Janaina Melo é graduanda em Jornalismo, pela Universidade Cruzeiro do Sul, mora na cidade de São Paulo e nas horas vagas, além de escrever, gosta de desenhar, ler, assistir a filmes, séries e brincar com sua gata de estimação.
Seja no impresso ou no digital, sempre existe uma história por trás dos livros. Uma que não se encontra nas páginas, nem nas entrelinhas de cada frase. Uma que envolve suor e trabalho duro, mas, principalmente, amor. Ser escritor em um país que não valoriza muito a leitura é um desafio, ainda mais se for de forma independente. Porém, é na força das palavras que eles vencem suas batalhas internas e dificuldades diante de um mercado editorial que só publica livros de quem já é famoso. Conheça a história de autores que lutaram para publicar seus livros sem o auxílio de uma editora e buscam contribuir para que a cultura do livro seja disseminada no Brasil.
Janaina de Melo
Janai na Mel o
Autopublicação:
Seja no amor ou na dor, eles fize-
ram uma escolha: jamais abandonar os livros. Porém, havia divergências no formato de publicação. Enquanto uns preferiam publicar livro impresso, outros investiam em e-book. Enquanto Paulo César Marciano abriu uma editora para escritores iniciantes, Elizandra Souza fundou um movimento literário para mulher res negras e Rubê Limeira batia de porta em porta para vender seus livros, Ailton Sena e Andreas Chamorro investiam no ambiente digital. Não importavam os meios, o importante era fazer com que o conteúdo chegasse a determinado público. No entanto, todos eles têm suas estruturas abaladas quando um grande mal chega ao mundo e afetam o universo literário no qual eles estavam tão envolvidos. E de repente, Paulo César para de publicar os livros de autores iniciantes e dá um tempo na editora, Elizandra e Rubê precisam aprender a lidar com as tecnologias digitais, enquanto Ailton lida com a frustração de ter um evento literário cancelado, no qual ele se lançaria como autor e Andreas Chamorro transforma o caos da cidade de São Paulo em literatura.
J a n a in a M e lo
Janaina de Melo
Autopublicação:
Ficha catalográfica Título: Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história Autora: Janaina de Melo Araújo Assunto: Literatura digital e periférica Edição: 01 Local: São Paulo Número de Páginas: 74 Formato: Impresso
Para todos aqueles que, assim como eu, acreditam na literatura brasileira.
Agradecimentos
Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer a Deus por sua infinita bondade para comigo em me permitir chegar até onde cheguei, eu o agradeço por me fortalecer e por enxugar cada lágrima que derramei durante o processo árduo da construção deste livro, pois sem Deus eu não teria chegado tão longe. Em segundo lugar, quero agradecer à minha mãe, Lauziene de Melo, por compreender a importância deste projeto para mim. Agradeço também ao meu noivo, Jhonata Alves, por ter me emprestado o notebook para que eu pudesse produzir o livro-reportagem e também por me apoiar e compreender as minhas ausências. Agradeço aos escritores que se empenharam para que esta obra fosse possível: Rubenildo Limeira, por dispor um tempo para que eu pudesse entrevistá-lo, mesmo a vida sendo tão corrida; à Elizandra Souza, por aceitar tão abertamente realizar a entrevista; ao Ailton Sena, por contribuir com histórias tão interessantes e por ter sido tão receptivo comigo; ao Andreas Chamorro, por sua sensibilidade ao narrar sua história e pela sua evidente paixão por literatura. Agradeço também ao empreendedor e artista Paulo César Marciano, por ter sido tão paciente e generoso comigo em aceitar me dar entrevista duas vezes. Agradeço em especial uma professora que me deu aula de Língua Portuguesa no ensino fundamental e médio, Jane Alves, por sempre acreditar em mim e por reconhecer que eu daria uma boa jornalista, mesmo que, naquela época, eu ainda nem soubesse qual carreira seguir, também te agradeço por despertar em mim a paixão por literatura, ao longo de suas aulas. Pode-se dizer que, como uma verdadeira educadora, você cumpriu sua missão.
Apresentação Declaramos que, em vista da pandemia do novo coronavírus, resolvemos fazer uma introdução sobre como os escritores foram afetados pela doença. Devido às condições de isolamento social como medida de proteção contra a covid-19, todas as entrevistas foram realizadas por meios virtuais, a fim de preservar a saúde de todos os envolvidos. Este livro tem a finalidade de abordar questões relacionadas à literatura brasileira atual na cidade São Paulo, as novas formas de fazer livro, de acordo com as novas tecnologias, as dificuldades que muitos escritores brasileiros enfrentam tanto na hora de escrever quanto durante o processo editorial e de publicação, além de colocar em pauta assuntos como o mercado do livro impresso, dos e-books e o que tem sido feito para que esses escritores sejam conhecidos diante da população. Por isso, no capítulo um, ressaltamos a importância do livro impresso e contamos histórias dos escritores que buscaram meios de publicação impressa sem ajuda de editoras tradicionais. Já no capítulo dois, abordaremos algumas políticas públicas que foram criadas para o fomento e valorização não só de obras nacionais e disseminação da cultura do livro, mas também de quaisquer produtos culturais e artísticos que visam gerar entretenimento e aprendizado para a sociedade brasileira e, mais especificamente, paulistana. No capítulo três, acompanhamos a história de escritores que buscam apoio no ambiente digital para a publicação de suas obras e as plataformas e meios de financiamento que surgiram como incentivo aos autores para não desistirem de publicar seus livros. . Boa leitura!
Sumário
Introdução...............................................................11 Um inimigo invisível......................................................11 Do caos a uma misteriosa paz.................................................................12
Capítulo um.............................................................21
Por amor ao impresso.....................................................21
Uma doença inesperada.............................................................................23 A história por trás de “Melissa”...............................................................27 A origem da Editora e Gráfica de Heliópolis........................................29 Imagine como Rubê...................................................................................34 A coragem de ser quem realmente é.......................................................36 A arte da literatura negra feminina..........................................................40 A experiência com séria Cadernos Negros............................................42 O surgimento do coletivo Mjiba..............................................................43
Capítulo dois...........................................................45 Um apoio às artes literárias...........................................45
O surgimento do 1‘ festival Mário de Andrade....................................47 Valorizando produções culturais.............................................................49 O programa RUMOS................................................................................50
Capítulo três............................................................51
A ascensão do e-book e a democratização da leitura....51
Uma história inspirada em fatos ficcionais........................................53 Muito além da alquimia.........................................................................57 Diferenças entre o livro físico e o livro digital..................................59 O despertar de um escritor.................................................................. 60 Escrever também é arte........................................................................62 A Amazon e seu império de livro digital............................................65 Crowdfunding: uma iniciativa altruísta....................................................67
Conclusão............................................................................71 Referências...........................................................................................73
Introdução
Um inimigo invisível
O
ano era 2019. Em algum lugar da China, uma visita surpreendeu a todos com a sua chegada. Tratava-se de alguém que adora beijos, abraços e qualquer tipo de aglomeração, pois, é assim que ele age, grudando nos seres humanos de uma maneira silenciosa e discreta, só fazendo alarde quando já é tarde demais. Sendo assim, ele beija suas vítimas e as envolve em seus braços para tentar roubar o último suspiro de suas gargantas. Embora houvessem aquelas que se mantivessem firmes e não fossem arrastadas para a morte, foi assim que muitos chineses perderam suas vidas. Com o passar do tempo, a visita decidiu que havia mais lugares no mundo que gostaria de explorar, a China já não bastava. Por sua natureza festeira, ela ia em qualquer lugar nos quais encontrasse multidões. Dessa forma, espalhou-se pelo mundo, causando morte e destruição por onde passasse. Quando a gripe espanhola atingiu o mundo, levou muitas pessoas à morte, com sintomas que parecia os de uma gripe comum. Cem anos se passaram e ninguém imaginaria que poderia vivenciar um evento tão parecido com aquele. A visita extremamente letal tem nome e se chama “coronavírus”, uma doença que contêm o agrupamento de vários vírus. Normalmente, ela é encontrada em animais, mas desta vez, desejou habitar em seres humanos, devido à última mutação que sofreu, passando a se chamar “covid-19”. Os especialistas dizem que ele surgiu de forma natural, apesar da existência de boatos nos quais as pessoas pensaram que a doença teve origem nos laboratórios chineses e que tudo não passava de um plano para que a China, de certa forma, dominasse o mundo. Havia ainda aqueles que culpavam uma jovem mulher chinesa por ter comido um morcego que, possivelmente, já estivesse infectado com a doença. No entanto, apesar de o coro11
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
navírus já existir há tempos, sua mutação permanece um mistério. Logo, não demorou muito para o vírus se espalhar e os alarmes da OMS (Organização Mundial de Saúde) serem disparados. Os sintomas eram: febre alta, tosse seca, coriza, dor de garganta e falta de ar. Parecem sintomas de uma gripe comum, mas sua letalidade é imensa. Porém, a doença possui seu grupo de pessoas favorito, no qual é ainda mais apegada, como idosos, doentes cardíacos ou pulmonares, diabéticos, mulheres grávidas, etc. Os jornais brasileiros foram à loucura e não paravam de noticiar o que estava acontecendo na China, enquanto o Brasil não imaginava que o vírus pudesse alcançá-lo e muito menos que, uma epidemia chinesa pudesse se transformar em uma pandemia mundial. Mas aconteceu.
Do caos a uma misteriosa paz
No dia 26 de fevereiro de 2020, um homem de 60 anos chegou de uma viagem para a Itália e foi diagnosticado com a doença no hospital Albert Einstein, em São Paulo. A primeira medida foi o isolamento e o Ministério da Saúde começou a monitorar se havia mais casos no Brasil. Houve alguns suspeitos, mas era alarme falso. Tudo ainda estava sob controle. No entanto, conforme mais algumas pessoas foram chegando de viagem do exterior, a doença foi se espalhando até chegar ao nível que se chama de “comunitário”, quando já não se sabe mais de onde veio o contágio. Sendo assim, as primeiras medidas a serem tomadas para evitar a circulação do vírus pelo Brasil, foi o fechamento das instituições educativas e qualquer palco de manifestações artísticas, porque esses eventos promoviam aglomerações. Por isso, os jornais alertavam “fiquem em casa”. A cidade de São Paulo era conhecida e lembrada por sua imensa urbanização e tecnologia. Todos os dias, os transportes públicos carregavam a população até seus trabalhos no centro e as ruas eram palco de festas e manifestações artísticas nos finais de semana. Uma das mais populares era a Av. Paulista, que era fechada aos domingos para que as pessoas pudessem passear pelo asfalto ou 12
Introdução: Um inimigo invisível
expressar suas artes ao ar livre, por isso era comum passar por lá e ver músicos tocando algum instrumento, dançarinos, vendedores de miçangas e artistas plásticos exibindo seus quadros. Durante a noite, o lugar mais frequentado era a Rua Augusta, devido à concentração de bares e casas noturnas na região. Além das festanças, as pessoas também costumavam ir na rua 25 de março para fazer compras, porque era repleto de comércio. Assim, o povo paulistano vivia tão cheio de idas e vindas que era impossível imaginar um lugar como São Paulo parado e sem vida. Não é a toa que o estado inteiro se tornou o epicentro de coronavírus no Brasil, pois, para alguns era inviável ficar dentro de casa quando se tinha a necessidade de trabalhar para sustentar a família e a si próprio. Enquanto outros, moravam em lugares tão estreitos que um distanciamento social era improvável. Os jornais mostravam as ruas do centro vazias e silenciosas, enquanto nas periferias, a realidade era outra. Não havia quarentena, nem isolamento, a vida continuava com ou sem pandemia e prosseguia como se nada estivesse acontecendo. Alguns não tinham opção, precisavam ir às ruas, outros não tinham coração, nem sequer acreditavam na força e letalidade do coronavírus, somente quando um ente querido perdia a vida em decorrência da doença, é que seus semblantes caíam e o desespero tomava conta. Os primeiros setores a fechar foram os culturais e educacionais, afetando, assim, a vida do jovem escritor paulistano Andreas Chamorro que, – embora não fosse afetado negativamente na publicação e venda dos livros, uma vez que ele sempre utilizou meios digitais para publicá-los –, tinha uma vida fora da internet, na qual dava aulas de inglês numa escola e passou a realizar seu trabalho por meios digitais, para cumprir a quarentena. O medo tomou conta de seu semblante quando as notícias chegaram aos seus ouvidos, principalmente por ter um pai pertencente ao grupo de risco, o qual foi diagnosticado com câncer em janeiro de 2020, um mês antes do coronavírus chegar ao Brasil. “Ele fez quimioterapia bonitinho e melhorou, porém teve uma recaída em abril e acabou parando no Hospital das Clínicas por uns dias, quando ficou bom e voltou para casa, ele me mandou um áudio contando o que viu e, assim, foi horrível, não só o número de mortes 13
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
era bem maior do que o que vimos nas notícias, mas toda a situação de estresse [dos médicos], situação pesada mesmo”, relata. Do ponto de vista de Andreas, a pandemia não só afetou a todos, mas veio para mostrar toda a sujeira que estava escondida sob o tapete. “Então, a desigualdade social que já era uma coisa que estava ali, mas a gente finge que não, com a pandemia, não tem mais como esconder”, afirma. Apesar dos efeitos negativos da doença, o escritor nutre em seu coração a esperança de que ela sirva de lição para que a população aprenda e busque evoluir, valorizando mais a medicina e a ciência como um todo, pois as pessoas que trabalham na área da saúde foram as que mais ficaram sobrecarregadas e tiveram a coragem para enfrentar uma doença extremamente letal como o coronavírus, além de lutar contra o tempo para desenvolver uma vacina a fim de controlar a doença. Diante de acontecimentos históricos como este, os artistas realçam suas artes com narrativas que mesclam a fantasia com a realidade e, ao mesmo tempo, trazem uma mensagem reflexiva para a população, mostrando que mesmo diante de uma guerra ou luta pela sobrevivência, é possível fazer literatura. Por isso, Andreas teve a ideia de escrever dois romances, o primeiro será narrado sob o ponto de vista dos seres humanos e o segundo, sob o ponto de vista dos animais, porém, o escritor deixa claro que a pandemia servirá apenas como pano de fundo para suas obras de arte ao declarar que a pandemia é uma tela sobre a qual irá pintar. “No primeiro romance, eu faço uma distopia, ou seja, eu conto 40 anos de história, se passa na cidade de São Paulo, eu não dou nomes, mas dá para reconhecer que é a cidade de São Paulo e eu imagino a seguinte situação: e se o coronavírus fosse um pouquinho pior e sofresse uma mutação de uma maneira mais rápida? Vamos dizer que o RNA desse vírus sofresse mutação muito rapidamente, agravando os sintomas da doença”, diz. Com essa obra, Andreas mostra uma visão pessimista, na intenção de acordar as pessoas para que leiam e pensem que a história, de fato, poderia ter acontecido. Para Andreas, sua obra narrada sob ponto de vista humano é como um exercício intelectual, ao imaginar o que aconteceria se o 14
