Prefácio à edição em português
Conflitos são inevitáveis. Onde duas ou mais pessoas estiverem, lá estará um grande potencial para que conflitos apareçam de diversas formas. Ainda que tenhamos a compreensão de que conflitos são profundamente errados e problemáticos, enfrentamos tensões nos relacionamentos sem entender bem como resolvê-las ou, pelo menos, aliviá-las. Naturalmente, procuramos soluções. Mas quantas de fato resolvem os conflitos? Muitas parecem oferecer uma sequência de passos práticos e superficiais, incapazes de tratar de forma profunda a alienação causada por esses problemas. A solução definitiva precisa considerar a realidade do problema em sua origem, apresentar a solução e guiar sua implementação. O evangelho nos dá a moldura necessária para o entendimento profundo da raiz dos
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conflitos. Será a partir de um entendimento do real problema que a real solução será implementada. Assim, nesta obra, começamos entendendo que a mensagem da cruz de Cristo nos informa sobre o real problema da humanidade: o pecado. A morte de Cristo foi o preço pago por ele. O problema é sério e abrangente. Tudo o que fazemos é afetado pelo pecado, trazendo alienação e conflitos em nossa experiência relacional. Por isso, é esperado que nossas decisões diárias sejam um campo fértil para conflitos. Pecamos contra Deus e pecamos uns contra os outros. Experimentamos conflitos que separam e mancham histórias, trazendo tristezas e angústias.
A cruz de Cristo, porém, também aponta para a solução. Na cruz, o preço do pecado foi pago e a ira divina, satisfeita.
A condenação do pecado foi resolvida pelo sangue derramado de Jesus. A certeza da reconciliação com Deus através de Cristo é a base para a solução dos conflitos uns com os outros. Não há passos práticos que resolvam aquilo que só o evangelho pode fazer. O que Cristo fez por nós garantiu nossa reconciliação com Deus, e é a fonte de poder para que pessoas e relacionamentos possam ser reconciliados.
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A prática da reconciliação também é resultado da obra graciosa de Jesus. A graça de Cristo é suficiente para a salvação e é o motor da mudança operada nos filhos de Deus. O evangelho guia a implementação da reconciliação entre indivíduos, e a graça de Deus nos educa em seus passos. Agora, embora a reconciliação entre indivíduos não seja fabricada com passos práticos, aquela promovida pelo evangelho leva cada um de nós a passos práticos na edificação de relacionamentos reconciliados. A ordem é importante! Com isso em mente, baseando-se no entendimento de que Jesus Cristo é suficiente para entender e tratar conflitos, o Dr. Merida apresenta um olhar simples e poderoso sobre os conflitos que todos nós experimentamos. Não se trata de um manual com passos infalíveis para a reconciliação, mas de um indicativo para a resolução de conflitos com ênfase na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Aliás, também não é um tratado final sobre reconciliação, mas o firme e gracioso lembrete de que a cruz é suficiente! Esta abordagem não deveria nos surpreender, mas vem para nos ajudar a lembrar o poder e a profundidade do evangelho quando o assunto é conflito. Assim, é com alegria que recebemos a publicação deste livro, concordando com uma
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das premissas básicas de seu autor: “A graça de Jesus é suficiente para guiar a igreja de Cristo na preservação de sua unidade”. A partir da cruz crescemos em sabedoria e com um coração cheio de adoração a Jesus, numa igreja unida e que desfruta da paz recebida. A paz que desfrutamos entre nós é resultado da paz que recebemos de Deus por meio do evangelho!
Em poucas palavras, o livro Resolução de conflitos centrada em Cristo, do Dr. Tony Merida, apresenta o evangelho como a solução para o real problema por trás dos conflitos. Sim, o evangelho. Passos práticos são importantes, mas desprovidos de poder sem o poder transformador do evangelho.
