia Militar passou a atacar diretamente a imprensa, segundo a fotógrafa. Repórteres estavam proibidos de capturar imagens dos conflitos entre a PM e os manifestantes. No meio da correria que se alastrava, uma bomba

Terceiro grande ato contra o aumento das passagens em SP

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m junho de 2013, na cidade de São Paulo, uma multidão enfurecida com o propósito de revolucionar o seu país enfrentava a resistência de policiais militares durante a manifestação do “não é só por 20 centavos”. Um verdadeiro cenário para inquietações e descontentamento que tomou conta das ruas da maior metrópole brasileira. Para registrar cada passo dos militares e militantes, cada bala de borracha lançada con-

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tra os protestantes, fotógrafos arriscaram suas vidas e instrumentos de trabalho para registrar uma imagem mais próxima possível da realidade. Entre um clique e outro, no meio de um alvoroço infernal, estavam as fotógrafas comprometidas com o fotojornalismo. Apesar das limitações de espaço cedido pelos colegas de trabalho, elas permaneciam firmes e

enfrentavam os obstáculos para arquivar os melhores e piores momentos de um marco revolucionário. Olívia Tesser, uma das muitas mulheres que se arriscaram durante os protestos em prol do melhor foco. Atuante no fotojornalismo desde 2009, Olívia começou a carreira por influência do pai que tra-

“EU CRESCI

NO MEIO DE ROLOS DE FILMES

E QUÍMICOS”

ARQUIVO PESSOAL - OLÍVIA TESSER

POR THALITA MONTE SANTO, DANILSA DE ALMEIDA, MÔNICA DE SOUZA, JORDAN MELLO, ALAN LIMA, FLÁVIA FIRMINO

de gás lacrimogêneo acertou a perna de Olívia. Quem a socorreu foram os colegas da imprensa. Uma das maiores dificuldades em ser mulher e atuar com fotografia em coberturas jornalísticas é a falta de abertura dada às fotografas. Embora existam poucas mulheres cobrindo situações de conflito, esse número cresce e contribue cada vez mais para o bem do fotojornalismo. “Com certeza temos mais homens nesta área, mas o número de mulheres que fazem esse tipo de cobertura vem aumentando”, diz Olívia. O que presenciamos e conhecemos como fotojornalismo hoje só passou a ilustrar as reportagens brasileiras com a chegada de “O Cruzeiro”, em 1928. A revista carioca de Assis Chateaubriand apresentava um novo Brasil aos leitores. Essa publicação inovadora da notícia foi construindo novos termos em jornalismo visual, que até então era representado através de desenhos e gravuras.

Show no Dia do Trabalhador na praça Campo de Bagetelle

Desde o início, esse campo era dominado pelos homens. Mulheres permaneciam em casa cuidando da família. Algumas poucas tinham o privilégio de estampar capas de revistas em publicações de moda e publicidade. Somente em 1937, uma mulher passou a ganhar espaço no meio fotojornalístico brasileiro. A fotógrafa alemã Hildegard Rosenthal veio para o país após a Gestapo (polícia secreta Alemã durante o regime nazista) descobrir que ela namorava um rapaz judeu. Fugitiva, veio para o Brasil em 24 horas, somente com a roupa do corpo. Hildegard estabeleceu-se em São Paulo e começou a trabalhar em uma loja de material fotográfico. Meses depois, foi contratada pela agência Press Information e passou a fotografar o centro da Capital do Estado e cidades do interior, além do Rio de Janeiro e cidades do sul do Brasil. Ela se tornou a primeira fotojornalista feminina da imprensa brasileira, realizando reportagens para veículos internacionais e nacionais, como jornais O Estado de S.Paulo e Folha da Manhã. Em 1966, a Editora Abril lançava a revista “Realidade”, na qual a fotógrafa suíça Cláudia Andujar, naturalizada brasileira em 1955, trabalhou como freelancer. Sua maior cobertura foi uma edição especial sobre a Amazônia. Após essa reporta-


gem, Cláudia transformou-se numa defensora da preservação indígena e do seu território. Hoje, mulheres atuam no fotojornalismo tão intensamente quanto os homens. Com o crescimento de agências de fotografia e a descentralização do fotojornalismo nos grandes jornais, surgiu um número maior de mulheres atuantes no mercado. Porém, ainda existe o tabu de que o espaço dado a elas é pequeno.

de quem vê Geralmente mulheres não são escaladas para cobrir clássicos do futebol, lutas e corridas de Fórmula 1. Entretanto, estão em coberturas arriscadas como manifestações, desocupações em comunidades carentes e rebeliões. Mas será que em pleno século XXI ainda existe preconceito com o suposto sexo frágil? Marcelo Camargo, fotojornalista há seis anos, trabalhou com publicações para as revistas Veja, Playboy, Super Interessante, Placar, Nova Escola e hoje atua na Agência Brasil. Ele afirma que esse tipo de preconceito, embora camuflado, é real. “Acho que assim como em tantos outros campos do mercado de trabalho, ainda existe bastante preconceito com relação às mulheres. Um preconceito velado,

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O preconceito está nos olhos de quem vê

ARQUIVO PESSOAL - OLÍVIA TESSER

O preconceito está nos olhos

Protesto contra o aumento da passagem do transporte público mas é visível. Em Brasília, onde trabalhei com a cobertura de política de 2011, era comum ouvir uma ou outra piadinha sobre fotojornalistas mulheres”, confessa. “Na grande maioria das vezes, piadas sobre a facilidade que elas tinham de convencer os seguranças a liberá-las ou facilitar o acesso para fazer as fotos em certas situações, era algo ‘leve’, como brincadeira ou um ‘pegar no pé’. É preciso destacar o ambiente amigável que existe entre os fotógrafos

de jornais e agências em Brasília”. Segundo Camargo, encontramos muitos homens e poucas mulheres em grandes jornais. “Nas redações é infinitamente mais comum de se ver homens do que mulheres trabalhando com fotografia. Ainda assim, na minha opinião, o trabalho de muitas delas se destaca. Talvez por terem, em sua maioria, um olhar um pouco menos racional e um pouco mais emocional quando comparado ao dos homens”.

A fotógrafa Larissa Zanata conta que o preconceito com as mulheres é comum, mas não leva em consideração este tipo de barreira. “Predominantemente, é um mercado masculino. A verdade é que eu não levo a sério os comentários machistas”. Outro contraponto que desfavorece a atuação feminina é a inserção na área de trabalho. “É um mercado saturado e os editores já tem seus fotógrafos. Para você entrar numa redação, precisa começar como freelancer e para agências – que pagam

mal. Você tem que se virar sozinho, com equipamento próprio e muitas vezes sem carro”, relata Larissa.

PROBLEMAS enfrentados

CONSTANTEMENTE Em certas ocasiões, as fotógrafas são mais vulneráveis. Muitas vezes são assediadas, passam por situações desconfortáveis durante o trabalho e não são respeitadas. Uma mulher que precisa entrar em recintos repletos de

homens para fazer uma foto, certamente ouvirá algum comentário desagradável. Mas o problema se torna maior quando o abuso passa de verbal para uma verdadeira agressão, tanto física quanto psicológica. Sites internacionais e agências de notícias informaram que, recentemente uma fotojornalista de 22 anos foi vítima de estupro coletivo enquanto trabalhava, em Mumbai, na Índia. O colega que estava com ela foi amarrado com uma corda e espancado, enquanto pelo menos três dos cinco homens presentes se revezavam estuprando a fotógrafa. Os agressores fugiram após o crime, mas as autoridades já os detiveram. O ato de violência aconteceu em um complexo têxtil abandonado conhecido como Shakti Mills, no bairro de Mahalaxmi da metrópole financeira.

OLHAR FEMININO, filtro de sensibilidade

Porém, com todas as dificuldades enfrentadas rotineiramente, mulheres se sobressaem quando o assunto é a sensibilidade. Alguns trabalhos clicados por elas se destacam pelo olhar mais humanista e emotivo que só elas são capazes de captar. O lado sentimentalista, e muitas vezes maternal, influencia nos detalhes que talvez passem despercebidos pelos fotógrafos do time masculino. “Geralmente, a mulher é mais detalhista. Repara em pequenos detalhes como uma rou-


ARQUIVO PESSOAL - OLÍVIA TESSER

Apesar da concorrência, sensibilidade é diferencial para a mulher no fotojornalismo

cem imagens, de onze fotógrafas da revista. Entre os assuntos, estão o casamento de crianças em países da Ásia e Oriente Médio, a epidemia de gripe

aviária na Ásia, paisagens americanas, os grandes felinos da África e trabalho escravo. A informação é da agência online de notícias BBC Brasil.

Indicado para profissionais que precisam passar por algum tipo de exposição, o media training auxilia e traz seguranças na hora de encarar a apresentação. POR DENISE BONFIM JÉSSICA LIMA MARCELLO BARBOSA ANA C. SALVIATO VINICIUS BARBOZA

ARQUIVO - INTERNET

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POSTURA EM PAUTA

INFOGRÁFICO - DANILSA DE ALMEIDA

pa desarrumada, cabelo, maquiagem”, conta Olívia. Algumas portas também são abertas facilmente para elas. Não pelo fato de se aproveitarem de suas condições, mas por geralmente serem mais amigáveis e passar confiança na hora de se aproximarem das pessoas. “Eu mesmo não me viro bem quando sou designado para pautas de retratos, que envolvem uma maior capacidade de convencimento ou ‘lábia’ para deixar o fotografado à vontade”, diz Camargo. “Acho que, no geral, as mulheres têm mais facilidade no aspecto de serem mais sensíveis e compreenderem melhor o outro”, conclui. Em outubro de 2013, na cidade de Washington, nos Estados Unidos, ocorreu uma exposição inspirada no papel pioneiro das fotojornalistas da NGM (National Geographic Magazine). As imagens mostram reportagens históricas feitas no mundo todo. São mais de


- isso inclui desenvolver as habilidades de comunicação que são essenciais para uma boa apresentação. Jornalista de formação, Áurea Regina de Sá é, desde 2001, especialista na área e atuante como consultora de Media Training na única empresa do país com serviços específicos

ciado de conhecimento e conseguiu colocar em prática o que aprendeu. “Primeiro apresento a parte teórica para embasar o participante que, um segundo momento, no mesmo dia, participa de simulações práticas de entrevistas. Todo

tras atribuições, o intuito de falar com jornalistas para divulgar produtos ou serviços, orientando o porta-voz (nome dado a quem representa uma instituição no trato com a mídia) a ter um bom desempenho na hora da entrevista

para a capacitação de porta-vozes: a Treinamento de Mídia. Ao explicar como trabalha, Áurea conta que conduz o participante ao crescimento de desempenho do começo ao fim para que ele perceba que atingiu um nível diferen-

o conteúdo tem relação com o dia a dia de trabalho dele, independente da área de atuação, para que ele possa realmente se preparar para uma entrevista real”. Ângela Fernandes, Doutora em Relações Públicas e Do-

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Áurea Regina de Sá, consultora de media training

DIVULGAÇÃO

S

“O porta-voz deve ter ciência das mensagens-chave que a instituição divulga para não incorrer em gafes de, por exemplo, divulgar o que não é permitido.”

aber como se postar ao dar uma entrevista, falar em público ou mesmo frente às câmeras sempre influenciou em como as pessoas julgam a veracidade e a autoconfiança sobre aquilo que é falado. Esse relacionamento com a imprensa ou com qualquer outro meio de apresentação pública pode ser uma situação constrangedora e esses porta-vozes precisam estar preparados para expor suas ideias com segurança. Desconhecido por muitos fora do mundo da comunicação, o Media Training, treinamento específico para profissionais de todas as áreas que desejam aprender algumas técnicas de relacionamento com o público e a imprensa, já existe há mais ou menos dez anos no Brasil e vem em uma crescente que anima os experts no assunto. O treinamento tem, entre ou-

cente na Universidade Cruzeiro do Sul, explica que há diferentes tratamentos que variam de acordo com o veículo ao qual o discurso se destina. Numa entrevista radiofônica o trabalho prioriza, por exemplo, a colocação da voz, a dicção, a entonação. Já para a exposição televisiva é preciso pensar desde o figurino – há roupas e cores que não ficam bem com uso de chromakey – até circunstâncias que podem surgir de improviso e que exigirão ação pró-ativa do cliente. “Além disso, há que se pensar na relação texto e contexto, ou seja, treinar um executivo para uma entrevista coletiva em que proferirá um importante pronunciamento numa situação de crise exige encaminhamentos diferentes em relação ao traba-

lho a ser feito com um cantor de rock que concederá uma entrevista on-line”, completa. Também especialista no assunto, João Luiz Vieira, jornalista com experiência em veículos como Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo que se enveredou para os caminhos do treinamento, aplica a técnica para diversos públicos – de empresários, políticos a artistas -, e explica que para cada caso há uma adaptação do conteúdo ensinado. “Cada curso depende do público que está do outro lado. Pode ser uma senhora até uma adolescente, vamos treinando as questões a pensamos de acordo com a profissão. Ninguém vai perguntar para um ator o que ele acha do Leilão de Libras. As questões abordadas serão sobre arte, como a

polêmica das bibliografias. Ele vai aprender como se expor na mídia a respeito disso. Sobre assuntos que não dominam, eles raramente se manifestam. Para quem está ligado a esses outros assuntos, outro tipo de treinamento”, explica. Tudo para que o discurso do porta-voz seja uniformizado, sem saias justas e constrangimentos. “O porta-voz deve ter ciência das mensagens-chave que a instituição divulga para não incorrer em gafes de, por exemplo, divulgar o que não é permitido, falar em números que podem alertar o mercado concorrente”, alerta Áurea. Durante as aulas, situações como entrevistas e apresentações em público são simuladas para que o conteúdo seja facilmente absorvido e assimilado. No filme O discurso do Rei o


“Cada curso depende do público que está do outro lado.” atento para tudo o que cerca o discurso a fim de construir uma imagem que além de positiva para o interlocutor, deve estar alinhada ao que prega a instituição que o porta-voz representa”, completa a jornalista. Vieira endossa o discurso: “Tudo influi na sua imagem, até o que você não diz. Como se senta, como fica em pé, a comunicação não verbal é tão importante como a verbal. O seu silêncio pode dizer muita coisa e é essencial saber disso”. Kelvin Simon, de 28 anos, trabalha no departamento de recursos humanos em uma empresa com segmento de mídia corporativa que, frente a uma crise, exigia que os funcionários fizessem o treinamento para aprender como reagir em determinadas situações. “Recebi o treinamento há 4 anos e foi fornecido por uma empresa contratada, onde nos informaram que todos os funcionários deveriam estar cientes e capacitados caso haja algum imprevisto dentro

DIVULGAÇÃO

personagem Lionel Logue, fonoaudiólogo, auxilia o rei Jorge VI a superar a gagueira, conseguindo realizar um importante discurso pelo rádio e recuperando a confiança de seu povo e a soberania do trono à época da Segunda Guerra Mundial. Além das técnicas específicas da área da fonoaudiologia, Lionel soube entender a história de vida, pontos fortes e fracos do seu cliente, considerando-os em seu trabalho. Usando o contexto do filme como analogia e reforçando a afirmação da Áurea, Ângela acrescenta que para atuar na área de media training não se recomenda apenas o conhecimento sobre as técnicas a serem empregadas, pois a seleção e o uso das técnicas precisam, antes, de uma mente sensível e de um olhar crítico sobre a situação. “É importante que o profissional tenha conhecimento sobre planejamento estratégico de comunicação, o que pressupõe saber como construir, expressar e manter a identidade e a reputação da organização, da marca e/ou do produto representado pelo porta voz”. O corpo fala muito mais do que se imagina, o movimento dos olhos divulgam informações que podem estar guardadas a sete chaves e a vestimenta também é uma forma de se comunicar. “É importante ficar

João Luiz Vieira, jornalista. da empresa”. Após saber do curso, a notícia bombástica foi dada aos funcionários. “Apenas durante o treinamento fomos avisados de que a empresa estava prestes a fechar por falta de comunicação entre os funcionários e entre a população”. Simon conta que durante o treinamento, aprendeu como manter a qualidade na comunicação interna e em como se deve portar frente às câmeras. “Isso me possibilitou a ter uma capacidade melhor com a imprensa e com os meios de comunicação, além de abordar técnicas e construir mensagens para serem

Simplificando.... Através do treinamento, tanto o profissional autônomo quanto aquele vinculado a uma empresa, recebe orientações sobre como aproveitar as oportunidades de divulgar suas mensagens em um espaço midiático considerado espontâneo, pois são espaços jornalísticos que existem na imprensa conforme a confiança, audiência e credibilidade depositada pela sociedade.

