DEDICATÓRIA
A
os dois idosos que fizeram parte da minha vida e ainda fazem, estando presentes em meu coração. Minha bisavó ou “vó”, como a
chamávamos, Maria de Jesus da Silva (in memorian), por sempre me incentivar a estudar, escrever e ler. Meu avô, Pedro Ferreira Bastos (in memorian), por tudo que fez por mim e por todo o amor e carinho. Dedico esta obra também à minha querida mãe que me apoiou em todas as minhas escolhas, incluindo a de fazer jornalismo, e sempre esteve ao meu lado, nos bons e maus momentos.
Amo vocês para sempre!
AGRADECIMENTOS
A
gradeço, primeiramente, àquele que está acima de mim e de todos. Ao que é onipresente e sempre me ilumina, mesmo que eu
esteja em meio à escuridão. Àquele que nunca me deixou desamparada e me ajudou a enfrentar as dificuldades e passar por este ano tão difícil para todos. Graças a ele, estou bem e com saúde, apesar de tudo, junto daqueles que amo. Deus, muito obrigada pela força que me deu quando eu já me sentia fraca. Por me fazer acreditar em mim mesma, quando nem eu mais acreditava e me mostrar o quanto sou capaz. Por abrir novas portas e janelas para que eu pudesse entrar, me dar uma nova direção e o que precisava para conseguir finalizar este trabalho com sucesso. Grata aos familiares dos desaparecidos que me permitiram ouvir e compartilhar suas histórias. A atenção que me deram apesar de todos os problemas
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EM BUSCA DE RESPOSTAS Relatos de desaparecimento de idosos
e desafios que enfrentam não teve preço. Nós nos emocionamos, sorrimos e abrimos nossos corações durante horas de entrevista. Eu pude me sentir tão próxima de todos, embora nossas conversas tenham sido à distância. Claro que seria injusto da minha parte deixar de agradecer a vocês que acabaram não entrando neste livro, pois todos se disponibilizaram em me ajudar e esta ajuda fez toda a diferença, tenham certeza disto. Muito obrigada de coração! Com certeza, sou muito agradecida à minha família por enfrentar esta jornada comigo. Principalmente, à minha mãe que me deu apoio incondicional durante este ano e todo o curso. Apesar dos problemas que passamos à parte, ela sempre esteve ali quando precisava, mesmo que eu não dissesse, fosse para me dar uma xícara de café para encarar as horas de escrita, fosse só para me dar uma palavra amiga nos momentos de desânimo e tristeza (que acreditem, foram muitos!). Grata também aos meus entes queridos que já se foram, pois sei que continuam me abençoando e me iluminando de onde quer que eles estejam. Sem sombra de dúvidas, não poderia deixar de agradecer a todos os meus amigos que me deram a
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Thainná Bastos
ajuda que precisava no decorrer deste trabalho e foram um grande refúgio nas horas difíceis, me fazendo rir quando queria chorar, prontos para me ouvir e me aconselhar quando necessitava expor minhas dores. Em especial, à Raissa Pilar Correia, minha colega de sala, minha parceira de tantos trabalhos e com quem pude dividir tudo aquilo que sentia. Uma garota super inteligente, a quem sempre admirei e admiro e que não só me ajudou, mas me ensinou muito durante estes anos nos quais estudamos juntas. Grata por também ser meu amparo emocional, por sempre me ouvir e me aconselhar. Raissa, saiba que você foi o maior presente que o jornalismo poderia me dar e é uma amiga que levo para a vida inteira! Agradeço muito a todos os meus professores que não apenas me ensinaram, mas também me escutaram, me inspiraram e me fizeram chegar até aqui. Em especial, às minhas orientadoras, Mirian Meliani e Rosângela Paulino, que acreditaram em mim e no meu projeto e o transformaram, comigo, em algo real. Com certeza, suas palavras foram essenciais para o desenvolvimento deste livro e farão diferença na minha vida. Vocês não sabem o quanto eu amava ouvi-las falar.
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Por fim, o meu muito obrigada a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram com a realização deste Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Até então, escrever um livro não passava de um mero desejo de jornalista, mas graças a vocês este sonho, aparentemente distante se tornou realidade e eu não poderia estar mais feliz. Também agradeço aos que me ajudaram, de alguma forma, a chegar até onde cheguei, pois foram muitos obstáculos e muitos muros que tive que ultrapassar. O TCC é só o começo de um novo ciclo que se inicia em minha vida!
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
A ESPERANÇA É A CHAVE PARA ENCONTRAR AS RESPOSTAS
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CAPÍTULO 1
A INESQUECÍVEL VIAGEM
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Onde está José Maria? CAPÍTULO 2
É DIA DE CASAMENTO Para onde foi Lúcia Aparecida?
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CAPÍTULO 3
MALES QUE VÊM PARA O BEM
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O que aconteceu com Benicio Mariano? CAPÍTULO 4
O ÚLTIMO PASSEIO 63 Por onde anda Sueli de Oliveira? CAPÍTULO 5
O ESQUADRÃO DE APARECIDA
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Que caminho tomou o Seu Neco? CONCLUSÃO
AINDA NÃO ENCONTRAMOS AS RESPOSTAS 93 REFERÊNCIAS 101
INTRODUÇÃO
A ESPERANÇA É A CHAVE PARA ENCONTRAR AS RESPOSTAS
“É um luto que não se permite ser luto.”
Eduardo Mota Teixeira
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ós sabemos o quanto dói enterrar alguém que amamos, mas e quando não se tem um corpo para enterrar nem sequer respostas para
concluir se a pessoa realmente morreu ou está apenas perdida no estado mais populoso do país? Estas foram as primeiras perguntas que me vieram à mente ao considerar abordar o desaparecimento de pessoas em meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). É fato que estes questionamentos são poucos perto da imensidão que invade as cabeças dos que sofrem com este problema. De acordo com os dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019, houve mais de 80 mil desaparecidos entre os anos de 2017 e
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2018 no Brasil, dos quais, mais de 50 mil chegaram a ser localizados. Deste número, calcula-se que 25.200 pessoas desapareceram em 2017 e 24.368 em 2018, somente no estado de São Paulo, números que podem ser ainda maiores se levarmos em conta os casos que não chegaram a ser notificados. Ainda de acordo com o levantamento feito pelo Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos do Ministério Público do Estado, em 2019 foram registradas 24.710 ocorrências de desaparecimento no estado de São Paulo (um aumento de 342 casos em relação ao ano anterior), dos quais, 1.712 tinham como vítimas pessoas com 60 anos de idade ou mais, o que nos faz concluir que o estado paulista é o lugar onde mais pessoas desaparecem. Mas o que é o desaparecimento e o que faz alguém desaparecer? Segundo a Cartilha de Enfrentamento ao problema, produzida pelo Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Prefeitura do estado, em 2016, o desaparecimento é quando uma pessoa some repentinamente, sem aviso prévio a seus familiares ou terceiros. Sendo assim, um indivíduo é considerado desaparecido quando não é possível lo-
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calizá-lo nos lugares que costuma frequentar ou não é encontrado de qualquer outro jeito. De acordo com a própria cartilha, são mais de 20 mil famílias atingidas pelo fenômeno do desaparecimento de pessoas por ano, somente na cidade de São Paulo. Levando isso em consideração e tentando demonstrar a preocupação que, ao menos, as instituições públicas do município têm em relação ao problema, criou-se esta cartilha para “enfrentá-lo”. O documento traz como intuito orientar e apresentar os direitos dos familiares que estão passando por este fenômeno, o que nós sabemos que é mais presente do que imaginamos. No entanto, trata-se de algo que não consideramos passar, o que torna normal se sentir desorientado e perdido neste caso. Ainda de acordo com a Cartilha, o desaparecimento é multicausal, ou seja, possui muitas causas, como: conflitos familiares, uso de drogas, alcoolismo, transtorno mental, depressão, violência, dentre outras. Em relação ao público idoso, foco deste livro, a assistente social Maria José Pedro Placeres, o psicólogo Eduardo Mota Teixeira e a psicóloga Mel Marinelli, que atuam com esta temática há mais de quatro anos,
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destacam que é comum o distúrbio/confusão mental ser o maior causador de desaparecimentos deste público, a não ser em casos inexplicáveis, incidentes de saúde ou até mesmo conflitos familiares graves. Além disso, existem três tipos de desaparecimento: o voluntário – quando a pessoa se afasta por vontade própria, seja por desentendimentos, medo, aflição, choque de visões, planos de vida diferentes, entre outros; o involuntário – quando ela é afastada do cotidiano por um evento sobre o qual não tem controle, podendo ser um acidente, um problema de saúde, um desastre natural, entre outras coisas mais e o forçado - quando outros indivíduos provocam o afastamento, sem a concordância da pessoa, como em um sequestro ou ação do próprio Estado. Por isso, ao nos vermos frente a um problema desta magnitude, tal como o desaparecimento de pessoas, há muitos passos que precisam ser seguidos para que as famílias tenham o apoio que tanto precisam e um guia que as levem para o caminho certo, em meio a uma chuva de incertezas que as rondam. Segundo aponta a assistente social Maria José Pedro Placeres, o primeiro passo a ser dado é re-
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gistrar o Boletim de Ocorrência de imediato, principalmente se tratando de casos envolvendo idosos. Conforme apontado na Cartilha de Enfrentamento ao Desaparecimento, não é necessário aguardar algum intervalo de tempo para que alguém seja considerado como desaparecido, mas Maria José afirma que, infelizmente, algumas delegacias ainda pedem para que sejam esperadas as 24 horas para o desaparecimento ser notificado. No entanto, ela destaca que hoje em dia o B.O. pode ser feito também pela internet, facilitando a vida dos familiares. Em relação à busca, a psicóloga Mel Marinelli acredita que procurar amigos e parentes, buscar em locais conhecidos, em hospitais, Institutos Médico Legais (IMLs) e Serviços de Localização de Óbito (SVOs) também sejam importantes. Na Cartilha de Enfrentamento, orienta-se ainda a procura por outros órgãos públicos que possam auxiliar na busca, como o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID), do próprio Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura da cidade, por meio do setor conhecido como SMADS-
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-Desaparecidos e o Balcão de Atendimento da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, também da Prefeitura, além da divulgação do caso para a sociedade. Porém, ao abordarmos esta questão da divulgação, percebe-se que nem sempre ela é útil, e se tratando do público idoso, muitas vezes essa exposição nem acontece pelo fato dos veículos da mídia de massa (mass media) selecionarem casos que trarão audiência e, consequentemente, retorno financeiro, o que faz com que as ocorrências envolvendo crianças e adolescentes ganhem uma maior notoriedade. Trata-se de algo aparentemente incorreto, pois assim como este público mais jovem, os idosos também precisam de cuidados e possuem fragilidades que não podem ser ignoradas. Ademais, a falta de políticas públicas com este tema e o fato de o desaparecimento não ser considerado crime faz com que as próprias autoridades fechem os olhos perante este problema. Entretanto, sabemos que tanto os adolescentes como as crianças e o público idoso possuem estatutos resguardando seus direitos, o que é questionável, já que o que vemos em relação aos desaparecimentos destas pesso-
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as é um total descaso, (isto é, como se ao sumissem, tudo que viveram até então sumisse junto). Na tentativa de compreender melhor o significado do termo “desaparecer”, me deparei com as seguintes definições dadas pelo dicionário Aurélio: “01. Deixar
de ser visto; sumir-se; 02. Perder-se; sumir (-se); 03. Morrer; 04. Retirar-se; afastar-se; 05. Apagar-se; ofuscar-se; obscurecer(-se); 06. Ocultar-se; esconder-se; sumir(-se); 07. Esquivar-se furtivamente”. Porém, durante as entrevistas com os personagens deste livro, percebo que o termo para eles ultrapassa esses significados. É um termo que remete à tristeza e dor, mas ao mesmo tempo, a esperança de encontrar as respostas para suas inúmeras questões e ao amor que sentem por seus parentes. “Os familiares são movidos pela esperança do re-
encontro e pela impossibilidade de fechamento simbólico da experiência”, conclui a psicóloga Mel Marinelli, do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID), do Ministério Público de São Paulo. Mel trabalha com casos de desaparecimento desde 2016, tendo ajudado cerca de 300 famílias e acredita que o acompanhamento psicológico nestas ocorrências
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é essencial, “por se tratar de um sofrimento intenso,
contínuo e sem amparo nos espaços, relações e rituais socialmente disponíveis”. Mas o psicólogo que se prontifica a receber os familiares deve oferecer uma escuta qualificada, para que eles tenham um espaço de acolhimento de experiências fora do socialmente esperado. “A escuta qualificada é uma forma de responder a esse
sofrimento, ao lado da luta organizada”, aponta ela. Concordam com a profissional a assistente social Maria José Pedro Placeres e o também psicólogo Eduardo Mota Teixeira, que trabalharam juntos no projeto “Sempre Alerta”, organizado pela ONG Mães da Sé, uma das organizações sobre a temática mais conhecidas do estado de São Paulo. O trabalho tem como principal objetivo a conscientização sobre o assunto através de palestras em escolas, Centros Educacionais Unificados (CEUs), em Secretarias Municipais de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura do estado (CRAS) e até em igrejas. Entretanto, paralelamente, a dupla ficava na ONG, oferecendo o primeiro acolhimento aos familiares, que chegavam ao local perdidos e precisando de alguém para escutá-los, pois não raro, esta era a primeira chance que tinham de compartilhar suas histórias.