Introdução: Um inimigo invisível
coronavírus fosse pior. “Por isso eu falo que esse romance tem um peso político muito grande, eu quero imaginar um chefe de estado no Brasil que fosse extremamente inteligente utilizando da eugenia que uma pandemia causa ao seu favor”, explica. Nessa obra, o escritor revela que a nova mutação da doença semelhante ao coronavírus ocorrerá na periferia e será como uma espécie de dengue, por isso, as pessoas começarão a esquecer de sua existência pelo simples fato de a doença se concentrar em um ambiente periférico e não mais no centro. No decorrer do tempo, a doença se agravará e a cidade entrará em caos, fazendo com que o tal líder político tenha uma ascensão. O outro livro que Andreas pretende escrever é mais curto e fala sobre o ponto de vista da natureza, no qual os personagens são animais discutindo sobre o fato de o vírus ter surgido do tráfico de animais e sobre o confinamento humano, como se a natureza estivesse avaliando os seres humanos. Mesmo diante dos efeitos devastadores deixados pela pandemia, escritores como Andreas buscam tirar algo de bom de toda essa situação. Assim como ele, o escritor Rubenildo Limeira, morador da Zona Sul de São Paulo, também sofreu com os impactos da covid-19, principalmente por estar acostumado a publicar livros impressos. No entanto, ele encara o ocorrido com otimismo. “A gente tem que olhar o copo todo cheio, não apenas a parte que transbordou”, diz. Apesar disso, o escritor, que tinha por costume vender seus livros de casa em casa, pôde sentir os impactos negativos da pandemia. “Quando eu estava pra mandar publicar e sair conversando com as pessoas e vendendo, a editora não pôde funcionar por conta da pandemia e eu tive que adiar a impressão e a venda deles”, explica. Por causa disso, Rubenildo mudou de estratégia e começou a encarar o desafio de tentar publicações digitais. “Eu tô organizando um e-book pra poder, através dessas plataformas de venda, apresentar o livro, e também já com novos trabalhos, possibilitando a organização de podcasts que trazem o pensamento artístico, o pensamento poético, o pensamento que é a base para criação dos textos”, relata. O escritor afirma também que pretende começar a lançar livros pelas plataformas digitais pela maior facilidade de acesso que as pessoas possuem. Porém, para ele, 15
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
nada supera o contato com as pessoas, as conversas, as amostras dos textos, além de poder contar um pouco sobre o livro para criar curiosidade nas pessoas e despertar nelas a vontade de comprar. Já para a Editora e Gráfica de Heliópolis, fundada pelo escritor e empreendedor Paulo César Marciano, a pandemia teve um efeito negativo, pois, muitos projetos foram paralisados. “A gente já vinha sofrendo um problema estrutural da editora no fim do ano passado pro começo de 2020, porque os equipamentos que a gente comprou não dariam conta da demanda que tivemos, só que isso no fim do projeto, custou em manutenção, como a editora não visava lucro, a gente não tinha um fluxo de caixa, uma reserva, quando chegou janeiro, com as máquinas apresentando problema, não tinha como fazer a manutenção, a gente tava dependendo de outros editais que a gente tava concorrendo, só que, com a pandemia, eles foram congelados, porque os editais tão sendo adaptados na área da cultura, porque ela provoca aglomeração”, explica. O escritor também atenta para o fato de sua editora estar localizada dentro de um CEU da prefeitura, no qual todos os equipamentos foram fechados. “A editora em si não tá funcionando e a gente funcionava com slams, com sarau, rodas de conversa, tudo atividades que provoca encontro de pessoas”, completa. A cultura sempre foi uma área que reunia aglomerações, devido aos eventos. E quando se trata de literatura, não pode ser diferente. Muitos escritores da cidade de São Paulo sentiram o peso de não poder realizar os eventos para promover leitura, tendo apenas que se adaptar ao meio virtual e realizar encontros digitais. Foi o caso da escritora Elizandra Souza, que, além de escrever, costumava organizar eventos culturais com o coletivo MJIBA, criado por ela mesma, para promover literatura negra feminina. Diante de um cenário pandêmico, sua primeira reação foi o choque, como se estivesse anestesiada. Durante os primeiros meses, ela só conseguia pensar “Como vou pagar minhas contas? O que vou fazer da minha vida?”. Porém, depois desse período anestésico, a escritora entendeu que a vida precisava continuar e ela optou pela utilização dos meios virtuais para realizar seu trabalho. “Agora, nos últimos dois meses, tem surgido trabalhos pra mim, pra fazer via virtual, tô me adaptando, 16
Introdução: Um inimigo invisível
porque eu sou da geração da transição do analógico pro digital, então algumas coisas em relação às redes sociais, eu resistia muito pra fazer, mas agora tem que repensar e trabalhar no virtual”, confessa. Elizandra também possui uma página de literatura negra feminina, na qual ela e as pessoas envolvidas na página abriram um chamado para as seguidoras enviarem poesias de sobrevivência e autocuidado, logo no começo da pandemia. “Recebemos 44 textos e apresentamos mais 44 escritoras espalhadas pelo Brasil, tem até escritoras de outros países que também nos enviaram”, relata, com satisfação. No que diz respeito à quarentena, a escritora diz cumprir isolamento social, pois sua mãe é do grupo de risco. No entanto, ela não consegue conter a indignação quando fala sobre as pessoas a sua volta, que moram em seu bairro, mas que não estão respeitando as regras para conter os avanços do coronavírus: “As pessoas estão fazendo festa, churrasco, funk rolando solto, aqui na quebrada a maioria das pessoas usa máscara somente pra entrar em estabelecimentos, porque precisa, então se não fosse obrigado a entrar nos estabelecimentos com máscara, talvez as pessoas nem usassem, parece que só a minha família não descobriu a cura do covid-19 e o resto do bairro tá imune”. Além de afetar eventos como Saraus e Slams, a pandemia também trouxe prejuízo para quem estava se preparando para se lançar como escritor na Bienal do Livro da cidade de São Paulo, que ocorreria em agosto de 2020. O evento costumava reunir vários estandes de editoras tanto populares quanto as novas, também ajudava autores novos com o lançamento de livros e, geralmente, atraía muitas pessoas. A Bienal não ocorria em um dia só, mas se estendia por vários dias e acontecia a cada dois anos em São Paulo. Por causa do coronavírus, a Bienal foi adiada na cidade para 2022, trazendo frustrações para Ailton Sena ou Leblon Carter, como gosta de ser chamado, um escritor de 23 anos, morador da Zona Sul, Jardim Mirian, que pretendia realizar o lançamento da continuação de seu livro “O Alquimista Prodígio” durante o evento. “Eu ia fazer minha estreia como autor na Bienal, já estava tudo planejado, aí quando veio a pandemia todos os eventos foram cancelados e eu tive que mudar meus planos, porque avi17
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saram que não ia ter a Bienal lá para maio, se eu não me engano, então eu tive que me reestruturar, pensar como eu ia lançar e não dá para fazer nenhum lançamento físico, então ‘O alquimista prodígio 2’ vai ser totalmente online e a venda, por sites”, diz Ailton. Por outro lado, o escritor pôde perceber que desde que a pandemia começou, houve um aumento nas vendas de e-books e isso tem sido vantajoso para ele, já que seu foco é voltado para livros digitais. Ailton também diz que ele e outros escritores ajudaram muito no acesso aos e-books quando disponibilizaram vários livros gratuitos na Amazon para que as pessoas pudessem ler mais durante a pandemia e sem gastar nada, levando em conta os problemas financeiros que o coronavírus também desencadeou. “E quando a gente colocou livro gratuito na Amazon teve muito download, os escritores se programavam e falavam ‘vamos fazer um final de semana pandemia literária’, que foi como eles chamaram, mas eu e os meus colegas deixamos uns e-books gratuitos, e deu 3000 download dos nossos livros no final de semana e isso ajuda, porque se a pessoa ler livro pelo KDP, é lucro para gente, tem avaliação e tal, então para o meio digital foi ótimo, para o meio físico foi péssimo, mas como eu nunca fui muito focado no físico, não me afetou muito”, explica o escritor. Diante do cenário pandêmico, é possível perceber que muitos escritores tiveram que se reinventar, dar um jeito de driblar a situação e continuar produzindo e publicando seus livros. Uns, precisaram aprender a lidar com a tecnologia, enquanto outros encararam a pandemia como uma experiência que trará coisas boas no futuro. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas por autores e editoras por causa do coronavírus, a solidariedade se manifestou e iluminou o caminho de algumas pessoas. Para ajudar as editoras e escritores independentes que foram prejudicados pela pandemia, o site “Catarse”, instituição virtual de financiamento coletivo, realizou uma campanha chamada “+Livros”, na qual as pessoas poderiam realizar doações para levantar fundos a fim de incentivar os escritores e editoras comunitárias a continuarem com seus trabalhos. A meta estabelecida era de 750 mil reais, porém, o valor alcançado foi de 485 mil. Mesmo não conseguindo alcançar o valor estipulado, essa campanha foi bem-sucedida e 18
Introdução: Um inimigo invisível
encerrou no dia 19 de agosto de 2020, com cerca de mil doações.
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Capítulo um
Por amor ao impresso
O
livro impresso nunca foi um assunto tão debatido como nos últimos tempos. Alguns dizem que ele deixará de existir e dará lugar aos e-books, outros dizem que o produto se tornará tão caro que virá a ser o novo disco de vinil, tornando-se um artigo de luxo, consumido somente pelos colecionadores, enquanto a maior parte da população brasileira leitora se renderia aos encantos dos livros digitais. Os obstáculos que se levantam contra o livro impresso são inúmeros, a começar pela crise enfrentada pelas maiores redes de livrarias do Brasil: a Cultura e a Saraiva. Porém não se pode dizer com precisão a origem do problema, apenas alguns fatores que influenciaram, como a mudança no hábito de compras dos brasileiros quando começaram a consumir produtos de lojas virtuais, a dependência das livrarias de compras de livros didáticos realizadas pelo governo que, ultimamente, reduziu o número de compras, o aumento dos preços dos livros e, por último, o modelo de negócios utilizado pelas editoras, no qual elas emprestavam seus livros para as livrarias e só obtinham retorno financeiro dentro de um prazo de 60 dias. Logo, quando um livro não vendia bem, as livrarias precisavam devolvê-los e o prejuízo era da editora, pois precisava do dinheiro para pagar funcionários e o abastecimento da empresa. Como uma tentativa de amenizar a crise, a Saraiva começou a cortar gastos fechando lojas em diversos locais do país, resultando no desemprego de milhares de funcionários, além de dificultar ainda mais o acesso do leitor ao livro físico que era exposto nas lojas físicas. Sabe-se que os escritores que amam livro impresso sonham com a publicação dos mesmos e que é muito difícil conseguir contrato com uma editora tradicional, a não ser que você tenha construído uma carreira literária antes, pois, as grandes editoras raramente publicam autores pouco conhecidos, grande parte já se 21
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
tornou best-seller no exterior até chegar ao Brasil ou já é conhecido pelo público brasileiro. Por isso, muitos optam por fazer tudo sozinhos, por conta própria. Pode até haver algumas pessoas que os ajudem na revisão, diagramação e capa dos livros, mas elas também trabalham de forma independente, as grandes editoras não tem nada a ver com isso. Há também aqueles que sonham em viver da própria escrita, mesmo que pareça meio impossível em um país como o Brasil, em que a leitura não parece muito valorizada. Recentemente, saiu a 5ª edição de uma pesquisa que o Instituto Pró-Livro faz a cada quatro anos. Trata-se da “Retratos da Leitura”, que foi realizada entre outubro de 2019 até janeiro de 2020. De acordo com ela, o número de leitores sofreu uma queda de 2015 para 2019. Anteriormente, o público leitor brasileiro era de 56%, mas em 2019, esse número caiu para 52%, considerando que, a pesquisa define como leitora uma pessoa que leu inteiro ou em partes um livro dentro do período de 3 meses (que é basicamente o período utilizado para realizá-la). Os dados também mostram que 92% do público leitor leu livro impresso, enquanto um público de 8% leu e-book. Com relação à preferência de autores, um dos mais citados foi Machado de Assis. Analisando os dados da “Retratos da Leitura – 5ª edição” no que diz respeito à literatura de modo geral, observa-se que o maior público leitor brasileiro está na faixa de 5 a 10 anos e a principal motivação para ler foi por indicação de professores, sendo que 70% dos leitores preferem livro impresso, enquanto 16% gosta mais de e-book e ainda há um público que não faz distinção ou gosta dos dois (14%). Ao analisar, especificamente, os hábitos de leitura na cidade de São Paulo, a pesquisa revela que 60% dos paulistanos são leitores, dado este que é igual a 6,8 milhões de pessoas. Definindo por gênero, os dados comprovam que 52% são mulheres, enquanto 48% são homens. Quando se trata de idade, pode-se afirmar que a maioria dos leitores possui mais de 40 anos e 52% está concentrada na classe C. Logo, por mais que o cenário para o livro impresso esteja desanimador, ainda há esperança, principalmente, quando se tem movimentos literários surgindo com cada vez mais força na capital paulista, a fim de promover a literatura 22
Por amor ao impresso
brasileira, como a criação de editoras comunitárias, coletivos para realizar ações culturais, saraus, slams, etc. E isso não seria possível sem escritores que ainda têm esperanças de melhorar o quadro de leitores no Brasil e não deixam morrer o sonho de ter os livros estampados em vitrines das livrarias. Eles próprios costumavam ir às ruas para vender seus livros físicos, batendo de porta em porta, interagindo com as pessoas e incentivando-as a ler mais. Por isso, é um equívoco dizer que o livro impresso no Brasil está morrendo. E se isso for verdade, há quem lute até o final para ter espaço na sociedade e expressar as riquezas que existem dentro de si. É exatamente esse o caso do artista, Paulo César Marciano, o escritor, Rubenildo Limeira e a escritora, Elizandra Souza, pessoas que, apesar das lutas e dificuldades enfrentadas, jamais desistiram de seus sonhos.
