Rio de Janeiro, RJ
Credos e confissões
Direção executiva Judiclay Silva Santos
Traduzido do original em inglês: The Need for Creeds Today Copyright © 2020 J. V. Fesko Publicado originalmente por Baker Academic, uma divisão da Baker Publishing Group Grand Rapids, MI 49516-6287 www.bakeracademic.com Todos os direitos em língua portuguesa reservados por PRO NOBIS EDITORA, Rua Professor Saldanha 110, Lagoa, Rio de Janeiro-RJ, 22.461-220 1ª edição: 2026 ISBN: 978-65-6178-024-7 Impresso no Brasil / Printed in Brazil Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo citações breves, com indicação da fonte.
Conselho editorial Judiclay Santos David Bledsoe Paulo Valle Gilson Santos Leandro Peixoto Helder Cardin Wilson Porte Jr. Supervisão editorial: Cesare Turazzi Tradução: Georgia Zardi Preparação de texto: João Lago Revisão de provas: Thalles de Araujo Índices remissivos: Melina Marinho Capa: Luis de Paula Diagramação: Marcos Jundurian Nesta obra, as citações bíblicas foram extraídas da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA), salvo informação em contrário. As opiniões representadas nesta obra são de inteira responsabilidade do autor e não necessariamente representam as opiniões e os posicionamentos da Pro Nobis Editora ou de sua equipe editorial.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Fesko, John Valero Credos e confissões: a importância da confessionalidade hoje/John Valero Fesko; [tradução Georgia Zardi; Judiclay Santos]. – Rio de Janeiro: Pro Nobis Editora, 2026. Título original: The need for creeds today. ISBN 978-65-6178-024-7 1. Catecismo 2. Confissão 3. Credos - História e crítica 4. Cristianismo 5. Protestantismo 6. Teologia sistemática I. Título. 26-378622.0 Índices para catálogo sistemático: 1. Breve catecismo : Credos : Doutrinas 238.3 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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CDD-238.3
Dedicado à memória de R. C. Sproul
Sumário Apresentação à edição em português — Judiclay Santos • 9 Introdução • 13
1. Argumentos bíblicos em favor das confissões • 25
2. Confissões reformadas (1500-1700) • 51 3. Causas do raquitismo confessional • 87 4. Benefícios das confissões • 137 5. Confissões e piedade • 169 Fechamento • 199
Índice onomástico • 201
Índice de referências bíblicas • 203 Agradecimentos • 207
CREDOS E CONFISSÕES
Apresentação à edição em português Em 11 de julho de 1905, cerca de 3.000 delegados reuniram-se em Londres para o Primeiro Congresso Batista Mundial, visando expressar a unidade espiritual, promover missões e fortalecer a comunhão, preservando a autonomia local. Sob a liderança do presidente do Congresso, o pregador Alexander Maclaren, ocorreu um momento marcante: contrariando o lema de sua época, “Nenhum credo além da Bíblia”, ele convidou a multidão a recitar o Credo dos apóstolos. Maclaren explicou que não se tratava de uma inovação litúrgica, mas do resgate da tradição de professar a fé entregue aos santos, manifestando unidade nas doutrinas centrais. O episódio histórico provou que os batistas podiam afirmar sua ortodoxia sem renunciar aos seus distintivos, tratando o Credo como um resumo fiel da Igreja ao longo dos séculos, e não como um concorrente da Bíblia. O gesto foi tão significativo que acabou sendo repetido cem anos depois, em Birmingham (2005). Mais de um século após o congresso de Londres, o cenário mudou. As igrejas sofreram um profundo processo 9
Apresentação à edição em português
de desconfessionalização. As antigas confissões de fé foram relegadas a um segundo plano, gradualmente substituídas pelo pragmatismo, pelo subjetivismo e por tendências culturais. Consequentemente, muitas comunidades perderam suas raízes doutrinárias, tornando-se frágeis diante do relativismo e de falsas doutrinas. Resgatar as confissões não substitui a autoridade da Bíblia, mas reafirma a compreensão histórica da Igreja. A igreja evangélica brasileira vivencia claramente esse paradoxo: um crescimento numérico sem precedentes que contrasta com uma alarmante superficialidade teológica. Nos púlpitos, a solidez deu lugar a um misticismo de consumo rápido e a um individualismo desprovido de herança histórica. Vivemos o que J. V. Fesko descreve como uma era hipermoderna, na qual a autonomia do sujeito se sobrepõe à comunidade pactual e à história. Nesse contexto de aridez, esta obra surge como um socorro pastoral urgente. Historicamente influenciada pelo Iluminismo, a mentalidade religiosa moderna cultivou antipatia pela tradição. Muitos cristãos bem-intencionados rejeitam os documentos confessionais por acreditarem que competem com as Escrituras. Contudo, Fesko demonstra magistralmente que o slogan “nenhum credo além da Bíblia” é um credo cego à sua própria falibilidade. O autor vai à Bíblia para provar que a própria Palavra de Deus exige a criação, a preservação e a transmissão de tradições confessionais. Desde as instruções sobre a Páscoa e o Shemá em Israel, até as “palavras fiéis” de Paulo e a exortação de Judas para batalhar pela fé (Jd 3), o mandamento divino para confessar a verdade de forma clara e estruturada é irrefutável. 10
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Nesta obra, o perspicaz teólogo John V. Fesko desafia a narrativa infundada de que a vibrante teologia da Reforma teria sido substituída por uma ortodoxia escolástica fria e estéril. O refinamento da linguagem teológica não nasceu de especulação acadêmica, mas da profunda preocupação pastoral de preservar o evangelho, proteger a igreja das heresias e preparar ministros fiéis. Embora foque na tradição reformada, a obra dialoga diretamente com a tradição batista confessional. A Confissão de Fé Batista de 1689 compartilha da mesma herança teológica, provando que os batistas também compreenderam o valor vital das confissões como instrumentos de ensino, unidade e defesa da fé, sempre subordinadas às Sagradas Escrituras. Um dos pontos mais altos do livro é a elucidação do papel duplo das confissões: elas traçam linhas para distinguir a ortodoxia da heresia e desenham círculos que criam espaço para uma saudável “ortodoxia diversificada”. Por meio de exemplos na Confissão de Westminster, o autor ilustra como os redatores buscavam o consenso teológico sem anular a liberdade exegética em questões secundárias. As confissões, portanto, não são camisas de força que asfixiam a igreja, mas balizas seguras que a protegem do fanatismo sectário de um lado e do liberalismo diluidor do outro. Ao adotarmos confissões de fé, não estamos venerando relíquias de um museu. A igreja não começou no dia em que nascemos; Cristo tem concedido mestres à sua noiva ao longo de milênios, e ignorá-los é prova de arrogância, não de espiritualidade. As confissões conectam a igreja local à igreja de todas as eras, e subscrevê-las é sentar-se à mesa com os santos do passado. 11
Apresentação à edição em português
Fesko, porém, não é um triunfalista ingênuo; ele alerta fortemente para os perigos de um confessionalismo divorciado da piedade. Lembrando o triste “duelo que quase aconteceu” no Sínodo de Dort, demonstra que até os momentos mais nobres da história foram manchados pelo pecado humano. A confessionalidade nunca pode ser reduzida a um mero exercício intelectual. A boa teologia deve nascer do amor a Deus e produzir amor ao próximo, transformando o coração. Sem amor, a produção teológica alimenta o orgulho, pois “o saber ensoberbece, mas o amor edifica” (1Co 8.1). A ortodoxia bíblica sempre produzirá ortopraxia. Como pastor no Brasil, alimento o sincero anseio de ver nossas igrejas redescobrindo a riqueza da fé cristã histórica e confessional. Contra o pragmatismo da nossa época, precisamos de púlpitos fiéis à exposição das Escrituras e de igrejas que confessem com convicção a fé entregue aos santos. Os credos não representam o retorno a um tradicionalismo abstrato ou nostálgico, mas a vital recuperação da memória teológica da Igreja. Este livro é um convite à maturidade doutrinária e à beleza da ortodoxia. Minha oração é que ele desperte, especialmente entre os batistas brasileiros, um renovado apreço pelos credos e confissões como instrumentos de ensino e defesa da fé. Que possamos rejeitar “a fé morta dos vivos” e abraçar “a fé viva dos mortos”, firmemente enraizada na Palavra de Deus. Judiclay Santos, pastor da Igreja Batista do Jardim Botânico (RJ), fundador e presidente da Editora e do Ministério Pro Nobis 12
CREDOS E CONFISSÕES
Introdução Dentro da mente religiosa americana, existe uma antipatia e desconfiança em relação à tradição. Ralph Waldo Emerson (1803-1882) personificou essa disposição negativa: “Nossa era é retrospectiva. Ela ergue os sepulcros dos pais. Escreve biografias, histórias e críticas. As gerações passadas contemplaram a Deus e a natureza face a face; nós, por meio dos olhos delas”.1 Em vez de olhar para a religião através dos olhos de nossos predecessores, Emerson acreditava que os indivíduos deveriam contemplar a revelação com seus próprios olhos: Por que não deveríamos nós também desfrutar de uma relação original com o universo? Por que não deveríamos ter uma poesia e uma filosofia de percepção, e não de tradição, e uma religião por revelação a nós, e não a história da deles? […] Há novas terras,
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Ralph Waldo Emerson, Nature, em: , Essays & Lectures (Nova York: Library of America, 1983), p. 7. [Natureza (São Paulo: Montecristo, 2021).]
