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Trinca Vidro

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Trinca Vidro Alisson Carvalho


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Trinca Vidro Alisson Carvalho

Teresina | 2020


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© trincavidro © alisson carvalho, 2020 Capa Alisson Carvalho Projeto gráfico Alisson Matheus Soares de Sousa Carvalho Carvalho, Alisson Rascunhos Líquidos / Alisson Carvalho. – Teresina, PI.


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[2020] Todos os direitos reservados e protegidos pela lei nº 9.610, de 19/02/1998. Nenhuma parte desse livro poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio (eletrônico, mecânico, fotográfico, etc.) sem a prévia autorização do autor.


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Trinca Vidro

Este livro é uma reunião de contos sobre

as distintas formas de

performance das masculinidades, inicialmente publicados na coluna do site da Geleia Total (projeto cultural piauiense). Os textos falam do cotidiano de alguns personagens e brinca com a expectativa social criada em torno dos vários lugares ocupados pelos homens na sociedade. Os textos fictícios demonstram as nuances, desejos, taras, frustrações, utopias, paixões, preconceito, solidão, afeição, acolhimento, reflexão e a multiplicidade de sentimentos que atravessam a vida de cada personagem. “Trinca Vidro” é uma forma de condensar situações que desvelam o universo do homem, mostrando as fragilidades e, também, as diversas coações sofridas por quem acaba se desviando dos padrões impostos culturalmente. O livro não pretende responder pergunta alguma, tampouco apontar algum caminho, apenas transita entre as situações mostrando com crueza e certo bom humor alguns recortes do dia-a-dia.


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"Ponta na ponta do cara Ponta na cara dos caras Caras encaram suas pontas Prontas suas pontas se encaram A veia salta num pulo Os olhos, vermelhos se saltam Salta o primeiro guerreiro Salta sem soltar a espada" Frida AbraĂŁo


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Sumário

1. Sala de espera 2. O tijolo ensanguentado 3. Eu não aguento mais bicha discreta 4. O quarto vazio 5. O dia que te vi comer um sanduíche gritei desejando ser um pouco do que foi mastigado 6. O pau 7. Trinca vidro 8. Resquício qualquer de civilidade 9. A lei da diversão 10. O beijo roubado 11. Como não perder a masculinidade lendo poesia 12. Vidro trincado


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Sala de espera Sentado,

olhando para as falhas no teto de gesso enquanto

divagava sobre o universo e questões complexas demais para a sua compreensão, Heráclito deixava o tempo se dissipar gradualmente. Nenhuma preocupação atingia seu estado letárgico, apenas uma gigantesca paz que, vez por outra, era mesclada pelo latejante tédio – um impulso que parecia querer guiá-lo. Comovido pela constância da brisa, o adolescente observou as páginas do jornal, que estava há um ou dois dias sobre a mesa e produziam um estranho ruído quase anunciando a iminente bagunça no cômodo que seria causada pelo espalhar dos papéis. Era, provavelmente, tão mais confortável digitar algumas teclas e obter as mesmas informações contidas naquele amontoado de celulose, mas por força do hábito ele ergueu-se da cadeira amarela da sala de espera e colocou uma das revistas – encontrada sobre a cadeira onde estava sentado e deixada ali, entes da sua chegada, por algum paciente curioso – sobre a folha rebelde do jornal, para evitar que ela fosse levada pela brisa gelada do ar-condicionado. _“Acrobata”, disse uma criança sentada na cadeira mais próxima à mesa de centro e encarando sorridente Heráclito. _“O quê?”, questionou. _“Tá escrito na capa da revista”, respondeu enquanto apontava para a revista. Heráclito finalmente leu o nome da revista orgulhoso por saber traduzir aqueles caracteres, mas desviou o olhar quando percebeu duas notícias na parte da capa do jornal que não estava coberta pela revista.


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Uma das informações impressas falava sobre o bloqueio das contas de algumas tantas prefeituras e algumas outras câmaras municipais do estado, mas foi a segunda notícia que chamou mais atenção, pois estava escrito numa pequena nota algo relacionado ao meio ambiente e que despertou nele enormes gargalhadas. A probabilidade exposta no título do textículo criava uma ambiguidade bem divertida: “um carro para cada dois habitantes em Teresina”, sussurrou. Ninguém entenderia o teor cômico, por isso ele guardou a graça para si e recordou do conto lido no dia anterior: “O cão de Schopenhauer”. Riu novamente da insanidade contida na ficção. O grito de uma criança rompeu o silêncio estabelecido no local e imediatamente a atendente, que estava entretida com o celular e sentada na cadeira do balcão da recepção, riu maquiavelicamente para todos os presentes na sala perceberem e disse: _ “O doutor Alan é muito bom, não se preocupem, quem vem aqui nunca esquece o tratamento.” Todos os pacientes se entreolharam e engoliram em seco o comentário. Heráclito riu para o menino, o pequeno leitor que tentou puxar assunto inicialmente, mas ficou um tanto decepcionado quando percebeu que o moleque já estava imerso no conteúdo de outra revista que, por sinal, tinha na contracapa um rosto conhecido: era justamente o seu tio. Heráclito aproveitou que estava de pé e ficou observando o fluxo do trânsito que passava em frente à Praça dos Correios, avistou um violinista sob uma amendoeira com um violão e uma gaita sobre o colo cantando algo que seus ouvidos não conseguiam captar. Recordou da viagem feita meses antes, quando parou diante de um saxofonista e pensou consigo mesmo como o saxofone deixava qualquer homem


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atraente. Movido pela curiosidade, girou a maçaneta da porta de vidro e deixou que o som entrasse pela pequena fresta enquanto o ar frio da sala era jogado para fora do recinto. _“I’ve got a real bad feelin that my baby don’t love me no more. You know the sky, the sky’s been cryin. Can you see the tears roll down my nose?” Coincidentemente era a mesma música, pensou surpreso. Enquanto o músico se entregava ao solo dedilhando as cordas do violão, Heráclito percebeu pelo reflexo da porta seu rosto ao lado do rosto conhecido do seu tio. Não que tivesse uma foto estampada do parente, mas ele conseguia visualizar aquela imagem. Seu cabelo crespo contrastava o cabelo raspado da figura pública, mesmo assim eles eram tão semelhantes que era impossível não notar o parentesco. Os fios encaracolados, a pele e os olhos enriquecidos com aquele negrume em contraste com seus grandes lábios rosados causavam inveja no resto da família. Heráclito quis deixar a saleta que se tornava pequena diante da curiosidade musical, mas seu impulso foi suprimido pelo chamado da assistente do dentista que gritou o nome e sobrenome fazendo com que a maioria dos pacientes e acompanhantes dos pacientes presentes na sala lembrassem do tio famoso de Heráclito e a partir de então ele começou a escutar os sussurros desnudando a história da sua família. O adolescente seguiu cabisbaixo até o consultório, deitou-se na cadeira odontológica e percebeu uma melodia suave, conseguiu filtrar as palavras cantadas com muito vagar e quis cantar junto: “Mas se ela voltar, se ela voltar. Que coisa linda, que coisa louca. Pois há menos peixinhos a nadar no mar. Do que os beijinhos que eu darei na sua boca”


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_”Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim. Não quero mais esse negócio de você viver assim”, o cirurgião-dentista completou um dos trechos quando se aproximou do rosto de Heráclito. Enquanto via os olhos castanhos do dentista cubano o adolescente começou a sentir uma pontada de vergonha, tentou se concentrar no resto da playlist tocada ali no consultório, nos quadros didáticos espalhados pelo lugar, mas não conseguiu se render aos olhos castanhos do profissional e, principalmente, ao sotaque “carregado”. O dentista percebeu o rapaz erubescendo e riu, maliciosamente sussurrou um trecho da música perto da nuca do paciente enquanto fingia pegar um dos acessórios de trabalho. Heráclito percebeu um calafrio diferente, tentou se concentrar em pensamentos sagrados para afastar o início da sua excitação e até cobriu a sua bermuda com as mãos, mas viu o seu esforço falir quando o dentista pegou um lenço e colocou com exagerada atenção o material sobre as mãos do paciente. O pulsar da sua roupa arrancou um riso do profissional que rapidamente desviou o olhar, erguendo algumas fantasias no rapaz. A melodia ecoava na sala em constrangedor compasso e Heráclito mal sabia, mas nunca mais veria o dentista, pois, assim como os seus conterrâneos, o profissional da saúde seria obrigado a retornar à sua terra natal com a transição do governo. Após a consulta estranhamente longa o paciente saiu sorridente do consultório, sussurrando a mesma música cantada pelo dentista – que aproveitava a pausa entre a transição dos pacientes para esterilizar alguns instrumentos de trabalho e soltar a voz: _“Porém seu coração quando palpita. E se agita mais ligeiro. Nunca vi compasso tão brasileiro”, cantaram.


