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Fé perfeita — O caminho da santidade

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FÉ PERFEITA o caminho

da santidade

A. W. TOZER

COMPILADO POR PHIL SHAPPARD

FÉ PERFEITA o caminho da santidade

FÉ PERFEITA o caminho da santidade

COMPILADO POR PHIL SHAPPARD A. W. TOZER

Originally published in English under the title Toward a More Perfect Faith ©2023 by Moody Publishers

The Moody Bible Institute of Chicago, 820 N. LaSalle Boulevard, Chicago, IL 60610, U.S.A. All rights reserved

Tradução e impressão em português com permissão © 2026 Publicações Pão Diário, Brasil.

Exceto se indicado o contrário, as citações bíblicas são extraídas da Nova Almeida Atualizada © 2017, Sociedade Bíblica do Brasil.

Coordenação editorial: Adolfo A. Hickmann

Tradução e adaptação: João Ricardo Morais

Revisão: Giovana Caetano, Marília P. Lara, Jordânia A. Siqueira

Coordenação gráfica e de artes: Rebeka Werner

Capa: Lucas Manika

Ilustração da capa: Gabriel Ruiz Araújo

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

TOZER, Aiden Wilson

Fé perfeita — o caminho da santidade

Tradução: João Ricardo Morais, Curitiba/PR, Publicações Pão Diário

Título original: Toward a More Perfect Faith

1. Filipenses 2. Vida cristã 3. Fé 4. Santidade 5. Cristianismo

Proibida a reprodução total ou parcial, sem prévia autorização, por escrito, da editora. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Permissão para reprodução: permissao@paodiario.com

Publicações Pão Diário

Caixa Postal 9740 82620-981 Curitiba/PR, Brasil publicacoes@paodiario.org www.publicacoespaodiario.com.br Telefone: (41) 3257-4028

Código: NA212 ISBN: 978-65-5350-859-0

1ª edição 2026

Impresso na China

A. W. Tozer

(1897-1963) O pregador do século 20

Nunca vi um cristão útil que não seja estudante da Bíblia. Não existem atalhos para a santidade. —A. W. Tozer

Aiden Wilson Tozer nasceu em 1897, em uma pequena fazenda da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Sua conversão aconteceu antes que ele alcançasse a maioridade, quando entregou sua vida a Cristo em uma oração individual em casa, após ouvir um pregador anunciando as boas-novas na rua. Cinco anos depois, o jovem recém-casado e sem formação teológica aceitou o convite para liderar uma igreja pela primeira vez. Apesar de inexperientes, ele e sua esposa Ada Celia Pfautz se mostraram aptos ao chamado pastoral. Com uma família grande, composta por sete filhos (seis rapazes e apenas uma moça), o casal se manteve firme no propósito de viver de forma simples e modesta. Eles jamais possuíram um carro, optando pelo transporte público e, mesmo após Tozer tornar-se um escritor renomado, preferiram doar boa parte dos direitos autorais aos necessitados. Ele foi pastor da Southside Gospel Tabernacle, em Chicago, por 30

anos, e, juntamente com Ada, dedicou 44 anos de sua vida ao ministério com a Aliança Cristã e Missionária.

O estilo de vida, a história de conversão e o conteúdo exortativo dos sermões e escritos desse autor são produtos de seu tempo. Movimentos como o da Santidade, que ocorreram nas primeiras décadas do século 20 com nomes como William Seymour, romperam barreiras sociais e fizeram com que muitos homens e mulheres sem estudo teológico formal despontassem como porta-vozes de Deus. Esses pregadores, geralmente de estilo enérgico e que transmitiam a urgência da volta de Cristo, nunca passaram pelas cadeiras universitárias, mas alcançaram milhares de pessoas.

Sob esse novo contexto histórico, o meio cristão protestante começou a ganhar uma nova faceta e delinear-se de forma peculiar nos Estados Unidos. Seria possível escrever um livro só para explicar as linhas teológicas que surgiram nessa época e, para compreender a obra de Tozer, é importante entender o contexto em que esse distinto autor viveu.

Um termo frequente em seus textos é evangelicals. Embora seja comumente traduzido por “evangélicos”, tal palavra não transmite as nuances culturais do termo em inglês. Quando cita evangelicals, Tozer se refere a cristãos teologicamente conservadores, podendo ser fundamentalistas (em oposição à teologia liberal) ou moderados. Esse grupo se diferencia dos protestants, termo utilizado para referir-se aos cristãos com posições teológicas mais progressistas, e dos pentecostais, caracterizados pelo enfoque na atualidade dos dons espirituais.

