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Bíblia e Hermenêuticas Juvenis

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BÍBLIA E HERMENÊUTICAS JUVENIS Módulo 1 - Etapa I

“...Que outro é o desafio da Educação Popular, senão o de reverter, no mistério do saber coletivo, o sentido da palavra e o seu poder? (Carlos Rodriguez Brandão)

1.1 Nossa história Vamos começar essa nossa primeira etapa fazendo memória da história do Brasil e de toda a América Latina, uma realidade marcada por diversos momentos em que o povo se encontrou em situações de opressão e repressão inventou as mais variadas formas de resistir. É o que podemos identificar na música de Chico Buarque.


Convido você a ler e prestar atenção na letra desta bela composição: A pesar de você... A pesar de você, amanhã vai ser outro dia Hoje você é quem manda. Falou, tá falado. Não tem discussão, não. A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão. Viu? Você que inventou esse Estado, inventou de inventar toda escuridão. Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão. Apesar de você amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia? Como vai proibir quando o galo insistir em cantar? Água nova brotando e a gente se amando sem parar Quando chegar o momento esse meu sofrimento vou cobrar com juros. Juro! Todo esse amor reprimido, esse grito contido, esse samba no escuro.


Você que inventou a tristeza. Ora, tenha a fineza de “desinventar”. Você vai pagar, e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar. Apesar de você amanhã há de ser outro dia. Ainda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria Você vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença E eu vou morrer de rir e esse dia há de vir antes do que você pensa. Apesar de você amanhã há de ser outro dia. Você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia. Como vai se explicar vendo o céu clarear, de repente, impunemente? Como vai abafar nosso coro a cantar, na sua frente. Apesar de você amanhã há de ser outro dia. Você vai se dar mal, etc e tal. La, laiá, la laiá, la laiá Agora que você conhece a letra, convido também para escutá-la. http://www.youtube.com/watch?v=VyH63axW28w


“Apesar de você” é música e letra de Chico Buarque de Holanda quando, em 1970, retornou do exílio e se encontrou com a censura prévia instituída. Toda música, jornal, revista e mostra cultural eram obrigadas a passar pela avaliação dos censores, para julgar se aquela obra não era “perigosa para a segurança nacional”. Por se tratar de um samba metafórico inofensivo, “Apesar de você” recebeu a aprovação da censura. O disco disparou na audiência e chegou a vender mais de cem mil cópias. Mas quando um jornalista escreveu uma matéria declarando que a música era dedicada ao Presidente Médici, a gravadora foi invadida, as cópias dos discos destruídas e “Apesar de você” proibida pela censura.

Pisando neste chão: O que você sabe sobre o tempo da Ditadura Militar no Brasil? Conhece a perseguição dos militares sofrida por muitos jovens camponeses e operários e estudantes nas cidades? Converse com os amigos. Procure e elenque livros sobre a história do Brasil nos últimos 50 anos. Mergulhe nessa história. Veja, só em relação à musica... http://jeocaz.wordpress.com/2008/09/03/a-musicabrasileira-e-a-censura-da-ditadura-militar/


1.2. Nossa História e a Educação Popular (EP). O Brasil, em março de 1964, foi submetido a essa ditadura militar que se prolongou por mais de duas décadas. As crescentes reivindicações dos grupos organizadas da sociedade civil, que pediam as chamadas “reformas de base” foram vistas como uma ameaça à ordem estabelecida. Os militantes da sociedade civil e das igrejas engajadas na defesa dos direitos humanos sofreram perseguição, prisão, torturas quando não, foram covardemente assassinados ou enviados para o exílio. A partir do golpe de 1964, foi implantado um modelo econômico que trouxe sérias conseqüências ao Brasil. A monopolização da economia e a imposição de um modelo concentrador de renda com salários baixos foram as raízes, no campo econômico, de toda uma série de medidas autoritárias. O crescimento capitalista vivido nos anos do chamado “milagre brasileiro” foi o principal responsável pelo empobrecimento e as tristes condições de vida do povo brasileiro. A fome, as doenças, o analfabetismo, a marginalidade principalmente nas favelas das cidades foram realidades dolorosas e vergonhosas para um país rico como é o Brasil. Enquanto o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o” circulava por todo o país, os setores de direitas do regime militar declararam que existia uma ameaça de terrorismo de Estado e eles mesmos impuseram no dia 13 de dezembro de 1968 o Ato Institucional número 5 (AI 5) conhecido como “o golpe dentro do golpe”. Esse ato dava poder absoluto ao Estado