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O tijolo ensanguentado O sol rasgava com violência a escuridão, no chão as marcas de sangue pareciam dançar refletindo os primeiros raios solares. De onde vinha tanto sangue? Há muito não sentia o mundo girar, compreendo que o planeta está num eterno movimento de ir e vir, naquela dança quase imperceptível denunciada apenas pelo alvorecer dos dias, pela a rotação da vida e da terra. Por um instante pensei ter visto a felicidade. Olhei, sorridente, para os lábios do meu namorado. Dois homens abraçados? É errado abraçar, eu sei. Não podemos nos expressar abertamente, não podemos fazer o que todo mundo faz diariamente de forma bem mais extravagante, mas eu confesso que a sensação de conforto que eu sentia naqueles carinhosos braços me fazia querer burlar essa maldita lei não escrita. Eram gritos? Não sei ao certo, só sei que o afago fora substituído por um impacto. Engraçado, no chão, coberto da lama formada pela mistura do sangue e da terra, foi que percebi o perigo que é amar. Embora perdido eu me encontrei nos gritos da única voz que, naquele instante, conseguia me acalentar. Eram berros, pranto, meu nome mergulhado num turbilhão de palavras que, mesmo agora, eu não sei distinguir. O líquido rubro era parte da fantasia de halloween? Se foi, eu devo ter sido muito feliz na escolha do repertório que acompanhou a montagem do figurino. Não, definitivamente não era fantasia, afinal não lembro de ter comprado feridas e hematomas. Tentei me erguer com outras mãos, com a ajuda de outras vozes, com a força de outros corpos. Existem braços que nos sustentam na queda, não são muitos, mas existem. A mão agressora continuava


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tentando avançar e eu pude, enfim, olhar no fundo daqueles olhos ferinos. Eram os mesmos olhos que me perseguiam pelas ruas, eram os mesmos olhos que me condenavam, era um olhar que machucava diariamente sem nenhum auxílio de um projétil qualquer ou de algo cortante. Na calçada vi um tijolo embebecido de sangue, o meu sangue, um sangue comum, tão vermelho quanto qualquer sangue. <Um sangue tão igual, que por infelicidade surreal era maculado de ideologias

e estranhos

preceitos.

Um

sangue descartado

nos

hemocentros, pois o estereótipo e preconceito superavam a ciência nesse momento. Apenas nesse momento.> Eu não quis revidar, o tijolo ficou inerte, o único que parecia calmo naquele lugar, mas haviam vários tijolos espalhados, nos observando, poderiam ser facilmente confundidos com seres humanos pela insistência em não ficar inanimados. Alguns desses tijolos estavam fardados e pensamos que seriam o nosso abrigo contra o agressor, pensamos que seríamos por eles protegidos. Erramos, eles estavam tão inertes como a arma usada para agredir-me. A mão do estado mostrou-se simpática apenas para proteger o capital privado. A dor ganhou outras conotações, não era estimulada apenas pelos cortes na pele, dessa vez o que incomodava era o silêncio, aquele vazio que ignorava toda a violência. Quantos tijolos calavam, transformandose em cúmplices dos agressores? Quantos tijolos eram usados como armas? Quem será o próximo atingido por alguma outra lâmina mais letal? Mais letal?


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O delegado escutou toda a minha acusação com o olhar de tijolo, senti-me ferido, desejei sair daquele lugar o quanto antes, era aquela a sensação de se sentir protegido? Não era agradável. Ergui-me com dificuldades, mas consegui andar. Não importa o quão intensa seja a força que tenta tirar a minha quase liberdade, pensei, eu não vou ruir. Encarei o meu namorado, os seus olhos estavam mais úmidos que qualquer outro olhar, senti-me inclinado a não aceitar o abraço que ele começou a ensaiar. Que arma era aquela que deixava o medo macular o amor? Percebi que era aquilo que os tijolos almejavam, o medo. Então, num ato de total subversão, suprimi o pavor e me deixei ser abraçado. Obviamente nossos passos foram fuzilados pelos tijolos fardados, pelo olhar do delegado e pelo agressor.


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Eu não aguento mais bicha discreta Ninguém

viu o sangue desgrudando das veias do rosto, é que

ninguém costuma ver essas coisas de morte matada. Era noite, o vapor expelido pela terra camuflava os transeuntes. Era neblina? Ninguém sabe, ninguém nunca sabe dizer o que se precisa, o que precisa ser dito. A noite furtava a luz, consequentemente não sabemos distinguir o que é poça d’água ou sangue coagulado. E esse é o maior perigo quando se camufla a realidade: tornar o que é óbvio algo turvo e dúbio. Se eu tivesse olhado para o céu minutos antes, talvez se tivesse visto as nuvens ou os lampejos no horizonte teria evitado o futuro resfriado, a futura gripe, a tuberculose e a crise alérgica. Danem-se as suposições, afinal ninguém segura e nem prende o corpo quando o corpo quer agir, principalmente impulsionado pelas grandes emoções. Existe algo mais clichê do que a própria palavra clichê? Existe: o pranto sob a chuva. E quem pode prever as intempéries? Ninguém, mas sair e no meio da fuga ser atingido pela tempestade é o cúmulo da derrota, então caso isso aconteça o mínimo que se pode fazer é aproveitar a dor causada pela agressividade das gotas gélidas e moralistas. Molharse, encharcar-se. Enquanto a água deslizava sobre meu corpo percebi que era necessário e até urgente afirmar que o equilíbrio é uma instância hipervalorizada; e que estamos constantemente sendo impelidos para o lado mais raso quase como se treinássemos para a mediocridade. Portanto, era até compreensível entender porque tudo desvia do padrão ou é endeusado ou é ridicularizado, nunca é aceito. Era sobre essa enxurrada de verdades que eu pensava observando a chuva, tentando me


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enquadrar, padronizar-me, mecanizar-me e tolher meu próprio eu. A chuva mostrava que tudo que foge da curva da sanidade é podado. Ser aceito é ser equilibrado e para isso é essencial ter as expressões e reações estimadas socialmente, ou seja, não surpreender. Rastejando-me lá pelas bandas falocêntricas da cidade, percebia que era possível ser tudo, qualquer coisa mesmo desde que reproduzisse os princípios do cidadão médio: ser hétero, branco e (censurado pelo patrocinador). Estudei o céu nublado e os lampejos não me assustaram, os brados moralistas tolhiam meu grito e as lágrimas deixaram de existir. O sangue não era rubro, aquela cor era apenas o rímel que escorria pelas bordas das pálpebras inferiores. Não caí ajoelhado e nem escutei alguma música de fundo como manda o clichê dramático. Continuei andando pela rua com o semblante inexpressivo enquanto o meu sangue multicolorido escorria pela pele. Era mais que make up, era minha vida, era eu, era a minha alma, era meu ser. Se ao menos eu tivesse olhado mais atentamente antes de sair, talvez, só talvez, tivesse avistado as nuvens prenunciando o desastre. Todos falam que – imitando uma voz caricaturada - “nada contra, é o meu gosto”. Todos dizem “é só o meu gosto”. Todos repetem “gosto”. Tem um coração e uma vida por trás de toda essa feminilidade, não é algo que se possa esconder, não é algo que se possa guardar, é o que se é, está estampado na pele, na mente, no peito, em tudo. Duas horas defronte o espelho maquiando-me. Duas horas! NÃO PRECISAMOS ‘SER’ DISCRETOS, gritei com letras garrafais. Não queremos nos esconder, não mais. Andar de mãos dadas e demonstrar afeto não deveria ser uma sentença de morte, beijar não deveria ser um atestado de perseguição. E se parecemos alienígenas só