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Eduardo Mota e Maria José também procuravam orientar estas pessoas sobre seus direitos, já que, em sua maioria, nem as próprias delegacias prestavam esta orientação. Desse modo, os familiares ficavam sem saber por onde iniciar as buscas e obter ajuda. Percebendo a extrema necessidade destas famílias, mesmo com o fim do projeto e com a distância forçada imposta pela pandemia do COVID-19 este ano, os dois não pararam de atender e fazem este amparo de forma voluntária em um Grupo de Apoio, no momento pela internet e por mensagens. Ambos destacam ainda que a busca pela pessoa desaparecida é solitária e repleta não só de inúmeras perguntas, mas também de culpa. Conforme aponta Eduardo Mota, a busca se torna essa completa solidão, porque a pessoa não pode contar com a polícia e, com o tempo, ela deixa de contar até com os próprios familiares, ficando sozinha e imersa em pensamentos que lhe podem fazer mal. Ele relata também, que, infelizmente, é muito comum a busca ficar a cargo de uma única pessoa, tornando-se um peso muito difícil de carregar e fazendo com que esta pessoa não se sinta no direito de interromper
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a procura, porque acredita ser a única esperança da pessoa desaparecida. “Por isso que a gente fala que
é um luto que não se permite ser luto”, enfatiza o psicólogo. Complementa sua fala, Maria José Placeres, que diz: “Às vezes tem alguns casos em que [os
familiares] já perderam a esperança, mas continuam em busca de respostas”. Ainda segundo o psicólogo Eduardo Mota, há uma diferença no olhar da família quando falamos de uma criança que desapareceu há anos e quando é um idoso que desapareceu. No caso do idoso, a família tende a achar que ele já esteja morto, mas não perde a vontade de saber o que aconteceu. Já no que se refere a uma criança, há aquela esperança de que ela está viva e em algum lugar. Ao retomarmos a Cartilha de Enfrentamento ao problema, notamos que ela traz outras emoções que os familiares dos desaparecidos podem experimentar, tais como: o desespero, o medo, a angústia, a raiva, o vazio, a ilusão, o cansaço físico e mental, ansiedade, depressão, entre outros. Porém, como conviver com a incerteza que é, sem sombra de dúvidas, o sentimento que mais atinge estas famílias? Em relação a isso,
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todos relataram a importância do autocuidado e de se manter a esperança. Pensando em tudo isso, neste livro-reportagem, intitulado “Em Busca de Respostas - Relatos de Desaparecimento de Idosos”, abro espaço e trago até você, leitor, cinco histórias de familiares que estão enfrentando todas estas dificuldades e passando por essa enxurrada de sentimentos a fim de compreender o que aconteceu com seus entes queridos, que por algum motivo, desapareceram no estado de São Paulo. Relatos contados pelos que sentem a dor da perda e também da incompreensão, que trazem à tona todos os desafios enfrentados ao longo do tempo por estas pessoas e que expõem as fragilidades deste público com ainda mais exatidão. Cinco casos reais que dão rostos, personalidades, sentimentos e histórias aos números alarmantes que vimos há pouco. Afinal, estas pessoas são mais que meras estatísticas, são seres humanos e merecem nossa total atenção, pois o desaparecimento pode acontecer com qualquer um, independente do local de residência, de condições financeiras, saúde e demais problemas. Assim, todos estão sujeitos a passar por isso.
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O objetivo principal deste livro foi dar voz àqueles que têm muito a dizer, por este motivo, enquanto lê esta obra, as vozes presentes em cada página ecoarão nos teus ouvidos, o que também é uma forma de conscientizar a população sobre o tema, principalmente aqueles que nunca passaram por esta situação, pois a conscientização é a palavra-chave para evitarmos e diminuirmos este grande problema social, conforme apontam os profissionais entrevistados. Sinto-me muito realizada em fazer este trabalho e compartilhar com você estas cinco histórias, que a mim foram confiadas. Em meio a um ano cheio de desafios e dificuldades, não nos deixamos abater e seguimos em frente com este projeto. Foram meses de pesquisas, levantamentos, leituras e entrevistas até que este livro fosse desenvolvido. Horas e horas de escrita, nas quais em muitos momentos senti que estava perdida, mas me encontrei, e este foi o resultado. Boa leitura!
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CAPÍTULO 1
A INESQUECÍVEL VIAGEM Onde está José Maria?
“É um capítulo na vida da gente que nunca vai ter um fim.”
Marli Santos
C
ampo Grande, zona sul de São Paulo, 17 de novembro de 2012 - fazia nove dias que José Maria dos Santos completara seus 81 anos
de idade – o idoso já de cabelos grisalhos, pele clara, olhos pequenos, castanhos-escuros e cativantes, era bem lúcido e ativo. Naquela noite, ele se preparava para viajar com o filho Nelson (conhecido como boy), a nora Neide e uma turma de amigos do casal pela primeira vez para Iguape, no litoral paulista. É trajando calça preta, blusa social cor-de-rosa, chapéu azul de nylon, sandálias marrons e meias escuras que José Maria deixa seu último registro e torna a viagem inesquecível para todos que o conheciam.
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“Ele falou para a minha mãe que não queria ir,
mas trinta minutos depois mudou de ideia, terminou indo e aconteceu tudo isso”, conta Marli, ao lado de sua irmã Magali. As irmãs de vozes roucas e marcantes usam-as para compartilhar não só esta, mas muitas outras histórias do pai a fim de não deixar que ele seja esquecido. Desde aquele fatídico sábado, as duas são unidas não somente pelo sangue que corre em suas veias, mas também pela esperança de encontrar as respostas e seguir em frente. Iguape, litoral paulista, por volta de 12 horas Nelson liga para a irmã Marli dizendo que o pai está nervoso e querendo voltar para casa. Ela então resolve conversar com José Maria, que já aparenta certa confusão mental ao dizer que está em um bairro próximo de Grajaú, na zona sul de São Paulo. Mas, sem suspeitar de qualquer problema e sem saber que aquela seria a última conversa entre os dois, Marli pede para que ele se tranquilize e aguente até o fim da viagem. Quando o irmão volta ao telefone, ela diz para ele a avisar caso José Maria piore, pois chamaria a irmã Magali (que naquela época morava próximo dela) e as duas iriam
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buscá-lo. Porém, Nelson demora a ligar e, lamentavelmente, seu contato às 18 horas é para informar sobre o desaparecimento de José Maria. A partir daquele momento, a família Santos passa a enfrentar algo que nunca havia pensado e uma longa jornada se inicia. Mesmo sem conhecer a região, eles se organizam para ir até a cidade litorânea e, tentando conseguir alguma ajuda, ligam para o orelhão de onde haviam recebido a primeira chamada de Nelson. Por sorte, os moradores dão as coordenadas de como chegar até o local e então, sabendo o caminho a tomar, eles saem de casa às 20 horas e chegam a Iguape à uma hora da manhã. Entretanto, para a surpresa de todos, Nelson e a esposa já haviam voltado para a capital. “Ele falou que ia dar uma volta para ver se acha-
va e nada. A gente até pediu para ele esperar, mas ele disse: ‘Não adianta vir que não vai achar ele’. Até hoje isso é uma incógnita, ninguém entende por que ele falou isso, nem nada”, relembra Marli, ainda com o ar da dúvida. Esta não foi a única frustração que tiveram ao chegar no local. Eles ainda precisaram esperar 24 ho-
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ras do desaparecimento para registrar o boletim de ocorrência. Apesar de tudo, as buscas por José Maria não pararam, nem mesmo com a aproximação do feriado de Consciência Negra. Onde havia pistas, a família ia. Conversavam com os moradores, turistas e quem mais estivesse na região. Por fim, passaram quatro dias diretos na cidade e cerca de oito meses entre idas e vindas da praia. “Todo final de semana, feriado, a gente ia ‘pra’ lá.