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Introdução
novos homens, novos pensamentos. Exijamos nossas próprias obras, leis e culto.2
Contudo, a concepção de religião de Emerson era decididamente diferente da fé de seus antepassados. A natureza era, para ele, o livro principal na biblioteca divina, e sua mensagem mística era algo que se recusava a ser capturado em proposições.3 Obscurecer a revelação com proposições tornaria o sábio antipoético.4 Além disso, a leitura de livros seria para momentos de ócio. Quando uma pessoa pode ler a Deus diretamente, “a hora é preciosa demais para ser desperdiçada nas transcrições das leituras de outros homens”.5 Seríamos, portanto, cada um, nosso próprio sacerdote, à medida que rejeitaríamos os pensamentos dos outros em favor da leitura direta de Deus por meio da natureza. Em vez de derivar conhecimento de outras grandes mentes, a pessoa verdadeiramente madura deveria descobrir que a fonte de todo bem se encontra em seu interior.6 Emerson plantou as sementes que gerariam uma visão negativa das tradições, dos credos e das Escrituras, e uma visão positiva dos indivíduos que formam por si mesmos suas próprias perspectivas religiosas. As orações e os dogmas da igreja eram meramente marcos históricos 2 3 4 5
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Ibid., p. 7. Ibid., p. 40. Ibid., p. 43. Id., The American Scholar, em: , Essays & Lectures (Nova York: Library of America, 1983), p. 58. [Ensaios: primeira série (Imago, 1994).] Id., The Divinity School Address, em: , Essays & Lectures (Nova York: Library of America, 1983), p. 78.
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que mostravam até onde as águas da fé haviam subido.7 Os dogmas da igreja não deveriam ser marcos fronteiriços permanentes para distinguir a ortodoxia da heterodoxia. Para este fim, Emerson opina: “Tu mesmo, um bardo recém-nascido do Espírito Santo — lança para trás de ti toda conformidade e familiariza os homens em primeira mão com a Divindade”.8 Esses sentimentos ressoaram em vários acadêmicos e teólogos americanos. Emerson influenciou uma nova geração de teólogos unitaristas;9 e o jurista americano e juiz da Suprema Corte Oliver Wendell Holmes Jr. (1841-1935) declarou que a palestra de Emerson, “O Acadêmico Americano”, foi “nossa Declaração de Independência intelectual”.10 Emerson lançou os fundamentos, e a religião americana carregaria essas características por gerações. Harold Bloom (1930-2019) documentou o fenômeno religioso americano como individualista e místico: Jesus não é um judeu do primeiro século, mas um americano contemporâneo que, por acaso, também foi a primeira pessoa a ressuscitar dos mortos. Como pioneiro, mostra aos outros o caminho para a salvação. Bloom observa o problema: “O que estava ausente em toda essa luminosidade bastante privada era simplesmente a maior parte do
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Ibid., p. 85. Ibid., p. 89. Gary Dorrien, The Making of American Liberal Theology: Imagining Progressive Religion 1805–1900 (Louisville: Westminster John Knox, 2001), p. 58-80. Oliver Wendell Holmes Jr, Ralph Waldo Emerson (Boston: Houghton Mifflin, 1886), p. 115.
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Introdução
cristianismo histórico”. Para ser justo, Bloom celebrava essa evolução doutrinária.11 No entanto, sua observação confirma que, 150 anos depois, o estilo de religião individualista de Emerson ainda prospera. Injetada com os esteroides da chamada renovação espiritual, a religião americana produziu uma vertente sem relação com a história, com celebridades que transcenderam suas próprias amarras denominacionais. Charles Finney (1792-1875) era supostamente presbiteriano, e Billy Graham (1918-2018) afirmava ser um batista do sul, porém ambos deram pouca atenção aos distintivos doutrinários de suas respectivas denominações.12 Bloom observa, sem surpresa, que a religião americana tende a rejeitar o senso de comunidade.13 E os americanos apenas aceleraram ainda mais pela estrada do individualismo na era da internet. A tecnologia impulsionou o individualismo a níveis cada vez maiores. A psicóloga Jean Twenge escreve sobre a mais nova geração a atingir a maioridade, a qual chama de “iGen”.14 Essa geração compreende um quarto da população americana, e está se desligando da religião em taxas alarmantes. Na década de 1960, 93% dos estudantes 11 12 13 14
Harold Bloom, The American Religion, 2a ed. (Nova York: Chu Hartley, 2006), p. 54. Ibid., p. 63. Ibid., p. 56. Jean M. Twenge, iGen: Why Today’s Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy—and Completely Unprepared for Adulthood (Nova York: Atria Books, 2017). [iGen — Por que as crianças superconectadas de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a vida adulta (São Paulo: Editora NVersos, 2018).]
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universitários se identificavam com uma religião; esse número caiu para 68% em 2016. Entre os membros da iGen, rejeitar crenças religiosas é mais socialmente aceitável do que era para as gerações anteriores.15 Sua geração tende a ver os textos religiosos antigos como meras criações de seres humanos falíveis, e geralmente pensa que qualquer valor o qual a religião possa oferecer aparece em outros lugares com menos “bagagem”.16 Os jovens de hoje são radicalmente individualistas e estão dispostos a criar suas próprias crenças religiosas privadas — ou a se contentar com uma ignorância deliberada e feliz. Uma das razões pelas quais a participação na religião organizada está em declínio é o “foco crescente da cultura americana no individualismo”, a ideia de que as pessoas podem e devem fazer suas próprias escolhas.17 Em um mundo tecnológico onde a vida útil média de um aplicativo de smartphone é inferior a trinta dias, que esperança há da iGen abrir livros antigos e se envolver com textos remontando a milhares de anos, ou de abraçar a religião tradicional?18 Em tal contexto, um livro sobre a importância das confissões de fé pode parecer fadado ao fracasso. Mas as primeiras impressões nem sempre são precisas. Ao olharmos para o desenvolvimento da religião americana,
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Ibid., p. 121-122. Ibid., p. 122-123. Ibid., p. 138. Kevin Kelly, The Inevitable: Understanding the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future (Nova York: Penguin Books, 2017), p. 11. [Inevitável — As 12 forças tecnológicas que mudarão nosso mundo (Rio de Janeiro: AltaBooks, 2019).]