Essas diferenciações especificamente americanas nem sempre se traduzem de forma clara ao leitor lusófono, que utiliza o termo “evangélicos” para abranger todos os cristãos que não fazem parte da tradição católica, sejam eles pentecostais, batistas, metodistas, luteranos, anglicanos, reformados, menonitas, entre outros. Para evitar tal mal-entendido, decidimos traduzir evangelicals por “evangelicais”; toda vez que o leitor encontrar esse termo nesta obra, bem como o derivado “evangelicalismo”, saberá que Tozer estava se referindo a um grupo específico de cristãos e não aos protestantes em geral.

Um pouco afastado das discussões profundamente teóricas de seu tempo, Tozer foi um intelectual autodidata. Ele tinha muito interesse por história, filosofia e literatura, sendo um grande admirador dos Pais da Igreja e dos avivalistas. Apesar de admitir que o homem pode aprender bastante com as ciências, cria que o verdadeiro conhecimento sobre Deus e a alma humana só pode ser adquirido pelo Espírito Santo. Esse entendimento o levou a falar sobre a salvação de forma simples e direta, sem tentar dar destaque às suas ideias ou à retórica para ganhar o público.

A. W. Tozer teve sua formação embasada na experiência e devoção ao Senhor. A presença de Cristo foi sua sala de aula, sua rotina de oração lhe forneceu fundamento e, nas Escrituras, ele encontrou a inspiração necessária para seus ensinos. Essa base informal, fora da academia, não impediu que ele fosse reconhecido em tal meio. O autor recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Letras, pelo Wheaton College, em 1950, e em Direito, pela Houghton University, dois anos mais tarde.

Na mesma época, ele também foi eleito editor da revista Alliance Weekly, fazendo com que a circulação do periódico duplicasse. Com o estilo que o tornou conhecido, declarou já em seu artigo de estreia: “Vai custar algo caminhar devagar ao longo das eras, enquanto os homens que se guiam pelo tempo se apressam ao confundir movimento com progresso. Mas haverá frutos, a longo prazo, e o verdadeiro cristão não está muito interessado em qualquer coisa menos do que isso”.

O legado que esse pregador, editor e escritor deixou com suas palavras continua a nos desafiar até hoje. Para Tozer, a resposta à pergunta “O que devo fazer para ser salvo?” é simples e bíblica: “Entregar-se a Cristo, procurar conhecê-lo pessoalmente e tornar-se como Ele”. Essa contundente verdade foi o lema de seu ministério e dos mais de 40 livros que produziu durante esse período. O que você tem em mãos é uma porção disso e esperamos que você seja edificado por ela.

Dos editores

Introdução

Aliteratura devocional tem uma história profunda e extensa que remonta a mais de três mil anos. Nela vivenciamos os pensamentos reais de pessoas que compartilham sua devoção a Deus. Isso pode até fazer você pensar num jovem pastor adorando seu Criador enquanto dedilhava uma lira sob um céu estrelado ao mesmo tempo em que vigiava as ovelhas de sua família. Seus pensamentos eram uma simples expressão de amor a Deus. Ele, como outros primeiros escritores devocionais, tinha poucas expectativas de que suas palavras viajariam além de seu próprio ambiente, muito menos de sua própria vida.

Tais eram, possivelmente, os pensamentos de um homem de Deus chamado Aiden Wilson Tozer, cujo ministério pastoral durou do início até meados do século 20. Ele não era um professor cristão comum, tampouco o era a sua visão de como viver o que considerava uma vida cristã normal. Ele cria que aqueles a quem o Senhor salvou do pecado também foram chamados a viver com Deus em harmonia vitoriosa, ou comunhão. Tão convencido disso, muitas vezes ele se cansou de ouvir mestres e pastores que, conforme ele pensava, enfatizavam excessivamente a sua relação judicial com Deus, muitas vezes excluindo o ensino da abundante vida cristã que ele sentia estar claramente revelada nas Escrituras.

