UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL CURSO DE JORNALISMO
RAUENA BARRADAS NUNES
HOSPITAL DO JUQUERY: EVOLUÇÃO DAS PRÁTICAS MANICOMIAIS E SEUS DANOS
São Paulo 2019
RAUENA BARRADAS NUNES
HOSPITAL DO JUQUERY: EVOLUÇÃO DAS PRÁTICAS MANICOMIAIS E SEUS DANOS
Relatório de Fundamentação Teórica e Metodológica apresentada ao curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, como parte dos requisitos para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientador (a): Profª. Dra. Mirian Meliani Nunes.
São Paulo 2019
Ficha Técnica
Formato: Livro Reportagem Título: Sonhos interrompidos – Uma história que se conta Número de Páginas: 60 páginas Número de Capítulos: 4 capítulos Autora: Rauena Barradas Nunes Diagramação: Wesley Gomes Revisão: Maria Aparecida Barbosa Macena de Oliveira Fotografia: Rauena Barradas Nunes, Acervo Prof. José Parada Idioma: Português Edição: 1ª Ano: 2019 Dimensões: 13,5 x 21,5 Papel: Pólen Impressão: AroPrint Fontes utilizadas: Venner – TÍTULO e CAPÍTULOS. Same but different – EPIGRAFE. Texto e Rodapé -
Dedico este livro a todos aqueles que foram excluídos, isolados. Aos meus padrinhos, - in memorian – meu Padrinho, por sempre, e de alguma forma me incentivar a ir cada dia um pouquinho mais longe. Minha Madrinha, por dizer que eu era uma Jornalista incrível, antes mesmo de ser.
Aos meus pais, por sempre
confiarem em mim, e por nunca terem soltado a minha mão. Ao meu irmão por sempre me apoiar. A minha e para sempre Sophi, por ser o meu milagre, através de você aprendi que mesmo nos tempos mais difíceis, nasce um ponto de luz. Você é minha inspiração
AGREDECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus, por ser essencial na minha vida. A Nossa Senhora, por ser meu socorro na hora da angústia. Agradeço a minha mãe, meu pai, e meu irmão, por todo apoio que me deram e por todas as vezes que não desistiram de mim. Ao Edilson Júnior, por sempre me apoiar. Agradeço a todos os professores da Instituição, por todos os ensinamentos e apoio durantes os quatros anos. Em especial, à Prof. Mirian por ser mais que orientadora, mas sim minha Best. Agradeço a Lelê, Jô, Quei, Dê, porque juntas somos invencíveis. A Simone e Letícia por serem minhas companheiras de orientação e a todos os colegas de sala, por todos as manhãs sofrendo juntos. As minhas amigas Alaíde e Venithia, por sempre segurarem minha mão. Ao Robson e Lucas por me motivarem a continuar. A todos meus companheiros da ALEPS que diariamente me incentivaram. E por fim, agradeço a todos que me ajudaram direta ou indiretamente. Meu muito obrigada.
Resumo Olhar para o passado do Hospital do Juquery nos faz lembrar que não é necessário excluir o diferente, mas sim acolher e aprender com a diferença, Sonhos Interrompidos traz à tona pouco da memória do Hospital Psiquiátrico do Juquery, que nasceu entrelaçado com a cidade de Franco da Rocha. Neste trabalho a inspiração se deu pelo interesse em conhecer e penetrar no universo da psiquiatria praticada no município. Sua fama ultrapassou os limites da cidade, tornando-se conhecido como um dos maiores hospitais psiquiátricos da América Latina. Mas quem estava por trás dos muros do Juquery
Palavras-chaves: Luta antimanicomial; práticas invasivas; história de vida; livro reportagem; história da cidade.
SÚMARIO FICHA TÉCNICA RESUMO 1. INTRODUÇÃO................................................................................................6 2. OBJETIVOS....................................................................................................8 3. PROBLEMA E/OU HIPÓTESES DE PESQUISA...........................................9 4. JUSTIFICATIVA............................................................................................10 5. PLANO ESTRATÉGICO...............................................................................11 6. REFERENCIAL TEÓRICO............................................................................13 7. REFERÊNCIAS.............................................................................................15 8. CRONOGRAMA............................................................................................17 9. ORÇAMENTO...............................................................................................18 10. APÊNDICES.................................................................................................19 11. DIÁRIO DE BORDO......................................................................................48 12. ANEXOS........................................................................................................50
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1. Introdução
O presente trabalho propôs o aprofundamento nos aspectos das características do espaço manicomial desde a sua criação, estudando os métodos utilizados que possuíam a finalidade de conciliar a cura e a assistência. A partir daí, trouxemos a visão dos impactos que tais métodos e procedimentos causaram nos pacientes mantidos sob cuidados hospitalares. Aqueles que hoje possuem algum tipo de sofrimento ou transtorno psiquiátrico, um dia já foram tidos como aberrações e loucos. De acordo com o pensamento de Michel Foucault, essa transformação no modo de encarar a loucura começa no século XVII, na Europa. E eis que nos últimos anos do século esta grande inquietude gira sobre si mesma: o desatino da loucura substitui a morte e a seriedade que a acompanha. Da descoberta desta necessidade, que fatalmente reduzia o homem a nada, passouse à contemplação desdenhosa deste nada que é a própria existência. (FOUCAULT, 2005)
A partir de então, a sociedade passa a excluir aqueles que aos seus olhos eram considerados loucos, pois desta forma acreditavam que a cidade seria limpa da presença desses indivíduos. No Brasil, a primeira instituição psiquiátrica nasce em 1841, durante o Império, o Hospício Pedro II, localizado no Rio de Janeiro. A partir daí, o país adotou o modelo de instituições manicomiais e passou a ter envolvimento com a iniciativa privada. O Estado disponibilizava o dinheiro e a fiscalização, um sistema que não funcionou. Hospitais psiquiátricos, chamados de manicômios, passaram a ficar superlotados, além dos pacientes serem tratados sob condições degradantes. A jornalista Daniela Arbex (2009) relata no livro Holocausto Brasileiro esse modelo de tratamento, onde os “diferentes” eram excluídos da sociedade, mantendo-os trancafiados. Nas colônias, apesar de ninguém ter apertado o gatilho, todos carregam em suas costas mortes de inocentes, que viveram e morreram sem poder gritar o que sentiam dentro de si.
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Desta forma, o produto final foi idealizado com o objetivo de verbalizar os métodos utilizados dentro dos antigos manicômios e entendendo quais foram os danos que esses métodos causaram nos pacientes colônias, onde eram mantidos em estado de vulnerabilidade, considerados invisíveis diante da sociedade. Para isso, o livro-reportagem foi escolhido como formatos por ser capaz de traduzir para a sociedade atual as condições de tratamento a que os pacientes eram submetidos. Traz uma narrativa direta dos aspectos psicológicos relacionados ao cárcere em que as pessoas eram mantidas e que deixou marcas, não apenas na pele, mas na história de cada indivíduo, que viveram seus dias dentro dos muros escuros das colônias.
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2. Objetivos A divulgação da norma técnica do Ministério da Saúde sobre novas diretrizes de saúde mental para o Brasil trouxe à tona toda a herança da era manicomial que já vivemos, no inicio de 2019 1 . E, a partir disso, se fez necessário colocar em discussão de que forma essas diretrizes, que se assemelham ao modelo hospitalar já vivido no Brasil, poderiam auxiliar pacientes nos tratamentos psicológicos. Através desse intuito o livroreportagem foi desenvolvido. Trazendo a história do passado para a perspectiva do futuro, fazendo a reflexão sobre o aspecto da saúde mental, tentando conhecer a fundo uma história que já vivemos e à qual não queremos retornar. Resgatar a história da loucura no Brasil, influenciada pela sociedade que desejava excluir o diferente, colocando-o em situações degradantes, mostrando como os métodos de tratamento influenciaram no sofrimento interno de cada paciente ao longo dos anos. A partir do estudo da criação dos asilos colônias no Brasil, foi ilustrado com alguns personagens, que dividiram suas vivências dentro dos muros do Juquery, podendo compreender a cada capítulo os danos psicológicos e físicos que a vida dentro do hospital psiquiátrico causou nos pacientes e funcionários das colônias hospitalares. Além de fazer a reflexão de como é possível olhar para o passado e tirar lições, para que o futuro não vire um reflexo do que já foi vivido, por trás dos portões do antigo hospital psiquiátrico do Juquery.
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Disponível em www.abrasco.org.br. Acesso realizado em 06/05/2019
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3. Problematização e Hipótese O problema de pesquisa identificado para a realização do produto final partiu da reflexão sobre os métodos utilizados pelos hospitais psiquiátricos, os antigos manicômios. Uma de suas práticas consistia em manter os pacientes em cárcere. “[...] confinamento em promiscuidade com toda espécie de marginalizados sociais e as torturas, disfarçadas ou não sob a forma de tratamentos médicos, de que eram vítimas. (RESENDE, 2001).” Compreendemos até onde essa “assistência” dada pelos antigos manicômios interferia na saúde mental individual de cada paciente e quais os danos que essa experiência de tratamento invasivo trouxe para suas vidas. Para responder a essa questão, consideramos a hipótese de que a melhor assistência psiquiátrica para os sofrimentos psíquicos sofridos pelos indivíduos afetados por tais tratamentos seria dar voz aos seus próprios conflitos internos, pois a ideia de isolamento para os doentes mentais já foi testada
e,
além
dos
resultados
negativos,
colocou
em
estado
de
vulnerabilidade aqueles que eram retidos do convívio social, roubando parte da vida dessas pessoas, além de submetê-las a práticas invasivas, tirando a esperança de um futuro. Hipótese
essa
que
foi
comprovada
através
de
levantamentos
bibliográficos e entrevistas com historiador, ex-funcionários e atuais, além de dar voz ao próprio ex-interno do Hospital, que deixa claro o quanto é necessário ser livre e viver em sociedade, aceitando suas limitações e aprendendo a conviver com elas.
