Rio de Janeiro, RJ
Os batistas e a Bíblia
Direção executiva Judiclay Silva Santos
Traduzido do original em inglês: Baptists and the Bible – 40th Anniversary Edition Copyright © 2020 L. Russ Bush, Tom J. Nettles Publicado originalmente por Seminary Hill Press (SHP), braço editorial do Southwestern Baptist Theological Seminary 2001 West Seminary Drive Fort Worth, TX 76115 Publicado anteriormente por Moody Press (1980), B&H (1999). Copyright Apresentação original, Uma homenagem ao meu mentor: Dr. L. R. Bush III, e Tom J. Nettles: Uma homenagem © 2020 Seminary Hill Press
Conselho editorial Judiclay Santos David Bledsoe Leandro Peixoto Helder Cardin Wilson Porte Jr. Coordenação e supervisão editorial: Cesare Turazzi Tradução: Pro Nobis Editora Preparação de texto: Rafael Costa Revisão de provas: Beatriz Monteiro, Melina Marinho, Natan Porte, Thalles de Araujo Capa: Luis de Paula Diagramação: Marcos Jundurian Retratos p. 6-7: @cleitom_desenhista Nesta obra, as citações bíblicas foram extraídas da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA), salvo informação em contrário.
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por PRO NOBIS EDITORA Rua Professor Saldanha 110, Lagoa, Rio de Janeiro-RJ, 22.461-220
As opiniões representadas nesta obra são de inteira responsabilidade do autor e não necessariamente representam as opiniões e os posicionamentos da Pro Nobis Editora ou de sua equipe editorial.
1ª edição: 2026
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
ISBN: 978-65-81489-89-2
Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo citações breves, com indicação da fonte.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Bush, L. Russ, 1944-2008 Os batistas e a Bíblia/L. Russ Bush, Tom J. Nettles; tradução Pro Nobis Editora. – Rio de Janeiro: Pro Nobis Editora, 2026. Título original: Baptists and the Bible. Bibliografia. ISBN 978-65-81489-89-2 1. Autoridade - Aspectos religiosos - Cristianismo 2. Batistas - Doutrinas 3. Batistas História 4. Bíblia - Evidências, autoridade, etc. 5. Bíblia - Inspiração I. Nettles, Tom J. II. Título. 26-337757.0
CDD-220.13
Índices para catálogo sistemático: 1. Palavra de Deus: Bíblia 220.13 Eliete Marques da Silva – Bibliotecária – CRB-8/9380
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Tal é a profundidade das Escrituras cristãs que, mesmo que eu me devotasse a estudá-las — sem fazer mais nada, desde a mais tenra infância até a decrepitude, com o mais sublime desejo, o mais dedicado zelo e um talento maior do que possuo —, eu ainda estaria diariamente progredindo em descobrir os seus tesouros. — Agostinho de Hipona
Dedico a: Sr. L. R. Bush, Russell Bush Jr., Sr. Parks R. Warnock, mestres entre os da família da fé. – L. Russ Bush
L. R. Bush (1944-2008) foi um renomado filósofo, apologeta, autor, professor, pastor e amigo. Ele dedicou sua vida a servir à igreja, à Convenção Batista do Sul e, mais recentemente, ao Seminário Teológico Batista Southeastern. Serviu como vice-presidente acadêmico, deão do corpo docente e professor. Em 2006, tornou-se deão emérito e o primeiro diretor do Center for Faith and Culture. Em seus cargos de liderança acadêmica, o Dr. Bush desempenhou um papel fundamental para que o Southeastern resgatasse sua sólida herança teológica. O Dr. Bush também liderou o debate para consolidar a inerrância da Bíblia como doutrina central dos batistas do sul por meio da presente obra. Há quem diga que este livro mudou a história.
Dedico: ao finado Carey E. Cox, quem me ensinou a crer na Bíblia. – Tom. J. Nettles
Thomas J. Nettles (n. 1946) é considerado um dos maiores historiadores batistas dos EUA na atualidade. Por muitos anos serviu como professor de teologia histórica no Seminário Teológico Batista Southern. Com sólida formação acadêmica, obteve seu MDiv e PhD pelo Seminário Teológico Batista Southwestern e, ao longo de sua trajetória, chefiou e lecionou em departamentos de história da igreja de instituições renomadas, como a Trinity Evangelical Divinity School e o Seminário Batista Mid-America. Nettles é também uma figura central no Founders Ministries, onde defende o resgate da profundidade teológica e o uso de catecismos na educação cristã. Além de publicar diversos artigos acadêmicos, é autor e editor de livros fundamentais. Outros livros de Nettles pela Pro Nobis: Os batistas e as doutrinas da graça, Por que somos batistas, A infância do príncipe dos pregadores.
Cremos que a Bíblia Sagrada foi escrita por homens divinamente inspirados e é um perfeito tesouro de instrução celestial; que tem Deus como seu autor, a salvação como seu fim e a verdade, sem qualquer mistura de erro, como seu conteúdo; que revela os princípios pelos quais Deus nos julgará; e, por isso, é — e continuará sendo até o fim do mundo — o verdadeiro centro da união cristã e o supremo padrão pelo qual toda a conduta, credos e opiniões humanas devem ser julgados. — Confissão de Fé Batista de New Hampshire (1833)
Sumário Apresentação editorial ao selo Ortodoxia Batista • 15
Nota de gratidão brasileira • 17 Apresentação à edição em português — Leandro Peixoto • 19 Apresentação original — Adam W. Greenway • 27 Prefácio original — Tom J. Nettles • 29
Uma homenagem ao meu mentor: Dr. L. Russ Bush III — John D. Wilsey • 41 Tom J. Nettles: Uma homenagem — Gregory A. Wills • 51 Agradecimentos • 57 Introdução • 59
PRIMEIRA PARTE “No princípio, Deus...” 1. “O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” • 73 John Smyth • 77 Thomas Helwys • 83 John Murton • 87 Batistas gerais posteriores • 90 Thomas Grantham • 95 Conformidade com a letra • 104
2. “Fez, pois, Deus [...] separação entre as águas” • 109 Ponto de vista sobre as Escrituras na Confissão de 1644 • 116 3. “E viu Deus que era bom” • 129 A Segunda Confissão de Londres • 132 Das Sagradas Escrituras • 133 Exposição do capítulo • 138 A Associação da Filadélfia • 149 4. “Os quais povoavam as águas” • 157 Roger Williams • 161 Isaac Backus e uma grande nuvem de testemunhas • 169 John Bunyan • 176 Benjamin Keach • 193 5. “Sede fecundos, multiplicai-vos” • 207 John Gill • 210 Andrew Fuller • 222 Dan Taylor • 237 6. “Para a terra que te mostrarei” • 249 William Carey • 252 Adoniram Judson • 266 7. “Separaram-se um do outro” • 283 John Leland • 291 Richard Furman • 294 Francis Wayland • 299 John L. Dagg • 314 SEGUNDA PARTE “Um novo rei [...] que não conhecera a José...” 8. “Os seus deuses vos serão laço” • 337 De volta à Bíblia • 340 O que é verdade? • 342
O momento decisivo • 345 Correntes de complexidade • 353 9. “Vinde, vamos a Gilgal” • 373 J. P. Boyce • 377 Basil Manly Jr. • 388 J. R. Graves • 400 10. “Meu filho Absalão” • 409 John A. Broadus • 412 Crawford H. Toy • 419 11. “Agora, pois, ó Senhor Deus [...] faze como falaste...” • 441 Charles H. Spurgeon • 443 John Clifford • 456 12. “Enquanto ele viveu, não se desviaram de seguir o Senhor” • 469 A. H. Strong • 471 Alvah Hovey • 490 13. “Então, se levantaram os cabeças de famílias” • 507 E. Y. Mullins • 510 A. T. Robertson • 529 14. “Estes ainda são teus servos” • 543 B. H. Carroll • 547 W. T. Conner • 560 15. “Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros?” • 571 Walter Rauschenbusch • 574 Shailer Mathews • 577 William Newton Clarke • 582 Harry Emerson Fosdick • 591 James Josiah Reeve • 602 16. “O princípio das dores” • 617 Batistas do Norte • 619 Batistas do Sul • 628
Elliott e a controvérsia • 641 Empurrando dominós • 648 TERCEIRA PARTE “Quem dizeis que eu sou?” 17. “Fatos que entre nós se realizaram” • 653 A Confissão de Charlestown de 1665 • 657 A Confissão da Filadélfia de 1742 • 659 Artigos de Fé da Associação Kehukee de 1777 • 661 Princípios de Fé da Sandy Creek Association de 1816 • 662 Termos da união entre as Associações Elkhorn e do Sul do Kentucky de 1801 • 662 Confissão de New Hampshire de 1833 • 663 Tratado sobre a fé dos Batistas do Livre-arbítrio (1834 e 1948) • 664 Confissões landmarkistas (1905 e 1950) • 666 Confissões batistas fundamentalistas (1921 e 1923) • 667 Fé e Mensagem Batista: Os artigos de Memphis de 1925 • 671 Fé e Mensagem Batista: A Confissão de Kansas City de 1963 • 674 Fé e Mensagem Batista: A Confissão de Orlando de 2000 • 679 A Escritura nas confissões de fé batistas • 683 18. “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste” • 691 Pregando a verdade literal • 694 Definindo os problemas • 699 Fé em busca de compreensão • 708 Em busca de uma história real • 719 Teólogos batistas • 725 Resumindo • 737
19. “Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro” • 749 As palavras da profecia deste livro • 754 Uma reafirmação contemporânea da visão batista histórica das Escrituras • 761 Aquele que guarda as palavras • 764 Bem-aventurados os que cumprem os seus mandamentos • 801 Índice onomástico • 811 Índice de referências bíblicas • 819 Igrejas patrocinadoras no Brasil • 823
Os BATISTAS e a BÍBLIA
Apresentação editorial ao selo Ortodoxia Batista A história dos batistas é marcada por um profundo compromisso com a Palavra de Deus — por vezes, com o custo do próprio sangue. No entanto, o cenário contemporâneo, com honrosas exceções, nos confronta com uma realidade alarmante: inconsistência doutrinária, colapso eclesiológico e enfraquecimento do magistério da Palavra. Entre o empobrecimento litúrgico e o abandono das tradições da nossa fé, a genuína identidade batista corre o risco de se tornar um eco distante de um passado esquecido. A recuperação da identidade é uma necessidade urgente. Os batistas precisam trazer à memória o legado dos pioneiros — homens e mulheres que, sob o senhorio de Cristo, dedicaram suas vidas à proclamação do evangelho puro e simples. Este selo convoca o povo batista a um autoexame honesto à luz da história e das Escrituras, visando corrigir rotas, ajustar o foco e renovar o pacto com Deus. O selo Ortodoxia batista nasce como resposta a este desafio. Não se trata apenas de um selo editorial, mas de um brado de retorno às fontes. Nosso propósito primário é fortalecer três bases fundamentais:
• As doutrinas centrais: alicerce sobre o qual a igreja se sustenta. 15
Apresentação editorial ao selo Ortodoxia Batista
• Os princípios bíblicos: bússola que orienta nossa fé e prática. • Os distintivos batistas: herança singular que nos identifica no corpo de Cristo. A partir de uma série de obras robustas e fundamentais — entre elas clássicos batistas —, nosso intuito é defender a Palavra de Deus como única regra de fé e prática, o supremo padrão pelo qual toda conduta e todos os credos e opiniões são medidos. Ansiamos por honrar a memória de nossos pais na fé, dar destaque a autores contemporâneos que seguem os marcos antigos, encorajar os batistas desse tempo e preparar a nova geração. Por isso, a escolha por um acabamento premium não é mera estética. Ela reflete a nossa convicção de que obras de valor espiritual merecem ser preservadas em edições que resistam ao tempo e sejam legadas por gerações. Unimos a profundidade teológica ao rigor gráfico, entregando ao leitor uma experiência que honra o peso da nossa teologia. Que cada página aqui impressa sirva para encorajar esta geração e preparar a próxima, a fim de que a obra de nossas mãos seja confirmada e o nome de Cristo, o Senhor da Igreja, seja glorificado. Ao Deus de amor e de imensa bondade seja a glória para sempre. Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos. (Sl 90.17)
Judiclay Santos, fundador e presidente da editora e do ministério Pro Nobis
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Os BATISTAS e a BÍBLIA
Nota de gratidão brasileira A Pro Nobis Editora expressa sua profunda gratidão ao Seminary Hill Press (SHP), braço editorial do Southwestern Baptist Theological Seminary, por confiar a nós os direitos de tradução e publicação da edição comemorativa de Os batistas e a Bíblia, originalmente publicada sob a Legacy Series da Seminary Hill Press, que reúne conteúdos históricos de relevância perene para o Southwestern Baptist Theological Seminary, com o propósito de edificar os batistas e demais cristãos fiéis da atualidade. Esta obra não é apenas um título em nosso catálogo; ela é o marco inaugural do selo Ortodoxia batista. Em um tempo de inconsistências doutrinárias e enfraquecimento do magistério da Palavra, a generosidade do SHP nos permite oferecer aos leitores de língua portuguesa uma ferramenta essencial para o resgate da identidade batista e o fortalecimento do compromisso com as Escrituras como nossa suprema regra de fé e prática. Estendemos um agradecimento especial a James A. Smith Sr. e Ashley Allen, cujo apoio e profissionalismo foram fundamentais para que este projeto se tornasse realidade. A missão do Seminary Hill Press de edificar o povo de Deus e avançar o reino através de recursos teológicos de excelência encontra eco em nosso coração e em nossa labuta. 17
Nota de gratidão brasileira
Por fim, em obediência ao princípio apostólico de “dar honra a quem honra é devida” (Rm 13.7), expressamos nossa profunda e reverente gratidão às igrejas patrocinadoras em solo brasileiro, cuja lista se encontra ao final deste livro. A publicação da obra Os batistas e a Bíblia tornou-se mais leve com o compromisso inabalável, as orações e o suporte generoso dessas comunidades locais. Elas compreenderam com clareza que investir em literatura teológica de excelência é nutrir os púlpitos e fortalecer os alicerces de nossa herança confessional. Que o Deus Altíssimo recompense com abundância de graça cada congregação que se dispôs a somar forças conosco, garantindo que a autoridade e a suficiência das Sagradas Escrituras continuem a ser fielmente proclamadas à atual e às futuras gerações em nossa nação. Ao publicar este clássico, honramos a memória de nossos pais na fé e reafirmamos nosso desejo de preparar a nova geração para amar a herança teológica que nos foi entregue. Que esta obra sirva para ajustar rotas, renovar corações, encorajar mentes e, acima de tudo, glorificar ao Deus de imensa bondade. Pro Nobis Editora
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Os BATISTAS e a BÍBLIA
Apresentação à edição em português O resgate da ortodoxia batista Como cristão batista há 33 anos e pastor de uma igreja filiada à nossa histórica Convenção Batista Brasileira (CBB), escrevo movido por um profundo senso de pertencimento e zelo. Ao cruzarmos o primeiro quarto do século 21, olho para a nossa trajetória com gratidão, mas também com a responsabilidade de quem testemunhou décadas de nossa história comum. É desse lugar, de quem caminha no seio desta denominação há mais de três décadas, que percebo um cenário preocupante: enfrentamos um risco de perda de identidade que compromete não apenas a saúde das igrejas, mas a própria integridade de nossa obediência à Grande Comissão. Esta crise não advém apenas de forças externas ou pressões culturais; trata-se, antes, de uma erosão que temos permitido ocorrer internamente. Ao longo dessa caminhada, creio que, por tempo demais, permitimos que uma silenciosa indiferença doutrinária corroesse os alicerces de nossa identidade. Inicialmente, a ortodoxia foi tratada como um patrimônio garantido, algo que não exigia cultivo ou defesa. Acomodados em uma segurança teológica presumida, muitos de nossos pastores e líderes, desde o século passado, canalizaram o vigor institucional para o pragmatismo de programas e para a busca pela expansão numérica. Ao priorizarmos as organizações e 19
Apresentação à edição em português
juntas missionárias como motores de crescimento, supúnhamos que o conteúdo da fé bíblica e os distintivos batistas permaneceriam inabaláveis, como se fossem imunes ao tempo e ao descaso. Em um estágio seguinte, consolidou-se a percepção de que a precisão teológica seria um elemento dispensável. Gradualmente, da sala de aula ao púlpito, o ativismo prático ocupou o espaço que pertencia à exposição bíblica e à pregação doutrinária.1 Enquanto os ataques aos fundamentos pareciam restritos às margens da vida denominacional, a maioria de nós optou por uma neutralidade frágil — muitas vezes escudada sob o pretexto da “autonomia da igreja local” — em favor de uma unidade institucional e de um avanço missionário puramente funcional. A história, contudo, revelou o custo elevado dessa presunção, um alerta que deve ecoar hoje entre todos os que zelam “pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). O vácuo deixado pela ausência de um ensino robusto foi rapidamente preenchido por práticas alheias à nossa tradição protestante e batista. A rica hinódia, outrora portadora de densa instrução teológica, cedeu espaço a cânticos de repetição hipnótica e sentimentalismo antropocêntrico, nos quais as necessidades do adorador — e não a glória do Deus Trino — tornaram-se o tema central. No púlpito, a exposição das Escrituras, centrada na suficiência de Cristo, foi muitas vezes substituída por um moralismo terapêutico e por discursos de autoajuda que, ao oferecerem meras dicas de sucesso, reduzem o evangelho a um manual de conveniência pessoal. Na piedade cristã, a doutrina bíblica da santificação progressiva e do fruto do Espírito foi suplantada por um misticismo de “batalhas espirituais” e “quebras de maldições”, trocando a busca pela maturidade em Cristo por técnicas de inclinação supersticiosa.
