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Raul Brasil em Pauta - Daniel Marques da Silva

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DANIEL MARQUES

RAUL BRASIL EM PAUTA


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DANIEL MARQUES

RAUL BRASIL EM PAUTA Revisão: Fernando Barreto

2020


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Para Dennis Maciel, Edgar Leite Elegancia, Marcus

Pontes

e

Rodrigo

Barone.

Para

Antonio Assis. Por Deus e por minha mãe, Geruza; meu pai, Ribamar e minha irmã, Gabriely.


APRESENTAÇÃO Ao longo da primeira e segunda décadas dos anos 2000, o Brasil e o mundo foram castigados por grandes tragédias. E coube à Grande Mídia, dotada de grandes recursos, informar ao seu público sobre esses casos. No atentado ocorrido na escola estadual Raul Brasil, em 13 de março de 2019, na cidade de Suzano-SP, o protagonismo mudou de lado: fotos e informações da mídia “do interior” dominaram os grandes portais de notícias do Brasil e do planeta. Este autor estava em seu segundo dia de estágio no jornal de maior circulação de Suzano e teve, assim como seus colegas, que fazer uma das coberturas mais exaustivas e difíceis de sua vida. Raul Brasil em Pauta traz detalhes sobre a cobertura feita pelo autor e por outros quatro jornalistas, que não só informaram, mas serviram como fontes para a Grande Mídia em seus respectivos veículos de comunicação. As entrevistas foram feitas durante a grande pandemia de coronavírus (Covid-19), iniciada em 2020 e que ceifou milhares de vidas no mundo inteiro. 6


A chacina da Raul Brasil, que resultou em dez mortes, é contada em detalhes aqui pelos jornalistas. Ela gerou consequências que certamente evitarão novas mortes no mesmo molde. Raul Brasil em Pauta detalha a maior tragédia da história de Suzano, ao passo que conta a trajetória, naquele dia, do primeiro jornalista que chegou à escola, de dois editores-chefes que precisaram gerenciar duas equipes de estagiários, e de dois iniciantes na profissão, que tiveram que lidar, logo de cara, com uma das maiores coberturas de suas vidas.


Cliques da semana do atentado: Sabrina Silva

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“A natureza do jornalismo está no medo. O medo do desconhecido, que leva o homem a querer exatamente o contrário, ou seja, conhecer.” Felipe Pena


SUMÁRIO DO FINAL............................................................................. 13 Fim do dia ........................................................................... 14 Primeiros contatos ............................................................... 16 13 de março ......................................................................... 18 Primeiras notícias ................................................................ 20 Perfis dos assassinos ............................................................ 22 A PAUTA .............................................................................. 25 09:42:22 .............................................................................. 27 Relação com grandes casos.................................................. 31 Localização ......................................................................... 33 Nas pontas dos pés .............................................................. 34 Primeiro jornalista ............................................................... 39 Repercussão imediata .......................................................... 43 Da redação do Diário de Suzano .......................................... 48 Caso único........................................................................... 51 Responsabilidade ................................................................. 55 FORMANDO A INFORMAÇÃO ........................................ 64 Fora da curva....................................................................... 66 LEGADO............................................................................... 77 Consequências ..................................................................... 78 Medo constante ................................................................... 83 10


Oportunismo ....................................................................... 85 Conclusão do inquérito ........................................................ 87 Enfim .................................................................................. 89 Agradecimentos................................................................... 95 Referências .......................................................................... 98


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DO FINAL

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Fim do dia Eram por volta das 22h30 daquela noite. Como em todo dia comum, fomos liberados para ir para casa após o término da aula. Fiz o de sempre: recolhi minhas coisas, coloquei na mochila e peguei meu celular para olhar onde estava o 038 que pegava para ir para casa. Me despedi dos colegas e da professora Flavia Delgado, que acabara de nos dar mais uma aula de telejornalismo. Saí do Núcleo e desci a rua até o ponto de ônibus - este não tão longe – mas a mente viajando em tudo o que aconteceu naquele dia. Ao entrar no ônibus, sentei em um local que, desde aquele dia, adotei para todas as vezes que usar este transporte. Ele fica atrás do banco mais alto, um pouco mais para o fundo do ônibus. Sabia que iria chorar, mas nunca gostei que me vissem nesta situação. Ali, tudo o que vivi naquele dia passou pela minha cabeça. Foram quase 13 horas vivendo intensamente Raul Brasil, tanto na cobertura do evento quanto nas diversas perguntas direcionadas a mim durante a aula, já que era um dos poucos alunos da sala que morava em Suzano. No banco daquele ônibus, durante quase uma hora, pude rever tudo o que aconteceu. Ali, despejei toda a tristeza e angustia daquele dia. Foi duro ver aquela escola passar por tudo o que passou. Foi duro ver uma parte importante que tanto amo da minha cidade estampando os principais portais de notícia do mundo de uma forma tão dura. A viagem longa serviu para pensar no valor de uma vida e no quanto somos pequenos perto da morte. Ao ver tantas crianças 14


que se foram, tantos entes queridos de famílias humildes e tantos seres humanos que ocupavam um lugar importante na vida de outras tantas pessoas, pude me colocar no lugar de vários envolvidos. De quem morreu, de quem sofreu, de quem viveu. Eu apenas não vivi a morte, mas sei que ela, cedo ou tarde, chegará. Mas pude viver muito do que aqueles alunos viveram em uma escola pública. Nunca vou esquecer de nada do que vivi naquele dia. Foi muito duro me manter forte, mas o massacre na escola Raul Brasil me ensinou muitas coisas que jamais acreditei que aprenderia desta forma.

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Primeiros contatos Gostaria de “explicar o amor”. Desde pequeno, quando participei do “cursinho da Telma” (um curso de música que meus amigos e eu fazíamos no bairro onde moro), tive contato com o jornal Diário de Suzano. Eu tinha entre 11 e 13 anos, mas três editorias me agradavam muito: Polícia, Cidades e Esportes. Não sei de onde as tias tiravam as edições (acho que eram assinantes), mas todos os dias, estava lá a edição do “Diário de Suzano”. Eu pegava o jornal e a primeira coisa que procurava era o meu bairro ou bairros próximos, para saber o que havia acontecido por perto. Era curioso para entender como o jornal sabia das coisas que aconteciam nos jardins Belém, Nazareth, Natal, Colorado, etc, e tenho certeza absoluta que a paixão pelo jornalismo nasceu durante esse período. O contato quase que diário com o Diário de Suzano me fez ter um certo “amor” pelo jornal, e isso não é nenhum exagero. Um dia, Edgar Leite Elegancia, meu editor-chefe durante meu período no Diário de Suzano, Marcus Pontes, meu segundo professor no jornal, e Lucas Lima, um grande jornalista e amigo que me ajudou muito no meu início, vão ler essa obra e podem achar que estou exagerando. Vou contrariá-los. O amor já existia sim. Com o amor pelo Diário de Suzano, veio a bolsa para cursar jornalismo no mesmo ENEM que mencionei acima. Nos primeiros meses na faculdade, meu maior objetivo era entrar neste jornal. Eu sabia que teria que lutar muito para ter uma chance, então fui à luta: entreguei currículos na recepção do jornal em, pelo menos, duas oportunidades. Em outubro de 2018, fui

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chamado, fiz um teste e fiquei em casa esperando uma resposta que demorou quase cinco meses para chegar. Resumidamente, no dia 8 de março de 2019, uma sexta-feira, eu estava no térreo do prédio da Receita Federal, em São Paulo. Para você ter uma ideia da demora, já havia até conseguido um estágio na área. Ali, recebi uma ligação do Edgar, dizendo que eu passei no teste e pedindo para que eu fosse ao jornal. O desespero bateu. Liguei para minha mãe e ela me acalmou pelo telefone. Em seguida, voltei para Suzano, fui até o Diário de Suzano e lá, o Edgar disse que eu começaria na segunda-feira, 11 de março de 2019. Neste momento, expliquei para ele que precisaria “desligar” na Receita. A oferta era melhor, o jornal ficava perto de casa, então eu tinha que aceitar. Então, Edgar me orientou a resolver os problemas na segunda-feira e ir para o jornal para aprender um pouco sobre o sistema. O fiz. O dia 12 de março de 2019 foi o meu primeiro no Diário de Suzano. Eu faria o Caderno D, ou seja, pegaria informações de novelas e horóscopo, colocaria na página e só. Já neste dia, tive que atuar como repórter e fazer duas pautas na rua relacionadas às chuvas que castigaram a cidade na noite anterior. Achei o dia difícil, mas não tinha ideia do que viveria 24 horas depois.

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13 de março Aquela quarta-feira era mágica na minha vida, o segundo na redação do Diário de Suzano. Eu já havia conversado com a dona Alcione – que me mandou fazer toda a parte burocrática da contratação – e já tinha feito duas pautas na rua. A primeira foi com a primeira-dama da cidade, dona Larissa Ashiuchi, que comandava uma ação para acolher moradores da cidade que foram prejudicados com as fortes chuvas da noite anterior. A segunda, um alagamento em frente à uma escola no Miguel Badra, um bairro de Suzano. Me sentia aliviado, porque já havia “quebrado o lacre” de um estagiário/repórter “virgem” na profissão. Acordei às oito horas daquela quarta-feira, com o relógio despertando. Levantei, cumprimentei meus pais, tomei banho e sentei à mesa eufórico com o que poderia vir de desafio naquele dia. Estava sentindo que seria um dia espetacular, porque era algo que eu amava fazer. Tudo o que sempre sonhei (“sempre”, quero dizer depois que me tornei adulto), estava acontecendo. Eu cursava uma faculdade de jornalismo e exercia o jornalismo puro. Mas sempre fui meio “supersticioso”. Praticamente fui criado com superstições. E na vida, eu já dei tanto com a cara no muro por falar grandes coisas “antes da hora”, que apesar da felicidade, não queria que as pessoas soubessem que eu estava trabalhando em um jornal de grande nome e conhecido em toda a cidade. Eu queria manter “segredo”, pelo menos até entender que tudo estava certo e que continuaria no jornal. Mais para frente, vocês vão ver que isso não funcionou.

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Tomei o ônibus e fui até a redação, que antes ficava na Rua Monsenhor Nuno, 641, bem próxima à escola. Ao chegar, notei que o “barbudo” Marcus Pontes não estava. Mas por ser novo, não tinha diferença. Eu mal sabia que ele era jornalista formado na época. Os outros estagiários estavam chegando. A incrível Aline Moreira, que me ajudou demais quando cheguei; o Dennis Maciel, que era mais discreto e falava pouco; e uma outra menina, que eu nem lembro o nome, mas que havia entrado depois de mim. Tinha também o Lucas Lima, que estava com a responsabilidade de ensinar essa nova estagiária, além das fotógrafas: Bruna Nascimento e Sabrina Silva – e sem querer puxar-saco, mas são as melhores que eu já vi. Todos estávamos chegando para aquela que seria uma das mais dramáticas coberturas jornalísticas de nossas vidas (e sim, apesar de estagiários, podemos dizer que isso nos marcará para sempre).

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Primeiras notícias Desde o momento em que eu cheguei na redação até a hora da confirmação do ataque, houve uma série de acontecimentos que me deixaram inquieto. Na verdade, após saber da ação que ocorreu na Raul Brasil, eu senti um misto de impotência, por não poder fazer nada; medo, por conhecer alguém que poderia estar entre as vítimas; ódio, pela ação cometida por aqueles dois malucos; tristeza, por todos que sofreram com aquelas mortes; preocupação, com o desafio que estava por vir; consternação, por ver que aquilo estava acontecendo “no meu quintal”; além de um gelo na barriga e um suor constante que me acompanharam durante todo aquele dia terrível. Ao chegar na redação, sentei em minha cadeira e a primeira coisa que fiz foi abrir o G1, o portal de notícias da Globo - algo que fazia nos primeiros dias. Em seguida, comecei a levantar os resumos de novelas e o horóscopo para o Caderno D que sairia no dia seguinte – essa seria minha função no jornal. Logo, as primeiras notícias iam surgindo no “tempo real” criado pelo G1 naquele dia. Elas diziam que “atiradores” haviam entrado na escola, ferido algumas pessoas e cometido suicídio em seguida. Era algo assustador, surreal e inacreditável que estava acontecendo a poucos metros de onde eu estava. Na era tecnológica que vivemos, não demorou para me mandarem vídeos e fotos daquele ambiente aterrorizante. Eram imagens chocantes de pessoas caídas sobre poças de sangue no corredor que dá acesso ao pátio da escola. Me emociono ao escrever essa parte da obra, porque me lembro novamente das imagens.

