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O Diácono fiel - Cornelius Van Dam

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O diácono fiel

FUNDAMENTOS BÍBLICOS

para o MINISTÉRIO DIACONAL

Rio de Janeiro, RJ

Cornelis Van Dam

O diácono fiel

Traduzido do original em inglês: The Deacon

Copyright © 2016 Cornelis Van Dam

Publicado originalmente por Reformation Heritage Books 3070 29th St. SE Grand Rapids, MI 49512 616-977-0889 www.heritagebooks.org

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por PRO NOBIS EDITORA

Rua Professor Saldanha 110, Lagoa, Rio de Janeiro-RJ, 22.461-220

1ª edição: 2024

ISBN: 978-65-81489-90-8

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo citações breves, com indicação da fonte.

Direção executiva

Judiclay Silva Santos

Conselho editorial

Judiclay Santos

David Bledsoe

Paulo Valle

Gilson Santos

Leandro Peixoto

Helder Cardin

Wilson Porte Jr.

Coordenação editorial: Cesare Turazzi

Tradução: Natan Porte

Preparação de texto: Wendell Lessa

Revisão de provas: Thalles de Araujo

Design da capa: Luis de Paula

Designer assistente: Wirley Corrêa

Diagramação: Marcos Jundurian

Nesta obra, as citações bíblicas foram extraídas da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA), salvo informação em contrário.

As opiniões representadas nesta obra são de inteira responsabilidade do autor e não necessariamente representam as opiniões e os posicionamentos da Pro Nobis Editora ou de sua equipe editorial.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Dam, Cornelis Van.

O diácono fiel: fundamentos bíblicos para o ministério diaconal/Cornelis Van Dam; tradução Natan Porte. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Pro Nobis Editora, 2026.

Título original: The deacon.

ISBN 978-65-81489-90-8

1. Bíblia - Estudos 2. Diáconos - Formação 3. Diáconos - Manuais, guias etc 4. DiáconosMinistério I. Título.

26-340145.0

Índices para catálogo sistemático:

1. Diáconos: Ministério: Cristianismo 270.092

Aline Graziele Benitez – Bibliotecária – CRB-1/3129

www.pronobiseditora.com.br

CDD-270.092

Em memória do Rev. Gilbert Van Dooren (1911–1995).

Sumário

Prefácio à edição em português — Diogo Carvalho .......................................................................... 9

Nota editorial sobre diaconisas — Pro Nobis ................................................................................... 15

original .......................................................................... 17 Introdução .................................................................................. 19

Primeira parte | O contexto do Antigo Testamento

1. Os pobres em Israel ............................................................. 25

2. Provendo para os pobres ...................................................... 37

Segunda parte | Os tempos do Novo Testamento

3. O ensino de Cristo sobre os pobres e necessitados ............. 59

4. O serviço aos pobres em Atos 6 .......................................... 73

5. O ofício diaconal ................................................................. 87

6. É bíblica a instituição de diaconisas?................................... 105

Terceira parte | O ofício de diácono na história da igreja

7. O testemunho da igreja primitiva e o patrimônio da Reforma........................................................................... 123

8. As mulheres e o diaconato .................................................. 141

Quarta parte | O funcionamento atual do ofício

9. A posição oficial do diaconato hoje..................................... 163

10. Capacitando e priorizando .................................................. 183

11. O ministério diaconal dentro da igreja ............................... 205

12. O ministério diaconal fora da igreja .................................... 227

13. A bem-aventurança dos pobres ............................................ 247

Questões para estudo e reflexão ................................................. 257

Recursos selecionados sobre diaconato ...................................... 267

Índice de referências bíblicas ...................................................... 271

Prefácio à edição em português

[... ] e, quando reconheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, estenderam a mim e a Barnabé a mão direita da comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios e eles fossem para a circuncisão. Somente recomendaram que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gl 2.9-10, NAA)

Prezar pela sã doutrina e esquecer-se dos pobres

No texto selecionado, Paulo defende seu chamado apostólico e a pureza do evangelho que anunciava, recebido diretamente do Senhor (Gl 1.12). Nessa defesa, menciona que, em uma visita a Jerusalém, teve seu ministério confirmado por Tiago (meio-irmão do Senhor), Pedro e João. Essa viagem fora motivada, justamente, pela necessidade dessa confirmação. Paulo desejava eliminar quaisquer acusações de que trabalhava pelo evangelho levianamente, ou seja, desalinhado da fiel pregação apostólica. Para ele, isso seria o mesmo que “ter corrido em vão” (cf. Gl 2.2).

