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Revista - Quebrada Comunicação e Cultura Periferiana

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COMUNICAÇÃO E CULTURA PERIFERIANA


editorial

eu dando o papo reto do que você vai encontrar nesta revista

Eu sou o meu lugar

S

alve, quebrada! Tudo à pampa? Não sei se esse tipo diálogo te incomoda, mas esse sou eu falando na minha nação periférica, vulgo Jardim Ângela. Logo, seria justo trocar esse papo contigo usando nossas gírias, concorda?... “Gíria não, dialeto”, como canta Racionais. Como já dei o papo antes, sou cria do Jardim Ângela. Nasci em 1997, um ano depois do distrito ser considerado o mais tenebroso do mundo, segundo a ONU. Notícias de crime e violência sempre fizeram parte da minha realidade, mas também o futebol descalço na rua, o funk e o rap, porém eu só me descobri periferiano mesmo em 2016. Foi através de um curso chamado “Você Repórter da Periferia” que eu pude entender que eu era o meu lugar e todos os contextos sociais do local em que eu estava inserido começaram a fazer sentido. Mas o que é ser periferiano? Bom, você vai descobrir lendo essas matérias, que contam as histórias de parças que fazem da comunicação e da cultura periferiana a sua luta, seu grito de guerra e que fazem a periferia acontecer. Ah, e tem mais! Já que o ritmo e a poesia é o que pauta nossa vivência, te convido a colocar pra tocar o som Corpo e Alma, do mano Inquérito. Somos seres multifuncionais, certo? Então em cada matéria vou te sugerir uma música pra deixar de fundo enquanto você lê. A experiência vai ser da hora, vem na minha. É isso, tudo nosso e nada deles. Vou pôr mais água no feijão pra trocarmos essa ideia de mente e barriga cheia. Nóiz.

Inquérito e Emicida, Corpo e Alma


SUmemo

sumário pra quem não é íntimo

4. DIN DIN 7. QUEBRADA INDICA 8. PARÇA, DESENROLA E NÃO ME ENROLA 12. FAVELA VIVE 13. ENTRE MOTORES E POESIAS 16. ANTES EU PROCURAVA NO GOOGLE, HOJE É O GOOGLE QUEM ME PROCURA 20. NÃO É DESENHO 25. JARDIM ÂNGELA EM NÚMEROS 26. PAULO IDEI 27. CAÇA - GÍRIAS

Trabalho de conclusão de curso de graduação em Jornalismo sob orientação do Professor Mestre Antonio Lucio Assiz.

Quebr.ada - Comunicação e Cultura Periferiana Texto: Luiz Lucas Arte: Gisele Amaral


din din

A marca de roupas Corre utiliza modelos e cenários da periferia como forma do consumidor se sentir representado. Foto: Facebook Corre.

Leia essa matéria enquanto escuta a música Placo, do Rincon Sapiência

no CORRE das notas Idealizada por quatro amigos e vizinhos de quebrada, a Corre Store se inspirou em marcas já conhecidas, como a Fundão e a 1DASUL. A ideia é levar aos moradores de periferia um produto que represente a quebrada.

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história da marca começou quando os amigos Otávio Luiz, Kaique Nazario, Willian Graniero e Fabricio Rodrigues encontraram dificuldades em manter o projeto “Café no Sacolão”, um programa de entrevistas que tinha como foco dar voz e vez à artistas independentes das quebradas em que viviam. Sem patrocínio, tiveram a ideia de uma marca de roupas, para captar verbas e criar outras entrevistas, que no início eram feitas no Sacolão das Artes e posteriormente passaram a ser feitas no Centro de Mídias M’ Boi Mirim. Além disso, após a mudança de endereço, o programa passou a se chamar “Café de Quebra”. Quando a ideia começou a sair do papel, Willian saiu do projeto e Melissa Rodrigues entrou logo em seguida. Depois disso as ideias começaram a surgir como um liquidificador. “Não é um rolê

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muito da hora, mas a gente tava numa tabacaria.” Brinca Otávio, sobre como surgiu o nome da marca. “Fizemos um branding que fala, né? E decidimos colocar Corre porque todo mundo tá no corre. A marca seria citada constantemente, todo mundo fala essa palavra diariamente, em qualquer conversa. Também foi bem na época que o Djonga tinha lançado a música “Corra”, e também estava rolando o filme “Corra”, um puta filme foda também. Tudo isso foi inspiração.” Outro fator importante para a escolha do nome foi a ideia de desmarginalizar o termo corre. “Pra galera mais boy que não é de quebrada, quando ouve que o cara vai fazer um corre e tal, leva pro lado do roubo, inclusive a gente também pensa assim às vezes, então o nome foi uma afronta para tirar esse estereótipo e mostrar que a marca é de


“O camaleão se adapta para sobreviver, tá ligado? E quem vive na periferia hoje tem que ter esse espírito.” quebrada”, conta Otávio. Já o emblema da marca, um camaleão, representa quem veste: “o camaleão se adapta para sobreviver, tá ligado? E quem está na periferia hoje tem que ter esse espírito de se adaptar para sobreviver, se não você não vive”, explica Kaique. A Corre foi feita para vestir a periferia e rolar uma identificação de quem mora aqui, mas isso não impede de que as roupas sejam utilizadas em outros lugares. Existe discriminação, claro, mas Kaique, integrante que cuida da estética e das conversas com os fornecedores, é sucinto: “Eu visto corre em qualquer lugar que eu vou! Eu trampo em banco e quando eu chego com uma camiseta escrita ‘Corre’ todo mundo olha torto. Quem é próximo questiona por quê, e aí é da hora porque eu explico e a pessoa entende que não é a parada marginalizada, mas muita gente ainda tem preconceito.” Para Otávio, também existe a reflexão em relação a segurança pública: “quando eu cheguei com a ideia em casa a família já ficou meio assim… - E se você andar na rua e tomar enquadro com uma camisa escrito Corre? É óbvio que não tem nada a ver, mas infelizmente eu e o Kaique já somos visto como perigosos por ser quem somos, ainda mais com o Corre exposto no nosso peito”. Mas quando se pensa no crescimento da periferia, logo esse receio sai de cena. As roupas são definidas como um trabalho artístico que traz uma mensagem. “A marca é pensada para quem é da periferia consumir e ter orgulho de falar que veio daqui, sem precisar pagar uma fortuna em qualquer shopping. Mas não existe problema se chegar em outros lugares, outras quebradas, o intuito é fazer a galera se conscientizar”. Como o foco é na periferia, os modelos contratados para os ensaios fotográficos de divulgação da marca e os cenários são moradoras e moradores desses lugares. Além disso, é utilizado outros