Demos voltas ali pela área próxima. Muita gente viu ‘ele’, mas ninguém sabia para onde ele tinha ido”, relata Marli, recordando os momentos de desespero que eles passaram. Para todos os lados que se olha é um mistério. O que se sabe até hoje é o que foi dito em depoimento pelo motorista do ônibus da excursão, o último a ver José Maria antes do ocorrido. Segundo ele, Nelson e a esposa teriam ido tomar banho em um vestiário, deixando o idoso dentro do ônibus - programado para sair às 17 horas da cidade. Por volta das 15 horas, enquanto ele se trocava sentado em seu assento, viu José Maria se levantar e sair do veículo. Confrontado na delegacia por não tomar nenhuma atitude, o condu-
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tor disse que não o impediu por pensar que ele estava indo de encontro com o filho em um bar próximo, pois saiu praticamente no sentido do estabelecimento. “Tem uma peixaria lá e a mulher viu ‘ele’ passando
‘pra’ cima e ‘pra’ baixo algumas vezes, mas não viu ‘pra’ onde ele foi. E nesta cidade é assim, se você quer vir embora e pede uma carona, o pessoal dá”, explica Marli. Complementando a explicação dada pela irmã e pensando nos possíveis passos percorridos pelo pai, Magali enfatiza que ao sair do centro de Iguape, andam-se alguns quilômetros para chegar à praia e neste percurso há muita mata. Então, normalmente as pessoas que saem das balsas são as que costumam pegar carona para chegar até a região central da cidade. “A gente pediu ‘pra’ prefeitura de Iguape uma lis-
ta dos ônibus que foram ‘pra’ ilha naquele dia e até hoje estamos esperando”, relata Marli, ao se lembrar dos turistas que frequentam o local. “Tanto a prefeitura, como a própria delegacia e o
próprio delegado deixaram muito a desejar”, resume a irmã Magali. “O delegado falou ‘pra’ gente: ‘Se o seu pai entrou
na mata, daqui dois ou três anos a gente acha a carca-
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ça dele quando os urubus começarem a rondar a carne”, relembra Marli, em tom de revolta e indignação. Com as irmãs já desesperadas aquela altura, o delegado teria percebido o seu equívoco e pediu que elas fossem aos Institutos Médico Legais (IMLs) de Itanhaém e Peruíbe, cidades também do litoral paulista. Entretanto, Marli conta que nestes municípios não há estes institutos, somente em Praia Grande ou Registro. Elas chegaram a ir ‘em’ todas estas cidades, mas não souberam nada sobre o pai. A procura incansável continua pelo litoral paulista, capital e todo lugar de onde surgem pistas. A família também consegue uma considerável visibilidade nos programas de TV e em portais de notícias de diferentes regiões de São Paulo e outros estados, além do apoio de organizações não governamentais (ONGs) e até mesmo divulgação do caso em trabalhos acadêmicos (como este). Mas o relógio não para e infelizmente não é possível voltar no tempo. Oito anos se passaram e a história do desaparecimento de José Maria permanece sendo um livro com páginas incompletas. As buscas presenciais se tornam online com a criação de uma página sobre o caso de José Maria na
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internet. Neste espaço dedicado a ele, as filhas acompanham a interação, o compartilhamento e tudo que é enviado pelos seguidores. “O pessoal se mobiliza, a gente ainda comparti-
lha, curte e eu tenho no meu ‘Face’ o comunicado do desaparecimento dele”, relata Marli. Mesmo depois de anos, elas seguem recebendo pistas, mas a maior e mais esperançosa apareceu no ano passado, com o envio de uma foto por uma seguidora. Na imagem, aparecia um senhor da capital paulista com características bem semelhantes às de José Maria. “Era muito idêntico a ele, o jeito de tirar foto, a
postura, o chapéu, tudo. A gente foi ‘pra’ lá, rodou até encontramos o senhor no final de semana, mas não era ele não”, relembra Marli, com tristeza. “É porque nesta época, depois que nós pratica-
mente deixamos de ir ‘pra’ Baixada, chegou um telefonema e uma pessoa nos informou que ele foi visto pegando um ônibus clandestino com destino a São Paulo e que o final dele seria no centro da cidade. Então, nós ainda fomos ao centro e ficamos quase um mês andando pela região para verificar se conseguí-
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amos localizá-lo ali mesmo, mas não conseguimos”, completa Magali, também com olhar triste ao lembrar deste momento. Enquanto as respostas não chegam, datas comemorativas como o Dia dos Pais, fazem as irmãs se lembrarem da convivência que tinham com o idoso. Relação que era normal como de qualquer outra família, mas que há muitos anos, em suas juventudes, chegou a ficar estremecida. “É que a gente era muito rebelde, né?”, comenta Magali, rindo. “É porque ele era alcoólatra, aí ele parou de beber,
bebia só cerveja. Aqui na frente de casa tem um bar que ele comandava, era o serviço dele, até porque ele não ia arrumar mais nada com idade que estava. Ele se aposentou por idade, mesmo tendo trabalhado tantos anos. Então ele tocava o bar, era a vida dele. Trabalhava lá, saía, fazia as compras. Era totalmente normal, não tinha nada, era bem ativo. Tinha até uma Brasília velha azul que ele mesmo dirigia. Se bobear era mais lúcido que nós”, enfatiza Marli, com um leve sorriso. Em meio a tantas lembranças deixadas pelo pai, as irmãs se recordam ainda de algumas situações an-
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teriores ao desaparecimento dele que o entristeceram, justamente pelo fato de ele ser independente. “Foi na época de eleição que a mulher falou ‘pra’
ele que ele não precisava mais votar. Mas eu acho que o que deixou ele mais chateado foi quando ele precisou do empréstimo no INSS e pela idade não podia mais, daí ele ficou: ‘Ah! Eu sou um inútil, não consigo tirar mais nada, nem votar’ . Daí eu expliquei que ele podia ir votar sim, porque é um direito que ele tem, ele só não tinha a obrigação”, conta Marli, lembrando de uma das últimas conversas que teve com o pai. Atualmente, o que mais dói para elas é a falta de respostas, pois viver tentando imaginar como José Maria estaria hoje é o maior desafio. A família, que antes era considerada quase um exército por conta das inúmeras buscas que faziam, agora vive um dia pela emoção e outro pela razão, uma hora acreditando que ele ainda pode estar vivo e voltar para casa, outra sendo realista e se lembrando da idade que ele faria este ano (89 anos) e que poderia diminuir esta possibilidade. “É um capítulo na vida da gente que nunca vai ter
um fim. Cada hora é uma esperança!”, comenta Marli, de forma contida e segurando a emoção.
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Sem dúvidas, o desaparecimento afetou a todos. Nelson, o filho que viajava com José Maria na ocasião, acabou se afastando dos parentes meses após o desaparecimento do pai, não participando tanto das buscas por ele e hoje não é mais casado com Neide, que também estava na excursão ao litoral paulista. No entanto, o acontecimento teve consequências ainda maiores para a esposa de José Maria e mãe da família. Dona Marlene, de 75 anos, precisou se acostumar com a ausência do marido com quem dividiu a vida por décadas, ficando muito debilitada e necessitando de acompanhamento psicológico para tentar lidar com o fato. “Agravou a situação da diabetes dela, pressão, as
fortes dores que ela tem de coluna, joelho, enfim. De uma certa forma, ela está se entregando, mesmo a gente convivendo com ela”, relata Marli, com ar de tristeza. “Ela surta, sabe?”, diz Magali, bem atenta ao que a irmã tem a dizer. “A gente pensou que seria Mal de Alzheimer, mas
não. O neurologista falou que ela está entrando em uma fase de esquecimento, podendo chegar ao dia de nem se lembrar de nós”, conta Marli, preocupada com a situação da mãe.
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Com o objetivo de expressar o que ela, sua irmã e toda a família sente, Marli cita a frase que chegou a ouvir de um dos delegados e que foi a mais motivadora até o momento: “Enquanto não tiver corpo, tem
esperança!”. Por esta razão, a família Santos segue unida e lutando contra o tempo para encontrar José Maria, não importando os obstáculos a serem enfrentados e sendo o apoio uns dos outros.
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CAPÍTULO 2
É DIA DE CASAMENTO Para onde foi Lúcia Aparecida?
“O desaparecimento é uma situação que a gente não imagina passar.”
Karina Figueiredo
L
úcia Aparecida Ricardo, nome de uma mulher forte que não se deixou abater pelos problemas impostos pela vida. Aos 57 anos, a dona de
casa, moradora de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, lutava contra si mesma ao ser diagnosticada com transtorno bipolar e esquizoafetivo. Em decorrência destes problemas mentais, há muito tempo ela vinha enfrentando uma montanha-russa de emoções. Sua condição instável chegou a causar rupturas em sua família de maneira precoce. “Meu pai se separou e a gente acabou separan-
do dela também, porque eu e meus irmãos ficamos morando na casa dos meus avós paternos, mas era um bairro próximo e ela voltou a morar com os pais”, conta Karina, uma das filhas de Lúcia.
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A partir daí, o convívio com os quatro filhos se tornou semanal, mas por diversas vezes ela precisou ser internada, causando afastamentos frequentes entre eles, que na época eram muito pequenos para entender o porquê da ausência da mãe. Apesar de tudo, sempre que estavam juntos, eles aproveitavam ao máximo cada momento. “Era muito carinho, muito amor”, relembra Karina, com ternura. Em 2013, Lúcia completaria seus 58 anos de idade e o convívio com os familiares já era normal a essa altura, sem nada de ruim ou questionável. Ela fazia terapia, tinha acompanhamento psiquiátrico e vivia à base de medicamentos. Aparentemente, todos os tratamentos pareciam estar funcionando, pois as crises deixaram de ser tão frequentes, mas ainda era preciso muita atenção com a idosa. “Ela não ficava em crise constantemente, ela ti-
nha os momentos de crise. Às vezes pelo corpo se acostumar com a medicação, ela acabava entrando em crise e a gente acredita que pode ter sido isso que aconteceu quando ela desapareceu”, conta Karina, ao lembrar dos problemas que a mãe enfrentava.
