Rio de Janeiro, RJ
Ensinando a verdade, treinando os corações Traduzido do original em inglês: Teaching Truth, Training Hearts
Direção executiva Judiclay Silva Santos Conselho editorial Judiclay Santos David Bledsoe Paulo Valle Gilson Santos Leandro Peixoto Helder Cardin Wilson Porte Jr.
Copyright © ed. rev. 2017 Founders Press, 1.ª ed. 1998 Thomas J. Nettles Publicado originalmente por Founders Press Cape Coral, Florida www.founders.org
Coordenação editorial: Cesare Turazzi Tradução: Rogério Portella Preparação de texto: Gabriel Lago Revisão de provas: Thalles de Araujo, Melina Marinho Capa: Luis de Paula Diagramação: Marcos Jundurian Índices remissivos: Melina Marinho
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por PRO NOBIS EDITORA Rua Professor Saldanha 110, Lagoa, Rio de Janeiro-RJ, 22.461-220 1ª edição: 2026 ISBN: 978-65-6178-020-9
Nesta obra, as citações bíblicas foram extraídas da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA), salvo informação em contrário.
Impresso no Brasil / Printed in Brazil Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo citações breves, com indicação da fonte.
As opiniões representadas nesta obra são de inteira responsabilidade do autor e não necessariamente representam as opiniões e os posicionamentos da Pro Nobis Editora ou de sua equipe editorial.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Nettles, Thomas J. Ensinando a verdade, treinando os corações: um estudo sobre o uso de catecismos na história dos batistas/Thomas J. Nettles, Steve Weaver; [tradução Rogério Portella]. – Rio de Janeiro: Pro Nobis Editora, 2026. Título original: Teaching truth, training hearts. ISBN 978-65-6178-020-9 1. Batistas - Catecismos 2. Catecismo - Estudo e ensino 3. Congregação Cristã - História 4. Cristianismo 5. Espiritualidade 6. História da Igreja 7. Protestantes I. Weaver, Steve. II. Título. 26-378623.0
CDD-286
Índices para catálogo sistemático: 1. Batistas : Catecismos : Cristianismo 286 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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Para Margaret: sem as suas orações e o seu exemplo, a leitura de catecismos seria como nuvens sem água.
Sumário Prefácio à edição em português — Wilson Porte Jr. • 9 Prefácio original • 21 Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos • 25 1. Catecismo ortodoxo — Hercules Collins • 61 Introdução • 61 Texto • 83 2. Catecismo batista, também intitulado Catecismo de Keach — Benjamin Keach e William Collins • 153 Introdução • 153 Texto • 168 3. Catecismo para meninas e meninos — Richard Cecil • 191 Introdução • 191 Texto • 197 4. Os primeiros princípios sobre os oráculos de Deus — John Sutcliff • 217 Introdução • 217 Texto • 225
5. Notas e perguntas para a instrução oral de pessoas de cor — Edwin Theodore Winkler • 245 Introdução • 245 Texto • 259 6. Breve catecismo de doutrina bíblica — James Petigru Boyce • 287 Introdução • 287 Texto • 292 7. Catecismo de ensino bíblico — John Albert Broadus • 313 Introdução • 313 Texto • 321 Nota de gratidão da Pro Nobis Editora à Founders Press • 359 Índice de catecismos • 361 Índice de referências bíblicas • 363 Índice onomástico • 383
Ensinando a verdade, treinando os corações
Prefácio à edição em português Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. (2Tm 1.13)
Em cada geração, o Espírito Santo concede à igreja meios antigos para desafios novos. Em tempos de dispersão doutrinária, de sentimentalismo superficial travestido de piedade e de pragmatismo substituindo o discipulado, uma antiga ferramenta ressurge com poder e frescor: o catecismo. Durante os séculos de formação e consolidação da fé cristã, desde os dias dos apóstolos até os reformadores, a instrução por perguntas e respostas — chamada catequese — foi um dos instrumentos mais eficazes para formar o caráter, renovar a mente e fortalecer a fé dos santos. Não era apenas um método pedagógico, mas uma prática pastoral e eclesial mais que necessária: ensinar com precisão, guardar o depósito apostólico e moldar vidas à semelhança de Cristo. Nos primeiros séculos, antes que os credos se tornassem fórmulas escritas e sistemáticas, as igrejas já utilizavam estruturas orais que ensinavam “o caminho do Senhor” (cf. Didaché). O batismo era precedido por semanas — às vezes meses — de instrução básica sobre fé, oração, vida moral e a história da redenção. Essa preparação era chamada de catequese, e seus mestres eram chamados de “catequistas”. Um convertido bem instruído sabia responder de forma simples e fiel: Credo in Deum Patrem... — e mais do que repetir, sabia em que cria. 9
Prefácio à edição em português
Em Alexandria, Antioquia, Éfeso e Roma, as escolas catequéticas foram celeiros de pastores, mártires, bispos e teólogos. O jovem Atanásio, antes de combater os arianos em Niceia, foi profundamente instruído no catecismo. Agostinho, antes de escrever suas Confissões, desenvolveu um manual para instrução de neófitos na fé. O que esses homens partilhavam não era apenas ortodoxia, mas também formação — e essa formação tinha forma: perguntas claras, respostas concisas, Escritura sólida. Séculos depois, com a Reforma Protestante, o catecismo se tornou novamente o esteio da renovação da igreja. Lutero escreveu dois catecismos, Calvino escreveu outro. Os reformadores sabiam que não bastava reformar púlpitos e confissões; era preciso reformar corações. E isso começava com a boca da criança e terminava com o louvor dos pais. No mundo batista, muitas vezes avesso ao formalismo, o catecismo encontrou morada entre os que amavam a Bíblia, a conversão e a clareza doutrinária. Hercules Collins, Benjamin Keach, Charles Spurgeon, John Broadus e tantos outros viram nessa ferramenta não um substituto da Escritura, mas uma moldura para sua leitura correta e viva. É nesse cenário que se insere esta obra magistral, agora honrosamente oferecida ao público de língua portuguesa. A grande contribuição desta obra é dupla: primeiro, sua defesa bíblica, histórica e pastoral do uso dos catecismos; segundo, sua generosa reunião de exemplos concretos, testados ao longo dos séculos, de catecismos batistas que moldaram mentes e corações. Tom Nettles — com a colaboração de Steve Weaver — não apenas defende, mas demonstra; não só convence, como também inspira. E não poderia ser diferente. O autor que aqui nos guia é um dos mais respeitados historiadores batistas da atualidade. Com sensibilidade pastoral e erudição refinada, Nettles reconstrói o lugar do catecismo na tradição batista com profunda reverência ao testemunho da Escritura e com amor à igreja local. Não se limitando a argumentar, ele recorda, evoca, celebra — e, ao fazê-lo, nos convoca. 10
Ensinando a verdade, treinando os corações
Logo nos primeiros capítulos, vemos que o uso do catecismo não é invenção medieval, tampouco uma concessão à tradição reformada continental. Ele nasce da própria Escritura. Poucos leitores se dão conta de que o termo κατηχέω (katēchéō), do qual derivam as palavras “catequese” e “catecismo”, aparece no Novo Testamento em pelo menos cinco ocasiões. Lucas emprega esse termo em sua introdução ao Evangelho: [...] para que tenhas plena certeza das coisas que te foram instruídas (κατηχήθης). (Lc 1.4)
Paulo também o utiliza com clareza: Mas aquele que está sendo instruído (κατηχούμενος) na palavra faça participante de todas as coisas boas aquele que o instrui (κατηχοῦντι). (Gl 6.6)
O verbo κατηχέω carrega exatamente o sentido de ensinar sistematicamente, oralmente, em sequência — instruir de modo fundamentado e proposicional. Trata-se de uma prática enraizada no próprio coração da missão apostólica: formar crentes instruídos, conscientes, capazes de manter o padrão das “sãs palavras” (2Tm 1.13) e transmitir a fé “que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1.3). Nettles reconhece essa base bíblica, mas vai além: ele expõe a genealogia eclesiástica dessa prática, resgatando seu valor entre os batistas ingleses e americanos, entre crianças e adultos, entre os cultos urbanos e os cultos nas plantações do sul escravagista dos Estados Unidos. Cada catecismo apresentado é precedido de uma introdução histórica e teológica, permitindo que o leitor compreenda o contexto de sua formulação, seus alvos pedagógicos, seu alcance pastoral e sua beleza doutrinária. Em especial, a inclusão do Catecismo ortodoxo, de Hercules Collins — uma adaptação batista do Catecismo de Heidelberg —, mostra como os batistas reformados do século 17 desejavam se manter conectados à tradição protestante ampla, sem abrir mão de suas convicções sobre batismo de crentes e liberdade da igreja local. Aqui há harmonia, não ruptura; continuidade, não rebeldia; reverência, não novidade. 11
Prefácio à edição em português
Este livro é, portanto, um tesouro para pais que desejam ensinar seus filhos na fé; para igrejas que anseiam por maturidade doutrinária; para escolas cristãs que buscam formar corações firmes e mentes renovadas; para seminaristas e pastores que precisam de equilíbrio bíblico e histórico em sua formação. Ao longo da leitura de Ensinando a verdade, treinando os corações, o que mais impressiona é como o autor não trata o catecismo como um fim em si mesmo, mas como um instrumento de plena formação espiritual — razão pela qual o título da obra é tão apropriado: ensinar a verdade, mas também formar o coração. A pedagogia catequética, segundo Nettles, não visa apenas transmitir conteúdo doutrinário. Ela tem um objetivo maior: gerar convicção, formar hábitos, fortalecer afetos, cultivar a piedade e enraizar a fé nas profundezas da alma. Assim, o catecismo não é apenas um recurso instrucional, mas uma escola do discipulado cristão. Ele não substitui a Bíblia, porém a serve. Ele não rivaliza com a pregação, mas a prepara. O catecismo não empobrece a experiência espiritual — ele a fundamenta. Essa perspectiva é visivelmente assumida no próprio testemunho pessoal que Nettles compartilha logo em seu prefácio: como o ato de catequizar seus filhos em casa não era apenas um exercício mental, mas um momento de alegria familiar, de comunhão espiritual e de descoberta das riquezas da graça. Em suas palavras, os momentos de memorização, ritmo, desafio e música se tornaram memórias afetivas carregadas de propósito eterno. Não se tratava apenas de aprender “respostas certas”, mas de formar uma família em torno da Palavra, de modo comunitário, criativo e duradouro. Esse testemunho, tão comovente quanto prático, revela uma convicção que ecoa ao longo de todo o livro: a instrução doutrinária não é fria nem impessoal — ela é uma obra de amor. E, por isso mesmo, ela é pastoral. O bom pastor ensina a doutrina com paciência, com repetição, com fidelidade e com clareza — e o catecismo se torna seu companheiro fiel nessa tarefa. Ao apresentar os sete catecismos que compõem o corpo do livro, Nettles e Weaver não oferecem apenas um relicário histórico, mas um 12
Ensinando a verdade, treinando os corações
arsenal pastoral. Cada catecismo — seja o tradicional Baptist Catechism, o Catechism for Boys and Girls, ou os menos conhecidos catecismos para negros escravizados ou para escolas dominicais do século 19 — é acompanhado por uma introdução que o contextualiza e o aplica. Vemos ali como cada geração de batistas entendeu que formar crentes sólidos exige mais do que entusiasmo: exige doutrina, método e perseverança. É surpreendente, por exemplo, ver como os catecismos produzidos para comunidades escravizadas do sul dos EUA procuravam, mesmo diante de todas as limitações e injustiças sociais da época, ensinar claramente as verdades centrais da fé cristã. Há ali um zelo catequético impressionante, que reconhece que todo ser humano, criado à imagem de Deus, merece ser instruído na verdade do evangelho. Isso nos desafia hoje a levar a doutrina também às periferias, às crianças, aos que têm pouco acesso à leitura ou à tradição teológica — sempre com clareza, caridade e fidelidade. Além disso, ao incluir o catecismo de Broadus — com seus níveis progressivos de dificuldade —, o livro nos lembra que a catequese não é uma etapa única, mas um processo gradual. Ela começa com as primeiras palavras da fé e se aprofunda com os anos, conforme o coração cresce, a mente amadurece e a vida cristã se fortalece. Ensinar doutrina, portanto, não é tarefa de um ano — é um chamado para a vida. Em um dos trechos mais inspiradores do livro, Nettles recorda como o ensino catequético moldou o povo batista em momentos de perseguição, dispersão e reconstrução. Quando faltavam templos, universidades e recursos impressos, o que se tinha era a Palavra, memorizada e ensinada de boca em boca, pergunta por pergunta, resposta por resposta. Por meio dessas formas simples — e profundas — que a verdade era preservada. Em regiões rurais, em vilarejos esquecidos, em plantações isoladas ou em grandes cidades agitadas, havia pais e mães ensinando seus filhos com os catecismos na ponta da língua, hábeis para dar a razão da esperança que havia neles. Muitos daqueles que mais tarde se tornariam pregadores, missionários, pastores e educadores começaram sua jornada com um livrinho nas mãos e um coração cheio 13
Prefácio à edição em português
de perguntas. E o catecismo não apenas respondia, como ensinava a perguntar melhor. Não é exagero afirmar que, por meio do ensino catequético, a fé cristã reformada não apenas sobreviveu, bem como floresceu. A doutrina não era apenas um conjunto de ideias, mas o solo firme onde cresciam as convicções que moldavam o viver, a adoração e a missão. E essa formação doutrinária se dava nos bancos da igreja, mas também nas mesas de jantar, nas conversas noturnas antes de dormir, e até mesmo nos corredores das escolas e dos seminários. Hoje, ao olharmos para o presente, vemos que essa mesma necessidade permanece — e talvez com ainda mais urgência. Vivemos dias de confusão doutrinária, de entretenimento no lugar de adoração, de pragmatismo no lugar de discipulado. Há muita ênfase em sentimentos e pouca firmeza nas verdades. Muitos conhecem canções, mas poucos conhecem o Credo. Muitos falam de “viver para Jesus”, mas não sabem explicar o que é justificação, nem o que significa ser adotado como filho de Deus. É nesse cenário que este livro se torna tão necessário. Ele é, em certo sentido, um manual de reconstrução da identidade eclesial. Ele nos ensina que retornar ao catecismo não é regressar ao passado com nostalgia, mas avançar com sabedoria. É reencontrar o caminho antigo (Jr 6.16), onde há descanso para a alma. É reviver a prática da fé que é ao mesmo tempo simples e profunda, robusta e acessível, memorável e transformadora. E o mais notável é perceber como o catecismo — muitas vezes visto como algo “formal” ou “arcaico” — pode ser, na verdade, uma das formas mais eficazes de transmitir o evangelho em nossos dias. Em um mundo fragmentado, líquido e superficial, oferecer uma estrutura clara, repetitiva, bela e centrada na Escritura pode ser exatamente do que nossas crianças, adolescentes e novos convertidos mais precisam. Ao longo dos séculos, cristãos que amaram profundamente a Palavra de Deus também amaram o ensino sistemático dela. Eles compreenderam que a fé precisa ser ensinada com precisão e repetida com paciência. Foi assim nas igrejas dos apóstolos, nas escolas 14
Ensinando a verdade, treinando os corações
catequéticas do norte da África, nas congregações puritanas da Inglaterra, nas capelas de campos norte-americanos e nos lares de famílias cristãs por todo o mundo. A tradição batista não foge a esse legado. Ainda que por vezes tenha oscilado entre momentos de intenso zelo doutrinário e outros de negligência catequética, ela sempre produziu líderes e igrejas que entenderam o valor de instruir desde cedo os filhos na verdade. A obra que o leitor tem agora em mãos é um lembrete vigoroso de que ensinar a fé é responsabilidade de toda a igreja — mas começa no lar. Nettles nos recorda que o catecismo pode — e deve — ser um instrumento usado na liturgia doméstica, nos momentos simples em família, à mesa ou à noite antes de dormir. Um pai ou mãe que pergunta: “Quem fez você?” e ouve da criança: “Deus me fez” está não apenas ensinando uma frase — está plantando um alicerce. Um adolescente que sabe definir graça, pecado, expiação, regeneração e glorificação carrega consigo uma teologia que moldará suas escolhas, seus amores, sua visão de mundo e seu lugar na igreja. A própria estrutura do catecismo — perguntas e respostas breves, cadenciadas, progressivas — é pedagogicamente poderosa. Como disse certa vez Matthew Henry, catequizar é “colocar a verdade em pequenos vasos que mãos pequenas podem segurar”. E esses vasos, uma vez segurados, raramente se perdem. Mais ainda, o livro mostra que a catequese não é apenas para crianças. Muitos adultos, mesmo anos após sua conversão, nunca tiveram oportunidade de aprender a fé cristã de forma estruturada. Seus conhecimentos são fragmentados, sua doutrina é instável, suas respostas são frágeis. Oferecer a esses irmãos e irmãs uma jornada catequética é uma forma de amá-los. É ajudá-los a crescer para a maturidade em Cristo (Ef 4.13-14), não mais “como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina”. O catecismo, quando usado com sabedoria, não infantiliza — fortalece. Ele não engessa — edifica. Ele não sufoca — liberta para amar a Deus com a mente e com o coração. 15
