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Tombamento de prédios históricos na cidade de Miracema e sua importância sócio cultural

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TOMBAMENTO DE PRÉDIOS HISTÓRICOS NA CIDADE DE MIRACEMA E SUA IMPORTANCIA SÓCIO CULTURAL

Raul Couto Leal Artista visual formado pela escola de artes visuais do Parque Lage e conselheiro de cultura de Miracema RJ


Resumo

O presente trabalho tem por objetivo analisar o tombamento de prédios históricos na cidade de Miracema – RJ. No final do século XIX e início do século XX a região noroeste fluminense teve um grande crescimento e desenvolvimento gerado pelo cultivo do café. Foram construídas diversas casas e sobrados utilizando os preceitos da arquitetura eclética. Esses prédios tem um caráter único no conjunto da arquitetura brasileira. A qualidade desse acervo, o empenho da municipalidade na sua salvaguarda através dos seus órgãos de cultura e o apelo continuado de representantes da comunidade levou o INEPAC a ratificar a importância da preservação desse patrimônio com o tombamento estadual.

Palavras chave: tombamento, Miracema RJ, arquitetura eclética


Introdução

O processo de tombamento do centro histórico da cidade de Miracema- RJ sempre foi um tema polêmico entre os moradores do local, enquanto parte da população é consciente do valor histórico e artístico dessas edificações centenárias, uma outra parte designa a medida como um entrave ao desenvolvimento da comunidade. Para se entender a importância da preservação desse patrimônio arquitetônico é necessário um conhecimento do panorama cultural da época em que as edificações foram erigidas. Miracema viveu um período de pujança econômica no final do século XIX e início do século XX, nessa mesma época um estilo de arquitetura denominado estilo eclético tinha predominância sobre outros na preferência dos arquitetos e construtores brasileiros. O ecletismo no Brasil surgiu baseado em modelos europeus e para entendê-lo precisamos lembrar que os diversos padrões de construção que se desenvolveram desde a antiguidade possuem características peculiares que nos permitem reconhecer seu estilo. Sabemos diferenciar um edifício grego de um romano, assim como uma catedral gótica de uma barroca. Na época da arquitetura eclética, os arquitetos se sentiram no direito de utilizar partes desses modelos históricos em seus projetos, visando criar uma nova estética que misturava diversas épocas num mesmo edifício. A teoria do Associacionismo foi a base para a estética do ecletismo, segundo essa teoria as associações mentais que o observador faz ao ver uma figura, trazem à mente imagens, ideias, princípios, símbolos e impressões já vividas e experimentadas, e consequentemente, as emoções originais, responsáveis pelo prazer estético. Amparados nessa teoria os construtores aplicavam no mesmo prédio elementos arquitetônicos de diversos estilos históricos. O sucesso do ecletismo se deu em parte pela utilização de modelos formais que sempre estiveram no imaginário coletivo, os arquitetos tinham ao seu dispor um acervo enorme de estilos arquitetônicos anteriores ao século XIX. A utilização desses modelos formais sem preocupações historicistas, com a liberdade de misturar no mesmo edifício referências à vários períodos da história, deu a arquitetura eclética um caráter híbrido característico. Uma outra razão de sua predominância é que era a única escola de arquitetura apoiada pela Academia de Belas Artes de Paris e admitida em seu currículo. A Academia brasileira até 1870 era adepta do estilo neoclássico, a partir daí o ecletismo tomou o seu lugar e se tornou hegemônico até meados dos anos 30 (fig. 1).


fig.1 Palácio Monroe – Rio de Janeiro (demolido em 1976) O período da arquitetura eclética também coincidiu no Brasil com o surgimento da República, com as reformas modernizantes das cidades brasileiras e com os conceitos de higienização. O pensamento republicano via a herança colonial como exemplo de atraso e insalubridade. As construções coloniais de taipa de pilão e adobe começaram a ser vistas como inadequadas às cidades modernas, que deveriam ter suas vias abertas e arejadas, iluminadas por luz elétrica e construídas com as novas tecnologias baseadas no ferro e no concreto (figs. 2 e 3). Olavo Bilac escrevendo para a revista Kosmos resumiu bem o pensamento da época: “Há poucos dias, as picaretas, entoando um hino jubiloso, iniciaram os trabalhos de construção da Avenida Central, pondo abaixo as primeiras casas condenadas. [...] No abrir das paredes, no ruir das pedras, no esfarelar do barro, havia um longo gemido. Era o gemido soturno e lamentoso do Passado, do Atraso e do Opróbrio. A cidade colonial, imunda, retrógrada, emperrada nas suas velhas tradições, estava soluçando no soluçar daqueles apodrecidos materiais que desabavam. Mas o hino claro das picaretas abafava esse protesto impotente. Com que alegria cantavam elas as picaretas regeneradoras! E como as almas dos que ali compreendiam bem o que elas diziam, no seu clamor incessante e rítmico, celebrando a vitória da higiene, do bom gosto e da arte!” (Pesavento:1999, p. 183)


