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Babel 2023-2 - Edição Dezembro 2023

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revista

50 anos do golpe no Chile

+ Cooperação acadêmica no Sul Global + A relação econômica entre Brasil e Paraguai + América Latina de Bolaño a Bolaños


editorial

América Latina: berço, colosso e pluralidade Se o pensamento colonial deu lugar ao que chamamos de mundo

-bram vivos, mortos — e os encantados entre eles — e no sincretismo

pode ser considerado um de seus arquitetos. Na contramão, a revista

uma de suas regiões. Entre planícies, que se interrompem brus-

ocidental e moderno, o jornalismo

Babel busca no jornalismo decolonial — que reconstrói as práticas da pro ssão levando em conta as

marcas deixadas pelos processos de colonização e suas assimetrias de

poder — encontrar outros critérios que permitam enxergar a América Latina como uma classe distinta de

noticiabilidade. O continente latino-america-

no é um mosaico de povos, etnias, línguas e níveis de desenvolvimento social. Cada um de seus países é um in nito particular, o que certamente os impede de ser confundidos com qualquer outro. Inconfundíveis desde a estreiteza do istmo

geográ co da América Central até

o istmo de Neruda, a cicatriz que comprova que somos ou já fomos

parte de alguém. Mas e se o corte que parte o istmo forem as pontes e as travessias entre nós?

Nossas características em comum existem aos montes: na força

das tradições, nas mãos de artesãos, nas festas multicoloridas que cele2

BABEL | Dezembro 2023

religioso reinterpretado em cada

camente e dão lugar a planaltos e vulcões, nossas costas mergulham em águas antárticas e caribenhas, sustentadas pela coluna vertebral da Cordilheira dos Andes que nos mantém em postura rme. É a terra de homens e mulheres sin

piernas, pero que caminan. Homens e mulheres que viram guerras e instabilidade política, perseguição

e genocídio dos povos originários, chegada, exploração e libertação de sua descendência africana.

Epopéia escrita antes de Homero — mas também epopeia de

uma América Latina moderna, marcada pelos mesmos traumas da edi cação. Guardada em um só

destino, séculos após a colonização europeia, hoje ela pode ser muito

mais que o sonho de Bolívar por uma América uni cada. Ela pode ser unida.

Universidade de São Paulo

Reitor: Carlos Gilberto Carlotti Jr. Escola de Comunicações e Artes Diretora: Brasilina Passarelli

Departamento de Jornalismo e Editoração Chefe: Luciano Guimarães

Vice-chefe: Wagner Souza e Silva

Professor responsável: Alexandre Barbosa (Mtb 28.371)

Editora chefe: Jaqueline Silva

Editora adjunta: Luanne Caires

Editor executivo: Guilherme Gama Editoras de arte: Caroline Barros e Luisa Costa

Editores de infogra a: Bruno Kristo er e Luana Franzão

Editor de fotogra a: Gustavo Zanfer Editores online: Filipe Albessu e Rafael Savassi

Editores de reportagem: Aline Novakoski, Arthur Macedo, Beatriz Lopomo, Cadu

Everton, Ivan Conterno, Júlia Rodrigues, Patrick Fuentes, Pedro Ferreira, Ramana Rech, Raquel França e Tomás Novaes

Editores de opinião: Alessandra Barrozo, Ana Luiza Cardozo e André Amorim

Repórteres: Adrielly Marcelino, Beatriz Hermínio, Giovanna de Oliveira,

Guilherme Caldas, Henrique Nascimento, Jorge Fofano, Julia Mantuani, Juliana

Alves, Juliana Matias, Luiz Attié, Natane

Cavalcante, So a Kercher, Vitor Cavalari e Wálace de Jesus

Colunistas: Beatriz Sardinha, Sebastião

Moura, Suzana Petropouleas, e

Jaqueline Silva e Luanne Caires, editoras da Babel.

omas Toscano

iago Gelli

A Babel é feita por alunos do oitavo

semestre do curso de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo: Revista.


sumário 04. Quanto de real tem no Brasil? 06. Cooperação acadêmica no Sul Global 12. Onda da extrema direita engole a marola rosa latino-americana 16. De pixels a celulose 18. Gênero e islamofobia no Brasil 20. Sobre ranchos e raízes 26. “Isso, com certeza, é do Paraguai” 30. Nuestro 11 de septiembre [capa] 36. Omeros: cantando os ecos do Atlântico 40. Presentes da terra 44. Mate, tango y rock n’ roll 48. Entre a espada e a cruz 52. Cartões postais e porta-retratos 54. Sons da resistência: a revolução cultural do reggae maranhense 60. A terceirização do imperialismo 62. Frutos secos: a juventude deprimida da América Latina 66. Roberto Bolaño não está aqui para solucionar mistérios 67. Não contavam com a astúcia de Roberto Bolaños 68. A fotografia perdida de Spiro California, rei romani do Chile

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economia

Quanto de real tem no Brasil? Já parou para pensar no retrato do Brasil exposto nas notas

do Real. E, mais especificamente, no retrato que não está lá? Beatriz Sardinha [texto] Alessandra Barroso [edição]

Luisa Costa [diagramação]

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BABEL| Dezembro | Dezembro2023 2023 BABEL


U

ma moeda, que circula de bolso em bolso, representa também uma memória

circundante do país, que passa despercebida

na maior parte do tempo, e que carrega consigo um valor não somente econômico, mas também imagético e simbólico.

Ainda que dentro da América Latina o

Exemplos hermanos: 1. Cédula chilena com o rosto de Gabriela Mistral, Nobel de Literatura em 1945.