métodos de divulgação que tenha a ver mais com o tipo de trabalho. A marca já fez parceria com um grupo de rap que lançou uma clipe que leva o mesmo nome da marca, já foi patrocinadora de um jogo solidário dos amigos do MC Guime contra os amigos do Goleiro Ederson. Mas o principal foi o apoio inicial do rapper Crônica Mendes, organizador da “Batalha das Fábricas”, uma competição de rimas que acontece na Fábrica de Cultura do Jardim São Luis. “Era o início para nós, a gente se fortaleceu junto”. A parceria funciona da seguinte forma: o ganhador da noite leva uma camiseta da Corre, além de outros produtos de outras marcas, que fortaleceram o rolê após ver a propagação da Corre. A divulgação é feita dessa forma ou digitalmente. “Não temos loja física, é totalmente pelas redes sociais. A ideia é construir um site, mas estamos caminhando.”

“Eu visto Corre em qualquer lugar que eu vou”

A Corre surgiu após os amigos Fabricio Rodrigues, Otávio Luiz, Melissa Rodrigues, Kaique Nazario e Willian Graniero precisarem de verba para o projeto de entrevistas Café de Quebra. A marca roubou a cena e se tornou a principal atividade do grupo. Foto: Arquivo pessoal.

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“O mundo deveria consumir mais rap, talvez as pessoas teriam mais noção das coisas que estão fazendo”. Outra pessoa que ajudou muito na difusão da marca foi o rapper Ed Rock, do grupo Racionais MC’s. Ao lançar uma música chamada ‘Corre Neguin’ com Xandy de Pilares, os produtores dos artistas convidaram os criadores da marca para o show de lançamento. Além do show, o grupo também foi convidado para o lançamento da música na sede do Tidal. “O cara é mó gente boa. Os Racionais é inspiração pra tudo que a gente possa pensar de quebrada. A gente curte muito rap, tá ligado? A quebrada consome muito rap. O mundo deveria consumir mais rap, talvez as pessoas teriam mais noção das coisas que estão fazendo”, comenta Kaique. O Café de Quebra está parado por enquanto, o foco total é na Corre, que vem com coleção nova para o verão, com lançamento marcado para o dia 23 de novembro, no mesmo lugar em que acontecem as batalhas. Durante o evento vai rolar pocket show, desfile e discotecagem. “Quem diria, eu tô pensando igual a C&A: primavera-verão”, ironiza Otávio, “vamos lançar boné, bermuda, umas roupas mais pensadas no calor”. A busca é também por um crescimento administrativo “Queremos crescer em planejamento interno e visual, como nas fotos e até criar um site. Mas tem que dar o tiro certo também, não adianta fazer o bagulho sem ter perna pra cuidar. As coisas vão acontecendo naturalmente. Esse convite do Ed Rock, o convite para o jogo beneficente em Osasco, ajudam a crescer”. Isso é periferia: estudo, trabalho, correria, sonhos… E empreendedorismo. Para Kaique e Otávio, rap é o ritmo mais influente na periferia. Foi esse estilo inclusive que influenciou a criação da marca. Foto: Luiz Lucas.

Assista trechos exclusivos da entrevista acessando o qr code ao lado 6


quebrada indica

Livro Reservado

Foto: Laboratório Fantasma

João Victor é um menino tímido, da cor do talvez e que na infância sonhava em andar de busão, mas um específico, aqueles que passam escrito “reservado”. Sem saber o destino desse ônibus, João embarca em uma viagem que proporciona muitas surpresas e desafios. laboratoriofantasma.com/livro-reservado

Foto: Trip Advisor

Rap Burguer Tá afim de comer um Rincon Sapiência enquanto escuta… Rincon Sapiência? Isso mesmo, você não leu errado. A hamburgueria localizada na Rua Augusta (a periferia invade mesmo!) nomeia seus lanches com figuras clássicas do rap, desde Grandmaster Flash, precursor do ritmo, até Karol Conka, grande nome da cena atual. É a união de ritmo, sabor e poesia.

www.facebook.com/ rapburguer

Foto Trip Advisor Foto: Instagram @loadcomics

Solo Sagrado Guarapiranga

Canal LØAD

Procurando paz em meio ao caos? O Solo Sagrado Guarapiranga é o melhor lugar. Localizado às margens da represa que leva o mesmo nome, o templo conserva 327 mil metros quadrados de jardins, lagos e um espaço voltado à meditação. Acesse o site solosagrado.messianica. org.br e saiba como visitar.

Tá de bobeira na internet? Acesse o canal do LØAD. Nele o youtuber fala sobre quadrinhos, filmes séries e a representatividade que existe nesses universos. youtube.com/TheLoadGamer

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Parça, desenrola

ESPECIAL

e não me enrola

O Desenrola E Não Me Enrola surgiu em 2013. Hoje o projeto está localizado no Centro de Mídias M’ Boi Mirim e é comandado por Ronaldo Matos, Flávia Lopes, Thais Siqueira e Evelyn Vilhena. Foto: Site Desenrola E Não Me Enrola.

Co-criadora do Coletivo Desenrola E Não Me Enrola, Thais Siqueira começou a se entender como sujeita periférica na universidade. Hoje, juntamente com Ronaldo Matos, Flávia Lopes e Evelyn Vilhena, luta por uma comunicação que conecta as quebradas.