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As coisas iam acontecendo. As notícias pioravam a cada instante. A GloboNews entrou ao vivo, com imagens aéreas e do chão do lado externo da escola, e toda a vez que eu escuto a vinheta do “Edição das 10”, lembro daquele 13 de março. Até hoje. O tempo foi passando e eu não conseguia me concentrar de jeito nenhum nas tarefas que haviam designado para mim. Não importavam naquele momento. O mundo caía sobre Suzano e tudo o que eu queria era poder ajudar de alguma forma, e penso que meus colegas de redação viviam a mesma situação. O Diário de Suzano “pagou caro” por ser o jornal mais antigo, tradicional e de maior circulação da cidade. Veículos de outros lugares do Brasil começaram a ligar para a redação em busca de informações sobre o massacre. Fiquei perplexo com todo aquele cenário – o Dennis conversando com jornalistas do Rio Grande do Sul, uma correria tremenda de gente cansada chegando e saindo da redação, as notícias na televisão que só pioravam a cada atualização e por aí vai. Naquela manhã, eu só tinha uma certeza: de que o dia seria completamente diferente de tudo o que eu já havia vivido e imaginado.

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Perfis dos assassinos Guilherme Taucci Monteiro, na época com 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, planejaram o crime com a perfeição de dois grandes psicopatas, mas executaram com as falhas de dois jovens que nunca haviam feito algo parecido antes. Ainda bem, porque com todo o armamento que tinham, a tragédia certamente seria muito pior se não tivessem “falhado”, dada a dimensão do ataque que planejaram realizar. Não vou me aprofundar muito na tragédia em si, mas reservei este e o próximo capítulo justamente para dar uma pincelada na ação deles e tentar entender o que evitou que o massacre tomasse proporções ainda maiores. Começando pelo perfil de ambos: as investigações apontaram que os dois moravam na mesma rua e, com base em relatos de vizinhos, que Luiz Henrique era explosivo e se metia muito em confusões, enquanto Taucci era mais discreto e calado. Os dois utilizavam as redes sociais para postar fotos e vídeos de jogos violentos e armas. Lembro-me que na época, falou-se muito sobre o estilo de jogo que ambos usavam para passar o tempo. Guilherme, por exemplo, era fã de Assassin's Creed – um jogo onde o player se coloca no lugar de um assassino em um embate entre Assassinos (que querem paz e liberdade) e Templários (que querem ordem na humanidade e dominar o mundo). Já Luiz Henrique aparentava gostar de armas e de militares. E é claro que tudo isso foi usado como motivador do massacre na época, o que eu acho uma tremenda bobagem. Nem Guilherme nem Luiz Henrique mataram porque jogavam jogos de tiros, ou porque gostavam de armas. Eles mataram 22


porque eram psicopatas e tinham sangue frio para matar. Simples. O Assassin's Creed já era conhecido antes do massacre justamente pelo sucesso do jogo entre os gamers. Se os jogos induzissem os jovens, de fato, a matar, o número de mortes deste perfil seria muito maior no Brasil e no mundo, simplesmente porque a quantidade de jogadores é grande. Tem que ter “algo a mais” para alguém ter sangue capaz de tirar tantas vidas inocentes desta forma. Nos casos de Guilherme (principalmente de Guilherme) e de Luiz Henrique, esse “algo a mais” era a mente psicopata. Quando digo que a psicopatia era característica “principalmente” de Guilherme, falo isso com segurança. Durante o período apurando informações e detalhes para o livro, pude ver algumas imagens de câmeras internas da Raul Brasil que me deixam com a certeza de que o mais novo era muito, mas muito mais frio do que o mais velho. Em nenhum momento do ataque, Guilherme demonstrou qualquer nervosismo ou arrependimento em seus atos, ao contrário de Luiz Henrique, que foi muito mais estabanado e cometeu falhas que poderiam ter atrapalhado a ação como um todo. O mais velho se mostrou mais nervoso. Entrou na escola correndo, golpeou as vítimas já mortas para “conferir” os óbitos, se atrapalhou durante a fuga dos alunos, chegando a perder uma machadinha que ficou presa em um dos alunos, entrou em luta corporal com outra. Mostrou que, apesar de estar ali, teve problemas para executar a ação. Oposto disso, Guilherme foi “congelado” desde o momento em que abriu a porta de acesso à secretaria da escola. Ele sim sabia exatamente o que estava fazendo, como faria e de que forma iniciaria uma chacina que 23


marcaria, para sempre, a história de Suzano e a vida de milhares de suzanenses.

Guilherme Taucci realizou diversos disparos na Secretaria da escola. Uma das câmeras de monitoramento da escola ficava no local.

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A PAUTA

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09:42:22 Tive muitas dificuldades para fazer essa cronologia. Usei como base imagens exibidas pela Record TV, que teve acesso ao conteúdo completo de todas as câmeras da escola. Sim, tentei pegar com eles, mas imagens como essas não são cedidas tão facilmente. E é óbvio que a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo não liberaria as imagens. Foi melhor assim. Confesso que não consigo vê-las na íntegra. Só as que tive acesso já me geraram noites sem dormir pensando em tamanha crueldade. Em janeiro, fui até a escola e conversei com alguns vizinhos que disseram que, das lajes de suas casas, viram o assassino Guilherme realizando os disparos. Apesar do tempo passado, muitos alambrados ainda estavam tortos – resultado da fuga dos alunos. A dor segue grande. Nada mudou. Pois vamos aos fatos daquele dia, que são doloridos e serão resumidos ao máximo. Antes de chegarem na escola, os dois suicidas já haviam ido até uma agência de veículos e atirado três vezes contra o tio de Guilherme. A vítima foi socorrida, mas acabou morrendo em decorrência dos disparos. Um áudio, que circulou por aplicativos de mensagens na época, indicou que o tio de Guilherme descobriu que o sobrinho realizaria o ataque. Ele teria tentado impedir o crime. Inclusive, segundo relatos de testemunhas divulgados em vários veículos de imprensa após o ataque, o garoto havia discutido com o tio um dia antes de matá-lo.

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O plano de ambos era muito simples: antes de cometerem o massacre na Raul Brasil, cada um deles executaria um desafeto. Eles já haviam ido até a residência de um alvo de Luiz Henrique para mata-lo, mas não o encontraram no local. Após realizar os disparos, Guilherme entrou em um Chevrolet Onix branco com Luiz Henrique e ambos se dirigiram até a escola, que fica a cerca de 500 metros da agência. Uma câmera de monitoramento instalada em uma casa que fica na frente da escola Raul Brasil marcava exatamente 09h42m22s horas daquela manhã, a hora exata em que o veículo alinhava em frente ao portão de entrada principal da unidade escolar. Guilherme, o mais novo, abre a porta, desce do carro e começa a conversar com Luiz Henrique, o mais velho, que estava dirigindo o veículo. Com um moletom, calça preta, bota, um boné para trás e uma mochila nas costas, ele se dirige para dentro da escola portando uma pasta na mão esquerda, enquanto Luiz Henrique – que estava com uma blusa de mangas longas, calça, tênis e boné - segue no veículo. Neste momento, uma câmera que ficava do lado de dentro, apontando para o portão, mostra Guilherme parando no meio do corredor e olhando para trás, na espera por seu comparsa. Um homem sai da secretaria e se dirige para o lado esquerdo, desviando do assassino, em uma ação que pode lhe ter garantido a vida. Guilherme segue para dentro da escola. Era hora do intervalo e havia 16 pessoas no hall de entrada do prédio. O atirador entra pela porta, se dirige para um dos cantos e larga a pasta. Em seguida, o assassino levanta a camisa, saca uma arma, vira e 28


realiza cinco disparos na direção de quem está ali, matando dois alunos e a coordenadora pedagógica da escola. O assassino, então, larga a mochila no chão, tira o moletom e se dirige para um dos pátios da escola – agora com uma camiseta preta. Menos de cinco segundos depois, Luiz Henrique entra correndo pela porta da secretaria com uma mochila nas costas, uma bolsa, uma besta e um arco e flecha nas mãos. O mais velho larga as armas e a bolsa, pega uma machadinha e golpeia as três vítimas fatais que já estão caídas no local. Luiz Henrique começa a mexer nas barras da calça a procura de alguma arma. Nesta hora, uma mulher pode ser vista através do buraco onde ficava o vidro do balcão de atendimento – quebrado com os disparos de Guilherme - tentando abrir a porta. Ela volta para os fundos do local no exato momento em que uma aluna aparece tentando fugir e é segurada por Luiz Henrique. A jovem consegue se desvencilhar, abre a porta de entrada e corre, fazendo com que outros alunos saiam pelo mesmo lugar. Um deles acaba sendo acertado pela machadinha, que fica presa ao ombro. O assassino Luiz Henrique corre para dentro da escola enquanto os alunos que saíram correndo pela porta buscam ajuda nas imediações. As crianças que estavam no pátio comendo começaram a correr ao ouvirem os tiros. Em outro pátio – este aberto - alguns alunos conversavam. Eles tentam fugir ao escutarem o barulho dos disparos e verem colegas correndo da área coberta da escola. Neste momento, todos correm para o mesmo lado ao verem Guilherme com a arma. Vários alunos pularam os muros da Raul Brasil e buscam ajuda, enquanto outros ficaram encurralados pelo 29


assassino. Ali, Guilherme gritou e realizou mais disparos contra os estudantes, matando ao menos dois e ferindo vários outros. Luiz Henrique vai ao encontro do comparsa e ambos voltam para o hall de entrada da Raul Brasil. Ao chegarem, Guilherme mostra frieza e violência e atira novamente nas pessoas que já estavam mortas no chão. Eles pegam as armas que o mais velho havia deixado no chão e voltam para o pátio da escola. Um pai entra correndo procurando o filho, vai até o pátio e dá de cara com os dois assassinos. Ele volta para o lado de fora e encontra um policial à paisana, que entra na escola armado e diz aos assassinos que o prédio está cercado. Em uma entrevista à Record TV, o militar disse que escutou o som de dois tiros e que, em seguida, policiais fardados entram na escola e encontram os dois assassinos mortos em um dos corredores.

O carro branco com os assassinos para às 09:42:22 em frente à escola. 30


Relação com grandes casos Sempre tive interesse em saber muito sobre grandes crimes que tiveram grande repercussão e marcaram história no Brasil e no mundo. Casos como Isabella Nardoni, João Hélio, Carandiru, Tim Lopes, família Pesseghini, por exemplo, e maníacos e assassinos notórios, como Champinha, Elias Maluco, Farah Jorge Farah, Elize Matsunaga sempre me chamaram a atenção pela frieza incalculável que cometiam seus crimes. Sempre procurei ler sobre crimes e constatei que é impossível acreditar que esses seres humanos puderam tirar vidas de formas tão cruéis sem demonstrar o menor arrependimento em inúmeros destes casos. Como Elize conseguiu cortar o corpo do próprio esposo? Como Farah conseguiu esquartejar uma mulher e colocar no porta-malas do próprio carro? Como os assaltantes conseguiram chamar o pobre João Hélio de “boneco de Judas” enquanto o garoto estava sendo arrastado pelo carro que eles haviam acabado de roubar? Como eles conseguiram fazer isso sem sentir pena? São coisas que nunca vou conseguir entender. Porém, durante todo esse tempo, jamais imaginei que algo com tamanha repercussão aconteceria em minha cidade, e logo “no Raul Brasil”, como sempre chamamos. Ali, bem ao lado do centro, no coração de Suzano. Na mesma escola que fiz minha prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) que, mais tarde, me deu a chance de realizar o sonho de cursar o mesmo curso que motivou este TCC. A dor de ver meu Raul Brasil passar por isso perdura até hoje. Os dois assassinos instalaram nos corações de todos os suzanenses uma ferida eterna. Uma dor que nos forçou a conviver com ela. 31


Não há pintura, revitalização ou qualquer mudança no prédio físico da escola que vai sarar essa ferida. O caso Raul Brasil será inesquecível. Ele é o grande responsável por tornar Suzano uma cidade conhecida no mundo. E infelizmente, de forma negativa.

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Localização

Google Maps

Em azul: antiga sede do Diário de Suzano, onde estávamos no dia do atentado; Em vermelho: escola estadual Professor Raul Brasil, onde ocorreu o ataque. A distância a pé até o antigo prédio do jornal é de cerca de 950 metros; Em verde: Hospital Santa Maria, em torno de 300 metros da escola. Foi onde vários alunos buscaram socorro; Em laranja: a estação de trem de Suzano, que fica na região central da cidade.