Uma doença inesperada
Situado na Zona Sudeste do município de São Paulo, dentro do distrito de Sacomã, o bairro de Heliópolis é conhecido por ser a maior favela da cidade paulistana, possui mais de 100.000 habitantes e dentre eles está o artista e empreendedor de 42 anos, Paulo César Marciano, também conhecido como “PC”. Numa manhã de sábado, por volta das 9h, ele sai da casa de sua mãe, Clarice, e caminha até sua casa, com o sol ardendo sobre seu rosto, que está parcialmente encoberto por uma máscara de tecido azul escura. Ele usa uma camiseta cinza, com algumas figuras nos ombros que parecem peças de quebra-cabeça. Ele tem um fone preto pendurado em um dos ouvidos. Quando chega em sua casa, vai direto para a cozinha, um ambiente coberto por telhas, paredes amarelas e um armário bege com preto, cheio de sacolas em cima. Porém, sua esposa o interrompe, diz que precisa usar o liquidificador e ele se move até o quarto, para que ninguém atrapalhe a entrevista. No ambiente mais calmo, PC conta sobre as lutas e desafios pelos quais passou ao longo da vida. Paulo César não diz que não pronunciou palavra alguma até os cinco anos de idade. Ninguém sabia qual 23
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era o problema. Mas após passar por alguns médicos, veio o diagnóstico: – Seu filho é mudo. No entanto, sua mãe, dona Clarice, não se conformou e foi em busca de novos médicos até achar um que deixou a criança brincando, distraída, depois pegou um objeto barulhento e o acionou em seus ouvidos. Paulo se assustou e desejou bater no médico, por ser um garoto meio agressivo. Dessa forma, o doutor pôde constatar: – Seu filho não é mudo, porque não existe criança muda. Existe pessoa surda e acaba não aprendendo a falar. Então, ele não é mudo, ele tem algum problema e a gente vai ter que descobrir o que é. Porém, pela escassez de estudo naquela época, não foi descoberto qual era o problema. Depois desse episódio, Paulo César passou a frequentar uma fonoaudióloga para aprender a se expressar melhor. Aos seis anos de idade, PC havia começado a desenvolver a fala, mas não era compreendido, pois, o que saía de sua boca eram meros ruídos e palavras que poucas pessoas tinham a capacidade para entender. Com o passar dos anos e o auxílio da fonoaudióloga, ele foi se desenvolvendo, mas havia algumas palavras e letras que Paulo não conseguia pronunciar e isso perdurou até os seus 17 anos de idade. Por isso, ele sofria bullying na escola e revidava com agressão física. Nas provas da escola, ele só tirava nota baixa e, muitas vezes, a professora não lhe compreendia. O garoto copiava a lição da lousa e pulava diversos trechos. Ao mostrar para a professora, era tido como trapaceiro. No entanto, ele podia jurar que havia copiado tudo, porque não percebia que estava pulando algumas partes do texto. – Você é burro! – diziam os alunos e alguns professores. Aos 10 anos de idade, Paulo César ainda se expressava mal e falava muito errado, porém, ele pensava que era normal, que esse era o jeito dele mesmo, mas continuava sendo motivo de deboche na escola, batia nos colegas e passava a imagem de ser uma criança violenta. E assim, Paulo sempre ia para a diretoria, porém, não era castigado ou suspenso, apenas lhe ofereciam uma água, suco ou café, para que se acalmasse. Naquela mesma época, por volta de 1988, a fono mantinha contato com a escola na qual ele estudava. Por isso, a direção sabia que o menino não era mal intencionado. Por ser um menino introvertido, violento e reserva24
Por amor ao impresso
do, a fono recomendou aos seus pais que ele tivesse envolvimento com arte. Logo, seu pai, Israel, teve que fazer um sacrifício para comprar um violão para ele e seu irmão mais velho, Júnior, como uma forma de fazê-lo se expressar através da arte. Porém, Paulo era muito pequeno e mal conseguia segurar o instrumento na época, enquanto seu irmão já era um pouco maior e teve mais facilidade em aprender. Por isso, quando cresceu um pouco mais, o menino foi ensinado pelo próprio irmão. Na escola, Paulo César foi envolvido em todo tipo de atividade, porque os professores sabiam de suas dificuldades para se expressar. Logo, o garoto participava das festas juninas, peças de teatro, com o professor de Geografia, Orestes, e participava do coral, tocando violão com o professor de Educação Artística, João, que também era tecladista e organizava fanfarra, na qual Paulo também participou e assim, foi nascendo em seu coração o desejo de ser artista.1 “Depois eu comecei a desenhar à mão livre, comecei a fazer pintura, artesanato, um monte de coisa, mas sempre assim…”, Paulo César faz uma breve pausa, como quem tenta lembrar o que dizer a seguir: “Aprendendo em ONGs e com escola pública, porque nunca tive grana pra pagar curso. Por isso, em muita coisa eu sou autodidata”, relata. Conforme os anos foram passando, Paulo já havia se conformado: passou a acreditar que realmente era burro, pois, por mais que fizesse fono, não sabia o porquê tanta dificuldade para aprender as disciplinas escolares e também, mesmo com a idade adulta, não procurava um médico para saber o que era, pois havia aceitado sua condição. No entanto, tudo mudou quando estava com mais ou menos 29 anos de idade, já havia superado boa parte de suas dificuldades não só com relação à vida escolar, mas também no seu trabalho como ator, pois encontrou novas formas para exercer sua profissão sem precisar decorar cada palavra do script. Sendo assim, ele levava a vida como uma pessoa normal, aceitando que ele realmente era diferente, mas de um jeito natural, como se não existisse um problema por trás disso. “Eu já tinha dominado alguns demônios na época em que eu tava mais velho. Porém, fui diagnosticado sem querer. Um dia, eu achei um celular no metrô, um celular muito caro pra época, nem 25
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me lembro a marca. Tinha que devolver pra uma mulher de Bauru, só que a filial da empresa dela ficava na Santa Cruz, atrás do shopping e eu fui pra lá, né? O chefe dela queria saber quem encontrou, porque ele achou isso super louco, alguém querer devolver o celular. E enquanto eu esperava pra ser atendido, percebi que havia várias revistas lá. Tinha uma sobre medicina, plano de saúde, e eu li ‘dislexia’. Pensei ‘Nossa, que nome estranho!’. Aí, eu peguei a revista pra entender o que era aquele termo, e logo de cara tinha uma enquete dizendo ‘vamos fazer 10 perguntas, se 6 respostas forem ‘sim’, você é um dislexo e entre em contato com a gente”’. Ele ri enquanto conta essa história e depois completa: “Das 10 perguntas, eu respondi todas com um ‘sim’. Então, eu pensei ‘pô, vou ligar pra esses caras aqui’”. Depois de realizar exames e obter um laudo médico, Paulo descobriu que realmente tinha a doença e se sentiu aliviado, porque afinal, isso significava que ele não era burro. “Hoje, como que a dislexia reflete em mim? Eu não consigo aprender língua estrangeira, por mais que eu tente. Estive em escola, estudei inglês por mais de 11 anos, mas eu não aprendo, não adianta. Eu até entendo um pouco, mas não consigo falar, não consigo escrever em inglês. Escrita é uma coisa que pegou bastante, eu escrevo por insistência, né? Hoje eu escrevo, produzo bastante texto, mas foi por insistência da minha parte, porque a dificuldade era muito grande. E ler… Como que eu leio, né? Eu leio com uma régua escura, eu coloco ela abaixo da linha que eu vou ler, porque se não minha vista pula, e a régua tem que ser lisa também, ela não pode ter nada escrito, porque se não meu olho puxa e eu começo a ler a marca da régua, sabe?”, conta. Mesmo apesar de todas as dificuldades para ler e escrever, Paulo César não se deu por vencido, muito pelo contrário, ele se adaptou e encontrou novas formas de fazer as coisas que amava, como atuar em teatros e compor música. “Eu tenho dificuldade em decorar texto, mas eu sempre escrevi muita música e eu não tinha uma música decorada. Se você me perguntar, às vezes, eu lembro o refrão. Só sei músicas populares, mas eu não decoro música nenhuma, talvez, o ‘parabéns pra você’ eu saiba, mas eu não consigo decorar canção. E imagina isso no trabalho de ator! Eu ganho minha vida como ator, então, eu faço o seguinte: Eu me esforço pra caramba 26
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pra decorar texto. Um texto pequeno que um ator lê três vezes pra decorar, eu tenho que ler 40. Eu comecei a criar várias técnicas pra decorar, criar e aprender com os outros de um jeito que desse certo pra mim. Eu me especializei em improvisação e como hoje eu tenho facilidade pra criar texto e escrever, eu bato um papo antes com o diretor. Geralmente, os diretores que me chamam pra trabalhar já sabem que eu sou dislexo, então isso ajuda pra cacete. Hoje, eu sou muito respeitado. Eu estudo o texto, eu tento entender a intenção do roteirista, do autor e do diretor…” ele faz uma pausa para beber água e depois continua: “É… eu improviso em cima, então, eu sei mais ou menos quanto tempo eu tenho que falar, depois eu vou ter uma troca, eu vou ter uma cena com a pessoa. Eu entendo mais ou menos que eu tenho que falar uma frase, a hora que eu tenho que falar 5 frases, eu entendo e eu pego aquele contexto e eu aplico ali em cima. Então, foram coisas que eu fui desenvolvendo, aprendendo, teimando e estudando pra poder superar essa questão da dislexia.
A história por trás de “Melissa”
Paulo César Marciano sempre teve vontade de escrever um livro, porém, vivia se limitando, dizendo para si mesmo que isso era coisa de gente mais velha e que precisava ter experiência antes. Porém, quando percebeu a quantidade de jovens que escreviam textos e publicavam, mudou de ideia e resolveu correr atrás do seu sonho., só que era difícil para ele começar a escrever, porque na época, trabalhava como metalúrgico e não tinha muito tempo disponível. No entanto, tudo o que ele sabia era que queria falar sobre alguma desconstrução de rótulos, só precisava amadurecer a ideia. Em 2006, ele fez uma viagem de caminhão, pois trabalhava como responsável por evitar acidentes nas estradas, perda de mercadorias e roubos de carga. Paulo César costumava viajar dentro caminhões por todo o país estudando a estrada, além de acompanhar a rotina dos caminhoneiros, pois era o melhor jeito de saber o que eles passam. Em um dia ensolarado, no norte de Minas Gerais, o motorista sentiu muito sono e, por volta de 3 h da tarde, Paulo o obrigou a 27
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parar a viagem em algum posto de combustível para dormir, pois, se ele continuasse dirigindo sonolento, poderia provocar um acidente e matar, não só os dois, mas também, qualquer pessoa que estivesse passando pela estrada naquele momento, pois o caminhoneiro não estava tomando uma substância popularmente conhecida como “rebite”, que faz com que os caminhoneiros fiquem acordados por mais tempo e, assim, eles conseguem dirigir pelo maior número de horas possível. Porém, Paulo César não lhes permitia ingerir a substância. Quando o caminhoneiro parou no posto de combustível para dormir, Paulo César teve que sair do caminhão, pois seu companheiro roncava muito alto e estava atrapalhando seus estudos. O jovem foi na loja de conveniência e comprou balas, salgadinhos e um gatorade. Depois, sentou-se no chão, numa parte mais alta do posto e pôs-se a escrever, enquanto comia. Foi então que uma moça apareceu e ficou ao seu lado. Paulo podia sentir o forte aroma de seu perfume, porém só conseguia vê-la da canela pra baixo, por causa do ângulo em que estava. A julgar pelo estilo de roupa e sapato que ela usava, ele achou inapropriado para a ocasião, considerando que o piso do posto era cheio de pedrinhas, estilo rústico e poderia ser perigoso usar aquele tipo de calçado. A moça falava frases soltas, como quem tenta puxar assunto, mas Paulo César não lhe deu atenção, buscou se concentrar no que estava fazendo antes de ela ter chegado. Porém, numa dessas frases, ela disse algo que atraiu seu olhar para cima, diretamente para seu rosto: – Eu tomei uma decisão na minha vida. Hoje eu não vou dar pra ninguém. – Que coincidência! Porque hoje eu também não quero comer ninguém. – ele disse, provocando-lhe uma risada. Então, ele lhe ofereceu as coisas que comprou para comer e ela aceitou. Ambos ficaram conversando um pouco e outras mulheres com o estilo parecido com o daquela surgiram. Em pouco tempo, Paulo César estava cercado por oito delas. Ele descobriu que elas trabalhavam no posto, como prostitutas, e os clientes eram os caminhoneiros. As mulheres começaram a conversar entre si, sobre vários assuntos aleatórios. Paulo César ficava apenas ouvindo e dando corda para que falassem mais. Aos poucos, o grupo foi se dissi28
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pando e elas foram embora, deixando-lhe um grande vazio dentro de si, sentiu-se um lixo representando a classe masculina e pensou “meu, elas só queriam conversar com pessoas do sexo oposto que não tratassem elas como um animal, como objeto e de forma pejorativa. Queriam ser tratadas como são: humanas, pessoas dignas. Independente da profissão, independente do que fazem, elas são dignas”. Sendo assim, ele voltou para o caminhão decidido sobre o que escreveria. Precisava escrever sobre pelo que as mulheres passam, mas não só isso. Também resolveu abordar assuntos como vício em drogas, saúde e questões sociais, fazendo com que seu livro se tornasse rico nesses detalhes, em diversidade e uma pluralidade de coisas, encontros entre pessoas e desencontros, tornando a obra um retrato da vida, um romance realista. Paulo César não usou as histórias das prostitutas para compor seu livro, não usou nem sequer o nome delas, apenas as usou como uma inspiração para abordar os assuntos que já pretendia antes, como a desconstrução de rótulos e preconceito. E assim, ele escreveu o livro no qual pôs o título de “Melissa”.
A origem da Editora e Gráfica de Heliópolis
No ano de 2009, Paulo César ainda trabalhava como gerente de uma grande empresa e ganhava bem, porém, não era um emprego que gostava e resolveu pedir das contas para viver de arte, pois era algo que sempre desejou. No entanto, seus familiares não ficaram contentes com essa decisão, pois foram criados em uma época diferente, na qual, na mente deles, artistas eram apenas cantores ou atores de novelas. Era difícil imaginar a arte em patamares menores e sem muito reconhecimento ou fama. No entanto, a falta de apoio não fez com que Paulo desanimasse, ele prosseguiu acreditando sempre em seus sonhos. Com o passar dos anos, a família dele passou a apoiá-lo, ao perceber os resultados que ele vinha gerando com diversos trabalhos artísticos. Israel, seu pai, foi uma das pessoas que mais o criticava por ter largado um emprego estável para viver de 29
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arte. No entanto, mudou de opinião ao longo do tempo, ao notar o quanto seu filho crescia e se desenvolvia na carreira artística. Quando Paulo César resolveu viver de arte, ele tomou um choque de realidade ao perceber o preconceito que os artistas periféricos viviam, além das dificuldades de se sustentarem profissionalmente apenas fazendo o que amavam. Dessa forma, ele começou a aprender e entender que o artista, muitas vezes, não bastava ter talento, também era necessário ter as técnicas para fazer o trabalho dar certo, saber se autopromover, criar uma rede de contatos e utilizar a internet a favor deles. Também era necessário que eles entendessem de lei de fomento e como escrevê-las. Muitos precisariam virar projetistas, planejadores, pesquisadores, contadores e ainda ter tempo para estudar e se aperfeiçoar na própria arte, porque o padrão dos artistas periféricos precisava ser alto para ter uma chance no mercado. “Não é querendo fazer comparações, mas se você vem de uma formação e de acessos privilegiados, pra você colocar um quadro seu numa exposição não vai ter o mesmo esforço. Não tô falando que é fácil, mas não vai ser o mesmo que um cara que não teve a oportunidade de estudar numa ‘Belas Artes’ ou qualquer outra universidade vai ter”, Paulo César diz e ainda completa: “Então, pra gente, é sempre vezes 10. Você tem que fazer sempre mais esforço que o comum e isso serve pra tudo, pra entrar numa universidade pública, então, talvez é vezes 20. Não é se vitimando, mas é tudo muito mais difícil quando você vem da periferia, quando você vem da favela, população negra, LGBT, mulher… Mulher é complicadíssimo, então tudo é muito mais complicado e mais difícil, sabe?” Ao se deparar com a realidade do artista no bairro onde morava, Paulo César foi às ruas, começou a se envolver em grupos, fazer teatro de rua, participar de espetáculos em circo, fazer stand-up, tudo para ter como se sustentar com a profissão que escolheu viver. Dessa forma, ele também foi conhecendo pessoas que estavam nessa luta há mais tempo e adquiriu muitas experiências. Só que, com os movimentos artísticos crescendo cada vez mais e se fortalecendo em Heliópolis, havia música ao vivo nos botecos e no meio da rua, quermesse. O pessoal que fazia hip hop era muito resistente e usava de criatividade para cantar e tocar suas músicas. 30