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Introdução
podemos dizer que o uso de confissões de fé está, no geral, em declínio, embora haja dois fatores importantes que devemos considerar. Primeiro, apesar do crescimento do individualismo religioso, uma minoria de cristãos continua a empregar confissões de fé. Tal grupo inclui cristãos de diversas tradições, todavia meus próprios interesses e lealdades residem no cristianismo reformado. Este ramo do cristianismo se firma na tradição teológica que emergiu da Reforma do século 16 e foi codificada nos Padrões de Westminster (incluindo a Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve) e nas Três Formas de Unidade (a Confissão Belga, os Cânones de Dort e o Catecismo de Heidelberg). Segundo, se dermos um passo atrás e olharmos o quadro geral dos últimos dois mil anos de história da igreja, tal perspectiva revela rapidamente que o cristianismo confessional dominou o cenário. A ascensão do individualismo nos últimos duzentos anos é um fenômeno anômalo. Isso não quer dizer que este pensamento desvanecerá em breve, como a névoa da manhã. Porém a igreja empregou confissões de fé ao longo da história, e essa tendência continuará. Ainda assim, dado o avanço do individualismo, atualmente nos encontramos numa encruzilhada na qual é necessário reavaliar e nos reapropriar com a necessidade bíblica e as virtudes práticas das confissões de fé. Argumento e plano do livro Argumento Este livro defende a tese de que as confissões de fé são, portanto, necessárias tanto para o ser (esse) quanto 18
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para o bem-estar (bene esse) da igreja. Em outras palavras, as confissões de fé não são apenas benéficas ou sábias — e, assim, úteis para a igreja (embora certamente sejam ambas as coisas) —, mas a Bíblia ensina que a igreja deve criar suas próprias confissões de fé a fim de transmitir às gerações futuras a fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos. Tal afirmação pode parecer indefensável, especialmente em nosso clima atual de hiperindividualismo. No entanto, o testemunho histórico dos últimos dois mil anos de história da igreja e o uso generalizado de confissões de fé pelas igrejas ocidentais e orientais, protestantes e católicas romanas, antigas e contemporâneas, confirmam a validade desta tese. Plano O primeiro capítulo explora oito textos bíblicos, demonstrando que a Bíblia instrui a igreja a criar confissões de fé. Quando Deus disse aos israelitas para contarem às gerações futuras o significado da Páscoa, ele ordenou aos pais que catequizassem seus filhos na fé de Israel. Eles tinham uma traditio divinamente dada, a qual deveriam transmitir de geração em geração. Deus também deu a Israel uma confissão de fé básica no Shemá: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6.4). Essa confissão era uma proteção contra a heterodoxia, uma declaração de verdade doutrinária sobre a qual Israel deveria meditar, uma verdade confessional que inspirava amor e devoção a Deus. O apóstolo Paulo retoma esses temas em suas Epístolas Pastorais quando repete suas “palavras fiéis”, declarações que a igreja primitiva formulou com base no ensino de Jesus. 19
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A igreja não deveria simplesmente imitar o ensino de Cristo, mas absorvê-lo e transmiti-lo às gerações futuras, para que também elas amassem a Deus e uns aos outros. O amor está no cerne de um confessionalismo bíblico e subordinado. O segundo capítulo recapitula a história das confissões na tradição reformada de 1500 a 1700. Desde o século 19, muitos teólogos reformados acreditam que as confissões pós-Reforma distorceram a teologia da Reforma Protestante por meio de abordagens cada vez mais detalhadas e escolásticas. Embora essa crítica seja comum, este capítulo demonstra que as confissões pós-Reforma mantêm continuidade com suas predecessoras da era da Reforma. As diferenças entre as confissões dos dois períodos residem no surgimento de disputas intraprotestantes e em debates com os católicos romanos. As confissões de ambas as eras também diferem porque surgiram sob circunstâncias históricas distintas e porque as confissões posteriores foram escritas por comissões de teólogos, e não por reformadores individuais. Com a contribuição de um número maior de teólogos, tornou-se necessária maior precisão, assim como uma ambiguidade doutrinária deliberada, para acomodar pontos de vista por vezes divergentes. Em outras palavras, embora os críticos frequentemente caracterizem as confissões como camisas de força doutrinárias, além de traçar linhas para marcar as fronteiras entre a doutrina verdadeira e a falsa, aqueles que redigiram essas confissões também traçaram círculos para abrir espaço para múltiplas visões dentro dos limites da ortodoxia. O terceiro capítulo examina por que as confissões de fé caíram em desuso em grande parte do cenário eclesiástico 20
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americano. Aborda algumas das razões atuais para a negligência das confissões, mas também mergulha no século 16 em busca de respostas mais profundas. A Reforma do século 16 contém as sementes tanto do confessionalismo quanto do anticonfessionalismo. O ceticismo doutrinário foi usado como um motor de guerra teológica, crescendo rapidamente fora de controle e contribuindo para a desvalorização da tradição no iluminismo e para a rejeição total das confissões de fé. Contudo, a culpa pelo anticonfessionalismo não recai exclusivamente sobre os críticos; os defensores das confissões também carregam parte da responsabilidade. Convicção teológica e violência caminharam juntas; um dos conflitos mais brutais da história foi travado ao longo de linhas confessionais, protestantes contra católicos, e isso também contribuiu para a rejeição em larga escala das confissões de fé. Se quiser fazer uso adequado das confissões, a igreja deve reconhecer os abusos do passado e tomar medidas para garantir que os mesmos erros não ocorram no futuro. O quarto capítulo aborda vários dos benefícios das confissões de fé. Complementando o primeiro capítulo, que trata em grande parte das confissões e do esse (ser) da igreja, este capítulo explora como as confissões servem ao bene esse (bem-estar) da igreja. As confissões de fé funcionam como marcos divisórios para distinguir a ortodoxia da heterodoxia, criam espaço para uma ortodoxia diversificada e conectam a igreja ao seu testemunho histórico. Ou seja, as confissões permitem à igreja praticar o que G. K. Chesterton (1874-1936) chamou de “democracia dos mortos”; esta é a ideia de que, ao tentar decidir uma 21
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questão difícil, não devemos consultar apenas os vivos; a sabedoria dita que também consultemos os mortos por meio de livros antigos e, eu acrescentaria, de confissões.19 A igreja não começou quando você ou eu nos juntamos às suas fileiras; ela existe há milênios. Ao longo desse tempo, Cristo concedeu mestres à igreja como dons, e nós os ignoramos por nossa conta e risco (Ef 4.11-12). O quinto capítulo examina um episódio pouco conhecido da história da igreja, quando um delegado ao Sínodo de Dort (1618-1619) desafiou um colega para um duelo até a morte por causa de um desacordo doutrinário. Este capítulo mostra que, mesmo quando envolvida nas tarefas mais sagradas — como escrever uma confissão de fé —, a igreja por vezes permitiu ao mundo moldá-la à sua própria imagem, alterando sua conduta de maneiras pecaminosas. O “duelo que quase aconteceu” serve como uma advertência perpétua. Não devemos permitir aos contaminantes do pecado infectar nem as confissões nem o processo de redação confessional, enquanto buscamos transmitir a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Novamente, as confissões de fé não visam a uma precisão doutrinária fria, mas a assegurar a preservação da fé pela igreja para que possamos amar o Deus triúno, amar nosso próximo e transmitir a verdade às gerações futuras. O livro então conclui com observações resumidas sobre a importância das confissões de fé para o futuro da igreja.
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G. K. Chesterton, Orthodoxy: The Romance of Faith [1908]; reimpr. (Nova York: Doubleday, 1990), p. 48. [Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2017).]
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Conclusão Às vezes, a verdade soa estranha, até mesmo hostil às nossas sensibilidades. Este pode ser o nosso caso ao nos depararmos com as confissões de fé da igreja dentro de nossa cultura individualista. No entanto, existem boas razões bíblicas para criar e transmitir confissões de fé. Quando criamos, professamos e transmitimos confissões às gerações futuras, não propagamos a fé morta dos vivos, mas a fé viva dos mortos.20 Praticamos a “democracia dos mortos” e unimos as mãos aos santos de épocas passadas para dar testemunho do senhorio do Deus triúno e da redenção que vem pelo evangelho de Cristo.