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Recomendo a leitura deste livro: Tom Nettles, Pregação doutrinária: Privilégio, promessa, poder, perigo (Pro Nobis, 2022).
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Os BATISTAS e a BÍBLIA
Diante de concessões doutrinárias tão evidentes, a acomodação tornou-se insustentável. A urgência do momento impôs, ainda que de forma incipiente, um movimento de resgate: a necessidade de recuperar a herança teológica que originou a denominação e que ainda sustenta o seu testemunho. O lançamento do selo “Ortodoxia Batista” surge como um passo decisivo nessa direção. Nosso propósito é publicar obras clássicas que expressem a autêntica identidade batista, em toda a sua solidez e riqueza doutrinária. Para inaugurar este projeto, a escolha recai sobre Os batistas e a Bíblia, pois compreendemos que a perda gradual de nossa identidade inicia-se exatamente no abandono de nosso distintivo primaz: a Bíblia como única regra de fé e prática. Somente o retorno às Escrituras como fonte suprema de autoridade — tanto na confissão quanto na vida eclesiástica — poderá resguardar os batistas de uma descaracterização completa. É nesse ponto que esta obra inaugural se oferece como um precioso recurso para servir à irmandade batista brasileira. Os batistas e a Bíblia, fruto das pesquisas de L. Russ Bush (1944–2018) e Tom J. Nettles (1939–), surgiu originalmente em 1980 e consolidou-se como a base intelectual do movimento conhecido como Ressurgimento conservador na Convenção Batista do Sul (CBS). A presente edição comemorativa de quarenta anos incorpora novo prefácio, introdução e uma análise detalhada da Baptist Faith and Message, revisada em 2000 (BFM 2000).2 Esta declaração não é apenas o documento confessional vigente da CBS, mas o marco que cristalizou o retorno à inerrância bíblica após décadas de disputa — tornando-se, portanto, uma chave hermenêutica
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Para uma tradução dessa declaração, veja: Mensagem e Fé Batista 2000, em: David Allen Bledsoe; Tom J. Nettles, A confissão de fé de New Hampshire: A surpreendente história da primeira confissão da fé dos batistas no Brasil (Rio de Janeiro: Pro Nobis, 2022). Esta mesma publicação inclui o ensaio histórico de Nettles, intitulado: “A confissão de fé de New Hampshire até a Mensagem & Fé Batista na Convenção Batista do Sul”.
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Apresentação à edição em português
vital para examinarmos, com igual rigor, os artigos da Declaração Doutrinária da CBB.3 A distinção fundamental entre esses documentos reside na hermenêutica e na especificidade dos ofícios eclesiásticos. A Declaração da CBB preserva o princípio de que Jesus Cristo é o “critério de interpretação” das Escrituras. A BFM 2000, contudo, suprimiu deliberadamente essa cláusula — historicamente utilizada por alas moderadas para contrapor um suposto “espírito de Cristo” à letra do Antigo Testamento e das Epístolas — e, com acerto, substituiu-a pela afirmação de que “toda a Escritura é um testemunho de Cristo” e que ele é “o foco da revelação divina”. O objetivo dessa mudança foi impedir que uma imagem subjetiva de Jesus fosse usada como chave interpretativa para anular mandamentos bíblicos específicos, reafirmando que a totalidade da Bíblia é a Palavra de Deus plenamente verdadeira. Essa correção metodológica sustenta as convergências e as nuances materiais entre os documentos. A Declaração Doutrinária da CBB, em seu Artigo XI, intitulado “Do ministério da Palavra”, identifica os oficiais da igreja local como pastores e diáconos, compreendendo o ministério pastoral como uma prerrogativa masculina.4 Todavia, a BFM 2000 formalizou essa posição de maneira ainda mais assertiva, visando sanar ambiguidades históricas ao explicitar a restrição do ofício a homens. Nesse sentido, a distinção reside, sobretudo, no grau de detalhamento confessional: o texto norte-americano avança em especificações sobre a funcionalidade do lar e o 3
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“Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira” [1986], em: Sócrates Oliveira de Souza (org.), Pacto e comunhão: Documentos batistas [brasileiros]. 2. ed. (Rio de Janeiro: Convicção, 2010). Para o mesmo documento com seu mais recente artigo “Família e casamento” acrescentado, veja: https://www. convencaobatista.com.br/site/pagina.php?MEN_ID=22. Recomendamos a leitura deste livro publicado pela Pro Nobis, com atenção especial ao ensaio aqui destacado: David Bledsoe, “O requisito bíblico masculino do pastor e a curiosa situação dos batistas brasileiros”, em: Judiclay Santos (org.), A mulher e o ministério pastoral (Rio de Janeiro: Pro Nobis, 2026), p. 95-133.
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Os BATISTAS e a BÍBLIA
princípio da submissão conjugal, tratando a ordem na família como o fundamento que sustenta a ordem na igreja. Assim, enquanto o documento brasileiro foca a ortodoxia familiar primordialmente na natureza heterossexual e monogâmica da união, o texto da CBS articula com maior especificidade a hierarquia funcional doméstica como a base para a prática tanto do lar quanto do ofício pastoral. Quanto à natureza das Escrituras, a BFM 2000 diverge da formulação da CBB ao suprimir o termo “registro”, definindo a Bíblia não como mera testemunha da revelação, mas como a própria revelação divina. Trata-se de uma salvaguarda necessária contra leituras que divorciam o texto sagrado da própria Palavra de Deus. Já na soteriologia, a revisão confessional corrige tendências que flertam com o antropocentrismo. Enquanto a Declaração da CBB afirma que “há duas condições para o pecador ser regenerado: arrependimento e fé”, sugerindo uma capacidade humana anterior ao novo nascimento, a BFM 2000 restabelece a primazia bíblica ao sustentar que a regeneração é “uma mudança de coração operada pelo Espírito Santo [...] à qual o pecador responde com arrependimento e fé”. Assim, o arrependimento e a fé deixam de ser vistos como pré-requisitos humanos para se tornarem “experiências inseparáveis da graça”, frutos da operação soberana de Deus. Ao resgatar essa formulação, a BFM 2000 ecoa diretamente a teologia da Confissão de New Hampshire (1833, 1853). Para o leitor brasileiro, esse vínculo é histórico e vital: a New Hampshire foi a primeira declaração de fé adotada pelos batistas em solo nacional, vigente de 1882 a 1986.5 Portanto, alinhar-se aos pressupostos reafirmados na BFM 2000 não significa capitular a uma agenda estrangeira recente, mas promover um reencontro com o documento fundante que organizou nossas primeiras igrejas no Brasil. 5
Para saber mais sobre essa confissão de fé e sua relevância para a obra batista brasileira, desde os dias de seus pioneiros, veja: Bledsoe; Nettles, A confissão de fé de New Hampshire; David Allen Bledsoe, Zacharias C. Taylor: A tocha do evangelho no Brasil, 2. ed. (Rio de Janeiro: Pro Nobis, 2024), p. 74, 84, 92, 127-127, 136, 143, 256.
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Apresentação à edição em português
Para fundamentar tais debates e elucidar suas implicações diretas aos batistas brasileiros, a obra que o leitor tem em mãos recua no tempo em busca de nossas raízes. Ao longo de dezenove capítulos, Os batistas e a Bíblia demonstra que, para além da diversidade teológica, houve um sólido consenso histórico sobre a inerrância e a autoridade das Escrituras. A primeira parte do livro argumenta que tanto batistas gerais quanto particulares encontraram terreno comum na doutrina bíblica. A Primeira confissão de Londres (1644) já declarava a veracidade absoluta da Palavra de Deus, enquanto a Segunda confissão de Londres (1677, adotada publicamente em 1689) explicitou as Escrituras como a única fonte autoritativa da verdade revelada. Essa convicção atravessou o Atlântico e os séculos, unindo figuras tão distintas quanto John Bunyan e Adoniram Judson, sob a premissa fundamental de que “o que a Escritura diz, Deus diz”. A segunda parte da obra é o ponto crucial para compreendermos a gênese da crise que alcançou o Brasil. Bush e Nettles descrevem o impacto dos movimentos filosóficos do século 19 e a subsequente guinada subjetivista. Nesse contexto, destaca-se E. Y. Mullins (1860–1928) e sua obra Os axiomas da religião (1908), cuja influência marcou profundamente os seminários da CBS e exerceu efeito formativo entre pastores e professores batistas brasileiros nas décadas de 1950–1980. Embora de intenção apologética, a ênfase de Mullins na “competência da alma” e na experiência religiosa individual — quando desvinculada da confessionalidade histórica e da autoridade objetiva da Escritura — deslocou o eixo epistemológico da teologia. Esse deslocamento favoreceu a recepção da neo-ortodoxia, na qual a revelação é compreendida prioritariamente como evento experiencial; e, uma vez fragilizada a normatividade do texto inspirado, abriu espaço para o liberalismo teológico, com implicações diretas para a revisão de mandamentos bíblicos, inclusive no tocante aos ofícios eclesiásticos. Compreender esse percurso é vital para o diagnóstico de nossa própria condição teológica. 24
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Embora esta obra trate especificamente da identidade batista, seu valor transcende os limites denominacionais. Presbiterianos, reformados e todos aqueles que prezam a autoridade bíblica encontrarão aqui um arsenal histórico indispensável. Afinal, a preservação da inerrância e da suficiência das Escrituras é uma causa comum a todos os que confessam o cristianismo histórico. O futuro saudável dos batistas brasileiros passa por uma retomada radical da tese sustentada por Bush e Nettles em Os batistas e a Bíblia. Que esta leitura sirva como catalisador para a manutenção de nossa ortodoxia, a preservação de nossa identidade e, onde for necessário, o resgate de ambas. Leandro B. Peixoto, pastor titular da Segunda Igreja Batista em Goiânia (GO), membro do conselho editorial da Pro Nobis Editora, pela qual publicou A mão de Deus
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Os BATISTAS e a BÍBLIA
Apresentação original Poucos livros resistem ao teste do tempo. Os batistas e a Bíblia é aquele tipo raro de obra que não apenas resistiu a esse teste, mas se mantém tão relevante hoje quanto no dia em que foi publicado pela primeira vez, em 1980. Na verdade, pode-se argumentar que este clássico oriundo dos estudos de Tom J. Nettles e do falecido L. Russ Bush sobre a total veracidade, inerrância, inspiração e autoridade da Palavra de Deus é ainda mais relevante na atualidade, pois essas questões novamente encontram debate entre alguns evangélicos. Mesmo para aqueles batistas do Sul dos EUA do século 21 que demonstraram de forma clara e consistente nas últimas décadas sua aceitação das posições históricas de nossos antepassados documentadas por Bush e Nettles, este livro é um lembrete necessário dessas verdades e um guia contínuo para a sua manutenção. Os Drs. Bush e Nettles eram membros do corpo docente do Southern Baptist Theological Seminary quando publicaram Os batistas e a Bíblia, um projeto nascido de sua amizade especial, bem como de uma profunda preocupação pela Convenção Batista do Sul dos EUA (CBS) e por outras organizações cristãs que vinham falhando em apreciar e defender a inspiração e a autoridade da Bíblia. A profundidade e a amplitude da pesquisa meticulosamente realizada por Bush e Nettles responderam de forma convincente aos críticos que questionavam a legitimidade da inerrância como 27
Apresentação original
um compromisso teológico comum entre os batistas. Há pouca dúvida de que Os batistas e a Bíblia foi a base intelectual crítica para aqueles que prevaleceram na longa batalha da CBS pela Bíblia, agora lembrada como o ressurgimento conservador. Dada a conexão dos autores com o Southwestern Seminary na época da publicação original de Os batistas e a Bíblia, é, de fato, apropriado que nossa editora tivesse a honra de trazer de volta ao público este clássico acadêmico dos batistas do Sul dos EUA. Ao fazer isso, não estamos apenas tornando esta importante obra disponível para uma nova geração de irmãos da nossa denominação e outros tantos evangélicos, mas damos a devida honra aos doutores Bush e Nettles na instituição a partir da qual realizaram seu vital trabalho. Em seu prefácio à edição original do livro, Bush e Nettles escreveram: Por não serem um povo confessional, os batistas precisam encontrar sua unidade na Bíblia. Poderíamos desejar que todos os cristãos evangélicos estudassem as Escrituras e, assim, provassem o que é a verdadeira fé e prática. Mas os batistas não devem se afastar de sua singular posição de serviço no reino de Deus, seja por causa de uma incompleta compreensão da Palavra de Deus ou devido a um comprometimento frouxo com ela.