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por demonstrar amor e afeto é porque algo doentio existe e não está em nós, está na mente de quem não suporta ver o arquétipo masculino maculado. Eu não suporto mais gay discretinho, todo padrãozinho, bem conformado em não causar, em não romper com a ordem. O perfeito representante da diversidade que não subverte, que está lá porque sua presença não questiona nenhum valor, já que tudo é feito milimetricamente com discrição. E não estou falando que reproduzirei o mesmo preconceito que vomitam em mim, esse é um grito de socorro mais que de ódio. É assim que todo mundo gosta, é assim que todo mundo quer: o cara

bem

comportadinho,

bem

silencioso,

sem

discutir

nada

constrangedor, sem expor a verdade, um exímio orador que reproduz o que a sociedade já é. E isso, sinceramente, está saturando, pois dificilmente há mudança no equilíbrio. Peguei a chave da bolsa, o ametal incomodou meus dedos, girei a maçaneta e cruzei a sala invisível, tentando não notar os rostos enojados. Entrei no meu quarto, meu refúgio, minha fortaleza. Abri a porta do armário e respirei fundo. Aquele cheiro de mofo, aquela escuridão monocromática, tudo me causou asco. Retirei a toalha, enxuguei o rosto e olhei feliz para o estojo de maquiagem com a certeza de que amanhã enfrentaria uma nova tempestade.


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O quarto vazio O silêncio. O cheiro de rosas emanava dos dois quartos, a porta, sempre aberta, dessa vez estava lacrada. Não se enganem, nunca existiu porta, todos sempre tiveram liberdade naquela casa, porém tudo muda. Antes os dias eram ensolarados, hoje as nuvens roubam parte da luz que invade as janelas. Não era o medo que repelia a família da ideia de entrar nos quartos, era o amor. “Sou inocente.” Um clarão invadiu o campo visual dos três jovens, não tiveram tempo para agir. Um deles fechou os olhos e, ainda incrédulo, desejou que fosse tudo mentira. Tinha essa estranha mania de cochilar durante a noite de trabalho e se imaginar acordando subitamente de um sonho. Quem já viu isso? Um sonho dentro de um sonho? Sendo um sonho, quem sabe fosse possível despertar, olhar para o lado e rir da bobagem. E ainda que o clarão parecesse real, não era possível precisar o poder criativo de uma mente de um artista. “Eu sou inocente.” Tinham algumas sobras de tecidos acomodados sobre o banco traseiro do pequeno carro, a bagagem não incomodava. Quando terminou de dobrar tudo e enfiá-los dentro da sacola escutou um barulho, seguido pelo impacto. Todo o trabalho de guardar os retalhos de pano foi em vão. Viu tudo ser lançado em todas as direções. Não era mania de arrumação, era um cuidado até maternal com o material artístico, como se fosse mesmo parte de si, como um filho. Enquanto organizava os retalhos ele pensou em costurar todos os pedacinhos e transformar tudo


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num grande vestido. Seria incrível apresentar uma vestimenta feita naqueles moldes, a desordem que ordena o que foi descartado. Um sulco de ar, criado pelo vácuo, lançou todos os retalhos para fora da janela do carro. Ele viu aquelas fantasias serem arrancadas do seu campo de visão. “Inocente.” O chaveiro estava no bolso lateral esquerdo e mesmo assim Bel demorou para encontrar a chave do carro. Escutou a descrição da ideia de Júlio, de fato seria um belo vestido, pensou. Olhou para a pequena lembrancinha presa ao chaveiro: a imagem de Iemanjá. Riu, estava satisfeito. E, embora a profissão de produtor fosse pesada, ele sempre saia feliz do trabalho. Olhou pelo retrovisor do carro, viu Jairo ainda entretido com o celular ou com algum pedestre que passava nas proximidades. Plugou a chave. Ligou o carro. Escutou um barulho, seus olhos foram ofuscados por faróis que estavam muito próximos, bem perto, não conseguiu reagir. Pensou em Jairo e Bel, sentiu um impacto esmagando seu peito, não foi a dor física, foi preocupação. “Não tive culpa.” A visão estava embaçada, turva e o corpo cambaleante quase não se sustentava. Ele foi salvaguardado pelos colegas que riam, talvez mais alcoolizados. Era dia de comemorar, gritaram. Danem-se todos, afirmaram. Jogaram o litro vazio de uísque no muro do “Alguma-coisabuffet”, local do evento, e meteram o colega dentro do veículo. A chave do carro estava sempre visível, expor a marca do carro era o primeiro código social para definir o status naquele grupo, ou na sociedade, sabese lá por qual motivo. Foram exatamente dois minutos para conseguir plugar a chave e ligar o carro. Os colegas gritavam de longe “playboyzinho, playboyzinho”, relembrando o fora dado pela anfitriã da festa ao compará-lo com um “playboyzinho, filhinho de papai”.


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“Playboyzinho é meu …! Eu me chamo Doutor Moura, ouviram? Doutor Moura.” Gritou tocando no adesivo da OAB, grudado no vidro do veículo, que legitimava o título de bacharel recém adquirido. Embora faltasse muito para obter o doutorado era comum adotar essa partícula como parte do nome, expondo um prestígio inexistente ou afirmando um poder capenga para se apartar dos demais profissionais. Enfim, o que importa é que o então “doutor” conseguiu, a duras penas, ligar o seu carro. “Foi só um copo, eu não tive culpa.” O “doutor”, com toda a sua ciência, destruiu dois carros tentando sair do estacionamento. Despreocupado e rindo das vaias dos colegas, partiu do local antes que os donos dos veículos lesados pela imprudência do jovem notassem o estrago feito. Acelerou, pois era noite de comemoração. Recordou-se do fora dado e xingou a dona da festa. Acelerou, afinal estava finalmente livre. Queria uma música que melhor se encaixasse com aquele momento. O seu carro ocupava duas vias da avenida e ele ria, adorava invadir todos os espaços. O rapaz olhou para o som do carro e tentou selecionar uma música, mas sua visão e mira estavam deficientes. Quando conseguiu ligar o som percebeu um obstáculo no seu caminho. “Eu sou a vítima dessa história.” A ligação assustou o casal. Correram para o hospital. Ninguém está preparado para um acidente. A mãe pressentiu o pior, disse horas antes para o filho não sair, acordou alguns segundos antes do telefone tocar e sentiu um calafrio ao escutar as palavras fatídicas. Arrumaram-se agilmente e saíram. Eles chegaram desesperados no hospital, avistaram o filho com um pequeno hematoma no rosto, abraçaram-no. Perguntaram pelo estado do veículo e o “doutor” tentou descrever, ainda alcoolizado,