Brasil usufrua de seu poder geopolítico e tenha uma moeda valorizada, ao adotar uma imagem genérica de liberdade na estampa de suas notas e dinheiros

metálicos, o país deliberadamente cobre sua história

com um véu. E, na tentativa de tirar esse véu, revelase apenas o rosto europeu da efígie da Liberdade.

Essa obscura palavra, envolta de tantas falácias

no contexto imperialista, reafirma diariamente o

descaso do Estado com a história popular. O Brasil está na periferia do capitalismo global e tem como

grandes personagens, sim, líderes revolucionários, indígenas, quilombolas. Faces que diferem muito da atualcordial imagem do Real.

A questão está longe de ser resumida em um esforço da chamada “micro história”, que tem como objetivo colocar em destaque personagens e pessoas

historicamente e, deliberadamente, deixadas de

lado. Mas, sobre pontuar uma escolha que reafirma cotidianamente qual a face do Brasil, qual sua postura política e de retratar o valor dado a determinadas classes e sujeitos. É covardemente fácil ilustrar as notas

brasileiras com animais da nossa rica fauna. Não há — ou praticamente não há — uma discordância de que

os animais nativos brasileiros têm beleza e merecem

viver — e, pelo menos socialmente, é inaceitável dizer o contrário. Já a existência de indígenas, de líderes da reforma agrária, de presidentas ou de comunistas não

é tolerável o suficiente para que essas histórias de luta

2. Cédula com o rosto de José Figueres Ferrer, presidente da Costa Rica que aboliu o exército no país. 3. Cédula colombiana com o rosto de Gabriel García Márquez, escritor que ganhou o Nobel de Literatura em 1982.

estampem as notas brasileiras.

E é justamente esse retrato de liberdade

violenta que é reafirmado no Real do Brasil. •

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Reprodução/Assessoria de Imprensa da Unila

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BABEL | Dezembro 2023

Ramana Rech [edição e diagramação]

Natane Cavalcante e Vitor Cavalari [texto]

enfrentam desafios de integração e recursos financeiros

proposta é impulsionar a economia e os serviços das regiões, sobretudo na região Nordeste. A ideia é que os estudantes retornem às respectivas origens e contri-

Universidades internacionais no Brasil fortalecem relações acadêmicas e culturais, mas

buam para o desenvolvimento de políticas nacionais. Em geral, as universidades se desenvolvem internacionalmente por meio de diver-

a instituição trabalha sob o viés da solidariedade, com o objetivo de integrar o Brasil aos membros dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). A

Iguaçu, e essa cooperação foi muito significativa para cuidar da população durante a pandemia da covid-19”. Do outro lado do país, no Nordeste, a Unilab está presente no Ceará e na Bahia. Fundada em 2010,

contribuir com os serviços públicos da região. Diana Araújo, Reitora da Unila, exemplifica que “a universidade se integra às instituições de saúde em Foz do

raguai e Argentina. A universidade participa de conselhos municipais e trinacionais, envolvendo professores e estudantes nas reuniões do Mercosul, além de

cionais, dupla diplomação e projetos de extensão. A Unila, por exemplo, está situada em Foz do Iguaçu, no Paraná, e atua na fronteira entre Brasil, Pa-

conhecimento acadêmico focado em rankings internacionais. As ações da cooperação incluem mobilidade acadêmica, pesquisas interna-

nacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). As universidades internacionais no Brasil são fundadas na cooperação solidária, em oposição à tendência mundial de produção de

Universidades Internacionais, como a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e a Universidade da Integração Inter-

A

hemisfério sul impulsiona o desenvolvimento social e econômico dos países que a compõem, por meio da criação de

cooperação acadêmica entre nações do

Cooperação acadêmica no Sul Global: um intercâmbio de conhecimento e cultura

Campus do Jardim Universitário da Unila: um espaço de integração e cooperação acadêmica na fronteira.

ciência

In cus, ad ullaccae

Babel | n‘ X | Dezembro 2023

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universidade, mas os projetos de internacionaliza-

cionais possam retornar aos respectivos países com capacitação adequada. Diana Araújo destaca que os estudantes paraguaios são os mais presentes na

salta o Reitor da Unilab, Roque Albuquerque. A Unila também se dedica à obtenção de dupla diplomação para que os estudantes interna-

sidade. Além disso, são firmados acordos de dupla titulação, permitindo que os graduados exerçam a profissão ao retornar ao país. “Essa iniciativa de cooperação enriquece nossa universidade”, res-

recebam bolsas para sua permanência na univer-

As universidades buscam transcender fronteiras geográ cas, linguísticas e culturais

Moçambique. Nessa parceria, Moçambique garante que todos os estudantes enviados à Unilab

A Unilab está em constante busca pelo fortalecimento da cooperação internacional, com destaque para a colaboração com a República de

acordos para criar programas conjuntos, pesquisas comparadas e manutenção da comunicação e do mútuo conhecimento ao longo do tempo.

sas atividades, como a mobilidade acadêmica e a cooperação interuniversitária, estabelecendo


Rwproduç

Unila, destaca que os projetos de integração promovidos pelos alunos, como feiras gastronômicas, apresentações musicais e teatrais, entre outros, são relevantes,

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BABEL | Dezembro 2023

cargo das ações promovidas pelos próprios estudantes. Jovana Schmidt, estudante de antropologia e coordenadora do Diretório Estudantil Latino-Americano da

manência estudantil. Além disso, a universidade conta com um núcleo de idiomas que busca diminuir as barreiras das variações da língua portuguesa.

de Ambientação Acadêmica (Samba), que aborda questões de raça, etnia e gênero, esclarecendo sobre as legislações brasileiras relacionadas à per-

com Jorgelina Talei, professora de língua espanhola na Unila, isso ocorre porque a universidade não possui uma política específica de integração, deixando a

As iniciativas, no entanto, não são suficientes para superar as barreiras linguísticas e promover a convivência e o intercâmbio cultural entre os alunos. De acordo

Desa os

português aprende espanhol e vice-versa. Além disso, a universidade oferece projetos de extensão e monitorias especializadas para indígenas e refugiados haitianos. Por sua vez, a Unilab realiza o Seminário

Para isso, a Unila adota o ciclo comum de estudos como estratégia de integração. O ciclo promove o intercâmbio linguístico entre os alunos: quem fala

sidade de nacionalidades, idiomas e grupos étnicos demanda iniciativas que construam pontos em comum para que exista convivência, afirma a reitora.