fig.2 Morro do Castelo – Rio de Janeiro

fig.3 Rua do Catete – Rio de Janeiro

O tipo de arquitetura que substituiu o casario colonial era dependente de materiais industrializados, o ferro fundido era visto como símbolo de progresso e beleza. As casas, que no período colonial eram construídas de acordo com as possibilidades do terreno disponível, passaram a ocupar lotes retangulares, padronizados, podemos observar que as fachadas começam a se alinhar à via pública apresentando um recuo lateral por onde é a entrada, o surgimento dos porões aumenta a altura das construções proporcionando uma maior privacidade e alguns elementos arquitetônicos como platibanda, arco, bandeira e pináculos tornam-se praticamente obrigatórios (fig.4). Os conceitos higienistas davam muita importância ao arejamento das cidades e à presença de árvores e plantas, responsáveis pela oxigenação do ar, proliferaram então os parques e alamedas arborizadas onde as elites tinham seu espaço de lazer.

fig.4 Rua Barroso de Carvalho - Miracema


Enquanto na capital era necessária a demolição da cidade antiga para abrir o espaço necessário às mudanças arquitetônicas, nas novas cidades do interior do estado tudo estava sendo construído em primeira mão.

Arquitetura eclética em Miracema

A quantidade expressiva de construções de valor histórico na cidade de Miracema se deve a um período áureo que a cidade viveu no final do século XIX e início do século XX, proveniente da riqueza gerada pela lavoura de café na região, para se ter uma ideia do volume de café produzido, somente no decênio 1862/1871, a província do Rio de Janeiro foi responsável por 81% da produção de café do país. A então Santo Antônio dos Brotos era uma área atrativa para gente de outras regiões, principalmente Minas Gerais, e para imigrantes estrangeiros, notadamente italianos e libaneses que chegaram em sua grande maioria no período de 1870 a 1905. Em 1880 o povoado foi elevado à categoria de distrito de polícia e em 1881 à categoria de distrito de paz, sendo delimitado geograficamente. Em 1883 teve seu nome mudado de Santo Antônio dos Brotos para Miracema. Em 1885, Miracema foi elevada de distrito à categoria de freguesia, em votação na Câmara de Vereadores do Município de Santo Antônio de Pádua. Miracema cresceu e conheceu um período de grande expansão econômica, tornando-se uma povoação muito rica e desenvolvida. Em 1906, o italiano Francisco Bruno de Martino fundou a Fábrica de Tecidos São Martino, importando nove teares movidos a vapor da Holanda e trazendo imigrantes italianos especializados em operar teares. Em 1911, Salvador Ciúffo inaugurou o Cine São Salvador. Um ano antes foi inaugurado o Cine XV de Novembro - fundado pelo imigrante italiano Miguel Bruno de Martino. O operador dos cinemas foi o imigrante italiano Nicolau Tancredi e a energia elétrica era gerada pelas máquinas a vapor de beneficiar café e arroz dos donos dos cinemas. Em 1915 houve a chegada da luz elétrica, o prédio da companhia de força e luz foi construído por Salvador Ciuffo. O Grande Hotel também foi construído por Salvador Ciuffo em 1918, tendo depois seu nome trocado para Hotel Braga, era um dos maiores hotéis da região. Em 1922 foi concluído o prédio do Colégio Miracemense, que se tornou uma escola modelo recebendo alunos de várias partes do país. Em 1926 foi construído o Miracema Clube que posteriormente se tornou o Aeroclube de Miracema. Em 1929 teve início a construção da