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o prejuízo causado no acidente. No final do corredor algumas pessoas choravam desesperadas, ignoradas pela família Moura. “Assassino!” Alguém gritou, rompendo o silêncio atormentador. Todos no recinto com aquele dress code cuja homogeneidade excessiva mais lembrava um rebanho, usavam, na maioria, ternos cinza de lã fria e camisa de algodão egípcio. Parecia tudo combinado, até o juiz observou o estranho fato com seu bom humor ácido. Duas famílias choravam. Jairo, mesmo debilitado abraçou o pai dos amigos falecidos, todos estavam agrupados no mesmo quadrante do recinto observando, descrentes, o discurso inverossímil do algoz do crime. A mãe não suportou e gritou, no ápice da dor, a sua sentença, a conclusão dada pelo fato concreto, pela morte dos dois filhos, Júlio e Bel. Fora do tribunal todos concordaram e gritaram: “Assassino!” A mãe dos irmãos sentou-se na velha cadeira do quarto, olhou os quadros pintados por Bel. Cheirou uma das camisas do filho. Era a criança mais divertida da casa até chegar Júlio com o seu grande carisma. Eram o orgulho da família, estavam destinados a coisas grandes, eram grandes. Arrependeu-se de tudo que não disse, do amor não expressado. Ela negou aquela ausência por um tempo, até criar coragem para entrar nos quartos, mas jamais imaginou ser invadida por tamanha dor. As lágrimas caíram despudoradas. Ela pegou o lençol do seu pequeno Bel e cheirou tentando reter o pouco que restava do filho. Quem alegraria a casa? Quem adornaria os dias? Quem nutriria seus sonhos? Apoiou suas costas na parede e se permitiu cair no chão, agora não tinha mais a assistência emocional dos filhos. Todos teceram mensagens lindas, todos


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presentearam com as melhores palavras e ainda assim nada preenchia aquele buraco no peito que só crescia. Ninguém a ensinou as manhas das despedidas, ela só aprendeu que os filhos nascem e roubam um grande pedaço das mães, um pedaço do peito chamado amor. Imersa na dor, seus olhos avistaram uma frase escrita na parede do quarto pelas letras dos filhos, uma obra conjunta, considerada brega no ato da feitura, mas que agora, na leitura do olhar daquela mãe, tornou-se uma obra poética, significativa. “Ainda que as luzes se apaguem, mesmo que quebrem as lâmpadas, continuaremos existindo. O brilho de um sonho é energia que não se esgota, por isso brilhamos arco-íris.”


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O dia que te vi comer um sanduíche gritei desejando ser um pouco do que foi mastigado Prólogo

[Caro leitor, este prólogo pode ser ignorado, pois não acrescentará em nada o entendimento do conteúdo do texto.]

Eu sou um otário, tudo bem, sabemos disso, mas não precisa deixar tão explícito. Posso camuflar isso e mesmo assim serei um otário. Se você assumir essa condição ainda continuará sendo um otário, por isso tudo bem se mudarmos de assunto pelo menos por um instante? Não me importo com os seus problemas, então tanto faz, pode mudar sim. Eu sou um otário, não posso negar isso, tenho que me conformar e assumir o meu fardo. Sim, claro, mas de que adianta se definir em frases e orações se o conteúdo continuará sendo o mesmo? Pausei e refleti. Não tem significado algum, quero dizer que não terá nenhum efeito, mas sinto que serei melhor entendido me separando da sua fala. E porque eu deveria me interessar pelas suas tragédias se você mesmo é condescendente com tudo que te fere? De fato, sou sim, mas não consigo não ser, imagina que tudo que faço é apenas mergulhar no que me machuca. Pois, cara, abandona isso, fazer isso não vai te nutrir, não contribuirá para nada se autoflagelar. Talvez não te acrescente, talvez nem me acrescente, mas vomitar isso pode me beneficiar. E se a minha indiferença te ferir mais? Mais é impossível, sou inatingível. Então fala logo o que te aflige!


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Começo verdadeiro O dia foi um dia qualquer, nada de extraordinário aconteceu, foi um desses dias que se paga uma conta ou que temos a impressão de que tudo na vida é pesado, mas quando vemos não tem peso algum. Eu sentei-me diante dela, ela estava linda, como sempre, e conversava empolgadamente. Tive realmente que me esforçar para escutar as palavras, mas só conseguia olhar para os seus lábios e eles articulavam precisos como sempre. Às vezes eu mesmo me sentia um bobo encarando-a. Tratava logo de tentar pelo menos ficar frio, indiferente, para evitar que ela percebesse os meus sentimentos. Dizem que as mulheres são peritas na arte de perceber as sutilezas dos homens, não podia arriscar ser descoberto, mas aqueles lábios eram a minha perdição. Antes que opine eu admito que sou um otário, caí na friendzone e dali não sairei jamais. Escutei milhares de vezes ela declarando amores e os desejos pelos seus possíveis amantes, fui paciente e suprimi meus ciúmes. Eu nem deveria ter ciúmes, afinal não tenho exatamente nada com ela. E tentando me convencer disso acabei descobrindo que é possível ficar feliz pelo bem-estar de quem se ama. É possível! É, eu juro! É sim! Talvez seja, quem souber me fala como conseguir encontrar essa felicidade… Por isso sou um otário, você deve ter pensado, mas nem foi por isso. Fui otário por outros motivos, acho que quando a vi mordiscando o pedaço de batata frita, ela me ofereceu aquele petisco e eu neguei com todas as minhas forças só pra vê-la aproveitando aquele momento. Tudo bem, menti, comi uma ou duas batatas. Ali eu acho que fui mais otário, ali eu fiz algo de diferente, encostei meu pé no pé dela e fiquei feliz com a proximidade. Ela ria enquanto conversava com as outras pessoas.


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Ria e ria. Falava algo genial, ela tinha mesmo o time certo, uma natureza de aproveitar o momento. E foi naquele riso que eu entendi, que eu gritei e me censurei internamente: Porra, é ela, é ela a minha inspiração, é por isso que fico tão estranho ao lado dela. Que droga, como eu a evitaria? Tentei uma, duas, três vezes evitá-la, mas nada funcionava. E se eu ampliasse o meu poder de “insuportância” poderia me livrar do encanto dos lábios daquela maldita, mas não, lá estava eu arrumando um jeito de sentar defronte ela só pra poder apreciar aqueles lábios. Podia ter escrito “Os lábios encantados” e iniciar um conto descrevendo o impacto dos lábios vistos pelo olhar apaixonado do admirador platônico, mas não. Não é rebuscamento, é animalidade mesmo, é uma tara desesperada para sentir aqueles lábios, de vê-los perto, movimentando-se e, mesmo sem fazer nada, imaginar-me tocando-o – outra vez – mais uma única vez, apenas uma vez… “Tá louco? Tira o dedo da minha boca, tem mais batata frita ali no copo”, ela disse assustada. Naquele dia fui um otário. Eu sei que você vai rir da minha cara, mas foi impulso. Eu obviamente inventei uma desculpa, disse que tinha um vestígio de ketchup nos lábios dela, mas eu poderia mesmo ter tentado limpar com o meu dedo indicador carinhosamente aquela boca, só para tocar e sentir a maciez daqueles lábios. E por que não falo? É tão simples, só falar… Para falar a verdade eu já até revelei os meus sentimentos, mas a friendzone tem dessas coisas, uma vez que se entra pronto, já era, acabou. Fiz dez mil feitiços para me libertar desse vício de desejar aqueles lábios, mas não consegui. Quando me vi, estava lá ao lado dela, assistindo uma comédia romântica no cinema.