Segundo Diana Araújo, construir uma identidade latino-americana por meio de bases comuns entre os estudantes é um objetivo da universidade. A diver-

versidade acadêmica e estimular a integração. No entanto, consolidar uma integração duradoura e consistente é um desafio para essas instituições.

de aula e por meio de eventos sociais que realmente configura a formação identitária entre os estudantes. As universidades buscam transcender fronteiras geográficas, linguísticas e culturais para fomentar a di-

Unilab, acontece por meio da implementação de projetos de pesquisa e extensão. Entretanto, é a convivência intercultural e plurilinguística fora da sala

Construção da identidade A construção da identidade latino-americana, afrobrasileira e caribenha, tanto na Unila quanto na

assinou um convênio com o Instituto Mercosul, que oferece estágios e outras oportunidades aos alunos.

ção também são desenvolvidos com a Argentina. Além disso, a universidade está criando um programa para jovens líderes do Mercosul e, recentemente,

ciência

Reprodução/Assessoria de Imprensa da Unila

Consolidar uma integração duradoura e consistente é um desa o para essas instituições

BABEL | Dezembro 2023 9

mais pela cultura do outro e insistir na integração”. Além disso, a Unila também enfrenta a fal-

os estudantes formem grupos por nacionalidade ou região do Brasil: “temos dificuldades em continuar falando a língua do outro, em nos interessar

tural e linguística. No início, há um esforço coletivo para aprender o idioma, a cultura e se integrar. Contudo, com o passar do curso, a tendência é que

da universidade na manutenção dessa integração”. Ela também relata que, ao ingressar na Unila, os alunos ficam encantados com a diversidade cul-

mas não suficientes: “conseguimos nos integrar de forma autônoma até certo ponto, mas falta incentivo

Unindo sabores e tradições: feira gastronômica promove integração cultural entre países da América do Sul na Unila.


frentam desafios para trabalharem em conjunto no próprio país. A reitora Diana Araújo comenta que a Unilab já realizou diversas visitas à Unila, e que as

O Reitor Albuquerque relata que perce-

estudantes: “estamos avançando a passos lentos”.

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BABEL | Dezembro 2023

relata que, embora a universidade tenha demonstrado disposição para o diálogo, ainda não apresentou uma solução concreta para atender às demandas dos

duas instituições têm muitos pontos em comum. No entanto, ela menciona que, no momento, a Unila não mantém uma relação direta com a África.

Ceará, começará a oferecer o curso de medicina, mas ainda não há data definida para a sua implantação. Ambas as universidades internacionais do Brasil en-

mandando a contratação emergencial de professores, políticas de permanência estudantil e a implementação de restaurantes universitários acessíveis. Jovana

longo dos anos, os estudantes intensificaram as reivindicações. A mais recente ocorreu em outubro deste ano, quando os alunos deflagraram uma greve, de-

foi de R$10,5 milhões para a continuação das obras no Campus dos Malês, na Bahia. Já no mês de outubro, foi anunciado que o Campus de Baturité, no

esse compromisso, mas com o novo governo Lula, há um sentimento de otimismo renovado”, declara. Diante da persistente escassez de recursos ao

derão crescer e contribuir mais”. Também neste ano, de acordo com informações da assessoria do Ministério da Educação, o investimento na Unilab

espaço: “com uma estrutura adequada, poderemos realizar mais atividades e todos os cursos po-

gerou muita expectativa entre os alunos. Segundo Jovana, eles estão ansiosos para ocupar o novo

la, com um investimento previsto de R$600 milhões provenientes da Itaipu Binacional. O anúncio

dente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou a retomada das obras do campus da Uni-

Albuquerque. Para tanto, a Unilab recebe apoio do Ministério das Relações Internacionais do Brasil e recursos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Em julho de 2023, o presi-

No caso da Unilab, a instituição destina 42%

do custeio global exclusivamente para a permanência estudantil, sendo a única Universidade Federal do Brasil com essa porcentagem, afirma o Reitor Roque

Unila e Unilab integram estudantes com eventos sociais e projetos, buscando construir uma identidade cultural

nal, que esteve na contramão da missão da Unila de integração e cooperação acadêmica: “desde 2016, há uma tendência contrária a

a falta de investimentos na universidade é um problema da política brasileira e regio-

espaço reduzido, o que prejudicou as atividades acadêmicas. Diana aponta que

década, causou inúmeros transtornos. Os estudantes precisaram se adaptar a um

arquiteto Oscar Niemeyer. A paralisação das obras, que durou quase uma

de construção executada, segundo a Unila. A obra fica em uma área de quase 380 mil metros quadrados doada pela usina hidrelétrica de Itaipu, sendo o último projeto assinado pelo

da em 2010, continua em processo de consolidação. Em 2014, as obras do futuro campus da universidade foram abandonadas, com 40% da primeira fase

ta de recursos financeiros. A instituição, inaugura-

ciência

A intensificação de acordos de dupla titulação e a troca de experiências em projetos de pesquisa con-

palmente neste ano de 2023, em que as gestões na educação parecem estar mais alinhadas com os propósitos de internacionalização e cooperação.