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Jaroslav Pelikan, The Vindication of Tradition (New Haven: Yale University Press, 1984), p. 43.
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1 Argumentos bíblicos em favor das confissões Introdução À medida que a democracia se espalhava pelos Estados Unidos em expansão nos séculos 18 e 19, os ideais de liberdade e o cristianismo se mesclaram e deram à luz uma forma de religião tipicamente americana. Barton W. Stone (1772–1844), Thomas Campbell (1763–1845) e o filho de Thomas, Alexander Campbell (1788–1866), foram líderes do movimento de Restauração (também conhecido como movimento Stone-Campbell), o qual desejava remover as camadas de dogma acumulado e retornar o cristianismo ao que eles acreditavam ser sua forma mais pura e primitiva. Os líderes do movimento chamaram sua ruptura com a Igreja Presbiteriana como sua “declaração de independência”. Alexander Campbell, inclusive, encorajava seus seguidores a comemorar o dia 4 de julho de 1776 como uma data equivalente à Páscoa judaica. Ou seja, Stone e os Campbells criaram um movimento populista que surfou na onda da democracia e da liberdade americanas. Em vez de confissões de fé, o movimento Stone-Campbell proclamava 25
Argumentos bíblicos em favor das confissões
o lema “nenhum credo além da Bíblia”. Ficava claro que muitos no Novo Mundo tinham pouca consideração pela fé confessional do Velho Mundo.21 O movimento anticredal cresceu à medida que as igrejas as quais abraçaram a democracia teológica superaram seus concorrentes confessionais. Em 1776, as Igrejas Congregacionais e Presbiterianas eram dominantes, reunindo quase 40% da população frequentadora de igrejas dos Estados Unidos . Contudo, em 1850, cerca de 54% dos que frequentavam a igreja participavam de Igrejas Batistas e Metodistas, enquanto presbiterianos e congregacionalistas juntos reivindicavam apenas cerca de 15% do todo.22 O sentimento de que credos e confissões eram antibíblicos — e, portanto, deviam ser rejeitados — prosperou na nação recém-nascida. Considerando o quão popular a mentalidade de “nenhum credo além da Bíblia” era e continua a ser, devemos perguntar: o que a Bíblia tem a dizer sobre confissões? À primeira vista, tal pergunta pode parecer absurda. Alguns podem perguntar: o que a Bíblia, inspirada pelo Espírito, tem a ver com esses documentos tão humanos? No entanto, um exame mais atento mostra que há evidências bíblicas para apoiar a alegação de que as confissões de fé são tanto bíblicas quanto necessárias. Para provar essa alegação, este capítulo examina oito textos bíblicos: a instituição da liturgia da Páscoa (Êx 13.14-15), a entrega
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Mark A. Noll, A History of Christianity in the United States and Canada (Grand Rapids: Eerdmans, 2003), p. 151-152. Ibid., p. 152-153.
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do Shemá (Dt 6.4-6), as cinco “palavras fiéis” do apóstolo Paulo (1Tm 1.15; 3.1; 4.7-9; 2Tm 2.11-13; Tt 3.4-8) e a exortação de Judas para batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3).23 Cada um desses textos reflete a expectativa divina de que seu povo receba sua revelação autoritativa, reflita sobre ela, estude-a, reafirme-a em suas próprias palavras e a transmita às gerações futuras. A Bíblia ordena a criação e a preservação de uma tradição confessional e catequética fiel às Escrituras. Após examinar os oito textos, o capítulo apresenta uma análise, explorando como a Bíblia respalda as confissões e a catequese, fornece proteções contra o mero confessionalismo morto e revela um elo indissolúvel entre confissão e piedade. Conclui, então, com observações resumidas sobre a necessidade de confissões de fé fiéis às Escrituras. Instruir as gerações futuras (Êx 13.14-15) A revelação de Deus assume diversas formas, porém é mais do que um memorial divino, um eco da voz do Criador. Israel deveria registrar a Palavra de Deus e refletir sobre ela pelas gerações vindouras. A primeira vez que o Senhor ordena a Israel realizar essa tarefa catequética é quando ele dá instruções para a celebração da Páscoa. Os israelitas deviam reencenar, lembrar e compreender a Páscoa de modo racional:24 23
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Para outros argumentos bíblicos, cf. Carl R. Trueman, The Creedal Imperative (Wheaton: Crossway, 2012), p. 51-80. [O imperativo confessional (Brasília: Monergismo, 2012).] Umberto Cassuto, A Commentary on the Book of Exodus (Magnes, 1997), p. 140-141; John I. Durham, Exodus, Word Biblical Commentary,
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Quando teu filho amanhã te perguntar: Que é isso? Responder-lhe-ás: O Senhor com mão forte nos tirou da casa da servidão. Pois sucedeu que, endurecendo-se Faraó para não nos deixar sair, o Senhor matou todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito do homem até ao primogênito dos animais; por isso, eu sacrifico ao Senhor todos os machos que abrem a madre; porém a todo primogênito de meus filhos eu resgato. (Êx 13.14-15)
Deus sabia que, enquanto as famílias israelitas estivessem reunidas participando da ceia da Páscoa, os membros mais jovens da comunidade perguntariam sobre seu significado. Ao provarem a comida e mergulharem no passado de Israel, seus pais lhes explicariam a Páscoa. Eles recordariam o poderoso livramento de Deus de um inimigo temível, bem como o juízo que caiu sobre os primogênitos do Egito — a justificativa para o sacrifício ou dedicação do primogênito. Isso é evidente pelo uso de uma oração de resultado: “Por isso []ַעַל־ֵּכּן, eu sacrifico”. A Bíblia apresenta aqui um padrão da revelação divina em palavra-ato-palavra, acompanhado da reflexão, repetição e explicação orientadas pelas próprias Escrituras.25 Dito de outra forma, Deus primeiro deu sua palavra ordenando a saída do Egito. Em seguida, realizou um ato poderoso
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vol. 3 (Waco: Word, 1987), p. 179-180; Peter Enns, Exodus, The NIV Application Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 2000), p. 264; Carl R. Trueman, The Creedal Imperative, p. 58. Geerhardus Vos, The Idea of Biblical Theology as a Science and as a Theological Discipline, em: Richard B. Gaffin Jr (org.), Redemptive History and Biblical Interpretation: The Shorter Writings of Geerhardus Vos (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 1980), p. 3-24.
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ao libertar Israel daquela terra. Depois, acrescentou uma palavra explicando o significado do ato de libertação. Assim, na revelação palavra-ato-palavra, Deus é seu próprio intérprete. Esse mesmo padrão se desdobra na celebração da Páscoa: o Senhor instrui Israel a celebrá-la; o povo realiza o ato e reflete sobre a palavra e o livramento de Deus; os pais, então, oferecem uma palavra subsequente explicando aos filhos o significado da Páscoa. O padrão de revelação-reflexão-repetição aparece também na halacá judaica, isto é, as leis derivadas da Torá escrita e oral e que se estendem até as tradições e rituais helenísticos em forma talmúdica.26 Em suma, Deus instruiu os israelitas a transmitir o conhecimento e o significado de sua revelação palavra-ato-palavra às gerações futuras. Trata-se de uma traditio divinamente ordenada. A palavra traditio deriva do termo latino trado (entregar); portanto, uma traditio — ou “tradição” — é um ensino, doutrina ou dito transmitido de geração em geração.27 Ouve, Israel (Dt 6.4-6) Muitos estão familiarizados com o primeiro e maior mandamento, também conhecido como o Shemá de Israel: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único
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Brevard S. Childs, The Book of Exodus: A Critical, Theological Commentary (Louisville: Westminster John Knox, 1974), p. 207. Oxford Latin Dictionary, 2a ed., vol. 2 (Oxford: Oxford University Press, 2012). Verbete: traditio; cf. também Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms: Drawn Principally from Protestant Scholastic Theology, 2a ed. (Grand Rapids: Baker Academic, 2017). Verbete: traditio.