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Leia essa matéria enquanto escuta a música Noiz, do Emicida


A

relação de Thais Siqueira com falar só da zona sul. Quando cobríaa periferia vem desde a infânmos eventos aqui da ZS e tinha uma cia. Hoje moradora do Jardim galera da leste, pediam pra a gente Ângela, já passou por muitas queir lá.” Porém, nesta parte, cabe um bradas e vivências até encontrar desabafo. Como diz o meme: ‘sem seu propósito na comunicação. Foi tempo, irmão’, as reportagens muiatravés dos saraus da Cooperifa tas vezes eram feitas de sábado e e do Binho, da região sul de São domingo. “No final de semana, em Paulo, que começou a que poderíamos estar se entender como peri- “Quando você começa a se comendo uma feiferiana. “Começou a conectar com as pessoas, joada e se divertindo, partir das reportagens você não está falando só de enquanto estudantes que a gente fazia dende jornalismo, o que tro do Desenrola e Não pauta, você está falando de estávamos fazendo? Me Enrola. Toda vez histórias e vivências” Reportagem!” Mas que íamos em algum para Thais isso era lugar, a gente aprendia com aquele muito gratificante, pois em cada espaço e saía com energia boas. matéria se criava uma nova coneCompreendi vários processos do que xão e quando perceberam, estavam acontece nas periferias através dos em rede. projetos que eram desenvolvidos A partir disso nasce o Desencom o intuito de trazer mudanças rola. Porém, uma das coisas que nos territórios”. Thais queria, era trabalhar com Sobre ser discriminada por se aprejovens, mas não sabia como fazer sentar como moradora de periferia, isso. Após muitas conversas, surgiu Thais é sucinta: “nunca tive vergoo Você Repórter da Periferia, que nha de dizer de onde eu vinha!” busca formar jornalistas através de Nos lugares onde passou, trabalho vivências periféricas. Em sua sexta e principalmente na universidade, edição, muitos jovens que passaela se orgulhava em dizer isso e a ram pela vivência hoje trampam resposta sempre vinha de forma tanto dentro da comunicação como positiva, pois os colegas também fora dela. Ninguém saiu da mesma moradores de territórios periféricos, forma que entrou e todos eles criaantes com vergonha, passaram a se ram uma relação com o território. sentir à vontade. “Alguns criaram o próprio coletivo; Na faculdade surge uma inquieuma jovem se formou em história e tação por fazer algo relacionado foi dar aula em cursinho popular e ao local de pertencimento. Comeenquanto professora, ela entendeu çou com um blog, com a ajuda do que isso fazia sentido pra ela, devolentão colega de classe Ronaldo ver pro território o saber; tem jovem Matos. Thais ainda não entendia que foi pro meio corporativo, nosso muito bem os processos culturais intuito é do jovem ser e fazer o que que aconteciam ao seu redor, já quiser.” Ronaldo conhecia um pouco dessa vivência. “Começamos a fazer várias reportagens, mas não queríamos

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Logo do projeto “Você Repórter da Periferia”, que tem o objetivo de formar jovens comunicadores através de um olhar periférico.

Além do Desenrola e Não Me Enrola e do Você Repórter da Periferia, o coletivo formado por Thais, Ronaldo, Flávia Lopes, que participou da formação em 2014 e Evelyn Vilhena, participante de 2016, administram o Centro de Mídias M’Boi Mirim. E de onde vem a verba pra tocar tudo isso? “Costumamos brincar falando que somos cria do VAI (Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais). Em 2014 ganhamos nosso primeiro edital, da Secretaria de Cultura, focado em jovens das periferias de São Paulo”. Com essa verba, o coletivo adquiriu equipamentos

e puderam fornecer alimentação para participantes da formação de jornalismo, feita aos sábados, com duração de seis meses. Em 2015 ganharam novamente, mas em 2016 o bagulho ficou louco: tiveram que tocar o projeto sem nenhuma grana, com dinheiro do próprio bolso. Um ano depois a situação mudou e após ganhar a Lei de Fomento à Cultura da Periferia, conseguiram criar o ‘’Centro de Mídias’, manter o projeto Você Repórter e todas as outras ações que desenvolvem. “A partir da Lei de Fomento também passamos a trabalhar 100% para o

“Ninguém faz nada sozinho, ninguém chega em algum lugar sozinho. Eu não acredito em meritocracia e todas as pessoas, os coletivos culturais, socioculturais e articuladores que fomos encontrando, foram de extrema importância para o Desenrola desenvolver todos os projetos que ele desenvolve hoje” 10

coletivo e isso foi muito libertador”. Em 2018 a verba chegou ao fim, mas o coletivo conseguiu se manter firme graças a uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo). “A gente sempre escutou que nas campanhas de financiamento coletivo, a maioria das pessoas que doam são pessoas que não são da periferia, pois elas não têm essa cultura de fazer doações. Mas quando finalizamos a vaquinha e fomos olhar os dados na Juntos, plataforma utilizada para arrecadar a verba, vimos que a maioria das doações vieram de dentro da periferia, só que com valor menor, e a minoria veio de fora, com valor maior. Ficamos muito felizes pois percebemos que a galera da quebrada fez a doação para que o espaço continuasse aberto, isso foi muito importante para nós, porque a galera da quebrada entendeu que o centro de mídias é importante”. Além dessas formas de arrecadação, o coletivo presta serviços de comunicação pra galera da própria quebrada ou pra quem é de fora, mas nesse caso, só se o que está sendo pedido fizer sentido para as pessoas envolvidas no trabalho.


Jornalista, educador e pesquisador, Ronaldo Matos é um dos fundadores do Desenrola E Não Me Enrola. Foto: Rodrigo Elizeu, site Conexão Planeta.

Mas não são todas as pessoas que conhecem trabalhos como o do Desenrola, então Thais explica como é ser moradora e morador de periferia os dividindo em dois grupos: os que se sentem à vontade em morar nesses lugares e os que não. “Se estivermos falando da galera que desenvolve projetos na quebrada, de professores de cursinhos populares que trabalham para garantir que os jovens cheguem às universidades, dos próprios alunos dos cursinhos, de uma tiazinha que vende gelando em casa e aquele território é importante pra ela, essas pessoas se orgulham do lugar em que estão. Mas também temos uma parcela total-

mente bombardeada pelas mídias tradicionais que quando falam de periferia, só mostram a violência”, e isso é utilizado como discurso dos próprios periferianos. Em 1996 a região do Jardim Ângela foi considerado pela ONU (Organização das Nações Unidas) a mais violento do mundo. Thais conta que recentemente foram até o Centro de Mídias entrevistar Jordan Fields, professor do ‘Inglês na Quebrada’, um dos projetos que ocupa o espaço. “Tinha tanta coisa bonita pra falar, mas começaram a reportagem falando ‘o Jardim Ângela, um dos bairros mais violentos de São Paulo…’ Nos anos 90, sabemos que realmente foi considerado o bairro mais violento do mundo. Mas estamos em 2019 e a mídia tradicional vem sempre tratando da mesma forma, trazendo a questão da violência. Não conseguem simplesmente retratar o que está acontecendo de bom”. E mesmo assim, indo contra esse pensamento da mídia hegemônica, Thais entende que o que une as pessoas, é a esperança e conclui. “Dentro das pessoas há esperança: esperança de mudança, de melhoras e um desejo de transformação. E além dos moradores, temos vários coletivos e articuladores para trazer cultura e diversidade pra quebrada. A esperança de transformação de um lugar melhor é a maior riqueza”.