Alexandre “Sacha” Mendes, pastor na Igreja Batista Maranata (SJC/SP), diretor da Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos, da Biblical Counseling Coalition, e do Seminário Foco
Introdução
Enquanto o Coronavírus 2020 varre o globo, nós atualmente temos nove pessoas (e dois cachorros) morando em nosso lar durante a ordem de “ficar em casa”. Sou eu, minha esposa, cinco crianças, um hóspede e um sobrinho ao redor da mesa de jantar a cada noite (os cachorros estão debaixo da mesa). Então quando me pediram para escrever um livro sobre resolução de conflitos, meu primeiro pensamento foi: “Escrever um? Eu é que preciso de um!”.
Pretender ter relacionamentos pacíficos requer antes sabedoria bíblica, oração e um coração cheio de adoração por Jesus Cristo: aquele que nos mostrou o verdadeiro amor reconciliador.
Eu espero que esse pequeno livro possa ajudar você nessa empreitada, equipando-o com a verdade do evangelho e com motivações santas,
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Introdução
a fim de que tenha paz em seus relacionamentos, quer em sua casa, em seu bairro, em seu ministério, ou em qualquer outro contexto. Espero que ele o encoraje a procurar a ajuda do Espírito, e que ele seja capaz de cativar seu coração com a amabilidade do Príncipe da Paz, que nos deu o poder e o padrão de como amar aos outros.
Uma palavra pastoral
Existem inúmeros livros cristãos sobre resolução de conflitos, mas muitos deles são longos demais e inundados pela filosofia do “passo a passo”. Eu não me oponho a livros longos ou livros com vários passos (na verdade, fui grandemente beneficiado por alguns deles!), mas meu objetivo aqui é simplesmente focar sua atenção na graça de Jesus, conforme revelada na Escritura, e aplicar textos bíblicos-chave para a sua situação.
Eu sou um pastor, não um conselheiro profissional, então não irei me aprofundar em certos aspectos da resolução de conflitos, nem abordarei casos extremos de abuso ou quebra da lei. Alguns problemas estão além do alcance desse livreto. Eu estou escrevendo como se você estivesse na minha igreja, vindo até mim porque sua esposa, marido, colega de quarto, amigo, colega de trabalho, filhos ou vizinhos estão te deixando
Aconselhamento centrado em Cristo maluco — talvez porque vocês estejam passando mais tempo juntos do que o normal, ou talvez porque alguma outra provação está testando o relacionamento de vocês. Quero te dar algumas passagens importantes para considerar e aplicar.
Também escrevo na intenção de que os cristãos sejam conhecidos por serem pacificadores e compassivos nesse atual contexto hostil e tribal em que vivemos. Eu escrevo porque a nossa fé não é uma fé apenas de doutrina, mas sim uma fé incorporada na doutrina, evidenciada em relacionamentos saudáveis. É realmente admirável como muitas passagens no Novo Testamento falam sobre relacionamentos. Eu contei a alguém recentemente que se nós convidássemos o apóstolo João para pregar em nossa igreja, ele poderia muito bem pregar algo tão básico quanto “amai uns aos outros”. Precisamos recuperar a ênfase no amor em nossos relacionamentos, especialmente entre certos grupos que infelizmente são conhecidos por disputas internas, manipulação, fofocas e alienação de pessoas. Eu adoraria ver um movimento de reconciliação entre os cristãos!
Centrado em Cristo
Suponho que alguns de vocês pegaram esse livro por causa da parte de “aconselhamento”
Introdução
no título, mas, por favor, não deixe de lado a parte “centrado em Cristo” do nome. Defendo a ideia de que quando a afeição maior por Cristo domina o coração de uma pessoa, isso afeta toda a sua vida, inclusive seus relacionamentos.
Não é difícil ilustrar a importância das afeições pessoais, pois nós vemos seres humanos vivendo a partir de seus amores/desejos/afeições o tempo todo. O pai diz para seu filho de 16 anos, Rico: “Ei, filho, por favor, tome um banho”. Mas ele não está interessado. “Rico, você pode usar desodorante por favor?”. Ele não está com vontade disso também. “Ei, Rico, que tal um pouco de perfume? Só um pouquinho te faria bem”. Não. “Rico, você quer lavar meu carro?”. Esqueça essa ideia também. Ou: “Rico, você deveria arrumar um emprego”. Não, obrigado, ele prefere jogar videogame ou ver o feed de suas redes sociais. Mas, de modo extraordinário, tudo isso muda quando um milagre acontece: Rico arruma uma namorada!