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4. Justificativa
A justificativa da escolha temática descrita nesse relatório surgiu através de uma norma técnica divulgada pelo Ministério da Saúde no dia 06 de fevereiro de 2019, que propôs novas diretrizes de políticas nacionais de saúde mental e de drogas. A norma de 32 páginas vai para o lado oposto da luta antimanicomial que existe no Brasil há mais de 30 anos, e que surgiu a partir das denúncias após os anos 70, relacionadas aos hospitais psiquiátricos, onde havia violações dos direitos humanos. O Hospital Psiquiátrico do Juquery – projetado por Ramos Azevedo e fundado por Franco da Rocha em 1898 em São Paulo - conhecido como um dos maiores do Brasil, carrega em seus muros mais de um século de histórias ocultas, mortes e torturas. Em sua inauguração, o hospital possuía 80 pacientes, muitos sem diagnósticos, alguns até mesmo sem doença mental alguma 2. No início dos anos 2000 – antes da promulgação da lei antimanicomial o Brasil tinha o título de maior parque manicomial do mundo, com quase 100 mil pacientes confinados. Na década de 70, quando o Brasil ainda vivia em regime militar o Juquery chegou a confinar mais de 15 mil pacientes. A partir destes dados, podemos notar que a prática do cárcere daqueles que possuem algum tipo de doença psicológica é altamente questionável e merece ser colocada em perspectiva. Por isso, acreditamos na relevância do desenvolvimento do livro-reportagem.
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http://www.justificando.com/2015/07/30/o-holocausto-manicomial-2-trechos-da-historiavelada-do-juquery/ . Acesso realizado em 06/05/2019
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5. Plano estratégico
Descrição do produto
Este relatório trata da produção de um livro reportagem a partir de levantamentos bibliográficos e relatos dos que tiveram relação direta com o hospital psiquiatrico, dentre eles, historiador, ex-funcionários e atuais, além do próprio ex-interno, que aceitaram compartilhar suas vivências e sentimentos. Inspirado em obras referenciais como o livro reportagem, Holocausto Brasileiros da jornalista Daniela Arbex que descreve os dias de horror vividos no manicômio de Barbacena. Além da ficção escrita por Machado de Assis, O Alienista, que nos traz a reflexão sobre o alienista e o alienado.
Estratégia para definição de layout
A escolha pelo nome: Sonhos Interrompidos – Uma história que se conta, foi escolhido para simbolizar os sonhos que foram destruídos através do isolamento e cárcere, buscando trazer uma reflexão de que é necessário conhecer a história dos que não puderam viver seus sonhos, para que possamos viver o futuro. Esse hospital é a história da cidade de Franco da Rocha, e por muito tempo, as pessoas decidiram esquecê-la. O estudo que deu origem à ilustração da capa é uma representação do isolamento a qual os pacientes eram mantidos, resgatando detalhes que revelam o cárcere, com as correntes pelos portões. A definição para os capítulos se originou através da preocupação em representar de maneira direta a história da cidade vinculada com o hospital psiquiátrico, seguindo predominantemente uma linha cronológica, até chegar ao último capítulo que traz a história da vida de um ex-interno esquizofrênico e que hoje se tornou morador de uma residência terapêutica e assim deixar claro que é possível que uma pessoa com patologias mentais possa viver uma vida digna, sem precisar ser excluída da sociedade. Além das pesquisas em documentos históricos, utilizamos um gravador de voz e anotações durante as cinco entrevistas, sendo todas relacionadas com Juquery.
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Em cada um dos 4 capítulos existe um personagem, por esse fato foi estabelecido um padrão, onde todos os capítulos trazem “Vozes da memória”, com o intuito de contar a vivencia dos personagens em torno do Juquery. Iniciamos com o capítulo “Herança da Cidade”, onde Dona Genil ex-funcionária do Hospital do Juquery, traz a importância que a cidade teve em sua vida e como era o tratamento dentro das colônias onde viveu como cuidadora por 30 anos. Depois é a hora de falar sobre a “Loucura”, onde o Historiador Cleber Leme, conta sobre sua infância passada dentro do hospital e seu olhar de historiador para o Juquery. O 3º capítulo, “O velho e o Novo” a psicóloga Elizabete, ainda funcionária do atual Complexo Hospitalar do Juquery nos conta sua vivência em torno da psiquiatria, além de agregar uma reflexão sobre o ganho que podemos ter com as diferenças. No 4º capítulo “Sobrevivente”, encontramos o olhar do Satílio um ex-interno do Juquery. De família humilde, sua vida foi conturbada desde cedo e podemos acompanhar seu
sofrimento
durante
toda
a
vida
de
internações e
eletrochoques, mas encontramos também o olhar de alguém que decidiu agradecer por estar vivo, um olhar de quem escolheu viver.
Técnicas
Para realização desse livro, utilizamos as técnicas de entrevistas em profundidade. O tipo de pesquisa foi qualitativa, pois o importante não era quantificarmos mas sim qualificar as entrevistas, que foram aproximadamente seis, sendo elas presenciais, para que pudéssemos identificar as reações perante as perguntas e respostas, considerando a particularidade de cada história. Obtivemos resultados ao analisar cada relato, ficando claros os procedimentos violentos e desumanos, durante o período de internações em hospitais psiquiátricos. Em nossos encontros a entrevista fluiu de forma natural, o que foi imprescindível para que os entrevistados pudessem confiar suas histórias.
Visão
Gerar interesse na população para que busquem desenvolver conhecimento da nossa própria história, promovendo discussões no meio, para que seja
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desenvolvida a autonomia do diferente e a compreensão da sociedade de que a exclusão não é a melhor saída.
Missão
Oferecer ao leitor o pouco da história da psiquiatria, na cidade de Franco da Rocha, como recorte dessa pesquisa e contextualizar os motivos que envolveram o isolamento e o cárcere na era manicomial.
Valores
Promover o resgate da história do Juquery entrelaçada com o município de Franco da Rocha.
Público Alvo
Moradores da cidade de Franco da Rocha e todo público que se interesse pela psiquiatria.
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6. Referencial Teórico Para que o projeto trouxesse base teórica foi necessária a realização de um levantamento bibliográfico, desde a história da loucura, quando surgem os primeiros passos da doença mental, levando assim à criação de um espaço que pudesse “ampará-los”, até a criação dos métodos, que foram sendo criados a cada período vivido. E para poder compreender o princípio da loucura, recorremos ao autor e teórico Foucault, que escreveu o livro História da Loucura, onde analisa os aspectos que levaram à definição dos problemas mentais, que se sucede a males como a lepra, fazendo com que os hospitais, antes destinados aos leprosos, passem a ter seus leitos ocupados por aqueles que eram considerados loucos, que não necessariamente tinham uma deficiência mental, alguns apenas por viverem pelas ruas da Europa. As cidades escorraçavam-nos de seus muros; deixava-se que corressem pelos campos distantes, quando não eram confiados a grupos de mercadores e peregrinos. Esse costume era frequente na Alemanha: em Nuremberg, durante a primeira metade do século XV, registrou-se a presença de 62 loucos, 31 dos quais foram escorraçados. (FOUCAULT, 2005)
A política adotada para os tais “loucos” da época, era retirá-los da cidade, e para aqueles que permaneciam sob as condições de pacientes confinados, tinham que se submeter a métodos invasivos, pois muitas vezes o intuito era muito mais experimental, do que necessariamente para a cura do que viria a ser um dos males do século XIX. Para recuperar a complexidade do tema proposto da vida dos internos, sobre as ciências humanas, Morin recomenda um pensamento crítico sobre o próprio pensar e seus métodos, o que nos faz sempre voltar ao início. Assim, surge o grande paradoxo: sujeito e objeto são indissociáveis, mas o nosso modo de pensar exclui um pelo outro, deixando-nos livres de escolher, segundos a circunstâncias do trabalho entre o sujeito metafisico e o objeto positivista. (MORIN, 1992)
Morin afirma que estamos predispostos a excluir o sujeito do objeto, fazendo com que suas escolhas não sejam necessárias. Uma proposta de Morin, que se constitui no paradigma da complexidade.
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“Utilizar as informações que surgem durante a ação, integrá-las, formular esquemas de ação a ser capaz de reunir o máximo de certezas, para defrontálo o incerto (MORIN, 2000)”. Uma sociedade é formada pelas interações entre indivíduos, mas essas interações produzem um todo organizado que atua sobre os indivíduos, para assim produzirem uma qualidade humana. No dia 18 de maio, comemora-se o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, mas assim como nos anos passados essa data não é apenas uma data para comemorações, é um momento para protesto contra o risco de retrocesso e retomada para os velhos modelos de atendimentos para pessoas com problemas na saúde mental. Arbex nos diz que a coordenação nacional de saúde mental nega qualquer estratégia de retomada aos modelos manicomiais, mas admite que a intenção é utilizar a capacidade instalada. Capacidade essa que até o início dos anos 2000 era de mais de 50 mil leitos psiquiátricos, uma época em que o gasto para essas estruturas utilizava a maior parte do dinheiro de saúde. O confinamento dos portadores de transtornos mentais é tratado muitas vezes pela grande mídia de forma superficial, são raras as vezes que este assunto é abordado de forma aprofundada e quando acontece, o produto a qual transmite a visibilidade maior do assunto, torna-se um destaque. “Por um lado, os dogmas e cegueiras que excluem todo e qualquer exame crítico e toda reflexão. Por outro lado, o surgimento da contestação que termina por arruinar as doutrinas aparentemente invulneráveis. (MORIN. 2011)”. Esse é o conceito que o livro-reportagem nos traz como produto final, ser um meio que trate o tema relacionado à saúde mental de forma abrangente, pois acreditamos que, desta forma a abordagem apresenta relevância sobre o assunto para a sociedade atual. O livro reportagem é uma ferramenta eficaz quando o assunto é reportar histórias reais de pessoas reais, através de métodos como a entrevista em profundidade e a investigação.