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“Então, eles fizeram um estúdio com caixa de ovo dentro da própria casa e usavam o guarda-roupa. E eu fui observando isso. Aí, eu comecei a fazer cinema, consegui fazer uns cursos fora e adquiri bolsa. Com persistência, eu já tinha um coletivo de cinema, comecei a trazer algumas coisas que eu tinha buscado lá fora, eu criei meio que um projeto que eu chamava de B.O (Baixo Orçamento), que era produzir qualquer coisa que as pessoas produziam, mas sem dinheiro, sem orçamento. por isso o termo ‘Baixo Orçamento’ ou ‘nenhum orçamento’. Então a gente fazia tripé, equipamento de PVC, com cano de PVC, usando câmeras fotográficas e fazendo stop motion. Aí, eu percebi que dava pra driblar a falta de dinheiro usando reciclagem, substituindo o recurso financeiro pela criatividade. Só que com o passar do tempo, eu vi que a literatura tava ficando aquém de todas as outras artes, então a gente já tinha estúdio de música, já tinha companhia de teatro, já tinha coletivo de cinema, já tinha tudo o que você imaginasse, menos literatura”, relata. Foi então que Paulo César teve a ideia de fundar uma editora de livros, junto com uma gráfica, para publicar aqueles escritores que tinham muita dificuldade para entrar no mercado editorial. Por isso, a primeira coisa que ele fez foi um mapeamento para saber se havia muitos escritores no bairro de Heliópolis e descobriu muitas histórias e casos tristes de autores frustrados com a publicação de seus livros. “Teve um cara que vendeu o carro pra publicar livro. Porém, foi um fracasso, a mulher se separou dele, ele teve que voltar a morar com a mãe. De mil livros, se não me engano, ele tinha vendido uns 100 ou 150, alguma coisa assim. Sei que na casa dele tinha por volta de quase 800 livros. Você não faz ideia do que é 800 livros numa casa pequena, de favela, que você tem que dividir o cômodo com um monte de gente. Enfim, ele começou a praticamente panfletar o livro dele. E teve problemas seríssimos, psicológicos. Então, resumindo a história dele, um sonho virou totalmente um pesadelo, uma frustração terrível”, diz PC. “Porque se não for nós por nós mesmos, não vai cair do céu, ninguém vai vir aqui e falar ‘nossa, tem muito talento brotando aqui, eu vou fazer o seguinte: vou pegar 50 pessoas e eu vou montar uma editora pra vocês’. Não, isso jamais aconteceria e eu entendia isso. Sempre tive esse enten31
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dimento que nada ia cair do céu, não ia ter um bom samaritano.” Depois de entrevistar cada escritor no processo de mapeamento, Paulo César e sua equipe listaram uma sequência de problemas que os escritores tinham para publicar suas obras e, para cada apontamento negativo, eles tentavam criar uma solução. Então, uma das coisas que tiraram do projeto foi a distribuição. “O sistema acaba ficando caro, como para colocar livro nas editoras tradicionais, na Saraiva, além do fato de existir muita coisa nesse sistema mercadológico que pro empreendedor é muito cruel. Então, você vai receber o dinheiro depois de 90 dias que a loja vendeu o livro, porque ele fica numa consignação. Você recebe de 4 a 10% da capa. Seu livro vai tá num preço alto, não em preço popular. Então, qual foi a ideia? A gente criar um modelo de negócio que favorecesse o escritor. Então, dentro desse modelo de negócio, a gente tirou a distribuição, e a gente cobra o valor de custo do livro da pessoa. Por exemplo, vou dar uma ideia aqui. Um livro de 120 ou 110 páginas sairia mais ou menos pro escritor 8 reais ou 8, 20 o preço, e ele venderia de 20 a 25 reais. Ou seja, ele ultrapassava a margem de 100%. E a gente criava eventos e parcerias pra que ele pudesse vender o livro dele. Também exista um estudo realizado para saber o que o público mais gostava, e, com base nisso, se criava possibilidades pra aproximar o público da obra de determinado escritor. Então, por exemplo, era estudado onde tá tendo feira disso, onde tá tendo feira daquilo. Se fulano não gosta desse tipo de literatura, mas gosta de cosplay, então cadê a galera do cosplay? Cadê as turmas? Então fazíamos todo um trabalho, tinha todo um estudo nesse sentido, individualizado, pra poder achar o público dessas pessoas. E foi um sucesso tremendo”, relata Paulo. PC conta que não cobrava dos escritores para realizar um trabalho de editoração, só se cobrava o preço de custo da unidade e, ao final, se a pessoa concordasse em publicar pela editora dele, era cobrado uma contrapartida. “Então, essa contrapartida era qualquer coisa que a pessoa quisesse fazer em prol da favela, em prol das pessoas. E aí nasciam contrapartidas maravilhosas. Pois, dessa forma, nasceu curso, nasceu workshop, nasceu oficina, slam, sarau, rodas de conversa.” diz. “Se uma pessoa sabia fazer capa e design, ela ia lá e fazia pro coleguinha 32
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que não tinha recurso pra fazer, por exemplo, a mesma coisa era pra quem sabia fazer revisão. E isso foi uma parte muito legal do projeto, porque acabou fazendo um intercambio entre os artistas. Uns amigos veteranos na área da cultura me ensinaram que projeto bom é um projeto vivo, que se modifica conforme vai acontecendo, porque as pessoas estão em constante mudança e o mundo também. Por isso, se você tem um projeto que não acompanha essas mudanças, ele é engessado. Então, fica comprometido por não acompanhar as mudanças. Nosso projeto, nesse sentido, de intercambio dos artistas, era muito vivo e intenso. Então, a gente teve um ano muito difícil, porque tínhamos muitas atividades e não nos sobrava tempo para mais nada. Teve um momento que a gente não tinha mais agenda, tivemos que bloquear as coisas, porque não dávamos conta”, explica. Inicialmente, a editora surgiu como um movimento literário com a população escritora do bairro de Heliópolis, a fim de fomentar a escrita e a leitura, mas ela se tornou muito mais que isso, era uma questão emocional. Paulo César ia atrás das pessoas com sua equipe, tendo consciência que havia gente que recitava em saraus, por causa do mapeamento realizado no bairro. E os escritores, muitas vezes, eram inseguros com relação à própria arte de escrever e, alguns, não conseguiam se considerar escritores porque não tinham nada publicado. Por isso, Paulo os motivava dizendo: – Ah mas se você pensar assim, cê nunca vai publicar, porque tem que ter uma primeira vez. Escritor é quem escreve, gente, vocês tem um monte de texto e uma pasta cheia de coisa, quem disse que cê não é escritor? Dessa forma, ele e sua equipe trabalharam primeiro a autoestima dos escritores, para depois começar o trabalho com eles na editora. Paulo conta o caso de um homem cujo o nome era Edmundo. Ele devia ter por volta de 60 anos, dava aula de caratê, era psicólogo e sempre realizou trabalho voluntário no bairro, sendo muito querido por todos. Um dia, Paulo o encontrou na favela e ele lhe disse: – E aí, PC? Aquela editora é pra todo mundo? – Sim, é pra todo mundo. – Até pra quem não escreve? – questionou Edmundo. E Paulo disse: – Então, é pra publicar. Mesmo que a pessoa não escreva, 33
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ela vai ter que sentar uma hora e escrever, então a gente publica. – Não, sabe o que é, meu querido? Eu tenho umas ideias aqui, tenho um material bom pra escrever, mas como? Eu sei que é difícil publicar, é caro, eu nunca me concentrei nisso, em sentar pra escrever, mas eu tenho um monte de material e tenho algumas ideias boas aqui. – Meu, então toca pau. – disse Paulo César. Ele conta que casos assim era comum de acontecer. Muitas vezes, os escritores ficavam surpresos e felizes quando descobriam que havia uma editora no bairro deles e que tinha interesse em publicá-los e pensavam “poxa, tem uma editora aqui e é pra mim, não vou precisar passar por uma seleção, não vou precisar passar por uma burocracia, não vou precisar gastar o que eu não tenho, então eu vou colocar o meu projeto em andamento”. Então, tiveram pessoas que fazia muito tempo que não escreviam nada, estavam parados e engavetaram seus projetos, mas quando souberam da editora, voltaram a escrever. De 36 pessoas que publicaram pela Editora e Gráfica de Heliópolis, pelo menos uns 60% estava dentro desse aspecto que PC citou. Então, a editora no bairro de Heliópolis foi uma forma de romper as barreiras que impediam os escritores de se lançarem no mercado editorial.
Imagine como Rubê
Lá na pequena cidade de Cajazeiras, divisa com Ceará, no alto do sertão, um dos lugares mais simples e humildes do município, nasceu o artista Rubenildo Limeira, popularmente conhecido por Rubê. Quando tinha em torno de 5 ou 6 anos de idade, ele viu, pela primeira vez, uma televisão. Naquela época, era daquela em preto e branco, mas muito difícil de ter em toda casa. Rubê ficou deslumbrado quando seu pai-avô (como gosta de chamá-lo), ligou aquele tubo recheado de imagens e com um baú de madeira atrás. Ele rodeava a TV, não conseguia tirar seus olhos daqueles botões que a compunham. Ao ver todas aquelas pessoas dentro da caixa, o garotinho disse: – Eu vou trabalhar aqui dentro. – porém, ele não tinha ideia 34
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de como fazer para entrar ali. Rubê sempre foi o tipo de pessoa que ama escrever, guardava seus textos e se lembra com clareza de como se envolveu com a arte de contar histórias: “Fui descoberto na escola, na 5ª série. Eu escrevi meu primeiro texto, em 1998, quando uma professora me pediu pra escrever sobre o planeta. Inclusive, sempre que eu vou me apresentar, eu mostro esse texto pras pessoas”, diz, falando um pouco da carreira como humorista. Depois desse episódio, o artista nunca mais parou de escrever e vivia buscando uma oportunidade para publicar os textos que sempre guardava em seus cadernos. E ela surgiu em 2009, quando ainda morava em Cajazeiras. “Então, eu me inscrevi em um projeto de incentivo à cultura, da Secretaria de Cultura lá dá minha cidade, e nessa época eu consegui um incentivo de 1500 reais. No entanto, pra publicar o livro, eu necessitava de 7 mil reais e, naquela época, pra mim, era muito dinheiro, mas eu fui correr atrás do restante. Então, eu peguei os 1500 reais e comecei a imaginar formas de duplicar e triplicar aquele valor. Eu fiz uma rifa e, por exemplo, comprava uma TV e um som, mandava fazer uns mil bilhetes de rifa, vendia e guardava o dinheiro. E depois desses 1500, eu consegui uns 7, 8 mil, quase 8 mil reais e deu pra publicar o livro. Depois, com mil exemplares, eu fui vender de porta em porta e vendi todos na minha cidade e nas cidades vizinhas. E consegui distribuir, muita gente comprou na região.” E assim nasceu a primeira edição de “Imagine como é”, um livro inicialmente composto por crônicas e poemas. Porém, quando se mudou para São Paulo, ele foi convidado a se juntar à equipe de PC Marciano, na editora e gráfica de Heliópolis e publicou, coletivamente, uma nova edição do livro, só que sem as crônicas, porém contendo o mesmo título. Rubê também publicou um livro chamado “Desses, desses”, pela editora e gráfica de Heliópolis e conta como foi a experiência de realizar o trabalho coletivamente: “No primeiro, lutei com um sonho que se sonhava sozinho, demorei muito mais, no segundo, eu embarquei num sonho coletivo, no qual, honrosamente, parte de um projeto sociocultural, de um projeto em que transformou as vidas das pessoas, projeto literá35
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rio incrível, em que tanto eu quanto várias pessoas publicaram de uma forma grandiosa. E isso me fez muito mais feliz, de saber que eram vários sonhos sendo concretizados, não apenas um. Quando se trata do processo de escrita, Rubê utiliza duas formas: a inspiração que o faz escrever com fluidez e rapidez extrema, fazendo com que ele mesmo se admire de como conseguiu um conteúdo tão rápido. E, às vezes, ele costuma prestar muita atenção no mundo à sua volta, na vida, nas pessoas e começa a escrever. “Quando isso acontece, é um texto proposital, eu tento alcançar o maior número de pessoas, com uma linguagem que alcance tanto as pessoas que não tem muito acesso a uma leitura mais aprofundada e um conhecimento maior, quanto as pessoas que tem graduações, que têm um contato maior com a literatura, com a leitura, de uma forma simples, mas eficaz, em que todos possam compreender. As pessoas que eu tento alcançar são todas, em suas diferentes formas de captar a minha mensagem, mas que ela seja entendível”, relata. Quando se trata de escrever, Rubê se inspira na vida e diz: “Bom, inspiração não falta. Inspiração quando as coisas estão bem, inspiração quando as coisas não vão muito bem, inspiração de esperança por uma vida melhor, um futuro melhor, uma sociedade mais justa, igualitária ou quando ocorrem injustiças. Infelizmente, é uma inspiração que a gente tem. Quando vários fatos da nossa vida, fatos pessoais, questões pessoais acontecem, a gente tenta transmitir o que sente, o que pensa, e como estão as coisas conosco. Enfim, são junções, as inspirações são muitas, e disso, a gente vai criando texto, falando para o mundo o que a gente gostaria que as pessoas entendessem, ouvissem e seguissem. E é daí onde aparece, do ser humano, da natureza, das várias crenças existentes, de tudo.” Rubê sempre teve o apoio de pessoas queridas para prosseguir com o sonho de ser um artista, a começar por seu falecido avô, que foi uma pessoa que sempre o motivou a alcançar seus objetivos, incluindo os planos de fazer uma faculdade. Ele conta que no último dia de inscrição, o encontrou morto em seu local de trabalho e quase desistiu da ideia de se inscrever na faculdade, porém, sua mente foi invadida por lembranças de vários momentos com o avô e do quanto foi incentivado a não desistir. 36
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Outra pessoa que sempre o ajudou foi sua avó e, também sua mãe, quando se mudou para São Paulo, sua filha de 10 anos, que sempre o inspira a continuar trilhando essa trajetória de vida, seu pai biológico, que o ensinou a ser responsável por sua própria história e a não depender totalmente de alguém, buscando sempre estar um passo a frente das dificuldades. Quando eu vejo esse povo lutador, quando eu vejo o pessoal da rádio, correndo atrás de fazer um Jornalismo e programas de qualidade, mesmo com as dificuldades, essa gente guerreira, que luta pelos sonhos todos os dias, pessoas que saem do anonimato e conseguem demonstrar pro mundo que são capazes de fazer através da cultura, da arte, da educação. Essas pessoas, esses herois verdadeiros, que são as pessoas que eu admiro, pais e mães de família. Querendo ou não são inspirações que você tem. E todas as pessoas que de uma forma ou de outra fizeram parte da existência.” Ele faz uma pausa e completa: “Da minha existência.” Atualmente, Rubê realiza diversas atividades culturais, como coordenar o MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), possui um programa na rádio de Heliópolis, o qual ocorre das 12 h às 14 h. É coordenador da editora e gráfica de Heliópolis, é humorista e faz stand-up sempre que lhe é possível. Pois, por não conseguir viver da arte, ele precisou realizar outros tipos de trabalho, para ter como se sustentar, porém, nunca desistiu. “Por que é o seguinte, na realidade, o que eu sou mesmo é humorista, poeta e faço trabalhos artísticos, tudo voltado à comunicação, não é a toa que eu tô na rádio, mas eu tive que fazer outros trabalhos, por conta de não conseguir ter abertura necessária pra fazer o que realmente amo e viver disso. A gente tá no Brasil, a gente sabe. No entanto, tudo o que eu faço na minha existência, ao acordar, dormir, sonhar e realizar, é em busca de viver do que eu amo, mesmo que eu esteja em qualquer outro tipo de função ou trabalho, tudo é voltado à minha arte, porque eu preciso dela pra ser alguém, pra me sentir alguém e não apenas uma parte na engrenagem, e é aí que eu faço a diferença, por isso eu tenho essa ânsia de lutar pelo que eu amo de verdade, pelo que eu quero fazer da minha vida, estou aos poucos conseguindo, não é tão fácil, quando você escolhe o caminho da luta e da 37
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perseverança, não é fácil, porque existem vários obstáculos”, conta. O escritor também participa de um projeto de incentivo à contação de histórias, na rádio Heliópolis, através da APOESP e da professora Bebel, que, atualmente está como deputada, mas está realizando essa ação junto aos educadores da rede estadual, na qual fazem contação de histórias tanto falada quanto escrita e Rubê apresenta no quadro “baú de histórias”, no programa Bairro Educador, às terças-feiras. Porém, o programa é apresentado de segunda a sexta. Rubê também conta que sempre teve a ânsia de viver da arte e da cultura, mas não se limitou a isso, teve que percorrer outros caminhos, como quando fez o curso de Filosofia, chegou a dar aula, assumiu a direção de uma escola e a coordenação também. Portanto, ao longo dos 38 anos de vida que ele tem, já realizou muitas coisas. O escritor também participa de um projeto de incentivo à contação de histórias, na rádio Heliópolis, através do APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) e da professora Bebel, que, atualmente está como deputada, mas realiza essa ação junto aos educadores da rede estadual, na qual fazem contação de histórias tanto falada quanto escrita e Rubê apresenta no quadro “baú de histórias”, no programa Bairro Educador, às terças-feiras. Porém, o programa é apresentado de segunda a sexta.
