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Fala Favela_12

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Edição 12 / Rio de Janeiro / Complexo do Alemão / Novembro 2020 / Distribuição Gratuita foto Rodrigues Moura

SEU RODRIGUES, NOSSO QUERIDO AMIGO E O FOTÓGRAFO GIGANTE NA TÉCNICA E NO AMOR PELA ARTE...UM LEGADO DE MEMÓRIAS PÁGs: 4 e 5

A FAVELA COMO ESPAÇO INSTITUINTE DA CIDADE PÁG: 7 “A pandemia de Covid-19 deixou claro para a sociedade a importância da organização local da população nas favelas...”


por Alan Brum Pinheiro

entre pandemia e eleições Muito se falou que essa pandemia havia escancarado as desigualdades existentes em nosso país, mas pouco se falou que essa desigualdade sempre foi exposta diariamente e que a sociedade está amorfa e indiferente, aguardando um caminho que possa ser dado pelo Estado. Nem mesmo o campo progressista consegue propor formas de enfrentamento e tal qual a sociedade civil, insiste em reproduzir algumas lógicas sistêmicas que produzem a desigualdade crônica como: promoção midiática, individualismo, personalismo e a resistência em compor coletivamente com seus pares que possuem pautas sociais correlatas, insistindo representar sozinhos essas pautas. Essa triste realidade se apresenta do poder central ao local, do campo partidário ao terceiro setor. Vivemos tempos de hipocrisia verbal generalizada. Crise Política, com ‘P’ maiúsculo, inclusive nas favelas e periferias. Além desse quadro, as favelas ainda padecem fortemente sob o impacto da pandemia, porém continuamos sem saber o grau desse impacto, pois se naturalizou que para moradores de favelas não há necessidade de diagnósticos atualizados e atuação governamental com políticas públicas. Entretanto as campanhas eleitorais continuam na mesma lógica de sempre. O Instituto Raízes em Movimento insiste na busca de caminhos estratégicos capazes de fomentar os enfrentamentos contra as desigualdades de forma coletiva. Desta forma tem constituído parcerias estratégicas com as universidades e outros centros de produção de conhecimento, sobretudo na abertura de espaços não subalternizados, possibilitando influências mútuas em seus processos. Assim temos trabalhado também com alguns setores da Fiocruz. As principais atividades em parceria com a Fiocruz são realizadas com o Laboratório Territorial de Manguinhos - LTM/ENSP. Entre 2012 e 2014 fomos parceiros na pesquisa avaliativa do PAC Favelas. Em 2013 o LTM atuou na formação do coletivo local Juntos Pelo Complexo do Alemão e em 2016 na pesquisa sobre Vigilância Popular em Saúde. Todas as ações realizadas junto ao LTM foram a partir da metodologia CAP - Comunidade Ampliada de Pesquisa, onde o sujeito da pesquisa é coletivo, incluindo a população pesquisada. Atualmente estamos realizando a pesquisa “O Covid-19 como situação limite: experiências e memória histórica na produção de conhecimentos em saúde”. Com outros setores da Fiocruz participamos do Dicionário de Favelas Marielle Franco desde a concepção, como integrante do Conselho Editorial e na produção de verbetes (textos). Este ano participamos junto à outras organizações de diversas favelas, universidades e a presidência da Fiocruz, da construção do Plano de Ação para o enfrentamento da Covid, além de executar o projeto COm VIDa de atendimento aos moradores do Complexo do Alemão, à partir de um edital da Fiocruz. A nossa história com a Fiocruz está sendo escrita e esperamos ainda ter muitos capítulos nos próximos anos. Nesta edição da revista FALA FAVELA apresentamos textos que ilustram essa parceria com o LTM e o Dicionário de Favelas, além de uma crônica sobre as eleições do parça, Sérgio Ortiz, e o registro sobre o nosso saudoso e mais atuante fotógrafo do Complexo do Alemão, Seu Rodrigues Moura. Boa Leitura!