Bruno Kristo er

beu uma maior aproximação com a Unila, princi-

Bruno Kristo er/Revista Babel

BABEL | Dezembro 2023 11

Reprodução/Assessoria de Imprensa da UNILA

dam que para garantir a continuidade e o crescimento dessas iniciativas, é necessário um apoio contínuo por meio de políticas públicas e investimentos adequados.

juntos sobre a relação entre América Latina e África podem fortalecer a relação entre as instituições. Os membros acadêmicos de ambas universidades concor-


política

Onda da extrema direita engole a marola rosa latino-americana Javier Milei e outros políticos caricatos reforçam o avanço da extrema direita na América Latina

Juliana Alves [texto] Arthur Macedo [edição e diagramação]

C

om 56% dos votos válidos, Javier Milei derruba

o peronismo argentino

e vence as eleições presidenciais em novembro de 2023. O economista

Bruno Kristoffer [arte]

denomina-se como “antissistema”. É liberal na economia e conservador nos

costumes, contra a legalização do aborto,

a educação sexual nas escolas, políticas de

direitos humanos e o casamento homoafetivo. Javier Milei é mais um político caricato que

se junta à nova onda da ultradireita. Esta que engoliu

a “onda rosa” da esquerda latina e, para especialistas, ainda estamos longe de ver o pico.

O avanço da extrema direita é um fenômeno

global de emergência populista que começou em

2010 e atingiu a América Latina, conforme explica o professor de Gestão de Políticas Públicas na Universi-

dade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado. Nas últimas eleições latino-americanas foi evidente o crescimento

do poder de ultradireitistas no Executivo e, principalmente, no Legislativo.

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BABEL | Dezembro 2023


Em junho de 2022, o senador de esquerda,

nômicas neoliberais dos Estados Unidos à América

se declarou fã de Hitler, com uma diferença de ape-

passaram a guiar a direita conservadora na década de

Gustavo Petro, derrotou Rodolfo Hernandez, que já nas 3,2 pontos percentuais nas eleições presidenciais

da Colômbia. Em outubro de 2022, Rafael López, o

“Bolsonaro Peruano”, venceu as eleições para a pre-

feitura da capital, Lima. Em abril deste ano, o ex-senador Paraguayo Cubas, o “Bolsonaro Paraguaio”, conseguiu uma votação expressiva em sua candidatura à Presidência — 23% dos votos. Pela primeira vez o

partido extremista, a Cruzada Nacional, elegeu cin-

co senadores e mais cinco deputados. Já no Chile, a

Latina. Estado mínimo e autorregulação do mercado

1990. Menem, da Argentina, e Fernando Henrique Cardoso, no Brasil, defendiam essas bandeiras. Até

que nos anos 2000 foram rasgadas, em crise. A “onda

rosa” de governos de esquerda era percebida pela população latino-americana como a salvação diante do empobrecimento das camadas médias e baixas.

Reprodução/Presidência da Argentina

população escolheu em maio deste ano apoiadores

de Pinochet para revisar a Constituição do próprio ditador. O Partido Republicano, de extrema-direita, venceu em 15 das 16 regiões do país.

Em entrevista à Babel, a Embaixada Brasi-

leira na Argentina comentou que estes votos em po-

líticos que se denominam outsiders e “antissistema” são considerados votos de protesto e descontentamento do povo latino-americano.

Histórico latino-americano O desenvolvimento econômico na América Latina

permaneceu apenas na promessa ao longo dos anos,

Carlos Menem e George H. W. Bush, cabeças por trás do Consenso de Washington durante os anos 1990

No entanto, a chegada da esquerda pela via

conforme conta Clarissa Franzoi Dri, coordenadora do

eleitoral não conseguiu contemplar as complexas de-

gional da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para manter o status quo e evitar a imple-

com os especialistas ouvidos pela Babel, muito disso se deve ao distanciamento das plataformas dos parti-

Grupo de Pesquisa e Extensão em Cooperação Re-

mentação de reformas tributária, agrária e educacional, a direita se organizou de forma autoritária com as

mandas sociais e econômicas da região. De acordo

dos de esquerda destas demandas.

“Os governos de esquerda da América Latina

ditaduras militares nas décadas de 1960 e 1970, sob o

estão adotando políticas de caráter assistencialista e

Intimidada diante das forças democráticas, a

paliativas, o que não é ser de esquerda”, analisa o pro-

discurso de ordem e o combate ao comunismo.

direita latina passou para o centro e seguiu o Consenso de Washington, conjunto de recomendações eco-

atendem as demandas sociais por meio de medidas fessor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Eduardo Vidigal.

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política

A esquerda latina necessitou remanejar a direita

a temas como a legalização da posse de armas e

to das suas bases sociais, como setores populares para

Vidigal considera que o avanço da ultradi-

em busca de governabilidade. Em troca, perdeu muias igrejas evangélicas, e espaço político, devido ao enfraquecimento dos sindicatos. Para Vidigal, a es-

querda propõe mudanças estruturais na sociedade no

sentido do igualitarismo; portanto, hoje pratica-

mente não há partidos desse alinhamento. Pablo

Ortellado

observa outra questão social que desencadeou o avanço da extrema direita: a guerra cultural. Ná década de 70, a esquerda aderiu

do aborto.

reita foi uma consequência do meio de trabalho. A

globalização foi acompa-

“Os governos de esquerda da América Latina atendem as demandas sociais por meio de medidas paliativas, o que não é ser de esquerda” — Carlos Eduardo Vidigal

nhada pelo desemprego

estrutural em complemento ao enfraquecimento dos sindicatos e da “onda rosa”.