A coragem de ser quem realmente é
Elizandra Souza é mais do que um tom de pele. A cor não importa e, sim, o que ela carrega dentro de si, o caráter e as obras que escreve, embora passe e viva muitas situações de racismo e machismo pelo simples fato de ser uma mulher negra. Muitas vezes, não se pode fazer uma distinção ou separação de ambos os preconceitos. “Eu sempre passo por situações que, às vezes, podem ser mais sutis, como ser seguida no supermercado. Uma vez, na Cacau Show, eu fui seguida e toda hora perguntavam o que eu queria comprar, ofertando várias coisas. A atendente não me deixava nem respirar”, conta a escritora. Quando se trata de machismo, ele pode ser tão evidente, que pode surgir até mesmo de um amigo ou pessoas mais próxi38
Por amor ao impresso
mas. Por isso, Elizandra fez um poema sobre o assunto, ao qual intitulou de “Em legítima defesa”, que aborda assuntos como o feminicídio, porém, ela não foi compreendida pelas pessoas. “O machismo e o racismo entram num lugar dentro da gente que nos coloca nessa posição de inferioridade, de que somos menos, de que merecemos menos, de que não merecemos oportunidade, de que não merecemos viver. Então é muito… dolorido e, muitas vezes, pra provar situações de racismo é muito difícil, porque ele manda pra gente como se fosse algo que foi impressão minha. Quantas vezes eu entrei em lojas, principalmente, loja de shopping e eu era a última a ser atendida? Isto é, Quando era atendida! Ou quando os atendentes pensavam ‘ah, será que ela vai comprar?’, sabe? Essa dúvida da minha capacidade. Eu sou formada em Jornalismo, e as pessoas dizem ‘Ah, você é jornalista? Mas eu nunca te vi na TV’ ou ‘você é escritora? Publicou livros?’ Então, essa dúvida de que eu não sou o que eu sou, sabe? É muito complicado. O racismo é cruel, fica o tempo todo querendo tirar a nossa potencialidade, fica o tempo todo nos oferecendo morte, a morte dos nossos feitos, a morte de a gente ser o que é, a morte física. A polícia mata e mata pessoas negras. O índice de feminicídio tá lá em cima. As mulheres morrem por serem mulheres, e as mulheres negras morrem por serem mulheres negras. Então, a gente observa as estatísticas, quem mais morre são mulheres negras”, relata. Elizandra ainda conta que as mulheres negras chegam a receber menos anestesias quando vão ter um filho pelo simples fato de serem negras. Apesar de não ser mãe ainda, ela fala, com certo tom de revolta na voz, sobre o caso de amigas negras que aconteceu exatamente isso. Pois, por mais que não tenha vivido essa experiência, a escritora sente na pele, como se tivesse acontecido com ela mesma. A escritora relata que a sensação que se tem é de que não há descanso e a luta é constante por um espaço na sociedade, sem ser discriminada pela cor ou pelo gênero. Porém, apesar dos preconceitos, ela prefere focar nas coisas boas que vem construindo, porque o preconceito já teve voz por muito tempo e a hora agora é de expressar um protagonismo afrodescendente, porque quanto mais se fala de um assunto, muitas vezes, ele acaba se fortalecendo. Os 39
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
negros viveram por muitos anos sendo alvo de racismo e eles sempre foram vistos como inferiores e meros figuristas ou coadjuvantes, mas nunca como pessoas fortes e protagonistas da própria história. Sendo assim, Elizandra tira o preconceito de cena e resolve colocar não só a ela mesma, mas também às mulheres negras, como personagens principais nos palcos da vida, como seres humanos, pessoas repletas de complexidade e completas, com suas vivências, experiências positivas, a fim de tirar o machismo e o racismo do centro, porque eles não merecem. Por isso, Elizandra se vinga constantemente do preconceito em suas obras, como uma forma de mostrar e demonstrar o quanto se pode vencer na vida independente do gênero e tom de pele, além de incluir a cultura afrodescendente da qual ela faz parte. Pois, o racismo acaba sendo tão sofisticado, que atravessa o tempo e marca presença em todas as gerações. Também é tecnológico, porque está em todos os lugares. Parece que não há como fugir dele quando se é negra, porém, é através da escrita que Elizandra encontra armas para lutar contra isso.
A arte da literatura negra feminina
Elizandra Souza é o tipo de pessoa que sofre muitos bloqueios criativos, por não conseguir desenvolver uma rotina de escrita, porém, busca se desafiar constantemente. Ela acredita que para escrever, é necessário ter mais transpiração do que inspiração. Ou seja, a escrita é um trabalho árduo, que exige esforço, foco e persistência. Achar que só acontece quando se tem inspiração é um mito, por mais que, às vezes, a escritora tenha esperanças de se inspirar e produzir muito conteúdo, por isso acaba não produzindo tanto, pela ausência de inspiração. Porém, Elizandra se empenha em vencer os bloqueios e tenta criar uma rotina na qual possa se dedicar mais à arte de escrever. Quando se trata da escrita, Elizandra declara que escreve mais para si mesma do que para o leitor, pois, ela acredita que seus escritos acabam reverberando nos leitores. “Mas a minha escrita vem permeada por essa mulher negra que eu sou. Acabo colocando na minha escrita uma intenção politica de valorização e de cons40
Por amor ao impresso
trução de narrativas negras que tragam uma imagem positiva dos nossos personagens e, mesmo que não seja considerado positiva, traz as nossas subjetividades. Como eu mencionei anteriormente, a literatura brasileira nos tira essa subjetividade, essa humanidade, ou então coloca a gente em caixinhas que nos rotulam, nos enquadram em lugares que a gente nem sempre é, a gente é mais complexo que isso. E aí quando se pensa na literatura, na periférica também, na literatura negra, muitas vezes as pessoas leem pensando em encontrar também, dentro da literatura, falando apenas da periferia ou falando apenas da experiência de ser negro, nunca nos entendem e nos enxergam como pessoas um pouco mais complexas. Então, a transformação social que eu acredito que tem nas minhas obras vem por meio dessa disputa mesmo do imaginário, um imaginário que é racista e que vê pessoas negras como corpos que podem ser facilmente descartados, porque a gente pensa que o racismo é um dos nossos piores canceres. O racismo nos impossibilita de ter oportunidades de sermos quem a gente veio destinado a ser. Então, o racismo nos atravessa e nossa grande luta é que o racismo não seja o protagonista das nossas histórias. Então dentro dos meus textos têm essa luta incansável contra o racismo e o machismo”, diz. Elizandra conta que já publicou três livros, sendo eles: “Punga”, junto com o poeta Akins Kintê, da Edições Toró, em 2007; “Águas de Cabaça”, livro que fez sozinha, contendo somente poesias, publicado em 2012, pelo coletivo “Mjiba” e o mais recente, intitulado como “Filha do Fogo: 12 contos de amor e cura”, publicado em 2020, sendo o primeiro lançamento em fevereiro. A escritora nunca foi em busca de editoras tradicionais ou do grande mercado convencional, assim como nunca recebeu um convite por parte delas. “A gente nunca procurou [editoras tradicionais], mas conheço escritoras que procuraram. A gente vê pelos catálogos. Com o trabalho na página Literatura Negra Feminina, eu tenho me debruçado a olhar os catálogos, a quantidade de escritoras negras presentes nos catálogos é bem reduzida e as poucas escritoras negras que aparecem são muito acima da média, por exemplo Toni Morrison, que foi nobel de literatura, Djamila Ribeiro, que é uma das escritoras que mais vende no Brasil. Geralmente, as editoras tradi41
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Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
cionais vão publicar mulheres que já são celebridades, pessoas com reconhecimento de toda a sociedade e tem todo um suporte midiático. E eu sou muito feliz quando isso acontece, mas a gente percebe pelos catálogos que elas fazem parte da exceção”, relata a escritora. Sendo assim, Elizandra não viu outra opção para publicar seus livros, por isso recorreu à autopublicação. Um outro fator que a levou por esse caminho foi o fato de acreditar na leitura, por ter vindo de movimentos literários como saraus. Ela acredita na literatura periférica afrodescendente, por ser potente e necessária, pela disputa de narrativa, pensando que a literatura brasileira convencional, na maioria das vezes, trata as personagens negras de forma muito estereotipada, porque o imaginário que a sociedade tem é de um homem negro malandro, homem que não tem trabalho. Muitas vezes, apresenta-o como uma pessoa que não está nem ai pra família ou que não possui família dentro das narrativas, uma pessoa que não tem raízes e nem tem história, não tem passado e nem tem futuro. Geralmente, está ali fazendo a figuração em alguma cena. Com relação às mulheres negras, elas são retratadas ainda hoje de uma forma estereotipada, como a mulata sensual, isto é, quando ela não está na servidão, fazendo papel de empregada doméstica. E isso é muito característico de uma sociedade que tem uma herança muito escravocrata ainda. No entanto, de acordo com Elizandra, isso vem mudando muito a partir de movimentos literários de autores negros e autoras negras engajadas nessa luta por positivar a imagem da população negra e disputar o imaginário brasileiro.
A experiência com a série Cadernos Negros
Cadernos negros é uma série de uma editora independente chamada Quilomboje, totalmente voltada para escritores negros que queiram publicar seus livros. Criada em 1978, por Kuti e Paulo Colina, a série vem prosseguindo ano após ano, trazendo novidades e lançando novos autores. O próprio nome “cadernos negros” é uma inspiração dos cadernos da escritora negra Carolina de Jesus, que deram origem ao livro “Quarto de Despejo”, pelo 42
jornalista Audálio Dantas, que decidiu dar visibilidade aos diários que ela escrevia. A série tem 42 anos de existência e, quando Elizandra nasceu, já existia, levando em conta que ela tem 37. Logo, a escritora também publicou por lá. Atualmente, a série é organizada pelo casal, Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa. “E eu, como escritora, olha que felicidade poder partilhar e ser contemporânea das pessoas que fundaram o ‘cadernos negros’. Então, eu to sempre reverenciando essas pessoas, que abriram esses caminhos. A própria Conceição Evaristo sempre faz questão de dizer que é fruto desse movimento literário que começou com cadernos negros, mas que já tinham outras iniciativas que vieram antes. Então, cadernos negros é uma inspiração supernecessária (sic), acho que vale a pena ter essa experiência”, diz.
O surgimento do coletivo Mjiba
Elizandra Souza idealizou um coletivo de autopublicação ao qual pôs o nome de MJIBA para publicar autoras negras, devido à ausência e pouca visibilidade de mulheres escritoras negras no mercado editorial. Sendo assim, ela pensou em cada detalhe, cada etapa da produção editorial. “A gente faz os livros com o amor de quem é leitor, então a gente pensa em todas as etapas do livro, desde a ilustração, projeto gráfico, toda a construção da identidade visual, a revisão dos textos, até a parte mais formal e burocrática de registrar o livro na Câmara Brasileira de Livros, então, o registro ISBN (International Standard Book Number), que é gerido pela Câmara Brasileira de Livros”, diz a autora. Elizandra conta que o nome “Mjiba” é uma palavra chona, vinda de Zimbábue e significa “jovem” e “mulher revolucionária”, que é exatamente a proposta que ela tenta passar através do coletivo. “E eu conheci essa palavra num livro de literatura chamado ‘Zezelê: uma carta pra minha filha’, da escritora J. Nozipo Maraire. E nesse livro, falava que as Mjibas eram mulheres guerrilheiras, que lutaram pela liberdade de Zimbábue, por isso eu 43
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
me identifiquei muito, pelo seu significado e essa luta que a gente vem travando pra divulgar e difundir a literatura negra feminina. Elizandra também publicou “Narrativas Pretas”, primeira edição literária de uma antologia no Sarau das Pretas, no ano de 2020, em comemoração ao Dia da Mulher Negra, que ocorre em 25 de julho, na qual faz uma homenagem às autoras Luz Ribeiro e Miriam Alves. Atualmente, a escritora investe em divulgação das suas obras através de suas redes sociais e, dessa forma, consegue disseminar a literatura negra feminina, a qual tanto ama e que faz parte de sua identidade.
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Capítulo dois
Um apoio político às artes literárias
Q
uando se fala em publicação se livros de forma independente na cidade de São Paulo, também se deve levar em consideração a participação da prefeitura do município nesse processo e o que tem sido feito em termos de políticas públicas para que os escritores tenham um apoio financeiro para publicarem suas obras, principalmente quando o autor é de baixa renda ou não possui um contrato com alguma editora. Por isso, existem alguns programas que foram criados pela prefeitura do município de São Paulo, no intuito de fomentar e incentivar a produção literária independente e, assim, contribuir com o fortalecimento, reconhecimento e valorização da literatura nacional na cidade. No ano de 2017, a Secretaria de Cultura de SP começou a fazer editais de fomento para novos escritores que publicassem de forma independente. Para participar desses editais, os autores não poderiam ter publicado nenhum livro antes, por nenhuma editora ou plataforma digital. O incentivo que estava sendo ofertado era de 15 mil reais para os projetos que fossem contemplados. Na mesma época, o escritor Thiago Lee, de 32 anos, buscava um meio para publicar “O homem vazio”, um livro de fantasia urbana que se passa em São Paulo e conta a história de um jovem que descobre um mundo paralelo, no qual existe outra versão das pessoas, incluindo a de si próprio. Sendo assim, por indicação do amigo, Sandro Moura, Thiago se inscreveu no PROAC, um programa do Governo do Estado de São Paulo de fomento a atividades culturais, porém não deu certo. Mas nem por isso o escritor desistiu, ele continuou vasculhando o site da Prefeitura de São Paulo até encontrar os editais para publicação de novos escritores. Ele conta que naquela época, seu livro não estava totalmente completo, mas, mesmo assim, se inscreveu e acabou sendo selecionado. 45
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
“Quando eu me inscrevi no edital, o livro tava um pouco menos da metade e assim que eu passei, vi que eu tinha uns sete meses para correr com a escrita do livro, então eu fui atrás de escrever tudo e foi bem na época que eu fiz uma viagem de férias, então eu terminei o rascunho, mandei para algumas pessoas de confiança para dar uma lida no livro, e assim que eu voltei de viagem das férias, as pessoas tinham terminado e eu peguei o livro de volta e comecei a lapidar ele, a deixar mais interessante, a melhorar um pouco a escrita e, depois, com dinheiro do edital, paguei o revisor, e todo o processo editorial”, explica. Thiago Lee admite que nunca havia participado de um edital e nem procurado coisa do tipo antes, porém, ao ser contemplado no 1º edital da Prefeitura, ele ficou surpreso e, ao mesmo tempo, feliz. O escritor acredita que, de certa forma, seu livro tenha se encaixado diretamente com a proposta do edital, levando em conta a ambientação na cidade paulistana, na qual a história se passa. Porém, apesar de ter sido contemplado com um estímulo de 15 mil reais para publicar seu livro, Thiago percebeu que nem tudo era flores. Pelas regras do edital, os livros deveriam ser publicados somente impressos e com, no mínimo, mil exemplares, os quais somente 150 seriam enviados para as bibliotecas públicas, enquanto os 850 ficariam com os próprios escritores. Para o escritor, era surreal que uma publicação independente pudesse alcançar um número tão grande de vendas, ainda mais porque era em formato impresso. Thiago argumenta que ainda se uniu a outros escritores para pedir à Prefeitura da cidade que mudasse a regra do edital e deixasse que o mínimo de exemplares fosse de 500, porém, não foram ouvidos, uma vez que, as regras já estavam publicadas e expostas no Diário Oficial da União. “Alguns [escritores] contemplados conseguiram uma editora por trás do livro deles, mas não foi o meu caso, então até hoje eu ainda tenho livros em caixas aqui em casa, embora já tenha conseguido vender mais da metade”, comenta ele. Thiago atenta para o fato de já terem se passado dois anos desde a publicação de seu livro e que esse fator dificulta as vendas na atualidade. Outro problema que Thiago enfrentou para publicar seu livro foi o processo burocrático que envolvia o edital. Ele conta 46
Um apoio às artes literárias
que a Prefeitura não liberava o valor estipulado todo de uma vez. Ou seja, ele recebeu 12 mil reais para realizar todo o processo de editoração do livro e os outros 3 mil só recebeu após o fechamento do edital. O grande problema disso foi que o escritor havia feito o orçamento para 15 mil reais, de modo que para realizar alguns processos editoriais, ele precisou pedir um empréstimo de 3 mil reais ao banco, o qual pagou somente depois de receber o mesmo valor da Prefeitura, porém, teve que devolver com juros e acabou tendo que tirar dinheiro do próprio bolso. “Então, foi uma dificuldade que, a meu ver, não tem sentido, tudo bem que esses 3 mil é um resguardo deles, porque pode ser que a pessoa faça alguma coisa fora do comum, mas assim, eles se propõem a dar o dinheiro e eu não consigo pagar os fornecedores porque o dinheiro não tá disponível, entendeu? Tudo bem que tem a venda dos livros, mas esse dinheiro de juro de empréstimo, eu tive que arcar”, comenta. Apesar de os problemas enfrentados para publicar o livro, Thiago argumenta que teve liberdade para usar o dinheiro como queria e foi um processo interessante, ainda que sofrido, de certa forma. Depois de todo o processo que Thiago passou ao publicar “O homem vazio” pelo edital da prefeitura, ele foi agenciado e faz parte da agência literária “Página Sete”, lançou um livro digital infantojuvenil chamado “A maldição do carneiro de ouro” e sonha em publicar seus livros através de uma grande editora, por isso, sua agente é responsável por sondar e procurar editoras que estejam interessadas nas histórias que Thiago gosta de contar. Porém, uma coisa que ele gosta na publicação independente é a liberdade na qual o escritor não apenas escreve, mas também se responsabiliza por todo o processo editorial e, ao mesmo tempo, pode-se aprender com ele, da mesma forma que Thiago aprendeu, por isso, ele pretende continuar lançando obras independentes, embora esteja em busca de uma editora.