Quando ele arranja um novo amor, você não precisa dizer a ele para tomar banho, arrumar um emprego ou lavar o carro — ele quer fazer isso! Uma vez que as afeições de Rico estejam comprometidas, seu comportamento as segue. Da mesma forma, quando uma pessoa cultiva
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afeições profundas por Jesus, tudo muda: como ela usa seu dinheiro, seu tempo, a internet, e como trata os outros.
Quando uma pessoa quer honrar profundamente a Jesus, ela levará a Palavra dele à sério, e “vai primeiro reconciliar-se” com seu irmão ou irmã (Mt 5.24). Quando uma pessoa estima o perdão de Jesus, ela irá perdoar “como o Senhor perdoou” (Cl 3.13). Quando o coração de alguém é derretido pela gentileza de Jesus, seu impulso natural será de “restaurar gentilmente” um amigo rebelde (Gl 6.1; 1Co 4.21; 2Tm 2.25).
Eu não quero ser simplista e dizer que “tudo o que você precisa é Jesus”, mas estou dizendo que apenas Jesus nos dá o motivo, o exemplo e o poder que precisamos para “buscar a paz com todos” (Hb 12.14). Pois, ainda que muitas questões relacionadas à resolução de conflitos sejam dignas da nossa atenção, Jesus deve estar sempre adiante em nosso pensamento. Afinal, se tornar como ele é o objetivo de todo cristão, e isso inclui a maneira como ele mantém a paz com os outros.
Falar sobre as habilidades de resolução de conflitos sem levar o coração em conta seria, em última instância, um esforço sem sentido — especialmente a longo prazo. Alfred Poirier coloca
Introdução
dessa forma: “Conflitos não resolvidos entre cristãos têm menos a ver com pessoas sendo hábeis, e sim com elas sendo pecadoras”.1 Habilidades são importantes, mas precisaremos lidar com nossos corações se quisermos experimentar a paz.
Conflito como oportunidade
Embora um conflito possa surgir de muitas maneiras, não posso ignorar o contexto particular da COVID-19, dado que minha família e minha igreja estão passando por isso no momento. Quando essa crise de saúde global se agravou, ela causou uma reação confusa nos relacionamentos. Ter um tempo adicional juntos tem ajudado alguns casamentos e famílias. Mas outros encontraram maiores dificuldades, já que os relatos de violência doméstica e requisição de divórcio dispararam.2 Temo que estejamos vendo apenas o início de muitos problemas relacionais ligados à essa experiência.
1 Alfred Poirier, The Peacemaking Pastor (Grand Rapids: Baker, 2006), p. 12. [O pastor pacificador (Vida Nova: São Paulo, 2011).]
2 Para um entre vários exemplos, veja: Kaelan Deese, “Divorces skyrocket in China amid lockdown”. Disponível em https://thehill.com/homenews/ news/490564-divorces-skyrocket-in-china-amidlockdown. Acesso em: 25 mar. 2023.
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Então, na pandemia de COVID-19 ou não, estou feliz que você tenha escolhido esse pequeno livro, pois é provável que esteja em um conflito, ou buscando ajudar alguém que está. Se for o primeiro caso, quero te encorajar. É muito fácil lutar ou fugir em um conflito. É fácil evitar conversas constrangedoras que você precisa ter, ou perder a cabeça por conta de um problema relacional no casamento, em rixas no bairro, na criação de filhos, ou na igreja. É fácil evitar buscar ajuda de um amigo confiável, pastor, ou conselheiro, e apenas se exasperar ou guardar rancor. Porém, se você buscar perdão e reconciliação nos seus relacionamentos, crescerá no âmbito pessoal, ajudará os outros a crescerem, e fará algo que não apenas glorifica a Deus, mas que torna o evangelho visível àqueles que precisam vê-lo com seus próprios olhos.