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Em 30 de março daquele ano, Lúcia já estava em surto há quinze dias e a família iria fazer uma semi-internação, mas acabou não dando tempo. Era dia do casamento de um sobrinho de Lúcia, na cidade vizinha, Jaboticabal, e todos estavam convidados. A família, que um dia antes havia decidido não ir, resolveu comparecer à cerimônia achando que seria bom para a idosa rever seus parentes. Naquele sábado, após o almoço, Lúcia teria ido com a irmã de Karina, Kelly (com quem já morava há mais de um ano), para a casa da ex-sogra no Parque Ribeirão Preto, zona norte da cidade interiorana, onde se arrumariam para o casamento. Durante os preparativos, por volta das 16 horas, Kelly teria pedido para a mãe ir até o portão verificar se os netos dela estavam brincando na calçada e ela foi, de bermuda azul marinho, camisa branca com detalhes em azul e chinelos. “Ela estava na crise, mas tudo que você pedia
‘pra’ ela fazer, ela fazia. E a gente fazia isso para ela se manter ocupada”, relata Karina. Infelizmente, o que era para ser uma simples saída ao quintal de casa se tornou uma saída inexplicável até o momento. Depois de 15 minutos sem o retor-
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no da mãe e sem qualquer resposta às suas chamadas, a filha estranhou, foi até o portão checar o que tinha acontecido, mas não a encontrou. A partir deste momento, começaram as dúvidas do que pode ter acontecido: se Lúcia já tinha a intenção de sair ou se ela não viu os netos na calçada e acabou saindo para procurá-los. Mesmo sem saber ao certo o que houve, a família iniciou, praticamente de imediato, as buscas pela idosa. “Minha irmã pegou o carro e começou a procurar
nos arredores do bairro e minha tia (que estava com elas) me ligou. Eu morava próximo, a cerca de sete quadras de distância e, imediatamente, peguei meu carro também e sai. Meu marido pegou a moto e foi ‘pra’ um lugar que a gente imaginou que ela poderia ir ‘pra’ avisar que ela estava sem documento, nem nada”, relembra Karina. A polícia foi acionada e prontamente informou que comunicaria o ocorrido por rádio para alertar os moradores do local, mas o boletim de ocorrência foi feito apenas no dia seguinte. Apesar de rodarem a cidade procurando por notícias com o apoio de amigos, tudo que eles tinham eram apenas suspeitas.
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No quinto dia de buscas, conseguiram confirmar uma pista dada por um dos moradores que informou tê-la visto ao lado da Fundação Casa, uma área rural onde fica a Fazenda Experimental de Ribeirão Preto. Porém, foi graças à ajuda de um cão-farejador do canil da cidade que a família pôde ter uma noção do caminho percorrido pela idosa de fato. O animal teria identificado rastros dela próximo ao Anel Viário, que também fica em uma área rural da região, mas depois não tiveram mais informações que levassem ao seu paradeiro. “A gente acredita que ela pode ter entrado numa
condução, em um automóvel, caminhão, sei lá... alguém ter dado uma carona ‘pra’ ela e ela ter saído, inclusive de Ribeirão”, relata Karina tentando adivinhar os últimos passos dados pela mãe. A família e amigos continuaram procurando Lúcia por toda a cidade e arredores com muitos panfletos a mão. Foram postagens e mais postagens nas redes sociais, aparecimento em programas de TV e rádios locais, além de fotos da desaparecida em todos os ônibus que circulam pelo município, chegando a usar também outdoors para ampliar a divulgação, uma busca incessante por respostas.
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Um ano após o desaparecimento, em março de 2014, os familiares de Lúcia realizaram ainda um ato em uma movimentada avenida de Ribeirão Preto para alertar a população sobre o caso. Munidos de faixas e cartazes, os parentes distribuíram panfletos com a foto da idosa e o telefone de contato da família para aqueles que passavam pelo local. “Foi uma forma da gente se lembrar que estava fa-
zendo um ano do desaparecimento da minha mãe. Para alertar as pessoas e mostrar que, se tivessem notícias, a gente ainda estava em busca dela, entendeu? Então foi mais nesse sentido. Uma exposição pública de que estava completando um ano. Neste dia, nós panfletamos, lembramos as pessoas e lógico... ‘pra’ de alguma forma chamar a atenção da polícia, principalmente da Polícia Civil que cuida da parte de investigação, que este caso continua em aberto”, comenta Karina. A divulgação foi tanta que o caso de dona Lúcia Aparecida foi parar em uma famosa série sobre casos de desaparecimento da produtora Iracema Rosa, em parceria com o canal de TV fechada A&E. “Então teve uma divulgação, mas realmente ela
pode estar em qualquer lugar, por isso que a gente
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não desiste e tem esperança de que ela possa dar notícia ou alguém que está com ela dê notícia”, diz Karina, tentando segurar a emoção. Passados sete anos desde o ocorrido, a família mantém uma página na internet para que o caso continue em aberto e não seja esquecido, fora o uso de outras páginas sobre pessoas desaparecidas e o apoio de organizações não governamentais (ONGs). O perfil tem, inclusive, uma simulação de como seria a aparência de dona Lúcia hoje, aos 65 anos de idade. “Tudo que você pensar foi feito. Até hoje a gente
continua a procura, mais por rede social, né? Aí alguma pista, alguma coisa assim que acontece, a gente checa, mas é bem raro acontecer”, explica a filha da idosa. Além disso, eles ainda continuam em contato com o investigador da Polícia Civil, responsável pelo caso na época. Segundo Karina, ele também acha o ocorrido inexplicável. “Não dá ‘pra’ entender como que uma senhora
desaparece na cidade ou até sai da cidade, sem ninguém ver ou falar: ‘Ah! Eu dei carona pra ela’, sabe? E nem tem confirmação de óbito, porque se houvesse um corpo pelo menos, eles ligariam ‘pra’ gente, né?
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Mas tudo que apareceu não era dela”, replica Karina, indignada com a falta de respostas. Conviver com esta situação não é fácil, por isso, inevitavelmente, o desaparecimento de Lúcia Aparecida afetou a todos, incluindo a filha de Karina e neta da idosa, que na época do fato tinha apenas quatro anos. Por não se lembrar tanto do que aconteceu, ela fez terapia por um ano e hoje consegue lidar com o ocorrido. Porém, outro neto de Lúcia e sobrinho de Karina foi ainda mais afetado e passa por acompanhamento psicológico desde então. No entanto, a família segue quebrando barreiras e com força para seguir adiante. O que eles buscam compartilhar com outras pessoas, além da história e fotos de Lúcia Aparecida, são informações importantes que podem ajudar a evitar novos casos como o dela. Um dos pontos que Karina procura enfatizar é a identificação, não importando a condição ou idade. Todos precisam se identificar e se precaver e ela acredita que este tenha sido o erro deles, porque na ocasião Lúcia não portava nada que pudesse identificá-la. “O desaparecimento é uma situação que a gente
não imagina passar. Você está aí e a qualquer mo-
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mento um parente seu pode ter um apagão, pode acontecer alguma coisa e desaparecer, mas jamais você se imaginou passar por isso”, enfatiza Karina, buscando alertar as pessoas. Ela afirma ainda que quando encontrarem dona Lúcia, esta será a primeira mudança a ser feita para que não voltem a perdê-la. Apesar de todas as dificuldades e de todas as dores e incertezas causadas ao longo dos anos, “esperança e fé” são as palavras que definem esta família. Aliás, ela aconselha quem está passando pelo mesmo problema, a não perder as esperanças apesar do passar dos anos. Afinal, o que importa para os familiares de Lúcia é terem informações sobre ela, independente de serem boas ou ruins. “Temos esperança sim de ter notícia dela, seja de
que ela faleceu e foi enterrada como indigente ( pode ter acontecido, não é um absurdo, porque isso acontece a todo instante) ou ter uma notícia de que ela foi acolhida em algum lugar”, diz Karina, emocionada ao se lembrar da mãe. “Vai fazer sete anos e meio já, mas a gente não
perde a esperança, confiamos que Deus está na fren-
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te, ele nos conforta e tem um propósito para que tudo isso aconteça. Enquanto não se fechar esse ciclo e a gente não ter alguma notícia, ‘pra’ mim ela ainda ‘tá’ viva e a gente vai em algum momento ter notícias dela”, continua a filha de Lúcia, com ar esperançoso.
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CAPÍTULO 3
MALES QUE VÊM PARA O BEM O que aconteceu com Benicio Mariano?
“Nós que vivemos isso, vivemos um luto todos os dias, é uma dor que não tem fim.”