sede da Sociedade Musical VII de setembro com projeto do construtor português José Antônio de Almeida, no térreo funcionava o cinema e na parte superior um salão de baile onde se apresentava a banda VII de setembro, fundada em 1896 e em atividade até os dias de hoje. Em 1935 Miracema se emancipou de Santo Antônio de Pádua tornando-se município independente, com dois distritos, Venda das Flores e Paraiso do Tobias. É importante ressaltar a importância do fluxo de imigração estrangeira no Brasil do início do século para o desenvolvimento da região. Entre 1870 e 1930 aproximadamente três milhões de imigrantes desembarcaram nos portos brasileiros. Num desses navios chegou uma família, proveniente da Itália que se instalou no arraial de Frecheiras, localizado entre os municípios de Santo Antônio de Pádua e Cambuci, Francisco de Poli e sua esposa Maria logo se mudaram para Miracema. Em 1906 Francisco de Poli participou da fase final da construção da Fiação e Tecelagem São Martino, depois desse projeto de sucesso realizou diversas construções em Miracema, infelizmente, só restam o Hotel Braga ( fig. 5 ), localizado na Rua Mal. Floriano e mais três imóveis na mesma rua: número 93 , onde estiveram instalados, respectivamente, a extinta Companhia Força e Luz Norte Fluminense, de 1915, atual AMPLA, número 99, o "Palacete Damasceno", de 1917 onde, outrora, esteve instalada a Casa Damasceno, de Francisco e Virgílio Damasceno, atual agência do INSS (fig.6) e o imóvel número 10 da Rua Cel. Josino esquina da Rua Mal. Floriano, onde está instalado, há muitos anos o tradicional bar Kiskina Chopp, de 1918 (fig.7). Seu filho Maximiliano de Poli (conhecido como Marcílio) se destacou na construção de diversos edifícios no estilo eclético, utilizando elementos decorativos da arquitetura italiana. Marcílio além de projetar e construir os edifícios, também executava pinturas decorativas representando cenas campestres, naturezas mortas, guirlandas, entre outros motivos. Trabalhou durante muito tempo e seus projetos vão do período eclético ao Art Deco tardio. Além de grande número de exemplares da arquitetura civil modernista construídos na década de 60 do século passado. Além de Maximiliano, ou Marcílio, como ficou mais conhecido haviam mais quatro irmãos que também se dedicaram ao setor da construção: Antônio, Luiz, Pedro, e Romeu de Poli.


fig.5 Hotel Braga – Miracema

Fig.6 Rua Mal. Floriano 93 e 99 – Miracema

Fig.7 Rua Cel. Josino 7 - Miracema


O tombamento

Miracema conservou um número expressivo de imóveis do início do século em relação às demais cidades do noroeste fluminense. No início da década de 80, o departamento de cultura da prefeitura de Miracema, por iniciativa do secretário Marcelo Salim de Martino e sua equipe, conseguiu sensibilizar a Câmara municipal sobre a necessidade de preservação do patrimônio. Através do vereador Fernando Nascimento, em 1985 foi apresentado um projeto de lei que instituía o tombamento, a lei foi homologada em 1994. Diversos imóveis foram preservados através de um único ato, medida até então inédita. Nesse período de nove anos entre a aprovação da lei pelo legislativo e o ato do executivo determinando o tombamento o Conselho municipal de cultura e o Departamento de cultura realizaram um trabalho de sensibilização da comunidade através de exposições fotográficas, concursos escolares e um trabalho implementado pelos animadores culturais nas escolas da rede pública. A lei determinava a preservação das fachadas dos imóveis e não houve nenhum tipo de resistência por parte dos proprietários, exceto alguns poucos comerciantes que necessitaram substituir ou adaptar seus letreiros. Posteriormente estudos foram realizados pelo INEPAC, verificando a importância do conjunto e incluindo Miracema no Projeto de Preservação dos Centros Históricos das Cidades Fluminenses, que já havia resultado no tombamento de conjuntos como os centros históricos de Valença, São Pedro da Aldeia e Petrópolis. Três objetivos foram listados no projeto de tombamento estadual: “O primeiro, divulgar a importância da preservação dos bens culturais inventariados em Miracema e a sua inclusão na listagem dos tombamentos estaduais reconhecendo-o, no seu conjunto, como Patrimônio Cultural Fluminense. O segundo, contribuir de forma mais ativa para sustar o processo de degradação do centro histórico da cidade e impedir futuras intervenções edilícias e ou urbanísticas que venham prejudicar, ainda mais, a integridade física e estética dessa paisagem que compõe o sítio histórico de Miracema.