Ken Sande define conflito como “diferença de opinião ou propósito que frustra os objetivos e desejos de alguém’’.3 Pode ser impossível para você perceber isso agora, mas seu conflito é uma oportunidade maravilhosa de demonstrar a graça de Cristo, de expor vividamente como ele é e
3 Ken Sande, The Peacemaker (Grand Rapids: Baker, 2004), p. 29.
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o que fez por todos nós. Ser pacificador como Jesus não é fácil. Isso requer a capacitação do Espírito Santo, além de viver em prol do fruto do Espírito e não satisfazer os desejos da carne. Isso vale a pena!
Eu os entendo, pais!
Todas as minhas cinco crianças são adotadas. Nós adotamos um grupo de irmãos biológicos da Ucrânia (três meninas e um menino) e um menino da Etiópia. Temos nossos filhos ucranianos há onze anos e nosso filho etíope há dez.
Tudo isso para dizer que não demorou para eu perceber a minha necessidade de buscar a paz. Nos meses iniciais, os ucranianos não falavam inglês, mas conseguiam falar uns com os outros. Como pode imaginar, tivemos uma pequena Guerra Fria acontecendo toda noite!
Eles passaram por muita coisa (assim como todos os órfãos), e tivemos muitos altos e baixos no início. Lembro-me de pegar o livro da Corlette
Sande, The Young Peacemaker [O jovem pacificador], e colocar em prática um dos gráficos do livro. Havia um espectro com dois extremos que deveríamos evitar. O lado esquerdo era ESCAPAR, e incluía expressões de fuga como “ignorar”, “jogar a culpa” e “negar”. O lado
Aconselhamento centrado em Cristo direito era ATACAR, e tinha expressões como “fazer pouco caso”, “fofoca” e “brigas”. O espaço chave era o meio, chamado RESOLVER, que oferecia algumas ideias: “perdoar” uma pequena ofensa, “conversar”, ou “buscar ajuda” de um adulto confiável que possa mediar para você.4 Agora meus cinco filhos têm entre quinze e vinte anos, e trabalhar com aquele gráfico não foi como uma bala de prata (essa talvez seja uma analogia ruim para um livro sobre conflitos!), mas plantou algumas sementes que eu espero que continuem dando frutos. Tentar ser um marido, pai e pastor leal enquanto escrevo, prego e ensino não tem sido fácil. O mesmo vale para minha esposa. Ela tem tantos papéis quanto eu, e espinhos surgem em seu trabalho, na criação de filhos, e no relacionamento comigo o tempo todo. Nossa casa conhece os conflitos — nós falamos coisas dolorosas sem pensar, nos irritamos muito rapidamente com nossos filhos, encerramos as brigas das crianças com ameaças, tratamos com indiferença, manipulamos para conseguir a nossa vontade, e assim
4 Esse gráfico pode ser encontrado em https:// rw360.org/the-young-peacemaker/, e é encontrado originalmente em Corlette Sande, The Young Peacemaker, 2. ed. (Wapwallopen, PA: Sheperd Press, 1997).
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por diante. Mas também conhecemos a paz de Cristo — nos arrependemos das respostas carnais que demos, cavamos até chegar ao fundo do nosso coração, aprendemos a apreciar nossas diferenças, lidamos diretamente com as dificuldades ao invés de deixá-las se arrastarem, e frequentemente pedimos perdão a nossas crianças quando estamos errados. Em meio às provações e tempestades, Deus tem sido fiel. Ele é conosco, e ele é com você, cristão.
Esperança para os feridos
Jesus Cristo tem uma habilidade milagrosa de pegar uma bagunça absoluta e transformar em uma mensagem maravilhosa. No evangelho, ele mostra sua graça reconciliadora a pessoas quebradas e as restaura. Ele não irá quebrar a cana esmagada, como disse Isaías (Is 42.3). Ele restaura os feridos para que eles frutifiquem e floresçam. O Salvador é gentil e provê descanso aos cansados. Eu oro para que, enquanto lê esse livro, você experimente a paz e o amor de Jesus de maneira profunda, pois assim ele transbordará e alcançará as pessoas à sua volta. Oro para que o Príncipe da Paz (Is 9.6; Mq 5.5) faça de você um pacificador para o bem de seus relacionamentos e para a glória de Deus.