Para o bem de Paulo e do próprio evangelho, ele deixou Jerusalém devidamente chancelado pelos chamados “colunas” da igreja. Ao final do encontro, estes lhe estenderam a mão direta da comunhão — sinal claro de aprovação. Mas reflitamos um pouco sobre esse encontro.

Prefácio à edição em português

Por prudência, não é demais pensar que esses sábios líderes, antes de lhe darem o aval, tenham escrutinado a vida, o ministério e o ensino de Paulo. Imagino o apóstolo contando a Tiago, Pedro e João sobre sua conversão, respondendo às suas perguntas e expondo as notáveis formulações acerca de justificação, santificação, propiciação, eleição, predestinação e tantas outras verdades que o próprio Pedro, como escreveria mais tarde, reconheceu serem de difícil compreensão (2Pe 3.15-16).

Aqueles líderes devem ter ficado impressionados. Imagino-os glorificando a Deus, reconhecendo a graça que fora concedida a Paulo (cf. Gl 2.9). Porém, um adendo foi feito: “Lembre-se dos pobres”. Essa singela recomendação é significativa. Algo havia ficado de fora da exposição, e não se tratava de uma questão doutrinal ou teológica. Era aquilo que muitos poderiam considerar periférico ou irrelevante: o cuidado com os pobres. É como se dissessem: “Muito bem, Paulo!

Quanta coisa edificante ouvimos de você! Sem dúvida, Deus lhe concedeu um dom especial para ensinar o evangelho com propriedade. Apenas uma coisa não foi mencionada e merece sua atenção: os pobres”. Talvez essa tenha sido a fala de Tiago, para quem “a religião pura e imaculada para com Deus e Pai” inclui “visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” (Tg 1.27).

Se exagerei na reconstrução dessa cena, uma coisa, pelo menos, posso afirmar: esquecer-se dos pobres é, realmente, fácil. Fácil para aqueles, que, na esteira de Paulo, são, como eu, apaixonados por teologia; que valorizam, propagam e defendem a sã doutrina, e frequentemente se veem debruçados sobre os empolgantes temas anteriormente mencionados e tão presentes nos escritos paulinos. Para nós, há um perigo real, que faz a admoestação feita ao apóstolo uma carapuça que, de vez em quando, nos serve muito bem. Não é verdade que, muitas vezes, tratamos a pobreza como um problema que diz respeito apenas ao governo, às entidades beneficentes e, quando muito, às agências missionárias? Quem de nós nunca reagiu com certa resistência à

O diácono fiel

primeira menção de uma responsabilidade social cristã, como se este fosse um assunto de interesse exclusivo de liberais e marxistas?

Se for o nosso caso, o exemplo de Paulo também nos oferece direção. Releia o final do versículo 10 e responda: o que Paulo fez diante da advertência recebida? Não a considerou impertinente nem se ofendeu; ao contrário, acolheu-a como um lembrete necessário. A partir de então, decidiu esforçar-se ainda mais em manter acesa uma luz de alerta na consciência.

E o Novo Testamento atesta que Paulo, de fato, cumpriu sua promessa. Sim, ele participou da primeira arrecadação aos pobres da Judeia (At 11.29,30; 12.25); levou a oferta das igrejas da Macedônia e Acaia aos mesmos pobres (At 21.17); e, aos coríntios, também falou dessa coleta (1Co 16.1; 2Co 9.1,12). Aos Romanos, mencionou a obrigação de comunicar com os santos em suas necessidades (Rm 12.13), e, aos próprios gálatas, encorajou-os a fazer o bem a todos, especialmente aos da família da fé (Gl 5.10). Ou seja, reconhecendo como justa a ponderação dos líderes de Jerusalém, Paulo passou a agir com mais diligência na questão do socorro aos pobres.