Por exemplo, ele frequentemente denunciou os perigos do externalismo, ou do que chamava de viver na periferia, confiando apenas em adotar as palavras corretas. Ele podia identificar o início dessa tendência no antigo Israel, quando “houve uma lenta mudança do

centro com Deus em direção ao perímetro, saindo do coração pulsante, saindo para a epiderme, saindo para o exterior da pele”. Ele compreendeu a propensão do cristão comum de viver na superfície. Ele disse: “Pela força centrífuga, os homens sempre tendem a voar para fora, e Deus sempre, por meio de Seus profetas, exortou os homens a voltarem ao centro”.

A. W. Tozer descreveu a dependência do externalismo em palavras, cerimônias e formas. Por outro lado, o internalismo, isto é, a atenção ao crescimento espiritual pessoal, reside no contentamento, no amor, na adoração e na realidade espiritual interior. Ele disse que Deus quer que os homens tenham contentamento, mas os homens sempre procuram satisfazer-se com palavras.

Portanto, Tozer acreditava que Deus enviou profetas (alguns tiveram visões) e reformadores, com os quais dialogava frequentemente, para repreender o externalismo. Tozer sabia muito bem que essa postura não o tornava popular. Seu intenso amor por Deus, porém, não lhe ofereceu outra opção senão expor essa forma de fundamentalismo que erroneamente faz das Escrituras um fim em si mesma, enquanto a verdadeira intenção da Bíblia é apontar os cristãos para o autor do texto, o Deus Todo-poderoso.

Após o ensino fundamental, tornou-se totalmente autodidata e mostrou um apetite voraz por ler e aprender. Os livros da biblioteca o transportaram até muitos dos maiores escritores sagrados e seculares. Sua base de conhecimento comum estava tão impregnada de literatura antiga, poesia e hinos que certa vez ele refletiu que a única matéria na qual se sentia um pouco fraco era a matemática aplicada.

Embora Tozer não pastoreasse uma igreja grande, ele era constantemente solicitado como orador em toda a América do Norte. A melhor descrição de seu estilo de pregação foi dada por um de seus antigos pastores auxiliares, Edward Maxey. Ele disse que era semelhante à sua escrita; que havia uma qualidade poética em sua fala. Suas ilustrações

eram muitas vezes bucólicas e aconchegantes, principalmente provenientes da vida no campo e da natureza, mas sempre apontando de forma singular para as verdades encontradas nas Escrituras.

Fé perfeita — o caminho da santidade segue a mesma linha do primeiro livro devocional de Tozer, À procura de Deus (Editora Betânia, 2019), no qual ele procura revelar quem é Deus e as tentativas do homem de conhecê-lo, simplesmente porque Ele poderia ser encontrado. Assim como os pais da ciência moderna só tentaram descobrir as leis físicas naturais devido à sua crença inabalável num Deus que criou um universo ordenado, Tozer acreditava que esse mesmo Criador fizera o homem exclusivamente à Sua imagem para que o homem se tornar um adorador por ser Ele um Deus que não só poderia ser encontrado, mas conhecido.

A premissa básica de Fé perfeita — o caminho da santidade é a compreensão de que a maioria dos seguidores de Cristo leva uma vida cristã medíocre e precisa ser lembrada de que sua profissão de fé em Cristo não é apenas um fim em si mesma. Tozer frequentemente pregava que a fé, uma vez recebida, não deveria ser meramente aceita, sendo, na verdade, apenas um ponto de partida para uma vida de crescimento gradual na adoração consumada. Ele acreditava que essa jornada nos levaria através de vários estágios de crescimento espiritual, conforme descrito no terceiro capítulo da carta do apóstolo Paulo à igreja em Filipos. Entrelaçado com os ensinamentos de Paulo, de forma criativa, Tozer leva seus leitores a um relacionamento com os escritos do autor anônimo do clássico devocional do século 14, A nuvem do desconhecimento1 .

Em vez de apenas uma coleção de pensamentos compilados sobre crescimento espiritual, Fé perfeita — o caminho da santidade é um

1 Essa obra conta com algumas versões em português. Nesta publicação, os trechos citados aparecem em tradução livre, a partir da versão em inglês a que A. W. Tozer teve acesso.

conjunto de textos transcritos de uma série de 12 sermões consecutivos ministrados domingo à noite por A. W. Tozer de seu púlpito em Chicago, entre janeiro e março de 1957. Embora editado para dirigir-se a um público de leitores, foi tomado um grande cuidado para preservar os pensamentos originais de Tozer, permitindo que a integridade e a fidelidade do que ele realmente disse permanecessem firmemente intactas.