“Cada periferia é única, cada território é único e cada um tem uma história, algo muito significativo e importante para contar”

O coletivo lançou um livro como recompensa de um financiamento online, que tem o objetivo de captar verba para manter o centro de mídias funcionando. Foto: Desenrola e Não Me Enrola. 11


favela vive T

udo começou com uma banda em 1989. O grupo foi um dos primeiros da região do Jardim Ângela. Sem dinheiro, os amigos resolveram montar instrumentos a partir de materiais reutilizáveis. Assim nasce o ‘Poesia do Samba’, que teve seu nome alterado em 2001 para ‘Poesia Samba Soul’.“Percebemos que a música era um caminho muito fácil para se comunicar. Onde tinha música, não tinha violência”, conta Claudio Miranda, integrante da banda e fundador do ‘Instituto Favela da Paz’. Além dos instrumentos, o grupo também construiu um estúdio com circulação de ar natural, graças ao irmão de Claudio, que segundo suas palavras, sempre foi muito inventor. Um ponto de virada para o grupo foi quando Fábio viajou para Portugal em 2009. O local de visita foi uma ecovila autossustentável, que juntava jovens do mundo inteiro para uma universidade de verão. “Tinha 500 pessoas, 60 países envolvidos e eu era esse único jovem que saiu aqui do Brasil pra entrar nesse congresso durante 3 meses”. Quando voltou para o Brasil, Claudio explicou para o irmão e para Hellen Fernandes, outra integrante do grupo, a experiência que teve e os influenciou a largar tudo e viajar com ele novamente para a vila, a fim de aprender as técnicas sustentáveis utilizadas lá. “Fomos duas vezes em 2010 para Portugal. Uma para um encontro de músicos do mundo todo e depois para um encontro chamado ‘Campus Global’, voltadas a iniciativas em áreas de risco. No ano seguinte, ainda na missão de aprendizado o grupo foi convidado a visitar um local chamado Comunidade de Paz San Jose, na Colômbia, no meio da Amazônia, onde morreram 250 pessoas em um conflito. E assim nasce o ‘Instituto Favela da Paz’, uma casa autossustentável localizada no bairro Jardim Nakamura, extremo sul de São Paulo. “Aquela comunidade nos inspirou. Apesar de tanta violência que eles sofreram, eles conseguiram se reerguer e se manter em comunidade”.

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O Instituto Favela da Paz está localizado no Jardim Nakamura, zona Sul. O prédio sustentável funciona à base de energia solar, circulação de ar natural e um biodigestor que transforma lixo orgânico em gás metano. Foto: Luiz Lucas.

De lá pra cá tudo mudou. Fabio criou o projeto ‘Periferia Sustentável’, que ensina teorias e práticas de tecnologia e energias renováveis e funcionais à jovens, Hellen fez nascer o Vegearte, com aulas sobre alimentação saudável, sustentável e orgânica, com uma pegada mais empreendedora, onde moradoras aprendem técnicas desse tipo de alimentação e cuidam do coffe break de empresas. Outro integrante, o ‘Pequeno’, é responsável pelo estúdio de música e dá aulas de percussão à crianças do bairro. Essas são as principais, mas o instituto abriga atualmente 13 iniciativas voltadas ao crescimento cultural do Jardim Ângela. O grupo também tem parcerias com projetos internacionais. “Hoje não somo só a Favela da Paz, somos um coletivo muito maior”. Para Fabio, o instituto não tem como foco mudar ninguém e sim causar reflexão. “Devemos pensar um pouco em quem somos, por que estamos aqui e qual a beleza deste lugar”. Essa é uma das missões, mostrar o que de positivo tem na comunidade. “O ser humano precisa de gente, não de parede, e isso temos aqui”.


“fala no microfone!”

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Slam: um estilo de batalha poética. Treze: Largo de Santo Amaro, onde está localizado o terminal do bairro, um palco diferente, onde poetas disputam suas vozes com o barulho do ronco dos ônibus. Saiba mais sobre essa mistura no texto.

Leia essa matéria enquanto escuta a música Porque eu rimo, do Kamau

ronco do motor de fundo afirma: mais um ônibus chegou na plataforma. Enquanto isso, um poeta está no microfone, declamando suas poesias. Dividido em duas modalidades, ele tem no mínimo treze segundos ou até três minutos para conquistar os jurados e o público. As notas são de zero a 13 e quando o jurado não dá a maior nota, se escuta da plateia, em alto e bom tom: ‘creeedooo!!!’ Mas a revolta em forma de brincadeira não é dita a quem tirou a nota e sim a quem deu. Já se a nota for treze, se escuta um ‘pow pow pow’, e assim a batalha de poesias segue, até sair um campeão. Essa é a rotina do Slam do 13, evento que acontece toda última segunda-feira do mês, no Terminal Santo Amaro, numa região conhecida como Largo Treze. Thiago Peixoto, o “Poeta Ambulante” é criador da batalha e explica como surgiu a ideia. “Na época, os slams ainda não eram muito difundidos na cidade e não existia nenhum na Zona Sul. Após conhecer a poesia slam, filha do sarau, resolvemos trazer para o local em que moramos. Agora já são seis anos dessa caminhada”.

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O local de escolha não foi por acaso, foi pensado em um local público, para que qualquer pessoa pudesse chegar. O Terminal Santo Amaro foi escolhido como berço para a batalha pois é de fácil acesso. O primeiro encontro ocorreu na saída do Metrô Largo Treze, logo abaixo do terminal, mas na segunda edição choveu, então eles correram para as plataformas superiores do terminal e ali estão até hoje. Sobre a autorização para ocupar o espaço, o poeta comenta: “Nossa licença é de ‘Santamarense’! Não fomos na SPTrans, mas a galera que trampa aqui tá ligado que acontece, fomos construindo esse relacionamento. No começo o slam era mais discreto, colava umas 20 pessoas. Hoje é um evento grande, mas o terminal é parceiro da gente, tanto que eles já emprestaram até extensão”. E por que um slam é importante? O pensamento de Thiago é que em um contexto onde a censura está tomando forma novamente, ter um local de fala

é essencial. Foi um dos motivos que fez nascer o slam. “Cara eu penso que o espaço de fala é para além da quebrada, o importante é estar em todos os lugares e falando o que a gente pensa. O slam é esse lugar pra você falar o que quiser falar. Esses espaços que se propõe abrir uma roda de debate através da poesia é fundamental, onde a gente pode construir as nossas lutas”.