O terceiro, impedir o

desaparecimento de bens imóveis situados fora da área central da cidade considerados de interesse para preservação” (Processo no E-18/2047/08 INEPAC). Na elaboração do projeto os técnicos do INEPAC realizaram um levantamento do conjunto arquitetônico no núcleo histórico da cidade. Foi concluído que não seria


suficiente fazer o tombamento apenas dos imóveis, o ambiente urbano onde estão inseridos também devia ser preservado observando-se “a situação dos espaços públicos e áreas livres que compõe o ambiente cultural da cidade, a morfologia e o traçado das ruas, a relação do rio com o antigo povoado e com a cidade atual, assim como os calçamentos remanescentes em paralelepípedo e a arborização” (Processo no E-18/2047/08 INEPAC). Também foram avaliadas as peculiaridades da arquitetura, que foi totalmente executada por artífices locais e apresenta características exclusivas que a tornam um verdadeiro documento histórico de uma época, que permite compreender através de meios materiais os processos de transformação sócio cultural ocorridos desde a sua construção. O tombamento estadual foi homologado em 2009 e compreende: 1.

O CONJUNTO ARQUITETÔNICO, URBANÍSTICO E PAISAGÍSTICO

DO CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA é constituído pelo traçado das ruas, avenidas e praças (incluindo arborização) a partir do qual a cidade originalmente se desenvolveu, pelos calçamentos remanescentes em paralelepípedo, pelos bens imóveis inventariados ali localizados, incluídos os respectivos terrenos onde se encontram implantados e pelas áreas e bens tutelados como de proteção da ambiência, a saber: 1.1 - O Traçado das Ruas, Avenidas e Praças (incluindo arborização): Rua Marechal Floriano (Rua Direita), Praça Dona Ermelinda, Praça Ary Parreiras, Rua João Pessoa, Praça Josephina de Barros Tostes, Rua Paulino Padilha, Rua Dr. Monteiro, Rua Francisco Dias Tostes, Rua Dr. Temístocles, Praça Bruno de Martino, Rua Santo Antônio, Praça Getúlio Vargas, Rua Coronel José Carlos Moreira (Rua das Flores), Rua João Rosa Damasceno, Rua Francisco Procópio, Rua Coronel Josino, Rua Barroso de Carvalho e Rua Matoso Maia. 1.2 - Os Calçamentos Remanescentes em Paralelepípedo: Rua Marechal Floriano (Rua Direita), Praça Dona Ermelinda, Praça Ary Parreiras, Rua João Pessoa, Praça Josephina de Barros Tostes, Rua Paulino Padilha, Coronel Jose Carlos Moreira (Rua das Flores), Rua João Rosa Damasceno, Francisco Procópio (até a Praça José Giudice), Coronel Josino e Rua Barroso de Carvalho. 1.3 - Os Bens Imóveis Inventariados:


a.

Rua Marechal Floriano (Rua Direita): nº 10, nº 15, nº 20/26, nº 30,

nº 40/42, nº 73 (inclusive o sobrado de nº 120 da Rua Barroso de Carvalho), nº 75, nº 93, nº 99 e nº 103; nº 109 e nº 115, nº 138, nº 148, nº 152, nº 167, nº 184, nº 188 e nº 194, nº 196 e nº 200, nº 203, nº 222, nº 231/nº 227, nº 236, nº 244, nº281 e 293, nº 313, nº 315 e nº 317. b.

Rua Coronel Josino: nº 10, nº 30, nº 38 e nº 54.

c.

Rua João Rosa Damasceno: nº 19, nº 31, nº 25 e nº 65 da Rua

Francisco Procópio (esquina com João Damasceno). d.

Rua Francisco Procópio: nº 31, nº 35, nº 39, nº 43, nº 47 e nº 49, nº

61, nº 58 / nº 62 (esquina c/ a Rua Coronel José Carlos Moreira, nº 191 e 195), nº 83, nº 91, nº 105. e.

Rua José Carlos Moreira (Rua das Flores): nº 41, nº 69, nº 70, nº

111 (esquina c/ Rua Coronel Josino, que inclui o nº 62 - 2º pavimento da mesma rua), nº 114 e nº 120, nº 124, nº 179, nº 192 (nº 91). f.