Ao comemorarmos o 40º aniversário da primeira edição com a publicação deste volume atualizado, é o momento adequado para os batistas do Sul dos EUA — e todos os outros cristãos — reconsiderarem as afirmações verdadeiras de Os batistas e a Bíblia e para renovarmos nossa compreensão da Escritura e nosso compromisso com ela como a Santa Palavra de Deus. Esse compromisso tem caracterizado o Southwestern Seminary desde nossa fundação, em 1908, e permanece até hoje no coração e na alma da instituição. Que assim seja até que Jesus Cristo volte. Adam W. Greenway, presidente do The Southwestern Baptist Theological Seminary 28
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Prefácio original Nascido no Natal de 1944, Russ Bush se formou no Mississippi College em 1967. No ano seguinte, Cindy, sua noiva, se formou junto comigo e minha noiva, Margaret. Todos nós nos casamos no Southwestern Baptist Theological Seminary, no outono de 1968, quando Russ já havia completado um ano do programa de mestrado em divindade em seu currículo. Nós tínhamos alguma convivência familiar, mas começamos a ter uma proximidade maior no campus e promovemos discussões muito acaloradas sobre as tão persistentes questões da autoridade bíblica. Russ veio de uma família que frequentemente se envolvia em discussões teológicas e bíblicas. Seu pai ensinava a Bíblia na Primeira Igreja Batista em Columbia, Mississippi, e deixou uma carreira profissional como dentista para se tornar pastor, enquanto sua mãe era dona de uma livraria. Sua tia era uma notável professora de Bíblia na Igreja Batista em Dauphin Way, Mobile. Russ era bastante familiarizado com a “Controvérsia Elliott” do final dos anos 1950 e início dos anos 1960 (discutida posteriormente neste livro) e com as questões que esta colocava sobre a inspiração e a relação do método histórico-crítico com a autoridade bíblica e a total veracidade do texto canônico. Alguns assuntos inacabados da controvérsia pairavam sobre a atmosfera teológica do seminário (na verdade, de todos os 29
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seminários) e constituíam parte de nossas discussões ad hoc.1 Certas frases no artigo a respeito das Escrituras na Fé e Mensagem Batista de 1963 forneceram bastante material para o diálogo teológico. A Broadman Press iniciou, em 1969, a publicação do Comentário Broadman, o que era planejado desde 1962. Os artigos introdutórios de Clifton Allen ridicularizaram a teoria da inspiração verbal e sugeriram que a doutrina da inerrância não poderia ser verdadeira. O comentário sobre o Gênesis por G. Henton Davies, que claramente aplicou o princípio da não inerrância à sua discussão de narrativas históricas, elevou e intensificou nossas discussões, e tais questões tornaram-se altamente proeminentes nas interações de classe em praticamente todas as disciplinas. Naquele mesmo ano, Broadman publicou Why I preach that the Bible is literally true [Por que prego que a Bíblia é literalmente verdadeira], por W. A. Criswell, o que evocou várias respostas de cunho negativo e agressivo; uma contrarresposta de Criswell, Look up, brother! The buoyant assertion of what´s right with us [Olhe para cima, irmão! Uma jubilosa afirmação do que há de certo conosco], elevou a controvérsia a níveis exaustivos de energia mental. Adicione a isso o artigo de William E. Hull para o currículo batista intitulado “Shall we call the Bible infallible?” [Devemos chamar a Bíblia de infalível?] e o livro escrito por pastores e professores de seminário da CBS, Is the Bible a human book? Fifteen baptist leaders speak out [A Bíblia é um livro humano? Quinze líderes batistas argumentam]. Na Convenção Batista do Sul dos EUA, em 1970, Gwin Turner, um pastor da Califórnia, propôs a retirada do volume 1 do Comentário Bíblico Broadman para que fosse reescrito “com a devida consideração do ponto de vista conservador”. Sua moção passou com 5.394 contra 2.170 assinaturas. Na convenção 1
Termo em latim que significa, literalmente, “para isto” ou “para este fim”, mas que têm na filosofia um significado mais amplo, formulado com o único objetivo de legitimar ou defender uma teoria, e não em decorrência de uma compreensão objetiva e isenta da realidade (diz-se de argumento, proposição ou hipótese). (N. R.)
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de 1972, ele se posicionou a favor da retirada de todo o conjunto, da contratação de um novo editor e de que todo o comentário fosse reescrito por estudiosos que aceitavam a premissa de que o texto bíblico é constituído pela “verdade sem nenhum erro”. Esta proposta foi derrotada. Tais ações deram aos conservadores da convenção uma esperança curta de abordar essa questão, mas os frustraram com um senso ainda maior da profundidade da oposição. O progresso foi lento, e muitas vezes as manobras políticas interromperam as tentativas conservadoras de avançar num compromisso mais claro com a inerrância bíblica. Essas dinâmicas da convenção certamente promoveram um diálogo mais intenso nas aulas e em nossa pequena fraternidade de discussão teológica do Mississippi, muito mais do que debates sobre café, refrigerante de limão (substituto de Russ para o café) e rosquinhas. Russ sempre estava no topo da questão central em cada sessão e trazia material relevante de sua ampla leitura da literatura evangélica. Durante uma palestra em uma aula de teologia sistemática sobre a Bíblia, a qual gerou certa disputa educada e respeitosa, o professor me convidou (desafiou?) a dar uma aula inteira apresentando uma defesa do que eu acreditava sobre a inerrância bíblica. Tive dois dias para me preparar. Na época, eu morava em Alvarado, Texas, servindo na equipe da Primeira Igreja Batista, enquanto Russ e Cindy moravam em um dos apartamentos do conjunto habitacional do seminário. Dirigi até Fort Worth e Russ e eu discutimos que tipo de apresentação eu deveria fazer. Estabelecemos um resumo dos argumentos apresentados por William Hull em seu artigo e por Clifton Allen em seus artigos introdutórios ao Comentário Broadman como a avaliação do conflito. Isso forneceria o esboço e o raciocínio básico contra a inerrância, para, então, esperançosamente, enquanto aluno de mestrado em divindade do 3º ano (Russ estava em seu 1º ano no programa de doutorado), eu apresentar respostas convincentes à posição oposta. Trabalhamos até cerca de 31
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3h30 da manhã. O artigo de Hull abordou sua questão a partir de quatro áreas: bíblica, teológica, histórica e prática, e isso forneceu o princípio organizador para a minha palestra. Russ e eu trouxemos livros, revisitamos discussões anteriores, fizemos exegese bíblica, pensamos sobre as implicações teológicas da posição da não inerrância e demos toda a atenção que podíamos ao lado histórico da questão. A aula foi bem recebida pela classe e, apesar de ter sido uma experiência estressante, foi satisfatória para mim. Obviamente, contei com detalhes todo o ocorrido a Russ e revisamos o esboço com o objetivo de apresentar argumentos mais refinados futuramente. Durante esse tempo de preparação e nas conversas subsequentes, nos desafiamos com a possibilidade de uma futura ministração do tópico. Deparamo-nos constantemente com a afirmação de que os batistas não haviam feito (historicamente) da infalibilidade bíblica um ponto importante, porém estavam mais focados na liberdade de consciência, nos direitos de interpretação privada e na continuidade da experiência cristã (o legado de E. Y. Mullins). Como descobrir o que é uma posição histórica? Você precisa estudar documentos históricos, teólogos e controvérsias do passado e confissões históricas de fé — denominacionais, associativas e pessoais. Fizemos uma promessa séria um ao outro de que, caso a providência de Deus nos desse a oportunidade, tentaríamos produzir um estudo competente que traçasse a doutrina da inspiração e todas as suas doutrinas concomitantes na história batista, a fim de apresentar uma resposta definitiva à afirmação de que a inerrância não é uma doutrina batista. O principal trabalho de Russ em seu programa de doutorado era em filosofia, com especialização em Antigo Testamento. Ele estava no programa há um ano quando entrei, no outono de 1971, no departamento de História da Igreja. Tivemos pelo menos três seminários em comum, continuamos a trabalhar juntos em alguns projetos e a refinar nossa compreensão da inerrância. A disciplina “Filosofia e as Artes” nos permitiu fazer um projeto sobre Marshall 32
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McLuhan, bem como refletir sobre a importância de uma forma escrita de comunicação. Um seminário sobre o cristianismo patrístico deu-lhe a oportunidade de apresentar um artigo sobre o apologeta Atenágoras e sua visão das Escrituras como um elemento vital de sua apologia ao cristianismo, enquanto um seminário de exegese grega sobre 1Pedro forneceu a oportunidade de observar o compromisso de Pedro com a condição reveladora do Antigo Testamento e sua autoridade pessoal como apóstolo na recepção das verdades culminantes da revelação redentora. Após concluir seu trabalho de seminário, Russ foi contratado como instrutor de Antigo Testamento e também trabalhou como pastor de EBD na Primeira Igreja Batista em Dallas, para a classe da Escola Dominical Sra. Criswell.2 Quando concluí meu trabalho de seminário no ano seguinte, Margaret e eu nos mudamos para Shreveport, Louisiana, para servir na Igreja Batista em Broadmoor, onde Scott Tatum era pastor. O seminário modificou seu mais elevado grau de pesquisa de doutorado em teologia para o doutorado em filosofia. Como dois componentes obrigatórios desse programa não estavam na grade de teologia, aqueles que desejavam receber o doutorado em filosofia precisaram complementar seus estudos no doutorado em teologia com esses dois componentes extras. Russ completou o seu e foi o primeiro doutor em filosofia graduado do Southwestern Seminary, período em que eu decidi fazer o mesmo e fui o segundo do seminário. No outono de 1975, Russ foi contratado como professor assistente de filosofia, enquanto eu me deslocava de Shreveport para Fort Worth uma vez por semana para conduzir um seminário de ensino e pesquisa como um dos componentes extras. Em algumas ocasiões, pernoitava no apartamento onde Russ e Cindy moravam, e Russ e eu ficávamos
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Esposa do Pr. W.A. Criswell, que serviu como pastor na Primeira Igreja Batista de Dallas de 1944 a 1993, período que a igreja passou de 7.800 para 26.000 membros. (N. R.)
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acordados até tarde conversando sobre teologia. Naquele outono, um dos professores de História da Igreja, David D’Amico, renunciou para assumir um cargo em uma igreja em Houston, enquanto Russ ficou sabendo que o reitor estava pensando em me pedir para vir, o que fez ele me ligar e me encorajar a aceitar o cargo. Ele disse: “Cindy e eu não vamos deixar você e Margaret morrerem de fome”. Devido à confluência de vários arranjos providenciais, fui convidado a ocupar o lugar na disciplina de História da Igreja desocupado por D’Amico. Margaret e eu nos mudamos para Fort Worth e comecei a lecionar em janeiro de 1976. Nós não morremos de fome. Na época, faltavam algumas semanas para concluir minha dissertação, de modo que esse trabalho, além da preparação para duas aulas que nunca havia ministrado, reduziu o nosso convívio social ao mínimo. Após a formatura em junho de 1976, Russ e Cindy nos convidaram para uma refeição comemorativa (assim como várias outras vezes), oportunidade em que Russ e eu logo começamos a conversar sobre o livro que havíamos prometido escrever. Ele me disse que tal iniciativa poderia ser controversa e que precisaríamos calcular o custo antecipadamente, ou ficaríamos desmotivados. Decidimos começar imediatamente. O esboço do livro acabou emergindo das demandas da pesquisa. Dividimos a responsabilidade principal pelos capítulos de acordo com o interesse e a formação acadêmica, mas cada capítulo foi realmente um esforço conjunto. A leitura e a releitura, a edição e a reedição por nós dois ocorreram depois que o primeiro rascunho de cada capítulo foi produzido. No decorrer da escrita, tivemos apenas um momento de tensão, quando eu insisti em manter minhas palavras sobre algum assunto (nem me recordo o que era) que Russ achava que deveria ser mudado. Ele comentou: “Será um milagre se ainda formos amigos depois de terminarmos isso”. Tão raro era qualquer desacordo ou tensão que aquele incidente parecia ameaçador. Assim, caminhamos até a sala dos professores para fazer um lanche. 34
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A Moody Press concordou em publicar o livro. Já a Broadman Press manifestou interesse, mas desejava que fosse um estilo mais voltado para material didático, de forma a minimizar as expressões de nossa teologia pessoal e eliminar a intenção polêmica de parte do conteúdo. Não podíamos concordar com isso, razão pela qual nunca submetemos o manuscrito à Broadman. Dessa forma, o manuscrito estava nas mãos da Moody Press na primavera de 1979. Ironicamente, a Broadman e Holman (B&H) publicou a segunda edição vinte anos depois. A edição da Moody estava na gráfica antes que tivéssemos qualquer indício de proposta dos conservadores da CBS em se engajar num esforço para reivindicar das agências e instituições da convenção um compromisso inequívoco com a inerrância. Na primavera de 1980, um representante da Moody Press apresentou uma edição especialmente preparada para Russ e para mim na capela do Southwestern Seminary. Nessa primeira edição, a livraria do campus fez uma promoção com uma mesa de autógrafos montada. No outono seguinte (1981), Russ viajou em licença sabática para a Inglaterra. Durante aquele ano, aceitei um convite para ensinar no Mid-America Baptist Theological Seminary, em Memphis. Durante tal período, mantivemos contato por meio de participações na Convenção Batista do Sul dos EUA, encontros em conferências e telefonemas sobre eventos na convenção a respeito da questão da inerrância, à medida que a controvérsia se tornava mais intensa e mais segregadora. Quando Russ foi para o Southwestern Seminary como vice-presidente de assuntos acadêmicos e reitor do corpo docente (1988), ele se tornou um grande catalisador para o gradual renascimento teológico no seminário e sua posterior transformação acerca da inerrância. No ano anterior à sua ida para o Southwestern Seminary, Russ pregou na Conferência Ridgecrest sobre inerrância bíblica, de 4 a 7 de maio de 1987. Seu tópico se concentrou em Benjamin B. Warfield e sua defesa da doutrina. Ele foi capaz de refutar a afirmação de que 35
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a visão de inerrância de Princeton era uma inovação injustificada pela história da igreja. Instruído por seu trabalho em Os batistas e a Bíblia e por anos de atenção pessoal a esta questão, Russ afirmou, a respeito daquela tese de Ernest Sandeen: A tese de Sandeen é simplesmente falsa. Os teólogos de Princeton não deram origem à doutrina da inerrância, eles a perpetuaram.
Apenas alguns parágrafos depois, Russ trouxe a discussão para o nosso contexto mais próximo: Muito mais relevante para os batistas do Sul dos EUA tem sido a influência de homens como Basil Manly Jr., B. H. Carroll, J. R. Graves, Charles Haddon Spurgeon, John A. Broadus, A. T. Robertson, R. G Lee, W. A. Criswell, Herschel Hobbs, e de evangelistas como Billy Graham, Eddie Martin, Angel Martinez e vários outros que têm ensinado firmemente aos líderes e membros a confiar na Bíblia como a própria Palavra de Deus.