Prefácio à edição em português
A aplicação pastoral disso é clara: precisamos voltar a catequizar nossas igrejas. E isso pode começar de modo simples — com uma classe de novos membros que aprende, em perguntas e respostas, o que cremos. Com crianças que recitam juntas, ao final da Escola Dominical, uma verdade aprendida. Com reuniões familiares de meia hora por semana, onde se lê, se responde e se ora. Com grupos pequenos, nos lares, que não se limitam a discutir experiências, mas se debruçam juntos sobre a doutrina da salvação, da igreja, da oração e da vida cristã. O que Ensinando a verdade, treinando os corações também nos oferece — e aqui está uma de suas maiores riquezas — é uma janela para a história viva da fé batista reformada. A obra não apresenta os catecismos como relíquias antigas em uma vitrine empoeirada, mas como instrumentos ainda úteis, relevantes, vibrantes. Cada introdução histórica que precede os textos catequéticos é uma aula — uma viagem pelo tempo — conduzida com rigor e sensibilidade pastoral. Conhecemos ali figuras como Hercules Collins, pastor batista do século 17 que, mesmo em meio a perseguições, teve a coragem de adaptar o Catecismo de Heidelberg com convicções batistas — um gesto ousado e humilde ao mesmo tempo. Lemos sobre Benjamin Keach e sua intenção de formar famílias e igrejas ancoradas na Escritura. Aprendemos com Broadus, Spurgeon, Furman e outros que ensinaram doutrina a centenas — muitas vezes milhares —, começando pelas crianças em seus cultos e reuniões domésticas. Mas a história mais comovente talvez esteja nos relatos das igrejas que catequizavam escravizados afro-americanos no sul dos Estados Unidos, como nos catecismos preparados por E. T. Winkler e Robert Ryland. Por mais complexa que seja essa herança — e é mesmo —, não se pode negar a beleza de ver homens e mulheres privados de liberdade recebendo semanalmente, por meio de perguntas simples e respostas bíblicas, a verdade do evangelho. O livro apresenta trechos comoventes de perguntas como: “Quem é Jesus?”, “O que é fé?”, “O que é o céu?” — respondidas por pessoas cuja esperança estava firmemente fincada no Senhor que liberta, mesmo quando tudo ao redor parecia escravidão. 16
Ensinando a verdade, treinando os corações
Essas cenas históricas — sempre tratadas com cuidado e reverência por Nettles — nos lembram de que a catequese é uma forma de resistência espiritual. Ela ensina os fracos a serem fortes. Ela dá voz ao oprimido. Ela sustenta o pobre. Ela equipa o novo convertido. Ela fortalece o idoso. Ela prepara o pregador. Ela oferece ao corpo de Cristo uma forma concreta de viver a unidade da fé. Mais ainda, ela une gerações. A avó que aprende a mesma resposta que o neto. O adolescente que ensina o irmão menor. A professora de escola dominical que repete com os alunos as mesmas palavras que ouviu de sua mãe anos antes. Isso é mais do que ensino: é tradição viva, herança espiritual, fidelidade transgeracional. Como diz o salmista: Uma geração contará à outra a grandiosidade dos teus feitos; eles anunciarão os teus atos poderosos. (Sl 145.4, NVI)
Ao contemplarmos os frutos de uma vida moldada pela catequese, vemos que eles ultrapassam o domínio da erudição ou da sistematização doutrinária. O verdadeiro catequizado — aquele que aprendeu com fé e amor as “sãs palavras” (2Tm 1.13) — não se torna apenas um conhecedor da verdade. Ele se torna um adorador mais consciente, um servo mais humilde, um cristão mais vigilante. O catecismo forma a consciência. Ele afina o ouvido do coração para a voz da verdade. Ele treina os olhos da fé para enxergar as falsas doutrinas e as meias-verdades do nosso tempo. Ele disciplina a mente a pensar biblicamente e o coração a amar aquilo que é reto. Ele coloca a Escritura não apenas na boca, mas no centro do ser. Como lembra o próprio Nettles, o objetivo do ensino catequético é a transformação — não apenas a informação. Por isso, cada resposta memorizada é uma semente plantada. Cada pergunta é uma janela aberta. Cada doutrina é uma lâmpada acesa no caminho. A doutrina — tão negligenciada em muitos púlpitos e igrejas hoje — deixa de ser um fardo ou uma abstração e se torna aquilo que de fato é: alimento para a alma, luz para os olhos, segurança para a caminhada. 17
Prefácio à edição em português
E, em última instância, o que o catecismo faz é apontar constantemente para Cristo. Ele é o centro de cada resposta, o fundamento de cada verdade, o cumprimento de cada promessa. Ele é o verdadeiro conteúdo da fé cristã. O catecismo apenas nos ajuda a organizar essa contemplação: ele põe em ordem o altar para que a chama da adoração seja acesa. Em um mundo em que tantas vozes disputam o ouvido dos crentes, e em que tantas igrejas têm se tornado espaços de ruído espiritual, o catecismo se apresenta como uma voz clara, serena, fiel e confiável. Ele não muda com os ventos da cultura. Ele não se curva ao gosto do momento. Ele não seduz com promessas vazias. Ele simplesmente ensina — com humildade, com precisão, com firmeza — as grandes verdades da fé. E, por isso mesmo, esta obra precisa ser conhecida, lida, recomendada, compartilhada. Ela é, sem dúvida, uma dádiva de Deus para o nosso tempo — uma resposta à superficialidade que nos ameaça, uma ponte entre o passado fiel e o futuro promissor, um chamado à responsabilidade doutrinária que todo crente deve abraçar. O leitor que se entrega a essas páginas com oração e atenção sairá delas com uma nova visão do que significa ser igreja, educar filhos, pastorear o rebanho, ensinar a fé e viver como discípulo. E mais: sairá com ferramentas práticas para que essa visão se torne realidade — em casa, na igreja, na escola, na rua. Ao terminarmos a leitura desta obra, é impossível não sentir algo semelhante ao que os discípulos sentiram no caminho de Emaús: “Porventura não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (Lc 24.32). É exatamente isso que este livro faz: ele nos acompanha pelo caminho da história da igreja e da tradição batista, e ao longo dessa caminhada, ele nos reacende a paixão pelas Escrituras e pelo ensino fiel da verdade. Não se trata apenas de um trabalho acadêmico, embora seu rigor o recomende aos estudiosos. Também não se trata apenas de uma coletânea de documentos históricos, embora ela preserve com maestria tesouros do passado. Trata-se, antes de tudo, de um presente pastoral. Um convite à fidelidade. Um chamado à reconstrução. 18
Ensinando a verdade, treinando os corações
Tom Nettles e Steve Weaver conseguiram fazer algo notável: combinar doutrina sólida com sensibilidade espiritual, erudição histórica com paixão pedagógica, firmeza teológica com calor pastoral. Poucos livros conseguem ser, ao mesmo tempo, uma introdução ao estudo dos catecismos batistas, uma defesa bíblica de sua prática, uma celebração da herança reformada e um guia para ação concreta nas igrejas locais. Este é um deles. Cada pastor que deseja ver sua congregação crescer na graça e no conhecimento encontrará aqui um mapa confiável. Cada pai ou mãe que deseja ensinar seus filhos “o caminho em que devem andar” (Pv 22.6) encontrará aqui um método testado. Cada jovem que deseja compreender melhor sua fé encontrará aqui um guia fiel. E cada igreja que deseja resistir à maré da superficialidade encontrará aqui uma âncora segura. Mais do que nunca, precisamos resgatar a doutrina como algo pastoral e espiritual. Precisamos reaprender a linguagem da fé. Precisamos ensinar com clareza, amar com profundidade e formar com intencionalidade. Este livro nos lembra que isso é possível — e que é glorioso. Ao final, a sensação que permanece é de gratidão. Gratidão a Deus por levantar servos fiéis que, como os escribas instruídos no Reino, “tiram do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13.52). Gratidão pelos séculos de fidelidade preservada nesses pequenos manuais de perguntas e respostas. Gratidão por saber que ainda hoje o Senhor continua edificando sua igreja, e que uma das ferramentas mais simples e eficazes continua sendo o catecismo — essa velha arte de ensinar a fé com perguntas, respostas, Escritura e amor. É, portanto, com imensa alegria que saudamos a chegada desta obra ao leitor de língua portuguesa. Que presente glorioso é ver este livro — até então tesouro reservado ao público anglófono — agora disponível para servir, edificar e renovar igrejas, lares, corações e púlpitos em nosso mundo lusófono. Esta tradução não apenas transporta palavras, mas transmite uma herança viva. A tradição dos catecismos batistas, as histórias de 19
Prefácio à edição em português
fidelidade doutrinária, os testemunhos de crianças e adultos moldados pela verdade — tudo isso agora pode ecoar com clareza entre nós. Em Portugal, no Brasil, em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e em toda parte onde se fala e lê o português, este livro será um farol. Um farol que aponta para a verdade, para a Palavra, para o Cristo que é a Verdade encarnada. Que pastores usem este livro para preparar suas ovelhas com mais profundidade. Que famílias o abram em suas mesas para aprender e orar juntos. Que escolas cristãs o incorporem em seus currículos. Que seminaristas o leiam com seriedade, e jovens com paixão. Que crianças repitam suas respostas — e adultos as vivam com convicção. Que esta obra, agora em nossa língua, seja usada pelo Senhor para despertar um novo zelo pela doutrina, uma nova paixão pela verdade, e uma nova geração de crentes bem formados, bem fundamentados, bem nutridos. E que tudo isso aconteça não para nossa glória, mas para a glória do Deus que instrui, redime, transforma e sustenta seu povo pela verdade. Ensina-me, Senhor, o caminho dos teus decretos, e os seguirei até o fim. (Sl 119.33)
Soli Deo Gloria Wilson Porte Jr., pastor da Igreja Batista Liberdade de Araraquara (SP) e professor de introdução ao Antigo Testamento, hebraico e plantação de igrejas no Seminário Martin Bucer
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Ensinando a verdade, treinando os corações
Prefácio original Tom Nettles Confesso que adoro catecismos. Gostei de memorizar grandes porções de alguns dos catecismos deste título. É espiritualmente revigorante meditar sobre as frases das respostas e pesquisar as passagens das Escrituras usadas para desenvolvê-las. Esse exercício tem sido tão útil em minha educação teológica pessoal quanto qualquer outra prática individual. Eu adorava passar as tardes de domingo e, às vezes, as noites de semana com meus filhos, descobrindo juntos maneiras de memorizar as belas cadências do Catecismo batista — depois de terem aprendido todas as respostas do Catecismo para meninas e meninos. Eles aplicaram ritmos. Nunca me esquecerei da resposta estrondosa que sempre vinha depois de dominar o ritmo de “pelo qual somos renovados no homem todo, segundo a imagem de Deus, e somos capacitados cada vez mais a morrer para o pecado e viver para a justiça”, (ou CPAAP, “certeza […] paz […] alegria […] avanço […] e perseverança…”), e desafios que uns propunham aos outros para encontrar métodos de memorização. Eles eram mais rápidos e mais espertos do que eu, e “às vezes” usava minha posição de quem formulava as perguntas — por segurar o livro — para escapar do constrangimento diante da realidade óbvia de que eles sabiam a resposta palavra por palavra, enquanto eu ainda lutava para decorar todas as frases. Ainda que o tédio pudesse surgir, minhas lembranças mais vivas das sessões consistem na diversão e na clara convicção de que 21
Prefácio original
trabalhávamos juntos em algo que era certo, que honrava a Deus e sua verdade e era promissor para o desenvolvimento da maturidade espiritual, intelectual e emocional deles. Oro para que essas verdades ainda sejam efetivas nos meus filhos e que eles queiram transmitir essa aventura na verdade para seus filhos. Agradeço-lhes pela diversão e por serem meu laboratório. Os catecismos podem ser usados de cinco maneiras úteis: 1) espero que os pais possam usá-los como parte de um momento de adoração em família; 2) as classes da escola bíblica tanto para crianças quanto para adultos poderiam utilizá-los para orientar ou complementar o estudo doutrinário; 3) os pastores poderiam ler sequencialmente os catecismos, de modo regular, a fim de disciplinar sua exegese e fornecer uma diretriz para alcançar o equilíbrio nos ministérios de ensino e pregação; 4) as escolas cristãs podem considerá-los benéficos como parte do currículo doutrinário em vários níveis de ensino; 5) as aulas dos seminários sobre história e teologia denominacional não encontrariam um testemunho mais sucinto e claro do equilíbrio doutrinário e do testemunho perseverante dos batistas ao longo dos séculos. Embora eu tenha procurado descrever vários outros catecismos no material introdutório, lamento precisar deixar de fora o texto de cada um deles. Pareceu-me mais prático limitar a seleção a esses catecismos, com a intenção de que ofereçam um acesso para informações históricas e de utilidade prática. Um agradecimento especial a Steve Weaver por sua contribuição relativa ao material do Catecismo ortodoxo e a Hercules Collins. O Catecismo ortodoxo é semelhante ao Catecismo batista. Ele mostra a solidariedade com os evangélicos ortodoxos em seu desejo de propagar a fé que uma vez foi entregue aos santos. O Catecismo batista emprega o Breve catecismo de Westminster, e o Catecismo ortodoxo emprega o Catecismo de Heidelberg. Os professores encontrarão maneiras criativas de misturar e combinar respostas e provas bíblicas sobre assuntos comuns de diferentes catecismos para proporcionar uma exibição mais completa das doutrinas envolvidas. Gostaria de agradecer a algumas secretárias cuidadosas e perseverantes que combinaram seus esforços ao longo dos anos para tornar 22
Ensinando a verdade, treinando os corações
este volume possível. Jackie Madon, do Southwestern Baptist Theological Seminary; Camille Couch, do Mid-America Baptist Theological Seminary; Matilda Hunsicker e Stacy Guzzardo (Moo), da Trinity Evangelical Divinity School: todas foram fiéis e competentes em etapas críticas ao longo do caminho. Também agradeço profundamente à Founders Press pela disposição de disponibilizar este livro e, por conseguinte, estes textos. Enfim, por causa da maravilha, do mistério, da beleza e da graça infinita testemunhados pelas verdades contidas neste pequeno volume, digo sinceramente: soli Deo gloria. Steve Weaver Em primeiro lugar, quero expressar minha gratidão a Tom Nettles por me incluir com ele na segunda edição deste importante texto. Devo confessar que, à semelhança de Tom, também amo os catecismos — em grande parte por causa da influência dele sobre minha vida. De fato, como para muitos outros, foi quando li a primeira edição deste livro que me convenci da importância dos catecismos na vida batista. Portanto, é uma grande honra ter recebido a oportunidade de fazer estudos de doutorado com o autor principal deste título e agora fazer uma pequena contribuição para a sua segunda edição. Minha oração é que a nova edição conduza à recuperação contínua do uso dos catecismos na vida batista atual. Minha contribuição consistiu no texto e no ensaio introdutório do Catecismo ortodoxo. Publicado pela primeira vez em 1680, o Catecismo ortodoxo é uma revisão do amado texto do Catecismo de Heidelberg, um catecismo protestante publicado originariamente em 1563. Por mais de 450 anos, esse catecismo tem proporcionado conforto ao povo de Deus. Entretanto, o que tem sido amplamente desconhecido é a revisão publicada pelo pastor batista londrino Hercules Collins na segunda metade do século 17. Espera-se que a inclusão do Catecismo ortodoxo neste volume resulte em um maior conhecimento e uso entre os batistas dessa expressão encorajadora da piedade reformada. No Catecismo ortodoxo, os números das perguntas não estão no original. Eles foram acrescentados para a conveniência do leitor. 23
Prefácio original
Atualizamos o idioma, a pontuação e a ortografia, porém mantivemos as alterações em um nível mínimo. Também corrigimos todas as referências às Escrituras que se acreditava serem erros de digitação no original. Agradecimentos especiais a Richard Barcellos, da Reformed Baptist Academic Press, pela permissão para usar o texto do catecismo que foi originalmente editado para publicação em Hercules Collins, An Orthodox Catechism, ed. Michael R. G. Haykin e G. Stephen Weaver Jr. (Palmdale: Reformed Baptist Academic Press, 2014). Dois acréscimos significativos ao catecismo neste volume são a inclusão da seção sobre a imposição de mãos e o apêndice sobre o canto de hinos, ambos omitidos na edição da RBAP. Uma palavra especial de agradecimento também é devida a Enrique Durán Jr., que fez a transcrição inicial do catecismo e ajudou na sua revisão. Por fim, gostaria de agradecer à editora Founders Press por seu compromisso contínuo com a publicação de materiais edificantes para a igreja, incluindo o presente livro. Sou grato pela visão do diretor executivo Tom Ascol, pelo trabalho de Ken Puls ao orientar este trabalho em seus estágios iniciais, e pelo importante papel de Jared Longshore ao levar, enfim, este livro à forma completa.