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Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração” (Dt 6.4-6). Mas talvez não ocorra de imediato ao leitor que este texto constitui uma confissão da fé de Israel para cada indivíduo e, em última análise, para toda a nação. O Shemá é o dogma fundamental de Israel, sua magna carta.28 Para preservar a fé de Israel, Deus vinculou aliança, confissão e catequese no Shemá.29 No coração da aliança está a principal confissão de fé de Israel, que consiste em quatro palavras no texto hebraico: ְהָוָה ׀ ֶֶא ָָחד “( ְי ְהָוָה ֱֱאֹלֵהֵינּוo Senhor, nosso Deus, é o único Senhor”, Dt 6.4). Judeus piedosos recitavam essa confissão como oração diária, juntamente com Deuteronômio 11.18-32 e Números 15.37-41. Essas passagens orientavam os israelitas a atarem as leis de Deus em suas testas, o que eles entenderam literalmente e, assim, amarravam filactérios em suas cabeças (isto é, pequenas bolsas de couro contendo minúsculos rolos inscritos com os mandamentos de Deus).30 O mandamento de atar a lei de Deus em suas mãos, testas, umbrais e portas (Dt 6.8) era uma
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Peter C. Craigie, The Book of Deuteronomy, New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 169 [Comentário do Antigo Testamento: Deuteronômio (São Paulo: Cultura Cristã, 2013)]; Daniel I. Block, How I Love Your Torah, O Lord! Studies in the Book of Deuteronomy (Eugene: Cascade Books, 2011), p. 32. J. A. Thompson, Deuteronomy, Tyndale Old Testament Commentaries (Downers Grove: InterVarsity, 1974), p. 121. [Deuteronômio: Introdução e comentário (São Paulo: Vida Nova, 1982).] Ibid., p. 121.
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exortação para meditar e memorizar a lei de Deus, não para amarrar bolsas de couro em suas testas (cf. Pv 6.2022).31 No entanto, o propósito da confissão era consolidar a convicção coletiva de Israel de que Yahweh deveria ser o único objeto de sua adoração, afeição e aliança. A profissão externa desta breve confissão por parte de Israel deveria servir como sinal da disposição interna do coração — a confissão externa espelhando a convicção interna. Não havia lugar para duplicidade; uma disjunção entre confissão e convicção era inconcebível.32 Deus queria que Israel professasse sua fé, e desejava que essa profissão servisse para proteger a ortodoxia teológica, expressar amor a Deus e fundamentar a catequese. A confissão de Israel era um muro de proteção teológica para mantê-los na estrada do monoteísmo bíblico.33 Essa confissão lembrava Israel de se dedicar exclusivamente a Yahweh — ortodoxia confessional e teológica andando de mãos dadas com ortopraxia. Não se pode tomar a confissão do Shemá nos lábios e depois se curvar e adorar um ídolo. Ao mesmo tempo, o Senhor determinou que o amor marcasse essa ortodoxia e ortopraxia confessionais. A confissão do único Deus vivo e verdadeiro não deveria brotar do legalismo, do dever, mas, sim, do amor por ele. O amor de Israel por Deus deveria ser holístico e
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Patrick D. Miller, Deuteronomy, “Interpretation” (Louisville: Westminster John Knox, 1990), p. 105. J. A. Thompson, Deuteronomy, p. 121; J. G. McConville, Deuteronomy, Apollos Old Testament Commentary (Downers Grove: IVP Academic, 2002), p. 142. J. A. Thompson, Deuteronomy, p. 122.
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total, o que Deuteronômio 6.5 captura com a seguinte injunção: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”.34 Segundo o pensamento hebraico, o coração é a sede da mente, da vontade e das afeições; a alma é a fonte da vida e da vitalidade — essencialmente, a própria existência. Ao conectar coração e alma, Deuteronômio 6.5 mostra que a confissão visa expressar a devoção da pessoa inteira, e a inclusão de toda a “força” enfatiza ainda mais essa intenção. O Novo Testamento acrescenta outro elemento: a mente (Mc 12.30; Lc 10.27).35 Esse amor a Deus, portanto, não deve ser meramente afetivo; deve também consistir em obediência e no uso do intelecto. Assim como nas instruções divinas sobre a Páscoa, Deus ordena a Israel que use esta confissão para a catequese: Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. (Dt 6.6-9)
Cada israelita deveria internalizar o significado desta confissão através da meditação e do estudo. Entretanto, essa reflexão interna sobre a confissão deveria, idealmente,
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Este é um tema central no livro de Deuteronômio; cf. Dt 4.29; 10.12; 11.13; 13.3; 26.16; 30.2, 6, 10. Cf. J. A. Thompson, Deuteronomy, p. 122; J. G. McConville, Deuteronomy, p. 142; Patrick D. Miller, Deuteronomy, p. 102-103.
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levar à catequese: a instrução da própria família.36 Deus deseja que confissão e catequese permeiem todas as esferas da vida, o que é evidente na localização do Shemá (ele serve como ponto de partida para os capítulos 12–26).37 Aliança, amor, obediência e catequese estão todos consagrados na confissão nesse conhecido trecho do Antigo Testamento. Esta confissão é uma guardiã, ou um fio de prumo, para garantir a fidelidade de Israel ao Senhor da aliança.38 Palavras fiéis (1Tm 1.15; 3.1; 4.7-9; 2Tm 2.11-13; Tt 3.4-8) A instrução confessional e catequética anteriormente exposta está no fundamento da teologia de Israel; portanto, não deveria nos surpreender encontrar o mesmo padrão no Novo Testamento. Este modelo aparece de maneira proeminente nas Epístolas Pastorais de Paulo e em suas cinco palavras fiéis (πιστὸς ὁ λόγος).39 O que o apóstolo pretende transmitir com este termo, e quais são suas 36 37 38
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Cf. Dt 4.9; 6.20-25; 11.19. Peter C. Craigie, Deuteronomy, p. 170; Patrick D. Miller, Deuteronomy, p. 97. William L. Moran, “The Ancient Near Eastern Background of the Love of God in Deuteronomy”, Catholic Biblical Quarterly, vol. 25, n. 1, p. 77-87, 1963; Patrick D. Miller, Deuteronomy, p. 98. Para uma visão geral sobre a origem e o uso da fórmula, cf. I. Howard Marshall, The Pastoral Epistles, International Critical Commentary (Londres: T&T Clark, 1999), p. 326-330; George W. Knight III, The Faithful Sayings in the Pastoral Letters (Grand Rapids: Baker, 1979); R. Alastair Campbell, “Identifying the Faithful Sayings in the Pastoral Epistles”, Journal for the Study of the New Testament, vol. 16, n. 54, p. 73-86, out. 1994; José M. Fidelis Sermo Bover, Biblica, vol. 19, n. 11, p. 74-79, 1938; W. A. Oldfather; L. W. Daly, “A Quotation from Menander in the Pastoral Epistles?”, Classical Philology, vol. 38, n. 3, p. 202-204, 1943.
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origens? A ideia mais plausível é que estas são reafirmações objetivas do que Jesus ensinou acerca de si mesmo, conforme registrado nos evangelhos, bem como de outros ensinamentos bíblicos. Ou seja, repetem frases e conceitos que aparecem nos evangelhos ou em outras porções das Escrituras.40 Paulo com frequência emprega material catequético ou litúrgico anterior.41 A fórmula em si — “fiel é esta palavra” — ecoa a recomendação que se segue ao Shemá.42 Em outras palavras, Paulo usa o mesmo padrão catequético e pactual estabelecido na Páscoa e no Shemá. Na primeira das declarações de Paulo, ele escreve: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1.15). Esta ideia é central nos quatro evangelhos.43 Paulo faz esta breve declaração objetiva com base no testemunho do próprio Cristo para demonstrar que o ensino do Salvador se concretizou em sua própria vida e na de todos aqueles que respondem a Cristo com fé.44 Aqui Paulo reitera a revelação divina em suas cartas — reafirmando o ensino de Cristo com o propósito de instruir a igreja. Neste caso específico, Paulo relembra o ensino de Cristo sob a supervisão e inspiração do Espírito
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George W. Knight III, The Pastoral Epistles: A Commentary on the Greek Text, New International Greek Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1992), p. 101-102. I. Howard Marshall, The Pastoral Epistles, p. 328. J. N. D. Kelly, The Pastoral Epistles, Black’s New Testament Commentaries (Peabody: Hendrickson, 1998), p. 54. Cf. Mt 9.13; Mc 2.17; Lc 5.32; 19.10; Jo 12.46-47; 16.28; 18.37. George W. Knight III, The Pastoral Letters, p. 101-102.