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Anseios e conflitos
O falecido David Powlison, um sábio na área de aconselhamento bíblico, fez esta declaração sobre conflitos depois de refletir em algumas palavras de Tiago, o irmão de Jesus:
Ainda estou para conhecer um casal encerrado em hostilidade (com o medo, autopiedade, dor e justiça própria que a acompanham) que tenha de fato entendido e reconhecido suas próprias motivações. Tiago 4.1-3 ensina que anseios estão na base dos conflitos. Por que vocês brigam? Não é “porque minha esposa/ meu marido…” — é por causa de algo sobre você. Casais conscientes do que os controla — anseios por afeição, atenção, poder, vindicação, controle, conforto, uma vida sem problemas — podem se arrepender e encontrar a real graça de
Anseios e conflitos
Deus para eles, e então aprender a como serem pacificadores.5
Anseios estão na base dos conflitos. Esse é um princípio de importância vital para reconhecermos.
Meu primeiro conflito com nossos filhos da Ucrânia aconteceu assim que chegamos em território americano. Eu tinha muitos anseios dentro de mim, visto que eu e minha esposa tínhamos passado quarenta dias na Ucrânia, tentando completar o processo de adoção e trazê-los para casa. Eu era obcecado por controle, reconhecimento, descanso, minha casa confortável e por poder desfrutar de minhas comidas favoritas. Falando em comida, eu disse para as crianças (através de um tradutor) que quando chegássemos no aeroporto de Memphis, eu iria levá-las a uma ótima churrascaria. Depois de um cansativo voo transatlântico, nós finalmente chegamos ao restaurante. “Escolham o que quiserem”, eu disse. Eles fizeram suas escolhas e nós nos sentamos. Eu orei e logo em seguida parti para
5 David Powlison, “Powlison on Lusts of the Flesh”, numa entrevista com Justin Taylor. Disponível em: https://www.thegolpelcoalition.org/blogs/justin-taylor/powlison-on-lusts-of-flesh-question-4/. Acesso em: 25 mar. 2023.
Aconselhamento centrado em Cristo cima das minhas costelas. Mas, tão logo que percebi, parti com o meu olhar de reprovação para cima das crianças, pois as vi dando uma mordida e fazendo cara feia. Sem pensar duas vezes, questionei comigo mesmo: “Vocês fazem a mínima ideia do que estavam comendo naquele orfanato ucraniano? Olha o que estou dando para vocês! São tão ingratos assim?!”.
Naquele momento, eu tinha todo tipo de obsessão reinando em meu coração. Então, com raiva, eu bati meus cotovelos contra a mesa e as comidas e bebidas caíram por todos os lados. As crianças se entreolharam em um silêncio amedrontador. Eu saí exasperado dali pelo meio da multidão, orando pela minha libertação deste mal. Quando reassumi a compostura e tive um momento com o Senhor, voltei e me desculpei com as crianças. Meus anseios me levaram a esse conflito. Mas de onde é que essas ânsias vieram? Para responder a isso, deixe um marca-páginas em Tiago e volte para Gênesis.
A origem e o futuro do conflito
Você tem algum conflito? Se não tem, terá! Essa vida é cheia de conflitos — incluindo a história que acabei de compartilhar sobre comer churrasco com meus filhos — porque vivemos
em um mundo caído, com pessoas caídas habitando nele.
A verdade é que nem sempre foi assim. Antes da queda, não havia conflitos no Jardim do Éden. Você consegue imaginar? Como podemos ver em Gênesis 1 e 2, não havia pecado e vergonha; apenas a paz perfeita. Mas em Gênesis 3, a humanidade se rebela contra o Deus de Paz, instigados por seu inimigo, Satanás, e então o pecado é introduzido no mundo, criando um abismo entre Deus e as pessoas, e também entre as pessoas consigo mesmas. Infelizmente, como vemos na queda, uma das primeiras consequências do pecado é o conflito.