No caso dele, foram os “colunas” que o ajudaram a se lembrar do assunto. Quem nos lembrará hoje?

Um novo tempo para o diaconato

Depois da leitura deste livro, que tenho a honra de prefaciar, estou mais do que convencido de que o estabelecimento de um corpo saudável de diáconos, que libere os pastores/presbíteros para a oração e a pregação da Palavra (cf. At 6.4) e, ao mesmo tempo garanta a assistência aos pobres, é uma excelente saída — senão a melhor saída — para assegurar que a recomendação dos líderes de Jerusalém seja cumprida por todos nós e pela igreja que servimos. De fato, instituir diáconos é mais do que seguir um trâmite institucional ou conservar uma tradição eclesiológica. É agir com intencionalidade em uma matéria preciosa ao coração de Deus. Sim, intencionalidade, como Paulo demonstrou.

Prefácio à edição em português

O que me anima é que, depois de décadas de esvaziamento gradual do diaconato, percebo um reaparecimento do tema em recentes literaturas. Destaco, por exemplo, as obras Diáconos: Como eles servem e fortalecem a igreja, da série 9Marcas, publicado em 2022 pela Vida Nova; o Manual do diácono: Um guia prático para servir, da Pro Nobis, de 2023; e a biografia que escrevi, Verner Grinberg: O diácono que voava, da Junta de Missões Nacionais, de 2024. Além disso, na última assembleia da Convenção Batista Brasileira, realizada em janeiro de 2026, em Salvador, recebi de representantes de editoras relatos sobre a intensa procura por livros sobre o diaconato — e muitos dos títulos disponíveis se esgotaram rapidamente.

Ao que parece, temos redescoberto a verdade, tão belamente resumida por Matt Smethurst, de que “os diáconos foram ideia de Deus”.1 Pense na profundidade dessas palavras. Se foi Deus quem instituiu esse ministério — como o Novo Testamento sinaliza —, então é para ser algo realmente proveitoso e edificante. Ou teria Deus errado? Não é mais provável que tenhamos sido nós que compreendemos mal o que é um corpo diaconal, para que serve e como deveria operar? Temos o direito de dizer que Deus se equivocou ao criar esse ofício, quando fomos nós que, com frequência, alteramos seu propósito original?

Repare o verbo “alteramos”, justamente porque quero fugir da tentação de encontrar culpados. Não importa mais. Um novo tempo para o diaconato está despontando, e deve começar com um pacto de obediência vital à Palavra de Deus por parte de diáconos, pastores e membros, líderes denominacionais e professores de seminário. Um compromisso em que a resposta aos desafios atuais não seja abandonar o diaconato, mas restaurá-lo à sua vocação original, conforme o propósito do Deus que o instituiu. Um diaconato fiel. É por isso que eu me empolguei tanto para prefaciar este livro. E que livro!

1 Matt Smethurst, Diáconos: Como eles servem e fortalecem a igreja (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2022), p. 151.

A importância desta obra

O diácono fiel

O diácono fiel é uma extraordinária ferramenta — a mais robusta publicada até aqui — para nos orientar na tarefa de reconfigurar o diaconato à luz da Palavra de Deus. Em suas páginas, encontraremos uma base bíblica, teológica e histórica substancial para a natureza e as funcionalidades desse precioso ofício. Recomendo seu estudo minucioso não apenas por diáconos, mas por pastores e aspirantes aos dois ofícios, especialmente seminaristas. Um resumo pode ser indicado para toda a igreja.