“O rap é ritmo e poesia, a gente só tirou o ritmo e ficou com a poesia” Esse tipo de evento poético chamado de batalha surgiu de outro movimento também muito conhecido na quebrada, os saraus, que se misturou com as batalhas de rap, de onde surgiram grande nomes do Rap Nacional, como Emicida, Rashid e Criolo, este último muito conhecido na Zona Sul, por ser

morador do Grajaú e cantar o local em que vive em várias faixas dos seus álbuns. Como ainda eram muito novos, os primeiros poetas de saraus faziam suas rimas como se estivessem cantando rap. “Somos filhos dos saraus, que é filho do rap e do movimento hip hop, que surgido na década de 80 e 90, então tem tudo a ver. O rap é ritmo e poesia, só tiramos o ritmo e ficamos com a poesia”. A missão do Slam do Treze é difundir o movimento e gerar grana para os slammers, nome dado aos poetas. Todo o dinheiro arrecadado com patrocínios ou convites para eventos, é revertido a quem batalha. “Em um país que nem valoriza a cultura, não valoriza nada, a gente conseguir ter um ponto cultural que proporciona isso, pra tentar fazer na raça, independente, é muito significante”.

“A poesia é quem vence sempre” é o bordão utilizado pelo Treze para demonstrar que o que importa, no final, são os espaços de democracia e liberdade que temos por direito. Foto: Luiz Lucas.

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Rafa Ribeiro, de poá para o mundo

Frequentador do Treze e cria de Poá, Rafael Ribeiro começou a frequentar as batalhas em 2016, mas só teve coragem de recitar em 2018. “Eu achava que não tinha muito a ver, que não era ali, aquele lugar e eu também não me sentia pronto”. Mas tudo mudou no Slam BR de 2017, o Campeonato Brasileiro de Poesia Falada, onde se apresentam slammers de todo o país, escolhidos em eliminatórias de slams locais, como o do Treze. Rafa percebeu assistindo a competição que o que estava sendo falado ali tinha tudo a ver com seus textos, que eram os relatos de suas vivências. “O que eu escrevia não era exatamente igual, mas eu me via representado naquelas pessoas que estavam falando e eu queria fazer parte daquele grupo. O jeito que eu vi de fazer parte era recitar poesia.” Um dos motivos que o faz ir nas edições do Slam do Treze é a facilidade de chegar e porque ali passam pessoas que, diminuem o ritmo apressado já conhecido dos paulistanos para apreciar poesia. “Ela pensa ‘vou chegar

Diretamente de Poá, Rafa Ribeiro é organizador do Slam do Moinho, realizado na favela de mesmo nome na Zona Leste. Foto: Facebook Rafa Ribeiro.

atrasado hoje, mas dane-se, vou ouvir poesia’. E você percebe que a pessoa está olhando, tá prestando atenção,batendo palma, não é superficial. Ela está realmente absorvendo alguma coisa desse rolê.” Sobre suas referências, o poeta é crítico à situação vivida nas escolas públicas, onde muitas vezes não é apresentado poesia às crianças. “. A gente não aprende a ler poesia na escola, né? Aí acaba sendo a rua memo”. Para o poeta, o slam tem extrema importância nesse aprendizado, e é um jeito que ele encontrou de aprender e mostrar que a periferia tem voz: “tem gente pra falar e tem gente pra ouvir, mesmo que seja só entre nós, um ouvindo o outro”. Para ele, é gratificante encontrar poetas que um dia foram seus ídolos, como Márcio Ricardo, Kimani, Fernão e Kaya, em que ele se espelhava, e que hoje pode batalhar contra e chamar de amigo.

A gente vê direto gente que tá passando no terminal e para e fica até o final. Ela pensa ‘vou chegar atrasado hoje, mas dane-se, vou ouvir poesia’.

Rafa Ribeiro se orgulha em dizer que em 2018 foi em todos os slams de São Paulo. Já este ano, ele optou por ter um ritmo mais devagar, pois entrou como organizador do Slam Moinho Resiste, “Fazemos pelas crianças. Tem a molecada lá que está esperando que tenha o evento. Também sabemos que lá seremos resgatados, salvos pela poesia, pelas crianças, pelo espaço, por sentir que aquilo lá continua resistindo e que está plantando uma semente para colher depois”.

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batendo um lero

Antes eu procurava no Google, hoje é o Google quem me procura

Leia essa matéria enquanto escuta a música Só Moleque Bom, do NGKS e Rincon Sapiência

Ele tem apenas 21 anos, é formado pela Énois - Escola de Jornalismo de notícias, é fotógrafo e produtor. Passeia entre o Rap e o Funk, ritmos presentes nas trilhas sonoras de toda moradora e morador da periferia. Bati um lero com Jeferson Delgado, o “fotógrafo dos bailes” e criador do canal Favela Business, onde apresenta um olhar empreendedor da cultura de periferia. Dá um liga.

Por que você escolheu o Jardim Rosana, no Capão Redondo, para dar entrevista? Aqui foi o lugar que eu nasci e cresci e tive todas minhas vivências, aprendi a ser quem sou e voei pro mundo. Quando você se entendeu como periferiano? Para entender você tem que achar uma coisa oposta, como por exemplo ter uma vivência com gente rica. Me entendi como periférico quando fui ver outra realidade. Fui morar na USP e tinha muita gente com dinheiro, que não passava o mesmo perrengue que eu, ou até mesmo quem passava, então rolava mais empatia um pelo outro, entendia como era a correria.

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Quando você se interessou por fotografia? Em 2016 participei da produção do festival ‘Por que a USP não tem cotas?”, trabalhando no bar e vendo o KL Jay tocar. Uma menina que estava no audiovisual do evento perguntou se eu queria a câmera pra tirar umas fotos e pensei ‘ah, vamo nessa’. Ficaram horríveis porque eu nunca havia tido contato com câmera profissional, não sabia fazer fotometria, não sabia o que era ISO, obturador. A câmera nem era dessa mina, era do Fernando, que fazia audiovisual na USP. Depois dessa experiência ele me emprestou a câmera por seis meses, então criei o canal Favela Business, que fala sobre empreendedorismo periférico. Foi um puta suporte que ele me deu, hoje eu estou aqui porque tive esse contato.