Ao ler este livro, esteja preparado para aprender novas perspectivas a fim de que você também possa crescer e se tornar um cristão completo, ou, conforme aqui chamado, um cristão perfeito.

O que eu quero é conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição, tomar parte nos seus sofrimentos e me tornar como ele na sua morte.

(Filipenses 3:10)

“Uno” com Deus

Em Filipenses 3:7-15, encontramos um dos mais citados testemunhos bíblicos de um homem que busca desesperadamente a Deus, o apóstolo Paulo. No entanto, ao ler essa passagem, você encontrará o que parece ser uma série de fortes contradições nos escritos desse homem. Isto é, eles apenas parecem ser contraditórios. Na verdade, há muitos ensinamentos de Jesus que também parecem ser assim. O mesmo pode ser dito dos escritos dos antigos santos, bem como de suas canções e hinos. Porém, não são contraditórios, apenas parecem ser.

Na passagem de Filipenses 3, Paulo nos diz que ainda não somos perfeitos, mas depois diz: “Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento…” (v.15 ARA). Esse anseio pela perfeição é o tom e a temperatura da Lei, dos Salmos, dos Profetas e do Novo Testamento. É também a índole de todas as almas elevadas que já viveram antes de nós. Foram essas almas elevadas que escreveram nossos grandes livros de devoção e compuseram nossos hinos mais grandiosos. Nós, os descendentes espirituais indignos desses grandes pais, frequentemente cantamos esses hinos e, ainda assim, mal sabemos o que estamos cantando.

Gostaria que uma dessas grandes almas falasse conosco algumas vezes ao longo deste estudo. Não para acrescentar ou retirar nada das Escrituras, mas para ilustrar, ensinar e expor de forma devocional.

Refiro-me ao livro A nuvem do desconhecimento, que foi escrito há 600 anos por um escritor inglês anônimo. O escritor afirma que o propósito de seu livro é ajudar os filhos de Deus a crescerem espiritualmente e assim passarem a ser o que ele chama de “uno” com Deus. O livro foi escrito em inglês pré-elizabetano e é 200 anos mais antigo que Shakespeare; por isso, apresenta uma linguagem bastante singular.

Existem traduções mais recentes com linguagem modernizada, mas prefiro o texto original. O antigo escritor declarou seu desejo de que os cristãos se tornem unos com Deus, e fez uma pequena oração que eu gostaria de explicar.

No início de seu pequeno livro devocional, esse cristão de outrora diz: “Ó Deus, a quem todos os corações estão abertos e a quem todos falarão”. Notemos que, em sua oração, ele diz que diante de Deus todos os corações estão abertos. Isto é, Deus pode ver o que há dentro, mesmo que você feche seu coração ou tranque-o e jogue a chave fora. Ainda assim, Deus pode ver o seu coração como se ele estivesse totalmente aberto. O autor continua: “a quem todos falarão”. Esta é uma das doutrinas bíblicas que não se ouve muito hoje em dia, mas é muitíssimo enfatizada em A nuvem do desconhecimento: a vontade do coração de um homem é uma oração.

“A oração é o desejo sincero da alma, pronunciado ou não expresso”, escreveu James Montgomery séculos depois, embora eu suponha que ele não tenha se inspirado nesses escritos que estamos examinando, considerando que provavelmente nunca tivesse ouvido falar deles. Dizer “todos falarão”, em outras palavras, significa que o desejo de seu coração é eloquente, e Deus ouve o que você está desejando, o que você está determinando fazer, o que você planeja em seu coração. A nuvem do desconhecimento acrescenta: “a quem nada íntimo está oculto”. Isto é, nada secreto está escondido de Deus.

Esse escritor anônimo então diz: “Rogo a ti que purifiques a intenção do meu coração com o dom indizível da Tua graça, para que eu possa

amar a ti perfeitamente e louvar a ti dignamente”. Alguns se incomodarão com o fato de ele usar a palavra perfeitamente como se estivesse buscando a perfeição espiritual. Gostaria de responder rapidamente a essa pergunta com outra: Há algo de errado com essa prece? Você consegue encontrar alguma falha teológica nesta oração: “Ó Deus, restaura meu coração para que eu possa amar a ti perfeitamente e louvar a ti dignamente”? Se isso lhe parece extremo e fanático, eu questionaria a sua compreensão da salvação total que Deus oferece a você por meio de Jesus Cristo, pois um verdadeiro filho de Deus diria um “amém” a esse desejo de amar a Deus perfeitamente e louvá-lo dignamente.