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7. Referências ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil. São Paulo: Geração, 2013. ASSIS, Machado de. O Alienista. Porto Alegre: L&pm, 2012. 96 p. ARMAND; MATTELART, Michèle. História das teorias da comunicação. 16. ed. São Paulo: Editora Loyola, 2014. 227 p. Tradução Luiz Paulo Rouanet. BARBOSA, Guilherme Correa et al. Movimento da luta antimanicomial: trajetória, avanços e desafios: Trajetória, avanços e desafios.. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental: Cadernos Brasileiros de Saúde Mental jornal, Rio de Janeiro, p.45-50, jun. 2012. BIANCARELLI, Aureliano. Hospital psiquiátrico de SP, o maior do país, será investigado: ONG quer apuração de mortes no Juqueri. Folha de São Paulo. São Paulo, p. 1-2. 25 set. 1998. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff25099813.htm>. Acesso em: 06 maio 2019. BRANCO, Thayara Castelo. O Holocausto Manicomial 2: Trechos da história velada do Juquery. Justificado: Mentes inquietas pensam direito. São Paulo, 30 jul. 2015. p. 1-1. Disponível em: <http://www.justificando.com/2015/07/30/o-holocausto-manicomial-2-trechosda-historia-velada-do-juquery/>. Acesso em: 08 nov. 2019. CRUZ, Maria Tereza. Governo Bolsonaro quer trazer de volta os manicômios no Brasil: Nota técnica é alvo de críticas por abrir precedentes para o retorno de uma lógica manicomial que privilegia a internação e abstinência, enquanto coloca em segundo plano política de redução de danos. Ponte: Direitos Humanos, Justiça, Segurança Pública. São Paulo, p. 1-1. 7 fev. 2019. Disponível em: <https://ponte.org/governo-bolsonaro-quer-de-volta-osmanicomios-no-brasil/>. Acesso em: 06 maio 2019. FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 2005. JAIRO FURTADO TOLEDO (Minas Gerais). Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (Org.). Colônia: Uma tragédia silênciosa. Belo Horizonte, 2008. 62 p. MAGALHÃE, Danielle. Entre medos e superações: as reviravoltas na vida de um artista, Franco da Rocha, 27/06/2019. Saúde. Disponível em: <http://www.francodarocha.sp.gov.br/franco/artigo/noticia/8826 >. Acesso em: 08 nov 2019 MASIERO, André Luis. A lobotomia e a leucotomia nos manicômios brasileiros. 2003. 10 v. Tese (Doutorado) - Curso de Psicologia, Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, 2003. MORIN, Edgar. O método. 5 ed. Porto Alegre: Editora Sulina, 2011. 360 p. PASSOS, Anderson. À espera do fechamento, Juquery agoniza e vê funcionários virarem pacientes: Complexo psiquiátrico fundado em SP no final do século 19 mantém 151 internos.. Ig. São Paulo, p. 1-1. 12 dez. 2014.
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Disponível em: <https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-12-12/a-esperado-fechamento-juquery-agoniza-e-ve-funcionarios-virarem-pacientes.html>. Acesso em: 06 maio 2019. PENA, Felipe. Jornalismo literário. 1. São Paulo (SP): Contexto, 2006. 144 p. PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. 3. ed. São Paulo: Editora Contexto, 2017. 235 p. PLANTIER, Ana Paula Barreto. Dos muros dos manicômios para os muros (in) visíveis da cidade: sobre os desafios da reforma psiquiátrica brasileira. 2015. Dissertação (Mestrado em Serviços de Saúde Pública) - Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. doi:10.11606/D.6.2015.tde-09042015-095634. Acesso em: 2019-05-06. PIZZOLATO, Pier Paolo Bertuzzi. O Juquery: sua implantação, projeto arquitetônico e diretrizes para uma nova intervenção. 2008. 326 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Arquitetura, Projeto, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, 2008. Cap. 7. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16138/tde-20012010152813/publico/dissertacaojuquery.pdf>. Acesso em: 08 nov. 2019. SAKAGUCHI, Douglas Sherer et al. A história desvelada no Juquery: assistência psiquiátrica intramuros na ditadura cívico-militar. Acta Paulista de Enfermagem, [s.l.], v. 29, n. 4, p.476-481, ago. 2016. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201600065 TARELOW, Gustavo Querodia. Antonio Carlos Pacheco e Silva: psiquiatria e política em uma trajetória singular (1898-1988). 2018. 383 f. Tese (Doutorado) Curso de Ciências, Programa de Saúde Coletiva, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. Cap. 5. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5137/tde-06052019101223/publico/GustavoQuerodiaTarelow.pdf>. Acesso em: 08 nov. 2019. WADI, Yonissa Marmitt. "Entre muros": os loucos contam o hospício: os loucos contam o hospício. Topoi (rio de Janeiro), [s.l.], v. 12, n. 22, p.250-269, jun. 2011. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/2237-101x012022014
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8. Cronograma CRONOGRAMA TAREFA
DATA
PROCESSO
09/07 - 17/10
Realização de leituras sobre o tema, para construção do livro
Entrevistas
17/08 - 30/09
17/08 - Dona Genil 22/08 - reunião no complexo 22/09 - Satílio 07/10 - Psicologa Elisabete 19/09 - Historiador Cleber
Redação - Primeiro Capítulo
24/08 - 28/08
Herança da Cidade
Leitura de referências
Revisão + Orientação Redação - Segundo Capítulo Revisão + Orientação Redação - Terceiro Capítulo Revisão + Orientação Redação - Quarto Capítulo Revisão + Orientação
29/ago 30/08 - 04/09 05/set 06/09 - 11/09
Orientadora A Loucura Orientadora O Velho e o Novo
12/set
Orientadora
13/09 - 18/09
Sobrevivente
19/set
Orientadora
Revisão Geral
11/10 - 18/10
Revisora
Diagramação do Livro
20/09 - 20/10
Execução do Produto / Estetíca do Livro
Revisão Final
20/10 - 27/10
Orientadora
Impressão do Livro
01/nov
Gráfica
Revisão do Relátorio + Orientação
07/nov
Orientadora
Entrega do TCC
11/nov
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9. Orçamento ORÇAMENTO DESPESAS Xerox Material Referencial Passagem de Transporte Público Alimentação Capa Fotografia Revisão Impressão Diagramação
Total:
VALOR R$50,00
R$ 50,00 R$ 0,00 R$ 200,00 R$ 800,00 R$ 150,00
R$ 1250,000
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10.
Apêndices
10.1. DECUPAGEM – GENIL MILANEZ MENDEZ – Ex funcionária do Hospital do Juquery Realizada no dia 17/08/2019
Como sua história começa no Juquery?
Eu morava em São Paulo, há 55 anos vim para Franco da Rocha. Eu era muito pobre. O Juquery começou pelo marido da Tarsila do Amaral, o primeiro médico do Juquery foi Ósorio César. A cidade de Franco da Rocha começou pelo Juquey, com Dr. Franco da Rocha e o marido da Tarsila do Amaral, Dr. Ósorio. Cheguei a pegar há época da Laboraterapia, que eram os trabalhos manuais, tapetes, bordados. Trabalhei lá dentro com os doentes mentais, era a melhor coisa. Eu fazia tudo, mexer com fezes, no refeitório de funcionário e de paciente. Comecei na segunda colônia feminina e tinha o local que ficava os menores, com a dona Lourdes Vouler, minha primeira chefe, era exigente, mas sabia trabalhar. Depois eu trabalhei no NATO, tinha 2500 doentes, 500 nudistas, a gente colocava as roupas, e elas arrancavam tudo, doentes são loucas de tudo, não sabem oque fazem. Eu trabalhei na CTO, no NATO, na primeira colônia, no refeitório, no pátio, na clinica médica, onde tinha pacientes em observação, fazia encaminhamento de pacientes para o pronto socorro. O médico queria que só eu fosse, porque sabia levar os pacientes. Eu era cuidadora e por isso fazia de tudo, dava banho e até colocar remédio para piolho. O banho começava às 09 horas e terminava às 15 horas da tarde. Eu e as outras cuidadores tirávamos a roupa e o sutiã, ficando só de calcinha, e com um vestido de doente novo, que colocávamos. Tinha um latão grande de plástico, esquentávamos a água na caldeira, e despois a temperava com sabão
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de pedra, que era feito no próprio hospital. Então eles raspavam o sabão, pra ficar aquela espuma pra ensaboar os pacientes, e depois iam para o chuveiro. Tinha pacientes que a gente tinha que deitar para limpar as partes mais intima, porque eram muito gordas e não dava para limpar em pé. Porque primeiro tinha que tirar a sujeira, pois doente não se limpa, aquelas que são conscientes sim, mas a maioria não tinha consciência, havia uma delas doentes que comia fezes. A ROTUNA ficava sozinha porque se não matava as outras, era doente agressiva. Inclusive a Oraziras Soares uma das pacientes, era prima do meu primo, descobri depois que ela morreu. Precisou arrancar todos os dentes dela, porque ela comia tudo as pontas dos dedos, e do pé também, se deixasse ela comia. Tinha doente que batia em funcionário, eu apanhei. Tenho um dedo que é quebrado. Tinha a Rotunda, onde davam choque. O choque era um dos tratamentos naquele tempo, realizado pelos médicos psiquiatras. Mas resolvia muita coisa viu os doentes não eram como os de hoje. Não saiam fazendo filhos adoidados, doentes são doentes. Era fechado não podia sair se saia o paciente saia era com algum funcionário, e mesmo assim escapava, até funcionário homem teve filho com paciente, a Adalgiza, uma das cuidadoras do Juquery, pegou o Sérgio pra cuidar. O Sérgio é filho de funcionário, eu nem falo quem é, porque você deve conhecer. Então teve tudo isso nos 30 anos que trabalhei me aposentou na 1ª colônia onde tem o hospital, esses dias eu vi, está tão largado. Eu sou da pá virada. Quando eu comecei a trabalhar eu ganhava 25 cruzeiros, a Valdete que cuidava do Maluf, ela ganhava 75 reais, e eu ganhava 25 por mês. Era o dinheiro que a gente ganhava e ainda fiquei 6 meses sem receber. A chefe ruim que tive lá foi só a Fatima Palange, que não prestou como chefe, o resto não tenho oque falar não. A Neusa Neves, também não era aquelas coisas, e quando eles pegavam uma funcionária nova, a funcionária tinha que mostrar serviço. Para trabalhar lá tinha que fazer concurso.