O livro começa com a questão dos pobres, que, como vimos, exige de nós alto grau de intencionalidade. Tais partes merecem ser lidas por todos os cristãos, podendo ser até consideradas, isoladamente, um curso inteiro de teologia bíblica sobre o tema da pobreza. Ademais, a transição que o autor faz entre o cuidado de Deus aos desamparados do Antigo Testamento e da época de Jesus e a instituição de diáconos, em Atos, é mais do que convincente. Para mim, foi como transformar o pisca-alerta de Gálatas 2.10 em um potente holofote. Leitura absolutamente necessária.

A maneira com que também comenta Atos 6 e os demais textos que aludem ao diaconato é a mais completa que conheço em língua portuguesa. Quando aborda alguma divergência entre os melhores teólogos, o autor marca sua posição, mas sem deixar de esclarecer com integridade os argumentos contrários. Na questão da ordenação de diaconisas, por exemplo — que é bem dividida nos círculos cristãos —, ele opinou pela sua não possibilidade, mas, respeitando os discordantes, apresentou com fidelidade os contrapontos deles. Se você, leitor, for favorável à instituição de diaconisas, estará bem-servido com os argumentos fornecidos pelo próprio autor, ainda que ele mesmo os tenha buscado refutar, tamanha a sua elegância e honestidade intelectual. Na parte final, o autor salta da teoria para a prática, tornando o livro ainda mais oportuno na atual fase do diaconato no Brasil. Ele demonstra como a carência social que motivou a instit uição dos

Prefácio à edição em português

primeiros diáconos, em Atos 6, deve hoje ser compreendida de forma mais ampla, alcançando não apenas os pobres, mas também pessoas que enfrentam transtornos mentais, o luto e outras vulnerabilidades. Apresenta, também, princípios e estratégias para um plano de ação bíblico e eficaz com vistas a capacitar diáconos de qualquer comunidade local, para atuação dentro e fora da igreja. Termina com um estudo encorajador sobre as bênçãos de ser um diácono, seguido de um roteiro com perguntas e respostas que serve de guia para o concílio examinador de potenciais candidatos.

Enfim, este é um manual completo de teologia e prática do diaconato que veio no momento quando antigos diáconos buscam ressignificar seu ministério e uma nova geração, por eles inspirada, parece estar a caminho. Não poderia haver melhor hora, portanto. Quem, como eu, filho de pastor, já foi alvo do cuidado de diáconos fiéis, sabe bem a relevância de seu trabalho na igreja, na família pastoral e na assistência a quem mais precisa. Acompanhei com dor o envelhecimento do diaconato. Hoje, vibro com seu rejuvenescimento. Espero estar vivo para, honrando sempre os diáconos de cabelos brancos, testemunhar muitos jovens sendo ordenados, para o bem das igrejas e da sociedade e para a glória daquele que idealizou tão nobre ofício.

Diogo Carvalho, pastor batista, gerente executivo de desenvolvimento da Junta de Missões Nacionais da CBB e professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil

Nota editorial sobre diaconisas

Uma observação necessária ao leitor brasileiro — especialmente ao povo batista da Convenção Batista Brasileira — é que o autor, situado no contexto reformado do hemisfério Norte, traz consigo uma rica, embora pouco conhecida entre nós, bagagem confessional. Por isso, menciona precedentes históricos e documentos de fé com os quais não estamos tão familiarizados. Isso, porém, de forma alguma o desqualifica, nem tampouco desabona a obra. Apenas torna necessário ao leitor ponderar sobre a maneira como algumas de suas conclusões se encaixam em nosso contexto atual, mantendo a coerência bíblica e a tradição confessional.

Assim, o autor do excelente livro que o leitor tem em mãos, entre as diversas discussões presentes nesta obra, expõe o debate quanto à possibilidade do exercício diaconal por parte da mulher, posicionando-se no sentido de não crer que o ofício seja estendido às mulheres na igreja.

Ao contrário do entendimento do autor, porém, a Pro Nobis Editora compreende que o ofício diaconal também se estende às mulheres, diferentemente do ofício pastoral, o qual é permitido somente a homens aptos e chamados ao ministério.