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Santo (embora veremos que ele registra uma versão não inspirada desta prática quando aborda, em suas cartas, as reflexões doutrinárias da igreja sobre a revelação). As demais ocorrências da fórmula de Paulo “fiel é a palavra” revelam a variedade de tópicos que se enquadram nesta rubrica escriturística. No segundo dito, Paulo escreve: “Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja” (1Tm 3.1). Por que ele identificaria esta declaração sobre aspirar ao episcopado como uma palavra fiel? O apóstolo estava, em geral, preocupado em estabelecer a ordem nas igrejas as quais pastoreava. É por isso que, por exemplo, deixou Tito em Creta: para que ele “pusesse em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísse presbíteros” (Tt 1.5). Neste caso, a palavra fiel de Paulo reflete o vivo e profundo interesse dos apóstolos na ordem da igreja, demonstrado em 1Timóteo 3 e em outros lugares do Novo Testamento.45 Esta ordem eclesiástica do Novo Testamento reflete o interesse de Israel no Antigo Testamento pelo mesmo tema (p. ex., Êx 18.13-27). Além do aspecto da ordem da igreja, a outra razão pela qual Paulo recomenda esta declaração é que o desejo de servir como bispo é “nobre” (καλοῦ ἔργου) — literalmente, “uma excelente obra”.46
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Ibid., p. 153; J. N. D. Kelly, The Pastoral Epistles, p. 72-73; cf. Bruce J. Malina; John J. Pilch, Social-Science Commentary on the Deutero-Pauline Letters (Mineápolis: Fortress, 2013), p. 117; cf. também At 6.1-6; 14.21-23; 20.17-35; Rm 12.6-8; 1Co 12.28; Fp 1.1; 1Ts 5.12-22; 1Tm 5.17-23; Tt 1.5-9; Hb 12.7; 1Pe 5.1-4. George W. Knight III, The Pastoral Epistles, p. 154-155.
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A terceira ocorrência da formulação das palavras fiéis segue a declaração de Paulo sobre a importância do treinamento na piedade: Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas caducas. Exercita-te, pessoalmente, na piedade. Pois o exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser. Fiel é esta palavra e digna de inteira aceitação. (1Tm 4.7-9)
Este testemunho específico encontra precedente no ensino de Cristo em Lucas 18.29-30: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muitas vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna”. A segunda parte de 1Timóteo 4.8 ecoa as palavras de Cristo registradas no evangelho de que há grande recompensa para quem renuncia a tudo por sua causa. A igreja primitiva tomou este ensino dominical, generalizou-o e produziu uma palavra fiel sobre a piedade.47 A quarta palavra fiel aparece em 2Timóteo 2.11-13, onde Paulo escreve: Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará; se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.
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Ibid., p. 201.
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Esta palavra fiel encontra suas raízes conceituais no ensino de Cristo: “Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mt 10.22).48 Mas, além do ensino de Jesus, outra fonte possível desta declaração pode ser a igreja em Roma e sua reflexão sobre a carta de Paulo a eles, especificamente o sexto capítulo: “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6.8). Em outras palavras, Paulo recorre à reflexão da igreja sobre seu ensino — isto é, recorre à tradição da igreja.49 Isso não significa que Paulo reconheça a autoridade da tradição eclesiástica como superior às Escrituras; antes, significa reconhecer que a igreja pode proclamar novamente, com precisão, a verdade da revelação autoritativa em suas próprias palavras. Em suma, aquele que professa fé em Jesus está em união com ele e participa de seus sofrimentos na vida cristã. Mas, por meio desses sofrimentos, Paulo exorta Timóteo a perseverar e o assegura da fidelidade de Cristo para com os redimidos.50 A quinta palavra fiel aparece em Tito 3.4-8, onde Paulo reflete sobre a natureza gratuita da redenção: Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante 48 49
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Id., The Pastoral Letters, p. 404-405; cf. também Mt 24.13; Mc 13.13. Bruce J. Malina; John J. Pilch, Deutero-Pauline Letters, p. 151; J. N. D. Kelly, The Pastoral Epistles, p. 179; I. Howard Marshall, The Pastoral Epistles, p. 739. George W. Knight III, The Pastoral Letters, p. 407-408.
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o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras. (Tt 3.4-8)
Comentaristas sugerem que esta palavra fiel era provavelmente uma breve declaração confessional-litúrgica que teria sido usada no contexto batismal, ou talvez fizesse parte de um hino batismal.51 O fato de o dito ser trinitário — como a fórmula batismal da Grande Comissão (Mt 28.1819) — aponta nessa direção.52 Ao descrever os versículos 4-7 como uma palavra fiel, Paulo “certifica que transmitiu fielmente a tradição a qual recebeu”.53 Importa notar que Paulo identifica a declaração sobre a obra redentora do Deus triúno como um fator motivador para a prática das boas obras: “Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que [ἵνα] os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras” (Tt 3.8). A oração subordinada adverbial consecutiva indica que a palavra fiel e a verdade as quais ela contém movem os crentes a praticar boas obras. Essas cinco palavras fiéis cobrem uma gama de tópicos, incluindo redenção, ordem da igreja e conduta ética. Porém o princípio fundamental o qual as sustenta 51 52 53
Bruce J. Malina; John J. Pilch, Deutero-Pauline Letters, p. 89. George W. Knight III, The Pastoral Letters, p. 350. Bruce J. Malina; John J. Pilch, Deutero-Pauline Letters, p. 90.
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é que a igreja se apropriou da revelação escriturística, a reafirmou em seus próprios termos e a promulgou dentro da igreja. Nestes cinco casos, sob inspiração divina, Paulo incorporou essas formas digeridas de revelação em suas próprias cartas, confirmando assim a veracidade e a consonância das palavras com a revelação anterior. Com o fechamento do cânon e a cessação de novas revelações, o ciclo de revelação-reflexão-repetição não existe mais. No entanto, o fato de que o padrão revelação-confissão tem precedentes tanto no Antigo Testamento quanto no Novo confirma que, com as devidas salvaguardas escriturísticas, há respaldo bíblico para que a igreja crie e mantenha confissões de fé. A fé que uma vez por todas foi entregue (Jd 1.3) Uma das principais preocupações da epístola de Judas é abordar e refutar os falsos mestres. Ele escreve: “Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Jd 1.4). Em contraste com os falsos mestres — que pervertem a graça de Deus e, assim, em última análise, o próprio ensino de Deus contido na revelação divina —, Judas exorta seus destinatários a batalhar “pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1.3). Ele busca distinguir a ortodoxia da heterodoxia, e por isso se refere à “fé” — isto é, ao conteúdo daquilo que a igreja deve crer. Em outras palavras, ele se refere à fides quae creditur (a fé que é crida), o conteúdo da fé, em vez da fides 39
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qua creditur (a fé pela qual se crê), ou seja, a fé do crente.54 Esta ideia é comum no Novo Testamento, como quando Paulo declara: “Ouviam somente dizer: Aquele que, antes, nos perseguia, agora, prega a fé que, outrora, procurava destruir” (Gl 1.23). “A fé” é outra maneira de se referir à mensagem do evangelho.55 Isso significa que Paulo e Judas acreditam na existência de uma mensagem objetiva à qual a igreja precisa adotar — uma fé que é diferente do corpo de opiniões promovido pelos falsos mestres. Judas escreve a seus destinatários que Deus entregou esta fé — um corpo objetivo de conhecimento — aos santos (isto é, à igreja). Assim como na liturgia da Páscoa, através da qual os pais instruem seus filhos e transmitem o conhecimento da obra salvadora de Deus de geração em geração, Deus “entregou” (παραδοθείσῃ) a fé aos santos. É, de fato, assim que os teólogos traduziram este termo do grego para o latim: “Pro fide quae semel tradita est sanctis” (Pela fé que uma vez foi entregue aos santos).56 Esta fé não foi descoberta pelos santos; foi-lhes dada por Deus.57 A cadeia de comunicação vai de Deus para os apóstolos e, finalmente, para os santos (τοῖς ἁγίοις). Ao falar da fé sendo “entregue” 54
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Richard J. Bauckham, Jude, 2 Peter, “Word Biblical Commentary”, vol. 50 (Waco: Word, 1983), p. 32; Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms: Drawn Principally from Protestant Scholastic Theology. Verbete: fides qua creditur, fides quae creditur. Richard J. Bauckham, Jude, 2 Peter, p. 32. Herman Witsius, Meletemata Leidensia: Quibus Continentur Praelectiones de Vita et Rebus Gestis Pauli Apostoli. Nec Non Dissertationum Exegeticarum Duodecas. Denique Commentarius in Epistolam Judae Apostoli (Leiden, 1703), p. 463. Thomas Manton, A Practical Commentary, or An Exposition with Notes on the Epistle of Jude (Londres, 1658), p. 143, 146-147.