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Elas faziam as funcionarias de trouxa, e a Neusa Neves era ruim. No começo era bem difícil, mas pra mim nunca foi, pois já entrei fazendo bagunça com os doentes, dançando, ensinando os pacientes a dançarem também, eu fazia isso. Sempre gostei. Tinha uma imagem minha que a Vera uma das pacientes desenhou na parede do salão de festa, e chamou o Dr. Eduardo pra ver. Houve um ano que chamai 4 pacientes pra desfilarem carnaval comigo, mas era com ordem médica. O médico assinou a saída e eu também. Depois eu levei dentro da colônia de novo, cheguei à portaria, e chamei a condução, temos que ser responsável. Não tenho oque falar do hospital, nessa parte, melhor do que está hoje viu, o atendimento dos médicos eram melhores do que como está hoje. Porque os médicos atendiam, ali faziam tudo, tinha recepção e operavam. Eu mesma fui operada no Juquery da apendicite, e fui muito bem tratada, a comida era excelente, e era feita no Juquery. Os pacientes comiam a vontade, não era como hoje, tudo regulado. Dr. Roberto, Dr. Fabio, eu não tenho oque falar, graças ao Juquery eu tenho me ordenado, eu não ganho 1 milhão, mas eu ganho mais de 2 salários. Aposentei-me com 30 anos de casa. Rotunda, o isolamento, eu não sei se era castigo, eles encaminhavam para o psiquiatra, dava injeção, eu não se aquela injeção era sossega leão, eu não sei explicar, sei que alguns pacientes tomavam a Eleptil. Gardenal era para crises. Salvei doente até de se engasgar, porque doente acamado não pode comer carne em pedaços, pois não mastigam e uma doente engasgou, deram carne em pedaço e ela engasgou, levei a no pronto socorro e o médico estava demorando, enfiei o dedo com tudo na garganta dela e tirei, salvei a doente sem precisar do médico. Briguei muito no pronto socorro, porque eu era assim, via o paciente que não era nada meu, não conhecia interno, eu levava dentro do consultório, entrava no conforto médico pra tirar os doutores do conforto, briguei até com Diretor, com o chefe do hospital, porque eles faziam coisas erradas, e eu brigava.
Que tipo de coisas erradas?
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Os médicos iam descansar, e não tinha horário do conforto médico, simplesmente ficavam lá e eu ia buscar os médicos dentro do conforto médico, um dia entrei lá, e um dos doutores, estava só de cueca, falei: tem doente morrendo e vocês estão descansando aqui. Não sei como eu não era suspensa. Ruim era a bendita daquela Maria Teresa, que era parente do Mario Covas. Você acredita que ela me acusou de ladrona? Vou roubar roupa de paciente? Eu não preciso disso, nunca precisei. As comidas do refeitório é claro que você não pode falar, mas sobrava e eles mandavam jogar fora, o que dava para aproveitar a gente escondia no corpo e levava para casa. Matar a fome dos meus filhos, mas eram coisas que sobravam não tinha o porquê pegar as coisas de doentes, isso não se faz e eu sabia que não podia. Maria Teresa sumia com as roupa de paciente, ela não gostava de ninguém. Mulher ruim. Eu a provoquei na estação, em uma eleição, ela não me conhecia, mas mandei recado pra ela. Então o Juquery eu acho que está pior agora, porque o atendimento até passar para o médico certo, você morre. Agora está muito pior do que antigamente.
Existia algum tipo de maus-tratos, dentro do hospital?
Já vi maus-tratos dentro da colônia, mas eu e a Adalgiza que também era cuidadora lá dentro, entregamos para os diretores, mas não vou citar nomes, pois não vai da certo. Eu o vi batendo em uma doente e entreguei-o. Ele era do manicômio e foi trabalhar na colônia, no nosso batalhão à noite, quando foi dar remédio para uma das doentes, ela não queria tomar o medicamento e ele bateu nela, nós vimos, e entregamos.
Essa foi à única vez?
Ele fazia com outras pessoas, outros pacientes. Sabia que ele batia. Bater em doente eu nunca bati, mas já apanhei. Tinha uma interna que queria sair pra tomar café, (elas fogem né), eu falei: não pode passar. Mas não sabia
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que ela estava com uma caneca escondida de baixo da blusa. Caneca de alumínio foi com isso que ela me bateu. Fazer oque, bater nela eu não podia.
Os pacientes tinham algum lazer?
Eles faziam festas pros doentes, tinha futebol pros doentes homens. Para os acamados tinham músicas. Moaci Franco, Angela Maria, Francisco Egidio foram visitar os pacientes e até jogaram bola com os, mais conscientes né. Era bom, tinha tudo, tinha festa pros pacientes, banquete, a comida era fartura pra eles, e não faltava dinheiro no Estado. As festas minha fia, as doentes se divertiam, eu ensinava elas dançarem, entrava na folia. Eu trabalhei com doente acamado, que era paraplégico, Moacir Franco foi lá, Ângelo Fortna, Jair Rodrigues foi também, Ângela Maria, muitos artistas.
Como era a rotina?
Trabalhei no refeitório, com os doentes acamados, catando fezes no pátio, utilizávamos dois baldes de água, um pra colocar as fezes e um para poder lavar o pátio. Tinha que lavar duas vezes por semana, era dessa forma, varria o pátio, limpava e olhava as doentes pra não brigarem. Havia uma doente que era muda e surda, ela tinha que ficar trancada porque ela batia-nos outros, jogava no chão, uma doente agressiva, não tinha jeito. Tinha até alguns que comiam fezes, e tinha que correr atrás pra não deixar.
Qual era o tratamento?
Normalmente eles tomavam remédios, mas o choque fazia parte do tratamento também e melhorava viu. Mas eu fugia, não gostava de presenciar, sempre dava um jeito de não ir. Uma vez auxiliei (em relação ao eletrochoque), porque dava reação, aquele tempo era normal, o médico quem receitava.
Quais eram as reações?
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As reações mais frequentes eram os desmaios, ao pacientes se tremiam muito, mas depois voltavam tranquilos, apresentando melhoras. Depois pararam com os eletrochoques. Depois dos choques o comportamento mudava pra melhor. Eu não posso falar nada porque eu fui. Tinha funcionária que chegou a bater em doente, a Mercedes. Tirará ela de lá e colocaram-na para trabalhar na lavanderia, porque não se pode bater em paciente. Mas eu não tenho oque falar não, Dr. Paulo Guedes, ele era bom, não queria ver paciente no sol, o Zeca Quintanilha foi um irmão pra mim, era chefe também. Dr. Francisco era uma porcaria, se morreu o azar é dele.
Por quê?
Eu pedi pra ele uma vez, porque tinha um pavilhão no pátio, doente quebra porta, doente fica na chuva se chove, fica no frio, ele não tem noção das coisas, e eu falei pro Dr. Francisco que existia um dormitório vazio dentro do pavilhão, e aquelas doentes não podiam ficar no pátio, porque elas quebravam as portas, e saiam na chuva. Prejudicando o funcionário e o paciente. Ele nem olhou pra minha cara, não se importava com os pacientes na chuva. Então fui à sala do Zeca (um dos diretores também), contei o caso pra ele, e ele falou assim pra mim: pode ir pra casa que vou ver se consigo resolver isso. Não falou nada mais. No outro dia ele encontrou com minha colega Adalgiza e mandou um recado pra mim: “Fala pra dona Genil que eu já resolvi o problema dela viu”. Cheguei pra trabalhar estavam tudo as doentes no pavilhão. Ele foi muito bom, Zeca Quintanilha. Antigamente na chefia não tinha esse negocio de família, hoje em dia tem mais. Os médicos atendiam tão bem a gente menina, hoje em dia os médicos também atendem, mas é tanta burocracia.
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Inclusive a funcionária da psiquiatria esqueceu-se de fazer a receita da doente, e a doente não podia ficar sem o remédio e morreu a Doca e o Dr. Francisco adorava ela. Na UCM – o atendimento era bom
Como era a relação dos internos com suas famílias?