A Pro Nobis Editora incentiva a leitura desta obra por parte das diaconisas das igrejas batistas brasileiras e de outras denominações

Nota editorial sobre diaconisas

cristãs, encorajando-as a utilizar esta leitura como ferramenta para melhor exercer seu ofício. A editora também entende que, diferentemente do debate sobre o ministério pastoral — cujo consenso ortodoxo sustenta que deve ser exercido exclusivamente por homens aptos e chamados ao ministério —, a questão sobre o ministério diaconal e sobre se a mulher pode ou não exercê-lo é relevante para as denominações de tradição reformada, mas não configura um ponto de tensão tal que afete a ortodoxia. Por conseguinte, quer no entendimento de que deve haver apenas diáconos homens, quer no de que pode haver também diaconisas, a ortodoxia não é comprometida.

O diácono fiel

Prefácio original

É um tremendo privilégio amadurecer como cristão em um lar piedoso e sob a orientação de um pastor inspirador. Pela providência de Deus, fui abençoado por ter sido criado em uma igreja reformada, pastoreada pelo saudoso Rev. Gilbert Van Dooren. Ele também foi quem me ensinou as disciplinas sobre o diaconato no seminário. Van Dooren compreendia o que significava cuidar dos necessitados em seu sentido mais pleno, oferecendo liderança ao revelar as riquezas do ofício diaconal. Ele encarnava o significado de diakonia, o serviço de amor ao povo de Deus em nome de Cristo. É, portanto, em memória dele que este livro é dedicado.

Meus dez anos no ministério pastoral (1971—1981) foram de grande proveito para que eu compreendesse algumas das dinâmicas e questões mais importantes que os diáconos enfrentam ao buscar suprir as necessidades da igreja que está sob seus cuidados. Embora este livro não tenha sido projetado como um manual prático de trabalho diaconal, o conteúdo que ele aborda apresenta muitas implicações e consequências práticas tanto para os diáconos quanto para os membros da igreja. Sou grato por todo o feedback que recebi de diáconos enquanto servi em igrejas reformadas. Mais recentemente, os seguintes diáconos experientes da Ebenezer Canadian Reformed Church, em Burlington, Ontário, participaram da elaboração da

seção Perguntas para Estudo e Reflexão, que se encontra no final deste livro: Brian Kalte, Bruce Hartman, Peter Sikkema e Peter John Vandyk, bem como o Rev. Gijsbertus Nederveen. Essas perguntas têm o objetivo de facilitar e incentivar a discussão sobre todos os aspectos do ofício de diácono.

Muitas pessoas estimularam meu pensamento sobre o ofício de diácono, e sou grato a todas elas. Seria arriscado citá-las nominalmente, por medo de esquecer alguma. Aqueles que deram contribuições específicas são mencionados nos lugares apropriados deste estudo.

Uma dívida de gratidão impagável é devida à minha querida esposa, Joanne, que constituiu constante encorajamento durante o longo processo de pesquisa e escrita, além de ter contribuído de forma substancial com sua habilidade em revisão de textos.

Agradeço o interesse de Joel R. Beeke e da Reformation Heritage Books neste projeto. Foi um prazer trabalhar com o diretor de publicações, Jay Collier, bem como com a editora de manuscritos, Annette Gysen. Acima de tudo, sou grato ao Senhor Deus, que me capacitou a concluir este projeto.

Soli Deo gloria!

Introdução

O dom concedido por Deus no ofício diaconal e as bênçãos a ele associadas nem sempre são plenamente valorizados, especialmente em igrejas financeiramente prósperas, nas quais há poucas pessoas com necessidades materiais em seu convívio. Contudo, como este livro espera demonstrar, a importância do diaconato vai muito além de simplesmente suprir necessidades materiais. Para compreender devidamente o significado deste ofício, é preciso considerá-lo no contexto de toda a Bíblia.

Embora o termo “diácono” tenha significados diversos em diferentes comunidades cristãs, este livro trata do ofício diaconal da maneira como, historicamente, as igrejas reformadas o entenderam à luz das Escrituras. Em resumo, os diáconos são aqueles encarregados do ministério de misericórdia, com a missão de manifestar o amor de Cristo ao socorrer os pobres e aflitos.