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Nas pontas dos pés O início daquela cobertura foi difícil. Para vocês terem uma ideia, escrevi este livro em outubro de 2020 e lá se vai um ano e sete meses de muito aprendizado no Diário de Suzano. Durante todo esse tempo, uma das coisas que Edgar me ensinou é que, em uma redação de jornal, todas as pautas podem cair se algo de muito importante surgir no dia. Ele costumava chamar isso de “parem as máquinas”. “Daniel, pare as máquinas. Preciso que você faça tal coisa.” Esclarecendo, se eu tivesse que, por exemplo, ir até a área rural de Suzano para conversar com agricultores sobre o retorno financeiro que tinham com suas hortaliças no mês e, de repente, caísse um avião na minha região, o Edgar pediria para “pararmos as máquinas”, ou seja, pararmos tudo o que temos para fazer e nos concentrarmos apenas na queda do avião, que é a notícia quente do momento. Naquele 13 de março, todos tivemos que parar nossas máquinas. Me recordo que foi um período de fortes chuvas e que havia desabrigados na cidade. Não lembro ao certo quais eram minhas pautas, mas esse assunto estava entre elas. Em determinado momento, a redação inteira teve que se mobilizar para fazer a cobertura do ataque. Mais para frente, vocês terão detalhes do que alguns jornalistas fizeram naquele dia. Lembro-me que Edgar me avisou, no início da tarde, que as médicas do hospital Santa Maria dariam uma entrevista coletiva para passar o estado de saúde das vítimas, e que eu iria lá para 34


fazer a cobertura. O hospital ficou conhecido como o primeiro local pensado por várias crianças na busca por socorro instantes antes do ataque iniciar. Fiquei em choque com a informação, mas sabia que conseguiria fazer. Seria minha primeira coletiva – tipo de entrevista que mais gosto, desde sempre. Perto das 13 horas, pegamos o carro e fomos até o hospital: Celso Sambrana, motorista do jornal; Sabrina Silva, uma fotógrafa excepcional, com quem aprendi muito durante essa trajetória; e eu, tremendo como se estivesse com Parkinson. Celso era um GPS humano, conhece tudo na região. Já Sabrina, era reclamona. Ela saiu do jornal no fim de 2019, mas naquela época, reclamava de tudo. Porém, entendo que as queixas de Sabrina, falando que “precisava almoçar”, eram justas. Foi muito mais corrido para ela e para os outros do que para mim. Chegamos ao Santa Maria e o cenário era violentamente pesado. Do lado de fora, o médico Austelino Mattos tentava traduzir para os veículos de televisão presentes as palavras apavoradas das crianças que correram para o hospital após o ataque. Foi algo que nunca pensei em viver tão cedo na profissão. Havia diversos microfones conhecidos de todos nós, tais como Globo, Bandeirantes, Record, entre outros. Fiz o que tinha que ser feito: colhi as informações com ele e aguardei o início da coletiva, que seria em uma sala do lado de dentro do hospital. Enquanto isso, observava todo o caos que fora estabelecido naquele local.

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Em determinado momento, vi alguns jornalistas correndo para dentro do hospital. Era o momento em que iniciaria a coletiva. Fiz o mesmo, mas nesta hora, acabei passando atrás de uma repórter da Rede Globo, que estava ao vivo no Jornal Hoje, exibido no início das tardes na emissora. Fui reconhecido por vizinhos, que assistiam no momento – era algo que não queria que acontecesse, pois sempre achei melhor me estabilizar no jornal, para que depois as pessoas soubessem que eu trabalhava em um. Não deu certo, e mais tarde, fui questionado no meu bairro, mas mais para frente, conto como foi isso. Chegando na salinha, o cenário era impressionante. Calculando por cima, o local tinha uns 20 ou 30 metros quadrados no máximo. No canto de uma parede, três médicas estavam encostadas olhando para uns 20 jornalistas que couberam (não sei como) lá dentro. Tinha gente deitada no chão, câmeras espalhadas, ombros servindo de apoio para braços esticados que seguravam microfones e celulares e todo mundo querendo pegar o melhor ângulo e o melhor áudio das médicas. Ao meu lado, estava o Rodrigo Hidalgo, repórter da Bandeirantes. E sabe quando o repórter novato olha para o lado, vê um profissional rodado e fica espantado, observando como ele trabalha? Sim, esse novato era eu naquele momento. Mas eu tinha que me concentrar no meu trabalho. Com a falta de espaço, me aproveitei da minha estatura de 1,81 metro – que não é lá grande coisa, mas é maior do que de muitos jornalistas por aí – e estiquei meus braços para pegar um bom áudio das médicas. Ali, vi o microfone do Diário de Suzano no meio de outros da grande e tradicional imprensa do Brasil. Ali, posicionei o Diário 36


de Suzano de uma forma que representasse sua importância naquele momento: a importância de um veículo que serviu como principal fonte para outros veículos. A entrevista era fundamental, mas eu sabia que o nosso microfone tinha que estar ali no meio aparecendo. Fomos nós que abastecemos jornais de outros estados com nossas informações, e esses veículos também tinham que saber que estávamos lutando pelas informações. Acanhado, tremendo muito e com medo de errar, fiquei preocupado e na dúvida se falaria algo ou não. Mas era naquela hora ou nunca. Eu tinha que perguntar, porque se eu deixasse passar, não classificaria a missão como cumprida. Consegui fazer uma pergunta sobre o número de crianças que estavam no hospital e fui respondido. Era o alívio de um mero estagiário que fez sua primeira pergunta em uma coletiva, diante de tantos jornalistas gigantes. Com a missão dada e cumprida, voltamos para a redação. Ao chegar, sentei e comecei a escrever o texto sobre o estado de saúde das vítimas. Estava mais tranquilo e consegui desenrolar a matéria rápido e entregar para o Edgar, que rapidamente a subiu no portal. Logo depois, chegou na redação o Douglas Pires, um jornalista da região que estava no jornal na época e que foi até o Santa Maria. Nervoso com o caso, porém com um sorriso no rosto, ele se aproximou de mim e me elogiou: disse que eu “era bom” e que havia colocado o microfone do Diário de Suzano lá no meio, entre os de outros veículos. Brincou com o Edgar sobre isso, que soltou: “É do Diário de Suzano, né?”

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Ali, eu tinha certeza de que continuaria no jornal e que lutaria para ser útil sempre, assim como faço e farei até meu último dia aqui.

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Primeiro jornalista No início de 2020, o Diário de Suzano se mudou para um prédio próximo à chamada Rua dos Três Poderes – aquela que dá acesso ao Executivo, Legislativo e Judiciário da cidade. Mas antes disso, o jornal ficou por cerca de 40 anos em um prédio na Rua Monsenhor Nuno, 641, bem no Centro de Suzano. Na época do ataque, o jornal ficava a pouco mais de um quilômetro da escola. Tínhamos o Marcus Pontes, um jornalista que, com o perdão da palavra, era f#$%@ e me ensinou muito durante todo o tempo em que esteve no jornal. Antes de ele ir do Diário de Suzano direto para iniciar como produtor na Record (sim, ele era monstro assim mesmo), foi o primeiro jornalista a chegar no Raul Brasil naquele dia. Era nosso repórter policial. Todas as vezes que eu fazia matérias policiais para o jornal, me lembrava do Marcus. Porque foi ele quem me ensinou a fazer isso. E depois de me ensinar, sempre me deu apoio para que eu crescesse. Ele vai ler isso e vai rir porque, na verdade, não gosta muito de receber elogios. Por “fazer Polícia” (assim nos referimos a quem faz as rondas nas delegacias e colhe informações sobre fatos policiais), ele era mais sério mesmo. Quando eu o elogiava, ele não falava muito, apenas agradecia meio seco. Aquele dia começou como qualquer outro para o Marcus. Ele chegou na redação entre 7 e 8 horas e foi fazer a ronda policial. Seguiu o roteiro bastante comum da época: passou na Delegacia Central de Suzano e, de lá, foi para a de Itaquaquecetuba, onde recebeu a informação de uma fonte de que havia ocorrido um latrocínio (roubo seguido de morte) na Avenida Mogi das Cruzes, 39


em Suzano. Não sabia da dimensão do problema, pois naquele momento, o tio de Taucci havia acabado de ser assassinado. Marcus saiu da delegacia e voltou para Suzano com o motorista do jornal, Celso Sambrana. “Eu me viro com esse latrocínio”, disse, fazendo referência às matérias policiais que teria que escrever no dia. Ainda no caminho, Marcus recebeu o segundo sinal. Desta vez, a fonte dizia que “os assassinos do caso da Avenida Mogi das Cruzes, possivelmente, haviam fugido na direção da escola”, e que “o negócio era feio, feio, feio”. Ao chegar na Avenida Mogi das Cruzes, o cenário já era assustador: viaturas, muita barulheira e gente correndo em direção à escola. Marcus desceu do carro e, sem entender o que estava acontecendo, seguiu andando até ver um grupo de meninas chorando muito. “Uma caiu no chão, de tanto chorar, mas não conseguia entender. Fui me aproximando até chegar na escola.” Na porta da escola, já em meio ao caos que estava instalado ali, Marcus relatou que viu vários agentes de segurança, guardas municipais, policiais militares e viaturas do Corpo de Bombeiros chegando a todo o momento. Foi quando encontrou um conhecido da Polícia Militar. “Os caras entraram e atiraram nos alunos”, disse o conhecido. Marcus contou: “Eu me assustei. Comecei a tentar raciocinar e, quando começaram a chegar mais viaturas, tanto da PM quanto dos Bombeiros para fecharem a rua, foi que comecei a ter uma noção do que estava acontecendo. Eles fecharam tudo, e eu ainda estava ali no meio. Saí para não atrapalhar, e também para 40


esperar. Não quis ficar ali porque quem me conhecia, sabia que eu era repórter. No único momento em que titubeei - achei por bem, na realidade – foi quando escolhi por não entrar na escola. Olhei de fora. As pessoas que estavam na porta, consegui as ver bem de longe. Tinha um pouco de sangue, algo assim, que era das primeiras vítimas ali da entrada. A porta estava aberta.” Marcus não pensou duas vezes. Começou a conversar com as pessoas do lado de fora da escola, pegou o celular e mandou mensagens para a redação. “Para tudo, para tudo e vem todo mundo para cá, porque o caso é muito mais do que a gente imaginava.” Neste momento, a redação se mobilizou e mais repórteres foram encaminhados para a porta da escola. A informação se espalhou e outros jornalistas locais também começaram a chegar na Raul Brasil. Marcus foi uma fonte para seus colegas que, à medida que chegavam, perguntavam sobre o ocorrido. Por volta do meio-dia, a polícia fechou uma das ruas da escola. A porta de entrada principal da Raul Brasil foi fechada e os corpos começaram a ser recolhidos. Marcus se afastou e seguiu pegando mais informações. O clima do lado de fora era desesperador, não pelos alunos, mas por conta da reação das mães ao chegarem. “Além dos vários grupos de alunos, as mães chegavam desesperadas porque viram na televisão ou pelo Facebook e WhatsApp. Chegavam mães, pais e avós desesperados perguntando do filho, do neto, e chegavam já cortando o cordão de isolamento. Não sabiam ao certo o que eles esperavam e se eram filhos deles. Lembro que as imagens das meninas ajoelhando no chão e chorando e as dos pais, foram bem marcantes. Não é só porque a gente é repórter que não vai 41


imaginar o desespero de não saber se quem está lá é seu amigo, filho, neto ou sobrinho.”

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Repercussão imediata Enquanto Marcus estava na porta da escola, estávamos chegando na redação. Os estagiários entravam às 10 horas. Lembro-me como se fosse hoje, dos primeiros minutos que sucederam o ataque. Recebi de amigos e em vários grupos de Whatsapp vídeos de dentro da escola sem nenhuma tarja, mostrando poças de sangue, crianças feridas e mortas. Eram imagens chocantes que me recusava a acreditar que se tratavam de pessoas que estavam dentro da Raul Brasil. Logo, as mesmas imagens foram parar em páginas do Facebook, portais de notícias e na televisão. Alguns veículos de comunicação tomaram cuidado para exibi-las. Já na terra de ninguém (também conhecida como internet), não houve cautela ou qualquer respeito às famílias das vítimas do ataque por parte de inúmeras páginas e perfis no Facebook e no Instagram. Vimos um verdadeiro show de horrores sendo realizado por quem se autointitula jornalista, mas que nunca sequer ouviu falar que há um Código de Ética para jornalistas. Não! Eu não estou brincando. Há “jornalistas” em portais de notícias que não sabem que existe um Código de Ética para a profissão. A notícia se espalhou muito rápido. Em poucos minutos, a grande imprensa estava na porta da Raul Brasil. Jornais internacionais, como os britânicos BBC News e The Guardian, os americanos The New York Times e The Washington Post, o espanhol El País e o francês Le Monde, foram alguns dos que deram a notícia lá fora. Jornalistas de outros estados e até de outros países vieram para Suzano, para cobrir o velório.