As forças de direita já

são as elites econômicas, políticas e midiáticas, os mesmos grupos de poder

que se revezam entre si. Essas novas direitas que chegam à América Latina, de acordo com Franzoi, são populistas e uti-

aos novos movimentos sociais, como o negro e o feminista. À medida que

lizam elementos fascistas dos regimes militares, como a ideia de unir o povo

cia-se uma reação dos conservadores, que passam a

Mas, na lógica fascista, o povo unido é o povo puro.

essas mudanças se consolidam nas instituições, ini-

se ver como minoria, segundo o professor. Assim, a

Reprodução/Wikimedia Commons/ Valter Campanato/ABr

extrema direita começa a se organizar em relação

Lula e Néstor Kirchner, representantes da “onda rosa” dos anos 2000 14

BABEL | Dezembro 2023

para combater o falso inimigo externo ou interno. Como na região o povo é miscigenado, o inimigo é

interno, diferentemente do fascismo europeu. “Os


— Clarissa Franzoi Dri

Reprodução/Wikimedia Commons/ Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Os inimigos (da extrema direita) são a população negra e a periférica” inimigos são a população negra e a periférica, por isso a direita realiza o desmonte ideológico dos direitos humanos e coloca a polícia a favor do ‘cidadão de bem’. Assim a extrema direita conquista o voto do conservador”, afirma Franzoi.

Os argumentos “antissistema” e de combate ao

comunismo da extrema direita possuem um uso midiá-

tico apenas, e não substancial, conforme analisa Vidigal.

O ex-presidente do Brasil inspira outros “Bolsonaros” pela América Latina

“Não são propostas políticas sérias que devam ser

consideradas no seu conteúdo, apenas como instrumentos para engalhar votos, sobretudo de militares de

Fontes da Embaixada do Brasil ressaltam que

direita, empresários e reacionários”, afirma o professor.

o Mercosul permanece uma instituição consolidada,

direita no plano nacional é o aumento da violência

cussão com a União Europeia e com o Canadá. Além

Uma das consequências do avanço da ultra-

com acordos político-econômicos relevantes em dis-

contra os direitos humanos. Já no plano externo é a tendência de desmonte de instituições internacionais.

disso, afirmam que, mesmo com a vitória de Milei, a

União de Nações Sul-Americanas (UNASUR). Para

Franzoi, a vitória de Milei na Argentina aumenta a

Para Franzoi, a eleição do novo presidente argentino é preocupante para a democracia e para o

da ultradireita na América Latina.

regionais, como Mercosul e CELAC, terão mais dificul-

tagem de instituições internacionais pelos governos

que fundamentaram a campanha de Milei podem em-

dos anti-soberanistas e globalistas. Para o professor,

ra militar por membros de sua equipe pode legitimar

anos a atual “marola rosa”.

na quanto nos demais países latino-americanos.•

Os governos de extrema direita desmancharam a

Argentina não vai romper relações diplomáticas com o Brasil, mas adaptá-las.

possibilidade de desmanche do Mercosul e o avanço

multilateralismo na América Latina. As instituições

Pablo Ortellado reforça a tendência de sabo-

dade de diálogo e operação. Os propósitos extremistas

ultradireitistas, visto que eles consideram esses acor-

basar as futuras políticas públicas. A defesa da ditadu-

a onda da extrema direita deve ultrapassar em alguns

o aumento da violência de Estado, tanto na Argenti-

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De pixels a celulose

terço do rolo original. Como de costume, a fugacidade imposta à memória do cinema nacional já havia fincado suas garras nas lembranças de celulose. Buscar uma história do cinema brasileiro (e latino-americano), afinal, é contornar as infinitas lacunas deixadas pelo campo de guerra sutil, mas ruidosa, do imperialismo cultural. De Khou-

pela primeira vez por meio do longa O Gigante de

Pedra, feito em parceria com colegas que, como ele,

haviam saído da equipe da Companhia Cinemato-

gráfica Vera Cruz. Exibido na primeira e única edi-

ção do Festival de Cinema Internacional do Brasil,

em 1954, o filme tardaria para voltar à tela grande.

Em 11 de agosto de 2023, 70 anos após sua comple-

BABEL | Dezembro 2023

teca Brasileira, fragmentado devido à perda de um

transpor o estado natal em película

2

milímetros, na retrospectiva do diretor na Cinema-

paulista em 1929, 22 anos antes de

W tude, ele enfim retornou, restaurado, em cópia de 35

alter Hugo Khouri nasceu na capital

André Amorim [edição e diagramação]

iago Gelli [texto]

retrospectiva que honrou sua obra e a memória audiovisual latino-americana

O cineasta Walter Hugo Khouri marcou o retorno da Cinemateca em 2023 por meio de

cultura

Reprodução: Serlunar/Flickr

autossuficiente e desligada do circuito audiovisual anglófono. Por isso mesmo, celebrar sua obra, perante uma tela de cinema ou uma cópia gasta, abre vazão para a descoberta de dezenas de cineastas ocultos pelas marcas do tempo, como Jean Garrett, Carlos Hugo Christensen, Ana Carolina, Carlos Reichenbach, Djalma Limongi Batista e mais. Na América Latina, toda negligência torna-se cicatriz, que então evidencia a ferida aberta de uma cultura extirpada. O cinema, arte que se faz do rito de imagens em movimento, não abre espaço para a paralisia da dor. Khouri e seus colegas — independentemente das temáticas ou técni-