“Essa parada de referência é um peso porque quem não pode errar sou eu”.

Jornalista, produtor e fotógrafo, conhecido por fotografar os bailes funks de São Paulo. Nos últimos meses Jef cobriu a turnê de três décadas do grupo Racionais MC’s. Foto: Facebook Jeferson Delgado.

Como ser de quebrada contribui com a sua carreira? Eu gosto de escrever sobre os bagulhos que estão acontecendo na quebrada ou já aconteceram, o que é cultural e o que está em alta, então me entender periférico e ser de quebrada fortalece. Quando vou fotografar os bailes eu sei como entrar, como sair, sei do respeito e a procedência. Os boyzão entra na quebrada sem disciplina nenhuma. Tem que ter malícia pra saber onde você está chegando. Você se considera uma referência no trampo que você faz? Quando o assunto é fotografia, aqui no Rosana não se conhece outro fotógrafo. No Capão é claro que tem, mas um que transita entre várias áreas, Rap e Funk, que trabalha com artistas, querendo ou não eu sou um dos poucos, porque me destaquei. Na quebrada eu acredito que sou referência, mas mantenho meus pés no chão. Entrevistei um personagem que me disse “essa parada de referência é um peso porque quem não pode errar sou eu”. Os mernozinho se espelha em você. E se eu fosse um mano que usa droga? Eu não quero passar esse espelho para eles. Se for passar, que seja no trampo.

Como é ter a responsabilidade de produtor do grupo NGKS, com pessoas que tem praticamente a mesma idade que você? Ser jovem e artista é mil grau, é um bagulho que ninguém fala. Às vezes você não está preparado. O Bafo [outro produtor do grupo] tem 20 anos, eu tenho 21, os moleques do NGKS tem de 18 a 21 também, a gente amadurece juntos. É óbvio que a produção amadureceu mais rápido porque tem mais entregas e responsabilidades. Por ser de quebrada, nunca imaginamos que iríamos fazer quatro shows numa noite, ir pra outro estado. O NGKS não é um MC só, são cinco, é uma responsabilidade muito grande que eu não imaginava, mas sempre quis ter, sempre pensei “mano, ter vivência do lado dos artistas deve ser foda”. É questão de tempo e de vivência, com o tempo você vai amadurecendo e com a vivência também. O que mais representa a quebrada: rap ou funk? Os dois representam muito bem. O rap representou 100% no passado, mas hoje o funk está em alta. Seja pelo rap raíz até o mainstreaming: o que mais vende, o que chega nos mais jovens, seja um ‘Poetas no topo’ ou um ‘Favela vive’, representa muito. O funk também tem várias vertentes dentro dele, desde o que a gente chama de putaria, que é o que narra a vida noturna do jovem de quebrada, o consciente, que fala das nossas necessidades, até o ostentação, que é o que a gente projeta também pro nosso futuro. O rap e o funk tem a mesma projeção de representar a quebrada hoje.

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A periferia está no hype? Quando estamos falando de hype, estamos falando de moda? Se for partir deste princípio, até está. Todo mundo quer se vestir igual nóis, andar igual nóis, falar igual nóis, mas não conseguem ter a mesma vivência que nóis. Essa é a diferença do bagulho, na bolinha do olho a gente consegue se identificar. Tem gente que é bobo e até coloca boy pra dentro da nossa vivência, mas não arruma nada.

“Todo mundo quer se vestir igual nóis, andar igual nóis, falar igual nóis, mas não conseguem ter a mesma vivência que nóis.” Qual música mais te representa? Uma é difícil, até o estilo também, entre o rap e o funk fica difícil, mas tem músicas que fortalecem muito o corre. Eu lembro de uma música que foi decisiva na minha caminhada, que é Sonhos, do Inquérito com participação do KLJey. Tem uma parte da música que é “você só vai saber quando tentar”, foi aí que tentei e lancei o Favela Business. Eu só saberia se iria dar certo se eu tentasse. Deu certo e tamo caminhando.

Delgado é produtor do grupo de funk NGKS, que estourou na internet com o “Passinho dos Maloka”. Foto: Felipe Max, Kondzilla.

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Como foi passar de vendedor de bebidas na entrada do Lollapalooza à convidado de várias marcas para ir ao festival? O corre é louco! Esses dias eu estava até pensando: o que eu sou? Eu ainda sou o que eu era ou sou o que eu sou hoje? Eu ainda sou o moleque que ninguém dava nada, ainda sou o moleque que foi expulso da escola, ainda sou o mesmo, nada mudou, só aprendi outras paradas, outras ferramentas, cheguei em outros espaços. Esses dias meu parceiro me chamou e falou: “caramba, Je, cinco anos atrás ninguém dava nada pra você, né, mano? E olha onde você tá hoje. Você tá com os caras, cê tá viajando, todo final de semana em um estado diferente.” Nem eu entendo, cachorro. Aqui na quebrada é assim, todo mundo já nasce sem expectativa nenhuma. O Lolla é um bagulho louco, foi uma época mil grau da minha vida, estava sem trampo, morando só, precisava pagar conta. Fiquei oito meses vendendo bebida. No evento foi mil grau, tinha muito GCM [Guarda Civil Metropolitana], corri muito. Cheguei nove da manhã com meu parceiro João, que foi vender trufa da mãe dele e eu fui vender Catuaba, vinho, água e cerveja, com dois coolers grandão, carrinho pesado e correndo pra caramba. Só consegui vender minha primeira água 13h20. Três anos depois cheguei como convidado. Nossa, bebi demais! Tenho vários copos lá em casa, porque os boyzão não leva copo de festival, já nóis ama copo… De graça, né? Foi uma virada, uma


roda gigante, a vida é uma roda gigante. Eu fico pensando: hoje eu tô aqui, quem sabe um dia eu possa estar em baixo, mas a gente sempre luta pra permanecer em cima.