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passadas ao público, que é a melhor maneira que uma empresa pode se comunicar com a população”. Apesar de não ter tomado conhecimento sobre o tema antes de entrar na empresa, Simon considera a experiência de grande valor. “Com o treinamento, obtive uma melhora significativa em minha vida, não somente profissional, mas pessoal. Aprendi que em tudo o que vamos praticar devemos saber como nos portar e o que dizer dentro dos parâmetros desejados por determinada instituição.” Dito isso, é perceptível que o segmento tem potencial para crescer, assim como vem acontecendo nos últimos dez anos. “Todo mundo tem uma concorrência, em qualquer mercado. Quem se expõe publicamente tem que fazer isso da melhor forma possível e se preparar para isso. Você precisa se expor. Qual a melhor maneira de se expor? Tem gente que não sabe, ela precisa aprender as ferramentas. Nas redes sociais há uma grande quantidade de gente questionando e, além de saber falar, tem que organizar o tempo para isso”, ensina Vieira. Antes de qualquer treinamento, ele elege duas coisas como chave no relacionamento entre o representante da empresa e o questionador. “Respeitar o jornalista que está na sua frente independente de onde trabalha, seja num jornal do interior ou um grande jornal. Do outro lado, toda história merece ser bem contada, nos mínimos detalhes e com atenção, seja sobre alguém de grande

O mercado

O cotidiano do Media Training

Entre 2010 e 2012, houve um crescimento de 12% no mercado de media training no Brasil

2010

2012

33%

45%

Equilibrio

Um dos principais fatores dentro do media training é o equilibrio emocional. Ter calma e relaxar é essencial na rotina desses profissionais.

Disposição Em qualquer apresentação pública, é fundamental estar bem alimentado e preparado tanto fisicamente quanto mentalmente para o trabalho.

Atualmente, o media training está consolidado e é um dos serviços mais importantes na composição

! IMPORTANTE

das atividades de assessoria de comunicação. No Brasil, esta capacitação é realizada tanto por empresas de assessoria de comunicação quanto por jornalistas que atuam no mercado (emissoras de TV e rádio) e promovem treinamentos na área.

expressão na mídia ou não. Estudar quem é a pessoa, de que maneira ela é influente e o que ela pode proporcionar são coisas fundamentais”. “O mercado de media training vem se consolidando no Brasil na medida em que, cada vez mais, empresas e profissionais de diversas áreas buscam esse tipo de serviço, a fim de aperfeiçoarem a marca de sua presença e participação nos diferentes contextos comunicativos, fazendo do aparato tecnológico ao seu dispor uma plataforma de conquista e projeção de imagem positiva”, completa Ângela.

Como aprender Além das salas de aulas e palestras, há outras formas de aprimorar a relação entre o entrevistado e o questionador. Áurea dá as dicas para os jovens profissionais que desejam visualizar os benefícios

do treinamento de mídia. “Sugiro alguns filmes como materiais complementares. Em As Loucuras de Dick & Jane, o autor mostra as aventuras de um casal que, cheio de dívidas, resolve aplicar pequenos golpes para manter o antigo padrão de vida. Na condição de executivo, Dick, interpretado por Jim Carrey, é entrevistado numa emissora de TV e por estar despreparado perde a promoção e é demitido”. Outra sugestão é Frost/Nixon. “O filme de 2008 dramatiza as entrevistas televisionadas em 1977 do então presidente dos Estados Unidos Richard Nixon ao jornalista britânico David Frost. O filme é uma aula de edia training”, conclui. O site da palestrante, www. treinamentodemidia.com.br, é o único no Brasil a disponibilizar conteúdo dirigido ao Media Training, com artigos, vídeos, áudios e notícias referentes ao tema e aos serviços prestados.


COMUNICAÇÃO: O TEMPERO QUE A POLÍTICA PRECISA

Estado ou então matérias positivas sobre a gestão do atual prefeito. Priorizamos projetos de reelevância, como o trânsito de São Paulo, saúde pública, dentre outros. Essas discussões contemplam muito daquilo que a gente vê com relação ao interesse público. É pauta.

A falta de interesse da população dificulta a divulgação dos canais legislativo, executivo e judiciário por Juliana Costa Política não se discute. Mesmo com essa descriminação, é um tema que impacta na vida cotidiana, inclusive, na comunicação. Com cobertura pelo canal 185 da Vivo TV e 7 da NET, além da transmissão online, a TV Câmara foi criada em 20 de janeiro de 1998, com a missão de ser um canal de discussões, votações do Plenário e das Comissões, dando maior transparência às decisões tomadas na Câmara Municipal de São Paulo. E neste contexto, a convite de uma amiga, Wagner Belmonte, de quarenta e quatro anos se enveredou. Jornalista há vinte e sete anos, é o atual editor-chefe da TV Câmara. Apaixonado pelo segmento, que contradiz a ideia de que política não é interessante. Diante de toda a sua experiência, como surgiu a proposta para trabalhar como editor-chefe da TV Câmara?

Por se tratar de um canal voltado à política, as escolhas das pautas dos programas são feitas de que maneira?

No final do ano de 2012, a Adriana Natali, esposa de um vereador do PT (Partido dos Trabalhadores), me ligou dizendo que queria me tirar do Band News, pedindo para que eu assumisse a TV Câmara. Eu estava interessado em sair do grupo Bandeirantes. A rotina era muito cansativa. Aceitei o convite. Fui para a TV Câmara como editor-chefe que na prática, no ponto de vista de cargo, é diretor adjunto. Mas eu não dou a menor importância. Meu negócio é fechar o jornal.

A gente tem uma cobertura honesta de cidades. Temos um problema, que é o seguinte: não existe no Brasil uma cultura de televisão pública. Exemplo: TV Cultura. Ela é muito mais vista como cabide de emprego. Com a TV Câmara é a mesma coisa. Pior ainda: a gente transmite sessão plenária, que é muito chato. Cumprimos com uma missão social que é parte de uma programação nesse sentido. As pautas envolvem como prerrogativa principal: uma deter-

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minada iniciativa de dialogar com o interesse público. A pior coisa que pode ter é uma partidarização de assuntos nesse sentido. A diretriz mais clara que temos é: façamos um bom jornalismo, o mais honesto possível. Nos programas segmentados, pelo fato de ser uma emissora de cunho político, há influência na seleção do que será veiculado? Não existe partidarização nesse sentido. Não tem como diretriz, em nenhum dos cargos. Não há perseguição política, em produzir matérias negativas sobre o Governo do

JULIANA COSTA

INTERNET

Qual é a abrangência da TV Câmara? Só cidade de São Paulo. Claro que há exceções, como por exemplo: noticiamos um acidente de trem na Linha 7-Rubi da CPTM. A TV Câmara transmitiu por ser uma questão que envolve o ir e vir pra São Paulo. Porém, também não posso competir com outras emissoras. Não temos estrutura para isso, não vou entrar nessa disputa. Como é sua rotina como editorchefe da TV Câmara e a da redação? Eu sou chefe de redação, apresento o Jornal da Câmara 1ª Edição e também um programa chamado Clipping Eletrônico. Um debate sobre assuntos da cidade de São Paulo. Em síntese, chego às 11h30. Saio de lá às 18h, 18h30, e fecho a primeira edição. Ou seja, tem um editor que está trabalhando desde às 6h. Eu deixo as diretrizes para ele tocar. A partir daí é produzida a prévia do jornal. Eu chego para fazer

o fechamento, meio que para lapidar e colocá-lo no ar. Ao seu ver, como é trabalhar em uma emissora pública e política? Desafiador. É pior porque você rotula o cara de antemão de funcionário público no pior sentido. Vagabundo, marajá, trabalho de segunda-feira, jornalismo chapa branca, jornalismo vendido, jornalismo promocional, dentre outros termos pejorativos. Como são vistos hoje os canais públicos como a TV Câmara, TV Senado, TV Justiça, dentre outras? De forma muito ruim. Eu acho que contribuir para essa parte é algo muito importante. A TV pública no Brasil deveria ser motivo de orgulho mas ela é motivo de piada. A seu ver, os profissionais que atuam nessa área sofrem maior pressão do que os que atuam em outros segmentos? De que forma? Eu acho que o desafio nesse sentido é tentar fazer com que política não seja um assunto chato. É um desafio tentar mostrar para o cara o seguinte: política não é um assunto chato, feito por pessoas chatas. É um assunto que tangencia a nossa vida todos os dias.

Como você enxerga a relação entre comunicação e política? São elementos que se completam? Na verdade, eu acho que a comunicação tem um papel muito importante em relação à política: tematizar e saber tornar atraente um tema que não é atraente. A comunicação deve ser vista como fórum para um debate sobre questões que tangenciam a vida da população, seu dia a dia. Tem alguma dica para quem deseja seguir o segmento político? Não olhar para o mundo com uma relação de preservar gregos e perseguir troianos. Esse é o erro que muitas revistas cometem. Para nós que somos jornalistas, o desafio é tentar manter o equilíbrio e tentar exercer a profissão sem pender para um dos lados. Então, eu acho que a gente não deveria olhar para a comunicação por um prisma da isenção ou objetividade, mas pelo prisma da subjetividade. Ou seja, nós somos subjetivos e dentro desse meio, dessa nossa subjeitividade, como é que a gente pode tentar trabalhar uma fórmula, entre aspas, que assegure mais precisão o que a gente faz.

Wagner Belmonte iniciou sua carreira na Rádio Jovem Pan quando tinha dezessete anos, na rádio-escuta. Passou pela assessoria do Carrefour, fez coberturas de economia pelo O Estado de S. Paulo e atuou no grupo Bandeirantes por vários anos. Também esteve presente nas áreas da internet e impresso, na produção de conteúdo para sites e revistas como Ponte Aérea, Manager Online, N Time. Fez mestrado em Comunicação, na Faculdade Cásper Líbero, graduação e especialização em Planejamento Estratégico em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo. Hoje, é doutorando em Comunicação e Semiótica na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).


Subindo de Nível

Três homens entram no banco. Encapuzados, eles anunciam o assalto. As pessoas entram em desespero quando um deles aponta uma submetralhadora e manda todos para dentro de uma sala, como reféns. Os outros dois colocam uma bomba no cofre, e a detonam. Enchem as bolsas de dinheiro e saem pela porta dos fundos. O único problema é que a polícia, respondendo a um chamado, começa a trocar tiros com os assaltantes. Vários policiais são feridos ou mortos, enquanto os três homens entram em um SUV e saem em disparada pela estrada coberta de neve. Como eu sei de tudo isso? Sei porque estava lá. E não era como jornalista. Eu era um dos assaltantes.

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Mas calma: esta é apenas a abertura do jogo Grand Theft Auto V, o game da empresa americana, que custou 200 milhões de dólares e bateu vários recordes de vendas na história do entretenimento, arrecadando um bilhão de dólares em apenas três dias, de acordo com o Guinness Book. E um dos maiores mercados, apresentando grande crescimento nessa área, é o Brasil. Segundo dados da consultoria Gfk, no período entre janeiro de 2011 e o mesmo mês em 2012, as vendas de games aumentaram 149%. Ainda mais, as vendas de consoles, como o Xbox 360 e o PlayStation 3, aumentaram em 100% desde o começo da sua produção em fábricas nacionais. O mercado brasileiro já está tão POR consolidado na área que as vendas já são maiores do RENAN DAMASCENO, MICHELLE ARRUDA, que em países de primeiro GUILHERME LOPES, mundo, como Alemanha, PAULO FERREIRA, Inglaterra e Espanha. VINICIUS FELIPE, ANNA MELO.


Grandes empresas aumentam investimentos no país

C

om um crescimento estável já a algum tempo, várias empresas resolveram injetar mais investimentos no m e r c a d o brasileiro de games. Uma das grandes surpresas foi a chegada de uma fábrica da Microsoft na Zona Franca de Manaus, em setembro de 2011. Com a produção em solo nacional, os preços do console caíram e passaram a custar apenas 800 reais. Em maio de 2012, foi a vez da Sony trazer a fabricação do seu console, o PlayStation 3, para ser produzido no Brasil, sendo vendido por 1100 reais. Já na área de produção de games, grandes produtoras começaram a localizar seus jogos para o Brasil. A localização é o trabalho de legendagem e dublagem de um jogo. Porém, ao contrário de uma tradução normal para um filme, por exemplo, a localização adapta a linguagem para uma mais aproximada à cultura do país que é alvo deste trabalho.

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São trocados ditados, gírias e muitas outras facetas da linguagem, para que o jogador se identifique mais com o game. Os maiores exemplos são a francesa Ubisoft, a japonesa CAPCOM e até mesmo a própria Sony, que trouxe todos os lançamentos deste ano dublados, inclusive os sucessos The Last of Us e Beyond: Two Souls.

mais bonita e inovadora. No entanto, o que não agrada os jogadores brasileiros é o preço dos aparelhos: o console da empresa americana vai ao varejo pelo preço de 2,3 mil reais, enquanto a fabricante de eletrônicos japonesa pretende comercializar seu console com custo de 4 mil

Grand Turismo 6 trará conteúdo exclusivo do piloto Ayrton Senna

Altas expectativas, preços mais altos ainda No final do mês de novembro, serão lançados os dois mais novos consoles da chamada oitava geração de games. Os principais concorrentes da geração passada trazem o Xbox One (Microsoft) e o PlayStation 4 (ou PS4, da Sony), com novas tecnologias de processamento gráfico e captura de movimentos, permitindo uma jogabilidade

reais. A situação, porém, não é muito diferente da época do lançamento de seus antecessores. Isso porque, em 2006, o Xbox 360 era vendido por 2 mil reais no país, mesmo chegando com um ano de atraso em relação ao lançamento oficial nos Estados Unidos. Neste mesmo ano, o PlayStation 3 foi lançado no Japão. Sem previsão de lançamento, era vendido de forma não oficial aos varejistas pelo dobro do preço do PS4, 8 mil reais.