Ele prossegue dizendo que existem quatro estágios na vida cristã. “Encontrei quatro estágios ou modos de viver dos cristãos” e os nomeia: comum, especial, singular e perfeito. Esses são os quatro estágios. Que evangelista ele teria sido! Se ele tivesse vivido 600 anos depois, ele diria: “Esta é a maneira como vejo que os cristãos são”.

O primeiro estágio ou modo de viver é o cristão comum — Deus sabe que turba somos! Depois, há o cristão especial, aquele que avançou um pouco, seguido, em terceiro lugar, pelo cristão singular. O estágio final que ele lista é o do cristão perfeito. Ele então explica com muito cuidado que os três primeiros estágios — comum, especial e singular — podem ser iniciados e finalizados nesta vida. O quarto estágio, porém, “pode, pela graça, ser iniciado aqui, mas jamais terá fim na bem-aventurança do céu”.

Gostaria de deixar claro que nem eu nem o escritor de A nuvem do desconhecimento somos perfeccionistas a ponto de andarmos por aí com um sorriso afável de São Francisco dizendo que somos perfeitos. Porém, você sempre descobrirá que há um lugar para avançar a fim de alcançar uma maturidade espiritual mais profunda, embora nós dois mantenhamos a crença de que você pode, pelo menos, iniciar a perfeição ou completude espiritual.

Juntamente com essa explicação inicial, gostaria de oferecer um postulado, isto é, algo que é dado como certo e que fornece uma base sobre

a qual podemos prosseguir. Meu postulado é a crença de que a maioria dos cristãos atuais vive um padrão espiritual abaixo do que poderia; se dizem cristãos, mas não vivem como tais. A maioria dos cristãos modernos não é composta por pessoas alegres porque não são pessoas santas. Não são pessoas santas porque estão não cheias do Espírito Santo. Não estão cheias do Espírito Santo porque não são pessoas separadas.

O Espírito não pode encher quem Ele não pode separar. A quem Ele não pode encher, Ele não pode santificar; e a quem Ele não pode santificar, Ele não pode tornar alegre.

Dito de outra forma, embora o cristão moderno tenha nascido de novo quando aceitou a Cristo, muitas vezes ele não é uma pessoa alegre porque não é uma pessoa santa. E ele não é uma pessoa santa porque não está cheio do Espírito Santo, o único Espírito Santo que há. Ele não está cheio do Espírito Santo porque não está separado do mundo. Deus não pode encher aqueles a quem não pode separar, e não pode santificar quem não pode encher. Ele não pode tornar alegre quem Ele não pode santificar.

Além disso, o meu postulado inclui o seguinte: o cristão moderno não é semelhante a Cristo; isto é, ele não é uno com Cristo. A prova disso está nas falhas de mau caráter encontradas hoje entre os filhos de Deus. Se eu não tivesse visão profética para ver o passar dos anos como viram os profetas de Hebreus 11, que adormeceram sem ter visto o cumprimento da promessa, eu ficaria profundamente abatido. A realidade é que tenho pregado durante anos para algumas pessoas que ainda têm falhas de caráter. Além disso, apresentam fraquezas morais, frustrações frequentes e compreensão embotada. Vivem fora da vontade de Deus e, em grande medida, vivem muito abaixo das expectativas das Escrituras (e, portanto, fora da vontade de Deus). Esse é o meu postulado e a razão deste estudo.

Essa condição inferior não é desconhecida da Bíblia. Lembre-se do que foi escrito sobre Israel, o povo de Deus, no Antigo Testamento e,

“Uno” com Deus

frequentemente, repetido no Novo. Embora os filhos de Israel sejam tão numerosos quanto as areias da praia, apenas um remanescente será salvo. Veja o capítulo 5 de Hebreus, onde se lê:

A esse respeito temos muitas coisas a dizer, coisas difíceis de explicar, porque vocês ficaram com preguiça de ouvir.

Pois, quando já deviam ser mestres, levando em conta o tempo decorrido, vocês têm, novamente, necessidade de alguém que lhes ensine quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus. Passaram a ter necessidade de leite e não de alimento sólido.

Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.

(Hebreus 5:11-14)

Isso é apenas o começo, pois o escritor continua:

Por isso, deixando os princípios elementares da doutrina de Cristo, avancemos para o que é perfeito, não lançando de novo a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno.