Praça D. Ermelinda: Praça D. Ermelinda, nº 04 e 10, nº 15 (Rua

Marechal Floriano, nº 06), nº 17, nº 39, nº 40, nº 54, nº 62, nº 74, nº 117/123, nº 124, nº 133, nº 136, nº 161. g.

Praça Ary Parreiras: Praça Ary Parreiras, s/nº (Escola), nº 06, nº 78,

nº 124 e nº 124 sobrado, nº 171, nº 212, nº 230, nº 272, s/nº (Igreja Matriz), s/nº (Casa Paroquial). h.

Rua João Pessoa: nº 38, nº 56.

i.

Praça Josephina de Barros Tostes: nº 23, 27 e 27A, nº 31.

j.

Rua Paulino Padilha: nº 57, nº67, nº 68 e 74, nº 80 e 80A, nº 111 e

119. k.

Rua Dr. Monteiro: nº 09, nº 25, nº 36, nº 46, nº 64, nº98, nº 114,

nº153, nº161 (nº 19), nº 195. l.

Rua Francisco Dias Tostes: nº 32.

m.

Rua Dr. Temístocles: s/nº (Chafariz).


n.

Praça Bruno de Martino: s/nº (Centro Espírita).

o.

Praça Getúlio Vargas: Praça Getúlio Vargas, s/nº (Rodoviária

Chicralla Salim), s/nº (Pórtico da Fiação e Tecelagem São Martino). p.

Rua Barroso de Carvalho: nº 24, nº 28, nº 32, nº 44, nº 79, nº 93(nº

87), nº 98, nº 117, nº 120, nº 121, nº 125, nº 145, nº 219. q.

Rua Matoso Maia: nº 225, nº 247, nº 250, nº 283, nº 316, nº 319.

1.4 - Áreas e Bens Tutelados como de Proteção da Ambiência Ficam considerados tutelados pelo tombamento estadual todos os demais imóveis não tombados individualmente situados no Centro Histórico de Miracema distribuídos ao longo e no interior deste conjunto de ruas, avenidas e praças, assim como as áreas livres, terrenos vazios e/ou potencialmente ocupáveis. Complementando, no que se refere aos terrenos tutelados, acima citados, destacamos, em especial: •

Na PRAÇA ARY PARREIRAS e RUA JOÃO PESSOA: o terreno

(vazio) de esquina da Praça com a Rua João Pessoa (propriedade da família Moura); o terreno (vazio) na Rua João Pessoa vizinho ao nº 16 da mesma rua (propriedade da Srª Manira Abo-gaux de Martino); e o terreno anexo ao número 56, esquina com a Rua Antônio M. Linhares (propriedade de Ignácio A. Pires da Silveira).

•

Na RUA BARROSO DE CARVALHO: o terreno (vazio) onde

esteve edificado o nº 84; o terreno de esquina, em frente ao nº44 (espólio de Altivo Mendes Linhares); e o terreno na esquina da Rua Matoso Maia, desmembrado do nº 120. •

Na RUA MARECHAL FLORIANO: o terreno (vazio) onde esteve

edificado o nº 268 (propriedade de Wady João Miguel); e o nº 140, na esquina com a Rua Cel. Josino, onde se acha instalada a Miragás Miracema Gás Ltda.


Nos termos da legislação vigente, todos os projetos de intervenção nas áreas e imóveis tutelados pelo tombamento como de proteção da ambiência - sejam de construção, ampliação, reformas, pintura, demolição, obras de engenharia

e

infraestrutura

urbanística,

paisagismo,

loteamento,

desmembramentos e/ou remembramentos, instalação de equipamentos e mobiliários urbanos, publicidade e letreiros - deverão ser objeto de análise prévia e aprovação pelo órgão de patrimônio cultural de estado, de forma a não entrar em conflito com os objetivos que motivaram o tombamento. No que se refere aos parâmetros de preservação na vizinhança imediata dos bens imóveis inventariados e tombados, a altura máxima das novas construções (incluindo caixas d’águas e quaisquer outros elementos construtivos) não poderá ultrapassar a altura dos mesmos (fachadas e/ou cumeeiras) assim como interferir na sua visibilidade, integridade física e estética. 2. 6 (seis) BENS ISOLADOS •

Rua José Monteiro de Barros: nº 500 (Hospital, especialmente, o

prédio principal) •

Avenida Carvalho: s/nº (Chaminés da Fábrica de Ladrilhos

Cerâmica Miracema) •

Avenida Carvalho: s/nº (Chaminé da Usina Santa Rosa)

•

Capela de Areias - Povoado de Areias – Distrito Sede

•

Capela de Nossa Senhora do Paraíso - Praça Jacinto Lucas, s/nº -

Paraíso do Tobias – 2º Distrito •

Capela de Venda das Flores - Praça da Capela - Venda das Flores

- 3º Distrito. No que se refere aos parâmetros de preservação da ambiência dos bens isolados acima identificados, valerão os critérios gerais previstos na legislação vigente de proteção ao patrimônio cultural fluminense.