CRÔNICA os heróis que merecemos

P

arecem todos iguais, têm os mesmos objetivos e às vezes os mesmos poderes. Mas cada herói leva uma característica peculiar, fazendo dele único. A proposta pode ser repetida: salvar sua princesa, não deixar a terra ser dominada por um ser maligno, ou não, só querem matar tudo por vingança mesmo.

Uns levam espadas, escudos, armaduras. Outros descobrem seus poderes pelo caminho. Outros levam apenas sua coragem e força. Levam também um amigo que auxilia sua busca, às vezes não ajuda muito, nem sempre é amigo, mas está lá para dar suporte. Seja como for, em sua jornada eles precisam procurar por moedas, diamantes, mana e kits de primeiros socorros para sobreviver e enfrentar monstros terríveis, explorar florestas escuras, passar por lugares que até Zeus duvida.

É sempre assim, já virou rotina. Entrar na floresta mais temida do reino, depois enfrentar as criaturas que lá habitam. Sair de lá e pular de um penhasco. Atravessar montanhas e dar de cara com dragões ferozes. Acabar com o Boss em apenas dois golpes. Cair de 30 metros de altura, não se machucar nem um pouco e levantar como se não tivesse acontecido nada. Correr na velocidade do som, bater e não sentir nada. Enfim, isso tudo é muito fácil, não há medo, não há nada que os faça parar.

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Eu gostaria que eles realmente existissem. Não seria fantástico? Já imaginou eles salvando cidades, países, o mundo? E se fosse aqui no Brasil? Super-Heróis lutando contra o crime organizado, contra bandidos na rua, contra políticos corruptos. Eu já até imagino como seria um jogo como esse no Brasil. No começo, apenas um caminho cheio de perigos e pessoas para serem ajudadas. Mais para frente, quando adquiridos mais poderes, teria o combate contra crime organizado. E por último, o Chefão, lá em Brasília, acabando com os políticos corruptos. Seria incrível ver, não só o Brasil, mas muitos países com uma ajuda dessa. Sei que devo aprimorar essa ideia, porque já existem enredos assim, mas gostaria de ter um jogo desses. Alguma produtora se habilita em fazer?

PS4K

Por 4 mil reais, o preço do PlayStation 4 virou piada na internet, e muita gente divagou sobre o que poderia comprar com esse dinheiro. Veja as melhores: -Curso de paraquedismo: com 10 aulas teóricas, um salto com o instrutor e mais 8 saltos livres. -Viajar para os Estados Unidos, comprar um PS4 lá e trazê-lo de volta. E ainda sobra o dinheiro para um milk-shake de 10 dólares. -133 pizzas da melhor pizzaria da cidade. Você só ia precisar comprar as bebidas à parte. -Duas televisões de LCD 3D de 42 polegadas, e sobra dinheiro para comprar um filme em Blu-Ray -O seu concorrente, o Xbox One, e ainda um notebook com uma configuração de ponta. -Um Chevette ano 78, dono único. E ainda sobra 500 reais para comprar os bancos de couro.


CRÔNICA

ONCET

Fobia Player: Vinicius Buzetti_

Dois moleques gritavam a frase de joelhos em frente a uma vitrine onde se encontravam os jogos de videogame. O local: uma livraria. Para aquelas crianças, a cruz era um vídeo game. Alguma coisa vai mal no mundo, certeza. É incrível como hoje a tecnologia faz parte de nossas vidas, principalmente dos pequenos. Lembro-me que, não muito tempo atrás, era impossível andar pelas ruas do meu bairro sem se deparar com um grupo de moleques jogando bola, com traves improvisadas com chinelos, ou empinando pipa com as mãos cortadas de cerol. Não vejo mais isso nem em tempos de férias. As crianças estão se tornado cada vez mais dependentes da tecnologia até mesmo para brincar. Tenho muito medo do que essa automatização do “se divertir” pode causar no futuro. Os garotos do início levaram uma bela bronca da mãe... Por outro lado, nunca antes os jovens foram tão nostálgicos. Nas redes sociais é comum encontrar comentários do tipo “no meu tempo as coisas eram melhores”, ou “essa molecada de hoje em dia, que toma leite de pêra com ovomaltine, não sabe o que é bom de verdade”. São pessoas que, na sua maioria, têm entre 20 e 30 anos. Jovens velhos chatos, que falam de um vídeogame antigo como meu avô fala da Segunda Guerra Mundial. “No meu tempo só existiam 150 Pokemons e a gente não tinha detonado na internet pra vencer os jogos”. É como se já estivessem tão desiludidos com a vida, que agem como um senhor de 85 anos prestes a morrer. O passado foi sempre melhor, mesmo que tenha sido há 5 minutos. Os avanços tecnológicos estão cada vez mais rápidos. Seu Iphone 4 já está obsoleto,

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meu caro, mesmo com cinco prestações pra pagar. Citando o mestre Zygmunt Bauman: “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. Nada mesmo, nem nossos aparelhos, nem o que achamos certo e errado, nem nossas certezas e nossa fé. Nosso mundo está tão automatizado que até o Papa usa o Twitter. Um belo de avanço para o líder de uma entidade que sobrevive de tradições. Ou seria um retrocesso? A principal mudança no mundo foi a comunicação. Ou, pelo menos, a tentativa de uma. Hoje em dia, até uma simples conversa é mecanizada. Quantas vezes você não viu alguém tão absurdamente concentrado na tela de um smartphone que nem prestava atenção na pessoa ao seu lado? Isso quando esse mesmo ser não está mandando mensagem para a pessoa que está na sua frente! O mundo está muito rápido, a merda está acontecendo mais rápido ainda. Só espero que aqueles que lutam contra tudo isso tenham culhões para lidar com essas mudanças, porque está difícil. Agora, você, meu irmão, minha irmã que está passando por dificuldades nessa vida miserável repletas de gays, negros e de coisas do capeta, não devem mais ficar acanhados! A Igreja Global do Nosso Senhor X-box está aqui para ajudá-los nessa difícil jornada. Você poderá adorar e glorificar sua raiva matando criaturas por meio de nossos seminários online, com o pastor Call of Duty e o seminarista Battlefield. Tragam suas crianças, elas são o principal alvo da salvação. É pra glorificar sentado com os olhos na tela, meus irmãos! Mas se alguém falar de PS3, ai é coisa do demônio. Amém. “Todos Saúdam o Deus X-box”.

FOTO: ISABELA SANTOS

“Todos saúdam o Deus X-box”.

sob análise Na batalha por sua independência, o jornalismo musical vem buscando cada dia mais espaço na mídia. Nessa matéria você vai conhecer a rotina, opiniões e informações de um crítico, um jornalista e um locutor, que juntos, têm a mesma paixão: a música.

POR ISABELA SANTOS, ALINE CASTRO, LUCAS GONÇALVES, NATALIA FRANCISCA


rias coisas que eu não tinha ideia, um feeling de olhar o mundo de outra maneira que me interessou bastante”, explica o jornalista. Além do gosto musical que traz em suas veias desde pequeno, de maneira geral, o jornalista aprecia a cultura como um todo. Seus companheiros na sala de estar são os livros, revistas, LPs (Long

Uma viagem musical

Plays) e fotografias. Se diz apaixonado pelo que faz, e o jornalismo cultural é o segmento no qual mais tem domínio. Atualmente, não se conhece nenhuma civilização ou agrupamento que não possua manifestações musicais próprias e para Costa a música tem que ser assim, sem fronteiras e sem preconcei-

lad eira a noite inteira...

FOTO: ALEXANDRE MOREIRIA

do Rio de Janeiro), e idealizador do portal de música popular brasileira, Ziriguidum, no Brasil, o jornalista musical não tem tanto espaço na mídia. “A grande mídia está mais preocupada com celebridades. É mais importante saber Para Feitosa, a mídia nacional se preocupa com quem fumais com celebridades do que com a arte. lano namora do que de onde ele foi buscar espaço, não interessa. Pode influências para seu traba- ver que mesmo quando um arlho. A música que faz suces- tista vai divulgar seu trabalho so hoje em dia é uma piada, em um jornal, a maioria das e normalmente uma piada manchetes vai pelo lado pesque acaba rápido. E passa soal. É triste isso especialmenpara outra. A arte verdadei- te em um país que tem uma ra, a evolução música tão rica quanto o Brada música está sil”, argumenta. bem longe do Ainda vejo o mundo co grande públiNa rede co”, comenta. Mas a vida cobra sério Feitosa diz aine da que pelo fato Mas a internet chegou para dos grandes mudar isso. Com o surgimento veículos jorna- de blogs, portais de diferentes lísticos estarem segmentos, o mundo virtual mais preocupados pode ser a “salvação” dos com a venda ou a audi- jornalistas do meio musical. ência, o que é música de ver- Tanto Costa quanto Feitosa dade acaba ficando para trás. acreditam que a internet é um “A música quase nunca tem ótimo meio para a divulgação

olhos de criança...

Marcelo Costa é jornalista e crítico. Sem preconceitos, escuta todos os estilos musicais

tos. “Recentemente escrevemos sobre a Anitta no site e alguém falou assim: ‘Poxa, mas onde já se viu vocês falando de Anitta’. Música é música. A única diferenciação que existe é música boa e música ruim. A crítica que fizemos da Anitta, por exemplo, foi para você identificar o fenômeno, independente se a música é boa ou é ruim. O que ela representa? Por que as pessoas estão comprando o disco dela? Por que a música fez sucesso? Isso é o que mais interessa, porque é 2013, o momento em que muita gente fala que a indústria musical está falida, que não se vende discos, que não se vai a shows, que não existem mais artistas, e de repente uma menina vem e vende não sei quantos milhões de cópias, a gente quer entender isso, por que as pessoas estão indo comprar?”, explica Costa.Para Beto Feitosa, formado em jornalismo pela PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica

“Música é música. A única diferenciação que existe é música boa e música ruim.”

m

ns!

t child o’ mine Oh, oh, oh swee ine sweet love of m Oh, oh, oh, oh

fugir pra lmente rea não da

ão Paulo, 13h da tarde, entre buzinas e motoristas irritados, destaca-se um prédio cinza, escondido entre árvores, nessa selva de pedras. Há certa expectativa no que poderia encontrar no apartamento localizado no 7º andar daquele prédio. Ao entrar, nota-se quatro estantes com inúmeros discos de artistas do mundo inteiro. Uma música ambiente nos dá boas vindas enquanto somos convidados a conhecer a rotina e experiências de um jornalista apaixonado por música. Marcelo Costa, formado em publicidade e propaganda, pela Universidade de Taubaté, pode ser considerado jornalista nato. Nunca exerceu a profissão de formação, pois sua paixão sempre foi a escrita, o jornalismo. Idealizador do portal de cultura pop Scream&yell, há 13 anos no ar, escreve também para Rolling Stone e seu blog Calmantes com Champagne. Teatro e cinema também lhe interessam. “Na verdade, eu nasci jornalista. Eu não fiz jornalismo por motivo de horário, então me formei em publicidade. O que foi sensacional. Foi espetacular fazer publicidade, abriu meus olhos para vá-

jove

Fechando e abrindo a

ge

S

se escondeu. Somo s tão ndido é o que O que foi esco m prometeu. ué ng ometido, ni E o que foi pr Nem foi tempo perdido...

Ao longo dos anos, a música se destaca em diversas revistas brasileiras. Confira as principais do segmento. De 1943 à 1945

Revista Brasileira de Música

De 1980 até hoje

De 1990 até hoje

Rock Brigade

De 1994 até hoje

Dynamite

De 1996 até hoje

Backstage

Guitar Player

De 1997 até hoje

De 2006 até hoje

Roadie Crew

De 2009 até hoje

Rolling Stone

Billboard


Hey, Jude... D on ’t

Ah, o rádio... Quantas vezes em um momento de solidão aquela voz desconhecida nos salvou, em quantas vezes de puro ócio que aquela música nos distraiu em filas de bancos, supermercados e trânsito. O rádio sempre ali, do nosso lado. E havia rumores que esse grande meio de comunicação estaria com os dias contados com a chegada de um meio mais interessante como a televisão. Mas que nada!

FOTO: LUCAS GOLÇALVES

“O tal do jabá realmente existe, embora as pessoas neguem muito”

No celular, rádio, carro e obrigatoriamente no trabalho, o que Gomes escuta é o bom e velho Rock and Roll

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Assim como os seres humanos se adaptam ao ambiente, esses meios também seguem o mesmo caminho. Hoje, o rádio é digital, com informações valiosas às músicas e artistas que estão na programação. E o tempo, o tempo passa tão depressa que Alexandre Gomes, jornalista formado pela Universidade Cruzeiro do Sul, revela, de forma bem humorada, estar há 16 anos a frente de um microfone em uma rádio, segundo o próprio. Isso o faz lembrar o quanto está velho e como o tempo já passou. Aliás, uma não. O jornalista e locutor já trabalhou em tantas rádios que até perdeu as contas. Em São Paulo, já esteve no comando da Metropolitana FM, Rádio Mix, Jovem Pan, Nativa, entre tantas outras, do interior ao litoral do Estado. Hoje está na Kiss Fm, uma rádio que só toca clássicos do Rock. Gomes nos contou como é trabalhar no mercado musical e que não sentiu nenhuma dificuldade em estar à frente de tantas rádios com públicos e estilos musicais tão diversos, pois quem faz o que gosta, é bem sucedido em qualquer atividade. “A Kiss trabalha com clássicos. A Metropolitana só toca novidade, as músicas novas, que têm uma periodicidade muita rápida. Ela faz sucesso, no máximo de 90 dias. Depois disso já foi, ela toca maciçamente, até cansar”, diz. O jabá é apenas fruto da imaginação? Alguns artistas fingem que não, dizem que é pura invenção da cabeça fértil de alguém. “O tal

Te amo pra sempre, te amo demais

FOTO: ALEXANDRE GOMES

Nas ondas do jornalismo musical

Até daqui a pouco, até nunca mais

de novos artistas, dos mais antigos e também onde tem mais espaço para jornalistas que querem ganhar experiência no segmento de jornalismo musical. “Hoje, a internet é um espaço democrático e tem vários blogs e sites que preenchem essa lacuna deixada pelos veículos. Você procura ler quem tem mais ou menos o seu gosto. E isso é interessante, há uma troca muito saudável. Eu recebo vários e-mails de leitores me indicando artistas, às vezes até uma pessoa do interior que descobre um disco, compra e faz questão de te mandar. Hoje em dia o trabalho é meio que uma curadoria”, conclui Feitosa.