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ou “transmitida” (παραδοθείσῃ), Judas ecoa a terminologia da tradição (παράδωσις) judaica, que descreve a prática da transmissão de uma tradição autoritativa.58 Esta tradição revelacional é fixa e imutável, como é evidente pelo uso da frase “uma vez por todas” (ἅπαξ) por Judas.59 O fato de contrastar a fé objetiva, uma vez entregue aos santos, com a doutrina e a ética errôneas dos falsos mestres indica que Judas sustenta a conexão entre ortodoxia e ortopraxia, entre doutrina e ética. Sua preocupação é que os santos permaneçam fiéis à “comum salvação” (κοινῆς ἡμῶν σωτηρίας) a qual receberam, e que sua conduta ética não se desvie.60 Judas, portanto, apresenta a ideia de que as Escrituras contêm um depósito de verdade o qual a igreja deve transmitir e guardar de geração em geração.61 Nas palavras de Judas, a igreja deve “batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue”. Análise As oito passagens anteriores do Antigo e do Novo Testamento demonstram o quanto a confissão e o catecismo
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Cf. Cl 2.6-8; 2Ts 3.6; cf. também ideia semelhante em 2Co 11.3-4; Gl 1.8-9. Richard J. Bauckham, Jude, 2 Peter, p. 33-34; Oscar Cullmann, The Early Church (Filadélfia: Westminster, 1956), p. 59-99, esp. 63; Thomas Manton, Jude, p. 154-155. David Dickson, An Exposition of All of St. Paul’s Epistles Together with an Explanation of Those Other Epistles of the Apostles, St. James, Peter, John & Jude (Londres, 1659), p. 320; Thomas Manton, Jude, p. 137-143; Herman Witsius, Meletemata Leidensia, p. 462. Cf. Richard J. Bauckham, Jude, 2 Peter, p. 34. Thomas Manton, Jude, p. 152-153.
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são elementos integrais para o povo da aliança de Deus. A própria Bíblia fornece confissões de fé, como o Shemá, e ordena ao povo de Deus que as abrace e inculque em crianças e convertidos seus ensinamentos através da catequese, fazendo assim crescer a comunidade da aliança. Tal prática não se baseia na mera repetição de fórmulas bíblicas, mas requer explicação e interpretação. A respeito desta reiteração expansiva do ensino bíblico, devemos notar três coisas: (1) o respaldo bíblico e a necessidade das confissões e da catequese; (2) as proteções bíblicas contra o tradicionalismo morto; e (3) a relação entre confissão e piedade. 1. O respaldo bíblico e a necessidade das confissões e da catequese As confissões bíblicas funcionam em duas direções: elas olham para trás, para a atividade redentora e a revelação passadas de Deus — erguendo “ebenézeres” para lembrar a igreja do que ele fez —, e olham para o futuro, à medida em que os pais educam seus filhos no significado da Páscoa, e Paulo chama a atenção de Timóteo para as palavras fiéis que, embora tenham se originado no passado, devem ainda ecoar no futuro na vida daqueles que as abraçam. Assim também, os santos a quem Judas escreve, ao recordarem a fé uma vez por todas entregue, devem preservá-la para o presente e o futuro. As tradições que os autores bíblicos transmitiram às gerações futuras eram a fé viva dos mortos, não a fé morta dos vivos, típica do tradicionalismo.62 62
Jaroslav Pelikan, The Vindication of Tradition (New Haven: Yale University Press, 1984), p. 43.
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Nas palavras de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), “o que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”.63 Em outras palavras, cada geração recebe a tradição confessional através da catequese e a apropria para si mesma. Ninguém pode dar o que não possui; assim, cada geração deve se apropriar das verdades ensinadas pelas confissões das Escrituras. Entretanto, ao apropriar-se da verdade bíblica, deve-se distinguir entre o ensino inspirado e inerrante das Escrituras e suas explicações e interpretações posteriores não inspiradas. Deus explica o significado da Páscoa e dita aos pais o que devem dizer a seus filhos sobre ela (Êx 13.14-16). Contudo, é evidente que as perguntas das crianças irão além da resposta catequética dada por Deus, e isto significa que os pais terão de interpretar o evento e a explicação divina para fornecer respostas relevantes. Este padrão se desdobra nas “palavras fiéis” de Paulo. Esses ditos não têm precedente direto; não são citações de revelações anteriores, mas reafirmações resumidas de verdades bíblicas. Essas declarações mostram que a igreja, desde o seu início, refletiu sobre a revelação bíblica, interpretou-a e a reafirmou em suas próprias palavras. Essas palavras específicas eram tão harmoniosas com a revelação bíblica que o apóstolo Paulo as incorporou em suas cartas divinamente inspiradas a Timóteo e Tito. No entanto, a existência das palavras fiéis prova que 63
Como mencionado em Jaroslav Pelikan, Vindication of Tradition, p. 82; cf. também em Johann Wolfgang von Goethe, Faust, trad. Walter Kaufmann (Nova York: Anchor Books, 1990), linhas 683-689, p. 114-115.