para fechar o Congresso por tempo indeterminado e para cassar mandatos, suspender direitos políticos, legislar por decreto, julgar crimes políticos etc. Na realidade, este modelo de regime político militar estava presente em quase todos os países do continente latinoamericano neste período. Nesse contexto, já acontecia uma profunda revolução de idéias, práticas e acontecimentos na educação, que desembocaria na chamada ‘educação popular’. De fato, ela nasceu nesses anos 50-60 na América Latina, no calor das lutas populares. E isso aconteceu, em grande parte, graças a nosso grande pedagogo Paulo Freire que ajudou a entender e unir, dentro da educação, um processo de conscientização e organização popular. Vamos conhecer uma pouco desse homem:

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife em 1921 e faleceu em São Paulo em 1997. Foi educador e filósofo brasileiro que destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência política. Identificou a alfabetização com um processo de conscientização, capacitando o oprimido tanto para a aquisição dos instrumentos de leitura e escrita quanto para a sua libertação.


Paulo Freire desponta com a reflexão sobre o saber, o poder e os direitos dos oprimidos. Pretendia promover a consciência crítica acerca da realidade, bem como a emancipação econômica, política e social das classes menos favorecidas. Foi muito conhecido pelo seu livro “Pedagogia do Oprimido”. Mario Sergio Cordella que conviveu 17 anos com ele, afirma era homem de uma grande humildade, a pesar dos seus 36 títulos de Doutorado honoris causa em vida. Depois de morto ainda foram acrescentados cinco mais...! Um dos princípios originários da educação popular foi a criação de uma nova epistemologia1 baseada no profundo respeito a sabedoria popular em sua prática cotidiana, tentando descobrir a teoria presente na prática popular estudada com um raciocínio mais rigoroso, científico e unitário. Como concepção geral da educação, ela evoluiu e passou por diversos momentos, desde a busca da conscientização, nos anos 50 e 60, e a defesa de uma escola pública popular e comunitária, nos anos 70 e 80, até a escola cidadã, nos últimos anos, num mosaico de interpretações, convergências e divergências.

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Epistemologia ou teoria do conhecimento é o estudo ou tratado do conhecimento da ciência. A palavra "epistemologia" deriva dos vocábulos gregos "episteme", que significa "ciência", e "logia" que é o "discurso ou estudo", podendo ser definida em sua etimologia como "o estudo da ciência".Para os estudiosos o desafio da "epistemologia" é responder "o que é" e "como" alcançamos o conhecimento. Para alguns autores, o conhecimento se encontra na razão e para outros o conhecimento deve ser baseado na experiência, ou seja, no que for apreendido pelos sentidos.


Pisando neste chão: No seu dia a dia, você afirmaria que as pessoas pensam como Paulo Freire? Assista a “A canoa” e comente com seu grupo de jovens, de amigos... a afirmação: ‘Não há saber maior ou menor. Há saberes diferentes’. Você pensa assim? A Canoa: http://www.youtube.com/watch?v=4LHPBGc0JJ0

1.3 Educação Popular e Leitura Popular da Bíblia. Em 2004, um grupo de biblistas2 do Centro de estudo Bíblicos – CEBI, preocupados em somar com a Educação Popular e rever o nosso jeito de ler a Bíblia com o povo, participamos de um encontro durante cinco dias de diálogo e estudo assessorados pelo amigo Carlos Rodriguez Brandão.