Há 12 anos, o estúdio da Kiss FM é movido pelo Rock

do jabá realmente existe, embora as pessoas neguem muito, ele vem escrito aqui na tela como ‘compromisso’, em uma tarja vermelha. Por exemplo, pode ser uma música dos Titãs e eu sei que eu tenho que tocar”, confirma Gomes. O locutor ainda explica que se estourar seu tempo, tem que sair para o break porque está em rede ao vivo para Brasília, Rio de Janeiro, litoral e Campinas. Para não esbarrar nos breaks de outras rádios. “Então se eu ver que não vai dar tempo, eu pulo uma música da programação e coloco Titãs porque é o compromisso da minha hora, obrigatoriamente”, revela Gomes.” O jornalista ainda nos informa que existe uma regra em rádio: é necessário tocar uma atualidade, um Midback, um Flashback e uma nacional, nessa ordem. Por trabalhar em uma rádio

que só toca o que deu musicalmente certo, Gomes foi questionado sobre a qualidade das músicas nos dias atuais e respondeu que a música de antes era muito melhor se comparada com a de hoje. Além disso, acha que o grande X da questão é essa tal de liberdade, a qual não sabemos aproveitar. “Não vou dizer a juventude, mas a população em geral, está muito naquela coisa desencanada. As coisas rolam muito mais livres, acho que perdeu um pouco da noção do que se faz com a liberdade. Quando você tem liberdade e não sabe o que fazer com ela, acabam nessas músicas do funk, que é permitido tocar qualquer coisinha. Garotinha rebolando na rua, um monte de palavrão. As músicas de antes que falavam da ditadura tinham uma letra construída, os artistas pensavam em uma maneira de burlar a censura. Hoje não”, reclama Gomes.

Muito do que toca, é ao gosto do ouvinte. O jornalista relata a dificuldade que é colocar uma música nacional de qualidade. “Hoje se você tocar música nacional, vão falar assim ‘ai que melação’, mas antes ela possuía muito mais melodia, era muito mais bem construída”, afirma. Gomes, em seus 16 anos de carreira, já entrevistou diversos nomes da música popular brasileira, entre eles, Zezé di Camargo e Luciano, Gian e Giovani e uma estrela internacional, a cantora e atriz Juliette Lewis, e conta que é confundido como empresário do meio musical, pois diversas bandas ainda mandam seus materiais para as rádios. Alexandre Gomes é uma dessas poucas pessoas que realmente trabalha naquilo que ama, como o mesmo disse, “juntou a fome com a vontade de comer”. Trabalha em uma rádio rock e sua paixão musical está nesse segmento. “Rock mesmo, no meu celular, no meu carro, rock and roll eu gosto, é a minha paixão”, conclui Gomes. Se depender dos comunicólogos que atuam nessa área, o espaço que o jornalismo musical busca alcançar logo será atingido, e deixará assim sua marca no segmento cultural.

in ugh aga alk ng eno w o in? t lo beg ited ning oI d ear ’ve wa l ere I‘m ve I Wh

bad. Take a sad song and make it better e it ak m

Standing in line to see the show tonight and there’s a light on... Heavy glow

By the way I tried to say “I’ll be there, waiting for...”


a d a r t s e a N AIS OS DESCUBRA ONDE COMEÇA E QU CORRE CAMINHOS QUE O JORNALISTA PER EM BUSCA DA MATÉRIA DA OVAS - FERNAN CRISTIAN DR TO IE TO PR RA Z - BEATRI CA HONO RA - VERÔNI ALLYNE PIRES RENATA VIEI CHIARATO -

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FELIPE MOTTA - THIAGO BATISTA


Mas, na prática, nem sempre acontece assim. À exceção de eventos extraordinários, a notícia para grandes veículos midiáticos começa com uma reunião de pauta. Nela, os editores e seus repórteres trocam informações e decidem por que, como, quando, onde e o que será abordado, sempre de acordo com sua periodicidade e interpretação do que é de “interesse público”. O cenário não muda muito quando a notícia acontece fora do país. Com a criação das agências de notícia e de meios mais rápidos para transferência de dados, os principais veículos de comunicação do mundo podem trocar qualquer tipo de informação sem a necessidade de deslocar repórte-

Rumo ao imprevisível A seleção masculina de basquete embarca para a Grécia em busca de uma vaga nas Olimpíadas de Pequim. Foi esta a pauta que deu um novo rumo à carreira da jornalista Amanda Romanelli.

mesmo em qualquer lugar do mundo: ser criterioso e ter olhar aguçado para identificar o que é ou não notícia. Porém, além de todas as dificuldades enfrentadas por um jornalista comum, este profissional se encontra em um

ARQUIVO PESSOAL

V

iagens, culturas estrangeiras, climas diferentes, fusos horários confusos, horas e horas sem dormir e visitas a lugares onde o inglês não adianta nem para pedir um café da manhã ou uma instrução de táxi. Por mais que a descrição soe como uma aventura de um jovem mochileiro pela Europa, ela faz parte da história de muitos jornalistas que correm o mundo para manter dois olhos atentos às notícias mais importantes do dia. Mas, antes de embarcarmos atrás das pautas e experiências, vale a pergunta: o que é notícia? Para o jornalismo, a notícia é definida como um texto informativo de interesse público que narre algum fato recente ocorrido no país ou no mundo. Dentro deste contexto, ela pode ser qualquer coisa, nascer em qualquer lugar, a qualquer momento. Por isso, é preciso definir claramente qual assunto será abordado, bem como o modo que será passado para a população e quais serão os entrevistados. Isso é o que no jornalismo chama-se pauta. De escândalos políticos a fraudes em tratamentos medicinais revolucionários, é tarefa do jornalista buscar a informação mais relevante para o seu público e passá-la com clareza, objetividade e veracidade.

res para locais extremamente distantes. O envio de um repórter ou relato de um correspondente internacional são quase sempre decisões editoriais, que pedem aprofundamento ou exclusividade para eventos esportivos, políticos, culturais etc. Definidos os responsáveis e a pauta pela cobertura, é hora de preparar as malas e planejar os melhores meios de conseguir a história.

Quando foi incumbida de cobrir a equipe de basquete no Pré-Olímpico de Athenas em 2008, a repórter da editoria de esporte do Estado de S. Paulo já imaginava que a tarefa seria árdua. “Não era a primeira vez que eu saía do Brasil (já havia viajado a turismo), mas era a primeira vez que ia ao exterior sozinha, e em uma viagem transatlântica. Pior: para cobrir um esporte que eu mal conhecia”, enfatiza Amanda. O trabalho do jornalista é o

tecer ao jornalista, como desconhecer a rota e horário de funcionamento do transporte público. Durante a cobertura da Liga Diamante, uma competição de atletismo, Amanda, acompanhada de um colega do Lance!, acabou perdida na madrugada pelas ruas de Mônaco. A jornalista precisou usar tudo o que sabia de francês para chegar ao ponto de ônibus que a levaria para Nice, onde pegaria um voo de volta à Londres. “O ônibus demorou muito tempo para passar e eu posso dizer que peguei um busão lotado em pleno principado de Mônaco! Fizemos a viagem até Nice (quase uma hora) em pé. Ou seja, glamour zero!”, desabafa.

Amanda na área da imprensa escrita (ao lado da pista), no Estádio Olímpico de Londres durante disputa do atletismo.

novo ambiente e com algumas dificuldades a mais pelo caminho. Dentre os principais problemas está na língua. O inglês, considerado um idioma mundial, é frequentemente colocado à prova. E pior: há casos de países onde a língua inglesa não é utilizada, o que agrava ainda mais a situação do jornalista. Problemas corriqueiros como a falta de acesso as informações locais também costumam acon-

Outro obstáculo vivido pelo profissional de comunicação em território estrangeiro está na adaptação à cultura local, principalmente quando se trata da alimentação. “Tenho muito medo de me arriscar a comer coisas diferentes e, talvez, passar mal. Por isso, fiquei três semanas no México e me mantive longe da comida local, bastante apimentada.

Fui uma das poucas repórteres no Pan de Guadalajara a não ter problemas estomacais”, afirma Amanda. Ninguém está imune a doenças, nem mesmo o jornalista. E se isso já é difícil para quem está em casa, imagine para aquele que está a milhares de quilômetros de um ambiente familiar. “Nos jogos de Londres, em 2012, durante a cobertura mais difícil de minha carreira, passei por uma crise de pedra nos rins. Fui a primeira paciente da Olimpíada de Londres. Transferida de ambulância para um hospital, tive que descrever, em inglês, tudo o que estava sentindo, sintomas, passar meus dados pessoais. Expeli a pedra, mas passei quase 12 horas internada, fazendo uma série de exames, e sendo assistida de perto pelos médicos do Comitê Olímpico Brasileiro e representantes do Comitê Olímpico Internacional”. Mesmo com os diversos obstáculos, o jornalista precisa concretizar o seu propósito: a construção da notícia. Na maioria dos casos, quando o editor opta por substituir o correspondente por um jornalista da redação, é porque o profissional detém maior bagagem sobre o tema. Considerado, então, como um especialista. Neste caso, as pautas são pré-definidas pela editoria em questão, “mas nada impede que as próprias experiências vividas como estrangeiro possam virar uma reportagem”, ressalta Amanda. Diante de tudo isso, eis a questão: Qualquer jorn a l i s t a p o d e s e r u m j ornalista mochileiro?


ARQUIVO PESSOAL

Amanda acredita que sim: “O jornalista, por missão e dever, depara-se com uma série de desafios em seu cotidiano. Mas a ressalva é que, para trabalhar fora do país, é preciso ter muito controle emocional. No caso de coberturas esportivas, as jornadas de trabalho se estendem por 16, 18 horas. O repórter vive sob intensa pressão. É preciso estar pronto para qualquer demanda, a qualquer hora”. Mas e quando a pauta não vem definida do gabinete?

Ideia na cabeça, notícia na mão O jornalismo é uma profissão naturalmente idealista. Mesmo com exigências editoriais, pautas fechadas e muitas coberturas sem nenhuma criatividade, alguns profissionais não se prendem ao “lugar comum” e buscam trilhas diferentes na jornada da informação. Corajosos, pegam suas bicicletas e correm o continente e o mundo em busca da notícia e da liber-

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tiva percorreu 12 destinos pelo mundo, como Copenhague, Amsterdam, Londres, Paris etc., para criar um banco de dados sobre possíveis melhorias no ambiente urbano. Através de reportagens e ilustrações o projeto focou-se no planejamento urbano e soluções clássicas existentes, além de levantar novas ideias e paradigmas das cidades do futuro.A equipe do “Cidade para Pessoas” também já foi responsável por exposições, palestras e consultoria urbana, baseado na pesquisa e coleta de dados. Mesmo essa busca pela notícia “livre” do jornalista mochileiro está sujeita a diversos problemas durante seu percurso. Um exemplo disso é o Projeto Rodas Livres que tinha como objetivo circular os cinco continentes em busca de notícias de conservação ambiental.

Aos 51 anos, Thenorio percorreu a América do Sul atrás de notícias de sustentabilidade.

dade de escrever. Na mídia tradicional, é possível citar o blog “As Aventuras com Falzoni”, projeto de Renata Falzoni, em parceria com ESPN/ Brasil. Nele, a jornalista que liderou diversas expedições de reconhecimento, como o Projeto Cone Sul, atua como vídeorrepórter focada em esportes radicais. Dentre suas especialidades estão o trekking, espeleologia, escaladas, mountain bike, entre outros. Fora desse cenário, ganham destaque projetos como o “Saia do Sistema” e o “Cidade para Pessoas”. O primeiro, com uma mistura de ciclo-viagem e jornalismo, percorre a América do Sul, desde agosto de 2012, em busca de personagens que representem algum tipo de mudança na sociedade. Já o “Cidade para Pessoas” tem uma origem diferente. Financiado por crowdfunding (financiamento coletivo) através do Catarse.me, a inicia-

Descobrindo limites Depois de passar por algumas tragédias familiares, o jornalista Elcio Thenorio criou o “Rodas Livres”. “Decidi fazer alguma coisa pelo prazer de viver. E decidi dar a volta ao mundo de bicicleta, pois adoro viajar. Saí pela estrada fazendo pequenas reportagens com um celular sobre tudo que tivesse algo a ver com sustentabilidade”, explica o jornalista. Com início dia 7 de março

de 2011. O jornalista comenta que não teve dificuldade em encontrar pautas interessantes, pois todos os habitantes comentavam sobre diferentes ações sustentáveis do local, da grande à pequena iniciativa comunitária. Uma das propostas que mais marcou para Thenorio foi realizado por uma empresa de ônibus urbano, em Guarapuava no Paraná, que adaptou o pátio para captar água da chuva, lavar os ônibus com ela e reciclá-la, após a lavagem. O objetivo original era sair de São Paulo e visitar cerca de 80 países, nos cinco continentes, durante cinco anos. Entretanto, não foi isso que aconteceu. Praticamente um ano após o início, no dia 22 de fevereiro de 2012, o projeto chegou ao fim em Gobernador Virasoro, Argentina. “Calculei muito errado”, lamenta o jornalista. “Pensei que ia pedalar uns 100 km por dia e que levaria cinco anos para dar a volta ao mundo. Quando cai na estrada, com essa história de fazer reportagem, ficava três dias no mesmo lugar. De cinco foi para quinze anos”. O ciclo-repórter fazia as postagens das matérias e do seu dia a dia no blog do projeto. Em “Meu último post” destaca -se: “Não é fácil abandonar

um projeto, mas com certeza não será o primeiro nem o último. Senti vergonha por não concluí-lo. Aliás, senti mais vergonha por estar tão absurdamente distante de concluí-lo, mas consolei-me com o pensamento de que tem mérito o fato de eu ter tentado realizar o sonho”. Outro motivo destacado para o encerramento do “Rodas Livres” foi a falta de patrocínio. “Consegui alguns, mas não o suficiente”, afirma Thenorio em seu blog. Até o dia 19 de fevereiro de 2012, quando chegou a Virasoro, Thenorio atravessou três países, pedalou 2.097 km, fez 188 posts e totalizou a produção de 50 matérias. Elcio termina a conversa com a equipe, na Casa das Rosas, contando mais do emocional de seu projeto. “Eram dois lados, o lado do jornalismo e o lado da loucura. Eu fui até onde deu pra mim. Descobri meus limites, mas foi uma aventura eu não nego. Se eu não tivesse

ido, acho que ia ficar o tempo todo achando que devia ter ido”. Seja para cobrir um evento, para descobrir um novo rumo na sua vida ou mesmo para mudar o mundo, toda viagem acarreta em um processo de mudança e conhecimento. É um salto de fé, coragem e capacidade que torna o jornalista mochileiro um aventureiro digno do chapéu de qualquer Indiana Jones.


