Edição 07 / Rio de Janeiro / Complexo do Alemão / Novembro 2019 / Distribuição Gratuita
“BAILE DAS ANTIGAS” É SUCESSO NO CPX
Foto: Hector Santos
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Jovens do Complexo do Alemão discutem indicadores Sociais, mais uma atividade do projeto “Juventudes em Movimento”
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Se é cria do CPX vai lembrar como era bom os campeonatos no campo da “Mina”
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“Onde está a comunidade na favela?”, texto do pesquisador, Bruno Coutinho.
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Olá, Pessoal Esta é a edição de número 7 do Fala Favela. Foi e tem sido um desafio produzir cada umas das edições, mas também um prazer. Desafio, pois um informativo que se pretende servir para reflexões acerca de questões diversas sobre o Complexo do Alemão e consequentemente sobre o Rio de Janeiro, como as que já abordamos em edições anteriores (pesquisa realizada pelo projeto Juventudes em Movimento, mobilidade urbana, direitos humanos, comunicação comunitária, políticas públicas etc.) deve sempre procurar dialogar com perspectivas distintas sem perder suas características. Prazer porque para se mover num tecido social diverso, múltiplo e em ebulição constante precisamos de doses de alegria como uma espécie de necessidade para continuar a dura jornada diária. Desafio e prazer, então, estão ligados. E são eles nosso combustível para prosseguirmos na criação de pautas que interessam a todos nós, como as dessa edição. A matéria leve e agradável do Campo da Mina ativa nossa memória e nos faz voltar para os grandes campeonatos de futebol nas décadas de 1980 e 1990; o texto sobre Direito à Cidade põe uma questão importante para refletirmos a ideia, por exemplo, de pertencimento: favela ou comunidade; outra matéria fala sobre os indicadores a partir da pesquisa realizada por jovens do projeto Juventudes em Movimento; E o “Baile das Antigas” que promove encontros sensacionais entre pessoas das gerações dos anos 80 e 90 para curtir, hoje, o funk de “antigamente”. A sétima edição do Fala Favela está assim: marcada por temas e questões relevantes que abordam questões sócio espaciais e recheada de memórias. Boa leitura! Ricardo De Moura
“Baile das Antigas” no Clube 18 de Olaria
MEU NOME É FAVELA
MEU NOME É FAVELA
“BAILES DAS ANTIGAS” RECORDA BONS MOMENTOS DO FUNK por David Amen e Hector Santos
Os já conhecidos e tão aguardados, “Bailes das Antigas”, têm sido uma verdadeira atração nas favelas do Rio de Janeiro desde que começaram, entre 2013 e 2014. Aquela rivalidade que havia nos “bailes de corredor” ficou para trás, deu lugar ao reencontro com a cultura do Funk de maneira social, onde a união e a amizade prevalecem transformando aquele passado em memórias afetivas, motivos para se reunir, brincar e sorrir. E como não poderia ser diferente, o Complexo do Alemão já foi palco privilegiado de alguns desses encontros. Para quem não sabe, nos “bailes de corredor” os grupos se dividiam entre “Lado A e Lado B” e se viam como rivais, brigavam muito, trocando socos e pernadas. Para fortalecer a agenda de bailes, os representantes das áreas decidiram se unir a bairros vizinhos para que o baile ficasse mais cheio e não houvesse disputa entre eles mesmos. Então, a galera que fechava do outro lado não podia frequentar o oposto ao seu. Pessoas que ‘fechavam’ com o Lado contrário sequer podiam passar e/ou frequentar aquela localidade (por exemplo: participantes do Fazenda de Inhaúma - Lado B -, não podiam frequentar algumas localidades da baixada por ser Lado A por que eram vistos como inimigo). Apesar disso, todo mundo frequentava os mesmos bailes. Daí a divisão entre “A e B”. Nessa, o corredor ficava livre. Dessa época lembra-se de muitas situações, músicas que animavam os “bondes”, agitando “o corredor”, as grandes equipes de som, os DJ’s, o passinho, enfim, tudo isso precisava ser novamente vivido por aqueles que estavam lá no início e compartilhado com a nova geração do Funk. Os “Bailes das Antigas” são, na realidade, um espaço para reviver bons tempos e homenagear os(as) construtores(as) dessa história. Na Nova Brasília, esse ano, teve um baile especialmente para lembrar do MC Sapão que, além de produzir músicas incríveis que mar-