De fato, como consequência do pecado, Deus conta ao homem e à mulher uma notícia ruim: haverá contenda entre eles (Gn 3.16). Já no próximo capítulo, nós a vemos sendo passada pelas gerações, quando há um irmão matando o outro (Gn 4; 1Jo 3.12). Claramente, pecado e conflito não ficam parados: eles caminham pela árvore genealógica e, não sendo tratados, somente crescem.
A boa notícia, no entanto, também é dada ao lado da ruim! Deus promete uma resposta a esse problema que virá da semente da mulher, aquele
Aconselhamento centrado em Cristo que pisará na cabeça do inimigo (Gn 3.15). Esse vitorioso Salvador é Jesus, o Príncipe da Paz.
Embora contenda, desacordo e hostilidade sejam o padrão do mundo após a queda, nós podemos, através de Cristo, superar esses efeitos de muitas formas: podemos ter paz com Deus (Cl 1.20; Rm 5.1), experimentar a paz de Deus (Fp 4.7), e pelo poder do Espírito “desejar o que promove a paz” com os outros enquanto tentamos “viver em paz com todos” (Rm 14.19, 12.18).
Nós buscamos essa paz em um mundo guiado pelo conflito enquanto esperamos a vinda da nova criação, onde haverá a paz total. Ainda que tenhamos de lidar com a dor causada pelas feridas relacionais, pela alienação e pela dor, como cristãos nós podemos procurar harmonia com a esperança, pois “o Deus da paz em breve esmagará Satanás sob seus pés” (Rm 16.20). E mais, quando fazemos essas coisas, damos ao mundo que nos observa um exemplo do que nosso lar celestial se parece: pacífico e frutífero. Ainda que levemente, quando geramos paz em nossos relacionamentos, ajudamos os perdidos entre nós a terem a sensação de um mundo caído sendo restaurado . Nós os ajudamos a provar do paraíso, e
os lembramos de que eles foram criados para esse fim. A nova criação se aproxima, e nós podemos ajudar o mundo que nos observa a ter uma impressão da glória vindoura e de seu total estado de paz. Desta forma, nossos conflitos não são apenas problemas singulares que precisamos resolver. Eles têm uma dimensão evangelística que impacta os perdidos!
Em suma, conflitos com Deus e com os outros foram a consequência do pecado, e Jesus Cristo é a resposta para os resolvermos e assegurarmos a paz para sempre. Isso foi verdade no jardim; seus efeitos serão verdadeiros até o novo céu e a nova terra; e também é verdade hoje, nos conflitos grandes e nos pequenos igualmente.
Você luta e trava guerras
Nós sabemos a origem do conflito, nós sabemos que Jesus o resolve e nós sabemos que o conflito não fará parte do nosso futuro celestial. Então, por que é tão difícil mantermos a paz aqui e agora? Seja com o cônjuge, colega de trabalho, vizinho, filho ou amigo, por que lutamos tanto contra o conflito em nosso cotidiano? Vamos olhar novamente para Tiago e descobrir.
O estudioso do Novo Testamento Douglas Moo destaca que o fio condutor por todo o texto
Aconselhamento centrado em Cristo de Tiago 3.13—4.3 é a paz. 6 Tiago contrasta a verdadeira e a falsa sabedoria, afirmando que a inveja e a ambição egoísta levam à desordem, enquanto a verdadeira sabedoria é marcada por gentileza e paz:
Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras.
Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. Pois onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz (Tg 3.13-18, ênfase do autor).
Não é difícil perceber que, de acordo com Tiago, os cristãos deveriam ser pessoas que amam a paz, que vivem em harmonia com os outros,
6 Douglas J. Moo, The Letter of James (Grand Rapids: Eerdmans, 2000), p. 168. [Comentário de Tiago (Shedd, 2020).]