Já no dia 09 de agosto de 2012, a Folha de S. Paulo retomou o assunto em um editorial online com o título “vício corporativista”, no qual estabelece a formação em jornalismo como “uma reserva de mercado” que retira a liberdade de informação e expressão. E depois estranham quando me impressiono com a quantidade de falácias nos admirando do horizonte brasileiro. A defesa da obrigatoriedade do diploma não nos coloca na posição de sofistas perante Sócrates e não segue lobby de qualquer universidade ou outros interesses velados. Ela existe como um exercício de democracia, para defender a habilitação de profissionais responsáveis por informações com qualidade, propriedade e ética. A simples sugestão que “(...) os danos causados pelo mau jornalismo nunca são tão graves, nem tão indiscutível a sua constatação” é, na melhor das hipóteses, uma visão equivocada e digna do teatro do absurdo cunhado por Esslin. Na pior, uma distorção psicótica. A história mais de uma vez demonstrou que o domínio do conhecimento e do discurso tem a capacidade de alterar tudo. Informação é carregar a responsabilidade da mudança de sua sociedade. É poder para destruir impérios, construir civilizações, girar balanças econômicas e estabelecer o próximo passo para o futuro. E, acima de tudo, é perigosa quando leva ao questionamento de um status quo.

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Por Cristian G. C. Drovas

DO ABSURD

Contudo, não deixa de ser interessante como a visão do jornal não corresponde integralmente ao pensamento de seus colaboradores. José Hamilton Ribeiro publicou um texto em tendências/debates com o título “Que jornalista é esse?” onde compara dois profissionais sindicalizados, um ex-carregador de caminhão que entrou no ramo através da fotografia e outro com 16 anos de estudo (quatro deles na universidade). E questiona: “qual jornalista é melhor para um país que um dia quer ser sério, desenvolvido”?

Ser ou não ser? Eis a questão que avassala com a mente de diversos jovens mundo afora. A profissão é uma das mais versáteis existentes no mercado de trabalho, o que atrai uma fila de pessoas impulsionadas pela mistura que o jornalismo proporciona.

A formação acadêmica molda o universitário para atuar em jornalismo e suas ramificações, e não a favor dos interesses de uma ou outra empresa. Ela não tem culpa por grandes nomes da mídia banalizarem sua atividade profissional como uma simples “(...) técnica de aprender e relatar fatos de interesse público”. Anacrônico é a restrição de projetos políticoeditoriais que limitam o texto e as fontes por interesses de mercado, ideológicos etc., enquanto mantém fachadas de imparcialidade. No alto de seus 93 anos de existência, a Folha de S. Paulo demonstra sinais de senilidade e seria responsável de sua parte consultar um médico, na persistência dos sintomas.

Mas escolher uma carreira é uma decisão que requer um aprofundamento. Para isso, muitos dedicam suas vidas a orientar e falar sobre o mundo das profissões. Inclusive o dos jornalistas.

ARTE - BIÉ

Talvez seja interessante recapitular a ordem dos acontecimentos: no dia 17 de junho de 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a exigência do diploma de curso de Comunicação Social com habilitação em jornalismo para a prática da profissão. Tal decisão gerou divisões e conflitos dentre os profissionais responsáveis pela área, que argumentaram a favor de uma proposta de emenda à Constituição pela obrigatoriedade do diploma.

JORNALISM O

ARTIGO

Por Cauana Moraes, Dafne Mazaia, Lilian Tormin, Karina Esteves, Jéssica Alves, Tayna Mendes


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A literatura como orientadora Desde que existem, os livros, enquanto obras de divulgação científica, por exemplo, servem como orientadores e guias, quando não é possível saber de outra forma. A professora de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), antropóloga e autora da do livro “O Mundo dos Jornalistas”, Isabel Travancas, discute em sua publicação, sobre a rotina e a profissão em si do jornalista. O livro foi lançado pela primeira vez em 1993 e apresenta ao leitor o funcionamento de uma redação, assim como, com a visão de antropóloga da escritora, monta um perfil a respeito do jornalista. Um macete para quem está confuso em seguir a profissão do personagem “TinTim”, desenho sobre um típico estereótipo de repórter, que está sempre envolvido em mistérios e investigações que lhe põe em altos riscos. Para Isabel, mesmo com a queda da obrigatoriedade do diploma de jornalismo e com um novo sistema imposto pela internet, capaz de tornar qualquer pessoa como divulgador

de uma notícia, o novo quadro não faz o jornalista deixar de ter estima pela carreira. “E o que se tem visto é que não diminuiu o interesse pela profissão por parte dos estudantes, que continuam prestando vestibular para comunicação e não acho que se desvalorizou”. Segundo ela, ainda há muito interesse pelos alunos quando ingressam na graduação. “Sou professora da Escola de Comunicação da UFRJ e vejo muitos alunos ‘encantados’

bem persiste no bom jornalista.”, reforça Isabel. Em relação à versatilidade que o jornalista precisa ter, como saber explicar e escrever sobre assuntos variados, o que o torna um profissional especialista em diferentes áreas, Isabel pontua que a segmentação tende a aumentar. “Claro que o ideal é que o jornalista possa se aprimorar na sua área de atuação, mas isso depende dele e também da empresa onde trabalha.”, salienta a antropóloga. A escri-

O anseio por aventuras é uma característica

com a profissão e extremamente envolvidos com seu trabalho. O ‘furo’ está cada vez mais difícil nos tempos atuais com internet e celulares. Mas o desejo de apurar e de informar

nata de um jornalista

tora, menciona que é comum entre os jornalistas o interesse na literatura, ou melhor, em ser igualmente um escritor. “Acho que um dos principais hobbys, se é que se pode chamar as-

sim, é a leitura e também a escritura. Muitos jornalistas sonham em escrever um livro, seja ele de ficção ou uma grande reportagem. Isto está muito presente”. Isabel destaca que a essência dessa profissão não foi alterada conforme os anos e com a influência da tecnologia. “Não acho que ser jornalista hoje em dia é muito difeIsabel Travancas, autora do livro “O mundo dos rente de duas, três jornalistas”. décadas atrás. Mudou a tecnologia, sem dú- pecificamente. A organização vida nenhuma. Mas o exercí- não-governamental surgiu cio da profissão que consiste em 1942 para atender a uma em apurar e redigir notícias comunidade que estava sob permanece o mesmo”, finaliza tensão diante do ambiente a escritora. de guerra vivido pelo mundo naquele período. Era preciFreud explica so guiar os jovens. Desde os Gostar de escrever é um dos anos de 1940 o local promomotivos pontuados pelos alu- ve cursos, palestras e atividanos do curso de jornalismo, des extracurriculares voltadas como prerrogativa pela esco- para o público jovem. lha da profissão. Mas optar Orientadora vocacional da por um determinado tipo de instituição, Maria Stella Leitrabalho exige mais do que te, alerta que é necessáconhecer suas caapenas uma aptidão ou gosto. rio Requer autoconhecimento. É racterísticas, para determinar o que dizem os especialistas. qual será o curso. “Escolher A instituição Colmeia é uma uma profissão sempre foi tareentre diversas outras entida- fa delicada, pois exige que o des dedicadas à orientação jovem faça uma boa reflexão profissional para jovens, es- sobre si mesmo e conheça

DIVULGAÇÂO

mais conhecida entre estas, a “Guia do Estudante”, da editora Abril, o que indica a proporção deste público alvo um tanto... Indeciso.

INTERNET

N

o “Globo Repórter”, programa veiculado às sextas-feiras na televisão, é de praxe ver um jornalista aventurar-se na selva amazônica, em busca da planta medicinal descoberta por algum grupo de biólogos. Em outros casos, como em documentários exibidos no Discovery Channel, o telespectador admira-se com a destreza do repórter, incumbido de passar dias convivendo com crianças com propensão a cometer atos de violência. Muitos escolhem o jornalismo como profissão pela amplitude de possibilidades que a função proporciona. Como jornalista, o indivíduo pode atuar em diversas áreas, sem deixar de ser um profissional das palavras. O que faz alguém, de fato, optar pelo jornalismo? Escolher uma atividade profissional nem sempre é fácil. Muitos, ao se depararem com a questão: “E agora, o que farei da minha vida?”, enfrentam dificuldades para selecionar uma carreira. Uma parcela crê na hipótese de que, ao optar por ser advogado, não poderá trocar de profissão ao longo do caminho, ou conciliar duas profissões. Não é difícil encontrar testes vocacionais pela internet, com a finalidade de esclarecer a área que a pessoa possui mais afinidade. Existem também diversas revistas que abrem seu espaço para matérias do tipo, como “Educar para Crescer”, “Revista Escola” e a


IN TERNET

Rafinha Bastos é graduado em Jornalismo, pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica). Ator, humorista e apresentador, marcou sua carreira nos programas da Rede Bandeirantes, onde foi apresentador e repórter no CQC (Custe o que custar) e A Liga!

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Laura Muller deu início no Jornalismo nos jornais Folha de São Paulo e Folha da Tarde. Na Revista Claudia foi editora nas colunas de sexo e comportamento, o que a fez pós graduar-se em Educação Sexual. Atualmente tem um quadro no programa “Altas Horas”.

ta não são atividades divergentes, mas complementares, isso é frequente. Há pessoas, contudo, que desenvolvem atividades diferentes sejam elas com caráter remunerado, ou uma delas, a título de hobby ou trabalho voluntário. Algumas pessoas têm um leque de interesses maior que outras”, argumenta. Pedro Bial, um jornalista e apresentador conhecido amplamente pelo público, fez uma música intitulada “Filtro Solar”, em que um de seus trechos cita que há ‘quarentões’ que até hoje não decidiram qual profissão seguir.

Muitos podem considerar este fato como peculiaridade de alguém desnorteado, porém, a psicóloga da instituição confessa que a seleção por uma profissão é algo mais complexo do que se imagina. “Poucas pessoas escolhem uma profissão aos 17 anos e se mantém nela durante toda a vida. Ao longo dos anos cada pessoa resgata interesses que foram deixados de lado no início da vida profissional de modo a construir uma carreira singular. Além disso, a vida oferece oportunidades ou situações que provocam mudanças”, salienta.

Há situações em que o próprio local de trabalho desmotiva o profissional a continuar na carreira. Para Maria Stella, as empresas devem repensar o modo como tratam seus funcionários e fomentarem atividades que apoiem psicologicamente o subordinado. “Dessa forma as empresas deixam de desperdiçar o treinamento e investimento feito junto a seus profissionais. Há várias formas de desenvolver a motivação dos profissionais, como apoio psicológico, palestras, cursos e, principalmente, projeto de carreira”, menciona.

Thalita Rebouças começou a cursar direito, mas no meio do curso o transferiu para jornalismo. Já trabalhou em vários veículos como o Lance!, Gazeta Mercantil e na TV Globo. Atualmente tem mais de um milhão de livros vendidos.

Fátima Bernardes estudou ballet desde criança, mas, na adolescência, decidiu fazer jornalismo para ser crítica de dança. Atuou no jornal O Globo, Jornal da Globo, Fantástico, Jornal Nacional no qual foi apresentadora e editora. Atualmente ela apresenta “Encontro com Fátima Bernardes”.

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atividades que lhe dão prazer, o jovem precisa considerar as possibilidades de rendimento econômico”, pondera. Entretanto, há pessoas que não se limitam a uma profissão em sua vida. A orientadora profissional também faz uma observação sobre estes indivíduos, que adotam uma vida repleta de atividades profissionais, como por exemplo, o jornalista Rafael Cortez, ex-integrante do programa CQC, da emissora Band, capaz de atuar como comediante em stand-ups e ao mesmo tempo permanecer ativo como jornalista. “Ator, músico e humoris-

INTERNET

malmente oferecem muitas possibilidades, o que deixa o jovem mais perdido ainda. Por outro lado, a pesquisa sobre as profissões através dos sites de guia de profissões é extremamente útil”, opina a psicóloga. Maria Stella admite que o lado financeiro deve ser considerado pelo jovem, mas acredita que a melhor opção deve ser sempre voltada para aquilo que fornece prazer à pessoa. “As profissões bem escolhidas devem considerar o interesse da pessoa, porque assim oferecerão prazer no seu dia a dia. Além de pensar nas

IN TERNET

bastante as opções de cursos e oportunidades de trabalho”. Ela ainda acrescenta que a diversidade de opções pode atrapalhar, ao invés de auxiliar. “Além disso, o mercado de trabalho sofre constantes alterações e há o complicador de serem muitas alternativas de cursos”, revela. Com as facilidades proporcionadas pela grande rede, vulgo internet, muitos se enveredam por sites em busca de respostas para suas indecisões profissionais e se deparam com os testes vocacionais. “Os testes pela internet mais atrapalham do que ajudam. Nor-


No ensino fundamental, você dirigia o jornal “Gazeta do Aristides”. Nessa fase, você já imaginava que seria um jornalista? Quando eu fui fazer o Gazeta do Aristides, queria ser o editor do jornal, porque vi uma matéria da Folhinha, em 1985, sobre crianças que tinham jornaizinhos na escola. Eu era um menino de um colégio estadual, sem estrutura nenhuma, era praticamente impossível fazer um jornalzinho naquela época. Mas eu queria ficar popular. Quando criança, você desenhava. Como foi essa experiência ? Depois de fazer o Gazeta investi paralelamente em desenho, achei que eu iria ser desenhista, até criei uma editora. fictícia e eu fiz uma turma com doze personagens. Na juventude fiquei em dúvida em

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ser violonista e seguir carreiras certinhas como jornalista, publicitário. Aí, uma hora eu decidi que iria ser violonista, até prestei vestibular de violão clássico na Unesp. Fui reprovado por conta do péssimo ensino que eu tive na infância. Fiquei muito desiludido e comecei a fazer teatro. Os anos 1990 foram marcados para mim, por essa crise vocacional de querer fazer faculdade e não saber qual o rumo certo, de investir em nove cursos diferentes, não passar, não fazer ou fazer um ano e parar. Por que Jornalismo? Eu queria um curso que se aproximasse da arte, sem ser artista. Eu pensei: “o jornalismo é isso”. Eu posso ser um jornalista que foca no jornalismo cultural, que estuda teatro, que faz análise teatral, musical... O leque de opções que o Jornalismo proporciona, foi um diferencial? Hoje é muito útil ter atuado em várias áreas porque eu me tornei um profissional diversificado. Eu posso falar um pouco de política porque trabalhei com política, posso falar de arte, porque fiz teatro e música. Eu sou um cara que tem facetas e isso é útil hoje. Quando eu era moleque não era assim, a transição que rolou dos anos 90 para os 2000 foi radical. A internet ditou as

regras do novo profissional e eu dei sorte. Como foi cursar jornalismo gostando de arte? Eu queria passar pela universidade. Não sabia muito ao certo o porquê, mas hoje eu sei. Isso constrói um caráter violento. Durante a graduação você pensava em seguir qual área do Jornalismo? Eu desafiei a faculdade, de cara eu estabeleci uma coisa: eu quero falar sobre cultura no jornalismo. Então todos os exercícios de todas as matérias, eu queria as pautas de cultura. Durante uma entrevista você declarou que não queria virar um “cara de redação”, por quê? Isso veio de uma aula inaugural do curso de jornalismo, em que o Sergio Groisman admitiu uma fraqueza dele e disse: “Desculpe, mas eu odeio acordar cedo. Logo, eu escolhi ser jornalista, trabalhar na TV, fazer um programa da madrugada”. Ele “norteou” a carreira dele para isso. Achei muito sábio. Direcionei minha vida no sentido de nunca mais ter uma rotina ou uma coisa que me aprisione.