Os pacientes tinham bastantes visitas, mas existem coisas que não podemos nem estar falando. As famílias dos pacientes traziam papel higiênico – não precisava porque paciente não se limpa – traziam sabonetes e o Juquery não tinha sabonete naquele tempo, os banhos eram com sabão; às vezes a gente levava os sabonetes pra lavar. Uma paciente – a Lurdão – a família dela era muito pobre, ela já morreu, mas antes de morrer vivia como criança, e a família traziam as coisas e as funcionarias que faziam plantão pegavam. Cheguei pra família e falei “não tragam mais não, traga só cigarro que ela gosta, e café que ela, porque comida tem a vontade”. Não trouxeram mais, porque pobre já não tem oque comer, e vai trazer pros funcionários, é errado. As visitas eram todo sábado e domingo, às vezes se as pessoas quisessem ir ao meio da semana podia também. Agora quando ia Diretor, gente de São Paulo fazer visita, ai tinha que arrumar tudo às camas com aquelas colchas brancas, enfeitava o pavilhão, e eu tirava sarro, “engraçado né, só quando tem festa que arruma bonito as camas”. Dr. Gibrando catei ele pelos colarinhos. Porque fui levar uma doente, e das cuidadoras, eu era a mais velha. Entrei velha no Juquery, com quase 40 anos. Ele ia me largando para trás, e chamando as mais moças com os doentes primeiro. Eu falei Dr.Gilbran, “porque o senhor me deixa pra trás se eu estou com paciente há tanto tempo, e passam às outras na frente?”. Ele catou na minha blusa, e eu catei a dele também. Catei pelos colarinhos. Brigava com os médicos. Não tinha medo de nada não.
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Eu até trouxe pacientes pra casa. Levei Rosangela e Odila para passear, ficaram uns 3-4 dias e almoçaram comigo. Curei bronquite de 4 pacientes. Aliás, não fui eu, foi Deus que curou. Paciente pra mim é ser humano, tem que cuidar, você não pode fazer oque eles fazem. Somos todos iguais, por isso eu fico doida.
O que faziam quando algum paciente morria?
Quando morria algum paciente, chamava a família. A Nair Varzea era paciente e ficou enterrada no cemitério do hospital, não sei se você sabe, mas os pacientes do Juquery eram enterrados lá.
A família muitas vezes não ia
buscar. A Nair Várzea não ninguém foi atrás, Carlito, acho que veio apenas o primo dele. Carlito era Argentino, Ricardo Furinis, era o nome dele, ficou na portaria onde dava informações, ele tinha 70 anos e quando perguntava “Carlito quantos você tem?” Ele dizia “42”. Mas ele ficou doente, não sei se porque estudava muito as línguas, mas no dia que ele disse pra prima que gostava muito dela, ele ficou doente da cabeça. Era filho de família de importante em São Paulo. Fui ao enterro dele, quase que desmaiei, pois gostava muito dele, vivia fazendo comida para ele se alimentar.
Por que você cozinhava pra ele?
Aos domingos iam poucos cozinheiros, diminuía porque eles tiravam folga e mandavam apenas arroz puro. Carlito era consciente, ficava na portaria, mas acompanhado de um funcionário. Eu fazia comida em casa e meus filhos levavam para ele. Ele adorava comer sopa de feijão, e linguiça frita. Uma vez fui escalada para trabalhar na noite de natal, falei para o chefe de cozinha, “se você me der comida para levar pro Carlito, eu venho se não, eu perco o dia, mas não venho”. No domingo eu levei comida, tudo, macarronada, fruta. Quando chegava domingo iam poucos funcionários e eu ficava com dó. Tadinhos, comer arroz puro, ai eu fazia comida e mandava.
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Na semana quando tinha funcionário, tinha de tudo, mas nos finais de semana não, mas eu fazia.
O que os pacientes normalmente comiam?
A comida geralmente era arroz, feijão, macarronada. Era até boa. Era muito gostoso. Domingo tinha visita, sentava todo mundo na grama. Meus filhos iam fazer piquenique, pegavam aquelas folhas de coqueiro e escorregavam lá de cima, até em baixo. Mas existia bastantes pacientes que não recebiam visitas. A filha dos Matarazzo mesmo não lembra o nome dela, mas ela tinha até piano lá, perdeu a virgindade com 15 anos. Ela contou, hoje em dia é normal. Mas família italiana é terrível. Igual fez comigo, meu pai me jogou na rua. Então a colocaram internada como louca, mas ela não era louca, ela tocava piano, era linda. Morreu lá dentro, ninguém sabe, se alguém foi atrás do corpo dela. Ela se tornou uma velha linda, de cabelo grisalho. Passou a vida inteira lá dentro, desde os 15 anos. Tinha outra também que matou o próprio pai, ela ficou 15 anos no manicômio, quando recebeu alta do manicômio, a família não a quis de volta e ela ficou na colônia, mas ela era muito metida e não gostava da gente, não lembro o nome. Era de família rica de São Paulo, ali da praça da sé, ela matou o pai com o moedor de carne, ela havia bebido e ele queria que ela fosse esquentar comida e ela quebrou a cabeça dele com a máquina de moer carne. Mas não era louca não.
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10.2. DECUPAGEM – ANTÔNIO ROSAS SATÍLIO Realizada no dia 23/09/2019 Meu nome completo é Antônio Rosas Satílio. Mas meu nome artístico é Satílio. Vivi no Juquery uns 3 anos mais ou menos, eu não sei exatamente, desde 1993/1994, depois que minha mãe morreu.
Como você foi parar no Juquery?
Eu fui sozinho pra lá, na ambulância. Estava em Cajamar né, era 00:00 mais ou menos, ai falaram assim: - “Você não pode ficar aqui. Você esta louco, quer ir pro Franco da Rocha?”. - E me perguntei “Franco da Rocha, onde é isso?”, “será que aguem vai?” “Leva eu lá”, falei. “Se lá tem internação, leva eu pra lá mesmo”. E me levaram. Foi o motorista, o enfermeiro e eu. E acho que um segurança né. Fiquei lá. Me levaram pra lá. Pegaram minha identidade. Eu estava de roupa branca, colete preto, cabelo na cabeça e com barba, ai a médica falou: - “O que você tem?” - “É que meu juízo, esta meio atrapalhado sabe, tudo bagunçado, tudo, e eu estou sujo, também, sabe” A médica chamou o enfermeiro e falou: - “Então faz ele dormi, da um remédio injetado nele e manda pra ala masculina”. Pessoal acha que é choque, mas não é não. Fui pra ala, quando entrei tinha um pessoal da fazenda São Roque, tinha vindo, estava com um pacote de bolacha sabe. Quando eu tinha aqueles pesadelos de toreiro, búfalo, essas coisas, cavalo. Eu via. Minha cabeça ficava doendo. Quando acordava, tinha uma pessoa em pé, assim com café e pão, a enfermeira. Depois um homem entrou assim e falou:
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- “Olha os gatos, olha o tanto de gatos, na porta”. “Acho que você é artista de novela, que fez aquele filme louco por cinema”. Chegou perto da ala masculina, entrei, chegou um paciente, careca, barba, com a roupa do próprio hospital, um prato de comida, arroz, feijão, carne. - “Come isso”, “Vai lá em cima, você toma banho lá e troca de roupa”. Claro me deram roupas né. - “Come essa comida; Toma esse remédio; Fala com o médico, espera lá”. Depois o médico me deu alta. Seu Carlos de Melo, disse pra mim que eu estava de alta. E perguntou qual eu preferiria o Zorro ou Capitão Simbad, qual eu gostava mais? Ai eu pensei “acho que é o Zorro né”. Hoje eu gosto mais do Simbad, ele parece comigo, com barba né. Depois o médico falou: - “Você esta de alta” - “É mais pra quando doutor, para onde vou doutor, não tenho pra onde ir”. - “Você vai pra fazenda São Roque”. - “É? La é limpo?”. - “Lá é limpo” E fui pra lá, para a Fazenda São Roque, de ambulância. Fique uns 3 anos no Juquery, eu acho, não sei. O tratamento lá era bom, não tinha muito choque, o problema era a malandragem e o vandalismo. A malandragem do pessoal era ruim, me sentia mal, não me sentia bem lá não. Mas agora eu estou bem, aqui, me sentindo bem.
Quando você começou a pintar?
Comecei a pintar a óleo, com 4 ou 6 anos. Com essa idade eu pegava tinta a óleo pra pintar já. Mas o começo de tudo mesmo, eu não desenhava nem pintava. Com 3 meses de vida, estava no colo da minha mãe, do meu pai, sei
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lá, na cidade de Bauru. Fui criado em Cambuci, Paulistano, Suzano, Mogi das Cruzes, vivia mudando. Minha mãe ia trabalhar, quando eu tinha 12 anos ela precisou me deixar na escola, FUNAI. Uma moça chamada Toninha, cuidava de mim. Não tenho certeza de quantos anos eu tinha. Naquela época a criança podia ser encaminhada pra lá, FUNABEM, que hoje é a FEBEM, falaram assim: -“Satilio, quando você tiver 12 anos de idade, você vai ser um grande artista”. Eu tinha desenhado um elefante, ela chegou e viu meu desenho. Meu irmão também ficou lá comigo. Hoje ele é casado, seu nome é Carlos Satílio Rosa, tem 50 anos. Morava em Guarulhos, mas agora eu não sei mais, onde ele está, nunca mais eu vi ele. Então, foi isso, depois eu fui pra escola Educa Andrade, do Duarte, fiquei lá e podia desenhar também. Era trabalho forçado, tinha muito padre, senhoras católicas, eu já fui católico, mas não frequento a igreja católica mais, frequento testemunha de Jeová. Então eu procuro fazer a vontade do Pai né. Nessa época eu trabalhava, carpia, plantava. Entrei no Educa Andrade com 6 anos e sai com 18. Quando fazia criança fazia 18 anos, tinha que sair. Então fui encaminhado para trabalhar em uma gráfica, a mulher que trabalhava no Educa Andrade era dona da gráfica e me colocou lá. Trabalhei de ajudante de artes, tinham projetos desenhados no papel. Então eu tive registro na carteira profissional. Hoje eu sou aposentado como autônomo. Recebo a aposentadoria todo mês, um salario mínimo. A primeira coisa que faço com minha aposentadoria, é pensando em mim, nos meus quadros, nas roupas e material de higiene. Os desenhos que eu faço aqui, eu não adoro. Eu gosto deles mais não adoro. Só adoro uma pessoa e é Jesus Cristo.