Conclusão

O tombamento dos prédios históricos da cidade de Miracema foi uma iniciativa de grande impacto social, já foi constatado que uma parte da população apoia e dá valor à preservação desse patrimônio incluindo-se aí a maioria dos proprietários que mantém seus imóveis em boas condições de conservação, mas há também aqueles que, por falta de informação, não dão a devida importância a essa riqueza do munícipio. É preciso conscientizar a população de que esse patrimônio é único, uma vez que a maioria das construções foi realizada de modo artesanal, por artífices locais, utilizando modelos e técnicas de construção que eram o que havia de mais avançado na época. Uma outra característica importante em Miracema é que ao contrário de outras cidades do noroeste fluminense onde a maioria das construções foi demolida ou descaracterizada, a cidade possui um número expressivo de imóveis de grande qualidade artística e arquitetônica. O tombamento estadual é prova da importância e valor histórico do patrimônio cultural miracemense e engloba todo o centro histórico, calçamento e arborização. Essa lei foi questionada pela administração municipal subsequente à qual ocupava a prefeitura na época em que o tombamento estadual foi homologado, na época havia como meta de governo a promessa de asfaltamento das ruas centrais da cidade. “A partir daí, travou-se uma verdadeira batalha, inclusive judicial, com ações ingressadas no MP a fim de que o tombamento fosse garantido. Muitos movimentos a favor do tombamento foram iniciados, inclusive, promovendo a discussão nas redes sociais.Com o posicionamento contrário do governo municipal entre 2009 e 2012, o que aconteceu foi que alguns proprietários vislumbraram a oportunidade de terem seus imóveis destombados, principalmente tendo a proposta partido do governo municipal que chegou a convocar proprietários para esse fim, conforme comprovam documentos em arquivo. Por causa disso, ainda hoje, é comum encontrarmos pessoas que confundem os tombamentos e que não concordam ou porque desconhecem sua importância e significado ou porque são mesmo contrários, o que é de direito” (DE MARTINO, Marcelo/comunicação pessoal).


É importante saber que o tombamento é um dos diversos instrumentos jurídicos para a proteção do patrimônio cultural brasileiro, elencado no art. 216, § 1º da Constituição Federal, regulado pelo Decreto-Lei n. 25 de 30 de novembro de 1937 e que os casos de destombamento são raríssimos, só ocorrendo quando o Poder Público verifica a ausência do fundamento que deu ensejo ao tombamento, o que não é o caso da lei que protege o centro histórico de Miracema, amplamente embasada por estudos e documentação. No intuito de conscientizar os proprietários sobre a importância da preservação do patrimônio, a Secretaria e o Conselho municipal de cultura de Miracema desenvolvem uma parceria com o INEPAC, já que o acervo da cidade integra o projeto de preservação de centros históricos fluminenses realizado pelo governo do estado. Observando-se a situação dos imóveis tombados nota-se que muitos, apesar de manterem as fachadas originais foram totalmente reformados internamente, alguns poucos mantém as plantas originais podendo-se citar: o Paço Municipal, na praça Ary Parreiras, nº.171, o nº 111 da Rua Cel. José Carlos Moreira, construído em 1927 para o Banco Comercial Agrícola Norte Fluminense, com sede em Miracema e filial no Rio de Janeiro, o nº. 93 da Rua Mal. Floriano, especialmente o segundo pavimento, também os nºs. 167 e 196 da citada rua, e o nº 61 da Rua Francisco Procópio. É de vital importância a manutenção desses interiores. A situação dos imóveis é boa, segundo as últimas avaliações existem 56% em bom estado de conservação, 40% razoavelmente conservados e apenas 4% em mau estado. Como problemas a serem resolvidos verificam-se: - a profusão de placas e letreiros encobrindo a fachada de muitas edificações causando uma poluição visual extrema - presença exagerada de postes e fios de luz que prejudicam a visibilidade e enfeiam as ruas e praças - reformas e acréscimos arquitetônicos equivocados que descaracterizam as construções originais É curioso lembrar que a arquitetura eclética no Brasil foi vista como um avanço em relação às construções coloniais, que foram demolidas para dar lugar aos novos casarões, posteriormente os arquitetos modernistas se posicionaram da mesma maneira, dizendo que a arquitetura eclética não tinha valor histórico, que era de mau gosto e