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Alguém já se apaixonou pelo cheiro de alguém? Eu sim, deve ser doentio, talvez seja, mas atualmente o cheiro que mais me faz entrar em transe é o dela, o cheiro dela depois que a camada de perfume se esvai deixando somente a fragrância natural que ela deixa se desprender. E eu não sei que mal é esse, tentei ir ao médico e de nada adiantou. Insisti, fui à igreja, ao culto, ao terreiro, até nas reuniões secretas dos adoradores de tupã – grupo novo que se instalou nas proximidades do rio Poty, mas não senti os efeitos. Apelei para a homeopatia, para o cientificismo, para o psicologismo, para todo tipo de ciência e pseudociência que consegui encontrar e pagar. Levaram-me os cordões de ouro, os relógios de diamantes, a prataria e por fim as raras moedas de cinco centavos encontradas no fundo da gaveta do quarto. Ela apareceu, na verdade eu que apareci diante dela. Ela desempacotou o sanduíche comprado, na verdade era um hambúrguer, é que eu fiquei tão abobalhado que troquei o nome. Eu sempre trocava os nomes, eu nunca consegui demonstrar um grau aceitável de inteligência ao lado dela. Enfim, ela mordeu, deixou que todos os molhos e condimentos se espalhassem no interior do pão e escorressem pela borda do hambúrguer. Como seria ser mastigado por aquela boca? Excitei-me, olhei para os lados, ninguém pareceu prestar atenção no volume. Cantei - internamente - a música “Vento no litoral” do Legião Urbana, pois na adolescência minha professora de história, Adalgisa, disse que essa música era brochante e, sabe-se lá porque, eu gravei esse detalhe. Desde então eu canto a música para controlar as minhas ereções não programadas. Ela mordia com uma ânsia e elegância que só ela tinha, desejei ser cada milímetro daquele hambúrguer, sentir a sua língua percorrendo meu corpo, sentir o gosto daqueles lábios, sentir aquele perfume. O perfume,


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não, de novo não, “De tarde quero descansar, chegar até…”, funcionou, nem precisei chegar ao refrão. Por isso, apenas por isso, fui um otário. Por deixar que ela me transformasse num amontoado de subserviência de amizade. Eu não quero ser amigo, sussurrei. Menti para ela, pois ela queria comemorar a nossa amizade e eu sabiamente deixei que ela esquecesse da data, eu não carimbaria o sentimento dela com nossa foto. Se eu não valia a pena para ela, tudo bem, engoli o comentário a contragosto dito aleatoriamente para afirmar que o homem ideal para ela tinha que ser um “super-homem” nietzschiano. Talvez não hoje ou amanhã, mas um dia… Imaginei o dia que chegaria, já perito na arte do flerte, sendo o tal “super-homem”, independente e bem-sucedido, tentando conquistar o amor daquela maldita, gritei internamente enquanto ela mastigava o hambúrguer do meu amor platônico. Fim

[O elemento seguinte também pode ser ignorado sem prejudicar a essência do texto.] “Antes que você pergunte, não, não era ELA, só que sei lá. É estranho dizer para um desconhecido que eu quis ser mastigado por ELE. Entende? Então, depois de saber disso tudo você também acha que sou otário? Ei… Você tá dormindo?”


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O pau Eu não vou olhar. E ele pulsando, sem nenhum constrangimento, ali, sob o império da calça jeans, deixando um volume inconfundível. Eu não posso olhar, droga. Permaneci atento na fala, tentei me concentrar nas palavras, mas aqueles malditos lábios também excitavam. E se olhasse de relance e fingisse uma divagação dessas de quem reflete assuntos profundos? Mesmo que todos digam o contrário, havia sim muita ciência no meu olhar. Só quem tenta avaliar o conteúdo escondido pelas vestes é que sabe o quão operoso é tentar decifrar tamanhos e diâmetros. O olhar deve ser preciso e nunca direto, poucos conseguem usar a visão periférica para colher os dados do espécime. Olhei, droga, olhei diretamente, era sim o membro vibrátil no ápice da excitação. Maldição, olhei de novo. Como pode estar assim, sem nenhuma vergonha, falando fluentemente como se nada entre as pernas estivesse acontecendo. Ele articulava um assunto qualquer, talvez fosse importante pela gravidade da situação, mas quem seria louco suficientemente para tratar de assuntos relevantes num estado como esse? Perdi-me entre o assunto e mais uma pulsação do membro, comecei a me indagar sobre a phainesthai, quem sabe tudo fizesse sentido para o cara, ele estava lá discursando tranquilamente com o seu membro revoltado e eu, um mero escravo da minha libido, desejando arrancar com os dentes cada fio que compunha aquele tecido que me apartava de enxergar a sua nudez. Sentei-me defronte o cara, não sei dizer ao certo que tipo de ligação emocional ou afetiva temos, tínhamos ou teremos. Acredito que uma


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relação muito superficial, tanto que esqueci por completo o seu nome. É que a memória costuma se esvair em momentos de tensão e me julguem se quiser, mas diante do volume do membro não há o que fazer senão olhar, apreciar, dar atenção a quem clama por contato. Execrei o Ego e vociferei mentalmente injúrias ferinas contra o Superego, que provavelmente me impedia de deixar que a minha mão escapasse da mesa. Simulei um pequeno desastre e deixei que a caneta caísse no chão, foi quando pude abaixar-me e apreciar mais de perto a visão privilegiada,

salivei

prontamente como

reação

natural a

possibilidade de usar a língua, boca e garganta. Eu deveria culpar meu ID, contudo culpo o acaso que repeliu a presença humana do local. Percebi onde estávamos, era uma sala silenciosa e deserta de uma cafeteria. O cheiro do café que ele sorvia ferozmente como se degustasse um vinho raro acabou impregnando o local. O silêncio repentino me fez despertar do transe, fui vencido pelo instinto e num ímpeto animalesco perdi o controle da minha própria ação. Nós dois olhávamos incrédulos a minha mão independente subir subitamente e astutamente o joelho, a coxa e tocando com inquestionável precisão o pau sob a calça. Não houve rejeição de nenhuma das partes, não se falou nada, não pedimos desculpas, suprimimos os ruídos. Ali, escondidos pelo silêncio dos livros, pelo esquecimento dos funcionários, pelas trevas da noite, dialogamos com gemidos. Os joelhos esqueceram os cascalhos pontiagudos, os dedos da mão do cara entrelaçavam-se aos meus cabelos e, guiado pelos empurrões da mão condescendente, não tive outra alternativa a não ser mergulhar o pau nas camadas de músculos embebecidos de saliva que compunham a minha garganta.


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Agradeci imensamente os conhecimentos de mergulho adquiridos da aula de natação, nunca vi tanta serventia para ser o campeão em prender a respiração embaixo d’água. Não importa quão distante são os desejos, aquele conflito das consciências construiu uma comunicação íntima cuja experiência aprendida naquela noite só se repetiria posteriormente, na despedida de solteiro do cara e só por mera obra do acaso. Só porque dividiríamos uma cama bêbados e minha benevolência me impediria de não presentear o noivo com uma boa e velha “conversa oral”. O cara se contorceu, contraiu todos os músculos, gemeu mais alto e deixou que seu corpo caísse para trás encostando na parede enquanto empurrava bruscamente a minha cabeça contra seu corpo. Tenho que admitir que a demonstração de carinho me emocionou a tal ponto que foi impossível não deixar as lágrimas ruírem. Seus dedos enrijeceram subitamente e, por fim, relaxaram. Ergui-me, sentei-me à mesa e continuamos a conversa, a reunião.