Ivone Oliveira
N
a história do Brasil, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, era um cangaceiro tão bem-sucedido que se tornou o “Rei do Cangaço” no sé-
culo XX. Bandido para uns e justiceiro para outros, não há dúvidas de que ele é um dos maiores símbolos do nordeste brasileiro e, talvez, do país. Porém, esta figura histórica não é a única que possui acontecimentos marcantes para contar nos livros. Benicio Mariano de Oliveira, também conhecido como Lampião, não era cangaceiro, não morava no nordeste, mas é lembrado por todos na zona norte de São Paulo (onde vivia com a família) e tem muita história para ser compartilhada por Ivone, a sua “Maria Bonita”. “Meu marido Benício já vivia comigo há 34 anos,
se tivesse aí estaríamos fazendo 40. No dia 23 de ju-
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lho de 2014, ele saiu daqui ‘pra’ passar no banco, pagar algumas contas, ver um dinheiro que ia pegar e de lá ia trabalhar”, conta Ivone, lembrando da agenda de seu companheiro. Quando foi viver com Benício, ela já tinha uma filha e ele dois filhos, um menino e uma menina. Ao casar, tiveram mais dois rapazes. Os cinco foram criados juntos e a família era bem unida. Benício era fiscal, funcionário público da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do estado de São Paulo (CDHU) e já estava aposentado, mas mesmo assim continuava trabalhando por ser o único provedor da casa. “Na época nosso mundo caiu, né? Porque todos
éramos dependentes dele, eu não trabalhava, só fazia uns bicos, porque sempre buscamos ter mais disponibilidade para criar os filhos. Então ele que mantinha nossa família de tudo”, relembra sua mulher, com tristeza e saudade. Benício não costumava almoçar em casa, mas naquela ocasião ela tinha preparado seu prato preferido – um saboroso peixe. “Ele ficou de vir almoçar por volta de 13h / 13h30
e eu liguei ‘pra’ que ‘lembrasse’ de trazer comida para
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os cachorros. Chamou e ele não atendeu, caiu na caixa postal”, relata a esposa de Benício. “Como ele não via mensagem, eu não deixei. Re-
tornei no outro número e já não chamou mais, aí fiquei tentando chamar nos dois e nada. Dali ‘pra’ cá o celular dele nunca mais chamou. Como ele era muito descuidado, eu acreditei que o aparelho tivesse descarregado ou tivesse perdido, eu não me preocupei naquele dia”, continua. Ela chegou a ficar brava com o marido por ele não ir para casa almoçar, porém se conformou ao acreditar ter surgido algum problema em seu trabalho. Pensou que Lampião viesse para o jantar, mas a noite chegou e nenhuma notícia do idoso. Por ter o costume de sempre passar em um bar próximo de casa para jogar carteado e dominó, a esposa achou que Benicio estivesse no estabelecimento e continuou esperando sem tanta preocupação, porém as horas foram passando – 21 horas, 22 horas... e nada do fiscal aparecer. “Quando deu meia-noite fiquei muito preocupada,
mas não falei nada para os filhos, ‘pra’ ninguém. Tentei entrar em contato com ele de todas as formas, liguei para o dono do bar e não atenderam porque trocaram
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de número e eu não sabia”, relata Ivone ao ‘lembrar’ da noite em que não dormiu esperando o parceiro. De manhã cedo, ela foi até o comércio em que achava que o companheiro pudesse ter passado, mas infelizmente os proprietários do local, que eram amigos da família, não viram Benício durante todo o dia e também se preocuparam com a estranha situação. “Nessa hora, como ele tinha pressão alta eu pen-
sei que pudesse ter passado mal e estivesse no hospital, porque apesar do serviço dele ser perigoso eu nunca achei que alguém fosse lhe fazer alguma maldade”, afirma Ivone. No dia seguinte ao irem para o local de trabalho de Benício, a família se surpreendeu ao ver a rapidez com que a Polícia Civil chegou. O conjunto habitacional ficava localizado em uma zona rural do Jaçanã, bairro também da zona norte da capital paulista. Eles acreditam que alguém tenha ligado avisando os agentes de que algo havia acontecido por ali, o que foi confirmado pelos próprios policiais. A partir deste momento, várias hipóteses começaram a ser levantadas. “Primeiro, a polícia falou que ele estava lá dentro
do barracão amarrado, que tinham o espancado, uma
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hora falava que até a morte... nada. Não deixaram nós entrar. ‘Ah, senhora mais levaram o carro dele, então agora está mais fácil de localizá-lo. Seu marido sofreu foi um sequestro relâmpago’ , sabe? Mil e uns blá blá blá ali na hora ‘pra dá’ um nó no nosso cérebro”, relata em tom de revolta. “Eu oro por estas pessoas, porque não foi só uma.
Teve a história de um carro preto chegar com cinco ou seis e levar meu marido”, segue Ivone, ao recordar de umas das versões que ouviu. No canteiro de obras do conjunto habitacional, havia um segurança do lado de fora que ela chegou a estranhar o comportamento. Ainda no local, a família encontrou a moto de Benício toda desmontada e o carro foi localizado já lavado em um lava rápido próximo à delegacia da região. O boletim de ocorrência foi feito, mas rapidamente encaminhado ao Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e os familiares criticam a falta de investigação que os obrigaram a seguir as buscas por conta própria. “Falaram que tinha coisa de traficante, que era
vingança por meu esposo ter mexido com uma me-
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nina e não ficou nada provado, não houve investigação”, diz Ivone, indignada. Mesmo sem amparo das autoridades, os parentes seguiram procurando por Lampião. Foram muitas pistas que a esposa e os filhos buscavam sempre ir atrás onde quer que elas estivessem. “A gente ficava sabendo de que tal corpo foi en-
terrado em um cemitério clandestino e meus filhos foram em muitos sem eu saber, porque eles me poupavam”, relata. Fora estes locais, as buscas se seguiram por ruas, hospitais, abrigos, entre outros. Eles conseguiram ainda uma repercussão na mídia televisiva e digital, mas infelizmente essa divulgação chegou a prejudicar o caso por relatarem algo que não aconteceu, reforçando as teorias negativas que tentam manchar a imagem querida de Benício, mas que seus entes fazem questão de preservar. Segundo sua Maria Bonita, o marido era uma pessoa muito boa para todos, uma “seda”, mas também tinha uma personalidade forte que o fazia encarar quem ousasse bater de frente com ele. Na época do desaparecimento, faltava exatamente um mês
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para Benício completar 60 anos, mas o idoso mantinha um espírito jovem. “Eu falava que ele era mais moleque que os filhos.
Ele era todo tatuado, cheio de piercings nas orelhas, usava anéis em todos os dedos, era de moto clube... ‘Pra’ você ter uma ideia, meu marido tinha tanta energia que tirava um mês de férias e ia daqui para o Ceará de moto, passava o mês viajando. Gostava de dançar, de música... tinha um triciclo e um som que colocava no último”, relembra Ivone, com carinho. O ocorrido deixou sequelas irreversíveis para todos da família, mas principalmente para a esposa de Lampião que precisou recarregar as forças e enfrentar mais uma perda pouco tempo depois. Aos 93 anos, sua mãe descobriu que o genro estava desaparecido há quatro meses e acabou sofrendo um acidente vascular cerebral (AVC) e infarto. A idosa morava em Salvador, na Bahia, e Ivone foi para lá assim que soube do fato para acompanhá-la no hospital, ficando dia e noite, durante dois meses, até que sua mãe “descansou”. “Ela gostava muito dele e ele era ‘doidão’ assim,
mas era muito bom ‘pra’ ela, muito presente em sua vida. Benicio tinha um coração muito bom, gostava
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de ajudar todo mundo”, conta Ivone, emocionada ao lembrar de seus dois amores. “Foi uma época bem difícil ‘pra’ mim, depressão,
veio tudo... Eu faço tratamento até hoje para ajudar, se não você não aguenta, né? Nós que vivemos isso, vivemos um luto todos os dias, é uma dor que não tem fim. E não tem como você esquecer, porque não achou o corpo, não enterrou. Não é fácil, eu não desejo o que estamos passando para ninguém”, continua com muita tristeza no olhar. Hoje, seis anos após o sumiço misterioso de seu parceiro de décadas, ela continua o esperando. Além disso, sempre que tem a oportunidade ou alguma pista, busca verificar. Recentemente, inclusive, ela iria de carona com um casal para a cidade de Jarinu - São Paulo, onde visitaria abrigos, clínicas psiquiátricas e outros lugares. Infelizmente, a viagem não deu certo por seu celular estar com problemas e Ivone ter desencontrado das pessoas que a acompanhariam. Apesar da angústia e das dificuldades, a esposa dedicada, que antes era totalmente dependente do marido e que não sabia nem mexer em redes sociais, se tornou voluntária para fortalecer sua dor, trabalhando em gran-
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des organizações não governamentais (ONGs) como a Mães da Sé, de onde também recebeu muito apoio e só tem elogios. Ao sair à procura, ela carrega para onde vai a esperança de encontrar não só seu companheiro, mas muitas outras pessoas que fazem falta em seus lares. “A gente faz buscas nestes lugares e quando eu
vou, eu não vou só ‘pra’ mim, eu ando com uma pasta cheia de fotos de pessoas desaparecidas”, conta ela, mostrando os cartazes que costuma carregar consigo. Depois de ser surpreendida pela sobrinha de sua amiga, que criou um grupo com o intuito de ajudá-la, atualmente Ivone também passou a administrar outras comunidades sobre o tema. “Eu até falei que ela era louca, que eu não sei me-
xer com nada disso e ela falou que eu ia aprender. Hoje sou administradora de mais ou menos seis grupos”, conta a voluntária, rindo. De acordo com ela, a maioria das pessoas que estão nestes grupos ou que os abriram são pessoas que ou já passaram, estão passando ou têm alguém próximo sofrendo com este problema. “Antes de acontecer isso com meu marido, eu
não tinha consciência da imensidão de pessoas que
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sofrem como eu sofro. Eu lembro que apesar de não mexer muito em Facebook, eu via um caso ou outro e isso mexia comigo emocionalmente e eu compartilhava, mas eu não tinha noção de quantas crianças, pais de família, mulheres somem. É uma imensidão que desaparece, uma violência constante. É de doer na alma ver a dor destas famílias”, relata. “Eu gostaria de falar ‘pra’ essas pessoas que elas
não estão sozinhas, assim como eu também sei que não estou. E que elas nunca desistam e não tenham medo de buscar os seus desaparecidos. Façam buscas nas ruas, em abrigos, em hospitais...(que foi tudo que fizemos). A gente é mãe, é nosso irmão, nosso filho, né? Precisamos de uma resposta. Se ele se foi, a gente está vivo e a gente precisa dessa resposta. Se estiver vivo, ótimo! É impossível? É! Mas para Deus nada é impossível! Se estiver morto, ‘a gente’ vai dar um final também neste sofrimento, porque o que ‘a gente’ quer é resposta”, enfatiza Ivone. É através das buscas, do trabalho voluntário e do apoio que recebem, que a esposa, filhos, netos e todos que conviviam com Benicio Mariano levam a vida, sem deixar a esperança de encontrá-lo morrer.
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CAPÍTULO 4
O ÚLTIMO PASSEIO Por onde anda Sueli de Oliveira?
“Nunca subestime, porque o desaparecimento está muito dentro da realidade da sociedade!”
Jonis Martins
“É
muito louco! Quando você menos espera, quando você acha que está curado de tudo isto, porque a vida continua né? As coisas
continuam e ‘a gente’ está sempre em busca da nossa felicidade, ‘a medida’ do possível. Eu penso desta forma, eu quero sempre me conectar com o melhor que a vida pode me oferecer”, conta Jonis Gonçalves Martins,
filho único de Sueli de Oliveira que está desaparecida há mais de quatro anos. Ele é mais um dos milhares que sofrem com a perda inexplicável de um ente querido. Morador da Vila Maria, bairro bem popular da zona norte de São Paulo, viu sua vida mudar radicalmente após o sumiço repentino de sua mãe no dia 30 de janeiro de 2016, a qual era muito apegado. Na época em que sumiu, Sueli ti-
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nha 67 anos de idade, mas desde a juventude vinha enfrentando problemas psiquiátricos, que ocasionaram diversas internações no decorrer de sua existência. “Não fecharam o diagnóstico dela. Uns falaram
que era bipolaridade, outros falaram que era borderline, outros chegaram a dizer que ela estava começando a ter esquizofrenia, mas ninguém conseguiu fechar um diagnóstico ‘pra’ ela”, conta o filho de Sueli. Apesar das dificuldades, ele diz que a idosa era extremamente inteligente e costumava sempre sair sozinha, seja para fazer suas tarefas do dia a dia, seja para dar apenas um passeio pela região. “Minha mãe sempre saía de casa, por mais proble-
mas que ela tivesse era só ela que recebia o benefício dela no banco. Ela não queria que ninguém fosse com ela. E ela saía ‘pra’ ir até a esquina, ia até a avenida e voltava. Isso era o dia inteiro, todos os dias”, relata. Mas tudo mudou após Sueli voltar de uma viagem internacional que havia feito com o então namorado e precisar passar por uma complicada operação, onde retirou um cisto dos ovários, os ovários e as trompas. Segundo Jonis, depois desse episódio o comportamento de sua mãe ficou estranho e preocupante.