Então, em seu parágrafo de conclusão, Russ fez a seguinte aplicação, altamente pertinente, para a vida da convenção e a saúde espiritual dos membros da igreja: Os líderes batistas no século 19 eram geralmente fortes defensores da inspiração plena e da inerrância absoluta. Os batistas modernos, em minha opinião, estão divididos entre aqueles que mantêm raízes históricas ortodoxas em relação à autoridade bíblica e aqueles que aceitaram modelos filosóficos modernos e adotaram métodos críticos modernistas de interpretação bíblica. A maioria dos crentes permanecem como inerrantistas comuns (em oposição aos acadêmicos). As disputas teológicas quase sempre são mal interpretadas pelos “fiéis nos bancos”, no entanto os batistas nos bancos esperam que seus líderes afirmem a inerrância bíblica em seu verdadeiro sentido, porque intuitivamente reconhecem a gravidade da perda de uma Palavra segura da parte de Deus.
O compromisso de Russ com a autoridade bíblica e sua inerrância não era apenas uma questão acadêmica isolada, mas permeava toda 36
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a sua perspectiva acadêmica e doutrinária. Em seu livro A Handbook for Christian Philosophy [Um manual de filosofia cristã], ele incluiu um apêndice intitulado “A autoridade das Sagradas Escrituras”. Depois de demonstrar como o ceticismo filosófico se infiltrou nas visões modernas da autoridade bíblica e do método teológico, Russ afirmou: “Essa disposição de defender que exista algum erro bíblico reflete a mudança filosófica em direção ao ceticismo religioso moderno”. Ele continuou: “A epistemologia relativista nunca reconhecerá a autoridade absoluta de Deus. Podem duas pessoas andar juntas se lhes falta um fundamento comum?”. Então, em uma defesa final acerca da necessidade e evidência de uma autoridade absoluta para o conhecimento de Deus, Russ declarou, em seu estilo confiante e elaborado, um compromisso resoluto com a Bíblia como um pressuposto de pensamento necessário para a verdadeira fé cristã: Se pode ser demonstrado (e realmente é possível) que Jesus falou e ensinou como se todas as partes das Escrituras fossem verdadeiras; e se pode ser demonstrado (e realmente é possível) que os apóstolos, em todos os lugares, assumem a plena autenticidade e autoridade das Escrituras; e se pode ser demonstrado (e realmente é possível) que o Novo Testamento carrega as mesmas marcas de autenticidade que o Antigo, então parece que a verdadeira autoridade bíblica não é uma questão a ser tomada levianamente, nem deve ser discutida superficialmente, tampouco negada por alguém que chama Cristo de Senhor e Mestre. (A Handbook for Christian Philosophy)
Em 23 de janeiro de 2008, a editora Baptist Press iniciou um artigo sobre a morte de Russ com as seguintes palavras: “L. Russ Bush III, famoso filósofo, apologeta, autor, professor, pastor e amigo dos batistas do Sul dos EUA, morreu em 22 de janeiro após uma batalha de dois anos contra o câncer. Ele tinha 63 anos”. Perto do final do artigo, o comunicado observou que “a atitude de Bush em relação à sua batalha contra o câncer inspirou a muitos”. Ainda em vida, ao responder às notícias depois de alguma reflexão cuidadosa 37
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sobre suas implicações, Russ comentou: “O teísmo aberto não é verdadeiro; Deus sabe disso. Meu dever é aprender o que Deus quer me ensinar com isso o mais rápido possível. Deus já sabia desse câncer. Deus obviamente me escolheu para suportar isso. É uma surpresa para mim. Não é uma surpresa para Deus”. Na verdade, Deus não ficou surpreso com o câncer que tirou a vida do meu amigo. Por mais trágico que tenha sido perder Russ em uma idade relativamente jovem, seu ministério acadêmico vive neste livro. Por sua visão, quero expressar minha gratidão ao Dr. Adam W. Greenway, presidente do Southwestern Seminary, ao propor uma nova edição do livro então publicado pela Seminary Hill Press (SHP). Também sou grato à editora Broadman & Holman pela disposição de permitir que a SHP publique esta edição especial do 40º aniversário e à equipe da SHP por sua administração do projeto. Além disso, quero agradecer à Cindy Bush por consentir de bom grado com esta republicação. Seu desejo sincero sempre foi que o compromisso de Russ com a verdade tivesse um impacto contínuo para a glória de Deus. O texto principal do livro foi extraído da edição de 1999, com pequenas alterações para refletir o estilo da SHP. O novo material desta edição inclui: um generoso e caloroso prefácio do Dr. Greenway; este prefácio que lhes escrevo; uma homenagem a Russ escrita por John D. Wilsey, meu colega do Southwestern Seminary e um dos dois últimos alunos de doutorado que estudou com o Dr. Bush; e um ensaio do Dr. Gregory A. Wills, meu ex-colega do Southwestern Seminary, que gentilmente oferece uma avaliação de meu trabalho. Sinto-me compelido a observar que questionei a necessidade deste ensaio, preocupado em sobrecarregar a publicação com material adicional a meu respeito, mas cedi ao ponto de vista da equipe do SHP de que o ensaio era uma contribuição valiosa. Por fim, criei uma seção abordando a edição de 2000 da Fé e Mensagem Batista, adicionada ao capítulo 17 após as discussões das versões de 1925 e 1963 da confissão. 38
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Quarenta anos depois que este livro foi publicado pela primeira vez, é uma grande bênção para mim — e um tributo contínuo a Russ — que ainda existem pessoas que considerem esta obra útil. Não há dúvida de que lutar pela total veracidade, inerrância e autoridade da Palavra de Deus é uma tarefa sem fim. Oro para que esta nova edição seja uma ferramenta útil enquanto uma nova geração de batistas do Sul dos EUA e outros evangélicos continuam esta tarefa para a edificação da Igreja de Cristo, a extensão de seu Reino e a glória de Deus. 3
Tom J. Nettles
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Nos Estados Unidos, a primeira edição foi em 1980. Esta edição traduzida para o português é a comemorativa de 40 anos, ou seja, publicada originalmente nos EUA em 2020. (N. R.)
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Uma homenagem ao meu mentor: Dr. L. Russ Bush III — John D. Wilsey
Conheci L. Russ Bush III durante o outono de meu 2º ano no Southwestern Baptist Theological Seminary. Era agosto de 1995, e eu acabara de concluir dois períodos intensivos de verão em hebraico básico. Eu tinha ouvido histórias do curso “Introdução à filosofia cristã” do Dr. Bush — sobre como ele era direto e como o curso seria desafiador. Lembro-me de ouvir um aluno, no caminho para o primeiro dia de aula, dizendo: “O velho Dr. Bush vai acabar com a gente!”. Cheguei à primeira aula cerca de cinco minutos mais cedo. Nós nos encontrávamos em uma sala de aula com estilo de anfiteatro, embaixo da Capela Binkley. Sentei-me, peguei meu caderno, alguns livros, e o Dr. Bush entrou na sala. Imediatamente, um silêncio sobreveio ao ambiente. Ele carregava um enorme fichário de três argolas, caminhou até o púlpito e começou a revisar o currículo e os requisitos do curso. Sem gracejos. Sem enrolação. Sem papéis embaralhados. Nenhum pedido de oração (o que era uma frequente 41
Uma homenagem ao meu mentor: Dr. L. Russ Bush III
perda de tempo em muitas disciplinas de seminário que cursei). O que Fluellen disse a respeito do general romano Pompeu no livro de Shakespeare Henrique V certamente era verdade para a aula do Dr. Bush: “Não há tagarelice nem falatório no acampamento de Pompeu”. O Dr. Bush era totalmente profissional. Achei ótimo. Eu me formei em História na Furman University apenas alguns anos antes de estudar com Dr. Bush, e seu estilo sério inspirou-me a ser sério também. Ele entrava em todas as aulas às 18h30 em ponto, palestrava por exatamente uma hora e meia, até às 20h, e então nos dava um intervalo de dez minutos. Pontualmente às 20h10, começava a lecionar outra vez, indo até 21h30, quando terminava a aula — nem um minuto antes, nem um minuto depois. De início, fiquei intimidado com a filosofia, pois nunca havia feito um curso na área. Eu não sabia exatamente o que significava pensar filosoficamente, mas o Dr. Bush nos ensinou que todos são filósofos porque todos usam a razão e a lógica de maneiras comuns a cada dia. Ele tinha uma bela maneira de ensinar lógica e pensamento crítico, percorrendo a história da filosofia ocidental e demonstrando como os grandes pensadores do passado trabalharam por meio da relação entre fé e razão. Além disso, ele mesclou a apologética cristã em sua abordagem da história intelectual ocidental, de modo que nenhuma aula passava sem ser repleta de referências ao desenvolvimento da ciência e à dívida que a ciência moderna tem com o cristianismo. Seu curso foi mesmo muito desafiador. Todas as advertências que eu ouvira sobre a “Introdução à filosofia cristã” do Dr. Bush eram verdadeiras. Posso afirmar honestamente que o curso de filosofia cristã do Dr. Bush foi o curso que mais exigiu de mim intelectualmente até aquele momento de minha formação acadêmica; por outro lado, foi rico, gratificante e inspirador. Ao concluí-lo, meu desejo era ser um pensador e um professor como o Dr. Bush. Enquanto o Dr. Bush ainda lecionava no seminário, tive outra disciplina com ele durante meu mestrado em teologia: um curso 42
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de verão sobre autoridade religiosa. Esse era um tópico no qual eu havia pensado muito pouco, contudo o Dr. Bush trouxe uma abordagem histórica sobre como a autoridade era vista na tradição ocidental. Era fascinante. Jamais esquecerei suas aulas sobre o desenvolvimento do magistério católico, nas quais ele abordou a história do magistério, uma análise teológica e um resumo contemporâneo. Ele foi obviamente crítico, mas suas críticas eram todas niveladas de maneira justa, bíblica, intelectual e respeitosa. Eu nunca havia entendido o catolicismo antes disso; o Dr. Bush abriu meu entendimento para essa tradição como ninguém fez antes ou depois. Também me recordo de que ele nos ensinou a diferença entre iluminação e inspiração das Escrituras. Quando frequentei as aulas sobre autoridade religiosa do Dr. Bush, era convertido há seis anos apenas, por isso acreditava na inspiração das Escrituras e era cético em relação às pessoas que diziam que Deus lhes dera uma revelação especial. Mas eu não tinha ideia do porquê — até o Dr. Bush explicar, com base nas Escrituras, na tradição teológica e na história, o que tudo aquilo significava. Nossa dissertação para aquela disciplina em particular era escrever uma análise de cada artigo de afirmação e negação da Declaração de Chicago sobre inerrância bíblica e hermenêutica. Foi uma tarefa árdua, mas, ao mesmo tempo, maravilhosamente gratificante. O Dr. Bush nos forçou a repassar essas declarações, linha por linha, pensando profunda e biblicamente sobre o que cada artigo significava e como eles eram aplicados. Eu era um cristão conservador que cria na Bíblia desde minha conversão, porém, após essa experiência, passei a saber o porquê. Poucos meses após o término daquele curso sobre autoridade religiosa, um professor de escola dominical da Igreja Batista em Bay Leaf me pediu para substituí-lo num domingo em que estaria viajando. Fiquei feliz em ensinar — não tive muitas oportunidades de lecionar para adultos na escola dominical naquela época e estava particularmente animado para ministrar aquela aula porque meus 43
Uma homenagem ao meu mentor: Dr. L. Russ Bush III
sogros estariam lá. Porém, havia um pequeno problema: o Dr. Bush também era membro dessa classe! Eu havia acabado de concluir a disciplina do Dr. Bush sobre autoridade religiosa e estava tão inspirado pelo que aprendera que desejava compartilhar com a classe. Quando cheguei, fiquei aliviado ao ver que o Dr. e a Sra. Bush não estavam lá! Eu havia conseguido desviar de uma bala! Porém, logo que comecei, entraram justamente os inimitáveis e veneráveis Dr. L. Russ Bush III e Cindy! Minha esposa contou-me que meu rosto ficou absolutamente branco. Terminei minha aula e estava cumprimentando as pessoas, quando vi o Dr. Bush conversando com minha sogra. Ela me disse mais tarde que ele simplesmente afirmou: “Alguns alunos entendem melhor do que outros. John entende”. Na semana seguinte, fiquei nas nuvens! Jamais esquecerei seu comentário de incentivo. Formei-me em dezembro de 1998, e, logo depois, eu me mudei com minha esposa, Mandy, para Charlottesville, Virginia, onde aceitei um emprego como professor de História e Bíblia. Em 1999, conheci Josh Bush — ambos amavam fazer trilha, e nos tornamos amigos rapidamente logo depois que nos mudamos para a Virginia. Josh foi para o Texas a fim de estudar engenharia química e, por vários anos, nós mantivemos uma tradição de nos reunir para fazer trilhas durante o recesso de fim de ano. Em 2003, candidatei-me ao programa de doutorado em filosofia no Southwestearn Seminary. Quando pensei em obter um doutorado, na verdade, só tinha em mente um único acadêmico com quem gostaria de estudar: Dr. Bush. Ele combinou as disciplinas de história, filosofia e apologética de forma tremendamente elegante em seu ensino, e eu queria fazer o mesmo. Depois de uma conversa por telefone com ele naquele outono, enquanto me preparava para a seleção do programa, fiquei radiante quando ele concordou em ser meu orientador. Durante o outono de 2004, na primeira semana de aulas, eu estava participando do seminário do Dr. Bush sobre fé e ciência. 44