dicionário de favelas marielle franco por Palloma Menezes

Você já ouviu falar no Dicionário de Favelas Marielle Franco ou na Wikifavelas? Essa é uma plataforma on-line aberta e gratuita que reúne falas de moradores, lideranças e intelectuais, em uma construção coletiva que tem por objetivo incentivar uma ampla articulação do conhecimento produzido sobre as favelas. O Dicionário de Favelas surge em um contexto de afirmação da identidade nas favelas e periferias, no qual lideranças e coletivos afirmam a necessidade de moradores/as lutarem pelos direitos da população das favelas, que incluem não só o direito à vida, mas também à voz e à memória. Em 2020, com a pandemia de Covid-19, o Dicionário se mostrou muito importante no compartilhamento de experiências. Em março, a pandemia chegou ao Brasil e, com isso, a realidade das populações das favelas sofreu impactos ainda mais devastadores, que reforçam, inclusive, as desigualdades de nossa sociedade. Sabendo que não poderiam contar com apoio do poder público para combater o avanço da pandemia nas favelas, diversos grupos de moradores começaram muito rapidamente a se organizar para tentar lidar com efeitos da crise econômica, sanitária e social gerada pelo avanço do novo vírus. Desde o início da pandemia, o Dicionário de Favelas está mapeando essas iniciativas. Em uma seção chamada Coronavírus nas Favelas (www.wikifavelas.com.br/coronarivus) estão sendo reunidas: 1) iniciativas e formas de apoio coletadas em todo o país; 2) fundos nacionais e internacionais para projetos de combate ao coronavírus; 3) centenas de notícias sobre a realidade do coronavírus nas favelas e periferias do Brasil; 4) materiais e audiovisuais produzidos por e para as favelas na prevenção e comunicação comunitária; 5) análises e propostas de moradores, coletivos e intelectuais sobre a realidade de desigualdades durante a pandemia; 6) coletivos e redes em ação para enfrentamento ao coronavírus em diferentes territórios; e 7) painéis com levantamento de casos de coronavírus nas favelas. Sabia que você também pode fazer parte desse trabalho? Através de textos, vídeos ou fotos relacionadas à sua experiência durante a pandemia, a história da sua favela, personalidades e artistas locais e muito mais. Acesse: www. https://wikifavelas.com.br e faça parte do Dicionário de Favelas! Imagem Divulgação


seu rodrigues moura: da roça para a favela, o fotógrafo do povo por David Amen

“Manoel Rodrigues Moura, 66, morador do Complexo do Alemão desde 1979, ano em que abandonou a vida de vaqueiro em Resplendor, MG, “por causa de uma desilusão amorosa”, para tentar a vida na cidade grande. Uma vez no Alemão, tratou de carregar pedras – literalmente – como ajudante de obras até que um curso de fotografia por correspondência caiu diante de seus olhos. Juntou o dinheiro necessário para comprar uma câmera e foi, aos pouquinhos, se tornando o fotógrafo da comunidade: batizados, casamentos, festas e a vida que pulsava no local foram sendo documentadas pelo Moura, o que lhe granjeou um considerável reconhecimento local, depois ampliado com seu trabalho no coletivo Viva Favela”. Foi assim que o fotógrafo, Dante Gastaldoni, descreveu seu grande amigo um dia após seu falecimento suspeito de complicações por conta da Covid 19. Continuarei esse texto em primeira pessoa, afinal meu respeito e admiração por ele sempre foram medidos pela nossa amizade e sinceridade que Seu Rodrigues fazia questão de expressar em nossas longas conversas. A última vez que nos falamos foi por telefone, não aparentava estar doente, me pediu pra separar alcool em gel pra ele, afinal queria se prevenir do novo Coronavírus. Deixei tudo organizado para o mototaxi levar no final de semana mas, infelizmente, não deu tempo. Seu Rodrigues era um cara sério, era pai e esposo, amava ser fotógrafo e mais ainda, era apaixonado pela sua trajetória de “retratista” do Complexo do Alemão. Era emblemático quando mencionava seus quase 400 casamentos registrados (“400 sims”, como ele dizia honrado), e as diversas fotos de famílias que fez durante aproximadamente 35 anos. Era bem conhecido. Responsável por um registro esplendoroso que conta parte da história e guarda memórias do Complexo do Alemão. É, simplesmente, dono de um acervo rico com imagens capturadas em momentos que subia e descia o morro atrás de suas aventuras e devaneios artísticos visuais. Quem o conheceu sabe que teve contato com um mestre e uma pessoa ímpar.