O surgimento do 1º Festival Mário de Andrade
Em 2018, a prefeitura deu continuidade com os editais e 47
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
aumentou o incentivo para 20 mil reais. Porém, do ano de 2019 em diante não se ouviu mais falar no assunto e a Secretaria de Cultura do município paulistano parou com os editais. De acordo com uma matéria realizada pela Folha de S. Paulo, em uma nota realizada pela Prefeitura, isso ocorreu porque a Secretaria da Cultura resolveu promover outras ações, como o 1º Festival Mário de Andrade – A Virada do Livro, ocorrido do dia 4 ao dia 6 de outubro de 2019. Embora o Festival Mário de Andrade não tenha relação com os editais para escritores, acabou sendo algo mais abrangente, visando reunir não só escritores, mas livreiros, leitores e editores, sejam independentes ou não, também como uma forma de disseminar a cultura do livro na cidade. Por isso, o evento ocorreu em espaços abertos, para que qualquer pessoa que passasse pelo local tivesse acesso. Ou seja, enquanto os editais tinham suas regras e eram destinados apenas a um número delimitado de escritores, o festival buscou aproximar as pessoas do mundo da literatura e ajudar escritores a divulgar seus trabalhos. Para a realização do festival, as ruas do centro da cidade foram fechadas para dar lugar ao “Corredor do Livro”, no qual foram montadas várias tendas com livros de vários autores diferentes e, por onde o público passava, poderia escolher até dois livros de cada tenda e levar sem pagar, pois o objetivo era o incentivo à leitura sem fins lucrativos. Por isso, também era comum ver as pessoas segurando livros e discutindo sobre poemas e até mesmo recitando. O “Corredor do Livro” teve início na Praça das Artes e foi marcado pela apresentação de “Yebo”, um espetáculo de dança criado pelos trabalhadores das minas de ouro da África do Sul. Depois, passou pela rua Coronel Xavier de Toledo e pelo Theatro Municipal, além de o festival se espalhar pelos Centros Culturais como o Tendal da Lapa, Centros Culturais Negras e Centro Cultural da Juventude. No dia seguinte, as ruas foram ocupadas pelo espetáculo “Um Quilômetro de Baile”, pelo grupo “Bolo de Rolo”, que realizou o trajeto da Biblioteca Mário de Andrade até a Praça das Artes. Já no último dia do evento, dia 6, a atriz Fernanda Montenegro marcou presença no Theatro Municipal para o lançamento de seu livro “Prólogo, Ato, Epílogo”. 48
Um apoio às artes literárias
De acordo com a Prefeitura de São Paulo, o festival foi realizado no intuito de incentivar o hábito da leitura na cidade e valorizar a pesquisa científica e o trabalho de diversos escritores e novas editoras. No entanto, o evento também teve a participação das editoras tradicionais, como a Companhia das Letras, Record, Planeta, Saraiva, etc. O festival também contou com a participação de alguns coletivos que abordam assuntos feministas, raciais e LGBTQ+.
Valorizando produções culturais
O programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) foi criado pela prefeitura do município de SP, com o intuito de apoiar financeiramente iniciativas culturais de pessoas que não possuem renda o suficiente para produzir suas próprias obras, sejam elas literárias ou não.. Sendo assim, ele é organizado em duas modalidades: uma para jovens iniciantes e outra para pessoas com mais de dois anos de experiência comprovada. Foi através do VAI que a escritora Elizandra Souza conseguiu verba para financiar o coletivo MJIBA – Mulheres em Ação, que visa dar visibilidade e espaço para a arte periférica de mulheres negras. “A gente escreveu o nosso projeto pra um edital chamado VAI a gente fez nos nossos moldes, do jeito que a gente idealizava ser um livro, lembrando que os livros do coletivo Mjiba, a gente faz com o amor de quem é leitor, então a gente pensa todas as etapas do livro, desde a ilustração, projeto gráfico, toda a construção da identidade visual, a revisão dos textos, todas essas etapas, até a parte mais formal e burocrática de registrar o livro na Camara Brasileira de Livros”, explica Elizandra. A escritora ainda diz que quando o coletivo MJIBA começou, não havia investimento financeiro, apenas o apoio de amigos que ajudavam com equipamentos para realizar o evento, e foi assim em duas ocasiões, até Elizandra inscrever o projeto no VAI e ser selecionada, para assim, dar continuidade ao seu sonho, na busca de um espaço para expressar não só sua arte, mas a de mulheres que, assim como ela, nasceram na peri49
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
feria e tiveram que lutar contra preconceito racial e machismo.
O programa RUMOS
O RUMOS, do Itaú Cultural, é um programa, no qual as pessoas podem se inscrever com seus projetos e aguardar para ver se serão selecionados ou não. Caso o projeto seja aprovada, a pessoa recebe uma quantia em dinheiro para colocá-lo em prática. Foi o caso da Editora e Gráfica do bairro de Heliópolis, que, como o fundador Paulo César Marciano não tinha condições financeiras o suficiente para dar vida à editora, optou por elaborar o projeto e inscrevê-lo no RUMOS. “A gente se inscreveu e foi contemplado na edição RUMOS 2018 – 2019, com um valor de 99. 800 mil, quase na casa de 100 mil. E a gente trabalhou durante um ano com esse dinheiro, montando uma gráfica, uma editora, tendo equipamento, insumo, matéria-prima, etc.” relata o empreendedor. Foi graças a esse incentivo que a Editora e Gráfica de Heliópolis conseguiu ajudar vários escritores que não tinham como publicar os seus livros, pois. Esse foi apenas um caso do que o programa realizou ao longo dos anos, pois o programa já chegou a contemplar mais de 1400 propostas, em várias áreas relacionadas à pesquisa ou expressão. O RUMOS é considerado um dos pioneiros em editais públicos no Brasil e teve mais de 64 mil projetos inscritos, vindos de diversos estados brasileiros e até mesmo de alguns países no exterior. O Rumos também pensa em acessibilidade ao disponibilizar em seu site, conteúdos em libras.
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Capítulo três
A ascensão do e-book e a democratização da leitura
P
ublicar livros no Brasil era difícil. Bastava observar o sufoco que vários autores já passaram para pensar “será que compensa?”. Os escritores enviavam seus originais a uma editora e esperavam pela resposta. Há muitos casos de manuscritos que foram rejeitados por não se enquadrarem nos moldes que as editoras desejavam e, muitas vezes, quem não se enquadrava era o próprio autor. Por isso, escrever podia ser fácil para aqueles que entendiam bem do assunto, mas publicar era outra história. Força de vontade era ótimo, mas não bastava, precisava ter dinheiro, fama ou ser estrangeiro. O preço a pagar era alto e nem todos tinham condições. As grandes editoras só investiam em quem seria garantia de sucesso. Uma vez selecionado, o original passava por vários processos até ser chamado de livro. Primeiro, ele passava por revisões, depois diagramação, produção da capa, impressão e distribuição. Geralmente, a divulgação ficava por conta das editoras. Desse processo todo, o autor só ganhava 10% do lucro das vendas, porque 40% pertencia às editoras, enquanto 50% era das livrarias. Por isso, sempre existia o argumento de que era impossível viver da escrita no Brasil. Afinal, quem se sustenta somente com 10% dos lucros das vendas de livro? Ninguém. A menos que o autor consiga vender um número absurdo de livros, o que, geralmente, não é o caso de escritores iniciantes. Por isso, as plataformas digitais foram criadas, como um bote salva-vidas para os autores que estavam afundando em um navio literário, na tentativa de validar suas existências através de seus originais. Sendo assim, as plataformas digitais vieram como uma forma de facilitar o acesso de pessoas aos livros e ajudar qualquer pessoa a publicá-los. Dessa forma, nasceu o Clube dos Autores, o Wattpad e a Amazon, sites que oferecem o serviço de autopublicação sem cobrar nada e de uma maneira mais prática e independente, na qual todo o processo de produção editorial fica por conta do autor e ele pode escolher se vai fazer cada etapa sozinho ou vai contratar alguém que entenda do assunto. 51
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
Uma das maiores vantagens encontradas no meio digital para autopublicação é a possibilidade de obter um lucro maior, devido ao fato de o autor não ter uma distribuidora e nem envolvimento com editoras. Outra vantagem é que os preços de um livro digital costumam ser mais baratos do que o de um livro impresso e, dessa forma, se torna acessível para o bolso de muitos leitores. Apesar de o e-book oferecer tantas vantagens, nem tudo é um mar de rosas. Um dos problemas encontrados na hora de ler, é a iluminação das telas dos dispositivos, pois, muitos leitores acabam lendo pelo celular ou pelo computador e passam horas diante de uma iluminação azulada que prejudica a visão. No entanto, é um problema que já vem sendo solucionado, pois, de acordo com Adriano Batista, especialista em Mídias Digitais, existem estudos e muitos profissionais trabalhando para criar e aprimorar interfaces de leituras: “Uma coisa que tem bastante é um negócio chamado ‘design responsivo’, no qual o conteúdo se adapta ao formato da tela, então isso é uma forma de fazer com que as pessoas não cansem”. Adriano também aponta para o fato de que poucas pessoas conhecem as tecnologias que não prejudicam a visão e, muitas vezes, acabam forçando as vistas ao se obrigarem a ler livros em PDF e com letra pequena em um celular, porque o texto não foi adequado ao dispositivo, por isso o “design responsivo” é tão importante e deveria ser aplicado em todos os sites de leitura. Outra tecnologia encontrada para solucionar esse problema são os dispositivos “tela retina”, que foram criados pela Apple e possuem alta nitidez, fazendo com que o olho humano não consiga perceber os pixels e fazendo com que as imagens pareçam naturais. Dessa forma, o usuário não precisa forçar os olhos para conseguir enxergar com clareza e nem aproximar tanto o dispositivo do rosto. Porém, apesar dessas duas formas de novas tecnologias, para Adriano, a melhor delas é a utilizada nas últimas gerações do Kindle, um aparelho eletrônico semelhante a um tablet, criado pela Amazon, cuja a iluminação é amarelada e as páginas se assemelham às do livro impresso. Sendo assim, as novas tecnologias vem ganhando cada vez mais espaço no mercado editorial, formando novos leitores e auto52
A ascensão do e-book e a democratização da leitura
res, ajudando a democratizar a leitura e a um baixo custo. Por isso, os escritores Ailton Sena, de 23 anos, e Andreas Chamorro, de 26, não pensaram duas vezes quando descobriram na Amazon uma plataforma que poderia tornar reais os seus sonhos, de uma maneira prática e gratuita. Os únicos preços a serem pagos seriam: tempo e dedicação.