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Ensinando a verdade, treinando os corações
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos A vida no início do terceiro milênio depois de Cristo pulsa com gracejos, opiniões e até mesmo motivos que colocariam um livro sobre os catecismos na lata de lixo das irrelevâncias da antiguidade. Na mesma estranha combinação de acordos que conduziu pietistas e racionalistas a derrubar de maneira gradual o cristianismo confessional na Europa dos séculos 17 e 18, algumas pessoas no interior das denominações evangélicas históricas se uniram aos pós-modernistas do século 20 para lançar um olhar de rejeição contra os estranhos arranjos sistemáticos da doutrina bíblica. Com certeza, eles imaginam compartilhar certa antipatia comum com base em perspectivas diferentes; na realidade, do mesmo modo que o pietismo e o racionalismo, os compromissos fundamentais são assustadoramente semelhantes. Enquanto os racionalistas, como Descartes, fizeram da consciência humana o critério final da verdade sob a forma de racionalismo puro, os pietistas a fizeram sob a forma da experiência religiosa. Estes aceitavam a Bíblia e recomendavam seu estudo; criam na conversão e pregavam de modo a gerá-la; acreditavam no certo e no errado e buscavam a santidade na vida pessoal e nas instituições sociais e culturais. Todas essas práticas são corretas, e as igrejas fariam bem em imitá-las em todas as gerações. No entanto, apesar desses elementos positivos, seu descaso para com a vigilância teológica conduziu a um sono teológico posterior, o qual trouxe consigo um pesadelo de horrores. Até hoje, a 25
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
igreja evangélica não foi capaz de exorcizar os demônios criados por tal pesadelo a fim de viver no pleno brilho da luz de Cristo (Ef 5.8-14). Agora, nos últimos dias do modernismo, apelidado “pós-modernismo” em grande parte da literatura contemporânea, a consciência humana ainda serve como critério da verdade. Não obstante, existe uma diferença significativa: a confiança no racionalismo como algo capaz de desvendar os segredos do mundo e o significado da vida, bem como de apresentar à humanidade uma prova exaustiva da verdade para sempre libertar a mente do ser humano evaporou. O racionalismo conduziu ao irracionalismo; agora, pois, a consciência humana, sob a forma de desejo individual, reina suprema. Nem a verdade nem um conjunto uniforme de padrões governam o meio pós-moderno. Um estilo de vida, escolhido de acordo com os desejos pessoais, é tão bom quanto outro. A única regra consiste em “não absolutizar”. Uma vez mais os evangélicos, de alguma forma, consideram útil essa mentalidade na tentativa de justificar suas ações. Um apelo ao caráter absoluto do ego exerce uma influência desordenada sobre a adoração, as práticas e crenças das igrejas e organizações evangélicas. A estrutura das construções, a pregação dos sermões, o desenvolvimento dos programas da igreja, a formação de grupos de estudo, a oferta de recreação e até mesmo o envolvimento em missões tendem a se concentrar na realização pessoal, autoimagem positiva, nos desejos individuais e no ambiente não ameaçador. A poderosa atração e até mesmo a capacidade de governar desses (não) valores, embora apareçam em áreas como o arranjo físico do edifício e o conteúdo da adoração congregacional, surtem o efeito mais devastador na pregação e na educação religiosa. As duas formas de administrar o “depósito da verdade” estão passando por sérias dificuldades. A ideologia pós-modernista tornou-se uma paixão na igreja. Seus guardiões permitiram — e às vezes até encorajaram e ensinaram — que o deus Eu fosse apreciado e acariciado até o ponto perigoso de adultério espiritual. Governar a vida e a igreja por meio da Verdade em lugar da opinião, do prazer e da experiência dos indivíduos pode ser desagradável para muitos, mas, para quem provou que o Senhor 26
Ensinando a verdade, treinando os corações
é bom, trata-se da porta para um banquete de bênçãos espirituais e delícias celestiais. Os batistas têm participado desse flerte com o pós-modernismo e entrado em suas correntes religiosas e seculares. Para eles, a proposta de compromisso religioso que inclui o ensino de um catecismo pareceria estranha, na melhor hipótese, e até mesmo muito ofensiva para muitos. Outros, no entanto, mantêm certa continuidade com o pietismo e ainda valorizam a ênfase batista na conversão e no princípio da autoridade bíblica tão central na história batista. Eles considerariam as palavras “catecismo batista” mutuamente excludentes. Podem até trabalhar com o conceito errôneo de que os catecismos são usados em tempos e lugares onde predominam visões inadequadas de conversão ou onde o fogo do evangelismo há muito se transformou em cinzas esbranquiçadas. Se a Bíblia é pregada, continuam a afirmar, nenhum catecismo se faz necessário; os catecismos tendem a produzir, insistem, mero assentimento intelectual onde a verdadeira religião do coração está ausente. Por boas razões, portanto, alguns nutrem uma profunda suspeita em relação aos catecismos. A preocupação reflete um interesse saudável pelo lado experimental do verdadeiro cristianismo. Dentre eles, alguns se aproximaram das principais linhas do protestantismo ou do catolicismo romano. Nesses contextos, aprenderam uma confissão, participaram de aulas de um catecismo, foram confirmados e, mais tarde, ouviram o evangelho e abraçaram Cristo com fé salvadora. Depois, deixaram a denominação anterior e se uniram a uma congregação mais centrada na Bíblia e na conversão. Ao proceder assim, interpretam sua experiência com catecismos, em grande parte, em termos negativos. Na realidade, as impressões dessas experiências provavelmente serviram como preparação para entender e receber o evangelho. Logo, a preocupação com a conversão e o fervor nunca deve diminuir o compromisso de alguém com as verdades individuais do cristianismo nem a necessidade de ensiná-las de maneira completa e coerente. Na verdade, algumas pessoas que professam a fé cristã são tão voltadas para a experiência, que sua visão da espiritualidade as torna 27
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
antagônicas à doutrina precisa. Qualquer tentativa de inculcar um arranjo sistemático da verdade é considerada divisiva ou carnal. Tais convicções podem ser mantidas com toda a sinceridade e podem ganhar apoio aparente de fatos determinados, porém a adequação real desses temores não pode ser sustentada de maneira histórica, bíblica ou prática. O objetivo deste livro é remover tais conceitos errôneos e fornecer aos batistas do tipo pós-moderno e pietista uma visão da instrução cristã que possa informar a mente e atrair o coração. A história recomenda a utilidade dos catecismos Infelizmente, a igreja primitiva conhecia muito bem a dor da apostasia de cristãos professos. A perseguição e o poder contínuo das práticas de adoração pagãs ocasionaram a queda de muitos e levaram os primeiros cristãos a desenvolver métodos para instruir as pessoas que pareciam ter se convertido antes do batismo. O período de instrução e catequização servia a dois propósitos: permitia que o candidato (catecúmeno) decidisse se queria se submeter de fato ao batismo cristão, e dava à igreja a oportunidade de discernir o caráter genuíno de sua conversão (até onde a observação humana é capaz). Assim, depois de se envolverem num período de jejum e oração com a igreja, os candidatos eram batizados. O uso do catecismo servia como garantia da pureza da igreja. Homens como Tertuliano e Agostinho atuavam como catequistas na igreja. Quase todos os pastores (bispos) contavam com grandes classes de catecúmenos. Algumas das declarações mais claras e vitais do comprometimento teológico procedem dos escritos destinados à catequese. Juliano, o Apóstata (c. 360), temia tanto a eficácia desse empreendimento que fechou todas as escolas cristãs e locais de literatura pública e proibiu a instrução dos jovens. Com a união entre a igreja e do Estado no final do quarto século e o desenvolvimento gradual do batismo infantil, a natureza da instrução catequética foi alterada. O procedimento da instrução catequética pré-batismal foi se transformando em instrução após o batismo, em preparação para a confirmação. Em muitos lugares, a 28
Ensinando a verdade, treinando os corações
catequese desapareceu por completo. A cristianização em massa das tribos bárbaras na Idade Média acabou dando um novo rumo à ideia da catequese. Carlos Magno insistiu que cada pessoa batizada deveria saber pelo menos a Oração do Senhor e o Credo. Essa preocupação se estendia às crianças das tribos cristianizadas. Embora mínima, a instrução era necessária, e a garantia para isso provinha dos padrinhos, os quais também deviam conhecer o Credo e a Oração do Senhor. À medida que o ato da confirmação ganhou importância, o exame dos pontos básicos da doutrina cristã se tornou um procedimento normal. Esse tipo de prática levou à impressão de que os catecismos substituíam a conversão em algumas tradições. A Era de Ouro dos catecismos surgiu com a Reforma. Lutero e Calvino priorizaram a instrução pelo método catequético e consideraram o sucesso da Reforma como algo quase dependente da fidelidade dos protestantes a esse processo. Em 1548, Calvino escreveu a Somerset, lorde protetor de Eduardo VI, sobre os meios pelos quais a Reforma completa poderia ser realizada: Em primeiro lugar, deve haver um resumo explícito da doutrina que todos devem pregar, que a totalidade dos prelados e coadjutores juram seguir; ninguém deve ser recebido em qualquer cargo eclesiástico sem prometer preservar tal acordo. Em seguida, que haja uma fórmula comum de instrução para as crianças pequenas e as pessoas ignorantes, servindo para tornar conhecidas a elas a sã doutrina, de modo que lhes seja apresentada a forma de discernir a diferença entre ela e a falsidade e as corrupções. Acredite, senhor: a igreja de Deus nunca será preservada sem um catecismo, pois ele é como a semente que impede que o bom grão morra e o usa para se multiplicar de período em período. Portanto, se o senhor deseja construir um edifício que perdure bastante e não entre logo em decadência, tome providências para que as crianças sejam instruídas com um bom catecismo, o qual lhes mostre de maneira breve, em linguagem adequada à sua tenra idade, no que consiste o verdadeiro cristianismo. O catecismo servirá a dois propósitos: introdução para todo o povo, de modo que cada um possa tirar proveito do que será pregado, e capacitação para discernir quando qualquer pessoa 29
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
presunçosa apresentar uma doutrina estranha. […] em terceiro lugar, a fim de tirar todo o terreno de pretensão para introduzir qualquer excentricidade ou doutrina nova por parte de quem apenas procura satisfazer uma fantasia ociosa; como já disse, o catecismo deve servir como um controle sobre tais pessoas.1
O Catecismo de Heidelberg e o Catecismo de Westminster tiveram o impacto mais significativo no protestantismo reformado. O primeiro, datado de 1562, começa com duas perguntas que estabelecem o formato para o restante do documento. 1.
Qual é o seu único conforto na vida e na morte? Que eu, com corpo e alma, na vida e na morte, não sou meu, mas pertenço ao meu fiel Salvador Jesus Cristo, o qual com seu precioso sangue satisfez plenamente todos os meus pecados e me redimiu de todo o poder do diabo; e me preserva de tal forma que, sem a vontade de meu Pai que está nos céus, nenhum fio de cabelo pode cair de minha cabeça; sim, todas as coisas devem cooperar para minha salvação. Logo, por meio de seu Santo Espírito, ele também me assegura a vida eterna e me faz de coração disposto e pronto a viver para ele.
2.
Quantas coisas é necessário você saber, para que, com esse conforto, possa viver e morrer feliz? Três coisas: em primeiro lugar, a grandeza do meu pecado e da minha miséria. Segundo, como fui redimido de todos os meus pecados e miséria. Terceiro, como devo ser grato a Deus por essa redenção.
As três partes do catecismo que se seguem são intituladas “Da miséria da humanidade”, “Da redenção da humanidade” e “Da gratidão”. Nessas seções, são feitas exposições completas de perguntas 1
João Calvino, Selected Works of John Calvin, 7 vols., ed. Henry Beveridge e Jules Bonnet (Grand Rapids: Baker Book House, 1983), vol. 5, p. 191.
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Ensinando a verdade, treinando os corações
e respostas sobre a Queda, o Credo dos apóstolos, o batismo e a Ceia do Senhor, a perseverança, os Dez Mandamentos e a Oração do Senhor. Hercules Collins, um dos principais batistas ingleses do século 17 e sucessor de John Spilsbury como pastor na primeira igreja batista particular, adotou o Catecismo de Heidelberg como base para sua publicação de 1680 do Catecismo ortodoxo. Collins considerava que essa duplicação prática do Catecismo de Heidelberg deveria fortalecer a utilidade da obra, “esperando que não haja um espírito ateniense em nenhum dos senhores, mas acreditando que o evangelho antigo (para os senhores que têm a doçura dele) será mais aceitável do que um novo”.2 Parte de seu objetivo abarcava a demonstração da unidade básica com a comunidade protestante mais ampla. No discurso fúnebre de Collins, John Piggott lembrou à congregação que “seu Catecismo […] estava de acordo com os sentimentos das igrejas reformadas em todos os artigos fundamentais da fé”.3 Collins acreditava que o catecismo era uma “peça sólida de teologia” e expressou a esperança de que os leitores soubessem do seg uinte: “Concordo com a teologia mais ortodoxa contida nos Fundamental Principles and Articles of the Christian Faith [Princípios e artigos fundamentais da fé cristã], e também os expressei com diligência nas mesmas palavras”. Embora fosse um batista zeloso que trabalhava pela restauração da igreja pura e observância pura das ordenanças, ele defendia de modo sincero: “Seja o que for que haja de bom em alguém, reconhecido por alguém, qualquer que seja o erro ou vício [na constituição da igreja] com o qual possa estar misturado, o bem não deve ser rejeitado por causa do erro ou vício, mas reconhecido, elogiado e aceito”.4 Embora dezenas de catecismos tenham sido produzidos em inglês no século 17, os mais influentes foram os procedentes da Assembleia 2
3 4
Hercules Collins, An Orthodox Catechism: Being the Sum of Christian Religion, contained in the Law and Gospel. Published for Preventing the Canker and Poison of Heresy and Error (Londres, 1680), “Prefácio” [não numerado]. Collins também propôs o uso do Credo niceno, do Credo atanasiano e do Credo dos apóstolos. Joseph Ivimey, A History of the English Baptists, 4 vols. (Londres, 1811-1830), vol. 2, p. 435. Collins, “Preface” [Prefácio] de An Orthodox Catechism.
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Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
de Westminster, o Catecismo maior e o Breve catecismo. O Breve catecismo influenciou em especial a vida batista, pois formou a base do Catecismo de Keach (ou Catecismo batista) e, mais tarde, do Catecismo de Spurgeon. Nos Estados Unidos, o catecismo da Associação da Filadélfia e o catecismo da Associação de Charleston eram duplicatas do Catecismo de Keach. Richard Furman, pastor de longa data da First Baptist Church de Charleston (Carolina do Sul), usou-o de modo fiel e eficaz. Vários princípios pareciam reger a teoria dos catecismos Em primeiro lugar, muitos catequistas acreditavam que deveriam ser produzidos catecismos de diferentes níveis. Lutero publicou dois, como o teólogo escocês John Craig e o puritano John Owen (Two Short Catechisms [Dois breves catecismos]). Richard Baxter publicou três, adequados para a infância, juventude e idade madura. Os dois catecismos da Assembleia de Westminster são bem conhecidos. Henry Jessey, outro dos principais líderes batistas, compôs três catecismos publicados em conjunto. Um deles, A Catechism for Babes or Little Ones [Catecismo para crianças de tenra idade ou pequeninos], continha apenas quatro perguntas: o que o ser humano era, é, pode ser e deve ser. John A. Broadus incluiu seções de “perguntas avançadas” no final de cada parte respectiva no corpo de seu catecismo. Essa dificuldade gradativa no catecismo se baseava na teoria de que, quanto mais cedo o Senhor for marcado na mente, mais indelével será o resultado. Em segundo lugar, de modo geral, a memorização precisa é considerada importante. Neste ponto, a força das palavras para comprovar a realidade reforça a necessidade de precisão. “Sirvo a um Deus preciso”, afirmou Richard Rogers. Lutero instruiu quem ensinava o Catecismo menor a “evitar mudanças ou variações no texto e na redação”. Devemos ensinar essas coisas, continuou ele, “de tal modo que não alteremos uma única sílaba nem recitemos o catecismo de forma diferente de ano para ano”. As instruções para os ministros da Igreja Reformada da Holanda insistiam que o texto dos cinco capítulos deveria ser memorizado pelos alunos “de forma completa e não adulterada, sem 32
Ensinando a verdade, treinando os corações
substituí-lo por palavras estranhas que às vezes alteram o significado e dão ao texto um sentido oposto”. Em terceiro lugar, o principal objetivo da instrução catequética era o conhecimento do coração, mais do que o conhecimento exato da cabeça. De modo principal, a catequese visa os olhos da compreensão — o conhecimento do coração. Mesmo na Assembleia de Westminster, alguns dos presentes estavam preocupados com o fato de que “as pessoas aprenderão as coisas de forma mecânica e poderão responder como um papagaio, mas não entenderão o assunto”. O objetivo do catecismo é, sob a direção de Deus, expulsar as trevas do entendimento do pecador, para que ele possa ser iluminado pelo conhecimento de Cristo e abraçá-lo livremente mediante o perdão dos pecados. John Bunyan escreveu de modo específico o livro Instruction for the Ignorant [Instrução para os ignorantes] a fim de que Deus o abençoasse com o objetivo de despertar muitos pecadores e salvar-lhes a alma pela fé em Jesus Cristo. O principal objetivo do Catechism for Babes [Catecismo para crianças de tenra idade], de Henry Jessey, consistia em instruir sobre o perdão divino aos que “merecem a morte e a maldição de Deus”, e ainda pudessem “ser honrados com esse perdão, sendo nós maus como somos”. Henry Fish, um batista americano, escreveu um catecismo intitulado The Baptist Scriptural Catechism [O catecismo batista das Escrituras], publicado em 1850 por Edward H. Fletcher. Fish, um grande observador e promotor de avivamento e defensor da eloquência no púlpito, atrelou firmemente a aplicação de cada seção de seu catecismo por meio de uma pergunta retórica pungente que selava a discussão de cada doutrina. Por exemplo, sua seção sobre a fé encerra-se assim: “Você é crente ou a ira de Deus permanece sobre você por causa da sua incredulidade?”. Na seção sobre regeneração e o Espírito Santo, pergunta-se: “Você dá provas de ter sido renovado pelo Espírito Santo?”. A respeito da eleição é formulada a seguinte pergunta: “A julgar por esse padrão [ou seja, arrependimento, fé e prática de boas obras como evidências de eleição], você tem alguma razão para esperar que seja objeto do amor eletivo dele? Caso não seja, você não conta com 33
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
motivos profundos para se preocupar?”. Depois de uma forte seção de respostas ao assunto da onipotência e independência de Deus, Fish encerra com a pergunta: “Já que você se encontra totalmente sob o poder desse ser todo-poderoso, existem motivos para que você tema ou se alegre, por conta de seu caráter e condição atuais?”. Um catecismo escrito por John Sutcliff aponta essa mesma preocupação como o objetivo da instrução catequética. P.
Para concluir: o que você aprendeu com o catecismo e que repete agora?
R.
Aprendi que os assuntos de minha alma são da maior importância e devem ser minha principal preocupação.
É muito positivo que esse foi na realidade o resultado frequente da instrução catequética. Luther Rice, o grande promotor de missões nos EUA, disse isto ao refletir sobre sua conversão: Depois de me encontrar assim feliz no Senhor, comecei a refletir durante um dia ou dois se havia algo de Cristo em relação a essa reconciliação com Deus, ou não! Então me veio à mente, de forma muito querida e doce, que todo esse efeito e experiência benditos surgiram claramente a partir da eficácia da declaração feita por Cristo: eu era totalmente devedor a ele por tudo isso e, de fato, todo o sistema luminoso da teologia, apresentado no Catecismo de Westminster, abriu-se em minha mente com luz, beleza e poder. Isso eu havia sido ensinado a repetir quando criança. Na época, senti-me, e ainda me sinto, feliz por ter sido ensinado dessa forma.5
Uma lembrança encantadora de uma das crianças que Furman catequizou representa uma imagem clara da importância que ele dava a esse processo e a essas doutrinas. Uma edição de 1926 de In Royal Service [A serviço do Rei] cita a lembrança que um neto teve da experiência de sua avó com Furman:
5
J. B. Taylor, Memoir of Rev. Luther Rice (Baltimore: Armstrong and Berry, 1840), p. 25-26.
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Ensinando a verdade, treinando os corações Não tínhamos escola dominical na época, porém dispúnhamos do Catecismo batista, com o qual estávamos tão acostumados quanto com a Oração do Senhor. Em nossas reuniões trimestrais, nós, crianças da congregação, repetíamos o Catecismo em pé, em um círculo ao redor do batistério. Éramos cerca de 61. As meninas ficavam ao sul do púlpito e os meninos se reuniam com elas no centro, ao norte; o Dr. Furman, com seu jeito majestoso e vitorioso, descia os degraus do púlpito e, com o livro na mão, começava a fazer perguntas, começando pelos pequenos (alguns eram realmente muito pequenos, mas foram bem ensinados e treinados em casa). Tínhamos de memorizar o livro inteiro, pois ninguém sabia qual pergunta lhe seria feita. Ainda ouço neste exato momento a voz querida de nosso pastor dizendo: “Um pouco mais alto, minha filha”, e então a voz trêmula e doce aumentava um pouco. Era uma maravilha para os visitantes, nessas ocasiões, o autocontrole e a precisão manifestados por toda a classe. Essa prática era de um benefício incalculável; pois, quando Deus se agradou em nos mudar o coração, e quando nos oferecemos à igreja para sermos membros, conhecíamos o significado das doutrinas da igreja e estávamos bem familiarizados em responder perguntas diante de toda a congregação, e não tremíamos quando o pastor, o diácono ou qualquer outra pessoa perguntava o que entendíamos por batismo, Ceia do Senhor, justificação, adoção, santificação. Ah, não; tínhamos sido bem ensinados. […] É uma pena que esse tipo de instrução tenha sido abandonado.
Em quarto lugar, a compreensão cognitiva também era necessária. É preciso muita disciplina e concentração para que a profunda verdade do grande Eu Sou seja traduzida em uma linguagem digerível e compreensível para as crianças. Henry Jessey reconheceu a deficiência nesse ponto em alguns dos primeiros catecismos para crianças, pois algumas respostas continham expressões em latim e grego. Jessey “desejava observar expressões simples e fáceis, para que as próprias crianças, que só conseguem falar balbuciando e contam com uma capacidade muito limitada, pudessem entender seu significado”.6 6
Henry Jessey, A Catechism for Babes or Little Ones (Londres: Henry Hills, 1652), prefácio. Este catecismo foi reimpresso no Harvard Library Bulletin, vol. 30, no. 1 (janeiro de 1982), p. 42-53.
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Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
John R. Broadus sentiu a mesma tensão ao escrever A Catechism of Bible Teaching [Catecismo de ensino bíblico], incluído neste volume. Refletindo sobre a conclusão da Lição n.º 1, intitulada “Deus”, Broadus declarou: “É, sem dúvida, uma tarefa difícil ao extremo formular perguntas e respostas sobre a existência e os atributos do ser divino inteligíveis às crianças, adequadas como base para o pensamento futuro e corretas ao máximo”. Essas três diretrizes devem servir bem para julgar qualquer catecismo. Os catecismos batistas existem praticamente desde o surgimento dos batistas modernos no século 17. Os batistas particulares e os batistas gerais na Inglaterra usavam catecismos para instruir crianças e adultos. Uma admoestação que aparece na carta circular de 1777 dos ministros e mensageiros batistas reunidos em Oakham (Rutlandshire, Inglaterra) exemplifica o compromisso dos batistas particulares com a catequização: Nossa confissão de fé e nosso catecismo para a instrução dos jovens estão publicados para o mundo; e esperamos que vocês nunca se afastem de seus princípios gloriosos. […] No momento, louvado seja Deus, cremos não haver apostasia perceptível em nossos ministros e em nosso povo em relação aos princípios gloriosos que professamos; contudo, ao mesmo tempo, devemos lhes dizer, com grande clareza e fidelidade, que a catequese das crianças é muito negligenciada de maneira particular nas famílias e em público nas congregações. […] Nossos honrados irmãos, os ministros de Bristol, passaram a incentivar, pouco tempo atrás, a publicação de duas edições de nosso catecismo, […] e nós os incentivamos com toda a sinceridade a se munirem desse excelente compêndio da verdadeira teologia, e que vocês os ensinem com diligência, em particular, a seus filhos, e desejem que seus pastores os instruam, pelo menos durante o verão, em público.