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há um lugar legítimo para uma tradição confessional subordinada às Escrituras. Esta conclusão não deveria nos surpreender. Ela segue o mesmo caminho bem trilhado de várias outras práticas eclesiásticas, como a oração e a pregação. Deus não restringe os santos a apenas repetir as palavras das Escrituras em suas orações. É verdade que Cristo fornece uma oração modelo (Mt 6.9-13), mas ela serve como um guia, não como uma prescrição. Quando os cristãos oram, suas palavras devem estar em conformidade com o ensino das Escrituras, porém a vida, as circunstâncias e o desejo normalmente — e de modo apropriado — moldam o conteúdo da oração. O mesmo padrão aparece na pregação. Deus não diz aos pregadores para simplesmente abrir a Bíblia, lê-la e depois fechá-la. Isso não seria pregação; seria a leitura da Palavra — certamente uma parte necessária do culto, mas não a única. Os pregadores devem ler a Palavra, refletir sobre ela, interpretá-la e demonstrar como ela se relaciona com a vida da igreja. O livro de Neemias captura essa prática: “Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (Ne 8.8). Na mesma linha, então, as Escrituras instruem a igreja a tomar o ensino da Bíblia e a estudá-lo, compreendê-lo e proclamá-lo novamente em suas próprias palavras, tanto para a catequese quanto para a defesa da fé. A existência das “palavras fiéis” demonstra que a igreja apostólica estava fazendo exatamente isso e que suas confissões existiam em forma oracular. O fato de Paulo ter documentado essas máximas também mostra que a igreja pode e deve registrar por escrito seus próprios ditos fiéis. Eles servem tanto para 44
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catequizar a igreja quanto para defendê-la contra o engano dos falsos mestres. Para essa tarefa, Cristo deu à igreja o dom de alguns dentre ela serem mestres. Como observa Thomas Manton (1620–1677), Cristo, que deu “profetas e apóstolos à Igreja para escrever as Escrituras, também deu pastores e mestres para abrir e aplicar as Escrituras, a fim de que continuem a ser entregue aos Santos, e também para vindicar a sua doutrina quando contestada”.64 Em todas as eras, a luz se levanta contra as trevas; toda vez que falsos mestres tentam introduzir o veneno da falsa doutrina, Cristo envia bons mestres com um antídoto. Atanásio (c. 296-373), por exemplo, se opôs a Ário (c. 250-c. 336), Agostinho (354-430) combateu Pelágio (m. c. 418), Martinho Lutero (1483-1546) se levantou contra Roma, e J. Gresham Machen (1881-1937) lutou contra o modernismo. A igreja nunca careceu de bons mestres. Manton encoraja seus leitores: “Vede como na guerra, à medida que as artes de batalha e os métodos de destruição aumentam, também aumenta a habilidade na fortificação; e na igreja Deus ainda concede dons para a maior explicação da verdade”.65 As confissões históricas são uma maneira pela qual a igreja pode consultar a sabedoria de seus luminares do passado e se beneficiar dos dons de Cristo à igreja ao longo dos séculos. Em suma, a Bíblia ordena a criação e a promulgação de uma tradição biblicamente subordinada para a edificação da igreja e a defesa da fé. 64 65
Thomas Manton, Jude, p. 150. Ibid., p. 150.
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2. As proteções bíblicas contra o tradicionalismo morto Mas o fato de a Bíblia ordenar o confessionalismo para o bem-estar da igreja não significa que não existam perigos potenciais. As confissões incorporam a tradição — elas consagram e transmitem o que a igreja, em um determinado momento da história, crê e professa. A Bíblia, portanto, recomenda a criação de uma tradição subordinada às Escrituras; contudo, o perigo de separar a tradição da Bíblia está sempre à espreita. Por exemplo, Cristo e seus discípulos se depararam com a “tradição dos anciãos”, à qual se dava prioridade sobre os mandamentos de Deus (Mt 15.2-3). Em nome da preservação de sua tradição, os líderes religiosos invalidaram a Lei de Deus (Mt 15.6). De fato, Paulo adverte contra as “tradições dos homens”, aquelas que buscam deslocar a Palavra de Deus (Gl 1.14; Cl 2.8). Porém, por outro lado, ele recomenda as tradições biblicamente fiéis. Exorta os coríntios a reterem as tradições que lhes entregou (1Co 11.2). Da mesma forma, falando aos tessalonicenses, ele diz: “permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” (2Ts 2.15).66 O mau uso das confissões não anula a necessidade de criar e manter uma tradição doutrinária por meio delas. Deve-se sempre subordinar as confissões da igreja às Escrituras. Os bereanos foram às Escrituras para verificar o ensino de Paulo, para garantir sua fidelidade à revelação divina (At 17.11). E Paulo, como é bem conhecido, opôs-se
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Cf. também 2Ts 3.6.
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a Pedro quando este transgrediu os limites da ortodoxia (Gl 2.11). Mas o fato de a igreja poder cair em erro não anula a importância e a necessidade de criar e preservar a tradição doutrinária por meio de confissões. 3. A relação entre confissão e piedade Uma das críticas comuns ao confessionalismo é que ele produz uma ortodoxia árida e empoeirada, desprovida de piedade. Entretanto, a Bíblia mostra que, idealmente, deve haver uma conexão irrefutável entre confissão e piedade. As confissões biblicamente fiéis são parte de uma fé vibrante, coletiva e individual, que produz o fruto da piedade na prática. Quando Deus instrui os israelitas a catequizarem seus filhos, é para que as gerações futuras continuem em sua fé e em sua devoção ao seu Senhor da aliança. Judas exorta seus destinatários a batalharem pela fé uma vez por todas entregue aos santos — o depósito da verdade — para garantir que os falsos mestres não possam estabelecer uma cabeça de ponte a partir da qual invadam a igreja. No entanto, a preocupação de Judas não é meramente preservar um corpo de verdade para reflexão intelectual, mas garantir que essa doutrina informe a piedade e a prática da igreja; os falsos mestres, lembre-se, “transformam em libertinagem a graça de nosso Deus” (Jd 1.4). Da mesma forma, as palavras fiéis de Paulo abordam questões como a ordem da igreja, e ele demonstra o vínculo entre confissão e piedade quando escreve: “Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras” (Tt 3.8). 47
Argumentos bíblicos em favor das confissões
O amor a Deus, porém, está entre os principais frutos de um confessionalismo vibrante. O amor está no coração do Shemá; a aliança é um vínculo que fornece o contexto para seus participantes se amarem. Deus derrama seu amor sobre Israel e, inversamente, os israelitas devem retribuir mostrando seu amor através da obediência. Aliança e confissão andam de mãos dadas: Deus, em amor, estabelece a aliança com Israel; Israel, em resposta, confessa a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos — a santa tradição transmitida de geração em geração. O povo de Deus mostra seu amor ao confessar as doutrinas da Bíblia e ao permitir que essas verdades moldem sua conduta, tudo para a glória e o amor do Criador. O Shemá é, ao mesmo tempo, uma confissão doutrinária, uma segurança para manter Israel no caminho da fidelidade pactual, um manual para instruir as gerações futuras e uma expressão poética poderosa do amor sincero por Deus. Longe de ser um relato frio e racionalista da fé, a Bíblia identifica a confissão como um ligamento vital e um cordão de amor que conecta a igreja ao seu fiel Senhor da aliança. As confissões históricas também orientam e animam o culto da igreja. Conclusão A Bíblia não apenas espera, porém, de certo modo, também ordena que o povo de Deus reflita e reafirme fielmente o ensino bíblico em suas próprias palavras. Por mais popular que a confissão “nenhum credo além da Bíblia” possa ser (e ela mesma é uma confissão — breve, mas ainda assim uma confissão), as Escrituras chamam a 48
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igreja a uma contemplação mais profunda das verdades que ensinam. Os pastores devem estar preparados para explicar o significado das Escrituras e dos ritos da igreja; os pais devem estar preparados para responder às perguntas de seus filhos. E todos os cristãos devem batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Neste engajamento com os ensinos bíblicos, os cristãos não podem meramente repetir uma colcha de retalhos de declarações bíblicas, todavia devem explicar, interpretar e reafirmar em suas próprias palavras o que a Bíblia significa. Contudo, nós, hobbits teológicos,67 não somos os primeiros a nos deparar com as Escrituras. Devemos subir nos ombros de gigantes para vislumbrar a glória de nosso Deus triúno. Ou seja, devemos nos beneficiar dos dons de Cristo à igreja e colher conhecimento da traditio, das meditações piedosas e conclusões doutrinárias de nossos grandes antepassados na fé. Devemos sempre verificar o trabalho deles à luz da autoridade suprema em doutrina e vida: as Sagradas Escrituras. No entanto, ao darmos as mãos aos nossos antepassados, podemos criar palavras fiéis sobre nossa salvação comum e olhar para o horizonte enquanto catequizamos as gerações futuras para que também elas possam batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Longe de serem antibíblicas, as confissões de fé são empregadas pelas próprias Escrituras e são necessárias para o bem-estar da igreja.
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Os hobbits, no universo literário criado por J. R. R. Tolkien, eram criaturas pequenas, amantes do conforto e da simplicidade, avessas a surpresas e aventuras. (N. R.)
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