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Critiquem seus desvios, disso depende sua sobrevivência Por Alain Badiou e Elisabeth Roudinesco

Alain Badiou e Elisabeth Roudinesco disparam o alarme: a psicanálise rompeu com a sociedade. Porém, mais do que nunca, é preciso defender sua dimensão liberadora Nouvel Observateur.No final de um livro que vocês escreveram juntos1, vocês lançam um apelo para salvar a psicanálise. O que acontece de tão sério? Alain Badiou: A psicanálise é, com o darwinismo e o marxismo, uma das principais revoluções do nosso tempo. Nesses três casos, não se trata de ciência exata, nem de crenças filosóficas ou religiosas mas de"pensamentos": materialistas, ligadas a práticas, essas três ciências mudaram nossa visão de mundo e sofrem o mesmo tipo de crítica. Os ataques contra a psicanálise devem, portanto, ser compreendidos como parte de uma crise global da intelectualidade. Uma crise que, resumindo, tenta substituir o "sujeito" pelo indivíduo. O que é o "sujeito"? É o ser humano entendido como uma rede de capacidades de rede que lhe permite pensar, criar, compartilhar e agir coletivamente, para ir além de suas singularidades, o que constitui uma condição de liberdade. Claro que o sujeito se apoia no indivíduo e em suas singularidades - um corpo, uma identidade, uma posição social, suas pulsões, mas não pode ser reduzido a isso. Ser sujeito é circular entre a singularidade e a universalidade, é sobre essa lacuna que a psicanálise funda sua ação: ela ajuda o indivíduo a se tornar um sujeito pleno. Nesse sentido, é, antes de mais nada, uma disciplina emancipatória, antes de ser terapêutica. Essa dimensão está ameaçada? A.B.: Atualmente nos é dito que ser um indivíduo é mais do que suficiente. Esse é o discurso do liberalismo, supostamente democrático e liberal, mas que produz indivíduos maleáveis, submissos, doentes, incapazes de ações coletivas. Indivíduos incapazes de serem sujeitos. Isso porque o capitalista não tem nada a fazer com o sujeito; a ele só interessa o apetite animal dos indivíduos. Mas esse é também o discurso da neurologia, que quer reduzir o indivíduo a sua dimensão neuronal. Ironizando os estudiosos que, no século XIX, acreditavam que poderiam deduzir o caráter de um indivíduo a partir da forma de seu crânio, Hegel dizia que, para eles, "o espírito é um osso". Hoje, a neurologia diz, "o homem é um grande saco de neurônios”. Não é melhor! Temos que lidar com um novo cientificismo, desta vez submetido ao capital. No campo do psiquismo, só a psicanálise, creio eu, é capaz nos proteger disso. Porém – e esse é o segundo aspecto de nosso chamado - não tenho a sensação que os psicanalistas, envolvidos em suas brigas intestinas, façam o que é preciso para se defender. Eles devem encontrar uma maneira para atender às novas demandas que lhes são dirigidas, sem ceder a esse neo-positivismo. Eles estão imóveis, cabe a eles dar um passo a frente. Elisabeth Roudinesco, você que há muito tempo defende a psicanálise, como chegamos a esse ponto?

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Jacques Lacan, passe présent. Ed Seuil.


Elizabeth Roudinesco: Primeiro, [na França ndrl] a psicanálise, como formação em psicopatologia, é ensinada em departamentos de psicologia, que não está preparada para assumir o inconsciente e não tem uma cultura associada a sua compreensão. Dominada pela ciência médica, a psicologia obedece a avaliações que nada têm a ver com as ciências humanas. Anteriormente, para tornar-se psicanalista, era necessária uma formação clínica e uma sólida cultura filosófica, histórica e literária. Ao inscrever a psicanálise em uma lógica de profissionalização,destruiu-se sua transmissão como pensamento. Além disso, há trinta anos, a maior parte dos- psicanalistas eram psiquiatras e, portanto, clínicos da alma. Hoje, a maioria são psicólogos. A psiquiatria uniu-mais recentemente às terapias cognitivas e comportamentais (TCC), que remetem a uma concepção do homem reduzido a seus neurônios. Naturalmente, as patologias podem ter uma dimensão orgânica. Mas mesmo nesses casos, a droga não é suficiente: é preciso também levar em conta a dimensão subjetiva dos pacientes. Qual é a parcela de responsabilidade dos próprios psicanalistas nesse quadro? E. R. Eles não produzem mais uma obra teórica. Suas sociedades funcionam como corporações profissionais. Condenar a homoparentalidade, a reprodução assistida ou onipotência das mães contra a função paterna, é grave: os psicanalistas não têm que se considerar como os guardiães dos bons comportamentos, em nome do complexo de Édipo. Eles fazem diagnósticos ao vivo nas mídias e abandonaram a questão política: em sua maioria, eles são estetas, céticos desengajados da sociedade. Em especial, eles pretendem tratar o sofrimento segundo um modelo antigo. No entanto, as patologias se modificaram. A psicanálise nasceu da neurose e da histeria, dois sintomas próprios a sociedades marcadas pela repressão sexual. Hoje, o que faz sofrer é a relação a si mesmo: constatamos assim a importância atribuída ao narcisismo e às perversões. Na época de Freud, os pacientes eram grandes burgueses, que tinham tempo e dinheiro, o que não tem atualmente os novos públicos, menos elitistas. Como se adaptar, então? E. R. O "passo em frente" mencionado por Alain Badiou seria colocar-se à escuta dessa nova demanda. Creio ser possível, no enquadre da psicanálise, conduzir terapias curtas com sessões longas, como fez Freud, nas quais se fala às pessoas com empatia. A análise padrão seria reservada para aqueles que o quiserem. Nem todo mundo está interessado em explorar as profundezas de seu inconsciente. Não estamos mais em 1900, a psicanálise passou a fazer parte da cultura e as pessoas sabem que têm um inconsciente. Sua demanda não é mais de o descobrir, mas, muitas vezes, resolver uma situação concreta. A nova geração de profissionais deve fazê-lo, caso contrário ele não terá mais pacientes. É a essa geração que nós nos dirigimos. Não é isso que dizem os pais de crianças autistas? E. R. O desamor tem suas origens. No entanto, nem todas as críticas são admissíveis. Por exemplo, assistimos a um novo fenômeno: os pacientes querem decidir a respeito de seus tratamentos e consideram que seus acessos delirantes são parte de sua identidade. Eles não veem razão para serem brutalizados por remédios sob o pretexto de ouvirem vozes. É preciso escutá-los nessa questão. Mas caminhamos para uma transformação do paciente em mestres de seu destino, e isso não é desejável. Também nessa questão os psicanalistas têm sua quota de responsabilidade, porque enclausurando-se em suas capelas eles perdem a sua autoridade. No fundo, o que foi perdido nas sociedades de psicanalistas é a posição do mestre, em favor daquela dos pequenos chefes.