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Trinca vidro Desinteressante… Mastiguei a palavra, olhei aqueles olhos úmidos. O espelho trincou, rachou da ponta direita ao centro, meu reflexo dividido assustou-se. Feio? Escutei no trincar do vidro. Evitei concordar, evitei me olhar, evitei-me por tanto tempo que já tinha me esquecido dos traços particulares que compunham a minha feição. Por que olhar o que não se quer ver? Sofrer é afogar-se, é não resistir ao fim, perecer enquanto o corpo afunda na areia movediça. A vida se esvai aos poucos, quando você se toca já não é mais nada do que foi, perdeu a sua própria luz. Encarei-me por isso, para sofrer mais um pouco antes do derradeiro corte. Gordo? Olhei o excesso de gordura, nunca fui ocioso, mas aquele corpo me acompanhou durante tanto tempo que parecia um carma. Há quem goze da infelicidade alheia, então provavelmente os meus inimigos são pessoas bem felizes. Eu cansei… Fui cansando aos poucos. Fui perdendo a raiva de ter nascido nesta carapaça vil e defeituosa. Sem nenhum talento para o drama, suprimi a expressão daquela dor e fui só deixando o tempo passar e me levar aos poucos. Fragmentando-me à medida que definhava. Desencantado... Acho a palavra “desencantado” demasiadamente forte, pois encantar-se é mergulhar num outro universo, ressignificar o ordinário e pincelar no cinza do cotidiano um toque pessoal, particular, só seu. Então vem o extremo oposto, o desencanto. Desencantar-se é vomitar todos os


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sonhos, é rasgar os planos, ser arrancado da fantasia, das crenças, de tudo que nos compõe e enxergar de volta o cinza, o cru. Por isso evitei o espelho, antes eu parecia um ser indomável, mas não sou como vidro. Não foi um simples toque que me dilacerou. Foram as somas das pancadas acumuladas, não libertadas, inertes, querendo movimento, querendo uma válvula de escape. Tudo fragilizou, o trincar foi o ápice, antes da quebra total da minha estrutura. Feio? Desinteressante? Gordo? O espelho não mente, mas ficou calado. Só que precisava trincar justamente defronte meu rosto? Afasteime, tomei dois goles d’água. Refleti e divaguei diante da geladeira, imaginei-me amanhecendo mais feio do que nos dias comuns, talvez a natureza já não pudesse suportar tanta imperfeição condensada num único lugar. Eis que, também, o copo de vidro trincou. Caiu da minha mão indelicada e espatifou-se ao beijar o chão. Voltei ao quarto, encarei-me no espelho quebrado que respondeu prontamente explodindo em miríades de fragmentos. Não tive nenhuma dúvida, piorei, perdi o resto de capital estético que possuía, que me permitia conviver entre os humanos. Tratei de isolar as janelas, as portas, todas as frestas, afinal o que seriam dos infelizes olhos que cruzassem com o meu rosto? Tornei-me uma ameaça para o mundo, isolado nada poderia dar errado, salvo um pequeno detalhe: a porta dos fundos estava aberta. Alguém rompeu o meu silêncio, girou a maçaneta da porta, atravessou o tapete coberto por cacos de vidro, tocou o meu ombro e carinhosamente sussurrou no meu ouvido com a barba rala tocando a minha pele, virou-me no escuro, beijou-me delicadamente e dizendo: “Vem cá, meu feinho”


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Resquício qualquer de civilidade Encontra-se

alguns traços peculiares na espécie estudada.

Registrados como mamíferos, verifica-se alguns indícios incomuns avistados no interior das agremiações – a qual chamam ironicamente de tribos – como por exemplo, o espécime observado cria, desde o domínio da primeira decodificação dos sons, na superioridade da própria espécie. Atualmente ele crê, com mais ceticismo, claro, mas crê. Embora essa crença sofra algumas gradações dependendo da localidade de onde se fixou o grupo. Pouco adiantou tentar estabelecer comunicação, pois, dada a limitação intelectual dos mamíferos, os procedimentos para o primeiro contato – amistoso, diga-se de passagem – mostraram-se ineficientes. Portando, excluídas todas as possibilidades, restou nada mais que a camuflagem. A conclusão para o desvio de protocolo deu-se pela observação das idiossincrasias colhidas sobre as interações dos animais nativos. A construção da lógica dos indivíduos exclui, a priori, as possibilidades para as novidades, sobretudo para arguições que fogem da margem dos credos dos nativos. Anexado ao relatório fez-se necessário classificar algumas performances dadas como regra pelos nativos: •

Contradição entre o prazer e a moral. A escala de elementos

presentes desse ponto é visível quando observada a interação com o resto da tribo e resulta no curioso caso do chamado Sujeito Dominante Exemplar cujas ações costumam se dividir entre a libidinosa, nas quais hão de permitir o completo uso das potencialidades sexuais para degustar os


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prazeres físicos e químicos advindos da libido; e a ação moralista, na qual impede o excesso de liberdade, quando o corpo é censurado pelas regras e sanções sociais. •

A liberdade é relativa. Serve para dar privilégios ao próprio ego, pois

não é possível imaginar uma liberdade democrática, já que a ideia de posse domina a lógica nativa. •

Criticidade seletiva. Enxerga-se com muita transparência as falhas

alheias e aplica-se com severidade exemplar penas aos sujeitos desviantes, desde que os princípios feridos sejam divergentes da corrente teórica de quem está emitindo o juízo de valor. Dessas distorções é possível perceber algumas particularidades da espécie, tais como a exótica e recorrente mania de vivenciar experiências que fogem da curva dita aceitável, desvio permitido apenas para si. Quando outrem tenta performar usando o mesmo caminho as sanções recairão sobre o replicador do desvio. A coação só acontece se e somente se o sujeito desviante não pertencer às minorias dominantes da tribo. O dito garanhão e sedutor de vários parceiros, portador da posição de dominador sexual – com o perdão das classificações vigentes – poderá aproveitar sexualmente quantos companheiros ele quiser e terá a sua própria forma de seleção. Os dominadores selecionam levando em consideração os critérios aceitos socialmente, suas escolhas envolvem outra crença, baseada na moral religiosa, e geralmente eles exigem que os outros nativos entrem e se encaixem na palheta de raça, classe e padrão preestabelecido. É importante frisar que qualquer menção sincera e espontânea dos critérios da seleção será julgado pelo grupo como reprovável, pois a escolha do parceiro sexual deverá ser feita de forma velada e com a desculpa da subjetividade, medida usada para fugir da natureza social que


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recai sobre a escolha dos parceiros sexuais, carinhosamente apelidada de “é-meu-gosto-gosto-não-se-discute”. Para os dominadores, que costumam trocar de parceiro com facilidade, a escolha divide-se em saciamento momentâneo ou construção matrimonial. Na primeira não existe uma regra própria, salvo as supracitadas exigências sociais, já a matrimonial acontece levando em consideração o critério chamado, pelos especialistas nativos, de machista. O critério parte do princípio que o parceiro selecionado para o matrimônio deve ser considerado intocado, não maculado ou, pelo menos, o menos “maculado” possível. A mácula significa envolver-se sexualmente com outras pessoas mesmo que o sujeito dominador não siga a mesma regra, pois esse espécime acredita que a virtude do parceiro é condição sine qua non para a construção do matrimônio. Além de vincular moral ao celibato, ou o celibato à pureza. O relatório parcial carece de dados consistentes devido a inconstância no discurso da espécie humana. Constata-se que a mera ideia de outro ser ciente dividindo o mesmo espaço amostral do homo sapiens sapiens é insana para os indivíduos observados. A conclusão parcial descarta qualquer aproximação com a espécie aludida, contudo infere que o parecer final para as demais espécies inteligentes do planeta é positivo, haja vista que os demais seres possuem um grau de empatia e altruísmo mais sofisticado que os primatas autodeclarados inteligentes.