Uma vez superada essa descrição mínima, surgem perguntas: Qual é o fundamento bíblico desse ofício? Por que o ofício diaconal é interpretado de maneira tão diferente, por exemplo, na Igreja Católica Romana? O que os diáconos devem fazer e como exercer suas responsabilidades? De que modo os pobres em regiões menos desenvolvidas do mundo deveriam ser beneficiados pelos diáconos do Ocidente? O ofício diaconal pode ser exercido por mulheres? Uma questão ainda

maior é se os programas estatais de assistência social, as agências de bem-estar e os planos de seguro tornaram esse ofício dispensável no contexto ocidental. Será esse ofício absolutamente necessário para o bem-estar da igreja? Aqueles que conhecem a vida da igreja de Cristo sabem que essas e outras questões relacionadas afetam os aspectos mais práticos da vivência da comunhão dos santos.

Este estudo busca respostas para essas e outras questões semelhantes a partir da plenitude das Escrituras. Logo fica evidente que, no tempo do Antigo Testamento, não havia diáconos — uma situação que exige alguma explicação. O Novo Testamento, por sua vez, fala de diáconos. Chama a atenção, contudo, que o termo grego para diácono, diakonos, significa simplesmente “servo”, e o verbo cognato significa apenas “servir”. Em outras palavras, o uso do termo, por si só, não indica necessariamente um ofício especial. Para determinar o que caracterizava especificamente o ofício de diácono, precisamos ir além do significado geral dos termos e investigar o contexto do Novo Testamento.

Como a igreja cristã primitiva reconhecia o Antigo Testamento como sua Escritura, fazemos bem em começar por essa parte da Palavra de Deus e examinar de que maneira ela nos informa acerca dos princípios de socorro aos pobres e necessitados. De fato, esses princípios divinos continuam sendo autoritativos para nós hoje, permanecem relevantes para o ministério em favor dos pobres e, por isso, merecem um estudo cuidadoso.

Os capítulos 1 e 2 tratam, portanto, do contexto do Antigo Testamento relevante para o ofício diaconal e buscam responder a perguntas como: Quem exatamente eram os pobres e de que maneira deveriam ser socorridos? O que distinguia o povo de Deus das nações pagãs que o cercavam no tocante ao cuidado dos pobres? Somente quando adquirirmos clara compreensão desse legado do Antigo Testamento é que poderemos começar a apreciar os desenvolvimentos do Novo Testamento.

O diácono fiel

O capítulo 3 examina a vida de serviço de Cristo — inclusive em favor dos pobres e oprimidos — e seu ensino sobre o auxílio aos necessitados. O capítulo 4 mostra como os princípios do Salvador foram postos em prática depois que o Espírito Santo foi derramado sobre os crentes no Pentecostes, quando sete homens foram ordenados para cuidar das viúvas necessitadas. O capítulo 5 trata dos requisitos para o ofício diaconal e da relação que o diácono mantém com o presbítero.

O que as Escrituras dizem sobre diaconisas é abordado no capítulo 6. Somente depois de recorrermos, em primeiro lugar, à autoridade normativa das Escrituras é que estaremos em condições de avaliar como este ofício se desenvolveu ao longo da história da igreja. Os capítulos 7 e 8 registram os avanços positivos e os retrocessos desse ofício à luz da Palavra de Deus. É um testemunho notável da graça divina o modo como Deus capacitou a Reforma do século 16 a resgatar a bênção desse ofício das distorções que sofrera nos séculos anteriores.

Com base nesse legado, o capítulo 9 examina a ordenação para o ofício diaconal, a duração do serviço e a relação do diácono com o Conselho ou a Assembleia da igreja, levando em conta os principais marcos da história reformada.

Os capítulos 10 e 11 abordam questões práticas: como os diáconos são capacitados para realizar seu trabalho e segundo quais princípios e práticas esse trabalho deve ser executado para que seja mais eficaz.