O que você quer dizer com "mestre"? E. R. A posição do mestre permite a transferência: o psicanalista é "suposto saber” o que o analisando vai descobrir. Sem isso, a busca da origem do sofrimento é quase impossível. É realmente necessário passar pela restauração do mestre? A. B. O mestre é aquele que ajuda o individuo a se tornar sujeito. Pois, se admitimos que o sujeito emerge da tensão entre o indivíduo e a universalidade, é óbvio que ele precisa de uma mediação para avançar por esse caminho. Ele necessita, portanto, de uma autoridade. A crise do mestre é uma consequência lógica da crise do sujeito, e a psicanálise não escapou dessa crise. É preciso renovar a posição do mestre, mas não é verdade que se possa negligenciar essa questão, mesmo e especialmente em uma perspectiva de emancipação. E. R. Quando o mestre desaparece, ele é substituído pelo líder, pelo autoritarismo, e, mais cedo ou mais tarde, isso sempre acaba no fascismo – como, infelizmente, nos mostra a história. Você diz que a psicanálise diz respeito à ciências humanas e não à avaliação científica. Mas, diferentemente das outras ciências humanas, ela se propõe a tratar e cobra por isso. A. B. Os políticos constantemente solicitam aos sociólogos e economistas – pagando por isso - relatórios a partir dos quais eles colocam em prática medidas com efeitos muito concretos sobre a vida dos cidadãos. Considere a economia: ela caminha de fracasso em fracasso, e, apesar disso, ainda se apresenta como uma ciência. E o que dizer sobre a indústria farmacêutica, que se vale do título de científica, mas cujos produtos se mostram regularmente bem mais perigosos do que um tratamento analítico? Nossa sociedade está infestada de práticas que se pretendem científicas. O que a psicanálise não faz, justamente! E. R. Quando alguém cai nas mãos de um mau cirurgião, ninguém acusa Hipócrates! Sim, a medicina fez imensos progressos e todos nós nos beneficiamos deles, mas a comparação não faz sentido. Se a psicanálise pode progredir, ela o fará em outros termos. Simplesmente porque nunca secura a condição humana. Porém, existem impostores ... E. R. É verdade, existem, e, provavelmente, mais do que em outras disciplinas, porque o psiquismo é um campo menos tangível. As associações de analistas devem editar suas regras, e este é também o significado do chamado que nós lançamos a elas: critiquem seus desvios, disso depende a sobrevivência da psicanálise. Caso contrário, caminharemos na direção de uma sociedade orgânica na qual seremos tratados como objetos. Entrevista realizada por Eric Aeschimann Ellsabeth Roudinesco, 67, é historiadora da psicanálise. Em particular, ela escreveu “História da Psicanálise na França” em dois volumes e uma biografia Jacques Lacan (1993). Ela defende regularmente a psicanálise contra aqueles que a acusam, mas também critica o dogmatismos dos psis, principalmente quando da discussão das uniões homossexuais na França (PACs). Alain Badiou, 75, é filósofo e escritor. Figura de ponta do novo pensamento radical, ele é autor do ensaio de sucesso “De quoi Sarkozy est-il le nom?” (2007). Nos anos 1960, ele


pertenceu ao grupo que em torno de Louis Althusser, aproximou marxismo e psicanálise. Hoje, Lacan é uma de suas grandes fontes de inspiração.


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