cam a cena do funk até hoje, era morador da localidade e faleceu em abril de 2019. A viúva do “Sapão” foi às lágrimas com o evento e com a homenagem. Esse baile foi mágico porque, teve toda essa emoção relacionada ao Sapão, mas também foi bem na final da Copa América quando o Brasil venceu o Chile e foi campeão. Então tudo estava em ritmo de festa. E é sempre assim nesses bailes, festa e alegria contaminam geral no salão onde, a cada som das antigas, seja na quadra da Vila Olímpica ou na Rua 2, as pessoas, com muito prazer e orgulho de serem parte daquele momento, cantam e dançam sem parar. É algo que transcende qualquer questão territorial. As(os) moradoras(es) se divertem quando rolam os bailes. É sempre um evento lindo ver a energia daquelas pessoas e viver aquele momento incrível. É um dos poucos instantes de respiro em que a felicidade dos moradores predomina por, inclusive, poder garantir o seu ‘momento de lazer’ sem ser interrompido pela violência. Favela Viva!
JOVENS DO COMPLEXO DO ALEMÃO DISCUTEM INDICADORES SOCIAIS que servirão como espaço de discussão dos dados levantados diretamente com a população local. “As rodas de diálogo são uma importante ferramenta que temos para discutir os indicadores que foram elaborados e já amplamente discutidos pelos jovens a partir da metodologia do Sistema de Indicadores de Cidadania. É um momento em que esses jovens mobilizam outros moradores e moradoras, além de instituições locais, para o diálogo e reflexão sobre a efetividade dos direitos no território a partir da análise desses indicadores” – afirma Bianca Arruda, pesquisadora do Ibase.
Integrantes do projeto Juventudes em Movimento se reuniram no dia 12 de setembro, no Sesc de Ramos, zona da Leopoldina, no Rio, para apresentar suas análises a respeito do Sistema de Indicadores de Cidadania para o Complexo do Alemão e de uma pesquisa desenvolvida com aproximadamente 2 mil moradores(as) da região. O estudo teve como objetivo principal identificar as condições de vida e os direitos de cidadania nas 13 favelas que compõem a área. “O que os jovens trouxeram para nosso debate foi a percepção do grupo sobre o resultado da pesquisa que eles próprios fizeram” – explica Rita Correa Brandão, diretora do Ibase e especialista em indicadores de cidadania. Iniciado em abril, o estudo está na fase final de elaboração. Foram indagadas questões como saneamento básico local, equipamentos públicos de cultura, educação e saúde, intolerância religiosa e o uso de tecnologias de informação e comunicação (TICs). A próxima etapa será a realização de rodas de diálogo,
O objetivo das rodas de diálogo, segundo a pesquisadora, é que a população local qualifique seus argumentos e possa se articular com mais parceiros(as) na luta por direitos. “Foram realizadas quatro rodas durante os meses de setembro e outubro em diferentes pontos do Complexo do Alemão. No dia 18 de setembro, foi na Oca dos Curumins, Morro da Alvorada. No dia 28 aconteceram duas rodas simultâneas: uma no Educap, na Canitá, e outra no Instituto Raízes em Movimento, no Morro do Alemão, ambas com a temática Juventudes e TICs. E no dia 5 de Outubro voltamos ao Educap, dessa vez com o tema Gênero e Diversidade” – complementa Bianca. Já para Lucia Cabral, gestora do Educap, “a roda de diálogos propõe uma troca muito grande entre todos os participantes, o que está acontecendo aqui é o que vai ampliar e ajustar as políticas públicas que abrangem o nosso território”.