O capítulo 12 trata da assistência aos pobres que estão fora da igreja, tanto no âmbito local quanto mundial. Os desafios são enormes, e esse capítulo procura trazer à tona os princípios bíblicos relevantes e aplicá-los aos dias de hoje. Embora desejássemos que o problema da pobreza pudesse ser resolvido de uma vez por todas, os menos favorecidos estarão sempre conosco (Mt 26.11). Precisamos da renovação futura de todas as coisas para que a pobreza e o sofrimento sejam erradicados. Ainda assim, há bênçãos concedidas por Deus no fato de termos pobres a quem servir. O capítulo final mostra como essas bênçãos alcançam todos os envolvidos.

Introdução

Ao final do livro encontram-se perguntas para estudo e reflexão em grupo. Elas foram pensadas principalmente para diáconos, mas também aqueles que não são portadores do ofício se beneficiarão delas. Ajudarão os membros da igreja a reconhecerem suas próprias responsabilidades para com os pobres, bem como alguns dos desafios e implicações do ofício, capacitando-os a orar de maneira mais consciente e profunda pelos diáconos que trabalham em seu meio.

Embora o ofício de diácono seja muitas vezes subvalorizado e considerado de pouca importância, as Escrituras mostram que isso está muito longe da verdade. Trata-se de um dom extraordinário de Deus, e uma igreja que o negligencia faz isso em seu próprio prejuízo. Que este livro contribua para que essa realidade seja reconhecida e sirva de encorajamento a todos os diáconos que lutam para compreender o que Deus exige deles neste chamado elevado e privilegiado.

PRIMEIRA PARTE

O contexto do Antigo Testamento

Os pobres em Israel

O Israel antigo, sob certos aspectos, está próximo de nós; sob outros, mantém-se distante. O povo de Deus hoje vive em circunstâncias políticas e econômicas completamente diferentes daquelas de seus antepassados. Há, porém, uma área importante de semelhança e continuidade: como o próprio Senhor Jesus afirmou, os pobres sempre teremos conosco (Mt 26.11). E, de fato, eles estão entre nós, tanto no Ocidente livre quanto, especialmente, no mundo em desenvolvimento.

O Antigo Testamento oferece preciosas percepções sobre a dura realidade da pobreza e das misérias que a acompanham. Precisamos procurar colocar-nos nas sandálias daqueles que tanto sofreram, para que tenhamos maior apreço pelos que sofrem hoje e pelas soluções que o Senhor prescreveu. Compreender a preocupação do Senhor com os pobres e a expectativa de que o seu povo Israel cuidasse deles ajuda bastante a captar os princípios bíblicos fundamentais que devem valer também para os nossos dias. Essa compreensão influenciará qualquer discussão sobre o ofício de diácono. Para chegar a esse entendimento, o presente capítulo trata dos pobres que Deus destacou, da legislação específica que os protegia e da lei de Deus, bem como de seu propósito no contexto do antigo Oriente Próximo.

Identificando os pobres

O Antigo Testamento possui um extenso vocabulário para descrever os pobres. Para os nossos objetivos, três grandes categorias de termos hebraicos são importantes. Todos eles nos chegam em português com a tradução “pobre” ou algo semelhante.

A primeira e mais evidente categoria é a dos economicamente pobres (’ebyon). Eles careciam das necessidades básicas para subsistir. Eram despojados, vulneráveis e sem qualquer esperança, a não ser que recebessem auxílio de outros. O Senhor prometeu que esses pobres não existiriam em Israel, desde que o povo de Deus obedecesse plenamente aos seus mandamentos (Dt 15.4-5).

Uma segunda categoria de pobres é a dos vulneráveis (dal), que sofreram uma redução drástica ou a perda total de prosperidade e posição social (Êx 23.3). Assim, eram o oposto dos ricos (Êx 30.15; Pv 10.15) e, por isso, tinham permissão para apresentar sacrifícios de menor custo (Lv 14.21-22). Para essas pessoas, a pobreza e a vulnerabilidade podiam resultar de deficiências físicas ou psicológicas (Sl 82.3; Is 10.2).