“A vida é uma roda gigante. Hoje eu tô aqui, quem sabe um dia eu possa estar em baixo, mas a gente sempre luta pra permanecer em cima.” O que você curte mais: ser produtor do NKGS, fotógrafo ou produzir para o Favela Business? Se contempla nos três juntos, mas hoje eu tenho curtido muito a fotografia, estou descobrindo um novo olhar. Produzir o NGKS é um bagulho que eu gosto muito de fazer também porque é uma vivência noturna. Quando a cidade está dormindo a gente tá trabalhando, isso é foda. Sejam os artistas, seja o pessoal que está trocando o banner de ponto de ônibus, seja os motoristas de busão 24 horas, a cidade não dorme.

Por que a comunicação e a cultura perifieriana são importantes? Cultura e informação é um bagulho que os políticos, principalmente, não querem que a gente tenha acesso, pois é uma questão de avanço. O momento que a gente vive do país hoje, os cortes que a gente tem na educação, na cultura, enquanto o presidente está investindo milhões na questão militar, é um ataque direto. Não querem que a gente cresça, que a gente abra nossa mente. Cursos como a É Nóis, o Você Repórter da Periferia, Escola de Notícias e muitos outros ajudam as pessoas a terem outro tipo de contato. Até os cursinhos populares, como o Carolina Maria de Jesus e o Núcleo de Consciência Negra, que fica na USP, mas tem muita gente de quebrada que vai lá pra estudar e ter uma vivência diferente. É genial e transformador, um divisor de águas pra muita gente, assim como foi comigo. Temos que perceber o quanto a cultura e informação são essenciais pra não ramelar mais uma vez.

“ O que chega primeiro no jovem de quebrada: a universidade pública ou o acesso ao crime?” Qual sua dica para jovens que estão à procura do primeiro emprego? A gente fica naquela dúvida: o que chega primeiro no jovem de quebrada, a universidade pública ou o acesso ao crime? Tem que pensar muito nisso. Pede ajuda e fortalece suas referências, manda mensagem pra aquele cara que você acha que é foda, se espelhe em quem está próximo, se aproxima, abraça, trocar ideia, pergunta como é a parada. Assim como o jovem que perguntou pra mim como era fotografar e eu ensinei e hoje ele está na equipe de um artista de funk muito grande. A ideia é essa, ter acesso e questionar as paradas.

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Foto: Luiz Lucas


bastidores

Não é desenho A PerifaCon, “a primeira ComiCon da favela”, ocorreu no dia 24 de março e reuniu sete mil nerds de quebradas de todos os cantos na Fábrica de Cultura Capão Redondo. Igor Nogueira é um dos produtores do evento e revela tudo que rolou na primeira edição. Já segura esse spoiler: a próxima acontece na zona leste, nos dias 11 e 12 de abril de 2020. Quer saber mais dos bastidores e os próximos passos desse evento que entrou para história? Então dá um liga no texto.

Leia essa matéria enquanto escuta a música Não é Desenho, do Rashid

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U

m evento que parou a Zona Sul e trouxe alegria para quem mora no Capão Redondo. É assim que Igor Nogueira, um dos sete produtores da primeira edição, resume o que foi o dia 24 de março de 2019, um domingo que ficou marcado na história e na memória de todo nerd de quebrada que compareceu ao evento. A ideia de início era simples: Matheus Polito, conhecido como Naruto, e Mateus Ramos propuseram à um grupo de amigos uma troca de quadrinhos na periferia. “A ideia surgiu da falta de acesso aos grande eventos de cultura pop, de ter que pagar o ingresso e depois, além de pagar o ingresso, não ter dinheiro para consumir nada lá dentro. Pensamos: por que não existe esse tipo de evento na quebrada?” Conta Igor Nogueira, que ao lado de Luize Tavares, Andreza Delgado, Gabrielly Oliveira, Mateus Ramos, Naruto e Pedro Okuyama criaram a PerifaCon - a primeira ComicCon da favela, que foi composta por mesas de debate, oficinas, concurso de cosplay e claro, muita ‘nerdice’. O nome surgiu da junção de periferia e convenção, aos moldes de outros eventos do mesmo estilo, como a ComicCon Experience (CCXP), edição brasileira considerada a maior do mundo e a San Diego Comic-Con, precursora do movimento iniciado em 1970. O diferencial do PerifaCon é o recorte periferiano, com entrada totalmente gratuita, diferente das outras. “Conversamos muito com o pessoal da própria CCXP sobre estar junto e de não ser uma concorrência, não é isso que a gente quer, afinal, eles têm o público deles e a gente tem o nosso, só existimos porque eles existem, e principalmente, estamos cobrindo uma demanda que eles não conseguiram”.

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Para os criadores, o mais importante de tudo é o impacto social causado pelo evento. “Muito mais importante do que a mídia é a galera do bairro, o que mais impactou pra gente foi ver como eles foram, curtiram e apreciaram”. Mas o evento não foi voltado apenas aos moradores do entorno da Fábrica de Cultura do Capão Redondo. Com algumas perguntas rápidas na fila deu pra perceber que tinha gente de todos os lugares: outras regiões de São Paulo, do interior e até de outros estados, como do Rio de Janeiro. “Fizemos a contagem e quatro mil pessoas tiveram acesso à programação ao evento. Ficaram de fora três mil, mas que tiveram acesso a programação externa. Infelizmente não conseguimos colocar todo mundo por conta da lotação máxima de segurança da Fábrica.” Além das vendas de produtos oficiais da marca PerifaCon, como camisetas e


A primeira ComicCon da favela ocorreu no dia 24 de março, na Fábrica de Cultura do Capão Redondo. A próxima está marcada para os dia 11 e 12 de abril na Cidade de Tiradentes, Zona Leste. Foto: Facebook Perifacon.