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Ele me chamou de lado após a aula e perguntou-me se eu poderia ser seu avaliador. Eu simplesmente não acreditava que ele me daria o privilégio de atribuir notas para o trabalho dele. Além disso, ele prometeu que me daria oportunidades de ensinar. Foi mais um daqueles momentos inesquecíveis de minha vida, em que mal conseguia expressar minha gratidão e entusiasmo. Na verdade, ele até se desculpou comigo porque o salário dos alunos era muito baixo, mas eu teria feito de graça com prazer. Servi como avaliador do Dr. Bush nos dois anos subsequentes, e ele foi fiel à sua promessa, pois várias vezes ministrei palestras em suas aulas e gostei muito das experiências. Mandy e eu convidamos os Bushes para jantar em nossa casa numa noite de outono durante meu 2º ano de doutorado. Naquela época, eu estava participando de um seminário sobre o pensamento ocidental ministrado pelo Dr. Bush. Minha esposa preparou manicotti naquela noite, e eu tremia mais que vara verde. A campainha tocou e lá estava o Dr. Bush, de paletó e gravata, e Cindy. Eles conversaram de forma muito cortês antes, durante e depois do jantar. A certa altura, enquanto relaxávamos em nossa sala de estar após o jantar, o Dr. Bush colocou a ponta do sapato em nossa mesa de centro enquanto falava. Ele estava com as pernas cruzadas, e a mesa era um ponto de apoio conveniente para a ponta do pé enquanto ele conversava. Cindy deu um tapa na perna dele e o repreendeu por “colocar os pés na mesa!”. Eu não conseguia acreditar no que via, observando Cindy dar um tapa na perna do Dr. Bush. Ele não perdeu o ritmo e continuou falando, mas era perceptível notar que ele evitou rigorosamente tocar naquela mesa com o pé de novo. Esses seminários durante meu doutorado foram extremamente desafiadores. Tive um seminário de hermenêutica com Andreas Köstenberger e estava enfrentando dificuldades para encontrar um tópico apropriado para o meu artigo na ocasião. Em busca de ajuda, procurei o Dr. Bush e ele sugeriu que eu trabalhasse com a fé como um pressuposto na interpretação das Escrituras. Ele 45
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também me emprestou vários livros de sua biblioteca e despediu-me com uma orientação clara como nunca havia feito antes. Para seu seminário de fé e ciência, o Dr. Bush designou-me para escrever um artigo sobre o cosmologista Paul Davies e sua filosofia da religião e da ciência. Eu nunca tinha ouvido falar de Paul Davies, e o Dr. Bush recomendou que eu lhe enviasse um e-mail com perguntas que surgissem em minha mente enquanto lia os livros dele. Segui seu conselho, enviando um e-mail para Davies (que lecionava na Austrália), e, desde então, nunca tive vergonha de entrar em contato com autores e estudiosos para fazer perguntas. No seminário de pensamento ocidental do Dr. Bush, ele me designou para escrever um artigo sobre a influência da Reforma na arte e na música, artigo publicado na revista técnica do Seminário, e a minha primeira publicação. Alguns anos depois, adaptei-o para a obra editada de Ray Van Neste, intitulada Reformation 500. How the Greatest Revival Since Pentecost Continues to Shape the World Today [Reforma 500. Como o maior avivamento desde o Pentecostes continua a moldar o mundo atualmente]. Devo agradecer ao Dr. Bush mais do que a qualquer outra pessoa por me ensinar a escrever intelectualmente sobre história. Enquanto eu participava de seminários, é claro que o Dr. Bush já era reitor do corpo docente do Southeastern Seminary há muitos anos. Na verdade, na época em que eu corrigia os trabalhos para ele, já haviam transcorrido dez anos desde que fora aluno em sua disciplina de Filosofia Cristã. Lembro-me de ter visto algumas avaliações negativas que os alunos às vezes faziam depois de assistir às aulas. Não eram muitas, mas geralmente as avaliações negativas são as de que você mais se lembra. Esses alunos não gostavam do fato de as aulas do Dr. Bush serem tão densas, mas também reclamavam da quantidade de leitura e de que ele não permitia laptops nas aulas (as batidas no teclado eram uma distração). Ele também não permitia que suas aulas fossem gravadas (“Todo mundo ouve uma vez”, costumava dizer). Eu ficava profundamente ressentido 46
Os BATISTAS e a BÍBLIA
com esses comentários negativos, porque os alunos que criticavam o Dr. Bush não tinham ideia de que estavam sentados diante de um verdadeiro mestre e um grande homem de Deus. Sua piedade era evidente para todos corriqueiramente, contudo sua maior exibição realmente era quando pregava. O Dr. Bush pregou um sermão em 25 de agosto de 2004, o qual ainda considero o meu sermão favorito. Ele pregou no primeiro dia após o início das aulas daquele ano letivo (meu 1º ano no doutorado), e foi o primeiro culto tendo o Dr. Danny Akin como presidente do Seminário. O Dr. Bush subiu ao púlpito, agradeceu à administração, aos professores e aos alunos pela oportunidade de pregar e, em seguida, ofereceu ao corpo docente um aviso: “Tenham muito cuidado como tratam aquele garotinho magricela no fundo da sala, que não parece estar prestando atenção. Ele pode se tornar seu presidente um dia!”. A congregação caiu na gargalhada, porque todos nós sabíamos que o Dr. Akin fora aluno do Dr. Bush no Seminário muitos anos antes. “E espero que para vocês, se for esse o caso, seja uma experiência tão feliz quanto foi para mim ter o Dr. Akin por perto”, acrescentou gentilmente enquanto as risadas cessavam. O Dr. Bush tinha um talento especial para combinar humor com sentimento sincero de uma forma que poderia conquistar um urso furioso. Ao pregar aquele sermão, o Dr. Bush começou confessando que o que afirmaria em seguida seria controverso para alguns. Ele queria acalmar as mentes, porque estava prestes a tocar em um assunto delicado, por assim dizer. Ele começou fazendo a pergunta: “Por que todos nós pressupomos que Deus Pai abandonou Deus Filho enquanto ele sofreu por nossos pecados na cruz?”. Ele leu Mateus 27 na íntegra, Marcos 15 e seções de Lucas 23 e João 19. Em seguida, levou-nos de volta ao Salmo 22, lendo-o inteiramente, bem como os salmos 23 e 31. Seu objetivo era demonstrar que o Pai não havia abandonado o Filho na cruz, e a maneira como ele apresentou esse argumento com base nas Escrituras foi tremendamente poderosa! Ele conectou as Escrituras do Antigo e do Novo 47
Uma homenagem ao meu mentor: Dr. L. Russ Bush III
Testamento sem esforço, mostrando a unidade e a beleza da Bíblia à medida que revela progressivamente o plano redentor de Deus. Citando Lucas 23.46, quando Jesus citou o Salmo 31.5, o Dr. Bush ponderou: “Quando Jesus chegou àquele momento de morte, ele não estava em pânico. Ele estava em submissão”. A parte mais bonita do sermão, no entanto, foi reservada para o final. Após expor seus argumentos, ele refletiu um pouco sobre um pensamento que tivera. Falou de quando Cristo voltaria e reinaria na Terra por mil anos, e então perguntou: “O que ele vai fazer durante mil anos?”. Boa pergunta. O Dr. Bush sempre fez perguntas penetrantes, pungentes e ponderadas. “Eu me pergunto: eu não sei, mas só me pergunto — durante mil anos, talvez ele pensasse, ‘eu gostaria de fazer uma turnê mundial’.” Ele observou que, quando Jesus esteve aqui na terra, nunca viajou para fora da Palestina, exceto para o Egito quando era pequeno. Talvez ele desejasse visitar Antioquia, onde João Crisóstomo havia pregado; ou talvez até Alexandria, onde Orígenes escreveu seu ensaio contra Celsus e defendeu a fé contra a heresia; ou mesmo Istambul, perto de Niceia, onde Atanásio se posicionou contra Ário e, como ele disse, contra todo o mundo que estava correndo para a falsidade. Agostinho se converteu em Milão, e Jesus talvez desejasse visitar aquele lugar, ou mesmo a Argélia, local onde escreveu Confissões e Cidade de Deus, “e assim estabeleceu o nosso entendimento da teologia”. Ou quem sabe Jesus quisesse ir para Wittenberg, ou para a Inglaterra, ou Calcutá, ou Mianmar para ver onde alguns dos grandes pregadores, teólogos e missionários fizeram seu trabalho para a glória de Deus. Em seguida, o Dr. Bush perguntou: “Se ele estivesse em sua turnê mundial, você acha que Wake Forest, na Carolina do Norte, estaria em sua lista? Acredita que ele desejaria entrar nesta capela e ver onde, ao longo dos anos, centenas de pessoas se ajoelharam neste altar e se dedicaram a missões mundiais?”. Obedecendo à Grande Comissão, o Dr. Bush nos ensinou que nós, os crentes de hoje, ainda estamos cumprindo a expiação que Cristo 48
Os BATISTAS e a BÍBLIA
fez na cruz quando o proclamamos crucificado, morto, sepultado e ressuscitado. O Dr. Bush foi magistral em mostrar a profunda conexão entre os santos que morreram e os santos que estão vivos hoje. Aqueles que antes lutaram, sofreram e morreram já foram como nós, mas agora eles contemplam a face de Cristo. Lutamos, sofremos e morremos hoje, porém um dia seremos como eles na presença do Salvador. Aprendemos humildade ao lembrarmos as palavras do moto medieval memento mori — “Como você é agora, eu já fui. Como estou agora, um dia você será”. Nós também aprendemos que não somos os únicos cristãos no tempo e no espaço — temos comunhão espiritual em Cristo com gerações de santos que nos precederam, e passaremos a fé e tradição cristã para os que vierem depois de nós, aqueles que ainda estão por nascer. O Dr. Bush está diante da face de Cristo agora mesmo. Um dia estaremos com ele, louvando ao Senhor e vendo-o face a face. Sentimos muita falta do Dr. Bush, mas ele nos ensinou a ter confiança no poder e no amor do Salvador, que nos comprou na cruz e foi as primícias de todos os que dormem. Costuma-se dizer sobre a história do ressurgimento conservador no Southeastern Seminary que as coisas começaram a mudar de fato quando o Dr. Paige Patterson assumiu a presidência em 1992. Por certo não diminuirei absolutamente nada do que o Dr. Patterson tenha feito para colocar os batistas do Sul dos EUA de volta no caminho da ortodoxia teológica, porém percebi que é raro o Dr. Bush receber qualquer crédito por ter acertado o rumo de entendimento teológico no Southeastern Seminary. Ele ingressou na instituição em 1989 com Lewis Drummond, quando a gestão de Randall Lolley havia terminado. O Dr. Bush chegou para servir como reitor de um corpo docente decididamente moderado e liberal, e o fez como um conservador. O que o Dr. Bush fez de 1989 a 1992 foi preparar o terreno para a presidência de Patterson. O Dr. Bush fez o árduo trabalho de defender a verdade em meio a um corpo docente hostil 49
Uma homenagem ao meu mentor: Dr. L. Russ Bush III
que desejava que ele fosse embora. E ele o fez sozinho. Por isso, é o Dr. Bush quem merece grande parte do crédito na história do Southeastern Seminary — pela graça de Deus — em proteger aquela faculdade do abismo da heterodoxia e da heresia. Bill Youngmark e eu fomos os últimos alunos de doutorado do Dr. Bush, e nos formamos juntos na primavera de 2010. Sou grato ao Senhor pelos anos que passei com o Dr. Bush como seu aluno, e sou especialmente grato pelo privilégio de trabalhar tão próximo a ele e por ter um amigo em Josh. Compartilhamos muitas risadas e muitas lembranças felizes do Dr. Bush juntos. Agora que sou professor do Southern Baptist Theological Seminary e tenho o privilégio de orientar meus próprios alunos nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, lembro que estou propagando uma herança que me foi transmitida pela fidelidade do Dr. Bush. Oro para que o Senhor me encontre tão fiel quanto ele era. John D. Wilsey é professor associado de história da igreja no Southern Baptist Theological Seminary
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Os BATISTAS e a BÍBLIA
Tom J. Nettles: Uma homenagem — Gregory A. Wills
Tom J. Nettles é um dos maiores estudiosos que os batistas já produziram. Seu ensino o tornou querido dos milhares de alunos que se beneficiaram de sua visão, convicção e autenticidade em sala de aula. Suas dezenas de livros e artigos publicados explicaram cuidadosamente e avançaram de forma cativante as convicções evangélicas ortodoxas. Nettles nasceu em Brandon, Mississippi, em 1946. Ele se formou em 1968 no Mississippi College, onde graduou-se em espanhol e cursou especializações em música, inglês e educação. Na sequência, estudou no Southwestern Baptist Theological Seminary, onde obteve o mestrado em Divindade em 1971 e o doutorado em 1976. Ele ensinou História da Igreja e Teologia Histórica no corpo docente de quatro seminários: Southwestern Seminary (19761982), Mid-America Baptist Theological Seminary (1982-1988), Trinity Evangelical Divinity School (1989-1997) e The Southern Baptist Theological Seminary (1997-2014). Após a aposentadoria, ele continuou a pesquisar e escrever sobre a história batista. 51
Tom J. Nettles: Uma homenagem
Nettles impressionou o corpo docente do Southwestern Seminary, o que fez com que eles o convidassem para ingressar na instituição assim que concluiu sua tese de doutorado em 1976. O seminário era conhecido por seu excelente corpo docente de História da Igreja, e Nettles fortaleceria sua reputação. Ele era um instrutor talentoso que os alunos reverenciavam, um pesquisador diligente e um escritor perspicaz, cujos artigos vieram a ser publicados em periódicos históricos. Em parte, Nettles e seu colega Russ Bush (que ingressou no corpo docente do seminário em 1975) decidiram escrever Os batistas e a Bíblia porque aquele era um momento crítico para as igrejas norte-americanas. Durante a década de 1970, uma batalha pela Bíblia estava dividindo o evangelicalismo. Os seminários evangélicos enfrentavam ameaças renovadas à doutrina da inspiração das Escrituras. O Fuller Theological Seminary, identificado intimamente com o evangelicalismo pós-Segunda Guerra Mundial, rompeu o compromisso com a inerrância em 1972, quando revisou sua confissão de fé. Outros seminários e faculdades evangélicos enfrentavam desafios ao seu compromisso tradicional com a inerrância. Harold Lindsell, editor da Christianity Today e um dos professores fundadores do Fuller Theological Seminary, publicou em 1976 The Battle for the Bible [A Batalha pela Bíblia], expondo quão amplamente a perda de crença na inerrância da Bíblia se espalhou em seminários e faculdades evangélicas. Em 1979, ele publicou uma continuação: The Bible in the Balance [A Bíblia na balança]. Os líderes evangélicos, incluindo alguns batistas do Sul dos EUA, responderam produzindo a Declaração de Chicago sobre a Inerrância Bíblica em 1978, o que foi um esforço para fortalecer o compromisso com a integridade total da doutrina da inspiração. Nettles e Bush escreveram Os batistas e a Bíblia principalmente porque aquele também era um momento crítico para os batistas do Sul dos EUA. Em 1979, após grandes e pequenas controvérsias sobre a ortodoxia de vários professores de seminário nas duas décadas 52