Como você enxerga o jornalismo no cenário atual? O jornalista tem moral. Houve uma época que estavam desacreditando nessa moral, especialmente quando começaram a questionar a obrigatoriedade do diploma. Eu sou absolutamente contra o veto da obrigatoriedade. Recomendo a faculdade para qualquer pessoa. Tantos jornalistas vieram à tona para discutir a importância do jornalismo que a sociedade dá um crédito para a gente. Quanto ao CQC, como você classifica o programa? Jornalístico ou de entretenimento? Eu não sei mais, esse CQC de hoje é diferente do CQC que eu fiz. Na época que eu estava era um programa de jornalismo, que usava o humor como fio condutor das pautas. Tinha um trabalho de jornalistas, e três caras ali eram jornalistas: Andreolli, o Rafinha Bastos e eu. Hoje eu acho que é um programa de entretenimento. No cenário jornalístico, você se espelha em alguém? Caco Barcelos. Sem dúvida é meu ídolo! Acho ele o máximo. Eu nunca quis imitar o Caco Barcelos, porque eu não poderia. Não tenho o repertório que ele tem, mas já tentei seguir algumas posturas éticas dele. Em dezembro de 2008, recebeu o 2º Prêmio QUEM

de Melhor Jornalista de TV, pra você, qual a importância desse prêmio? Era votação popular, e eu acabei ganhando não porque eu era melhor que alguém. Nós tínhamos milhares de seguidores alucinados e quando botaram para votação popular as fãs do CQC votaram em mim 400 vezes por dia. No ato de receber o prêmio eu dediquei ao Caco Barcelos que concorria comigo. Como foi trabalhar na editora Abril? A fase da Abril foi demais, a gente implantou ali o jornalismo digital, que existe no twitter. O que eu fazia na Abril era o conteúdo digital para celular. A gente adaptava o conteúdo das revistas e mandava para os poucos assinantes da plataforma digital de celular. E isso foi tão precursor naquela ocasião, que nós ganhamos um prêmio de jornalismo. Por quatro anos na Abril eu tive um convívio de redação e eu gostei dessa fase. Mas não quero mais. No CQC, você tComo companheira a Mônica Iozzi, você acredita que para as mulheres ser jornalista é mais difícil?

Para mulher tudo é mais difícil. Exceto ser mulher fruta. Infelizmente nesse mundo machista, o papel da mulher é mais difícil. E é uma pena, porque tudo que a mulher faz, faz melhor que o homem. No CQC quando a Mônica entrou, eu vi isso. Ela entrou em um programa que era o estereótipo master do machismo. Mais machista que o CQC não tinha, eram sete caras de terno e falando de mulher. Foi muito sofrido para ela no começo. Quais conselhos você daria para quem deseja cursar jornalismo? Faça amarradão, mas crie sua própria identidade, siga muito sua intuição. Na faculdade ouse e no mercado arrisque.

TAYNA MENDES

DIVULGAÇÃO

PINGUE PONGUE COM RAFAEL CORTEZ

Bate-Papo com Rafael Cortez no Genial Bar, em São Paulo


QUE

TRANSFORMA Wagner Moura, Criolo, Laerte, Gaby Amarantos, Lázaro Ramos, Marcelo Tas e outras personalidades; profissionais de jornalismo, artes visuais, administração, diagramação, gráficas, e, por fim e não menos importantes (muito pelo contrário), OS VENDEDORES. Todos contribuem para fazer desta publicação um veículo, como eles mesmos ressaltam, transformador.

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POR ANDRESSA VOLPINI, ATAIDE AQUINO, BRUNA INOCENTE, MURILLO MAGAROTI, JOY AGOSTON, WILLIAN MAFFEZOLI


DIVULGAÇÃO

Em 11 anos de Ocas”, já são mais de 90 edições

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A Ocas” teve seu lançamento em 6 de julho de 2002, em São Paulo; e, dois dias depois, no Rio de Janeiro. Se você quer saber mais sobre a Ocas” e liga lá na sede deles, no Brás, no 3208-6169, quem atende é a Marina Massagardi, que é irmã do Thiago, o atual presidente. Tudo em família! Ela é formada em biologia e, além do atendimento

SEDE

Não conseguimos encontrar o blog do Seu José. “Conhece a revista Ocas”? Sabe o que é? Então, A Ocas” é uma revista de cultura, lançamentos artísticos, ensaios, traz entrevistas. O nome da Ocas” significa a sigla de uma organização, né, que é Organização Civil de Ação Social. É uma organização que promove a responsabilidade so-

cial, oferecendo oportunidade de trabalho às pessoas em situação de vulnerabilidade social, através da venda da revista. A revista é vendida a quatro reais: três reais ficam com o vendedor no ato da venda, um real vai pra organização”. Essa é a abordagem ‘mais genérica’ do Rubens, a que “comigo sempre deu certo”. Nos 31 minutos e 39 segundos do áudio gravado com o Rubens, é possível ouvir o vendedor da Ocas”- há oito anos - mexendo no plástico com o qual ele faz questão de embalar as revistas. O Rubens Lopes trabalha de terça a domingo na Fnac Paulista, mas diz que lá vende menos. Na Pinacoteca, em frente à Estação Luz, onde pode ser encontrado nos finais de semana, da 12h às 17h, ele consegue vender, ‘num dia bom’, 30 revistas – que lhe garantem 90 reais. Os vendedores ganham os 10 primeiros exemplares. A partir daí, eles compram as revistas a 1 real, na sede, no Brás, e revendem a R$4. O Rubens conheceu um vendedor da Ocas” num albergue e vendeu suas 10 primeiras revistas ‘num instantinho’. Com o dinheiro que ganhou, comprou 15. Hoje, ele trabalha com uma média de 50 revistas. Às segundas, não adianta nem procurá-lo, é sua folga. Se você pegar a Linha Amarela do Metrô até a Paulista, atravessar o túnel até a Consolação e for de Linha Verde até a Trianon, encontrará a Ana. Ela vende a Ocas” ali no vão livre do Masp. Enquanto o Rubens falou sobre a Ocas” sentado no banco que os seguranças do estaciona-

mento da Pinacoteca deixam por ali, a Ana não parou por mais que cinco minutos. “É TC [Trabalho de Curso]?”, ela pergunta. “Cansei de TC, de matéria”, diz e sorri. “Preciso fazer dinheiro”. Ela some. Divide espaço, pelo menos naquela terça-feira, com dois poetas e um fabulista. Além deles, aqueles que nos acostumamos - por algum motivo - a chamar por hippies fazem seu artesanato, sentados no chão. As pernas da Ana, pelo contrário, não param; a levam de um lado para outro. Ela entrega as revistas nas mãos dos clientes, dos leitores; abre cada edição e começa a falar do conteúdo. Não embala as revistas com plástico, como o Rubens, e só se senta para, ao lado de uma moça que mexe ao celular, tentar vender mais uma revista. “Tá fraco hoje”, ela diz. “Acho que vou lá pro Itaú [Espaço Itaú de Cinema, na rua Augusta]” e some de novo. Algumas pessoas, claro, passam direto, sem dar atenção. Estas veem a terra do céu. A Terra vista do Céu é a exposição do fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, que ocupava o ‘quintal dos fundos’ do Masp naquela terça-feira. Foi naquela terça também que a cantora Céu – capa da Ocas” nº 83 – participou do lançamento do livro Ecos da Ocas” na Fnac Paulista– depois do expediente do Rubens. O livro Ecos da Ocas” conta os primeiros 10 anos da revista. Foi lançado a 20 reais e tem, assim como a Ocas”, não perguntamos quanto, parte da renda revertida para o projeto.

A Ana diz que vai ao lançamento. “Tá fraco, tô pegando muita ‘gente do cartão’ hoje”, ela diz também, e a cada reclamação vende mais revistas. “Cuida das minhas coisas”, e some de novo. Some, como as revistas somem das prateleiras do Brás. Segundo depoimento do primeiro subeditor, Sérgio Gwercman, para o livro Ecos da Ocas”, a ideia era essa mesmo, “que as revistas vendessem feito pão quente”. Além da história da revista, o livro traz 11 entrevistas que foram publicadas nos primeiros dez anos de existência da Ocas” e textos escritos pelos vendedores, publicados na seção Cabeça Sem Teto. A Ana Ligia Scachetti, atual subeditora da Ocas”, explica que a seção Cabeça Sem Teto traz textos produzidos por vendedores. “(...) e eles sugerem reportagens. Por exemplo, entrevistas que esBrian: “A ferramenta é sua, e a ferramenta funciona!” BRUNA INOCENTE

As aspas integram o nome da revista. “É o símbolo do ‘dar a palavra aos outros’. Tanto aos vendedores que não têm espaço para falar, quanto aos projetos sociais, às questões sociais”, explica a editora-chefe Rosi Rico.

A Ocas” é uma parte de um todo com cerca de 40 países e 120 publicações. Trata-se da International Networking of Street Papers (INSP), ou Rede Internacional de Publicações de Rua. Os idealizadores da Ocas” trouxeram a ideia da Inglaterra A sede da Ocas”, no Brás onde a ‘revista transformadora’ leva o nome de Big Issue - e da Ar- – ao público e aos vendedores gentina – por onde circula a –, cuida da parte administratiHecho. O jornal nova-iorquino va da revista. Street News começou tudo, Quem fica por lá também é o Alexandre Pato. “Ele que usa em 1989. As revistas de rua pelo mundo meu nome”, diz ele, ao lemsão meio de transformação brar que é mais velho que o não só para moradores de jogador de futebol. “Meu horua e albergues, mas para rário é de terça à sexta, das 9h às 11h. Mas, esse aqui refugiados de guerra, imigrantes mesmo [se referindo ao vene desempregados. dedor José Aguiar, que está A Rosi é amiga da Denise à sua frente], a hora que preMota, a primeira editora da cisar, sábado, domingo, liga Ocas”, e começou comprando pra mim, eu atendo, vou proa revista. Ela diz que a revis- curar, vou levar a revista pra ta ‘fecha’ virtualmente, por e- ele”. José, que “fui campeão -mail – assim como chegaram durante dois anos de venda” algumas de suas respostas e que “comprei um sítio com para esta reportagem. “Ten- o dinheiro da revista (...) ta tamos, sempre que possível, lá no meu blog”. Ele diz que nos encontrar (a equipe fixa está também no Facebook e da redação) pelo menos uma Twitter. “O meu negócio é esvez para a revisão final antes crever”. O José também é um de enviarmos a revista para a pouco mais velho que o Pato gráfica”, conclui o parágrafo. do Corinthians. BRUNA INOCENTE

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ocê sai do CCBB, da Pinacoteca, do Masp, da Fnac, e lá está um deles. Te mostram uma revista. Uma capa com uma personalidade, uma publicação que, como eles explicam, tem similares espalhadas pelo mundo. A capa te interessa de cara – e pela cara estampada nela: um 'olimpiano cult’. Eles mostram mais capas e você só fica pensando em qual levar, e quantas levar. O Rubens (foto que ‘abre’ esta reportagem) é um deles. Mas para que o Rubens chegasse ali, na Pinacoteca, onde costuma ficar aos finais de semana, muitos outros fizeram com que isso fosse possível. Anos. A Ocas” tem onze deles. É vendida em São Paulo e no Rio de Janeiro. Onze. Mais que o fenômeno Realidade, vejam bem. Seria em razão da satisfação dos que ali estão? A editora-chefe atualmente é a Rosi. Para ela, o orgulho maior de fazer parte disso, da Ocas”, é ter a certeza de levar para as ruas ‘qualidade editorial’. Não apenas por ser ‘um projeto socialmente transformador’.


BRUNA INOCENTE

ABRIGADO PELA OCAS” Tarde de domingo, Pinacoteca de São Paulo. Um homem negro com um montante de revistas encontra-se parado oferecendo-as aos possíveis compradores que entram no museu. Com o nome de Rubens, esse ex-morador de rua é mais um beneficiado pela ação da revista Ocas”. Na tarde nublada de domingo em que a entrevista ocorreu o vendedor estava tenso. “Preciso vender pelo menos 30 revistas para pagar o aluguel”, disse mais de uma vez. Aluguel este da casa que arrumou com seu esforço, vendendo exemplares de terça à domingo, o que possibilitou sair dos albergues e melhorar a qualidade de vida dele, que um dia já andou pelas ruas sem saber aonde ir. Com uma feição abatida e às vezes preocupada, conta sua história. Sua mãe faleceu após complicações no parto de sua irmã. Seu pai viu-se obrigado a contratar uma governanta para cuidar dele e de seus dois irmãos. A contratada foi flagrada maltratando as crianças e foi ferida com golpes de faca pelo pai de Rubens, que, como parte da pena, teve que deixar seus filhos sob cuidado de um orfanato na região de Sorocaba. Foi onde ele viveu até completar a maioridade. Hoje, só mantém algum contato com sua irmã. Seu irmão ficou pelo interior e não trocam notícias há pelo menos sete anos. Após sair do orfanato, voltou à São Paulo para morar com o pai e a avó. Viu seus parentes próximos falecerem um depois do outro, um atrito com aqueles outrora distantes surgiu. “Sei lá, de repente foi por falta de convivência”, pontua. Decidiu então sair dali, passou uma semana na rua, ficou perambulando sem rumo, chegou a dormir na rodoviária e até a ser assaltado, mesmo não tendo nada de valor consigo. Começou a vender chocolate e nessa época conheceu os albergues por intermédio de outro ambulante. Daí em diante começou a dormir nestes locais, aproveitando o prazo máximo de estadia em cada um para procurar o próximo. Nesse tempo arrumou vários “bicos”, desde entregador de gelo à vendedor de lista telefônica. Até que conheceu o trabalho da Ocas” em 2002, quando palestrantes foram ao albergue onde se encontrava, no Brás. Não acreditou na proposta, “achei que era uma balela”, diz ele. A Ocas” reapareceu em 2005 na mão do Ricardo, um vendedor que marcou sua vida, em um albergue na região da Liberdade. Com a ajuda dele, Rubens foi apresentado ao trabalho da Organização Civil de Ação Social. Com um texto preparado aborda os transeuntes, mostrando que comprando a revista ajudam a manter a vida digna de alguém que, em tempos passados, chegou a ser um andarilho e hoje ganha o suficiente para pagar um aluguel e viver dignamente. Cada venda ajuda a dar forças para enfrentar os apressados que o ignoram e os “narizes empinados” daqueles que vêm ao museu, segundo o próprio vendedor, por “status social e não para adquirir cultura”. Rubens pode hoje, apesar de todos os problemas, mostrar um enorme e empolgante sorriso, fazendo qualquer um repensar o significado da palavra “dificuldade”.