Entre os batistas gerais, Thomas Grantham, no século 17, e Dan Taylor, no século 18, perceberam o valor do uso de catecismos para o ensino da doutrina. O St. Paul’s Catechism [Catecismo de São Paulo] (1687), escrito por Grantham, inculcava a teologia arminiana e usava 36
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os seis princípios de Hebreus 6 como guia. Seu formato era incomum: o filho formula as perguntas e o pai as responde. As perguntas e as respostas são muito longas e pesadas para serem memorizadas com facilidade. O catecismo de Dan Taylor, A Catechism of Instruction for Children and Youth [Catecismo de instrução para crianças e jovens], passou por oito edições até 1810. Ele não realizou nenhuma tentativa ousada de inculcar as marcas distintivas do arminianismo; em vez disso, dedicou muito espaço à doutrina do pecado, sua hediondez, seus efeitos debilitantes, suas consequências e a necessidade resultante da regeneração. À luz das controvérsias cristológicas entre os batistas gerais, nas quais Taylor foi um dos principais participantes, a omissão de um capítulo em separado sobre a pessoa de Cristo é um fato incomum. No início do século 19, os batistas da Virgínia costumavam considerar a questão de como a educação religiosa das crianças deveria ser conduzida. Na reunião geral e nas associações separadas, a resposta era: “Mediante o uso de catecismos”.7 Semple descreveu um debate na Associação de Dover sobre o emprego de catecismos, no qual quase todas as objeções ao seu uso foram apresentadas e respondidas. Os catecismos seriam desnecessários, uma vez que a Bíblia era suficiente e os catecismos tendiam a diminuir a dignidade das Escrituras na avaliação das pessoas. Além disso, os catecismos teriam sido usados para inculcar os “sentimentos mais corruptos e absurdos”.8 Semple resumiu a resposta dos defensores do catecismo: que homens corruptos podem comunicar sentimentos corruptos por meio dos canais mais sagrados; que o púlpito e a imprensa, a conversação e até mesmo a oração pública são às vezes veículos de doutrinas insensatas; que não consiste em indignidade a Bíblia inculcar na mente dos filhos os princípios e deveres sancionados pela totalidade das Escrituras; que tais formas de instrução
7 8
Robert Baylor Semple, History of the Rise and Progress of Baptists in Virginia (Richmond: Pitt & Dickinson, 1894), p. 117, 127. Ibid., p. 136.
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Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
auxiliavam bastante os pais no cumprimento de seu dever, visto que poucos deles seriam capazes de explicar a Bíblia de modo adequado para a instrução dos filhos; que os costumes e a moral dos filhos dos batistas crescidos nos últimos tempos evidenciavam com clareza que a educação religiosa havia sido muito negligenciada.9
O Sunday School and Publication Board of the State Convention of North Carolina [Junta de Escola Dominical e Publicações da Convenção Estadual da Carolina do Norte] produziu um catecismo destinado a ensinar o conhecimento específico dos fatos das Escrituras.10 Em 1864, o Baptist Banner Office em Augusta, Geórgia, publicou A Catechism for the Little Children [Catecismo para as criancinhas], do Tio Dayton (R. C. Dayton), com um novo enfoque centrado no conhecimento das Escrituras. Pelo menos dois catecismos foram produzidos pelos batistas norte-americanos em 1866. Um deles, publicado pela American Baptist Publication Society [Sociedade Americana de Publicações Batistas], procedeu de um concurso realizado por ela. Um comitê editou a contribuição vencedora e publicou o The Prize Catechism [Catecismo de Prize] como The Baptist Catechism [Catecismo batista]. Ele segue a ordem e, às vezes, a redação do Catecismo de Keach. Sua teologia é um calvinismo claro, vigoroso e evangelístico. As trocas de ideias a seguir ilustram a clareza e a abertura com que as doutrinas da graça foram adotadas. 30.
Se os homens fossem deixados por conta própria, será que algum deles aceitaria a oferta de salvação? Os seres humanos são tão pecadores, que nenhum deles aceitaria a oferta de salvação, a não ser pela ação graciosa do Espírito Santo.
9 10
Ibid. A cópia de propriedade do autor procede de microfilme na biblioteca do Southwestern Baptist Theological Seminary. As páginas 2 e 3 foram omitidas na cópia. Elas provavelmente contêm a data da publicação. Eu diria que a publicação é do início da década de 1860.
38
Ensinando a verdade, treinando os corações
32.
O que é regeneração? Regeneração é uma obra do Espírito Santo, por meio da qual o coração é renovado a fim de que se converta do amor ao pecado para o amor à santidade, e da inimizade e desobediência a Deus para o amor e serviço dele.
33.
Os verdadeiramente regenerados se perderão? Nenhum dos verdadeiramente regenerados se perderá, pois são mantidos pelo poder de Deus, por meio da fé, para a salvação.
38.
Todos os homens recebem esses benefícios da expiação? Nem todos os seres humanos recebem esses benefícios da expiação; apenas os eleitos em Cristo Jesus.
39.
O que é eleição? Eleição é o propósito de Deus, pelo qual os salvos foram escolhidos antes da fundação do mundo para serem conformados à imagem de seu Filho — a quem foram dados como seu povo.
O segundo catecismo dos batistas americanos em 1866, escrito por William W. Everts, foi intitulado Compend of Christian Doctrines Held by Baptists [Compêndio de doutrinas cristãs defendidas pelos batistas]. Originalmente publicado em Chicago pelos editores Church & Goodman, foi reeditado em 1887 pela American Baptist Publication Society no Baptist Layman’s Book [Livro dos leigos batistas]. Essa edição posterior empregou a Confissão de fé de New Hampshire como princípio ordenador e compartilha o mesmo calvinismo claro de antes. De fato, na edição de 1887, Everts não indica nenhum constrangimento com o termo “calvinista” na resposta a uma pergunta sobre a perseverança: “Os principais defensores da doutrina admitem haver um estágio da experiência do qual ninguém pode cair. Os calvinistas fizeram essa experiência coincidir com o novo nascimento”. Esse catecismo contém 39
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
uma exposição das bem-aventuranças. Por exemplo, em resposta a como a bênção do conforto é concedida àqueles que choram, Everts escreve: “Mediante o alívio, o término e a santificação da tristeza, e coroando-a com a esperança celestial”. Os batistas do Sul desenvolveram catecismos como ferramentas valiosas para a educação religiosa e a evangelização dos escravizados. Em 1848, Robert Ryland publicou A Scripture Catechism for the Instruction of Children and Servants [Catecismo bíblico para a instrução de crianças e servos] e, em 1857, E. T. Winkler publicou Notes and Questions for the Oral Instruction of Colored People [Notas e perguntas para a instrução oral de pessoas de cor]. Cada um desses catecismos contém 52 lições, uma para cada Dia do Senhor no ano. O catecismo de Ryland é descrito com detalhes mais adiante neste volume. Estão incluídos exemplos do Notes and Questions de Winkler. Em 1863, quando a Sunday School Board of the Southern Baptist Convention [Junta da Escola Dominical da Convenção Batista do Sul] foi fundada, uma de suas primeiras publicações consistiu em A Catechism of Bible Doctrine [Catecismo de doutrina bíblica], de James P. Boyce. Em um período de quatro meses em 1864, dez mil dessas publicações foram impressas e distribuídas. Em 1879, os batistas do Sul solicitaram a John L. Dagg que compusesse “um catecismo […] contendo a substância da religião cristã, para a instrução de crianças e servos”. Evidentemente, esse catecismo nunca foi concluído. Quando a Convenção Batista do Sul estava considerando o restabelecimento da Junta da Escola Dominical em 1891, o primeiro novo projeto proposto foi a publicação de um catecismo de John R. Broadus. Tal catecismo foi impresso e usado de forma ampla e proveitosa. A comunidade batista de hoje se beneficiaria com a retomada do conselho apresentado em The Baptist Encyclopedia [Enciclopédia batista], de Cathcart, que incentiva “os pais a empregarem o catecismo no lar” porque “esse costume negligenciado do passado deveria ser revivido em todas as famílias batistas do mundo”. 40
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Resumo e conclusão Os catecismos têm servido para várias funções ao longo da história. Nos primeiros séculos da história cristã, eles eram usados para instrução pré-batismal. Mais tarde, depois da disseminação do batismo infantil, passaram a ser usados para educar as massas batizadas na infância. Carlos Magno, em particular, providenciou que a instrução catequética fosse dada em seu período de ignorância embaraçosa. Durante a Reforma, os catecismos atenderam a várias necessidades importantes e urgentes. Como um tipo de confissão personalizada, eles ajudaram a estabelecer com nitidez as doutrinas distintas consideradas primordiais pelos reformadores. Além disso, seu poder polêmico ajudou na tarefa de trazer um corretivo cordial para a doença espiritual enganosa propagada pelo catolicismo romano. Ademais, foram eficazes no ensino da verdade bíblica como um empreendimento contínuo em cidades e países que adotaram a Reforma. Os puritanos e seus herdeiros utilizaram os catecismos como ferramenta evangelística. Os batistas, incluindo-se os batistas do Sul, produziram dezenas de catecismos para serem usados dessa forma. Vemos então que, como todas as boas ideias, os catecismos estão sujeitos a abusos, e seus males perduram. Entretanto, não devemos deixar que o bem seja enterrado com seus ossos, mas sim ressuscitá-lo como um instrumento eficaz para um novo dia de Reforma. A Bíblia incentiva o uso de catecismos Não obstante, a precedência histórica não fornece por si só a justificativa suficiente para o uso de um método no ensino da verdade cristã. Para os comprometidos com o princípio regulador das Escrituras, não se pode contornar as bases bíblicas — ordenadas de maneira direta ou inferidas com legitimidade a partir da compreensão robusta da lógica revelada. É necessário estabelecer, portanto, que, além das lições da história, a própria Escritura incentive o uso de catecismos. Os meios pelos quais Deus realiza a justificação e a transformação subsequente incorporam a mensagem bíblica de uma forma notável e consistente com o propósito, o conteúdo e a disposição dos catecismos na tradição 41
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
da Reforma. Os sopros divinos que produziram as Escrituras criam tanto o pressuposto quanto o propósito consistentes com essa maneira de lidar com a instrução. O pressuposto é a autoridade, suficiência e consistência das Escrituras; o propósito é a preparação da mente e da consciência para a obra de regeneração do Espírito e o aumento da maturidade espiritual nos filhos de Deus. Os exemplos ou modelos de instrução usados pela igreja do primeiro século existem em grande quantidade nas Escrituras — no método e conteúdo. Eles deixam claro que o emprego de resumos, porções prontamente digeríveis da verdade da revelação, consiste na instrução eficaz na igreja. Além disso, admoestações implícitas dessa forma de educação estão espalhadas pelas páginas da Bíblia e misturadas com os modelos mencionados acima. A abordagem catequética não deve ser usada para servir a qualquer fascínio por sistemas e abstrações ou para se encher de conhecimento especulativo em vez de aumentar o amor a Deus (1Co 8.1). Em vez disso, é uma maneira de os cristãos aumentarem sua capacidade de usar as Escrituras de acordo com o propósito destas. A instrução com esse tipo de precisão constitui uma resposta obediente à própria Bíblia e cumpre os princípios bíblicos que sustentam o processo de formação de discípulos. Cumprimento do propósito das Escrituras A pregação, o ensino e a meditação (todos estes meios bíblicos de crescimento espiritual) requerem ênfases um pouco diferentes no uso das Escrituras e realizam tarefas variadas para nos conformar a Cristo. A pregação surge sob a forma de uma proclamação, e desafia e corrige nossos pensamentos e ações, ensinando-nos sobre a graça de Deus no evangelho e chamando-nos ao arrependimento e à obediência mais profundos. O ensino, não mais voltado para o conteúdo nem menos confrontador do que a pregação, emprega um formato menos semelhante a um monólogo e mais voltado para o questionamento e a discussão. A meditação envolve a avaliação pessoal prolongada dos próprios pensamentos e ações em comparação com a beleza e o caráter 42
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santo de Deus, revelados nas Escrituras e impressos no coração pelo Espírito Santo. Em cada um desses casos, não só a pessoa bem catequizada conta com uma vantagem distinta, mas o uso da abordagem catequética representa um elemento básico do próprio procedimento. Os detentores de um bom conhecimento das Escrituras ganham mais com a boa pregação. Se, além disso, tiverem sido treinados para ver a estrutura coerente da verdade bíblica e puderem definir seus princípios fundamentais, o conhecimento das Escrituras será mais preciso e completo. O benefício consequente da pregação aumenta. Mais informações serão fornecidas sobre isso na avaliação das vantagens práticas. O ouvinte bem catequizado não considera as palavras e ideias do pregador como fragmentos isolados da verdade; ele as entende como elementos constituintes da “fé” que deve governar nossos esforços para alcançar a “unidade na fé”. Matthew Henry, um erudito bíblico e pastor puritano do século 17, afirmou: “A catequização faz com a pregação da palavra o mesmo bom trabalho que João Batista fez com nosso Salvador; ela prepara o caminho e endireita suas veredas, e, ainda assim, como ele, apenas repete as mesmas coisas”. A relação entre a instrução preparatória e a pureza da adoração foi tecida no próprio fio da história de Israel. O povo recebeu a ordem de instruir seus filhos nos caminhos de Deus. Quando uma criança israelita perguntava ao pai: “Que significam os testemunhos, e os estatutos, e os juízos que o Senhor nosso Deus te ordenou?”, o pai deveria responder com um resumo das poderosas obras de Deus para redenção do povo (Dt 6.20-25). Tais atos divinos poderiam ser expostos de forma mais completa em outros contextos, porém o resumo servia como base de toda a conduta e adoração. Poderíamos concluir que toda a história de Israel foi uma preparação catequética para o sermão de Pedro no Pentecostes. É claro que foi muito mais do que isso. Pedro explicou o que as pessoas observaram com as palavras: “O que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta” (At 2.16), e a explicação foi suficiente. Seu apelo à confirmação do ministério de Jesus por meio de milagres e sinais 43
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
(At 2.22) era coerente com o entendimento deles acerca da atividade de Deus em momentos fundamentais da redenção em sua história (Moisés e Elias). A recitação das profecias messiânicas por meio de Davi apelou de imediato à orientação dos presentes. Além disso, suas referências ao derramamento do Espírito não diziam respeito apenas às promessas de Jesus durante seu ministério terreno sobre a vinda do Consolador. Isso significaria pouco para o público de Pedro. É mais provável que ele tenha se referido à vinda do Espírito como o sinal da redenção final e da nova aliança (Ez 11.19; 18.31; 36.27; 39.29; Jr 31.31-34). O anúncio de Pedro sobre Jesus como “Senhor” e “Cristo” foi seguido de imediato por compreensão e convencimento. As duas palavras eram plenas de significado para os ouvintes, e a série de evidências por ele apresentadas apontavam para a conclusão à qual eles chegaram. Não afirmo que uma base de conhecimento sólida, quando combinada com um argumento convincente, sempre faz um convertido. Nenhuma convicção ou conversão virá sem a atuação efetiva do Espírito de Deus (Ef 1.19; Cl 2.11-12). Não obstante, a conexão entre o conhecimento prévio e a proclamação integra os meios de salvação ordenados por Deus. Vê-se o mesmo no sermão de Paulo em Atenas. Ele apelou para o discernimento dos atenienses a respeito da revelação geral e a inserção no seu sistema de adoração (At 17.22-29). De certa forma, a natureza e a consciência os haviam catequizado. Entretanto, muitos mal-entendidos e aplicações errôneas dominavam o esquema religioso dos atenienses, pois deturparam a mensagem da criação e da consciência, transformando-a em paganismo supersticioso. Além de algumas verdades elementares às quais Paulo podia se referir, cabia-lhe a tarefa mais monumental de desconstruir em sua pregação esses pagãos orgulhosos, ao confrontar-lhes a teologia lamentavelmente diminuta e ignorância moral. A condição não regenerada é mortal, quer a pessoa esteja na ignorância pagã, quer viva num contexto cristão próspero. Dado esse elemento de igualdade, o bem catequizado tem a capacidade natural ampliada para compreender a pregação do evangelho cristão. 44
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Além disso, os catequizados se tornam capazes de pregar e ensinar com mais rapidez do que quem não recebeu esse treinamento. O apelo da pregação está em proclamar algo novo com base na verdade conhecida (seja uma visão do conteúdo ou da aplicação). Jesus declarou: “Todo escriba versado no reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas” (Mt 13.52). Os escribas eram as pessoas mais instruídas de Israel na época de nosso Senhor. Eles eram estudantes profissionais da lei e reuniam em torno de si alunos a quem ensinavam a lei e a tradição oral que a acompanhava, em grande parte produzida por eles mesmos. Ensinavam seus alunos a transmitirem esse conteúdo sem alterações. Jesus indica que a pessoa com treinamento dos escribas, quando convertida e livre do ídolo da tradição humana, é capaz de ensinar aos outros as verdades do reino de Deus. Ela pode entender e comunicar como a revelação cristã se relaciona com os novos desafios que o mundo sempre apresenta. O Senhor enxerga a possibilidade de fazer novas aplicações das verdades imutáveis da revelação divina. O apóstolo Paulo exemplifica de forma prototípica alguém cujo zelo pelo conhecimento antes da conversão afetou de modo proporcional seu impacto como evangelista e mestre da igreja. Antes de sua experiência com a graça transformadora, Paulo, “quanto ao judaísmo, avantajava-se a muitos da sua idade” (cf. Gl 1.14). Ele era zeloso com as tradições ancestrais, ou seja, em seu conhecimento da Lei [Escritura] e seu compromisso com a centralidade desta para a condição saudável do povo de Deus, pois era fariseu (Gl 1.14; Fp 3.5). Esse conhecimento criou um zelo hostil à igreja. Contudo, quando Deus revelou seu Filho em Paulo, sua capacidade de receber as novas revelações relacionadas ao cumprimento da Antiga Aliança por Cristo foi imensa. Embora tenha sido separado a fim de “seguir para os gentios” (Gl 2.9), ele costumava argumentar nas sinagogas com base nas Escrituras, com o objetivo de convencer os judeus de que Jesus era o Cristo. Sua defesa da justificação só pela fé, só pela graça, só por Cristo, foi feita com base na exposição cuidadosa do Antigo Testamento. Seu compromisso com as Escrituras como algo capaz de tornar alguém sábio para a salvação 45
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e fornecer ao cristão tudo necessário para sua maturidade espiritual foi intensificado apenas pela graciosa abertura de seus olhos para enxergar a glória de Deus na face de Jesus Cristo. Além do próprio Cristo como a encarnação do “escriba” que tira da lei coisas novas e velhas, Paulo se encaixa de modo exato no padrão. Sua catequese completa nas Escrituras e na literatura teológica o preparou para seu exaustivo e difícil trabalho como apóstolo. Apolo, antes de conhecer Áquila e Priscila, foi literalmente “catequizado” no caminho do Senhor e estava ensinando com exatidão as coisas relativas a Jesus (At 18.25). Ao receber instruções mais precisas sobre alguns detalhes, ele continuou seu ensino, sendo de grande ajuda para os cristãos e um apologista irrefutável da fé em debates públicos com os judeus (At 18.27-28). Não foi uma contribuição pequena para sua eficácia, no fim das contas, o fato de ele ter sido tão completamente “catequizado”. Admoestações e exemplos A evidência bíblica do valor dos catecismos não é derivada apenas da inferência. As admoestações específicas das Escrituras apoiam o uso desse método. “Tu as inculcarás a teus filhos” e “delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” foram as instruções que acompanharam a segunda entrega dos mandamentos (Dt 6). Esse tipo de instrução incluía a memorização de preceitos fundamentais. O salmista pressupõe a existência desse conhecimento em suas inúmeras exortações para meditar na lei do Senhor. Nenhuma meditação pode ocorrer sem que o conteúdo esteja presente; e, quanto mais exato e preciso o conteúdo, mais edificante e inspiradora será a meditação. Davi declara: “A revelação das tuas palavras esclarece” (Sl 119.130). A palavra “revelação” aqui pode significar “entrada” ou “abertura”. Sua raiz é usada com frequência de forma metafórica para “compreensão” ou, em uma frase, “apreender o verdadeiro significado”. Só a iluminação do Espírito Santo consegue isso, em especial no que se refere à transformação da pessoa pela renovação da mente (Rm 12.2). Do 46