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O Papa Francisco enviou um telegrama à Diocese de Mogi das Cruzes (cidade vizinha a Suzano) dizendo que estava “profundamente entristecido” e desejou “conforto espiritual às famílias”. Nas redes sociais, foram incontáveis pronunciamentos, homenagens e mensagens de solidariedade enviadas para a cidade por artistas, personalidades da televisão, políticos e todo o tipo de pessoa que se pode imaginar. Não só na redação do Diário de Suzano, mas creio que em todas as redações de todos os jornais do Alto Tietê, o verdadeiro caos foi instalado com a notícia do massacre. A luta pela informação com credibilidade, principalmente por parte dos grandes jornais da região, era grande. Quem trabalhava no Diário de Suzano sabia da responsabilidade que tinha nas mãos, já que, naquele momento, por ser o jornal de maior circulação da cidade, o Diário de Suzano não só foi um veículo de informação, mas também uma fonte para os demais veículos. Um ano após o ataque, Edgar Leite, com 46 anos, seguia como editor-chefe do Diário de Suzano. Na época do ataque, ele tinha pelo menos 25 anos de jornalismo. Tanto tempo não foi suficiente para que visse tamanho caos em uma redação. Calejado, viu de tudo na profissão. Foi um verdadeiro professor para mim. Na verdade, ainda é porque tudo o que aprendi do jornalismo na prática até escrever esse livro, aprendi com ele. Devo muito ao “leitor feroz”. Foi assim que, uma vez, vi o também jornalista Evaldo Novelini chamá-lo. Foi de forma muito justa, aliás, porque Edgar lia de tudo e recomendava de tudo para nós. Naquele dia, porém, o emocional de Edgar sucumbiu à violência de Taucci e Castro. Quando o entrevistei, estava tranquilo – 44


mostrou o que sempre foi. Conseguia falar sobre a cobertura mais difícil, exaustiva e emotiva da longa história do Diário de Suzano, iniciada em 1961. Falou sobre tudo o que passou naquele 13 de março e disse que o jornal praticamente virou fonte para outros veículos de comunicação. “Quando eu cheguei na redação, por volta das 11 horas, outras emissoras não paravam de ligar para cá. O caso aconteceu em Suzano, e o jornal chama-se ‘Diário de Suzano’, então estávamos muito próximos do ocorrido e muita gente do estado, de outras regiões e até de fora do país começaram a ligar para a gente. Só que ainda estávamos apurando as informações e o que tínhamos, passávamos para as outras emissoras. Lembro que teve uma rádio de Campos de Goytacazes, no Rio. Passamos muitas coisas para o jornal Estado de Minas e uma emissora francesa ligou para o Diário de Suzano. Eu atendi e passei para eles algumas informações. Recebemos diversos contatos de muitas emissoras de rádio do Rio, do Estadão, da Folha e de outros grandes jornais. Foram muitas ligações.” Enquanto Edgar seguia organizando o jornal do dia seguinte, a equipe já estava na rua colhendo informações sobre o ocorrido. Só que, na época, o jornal dependia também de estagiários. Lembro que éramos três: Aline Moreira, Dennis Maciel e eu, além dos jornalistas formados: Edgar Leite, Marcus Pontes e Lucas Lima. A equipe também tinha duas fotógrafas: Bruna Nascimento e Sabina Silva. Havia também o Douglas Pires, jornalista formado que, naquele dia, também estava trabalhando no jornal.

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E não eram só veículos que ligavam. A própria população, sabendo que o Diário de Suzano era um veículo de comunicação tradicional e com credibilidade, também “entupia as linhas” com ligações a todo o instante. O WhatsApp do jornal, usado para receber pautas de moradores, encheu de mensagens de pessoas querendo saber o que estava acontecendo e se o que viam na televisão era, de fato, real. “Muito do que pediam para nós, não tínhamos, porque estávamos apurando para publicar no nosso portal, e também para dar a continuidade do caso para o jornal impresso, de uma maneira bem mais detalhada e profunda do que tinha acontecido. No portal, a gente faz notícia para o minuto seguinte ou para os cinco minutos seguintes. Enquanto isso, a população ligava para saber o que tinha acontecido. O portal foi um canal importante do Diário de Suzano para divulgarmos o que tínhamos.” A cobertura na região foi feita por vários jornais. Houve uma mobilização de jornalistas dos veículos da região, como do jornal O Diário de Mogi, da TV Diário, entre outros. Em Mogi das Cruzes, cidade vizinha a Suzano, a notícia chegou rápido também e, assim como ocorreu no Diário de Suzano, o Grupo Mogi News também teve enormes dificuldades para fazer a cobertura. A equipe, na época, tinha três editores, um chefe de reportagem, um repórter, quatro estagiários e dois fotógrafos. O editor-chefe, Rodrigo Barone, teve que segurar a bomba por lá e gerenciar toda essa equipe em um cenário que nunca viveu ou pensou que viveria no jornalismo. O relato de Barone impressiona pelas medidas que foram adotadas pelo jornal assim que o caso Raul Brasil veio à tona. Foi 46


a primeira vez que o Mogi News fez uma edição sobre apenas um assunto que não fosse de Mogi das Cruzes. O grupo é composto, ainda, pelo Diário do Alto Tietê (DAT), que também foi dedicado exclusivamente ao caso Raul Brasil. “Assim que cheguei à redação pela manhã e comecei a separar as pautas, me veio a notícia sobre o ataque. Temos muito contato entre os jornalistas a região do Alto Tietê. Foi aquele momento que tivemos que mudar tudo. Nós, do jornal impresso, já estamos acostumados a ter que derrubar pauta, porque você chega de um jeito e, no decorrer do dia, as coisas podem mudar”, contou. “Os acontecimentos fazem com que você tenha que se programar de uma forma diferente. Então a partir do momento em que a gente ficou sabendo do que aconteceu, desta ocorrência em Suzano, paramos tudo. Derrubamos todas as pautas. No começo, até continuamos com algumas pautas, até termos informações mais precisas. Porém, prontamente, encaminhamos uma repórter e um fotografo para a Raul brasil e, minutos depois, quando fomos vendo a gravidade da situação, a edição inteira passou a ser sobre o caso. Não estamos muito acostumados com esse tipo de situação, embora tivéssemos a editoria de Polícia. Todos os dias, a gente vê casos de mortes, latrocínios, homicídios, mas, realmente, quando entra uma questão de educação com jovens, crianças quase, dentro de uma escola, isso mobiliza a região de uma forma diferenciada. Foi um episódio diferenciado que chocou todo mundo, foi para a imprensa internacional. É aquele dia que marca o período da sua carreira de jornalista. Nunca passei por algo parecido, nunca tinha passado e nunca passei depois.”

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Da redação do Diário de Suzano Enquanto Marcus fazia, junto com a Aline Moreira e as fotógrafas Bruna Nascimento e Sabrina Silva, a cobertura no local, Dennis Maciel chegava à redação do Diário de Suzano. Tinha 21 anos e era estagiário há apenas quatro meses do Diário de Suzano. Apesar da diferença de tempo de redação, se comparado a mim, Dennis praticamente entrou “na fogueira” neste caso do ataque. É impossível ter, com dois dias, dois meses ou dois anos, experiência suficiente para lidar com um caso como este, a ponto de não cometer erros. Passei pouco tempo trabalhando com Dennis no Diário de Suzano – algo em torno de dois meses – até ele sair para um emprego melhor. Depois, foi parar na TV Diário, afiliada da Globo em Mogi das Cruzes, para atuar como produtor. Anota na lista: mais um excelente jornalista. Dennis chegou uns cinco minutos atrasado e viu que não havia ninguém na redação. Nem mesmo o carro usado para as pautas estava na frente da porta de entrada do jornal. “Já pensei que alguma coisa grande aconteceu. Entrei, sentei na minha mesa e tinha um grupo de WhatsApp da redação. Quando abri, vi as primeiras mensagens”, disse. “No começo, era tudo muito confuso porque não sabíamos o que tinha acontecido especificamente. Lembro que quando vi pela primeira vez as mensagens, não tinha ideia da proporção que o caso havia tomado. Chegou para a gente assim, que ‘aconteceu um tiroteio numa escola em Suzano’, e era isso que a gente tinha”. Ele não pensou duas vezes: sentou na frente do computador e abriu várias páginas e portais de notícias da internet para tentar 48


entender o que estava acontecendo. No WhatsApp do jornal, as informações das pessoas que estavam na rua começavam a chegar. Era gente dizendo que as crianças estavam baleadas e que entraram na escola com o único objetivo de atirar nelas, não que havia ocorrido uma briga ou confusão. Assim que Edgar chegou, ele deu as primeiras orientações ao Dennis sobre o que tinha acontecido. Foi tudo muito rápido e, apesar de ser novo na profissão, sabia que tinha uma responsabilidade muito grande, principalmente porque outros veículos de comunicação começaram a ligar para a redação, a fim de saber o que tinha acontecido. “Ao invés de sermos apenas o jornal que divulga, a gente se tornou fonte. Nós estávamos do lado. Lembro que a Record começou a ligar, jornais de outros estados também. Então, tinha uma pressa pela informação precisa e correta. Tinha uma cobrança bem maior sobre a gente, porque éramos de Suzano na época”, disse. “O Edgar chegou correndo. Juntei as informações que o pessoal que estava na rua mandava e fui ajeitando. Ele (Edgar) falou para mim: ‘olha, tem umas emissoras de rádio ligando e você vai entrar ao vivo para explicar o que está acontecendo’, tudo isso apenas logo depois que cheguei na redação.” Foi quando Dennis passou a organizar as informações dos repórteres que estavam na rua para informar outras rádios e emissoras que ligavam incessantemente para a redação do Diário de Suzano. Ele entrou ao vivo em, pelo menos, três rádios, e os jornalistas perguntavam com uma precisão enorme. Com jogo de cintura e sabendo das dificuldades, já que não havia ido ao local ainda, o jovem estagiário entrou “com medo e assustado, mas

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tendo que explicar, de uma maneira sucinta, as hipóteses do que estava acontecendo lá”. “Hoje em dia, é tudo muito certo. A gente sabe quantas pessoas morreram, foram feridas e quais foram atingidas. Sabemos quem matou e o que aconteceu. Mas antes, não. Naquele momento, não tinha como saber. Havia muita dificuldade para organizar a informação correta e checá-la. Era uma pressão muito grande de demanda para produzir os textos aos jornais”, relatou.

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Caso único Lá em abril de 2011, no auge dos meus 14 anos, eu ainda não sonhava com todas as forças em fazer jornalismo. Tinha outros objetivos em mente, principalmente o de ser jogador de futebol. Quando vi pela televisão as notícias sobre o massacre ocorrido em Realengo, no Rio de Janeiro, não tive noção do que era fazer uma cobertura de um caso como esse. Em Suzano, em março de 2019, já cursando o quarto semestre de jornalismo, pude perceber o tamanho do caso que tinha diante dos meus olhos. A relevância do caso fez com que a imprensa do Alto Tietê voltasse seus olhos, durante vários dias, para a cidade onde cresci. Os jornais tiveram que sair totalmente do padrão. Como o Barone disse mais aí atrás, tanto o Mogi News quanto o DAT tiveram a edição impressa do dia 14 de março de 2019 totalmente dedicada ao caso Raul Brasil. No Diário de Suzano, todas as páginas da editoria de Cidades foram usadas exclusivamente para noticiar sobre o ataque na escola, e isso aconteceu seguidas vezes, ao longo de vários dias. Conhecedor de Suzano e da escola há muitos anos, Edgar disse que o impacto para a cidade foi muito grande, já que além de toda a crueldade empregada na ação, trata-se da Raul Brasil, que é uma das escolas mais tradicionais de Suzano. Ela existe há muitos anos e muitos políticos estudaram nesta escola. Também tem bons indicadores de ensino e, para completar, está localizada em um ponto estratégico da cidade, próxima à região central e a uma das entradas de Suzano. “É uma escola que, para você entrar no centro de Suzano, vai passar um pouco por ela. Fica perto do Viaduto Ryu Mizuno, que dá acesso 51