Carlos Rodriguez Brandão nasceu em 1940 no Rio de Janeiro. É licenciado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Mestre em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB), Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) com Pós-Poutorado no Instituto di Etmologia 2

São pesquisadores e pesquisadoras que se especializaram em literatura bíblica – Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) ou Novo Testamento.


e Antropologia Culturale della Universitá degli studi di Perugia (Itália), e Pós-Doutorado em História Contemporânea pela Faculdade de Geografia e Historia da Universidad de Santiago, em Santiago de Compostela (Espanha). É especialista em Antropologia Rural e Antropologia da Religião, Culturas Populares, Educação Popular e Rural. Autor de mais de oitenta livros. Naqueles dias, foi assim que eu entendi e sintetizei seus conselhos como principais fundamentos da Educação Popular sempre ligada aos textos bíblicos que eu mesma leio e medito: 1. Participação, frente à educação que quer manter o ‘status quo'. A EP quer a transformação social no mundo que nós vivemos. “Moisés aceitou o conselho do sogro... escolheu pessoas capazes e as pós à frente do povo...” (Ex 18,24-25). 2. Reciprocidade, no pensar critico e na busca do consenso, construída como uma pratica de reflexão. Construção de algo comum - “Ela replicou: Senhor, também os cachorrinhos debaixo da mesa comem as migalhas das crianças. Disse-lhe Jesus: Por causa do que disseste, vai que o demônio saiu da tua filha” (Mc 7 28-29). 3. Dialogicidade. Toda cultura humana é rica em conteúdos diferentes uns dos outros. O dialogo, a troca de saberes entre nos é muito mais do que a tolerância!


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“Poder é o consenso do povo” já disse Bartolomeu de las Casas. Humanização que é muito mais do que uma atitude humanista. Todo ser humano é transformável em algo melhor, permanentemente. Hoje, “a civilização de ponta” procura vencer pela violência com o extermínio do mais fraco. Vence o branco, o homem, o rico, o adulto, o “bonito”... O neoliberalismo faz dos seres humanos “mercadoria” de compra e venda. Alimentação, saúde, trabalho etc. são objetos de compra e venda. O ser humano é programado, robotizado, erotisado, desumanizado empobrecendo e anulando até o extremo esse ser capaz. Seqüestro, órgãos comprados, meninas alugadas... “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundancia” (Jo 10,10). Emancipação. As pessoas são sujeitos da historia. Temos direito a liberdade e ao poder. Libertação e empoderamento são processos chaves na educação popular. “Se mantiverdes fieis a minha palavra, sereis realmente meus discípulos, entendereis a verdade e a verdade vos libertara” (Jo 8,31). Transformação. A educação muda às pessoas porque é um processo, não é um programa. “O menino crescia e ficava forte, cheio de sabedoria. E a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40). Criatividade ou imprevisibilidade. Porque somos sujeitos únicos, temos o direito à educação personalizada, criativa que responda a todas e cada uma das pessoas. “Aqui é preciso inteligência para entender” (Ap 17,9)


8. Criticidade, na procura de sentido. “Vocês ouviram o que foi dito... Eu, porém, lhes digo...” (Mt 5,21-22. 27-28. 33-34. 38-39. 43-44). 9. Solidariedade. Criando redes, trocas de saberes que nos façam mais ricos e fecundos. Temos que trabalhar em rede para que a diversidade não se transforme em fragmentação. “Pois onde dois ou três estiveram reunidos no meu nome, Eu estou ai no meio deles” (Mt 18,19) 10. Complexidade. A educação é um processo interativo que deve integrar os diferentes saberes. “Se alguém tem ouvidos, ouça” (Ap 13,9) 11. Fronteira. As fronteiras separam e nos isolam, mas também são passagens e nos conduzem a diferentes realidades contíguas cada vez mais amplas. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). 12. Totalidade, em comunhão com as pessoas, com a Natureza na sua riqueza e diversidade. A educação é parceira do processo criativo de Deus: “Javé Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Édem para que o cultivasse e guardasse” (Gn 2,15).


Pisando neste chão: Deu para entender os novos rumos da Educação Popular e as muitas possibilidades de atuação? Dialogue com amigos e amigas sobre este assunto. Preste atenção a minha síntese-apresentação: Fundamentos da Educação Popular que eu deixo como disponível em Materiais Complementares do módulo 1. Certamente você com mais criatividade melhorará essas idéias!

Recomendo-lhe também a leitura deste pequeno subsídio:

“Bíblia e Educação Popular. Encontros de solidariedade e diálogo” onde o Edmilson Schinelo recolheu esta experiência com o Carlos R. Brandão.

Existe muita bibliografia sobre o assunto! Esse livro indicado você pode adquirir no CEBI – www.cebi.org.br.