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ponto de vista humano, porém, o propósito do catecismo é apresentar a verdadeira compreensão contextual da revelação bíblica. Ele pode oferecer ajuda significativa e esclarecedora em relação ao privilégio cristão de meditar sobre as verdades da revelação divina, uma prática que concede entendimento aos simples. Grande parte da tarefa educacional da igreja hoje é paralela à dos levitas nos dias de Neemias. Quando os israelitas estavam no limiar da recuperação de sua importância como povo de Deus, o aprendizado da Palavra era fundamental para essa reorientação. Esdras liderou os escribas e os levitas em sessões intensivas com o povo (Ed 8.1-8). As Escrituras relatam: “Leram no livro, na Lei de Deus, com clareza, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (Ne 8.8). As próprias Escrituras garantem o uso de auxílios externos para aprimorar e acelerar o entendimento bíblico. Os levitas “davam explicações”. Em sentido primordial, o pregador desempenha essa função; mas, ao fornecer o mesmo tipo de pedra de toque dado pela “regra de fé” aos primeiros séculos cristãos, o catecismo ajuda a desempenhar a mesma função. Quando existe a orientação bíblica ampla, organizada de forma lógica, o catecismo pode melhorar a compreensão e ajudar muito a entender o sentido das Escrituras. Os resumos da fé, seja na forma confessional ou catequética, aparecem no Novo Testamento. Eles são usados em situações nas quais são necessários lembretes claros e fortes da distinção da fé cristã. Servem para exortar, encorajar, advertir e edificar. É muito provável que partes e fragmentos de confissões, ou talvez respostas catequéticas, estejam presentes em passagens como Efésios 4.4-6; 1Timóteo 1.15-17; 3.12-16; 6.12-16; 2Timóteo 1.8-10; 2.11-13; e Tito 2.11-14. A fé mencionada por Paulo em Efésios 4.5, 13 (“uma só fé […] unidade da fé”) poderia ser a experiência da graça da fé. Outra possibilidade, mais provável, é que ela denote a fé objetiva, ou seja, um conjunto de ensinos. O contexto parece favorecer esse entendimento. Paulo enfatiza o dom de pastor-mestre no versículo 11 e, no versículo 13, tem em mente um núcleo doutrinário em torno do qual os crentes devem se unir. Isso é contrastado com a instabilidade da doutrina característica 47
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dos mestres enganadores (v. 14). De qualquer forma, as palavras nos versículos 5 e 6 contam com uma forma facilmente memorizável que expressa um padrão confessional fundamental e mínimo para algumas igrejas cristãs do primeiro século. Essa confissão simples, mas clara e exclusiva, poderia servir como um escudo de fé eficaz contra muitos dardos inflamados de falsos ensinamentos do primeiro século. A expressão “fiel é a palavra” (lit., “fiel a palavra”), em 1Timóteo 1.15; 3.1; 4.9, introduz uma fórmula confessional ou talvez catequética. As sentenças que se seguem podem ser consideradas epigramas concisos e carregados de significado, confissões de “uma linha”, como “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores”. É mais provável que elas façam parte de declarações mais amplas, como em 1Timóteo 3.16. Essa confissão em particular, designada por Paulo como “o mistério da divindade”, começa com uma expressão que contém uma forma adverbial da palavra “confessar” e é traduzida literalmente “confessadamente grande”. Em sentido idiomático, significa “inegavelmente”. O que é “confessado” com tanta certeza é uma confissão cristológica de seis artigos. Parece que Paulo considerava essa confissão uma proteção útil contra a invasão da heresia, pois logo em 1Timóteo 4.6 o apóstolo adverte Timóteo sobre os erros do dualismo ascético. Essa heresia nega de maneira implícita a bondade da criação, bem como a realidade da encarnação, morte, ressurreição e ascensão corporal de Cristo ao céu. Paulo aponta para as “palavras da fé” e para a doutrina inerentemente boa, nobre e louvável que tem seguido. Ele emprega a mesma palavra para descrever a “doutrina” (v. 6) e a bondade inerente da criação (v. 4). A expressão “palavras da fé” no versículo 6 tem uma forte relação verbal com as encontradas em 1Timóteo 1.15; 3.1; 4.9 e 2Timóteo 2.11. A primeira usa a forma substantiva de “fé” e a segunda utiliza a forma adjetiva. Como conceito, Paulo faz a mesma afirmação. Uma “palavra fiel” incorpora palavras que resumem certas verdades da fé; assim, “palavras da fé” se tornam “palavras fiéis” ou “dizeres fiéis”. Essas palavras, por sua vez, são identificadas com a “boa doutrina” que Timóteo tem seguido. 48
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Paulo lembra a Timóteo que o alimento espiritual e doutrinário que ele recebeu em sua instrução inicial é um alicerce forte, e até mesmo essencial, para o ministério eficaz junto ao povo de Deus. O versículo 9 repete a fórmula: “Fiel é esta palavra e digna de inteira aceitação”, afirmando que, para a piedade (v. 7), esforçar-se e trabalhar pela vida agora e no futuro (v. 8, 10) faz parte de colocar a esperança no Deus vivo, “Salvador de todos os homens, em especial dos fiéis”. As palavras fiéis consistiam nos ensinamentos dos apóstolos e dos profetas do Novo Testamento (os dons fundamentais da igreja). Além disso, elas serviram como guia centrado em Cristo para a interpretação das Escrituras do Antigo Testamento e como formas para viver na presença do Deus vivo. Em 2Timóteo 1.8, Paulo incentiva Timóteo a não se envergonhar do “testemunho de nosso Senhor”. A palavra “testemunho”, que serve para traduzir duas palavras gregas, contém um rico tecido de significados. Entre as várias coisas que ambas unem estão as seguintes: um evento, palavra ou coisa que serve como prova ou evidência (Jo 8.17); uma convicção pessoal sobre a verdade que não pode ser comprometida, independentemente das consequências (2Co 1.12); a mensagem anunciada sobre a pessoa e a obra de Cristo (1Co 1.16); e, em The Martyrdom of Polycarp [O martírio de Policarpo], refere-se de modo específico à morte do mártir. Em 1Timóteo 2.6, a palavra “testemunho” é usada como aposto de “resgate”. A morte de Cristo foi, portanto, testemunho pessoal de Cristo e a evidência irrefutável da verdade de que há um só Deus e de que a reconciliação só é possível através de um mediador que oferece um resgate eficaz (antilutron). A morte do Messias diz muito sobre a eficácia única do evangelho; trata-se do testemunho no tempo ordenado por Deus. E, para esse testemunho específico que Cristo deu em sua morte, Paulo foi nomeado pregador, apóstolo e mestre. Logo, quando ele fala do “testemunho de nosso Senhor”, em 2Timóteo 1.8, tem em mente o testemunho histórico de Cristo em sua paixão, comunicado a todas as gerações nas palavras chamadas de evangelho (“participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho”). 49
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O anjo que apareceu a João em Apocalipse 19.10 faz referência aos mensageiros que “mantêm o testemunho de Jesus”. De fato, continua o anjo, o “testemunho de Jesus é o espírito da profecia”. Isaías, quando perseguido pelos falsos religiosos de sua época para consultar médiuns, respondeu: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva” (Is 8.20). O testemunho de nosso Senhor, ou o testemunho de Jesus, é o cumprimento de todos os profetas. Esse testemunho (marturion) recebe uma forma para que as testemunhas (martus) possam testificar (martureo) verbalmente. Uma parte elevada em prosa desse testemunho é apresentada nas palavras de 2Timóteo 1.9-10: Que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho.
Timóteo também é admoestado a “guardar o bom depósito” (2Tm 1.14) e seguir o padrão ou a norma das “sãs palavras” que lhe foram dadas. Ele deveria confiar ambos a homens fiéis e capazes de ensinar outros. Paulo já havia advertido contra quem vivia em miséria moral oposta à “sã doutrina, segundo o evangelho da glória do Deus bendito” (1Tm 1.10-11). Em 1Timóteo 6.3, o apóstolo advertiu Timóteo contra os que querem ensinar outras coisas sem receber as “sãs palavras”, ou seja, referentes a nosso Senhor Jesus Cristo. Eles também não receberão “o ensino” que é segundo a piedade. Em vez disso, são homens que não entendem nada e, entre outras coisas, estão privados da verdade. Ele dá instruções semelhantes a Tito para que este escolha bispos que se apeguem firmemente à palavra segura que está de acordo com “o ensino”. Isso é para que eles possam exortar os outros “na doutrina, na sã doutrina”, e possam repreender aos seus opositores. Em 2Timóteo 3.14-15, o jovem pastor é retratado tendo aprendido de sua avó, de sua mãe e de Paulo um conjunto de verdades declaradas não exatamente na linguagem das Escrituras, mas com base na verdade 50
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da Palavra de Deus. Em conformidade com essa mesma ideia, o escritor de Hebreus menciona a necessidade de alguns serem instruídos nos “princípios elementares dos oráculos de Deus” (Hb 5.12). A ênfase de Paulo sobre “o ensino”, o “depósito”, o “ensino sadio”, as “sãs palavras” e sua instrução, afirmando servir como uma diretriz corretiva para falsos ensinos, falsos mestres e sutilezas não essenciais, cria uma forma com características claramente reconhecíveis. Os puritanos Thomas Watson e Matthew Henry estavam convencidos de que a “forma, padrão, norma das sãs palavras” é um tipo de catecismo: “os primeiros princípios dos oráculos de Deus”. Os apóstolos e outros mestres do Novo Testamento trabalharam com vários dispositivos confessionais e catequéticos claros, concisos e verbalmente amigáveis para estabelecer a base de todo o ministério de ensino. A prática de aprender mediante padrões verbais exatos estava bem estabelecida, por ordem divina, na cultura judaica. A continuidade disso não seria apenas natural, mas uma resposta esperada à revelação divina das palavras do evangelho. Nada deve impedir a conclusão de que a memorização do depósito da verdade é bíblica. O catecismo parece atender a essa necessidade de maneira muito aceitável.11 Sola Scriptura Alguns se opõem aos catecismos porque temem a tendência de substituir as Escrituras. Se considerado de acordo com os termos da prática medieval, esse temor pode ser legítimo. Além disso, o período da ortodoxia luterana produziu um apego implícito aos credos, ao qual se opôs o fundador do movimento pietista. Embora o pietismo tenha desenvolvido seu próprio conjunto de problemas, sua ênfase renovada no estudo da Bíblia representou uma aplicação prática necessária do foco protestante no sola Scriptura. A prática mais consistente no protestantismo, entretanto, dá um alívio positivo a essa importante preocupação. Spurgeon notou a tendência desse medo e o abordou com vigor: 11
Birger Gerhardsson, Memory and Manuscript: Oral Tradition and Written Transmission in Rabbinic Judaism and Early Christianity (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1998).
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Se houvesse algum temor de que as Escrituras fossem substituídas por manuais de teologia, seríamos os primeiros a denunciá-los; mas não há razão para esse sonho, já que a nação que mais lê a Bíblia é aquela onde o Catecismo da Assembleia é aprendido por quase todas as crianças.12
Matthew Henry, em “Sermon Concerning the Catechizing of Youth” [Sermão sobre a catequese dos jovens], expressou a mesma confiança, mais de um século antes de Spurgeon: Permitam-nos testemunhar que não estabelecemos nenhuma outra regra e prática, nenhum outro oráculo, nenhuma outra pedra de toque ou teste de ortodoxia, a não ser as sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento: essas são as únicas fontes de onde tiramos nosso conhecimento; […] e longe de nós estabelecer qualquer forma de palavras que concorra com ela, muito menos que a contradiga; ou admitir qualquer rival a ela na conduta e guarda de nossa alma, como alguns fazem com as tradições da igreja, e outros com não sei que luz interior. Todas as outras ajudas que temos para a alma, nós as usamos como regula regulata — “uma regra controlada”; em subordinação e subserviência à Escritura; e, entre as demais, nossos catecismos e confissões de fé.13
Permita que um contemporâneo testemunhe o caráter eminentemente seguro e edificante de um catecismo bíblico. Na introdução de sua própria versão revisada do catecismo de Keach, Paul King Jewett antecipa essa objeção com uma forte resposta: Seria realmente anômalo dizer que, ao ensinar que a Escritura é a única regra de fé e prática, o catecismo está se colocando no lugar da Escritura. Tudo o que os autores de nosso catecismo procuraram fazer foi afirmar de maneira clara, ordenada e concisa o que a Escritura ensina. E será que fazemos menos no sermão, que é o ato central da adoração evangélica? O que é um sermão, ou
12 13
Cathcart, The Baptist Encyclopedia, s.v. “Creeds, advantageous” (Legare Street Press, 2023). The Complete Works of Matthew Henry, 2 vols. (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), vol. 2, p. 159-160.
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Ensinando a verdade, treinando os corações pelo menos o que deveria ser, além da declaração clara e vigorosa, nas próprias palavras do pregador, do que a Escritura quer dizer? E, se isso pode ser feito num sermão, por que não pode ser feito em um catecismo?14
A catequização é prática A praticidade desse exercício pode ser demonstrada em vários pontos. Em primeiro lugar, a catequese força a pessoa a aproveitar o tempo. Há muitas maneiras boas e úteis de pais e filhos passarem tempo juntos. Entretanto, muitos pais têm dificuldade em encontrar um meio de criar discussões espirituais e bíblicas com seus filhos. A disciplina da catequese reúne pais e filhos, alunos e professores, na mais útil e edificante de todas as atividades — a submissão do coração e da mente aos ensinamentos da Bíblia. Outras atividades podem aproximar as partes, mas o tempo não poderia ser tão bem gasto em nenhum outro empreendimento. Consoante afirmou Matthew Henry: “O fato de ser catequizado obriga você a gastar bem pelo menos uma parte de seu tempo, de modo que depois possa refletir sobre ele com mais conforto e satisfação do que muitos outros de seus preciosos momentos — talvez mais do que qualquer outro”. Segundo, a catequese fornece os blocos de construção a partir dos quais toda a Escritura pode ser compreendida. Considerei essa ideia brevemente ao analisar como um catecismo se coaduna com o propósito das Escrituras. Um dos teólogos mais influentes e, do ponto de vista do ensino, bem-sucedidos da igreja — João Calvino — percebeu a verdade desse princípio e o empregou de forma brilhante. Ele escreveu um catecismo para ser usado em todos os lares de Genebra e explicou seu compromisso com essa ideia no prefácio de sua edição francesa de 1545 das Institutas da religião cristã. O teólogo mencionou os benefícios de a igreja ter por escrito um tratamento “em sucessão dos principais assuntos” que compõem a verdade cristã. Quem tirar
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Paul King Jewett, The Baptist Catechism: Commonly called Keach’s Catechism (Grand Rapids: Baker Book House, 1952), p. vii-viii.
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proveito desse benefício “estará preparado para fazer mais progresso na escola de Deus em um dia do que qualquer outra pessoa em três meses”, uma vez que sabe “a que deve se referir cada frase e tem uma regra para testar tudo o que lhe for apresentado”. Marion Snapper chama isso de hipótese de Lodestar. Na ausência de equipamentos eletrônicos sofisticados, um navegador marítimo deve se concentrar em várias estrelas brilhantes e fundamentais dentre a vasta e deslumbrante variedade de esplendores celestiais. O catecismo fornece essas luzes orientadoras. Um artista começa a aprender seu dom observando as formas de círculos, triângulos, elipses, quadrados, e acrescenta a compreensão de sombreamento, simetria e profundidade. Em seguida, ele combina esses elementos em belas criações por meio da adição habilidosa de detalhes. Um teólogo começa com os princípios básicos da fé, os quais, se bem aprendidos, fornecem as pedras inamovíveis que sustentam tratamentos maciços e abrangentes de todos os conselhos revelados de Deus. O primeiro nível da educação escolar, o trivium, envolvia o estudo de três disciplinas: gramática, lógica e retórica. A gramática fornecia as leis básicas da linguagem — vocabulário, dicção precisa, declinações, conjugações e sintaxe. A lógica envolvia a organização dessas sentenças bem construídas, compostas de termos definidos com clareza, em argumentos livres de falácias da razão. A retórica consistia na arte de apresentar essa posição bem fundamentada em um estilo atraente e convincente. A “gramática” do testemunho cristão e da visão de mundo é a memorização das Escrituras e o catecismo. A “lógica” é mais catecismo e teologia sistemática. A “retórica” é a pregação (At 18.5), a persuasão (At 18.4), o debate público (At 18.28), a argumentação extensa e proposital (At 19.8), a apologética tática e o confronto com a visão de mundo (At 17.22-23). Paulo tinha dominado tanto os pontos fundamentais, a “gramática”, que podia usá-los numa variedade impressionante de situações complexas. Poderíamos acrescentar a essa categoria todos os aspectos das cartas apostólicas do Novo Testamento, como instrução prática, admoestação ética e aplicação teológica. O catecismo, porém, ajuda a fornecer a “gramática” para todo esse desenvolvimento. 54
Ensinando a verdade, treinando os corações
Embora um catecismo não possa conter toda a beleza das Escrituras, pode conter “os fundamentos da religião, os alicerces e os pilares principais” sobre os quais o restante se apoia. Matthew Henry comparou o catecismo a um “mapa da terra da promessa, com a ajuda do qual podemos percorrê-la a olho nu em pouco tempo”. Um catecismo não pode substituir a Bíblia, como um mapa não pode substituir uma viagem. Embora um mapa não represente o cheiro das flores, o calor do sol, o frescor de uma brisa ou a altura de uma montanha, o viajante sério jamais gostaria de ficar sem ele. Sem um bom mapa (GPS, digital, físico, etc.), viajar pode se tornar um desastre completo. O terreno não é alterado para se ajustar ao mapa; ao contrário, o mapa é projetado com cuidado para mostrar como é o terreno. Tampouco se pode ficar sentado em casa admirando o maravilhoso mapa, achando que já viu o mundo porque o estudou. Não, o mapa ajuda a viajar e dá coragem para que a pessoa experimente. Ele dá uma visão geral da viagem, e, por outro lado, esta até ajuda o viajante a entender melhor o mapa. Assim também é um catecismo em relação às Escrituras. Terceiro, a congregação catequizada produz melhores sermões e melhores pregadores. Thomas Watson afirmou: “Pregar e não catequizar é construir sem fundamento”. O escritor de Hebreus sentiu que a base teológica inadequada de seus leitores restringia seu escopo de instruí-los ainda mais. Eles precisavam desesperadamente da compreensão mais madura dos princípios teológicos elementares (Hb 5.11-14). O que o escritor nos poderia ter dito sobre o sacerdócio de Cristo se seus destinatários fossem doutrinariamente maduros e bem catequizados? Mesmo assim, se uma parte significativa da congregação regular considera claramente os pilares da fé, uma exposição textual mais detalhada se torna possível, se não necessária. Assim, as pessoas estão em posição de se alimentar do leite sincero da palavra, e a dimensão pastoral de alimentar o rebanho de Deus assume dimensões novas e muito desafiadoras. Dois perigos se escondem nessa força e devem ser evitados. Uma qualidade elevada de entendimento sobre parte da congregação não deve forçá-la à exibição semanal de interesses esotéricos. Embora cada 55
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
mensagem deva conter algo para estimular e desafiar os mais maduros, ela também deve falar com clareza às crianças e aos não catequizados. Segundo, é preciso evitar o espírito desejoso de novidades. O alicerce sólido não deve ser interpretado como licença para produzir enfeites doutrinários bonitinhos de acordo com os próprios caprichos, derivados de esquisitices hermenêuticas e significados ocultos. Tais empreendimentos, na realidade, produzem apenas monstruosidades desproporcionais e grotescas compostas de madeira, feno e restolho a serem consumidos, pois não têm coerência ou harmonia com o fundamento, que é Cristo. De fato, a tendência do pregador envolvido no treinamento catequético com a congregação deve ser destacar as grandes verdades centrais do evangelho: pecado, cruz, expiação, regeneração, arrependimento por toda a vida, fé salvadora, justificação, a pessoa e a obra de Cristo, a ação pactual do Deus triúno na salvação dos pecadores. O quarto uso prático de um catecismo é seu testemunho de nossa crença na coerência e clareza das Escrituras, e a possibilidade de serem ensinadas de maneira sistemática. O ceticismo popular em relação à possibilidade da verdade revelada causa surpresa e choque quando se fala em teologia “sistemática” ou catecismos de doutrina bíblica. Esses materiais pressupõem que os ensinamentos da Bíblia sobre qualquer assunto possam ser organizados de forma a apresentar uma imagem consistente e não contraditória deste. Os catecismos podem apresentar problemas reais para quem se sente desconfortável com a afirmação da veracidade e consistência bíblicas completas; mas, para quem considera essa posição necessária à fé cristã, os catecismos devem ser não apenas bem-vindos, como também procurados com afinco. Em quinto lugar, decorrente do compromisso do cristão com a veracidade, que inclui coerência e não contradição, o catecismo ajuda a produzir mentes favoráveis à lógica e à análise. Um catecismo bem construído se transforma numa tapeçaria da verdade. Todas as partes dependem das demais e delas recebem informações. O estudante não considera os itens de informação algo sem sentido e desconectado de toda a realidade. Em vez disso, sem eliminar o senso de mistério e sem se intrometer em coisas ocultas à nossa visão pelo próprio Deus, 56
Ensinando a verdade, treinando os corações
a confiança na coerência da verdade é fundamental. Tudo começa com Deus como criador, subsiste e mantém sua existência por meio da providência divina e, por fim, é consumido no propósito divino para a glória de Deus. Não apenas a ordem criada é significativa, mas também a história, bem como as palavras usadas para descrevê-las. O Deus que criou o mundo e o mantém pela palavra de seu poder, através desses atos, investiu na linguagem escrita a possibilidade — de fato, a necessidade — da comunicação precisa. Observe a sequência lógica e a integridade analítica da seguinte série de trocas: P.