Isso faremos, se Deus o permitir. (Hebreus 6:1-3)

Nosso Senhor também disse que o amor de muitos esfriaria. No livro de Apocalipse, nas sete cartas às igrejas encontradas nos capítulos 2 e 3, temos certas condições apresentadas diante de nós. Essas são comunidades que funcionam como igrejas, mas que perderam o seu primeiro amor, são frias e têm muitas falhas espirituais. Portanto, baseei a necessidade deste estudo no entendimento de que a maioria dos cristãos atuais apenas diz ser cristã. A menos que você concorde com

meu postulado, isso pode ser meramente uma perda de tempo para nós dois, e um esforço desperdiçado da minha parte.

Este estudo exigiu de mim um tremendo esforço intelectual, apreensão e considerável preparo espiritual. Perceber que esse ensino, assim como o texto do apóstolo Paulo em Filipenses 3, pode não significar nada para alguns leitores é uma das constatações mais severas que tive.

Em Mateus 13, lemos sobre os discípulos que vieram a Jesus e disseram:

— Por que o senhor fala com eles por meio de parábolas?

Ao que Jesus respondeu:

— Porque a vocês é dado conhecer os mistérios do Reino dos céus, mas àqueles isso não é concedido. Pois ao que tem, mais será dado, e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso, falo com eles por meio de parábolas: porque, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem. (Mateus 13:10-13)

Isso demonstra claramente que havia pessoas que não conseguiam aceitar o ensinamento de Jesus. E assim, para que Ele pudesse falar àqueles que podiam ouvir, disfarçou um pouco Seu ensino. Não quero dizer que Jesus estivesse enganando, mas que Ele marcava Seu ensinamento com uma espécie de código espiritual, de forma que aqueles que pudessem compreendê-lo o entendesse, e os outros, não. Era como se Ele estivesse realmente mantendo Seu ensinamento oculto de alguns. Lemos a mesma coisa a respeito de Paulo em 1 Coríntios 3. Ele disse: “Eu, porém, irmãos, não pude falar a vocês como a pessoas espirituais, e sim como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo. Eu lhes dei leite para beber; não pude alimentá-los com comida sólida, porque vocês ainda não podiam suportar. Nem ainda agora podem, porque vocês ainda são carnais. Porque, se há ciúmes e brigas entre vocês, será que isso não mostra que são carnais e andam segundo os padrões humanos? Quando alguém diz: ‘Eu sou de Paulo’, e outro diz:

‘Eu sou de Apolo’, não é evidente que vocês andam segundo padrões humanos? Quem é Apolo? E quem é Paulo? São servos por meio de quem vocês creram, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um” (v.1-5). Ele teve que reter certas verdades porque não as podiam receber.

O escritor anônimo de A nuvem do desconhecimento adverte todos em cujas mãos caiu seu livreto. Ele disse:

Conjuro-te e rogo-te, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para que nem leias este livro, nem o escrevas, nem o menciones, nem permitas que seja lido, escrito ou mencionado, a ninguém, exceto que seja o tal aquele que tenha, por verdadeira vontade e por completa intenção, proposto ser um perfeito seguidor de Cristo, não apenas na vida ativa, mas na questão mais profunda da vida contemplativa possível pela graça, tornar-se nesta vida presente uma alma perfeita ainda que em um corpo mortal.

O que ele está dizendo é: não quero ninguém se incomodando com isso, a menos que tenha se decidido e que tenha a verdadeira vontade e toda intenção e propósito em seu coração para ser um perfeito seguidor de Cristo.

Ó, amigo cristão, o que acontece conosco quando julgamos a intenção de um homem como esse em comparação com o ensino espiritual deste tempo atual, meros petiscos, nos quais reduzimos a pregação da Palavra ao nível dos mais estúpidos e espiritualmente obtusos? Por que não pregamos para quem realmente tem sede de Deus, mas sim para o mais comum dos cristãos que mal persiste? Ouço A nuvem do desconhecimento dizer-me: “Tozer, pela graça de Deus e no poder da Trindade, peço-lhe, não pregue isso a menos que as pessoas estejam determinadas em seu coração a serem seguidoras perfeitas ou completas de Cristo, no aspecto mais sublime possível nesta caminhada terrena sob a graça”.