1.3.1. Avanços na Educação Popular Em 2005, em Porto Alegre, no Fórum de Teologia e Libertação, o sociólogo português Boaventura de Souza Santos defendeu a relação da teoria crítica com a teologia, em função do diagnóstico pessimista que verifica nos rumos que as sociedades estão tomando no mundo. Para justificar essa relação, o professor apontou os resultados de uma pesquisa feita durante o 3º Fórum Social Mundial, em 2003, segundo a qual 66,3% dos participantes declararam ser religiosos. A partir desses dados, Boaventura indagou: qual é o papel da religião e da teologia, nos dias atuais? Assim sendo, ele fez um analise da realidade social do mundo partindo da mudança de alguns “instrumentos” que as sociedades sofreram. Boaventura constatava uma real discrepância entre experiências e expectativas no campo da democracia, por exemplo, na inclusão social, e especialmente nos direitos humanos. Ele apelou à necessidade de um novo impulso na Educação Popular.

Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, em 1940. Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale, Professor Catedrático aposentado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais


da Faculdade de Economia e do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. É autor de diversos livros. Boaventura chamou monoculturas “as sociedades nacionalistas autoritárias, nas quais quem está ausente foi ativamente produzido para ser excluído”. Concretizou “ausências”:

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monoculturas

que

produzem

1. Monocultura do saber, onde o conhecimento, como “saber” das pessoas, não é reconhecido pelas regras estabelecidas no padrão dominante de rigor científico. 2. Monocultura do tempo linear, que baseia-se na idéia de que a história é uma seta linear, regida pelo progresso. Isso significa que, na frente da seta estão os países desenvolvidos, seus interesses e suas instituições. Ficam para atrás as ‘culturas ultrapassadas, atrasadas, etc’, que viram ‘não-existentes’ e se transformam numa ‘ausencia produzida pela própria linearidade do tempo’. 3. Monocultura da neutralização das hierarquias: “as hierarquias, em vez de serem diagnosticadas como causa, são postas como conseqüência”, de modo que o problema do racismo, por exemplo, não é apresentado


como sendo uma causa numa relação de poder, mas, inversamente, como sendo o poder a conseqüência de uma hierarquia nas raças. “Eu sou branco, que é uma raça superior. Logicamente tenho uma sabedoria e um poder que os negros não têm nem podem ter”, afirmava um médico numa cidadezinha do Tocantins. 4. Monocultura do universal sobre o local, onde o global adquire preferência sobre o local, e cujo resultado é uma “ausência” produzida da particularidade. 5. Monocultura da produtividade: é preciso produzir, ser produtivo; quem não consegue isso, está desempregado, é tido como preguiçoso e indolente.

Sintetizando, podemos constatar que o sistema neoliberal atual reafirma que: • a sabedoria dos índios/as, dos analfabetos/as não conta como conhecimento porque só se reconhece o verificado pelo rigor cientifico. • os que não tem acesso ao progresso, não contam, • o poder nas mãos de poucos é privilegio lógico e natural, • o particular, ou seja, as minorias não valem, • quem não produz (criança, mulher, idoso, doente) não tem direito nem valia no mercado. Diante dessas afirmações, Boaventura nos desafiou:


“Toda teologia da libertação3 deveria ser uma ecologia”. O papel “ecológico” da teologia, hoje, passa pela radicalização da prática de traduzir os nomes de Deus, de modo que a reflexão sobre a religião dê conta de uma pluralidade universal”. Boaventura concluiu: “Faz todo sentido que a salvação exista num outro mundo; o que não faz nenhum sentido é que ela não exista neste mundo”. Depois dessas reflexões teólogas/os presentes no encontro chegamos à conclusão do nosso dever : • Escutar mais, dar valor à ecologia dos saberes, refletir, depois agir. • Sermos multiculturais. Sermos tradutores uns dos outros, radicais na democracia. • Continuar nos movimentos dos pequenos, só com eles, nós conseguiremos o poder. • Educar subjetividades solidárias. • A Bíblia é um instrumento de conscientização e valorização da nossa força.

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Teologia da Libertação (TL) é uma corrente teológica do século XX que engloba diversas teologias cristãs desenvolvidas no Terceiro Mundo. Seu alicerce é a opção preferencial pelos pobres empobrecidos contra a exclusão e pela sua libertação à luz da fé cristã. A TL desenvolveu-se principalmente na América Latina com aportações de teólogos do mundo inteiro. Uma característica da TL é considerar o pobre, não um objeto de caridade, mas sujeito de sua própria libertação. Assim, a TL é, por um lado, uma teologia polêmica, mal com¬preendida, e, por outro, uma teologia reconhecida como um modo profético de fazer teologia, apelando à consciência ética da humanidade.