A que estado a queda levou a humanidade?
R.
A queda levou a humanidade ao estado de pecado e miséria (Rm 5.1-2).
P.
Em que consiste a pecaminosidade do estado no qual o ser humano caiu?
R.
A pecaminosidade do estado no qual o ser humano caiu consiste na culpa do primeiro pecado de Adão, na falta de justiça original e na corrupção de toda a sua natureza, comumente chamado pecado original, com todas as transgressões reais que dele decorrem (Rm 5.12-21; Ef 2.1-3; Tg 1.14-15; Mt 15.19).
P.
Em que consiste a miséria do estado no qual o ser humano caiu?
R.
Toda a humanidade, por meio da queda, perdeu a comunhão com Deus, jaz sob sua ira e maldição e, portanto, está sujeita a todas as misérias da vida, à própria morte e às dores do inferno para sempre.
P.
Deus deixou toda a humanidade perecer no estado de pecado e miséria?
R.
Tendo Deus, por sua mera boa vontade, desde toda a eternidade, eleito alguns para a vida eterna (Ef 1.4-5), 57
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
entrou em um pacto de graça para libertá-los do estado de pecado e miséria, e levá-los ao estado de salvação por meio de um Redentor (Rm 3.20-22; Gl 3.21-22). A queda conduz ao estado de pecado e miséria. Os dois estados são definidos e suas várias partes são delineadas, e é apresentada a libertação destes. Isso, é claro, leva à seção que descreve a pessoa e a obra do Redentor. Essas respostas são do Catecismo batista usado pelos batistas particulares de Londres, pela Associação da Filadélfia e pela Associação de Charleston. Ele se baseia no Breve catecismo de Westminster, um pouco acima da maioria dos outros catecismos, mas a vantagem em discussão ainda é válida para qualquer catecismo bem-organizado. Em sexto lugar, a catequese piedosa fortalece a fé dos que estão em conflito com o mundo, a carne e o diabo. Em 1630, Hugh Peters incentivou os pais a catequizarem seus filhos, lembrando-os: “Se alguma vez seus pobres filhos forem levados para regiões selvagens, para cavernas, para a fogueira e o fogo, ou para tristezas de qualquer tipo, eles agradecerão a Deus e a vocês por terem sido bem catequizados”. Marion Snapper designa essa possibilidade como a “hipótese do campo de prisioneiros”. Na opinião dela, isso é tão realista quanto “argumentar a favor da obesidade em antecipação ao desembarque num campo de prisioneiros vietnamita; é simplesmente distante demais das realidades da vida”. Embora os “desertos, […] a fogueira e o fogo” possam não ser uma ameaça atual, a perseguição e a oposição de um tipo diferente são igualmente reais e talvez mais sutilmente destrutivas. Os conceitos bíblicos a respeito de Deus e da humanidade sofrem um bombardeio incessante na estrutura educacional da sociedade atual. E, agora que a modernidade se transformou em pós-modernidade, a tolerância a todos os pontos de vista teoricamente aumentou, porém a confiança na existência de verdades reais diminuiu de forma correspondente. Na realidade, tudo é tolerado, menos a certeza cristã. Qual jovem cristão já não se viu no deserto de uma sala de aula universitária, ou de uma sala de aula do Ensino Médio, desejando 58
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que pudesse conhecer concretamente o argumento de uma crença que seus pais e seu pastor prezam muito? E quantos que têm apenas impressões vagas da doutrina, mas nenhuma apreensão viva e coerente delas, se veem sobrecarregados pela aparente erudição maciça e pelas percepções filosóficas contundentes de um professor incrédulo? Essa experiência tende a isolar as ideias “religiosas” em um canto do conhecimento meramente místico e devocional, tangente à realidade apenas no ponto dos julgamentos de valor pessoal, mas não considerado digno do status de absoluto em sentido algum. O cristianismo se torna apenas uma questão de opinião pessoal, não um caso a ser discutido. A catequese desde a mais tenra idade sensibiliza e condiciona a pessoa a considerar Deus e seus atributos parte essencial do conhecimento, de fato fundamental para todo aprendizado verdadeiro. Além disso, a pessoa aprende a avaliar o ser humano de modo adequado, tanto em relação à sua dignidade desde a criação quanto em relação às suas capacidades intelectuais/morais modificadas pela queda. Em sétimo lugar, os catecismos fornecem o alicerce teológico para promover a Reforma, preparar o reavivamento e evitar o entusiasmo fanático. A Reforma é a recuperação e a propagação da verdade central do evangelho e a organização da igreja — adoração, ordenanças, oficiais e pregação — à sua luz. O avivamento significa a recuperação do amor a Deus e à humanidade e resulta no estabelecimento de prioridades na vida com base nesse amor. O entusiasmo, o ensinamento de que a orientação especial e a revelação da verdade são dadas em particular aos indivíduos, tem sido a fonte de erros divisivos e perigosos. A catequese fornece uma base doutrinária e bíblica que desarma e disciplina a tendência à privatização da verdade religiosa. James B. Gambrell, o grande leigo batista, defendia o ensino da doutrina forte para manter as características batistas. Quando editor do The Baptist Standard, desafiou os leitores a considerar os benefícios de um credo para o testemunho cristão vital. Um resumo de seus argumentos se aplica com a mesma força ao uso de catecismos. Nessa discussão, um bom começo é dizer que ninguém pode ser cristão sem um credo. […] No cristianismo, as Escrituras Sagradas 59
Introdução: Um incentivo ao uso de catecismos
são a medida e o critério dos credos. Dizer que é certo acreditar em uma doutrina, mas errado escrever o que se crê, não é nem mesmo um balbucio respeitável. […] Em tempos de frouxidão, expressão vaga e esperteza ao lidar com coisas religiosas, uma declaração de credo, desenhada nas linhas das Escrituras, perspícua e vigorosa, clareou o pensamento das pessoas, separou a verdade contra todo o território periférico do erro como uma cerca estacada. […] Uma declaração de credo é um desafio aos que buscam a verdade para que vejam se as coisas declaradas são verdadeiras, tomando cada declaração em separado e comparando-a com as Escrituras. Ela dá definição à investigação e ajuda muito no estudo da Bíblia, chamando a atenção para uma grande doutrina fundamental de cada vez. […] Uma declaração de credo digna tem um excelente efeito unificador. Ela esclarece a mente de muitos que estão certos em suas tendências e sentimentos, mas não condensaram seus sentimentos e pensamentos em palavras. […] Uma declaração clara de qualquer caso unificará as pessoas cuja mente está impregnada da verdade, mas na qual essa verdade não se cristalizou. […] Uma declaração de credo digna é útil para dissipar mal-entendidos. Só os desonestos, os sofistas, os trabalhadores enganosos, os homens com propósitos indignos se opõem a uma declaração nítida ao lidar com assuntos religiosos. […] O clamor contra os credos carece de bom senso. Ele vem principalmente dos desejosos de desfazer o pensamento religioso em névoa teológica para ser cristalizado em outras formas. […] O valor prático de declarações nítidas de credo na propagação da verdade é e sempre foi imenso. […] É quase impossível dizer demais a favor de declarações de credo claras e cristalizadas, nas quais pequenas palavras são usadas de forma inteligente para esculpir os contornos da verdade na mente dos homens.15
Sendo possível dizer tudo isso a respeito da composição de um credo, muito mais útil será a memorização de um catecismo nele baseado.
15
J. B. Gambrell, The Baptist Standard, vol. 26, no. 4, January 22, 1914.
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1 Catecismo ortodoxo — Hercules Collins
Introdução No ano de 1680, um pastor batista de 34 anos de idade, em Londres, chamado Hercules Collins, publicou uma edição revisada do Catecismo de Heidelberg, que ele intitulou An Orthodox Catechism [Catecismo ortodoxo].16 Como o título sugere, Collins estava interessado em afirmar a ortodoxia dos batistas numa época em que suas credenciais como tais estavam sendo questionadas. Esse catecismo também é totalmente protestante. Nesta introdução ao catecismo, serão exploradas as semelhanças entre o Catecismo de Heidelberg e o
16
Hercules Collins, An Orthodox Catechism: Being the Sum of Christian Religion, Contained in the Law and the Gospel. Published for preventing the Canker and Poison of Heresy and Error (Londres, 1680). Com o propósito de comparar os catecismos de Heidelberg e Ortodoxo, farei referência a James M. Renihan, ed., True Confessions: Baptist Documents in the Reformed Family (Palmdale: Reformed Baptist Academic Press, 2004), que coloca versões editadas do Catecismo ortodoxo e do Catecismo de Heidelberg lado a lado para destacar as semelhanças, mudanças e adições. Para precisão, comparei a edição de Renihan com a impressão original do Catecismo ortodoxo listados acima e o Catecismo de Heidelberg conforme contido em Zacarias Ursino, The Summe of Christian Religion (Londres: James Young, 1645). Esta edição, segundo James Renihan, “é obviamente a edição usada por Collins” (Renihan, True Confessions, p. 236). Para uma edição mais acessível do Catecismo de Heidelberg, veja The Heidelberg Catechism: A New Translation for the 21st Century, trad. Lee C. Barrett, III (Cleveland: The Pilgrim Press, 2007).
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Catecismo ortodoxo
Catecismo ortodoxo, bem como as mudanças e acréscimos que Hercules Collins decidiu fazer nesse documento protestante histórico.17 O objetivo da análise será demonstrar que, quando Collins se desvia do Catecismo de Heidelberg, ele o faz com base no próprio princípio regulador da adoração na Reforma. Assim, o Catecismo ortodoxo é ainda mais “protestante” que o Catecismo de Heidelberg. O lugar do Catecismo de Heidelberg no protestantismo reformado O Catecismo de Heidelberg é uma exposição clássica da fé protestante reformada. Ele foi descrito como “um documento confessional definidor do protestantismo reformado” e “um documento que provou ser um monumento duradouro e inspirador da fé reformada”.18 No tricentenário da publicação original do Catecismo de Heidelberg, em uma nova edição do texto publicada pela German Reformed Church in America [Igreja Reformada Alemã nos EUA], afirmou-se: “Em nenhum outro lugar temos o gênio e a vida próprios da Igreja Reformada, como era na segunda metade do século 16, expostos e retratados na mesma forma feliz e ampla”.19 Philip Schaff acrescenta que o catecismo “é uma obra-prima reconhecida, com poucos que o igualam e nenhum que o supere”, e que ele “é o mais universal e popular de todos os símbolos reformados”.20 Sem dúvida, o Catecismo de Heidelberg é um representante importante da tradição reformada protestante. Considerando sua proeminência no protestantismo reformado, é ainda mais interessante que esse catecismo 17
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Partes desta introdução apareceram em Michael A. G. Haykin e Steve Weaver, “To ‘concenter with the most orthodox divines’: Hercules Collins and his An Orthodox Catechism—a slice of the reception history of the Heidelberg Catechism”, em: Power of Faith: 450 Years of the Heidelberg Catechism, ed. Karla Apperloo-Boersma e Herman J. Selderhuis (Göttingen, Alemanha: Vandenhoeck & Ruprecht, 2013), p. 71-81. Charles D. Gunnoe Jr., “The Reformation of the Palatinate and the Origins of the Heidelberg Catechism”, em: An Introduction to the Heidelberg Catechism: Sources, History, and Theology, ed. Lyle D. Bierma (Grand Rapids: Baker Academic, 2005), p. 15. The Heidelberg Catechism, in German, Latin and English: With An Historical Introduction. Prepared and Published by the Direction of the German Reformed Church in the United States. Edição tricentenária (Nova York: Charles Scribner, 1863), p. 11. Philip Schaff, The Creeds of Christendom: With a History and Critical Notes (Grand Rapids: Baker Book House, 2007), vol. 1, p. 540.
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tenha sido escolhido por um pastor batista do século 17, em Londres, chamado Hercules Collins, como base de seu Catecismo ortodoxo. Cenário histórico do Catecismo de Heidelberg No ano de 1562, Frederico III, eleitor do principado do Palatinado, no Sacro Império Romano-Germânico, emitiu uma ordem solicitando a preparação de um novo catecismo.21 Esse evento seria visto como “um passo importante na transformação do Palatinado em um território melanctoniano-reformado”.22 Embora tradicionalmente se atribua a Zacarias Ursino e Caspar Olevianus a coautoria desse documento, os estudos mais recentes argumentam que a produção do catecismo foi o resultado dos esforços de um grupo maior de acadêmicos reunidos pelo eleitor Frederico III. Entre esses estudiosos estava Caspar Olevianus, porém seu papel não foi tão proeminente quanto se pensava. Zacarias Ursino, todavia, é reconhecido pelo consenso acadêmico como o “responsável pela elaboração do texto final do CH”.23 O papel de Ursino é significativo, pois ele passou algum tempo estudando em dois grandes centros da Reforma: em Wittenberg, com Filipe Melâncton, e em Zurique, com Pedro Mártir Vermigli.24 Ursino também visitou Genebra, onde conheceu o reformador francês João Calvino e recebeu um conjunto de suas obras como presente pessoal.25 Assim, Ursino mantinha conexões com todas as três vertentes da Reforma Magisterial. O papel de Ursino no produto do documento ajuda a explicar por que o Catecismo de Heidelberg se tornaria uma declaração de “consenso notável” entre “os seguidores de Zuínglio e Bullinger, Calvino e Melâncton”.26 Em janeiro de 1563, o catecismo 21
22 23 24 25 26
Lyle D. Bierma, “The Purpose and Authorship of the Heidelberg Catechism”, em: An Introduction to the Heidelberg Catechism: Sources, History, and Theology, ed. Lyle D. Bierma. (Grand Rapids: Baker Academic, 2005), p. 49. Ibid. Ibid., p. 71. Ibid., p. 68-70. Ibid., p. 68. Lyle D. Bierma, “The Sources and Theological Orientation of the Heidelberg Catechism”, em: An Introduction to the Heidelberg Catechism: Sources, History, and Theology, ed. Lyle D. Bierma (Grand Rapids: Baker Academic, 2005), p. 81.
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Catecismo ortodoxo
foi adotado em um sínodo reunido na cidade de Heidelberg.27 Esse catecismo passou por várias edições e traduções. Como Philip Schaff observou: “Ele tem o dom pentecostal de línguas28 em um grau raro. Afirma-se que, ao lado da Bíblia, da Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, e de O peregrino, de John Bunyan, nenhum livro foi mais traduzido, distribuído e usado de maneira mais ampla”.29 A ascensão dos batistas particulares Cerca de 75 anos após a publicação da primeira edição do Catecismo de Heidelberg, surgiu um grupo em Londres convencido de que o Novo Testamento ensina o batismo de crentes por imersão. Esse grupo havia deixado a congregação separatista pastoreada por John Lathrop em 1633 para formar sua própria congregação independente depois de se convencer de que o Novo Testamento ensinava o batismo de crentes, embora continuassem não convencidos da importância do modo.30 Em 1638, John Spilsbury31 se tornou o pastor dessa congregação, a qual se reunia em Old Gravel Lane, em Wapping,32 e, em 1641, a congregação havia se comprometido com a posição de que o batismo de crentes pelo modo de imersão era o único batismo válido do Novo Testamento.33 Essa congregação se tornaria a primeira igreja batista particular e, até recentemente, continuou a existir como a igreja batista mais antiga de Londres. 27 28
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Bard Thompson, “Historical Background of the Catechism”, em: Essays on the Heidelberg Catechism (Filadélfia: United Church Press, 1963), p. 26. No sentido de ser traduzido para vários idiomas diferentes, não de dar suporte à visão pentecostal sobre o dom de línguas. A frase citada foi inicialmente publicada em 1877; portanto, décadas antes do advento do movimento pentecostal e de sua concepção particular desse dom. (N. R.) Schaff, The Creeds of Christendom, vol. 1, p. 536. James Edward McGoldrick, Baptist Successionism: A Crucial Question in Baptist History (Lanham: Scarecrow Press, 2000), p. 130. Para informações biográficas sobre Spilsbury, veja James M. Renihan, “John Spilsbury (1593-c.1662/1668)”, em: Michael A. G. Haykin, ed., The British Particular Baptists 1638-1910 (Springfield: Particular Baptist Press, 1998), vol. 1, p. 21-37. Para a história da igreja, veja Ernest F. Kevan, London’s Oldest Baptist Church: Wapping 1633-Walthamstow 1933 (London: Kingsgate Press, 1933). McGoldrick, Baptist Successionism, p. 131-132.