à Poá, próxima da Avenida Armando Salles de Oliveira, via importante de Suzano. Então, o impacto é muito grande porque nunca teve nada disso dentro do município. É um caso de chacina, uma tragédia tão grande dentro de uma escola, local onde os pais entendem que o filho está seguro. Casos como esse, eu nunca tinha visto. Não com essa dimensão tão grande. Ele não impactou só Suzano, mas o estado, a região, o Brasil inteiro e o mundo.” A capa do Diário de Suzano, na edição de 14 de março de 2020, contou com fundo preto e uma manchete em letras brancas e em caixa alta. “TERROR EM SUZANO”, com a linha fina e a foto de uma pessoa sendo carregada de maca. Abaixo, as fotos dos dois atiradores e o título com as armas usadas por eles. A parte inferior, as fotos do governador na época, João Doria, que veio a Suzano no dia do ataque, dizendo que foi “a cena mais triste que assistiu na vida”; e do prefeito na ocasião, Rodrigo Ashiuchi, que decretara luto oficial de três dias na cidade. O lado esquerdo da capa tinha as fotos, ordenadas em vertical, das sete vítimas fatais da escola – as cinco crianças, a coordenadora e a inspetora. “Divulgamos seis páginas só para isso, primeiro contando o caso, depois ouvindo o prefeito e o governador que veio para cá. Ouvimos autoridades de segurança e tentamos mostrar um pouco de como eram as pessoas que morreram, as famílias, os médicos e os hospitais que atenderam. O jornal seguiu todas as normas jornalísticas. Não usamos sensacionalismo”, explicou Edgar. “Essa tragédia abateu os jornalistas também. Fomos vítimas também. Ficamos uma semana com uma carga negativa muito grande”, contou o editor-chefe do Diário de Suzano na época. 52


No Mogi News, a manchete da edição de 14 de março de 2019 também contou com fundo preto e letras brancas em caixa alta. “CRIME EM SUZANO CHOCA O PAÍS”, com a linha fina fazendo referência ao grupo de jogos de guerra na qual a dupla de atiradores fazia parte. Na foto principal, pessoas agachadas acendendo velas em frente à escola. Na parte de cima da capa, uma imagem do exato momento onde Taucci saca um revólver e dispara contra alunos que estavam na secretaria da escola, iniciando o massacre. O título fez referência à quantidade total de vítimas fatais no ataque, incluindo o tio de Guilherme: oito. A parte inferior da capa saiu com duas fotos de pessoas chorando e se abraçando. Foram as reações que marcaram o lado externo da escola – de familiares, que chegavam desesperados em busca de informações, além de alunos que choravam com o ocorrido. A edição do DAT do dia seguinte ao ataque teve sua capa com fundo preto e texto branco em quase sua totalidade. A manchete, que não foi 100% em caixa alta, trouxe “Brasil chora por Suzano”, com uma foto do muro externo da escola com os dois atiradores. Ao lado, foto do prefeito de Suzano dando entrevista para jornalistas e a menção ao retorno de Brasília, onde ele estava até saber do ataque. Inclusive, o jornal destacou que Ashiuchi, ao saber do ocorrido, pegara o primeiro voo de volta para São Paulo. Na parte inferior da capa do DAT, a foto, novamente, do momento em que Taucci desfere tiros em quem está na secretaria da escola, destacando no título a ousadia dos criminosos, de 53


entrarem pela “porta da frente”. Ainda nesta parte, outras duas fotos de familiares de estudantes chorando na busca por informações durante o atentado. Em cima, a foto de um cemitério, informando que os enterros das vítimas iniciariam às 17 horas. Tanto o DAT quanto o Mogi News carregavam, se sobrepondo ao nome do jornal, uma faixa preta, em sinal de luto. As mudanças radicais ocorridas nas edições do Mogi News e do DAT no dia 14 de março de 2019, em comparação com as anteriores, foram feitas principalmente para marcarem aquele dia nos arquivos dos dois jornais. Essa foi uma preocupação de Barone que, como editor-chefe do grupo, entendeu que, apesar dos desafios dos impressos de trazerem “algo a mais” em um caso ocorrido na manhã do dia anterior (como foi o caso do atentado na Raul Brasil), aquelas edições do dia seguinte ao massacre precisariam ser eternizadas. “Em algumas situações, você precisa marcar sua edição. Não poderíamos abrir, no dia seguinte, falando que polícia investiga o caso. É igual o 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil. No dia seguinte, todo mundo já sabia do 7 a 1, mas não podíamos falar que CBF pensa em reformulação. Precisávamos marcar a edição com o 7 a 1. A mesma coisa no caso da Raul Brasil. Já havia informações a mais da polícia, de como o inquérito iria acontecer, mas a gente tem que pensar que após cinco, dez anos, a pessoa que pegar o arquivo do Mogi News e do DAT, vai ter que ver aquele dia marcante. Então, por mais que o impresso tenha que ter, no dia seguinte, uma informação diferenciada em termos de apuração, ali, naquela situação, precisávamos deixar a edição marcada com a ação deles e os mortos.” 54


Responsabilidade De uma maneira geral, como já destaquei aqui nesta obra, a cobertura do caso Raul Brasil exigiu um empenho completamente fora do normal para a imprensa do Alto Tietê. Conversando com os quatro jornalistas – além de mim - que apareceram até aqui nesta obra, me senti na obrigação de questioná-los para saber como viram a cobertura dos veículos de comunicação da região, até porque não faria o menor sentido escrever um livro sobre a cobertura de um atentado sem ter essa visão por parte deles. Aproveitei para entender qual é a visão do jornalista em vários momentos diferentes da carreira. O Dennis como um estagiário na época, o Marcus como um repórter policial formado e dois editores-chefes, com muitos anos de experiência em coberturas dos mais diversos tipos de assuntos e, principalmente, que pegaram uma fase primordial do jornalismo brasileiro: a transição para a era tecnológica em seu estágio mais “problemático”, ocorrida entre o fim dos anos 90 e as duas primeiras décadas dos anos 2000. Foi um momento em que o impresso, o rádio e a televisão ficaram em segundo plano diante de uma explosão de inovações na forma de se comunicar. Surgiu a internet e o poder de cada cidadão de informar, e não apenas de ser informado, usando como ferramenta um simples smartphone, tão comum entre as pessoas entre os anos de 2010 e 2020. Chego ao ponto que queria: o poder da informação nas mãos de quem não sabe como usá-lo. Por mais que o Alto Tietê tivesse veículos de comunicação com muita credibilidade, como o Diário de Suzano, o Grupo Mogi News, O Diário de Mogi e até a TV 55


Diário, uma afiliada da Rede Globo de Televisão, foram incontáveis os erros cometidos por páginas de internet durante os minutos que sucederam o ataque. Vídeos de crianças mortas e feridas rodaram a internet, com muito sangue e sem qualquer proteção ou cuidado. E não é só isso: teve político usando o ataque (sim, o ataque) como palanque naquele 13 de março. Cenas absurdamente lamentáveis foram vistas após aquele ataque, provocadas por quem deveria informar. E há um detalhe importante nisso, porque existe uma unanimidade entre os jornalistas com quem conversei do Alto Tietê que estavam realmente formados ou em formação no dia do ataque. Eles fazem uma espécie de “divisão” entre os veículos considerados “sérios”, regulares e com CNPJ, profissionais graduados, etc, e as páginas de internet, administradas muitas vezes por pessoas que sequer colocaram o pé em uma universidade algum dia. Ao perguntar se a cobertura do atentado na Raul Brasil foi bem feita “pelos jornalistas da região”, os profissionais são cautelosos para falar, justamente por conta desta divisão. Considerando os veículos regulares, como os quatro que citei aqui, a cobertura foi considerada irrepreensível por todos eles. Só que quando o papo muda para a internet, a coisa não é bem assim não, e aí surgem vários termos de ataque, como “falta de ética”, “terra de ninguém”, etc, etc, etc. E o que eu, Daniel Marques vi, foi exatamente isso: uma cobertura excepcional feita pelos jornais da região e uma baderna sem precedentes provocada pelas páginas de internet. Enquanto buscávamos apurar as informações a fim de informar com exatidão e credibilidade, os sanguessugas da internet ignoravam 56


qualquer princípio ético e moral do jornalismo e estampavam fotos e vídeos horríveis do ataque, e ainda roubavam nossas informações sem darem os devidos créditos. Foi um show de horrores total. O Edgar disse que foi “lamentável” e que, infelizmente, alguns órgãos de comunicação vão pecar pelo sensacionalismo porque vivem de audiência, apenas. Em muitos lugares do território obscuro da internet, vimos claramente a tragédia sendo transformada em sensacionalismo. “É uma linha muito tênue que você tem da cobertura e do sensacionalismo. Há de se ter muito cuidado em fazer uma divulgação na internet. Não escondendo nada, evidentemente, como diz o Código de Ética do Jornalismo, mas tem que divulgar sem criar sensacionalismo”, disse o editor, avaliando em seguida que alguns órgãos de imprensa “não querem pecar”, mas acabam cometendo alguns exageros. Sobre a cobertura do Diário de Suzano, nós que estávamos na redação vimos como foi. Posso falar com uma grande alegria que o jornal, não só neste caso, mas durante todo o período em que estive lá, nunca prezou pelo sensacionalismo, mas sim pela informação com credibilidade. Tanto que o Edgar pedia para que nós, em todas as pautas, apurássemos bem as informações para não falar nada de errado. Ele sempre prezou por isso e é uma das virtudes que eu adquiri no Diário de Suzano. E, no meio de tantas páginas de internet, destacou-se a do Diário de Suzano, que colocou vídeos com tarja, bem como as fotos, além de não divulgar, de pronto, o nome dos assassinos. Na época, entraram apenas as iniciais. “Também demos voz às

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autoridades e seguimos nosso Código de Ética do Jornalismo”, enfatizou Edgar. Alerta de elogio: Aliás, antes de prosseguir falando sobre os erros das páginas de internet na cobertura, acho que é um bom momento para destacar o excelente trabalho dos estagiários que cobriram o atentado pelos veículos de comunicação do Alto Tietê. Deixo aqui meu recado para aqueles que um dia lerão esta obra: seus chefes elogiaram muito vocês. Seguraram a bomba que é cobrir um atentado em uma escola com repercussão internacional. Assim como eu, estávamos no começo de tudo e foi algo muito triste, mas ao mesmo tempo, enriquecedor para nós. Tenho certeza que todos viraram grandes profissionais, e isso passa por esta cobertura. No Diário de Suzano, o Edgar disse que teve sorte de sempre ter tido bons estagiários. Havia momentos em que ele costumava falar que o estagiário “já está pronto” e que poderia entrar para trabalhar em qualquer lugar. Minha maior alegria era quando ele dizia isso, pois sabia que estava fazendo o certo. Era a melhor das sensações de um estagiário. O Barone me disse que no Grupo Mogi News, o ataque foi uma verdadeira prova. “Costumo dizer que é um dos momentos cruciais para saber se o cara tem o dom ou não, se vai entrar na linha ou não vai”, afirmou, reforçando que a equipe que estava no jornal, que já era pequena na época, foi mobilizada, incluindo os estagiários que haviam acabado de chegar. E isso também me deixa feliz demais, porque sei que o Barone estava certo. Quantas vezes encontrei estagiários do Grupo Mogi News em pautas e vi que, sim, eles eram incríveis e profissionais 58


gigantescos? Foram muitas. E sobre meus colegas estagiários do Diário de Suzano, então? Sem comentários! Eu sabia que estavam em uma escola espetacular e que seriam jornalistas magníficos. Continuando: Na região, havia uma rivalidade entre os veículos. Os jornais recebiam edições da concorrência, não só para ficarem mais informados sobre o que acontecia nas cidades, mas para observar erros dos outros veículos (sim, é verdade isso). Quando aparecia algum erro, principalmente na capa, a reação, pelo menos a que eu via no Diário de Suzano, era de espanto pelo erro e aquela frase normal de rivalidade entre jornais: “Nossa, eles erraram feio nessa”. A gente não ria, em respeito aos profissionais que erraram, mas sentia que “poderia ter sido evitado”. Não sei se ocorria em todos os jornais, mas no Diário de Suzano sim. Mas, no fundo, os jornalistas se gostavam muito. Editores dos jornais conversavam com frequência, estagiários trocavam informações nas pautas e, repórteres, da mesma forma. Havia, claro, os mais contidos ou destacados, que não queriam muito conversar. Coisa de personalidade mesmo. Ao analisar a cobertura dos veículos da região, Barone me chamou a atenção pela forma como tratou o assunto. Mesmo sendo do Grupo Mogi News, ele disse que achou que a maneira como ela foi conduzida foi “perfeita”, sempre destacando o cuidado adotado pelos jornais, rádios e pela emissora de TV afiliada da Globo em Mogi das Cruzes. Afirmou não lembrar de nenhuma “escorregada”, ou seja, de alguém ter passado informação errada ou atrapalhado as investigações, e que até mesmo seu concorrente direto, o jornal O Diário de Mogi, com