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tão no livro que foram feitas pelos vendedores (...) hoje, a Ana Otília, que estava aqui [é a Ana do vão do Masp], deu sugestão de pauta”, explica. As entrevistas com o cantor Seu Jorge – que já foi morador de rua - e a ex-chacrete Rita Cadillac foram produzidas pelos vendedores e estão no livro. Nós conhecemos a Ligia no lançamento do Ecos da Ocas”, assim como alguns vendedores, que nunca a tinham visto, ou ao presidente Thiago ou a editora Rosi. Uma pessoa todos conheciam – e fizeram questão de abraçá-la. – Ao que se deve todo esse carinho? “Não sei”, ela diz. “Talvez ao fato de os considerarmos pessoas, que são”. Ela é Maria Alice Vassimon, psicoterapeuta que realiza sessões com os vendedores na sede do Brás todas as segundas-feiras. Voltando ao lançamento: dividiram o palco com a cantora Céu, para contar um pouco de suas histórias, os vendedores Daniel Gomes, Eduardo Fausto (RJ), a Pilar e o Brian; esses últimos apresentaram poesias, inclusive. A Tula Pilar Ferreira, antes de participar no palco, disse como está ‘abarrotada’ de coi-

sas para fazer. “A Ocas” que me deu esse suporte (...) principalmente com a minha literatura, minha poesia”. Um dos filhos dela, o Pedro, “declama no sarau” e ela lançou até livro, ‘Palavras Acadêmicas’ que já acabou. Brian é o pseudônimo do Edmilson, mas todo mundo chama ele de Brian mesmo. Ele vendia artesanato na Praça da República, teve seu material tomado pelo ‘rapa’, quando conheceu uma certa Ivone. O filho dela estudava Jornalismo e conhecia a Ocas”. A Ivone passou o endereço do Brás para o Brian. ”Eu depositei fé na ideia dela” ele diz. Não tem ponto fixo, como o Rubens e a Ana, e se referiu à Ocas” como ferramenta. “A ferramenta é sua, e a ferramenta funciona!” A Ocas” tem, além do Rubens, do José, da Ana, do Daniel, do Fausto, da Pilar e do Brian, pelo menos mais 23 vendedores ativos. “Cerca de quinze são aqueles que vêm todos os dias, os demais aparecem de forma pontual uma vez por semana ou até uma vez por mês. Sem dúvida, precisamos aumentar (o número de vendedores). Não só porque isso vai ajudar o projeto, mas porque temos um índice de pobreza extrema no Brasil muito grande ainda”, é o que nos contou o presidente Thiago Massagardi – por e-mail. Estas marcações entre os blocos de texto desta reportagem aludem a uma das técnicas do projeto gráfico da Ocas” para atraírem mais leitores.

A Ocas” passou por mudanças gráficas em 2011. O editor de arte, Fábio Kato, nos explicou que a revista precisava dessa mudança, “por que ficar sete anos no mesmo projeto acaba cansando um pouco”. As principais mudanças vieram na utilização com mais frequência das cores especiais – pantones –, que servem, por exemplo, para destacar partes do texto. Além disso, se utiliza, na mesma frase, duas fontes diferentes. As aspas após o nome, segundo Fábio Kato, editor de arte, eram alvo de curiosidade, “bastante gente perguntava”. Assim, passou-se a usar sinais gráficos em todas as seções. A seção capa, por exemplo, é o ponto de exclamação. A voz da cantora Céu – que, aliás, se disse, entre uma música e outra, admiradora do projeto e ‘muito feliz’ por estar ali – preencheu os ruídos, os ‘espaços em branco’ de todos os áudios captados naquela terça-feira.


CRÔNICA

Nosso Pacaembu

às moscas

Por Audrey Pujol

Pacaembu já foi palco de grandes histórias, como em sua inauguração, no ano de 1940, quando o então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, foi vaiado pela grande maioria dos presentes. Foi palco também do grande clássico entre Corinthians e Palmeiras em 1955, pelo Campeonato Paulista, onde o time da Fiel se sagrou campeão e deu início ao Jejum Corintiano de 22 anos. Ou então, na conquista da tão sonhada Copa Libertadores pelos corintianos, em 2012. São fatos que marcam a memória e o coração de muita gente. Frequento o Pacaembu tanto a trabalho quanto a lazer. Instalado no Pacaembu se encontra o Museu do Futebol, um dos museus mais visitados do país, com toda a sua interatividade ligada à paixão nacional. Em homenagem ao estádio, o museu abriga a Sala Pacaembu, que celebra este que é um dos estádios mais antigos do País. Não há lugar melhor para esse museu do que nesse estádio. De segunda a sexta, ando pelos bastidores desse grande palco sem me importar muito com a ligação que tenho com ele, claro, é apenas meu local de trabalho, onde saio de uma reunião e já estou logo entrando em outra. Mas aos finais de sema-

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na, em dias de jogos decisivos ou apenas amistosos contra times pequenos, meu coração bate mais forte, meu sangue ferve e não consigo conter o grito em minha garganta. É no Pacaembu que a história é feita. Como muitos torcedores dizem: “No Pacaembu a história muda!” Em meio à torcida, eu canto, grito, choro, rio, pulo, me completo. Dividida em amarela, verde, laranja, tobogã, toda torcida fica muito mais bonita no Pacaembu. É triste saber que isso está chegando ao fim. Com a construção de arenas ultramodernas e centro de treinamentos com o mais alto padrão de tecnologia, o nosso bom e velho estádio corre o risco de ficar abandonado, às moscas, apenas relembrando os velhos gritos de torcidas que já passaram por lá. Por ser mantido pela Prefeitura de São Paulo, o ideal seria que o estádio fosse aberto à população, sem distinção de condição financeira, mas a realidade em que vivemos não condiz muito com essa tal de teoria. Por não possuir uma acústica favorável a shows e eventos e por ser muito próximo de bairros residenciais, a renda para manutenção desse estádio vem do aluguel dos clubes e sem essa renda, o nosso Pacaembu irá morrer, isso já está determinado. Ainda sonho com o dia que alguns amigos meus falem: “Vamos jogar uma pelada lá no Pacaembu, quer ir com a gente?”. Eles são cidadão, eles têm esse direito. Assim como outros tantos 11 milhões de paulistanos de nascença e coração. O Pacaembu é nosso! É nosso dever não deixarmos desligarem os aparelhos que o mantêm vivo.

DE ROSWELL À VARGINHA: CONHEÇA COMO A IMPRENSA ABORDA A UFOLOGIA, A DIVERGÊNCIA ENTRE FONTES OFICIAIS E ESPECIALISTAS E A DIFICULDADE EM SEPARAR O FATO DO MITO.

POR ANA MENDONÇA, GABRIEL BONAFÉ, GABRIELA FERRAZ, LEANDRO CORREIA, LÍVIA DONADELI E YULIKA GANIZEV

ARTE: STELLA ANTONIASSI E KARINE CASANOVA

A grande maioria das pessoas que visitam o Estádio Paulo Machado de Carvalho, o nosso Pacaembu, tem alguma memória marcante, um fato inusitado ou uma história especial para contar. O Pacaembu é o lugar onde o rico encontra o pobre, o negro abraça o branco, lugar em que todos são um só, todos cantam e vibram a uma só voz.


Este é o suposto relato sobre o extraterrestre que teria sido capturado em 1996 na cidade de Varginha, município de Minas Gerais. Em 20 de janeiro daquele ano, Kátia Xavier e as irmãs Liliane e Valquíria Silva disseram ter visto uma criatura marrom escura, com três chifres e de olhos grandes e vermelhos em um terreno baldio no bairro Jardim Andere. Ufólogos e testemunhas do caso afirmam que a Polícia Militar fez a captura do ser por volta das 20h. O comboio

passou por quatro locais diferentes até chegar à Unicamp (Universidade de Campinas), onde supostamente o ser foi examinado. Antes de ser avistado pelas três mineiras, testemunhas relataram que o Corpo de Bombeiros acompanhado do Exército capturou outro ser desconhecido por volta das 10h30 da manhã no mesmo bairro. Os militares desmentem essas versões e afirmam que a criatura dada como extraterrestre foi confundida com um rapaz com problemas mentais, apelidado de “Mudinho”. A controvérsia entre as versões das autoridades e das testemunhas, moradores da região e ufólogos, gera uma polêmica com o assunto, dificultando separar o fato do mito. O incidente em Varginha é o caso ufológico brasileiro de maior repercussão midiática, cuja cobertura transformou a ufologia em lenda urbana.

Os casos na mídia O número de relatos e testemunhas de supostas aparições de OVNIs (Objetos Voadores não Identificados) e de seres extraterrestres, como no incidente em Varginha, despertam o interesse dos veículos de comunicação por envolver a população em grande escala e ser um assunto extraordinário. Ademar José Gevaerd, ufólogo, criador e editor da Revista UFO, diz que a abordagem da mídia difere de acordo com seu poder político. “Cada uma tem um procedimento. A mídia de cidades pequenas e médias trata bem do assunto, sem ridicularizar”, explica. No entanto, ele diz que os veículos de grandes cidades, como os grupos de comunicação de São Paulo, não possuem uma visão tão justa em relação à ufologia. Essas coberturas também

VARGINHA HOJE Após 17 anos das aparições, imagina-se que Varginha seja uma cidade voltada ao turismo, com grandes esculturas, museus e histórias. No entanto, há poucos indícios do que ela foi um dia: a capital brasileira dos extraterrestres. Existem três pontos que supostamente são os cartões de visita da cidade: A praça do ET, a caixa d’ água – em formato de OVNI – e uma estátua que retrata o visitante interplanetário, usado como logo da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais). Mas a realidade é bem diferente do que se pode imaginar. Patrimônio deteriorado, turismo deixado para segundo plano e moradores desinformados sobre o que aconteceu no Jardim Andere. Alguns disseram que nunca ouviram sobre o caso. Segundo Gevaerd, enquanto alguns lugares, como Roswell (leia na p.62) que tiveram eventos parecidos com o de Varginha e souberam utilizar a fama para formentar o turismo, a cidade do interior mineiro, devido à uma administração “pacata”, não soube aproveitar o ocorrido de forma legítima e fez com que ele caísse no esquecimento.

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GABRIELA FERRAZ

ARQUIVO PESSOAL

“E

ra dia quando eu escutei o barulho dos motores e o chão começou a tremer. Uma forte luz vinda do alto me deixou inconsciente. Quando percebi, estava deitado sobre um terreno baldio. Me assustei com fortes ruídos. Três criaturas me olhavam assustadas e de repente fugiram. Nunca mais as vi.”

Ademar Gevaerd, editor e criador da revista UFO, em uma pesquisa de campo ufológica

sofrem influência do editor do veículo em questão. De acordo com a teoria jornalística Gatekeeper (em português, porteiro), ele é capaz de definir informações que serão noticiadas de acordo com valores-notícia, linha editorial e critérios pessoais. Gevaerd diz que, apesar de a imprensa brasileira lidar bem com a ufologia, alguns profissionais do jornalismo deixam a desejar na manipulação de informações. “Um ou outro pisa na bola, como jornalistas despreparados, editores preconceituosos e com influências particulares e religiosas”, critica. Já para o jornalista Goulart de Andrade, o tratamento dado a essa pauta é subjetivo. “Se houvesse uma evidência e eu fosse chefe de redação, mandaria um repórter ir investigar e tratar o assunto com respeito”, relata. Goulart foi apresentador do programa Comando da

Madrugada da extinta Rede Manchete, onde fez uma das coberturas mais elogiadas do caso Varginha. “A inteção era contar sobre uma história que tinha acontecido dentro dos padrões éticos do jornalismo. E parece que fui feliz devido à repercussão”, conta.

Fontes de informação Nas coberturas jornalísticas são utilizados diversos tipos de fontes para relatar os fatos. Em casos de aparições de OVNIs, as fontes governamentais e militares — consideradas oficiais —, tendem a não dar respostas sobre o acontecimento. Gevaerd explica que as autoridades preferem não falar sobre o assunto devido ao fato de não possuírem as respostas necessárias para atender aos pleitos da sociedade. “Su-

ponhamos que a polícia confirme a presença de um disco voador sobrevoando algum lugar por aqui. A pergunta seria óbvia: ele representa perigo? Foi feito algum contato? E para isso não há resposta”, explica. Para ele, o fato de as autoridades não se manifestarem, não está ligado ao medo ou ao pânico que o assunto possa causar à sociedade, mas sim à falta de informação. Goulart descreve sobre uma experiência que teve com fontes militares no qual ele observava o trajeto percorrido por um avião no radar aeronáutico. Por meio de pontilhados ele acompanhava a velocidade de um voo do Rio de Janeiro rumo à Brasília. De repente um novo pontilhado surge em uma velocidade superior ao primeiro. Surpreso, o jornalista pergunta: “veloz esse avião, né?”. O militar então disse: “esse não é bem um


PRINCIPAIS CASOS NO BRASIL avião e não posso falar o que é”. Goulart não revela a fonte. Além das fontes oficiais, recorre-se aos especialistas para dar procedimento à matéria. Esse tipo de fonte advém de pesquisadores da área que possuem conhecimento científico, contribuindo com o conteúdo técnico da reportagem. No assunto em questão, o especialista é o ufólogo, profissional que faz estudos in loco e, diferente das fontes oficiais, apresentam provas que não são reconhecidas. Esse não reconhecimento coloca a credibilidade da informação em xeque. No entanto, Goulart diz que os ufólogos têm ponderações garantidas em evidências. “Podem até ser mentirosos, mas que mentirosos fantásticos”.

Acesso à informação Em 2004, foi criado um movimento pela revista UFO denominado “Campanha UFOS: Liberdade de Informação Já!”, com o objetivo de pressionar o governo a disseminar informações. A postura dos ufológos ante a ausência de informações existe desde 1986, quando o então ministro da aeronáutica Octávio Moreira Lima declarou que revelaria

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Colares (PA) - Em 1977, estranhos fenômenos envolvendo luzes foram relatados pela população ribeirinha em Belém. O governo encaminhou a Força Aérea para verificar o caso, que ficou conhecido como Operação Prato.

Itatira (CE) – Entre 2008 e 2009, ufólogos afirmam que houveram mais de 273 relatos de aparições pelos moradores. A Abin (Agência Brasileira de Inteligência Nacional) passou a investigar o caso.