Quando ouço a letra de uma música que diz: “Seu sangue nos tornou dignos”, algo salta em meu coração me fazendo dizer: “Deus, essa é a minha esperança; não eu, mas Seu sangue nos tornou dignos”. Espero que, pelo sangue de Jesus, sejamos dignos de ouvir e, pela intenção do nosso coração, amar perfeitamente a Deus e dignamente louvá-lo e segui-lo a partir deste estudo.

O escritor prossegue mencionando que rejeita certas pessoas. Ele afirma claramente que há pessoas que ele consideraria como rejeitadas: aquelas que se desqualificam como leitoras em potencial. Ele afirma que entre aqueles que ele não quer que ouçam ou leiam seu livro estão os tagarelas carnais, isto é, faladores ociosos ou pessoas que apenas papagueiam o tempo todo. Ele também não quer que leiam suas palavras os que se enaltecem e os que culpam a si e aos outros. Por fim, também não quer que os que têm conversas sem valor nem os fofoqueiros. Deus os conhece.

“Ó Deus, a quem nenhuma coisa íntima está escondida e a quem todos os corações estão abertos e a quem todos falarão… Tu sabes onde estão os fofoqueiros e contadores de causos”, disse ele. “Deixem meu livro, fofoqueiros e todos os mesquinhos ou ladrões.” Alguém assim é o sujeito que devolve o dízimo, mas cuja mão segura o dinheiro o máximo que pode e se recusa a usufruí-lo. O antigo escritor diz: “Pois minha intenção nunca foi escrever tais coisas para eles. Portanto, eu gostaria que eles não se intrometessem nisso; nem eles, nem nenhum desses homens curiosos, letrados ou iletrados”. Se você é apenas uma pessoa curiosa sobre esse ensinamento mais profundo da vida espiritual, seja você ignorante ou erudito, não faz diferença, ele diz. “Não quero que nenhuma dessas pessoas ouça o que tenho a dizer.”

Tenho que contradizer A nuvem do desconhecimento nesse ponto. Não estou disposto a reter o segredo conhecido do poder espiritual daqueles que podem recebê-lo, só porque há aqueles que não podem. Não vou ocultar o segredo conhecido da vida vitoriosa àqueles que

podem entendê-lo por haver alguns presentes que não conseguem entendê-lo. Jesus Cristo contou parábolas e disfarçou Seu ensino para que os olhos espirituais pudessem vê-lo, ainda que outros não o vissem, nem ouvissem e nem mesmo o compreendessem. E assim, ao longo deste livro, não tenho dúvidas de que haverá uma separação. Haverá uma separação, alguns estarão dispostos a optar por continuar na sua devoção a Jesus Cristo, alguns irão de estágio em estágio, e outros ficarão satisfeitos em permanecer como cristãos comuns, como temos em tão grande número nos nossos dias. Infelizmente, o fundamentalismo produziu um rebanho inteiro de cristãos comuns nos nossos dias. Mais adiante, em nosso estudo, discutirei o que significa tornar-se um cristão especial, definirei que tipo de cristão é esse e, em seguida, discutirei o que significa ser um cristão singular. Por favor, não pense que estou ensinando sobre quatro obras da graça. Ninguém deveria pensar: “Já ouvi falar de duas obras da graça, e até alguns ensinam três, mas Tozer tem quatro!”. Não, estou apenas falando de quatro estágios no caminho em direção à perfeição ou maturidade espiritual. Juntamente com o nosso ensinamento âncora em Filipenses 3, quero também acompanhar esse homem que diz que é possível ser um cristão comum nesta vida, que também é possível ser um cristão especial e que é possível continuar até se tornar singularmente espiritual. É minha oração também mostrar que é possível para um homem terminar esses três estágios no estágio de perfeição, e então passar para um estágio que você só pode começar aqui, mas que nunca terminará, como diz o escritor de outrora, “até a bem-aventurança do céu”.

Esse é o ensinamento da vida cristã vitoriosa e o foco do meu ensino. À medida que continuo, estou convencido de que haverá uma separação, e apenas desejo que essa classificação ocorra nos círculos religiosos. Diluímos tanto um ao outro que a solução agora está tão fraca que, se contivesse veneno, não mataria você, e se fosse remédio, não o curaria. É apenas uma solução fraca. Este livro é para aqueles que desejam

avançar até o limite máximo, a fim de alcançar o mais soberano patamar da vida sob a graça, atingível nesta vida presente, enquanto ainda estiverem neste corpo mortal.