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uma apuração um pouco menor, fez um trabalho completo com detalhes e acompanhamento diário do caso. Mas o que me deixou extremamente feliz foi o momento em que ele elogiou o Edgar. Porque sei que os elogios ao editor-chefe do Diário de Suzano foram, praticamente, elogios também para a equipe que fez a cobertura. Houve um grande empenho de todos para que tudo corresse bem, e o próprio Edgar costumava dizer que o ajudávamos demais. “Me lembro de ver a imprensa inteira envolvida no caso, tomando todos os cuidados. Conhecendo o Edgar e o trabalho dele, posso dizer que foi muito bom. Fez o que deveria ser feito sem nenhum tipo de sensacionalismo”, elogiou o editor-chefe do Grupo Mogi News. Barone também disse que a cobertura e a apuração de casos assim, por parte de páginas de internet, precisam melhorar. Na ótica dele, é necessário um cuidado maior, principalmente por conta do sensacionalismo. Porém, ele reconheceu que houve uma evolução ao longo do tempo e que, em 2020, a informação por este meio de comunicação havia melhorado bastante se comparado com cinco, seis ou 10 anos antes. “Ainda considero uma ‘terra do nunca’, meio sem lei. Mas acho que (a internet) está se encaminhando para ser um veículo com bastante confiabilidade”. A cobertura do caso para o repórter de rua é bem diferente, se comparada com a do editor-chefe. Obviamente, o editor tem uma carga de trabalho grande, mas interna, da redação, enquanto o repórter, que está em campo, precisa enfrentar as mais diversas dificuldades e situações inusitadas. 60


Durante um evento como o do atentado na Raul Brasil, muitos jornalistas, policiais, bombeiros e socorristas tiveram que se ajudar, dada a complexidade e exigência do caso, já que os envolvidos, tanto na cobertura quanto no socorro às vítimas, precisaram se sacrificar por horas e horas seguidas, sem terem o que comer, água para beber ou até sombra para ficar, e este caso evidenciou bastante isso. Coube ao Marcus, como primeiro repórter a chegar na Raul Brasil, a responsabilidade de informar e passar um panorama do que estava acontecendo para muitos colegas jornalistas. Aliás, um dos grandes detalhes ditos por ele, é que os profissionais de imprensa que estavam do lado de fora da escola praticamente “deixaram a rivalidade dos veículos da região de lado” e passaram a se ajudar com informações. No fim do dia do ataque, Marcus estava extenuado, porque não havia se alimentado. O que o sustentou foram algumas barrinhas de cereais e algumas águas, que dividiu com outros profissionais que também estavam lá. “Estava exausto, minha cabeça explodia, minhas pernas doíam. Fiquei no sol o dia inteiro”, contou. “Todos estavam espantados e incrédulos com o que havia acontecido em Suzano. Já na redação, Marcus conversou com Edgar, que lhe disse que muitos jornais e emissoras de rádio ligaram na redação. “Tinha até gente da França, da Espanha e de Portugal. Lembro que entrei ao vivo com alguém do Sul, para dar detalhes do que havia ocorrido, enquanto os demais estagiários e repórteres da época foram atendendo os outros. Era muita gente, o telefone não

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parava. Você parava um pouco para escrever um trecho de matéria e o telefone já tocava. Era ligação, ligação e ligação”. No entendimento do então repórter policial do Diário de Suzano, o papel da imprensa regional foi de “superar seus limites”. Uma imprensa que, ressaltou, tem limitações que a Grande Imprensa não tem. Trata-se de uma gama de informações e privilégios que a grande mídia tem. E essa superação foi característica não só do Diário de Suzano, mas dos outros jornais da região, que “se superavam em algum detalhe ou personagem”. E houve, de fato, uma superação, e quem cobriu o caso sabe disso. Na verdade, houve uma grande limitação para os jornalistas da região, que foi compensada pela vontade e pela correria exaustiva de todos os repórteres, editores, câmeras e fotógrafos de todos os veículos. Outro ponto importante que Marcus destacou – na verdade, uma vantagem dos canais do Alto Tietê – é a proximidade com o caso. Por estarmos todos próximos da escola, as novidades e tudo o que saía de novo sobre o caso chegava primeiramente em nossas mãos. Nós, jornalistas do Alto Tietê, tínhamos um poder que a Grande Imprensa não tinha: recebíamos detalhes sobre o caso que, posteriormente, eram divulgados pelos veículos mais tradicionais. A união dos veículos da região, em um caso absolutamente atípico, surpreendeu até o Dennis, que apesar de novo demais na profissão, entendeu que aquilo era algo inédito. Ao fim das entrevistas coletivas que participou, o jovem repórter não conseguiu deixar passar esse detalhe. Jornalistas do G1, do Grupo Mogi News, do SBT, da Record e de tantos outros veículos compartilhando informações. “Era um sistema de cooperação. 62


Esquecemos, naquele momento, qualquer tipo de rivalidade de empresa e entendemos que o importante era se ajudar”. E houve a divisão dos veículos formais e das páginas de internet na análise de Dennis sobre a cobertura. Para ele, a cobertura foi boa, mas as páginas erraram muito na divulgação de notícias e imagens. Enquanto os verdadeiros profissionais da comunicação adotaram cuidados para preservar ao máximo os afetados direta ou indiretamente pelo ataque, os administradores de páginas erraram muito. “No Diário de Suzano, tínhamos um cuidado gigante para proteger as fontes e as crianças. Na TV Diário, eles também tiveram”, destacou. “Os veículos formais fizeram um bom trabalho, agora os outros pecaram muito. Tinha pagina de internet mostrando imagens sem embaçar nada, mostrando as crianças sendo atingidas por machado e tiros sem o mínimo de sensibilidade. Espera aí! É preciso divulgar a verdade, mas a gente também tem que entender que a audiência, muitas vezes, não está preparada para aquilo, e ela não precisa ver daquela maneira. Foi algo assustador”, concluiu Dennis.

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FORMANDO A INFORMAÇÃO

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Fora da curva Ao longo do processo de produção desta obra, realizei diversas entrevistas para entender como o ataque fora realizado, o quando ele afetou as pessoas e o tamanho da repercussão que ele teve. Eu já tinha noção de que o atentado na Raul Brasil tinha sido a maior tragédia de Suzano e uma das maiores na história do Alto Tietê. Mas faltava algo: faltava ter informações que comprovassem essa tese. Me debrucei, durante horas e horas, para analisar capas do Diário de Suzano em três períodos distintos: antes do ataque, durante a cobertura quente do ataque e o pós-ataque, com consequências e detalhes das investigações. Foi difícil. Foi um processo cansativo, mas que me rendeu bons frutos, principalmente pelas informações que obtive. Elas apontam que, de fato, o massacre na escola Raul Brasil foi muito mais do que um acontecimento policial cotidiano. Foi algo que mudou completamente a forma de se fazer o jornal durante vários dias. Levantei o arquivo do Diário de Suzano, a fim de ter cinco capas de edições de dias que antecederam a grande tragédia. Também colhi as tristes páginas iniciais que geramos na semana do ataque e, por fim, peguei material de um mês após o massacre. Obviamente não me aprofundei como grandes pesquisadores, porque não era essa a proposta quando escrevi essa obra. Mas é a base que tive. Com ela sim, pude ter noção da mudança pela qual passamos. Entendi o que realmente vivemos e constatei que precisamos mudar completamente a rotina. Costumo dizer que 66


“viramos a chave” e que passamos a fazer tudo no automático, sempre voltado para a Raul Brasil. Para a pesquisa quantitativa, tirei o tamanho total de uma capa (em centímetros quadrados ou metros quadrados) e, a partir daí, fiz a medida de tudo o que tinha relacionado ao caso Raul Brasil, tendo um valor percentual que me dissesse o quanto da capa foi dedicado ao caso. Pois bem, foram 49,3 metros quadrados de jornal. As dimensões originais, geralmente, são um pouco maiores. Porém, as capas foram impressas em papel A3, apresentando uma redução pequena em seu tamanho. As originais continham 40 centímetros de comprimento por 26 de largura. Na A3, elas caíram para 36,5 centímetros de comprimento por 24 centímetros de largura, mantendo a mesma proporção. Assim, não houve alteração no percentual de espaços usados. De 131,4 metros quadrados de jornal usados em 15 edições, 49,3 metros quadrados foram dedicados às notícias sobre a Raul Brasil (38%). Vale destacar que foram apenas dez capas usadas para notícias direcionadas ao atentado, uma vez que os outros cinco se referiram ao período entre 8 e 13 de março de 2019. Este período teve uma segunda-feira, onde não houve a edição do jornal (11 de março de 2019), contando assim, cinco exemplares no levantamento. O massacre aconteceu em 13 de março, então a edição do ataque saiu no dia seguinte: 14 de março. Daí, contei mais cinco edições, até o dia 19 de março. Este período, novamente, teve uma segunda-feira (18 de março de 2019), que não entrou na lista porque não teve edição do jornal. 67


Para fechar o levantamento, adquiri mais cinco edições, que correram entre os dias 12 e 17 de abril de 2019 – cerca de um mês após o ataque. Novamente, o dia 15 de abril de 2019 caiu em uma segunda-feira, não havendo edição. Com os 15 exemplares em mãos, constatei os números já citados acima. Foram 38% de capas usadas para notícias sobre a Raul Brasil de um total de 131,4 metros quadrados. Isso contando os 15 dias, incluindo os anteriores ao ataque. Para você ter noção da diferença, a quantidade de capa usada para notícias policiais ou sobre tragédias foi de apenas 23% do total antes do massacre. Foram 10 metros quadrados, cravados, para 43,8 do total. E a quantidade poderia ter sido bem menor, já que naquele período, a região foi castigada por fortes chuvas que alagaram vários locais, gerando manchetes com fotos de grandes dimensões. Entre os dias 14 e 17 de março, todos os espaços dedicados a notícias foram preenchidos com títulos, linhas finas, fotos ou legendas sobre o massacre. De 876 centímetros quadrados, 756 continham informações sobre a tragédia. Isso equivale à 86,3% das capas destes quatro dias. Foi o restante daquela semana – as edições de quinta (14), sexta (15), sábado (16) e domingo (17). O único espaço que não teve notícias foi o de fundo azul, onde fica o logo do jornal, a data e a edição. A capa do dia 19 de março caiu em uma terça-feira. Neste dia, 537,5 centímetros quadrados foram usados de um total de 756 centímetros (71%). A maior parte do jornal foi dedicado à Raul Brasil, mas, na capa, algumas matérias não eram relacionadas à tragédia. 68


A capa do dia 14, para mim, é a mais marcante. Toda preta, com fontes brancas, ela trouxe informações sobre quem eram as vítimas; a quantidade de mortos, incluindo os dois suicidas, o governador de São Paulo, João Doria, as armas usadas, o decreto de luto e o socorro às vítimas. É uma capa que tenho de cor e salteado na cabeça. Sei onde cada elemento está. Tenho na cabeça cada frase, foto e como as coisas estão dispostas nela. Um mês após o atentado, o jornal seguia abordando o assunto dia após dia. Em todas as edições levantadas entre os dias 12 e 17 de abril, havia, ao menos, uma notícia na capa referente ao ataque. No total, foram 1.377 centímetros quadrados usados de um total de 3.780 centímetros, o que equivale à 36,4%. Para a análise qualitativa, analisei as capas do que costumo chamar de “cobertura quente”, ou seja, dos cinco dias logo após ao ataque, e constatei que vários termos foram usados para definir o teor de determinado assunto. Optei por dividir em três categorias: teor policial, que se refere às investigações, notícia do crime ou algo do tipo; emocional, incluindo o sofrimento das vítimas, homenagens feitas ou movimentos realizados em prol da paz; e o de consequências práticas do ataque, ou seja, as medidas adotadas para indenizar famílias, sugestões para melhorias na segurança das escolas, etc. Nos cinco dias antes do ataque, o Diário de Suzano publicou três notícias policiais na capa, além de reforço da polícia com militares atuando em dias de folga. Os dias 12 e 13 de março foram totalmente diferentes, com informações sobre as fortes chuvas, inundações, desalojados e acolhimento de famílias. 69


Na semana do ataque, nas cinco edições seguintes a aquele fatídico dia, houve oito notícias na capa relacionadas ao ataque, às mortes e ao terror – a maior parte delas, publicadas nos dois dias seguintes ao massacre. Palavras como “vítimas”, “atiradores”, “feridos” e “massacre” foram ditas com frequência neste período. A segunda edição pós-ataque foi equilibrada com a notícia policial e a emocional. Ela noticiou o velório coletivo e o sepultamento das vítimas. Essa capa teve a presença marcante das palavras “emoção”, “adeus” e “homenagens”, misturadas, ainda, com a notícia do crime. Após o período mais turbulento da cobertura, começaram a ser tomadas algumas decisões. Medidas passaram a ser noticiadas, mas sempre misturadas, ainda, com a comoção que tomou conta daquela semana. Nos dias 16 e 17 de março, atos de solidariedade foram para a capa. Junto com eles, alunos que recebiam alta hospitalar. Mas a principal informação foi publicada no dia 17. A foto do Papa Francisco, que encaminhara uma carta prestando solidariedade ao povo suzanense pelo ataque. As edições dos dias 16 e 17 de março tiveram, novamente, a presença das palavras “homenagem”, “solidariedade” e “acolhimento”. Houve, no entanto, uma transição. As notícias de teor emocional se misturavam com as primeiras decisões adotadas pelo Estado. Questões jurídicas, incluindo informações sobre indenizações, além do cancelamento das festas do aniversário de Suzano, comemorado todo o dia 2 de abril, também entraram nestas edições.