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“Foi o ponto onde virou a chave e ela começou a
desenvolver alguma outra patologia que não foi fechada. Ela falava que não ia comer, porque tinham tirado o estômago dela. E aí ficou preocupante, porque ela emagreceu muito, não queria comer nada, não queria tomar banho”, diz Jonis que chegou a sair de casa nesta fase, mas logo voltou após perceber a gravidade da situação. Fora tudo isso, outros problemas começaram a atingir a família. Após mais de 20 anos trabalhando em banco e mantendo uma boa carreira, Jonis acabou perdendo o emprego. Cuidando da avó materna, da mãe e ainda de seu tio que é especial, ele se viu obrigado a pensar em uma ocupação que não tomasse todo o seu tempo e lhe possibilitasse trabalhar e continuar cuidando de seus familiares. Foi então que começou a dar aulas de inglês em casas vizinhas à sua. Sueli, que não conseguia viver longe do filho, sempre o acompanhava ou ficava à sua espera. Mas a dependência da mãe começou a dificultar ainda mais as coisas. “A uma hora que eu dava de aula para o aluno na
casa, ela ficava uma hora na frente marchando, me
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esperando. [ porque ela não andava mais, ela marchava]”, lembra Jonis. A avó dele faleceu um ano antes do desaparecimento da filha e Sueli não ficava em casa com o irmão, porque não se dava bem com ele. Jonis conta ainda que ela chegou a dizer que desapareceria se ele a deixasse sozinha com seu tio, mas ele não levou a sério naquele momento por achar que esta era só mais uma das manipulações da idosa. “Eu falei ‘pra’ ela: ‘mãe, eu preciso sair daqui, você
fica com o tio? Porque eu preciso trabalhar!’. Então ela falou: ‘Se um dia você sair daqui de casa e me deixar sozinha com meu irmão, eu que vou desaparecer!’. Só que ela, a vida inteira, foi uma pessoa muito manipuladora de tudo, até por conta da patologia dela. Ela manipulava tudo, era uma pessoa inteligentíssima, então, na minha cabeça, isto era mais uma das manipulações dela, entende? Porque você nunca imagina que pode realmente acontecer”, explica. Mas infelizmente aconteceu, naquele sábado à tarde, final de janeiro, Sueli saiu de casa sem avisar para onde ia e o que parecia ser mais um de seus passeios curtos se tornou um dos mais longos da vida de
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seus parentes. Um dia que Jonis, por mais que tente, não consegue esquecer e lembra detalhadamente. “Eu acabei dormindo um pouco à tarde, tinha até
carnaval de rua na região. E daí, eu senti a presença dela no meu quarto, meio que me olhando bem de perto e depois... quando eu dei por mim aquela tarde, eu acordei já era quase à noite e eu perguntei ‘pro’ meu tio especial: Cadê minha mãe?’ e ele falou: ‘Ah! Ela saiu!’. Deu no meu coração de que tinha alguma coisa de errado, que não era uma saída normal até pelo horário. Não era usual ela sair aquele horário”, relembra Jonis. Sem pistas e em total desespero, ele acabou se esquecendo de muitos detalhes e lugares por onde a mãe pudesse ter passado. Recebeu ajuda de uma vizinha que lhe refrescou a memória e lhe colocou no carro para iniciarem as buscas pelo bairro. E então, ele recorda de uma mania preocupante que sua mãe tinha antes de desaparecer. “Ela ia para a ponte da Vila Maria e falava que
queria pular, mas ela nunca teve coragem, ela sempre foi contra suicídio”, afirma. Mesmo assim, eles foram para a ponte e passaram por outros locais da região, mas não a encontra-
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ram. Deste dia, a única coisa que Jonis se lembra é de ligar para o seu pai, que havia se separado de sua mãe quando ele tinha cerca de 17 a 18 anos de idade, surtando e ele tentar acalmá-lo com a hipótese de que Sueli estivesse na casa de alguma amiga. No dia seguinte, ele foi fazer o boletim de ocorrência, mas não teve tanto apoio das autoridades. “Eles fizeram o que tinham que fazer, fizeram o
boletim de ocorrência e ponto. Não me falaram absolutamente nada e não me indicaram qualquer caminho a tomar”, diz Jonis, tentando conter sua indignação. Independentemente de não receber o amparo que queria e se sentir sozinho nesta jornada, ele também fez o que tinha que fazer. Registrou o boletim dentro do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), fez postagens em redes sociais e conheceu o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID) do Ministério Público do estado de São Paulo, através da indicação de um vizinho que era promotor de justiça, além de contatar investigadores e organizações não governamentais (ONGs) que atuam com casos de desaparecimento. A partir dali, começou a receber muitas pistas sobre o paradeiro de Dona
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Sueli, mas ele ainda enfrentava uma situação financeira complicada que o impossibilitava de segui-las. Apesar disso, Jonis foi para diferentes clínicas que conhecia onde a idosa já tinha sido internada, na cidade de São Paulo e em outras regiões como Mairiporã e Itapecerica da Serra. Passou por um Instituto Médico Legal (IML), onde recebeu uma lista com números não atualizados de todos os hospitais possíveis de se encontrar, mas a usou para chegar até eles. “Eu peguei aquela lista como base e eu procurei
pela internet o real telefone e o endereço ‘pra’ poder ir e foi essa caminhada que eu fiz”, conta ele. À medida que postava sobre sua mãe, ele recebia dicas das pessoas e descobria cada vez mais a respeito deste mundo solitário dos que sofrem com o fenômeno do desaparecimento, afinal era só com esses internautas e com alguns vizinhos que Jonis podia contar. Porém, chegou um determinado momento no qual ele parou de postar e procurar por tudo aquilo que recebia, pois isso estava lhe fazendo mal. “Era assim: ‘Vem aqui agora que a tua mãe está
aqui’ , do outro lado da cidade, por exemplo. E aí eu achava que era maldade, depois eu descobria que
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não, que as pessoas realmente estavam sensibilizadas e elas queriam ajudar”, explica. O que o fez mudar de opinião foi um fato que aconteceu durante as buscas incansáveis por sua mãe no Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão, no centro da capital paulista. “Eu estava no centro da cidade, dentro de um
Uber (aplicativo de transporte) e aí eu falei ‘pro’ cara parar, eu vi... Era minha mãe perfeita andando de costas e ela não andava mais, ela marchava. E o jeitinho magro, ela estava com 40 kg... Eu saí correndo atrás, já estava chorando, me dando um negócio e quando eu cheguei perto e parei de frente com a pessoa, era um homem com o cabelo igualzinho o da minha mãe atrás”, conta com olhar entristecido “E aí eu entendi que fotos publicadas em redes
sociais cada um tem uma visão. Eu que sou filho e conheceria minha mãe com a ponta da unha me confundi. Imagina essas pessoas que só veem pela foto”, continua. Se por um lado Jonis ficou eufórico ao pensar que a mãe estivesse perto dele naquele momento e triste
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ao perceber que não era ela, por outro ele procurava e ainda procura pensar mais com a razão. “Eu nem tinha expectativa de que ela estivesse
na rua, porque se ela ficasse três dias sem tomar remédio, ela tinha choque epiléptico. Então ela não vive sem os medicamentos e a possibilidade dela estar na rua é zero. Segundo que ela se cansava muito rápido e você tem que ter uma certa força ‘pra’ poder viver na rua. Terceiro que ela ia pegar o remédio em algum posto e aí ia mostrar ‘pra’ polícia que ‘Sueli pegou o remédio em X posto’”, diz ele, com firmeza. Jonis conta ainda que até hoje há pistas falsas e confusões envolvendo as redes sociais, não só com o caso de sua mãe, mas com outros desaparecimentos. “Tem uma foto que está circulando por aí e as
pessoas estão me mandando: ‘Ah! Eu acho que é a sua mãe!’ e não tem absolutamente nada a ver com a minha mãe. Fiquei sabendo de caso de emboscada com outro familiar de desaparecido. Gente que quer ganhar dinheiro em cima: ‘Ah! Eu sei onde ela está, mas a gente precisa de X dinheiro’ . Então tem muita coisa nessa caminhada”, conclui.
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Entretanto, desistir de ter uma resposta não é a opção para ele, por isso o filho de Sueli decidiu deixar nas mãos de Deus e ser receptivo, já que a qualquer momento essa resposta pode chegar. “Se ela partiu desta para melhor, tem que ter
corpo e até agora não tem corpo. Se ela estiver em algum hospital... tem até um site que se você colocar no Google: ‘Pessoas não identificadas em hospitais’ aparece uma lista de pessoas que estão nos hospitais e estão sem identificação e que a polícia às vezes foi nesses locais e conforme as assistentes sociais falam: ‘tiram as digitais e não sai’. Como não é um RG novo, às vezes não apresenta, não dá ‘pra’ identificar a pessoa e aí fica lá. Eu fico pensando”, relata com preocupação. Certa época, ao ir ver o tio em uma casa de idosos filantrópica, no interior de São Paulo, ficou sabendo de uma coisa que o deixou ainda mais pensativo e preocupado. Foi informado que o asilo tirava os idosos abandonados das ruas e caso não conseguissem identificar os familiares e o próprio idoso não soubesse informar seu nome, entravam com uma ação para darem um nome à pessoa, e assim, darem entrada no
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Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para que ela tivesse direito ao seu benefício e, consequentemente, o lugar o recebesse. “Isso me preocupou muito! Tem um lado que é
positivo e tem um lado que muitos centros de tratamento podem usar com má fé, entendeu?”, explica ele. Viver imerso em seus pensamentos, com dúvidas e incertezas não é fácil, mas Jonis resolveu deixar nas mãos de Deus e ser receptivo, porque desistir de ter uma resposta não é a opção, já que a qualquer momento ela pode vir. Após anos em uma depressão que não o deixava fazer nada e que havia praticamente congelado o seu cérebro, hoje ele se sente “curado” graças às psicólogas com quem se consulta, cursos que chegou a fazer com uma coach e técnicas como a EFT (Emotional Freedom Techniques ou Técnicas de Libertação Emocional), que buscam auxiliar no controle de nossas emoções. “Eu fico muito em busca de entender e de parar
de me culpar pelo momento de não ter ‘percebido ela’ sair, poder ter feito alguma coisa diferente ou ter ‘colocado ela’ em um lugar, né? E aí ela não teria desaparecido”, explica.