iniciaram uma campanha para erradicar o que era visto como um símbolo do retrógrado século XIX, para dar lugar aos arrojados prédios modernistas do século XX. No Rio de Janeiro, a cidade colonial foi arrasada, não restando praticamente nenhuma construção civil dos séculos XVII e XVIII na capital do estado. Apesar de terem sido demolidos edifícios importantíssimos, como o Palácio Monroe na Cinelândia e o Pavilhão Mourisco em Botafogo, uma grande parcela do patrimônio histórico do século XIX foi preservada na capital. No interior o conjunto arquitetônico de Miracema é de muita importância como documento vivo de uma época e como material de pesquisa para futuros historiadores, que terão condições de avaliar o que se fazia em termos de arquitetura, no final do século XIX e início do século XX no interior do estado do Rio de Janeiro. Muito do nosso patrimônio histórico antigo e recente já se foi por conta de ideais equivocados de progresso, não podemos confundir progresso com destruição, é necessária uma atenção das autoridades e da sociedade para que mais essa riqueza do povo brasileiro, que é o conjunto histórico da cidade de Miracema, não se perca.


ANEXO I – Comparação entre fotografias do início e metade do século XX e fotografias atuais do centro histórico de Miracema


Praça Dona Ermelinda, início do século

Praça Dona Ermelinda, atualmente


Rua Direita, início do século XX

Rua Direita, atualmente


Fiação e tecelagem São Martino, início do século

O que restou após um projeto equivocado de remodelação


Hospital de Miracema, inĂ­cio do sĂŠculo XX

Hospital de Miracema atualmente


Igreja matriz, inĂ­cio do sĂŠculo XX

Igreja matriz atualmente


Miracema Club ( Aeroclube ) metade do sĂŠculo XX

Miracema Club ( Aeroclube ) atualmente


Praça Ary Parrreiras – início do século XX

Praça Ary Parrreiras - atualmente


Colégio Miracemense, metade do século XX

Colégio Miracemense, atualmente


Colégio Ferreira da Luz, metade do século XX

Colégio Ferreira da Luz atualmente


ANEXO II – Fotografias de imóveis tombados


Referências bibliográficas

1.BUSTAMANTE, Heitor de. Sertões dos puris: história do município de Santo Antônio de Pádua. Pádua, Niterói, RJ: Casa do Homem de Amanhã, 1971. 2. FERREIRA, Renata Brylyinskyi.A produção cultural do imigrante italiano. Patrimônio, práticas e reflexões, Rio de Janeiro: IPHAN, 2007 3. MARCELO SALIM DE MARTINO, Subsídios para o estudo da história do município de Miracema, trabalho do curso de pós-graduação em planejamento educacional. Faculdades integradas de São Gonçalo, 1991 4. PATETTA, Luciano. “Considerações sobre o ecletismo na Europa”. In: FABRIS, Annatereza (org.) Ecletismo na Arquitetura Brasileira. São Paulo: Nobel & EDUSP, 1987. 5. PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Imaginário da Cidade: visões literárias do Urbano – Paris, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999. 6. Processo n. E-18/2047/08 de 29/12/2008 Instituto Estadual do Patrimônio Cultural INEPAC, Rio de Janeiro, vol. I e II 7. SENNET, Richard. Carne e Pedra – o corpo e a cidade na civilização ocidental, Rio de Janeiro: BestBolso, 2008 8. TEIXEIRA, Simonne, Arquitetura eclética em Campos dos Goytacazes. Disponível em: https://www.academia.edu/7081770/Arquitetura_ecl%C3%A9tica_em_Campos_dos_G oytacazes 9. História de Miracema, a cema de Mira. Disponível em: http://miracemaestadodorj.blogspot.com.br/2009/03/cema-de-mira-pesquisa-seguirbaseia-se.html


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