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Cada um dos três primeiros pastores escreveria tratados sobre o assunto do batismo de crentes.34 O terceiro pastor da congregação de Wapping foi Hercules Collins35 (1646/7-1702). Collins serviu como pastor dessa congregação de 1677 até sua morte em 1702, seguindo John Spilsbury e John Norcott36 como pastor dessa congregação histórica. Na primeira metade do ministério de Collins (até o Ato de Tolerância em 1689), a congregação teve de se reunir em segredo por medo de perseguição. O pastor foi preso por sua inconformidade em 1684. Enquanto estava na infame prisão de Newgate, Collins escreveu dois dos mais devocionais de seus doze escritos.37 No entanto, é sua primeira obra, An Orthodox Catechism, que é o tema de nossa investigação neste capítulo. Dada a perseguição que os batistas enfrentaram no final do século 17, não é de surpreender que esse pastor tenha escolhido o Catecismo de Heidelberg como base de seu catecismo, uma vez que ele era, como Mark Noll declarou,
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John Spilsbury, A Treatise Concerning the Lawful Subject of Baptism (London, 1643); John Norcott, Baptism Discovered Plainly & Faithfully, According to the Word of God (1672); e, Hercules Collins, Believers-Baptism from Heaven, and of Divine Institution. Infants-Baptism from Earth, and Human Invention (Londres, 1691). Para detalhes sobre a vida de Hercules Collins, veja G. Steve Weaver, Jr., Orthodox, Puritan, Baptist: Hercules Collins (1647-1702) and Particular Baptist Identity in Early Modern England (Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2015). Veja também Michael A. G. Haykin, “The Piety of Hercules Collins (1646/7-1702)”, em: Devoted to the Service of the Temple: Piety, Persecution, and Ministry in the Writings of Hercules Collins, ed. Michael A. G. Haykin e Steve Weaver (Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2007), p. 1-30. Para detalhes sobre John Norcott, veja Joseph Ivimey, A History of the English Baptists (Londres: B. J. Holdsworth, 1823), vol. 3, p. 295-301; Kevan, London’s Oldest Baptist Church, p. 62-64; Geoffrey F. Nuttall, “Another Baptist Ejection (1662): The Case of John Norcott”, em: Pilgrim Pathways: Essays in Baptist History in Honour of B. R. White, ed. William H. Brackney e Paul S. Fiddes com John H. Y. Briggs (Macon: Mercer University Press, 1999), p. 185-188. A Voice from the Prison. Or, Meditations on Revelations III.XI. Tending To the Establishment of God’s Little Flock, In an Hour of Temptation (Londres, 1684) e Counsel for the Living, Occasioned from the Dead: Or, A Discourse on Job III.17, 18. Arising from the Deaths of Mr. Fran. Bampfield and Mr. Zach. Ralphson (Londres, 1684). Uma lista completa das obras de Collins pode ser encontrada em Haykin e Weaver, Devoted to the Service of the Temple, p. 135-137.
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[…] uma excelente declaração de fé para um povo perseguido. Sua ênfase, desde a primeira pergunta, no desejo de Deus de confortar os seus, bem como sua ênfase na bondade transcendente da providência divina, trouxe segurança àqueles que sentiam ter sido abandonados por todos os poderes terrenos.38
A importância de Hercules Collins entre os batistas particulares do final do século 17 pode ser vista em pelo menos três áreas. Primeiro, ele foi um autor relativamente prolífico entre os batistas particulares do período,39 publicando pelo menos doze obras distintas entre os anos de 1680 e 1702. Segundo, Collins estava entre os signatários originais da Segunda confissão de fé de Londres (1689). Em terceiro lugar, o nome de Collins foi afixado na epístola recomendatória de The Gospel Minister’s Maintenance Vindicated [Justificação da manutenção do ministro do evangelho], com dez outros pastores batistas londrinos proeminentes, incluindo personalidades como Benjamin Keach, Hanserd Knollys e William Kiffin.40 Combinados, esses fatos demonstram não apenas que Collins foi uma figura importante na vida batista do final do século 17, mas que ele também pode servir como um representante fiel da comunidade batista mais ampla da qual fazia parte. Objetivos de um catecismo ortodoxo Hercules Collins parece ter visado pelo menos três objetivos ao publicar seu catecismo. Ele funcionou como ferramenta para instrução pastoral, obra polêmica contra o falso ensino e apelo à unidade doutrinária. Tendo se tornado pastor da congregação de Wapping apenas quatro anos antes, Collins modifica o Catecismo de Heidelberg para usá-lo como ferramenta no cumprimento de seus 38 39
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Mark A. Noll, Confessions and Catechisms of the Reformation (Vancouver: Regent College Publishing, 2004), p. 135. O único autor desse período que poderia rivalizar com sua produção era seu amigo Benjamin Keach (1640-1704), pastor da congregação de Horsley-Down. Para mais informações sobre Keach, veja Austin Walker, The Excellent Benjamin Keach (Dundas: Joshua Press, 2004). Benjamin Keach, The Gospel Minister’s Maintenance Vindicated (Londres, 1689).
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deveres pastorais. A comparação dos dois documentos lado a lado revela uma série de edições relativamente pequenas, muitas das quais são melhor explicadas como tentativas de Collins de tornar o catecismo mais acessível à sua congregação local. Um exemplo desse tipo de edição é encontrado na reorganização feita por Collins da seção que trata dos Dez Mandamentos. Enquanto o Catecismo de Heidelberg lista os Dez Mandamentos em conjunto e depois os explica individualmente, Collins reorganiza a seção para permitir que cada mandamento seja listado em separado, com sua explicação e aplicação. A reorganização conta com um benefício pedagógico óbvio. Em outro lugar, Collins declara mais explicitamente sua preocupação com a congregação local à qual ele ministrava na bênção que conclui seu Prefácio ao catecismo: E, para aqueles a quem o Senhor confiou meu encargo, a fim de que o Deus Eterno seja seu Refúgio e vocês estejam sob seus Braços Eternos; para que a Graça seja aberta ao coração de vocês e o seu coração à Graça; para que a bênção do Deus de Abraão, Isaque e Jacó esteja sobre vocês e o Espírito Eterno esteja com vocês — esta é a oração de seu indigno irmão, porém ainda mais indigno pastor, H. C.
O segundo uso do Catecismo ortodoxo é declarado por Collins na página de rosto: “Publicado para prevenir o câncer e o veneno da heresia e do erro”. Essa função polêmica do catecismo foi necessária porque, em meados do século 17, os escritos de um homem chamado Thomas Collier,41 associado aos batistas particulares, levaram os batistas ao descrédito. Em 1648, Collier negou o entendimento histórico ortodoxo da Trindade. Ele escreveu que Deus 41
Thomas Collier foi um importante líder batista particular na Inglaterra durante meados do século 17. Natural de Somerset, ele foi um líder-chave na adoção da Somerset Confession pela Western Association’s em 1656. Sua carreira é crivada de instabilidade doutrinária, com alguns escritos que são ortodoxos, enquanto outros estavam cheios de heresia. Para mais informações sobre a vida e os escritos de Thomas Collier, veja Richard D. Land, “Doctrinal Controversies of English Particular Baptists (1644-1691) as Illustrated by the Career and Writings of Thomas Collier” (dissertação de PhD, Oxford University, 1979).
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Catecismo ortodoxo
[…] não é, em primeiro lugar, como alguns imaginam, Três Pessoas, mas um só Deus, ou três subsistências, distintas, embora não divididas; é totalmente impossível distinguir Deus dessa maneira e não o dividir; assim, distinguir é dividir; pois três pessoas são três, não apenas distintas, mas divididas: alguns dizem que há Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, porém não três, mas um só Deus; que alguém julgue se não há três Deuses; se três, então não um.42
O subsequente rótulo que foi dado a Collier por Thomas Hall (“ariano, arminiano, samosatiano, antinomiano, anabatista, familista, donatista, separatista, antiescriturista etc. Um inimigo declarado de Deus, de Cristo, Espírito Santo, das Escrituras, da lei, do evangelho, da igreja, da comunidade, da magistratura, do ministério, do exército etc.”)43 foi claramente aplicado a outros batistas de maneira indistinta. Sem dúvida, Collins preocupava-se em defender os batistas contra as acusações de heresia e, ao mesmo tempo, fornecer um instrumento de instrução para evitar a disseminação de mais ensinamentos falsos entre eles. Um último motivo pelo qual Collins publicou o catecismo compreendia identificar a si mesmo e a seus colegas batistas particulares com a ortodoxia dos teólogos protestantes da Europa. Conforme Collins observou no prefácio, “concordo com os teólogos mais ortodoxos em relação aos princípios e artigos fundamentais da fé cristã”.44 Esse catecismo serviu como uma tentativa de expressar a concordância dos batistas com outros grupos de cristãos reformados sobre os assuntos mais essenciais do cristianismo. Para esse fim, Collins escreveu: Embora existam algumas diferenças entre muitos teólogos e nós acerca da constituição da igreja, ainda assim, na medida em que essas coisas não perfazem a essência do cristianismo, nós
42 43
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Thomas Collier, A General Epistle, To The Universal Church of the First Born: Whose Names are written in Heaven (Londres, Giles Calvert, 1648). Thomas Hall, The Collier in his Colours: or, The Picture of a Collier (Londres: n.p., 1652). Esta obra está realmente incluída (com uma página de título separada) em Hall, The Font Guarded With XX Arguments (Londres: 1652). Collins, An Orthodox Catechism, Prefácio.
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Ensinando a verdade, treinando os corações concordamos sobre suas doutrinas fundamentais; portanto, há motivo suficiente para deixar de lado toda amargura e preconceito, e trabalhar para manter um espírito de amor entre todos, sabendo que nunca veremos todas as coisas aqui de modo igual.45
Tanto a escolha do Catecismo de Heidelberg como base para seu catecismo quanto o uso da palavra “ortodoxo” no título destacam o interesse de Collins em se identificar com a ortodoxia protestante histórica. Conforme James Renihan escreve sobre a escolha do título por Collins: “Embora ele obviamente se refira ao verdadeiro caráter das doutrinas que promove, também identifica a fonte dessas doutrinas, os chamados teólogos ortodoxos protestantes da Europa. Collins estava fazendo uma declaração enfática: ‘Nós somos ortodoxos como eles são’”.46 Semelhanças entre o Catecismo de Heidelberg e o Catecismo ortodoxo Ao comparar os dois catecismos, é impressionante notar como são muito semelhantes. Das 129 perguntas do Catecismo de Heidelberg (o Catecismo ortodoxo não é numerado), há apenas onze mudanças substanciais: a adição de dez perguntas e a omissão de uma. Collins segue o Catecismo de Heidelberg ao começar com a pergunta que Philip Schaff chamou de “o resumo de todo o evangelho”.47
45 46 47
P.
Qual é o seu único conforto na vida e na morte?
R.
Que, tanto na alma como no corpo, quer eu viva ou morra, não sou meu, mas pertenço inteiramente ao meu fiel Senhor e Salvador Jesus Cristo, o qual, por meio de seu preciosíssimo sangue, fazendo satisfação plena de todos os meus pecados, livrou-me de todo o poder do diabo e preservou-me de tal forma que, sem a vontade de meu Pai celestial, nem sequer um fio de cabelo pode cair de minha cabeça; sim, todas as coisas devem servir para minha segurança: logo,
Ibid. Renihan, True Confessions, p. 235. Schaff, Creeds of Christendom, vol. 1, p. 541.
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Catecismo ortodoxo
pelo seu Espírito, ele também me assegura a vida eterna e me prepara para que, de agora em diante, eu viva para ele.48 A estrutura básica do catecismo segue o padrão do Catecismo de Heidelberg, delineado na segunda pergunta: P.
Quantas coisas são necessárias para o seu conhecimento, a fim de que, desfrutando desse conforto, possa viver e morrer feliz?
R.
Três. Primeira coisa: a grandeza do meu pecado e miséria. Segunda: como fui liberto de todo pecado e miséria. Terceira: a gratidão devida a Deus por essa libertação.49
O restante do catecismo, da terceira pergunta até o final, segue o esboço básico considerado na pergunta prévia: 1. Da miséria da humanidade; 2. Da redenção da humanidade; e 3. Da gratidão.50 Todos os tópicos contidos no Catecismo de Heidelberg também são tratados no Catecismo ortodoxo.51 O restante desta introdução será dedicado a três tópicos mantidos no Catecismo ortodoxo. São eles: o Credo dos apóstolos, os sacramentos e a Ceia do Senhor. Credo dos apóstolos Tanto o Catecismo de Heidelberg quanto sua contraparte batista preocupam-se com o ensino católico52 histórico. Philip Schaff afirma que o Credo dos apóstolos é “um admirável resumo popular do ensino apostólico em plena harmonia com o espírito e até mesmo com a letra do Novo Testamento”.53 O Credo dos apóstolos fornece a estrutura trinitária da 48 49 50
51 52 53
Collins, An Orthodox Catechism, p. 1. Ibid., p. 2. Esses títulos foram dados por Zacarias Ursino em The Summe of Christian Religion. Eles não estão presentes no catecismo, porém a estrutura é inerente às questões cuja ordem Collins segue sem exceção. Embora a seção sobre o batismo tenha sido bastante alterada, o tópico ainda é abordado. Há também perguntas adicionadas a certos tópicos por Collins. Isto é, universal, aceito por todos os cristãos, não o ensino católico romano. (N. R.) Schaff, Creeds of Christendom, vol. 1, p. 14.
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Ensinando a verdade, treinando os corações
segunda seção do catecismo, que destaca a redenção da humanidade. O restante da seção continua em forma de esboço, como indica na resposta à pergunta: “Em quantas partes este Credo está dividido?”. A resposta: “Em três: a primeira, sobre o Pai eterno e nossa criação; a segunda, sobre o Filho e nossa redenção; a terceira, sobre o Espírito Santo e nossa santificação”.54 Em claro contraste com a heterodoxia expressa por Thomas Collier com relação à doutrina da Trindade, o Catecismo ortodoxo afirma a doutrina bíblica com estas palavras: P.
Visto que há apenas uma única substância de Deus, por que você dá o nome de três — o Pai, o Filho e o Espírito Santo?
R.
Porque Deus se manifestou de tal forma em sua Palavra, que essas três pessoas distintas são o único e verdadeiro Deus eterno.55
Embora siga totalmente o Catecismo de Heidelberg na exposição Credo dos apóstolos, Collins considera adequado fazer algumas distinções importantes. Na margem, ao lado do texto do Credo dos apóstolos, Collins faz as seguintes advertências. Sobre a expressão: “Desceu ao inferno”, Collins acrescenta: “Não que ele (i.e., Cristo) tenha ido para o lugar dos condenados, mas sim que se encontrou sem dúvida no estado dos mortos. Veja o Dr. Ussher sobre Cristo, no livro Body of Divinity, p. 174, e o Sr. Perkins a respeito do credo”.56 Da mesma forma, acerca da expressão “Creio na […] santa igreja católica”, Collins acrescenta: “Não que devamos acreditar, mas existe de fato uma igreja católica, e por católica não queremos dizer nada mais que a igreja universal, a companhia escolhida dentre toda a humanidade para a vida eterna, pela Palavra e pelo Espírito de Deus”.57 Todavia, mesmo com essas
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Collins, An Orthodox Catechism, p. 9. Ibid. Ibid., p. 8. Nesta nota, Collins se refere ao bispo James Ussher, A Body of Divinity: Being the Sum and Substance of the Christian Religion (Birmingham: Solid Ground Christian Books, 2007), e ao puritano William Perkins, An Exposition of the Symbole or Creed of the Apostles (Cambridge: John Legatt, 1595). Collins, An Orthodox Creed, p. 8.
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ressalvas, Collins não se desvia do entendimento protestante comum do Credo.58 Ele apenas fornece glosas explicativas para os que podem ter sido expostos pouco tempo atrás a essa linguagem por meio do catecismo. Sacramentos Apesar de a Segunda confissão de fé de Londres (1677, 1689)59 alterar o termo “sacramento” da Confissão de fé de Westminster (1646) para “ordenança”, nenhuma alteração desse tipo está presente no Catecismo ortodoxo. Como ficará claro mais adiante na avaliação da alteração de Collins ao tratamento do batismo no Catecismo de Heidelberg, ele estava no mínimo ciente, se não envolvido na composição original da Segunda confissão de fé de Londres. Contudo, a escolha de manter essa linguagem indica a falta de unanimidade sobre o assunto entre os batistas particulares.60 Embora Hercules Collins não hesitasse em alterar o catecismo onde ele cresse contar com a garantia das Escrituras, obviamente não teve problemas em usar a palavra “sacramento” e manter a definição usada no Catecismo de Heidelberg, linguagem que pode ser atribuída a homens como João Calvino, Heinrich Bullinger e Filipe Melâncton.61 Por exemplo, ao declararem a fonte da qual 58 59
60
61
Isso pode ser visto nas obras de Ussher e Perkins referenciadas acima. Esta popular confissão de fé foi publicada pela primeira vez em 1677, porém foi oficialmente adotada pela Assembleia Geral de Londres reunida em 1689. Foi publicada mais tarde com uma lista de signatários. Hercules Collins (junto com homens como Hanserd Knollys, William Kiffin e Benjamin Keach) foi um dos signatários originais do documento histórico. A confissão pode ser acessada em William L. Lumpkin, Baptist Confessions of Faith (Valley Forge: Judson Press, 1969), p. 235-295. Na verdade, Stanley K. Fowler argumenta, em seu More Than A Symbol: The British Baptist Recovery of Baptismal Sacramentalism (Londres: Paternoster Press, 2002), que a mudança da terminologia de “sacramento” para “ordenança” na Segunda confissão de Londres não significa que os batistas tenham adotado uma visão não sacramental do batismo. Entre as razões citadas por ele para essa conclusão estão: “os termos ‘sacramento’ e ‘ordenança’ eram frequentemente usados como sinônimos pelos batistas da época, incluindo os signatários da confissão” e “o Capítulo XXX da Segunda confissão de Londres interpretou a Ceia do Senhor de acordo com a tradição de Westminster — ao longo das linhas de uma ‘presença espiritual’ de Cristo que é mediada pela Ceia, ou seja, a visão calvinista em oposição à visão zuingliana” (ibid., p. 17). Anteriormente, os estudiosos procuraram determinar se o Catecismo de Heidelberg aderia a Zuínglio, Melâncton ou Calvino na descrição dos sacramentos. Lyle D.