Era no sol intenso ou embaixo de chuva, não importava, era necessário captar aquele momento específico. Nas fotografias desta página podemos perceber que Seu Rodrigues estava bem intencionado com a memória do lugar. Sabia que estava registrando não apenas para aquelas pessoas, daquela época, sua ambição era ainda maior: o futuro. E não há um fotógrafo popular que não exalte seus cliques e seu compromisso com a comunidade em todos os sentidos. Revelava suas fotos no porão de casa onde funcionoou por longos anos seu pequeno e singelo laboratório caseiro, onde tinha prazer em levar suas visitas e contar suas histórias. Sonhava em ministrar aulas para a galera da comunidade. Em sua humilde residência era fácil identificar seu acervo exposto pelas paredes em molduras ou em papel comum. Sempre sorrindo, Seu Rodrigues te recebia e oferecia logo um copo de vinho, brindamos em sua cozinha quando o visitei na intenção de entrevistá-lo. Há alguns anos, Moura descobriu que estava com descolamento da retina e que ficaria cego. Quando ele me relatou esse triste episódio, lhe dei um abracço e afirmei que ele sempre seria “o cara”. “Aquele homem acostumado a viver da luz continuava sendo um exemplo de bom humor e coragem, o que levou um grupo de pessoas, em sua maioria formadas pela Escola de Fotógrafos Populares, se reunirem para a produção de um documentário ainda em processo”, relata, Dante, em sua carta de despedida, publicada em sua rede social pessoal. Certamente sentiremos sua falta, meu amigo, entretanto teremos sempre você em nossos corações. Será sempre uma das principais referências no campo da fotografia popular e tenho certeza que sua história perdurará eternamente. Viveremos a partir dos seus registros, nossas memórias da favela serão contadas por meio de suas fotos. Seja sempre luz e onde estiver acredite que seremos guardiões(ãs) e disseminadores(as) do seu legado. Sua força e determinação pela fotografia é um dos grandes exemplos de orgulho que, nós moradores(as) e militantes do Complexo do Alemão, teremos. É gratificante ter o senhor como parte dessa história. Um homem da roça, trabalhador, que logo se tornou favelado e grande artista.


o candidato bololô por Sérgio Ortiz de Inhaúma

Ele havia sido tempos atrás do bololô, mas não era mais, pensava. Ele subia o morro mais uma vez, como se fosse a primeira, mas não era. Sua cor ainda consta nos anais dos que devem ser domesticados ou exterminados (caso saiam do controle), mas agora o jogo tinha virado, jurava pra si. Vaníldo lembra de soltar pipa perto do Capão, no alto de um pedregulho. Lembra do terreiro de Dona Lurdinha, ela batia cabeça no gongá por ali, e todos diziam que a velha era feiticeira. Vaníldo morria de medo. Lembra de catar papelão e latinhas pra vender no ferro-velho pra ganhar uns trocados e gastar em pipas, doces e fichas de fliperama, num botequim perto do Beco do Galinheiro. Mas aqueles tempos passaram. Vieram os bailes funk’s, Lado A / Lado B, as facções, o terreiro de Dona Lurdinha virou uma cabeça de porco, cheio de barracos apinhados uns nos outros. Os fliperamas sumiram-se, e o gosto por balas, pirulitos e doce de leite, também. Alguns amigos de Vaníldo morreram para o tráfico, outros seguiram para São Paulo, Minas para outras ofertas de emprego e vida, outros ainda foram morar em outras comunidades. E Vaníldo seguiu sua vida. Estudou um pouco mais que a média, e na segunda vez que tentou concurso para bombeiro, passou. Subiu na vida, como dizem. Casou com uma mina do asfalto, foi morar no Lins e com custo, comprou uma cachanga bem da boa. Passou a ter novas amizades no asfalto: enfermeiros, pessoal da PM, pequenos empresários e donos de estacionamento. Como era popular entre eles, já que ainda carregava em si os passos enviesados e a gíria que outrora lhe constituía, acharam que esse seu jeitão folclórico caía como uma luva pra política. E foi o que fez. Se candidatou pra vereador pelo PTB, 14. E na primeira oportunidade, para angariar votos, resolveu revisitar o lugar de onde saiu, pela primeira vez depois que fora morar no Lins. Deixou o carro lá embaixo, em frente à Vila Olímpica na Itararé. E na subida da Grota, viu uns menór soltando pipa e outros jogando golzinho, chutando um trapo de bola. Entregou alguns santinhos para alguns deles, os maiorzinhos. Depois encontrou umas senhoras, donas de casa, conversando na subida de uma escadaria, sentadas pelos degraus, em frente a um beco. Conversou com elas, chegou a abraçar algumas, pediu um pouco d’água, uma delas ofereceu café, mas Vaníldo bebeu com receio, sentiu um gosto ruim naquilo. Ainda assim manteve a caricatura de político bondoso e fechamento do povão. Entrou em becos e vielas, subiu e desceu, ziguezagueou. Beijou uma criancinha toda da melequenta a tiracolo nas mãos de uma jovem, apertou a mão de dois malucos do movimento que estavam bem escabreados. E parou num bar onde três sujeitos tomavam umas e jogavam umas moedas numa maquininha. Entregou santinho a todos, abraçou, beijou quando podia, apertou as mãos. Começou a entardecer e já tinha andando boa parte da favela. Perguntou a alguns se se lembravam dele. Quase ninguém lembrou. O morro não era mais o mesmo, pensou. Pegou seu carro em frente à Vila Olímpica, carrão, bem do bolado. Assim que sentou e ligou o carro, pegou um vidro de álcool em gel no porta luvas e desinfetou mãos e braços. Vaníldo disse de si pra si: – Pobre é uma merda. Sérgio Ortiz de Inhaúma é Poeta e Flamenguista, morador do bairro de Inhaúma. Autor de Zona da Mata Eletrônica (Editora RBX, 2011), A Guerra de Plástico (Editora Oito e Meio, 2015), Dioilson (Editora CLAE, 2017), Jaína-máquina Divino (Editora CLAE, 2019), Yjá,Ygê (independente, 2020) e Valdêniagô (Editora Urutau, 2020)