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Sou solteiro, não sou casado. E sou formado no colegial, tenho certificado certinho. Eu me esqueci de falar, tem coisa que esqueço, desculpa, mas é por conta da doença. Vivo na casa Terapêutica RTI. As pessoas que trabalham lá eu gosto, o que eu não gosto são das outras pessoas que moram lá comigo. A casa é boa, mas as pessoas não. Ninguém lá paga nada né, nem água nem luz, nada. Mas ainda assim eu não tenho casa. Lá ninguém quer fazer nada, e aqui no caps eu tenho a oportunidade de desenhar.
Mas porque você considera as pessoas ruins?
Quando a gente vive com uma pessoa ruim, a gente fica ruim também, mas fazer o que eu não tenho pra onde ir, não tenho meu pais. Eles mee deixaram crescer sozinho. E para casar a pessoa tem que conhecer a outra, ter experiência de vida, saber se a pessoa adora o mesmo Deus. Eu adoro Jeová, então eu quero casar com alguém que também o adore. Se eu for procurar no mundo, eu sei que vou arrumar problema. Porque gosto não se discuti, eu amo Jeová, mas tem gente que não ama e é uma escolha, problema é de cada um, se eu gosto o problema é meu. Em 81 eu conheci o povo de Jeová, mas eu estava na fazenda, agora eu me lembro.
Você tem contato com alguém da sua família?
Minha irmã casou no civil e tem um filho de 25 anos, ela tem 50 anos. Aqui em Franco da Rocha só eu, meus pais morreram. Sou órfão de pai e de mãe. Faço meus desenhos o tempo todo, o tempo todo. Quem me deu esse espaço foi a Ana Paula e o pessoal do CAPS. Estou aqui, dependendo do remédio, o médico disse que não posso parar de tomar o remédio, não posso casar, não posso ter filhos. É a vida. Naquela época, naquela casa, ficavam me ensinando coisa errada, criança sem instrução começa a ver coisa, fica doente. Eu descobri isso na testemunha de Jeová, na bíblia,
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Mas eu não fico lendo muito não, eu fico é desenhando, porque eu sou artista, mas quando eu tenho alguma dúvida eu venho e leio aqui. Nossa vida depende de Jesus Cristo. As testemunhas de Jeová salvaram a minha vida. A casa terapeuta é uma coisa, casa de família é outra, tem pai, tem mãe, tem os filhos, o Deus que eles adoram. Mas eu não tenho família, sou sozinho mesmo, por isso vivo na casa terapêutica.
E sobre a Fazenda São Roque?
Na fazenda São roque para mim não era bom, tem um Deus falso. O tumor maligno (referente ao joelho) eu peguei lá. Colocavam-me com a cara no chão. Sabe oque eu preciso fazer? Eu preciso casar ter responsabilidades, conhecer a pessoa secreta do coração, ter experiência de vida. Viver, segundo Deus, eu estuo aprendendo né, a cabeça do homem é Cristo.
Como foi sua infância?
Eu fiquei com minha irmã e minha mãe, em uma casa de dois cômodos. E eu falei pra ela: - “Mãe e o pai?” Meu irmão Ricardo que também estava assistindo a televisão perguntou sobre ele e ela falou: - “É o pai, o pai era assim, o Charles Bons parece com ele, sabe Antônio, seu pai dizia que trabalhava em Santos, mas gastava o dinheiro todo com peganhadas e trazia galinha de macumba pra casa, para comer na hora do almoço, em Bauru.” Meu pai batia muito na minha mãe, eu vou pintar isso na tela, pra todo mundo ver, os médicos, pesquisadores. Para todo mundo ver quem é o Satilio, porque sou eu, por dentro e por fora, e é preciso que as pessoas conheçam para poderem resolver o meu problema, que é a esquizofrenia. Estou pintando a casa da minha mãe, lembrando como era a casa que eu morei, com o fogão de barro. Estou pintando.
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Na minha casa, a casa terapêutica tem muita confusão, mas a casa é boa, o problema é o pessoal que mora lá, eles tem o pensamento ruim e não combina. Mas todo lugar é assim né. Tem gente que ficou até em concentração, por causa do Hitler. Nos quadros, eu escrevo “Trabalho original do Satílio”. O Artista tem que ser bonito, tem que ter uma letra bonita, e saber pintar bonito.
Por todos os lugares que passou você sempre desenhava?
Pintava no Juquery, com tinta suvenil, com o psicólogo eu não me lembro do nome. Mas ele me deixava pintar no consultório dele. Mas na fazenda são roque não deixavam não gosto nem de falar o nome. Nunca casei, namorar eu só namorei com a Solange – ela esta lá em cima (caps).
Em algum momento deram choque em você?
Tomei choque no chiqueirinho. Passei 3 meses tomando choque no hospital e isso confundia minha cabeça, porque o ser humano é assim. Eles me prendiam também, mas esse era o tratamento, eu estou vivo, o importante é isso. Respeitava a autoridade.
Como você se sentia depois do choque?
Depois do choque eu me sentia ruim, acordava em outro lugar, no banheiro, no pátio. Mas os médicos cortaram. Hoje eu não posso tomar agora só remédio. Esse quadro aqui é do Marquinhos, meu amigo, ele morreu. Colocaram ele no carro e levaram, não sei para onde, depois acabou morrendo. Esse quadro é dele. Então para vender eu não posso, porque o quadro não é meu, é dele. Eu estou aqui – referente ao quadro. Minha casa era assim. Eu ouvi uma vez assim - “Eu posso ficar sem Deus, mas sem a arte não”.
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Achei estranho, pois pensei. - “Ué, mas se Deus fez ele, ele não podia fazer isso, é errado”. Mas gosto não se pode discuti. No filme do Capitão Simba, no fim ele diz assim “Isso não é um sonho, mas sim uma profecia” o filme foi feito em 1963. Quando eu nasci dia 11 de janeiro, tenho 56 anos.
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10.3. DECUPAGEM – CLEBER LEME - Historiador Realizada no dia 19/09/2019
Como começa a história do Juquery?
A história do Juquery começa com tudo lincado. Porque na verdade começa os estudos sobre, a saúde mental no Brasil em 1829, em decorrência da chegada da família real em 1908 que trouxeram vários médicos, atores, tudo oque não tinha no Brasil. Em 1829, cria-se A Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, que é quando começa ser estudada a loucura no Brasil. E a partir desse estudo vêm, as leis que criam os hospitais psiquiátricos no Brasil, em 1841, por D. Pedro II. Em 1852 é fundado o hospital do Rio de Janeiro, e o manicômio de São Paulo em Tabatinguera. Daí começou o interesse pela loucura no Brasil. Nesse período histórico, podemos destacar que em 1890 mais ou menos, vem à formação do Franco da Rocha como psiquiatra e Juliano Moreira também psiquiatra na Bahia, sendo o primeiro psiquiatra negro. O que desmente muito história que o povo diz que o Franco era racista, por conta de um estudo dele, “a loucura na raça negra”. Um estudo que foi muito criticado pela Maria Clementina da Unicap em 1986, em seu livro. Essa amizade dele com Juliano Moreira desmistifica essa ideia de que Franco era racista. Franco da Rocha é transsenário, ele trabalhou junto com Juliano Moreira no Engenho de Dentro em 1870, só que Franco volta pra SP e é convidado por Cerqueira Cesar pra resolver o problema do doente mental em São Paulo. Os doentes mentais até então eram colocados em cárcere privado ou estavam presos em cadeias normais, como delinquentes, acorrentados muitas vezes inclusive. O velho hospício de São Paulo, já não tinha um trabalho muito bom, então ele é designado pelo Cerqueira Cesar em 1892, para resolver esse problema e ele fica até 1897 em São Paulo. Mas nesse processo já estava procurando terras aos arredores de São Paulo para construir o novo hospício, que era algo que já tinha nas vias orçamentarias do Estado. Então Franco começa a procurar várias regiões aos arredores de São Paulo e ele chega nessa terra e acaba escolhendo aqui, pelo baixo custo de terras,
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baixo custo de terraplanagem, localização de rios e córregos, para esgoto sanitário e tudo mais, sem contar com a facilidade para chegar. Era muito mais fácil chegar aqui em Franco da Rocha de trem, que fica a 50 minutos de São Paulo, do que chegar aos arredores de bonde. Por exemplo, Vila Mariana, Brás, então era mais rápido. Ele acaba escolhendo aqui, onde ele instala a colônia agrícola. Levando em conta que ele já tinha alguns doentes, cerca de 80 pacientes já estavam na colônia agrícola que ele tinha, em uma fazenda, localizada na região de Sorocaba, que ele já estava adaptando o doente mental, para trabalhar na lavoura mesmo. Então ele já tinha essa experiência com o doente mental, que são os 80 doentes que inaugurarão o Juquery em 1888.
Como foram os primeiros anos?