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A capa do dia 19 de março estabeleceu a transição para a terceira fase da cobertura quente. Aqui, já não houve mais notícias de teor emocional. O massacre completaria uma semana dois dias depois. Deu-se atenção especial às medidas adotadas para oferecer um respaldo às famílias e às vítimas. Além disso, os pedidos por mudanças começaram a ganhar ênfase a partir desta edição. Houve também o retorno das vítimas para a escola. Foi um assunto que ganhou destaque, sim. Porém, as decisões que seriam adotadas pelo Estado, bem como as propostas encaminhadas ao Poder Público, ganharam notoriedade nesta capa, que teve “ofício”, “pedido”, “promete” e “encaminhar” como palavras bastante mencionadas. Partimos então para o cenário do caso após um mês. Com o ataque um pouco mais “frio”, este foi um período onde os repórteres iam diariamente para o entorno da escola para saber se algo acontecia por lá. A investigação estava rolando, ao passo que medidas vinham tomando forma na cidade. Um detalhe curioso é que, apesar de o assunto “Raul Brasil” já estar estabelecido nas edições, outras tragédias ou notícias de grande relevância surgiam. Na mesma semana do ataque, um atirador matou 51 pessoas na Nova Zelândia e transmitiu tudo pela internet, ao vivo. Em 4 de abril, menos de um mês após o ataque na Raul Brasil, a ROTA matou 11 criminosos em uma tentativa de roubo a banco em Guararema, cidade que também fica no Alto Tietê. O caso Raul Brasil foi mais um ocorrido em um período em que o Brasil foi marcado por grandes tragédias. Desastre de Brumadinho-MG, com o rompimento da barragem que matou 71


mais de 250 pessoas, menos de dois meses antes do atentado; incêndio no Ninho do Urubu, o centro de treinamento do Flamengo na época, matando dez garotos queimados pouco mais de um mês antes do massacre; enfim. Foi um período tenso demais (não sabíamos que a pandemia viria, mas um dia escrevo um livro sobre isso). Então, a tendência de noticiar novos desastres era grande. Ao longo do período entre 12 e 17 de abril, o Diário de Suzano, além de trazer notícias do que ocorria na região e no Brasil, também mostrava a forma com que o Poder Público administrava a situação. Além das investigações, as medidas vinham sendo adotadas para tentar reduzir a carga de culpa de quem realmente tinha culpa. Houve tratamento psicológico, e isso foi noticiado neste período. Muitas pessoas também opinaram sobre o uso de armas nas escolas, enquanto a cidade vivia um momento de superação. Simultaneamente, a população vinha recebendo notícias sobre ações a serem adotadas visando o aumento da segurança. As edições, um mês após o atentado, traziam o equilíbrio e todos os lados possíveis da notícia sobre um caso como esse. O Diário de Suzano conseguiu, com enorme maestria, fazer a transição da notícia de acordo com o que deveria ser noticiado e, em um momento em que o caso já estava mais “frio”, se preocupou em falar sobre o massacre expondo todos os envolvidos – incluindo vítimas, Estado e polícia – e balanceando a informação de acordo com a necessidade para o momento.

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Quant idade total de capa em 15 dias (131,4 m²)

62%

38%

Quantidade dedicada ao atentado (49,3 m²) Quantidade não dedicada ao atentado (82,1 m²)

Quantidade total de capa nas cinco edições que antecederam a do atentado (43,8 m²) 23% 77% Quantidade dedicada a notícias policiais (10 m²) Quantidade não dedicada a notícias policiais (33,8 m²)

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Quatro edições seguint es a do atent ado (876 cm²)

14% 86% Dedicado ao massacre (756 cm²) Não dedicado ao atentado - nome do jornal, edição, data, etc (120 cm²)

Capas de cinco edições após um mês do ataque (3.780 cm²)

36% 64%

Dedicado ao atentado (1.377 cm²) Não dedicado ao atentado (2.403 cm²)

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LEGADO

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Consequências Instantes após a notícia do ataque estampar as primeiras páginas de portais de notícias e os telejornais matutinos, iniciou-se uma longa discussão que, após quase dois anos do ataque, ainda não recebeu uma solução concreta: a segurança nas escolas. Isso porque a ação de Guilherme e Luiz Henrique foi realizada de uma forma que expôs completamente a insegurança, não só da Raul Brasil como de milhares de escolas espalhadas por todo o Brasil. A tranquilidade de ambos para acessar a secretaria da escola sem que fossem interceptados ou sequer tivessem a ação ameaçada ligou um sinal de alerta em Suzano e em toda a região. No mesmo dia do atentado, a prefeitura decretou luto oficial de três dias na cidade e a secretaria municipal de Educação suspendeu as aulas em toda a rede. Nas ruas, nos bares, nos pontos de ônibus e no transporte coletivo o assunto foi um só. O clima seguiu pesado demais na cidade ao longo dos dias que sucederam o ataque. Várias carreatas e passeatas foram feitas em homenagem às vítimas e cobrando o Estado sobre a segurança nas escolas e no respaldo às pessoas atingidas direta ou indiretamente ao ataque. E não posso deixar passar: durante todo o tempo pós-ataque, o governo se posicionou de maneira interessada a auxiliar as famílias atingidas. Só que, na minha visão, houve um posicionamento interessado em evitar processos caros ao Estado. Repito: essa é a minha visão sobre o que acompanhei. Óbvio que não posso afirmar isso com certeza, porque nunca tive provas suficientes para tê-la.

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O velório foi realizado na Arena Suzano e teve a presença de muita gente. Pessoas formaram filas para dar o último adeus às vítimas. No mesmo dia, o Governo do Estado de São Paulo assumia a culpa e anunciava uma indenização às famílias. Acredita-se que o valor girou em torno de R$ 100 mil, mas nunca tivemos certeza porque o Estado sempre manteve sigilo, alegando “segurança” das famílias. Os afetados direta e indiretamente com o ataque passaram por atendimento psicológico. Vários profissionais de saúde mental foram disponibilizados pelo Estado e pela prefeitura de Suzano. Houve uma grande mobilização para realizar os atendimentos desde os primeiros momentos pós-ataque e, após dois anos do ataque, muitas pessoas seguiam recebendo apoio psicológico. O crime causou impacto até na economia da cidade. A Associação Comercial de Suzano estimou uma queda de 12% nas vendas no mês de março e de 4% no mês de abril, em comparativos feitos com os mesmos meses do ano anterior. Não cravaram que foi por conta do ataque, mas os comerciantes diziam, em matérias feitas pelo Diário de Suzano, que o momento “não era para compras”. Nas pautas que fiz pela região central da cidade, dava para perceber, no visual, a redução no movimento nas ruas, que seguiu durante mais de um mês, seguramente. O Conselho Comunitário da região Norte de Suzano implantou um projeto com o objetivo de monitorar o ambiente escolar e agilizar a comunicação em caso de necessidade. Funcionava em um grupo de WhatsApp, onde diretores, professores e integrantes do corpo docente mantinham contato com os pais e policiais.

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Uma semana após o ataque, o prefeito de Suzano na época, Rodrigo Ashiuchi, anunciou a implantação de alarmes e botões de pânico nas escolas da cidade. A proposta consistia em emitir um sinal instantâneo para uma central de segurança que foi inaugurada no município em maio daquele ano. Assim, uma equipe de guardas seria encaminhada para a unidade escolar imediatamente. Aliás, essa central também tinha câmeras espalhadas pela cidade para aumentar a segurança. Pelo menos essa era a proposta, mas que sempre foi contestada por muita gente na cidade que afirmava que o monitoramento aumentara a quantidade de multas de trânsito. Nunca tive certeza se isso era ou não verdade. Muitas pessoas também manifestaram interesse em implantar detectores de metais nas escolas. Essa foi uma discussão que se estendeu por vários meses e que gerou muitas controvérsias. Como controlar o acesso de tantas crianças desta forma? Seria uma saída eficiente? E o investimento, haveria condições do Estado para fazer? Foram perguntas que surgiram na época, mas suas respostas nunca foram concretas. Mesmo assim, houve gente metendo o bedelho neste assunto sem a menor base. Oportunismo? Tivemos de sobra aqui. Quase dois anos após o atentado, as escolas de Suzano e do Alto Tietê seguiam sem um detector de metais sequer. Obviamente, o assunto foi para a gaveta e não foi mais tratado. No final, não passou de mais uma ideia inventada por pessoas que quiseram aparecer um pouquinho com a tragédia. E claro, não poderia faltar a motivação do crime na opinião do pessoal que gosta de uma discussão sem eira nem beira. Falaram 80


um monte de coisa. Disseram que foi bullying, culparam os jogos de videogame e apontaram uma série de fatores que teriam levado ambos a cometerem tal atrocidade. Surgiram vários e vários peritos de Facebook que, ao analisarem as fotos publicadas por Taucci momentos antes do ataque, concluíram um monte de baboseiras que se juntaram às outras tantas ditas durante este período nebuloso da internet. Novos agentes de organização escolar foram contratados pelo Estado, diretores das escolas visitaram batalhões da Polícia Militar, para abordar estratégias de segurança em unidades escolares, o monitoramento foi reforçado nas escolas e novas viaturas da Ronda Escolar foram adquiridas, também pelo Governo do Estado. A Raul Brasil também foi reformada. A escola ganhou pintura nova, prédios novos, laboratórios e até a entrada foi alterada. Após o ataque, a escola passou a ter acessos diferentes para alunos e comunidade. Na época, o Estado afirmou que as mudanças ocorreriam para melhorar o ambiente, a segurança e amenizar os impactos do ataque. Em sete meses de reforma, praticamente tudo mudou na escola. Fui até a Raul Brasil prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) no fim de 2016 e me recordo que o ambiente era muito parecido ao de uma escola pública comum. Passei pela mesma entrada pela qual eles passaram, desci pelas mesmas escadas que levavam ao mesmo pátio onde alunos morreram. É tudo muito nítido na minha cabeça. Após a reforma, fui novamente até a escola e vi um ambiente muito mais acolhedor. A pintura mais clara e os desenhos 81


praticamente lembravam uma escola infantil. O novo pátio, o novo jardim, a quadra reformada. Sim, meus amigos, tudo ficou lindo para os novos alunos que chegaram. Aos antigos, certamente foi reconfortante, e isso ajuda. Mas, sendo sincero, é impossível apagar aquelas imagens da memória.

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Medo constante A tensão tomou conta da região como um todo. O ataque chocou a população e muitas pessoas redobraram a atenção com medo de novos atentados, tanto em Suzano quanto nas demais cidades do entorno. Durante alguns dias, minha cabeça me atormentou. Eu tive medo de algo parecido acontecer conosco. Tive medo de alguém entrar pela porta da redação atirando. Em minha cabeça, diversas vezes, planejei formas para escapar de um possível ataque. Isso ocorreu durante vários dias. E muitos pensamentos surgiram por conta de situações que aconteciam que noticiávamos ou que víamos nossos colegas de outros veículos noticiando. Foram, pelo menos, três casos ocorridos na região que nos intrigaram, e que ocorreram após o massacre na Raul Brasil. Pouco mais de dois meses após o ataque, um aluno da escola estadual Luiza Hidaka, na região central de Suzano, deu o primeiro sinal que fez com que todos reativassem o botão de alerta. Ele simplesmente levou uma arma de brinquedo para a escola. Percebam o nível de tensão que uma situação como essa leva, não só os alunos daquela escola, mas toda a população. O caso foi parar com a polícia, que encontrou, ainda, maconha e materiais que seriam usados para produzir drogas. Na época, a mãe dele tentou explicar, dizendo que o garoto participaria de uma peça de teatro e que, por isso, teria usado a arma para dar mais realismo à cena. No recreio, alguns alunos perceberam e avisaram a direção da escola.