Os BATISTAS e a BÍBLIA
anteriores, os conservadores da Convenção Batista do Sul dos EUA iniciaram um esforço para garantir que todos os professores nos seis seminários da denominação e todos os funcionários empregados em uma entidade batista afirmassem a crença na inerrância bíblica. A maioria dos líderes denominacionais se opôs a esse esforço, e muitos deles criticaram publicamente a decisão. Eles afirmavam que a doutrina da inerrância não fazia parte da fé tradicional dos batistas do Sul dos EUA. Nettles e Bush se envolveram em um exame completo e extenso da história batista e demonstraram que os batistas de fato sempre defenderam que a Bíblia é inerrante. A inerrância é uma consequência natural e necessária da fé de que Deus inspirou a Bíblia da maneira que a própria Escritura demonstra. A inerrância era a visão consensual entre os batistas até o final do século 19 e início do século 20, quando alguns estudiosos da denominação passaram a aceitar conclusões da teoria da evolução e do método histórico-crítico de interpretação da Bíblia. Nettles estava convencido de que a maioria dos batistas do Sul dos EUA tinha a visão tradicional dos batistas e que o livro poderia encorajá-los e fortalecê-los em sua convicção. No entanto, seu trabalho em Os batistas e a Bíblia o impediu de ganhar a total confiança de muitos de seus colegas de seminário. Ele estava totalmente convencido de que a Bíblia fora inspirada por Deus, que era a própria Palavra de Deus e que, portanto, era inerrante e infalível. Essa convicção o alinhava com o movimento conservador entre os batistas do Sul dos EUA, o qual defendia a exigência da fé na inerrância bíblica como condição de admissão para todo e qualquer docente no seminário. Quando ele e Bush publicaram Os batistas e a Bíblia, o livro foi considerado por alguns de seus colegas do corpo docente como um ato não acadêmico. Seus pares de História da Igreja lhe pediram para assinar um documento de protesto contra o movimento conservador, mas ele se recusou. Nettles aceitou um cargo no Mid-America Seminary em 1982, dois anos após o lançamento do livro. 53
Tom J. Nettles: Uma homenagem
A cuidadosa erudição de Os batistas e a Bíblia desempenhou um papel crítico no sucesso do movimento, de forma que contribuiu para estabelecer a crença na inerrância da Bíblia como um requisito de admissão para todos os professores de seminário. Ele desempenhou um papel crítico em impedir que a Convenção Batista do Sul dos EUA seguisse o curso do protestantismo norte-americano e sofresse as mesmas consequências. Entre seus muitos livros publicados após Os batistas e a Bíblia, Nettles publicou, em 1986, uma história da teologia reformada entre os batistas, livro intitulado Os batistas e as doutrinas da graça (Pro Nobis). Entre 2005 e 2007, ele publicou uma impressionante história do movimento batista em três volumes: The Baptists [Os batistas] e, em 2013, ainda publicou duas importantes e completas biografias: James Petigru Boyce: A Southern Baptist Statesmen [James Petigru Boyce: um estadista batista do Sul] em 2009, e Living by the Revealed Truth: The life and pastoral theology of Charles H. Spurgeon [Vivendo pela verdade revelada: a vida e a teologia pastoral de Charles Haddon Spurgeon]. Ao longo de sua carreira, Nettles foi um exemplo de piedade para seus alunos e colegas. Eles testemunharam o amor que ele tinha pela esposa, Margaret Roebuck Nettles, com quem se casou em 1968, e por seus três filhos e seis netos. Ainda contemplaram seu amor pela música em geral e pelos hinos de adoração em particular. Ele frequentemente liderava sua classe cantando um hino e ilustrava um argumento cantando Ya Got Trouble na íntegra (Nettles ganhou o prêmio de melhor ator do Mississippi College pela interpretação de Harold Hill em sua encenação da peça The Music Man). Seus alunos o conheceram como um membro fiel do Corpo de Cristo, a Igreja. Nettles serviu com alegria em todas as funções, de líder de música a ajudante do berçário, de professor de Bíblia a membro do coral. Eles conheceram sua humildade e piedade. Onde quer que houvesse necessidade de serviço ou de uma palavra de conselho ao desanimado ou aflito, lá ele poderia ser encontrado. 54
Os BATISTAS e a BÍBLIA
Tom J. Nettles certa vez aludiu à grande importância e influência de B. H. Carroll (presidente fundador do Southwestern Seminary) e de George W. Truett (pastor por quarenta anos da Primeira Igreja Batista de Dallas, Texas). Nettles observou que “não se pode conceber o que significa ser um batista sem os nomes de Carroll e Truett”. Não seria impróprio adicionar o nome de Nettles à lista. Ele seria o primeiro a observar que tudo é somente pela graça de Deus e apenas para a sua glória. Gregory A. Wills é professor pesquisador de história da igreja e herança batista, além de diretor do Centro B. H. Carroll para herança e missão batista no The Southwestern Baptist Theological Seminary
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Os BATISTAS e a BÍBLIA
Agradecimentos À edição de 1980 Muitos dedos bateram nas teclas da máquina de escrever no longo processo de produção de rascunhos iniciais e finais e, em seguida, rascunhos finais mais uma vez, ad infinitum. As pessoas que mais se dedicaram a essa tarefa de digitação foram Kathy Patterson, Shirley Williams, Tileta Burkhead e Mary Anne Barroz. Nós lhes agradecemos sinceramente, embora nenhum agradecimento seja suficiente para retribuir sua ajuda. Rosalie Beck e Terry Condren, alunos assistentes, forneceram informações úteis de sua pesquisa pessoal e trabalho bibliográfico. Eles também atribuíram lisonja, elogios e incentivo em momentos críticos do processo. Por todas essas coisas, agradecemos a eles. Escrever um livro como este não é fácil. Ambos os autores estiveram envolvidos na pesquisa, redação e revisão de cada capítulo. Cada autor produziu os primeiros rascunhos de vários capítulos, que depois foram lidos e continuamente reescritos pelo outro autor. Somente após a reavaliação pelo primeiro escritor o manuscrito foi datilografado na forma “final”. Em seguida, uma série de releituras e reavaliações foram promovidas. Os rascunhos finais foram datilografados e, logo após, as correções foram efetuadas. O assustador é que muitas coisas tiveram que ser deixadas de fora. 57
Agradecimentos
Várias pessoas leram partes do manuscrito e constantemente traziam aos autores seus comentários. Somos gratos por essa iluminação, mas assumimos toda a responsabilidade por quaisquer erros ou fraquezas remanescentes neste livro. À edição de 1999 Os programas de edição de texto são a ferramenta mais útil já fornecida a um escritor/editor, todavia eles não funcionam sozinhos. Por parte do Southeastern Seminary, dirigimos agradecimentos especiais à Lisa Weyers por sua dedicação em digitar e redigitar revisão após revisão, resultando em uma cópia manuscrita aceitável para muitas das revisões de capítulo que foram adicionadas a este volume. Do lado do Southern Seminary, uma gratidão particular é devida a Danny Akin, reitor da Faculdade de Teologia e vice-presidente acadêmico, por seu incentivo para esta segunda edição de Os batistas e a Bíblia. Russ Moore e Mark Overstreet, alunos do Southern Seminary, foram de ajuda estratégica na compilação do índice desta edição. Em ambos os casos, as esposas dos autores, Cindy e Margaret, devem receber o devido respeito por tolerar a súbita explosão de pesquisa e escrita intensiva que se intrometeu em uma agenda já lotada para um livro que foi escrito inicialmente anos atrás. À edição de 2020 Além da visão de Adam W. Greenway, presidente do Southwestern Baptist Theological Seminary (ao buscar publicar esta nova edição) e a generosidade da Broadman & Holman Publishers (em conceder permissão à Seminary Hill Press para fazê-lo), quero agradecer o trabalho da equipe da Seminary Hill Press que laborou para levar este projeto adiante. Liderada pelo Sr. James A. Smith, a equipe do Seminary Hill Press incluiu: Emil Handke, Caitlyn Jameson e Gabriel Reyes-Ordeix, design; Alex Sibley, editorial; e os arquivistas do seminário Jill Botticelli e Charles Huckaby, que forneceram fotos e outras obras de arte dos arquivos do seminário. 58
Os BATISTAS e a BÍBLIA
Introdução Por que um livro sobre batistas e a Bíblia? Talvez porque, em muitas denominações cristãs, as questões controversas em torno das várias vertentes sobre autoridade bíblica tenham sido recentemente colocadas na vanguarda das discussões teológicas. Os batistas, não menos do que outros grupos denominacionais, precisam chegar a algum tipo de consenso sobre aquilo em que acreditam doutrinariamente, se quiserem enfrentar o futuro com uma missão ousada e eficaz. No entanto, as raízes deste estudo são principalmente teológicas, não pragmáticas. Robert G. Torbet, em A History of the Baptists [Uma história dos batistas], intitula seu capítulo final como: “Contribuições batistas ao protestantismo”. Sua primeira seção nesse capítulo trata das contribuições doutrinárias, sendo a primeira delas a visão batista das Escrituras. Torbet escreve: Os batistas, em maior grau do que qualquer outro grupo, fortaleceram o protesto do protestantismo evangélico contra o tradicionalismo. Eles o fizeram por meio de seu testemunho constante da supremacia das Escrituras como a única e suficiente norma de fé e prática na vida cristã. […] Foi Balthasar Hubmaier, aquele valente anabatista, que se atreveu a desafiar Zuínglio exatamente neste ponto. Ele insistiu, em uma conferência com o reformador suíço, que “em todas as 59
Introdução
disputas relativas à fé e à religião, somente a Escritura, procedente da boca de Deus, deve ser nosso alicerce e regra”. Os batistas têm mantido essa posição consistente ao longo de todos os séculos que se seguiram aos dias de Hubmaier, mesmo à custa de sua segurança pessoal.4
Torbet então pesquisa várias das declarações confessionais batistas sobre as Escrituras. Por exemplo, ele menciona os artigos de fé propostos por John Smyth, a Declaração de fé elaborada por Thomas Helwys em 1611, a Confissão de Londres de 1660 e a Confissão de Londres de 1644. Torbet também menciona a Declaração de fé de 1742 da Associação da Filadélfia e a Confissão de New Hampshire de 1830, concluindo da seguinte forma: Pode-se dizer, sem hesitação, que os batistas costumaram depositar uma fé universalmente irredutível na autenticidade dos escritos sagrados por inspiração divina dos escritores pelo Espírito Santo, e enfatizaram a necessidade de que cada cristão leia a Bíblia por si mesmo.5
Embora esta seja apenas uma das muitas contribuições dos batistas ao protestantismo, ela possui importância especial para toda a comunidade teológica evangélica. Entretanto, muitos evangélicos questionaram o compromisso dos batistas com uma doutrina estrita de inspiração bíblica. O fato de essas questões terem sido levantadas não deveria ser totalmente surpreendente para os batistas, uma vez que é exatamente a questão da autoridade bíblica que está na raiz de muitas controvérsias recentes na vida da denominação. Por exemplo, a trajetória dos batistas do Sul foi interrompida por controvérsias, tais como quando Ralph H. Elliott publicou The Message of Genesis [A mensagem de Gênesis]. Em janeiro de 1962, a Broadman Press defendeu uma publicação “à luz do princípio 4 5
Robert G. Torbet, A History of the Baptists (King of Prussia: Judson Press, 1982), p. 483. Ibid., p. 485.
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Os BATISTAS e a BÍBLIA
batista histórico” de que o indivíduo tem a liberdade de sustentar qualquer teoria particular de inspiração bíblica “que pareça mais razoável”. Na reunião anual de 1962 da Convenção Batista do Sul dos EUA, os mensageiros, em resposta ao livro de Elliott, aprovaram uma resolução. Eles se opuseram especificamente ao ensino de qualquer teoria de crítica bíblica que pusesse em dúvida a “exatidão histórica e integridade doutrinária” das Escrituras. Eles também solicitaram que o Conselho da Escola Dominical remediasse as situações que ameaçavam “nossa posição batista histórica”. O observador cuidadoso perceberá que a posição histórica dos batistas foi aqui convocada para apoiar duas posições opostas. Alguém poderia se perguntar, o que é esta “posição batista histórica”? A falta de consciência histórica levará uma denominação a trilhar alguns dos mesmos caminhos que percorreram antes. Uma forte identidade histórica, por outro lado, deve dar-lhe a capacidade de corrigir seus rumos quando necessário ao avanço saudável e unido. A contribuição batista para a fé protestante na área de autoridade bíblica só pode beneficiar o povo de Deus se for claramente definida e expressa. Edwin Scott Gaustad escreveu um artigo intitulado Themes for Research in American Baptist History [Temas para pesquisa na história batista norte-americana] em Foundations (abril de 1963). Entre outras coisas, “tratamentos sintomáticos, lidando com doutrinas únicas e as mudanças que elas enfrentam, são altamente apropriados”, disse ele.6 Tal livro é uma tentativa de investigar de maneira sistemática e histórica a doutrina batista da Escritura. Esse estudo deve ser do interesse de grande parcela da comunidade cristã. De acordo com as estatísticas de 1997 da Aliança Batista Mundial, os batistas no mundo incluíam 158.455 igrejas, somando mais de 42 milhões de membros. Essas igrejas aparecem na África 6
Edwin Scott Gaustad, “Themes for Research in American Baptist History”, Foundations (abr. 1963), p. 162.