ROSWELL O caso mais conhecido da história da ufologia aconteceu em 1947 e leva o nome da cidade onde ocorreu: Roswell, Novo México (EUA). Diversos relatos de aparições de objetos redondos voadores são descritos. Em uma das ocasiões, moradores ouviram uma grande explosão e no dia seguinte, um fazendeiro se deparou com destroços metálicos espalhados por 4 km² da sua propriedade. Ele foi à delegacia para se certificar do objeto desconhecido, levando alguns exemplares. Quando voltou ao local, acompanhado de uma equipe de policias, encontrou uma camada petrificada sobre a terra. Durante as investigações, uma enfermeira descreve que fez autópsia em três seres não identificados. Segundo ela, tinham uma cabeça com olhos fundos e grandes, pequenos orifícios nasais, boca fina, sem pelos, mãos com quatro dedos, altura aproximada de 1,20 m e exalavam mau cheiro. Semanas depois a enfermeira veio a óbito. Em 1949, um dos familiares do fazendeiro diz que durante os dois últimos anos eles continuaram encontrando vestígios da nave. Logo após, foram procurados por militares que confiscaram os destroços. os detalhes da Noite Oficial dos UFOS no Brasil (suposta invasão de 21 OVNIS no espaço aéreo nacional) e não divulgou os dados. Desde a regulamentação da Lei de Acesso à Informação (LAI), alguns documentos da Força Aérea, que relatam eventos de 1950 até 2010, foram liberados. Gevaerd afirma

que grande parte do material produzido nessa busca por óvnis ainda não veio a público, mas busca trabalhar com aqueles disponíveis. “Existem milhares de hipóteses para justificar a não divulgação desse material. A gente trabalha com a informação divulgada e pedimos que a não liberada venha a ser”, conclui.

Riolândia (SP) Em 2008, o dono de uma pousada no interior de São Paulo presenciou o pouso de um OVNI em uma plantação. Outras pessoas presenciaram o fato em diferentes áreas da cidade.

Crixás (GO) - Um homem se assustou com três criaturas acompanhadas de um OVNI em 1967. Após atirar numa delas, foi atingindo por um raio verde no ombro. Nas semanas seguintes o homem faleceu.

Ipuaçu (SC) - Aparição de espirais em plantações no começo do mês de novembro de 2013 numa fazenda no oeste de Santa Catarina

Contato com Alienígena

Itaipu (SP) - No final dos anos de 1950, um OVNI atacou duas sentinelas na Praia Grande. Autoridades brasileiras contaram com a ajuda da Força Aérea Americana nas investigações, mas até hoje o caso não foi solucionado. Aparição de OVNIs

Ataque de OVNIs

Agroglífos (Sinais em plantações)


CRÔNICA

LUTO POR 40 Por Dafne Mazaia

O Sindicato dos Trabalhadores é um grupo assíduo frequentador das ruas do centro de São Paulo, sobretudo das calçadas velhas e quase carcomidas do bairro da República. Tradicional reduto de rebeldes e grevistas, com bandeiras geralmente hasteadas, marcadas com a sigla “PSTU”. Com ocorrência, noto cartazes esvoaçantes nas mãos de sujeitos com camisas xadrez, com os dizeres: “Abaixo a escravidão moderna!”. Alguns, mais ferozes, como se vociferassem: “40 horas ou Greve Geral!”. Sim, exatamente com os dois “G” maiúsculo, contrariando certos conservadores manuais de redação. Li no matutino jornal manchado de café, algo que remetia ao número 40. Sim, lembrava-me agora. Por volta das 9h30 haveria uma passeata na República, organizada pelos sindicalistas amigos e companheiros do “Paulinho da Força”, para lutar pelas 40 horas (olha ele!) semanais na jornada de trabalho. Era justo. Ao calcular o tempo que já passei no meu escritório silencioso e mecanizado na Avenida Paulista, quase diligencio em cair em desespero. Questões deste gênero geralmente brotam quando estamos no meio do transporte mais revolucionário do mundo: o metrô. Utilizar o bloco cinzento que percorre as vias férreas paulistas deveria ser gratificante, digno de um conto de Edgar Allan Poe.

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Contudo, viajar por mais de uma hora no metrô ou trem é tão exaustivo quanto as 10 horas passadas na labuta, sinto te dizer, leitor. Alguns mais céticos dizem que a obesidade é o mal do século, porém, o que dialogo com meus botões é que, se não fossem as péssimas condições durante o trajeto, certamente o Ser Humano seria mais sorridente. Pensando bem, se o expediente fosse mais breve, com certeza de sorriso, passaria a ser gargalhada. Talvez o paulistano não esteja em tão “maus lençóis” assim. Vi na Band News que muitos índios do sul do Brasil gastam mais de três horas até chegar aos frigoríficos e “matadouros”, de empresas da região. É quase, sanguinário. Uma linha de produção fordiana, eles passam cerca de dez horas em uma missão que nós, por vontade de sentar em frente a um computador, hoje recusamos. Após uns dois minutos e meio de reflexão, decidi-me, discreta e sorrateiramente, juntar-me aos membros furiosos do Sindicato. Porque, estar ali, sentia uma realização cabal: lutar por um mundo melhor? Não, companheiros. Quero é trabalhar menos para sair mais cedo do escritório e evitar o horário de “pico”, vulgo, às 18h.

Playboy, revista número 1 do público masculino, fez aniversário sem perder as características que a consagrou

Por

Ana Paula Sciolli, Camila Cardoso, Cleber Carvalho e Mariana Estevam


cobiçadas

nimo de status e poder.

History Channel”, a chegada da

com curvas eston-

O coelhinho, escolhido para re-

publicação às bancas trouxe à

teantes que causam

presentar a revista, traz o sím-

tona discussões sobre liberdade

prazerosas sensações em po-

bolo da sofisticação que Hefner

sexual e os direitos femininos. O

ses sensuais. Entretenimento e

desejava para sua criação. No

sexo era tido como imoral e sujo

informação com assuntos que

Brasil, a Playboy foi publicada

pela sociedade conservadora

realmente interessam ao ho-

pela primeira vez em 1975, 20

da época. A criação da Playboy

mem moderno. Conteúdo sem

anos depois de sua estreia em

quebrou pré-conceitos e fez com

tabus e paradigmas. Esses são

Chicago e, devido aos tempos

que aos poucos esses paradig-

os elementos que formam a re-

de ditadura militar, era intitula-

mas sobre o erotismo e a sexu-

ceita de sucesso dos 60 anos da

da como “A revista do homem”.

alidade fossem desmistificados.

revista “Playboy”.

Trazendo em suas capas desde

De acordo com Jardel Sebba,

Fundada na década de 50 por

grandes estrelas do meio artísti-

editor da revista no Brasil, a

Hugh Hefner, a publicação nor-

co até subcelebridades do mun-

Playboy verde-amarela segue

te-americana inicialmente era

do televisivo, a revista vem se

as linhas da versão america-

chamada “Stag Party” (Despedi-

mantendo entre as mais vendi-

na, com foco no estilo de vida

da de Solteiro, em inglês) e tra-

das do país e despertando sus-

masculino, seu prazer, seu

zia na capa e em seu interior a

piros entre muitos homens e até

conforto e sua praticidade.

atriz Marylin Monroe, estrela do

mesmo algumas mulheres.

“Nossos principais elementos

momento e objeto de desejo de muitos homens da época, em ensaio nu e poses sensuais.

Muito mais que um corpinho bonito

são mulheres lindas, matérias

DIVULGAÇÃO

M

ulheres

Aline Riscado, dançarina do “Domingão do Faustão”, foi capa da edição de junho de 2012

investigativas e úteis, unidas

ta com a cantora Sandy e seu

com tempo, fôlego e longa dura-

leira, o coelhinho vem estimulan-

a entrevistas interessantes”,

posicionamento sobre a prática

ção, o que permite destrinchar

do, divertindo e provocando seus

Com mais de 50 mil exemplares

Desde sua criação, a revis-

conta. Um dos grandes des-

do sexo anal. Sebba explica que

melhor o entrevistado e desen-

leitores. Com seções de cunho

vendidos depois, a publicação

ta queridinha dos homens foi

taques do conteúdo da revista

quando a Playboy brasileira sur-

volver conversas que seriam

cultural, informativo e até mesmo

ganhou notoriedade e passou

um divisor de águas quando

é a qualidade das entrevistas

giu, a entrevista era um dos ele-

impossíveis em entrevistas mais

literário, a revista é muito mais que

a ser a “Playboy”. O nome re-

o assunto é seu conteúdo edi-

que contemplam suas páginas

mentos principais da publicação.

breves”, explica.

nu e sensualidade e procura trazer

presentava um estilo de vida da

torial. Segundo o documentá-

e que muitas vezes geram po-

“Desde então, ela (a Playboy)

Durante as seis décadas de su-

em relatos fotográ-

época, mantido pelas classes

rio “Como a Playboy mudou o

lêmicas de grande repercus-

virou um dos raros espaços, se-

cesso da versão americana e dos

ficos,

mais altas da sociedade e sinô-

mundo”, produzido pelo “The

são, como a famosa entrevis-

não o único, de entrevistas feitas

mais de 40 anos da versão brasi-

produções artísticas.

66

verdadeiras


Adaptação ao novo cenário

encontrando novas opor-

Sobre a crise que o mer-

ções do mercado. O editor

Na edição de aniversário

cado das revistas no Brasil

finaliza, “Nós temos know-

a Playboy americana trou-

vem enfrentando, Sebba

-how, nós temos uma mar-

xe em sua capa de dezem-

diz que o principal desafio

ca fortíssima e nós sabe-

bro, o conteúdo comemo-

é repensar como levar ao

mos fazer conteúdo para o

rativo aos 60 anos. Em

público o conteúdo com a

homem moderno brasilei-

janeiro a versão brasilei-

mesma qualidade de sem-

ro. Agora é aprender como

ra reproduziu o conteúdo,

pre, porém, de outras for-

modernizar a transmissão

além de publicar um espe-

mas, em outros meios e

desse conteúdo”.

cial de comemoração.

Edição de aniversário

Guerrinha da Playboy

ARQUIVO PESSOAL

tunidades nas transforma-

A banca de Guerrinha, como é conhecido, possui 7 mil exemplares da Playboy

Para alguns colecionadores, certas edições são únicas e especiais, e justamente por isso são difíceis de encontrar. No Brasil, apenas uma única banca concentra 7.000 exemplares dedicados exclusivamente à venda de Playboys. A Banca do Guerrinha, como é conhecida popularmente, possui edições consideradas relíquias do mundo erótico, como por exemplo, a revista que traz o ensaio nu da apresentadora Xuxa, do ano 1982. Stenio Guerra, dono da banca, é colecionador da revista há mais de 40 anos. Comprou sua primeira revista aos 11 anos, uma edição americana que trocou por moedas inglesas. Desde então,

TOP MAIS

brasileiras mais vendidas da história

1

FEITICEIRA Dezembro de 1999 1.247.000 exemplares

3

ADRIANE GALISTEU Agosto de 1995 961.527 exemplares

68

4

SCHEILA CARVALHO Fevereiro de 1998 845.168 exemplares

2

TIAZINHA Março de 1999 1.223.000 exemplares

5

SCHEILA CARVALHO E SHEILA MELLO

Setembro de 1999 838.206 exemplares

ARQUIVO PESSOAL

As playboys

Por conta do grande número de edições, o colecionador é destaque de programas de TV

começou o negócio que hoje também movimenta sua banca: aluguel de revistas. “Eu alugava as revistas durante o recreio para os meus colegas de classe.”, declara. A Banca do Guerrinha, localizada no Brooklin, na zona sul de São Paulo, vende edições nacionais da Playboy tanto para colecionadores, quanto para leitores comuns no Brasil e até no exterior. Algumas edições especiais

podem ser alugadas, mas Guerra avisa: “Só alugo para os mais chegados”. O aluguel mais caro da banca é a edição com Xuxa Meneguel na capa, por R$ 300,00. Outra edição muito procurada é a da atriz Betty Faria, no valor de R$ 150,00. Durante seus 21 anos como jornaleiro, percebeu que os leitores da Playboy variam entre intelectuais, que gostam do conteúdo inteligente da revista, até

homens mais simples que buscam prazer e excitação, por meio das fotos sensuais. Ele revela que, além de homens, a revista atrai também o público feminino. Seja por opção sexual ou simples curiosidade, a Playboy também é cobiçada pelas mulheres. Guerrinha conta também, que muitas mulheres casadas compram a revista como produto de motivação e informação para os maridos.


i

riillo Marg a ro t

Você pensa em areia branca, chinelos juntos, dedos entrelaçados, anéis em dedos, presentes em mãos... ideias pré-fabricadas fora das mentes... presentes nas mãos de ideias pré-fabricadas fora das mentes. Palavras bonitas, pré-fabricadas fora das mentes também, inexclusivas, insinceras, inconsequentes. Mas quem sou pra dizer que não é amor, quando eu mesmo me pergunto, e aí, o que é? O que é? E aquela menina que, se não tá ainda, estará um dia na capa daquela revista te olha e você olha pro chão. Não é esnobar – e, aliás, ela nem olha pra você, é coisa da sua cabeça, lembra? E então, o que é?

Mu

Mas, o que é o amor?

PÓS-GRADUAÇÃO 2015

P

A menina que desce do ônibus no mesmo ponto que você. Aquela que anda com pernas, ombros, seios, bunda... tudo em sintonia. Uma te olha – e desce os olhos pro chão, enquanto sorri; outra só sorri. Aliás, na sua cabeça, todas elas te olham e te sorriem.

Uma instituição

, FI A ? O

E U Q Q

I SS É U or

CRÔNICA

E uns escolhem amar alguém totalmente diferente, ‘por que as diferenças se encaixam’, ‘por que os opostos se atraem’; alguns discutem se o melhor é ‘alguém que te complete’ ou ‘que te transborde’. O carinha ali escreveu que prefere alguém igual a ele, “afinal, quem não gostaria... de não estar só e na própria companhia?” Mas é só uma ideia. Uma ideia. Não dessas pré-fabricadas... uma ideia, de alguém que nem sabe o que ISSO é. Os homens... pré-fabricados para caçar e se lamentar pela falta do que não procuraram? Mulheres... pré-fabricadas para aceitarem lamentações após serem abocanhadas? E isso, se você levar em conta apenas os outros conceitos pré-fabricados de amor – bolinha e cruz + bolinha e seta. E o carinha ali tá achando que deve ser - como a literatura, o jornalismo, a vida - EXPERIMENTAL. Fugindo do ‘lugar comum’. Das mãos de artesã, um produto em fase de fabricação, único como ao menos nos olhos do autor deve ser - e era, como tudo antes da revolução industrial. E você espera que dure como te disseram que duravam os sapatos daquela época.

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Revista Código #4  

Revista laboratorial produzida pelos alunos de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul.

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