1.3.2 Leitura Popular da Bíblia No Brasil, já nos anos 60, o trabalho político de educação e conscientização popular teve a participação ativa de pessoas de diversas igrejas cristãs. Diferentes setores da chamada Ação Católica4, como foram a Juventude Operária Católica (JOC) que atuava no meio operário, a Juventude Universitária Católica (JUC), constituída por estudantes de nível superior, a Juventude Estudantil Católica (JEC), formada por jovens estudantes do ensino médio, entre outras, tiveram uma atuação muito grande. O mesmo aconteceu em outras Igrejas cristãs. Assim, o compromisso político, de muitos cristãos e cristãs, repercutiu na maneira de se ler a Bíblia. As barbaridades das ditaduras militares, algumas delas feitas com o apoio velado de autoridades eclesiásticas despertou muitas pessoas para uma leitura libertadora e ecumênica da Bíblia, se opondo à leitura fundamentalista e utilitária da Palavra de Deus que estava sendo manipulada para legitimar a opressão e a exploração do povo. As igrejas surgiram como um espaço, onde se podia trabalhar com certa liberdade, ainda que a perseguição e tortura chegaram também a muitos cristãos comprometidos. Deste modo, percebeu-se, que para além do trabalho de conscientização política, havia a necessidade de um trabalho 4

Foi o nome dado ao conjunto de grupos de cristãos que surgiram na Igreja Católica no começo de século XX, visando o fortalecimento da fé e ampliação da sua influência na sociedade, incluindo setores específicos do laicado.No Brasil, em 1947, foi nomeado Assistente Nacional da Ação Católica um jovem sacerdote Helder Camara que a assumiu com carisma e ardor mobilizando principalmente jovens, do mundo rural (JAC), estudantil (JEC), independente, isto é, de classes médias (JIC), operário (JOC) e universitário (JUC). Essa Ação Católica foi responsável por um forte dinamismo da Igreja e por sua presença na sociedade civil. Através do método ‘Ver – Julgar - Agir’, buscaram caminhos para a transformação cristã da sociedade brasileira.


educativo que respeitasse a fé simples da religião do povo, a sua cultura, a sua caminhada. Surgiram as Comunidades Eclesiais de Base na Igreja Católica e, em diversas comunidades cristãs, se formaram Círculos Bíblicos 5, Grupos de Reflexão, Grupos do Evangelho, Celebrações etc. Os Círculos Bíblicos se inspiram no método Ver-Julgar-Agir herdado da Juventude Operária Católica de Joseph Cardijn, que se inicia com o VER, destinado a desvendar a realidade, que prossegue com o JULGAR com ajuda dos textos bíblicos, para desembocar no AGIR com inspiração da Palavra de Deus. Mas..., para falar de Comunidades Eclesiais de Base e Círculos Bíblicos deixamos o assunto para a próxima etapa. Veja que coisa bonita. Lá espero você!

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Nasceram do desejo dos cristãos aprofundarem mais a Palavra de Deus. São pequenos grupos de pessoas que reúnem em torno da Bíblia, normalmente nas casas dos participantes, procurando luz para a vida pessoal, comunitária e social. Como as comunidades dos primeiros cristãos os círculos bíblicos partilham a Palavra, a vida com suas necessidades individuais e comunitárias.


1.4 Refazendo o caminho A Educação Popular trata de ‘reverter’ essa nossa triste história que ainda é dura e difícil para grande parte do nosso povo, especialmente para os jovens. Um caminho é prosseguir com a Educação Popular sempre em processo de conscientização. Você acha que podemos continuar cantando ‘A pesar de você’, hoje, como denuncia, porém, apontando esperanças? No mistério e construção do saber coletivo, a palavra faz sentido. Os princípios da Educação Popular no respeito profundo as diferentes culturas, sempre somando, afirmam que o poder é nosso. Você topa continuar na luta? Nos encontramos na próxima etapa.


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Bíblia e Hermenêuticas Juvenis by Israel Gonzaga - Issuu