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O potencial polifônico do jornalismo em tempos de pandemia

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06/01/2021

O potencial polifônico do jornalismo em tempos de pandemia (por Rafael Rangel Winch) - Sul 21

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O potencial polifônico do jornalismo em tempos de pandemia (por Rafael Rangel Winch) Publicado em: junho 15, 2020

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“No contexto da pandemia, as condições de produção do trabalho jornalístico se tornam ainda mais delicadas”. Foto: Marcos Corrêa/PR https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2020/06/o-potencial-polifonico-do-jornalismo-em-tempos-de-pandemia-por-rafael-rangel-winch/

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Rafael Rangel Winch (*)

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Já é bastante observável que aCOLUNAS coberturaGUIA21 da covid-19 envolve uma série de obstáculos para jornalistas que ASSINE NOTÍCIAS OPINIÃO COLMEIA ESPECIAIS INSTITUCIONAL estão reportando esse acontecimento. Por acionar diferentes campos sociais, a pandemia vem sendo

intensamente narrada jornalisticamente com base em interesses, ideologias e imaginários, muitas vezes, con itantes e até mesmo contraditórios. A complexidade no ato de narrar é o mínimo que podemos esperar de um evento com tamanha magnitude. A narrativa jornalística sobre o vírus e todas as dimensões da crise sanitária não pode dispensar o princípio da diversidade de vozes, isto é, o preceito da pluralidade de ideias e pontos de vista. No entanto, sobretudo diante de um contexto pandêmico, o potencial polifônico do discurso jornalístico merece ser tensionado. Para esmiuçar esta re exão, primeiramente vale retomar uma questão nada inédita, mas sempre pertinente: Quem fala no jornalismo? Uma das principais respostas dada pelos pro ssionais em exercício e

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evidenciada por inúmeras pesquisas da área sinaliza imediatamente os próprios jornalistas, o corpo editorial e, claro, as fontes de informação como os indivíduos que “falam” numa notícia ou reportagem. Todavia, ao pensarmos o produto jornalístico enquanto um gênero discursivo, coloca-se como basilar a compreensão de que cada um desses indivíduos pode se “desdobrar” em diferentes sujeitos ao interpretar e descrever os fatos a partir de um determinado ponto de vista. Dito de outra maneira, no ato da fala, podemos mobilizar várias vozes – posições, formas de apreciar e interpretar o que identi camos como a realidade – de modo explícito ou ainda implicitamente. Estudos discursivos dos campos da linguagem e da comunicação, há muitas décadas, enfatizam a existência de diferentes vozes no discurso jornalístico – aspecto também veri cável em outros gêneros discursivos. É intrínseco a todo dizer o processo da dialogia: a relação entre o eu e o tu, entre o mesmo e o diferente, en m, o diálogo entre os sujeitos. Já nas primeiras décadas do século XX, o lósofo da linguagem Mikhail Bakhtin conceitua os textos polifônicos como aqueles que apresentam uma multiplicidade de vozes. A polifonia permite, então, o convívio de vozes ideologicamente distintas, possibilitando que elas se façam presentes em um discurso sem necessariamente serem reduzidas a uma única voz dominante.

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Por sua vez, nos anos 80, o linguista Oswald Ducrot traz uma grande contribuição para o debate sobre a polifonia, demarcando a existência de várias vozes no discurso de um mesmo sujeito enunciador. Nessa linha de pensamento do autor, tanto o dizer dos jornalistas quanto das fontes comportam, em muitas situações, vozes diversas. Na contramão desse processo polifônico, uma reportagem pretensamente aprofundada pelo uso de diferentes fontes pode registrar baixa diversidade de vozes sendo, no limite, monofônica, quando todos os sujeitos falantes expressam apenas um ponto de vista sobre os fatos narrados. Partindo dos estudos sobre polifonia discursiva aprendemos que a quantidade de fontes nem sempre implica numa real pluralidade de vozes e sentidos no jornalismo.