Um terceiro tipo de pobre é o aflito e oprimido (‘anaw e ‘ani), que eram intimidados e explorados pelos ricos (Pv 31.9; Is 3.14). Em alguns casos, tratava-se dos piedosos injustamente maltratados pelos ímpios (Sl 10.2; Is 14.32). Em resumo, eram as vítimas que viviam curvadas e humilhadas, enquanto outros se aproveitavam de sua condição subalterna (Jó 24.4; Sl 37.14; Is 32.7). Deus havia ordenado que esses desfavorecidos não fossem maltratados (Êx 22.22-23), de modo que essas situações eram contrárias à sua vontade. O termo hebraico original traduzido por “afligir” abrange toda forma de opressão e humilhação, incluindo todo tipo de tratamento frio ou desdenhoso.2

2 A palavra usada é ‘anah. Veja-se, por exemplo, Paul Wegner, “6700 ‘nh II”, em: New International Dictionary of Old Testament Theology and Exegesis, Willem VanGemeren (ed.) (Grand Rapids: Zondervan, 1997), vol. 3, p. 449–452.

O diácono fiel

Essas pessoas, portanto, não deviam ser prejudicadas nos tribunais (Dt 24.17; Jr 7.5-7). O Senhor era o seu protetor (Sl 68.5; 146.9).

Portanto, havia os economicamente pobres, os vulneráveis e os aflitos. Não devemos, porém, imaginar que se tratava de três categorias de israelitas completamente separadas. Essas palavras são muitas vezes usadas como sinônimos e podem referir-se às mesmas pessoas vistas sob perspectivas diferentes. As nuances específicas dos diversos termos hebraicos para “pobre” são difíceis de expressar em português. É importante reconhecer essa diversidade.

Quando o Senhor manifestava preocupação pelos necessitados e ordenava ao seu povo que cuidasse deles, não tinha em vista apenas suas necessidades materiais — embora estas estivessem certamente incluídas (p. ex., Dt 14.29; 24.19-21) — mas sua preocupação ia além dos aspectos meramente físicos da pobreza. Ele abrangia os desfavorecidos, os oprimidos e os indefesos.

Essa compreensão ampla de quem é considerado pobre tem implicações para nós hoje. Ela indica que não devemos conceber os pobres que estão em nosso meio de forma excessivamente restrita.

Para captar o mais plenamente possível o que significava ser pobre, impotente e aflito no antigo Israel, precisamos visualizar as principais expressões da pobreza dentro da sociedade israelita.

Manifestações da pobreza em Israel

O Senhor protegia os interesses dos pobres de diferentes maneiras e deu instruções detalhadas sobre como o israelita deveria responder às suas variadas necessidades.

O camponês e os pobres sem-terra

Essas pessoas não estavam em miséria absoluta. Embora sofressem economicamente, ainda eram obrigadas a apresentar ofertas, mas tinham permissão para trazer animais de menor valor (Lv 5.7, 11; 12.8; 14.21). Eram, porém, obrigadas a contribuir com a mesma quantia do

A Pro Nobis Editora nasceu da visão de servir à igreja brasileira mediante a literatura cristã de qualidade.

O ministério da Pro Nobis tem por alvo especial ajudar os batistas brasileiros na missão de edificar a igreja e anunciar o Evangelho ao mundo. Para tanto, o conhecimento de suas raízes históricas e herança teológica é fundamental. Existem excelentes editoras evangélicas no Brasil, com as quais juntamos forças nesse trabalho de servir ao povo de Deus.

Mas por que Pro Nobis? Trata-se de uma expressão em latim que significa POR NÓS. Na tradição cristã, essa expressão se relaciona com a obra de Jesus Cristo em nosso favor. A cruz é o símbolo maior e mais sublime da fé cristã, o coração do Evangelho. O Deus Trino fez uma aliança de redenção em favor de seu povo eleito, salvo pelo sangue do Cordeiro. Nosso alvo é edificar a igreja para que ela prossiga na missão de proclamar “o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).

Acesse o site e acompanhe nosso ministério: www.pronobiseditora.com.br

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