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provém a fé que, por si só, nos torna “participantes de Cristo e de seus benefícios”, os dois catecismos afirmam: “Do Espírito Santo, que a acende em nosso coração pela pregação do evangelho e a confirma pelo uso dos sacramentos”.62 Os sacramentos, que se limitam ao batismo e à Ceia do Senhor, são então definidos como os “sinais e selos sagrados, colocados diante de nossos olhos, e ordenados por Deus para essa causa, a fim de que ele possa declarar e selar através deles a promessa de seu evangelho para nós”.63 Desse modo, os sacramentos funcionam para nos assegurar “que a salvação de todos nós está no sacrifício único de Cristo, oferecido por nós na cruz”.64 Ceia do Senhor Alguns teólogos batistas modernos podem ficar surpresos ao saber que não há quase nenhuma mudança entre um documento reformado do século 16 e um documento batista do século 17 sobre a questão Ceia do Senhor,65 mas é exatamente isso que se encontra quando as seções dos catecismos de Heidelberg e Ortodoxo são examinadas lado a lado. Por exemplo, os catecismos afirmam que, quando um cristão participa da Ceia do Senhor, ele pode dizer: “Minha alma não é menos seguramente alimentada para a vida eterna com seu
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Bierma argumentou de modo persuasivo em sua monografia — The Doctrine of the Sacraments in the Heidelberg Catechism. Studies in Reformed Theology and History 4 (Princeton Theological Seminary, 1999) — que a linguagem do Catecismo de Heidelberg sobre os sacramentos é intencionalmente vaga nos pontos sobre os quais os principais líderes da Reforma discordavam. A linguagem foi escolhida especificamente para acomodar todos os pontos de vista da Reforma (com exceção da visão luterana não modificada e anterior a Melâncton). Em relação ao objetivo do capítulo, é suficiente notar que a linguagem sobre os sacramentos se baseia no entendimento da Reforma, embora seja uma declaração de consenso. Collins, An Orthodox Catechism, p. 25. Ibid. Ibid., p. 26. A única mudança real digna de nota é a mudança do título da seção de “Of the Holy Supper of Our Lord Jesus Christ” [Da Santa Ceia de nosso Senhor Jesus Cristo] em Heidelberg para “Of the Lord’s Supper” [Da Ceia do Senhor]. Esta mudança foi provavelmente feita porque o primeiro lembrava o anglo-catolicismo do final do século 17.
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corpo, que foi crucificado por mim, e seu sangue, que foi derramado por mim, do que eu recebo e provo pela boca do meu corpo o pão e o vinho, os sinais do corpo e do sangue de nosso Senhor, recebidos pela mão do ministro”.66 Além disso, pode-se dizer que quem participa do corpo de Cristo à mesa do Senhor se torna “cada vez mais unido ao seu corpo sagrado, de modo que, embora ele esteja no céu, e nós na terra, ainda assim somos carne de sua carne e osso de seus ossos: e como todos os membros do corpo são por uma alma”, por meio da obra do “Espírito Santo, que habita tanto em Cristo quanto em nós”.67 Da mesma forma, Collins afirma que, na Ceia do Senhor, chamada por ele “sinal visível e penhor”, Deus nos garante que somos “participantes de seu corpo e sangue, mediante a ação do Espírito Santo”.68 De acordo com Michael Haykin, essa declaração significa que, “Na perspectiva de Collins, embora o corpo de Cristo esteja no céu, podemos ter comunhão com o Cristo ressuscitado na Ceia através do Espírito”.69 Ao manter essa linguagem, Collins concorda com a visão da presença espiritual da Ceia do Senhor articulada por João Calvino.70 Alterações do Catecismo de Heidelberg no Catecismo ortodoxo A alteração mais notável feita por Hercules Collins no Catecismo ortodoxo é a mudança da seção que trata do batismo. O desejo de Collins de promover a unidade entre os batistas e outros grupos protestantes não o levou a comprometer essa característica batista. De fato, no prefácio, que clama por unidade na “essência do cristianismo”, Collins declarou que só diferia dos “teólogos ortodoxos” em “algumas coisas sobre a constituição da igreja, nas quais me esforcei um pouco 66 67 68 69
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Collins, An Orthodox Catechism, p. 39. Ibid. Ibid., p. 42. Michael A. G. Haykin, “‘His soul-refreshing presence’: The Lord’s Supper in Calvinistic Baptist Thought and Experience in the ‘Long’’ Eighteenth Century”, em: Baptist Sacramentalism, ed. Anthony R. Cross e Philip E. Thompson. Studies in Baptist History and Thought 5 (Londres: Paternoster Press, 2003), p. 181. Veja João Calvino, Institutes of the Christian Religion, livro IV, capítulo VII.
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para mostrar aos senhores a verdadeira forma da casa de Deus”.71 O primeiro indício no catecismo de que Collins faria uma mudança significativa no assunto do batismo é encontrado quando ele insere a expressão “prefigurada no santo batismo”72 na resposta à pergunta 43 do Catecismo de Heidelberg. Essa pergunta descreve a participação do crente com Cristo em sua crucificação, morte e sepultamento. A inserção da expressão acima por Collins demonstra a importância da correspondência do símbolo com a coisa significada para os batistas. Ainda que as perguntas que descrevem o significado do batismo permaneçam inalteradas no Catecismo ortodoxo, Collins acrescentou uma seção completa sobre o modo de batizar. Isso ilustra que a briga dos batistas com entidades reformadas não versava sobre o entendimento do significado do batismo (pelo menos quando aplicado a adultos). Sua discordância girava em torno do modo de batismo e da identidade dos destinatários apropriados. Em resposta à pergunta “O que é o batismo?” (que se destaca por sua ausência no Catecismo de Heidelberg), Collins reproduz a descrição do batismo da Segunda confissão de fé de Londres quase palavra por palavra: “Imersão ou mergulho da pessoa na água, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, para os devidamente qualificados por Cristo”.73 Tendo respondido à pergunta sobre o modo com essa definição, ela suscita a questão: “Quem são os sujeitos apropriados dessa ordenança?”. A resposta, mais uma vez, provém da Segunda confissão de Londres: “Aqueles que de fato professam arrependimento em relação a Deus, fé e obediência ao nosso Senhor Jesus Cristo”.74 Collins continua seu tratamento sobre o batismo e nega a validade do batismo infantil com o fato de as Escrituras não o ordenarem em lugar algum.75 Isso é seguido por uma série de perguntas que fornecem uma refutação extensa de quatro páginas e meia de argumentos favoráveis ao batismo infantil a 71 72 73 74 75
Collins, An Orthodox Catechism, Prefácio. Ibid., p. 16. Ibid., p. 26. Veja The Second London Confession of Faith, 29.1. Collins, An Orthodox Catechism, p. 26. Veja The Second London Confession of Faith, 29.2. Collins, An Orthodox Catechism, p. 26-27.
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partir da teologia dos pactos.76 Desse ponto em diante, Collins volta a seguir o Catecismo de Heidelberg ao tratar do significado do batismo. A discussão sobre o modo e os destinatários apropriados do batismo constitui a principal área de divergência entre os dois catecismos. Adições ao Catecismo de Heidelberg no Catecismo ortodoxo Há quatro adições notáveis ao Catecismo de Heidelberg feitas por Hercules Collins no Catecismo ortodoxo. Na maior parte, os acréscimos não refletem um desacordo com os autores do Catecismo de Heidelberg, e sim uma ênfase especial que Collins quis acrescentar em sua edição sobre o batismo. Na seção a respeito do batismo, foi acrescentada uma pergunta quanto à “imposição de mãos” sobre os batizados. Na seção sobre a Ceia do Senhor, foi acrescentada uma pergunta sobre “Cantar um hino” após a Ceia. Entre a Oração do Senhor e sua exposição, foi acrescentada uma pergunta sobre o fato de os cristãos serem obrigados, ou não, a alguma fórmula na oração. No final do catecismo, após o Credo dos apóstolos, são acrescentados o Credo niceno e o Credo atanasiano. O significado dessas adições será tratado a seguir. Imposição de mãos Ao insistir na ordenança bíblica da imposição de mãos sobre os batizados, Hercules Collins representou uma posição minoritária entre os batistas particulares do século 17. Essa era uma crença comum entre os batistas gerais da época, sendo incluída em seu Credo ortodoxo de 1678 como um dos principais artigos de fé.77 A outra exceção notável na crença dessa doutrina entre os batistas particulares da época era Benjamin Keach.78 Collins acreditava que era “o dever de todo cristão submeter-se a essa prática”, que ele definiu assim: 76 77 78
Ibid., p. 27-31. Veja o Artigo XXXII no The Orthodox Creed estabelecido em Lumpkin, Baptist Confessions of Faith, p. 295-334. É interessante que esta prática foi trazida para a América por Elias Keach, filho de Benjamin, que persuadiu os batistas da Filadélfia a incluir um artigo em sua
76
Ensinando a verdade, treinando os corações Os ministros de Cristo impõem com solenidade as mãos sobre a cabeça dos batizados, com uma oração a Deus todo-poderoso para que aumentem as graças e os dons do Espírito Santo, a fim de nos capacitar a manter firme a fé que agora professamos visivelmente, tendo entrado na igreja pelo santo batismo, também para nos ajudar a manter a luta constante contra o mundo, a carne e o diabo.79
Cântico de hinos Do mesmo modo que a imposição de mãos era uma ordenança a ser acrescentada ao sacramento do batismo, o canto de um hino também deveria ser acrescentado ao sacramento da Ceia do Senhor. Essa era uma questão de grande controvérsia entre os batistas da época.80 Collins apresenta um argumento belo, mas sucinto, para a prática nestas palavras: Mediante o cântico de louvores a Deus, de forma vocal e audível, por seus grandes benefícios e bênçãos para a igreja pelo derramamento do preciosíssimo sangue de seu Filho para lhes tirar o pecado, bênçãos essas destacadas no sacramento. Além disso, vemos que nosso Senhor e seus discípulos concluíram a ordenança com o cântico de um hino ou salmo. Se Cristo cantou, pois iria morrer, mais motivos para cantar temos nós, por quem ele morreu. Ele morreu para que não morrêssemos eternamente, mas vivêssemos uma vida espiritual e eterna com o Pai, o Filho e o Espírito em glória inexprimível.81
Além dessa seção do catecismo, há anexado a esse documento “An Appendix Concerning the Ordinance of Singing” [Um apêndice referente à ordem do canto],82 no qual o autor apresenta os argumentos
79 80
81 82
confissão sobre a imposição de mãos dos batizados. Veja o Artigo XXXI na The Philadelphia Confession em Lumpkin, Baptist Confessions of Faith, p. 351. Collins, An Orthodox Catechism, p. 34. Acerca da controvérsia sobre o cântico de hinos, veja Murdina D. MacDonald, “London Calvinistic Baptists, 1689-1727: Tensions Within a Dissenting Community Under Toleration” (tese DPhil, Regent’s Park College, University of Oxford, 1982), p. 44-82; e Walker, The Excellent Benjamin Keach, p. 275-303. Collins, An Orthodox Catechism, p. 44-45. Ibid., p. 75-86. Trechos encontrados em Haykin e Weaver, Devoted to the Service of the Temple, p. 79-84.
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a favor do cântico de louvores a Deus, bem como a atitude adequada para acompanhar o canto. “Cantar”, diz Collins, “é um dever moral”83 e deve ser acompanhado de “fé”, “alegria espiritual” e “graça”.84 Fórmulas fixas de oração Entre a Oração do Senhor e sua exposição no catecismo, Collins insere uma pergunta que levanta uma questão de preocupação especial para os batistas, bem como para outros separatistas. “Os cristãos estão ligados a essa mesma forma de oração”.85 Essa era uma pergunta muito importante, considerando que os puritanos haviam sido expulsos de suas posições na Igreja da Inglaterra em 1662, em grande parte porque não usavam fórmulas fixas de liturgia, incluindo a oração, no culto. Collins afirma corretamente que a Oração do Senhor é: […] um breve resumo das coisas que devemos pedir a Deus, mas Cristo também quer que desçamos até os pedidos especiais e peçamos benefícios específicos, pois as fórmulas prescritas não são nada mais que um conjunto ou curso de certos princípios ou regras, aos quais todos os benefícios, corporais e espirituais, podem ser acrescidos.86
Essa seção reflete mais uma vez a sabedoria pastoral de Hercules Collins ao antecipar as necessidades e as perguntas de sua congregação quanto à oração. Os credos Bem no final do catecismo, Collins acrescenta ao Catecismo de Heidelberg, já incluído, mais dois: o Credo niceno e o Credo atanasiano. Juntos, esses três credos contêm, nas palavras de Philip Schaff: […] em um breve esboço popular, os artigos fundamentais da fé cristã, necessários e suficientes para a salvação. Eles incorporam 83 84 85 86
Collins, An Orthodox Catechism, p. 76. Ibid., p. 85. Ibid., p. 65-66. Ibid., p. 65.
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Ensinando a verdade, treinando os corações os resultados das grandes controvérsias doutrinárias das eras nicena e pós-nicena. São uma profissão de fé no único Deus vivo e verdadeiro, Pai, Filho e Espírito Santo, que nos criou, redimiu e santifica. Seguem a ordem da própria revelação divina, começando com Deus e a criação, e terminando com a ressurreição do corpo e a vida eterna. Eles estabelecem os artigos de fé na forma de fatos em vez de dogmas, e são bem adequados […] para o uso catequético e litúrgico.87
Deve ser óbvia a importância da adição dos credos Niceno e Atanasiano ao Credo dos apóstolos à luz das aberrações doutrinárias de Thomas Collier sobre a questão da Trindade. Eles tratam de muitas das questões sobre as quais Collier havia se equivocado. Collins assume aqui a posição de ortodoxia irrepreensível. Como ele escreveu no Prefácio: “Não me comprometi a apresentar-lhes novas noções ou princípios, esperando que não haja um espírito ateniense em nenhum de vocês, mas acredito que um evangelho antigo (para os senhores que lhe provaram a doçura) será mais aceitável do que um novo, ainda que publicado por um anjo do céu”.88 Esse é de fato um catecismo ortodoxo, mas será que ele é totalmente protestante? O princípio regulador como base das edições de Collins Tendo pesquisado as origens históricas do Catecismo de Heidelberg e do Catecismo ortodoxo, as motivações de Hercules Collins para produzir o catecismo e a maneira como ele editou o conteúdo de seu catecismo, talvez estejamos agora preparados para fazer uma avaliação da base sobre a qual Collins editou o Catecismo de Heidelberg. Em todas as decisões que o pastor tomou com relação ao conteúdo de seu catecismo, há um tema recorrente: a autoridade das Escrituras para governar a adoração. Esse princípio é declarado de forma sucinta no catecismo em resposta à pergunta sobre o que o segundo mandamento exige. A resposta é: “Que não expressemos ou representemos Deus por qualquer imagem,
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Schaff, Creeds of Christendom, vol. 1, p. 13. Collins, An Orthodox Catechism, Prefácio.
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forma ou figura, nem o adoremos de outra maneira que não seja a que ele mesmo ordenou em sua Palavra para ser adorado”.89 Isso nada mais é do que o princípio regulador90 em poucas palavras. Esse princípio pode ser rastreado até o reformador de Genebra, João Calvino, que declarou no tratado A necessidade de reformar a igreja: “Deus desaprova todos os modos de adoração não expressamente sancionados por sua Palavra”.91 E ainda com mais vigor: “Deus rejeita, condena e abomina toda adoração fictícia e emprega sua Palavra como um freio para nos manter em obediência irrestrita”.92 Que lógica explica por que Hercules Collins, embora desejoso de demonstrar sua unidade com os teólogos protestantes ortodoxos mais conhecidos, rejeita-lhes o entendimento sobre o batismo? Ele nega a validade do batismo infantil com as palavras: “Não temos nem preceito nem exemplo para essa prática em todo o Livro de Deus”.93 À pergunta: “A Escritura, em algum lugar, proíbe expressamente o batismo de crianças?”, Collins responde: “É suficiente que o Oráculo Divino ordene o batismo de crentes, a menos que nos tornemos mais sábios que o que está escrito. Nadabe e Abiú não foram proibidos de oferecer fogo estranho, mas, ao fazê-lo, incorreram na ira de Deus, pois lhes havia sido ordenado que tirassem o fogo do altar”. A lógica de Collins reflete a de Calvino, o qual afirmou: “Deveria ser suficiente para a rejeição de qualquer modo de adoração o fato de não ser sancionado pela ordem de Deus”.94 Para Collins, o princípio regulador da 89 90
91
92 93 94
Ibid., p. 52. O tratamento definitivo do princípio regulador se encontra em uma obra publicada pela primeira vez em 1648, escrita pelo puritano Jeremiah Burroughs (1599-1646): Gospel Worship (Morgan: Soli Deo Gloria Publications, 1990). É interessante que o antigo historiador batista inglês Thomas Crosby usa as próprias palavras de Burroughs (um pedobatista) para defender os princípios batistas no Prefácio de seu The History of the English Baptists (Londres, 1738), vol. 1, p. xi-xiii. João Calvino, “The Necessity of Reforming the Church”, em: Tracts Related to the Reformation, trad. Henry Beveridge (Edimburgo: The Calvin Translation Society, 1844), vol. 1, p. 128. [A necessidade de reformar a igreja (Firminópolis: João Calvino Publicações, 2024).] Ibid., p. 133. Collins, An Orthodox Catechism, p. 26-27. Calvin, “The Necessity of Reforming the Church”, vol. 1, p. 133.
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adoração reformada exigia a rejeição do batismo infantil. Esse também foi seu argumento no tratado sobre o batismo intitulado Believer’s Baptism from Heaven [O batismo do crente, proveniente do céu]. Ali Collins escreveu que sua intenção ao publicar esse livro consistia em […] demonstrar esse sacramento em sua pureza apostólica, primitiva, livre das adulterações dos homens — um pecado imputado por Deus aos sábios judeus, que anularam os mandamentos divinos por meio de suas tradições. Ah! que nenhum dos eruditos entre os gentios, em especial os das igrejas reformadas, seja acusado de colocar as invenções humanas no lugar das instituições de Cristo.95
Isso ajuda a explicar por que Collins reteria tanto de um documento reformado e ao mesmo tempo rejeitava seu ensino sobre o batismo infantil. Ele cria que o ensino do catecismo em outras partes era justificado pelas Escrituras, mas, onde isso não ocorria, Collins era obrigado a seguir a Palavra de Deus. Conclusão O compromisso de Hercules Collins com o princípio regulador da Reforma talvez seja visto com mais clareza no Prefácio de seu catecismo, onde, em meio ao apelo à unidade cristã baseado no compromisso comum com os “princípios e artigos fundamentais da fé cristã”, ele explica sua “diferença em algumas coisas sobre a constituição da igreja”. O pastor expressa sua esperança de que seu zelo pela “verdadeira forma da casa de Deus” não seja mal interpretado. Em seguida, explica: O Deus a quem servimos é muito zeloso com sua adoração; e visto, por meio de sua providência, que a lei de sua casa foi preservada e continuada até nós, consideramos nosso dever, em nossa geração, procurar a mente de Deus em seu santo oráculo, como Esdras e Neemias fizeram na Festa dos Tabernáculos, e reformar o que está errado. Assim como Ezequias, que sofreu muito para purificar 95
Hercules Collins, Believers Baptism from Heaven, and of Divine Institution. InfantsBaptism from Earth, and Human Invention (Londres, 1691), p. 7.
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a Casa de Deus e pôr em ordem tudo que estava desordenado, fez especialmente com que o povo celebrasse a Páscoa de acordo com a instituição, pois, conforme diz o texto, fazia muito tempo que ela não era guardada da maneira prescrita; e embora as puras instituições de Cristo não tenham sido praticadas por algumas centenas de anos de acordo com a devida ordem, ou o foram muito pouco, devido às inovações do anticristo; do mesmo modo que a circuncisão não foi praticada no deserto durante quase quarenta anos, e Josué colocou esse dever em prática assim que Deus manifestou sua intenção nesse particular — assim também nós, tendo nossos juízos informados sobre a verdadeira forma de adoração, não ousamos sufocar a luz que Deus nos deu.96
Embora o batismo possa ter se perdido por séculos, ele foi restaurado como resultado direto da recuperação da ênfase na autoridade e suficiência da Palavra de Deus durante a Reforma Protestante. O zelo de Collins quanto à adoração regulada pela Palavra de Deus o levou a rejeitar a inovação humana do batismo infantil. Ao proceder assim, ele não poderia ter sido mais fiel ao espírito do protestantismo.
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Collins, An Orthodox Catechism, Prefácio.
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