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EM BUSCA DE RESPOSTAS Relatos de desaparecimento de idosos
Apesar do aparente controle emocional que desenvolveu com o passar do tempo, há momentos e palavras que tocam Jonis de uma forma que não tem como ele não se emocionar. Foi o que aconteceu durante uma entrevista para a rede Record, que ocorreu recentemente e com a ajuda da ONG Mães em Luta, outra organização bem conhecida e engajada em ajudar familiares que buscam por parentes desaparecidos na cidade de São Paulo. “A entrevista inteira eu não me sensibilizei, por-
que eu aprendi a me proteger contra essa história e entender que isso foi algo que aconteceu, que tinha que acontecer e que não depende mais nada de mim ‘pra’ se resolver. E de repente, eu toco em um objeto e em um momento que não tem absolutamente nada a ver, e ela vem com tudo dentro do meu coração e eu acabo me emocionando”, recorda Jonis. “Então a gente acaba se emocionando, acaba co-
meçando a fazer aquelas perguntas na nossa cabeça: ‘Onde que ela está?’, ‘Morreu ou não morreu?’, ‘Está em tal lugar?’ ...começa a ‘vim’ essa enxurrada de perguntas e aí a gente começa a passar mal. Eu tento sempre deixar como ser humano que essa enxurrada passe até
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me permitir chorar, mas que isso não se perpetua porque eu tenho minha vida a seguir”, conclui. Esta entrevista, inclusive, foi uma das poucas que ele conseguiu desde o desaparecimento de sua mãe. Até então, o único lugar que havia aberto as portas para contar o ocorrido foi o Programa da Eliana, do canal de TV aberta, SBT. “A maioria era assim: ‘Ah! eu vou ver’ e nunca me
dava um retorno e aí eu cheguei ‘na’ conclusão de que a minha história não era tão interessante ‘pra’ mídia sensacionalista”, comenta. Vindo de uma família pequena e sem nenhuma pista concreta ou novidade sobre o caso da mãe, atualmente Jonis segue cuidando de seu tio especial e de sua mente. O desaparecimento que antes era inacreditável para ele, hoje é muito fora da nossa realidade, mas muito presente em sua vida. “Um dia eu estava sentado no sofá, falando com
a minha mãe sobre o caso da menina Belfort e que ‘Como pode uma pessoa desaparecer? Não é possível!’ E a gente começa com os nossos pré-julgamentos. Então ‘a gente’ tem tanta ideia e não tem nada! São julgamentos que atrapalham! E aí ...de repente
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aconteceu comigo!”, conta. Por esta razão, uma das mensagens que Jonis busca destacar na tentativa de alertar outras pessoas, que assim como ele, talvez nem estejam imaginando passar por este grave problema um dia é: “Nunca su-
bestime, porque o desaparecimento está muito dentro da realidade da sociedade!”
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CAPÍTULO 5
O ESQUADRÃO DE APARECIDA Que caminho tomou o Seu Neco?
“Deus foi nossa fonte de energia, fé e esperança!”
Patricia Moura Smith
A
parecida ou “Aparecida do Norte”, como ficou popularmente conhecida, é uma cidade no interior do estado de São Paulo, que carrega em
todas as suas formas: uma história única, belos pontos turísticos e, claro, grande religiosidade já marcada em seu nome. Todos os anos, o município atrai milhões de visitantes, sejam eles fiéis e devotos de Nossa Senho-
ra Aparecida sejam apenas admiradores de uma bela paisagem e ambiente, e é neste grupo que se encaixa Manoel Francisco de Moura e seus familiares. Domingo, 08 de abril de 2018 - Sem avisar ninguém, Neco, como costuma ser chamado, embarca com a atual mulher e as duas filhas dela numa excursão à cidade interiorana. O objetivo da viagem é que as mulheres comprem coisas no local para revender na capital paulista, onde moram. Porém, nem tudo sai
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conforme o planejado. Pouco tempo depois de chegar ao destino, o idoso desaparece misteriosamente. “Fomos avisados do desaparecimento doze ho-
ras depois, por volta das dez ou onze horas da noite e por outras pessoas de excursão”, conta Patricia Moura Smith, neta do desaparecido, em tom de revolta. As enteadas de Neco contaram aos seus familiares que ele teria ido ao banheiro ou praça de alimentação e elas não conseguiram encontrá-lo. Desesperados, os parentes não esperam o amanhecer e rapidamente se reúnem em cerca de doze pessoas para ir atrás de respostas na Aparecida, à uma hora da manhã de segunda-feira (9), formando praticamente um “Esquadrão”. Infelizmente, ao chegarem no local, eles se deparam com o primeiro obstáculo que precisam enfrentar, o tempo incerto e chuvoso que atingia a região naquele momento. “A cidade é muito fria à noite e quente de manhã.
Segunda à noite choveu muito, além do frio”, relata Patricia. A chuva forte acabou desesperando o cunhado dela, que gritou enquanto os pingos de água desmanchavam a foto de seu Neco, estampada em sua cami-
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seta. Mas a família precisou encarar ainda outro fator não favorável às suas buscas. “Não sabíamos, mas era feriado e a cidade estava
em festa e por isso triplicou o número de turistas”, relembra a neta do idoso. Entretanto, isto não os desanimou! Patricia avistou policiais em uma viatura na rodoviária da cidade e a primeira coisa que fez foi ir até eles e os mostrar a foto de seu avô, contando o que tinha acontecido. Porém, ela foi informada pelos agentes de que precisava esperar as 24 horas para notificar o desaparecimento. Apesar de todas as dificuldades, a família Moura continuou no local à procura de seu ente querido, uma busca incansável que não parava nem com o cair da noite. “Chegou a madrugada fria e nós procurando. Eu
sem dinheiro, só com a roupa do corpo, um agasalho fino, cartão e documentos”, diz Patricia, lembrando dos problemas que enfrentaram na cidade. Durante as buscas, eles procuram em Institutos Médico Legais (IMLs), albergues, asilos, na Santa Casa da cidade e até em cemitérios. Imprimem fotos e saem colocando-as em postes, muros, pontos de ônibus e por todos os locais possíveis. Fora tudo isso,
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eles também visitam rádios e emissoras locais, como a Canção Nova, chegam a mandar mensagens para jornalistas de grandes veículos e fazer postagens em redes sociais e diversos grupos. A angústia de não terem respostas é tanta que correm riscos ao falar com traficantes em favelas da região. “Teve um pessoal que veio embora e ficou seis
ou sete pessoas. Outros membros da família ficaram ajudando por aqui [capital paulista] e ainda tivemos pistas falsas”, conta Patricia. Com pouco recurso e muitas pessoas, eles precisaram improvisar. “Não tínhamos onde dormir, dormimos dentro de
dois carros (um carro do lado do outro) e o meu tio e meu cunhado no chão, no paredão feito pelos veículos. Um primo também dormiu no porta-malas de um deles”, lembra a neta de Manoel. As horas passam, mas as buscas seguem ininterruptas. Toda essa rotina maluca e inesperada afetou não só Patricia, que na época estava amamentando, mas também outros integrantes da família. “Paramos para comer em uma churrascaria, mas
eu não conseguia comer, começou a me dar febre.
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Eu comecei até a ligar ‘pra’ mim mesma. Quase fui atropelada porque passávamos por uma fila e eu pensei que tivesse o visto e saí correndo. Uma tia viu uma foto do meu avô no poste que meus primos colocaram antes e começou a gritar: ‘Meu pai! meu pai’”, relata a neta de Neco, que mesmo com todos os problemas, não deixou de procurar por ele nenhum segundo sequer. Já é terça-feira, dia 10 de abril, e faz quase três dias que os Moura iniciaram as buscas por Manoel. Francisco. Sem perder as esperanças, os familiares dele se dirigem até um posto de gasolina em mais uma tentativa de obter pistas... e conseguem. “Chegamos ‘em’ um posto com a foto dele e per-
guntamos se alguém tinha o visto. O frentista contou que ele passou por lá, falou que morava em Cotia e ele disse que era para o meu avô seguir pela Dutra”, conta Patricia. Animados com finalmente uma informação confiável, eles saem do local e seguem o caminho. Ao que tudo indicava, o Esquadrão de Aparecida estava perto de encontrar todas as respostas para as perguntas que os rondavam há dias.
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“Fomos em outro posto e eu fui encher minhas
garrafinhas de água. Poucos metros depois vimos a rodoviária, paramos o carro e gritamos”, relembra. Os gritos agora eram de felicidade, pois eles acabaram de encontrar Seu Neco no local. “Encontramos ‘ele’ por volta das 14 horas em
uma cidade vizinha, chamada Roseira, que é praticamente uma avenida (comércio de um lado e casas do outro). Ele estava debilitado, desnutrido, desidratado. Demorou para nos reconhecer. Eu me ajoelhei aos pés dele”, lembra a neta do desaparecido, emocionada. A emoção tomou conta de toda a família Moura, que depois de tanto sofrimento, estava completa novamente. A comemoração naquela tarde foi tão grande que os vizinhos chamaram a polícia, pensando que estavam assaltando a rodoviária. A partir daquele momento, eles conseguiram responder a todas as questões e montar o quebra-cabeça. “Meu avô sempre foi muito ativo, nunca tomou
nenhum remédio, então ele saiu do Santuário e foi andando pela cidade, sem documento”, conclui a neta do idoso.