Os primeiros anos são muito positivos, ele usa da laborterapia, que nada mais é que a terapia por meio do trabalho. E daí criou a casa em grupos, separando os doentes pelas demências, as patologias mentais e aqueles que podiam executar tarefas, iam executa-la nas lavouras e tudo mais. E a ideia do Franco era tornar o hospital autossuficiente, o que aconteceu literalmente até 1919, alguns anos antes dele, sair da diretoria do hospital. É interessante, tudo o que Franco desenvolveu ao longo dessa época, porque mesmo não tendo remédios para várias patologias, ele consegue colocar o doente mental a não ser um inútil, coisa que ele mesmo descreve no trabalho dele em 1912 “Ele virou hospício colônia do Juquery”, onde ele descreve o cotidiano do hospital, as plantações e tudo mais. É uma época muito boa. Franco é muito humanista, tem até um prontuário, que fala que ele tira uma paciente pra dançar no meio do hospital...
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10.4. DECUPAGEM – ANA PAULA BATAGIN ANDRETO – Gestora do CAPS II de Franco da Rocha Realizada no dia 01/10/2019
O Caps nasce com qual finalidade?
Tem a finalidade de compor, junto com os demais equipamentos da Rede de Atenção Psicossocial, uma rede substituta ao modelo asilar de internações nos grandes hospitais psiquiátricos e ofertar um cuidado em saúde mental em meio aberto, comunitário e do SUS. Enfim, acabar com as internações em grandes hospitais psiquiátricos que naquele momento se tornaram verdadeiros campos de concentração e tortura.
Quais tipos de assistência o CAPS oferece?
Assistência psiquiátrica, psicológica, social da equipe da enfermagem. Principalmente por meio de grupos terapêuticos, oficinas de variados temas.
Quais as diferenças entre as modalidades do CAPS?
CAPS I - público atendido com transtorno mental severo e persistente com número de população inferior a 70 mil habitantes; CAPS II - igual o anterior, mas com população acima de 70 mil habitantes; CAPS III - igual ao anterior, mas funciona 24 h por dia, incluindo finais de semana; CAPS ad - público atendido é de pessoas com problemas de uso abusivo de álcool e outras drogas; CAPS ij - atende os 2 tipos de público dos anteriores (transtorno mental e álcool/drogas) mas com público infanto-juvenil;
O CAPS de Franco da Rocha, surgi em que ano?
Franco da Rocha inicia a Rede de Atenção Psicossocial com o primeiro CAPS (que é o nosso) em 28 de novembro de 2014. Vamos fazer 5 anos.
Qual a sua visão sobre o Juquery, tratando-se de um hospital psiquiátrico. E recentemente com a desinstitualização?
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O Juquery foi o berço da psiquiatria nesta cidade. A proposta inicialmente era de laborterapia e arte terapia. O complexo do Juquery teve épocas importantes e foi completamente autossustentável em termos de produção de bens e serviços. Com a superlotação, a proposta se perdeu e acabou se tornando um campo de concentração e tortura, que na verdade seria o fim de toda instituição total. Com o movimento da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial viu- se a importância do cuidado em meio aberto e como a socialização é fundamental pra qualquer tratamento em saúde mental.
Qual seu campo de formação e trabalho?
Sou psicóloga com 13 anos de militância no SUS.
Você utilizou os serviços do Juquery, ou prestou serviço em algum momento para o mesmo?
Não, os serviços do Juquery não são mais usados. Está fechando. Ainda tem por volta de 60 moradores que estão em processo de desinstitucionalização. Agora dentro do complexo tem outros serviços, como CAISM e o hospital de alta complexidade, o Albano. O antigo Juquery não corresponde mais a essa realidade. Franco da Rocha tem 2 residências terapêuticas com os egressos do Juquery, que fazem atendimento no CAPS II.
Quanto tempo o Satilio ficou no Juquery?
No Juquery ele ficou de 2 a 3 anos, porém seu prontuário pegou fogo no grande incêndio criminoso de 2005.
A Fazenda São Roque que para o Satílio foi transferido posteriormente, funcionava como uma extensão do Juquery? Ou não tinha ligação?
A Fazenda São Roque é possível achar no Google como Centro Pioneiro de Atenção Psicossocial. Não é extensão do Juquery, necessariamente, mas como são terras estaduais, durante um período os moradores do Juquery que tinham bastante autonomia eram enviados para morar lá até o momento de alta total. Com a possibilidade de irem para Residências Terapêuticas. Hoje em dia não há mais inserção na Fazenda.
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Você saberia dizer quando que o Satílio vai pra casa terapêutica? E a partir de qual momento ele começa a frequentar o CAPS?
A primeira residência terapêutica do município foi legitimada depois de um equívoco da Fazenda São Roque. Eles montaram uma casa com 8 moradores e apenas nos comunicaram pra cuidar como qualquer outro munícipe. Chegando lá não era bem assim, tinha insulinodependente, quadro de transtorno mental que precisa fazer medicação assistida, etc. Foi uma luta pra habilitar enquanto residência terapêutica mesmo. Com seu quadro de Rh pertinente. Foi em 2015 a inserção dele no CAPS. A habilitação começou a acontecer em 2016.
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10.5. DECUPAGEM – MARIA ELIZABETE FERREIRA DE PALMA – Diretora Técnica do CEFOR no Complexo Hospitalar do Juquery Realizada no dia 07/10/2019
Como inicia sua história com o Juquery?
É claro que eu lembro uma parte contada pela minha mãe, porque eu era muito pequena, ficava na creche do Juquery. Eu sempre tive um contado muito próximo com os internos do Juquery, mas eram internos que podiam perambular que eram tranquilos. Então tenho uma visão diferente dos moradores da cidade que não frequentavam o hospital. Porque assim, na escola se a gente aprontasse alguma coisa, os professores falavam: - “Cuidado que tem um interno solto por ai”, E a criançada morria de medo. Eu não tinha tanto medo, porque tinha outra experiência. Acho que experiência são coisas que marcam demais e, experiência tem haver com oque você vive, com os sentimentos que são produzidos em você e como você responde a eles. O entorno ajuda responder. Por isso, acho que existem pessoas que vão ter muitas angustias, muitas dores e pessoas que não e isso em qualquer patologia. Então por exemplo, eu tive parto cessaria, foi tranquilo, a minha irmã teve parto normal, tranquilo, as vivências que tivemos desses procedimentos foram diferente de pessoas que tiveram dores no parto, seja normal ou cessaria. Então eu acho que a gente precisa ter muito cuidado com a escuta e poder contemplar essa dimensão da vivência, que é individual, é subjetiva. Então assim quando estava na escola, para que pudesse ir pra casa (minha mãe foi a primeira telefonista do Juquery) o Carlitos, que era o Carlos Furine, um interno. Só que na época ele morava em um quartinho que ficava na portaria do hospital. Ele era autônomo, andava pela cidade, era conhecido, as pessoas não tinham medo dele, porque ele andava sempre bem arrumado, de terno, chapeuzinho. Claro que tinha algumas características na marcha, no jeito de se comportar dos internos, mas pra maioria da cidade era de boa, ele frequentava minha casa, me colocava de pé em cima de um banco, e rodava a
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manivela do telefone, porque naquele tempo ainda era dessa forma, só para que pudesse falar para minha mãe “olha estou indo pra escola”, “olha já voltei da escola”. Ele me dava os livros que ganhava da família dele sabe alguns clássicos da literatura, então eu desenvolvi um hábito gostoso de ler inclusive por incentivo dele. E assim, andava dentro do hospital com muita tranquilidade. A cidade não tinha praças - como ainda não tem - hoje que começam ter alguns jardins. Então os jardins eram lindos dentro do hospital e era ali dentro que a gente ia brincar, andar de bicicleta, jogar bola no campo, soltar pipa, que eram os lugares mais protegidos. O prédio central abrigava uma biblioteca que a gente vinha fazer os trabalhos escolares. Então à gente convivia com tudo isso e eu acho que isso colaborou muito para que eu fizesse psicologia, porque eu
via
outro
lado
dessas pessoas.
É
obvio
que
quando
eu
era
criança/adolescente, não era me permitido entrar nas colônias e batalhões, mas a gente via, ouvia, minha mãe trabalhava no hospital, eu ouvia e convivia com muita coisa. Fui crescendo, sempre com muita facilidade de conversar com os amigos. Então fiz pedagogia e me interessava pela dificuldade de aprendizagem, isso me lembrava das coisas que eu via aqui e fui fazer psicologia para complementar isso. Meu primeiro trabalho foi no Juquery, fiz um concurso público, para psicóloga. Na época a política de saúde mental ditava que os ambulatórios de saúde mental, deveriam estar na comunidade, - em 88, quando entrei. Já existia a política de que não se podia internar como antes. A lógica de que uma vez louco sempre louco, então ir ao hospital e deixar, não existia mais.
Como foi feito esse processo?
O ambulatório ficava na cidade, em uma rua importante da cidade, a Benedito Fagundes Marques, que é a rua paralela ao rio. Ali ficava o ambulatório de saúde mental. Então eu comecei a trabalhar com uma equipe de saúde mental, que atendia a comunidade, que já era pra gente “opa vamos atender os casos que não são da atenção básica, casos mais sérios, mas que precisa de uma
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intervenção para evitar a internação”. A gente já trabalhava nessa lógica em 1988. Depois a política de saúde mental continuou evoluindo, até que chegamos ao âmbito em que s ambulatórios de saúde mental, deveriam estar com os municípios, não mais fora. Então ele foi recolhido para o hospital em 1990, mas era pra ser um ambulatório junto com o ambulatório de especialidades. A saúde mental passou a ser entendida como uma especialidade e não aquele conceito de ser apartada. Pra gente começar a tratar a doença mental como qualquer outra acometimento do individuo. Então por exemplo: - “Há ela é uma gravida e teve um surto e é encaminhada para o hospital, pra ficar internada”. - “Não, é uma grávida, teve um surto e pode ser seu metabolismo”. Então vamos ver isso de forma global e não vendo que a cabeça está com alguns problemas então a excluem. Mas a lógica não era mais essa. A partir daí o ambulatório veio para dento do hospital e a gente começou a descontruir a ideia de ambulatório especializado e passou a tratar o ambulatório dentro da especialidade. Nessa época sai do ambulatório de especialidade e fui para o município, trabalhar em uma unidade de saúde mental, para ser articuladora da saúde mental. Continuando em outro seguimento, mas a gente sabe que a política de saúde mental, começa na saúde básica, com equipamentos que possam diminuir o estresse, para que se entendam as problemáticas psíquicas e que ofereça possibilidades de lidarem com isso. Mantendo um vínculo com escola, com trabalho, família, amigos. Então os equipamentos que podíamos ter disponível ali para manter de fato a saúde mental e não adoecimento. Fui para os municípios fazer os trabalhos e fiquei algum tempo fazendo essa articulação com o Estado.