Uma história inspirada em fatos ficcionais
Dizem que o sonho de todo escritor começa quando ele é um leitor, porque seria impossível alguém desejar trabalhar com a escrita sem antes ter amor aos livros, mas um jovem autor paulistano é a prova viva de que não funciona assim, pois quando começou a escrever, não tinha nenhum interesse por literatura, pelo contrário, sua grande paixão eram os filmes de Harry Potter e foi a partir daí que ele tirou base para colocar suas ideias no papel. Nos livros, ele é conhecido por Leblon Carter, mas na vida real, seu nome é Ailton Sena. Embora haja certa semelhança entre seu nome verdadeiro e o piloto de fórmula 1, Ayrton Senna, havia um abismo de diferença entre ambos, porque enquanto um pilotou carros, o outro pilotava e dominava as palavras. Mas não é por causa dessa semelhança que o escritor utiliza um pseudônimo, ele o faz por pura estratégia de marketing para que as pessoas tenham interesse em ler suas obras, levando em conta a preferência da maioria dos leitores por livros estrangeiros e o preconceito e receio com autores nacionais. Não foram os livros clássicos nacionais que lhe despertaram o interesse pela escrita. Ele não queria saber das obras de Machado de Assis ou Monteiro Lobato, mesmo sabendo da importância delas, por serem necessárias para a cultura nacional, porém, a linguagem dos autores era ultrapassada e, na concepção de Ailton, o governo deveria atualizar os autores e livros dados para os alunos lerem, porque seria um verdadeiro incentivo para os estudantes. “Não tenta colocar um estudante de 12 e 13 anos para ler um Machado de Assis, por exemplo, ele provavelmente não vai entender ou não vai querer passar da segunda página, eu não passaria”, diz. O autor deixa claro que sempre foi uma pessoa mais vi53
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
sual, preferia ficar vendo vídeos no Youtube ou assistindo a filmes, mas jamais pegaria um livro de literatura clássica nacional para ler, justamente por causa da linguagem. “Então é assim, se você quer criar o hábito de leitura no jovem, você tem que colocar coisa que jovem quer ler e ele não quer ler sobre Capitu ou Bentinho1, o pessoal gosta de ver traição, mas coloque no contexto atual, não no contexto passado”, explica. Por isso, quando estava com 14 anos de idade, Ailton teve a ideia de escrever um livro de fantasia inspirado nos filmes de Harry Potter. Porém, para colocar sua história em um papel, não era só sentar e escrever, precisava de todo um planejamento por trás, porque escrever livros de fantasia envolve a criação de novos universos e isso requer tempo. Por isso, Ailton focou em pesquisar sobre nomes de personagens, os poderes que eles teriam, nomes das cidades e tudo o que aconteceria na história. Sendo assim, ele ficou de 2012 até o começo de 2015 apenas fazendo anotações sobre o livro pra, somente no dia 19 de março de 2015, quando estava com seus 17 anos, começar a escrevê-lo. “Quando eu comecei a escrever o livro, eu não conseguia parar, não tinha bloqueio criativo, nunca tive, pra falar a verdade, eu só tive preguiça mesmo” conta, soltando uma risada e completa: “Mas fluiu muito rápido, foi um livro que eu não tive muita dificuldade pra escrever”. Assim, surge seu primeiro livro, ao qual intitulou de “O Alquimista Prodígio e a Espada de Cobre”, mas o autor chama a obra carinhosamente de “OAPEC”. A história possui o gênero de fantasia juvenil, cujo o tema é a alquimia, no estilo dos filmes de Harry Potter, porém não fala sobre magia. Através desse livro, Ailton buscou expressar toda a sua criatividade narrando a história da personagem Alla, seus amigos e suas aventuras no colégio Foulst, instituição própria para alquimistas. Sendo assim, através dessa obra o autor aborda questões relacionadas à amizade, ao amor e evolução. “Porque se você tá na escola, você tem que enfrentar desafios e provas pra crescer e eu tento colocar muita ação e aventura, porque é uma coisa que eu gosto bastante, eu acho muito chato e monótono só aqueles capítulos que tem só conversas e assuntos paralelos, então sempre que eu faço um capítulo desse, no próximo 54
A ascensão do e-book e a democratização da leitura
eu já tento colocar um pouquinho mais de ação, porque eu adoro escrever cenas assim, porque fazem o livro fluir mais rápido”, relata. Para Ailton, escrever o livro naquela época foi fácil, considerando que ele havia acabado de entrar na faculdade de Cinema e estudava durante o período da noite, tendo a tarde e os finais de semanas livres para focar na escrita, pois não estava trabalhando. Porém, o livro não ficou tão bom em sua primeira versão. “Até então, eu nunca tinha lido nenhum livro do gênero [de fantasia], nem Harry Potter eu tinha lido, mas HP eu nunca li e não vou ler, porque eu não quero pegar referências, eu não quero pegar o estilo de escrita da J.K Rowling”, explica. Por isso, para escrever, Ailton sempre busca se inspirar em filmes, séries e qualquer coisa que seja mais visual, para não correr o risco de se deixar influenciar pela escrita de algum autor e carregar isso pra dentro de suas histórias. Depois de escrito, o livro foi publicado no Clube dos Autores sem ter sido finalizado ainda, por isso, o autor manteve no site durante apenas uma semana, pois o livro ainda não tinha o acabamento profissional que ele queria. “Então, a qualidade tava um lixo e o Clube dos Autores cobrava 50 reais o livro impresso, uma palhaçada, e eu pensei ‘ah não, vou tirar daqui, vou preparar o meu livrinho melhor, e depois eu busco outra plataforma’”, comenta. Depois, Ailton começou a mandar seu livro para algumas editoras que conhecia, porém, não teve um retorno tão agradável. “Todas elas me cobravam um valor absurdo! A PenDragon me cobrou 3 mil reais e eles falavam assim ‘A gente vai imprimir 500 livros, 250 é nosso e 250 é seu pra você vender e cobrar o seu valor’. É basicamente tipo, ‘toma esses livros aí e você que se vire pra vender’”, diz o autor, expressando indignação em seu tom de voz. “E eu nunca concordei com essa ideia de editoras, sabe? Eu pagar pra publicar? Peraí (sic), eu já levei um tempo do cacete pra escrever, eu tive que escrever, tive que criar, tive que pensar numa história revolucionária, superdiferente, perdi meu tempo, horas de sono, horas sentado na frente do computador, estragando as minhas vistas, estragando a minha coluna, pra falarem que eu tenho que pagar pra fazer tudo isso? Ah não, negativo!”, completa. Ele ainda conta sobre o caso da Buriti, editora com a qual o 55
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autor assinou contrato: “Eles me cobraram 600 reais pra fazer todo o processo, só que não deu certo, o cara me passou a perna, eu perdi esses 600 reais, então resolvi nem me estressar, só falei ‘me dá a quebra de contrato, seu desgraçado! Não tô com paciência pra aguentar você’ Aí o cara me deu a quebra de contrato e eu pensei ‘sinceramente, editora não vai fazer nada que eu mesmo não possa fazer”. A partir daí, ele mesmo começou a contratar as pessoas que fariam cada etapa do seu livro e que não trabalhavam em uma editora. Depois de passar por todo essa luta com as editoras, ele ouviu falar da Amazon e, mesmo não tendo ideia de como a plataforma funcionava, resolveu arriscar publicando por lá em formato de e-book para ver qual seria o resultado. O autor também desejou fazer o livro físico pela Amazon, porém, não deu certo, porque o processo é mais complicado, devido ao fato de o impresso vir dos Estados Unidos e acabar custando caro. “Fica muito caro o dólar pra fazer o câmbio, então tipo assim, o livro que custaria a 25 reais pra fazer, só vindo de lá já é 60, então fazer o físico pela Amazon não compensava”, explica. E foi assim que o autor pôde encontrar o que tanto desejava em uma editora: liberdade e independência para publicar seus livros como quisesse. “Sem a Amazon, eu não seria nada que eu sou hoje, não que eu seja alguma coisa, mas a Amazon é o que me sustenta basicamente, não de dinheiro, mas como editor, como autor, sabe? Ela me deixa independente, que é uma coisa que eu amo e eu gosto de falar assim ‘ai, a capa vai ser essa’, então a capa vai ser essa, eu não quero que a editora fale assim ‘hum, essa capa aqui não vende’, porque eu gosto de ter liberdade, eu não gosto que as pessoas tentem me controlar, eu não tenho paciência pra isso”. O autor ainda conclui que achou mais lucrativo publicar pela Amazon, pois ela não lhe cobrou os absurdos que as outras editoras estavam cobrando, além do fato de a plataforma oferecer todo o apoio e simplicidade para publicações a baixo custo. No entanto, o autor diz que vai deixar o e-book disponível na plataforma digital só até o final do ano, pois tem planos de lançá-lo em formato impresso e, para isso, já assinou contrato com uma outra editora. “Eu conheci o editor num evento literário que eu fui, só que eu falei pra ele ‘olha, eu não vou pagar 56
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capa nova, não vou pagar revisão nova, não vou pagar ISBN, porque já tenho também, se você quiser, pega os direitos autorais do livro só pra fazer o físico’, então, ele falou ‘beleza’”. Ailton relevou que também tem planos de lançar a continuação do livro em novembro de 2020, o qual já se encontra em processo de revisão, porém, ele pretende quebrar contrato com a editora para fazer o lançamento da continuação junto com o relançamento de “O Alquimista Prodízio e a Espada de Cobre” em uma próxima editora. Para o lançamento da continuação do livro, Ailton demonstra empolgação ao comentar como deseja realizá-lo: “Eu quero fazer um negócio bem da hora, eu quero fazer um evento de lançamento online, quero fazer uma versão exclusiva do meu livro de capa dura e fazer sorteio”. O autor leva em conta que os livros de capa dura custam mais caro para quem for comprar, porque é mais trabalhoso. Porém, para realizar todo o processo que ele deseja, é necessário uma boa quantia em dinheiro e, para isso, o autor entende que precisa trabalhar para conseguir. “Eu penso ‘se eu estiver em casa, eu consigo revisar os meus livros mais rápido, consigo escrever mais rápido, mas de onde eu vou tirar dinheiro para investir? Porque eu não quero pegar uma imagem qualquer e fazer a capa do livro ou fazer uma revisão simples, porque se eu ficar em casa, eu não vou ter dinheiro para pagar revisor, eu quero ter essa aparência profissional, eu quero que as pessoas olhem para mim e mesmo que eu não tenho o selo da Record ou da Companhia das Letras, eu apresente um bom trabalho”, relata.
Muito além da alquimia
Quando estava com 19 anos de idade, Ailton Sena escreveu um conto ao qual pôs o nome de “Mago dos Videogames”, abordando a vida de um personagem chamado Felipe, o qual é muito viciado em viodegame e, por ter sido reprovado na escola, os pais dele não lhe dão o videogame que ele tanto queria pra passar o ve57
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rão. Por isso, o personagem resolve fugir de casa pulando o portão, que, segundo Ailton, era o que ele mesmo fazia na infância, e vai para um fliperama no qual descobre que alguém havia lhe roubado o record em um jogo e ficou com a fama de “mago dos videogames”. Sendo assim, nasce uma rivalidade entre os personagens, depois se tornam amigos e a partir daí surge um romance. O conto possui apenas 15 páginas e se encontra disponível na Amazon. Depois, Ailton escreveu um outro conto, chamado “Água Fria”, que foi publicado em 2020, mas seu enredo se passa nos anos 2000. O tema presente na obra é a transsexualidade, porém o escritor faz questão de abordar o assunto de um jeito mais sutil, revelando a sexualidade do personagem apenas no final. A história é sobre a vida do personagem Jonas, que faz parte da equipe de natação da escola. Porém, quando entra uma aluna nova que é muito boa nesse esporte, ela começa a competir com ele para ganhar uma bolsa na faculdade. Ao final da história, Jonas descobre que a garota é transsexual e, pelas regras, não podia ter garotas no time masculino, por causa do contexto no qual o conto se passa. O final fica em aberto, pois não se sabe se Jonas denuncia ou não a menina. Entretanto, algumas pessoas não entenderam a mensagem que Ailton quis passar com sua obra. “A história se passa nos anos 2000, era outra visão, mas eu já cansei de explicar isso no Instagram, então quem não entendeu o conceito, entenda depois”, diz o autor. O outro conto do autor se chama “Regras da Zona Sul” e também é LGBTQ+. “Esse eu fiz especialmente pro meu aniversário, que foi no dia 7 de setembro, eu passei o mês todo de agosto só escrevendo esse conto, ele é baseado em um casal LGBTQ, de uma série americana que eu assisti”, confessa Ailton. “E foi um conto que eu realmente escrevi pra mim, eu tava a fim de fazer alguma coisa por causa do meu aniversário, e aí houve umas criticas, os meus parceiros do instagram que já me conhecem e já leram a OAPEC falaram que minha escrita evoluiu bastante e que eu tava mais maduro, mas também é obvio, esse conto eu escrevi com 22 anos, enquanto AOPEC eu escrevi aos 17”, afirma. Para Ailton poder se expressar e abordar temas como LGBTQ+ em seus contos é de extrema importância, pois é neces58
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sário dar visibilidade à comunidade da qual ele faz parte. “E as histórias LGBTQ+ , pra mim, são muito representativas, porque eu não vivo romance na minha vida normal, não me relaciono, nem nada e eu consegui me expressar dentro das histórias, criando narrativas que eu gostaria de viver ou que eu gostaria de ver outros escritores escrevendo é surreal, eu tenho basicamente o poder de criar mundos, criar pessoas, que no caso é personagens, e decidir o que acontece com cada uma delas, é uma sensação incrível”, diz. O autor também faz parte de uma antologia organizada por sua amiga, na qual eles precisavam escrever textos em formato de cartas, como se fossem mandar para seus ex namorados, ex amigos, etc. Em Julho de 2020, Ailton e mais dois colegas também organizaram uma antologia de poemas e prosas gratuitamente. “Porque hoje em dia, qualquer antologia que as editoras vão lançar, querem cobrar de autor iniciante e isso é uma coisa que eu não concordo, porque é basicamente pras editoras terem lucro”, comenta e depois comenta: “Eu tenho um amigo que é editor-chefe, ele lança muita antologia e realmente fala que antologias servem pra editora conseguir lucro”. Por isso, surgiu a ideia de fazer uma antologia de poemas em formato digital sem cobrar nada dos autores. Ailton e seus amigos também fizeram todo o processo de revisão, capa, diagramação, tudo voluntariamente. “A única coisa que a gente pedia pro pessoal era pra eles divulgarem também, mas de resto, os autores não pagavam nada, porque eu acho que é importante você que tá começando ter um currículo e isso, pra escritor, são obras publicadas e trabalhos feitos. Para divulgar suas obras, Ailton costuma usar bastante o Instagram, procurando parcerias e pessoas que possam fazer resenhas de seus livros. Esse método tem dado certo, visto que, ele manda o livro e a resenha geralmente sai dentro de dois meses. Logo, as pessoas começam a perguntar sobre o livro. Ailton também utiliza dos stories para falar sobre seus e-books, tanto no Instagram quanto no Facebook.
Diferenças entre o livro físico e o livro digital
Além de publicar e-books, Ailton Sena também já se ar59
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riscou no livro físico, porém não é muito viável para autores iniciantes, pois, as pessoas só costumam se interessar por livros de autores que já conhecem quando vão às livrarias. “Você estar numa editora pagando o tradicional e colocando seu livro na prateleira da Saraiva ou da Cultura era ‘nossa, você zerou a sua vida’, mas se você pensar um pouco, vai entrar naquela livraria e vai ter outras centenas de milhares de livros, a pessoa só vai até lá e comprar o seu livrinho se ela já sabe quem você é, se ela não sabe quem você é, acho que é 0,1 % de chance de ela fazer isso”, diz. O próprio autor considera o livro impresso como um artigo de luxo, pois está cada vez mais caro, pois, um leitor compra o livro por cerca de 40 reais, enquanto o autor vai receber apenas 3 reais pela venda de cada exemplar. Já com os e-books, por não ter livrarias envolvidas e nem editoras, apenas o site de publicação, o autor chega a lucrar cerca de 70% e o leitor compra por um preço mais acessível. Por isso, Ailton se preocupa mais em crescer o seu nome no meio digital para ficar conhecido e, futuramente, seus livros físicos serem procurados. “O próximo livro, eu vou lançar em novembro, ia lançar ele só em formato digital por enquanto, né? Porque em formato físico eu não vendo, o pessoal não procura livro físico comigo, mas como eu fiz uma parceria com uma editora nova, vai sair o físico junto com o e-book e eu mesmo vou imprimi-los para fazer o pacote de divulgação”, conta o autor.
O despertar de um escritor
Aos seis anos de idade, Andreas Chamorro ganhou de presente um livro da saga Harry Potter de sua madrasta e, embora parecesse tão novo, foi assim que ele teve seu primeiro contato com a literatura. Porém, naquela época, não se interessou pela leitura em si, e sim, pelo fato de alguém ser capaz de criar mundos, universos inteiros e colocar nas páginas de um livro. A partir daí, ele começou a se tornar um leitor cada vez mais assíduo, indo na biblioteca da escola e consumindo cada vez mais livros. 60
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Quando tinha 14 anos, Andreas escreveu seu primeiro romance, porém, acabou perdendo o arquivo e pegou um pouco de trauma. Quatro anos depois, o escritor decidiu voltar a escrever e deu vida a um outro romance, ao qual escreveu à mão. No entanto, ele havia entregado o manuscrito para uma amiga, com a qual teve uma briga e o namorado dela queimou as páginas do livro. “Esse episódio aos 18 anos me marcou demais, foi um trauma muito profundo”, relembra o autor. A partir daí, Andreas ficou sete anos afastado da literatura de modo geral, tanto em escrita quanto em leitura. Andreas só superou o trauma quando foi incentivado a voltar a escrever pela tia de seu marido, que era bibliotecária. O autor diz que sempre ia vê-la na biblioteca e comentava sobre as coisas que já escreveu, por isso, ela o motivava a voltar. “Aí eu abri meu drive, achei alguns excertos daquele livro que eu escrevi aos 18 e agradeci que ele foi posto fogo”, ele ri. “Porque era horrível”, completa. A partir de então, o escritor começou a procurar sua voz dentro da literatura. Dois anos depois de voltar ao ofício da escrita, o escritor percebe que é algo tão natural pra ele quanto beber um copo de água. “Eu costumo dizer aos meus colegas que elogiam algum texto meu que eu fico lisonjeado, porque às vezes são textos que eu escrevi sem pretensão alguma”, conta Andreas. O escritor costuma escrever poemas e prosas, mas a forma como se sente ao escrever cada uma é muito diferente. “A poesia é efêmera para mim, então ela vem e vai embora, já a prosa é diferente, porque eu penso muito até chegar aquele momento que eu chamo de ‘imaginação febril’, que é quando a história tá reverberando demais na mente e a gente sente a necessidade de colocar no papel”, explica. Para ele, a sensação de escrever uma prosa é mística e escrevê-la é como uma forma de terapia, como se o escritor pudesse conversar consigo mesmo, independente se o livro é uma ficção ou não, devido ao fato de ter essa apropriação da psiquê do outro. “Naquele momento que eu estou mergulhado na psique de um personagem, nas vicissitudes que eu crio para aquele personagem, nas tristezas ou nas alegrias, eu acabo conversando comigo mesmo, entende? É como se eu fosse um espelho e o personagem é o reflexo, ou seja, ele está dentro de mim”. Para 61
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Andreas, todos os personagens, possuindo eles boa ou má índole, carregam dentro de si uma parcela do ser humano que o escritor é.