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Após falar com o frentista, Neco teria seguido a direção indicada por ele e pegou a Dutra - sentido São Paulo, mas acabou andando muito e chegando à cidade de Roseira, onde foi localizado pelos familiares. Ele ainda tentou pegar um ônibus, o que não conseguiu por estar sem documentos. Ainda segundo Patrícia, a polícia chegou a pará-lo enquanto caminhava e perguntaram se ele estava perdido, mas como ele não portava nenhuma documentação, ficou com medo e disse aos agentes que não. “Cuidamos dele, porque estava com o pé machu-
cado de tanto andar. A primeira coisa que ele pediu foi água”, recorda Patricia, ainda com olhar emocionado. A família também acabou descobrindo que o ônibus em que Seu Neco, a esposa e as enteadas dele viajavam era clandestino, por isso após o seu desaparecimento, a empresa voltou para a capital paulista e não se preocupou com o caso. A passagem ainda continha erros: não estava no nome do idoso e sim, de um sobrinho da mulher dele. Nestes dias em que passou longe da família, Manoel perdeu os sapatos, a blusa e o chapéu que sempre usava, mas recebeu ajuda de um morador de rua
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que lhe deu um cobertor para encarar o frio da noite assim como seus familiares puderam contar com apoio de pessoas da região, em meio ao caos que enfrentavam durante as buscas por ele. “Uma moça da papelaria doou 50 cópias para nós
e o rapaz de uma loja nos deu água. Eu ainda consegui uma autorização do padre para tomar banho no Santuário, porque precisava. Estava amamentando e com o peito cheio de leite”, conta Patricia, pensando nos momentos que eles passaram. Outro fato que ela recorda com alívio por não ser mais necessário são as entrevistas que tinham conseguido após muitas tentativas de contato. “Estávamos prestes a dar entrevista para uma
emissora local. Marquei entrevista com dois repórteres à tarde, mas encontramos ‘ele’ antes”, comenta. Ao voltarem para a capital de São Paulo, ela foi até a delegacia de Cotia para avisar que encontraram Seu Neco. Aquele ambiente a fez se lembrar de comentários não tão bons que ouviu nos momentos de desespero vividos no interior do estado. Palavras duras e vindas dos que são pagos para proteger as pessoas e ajudá-las.
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“A polícia tem um trabalho muito lento e burocrá-
tico. O que me magoou foi ouvir de um policial: ‘Ai! Talvez vocês nem o encontrei mais’”, diz ela com pesar. Este trabalho lento das autoridades, descrito por Patrícia, prejudica demais estes casos que, lamentavelmente, são frequentes em Aparecida e em muitas outras cidades, estados e países. Para compreender o tamanho do problema, ela conta que durante as buscas, eles passaram por uma trilha de trem, perto do corpo de uma senhora que também havia se perdido, mas naquele momento, pensaram que o mau cheiro era de um animal morto. Além disso, segundo a neta de Manoel, o boletim de ocorrência é feito após as 24 horas, o que não deveria, e é preciso reforçar o policiamento e colocar câmeras nos locais turísticos, pois estão em falta. Sabendo que seu avô não foi o primeiro e nem será o último a desaparecer, ela tenta, pelo menos, conscientizar a população sobre este fenômeno tão preocupante e, certamente, invisível para muitas pessoas. “Tenham cuidado com seus familiares idosos
dentro do Santuário de Aparecida, porque a maioria são crianças e idosos que desaparecem. Procure usar
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crachás, pulseiras, porque apesar de lá ser uma cidade turística, tratam isso com muita calma”, alerta. Ela também aconselha aqueles que estão passando pelo que ela e seus familiares passaram. “Que a família não desista. O que nos moveu foi o
amor por ele, porque bateu o cansaço, pensamos em desistir”, afirma Patricia. “Deus foi nossa fonte de energia, fé e esperança”, conclui. Hoje, mais de dois anos depois do ocorrido, a família continua unida e esta teria sido a única coisa boa, fruto dos momentos de terror que viveram juntos. Patricia, inclusive, faz questão de ressaltar a importância de Seu Neco para todos. “Meu avô trabalhou muito vendendo farinha nas
feiras de Pernambuco. A família é grande! São 12 filhos vivos, 4 bisnetos e mais de 30 netos. Ele é muito ativo, risonho, brincalhão”, conta sorrindo ao lado de sua irmã. Neco, que está com 86 anos atualmente, mora em Campo Limpo, na zona sul da capital paulista e continua casado com a mesma mulher. Entretanto, a distância e os problemas passados não impedem Pa-
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tricia e outros parentes de vê-lo com frequência, pois tentam manter a relação com a família da esposa de Neco a mais amigável possível. Referente à Aparecida, desde a ocasião, nem ele e nem Patricia visitaram mais a cidade: o idoso por ter sido proibido pela família de viajar com a esposa e as enteadas outra vez e sua neta por ter ficado com um trauma. Para prevenir um novo desaparecimento, Neco agora anda com uma pulseira que contém os contatos de seus parentes, não importa para onde vá.
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CONCLUSÃO
AINDA NÃO ENCONTRAMOS AS RESPOSTAS
A
o compreender o fenômeno do desaparecimento de pessoas como multicausal (que possui muitas causas) e reconhecer que o estado de
São Paulo é um dos locais onde há mais casos deste tipo, com uma média anual de 24 mil desaparecidos, por que não olhamos para o problema com outros olhos? Afinal, quantos de nós paramos para observar ou compartilhar uma foto de pessoa desaparecida? Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, mas não nestes casos. Por isso, este livro buscou ir mais fundo e mostrar a você, leitor, quem são essas pessoas nas fotografias que vemos circulando pelas redes sociais e fora delas (em postes, muros, pontos de ônibus, estações de trem e etc), como elas viviam antes de desaparecer e quem elas deixaram para trás. Foi dando voz aos familiares destes desaparecidos, que pudemos mostrar o outro lado de um problema que extrapola os números e estatísticas, é muito mais doloroso do que se pode imaginar e mais presente do
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que conseguimos enxergar. Afinal, as pessoas desaparecidas são seres humanos que tinham uma rotina como todos nós e que, por algum motivo, acabou sendo “quebrada”, deixando apenas pedaços espalhados sem qualquer explicação. Acompanhamos cinco casos dentro de milhares de ocorrências, selecionados após mais de três meses de entrevistas com dezoito famílias. Cinco histórias ocorridas em diferentes regiões do estado paulista, mas que se conectam de alguma maneira e que nos fazem entender que o desaparecimento pode acontecer com qualquer um, independente de faixa etária, de condição social, financeira ou de saúde, comprovando que o problema acaba paralisando a vida não só do próprio indivíduo, mas de todos que conviviam com ele (direta ou indiretamente), o que torna a fala sobre o tema algo extremamente necessário, mas que precisa de abertura para ser ouvida. Seja na televisão, na internet ou em qualquer outra mídia de massa, estamos acostumados a ver os relatos de forma “incompleta” ou de uma maneira sensacionalista, pois estes veículos passam aquilo que os trará audiência e retorno financeiro. Decorrente disto, muitas
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vezes os casos envolvendo idosos não são retratados, priorizando o público infantil e jovem. Por esta razão, realizou-se uma pesquisa e análise, da qual, optamos por seguir outro caminho neste livro-reportagem, onde se buscou dar protagonismo às pessoas da terceira idade através de uma narrativa mais aprofundada, evitando ainda sensacionalizar os fatos, com o intuito de desacostumar estes leitores e telespectadores da grande mídia, fazendo com que seus olhares em torno do assunto se tornem diferentes - com um ar menos julgador e mais empático e consciente. Foram meses procurando por histórias sem se preocupar se eram envolventes ou não, pois cada uma possui a sua relevância e todas são únicas. Foram horas de entrevistas em que o olhar destas pessoas mostram o quanto elas estão sofrendo e precisando do apoio que não recebem ou que é mínimo perto de suas necessidades. Cada palavra e cada frase dita por elas demonstram a indignação com a falta de amparo das autoridades que as obrigaram a seguir sozinhas por um caminho incerto. Vale ressaltar que o objetivo deste trabalho foi dar visibilidade aos casos em si e não às investigações ou à polícia. Contudo, seria im-
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possível não abordar isto se tratando de um tema que nos leva a muitos questionamentos. Por este motivo, os órgãos competentes foram contatados em busca de dados precisos, além é claro de conversar com especialistas em saúde mental para que pudéssemos ir mais fundo no problema destas famílias. Levando estes fatores em consideração, observa-se que este livro-reportagem cumpriu um dos mandamentos clássicos do jornalismo: o de ouvir todos os lados. Por fim, obtivemos bons resultados e boas histórias. Relatos que nos intrigam, nos indignam, nos emocionam e que nos fazem perceber o quanto é importante cuidarmos uns dos outros. José Maria dos Santos, de 81 anos. Era lúcido e ativo, apesar da idade que tinha acabado de completar, mas por algum motivo desconhecido por todos, saiu do ônibus de sua excursão para Iguape, no litoral paulista e há oito anos os familiares aguardam por seu retorno, algo que por diversas vezes chegam a pensar ser improvável, já que atualmente ele estaria com 89 anos de idade. Uma história semelhante à de Manoel Francisco de Moura, o Seu Neco, de 86 anos, que também era bem ativo e sem problemas prévios. Entretanto, sumiu
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durante viagem à Aparecida, no interior do estado, em 2018, sendo encontrado em uma cidade vizinha após quase três dias de buscas incansáveis feitas por seus parentes na região e pela internet. Diferente dos dois idosos, Lúcia Aparecida Ricardo tinha apenas 57 anos quando desapareceu ao sair no portão da casa de sua ex-sogra, onde se preparava para o casamento de um sobrinho. Ela era uma mulher que vinha lutando há tempos contra problemas psicológicos, prestes inclusive, a ser internada novamente. Hoje, sete anos depois, seu desaparecimento repentino continua uma incógnita, mas seus parentes não desistem de encontrá-la e fazem de tudo para manter o caso em aberto. O mesmo acontece com a história de Sueli de Oliveira, de 67 anos, que está desaparecida há mais de quatro, após uma saída inexplicável de casa durante a noite. A idosa também enfrentava problemas mentais desde seus 18 anos e costumava passear pela região, mas sempre voltava. Porém, naquele dia que seu filho jamais esqueceu, ela, infelizmente, saiu para dar o seu último passeio. Deste livro-reportagem, talvez a história de Benicio Mariano de Oliveira, conhecido como Lampião,
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seja a mais questionável, por suas diversas versões levantadas pelas autoridades e mídia. Versões que chegaram a indignar a família por colocar a imagem de Benício à prova. Apesar de tudo, seis anos depois, sua esposa transformou a dor em solidariedade, ajudando outras famílias, que assim como a dela, estão incompletas com a ausência de um ente querido. Vemos nesta obra cinco rostos e personalidades distintas, mas que deixaram algo em comum para suas famílias: as perguntas, para as quais, não importa se as respostas serão positivas ou negativas, o que importa de verdade é sua obtenção. Para os familiares, este livro foi como um microfone que pode lhes dar voz e o espaço que precisavam para que se abrissem e compartilhassem aquilo que os traz uma mistura de sentimentos: a ausência de uma pessoa amada. Porém, ao mesmo tempo, por mais que haja um componente emocional envolvido na abordagem do tema, o que se buscou aqui foi contribuir para conscientizar a população sobre este grave problema social, praticamente invisível para muitos.
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