Na América Latina, toda negligência torna-se cicatriz, que então evidencia a ferida aberta de uma cultura extirpada

sob as condições formais ideias. Fora as oportunas restaurações idealizadas para o deleite dos espectadores do Canal Brasil, clássicos seminais como Noite Vazia (1964) e As Amorosas (1968), do qual participa Rita Lee, são difundidos quase exclusivamente por cópias disponíveis no YouTube que não passam de 480 pixels. Mesmo assim, os longas resistem pelo borrão digital, encantando aqueles que buscam escantear os padrões de qualidade técnica hollywoodianos em prol de facetas da história interessantes demais para o catálogo da Netflix. Dentre o repertório de Khouri, o exemplar que primeiro me seduziu foi o terror folk As Filhas do Fogo (1978), cujas imagens do sul brasileiro,

facetas da sociedade brasileira e a diferentes fins

ri permite que seus personagens — de diferentes

nema. Passional e complexo, o cinema de Khou-

de seus criadores que uma simples sessão de ci-

mim pareceu mais um réquiem pela humanidade

da por desmontes, alagamentos e incêndios —, a

nemateca — ressurgida após dois anos fecha-

Assistí-lo anos depois, restaurado na Ci-

tas, independentemente da qualidade da resolução.

mo encanto de anseio que captura as protagonis-

de qualquer estereótipo e imbui o público no mes-

do horror europeu da mesma década, o longa foge

ambiguidade bergmaniana e seu romance evocativo

repletos de desejo passam a assombrá-las. Com sua

tiga comunidade na Serra Gaúcha, onde fantasmas

acompanha a viagem de um casal lésbico a uma an-

terioso, extasiante e profusamente queer, o longa

Rorschach na cópia disponível via internet. Mis-

BABEL | Dezembro 2023 3

tuito que o cinema seja, justamente, a arte da luz.

e apagados pelo domínio estrangeiro, é então for-

latino-americana têm a mania de serem obscuros

e previsíveis. Se os caminhos sinuosos da cultura

mas para que tais erros deixem de ser constantes

vação é imperativo, então, não apenas pela honra,

tal figura disforme e celebrar o restauro e preser-

um corpo artístico desnutrido e ignorado. Amar

a beleza da película, materializam-se as feridas de

para a sociedade, retratos de Dorian Gray: sobre

cas preferidas —, deixaram imagens como espelhos

co concedido a qualquer ficção latino-americana

co décadas, pouco é acessível de maneira legal e

comprimidas ao máximo, ora se tornam Testes de

satíricos e dramáticos — existam, privilégio pou-

ri, que dirigiu mais de 20 filmes ao longo de cin-


sempre é física, às vezes vem por ‘brincadeiras’ islamofobicas acusando-os de terrorismo”, pontua Natália. Os conflitos na região da Faixa de Gaza são

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BABEL | Dezembro 2023

da USP e coordenado pela Dra. Francirosy Barbosa. “Muitas mulheres alteraram a sua vestimenta por conta das violências que vêm sofrendo”, destaca Barbosa. Uma vestimenta característica não

eventos-gatilho para manifestar um preconceito que já existia antes da guerra. De acordo com dados do Segundo Relatório de Islamofobia no Brasil, em sete de outubro, um dia após o conflito entre Israel e Hamas

mais preconceito, já que enfrentam a islamofobia e também o racismo. “Mesmo em momentos de descontração a islamofobia é presente. A violência nem

cia, segundo o Primeiro Relatório de Islamofobia no Brasil, produzido por pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto

A islamofobia se manifesta acompanhada de outras hostilidades, como a violência de gênero. As mulheres são as principais vítimas dessa violên-

pelo Estado de usar o hijab (véu sagrado islâmico). Segundo a pesquisadora Natália Neme Carvalhosa, islâmicos de países africanos sofrem ainda

os preceitos da religião. Mas uma cristã, por exemplo, pode usar suas vestimentas tranquilamente na França, enquanto mulheres islâmicas são coibidas

é exclusividade do islamismo: mulheres da comunidade pentecostal também usam roupas seguindo

Nada, Unsplash

principais preceitos do islamismo: amor ao próximo. Porém, o ódio e a violência decorrentes da islamofobia marcam a vida de mulçumanos que vivem no país.

mesmo”. As palavras do Sheik Mohamad Al Bukai, que vive no Brasil há 16 anos, descrevem um dos

ão é considerado um verdadeiro mulçumano aquele que não deseja para o seu irmão o que deseja para si

“N

Ana Luiza Cardozo [edição e diagramação]

Adrielly Marcelino [texto]

escalada do conflito entre Israel e Hamas

intolerância religiosa aumentou muito após a

69% das mulheres islâmicas consideram que a

Gênero e islamofobia no Brasil

sociedade

é capaz de exemplificar o fato de que cada ação social gera um impacto em toda a sociedade.

“toda humanidade é considerada uma família só, como se toda humanidade fosse parte de um mesmo corpo”. Esse mandamento do Islã

A islamofobia, assim como outras manifestações violentas, gera uma espiral de violência que impossibilita o bem-estar coletivo. O Sheik Mohamad Al Bukai explica que no Islã

você divulga a notícia gera também muito desconhecimento em relação a essas populações e, portanto, gera também islamofobia”, ressalta a Dra. Barbosa.

contribuir para a desconstrução de preconceitos, por outro a mídia pode estimular a violência e reforçar estereótipos contra mulçumanos. “A maneira como

religiosa aumentou muito após a eclosão do evento. Entre as mulheres, este número salta para 69%. Se por um lado a imprensa pode informar e

sos de violência sofrida em público por mulçumanos no país. Entrevistas feitas com muçulmanos apontam que 56% dos homens consideram que a intolerância

tomar conta dos noticiários, já houve aumento dos ca-

Em 2010, os brasileiros natos representavam 70% da população muçulmana do país. Esta proporção é explicada pela formação de famílias de imigrantes em solo nacional desde meados do século 20, além da conversão crescente de brasileiros ao Islã.

