Anjos da Meia-Noite um projeto de Raul Leal
Anjos da Meia-Noite é um projeto que celebra a mistura de todas as etnias e ritmos na noite da Gamboa e bairros adjuntos, no Rio de Janeiro. As obras na zona portuária, promoveram uma mudança no perfil da vida noturna nesses bairros agregando gente de todas as partes do país e do mundo, de modo semelhante ao que acontecia no início do século quando o porto era o principal ponto de entrada para a cidade. Como acontece hoje, atritos e pendengas eram comuns entre o povo que tentava organizar seu espaço de lazer e o poder público.
Em julho de 1913, os sócios do clube dançante Anjos da Meia-Noite, situado no bairro da Saúde, entraram na justiça com um pedido de habeas corpus que lhes garantisse a realização de bailes e atividades recreativas em sua sede. O gesto inusitado colocava em evidência uma situação comum na época, que era a perseguição a qualquer atividade cultural ligada à herança africana exercida pela população negra, uma maioria que habitava os bairros da Cidade Nova. Gamboa, Saúde e Santo Cristo. O fato de uma associação destinada a atividades recreativas e o tipo das atividades profissionais exercidas por sua diretoria – estivadores, cocheiros e outros trabalhadores braçais -também causaram estranheza ao Supremo Tribunal Federal. O pedido foi negado, mas abriu um precedente para que as associações de negros e pardos tivessem seus direitos de funcionamento assegurados.1 Os clubes dançantes nesses bairros, em sua maioria, reuniam exescravos. Um público que, no dizer de um jornalista da época, era formado pela “fina flor da gente que se diverte com pouco dinheiro”. A organização espacial desses clubes também obedecia a uma hierarquia peculiar, geralmente nas salas da frente se ouviam valsas e polcas, a dita música de salão, que era dançada com toda elegância. Na parte dos fundos eram ouvidos sambas e maxixes, que eram cantados e dançados com a malemolência peculiar desses gêneros. O quintal era reservado aos batuques e candomblés.
A região da Pedra do Sal e do Largo da Prainha, hoje Morro da Conceição e Praça Mauá, foi um dos epicentros do Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX, sobretudo no que diz respeito às insurreições populares. Foi assim com a Revolta da Chibata, em 1910, apoiada pela população da região; foi assim também com a Revolta da Vacina, seis anos antes, que encontrou ali um dos maiores focos de resistência ao sanitarismo forçado. Ao investigar o clube Anjos da Meia-Noite, procuro trazer à tona a rebeldia misturada à marca carioca da festa, da dança e das linguagens do corpo.
O projeto de exposição se compõe de uma instalação onde utilizarei pintura, fotografia e vídeo para construir uma relação entre esses clubes do início do século XX e os clubes e associações que surgiram no bairro da Gamboa no início do século XXI, também voltados à música de origem afro-brasileira. O trabalho ocupará o Castelinho do Flamengo se dividindo em duas partes A primeira chamada de Salão ocupará os andares superiores onde serão expostas pinturas vídeos e trabalhos gráficos referentes aos espaços internos dos clubes antigos e atuais. A segunda chamada terreiro ocupará o térreo onde teremos apresentações de DJs, samba, roda de caxambú e diversos eventos. A exposição terá uma parte fixa (hardware) que ficará exposta na galeria e uma parte virtual (software) que se constituirá de atividades ao longo do tempo em que durar a mostra, essas atividades serão documentadas e publicadas num blog e nas redes sociais. 1Leonardo
Afonso de Miranda Pereira , “Os Anjos da meia-noite, trabalhadores, lazer e direitos no Rio de Janeiro da primeira república”, revista Tempo, Vol 19 n.35, jul-dez de 2013:97-116
Portifólio de Exposições
Nada acabará, nada ainda começou Galeria do Lago, Museu da República
A exposição Nada acabará, nada ainda começou utilizou material ligado a eventos ocorridos no Palácio do Catete e no país, relacionados a música. Tendo a figura de Nair de Teffé como fio condutor. Está documentada aqui como exemplo para o trabalho Anjos da Noite. Em 26 de outubro de 1914 a então primeira-dama do Brasil, Nair de Teffé, organizou uma recepção nos salões do palácio do Catete onde foram executadas obras de compositores populares brasileiros, culminando com a apresentação do Corta-Jaca, maxixe da compositora Chiquinha Gonzaga. A repercussão foi a pior possível, abalando ainda mais a pouca popularidade do presidente Hermes da Fonseca. Ruy Barbosa declarou que nosso governo estava prestando as mesmas honras que merecia a música de Wagner às expressões mais chulas da nossa cultura, o mesmo Wagner que execrou a música de outros compositores que não aderiam ao seu credo musical, condenando-os à clandestinidade e a um preconceito sobre suas obras que durou décadas.