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Introdução
(mais de 16 mil), Ásia (mais de 20 mil), Caribe (1.403), América Central (1.418), Europa (mais de 10 mil), América Latina (mais de 8.400), Oriente Médio (60) e América do Norte (mais de 98 mil). A própria América do Norte conta com cerca de 33 mil e 300 batistas, com quase 16 mil destes na Convenção Batista do Sul dos EUA. A Convenção Batista Nacional dos EUA reivindica 8 milhões e meio, enquanto a Convenção Batista Nacional da América soma mais de 3 milhões. A Convenção Batista Nacional Progressiva tem 2 milhões e meio; a Convenção Batista Estrangeira Lott Carey dos EUA tem 2 mil igrejas e 1 milhão de membros; a Convenção Batista Missionária Nacional possui 400 mil membros; as Igrejas batistas americanas nos EUA têm 1.503.267, e a Conferência Geral Batista tem 134.795. As estatísticas da ABM incluem vários grupos menores, englobando igrejas étnicas. Albert Wardin, em Baptists around the world: A comprehensive handbook [Batistas ao redor do mundo: um manual abrangente], fornece informações ainda mais detalhadas sobre os batistas em todo o planeta, incluindo diversos grupos não incluídos nas estatísticas da ABM. Os batistas conservadores, por exemplo, somam, de acordo com Wardin, 200.000 membros em 1.197 igrejas. Ele também menciona associações e denominações de batistas regulares, batistas do livre-arbítrio, batistas gerais, batistas reformados, batistas da graça soberana, batistas de referência, batistas fundamentalistas separatistas, batistas primitivos, batistas estritos e batistas missionários. Todos esses grupos possuem mais em comum do que em distinção, bem como uma história que defende a preocupação central deste livro. Poucas áreas da teologia abordam de forma específica a importância da doutrina da Escritura; logo, a atitude para com as Escrituras pode definir (e define) toda a direção do estudo doutrinário. Ao longo de sua história moderna, os batistas têm sido caracterizados por uma doutrina particular de sua natureza eclesiástica. Os batistas creem que duas ordenanças específicas (não sacramentos) 62
Os BATISTAS e a BÍBLIA
foram instituídas por Cristo. O batismo por imersão é o ato inicial de obediência ao mandamento de Cristo, o qual simboliza a realidade do batismo do crente (imersão completa) no corpo de Cristo pelo Espírito Santo. O próprio ato simboliza a morte e ressurreição de Cristo (a expiação substitutiva), a morte espiritual do crente para a velha vida, a ressurreição para andar em novidade espiritual (sua regeneração pela graça por ocasião do arrependimento e fé pessoal individual), e a futura ressurreição do crente (a garantia do cristão baseada na fidelidade de Deus em cumprir suas promessas). Já a ceia memorial deve ser praticada pela Igreja como uma lembrança da morte expiatória do Senhor até que ele volte. A igreja do Novo Testamento possui em sua organização apenas dois tipos de oficiais (pastor e diácono). Vários termos funcionais diferentes descrevem o líder eclesiástico (“ministro”, “presbítero”, “pastor”), e parece provável que algumas igrejas do Novo Testamento tiveram uma espécie de “equipe” ministerial, embora a estrutura exata pareça depender das necessidades da situação local. Historicamente, houve batistas calvinistas e batistas do livre-arbítrio. Essa diversidade foi tolerada porque os batistas sempre celebraram a liberdade de consciência, o que criou seu fervor pela liberdade religiosa e pela Igreja livre em um Estado livre. Assim, como os batistas contribuíram especificamente para a doutrina das Escrituras? Nenhum estudo abrangente sobre isso estava amplamente disponível antes desta tentativa. Logo, de modo ocasional, os batistas são considerados pelo mundo acadêmico um povo sobretudo de interesses práticos, tal como Roger Williams, que estabeleceu a liberdade religiosa em Rhode Island. Por outro lado, Williams é menos conhecido por suas contribuições doutrinárias. Um fator que leva a esse estado de coisas é a própria ênfase na liberdade de consciência já mencionada. As confissões de fé batistas, embora numerosas, não são consideradas obrigatórias para a consciência do indivíduo (os batistas não têm credo no sentido tradicional). Aqueles que estão fora da vida batista tendem 63
Introdução
a interpretar essa ênfase como uma força e uma fraqueza. A força é óbvia: liberdade religiosa; mas a fraqueza é igualmente óbvia para aqueles que ostentam uma sólida formação confessional. Eles tendem a ver os batistas como uma denominação carente de uma doutrina forte. O próprio fato de que tanto calvinistas quanto arminianos podem ser batistas é suficiente para tornar óbvio a muitos que os batistas devem ser bastante livres em seu pensamento doutrinário. Todavia, assim como muitas conclusões “óbvias”, esta precisa de uma análise mais aprofundada. Não se deve negar que há diferenças de opinião entre os batistas, mas que isso se deve a um pensamento solto ou a uma falta de preocupação doutrinária é comprovadamente falso. O presente estudo mostrará que os batistas têm uma herança de forte doutrina; por outro lado, a diversidade de ideias teológicas dentro da estrutura batista impediu que estes se tornassem teologicamente estagnados. As diferenças entre os companheiros batistas suscitam argumentos persuasivos e lógicos baseados em exegese cuidadosa, ao mesmo tempo que o fato de o oponente também ser batista serve para apoiar (se não exigir) atitudes cristãs e fraternidade cristã. Não quer dizer que tudo foi perfeito na exegese, lógica ou atitude dentro da vida batista. Entretanto, um tema comum de preocupação com a verdade e igual receio com as pessoas caracterizam a teologia batista de dentro para fora. Nas páginas que se seguem, a doutrina da Escritura será estudada conforme foi elaborada por teólogos e leigos batistas. Talvez membros de outras denominações que até agora estejam lutando com questões doutrinárias em suas próprias denominações possam aprender com os padrões batistas, e os próprios batistas certamente têm a ganhar com uma revisão cuidadosa de sua herança doutrinária. Historicamente, os batistas construíram sua teologia a partir de uma base sólida. A Sagrada Escritura foi considerada a revelação infalível de Deus em palavras. O que Deus disse, nisso os batistas creram. Nenhum credo os manteve unidos, embora os batistas 64
Os BATISTAS e a BÍBLIA
nunca hesitaram em escrever e afirmar suas confissões doutrinárias. Nenhuma aliança eclesiástica era obrigatória para todas as igrejas batistas; mesmo assim, dificilmente alguma igreja deixou de adotar pactos com palavras fortes. A Escritura tem sido a pedra angular, o terreno comum, o ponto de unidade. Com a certeza de que a bênção de Deus repousará sobre aquele que não apenas lê a Bíblia, mas também crê nela, e com uma oração para que este volume possa contribuir para tal finalidade, os autores o recomendam para exaltar o pregador que se levanta para proclamar a Palavra de Deus, para encorajar o teólogo que humildemente se curva diante da Palavra de Deus, e para desafiar o crítico que zomba dela. Os títulos dos capítulos para este estudo específico foram escolhidos com cuidado. De maneira nenhuma pretendem ser exemplos da teoria exegética batista, mas também não são jogos de palavras simplistas. Cada título se baseia na fraseologia da versão Almeida Revista e Atualizada da Bíblia, e eles seguem a sequência canônica; no entanto, nenhuma alegoria é pretendida. A primeira parte, “No princípio Deus” (Gênesis 1.1), é uma defesa da liderança de Deus no estabelecimento da vida da igreja batista moderna. Os primeiros sete capítulos, por sua vez, traçam a herança batista até meados do século 19, e cada título de capítulo nesta seção é tirado de Gênesis, o livro dos primórdios. Considerando que os batistas são tão obviamente caracterizados por sua ênfase na imersão total na água (de acordo com o relato bíblico e, dessa forma, o único modo adequado de batismo), não parece impróprio usar o relato da criação como analogia. O capítulo 1, “O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gênesis 1.2), traça a ascensão dos batistas gerais na Inglaterra do século 17. John Smyth, Thomas Helwys, John Murton e, posteriormente, os batistas gerais, como Thomas Grantham, são estudados. Neste e em todos os capítulos subsequentes, a ênfase está na visão das Escrituras sustentada por esses primeiros líderes batistas. O capítulo 2, “Fez pois Deus [...] 65
Introdução
separação entre as águas” (Gênesis 1.7), investiga a ascensão dos batistas particulares. Uma ênfase especial é dedicada à doutrina da Escritura sobre a qual a Confissão de fé batista de 1644 foi baseada. O capítulo 3, “E viu Deus que era bom” (Gênesis 1.10), inclui uma análise cuidadosa da Segunda confissão de Londres de 1689, uma das mais influentes de todas as confissões batistas, na qual a doutrina da Escritura se mostra bastante clara. Os batistas têm uma rica herança de líderes que fizeram contribuições para a sociedade e também para o mundo cristão. Benjamin Keach, John Bunyan, Roger Williams, Isaac Backus e outros são estudados no capítulo 4, “Os quais povoaram as águas” (Gênesis 1.21). John Gill, um dos teólogos mais ativos da história da denominação; Dan Taylor, um importante teólogo batista geral; e Andrew Fuller, um fundador do movimento missionário moderno, são os temas do capítulo 5, intitulado “Sede fecundos e multiplicai-vos” (Gênesis 1.22). Da história de Abraão vem o título do capítulo 6, “Para uma terra que te mostrarei” (Gênesis 12.1), o qual lembra a importância das Escrituras nos primórdios do movimento missionário estrangeiro sob William Carey e Adoniram Judson. O capítulo 7, “Eles se separaram um do outro” (Gênesis 13.11), lembra a separação de Abraão e Ló por razões práticas e não teológicas, e aplica essa separação por analogia à divisão dos batistas nos Estados Unidos entre norte e sul. Os batistas não estavam divididos quanto à sua visão das Escrituras, como um estudo dos escritos de Francis Wayland, John Leland, Richard Furman e J. L. Dagg deixa claro. A segunda parte, “Um novo rei [...] que não conheceu a José” (Êxodo 1.8), reconhece as mudanças filosóficas que varreram o mundo durante o século 19. Surgiram novas questões e novas controvérsias, de modo que os batistas têm lutado, a exemplo de outros grupos denominacionais, com este mundo em mudança. O capítulo 8, “Seus deuses vos serão laço” (Juízes 2.3), relembra a advertência do Anjo do Senhor aos filhos de Israel de que seriam desviados por falsas ideias. O capítulo é uma breve análise cultural, 66
Os BATISTAS e a BÍBLIA
uma história de ideologias que mostra alguns dos fatores que levaram às tensões teológicas dos dias modernos. Depois que Saul derrotou os amonitas, Samuel disse ao povo: “Vinde, vamos a Gilgal e renovemos ali o reino” (1Samuel 11.14). J. P. Boyce e Basil Manly Jr. devem ter experimentado alegria semelhante quando foram para Greenville, Carolina do Sul, para fundar, em 1859, o Southern Baptist Theological Seminary. Dez anos antes, na conferência de 1849 da Convenção Batista do Sul dos EUA em Nashville, J. R. Graves mostrou sua aprovação a tal projeto, defendendo fortemente o estabelecimento imediato de uma nova instituição. Assim, o capítulo 9 é intitulado “Vinde, vamos a Gilgal” (1Samuel 11.14). A primeira crise teológica entre os batistas do Sul sobre a visão das Escrituras foi sustentada por um dos membros do corpo docente deste novo seminário. As questões envolvidas não tinham nada de rivalidade pessoal (John A. Broadus amava profundamente a Crawford H. Toy) e a história dessa crise no que se refere à questão da autoridade bíblica é encontrada no capítulo 10, “Meu filho Absalão” (2Samuel 18.33). Pouco antes de morrer, Davi ordenou a seu filho Salomão que guardasse: “preceitos do Senhor, teu Deus, para andares nos seus caminhos, para guardares os seus estatutos, e os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus testemunhos, como está escrito na Lei de Moisés” (1Reis 2.3), para que prosperasse em tudo o que precisava fazer. Dessa passagem, o capítulo 11 toma a frase “Para que o Senhor confirme a sua palavra” (1Reis 2.4) como um título para um estudo da crise sobre a autoridade bíblica na Inglaterra no final do século 19. Os dois principais responsáveis pela “controvérsia do declínio” foram John Clifford e Charles Spurgeon. As tensões teológicas também começaram a crescer nos Estados Unidos. No Norte, A. H. Strong, embora cada vez mais influenciado pelo pensamento evolucionista, se manteve firme em questões doutrinárias básicas enquanto viveu. Alvah Hovey foi talvez o maior teólogo bíblico do norte nessa época. Fazendo uma analogia com 67
Introdução
o relato bíblico do reinado do rei Josias, intitulamos o capítulo 12 de “Não se desviaram de seguir o Senhor” (2Crônicas 34.33), significando, é claro, que eles “não se desviaram de seguir o Senhor”. Enquanto isso, no sul, vários teólogos proeminentes surgiram. A natureza da autoridade bíblica era cada vez mais um assunto em debate; dessa forma, o capítulo 13, “Levantaram-se os cabeças das famílias de Judá” (Esdras 1.5), relembra aqueles judeus que centraram sua vida no ensino do Livro Sagrado, se levantaram para construir a casa do Senhor e, assim, mantiveram a fé em dias difíceis. E. Y. Mullins e A. T. Robertson eram esses “cabeças”. No sudoeste dos EUA, um novo seminário batista (destinado a se tornar o maior do mundo) foi fundado em 1908 por B. H. Carroll. Ao lado de Carroll, o teólogo mais famoso do Southwestern Seminary foi W. T. Conner, homens que são mencionados no capítulo 14, “Estes ainda são teus servos” (Neemias 1.10). No Sermão do Monte, Jesus alertou sobre os falsos profetas vestidos de ovelhas. Boas árvores dão bons frutos. Por seus frutos eles podiam ser conhecidos, disse o Senhor. A controvérsia modernista-fundamentalista foi especialmente importante no desenvolvimento batista do início do século 20. O capítulo 15, “Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros?” (Mateus 7.16), trata de alguns dos líderes batistas não estudados em outros capítulos em uma extensa série de suas citações a respeito das questões de autoridade religiosa e crítica bíblica. De acordo com as advertências escatológicas de Jesus, rumores e batalhas caracterizariam a era cristã, e os batistas passaram por estrondos e batalhas espirituais ao longo do século 20. Dessa forma, uma breve pesquisa das lutas que se relacionam com as Escrituras é encontrada no capítulo 16, “O princípio das dores” (Mateus 24.8). Este não é um capítulo exaustivo, e as questões debatidas não são novas; no entanto, tal capítulo dá ao estudo geral uma sensação de completude cronológica e, ao examinar algumas das publicações mais recentes de Ralph Elliott, serve como algo relevantemente prático para pessoas que vivem no mundo de hoje. 68
Os BATISTAS e a BÍBLIA
A terceira parte, “Quem dizeis que eu sou?” (Marcos 8.29), é mais que uma análise simples e descritiva de pontos de vista históricos. As conclusões devem ser tiradas, e sugestões devem ser oferecidas. Os batistas nunca hesitaram em expressar suas opiniões; portanto, uma área óbvia a investigar nesta seção final é a doutrina da Escritura conforme expressa em confissões de fé escritas. Essas confissões contêm muito mais do que declarações sobre as Escrituras; elas geralmente expressam visões batistas do Evangelho em sua plenitude. O capítulo 17, “Fatos que entre nós se realizaram” (Lucas 1.1), examina a maioria das confissões de fé batistas escritas nos EUA. No entanto, este capítulo concentra a atenção em declarações confessionais sobre as Escrituras. A admoestação de Paulo a Timóteo: “Permanece naquilo que aprendeste” (2Timóteo 3.14) enfatizou a necessidade de seguir a autoridade das Escrituras, exortação que inspirou o título do capítulo 18, o qual narra os esforços dos batistas do Sul nas últimas três décadas do século 20 visando obedecer a essa admoestação em suas instituições e organizações denominacionais. Enfim, o capítulo 19, “Aqueles que guardam as palavras deste livro” (Apocalipse 22.9), lembra a bela cena que encerra o último livro da Bíblia. João ouve o anjo proclamar: “Estas palavras são fiéis e verdadeiras: e o Senhor Deus dos espíritos dos profetas enviou o seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer” (Apocalipse 22.6). João se prostrou para adorar o anjo que lhe mostrou essas coisas, mas o anjo respondeu: “Vê, não faças isso; eu sou conservo teu, dos teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus” (v. 9). Na verdade, os autores deste livro têm exatamente esses sentimentos. Deus é a autoridade soberana sobre tudo o que há. Ele é aquele de quem a verdade flui. Somos coparticipantes de serviço com nossos irmãos batistas, enquanto a unidade batista é ameaçada pela controvérsia sobre a própria Palavra de Deus, o único padrão pelo qual todas as opiniões religiosas devem ser testadas. Como 69
Introdução
podem dois andarem juntos a menos que estejam de acordo (Amós 3.3)? Ainda mais, como podemos orar: “Amém! Vem, Senhor Jesus” (Apocalipse 22.20), se duvidamos da verdade de sua Palavra? Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos nós. Amém.
70
PRIMEIRA PARTE
“No princípio, Deus...”
1
“O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”
As Sagradas Escrituras são a fonte de toda a verdade (João 17.17; 2Timóteo 3.16-17) e são a base e o fundamento de nossa fé. Toda doutrina e todo espírito devem ser julgados pela Palavra.