BABEL | Dezembro 2023 3

Mesquita da Misericórdia Sobem, localizada em São Paulo. O estado paulista concentra 42% dos muçulmanos no Brasil.

Ana Luiza Cardozo, Revista Babel


cultura

Sobre ranchos e raízes A história dos mariachis e as in uências da música sertaneja do México, a ranchera, para a América Latina Jorge Fofano [texto] Tomás Novaes [edição e diagramação]

2

BABEL | Dezembro 2023


“E

ssa aqui é uma vihuela, ela tem um som bem estridente e muito contrastante

Enrique Hugo Figueredo é argentino, trabalha há 25 anos com música latino-americana, é produtor

é de três a quatro vezes maior ” demonstrava Enrique Hugo Figueredo, no estúdio, enquanto ressoava dois

lo. O grupo, que fará quatro anos em dezembro de 2023, ganhou popularidade durante a pandemia de

com o guitarrón, o baixo mexicano, que

acordes no pequeno violão. Do traje inteiramente preto, chamava atenção a camisa social bordada com

detalhes prateados em ambos os ombros. Não de-

morou muito tempo para que Figueredo mostrasse o sombrero rajado, igualmente preto e prateado. A

indumentária tornava impossível não identi car o ofício do homem de meia idade. A nal, o mariachi

se eternizou como uma das guras máximas do imaginário latino-americano, reconhecida até mesmo como um patrimônio imaterial da humanidade.

e um dos fundadores da banda Mariachi São Pau-

covid-19, por meio das lives. Com o m das restrições sanitárias, começou a receber pedidos de serenatas, aniversários, casamentos e até a participação

em um velório. “Os mariachis surgiram como um grupo para celebrar os momentos da vida e até mesmo a morte. É muito comum na tradição do México a presença de mariachis em velórios para cantar músicas em forma de homenagem para aqueles que partiram”, resgata Figueredo. Hoje, a banda de cinco integrantes roda o es-

tado de São Paulo em shows, eventos particulares e públicos. Em maio deste ano, participaram do quadro “Rango Brabo” no canal “Pod Pah”, um dos mais assistidos no YouTube. Embora necessidades comerciais acabem ditando a formação do repertório, o que

explica a presença de mega hits nas apresentações — como Despacito, por exemplo — o músico menCantor mariachi se apresenta em Chicago, nos Estados Unidos, em 2006: cultura que atravessa gerações e fronteiras

ciona um cuidado de incluir canções tradicionais. “Principalmente para públicos mais jovens, gostamos de intercalar músicas mais tradicionais para que

elas também sejam conhecidas”, salienta Figueredo.

Reprodução/Wikicommons

Os mariachis são celebrados pela cultura pop contemporânea, mas a existência, importância e in uência desses músicos vai além de um capricho estético BABEL | Dezembro 2023 3


cultura Os mariachis são celebrados pela cultura pop contempo-

sociólogo Ángel G. Quintero Rivera levanta a hipótese de

Se na forma a ranchera destaca-se pela orquestra de violas e pelo bel

músicos vai além de um ca-

termo vem de línguas indíge-

no idealizado, a solidão e o desespe-

rânea, mas a existência, importância e in uência desses pricho estético e de uma rotulação estereotipada de uma tradição: os mariachis mexicanos tiveram papel fundamental na formação da mú-

In cus, ad ullaccae

sica sertaneja “de raiz”.

O cancioneiro de uma paixão ardente A tradição dos mariachis re-

monta a meados do século XIX. Vagavam em bandos pelos ranchos e estradas de Jalisco, região ocidental do México onde predominavam

vaqueiros de descendência europeia (chamados de char-

ros), a cantar serenatas para casais apaixonados. Não por acaso, a etimologia do termo

mariachi remete a uma celebração romântica, já que se trata de um neologismo da palavra marriage (matrimônio em francês), que se forma

no momento de ocupação do México pelo Segundo Im-

pério Francês, entre 1861 e 1867. Apesar da etimologia da palavra mariachi estar próxima da França, o professor e

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BABEL | Dezembro 2023

outras origens para o termo. “Há quem argumenta que o nas; provavelmente o termo originou-se associado a cantos a Maria, seja em sua acepção religiosa, seja em sua associação laica como sinônimo

de mulher”, diz em texto que pertence à Latinoamericana, enciclopédia contemporânea da América Latina original-

mente publicada em 2006. O canto gritado, acompanhado pela profusão de timbres de

violas, violões e instrumentos derivados foram constituindo

as bases de um cancioneiro regional mexicano. Assim nascia a ranchera. Violeta Vaal, pós-graduanda no curso de Literatura

Comparada

da

Universidade Federal da Integração Latino-America-

na (UNILA), pontua que a ranchera também pode ser vista como um termo “guar-

da-chuva”, ao abarcar gêneros mais especí cos como a

banda sinaloense e o norteño. De uma forma ou outra, diz Vaal, o gênero está historica-

mente ligada aos mariachis.

canto masculino, na lírica, o gênero é transbordado pelo amor masculi-

ro da por parte da gura feminina. Violeta Vaal lembra que essa profusão de sentimentos tão passionais não raramente descambam em

puro machismo. La media vuelta, canção composta por José Alfredo Jimenez, considerado o maior ex-

poente da música de mariachi, revela a temática do amor possessivo:

“Te vas porque yo quiero que te vayas A la hora que yo quiero te detengo Yo sé que mi cariño te hace falta Porque quieras o no Yo soy tu dueño”