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Promoção Emancipatória da Saúde: a favela como espaço instituinte da cidade por Fátima Pivetta (LTM/CESTEH/FIOCRUZ)

“A pandemia de Covid-19 deixou claro para a sociedade a importância da organização local da população nas favelas...” A convergência de um ideal comum de cidade – a utopia da cidade democrática, em contraposição à perspectiva higienista que referencia os projetos de cidade atuais como cidade-empresa, da cidade-mercadoria, da cidade-negócio, foi o que aproximou o Laboratório Territorial de Manguinhos (LTM) da ENSP/Fiocruz do Instituto Raízes em Movimento. Uma parceria que foi aprofundada, em 2012, no âmbito do projeto de avaliação participativa do PAC Favelas, financiado pelo CNPq/MC, para a construção de uma rede trocas entre as Comunidades Ampliadas de Pesquisa Ação das favelas do Alemão, Manguinhos e Rocinha para a produção compartilhada de conhecimentos sobre os problemas da moradia, saneamento e mobilidade e seus impactos sobre a saúde, assim como discutir as promessas do PAC e as formas de produção de políticas públicas descoladas das realidades e das necessidades das populações e de trocas. As favelas, para além de serem espaços da cidade sujeitos a processos de vulnerabilização pela precariedade das políticas públicas, são lugares de enormes potencialidades pela capacidade das pessoas e seus modos de produzir o território e nele viver, de produzir Cultura. Nesse sentido é central o reconhecimento dos moradores como sujeitos do conhecimento e não meros informantes. São eles que conhecem , apreendem e compreendem a realidade em suas múltiplas dimensões e integram em seus mapas mentais essa complexidade que se expressa nas situações particulares da vida cotidiana. Portanto, a tarefa que se coloca para o setor saúde, na perspectiva da Promoção Emancipatória da Saúde e do LTM, é promover e criar espaços de legitimação dos conhecimentos produzidos pelos agentes sociais e os movimentos sociais das favelas em suas lutas. E se conhecimento é poder, dessa forma também contribuimos para a redistribuição de poder na sociedade, ressignificando a participação popular nos processos de decisão de políticas públicas, particularmente, nas políticas de saúde pública, contribuindo para melhorar o Sistema Único de Saúde, o nosso SUS. A pandemia de Covid-19 deixou claro para a sociedade a importância da organização local da população nas favelas, suas redes de informações e os conhecimentos produzidos pelos diferentes agentes sociais do território. É essa organização em redes, que tem dado sustentação às ações de combate à pandemia, e evitado uma tragédia maior nesses espaços da cidade, onde o Estado está presente, com suas forças policiais repressivas. São os coletivos locais que têm alimentado a sociedade e os profissionais de saúde com as informações da realidade da pandemia nas favelas. O conhecimento produzido no cotidiano do território e sua circulação é a lacuna que falta aos sistemas de saúde e de outras áreas da gestão públicas, para acompanhar a dinamicidade do território e dar respostas mais adequadas. Tanto do ponto de vista das necessidades reais quanto no sentido de construir uma linguagem comum e de lidar com os tempos diferenciados, institucionais e do território, que são centrais e definem a possibilidade de comunicação e de resposta aos problemas. Esse é o caminho, que nós do LTM, acreditamos deva ser trilhado para a construção de uma cidade mais humana, mais democrática e mais inclusiva, em que todos os seus cidadãos e cidadãs tenham seus direitos garantidos. Nessa perspectiva, o diálogo entre a academia e a sociedade, em particular com as favelas, é fundamental para a produção de um conhecimento que nos leve na direção de novas utopias.


por David Amen

JORNAL FALA FAVELA Projeto Gráfico e Arte (contracapa): David Amen Colaboradores(as): Alan Brum, Gizele Ribeiro, Cadu Sousa, Hector Santos, Fátima Pivetta, Joice Cristh, Renato Tutsis, Ricardo de Moura, Sérgio Ortiz de Inhaúma e Thiago Matiolli Tiragem: 2000 exemplares Distribuição Gratuita

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