Roda de Conversa sobre Gênero, TIC’s e Juventudes no EDUCAP João Silva, pesquisador que também atua no Complexo do Alemão, destacou que pela primeira vez ele se colocava no lugar do entrevistado e não de quem entrevista: “Participar dessa forma me colocou em um lugar de fala diferenciado. Isso me fez perceber o quanto tenho a contribuir saindo do individual para o coletivo. Foi muito enriquecedor participar, gostei muito de toda a dinâmica da Roda”.
social em um momento político delicado, em que há enfraquecimento dos canais de participação e em que não se tem definição das prioridades do poder público para as áreas de favela, além das questionáveis ações de segurança pública que afetam negativamente o cotidiano dos moradores e moradoras” – garante Renata Codagan, também do Ibase e coordenadora do Juventudes em Movimento.
CIDADANIA ATIVA
O projeto é uma iniciativa do Ibase, em parceria com o Instituto Raízes em Movimento. O apoio é do IDRC (International Development Research Centre). “O Juventudes em Movimento está previsto até abril de 2020; e nossa expectativa é que, até lá, essa experiência contribua para potencializar as juventudes do Complexo do Alemão nas disputas políticas e sociais da cidade” – finaliza a educadora Renata Codagan.
A iniciativa também aposta na construção de uma rede de cidadania ativa, formada por organizações sociais do Complexo do Alemão, e na criação de fórum amplo de discussão com base em reflexões e demandas coletivas. “A constituição desse Fórum de Juventudes no Complexo do Alemão é extremamente relevante. Ele consolida a participação desses e dessas jovens em um espaço de diálogo e encaminhamento das necessidades e garantias dos direitos após um processo de investigação e discussão no território. Isso fortalece a participação
CAMPEONATO DE FUTEBOL BOM NO CPX ERA O DO CAMPO DA MINA Eu adorava, quando pequeno, o raiar do sol das manhãs de domingo. Logo bem cedo já acordava, tomava café e, com o sorriso explicito no rosto, segurava a mão do meu pai e, acompanhados de amigos, íamos juntos até o Campo da Mina, no alto do Morro do Alemão. Na verdade no alto da Pedra do Sapo. Maior campão. De areia, ainda sem cercas, lembro dos gandulas, os moleques que iam morro abaixo, embrenhavam-se pelo mato, tudo pra pegar a bola depois de um chute forte pra fora. São pelo menos 40 anos de histórias, entre um clássico e outro “Tormento x Geração” ou “Colorado x Central”, reunindo famílias e amigos. Localizado no topo do morro, o Campo da Mina como sempre foi conhecido, terra batida, guarda um alto grau de histórias privilegiadas sobre o Complexo do Alemão. Não dá pra falar de futebol na favela e deixar de citar os campeonatos que esse campo recebeu. No sol ou na chuva, era o principal lazer aos domingos, onde os pais levavam os filhos que brincavam até cansar, onde a bola rolava e depois comia-se uma coxinha com suco deliciosos ou uma cerveja bem gelada para hidratar e calibrar o grau de amizade na roda improvisada do pagode. Que saudade do Campo da Mina. Quanta falta faz aquele futebol aos domingos. Torcer pelo time da sua área... afinal subiam times de todas as 13 favelas que compõe
o Complexo do Alemão, com craques que davam show com a bola nos pés. As vezes, dois ou três times de cada localidade, aí a rivalidade era maior. É sério: cada jogo era uma “guerra”, o que se via eram dois times se enfrentando em busca da vitória sob quaisquer circunstâncias. A poeira subia e, muitas vezes, os árbitros tinham que ser selecionados pelas características de cada partida pra lidar com os desafetos. Lembro-me do Tião, com seus pelo menos 2 metros de altura, se impondo firmemente frente a frente de vários jogadores “valentões”, querendo falar mais alto. Não dava certo. A disputa era explícita, nervos a flor da pele, calor, tudo misturado, condimentos perfeitos para se ter um caldeirão de divergências pessoais durante os jogos. Afinal, todos queriam vencer a qualquer custo, mesmo que precisassem sangrar. Sim, muitas brigas rolaram, dentro e fora do campo, no vestiário, enfim, ainda assim não invalida a imagem positiva que aquele lugar significa para nós moradores e, particularmente, para o Alemão. Quanta saudade. Lá do alto, contemplamos uma vista maravilhosa da cidade. Parte do reflorestamento realizado na década de 90. Um campo que durante décadas foi o palco para grandes espetáculos do futebol amador, voluntário, de favela e emancipador. Saudemos o Campo da Mina e todos os campos das periferias e favelas.