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A lei da diversão Era

incenso? O cheiro agradável não era dos melhores, poucos

odores distraiam, mas a situação exigia uma fuga e a porta de saída mental encontrada para evitar os olhares foi questionar o primeiro estímulo que o mundo provocou, neste caso o cheiro. Se fosse incenso arriscaria um odor, não me recordo o nome, mas creio que alfazema era o odor que mais se assemelhava com o perfume reinante. Era perfume? Não, talvez um hidratante. Provavelmente se fosse no meu corpo eu sentiria com mais facilidade. Comparar com alfazema seria atribuir qualidades que aquele odor não tinha, por isso desisti de tentar examinar as características balsâmicas e quis perguntar aos colegas, já familiarizados com o local, a origem da fragrância. Seria menos constrangedor perguntar, contudo quem se importaria com a procedência do cheiro ambiente? Perguntei. A resposta não foi tão agradável quando eu gostaria. “Gelo seco”, repeti mentalmente aquilo. O que seria um gelo seco? Um outro estado da água para além do sólido? Se fosse isso pecaram na divulgação da descoberta, pois, assim como eu, haveriam outras pessoas que desconheciam a novidade, tratada pelos nativos como algo comum. Certo, foi falta de atenção não associar o excesso de fumaça ao odor, mas munida desta informação deu até para entender o motivo do uso da substância. O ar, embora contaminado pelo odor, ganhava um aspecto sombrio e mágico. Pensando bem, nas partes não alcançadas pela fumaça os feixes de luzes e lasers cortavam o vazio, já nos espaços dominados pela fumaça as cores escorriam e tingiam o ar. Era o ambiente ideal para quem não gostava de ser visto.


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Tentei algumas vezes puxar assunto, era simplesmente impossível. Existia uma barreira invisível que me apartava de todos do grupo, talvez uma barreira de interesses. Por isso, diante do bombardeio dos lasers e da minha incapacidade de quebrar a minha compostura fui guiada pelo espirito da massa, como a diferente eu deveria tentar readaptar-me. Era mesmo preciso se movimentar? Soltei a pergunta jocosa tentando obter alguns risos, arrependi-me da brincadeira, prestei atenção que, por mais bobas e rasas que fosses as brincadeiras gerais, elas sempre eram aceitas, entretanto tinha algo nas minhas palavras que não agradavam os colegas e era nitidamente perceptível. O silêncio veio como defesa, não tinha outra opção, tentei burlar minha própria percepção, fingir que não era real a cara de desaprovação dos colegas, arrisquei finalmente rir das piadas alheias. Apostei mover meu corpo e, mesmo sem saber como, tentei. Fui além dos meus limites para conseguir uma aproximação. Não funcionou. O que era preciso para se divertir? Não da minha forma, pois a minha forma para todos era a forma errada e a forma de todos era inacessível porque eles não me viam sendo aquilo que eles eram. Eu me tornei uma estrangeira sem nação presa dentro de um corpo alheio num ambiente hostil. Senti-me um cacto sem ter noção da existência dos próprios espinhos. Um cacto entre as rosas. Seria essa a ocasião prometida nas abstrações matemáticas que finalmente me forçaria a usar uma equação do segundo grau para resolver esse paradigma do contato humano? A música invadiu meus pensamentos, era uma composição simples, nada complexo, algo que beirava a falta de criatividade e mesmo assim era aceito pelas melhores mentes. Era dançante, justificavam. Não julguei, aceitei, adotei o novo repertório e mesmo assim por algum motivo eu fui


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considerada o erro. Se nada funcionou como ferramenta de encaixe, talvez eu estivesse no lugar errado, mas antes de concluir, por precipitação, a hipótese da alteridade, tentei encontrar um lugar equivalente nesse universo das diversões. Seria um espaço neutro, cujas diferenças se anulariam. Ignorei o odor e as luzes, pulei freneticamente como uma das nativas. Aquilo era diversão? Aparentemente sim. Há um manual não escrito que define a forma de se divertir, qualquer desvio é considerado doença. Nem sei exatamente porque entrei na boate, porque aceitei o convite, mas decidi experimentar o novo. Fui engolida pela multidão que estava enlouquecida e imersa no frenesi das músicas. Distanciei-me dos colegas, mas por algum motivo, obra do acaso ou destino, deparei-me com eles, o meu grupo, que, sem conhecerem a minha localização, discorreram abertamente sobre os meus defeitos. Invadi a privacidade deles, na surdina da multidão, permitindome escutar alguns ultrajes e questionamentos sobre o meu jeito de ser. Descobri o prazer da espionagem. Silenciei. Legislaram uma forma de agir. Categorizaram uma forma de rir. Engessaram expressões, emoções e reações. Ao final da sentença guardei as acusações no lugar do bom-senso e deixei-me guiar pelo fluxo da noite. Questionei-me por algum tempo porque eles sairiam com alguém que não agradava e depois de não obter respostas deixei o pensamento evaporar da minha mente. Se me perguntassem uma qualidade eu diria que sou mestra em ignorar as dores, vivencio o sofrimento até certo ponto e depois deixo aquilo morrer. Esbarrei-me subitamente noutro corpo, eram olhos semelhantes, eram lábios fugitivos e, assim como eu, estavam ali pelo acaso. Nos divertimos do nosso próprio jeito, longe do caos, encontramos no outro


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um lar e um abraço leal. Se diversão tem lei, burlamos todos os artigos. Saltamos da curva dos normais e criamos uma brecha na regra, um vazio particular chamado respeito. Aprendi a construir meu próprio lar.


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O beijo roubado Um ruído, o vento entrando pela janela, folhas do último outono apodrecendo no fundo do baú esquecido. Perdi-me divagando, quantas cerejeiras vi florindo? Cerejeiras não nascem no Nordeste, corrigi-me mentalmente, eram ipês amarelos. Sentei-me no chão, sobre o tapete empoeirado, observei as cartas espalhadas pelo quarto sem nenhum cuidado. Coloquei a cabeça apoiada nos joelhos, encarei-me no reflexo do pedaço do vidro estilhaçado, quebrar espelhos faz de você um amaldiçoado? Não, mas ele deveria estar apenas trincado. Isso explicaria tudo, uma maldição desalinhando os fios que insistentemente eu tentava tecer. Contudo, seria preciso reagrupar os fatos e alocar o evento gerador da minha má sorte para um pretérito bem distante. Há quantos dias os vidros espalhados pelo chão feriam meus pés? Dois dias? Aquelas manchas coaguladas eram sangue? Quem sabe eu tenha quebrado uma fábrica de espelhos ao nascer. Ri de mim mesmo, quanta loucura, quantas hipérboles insanas. Cabisbaixo, aproveitei o ensejo para observar a sola dos meus pés e tirar os restos dos cacos de vidros que ainda incomodavam. A verdade era que as feridas nem incomodavam, pois a dor maior suprime as dores secundárias. Aquela dor abstrata, que devorava o meu peito, turvava os meus sentidos e me deixava dormente enquanto eu arrancava da minha própria carne os fragmentos vitrais, tingidos pelo sangue, como quem extrai da terra pequenas pedras sem valor. Quem eu era não estava nos reflexos destroçados, quem eu era deixou de existir. Há dois dias descobri o inevitável, fui beijado sem aviso e fiquei sobressaltado naquele quarto. Um beijo. Apenas um beijo e deixei


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que a maré de horrores se apossasse de mim, tirasse a minha paz. Aqueles lábios levaram com o beijo parte da minha essência. O Ladrão roubou um pedaço de mim. Condenei-me, estava fadado a ser rejeitado pelo mundo. O beijo partiu do inesperado. Eu poderia ter me afastado, mas permaneci colado aos lábios da boca do desconhecido, ele riu e deixou o número anotado no pedaço rasgado do guardanapo. Refugiei-me no meu quarto, flutuei na cama antes de ser pelo sono alcançado. Acordei pior, concluí que dormir perseguido pelos pesadelos é apenas fechar os olhos, simular descanso e camuflar o desespero. Não há conforto quando a mente pesa, quando se é perseguido pelo monstro de mil olhos. A brisa folheava as páginas do livro sagrado que estava acomodado sobre a mesa. O meu pranto devorou a fome, devorou a vontade de viver. Despi-me das roupas maculadas, gritei e ninguém escutou a minha dor. Dor fala? Se falasse quem escutaria? Atirei a bíblia contra o espelho enquanto me recordava do beijo. O universo preso na borda dos meus olhos caia concentrado em cada lágrima, comprimindo todos os meus medos. Ri desesperado, senti o peso do livro sagrado pulsando no chão do quarto. Seria pecado? Ter gostado foi errado? Um beijo desprevenido, um beijo roubado, a barba tocando a nuca, o calafrio de se sentir vivo e o sabor, antes desconhecido, de estar apaixonado. Questionei minhas certezas, agora eu estava no lugar do alvo. Sabotei a minha própria sabotagem e tirei do bolso o pedaço riscado do guardanapo. Exatamente por isso sofria, por já saber o que queria e ter certeza que eu ligaria para retribuir o beijo roubado. Há dois dias o número anotado mente, diz ser inexistente e eu recolho os cacos do meu eu despedaçado. Escrevi cartas, mas lembreime que sem o endereço elas nunca chegariam ao destino desejado.