Escrever também é arte
Para escrever suas obras, Andreas já tentou ser uma pessoa mais disciplinada, fazendo um planejamento de escrita e estabelecendo metas para cumprir, porém, o método só funciona para ele se for sob a pressão de uma editora ou um concurso literário com prazos de entrega. Caso contrário, o escritor escreve quando o tempo lhe permite e quando sente vontade. Além de ser escritor, Andreas também é professor e dá aulas particulares de inglês, por isso, precisa dividir o tempo entre a escrita e as aulas. “Eu tenho os horários das aulas, porém, o período da tarde fica livre pra mim, então, uso pra me dedicar à literatura, são os momentos que eu vou ler e escrever, mas não é todo dia que eu escrevo ou leio, se eu escrever sem vontade, não saem coisas de qualidade, pelo menos pra mim, então, eu já percebi que rotina não funciona comigo”, conta. Apesar disso, Andreas afirma que um dia vai precisar desenvolver uma rotina, uma vez que pretende publicar uma coletânea de contos, mas para isso, ele acredita que vai precisar passar um tempo longe da internet, a fim de se concentrar mais. Quando Andreas terminou de escrever seu livro de poemas, ao qual intitulou de “Cabeça Azulada”, ele pensou em cada detalhe da produção editorial e resolveu não contratar ninguém para cuidar dessa parte. “Nesse livro de poesia, especificamente, eu fiz sozinho, porque querendo ou não eu entendo um pouquinho de capa, a diagramação eu fiz sozinho também, já no livro que eu pretendo publicar ano que vem, provavelmente, vou pedir ajuda de amigos, eu conheço uma escritora que é capista, outra pessoa que faz diagramação, na verdade, não vou pedir ajuda, mas contratar mesmo, porque eu acho importante pensar não somente no escritor que precisa de um apoio financeiro, mas também em quem trabalha no ramo da literatura como revisor, diagramador, capista, enfim… são pessoas importantes no ofício”, explica. 62
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Em 2020, Andreas colocou seu livro de poemas na Amazon com a intenção de mostrar seu trabalho para amigos que também escrevem, principalmente, para as amizades que fez recentemente, porém, os poemas estarão disponíveis lá por pouco tempo, tendo em vista que o autor vai atualizar e incrementá-los. Os poemas são divididos por categorias. Há os que falam sobre a arte da escrita, nos quais Andreas busca refletir sobre a angústia que o escritor passa quando se trata de identidade, principalmente em um país no qual o ramo da leitura não é muito valorizado, além do fato de muitos escritores não conseguirem se sustentar financeiramente apenas com a escrita. “Então, esses poemas sobre a arte da escrita falam justamente disso, dessas questões que somente um olhar de um outro escritor talvez sentisse certa empatia”, relata o autor. Outra categoria de poemas está mais relacionado com a vida pessoal de Andreas, os quais foram feitos como autobiografias, nos quais o autor aborda assuntos relacionados a acontecimentos de sua vida, principalmente sobre o relacionamento com seu pai, sobre sua orfandade de mãe e sobre seu relacionamento abusivo que durou oito anos. A última categoria é sobre a época em que ele esteve depressivo. “Ano passado, mais ou menos 70% de 2019 foram dias difíceis, eu tive minha primeira crise de ansiedade, nunca imaginei que eu passaria por isso, então tem um poema que eu falo sobre este dia e todo o cosmo que se monta, que se cria em cima de você quando estamos depressivos, é na poesia que eu decidi, tentei na verdade, refletir e chegar a alguma conclusão sobre esses assuntos específicos”, argumenta Andreas. Como forma de divulgar seu livro, o autor costuma utilizar muito as redes sociais, como o Instagram e o Facebook, pois são as únicas ferramentas gratuitas que ele tem em seu alcance. Ele também participa de grupos de escritores, nos quais divulga seu trabalho e seus amigos o ajudam ao compartilhar ou indo no link do livro e deixando um comentário. De acordo com Andreas, as pessoas que mais leem seu livro são os amigos e o autor diz que ainda não teve a experiência de ter desconhecidos lendo suas obras de forma genuína e que entre em contato com ele. “Mas alguns leitores não são tão próximos, são ami63
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gos de amigos, porém, eu acho que esse foi o limite que eu encontrei de uma pessoa muito longe da minha vivência, do meu ciclo de convivência, tendo contato com a minha literatura, mas talvez um dia possa aumentar nesse número de eleitores, principalmente de terceiras pessoas. Com certeza eu quero sempre estreitar a conexão com essas pessoas, principalmente por conta do feedback, porque eu acho que também é importante pro escritor não só ele mesmo ter a sua visão sobre seus escritos ou o ponto de vista dos seus conhecidos, mas o ponto de vista e a leitura de alguém que não o conheça”, explica. Além de publicar o livro na Amazon, Andreas ainda faz parte de um site de incentivo à leitura e escrita chamado “EntreContros”, que foi criado pelo escritor paranaense Gustavo Araújo. “Nessa plataforma, de 30 em 30 dias nós temos desafios de contos nos quais sugerimos temas e os escritores produzem contos de acordo com a temática para cada um poder se avaliar, o ‘EntreContos’ tem muitos escritores bons e nós conseguimos agregar a outras pessoas que não tem o costume de ler ou que são leitores, mas não escrevem, pra avaliar esses contos também”, explica. Uma condição imposta no site para quem for avaliar os contos é a pessoa realmente tê-los lido, para que possa realizar um comentário com embasamento e relevância, mostrando se a pessoa entendeu e aprendeu com aquilo que leu. Quando o assunto é o futuro, Andreas planeja imprimir exemplares do livro de contos que pretende lançar, mas em poucas tiragens. “Porque eu acredito que é muito caro uma publicação independente com gráfica e eu quero correr atrás realmente de uma editora, eu pretendo fazer publicidade com youtubers, na esperança que o tipo de literatura que eu produzo ou que eu vou produzir e publicar chame atenção de alguma editora, porque eu tenho convicção que o tipo de literatura que eu gosto de escrever não é comercial, não vende, então eu vou tentar contar com o destino, divulgando da forma que eu conseguir e disponibilizando dessas duas maneiras: na Amazon, para democratizar o acesso ao livro e através da editora, em formato impresso, para quem quiser realmente comprar de mim ou quiser um autógrafo, para amigos e família e, se uma alma boa um dia tiver contato com a minha literatura e quiser investir, aí, com certeza, eu vou querer mais livros físicos”, relata. 64
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A Amazon e seu império de livro digital
A Amazon é uma empresa multimilionária de alta tecnologia que surgiu no Brasil, em 2011, e desde então, vem oferecendo produtos culturais para o consumo da população brasileira, incluindo os e-books, a um preço bem acessível. Sendo assim, a empresa consegue vender muitos produtos através do site e ajuda escritores a publicar seus livros através do serviço de autopublicação chamado KDP (Kindle Direct Publishing). Porém, antes de publicar no site, é necessário que o autor já tenha o livro completo, com toda a produção editorial já feita, por isso, muitos autores que publicam por lá, contratam alguém para realizar esses serviços ou eles mesmos os realizam. Em seguida, é necessário obter um ISBN e realizar um cadastro no KDP, para, enfim publicar o livro. Depois de publicado, o e-book ficará disponível no site, contendo o preço que o autor desejar. Também há a possibilidade de inscrevê-lo no Kindle Select, que é como um serviço de fidelidade no qual o autor não poderá publicar seu livro em nenhum outro lugar além da Amazon. Depois de todo esse processo, a divulgação da obra fica por conta do autor e os leitores podem avaliar se foi uma boa leitura ou não, podendo deixar comentários e quantidades de estrelas. No entanto, apesar desses serviços oferecidos pela Amazon, o escritor, Ailton Sena, argumenta que nem todos os autores conhecem a forma como a plataforma trabalha aqui no Brasil, porque nos Estados Unidos, por exemplo, é um lugar em que os escritores são mais valorizados e a Amazon é mais conhecida por eles, além do investimento maior em marketplace e a população de lá ter o hábito de ler mais. Como Ailton tem o gênero de seus livros mais voltados para fantasia, seu público é mais adolescente. No entanto, pelo menos pela Amazon, os livros que mais vendem é romance erótico, por isso, ele não tem um grande público. “A Amazon vende muito livro hot, porque é o que eu sempre explico, primeiro: as pessoas gostam de putaria, isso é óbvio, num precisa nem se esforçar pra entender, o povo gosta de safadeza, segundo: quem tem poder de compra é gente mais velha, o meu público, querendo ou não, é um publico mais jovem, claro que pessoas mais velhas podem curtir, 65
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mas eu também não tenho como alcançar esse público, não tenho um grande engajamento pra pegar esse público”. Um outro fator que impede o alcance do público mais velho é o fato de que ele também costuma trabalhar e estudar e geralmente não tem tempo para ler. Logo, os adolescentes são, geralmente, os que tem mais tempo disponível para ler e-books, porém eles não tem poder de compra, porque na Amazon é necessário comprar com cartão de crédito. Ailton mesmo confessa: “Cartão de crédito eu só fui ter depois que eu comecei a trabalhar, quando tinha lá pra 20 anos, então é muito mais difícil”. Já o público que prefere romance erótico, é mais velho, na faixa dos 20 anos, que já possui um emprego fixo. Ailton diz que livro erótico chega ser algo mais leve, clichê e fácil de escrever, enquanto uma fantasia é algo que precisa ser muito bem pensado e é mais difícil. Por essas razões, a Amazon não lhe dá muito lucro. “Eu tiro de lá uns 40 reais por mês, só o mês passado que foi bom, digamos assim, que eu tirei 180, porque eu divulguei igual uma cadela (sic), pelo amor de Deus! Mas pra começar, eu acho que tá bom, eu gosto do que eu faço, tenho muito amor, porque se não eu teria desistido há muito tempo, mas quando você se propõe a fazer uma coisa, você tem que entender o que você tá fazendo, eu sei que eu não tô tendo lucro, mas também sei que eu melhoro cada dia mais, meus trabalhos vão ficando cada vez mais profissionais e, futuramente, eu posso ter um lucro bem maior e compensar todos esses anos que eu tenho tipo zero”, relata. Apesar dos obstáculos, Ailton enxerga a Amazon como a melhor plataforma, pois é a que mais faz as coisas de forma correta. “Ela paga sempre dois meses pra frente, então se eu vendo um livro hoje, eu vou receber no final de novembro, as editoras pequenas geralmente te pagam a cada 6 meses, na Amazon, eu consigo acompanhar minhas vendas, eu tenho o controle total, eu mesmo tenho vários parceiros no Instagram, que é onde eu sou mais forte, mando o meu livro de forma digital pros meus parceiros, falo ‘ó, pra vocês lerem, pra divulgar, resenhar’, eu tenho esse poder”. O autor sente que se não fosse pela Amazon, ele não seria publicado, pois o custo das editoras era muito alto e ele não tinha como pagar, porém, a plataforma digital facilitou muito sua vida. “E sem a Amazon, eu 66
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também não ia nem me propor a correr atrás de revisão, capa, pra fazer livro físico, eu nem gosto muito de livro fisico”, completa. Foi graças à plataforma digital que o escritor, Andreas Chamorro, também pôde ter a oportunidade de publicar seu livro de poemas, mas só há dois anos ele descobriu que é possível publicar livros pela Amazon, na época em que resolveu correr atrás de informações sobre publicações de livros atuais e encontrou o site. A plataforma da Amazon também realiza um concurso literário chamado “Prêmio Kindle”, no qual os autores devem enviar seus originais e o vencedor terá o livro publicado por alguma editora tradicional impresso e receberá uma quantia em dinheiro para investir no original. Recentemente, saiu a 5ª edição do concurso, no qual, quem ganhasse teria o romance publicado pela editora Record e receberia 40 mil reais. No entanto, só podem participar os autores que possuem o cadastro no KDP. Andreas se inscreveu em uma dessas edições, mas não ganhou, pois é muito concorrido. Apesar disso, o autor acredita que a Amazon é uma plataforma que oferece uma democratização da leitura, tendo em vista os preços dos livros que são acessíveis e a facilidade de adquirir os e-books. “Eu sei que muita gente consome livro no Kindle Unlimited e, querendo ou não, fica mais democrático”, comenta. No entanto, quando se trata de lucro, Andreas não obtêm um valor alto, apenas das compras de amigos e algumas leituras no Kindle Unlimited, pois, com esse serviço, é possível receber o pagamento de acordo com a quantidade de páginas lidas. Um contraponto de o autor não receber uma alta quantia em dinheiro, é porque ele ainda não é muito conhecido. Mas o escritor acredita que um dia isso vai acontecer.
Crowdfunding: uma iniciativa altruísta
Com os avanços tecnológicos, além das plataformas digitais para autopublicação, também surgiu o “crowdfunding”, um sistema de financiamento coletivo digital, no qual muitos artistas podem lançar uma campanha de arrecadação de fundos quando querem publicar uma obra, mas não possuem dinheiro o bastante para fazer isso. 67
Autopublicação: Histórias não contadas dos contadores de história
Com o objetivo de ajudar as pessoas que desejam dar vida aos seus projetos, alguns sites foram criados especialmente para a realização dessas campanhas, como o “Catarse”, que é considerado o maior quando se trata de financiamento coletivo. Foi através dele que o escritor Sandro Moura, de 37 anos, conseguiu lançar uma campanha para arrecadar fundos para sua coletânea de contos, chamada “Luzes do Amanhã” a qual estipulou o valor de 4 mil reais, durante 60 dias, para poder realizar todos os processos que um livro impresso necessita: capa, diagramação, revisão e impressão. No entanto, o valor que ele atingiu foi de cerca de mil reais. O site também oferece recompensas para aquelas pessoas que fizeram doações e elas também podem receber um exemplar do livro quando estiver pronto. Por não ter conseguido bater a meta que estipulou, Sandro precisou tirar do próprio bolso para poder realizar alguns processos do livro e lamenta: “Infelizmente, eu não consegui alcançar os 4 mil reais, mas, mesmo assim, a campanha foi finalizada eu vou entregar os livros de todo mundo que apoiou o projeto e me sobrou alguns que eu possa vender depois”. O escritor também explica que o pagamento é realizado diretamente pela plataforma do financiamento coletivo. Ailton Sena também é outro escritor que teve um projeto aprovado por uma campanha no Catarse que é baseado em seu livro “Luzes”, um romance LGBQ+. O projeto é um documentário sobre cinema e ao mesmo tempo autobiográfico, levando em conta que o autor trabalhou em um cinema aos 19 anos de idade. “Eu mandei a documentação toda dia 10 de setembro e eu recebi a mensagem hoje que eu fui aprovado e o dinheiro já tá lá no ‘Cartarse’ para eu transferir para minha conta”, ele conta, com empolgação. Para realizar o documentário, Ailton diz que contará com o apoio de amigos que possam atuar. Devido à sua paixão por audiovisual, o escritor pensa em abordar a literatura no documentário e levar os livros para esses patamares, para que, assim, possa adquirir um público mais abrangente e não ficar apenas realizando publicações de livros. Sendo assim, ele deseja que a literatura nacional não esteja apenas nas páginas de um livro, mas nas telas de cinema e na televisão, como algo que merece 68
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toda essa visibilidade, porque, dessa forma, haverá cada vez mais um número maior de pessoas que apreciem a literatura atual brasileira.
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Conclusão
A
esperança para um país, cuja literatura sempre foi vista como algo desvalorizado, pode estar em escritores que nem sempre são vistos pelo mercado editorial tradicional e, mesmo com as dificuldades enfrentadas por todos aqueles que buscam viver de literatura, eles vencem, dia após dia. Não existem parâmetros para quem quer ser escritor, basta ter força de vontade e um sonho. Afinal, todos os escritores aqui citados tiveram seus problemas, suas lutas e suas difuculdades. Um deles, passou por cima da dislexia, escreveu um livro e tornou o sonho de muitos outros possível, através da criação da Editora e Gráfica de Heliópolis; Outro, teve que vencer o dêsanimo e o cansaço que a correria do dia a dia muitas vezes causa. Enquanto um busca expressar os sentimentos, outro só deseja ter voz numa sociedade na qual cada um grita mais mais alto que o outro e poucos sabem ouvir. Ainda que haja argumentos de que o livro impresso esteja morrendo ou fadado a terminar como os discos de vinis e se tornar um artigo de luxo, existem escritores que lutam para que isso não aconteçam, pois reconhecem a importância de tornar o livro um produto cada vez mais acessível. Com relação ao livro digital, é um mercado em cada vez mais expansão e, muitos autores já estão migrando para esse universo digital, pois reconhecem a facilidade que lhes é ofertada através dele. No entanto, ainda existem classes sociais mais baixas, nas quais, as pessoas não têm tanto acesso à tecnologia, por isso, muitas vezes, o livro físico deveria ser mais acessível a elas. Com tantos dilemas que rondam o futuro do mercado editorial nacional, é possível afirmar que a literatura brasileira, tanto clássica quanto atual, não morrerá, mas sim poderá ser reinventada por todos aqueles que buscam melhoras e formas de se comunicar 70
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com o outro, para que, assim, a sociedade tenha contato com obras ricas em detalhes e críticas sociais, as quais, farão as pessoas refletirem e tomarem consciência do ambiente no qual vivem. Afinal, literatura não é só o que se lê nos livros, mas o que se lê no mundo.
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