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ONDE ESTÁ A COMUNIDADE NA FAVELA? por Bruno Coutinho de Souza Oliveira (pesquisador do Raízes em Movimento e professor)
Esse título talvez soe um tanto quanto estranho, mas a pergunta que tenho me feito ultimamente é exatamente essa: onde está a comunidade na favela? Mais: qual o sentido de “comunidade” dentro da favela? Como as pessoas entendem esse termo no seu dia-a-dia? Nos últimos anos a maior parte dos veículos de comunicação no Rio de Janeiro tem substituído o termo “favela” por “comunidade” para denominar esses espaços periféricos da cidade. Tal posicionamento tem gerados críticas, tanto por parte dos estudiosos do tema, quanto por parte de comunicadores e lideranças populares. O principal argumento em torno da defesa da “favela” como expressão e representação social e culturas é a de que torna-se necessária a defesa desse local como espaço de vida legítima da cidade. Ou seja, trocar “favela” por “comunidade” não resolve o problema do preconceito, da discriminação e segregação social. Chamar de “comunidade” não garante uma leitura positiva sobre o lugar, muito menos diminui as desigualdades que marcam as injustiças históricas entre o “asfalto” e a “favela”. No entanto, volto a perguntar: será que favela também não é comunidade? Poderíamos pensar que a ideia de comunidade também pode remeter ao sentido de coletividade, colaboração e ancestralidade? Ao longo do meu trabalho de pesquisa – fiz um doutorado em sociologia estudando a moradia popular em favelas do subúrbio – dentre muitas coisas que eu ouvi, a que mais me chamou a atenção foi como os moradores daqui do Complexo do Alemão se referiam aos seus espaços de convivência no bairro. Muitas pessoas com quem conversei – principalmente os mais velhos – traziam sempre na memória um tempo de muita ajuda, reciprocidade e companheirismo no processo de ocupação das favelas. “Comunidade”, sempre que mobilizada para representar o lugar de vida, sempre ganhava o sentido de união, compromisso entre as pessoas, de defesa coletiva dos “inimigos externos” e do direito de morar na cidade. Por exemplo, quando levantavam um barraco para abrigar um parente ou um conhecido vindo do nordeste, faziam em ritmo de mutirão de madrugada para proteger os seus da polícia. Quando “viravam uma laje” todos se juntavam para trabalhar de maneira solidária no espírito da “união faz a força”. É verdade também que escutei muitas vezes que atualmente a favela não é mais como antigamente. É cada um por si e Deus por todos. Como se a favela tivesse absorvido os valores da grande cidade: competição, individualismo e busca desenfreada por dinheiro. Será então que favela, ao se tornar cada vez mais cidade, se esqueceu também de ser também comunidade? Será que ao reivindicar o direito de ser favela também não se reforça os valores que continuam assolando e violentando os moradores das antigas comunidades? Por fim, deixo aqui meus questionamentos (com um leve toque de provocação) com fé em uma possível ressignificação da ideia de “favela” na cidade. Foto: Arquivo Raízes em Movimento
ZÉ PRETINHO CONTRA O ELEFANTE BRANCO
David Amen e Wallace Bidu
JORNAL FALA FAVELA INSTITUTO RAÍZES EM MOVIMENTO End.: Avenida Central, 68 Complexo do Alemão - RJ Tel.: 21 2260-3998
Editor: Ricardo de Moura Projeto Gráfico: David Amen ilustrações: David Amen e Wallace Bidu Colaboradores(as): Alan Brum, Joice Cristh, Hector Santos, Renato Tutsis e Thiago Matiolli Tiragem: 2000 exemplares Distribuição Gratuita
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