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Voltei para o Estado como articuladora estadual de saúde mental. Então ai já não era só o município de Franco que eu fazia articulação, na época nós éramos uma regional, uma DIR e tinham cinco municípios, Francisco Morato, Franco da Rocha, Caieiras, Mairiporã, e Cajamar, regulávamos a questão da internação nessa região. No âmbito da lógica “opa internação só em ultimo caso e na lógica do quadro que prescreve que aquela pessoa seja, atendida de outra forma, mas que a referencia dela é onde ela mora, a família dela e tudo mais”. Então a gente fez essa articulação durante um tempo, depois eu tive que sair, até porque a internação não fazia mais parte. Então foi em 2001, onde assumi outra unidade, que é o Centro Formador, onde estou até hoje. No Juquery já não se internava. Continuamos com algumas internações? Continuamos, principalmente do poder público. Então aquelas pessoas que saiam da penitenciária viam para o hospital. Em alguns casos que existia o entendimento diferente do que a gente tinha, e o poder público dizia que tinha que internar, então ficava lá. Até a gente conseguir discutir esses casos, regular essas vagas e devolver pro equipamento que desse suporte. Então na verdade, muitos - não irei dizer todos porque não existi um consenso - mas muitos de nós trabalhadores da saúde mental já entendíamos que os modelos que estavam vindo até então, estavam sendo reformulados por várias razões, dentre elas, oque os quadros demandavam. Estudando, se preparando e entendendo essas políticas e essas necessidades, nós fomos, nos preparando para reforçar essa política de manter todos esses vínculos, não mais cárcere, não mais entendendo a loucura, como um acometimento sem volta. A linha tênue entre os ditos normais e os que não são. Então calma, vamos ver direito isso. Toda a evolução que existiu, tanto do conhecimento e do entendimento do que é um transtorno mental ou psicológico, quanto da farmacologia que evoluiu muito. Passamos de estratégias muito evasivas para estratégias menos invasivas. O crescimento da neurociência contribuiu muito para não precisasse abrir cérebros para ver onde é.
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Precisamos passar por tudo isso? Precisamos, infelizmente, eram primitivos farmacológicos e em diversas outras coisas. Os estudos foram permitindo. Só que a gente não precisa mais voltar esses passos primitivo, para continuar com a assistência. Voltei para outra área, não precisando mais fazer essa articulação, porque isso já estava dado e o hospital aqui, já estava em outro momento. Começamos com Franco, com um grande processo de desistitualização. O projeto terapêutico favoreceu o conhecimento da história individual, porque uma coisa é você fazer isso para 15 000 mil, outra coisa é você fazer isso pra 2000 mil. Isso aprofundou caso a caso aqui, fomos aprofundando e na verdade descobrindo laços familiares. Laços de onde essa pessoa veio, de que cidade que ela veio como veio, porque que ela veio. Isso foi contribuindo muito para que a pudéssemos resgatar alguns laços, levando essas pessoas de volta para onde tinha algum laço afetivo. Não só o laço mais o equipamento. Porque se essa pessoa vai de volta para uma família, ela precisa ter um aporte. Porque essa pessoa ficou separada 20, 15, 10 que seja separado dessa pessoa. E como é que você lida com essa pessoa, como é a inserção dela. Então ela precisa ter um aporte, a visita do profissional daqui que estava acompanhando essa pessoa, com os profissionais que vão atender se possuem condições de atender. Tudo isso preparado para que isso possa acontecer. Foram esses os processos que eu acompanhei, do espaço que eu estava. O meu depoimento é baseado na minha experiência, na minha vivencia. E assim nós fomos reduzindo o número de pessoas internadas. É obvio que concorreram com isso óbitos, porque assim, nós temos pacientes idosos, com doenças próprias do envelhecimento, a gente também perde essas pessoas. Mas desde a época que eu estive presente, de 1988, para cá o meu acompanhamento foi feito de forma diferente, sempre acompanhando para evitar que as pessoas fossem internadas. Até porque existia um contingente grande de pessoas que precisavam ser pensadas. Existem pessoas que trabalharam nesse seguimento, com as pessoas que estavam internadas ali.
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Ainda temos uma média de 60 pacientes, internados aqui e que estão sendo reinseridos. Nós estávamos nesse processo de desistitualização e toda orientação que a recebemos até então é que não ficaria aqui nenhum interno, começamos a pensar em outra proposta para o complexo do Juquery. Essas terras são do Estado, os nossos prédios não oferecem condições mais para abrigar a população, mesmo que seja agora com a norma técnica dos hospitais psiquiátricos o Juquery, não tem mais estrutura, para um hospital que precisa ter se for para acolher a demanda de saúde mental. Não mais grades, não mais um série de coisas. Nós nos preparamos para ser outro hospital, um hospital de reta guarda, clínica, não mais de saúde mental. Mas como nós somos um equipamento de linha direta, as decisões não cabem só a nós, tanto que no segundo festival – Soy Loco por Ti Juquery - nos continuamos com a linha de que os pacientes que estão aqui não seguem a lógica de saúde mental, mesmo o governo estando responsável por eles, nenhum deles será colocado na rua, obviamente. Eles estarão com a gente até que possamos arrumar um lugar adequado e condizente com o quadro que eles possuem, desde a maior dependência até a menor dependência.
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Diário de campo Durante o processo de pesquisa para a temática que envolveria o trabalho, lembrei de todo o interesse que sempre tive pela história da minha cidade, Franco da Rocha. Tive como referência, desde cedo, o relato do meu nascimento e daqueles que me cercam que, de uma forma ou de outra, viveram algum episódio de suas vidas no Hospital mais famoso da cidade, o Juquery. Permiti-me mergulhar na história velada da cidade, que consequentemente é a história do Hospital do Juquery. Um hospital psiquiátrico que foi cenário do meu nascimento. Durante o processo de pesquisa deparei-me com o livro O Holocausto Brasileiro, um livro reportagem escrito pela jornalista Daniela Arbex, que nos relata maus trados com os pacientes, que eram colocados em situações desumanas, relatos de pessoas que sobreviveram ao inferno vivido nas colônias do manicômio. A partir daí, apresentei meu interesse em mergulhar na história do Hospital, o que fazia o diferente ser considerado louco e porque que as pessoas hesitavam em falar sobre o passado. Mas o que trouxe de fato a notoriedade foi a norma técnica de saúde divulgada no inicio do ano pelo Ministério da Saúde, onde ficava clara a ideia de retroceder a evolução que tivemos no aspecto de direitos humanos e que foi pouco explorado pelas mídias. Obtive muitas referências, o que me deu suporte para continuar a pesquisa, que se transformaria em um livro reportagem. A escolha por esse formato se deu pelo fato de que acredito que um tema tão sensível e histórico, carregado de significado para a cidade de Franco da Rocha, deveria ter um espaço abrangente, onde seria possível dar vozes às pessoas que por muito tempo ficaram caladas. É claro que o sentimento de me realizar como escritora, contribuiu muito para que o formato de livro reportagem fosse escolhido. Busquei referência para escolher qual narrativa seria mais adequada e claro que Daniela Arbex trouxe uma reflexão que agregou de forma significativa, durante o processo de escrita. O momento de mais dificuldade foi o acesso nas dependências do Hospital, além de haver certa dificuldade no contato com as fontes, mas que foi
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superado de forma positiva durante o processo. As entrevistas em sua maioria me atingiam de uma forma que era preciso me reconstruir como jornalista. Um dos momentos mais difíceis foi ter que escutar minha mãe contar a história do meu nascimento, com um olhar profissional e não de filha, assim como me conter ao ouvir o Satílio relatar os fatos de sua vida, pois apesar de haver profissionais que me apoiassem, fui pega desprevenida ao me deparar com o ex interno do Juquery, que possui o diagnóstico de esquizofrenia, o que me obrigou a estudar sobre sua doença para que pudesse compreender os seus aspectos. Lidei com questões burocráticas, como por exemplo, adentrar a localidade do Juquery, questões relacionadas às fontes necessárias para que o livro reportagem fosse finalizado completamente. Mas por outro lado obtive pessoas que se dispuseram a ajudar como profissionais e como seres humanos. Sem receberem nada em troca, decidiram me dar a mão e confiar no projeto, isso sem dúvidas foi o que me motivou dia após dia.
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Anexos
11.1.
Figura 1: Aspecto geral do Hospital Central do Juquery. Fonte: Acervo Prof º José Parada
11.2.
Figura 2: Prédio de clínica do Hospital Central do Juquery. Fonte: Acervo Prof º José Parada
11.3.
Figura 3: Prédios de clínicas do Hospital Central do Juquery Fonte: Acervo Prof º José Parada
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11.4.
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11.6.
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11.7.