pôsteres, o evento impactou na economia do bairro, com pessoas abrindo a porta das casas para vender coisas na garagem. “Esse contato com o público foi muito importante. Obviamente que as notícias surpreenderam, porque nunca tivemos contato com nada disso e ver a gente saindo em mídias que a gente consome, tipo Kondzilla e Vice, foi muito importante.” Para a próxima edição, a escolha da Zona Leste foi unânime entre a equipe, após o público pedir em peso uma edição nesta região. Em postagens nas redes sociais sobre a escolha de uma casa para a edição 2020, foram mais de dois mil comentários pedindo a ZL, então resolveram acatar o pedido. “Fizemos uma parceria com a Fab Lab, um órgão da prefeitura que tem laboratório, com impressora 3D e várias paradas muito loucas, com a sede dentro do Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes. Eles entraram em

contato com a gente pra fazer alguma coisa no PerifaCon 2020 e eles falaram ‘meu, tem esse lugar, vocês podem ir lá, a gente faz a ponte’. E não deu outra, deu tudo certinho. A gente queria Zona Leste, tinha esse contato, marcamos de conversar com o gestor de lá, que é um cara preto, então foi facinho, saímos de lá com a data”. Além do local para a próxima edição, o grupo já tem um grande parceiro definido, o Twitter, que entrou em contato à princípio para um pitching, um jeito chique de falar curadoria, de pessoas que estavam expondo no evento num espaço chamado Beco dos Artistas. No dia do evento para apresentar esse pitching na sede do Twitter, a empresa anunciou que entraria com patrocínio na próxima edição. “Ainda não caiu na conta, mas eles falaram publicamente que iam patrocinar o evento, então a gente tá contando com isso, né, twitter?!” Brinca Igor. Sobre o interesse das marcas no evento e na periferia em si, ele expressa a visão de um interesse por um público que grandes empresas ainda não conseguiram atingir totalmente. “No PerifaCon falamos muito disso, como consumimos e como as marcas precisam olhar e conseguir entrar com cuidado, de formas que não sejam abusivas e com um olhar delicado para esse público que é gigantesco. Eu não acho que elas são boazinhas e legalzinhas não, é porque querem lucro, principalmente.” Algumas empresas pedem consultoria à equipe do PerifaCon pela experiência com o público.

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O foco do evento era levar alegria para a periferia, e foi isso que aconteceu em 24 de março deste ano, um dia de festa e comemoração para a quebrada. “Essas coisas que estamos fazendo está mudando a história do cenário nerd mesmo. A gente é foda!” Sobre o que ficou de mais marcante no evento, Igor conta a história de uma menina que não foi aceita no Beco do Artistas por causa do número máximo de exposições que a sala comportava. Entre muitas inscrições, o grupo escolheu 44 artistas e mesmo assim, a menina veio do Rio de Janeiro até o Capão Redondo, apenas com uma pasta contendo os prints dos seus desenhos. Por força do destino (para quem acredita), uma pessoa que havia sido escolhida não compareceu, então ela conseguiu ocupar o lugar. “Estava acabando o evento, ela veio e me abraçou muito forte e começou a chorar. Eu não estava entendendo, mas comecei a chorar também. Eu não acompanhei esta história do início, mas ela me contou e disse que conseguiu vender tudo e teve dinheiro pra voltar pro Rio”. De um evento com uma ideia pequena, voltado ao público nerd, surgiram muitas histórias, muitos projetos e o principal: o resgate da cultura periferiana. Esse caso exemplifica o cotidiano e de como é viver nesse lugar. As periferias são compostas de pessoas que acreditam, que não desistem, que já possuem o não, mas vão atrás do sim. Como diria Rashid em sua música ‘Não é desenho’, que foi apresentada no evento e o clipe virou uma mesa de debates com o próprio rapper:

“Do gueto vem, do gueto são um milhão de talento, muitas vez sem opção, mas que tão na função de mostrar que eles são bem maior que sua discriminação. Jão, ta na hora de mudar essa condição”.

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“Se você quer falar sobre periferias, primeiro tenha pessoas desses lugares na sua empresa, porque pra falar precisa ter conhecimento e saber chegar, pisar devagar, falamos isso principalmente para as que desejam entrar no PerifaCon. Não queremos virar um shopping center e nem vamos virar, mas a gente quer que as marcas estejam ali para fazerem diferença, que tenha sentido elas estarem lá e que deixem marcado quem esteve no evento.”


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da ponte pra cá

Leia essa matéria enquanto escuta a música Da Ponte Pra Cá, do Racionais MC’s

Foto: Luiz Lucas

Ele tem comércios pelo bairro até nome de rua. Desde então viu o bairro que fica às margens da Represa Guarapiranga crescer, ganhar asfalto, iluminação e até uma base militar. Conheça Paulo Idei, descendente de família japonesa que chegou no bairro Jardim Aracati há 42 anos.

“Quando cheguei era só estrada de barro. Pra pegar ônibus tinha que subir a pé até a Avenida M’Boi Mirim (cerca de 4 km, 50 minutos andando). Quando chovia tinha que tirar o sapato, colocar o sapato e ir pisando em poças d’água. Não tinha luz e a noite tinha problemas de segurança, então juntavam dois, três, quatro cinco pessoas e vinha a pé até aqui. Vim do Paraná morar aqui porque meu sogro tinha mudado para o Aracati. Aqui não tinha casas, só brejo e chácara e na Estrada da Cumbica só passava caminhão de areia, não tinha esse movimento, ninguém tinha carro aqui. O único carro que tinha era minha Kombi e quando as mulheres ganhavam neném, já me davam o dinheiro da gasolina e deixavam avisadas: “se precisar, você socorre?” As maiores dificuldades que eu enfrentei quando cheguei aqui era médico, creche e segurança. Qualquer coisa que acontecia, se chamasse a polícia, eles vinham de Santo Amaro, pra chegar aqui eram três ou quatro horas. Se tivesse um acidente, uma morte, aí era 12 horas até a viatura chegar. Não 26

tinha ônibus, não tinha creche, quem cuidava dos meus filhos era a mãe de um outro morador, a única pessoa que cuidava de criança. Todo mundo conhecia todo mundo. O primeiro comércio que eu consegui construir aqui foi um sacolão, depois uma padaria, um mercado e açougue. Eu nunca pensei em sair daqui. Eu fiz a vida aqui e não tem como sair. No bairro aqui do lado (Cidade Ipava) eu comprei uns lotes de uma rua inteira, então tinha que colocar um nome. Dei o nome do meu pai que veio do Japão, Yokiyoshi Idei. Foi muita luta! Tinha que usar água de poço não tinha esgoto. Trabalhei de domingo a domingo pra trazer da prefeitura a iluminação, água, asfalto, que chegou em 87... Só três ruas tinham luz, as principais e a rua da escola. Foi uma vida muito sofrida em vista de hoje. Hoje nóis tá no céu, né? Ônibus na porta,consegui trazer a companhia (Batalhão da Polícia Militar) pra cá, pra ter mais segurança. Agora tem duas ou três creches. Graças a Deus está bem melhor.”


gĂ­ria nĂŁo, dialeto!

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