A música de Catulo da Paixão Cearense e Chiquinha Gonzaga nos salões do Catete foi recebida com tanto estranhamento quanto os “objets trouvés” dos dadaístas nas exposições de arte na mesma época. Aquela música estava deslocada, ocupava um lugar que não era destinado a ela. Pouco tempo atrás o músico André Mehmari foi achacado numa apresentação para estudantes da rede pública por executar composições de Ernesto Nazareth. A cantora Rita Beneditto foi proibida de se apresentar num evento gospel patrocinado pela prefeitura de Campo Grande devido ao título de seu show ser “Tecnomacumba”. A exposição desenvolveu esses temas e contou com a participação ativa do público da galeria através de saraus realizados na própria exposição, conversas presenciais e através das redes sociais.
Ilhas
Centro Cultural Justiรงa Federal
Camp
Galeria C창ndido Portinari - UERJ
Contraluz
Amarelonegro arte contempor창nea
Raul Leal vive e trabalha no Rio de Janeiro. Frequentou os cursos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage de 2005 a 2011. Frequentou o Grupo Alice sob orientação de Brígida Baltar e Pedro Varela em 2011 e 2012, grupo de estudos com Ivair Reinaldim em 2012 e 2013 e grupo de estudos sobre arte contemporânea com Daniela Name em 2014. Exposições individuais : Nada acabará, nada ainda começou – Galeria do Lago – Museu da República – Rio de Janeiro - RJ - 2015 Ilhas – Centro Cultural Justiça Federal – Rio de Janeiro - RJ – 2015 Imagens de um mundo em suspensão – Arquivo Contemporâneo – Rio de Janeiro - RJ – 2013 Um lugar provisoriamente habitado – Amarelonegro arte contemporânea – Rio de Janeiro – RJ - 2011 Contraimagem na galeria de arte do Ibeu - Rio de Janeiro – RJ - 2009 Contraluz na galeria Amarelonegro arte contemporânea – Rio de Janeiro – RJ - 2009 Principais Exposições coletivas: 11o Salão Elke Hering – Museu de Arte de Blumenau – Blumenau – SC - 2014 Camp Arte e Diferença - Galeria Cândido Portinari – UERJ – Rio de Janeiro- RJ - 2013 63º salão de abril em Fortaleza-CE - 2012 40o salão de arte contemporânea Luiz Sacilotto em Santo André – SP - 2012 20o encontro de artes de Atibaia – Atibaia - SP - 2011 Novas aquisições da coleção Gilberto Chateaubriand - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – RJ - 2010 10o salão de artes visuais de Guarulhos – Guarulhos – SP - 2010 menção honrosa em pintura
Salão de arte contemporânea do Museu de arte de Ribeirão Preto – Ribeirão Preto – SP - 2010 Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome - Rio de Janeiro – RJ - 2010 Só você e os outros passam no Largo das Artes - Rio de Janeiro – RJ - 2009 Arte3, na Galeria Anna Maria Niemeyer - Rio de Janeiro – RJ - 2009 Processos - na EAV do Parque Lage - Rio de Janeiro – RJ - 2008 Novíssimos, na galeria de arte do IBEU – Rio de Janeiro – RJ - 2008 Prêmio de melhor trabalho da mostra
NÀU - no Instituto dos Arquitetos do Brasil - Rio de Janeiro – RJ - 2008 Bebel Tiquira - na EAV do Parque Lage - Rio de Janeiro – RJ - 2008