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O quadro social pandêmico engloba vozes diversas que podem ser explicitadas em produções jornalísticas

 os mitos sobre o vírus, a e cácia das ações do poder voltadas paraBuscar a proteção pessoal e comunitária,

público conter oOPINIÃO contágioCOLUNAS e cuidar das pessoas que adoeceram, di culdades e o progresso na ASSINE para NOTÍCIAS GUIA21 COLMEIA ESPECIAIS as INSTITUCIONAL

produção de vacinas e tratamentos, os gestos de solidariedade e empatia, as implicações na saúde mental e física no período de isolamento social, a situação das populações mais vulneráveis e dos grupos de risco, a rotina de pro ssionais que estão na linha de frente do combate à pandemia, como enfermeiras, médicas, socorristas e agentes de segurança, entre outras pautas de interesse público. Como bem frisado pelo guia da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a informação jornalística de qualidade é uma ferramenta fundamental para que as pessoas conheçam e adotem medidas preventivas disponíveis para cuidar de si, do outro e, assim, salvar vidas. É oportuno acrescentar que o discurso do jornalismo é quali cado a partir de uma série de preceitos, como a pluralidade de vozes. Além das necessárias diferenças em termos de ponto de vista – o que os sujeitos dizem –, uma narrativa plural, é claro, não pode dispensar aspectos identitários como classe, raça, gênero, territorialidade e geração, visto que os acontecimentos também são conformados pelos lugares sociais concretos das pessoas afetadas pela sua existência. Outra ressalva importante tem a ver com a valoração das vozes ampli cadas pelo jornalismo. Uma narrativa que almeja contribuir democraticamente para o debate público precisa romper com alguns lugares viciosamente pré-estabelecidos para cada sujeito. Não parece adequado e justo, por exemplo, circunscrever a fala das fontes de classes populares apenas em posições de descrição e lamentação, quando elas também podem ocupar lugares mais críticos e reivindicadores no discurso jornalístico,

COLUNISTAS Bruno Lima Rocha A subserviência do exército de Caxias e sua estúpida retórica contra a Venezuela Coluna APPOA 2020 (antes de você ir)

mesmo quando expressam as suas dores pelos dramas vividos. No contexto da pandemia, período em que as condições de produção do trabalho jornalístico se tornam ainda mais delicadas, a polifonia é facilmente um horizonte ameaçado. O aceleramento da precarização pro ssional di culta que jornalistas mergulhem na complexidade das situações pautadas. Uma consequência disso é o engessamento das narrativas e a supressão de vozes que seriam relevantes para a

Ronald Augusto A perpetuação do racismo implícito que ofende sem ofender

compreensão dos fatos, sobretudo, as perspectivas de sujeitos que se situam à margem dos poderes dominantes. Para além das consequências na atividade jornalística, tempos de pandemia podem trazer efeitos sociais graves como a intensi cação do nacionalismo, o aumento da xenofobia e a repressão política. Num cenário agitado e marcado pelo acirramento de violências simbólicas e físicas, a polifonia no discurso jornalístico é importante, mas precisa ser operacionalizada com muita ponderação. Isso signi ca que não é coerente e digno que o jornalismo situe determinadas vozes em posição de equivalência sob a justi cativa normativa de “dar os vários lados da história”. A fala de toda autoridade pública, cientista e do “cidadão comum” está sempre entrelaçada numa teia ideológica – mesmo que nem sempre expressa conscientemente. Cabe também ao jornalismo veri car, analisar, explicar e evidenciar os lugares dos quais

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suas fontes partem, os interesses possíveis que movem suas falas e a relevância delas em campos sociais especí cos. ASSINE

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Pesquisas sobre a cobertura jornalística das mudanças climáticas nos Estados Unidos revelam que, ainda na década de 1990, a busca pelo chamado “equilíbrio informativo” acabou sendo uma das causas de desinformação acerca do fenômeno. Na época, sem uma avaliação crítica, veículos situaram vozes divergentes de especialistas em posições de igualdade, silenciando o fato de alguns pesquisadores céticos serem nanciados por grandes empresas de combustíveis fósseis. Tais empresas tinham o interesse de negar a alteração do clima para não recon gurarem seus modos de produção. Que o nosso jornalismo tenha coragem e dignidade para ser polifônico e, ao mesmo tempo, justo e crítico na seleção de vozes que mobiliza e posiciona em seu discurso em tempos de pandemia. (*) Doutorando em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Membro do TRANSVERSO –

Estudos em Jornalismo, Interesse Público e Crítica (UFSC/CNPq). ***

As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.

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Editoria: Opinião Pública Palavras-chave: coronavírus, Covid-19, jornalismo, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, pandemia

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