Os BATISTAS e a BÍBLIA
O
s batistas procuram conformar as expressões locais da igreja cristã ao Novo Testamento. Uma igreja não pode confundir antigos costumes sociais com princípios normativos, e sim procurar imitar o sistema de governo e a prática normativa das igrejas da era do Novo Testamento. Portanto, os batistas acreditam que a igreja deve ter apenas duas ordenanças: o batismo por imersão completa na água após a profissão pública de fé em Jesus Cristo como Senhor, e a observância do memorial da Ceia do Senhor. Os batistas procuram: manter uma membresia eclesiástica regenerada; defender a separação entre Igreja e Estado; deter apenas dois oficiais (pastores e diáconos); e considerar a Grande Comissão mandatória para a igreja de hoje. No entanto, a partir do estudo da história da igreja, rapidamente se descobre que esses princípios que os batistas acreditam que deveriam governar a igreja local nem sempre foram mantidos em sua pureza bíblica. Na verdade, encontrar uma igreja que manifestasse todos esses princípios nos tempos patrísticos e medievais é tarefa sobremodo difícil. Muitos grupos continuaram a manter um ou mais desses princípios do Novo Testamento após o segundo século, porém encontrá-los todos concentrados em um grupo com os registros atualmente disponíveis beira o impossível. A Reforma do século 16 revitalizou o princípio básico de Sola Scriptura, que teve como consequência esforços para estabelecer igrejas baseadas no testemunho do Novo Testamento. O princípio formal de Sola Scriptura (Somente a Escritura), conquistou a mente 75
“O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”
de homens como Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio e João Calvino, mas, de alguma forma, deixou de abordar todas essas questões eclesiásticas neotestamentárias em seus respectivos esforços para estabelecer uma verdadeira igreja. Os anabatistas, considerados radicais por sua convicção de que somente os crentes deveriam ser batizados, romperam com esses reformadores e buscaram implantar igrejas consistentes com o testemunho do Novo Testamento. As mudanças radicais na sociedade provocadas por tais pressupostos neotestamentários tornaram-nos extremamente impopulares. Eles foram perseguidos e caçados em todos os lugares, mas muitos conseguiram encontrar um refúgio na Holanda. Menno Simons organizou alguns deles em igrejas que persistem até o presente, conhecidas como menonitas. Os anabatistas não devem ser confundidos de forma simplista com os batistas modernos, pois há alguns significativos pontos de diferença. No entanto, os anabatistas apresentaram muitas ideias que influenciaram o eventual desenvolvimento da vida batista e deram a prova viva de que o princípio de Sola Scriptura poderia levar a esforços determinados para restabelecer o padrão do Novo Testamento para a igreja. Os batistas (como os conhecemos hoje) podem ser atribuídos diretamente às forças em ação dentro da vida da igreja inglesa no século 17. O desejo de uma expressão pura do cristianismo neotestamentário era tão forte na Inglaterra que muitos cristãos que desejavam a purificação completa de qualquer vestígio do catolicismo romano eram chamados de “puritanos”. Eles permaneceram dentro da Igreja da Inglaterra, considerando-a a verdadeira Igreja, mas trabalharam por sua purificação radical; porém, muitos puritanos não concordaram com a possibilidade de resgatar totalmente a pureza de uma filha de Roma, a quem consideravam a prostituta do livro do Apocalipse. Portanto, eles chegaram à conclusão de que a Igreja da Inglaterra não era uma igreja verdadeira, contudo, assim como sua mãe católica romana, era uma prostituta (por 76
Os BATISTAS e a BÍBLIA
consequência, anticristã). Essas pessoas renunciaram à Igreja da Inglaterra e se tornaram separatistas, porque se separaram da Igreja da Inglaterra estabelecida. O que mais tarde veio a se tornar a primeira igreja batista moderna foi uma congregação estabelecida em 1609 em Amsterdã, como resultado do encontro de um grupo de separatistas ingleses com os anabatistas holandeses, os menonitas. O líder desse grupo de pioneiros foi John Smyth. John Smyth Embora os primeiros anos de Smyth permaneçam sob um manto de mistério, suas jornadas na vida adulta são bem documentadas. Ele recebeu os graus de bacharelado e mestrado em artes do Christ’s College, da Universidade de Cambridge (o último grau foi obtido em 1593). Um contemporâneo, John Hetherington, testemunhou: “Mestre Smyth não é tão rudimentar como parece: é um estudioso de grande leitura e bem experiente nas Artes”. Enquanto estava em Cambridge, Smyth era membro leal de uma igreja anglicana (sob influência puritana) e provavelmente um calvinista na teologia. Todavia, ele foi exposto às tendências presbiterianas de um pregador chamado Francis Johnson (que mais tarde se tornou um separatista) e às posturas anticalvinistas de um estudante de nome Barrett e de um professor chamado Baro. Havia influentes empresários puritanos que desejavam um ensino bíblico e pregação espiritual de forma mais aprofundada do que recebiam nas igrejas paroquiais. Portanto, as comunidades nas quais o puritanismo era dominante muitas vezes contratavam pregadores puritanos para falar aos habitantes locais. Como esses pregadores eram contratados de forma privada, o bispo (anglicano) tinha pouca autoridade sobre eles. Em setembro de 1600, Smyth foi eleito conferencista da corporação da cidade de Lincoln, uma posição extremamente invejável, tendo um desempenho tão admirável que foi eleito para um cargo vitalício como pregador da cidade 77
“O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”
em agosto de 1602. Porém, essa posição vitalícia durou apenas três meses, pois, ao que parece, ele era muito pessoal em sua pregação (pelo menos algumas pessoas pensavam assim). Smyth afirmou que ele feriu “aquele a quem nunca havia alvejado”. Após deixar a cidade de Lincoln, Smyth se tornou um pregador itinerante e foi preso pelo menos três vezes por pregação ilegal. Durante esse tempo, ele buscava um motivo satisfatório para permanecer na Igreja da Inglaterra. O fracasso dos puritanos em angariar simpatia e ajuda do rei James I (na conferência de Hampton Court em 1604) serviu apenas para desiludir Smyth da possibilidade de novas reformas dentro da Igreja da Inglaterra. Juntando-se a vários outros que buscavam a verdadeira igreja, Smyth se tornou parte de uma igreja separatista em 1607. Os membros juraram sacudir “este jugo de escravidão anticristã” e unir-se “como igreja”. O modelo dessa igreja era a aliança do Antigo Testamento, não o batismo de acordo com o estabelecido no Novo Testamento; mas uma admirável franqueza caracterizou sua promessa de “andar em todos os seus caminhos, dar a conhecer, ou ser-lhes dado a conhecer, de acordo com seus melhores esforços, custe o que custar, o Senhor ajudando-os”.7 Smyth e sua igreja separatista se mudaram para Amsterdã em 1608 com a intenção de, quando lá chegassem, se juntar à igreja “antiga” de Francis Johnson. A congregação de Johnson estava na Holanda desde 1593 e em Amsterdã desde 1597; contudo, houve diferenças inesperadas entre as duas congregações, o que fez Smyth recusar a fusão. Ele enumerou as diferenças em um escrito intitulado Differences of the Churches of the Separation [Diferenças das igrejas separatistas]. Uma das divergências relacionadas ao culto elucida qual era a visão de Smyth a respeito das Escrituras nesse estágio de sua peregrinação. 7
William Bradford, History of Plymouth Plantation. (Nova York: Baptists and the Bible 30 Scribner’s, 1908), p. 31.
78
Os BATISTAS e a BÍBLIA
Smyth intitulou essa diferença específica de “assunto” de adoração. Os separatistas se recusavam fortemente a usar o Livro de Oração Comum8 como um auxílio ao culto. Smyth, no entanto, pediu a exclusão de todos os auxílios escritos para o culto, recusando-se a usar qualquer livro para apoiar o canto ou livros para ajudar na pregação. Smyth se tornou tão radical que até mesmo pediu a suspensão do uso da própria Bíblia, entendendo que a verdadeira adoração espiritual deveria depender apenas da mediação do Espírito, não de quaisquer livros ou ajuda externa. Contudo, Smyth não foi levado a essa posição por causa de uma visão inferior das Escrituras. Muito pelo contrário, uma visão extremamente elevada dos manuscritos originais o levou a rejeitar a leitura das Escrituras durante o culto. As traduções, embora necessárias, são intervenção do homem, disse ele, não as Escrituras inspiradas originais; logo, ler uma tradução durante o culto concentra a atenção em um resultado de trabalho humano, e assim até mesmo a leitura da Bíblia perverte a adoração a Deus. Nem pode alguém legitimamente, no culto público, ler as Escrituras nas línguas originais. Poucos ou nenhum dos adoradores entenderia o que foi lido, pois seria em hebraico ou grego, e falar em uma língua desconhecida sem uma interpretação é expressamente proibido pelas Escrituras. Dessa forma, Smyth concluiu que a leitura das Escrituras não deve fazer parte da adoração. Em seu argumento para excluir todos os livros do culto, ele defendeu a inerrância do conteúdo das Escrituras. Os homens são de dois tipos: inspirados ou comuns. Homens inspirados pelo Espírito Santo são os santos profetas e apóstolos que escreveram as Sagradas Escrituras por inspiração. 2Pedro 1.21, 2Timóteo 3.16, Romanos 1.2, a saber, o hebreu do Antigo Testamento e o grego do Novo Testamento.
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Livro oficial de orações da Igreja Anglicana. (N. R.)
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“O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”
As Sagradas Escrituras, isto é, os originais hebraico e grego, são dados pela inspiração divina e eram sem erros, perfeitos e, portanto, canônicos. [Smyth, 1.279]
Os homens comuns escrevem vários tipos de literatura teológica, e a mais importante delas é uma tradução das Escrituras. Entretanto, nenhum dos escritos de homens comuns seria inspirado. Seus escritos estariam, portanto, sujeitos a erros e, consequentemente, deveriam ser excluídos do culto espiritual. Já os livros inspirados não estão sujeitos a erros. Smyth continua explicando a diferença entre a língua da Escritura e o assunto (com o que ele quis dizer lógica, história, cronologia, cosmografia, filosofia e teologia) da Escritura. Uma tradução pode expressar com precisão muito do assunto representado pela língua original, no entanto “nenhuma tradução pode expressar toda a questão dos sagrados originais, nem mil coisas na gramática, retórica e caráter da língua” (Smyth, 1.280). Se a Escritura não deve ser usada no culto, como ela deveria ser usada? As Sagradas Escrituras são a fonte de toda a verdade (João 17.17; 2Timóteo 3.16-17) e são a base e o fundamento de nossa fé, diz Smyth. Toda doutrina e todo espírito devem ser julgados pela Palavra, a qual deveria ser lida e interpretada na igreja, mas não durante a adoração espiritual (Smyth, 1.282). Em 1609, Smyth permitiu que a lógica de suas convicções sobre a pureza da igreja e do culto chegassem à sua conclusão completa. Os membros se reuniram para dissolver a união de 1607 que havia sido efetuada por uma aliança ou voto, o que os levou a reconstituir a igreja com base no batismo do crente. John Robinson, um observador crítico e pastor da igreja que mais tarde se tornou a Igreja dos Peregrinos, registrou os eventos daquela reunião: O Sr. Smyth, o Sr. Helwys e os demais se dissolveram totalmente e revelaram seu antigo estado e ministério eclesiásticos, reunindo-se para erigir uma nova igreja pelo batismo: ao qual eles também atribuíram tão grande virtude, recusando-se a orar 80
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juntos antes que a houvessem fundado. E depois de alguns sinais de cortesia sobre quem deveria começar, [...] o Sr. Smith batizou a si mesmo, e a seguir o Sr. Helwis, e os demais, fazendo suas confissões particulares. [Burrage, 1.237]
Esse famoso episódio de batismo é conhecido pelos historiadores como o “autobatismo” de Smyth (batismo de si mesmo). O modo de batismo usado nessa ocasião foi o derramamento de água sobre a cabeça. Após iniciar essa nova igreja, Smyth escreveu um livro em defesa do batismo dos crentes, cujo título é The Character of the Beast [O caráter da besta]. Smyth apresentou duas proposições para a defesa do batismo: (1) que crianças não devem ser batizadas; (2) que anticristãos convertidos devem ser admitidos na verdadeira igreja pelo batismo. O argumento básico que Smyth propôs contra o batismo infantil era que inexistia autoridade bíblica específica. Não há nenhum outro preceito nem exemplo no Novo Testamento de qualquer criança que foi batizada, por João ou pelos discípulos de Cristo. Somente aqueles que confessaram os seus pecados e a sua fé foram batizados. [Smyth, 2.574]
No entanto, a ausência de um texto-prova não foi tão significativa em levar Smyth a rejeitar o batismo infantil quanto sua teologia positiva e totalmente bíblica. As primeiras 43 páginas de The Character of the Beast consistem em uma interpretação bastante completa de sete passagens-chave das Escrituras. Essas interpretações foram definidas no contexto de um debate entre Smyth e Richard Clifton, um separatista. Smyth, bem ciente da visão aliancista do batismo (que relaciona o batismo à cerimônia da circuncisão do Antigo Testamento), mostra uma compreensão abrangente tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Ele não era reticente em aceitar sua autoridade plena; todavia, o Antigo Testamento, embora absolutamente verdadeiro, deve estar relacionado sobretudo ao Israel físico. Na opinião de Smyth, apenas o ensino moral do Antigo Testamento é incumbido à Igreja, pois esse ensino é eterno e se refere 81
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a todas as pessoas, de todas as idades. Os requisitos cerimoniais do Antigo Testamento (por exemplo, circuncisão) se relacionariam com a Igreja apenas tipológica e espiritualmente e, assim, a circuncisão de crianças não requereria o batismo infantil, mas apenas tipifica ou simboliza a circuncisão espiritual do coração para os cristãos. O batismo é o sinal externo do Israel espiritual (a Igreja) e só deve ser administrado naqueles que foram circuncidados de coração: verdadeiros crentes voluntários, e não os filhos de crentes. Seu argumento não foi uma tentativa de diminuir o Antigo Testamento, e sim de relacioná-lo apropriadamente com o Novo Testamento. A Igreja deve se submeter à autoridade da verdade bíblica ou se tornar anticristã, afirmou Smyth. A última confissão de fé de Smyth, intitulada Propositions and Conclusions [Proposições e conclusões], foi escrita na tentativa de unir sua igreja com a igreja menonita de Amsterdã. Ela contém 100 artigos, 97 dos quais possuem pelo menos uma referência das Escrituras. Porém, ele endossa uma subjetividade que mais tarde foi prejudicial aos batistas gerais na Inglaterra. Seu otimismo com relação às possibilidades espirituais da “nova criatura” o levou a afirmar que “a nova criatura não necessita das Escrituras externas, [...] visto que tem três testemunhas em si mesma [...] que são melhores do que todas as Escrituras” (artigo 61). A nova criatura, embora acima das leis e das Escrituras, não fará nada contra a lei e as Escrituras, contudo se conformará a elas. Na verdade, a fé, de acordo com Smyth, é “uma compreensão mental da doutrina da lei e do evangelho contidos nas Escrituras proféticas e apostólicas do Antigo e do Novo Testamento” (artigo 68). O verdadeiro cristão está acima das Escrituras e limitado a elas. Ele está acima das Escrituras, afirma Smyth, por causa da presença pessoal e da liderança do Deus Trino. Ele está sob as Escrituras porque elas são infalivelmente verdadeiras e não podem ser contraditas pela conduta ou pensamento do cristão. Sua prática deve estar em conformidade com a lei; sua fé deve ser idêntica ao conteúdo das Escrituras. 82