É considerado fanatismo querer prosseguir até que você possa amar a Deus e louvá-lo perfeitamente e, assim, viver de acordo com a vontade dele, de modo que você viva no Céu enquanto ainda estiver na Terra? Se isso for fanatismo, então é o fanatismo da Lei. É o fanatismo dos Salmos. É o fanatismo dos Profetas e do Novo Testamento. É o fanatismo que nos deu o Metodismo. É o fanatismo que nos deu o Exército da Salvação.

É o fanatismo que fez nascer a comunidade missionária Aliança Cristã e Missionária. É o fanatismo que nos deu os Irmãos Morávios. É o fanatismo que nos deu os Amigos de Deus, que se mantiveram apegados à verdade. É o fanatismo que causou o surgimento da Reforma.

Vamos lembrar desses homens que antigamente eram como minhocas na terra, amolecendo-a, preparando-a para a colheita. Invisíveis, mas trabalhando em pequenos grupos aqui e ali, eram pessoas santas que não se entregavam aos costumes do mundo. Assim como as minhocas e outros insetos que são encontrados no solo e, ao passarem por ele várias vezes, mantêm-no constantemente fofo, fazendo com que a água da chuva possa umedecê-lo conforme necessário.

Deixe-me explicar ainda mais dizendo que não se ouviu falar muito dos santos simples, modestos, mas que viveram uma vida de perfeição espiritual, isto é, pelo menos o início da perfeição espiritual nesta vida. Foram esses que salgaram nações como a Alemanha e a Holanda, e até mesmo os países latinos, até a chegada da Reforma. Eles criaram um solo fértil para plantar a semente. Martinho Lutero jamais poderia ter feito o que fez se não fossem os que vieram antes dele. Havia outros como ele que percorreram o país pregando um modo de viver como esse.

Alguns que estão lendo isso prosseguirão, mas, infelizmente, outros não. Alguns irão para sua Cades-Barneia e voltarão. Quando o povo de Israel chegou a Cades-Barneia, houve alguns que disseram: “Vamos

prosseguir”, mas Israel como um todo disse: “Não, não iremos”, e eles não foram. Então, retornaram sem saber que estavam sentenciando-se a 40 anos de peregrinação sem rumo nas areias do deserto. Eles não sabiam que estavam sendo testados. Deus não disse: “Bem, fiquem todos aqui, respirem fundo e vamos fazer um teste”. Ele simplesmente deixou que eles fizessem o seu próprio teste — e eles foram reprovados!

Neste mundo de pecado, carne e demônios, é assustador e terrível que cerca de 80 a 90 por cento das pessoas que Deus coloca à prova sejam reprovadas, mas felizmente nem todas são. “O que está acontecendo com você? Agarrado no sono? Levante-se, invoque o seu deus! Talvez assim esse deus se lembre de nós” (Jonas 1:6). Devo dizer que, para alguns, será um teste inconsciente quando os instigarmos a avançar. A questão é: qual é a sua resposta? Você percorrerá essa distância comigo? Você concorda que a maioria dos cristãos hoje vive uma pretensa vida cristã? Você concorda que a maioria dos cristãos não são cristãos alegres? Não são cristãos alegres porque não são cristãos espirituais e, portanto, não são cristãos santos.

Se o seu conceito de cristianismo for parte brincadeira, parte diversão social e parte religião, você não será capaz de me ouvir ou compreender de forma alguma. Você pode receber essas palavras, mas jamais entenderá realmente o que estou dizendo. Por outro lado, se o seu conceito de cristianismo contém a crença de que esta vida é um campo de batalha contra o mundo, e esta vida é uma preparação para algo maior; se você aceitar a cruz de Jesus Cristo como seu símbolo, que você deve carregar e morrer nela, ressuscitar e sobre ela viver, então seguiremos em frente e teremos uma boa jornada juntos.

Compartilho com você agora um pequeno lema de A nuvem do desconhecimento: “Olhe agora para frente e deixe tudo para trás”. Essa foi a maneira que o escritor anônimo usou para repetir o que o apóstolo Paulo disse. Livre-se desse caminho de retorno. Não olhe para trás, mas olhe agora para frente. Se você tomar isto como seu lema: “Olhe agora

para frente e deixe tudo para trás”, e não se preocupar com o passado, comprometendo-se a avançar através dos estágios sucessivos, você terá uma experiência espiritual que os antigos irmãos chamavam de “unidade com Cristo”. Ser uno com Cristo é o que meu coração anseia, e confio que o seu também.

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