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Cinco meses após o primeiro caso e sete meses após o atentado na Raul Brasil, novo alarme falso. Desta vez, três estudantes da escola estadual Padre Simon Switzar resolveram compartilhar várias fotos e mensagens de ataques a escolas no Brasil e nos Estados Unidos. A secretaria de Educação do Estado disse que eram apenas boatos, mas mais uma vez, alunos usaram um péssimo momento para falar sobre um assunto horrível e aterrorizante para todos. Agora, essa foi, para mim, a pior de todas. Não sei se pelo teor e pela gravidade ou se porque eu estava lá cobrindo o caso. Quase um ano após o ataque na Raul Brasil, em fevereiro de 2020, uma menina de nove anos (isso mesmo, nove anos) entrou na escola estadual Alice Romanos, que também fica em Suzano, com uma faca. Lá no local, a mãe de um aluno me disse que a menina planejava “se vingar” do filho dela, porque o garoto havia feito algumas brincadeiras de mau gosto. A faca estava na bolsa dela. Agora, o que choca na história, é que o plano teria sido arquitetado pela garota com outras três crianças. Em um grupo de WhatsApp criado pela menina, houve uma espécie de “votação” para definir qual das facas seria utilizada no ataque ao garoto. Algo inacreditável que vi e que, sinceramente, não saberia como agir se fosse responsável por uma das crianças. Foram dias difíceis para todos nós. Uma região arrasada que teve que lidar com vários alarmes falsos após o ataque. Não tivemos algum ataque dentro de escola após o atentado na Raul Brasil. Mas, com certeza, pais e demais familiares de diversas escolas viram o filme quase se repetir com seus filhos. Todos nós sofremos muito. 84


Oportunismo Eu poderia incluir esse tema sem o menor problema no capítulo anterior. Porém, preferi abrir um novo para expor toda a minha decepção sobre o assunto. O atentado na Raul Brasil ocorreu em 13 de março de 2019 e essa obra foi escrita ao longo do ano de 2020. Correndo com a pandemia de coronavírus, que ceifou milhares e milhares de vidas no Brasil e o mundo, tivemos um ano de eleições municipais. E, lamentavelmente, muitas pessoas que participaram do ataque – pessoas que deveriam ser exemplos para a sociedade – embarcaram na carreira política usando como palanque um ataque que gerou uma ferida incurável para a cidade. Sim, meus amigos. Suzano, em 2020, teve candidatos a vereador e até para vice-prefeito que usaram a pior tragédia da história da cidade para ganhar votos junto ao eleitorado. “Eu fui o primeiro policial a entrar na Raul Brasil!!!” “Meu vice-prefeito estava lá. Ele foi o primeiro policial a entrar na Raul Brasil!!!” “Eu estava lá. Fui a merendeira que salvou várias crianças ao enfiá-los em minha cozinha!!!” “Eu realizei ações para ajudar vítimas do ataque na Escola. Eu os acolhi. Vote em mim!!!” Nem todas as frases escutei durante a cobertura das eleições. Algumas, sim. E me enojaram. Fizeram meu estômago embrulhar. E como diria o dito: a intenção já basta. E os vi. Não os ouvi dizendo exatamente como está escrito. Mas imagino que, 85


em suas mentes, a maior vontade era desferir essas palavras durante a campanha. Não o fizeram porque sabiam do erro que cometeriam. E todos perderam as eleições, graças a Deus.

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Conclusão do inquérito As investigações do caso Raul Brasil duraram quase três meses. O inquérito foi finalizado pela Polícia Civil no início de junho de 2019 e apontou que o crime já vinha sendo planejado por Taucci e outro adolescente desde 2015 ou 2016. O garoto teve um pequeno desligamento de contato com o atirador, surgindo então Luiz Henrique neste tempo. Depois, os três começaram a planejar o ataque. Eles se inspiraram no Massacre de Columbine, ocorrido em 20 de abril de 1999, na Columbine High School, em Columbine, no estado americano de Colorado, que teve 13 mortos e 21 feridos. Sabiam o que tinham que fazer e foram suficientemente armados para isso. “O desejo deles era superar o que aconteceu no crime ocorrido em 1999, (em uma escola) em Columbine”, informou o delegado Alexandre Dias, em matéria publicada pela Agência Brasil. O plano de cometer um crime parecido com o de Columbine foi seguido à risca. Dos três, apenas dois foram até a escola cometer a barbárie. O outro adolescente – que foi o autor intelectual – não participou do ataque na escola, justamente porque no caso de Columbine, apenas dois assassinos cometeram a ação (Eric Harris e Dylan Klebold) e se suicidaram em seguida. Em meados de 2018, os assassinos da Raul Brasil começaram a adquirir os objetos que foram usados no crime. Taucci e Castro levaram armamento suficiente para destruir aquela escola e ceifar mais vidas, mas foram impedidos (creio eu, por forças divinas). Eles tinham um revólver, munições, uma besta, um machado, jet loaders (usados para carregar armas mais rapidamente) e coquetéis molotov. 87


Pelo menos cinco pessoas foram presas ao longo das investigações. Além do mentor intelectual, que foi apreendido e levado à Fundação Casa, outras pessoas que participaram de alguma forma do ataque foram presas. Gente que cedeu armas, munições ou que foi detida por porte ilegal de armas. Após matarem o tio de Taucci, os assassinos, na Raul Brasil, mataram sete pessoas, feriram outras 11 e se suicidaram em um dos corredores da escola.

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Enfim Ao final daquela tarde, saí do Diário de Suzano e fui até minha casa. Descendo a rua, já chegando em minha residência, meu vizinho na época, que chamávamos de “Bahia”, veio até mim para dizer que havia me visto na televisão, em um dos telejornais que noticiara o caso. Achei estranho e, ao chegar em casa, procurei o tal na internet. Ali sim, percebi que havia aparecido na televisão, o que era péssimo pois, como disse lá no começo, não queria que soubessem que estava trabalhando com jornalismo. Fui até a faculdade, onde muitos me perguntaram o que havia acontecido. Disse o que sabia. Fiz o que um jornalista tem que fazer, que é informar com precisão. É o que amo fazer. Ali, já não havia mais possibilidade de esconder o local onde trabalhava. Assisti a aula normalmente, em meio aos questionamentos que me eram feitos e às referências dos professores. Sim, minha cidade havia se tornado parte da aula, o que me incomodava demais. Por ali fiquei até o Fim do dia. Confesso que foi uma experiência única com uma dose violenta de tristeza. A adrenalina abafou os efeitos, que só foram realmente sentidos quando tive tempo para parar e rever tudo o que havia ocorrido. Aprendi muitas lições com esse caso, e tenho certeza que meus colegas também. Creio que todos os que estiveram nesta cobertura aprenderam algo. E seja qual for o resultado, a dor nunca será apagada. Sei que adquiri muito conhecimento após essa cobertura. Levo para a vida como um dia totalmente diferente de tudo o que já vivi desde 16 89


de dezembro de 1996, quando nasci. Nada aliviará a dor daquelas famílias que perderam entes queridos. Nada. Mas, aprender a lidar com a dor, é o melhor atalho para a vida em sua forma normal. Doeu demais, eu sei. Porém, os caminhos precisam ser seguidos e os obstáculos superados. No jornalismo é assim: a gente vê dor e tristeza sempre. Foi assim com o ataque na Raul Brasil e em tantos outros casos. Mas, como um jornalista, me calejei. E a vida é assim. Já não há muito como sofrer na profissão. E lhes digo: a vida tem que ser vivida como vivem os jornalistas. Só assim, conseguimos resistir diante de tanta violência. Vivendo pela notícia.

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Em memória de:

Caio Oliveira Claiton Antonio Ribeiro Douglas Murilo Celestino Eliana Regina Oliveira Xavier Jorge Antônio de Moraes Kaio Lucas da Costa Limeira Marilena Ferreira Vieiras Samuel Melquiades Silva de Oliveira

Todas as vítimas fatais deste ataque brutal.

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AGRADECIMENTOS A Deus, primeiramente, por ter me dado saúde para chegar até aqui. Aos meus pais, Geruza e Ribamar, e à minha irmã, Gabriely, por serem minha base e estarem ao meu lado sempre. Muitas pessoas fizeram parte deste trabalho. Gostaria de agradecer ao Edgar Leite Elegancia, ao Marcus Pontes, ao Rodrigo Barone e ao Dennis Maciel, que gentilmente aceitaram dar depoimentos que foram absolutamente fundamentais para que este livro se tornasse uma realidade. Agradecer especialmente ao Edgar, que é minha referência – meu professor - no jornalismo; e ao Marcus, que é uma das pessoas com quem mais aprendi jornalismo nesta vida. Além de se colocarem à disposição para conceder as entrevistas que integram esta obra, me ensinaram muito na profissão. Devo muito a ambos. Agradecer ao Samuel Fragoso, que me ajudou demais no processo de construção deste livro; e ao Diego Juan, que foi o cara que escutou a minhas opiniões sobre o projeto, as orientações e a universidade, sem que eu precisasse omitir algo por medo de represálias. Ao Fernando Barreto, que revisou esta obra. Deixar meu carinho também aos professores Antonio Assis, Mirian Meliani e Rosangela Paulino, que me orientaram ao longo do ano de 2020 na construção deste livro. 95


Ao Gabriel Vitor Henrique de Arruda, que me deu uma baita luz que foi fundamental para que o livro tivesse meu relato. A todos do jornal Diário de Suzano e aos demais jornalistas, fotógrafas e a todos os estagiários que conheci durante este período. Ao Kevin e à Yavini, que sempre me acolheram ao longo de todo o período em que estive na faculdade. São irmãos que levo para a vida. E a todos que se interessaram pelo assunto e leram esta obra. Muito obrigado.

DM

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REFERÊNCIAS AQUINO, J. E. F. D. Espetáculo, comunicação e comunismo em Guy Debord. Kriterion [online], Belo Horizonte, v. 48, n. 115, 2007. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0100512X2007000100010>. Acesso em: 3 jun. 2020.

ARBEX, Daniela. Todo o Dia a Mesma Noite: A história não contada da boate Kiss. 1. ed. [S.l.]: Intrínseca, 2018. p. 1-248.

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DIÁRIO DE SUZANO. Saiba quem são as vítimas do massacre na Escola Raul Brasil. Disponível em: https://www.diariodesuzano.com.br/cidades/saiba-quem-sao-asvitimas-do-massacre-na-escola-raul-brasil/47225/. Acesso em: 13 mar. 2019.

DIÁRIO DE SUZANO. Tiroteio na escola Raul Brasil deixa 8 mortos; há suspeita de bomba no local. Disponível em: https://www.diariodesuzano.com.br/policia/tiroteio-na-escolaraul-brasil-deixa-8-mortos-ha-suspeita-de-bomba-no/47210/. Acesso em: 13 mar. 2019. 98


ESTUDANTE de 9 anos vai à escola com uma faca para se ‘vingar‘ de colega. Diário de Suzano, [S. l.], n. 1, p. 1, 19 fev. 2020. Disponível em: https://www.diariodesuzano.com.br/policia/estudante-de-9-anosvai-a-escola-com-uma-faca-para-se-vingar-de/52435/. Acesso em: 3 nov. 2020.

ALUNO leva arma de brinquedo à escola. Mogi News, [S. l.], ano 2019, p. 1, 22 maio 2019. Disponível em: http://www.portalnews.com.br/_conteudo/2019/05/cidades/1027 15-aluno-e-pego-com-arma-de-brinquedo-em-escola.html. Acesso em: 2 nov. 2020.

ALUNOS vão à polícia após boato de ataques. Mogi News, [S. l.], ano 2019, p. 1, 10 out. 2019. Disponível em: http://www.portalnews.com.br/_conteudo/2019/10/cidades/1107 00-alunos-vao-a-policia-apos-boato-de-ataques.html. Acesso em: 4 nov. 2020.

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RAUBER, Jaime José. A teoria da generalização de M. Singer. Veritas, Porto Alegre, v. 43, n. 4, p. 1021-1030, 1998. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/veritas/article/do wnload/35491/18616>. Acesso em: 13 jun. 2020.

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Daniel Marques é jornalista. Nascido em Mogi das Cruzes, se mudou para Suzano aos sete anos. Cursou jornalismo na Universidade Cruzeiro do Sul e, no início do quarto semestre, fez um curto estágio na Receita Federal antes de entrar no jornal Diário de Suzano, em março de 2019. Lá, Daniel fez a cobertura do caso Raul Brasil em seu segundo dia de estágio, além da pandemia do coronavírus e das eleições municipais de 2020. 103


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