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Como não perder a masculinidade lendo poesia Eu

nasci macho, bem homem mesmo, sem nenhum defeito

aparente, embora eu já tenha fraturado a tíbia num acidente de moto provocado pela tentativa de provar a minha masculinidade. Fora isso eu tenho uma paixão assustadora por livros, em especial os de poesias e, para piorar, os de poesias românticas. Escondi dezenas deles sob minha cama, não desejo a ninguém sofrer do mesmo mal, pois passei a adolescência chorando ao ler as obras de Shakespeare nas trevas da madrugada e no silêncio do meu quarto. Tudo bem, também consumi um pouco de prosa, confesso. Certa vez fui pego no ato e, graças ao ótimo reflexo que tenho, escondi-me sob as cobertas, mas de nada adiantou, pois meu pai logo sussurrou questionando o que diabos eu estava fazendo. _Batendo uma, gritei sobressaltado. Observei um misto entre felicidade e constrangimento no semblante do velho. Desde aquele incidente, tratei de fechar a porta do quarto, principalmente nos meus momentos mais íntimos, cujas leituras orgásticas me roubavam completamente a atenção. Desandei de vez, li tanta poesia que sem perceber me pegava falando alguns versos. Passei as noites refletindo sobre o perigo daquele hobby e como aquilo me consumia. E tentei, sério, tentei mesmo largar aquele vício, aquela podridão. Confinei todas as obras dentro de uma caixa, não consegui queimá-los, era demais, não suportaria tamanha maldade. Então decidi fazer uma doação para a biblioteca, mas a caixa era demasiadamente larga para


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passar pela porta do meu quarto ou as lágrimas que se desprenderam dos meus olhos foram as verdadeiras responsáveis por não me deixar sair de casa naquele dia. Quem sabe outro dia… Só sei que eles ficaram lá, guardados. “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões caiu da caixa lacrada sob o julgo das minhas mãos. Ah, Camões, como poderia deixá-lo partir? Há momentos que um homem precisa tomar decisões importantes, aquela já estava passando do prazo. Eu tinha que salvar a minha heterossexualidade daquele desvio. Criei a coragem depois que meu pai chegou para ter um papo de homem sem aviso prévio, com toda a sua sagacidade o velho esperou que toda a família saísse para falar que eu era estranho. Fui acometido pelo pavor, sentei-me no sofá e esperei pelo pior, esperei que ele dissesse que sabia de tudo, que havia encontrado os meus livros. Contudo ele disse desconfiado, e quase sem vomitar um único som, que eu estava mudado. Depois da conversa encarei Fernando Pessoa, deixei que a ira guiasse as minhas ações e já ia lançar o livro pela janela quando me lembrei do “Poema em linha reta” e recuei. Caí sobre a cama, não conseguia mais segurar tudo aquilo. Era demais esconder para todos o grande mal que se apossava do meu corpo. O que meus pais falariam quando descobrissem? O que meus amigos diriam quando soubessem? Como minha namorada reagiria? Era sempre um martírio ter que esconder aquela paixão. As minhas declarações ficaram rítmicas, os meus pedidos e galanteios se transformaram em poemas Trajanos, em fragmentos da poesia “A arte de provocar”. Uma vez minha namorada me acordou e afirmou ter me escutado murmurando alguns versos de Drummond. Eu rebati, não


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aceitaria aquele ultraje, gritei a manhã toda e como ato de desespero disse ter sido possuído por alguma música chiclete da moda. Contrariando-me, ela berrava, dizia que eu falava que o “amor batia na porta”, que em seguida dizia “e agora, José?”, misturando com um pouco de “Quando nasci, um anjo torto desses…” _Desses? _Sim, desses. _Era Torquato ou Drummond? _Ah, sei lá, então você estava declamando mesmo, eu sabia! Atordoado, deixei o quarto e foi quando usei o meu primeiro palavrão. E se não tivesse saído como poema teria sido efetivo, mas lá estava eu descendo as escadas e gritando “Epigrama” de La Fontaine. Quando dei por mim todos estavam boquiabertos com as minhas palavras. Como explicar aquilo? Não havia mais dúvidas, eu declamei um poema. Precisava

ofuscar

aquela

lembrança,

então

nas

semanas

subsequentes voltei a jogar futebol, judô e beber no bar com os amigos. E foi num ato desmedido, quando perdi os pudores da sobriedade e escalei o balcão do bar sem me importar com os olhares dos colegas, embebecido pela coragem etílica, que gritei aos quatros ventos a poesia “Gol” de Ferreira Gullar, seguindo com uma declamação da poesia “O anjo das pernas tortas” de Vinicius de Morais. Rendi-me ao desejo, fui tatuado pela chaga da poesia e sem ter mais controle dos meus atos passei a ver o mundo com as tintas da rima, tudo era poesia, tudo passava pelo meu filtro de versos. Eu precisava me expurgar daquele veneno, o mal deixou de ser interno e chegou à superfície do meu corpo. Eu já não era um corpo fingindo ser, eu era a


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própria poesia eclodindo pela epiderme, um invólucro de redondilhas maiores que não aguentava mais ser suprimido. Reuni a família, a namorada e os amigos. Tinha que despejar de uma só vez toda a verdade, chorei durante a noite e me amaldiçoei por ter enfraquecido, deixado que a primeira rima entrasse no meu peito no formato de Clarice Lispector e posteriormente Da Costa e Silva, mas sucumbi mesmo foi quando caí nas redes de Alvina Gameiro, depois quando fui massacrado por Hilda Hilst, Cecília Meireles e Auta de Souza. Ah, Auta de Souza! Quem dera sentir como a pena branca da poeta riscando o meu pesar. Eu queria era mergulhar na obra “Horto” e me misturar com aquela tragédia lírica para evitar o destino cruel de ser condenado por ser um apaixonado pelas rimas. Disse em alto e bom som o que eu era, um apaixonado pelas poesias e escutei um barulho uníssono diante da verdade, todos assustaram-se com a minha revelação. Meu pai chorou, minha mãe desmaiou e minha namorada gritou andando pela sala, eles não entenderam meu ecletismo. _Eu não quero escutar de novo, gritavam em coro. _Eu nunca li Baudelaire, repeti envergonhado.


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Vidro trincado Sob o julgo inquestionável do Verbo, lá nas entre linhas da parábola benquista da oração, alimentado por séculos de crueza, nasceu sem destreza um corpo mutilado pela tradição. Esmagado pelas palavras e olhares aquele feto disforme perdeu a sorte, foi tratado como maldição. Por isso, vagou sem medo nos becos, na noite sem destino, pois sabia que entre os ímpios ele tinha um espaço no coração. E foi de mãos dadas que aquele ruído desafinou a orquestra sacra da aculturação, pois não aceitando os restos descobriram que precisavam viver sem medo da coação. E a postura de vidro na vitrine do simulacro dos pífios trincou com o desafino daqueles que não aceitavam a padronização. Trinca vidro, vidro trincado, agora não tem retorno, é aceitar que nesse coro tem voz que segue firme na transgressão. Iconoclastas existem para subverter a padronização.


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Fonte: Gothic alisson carvalho


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