Alejandro Fernández, lho de “El Rey” Vicente Fernández Jr., vai além

A pesquisadora, nascida em Tepic, no estado de Sinaloa,

guntada sobre como aconteceu o processo de difusão da gura

“égua”, grosseira, sobre quem o eu-

rém, nos últimos anos, com o

to do continente latino-ameri-

em Cascos ligeros. Na canção de 1993, a mulher é equiparada a um

lembra que diversos destes temas persistem ainda hoje. Po-

lírico tem propriedade. “O amor na ranchera está constantemente mol-

ingresso de artistas mulheres e LGBTQIA+ na cena da mú-

dado pela coisi cação da mulher, da declaração intencional da trai-

sica regional tem contribuído para contrapor a tradição ma-

ção e até mesmo o feminicídio”, ex-

chista. “Há artistas mulheres

plicita Vaal. Um exemplo disso é a música El Preso Numero Nueve, de

como Vivir Quinta-

do mariachi e, consequentemente, da ranchera para o rescano. “Gosto sempre de fazer o paralelo com a Semana de

22, por que, no caso dela, também se pensou na identidade do mexicano e o que se dese-

java construir como futuro

“A Revolução na, que, em da nação”, Mexicana pensou Canción Sin complemenMiedo, fala na identidade ta a pesquisasobre o femidora. do mexicano e o nicídio. Mais A s recentemen- que se desejava emboscadas te, o vocalisque culminaconstruir como ta do Grupo ram nas morFirme (ban- futuro da nação” tes de Emi-

autoria dos irmãos Roberto Cantoral Garcia e Antonio Cantoral Garcia:

“Porque mato a su mujer y un amigo desleal Dice así al confesar Los maté si señor Y si vuelvo a nacer Yo los vuelvo a matar”

da de Tijuana

fundada em 2014) veio à público se

— Violeta Vaal, pesquisadora

Reprodução/Wikicommons

dizer gay. A entrada desses artistas ajudam a diversi car a identidade da música regional mexicana como um todo.” A Revolução e a imagem do mexicano “Eu tento fugir da Revolução Mexicana [risos], mas ela teve

um impacto muito grande”, responde Violeta ao ser per-

A banda sinaloense é um gênero regional mexicano baseado em metais de sopro, com origem no estado de Sinaloa, na região oeste do país latino

liano Zapata, em 1919, e Pancho Villa, em 1923, não

impediram que a Revolução Mexicana exercesse profunda

transformação no tecido social e cultural do país nas décadas seguintes. Nos motores do renascimento nacional, estava o muralismo de Orozco, Siquei-

ros e Diego Rivera, e a defesa de uma arte intrinsecamente

popular. Data desse mesmo período os esforços mais am-

BABEL | Dezembro 2023 5


cultura

plos pelo indigenismo mexicano, estimulado por

intérpretes dentro e fora do México, e 25 lmes.

Maia e Azteca. Na sétima arte, a pós-revolução deu espaço

de Miguel Aceves Mejia, conhecido como “Rei do Falsete”. Sua interpretação da tação da ranchera

diversos achados arqueológicos das civilizações

à “Época de Ouro do Cinema Mexicano”. Entre 1936 e 1956, o México dominou completamente a produção cinematográ ca da América Latina, com um ritmo de 80 a 100 lmes por ano. Diferentemente da pintura, a

Outro nome com bastante circulação na época foi

La malagueña salerosa é uma das mais lembradas até hoje, tendo inspirado a dupla sertaneja brasileira Chitãozinho e Xororó a reproduzi-la no disco Vida Marvada, de 2006.

cinematogra a mexicana da época optou

Ao Sul Com a ajuda de Jiménez e

menos político e mais prosaico, ao retratar

bém nas rádios, a música ranchera e o símbolo do

por um nacionalismo

a partir de gêneros

como o drama romântico e a comédia. Por meio daqueles personagens, o públi-

co estrangeiro foi se

mariachi decolaram rumo ao Sul do continente, onde

Reprodução/Wikicommons

temas da sociedade e da história mexicana

Mejía nas películas e tam-

se entrelaçaram às tradições de cada um dos países. Segundo Christian David Por-

tuguez Mosquera, colombiano de Cali e pesquisador da área de etnomusicologia

familiarizando com uma imagem especí-

pela Universidade Estadual de Campinas, esses trânsitos

ca do mexicano comum. E quem era ele?

Fundamentalmente, o charro, o ranchero de sombreros largos e

culturais entre o global e o local podem ser explicados Miguel Aceves Mejía (1915-2006), conhecido como “o rei do falsete’”

ção”, formulado por Roland Robertson. “No caso da Co-

roupas batidas do campo. E, se empunhavam violas e violões nas mãos, imediatamente se trans gu-

lômbia, o gênero [ranchera] se glocalizou. Os ídolos, as músicas, as vestimentas dessa música fazem

nhecidos desse casamento entre cinema e música de mariachi foi o próprio José Alfredo Jimenez. Ao

mariachis, grupos originalmente mexicanos, mas que na Colômbia passam a cantar músicas mexi-

ravam em mariachis. Um dos resultados mais co-

longo da sua vida, Jimenez compôs cerca de 1000 canções, muitas delas regravadas por dezenas de

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pelo conceito de “glocaliza-

BABEL | Dezembro 2023

alusão aos dois países. Como exemplo, temos os

canas e colombianas”. Para o pesquisador, a glocalização no caso brasileiro é ainda mais particular,


também devido à transposição linguística. “No

de caminhões na época chegou à conclusão que

virar um gênero local. Ninguém fala de ‘ranchera brasileira’, e ninguém conecta ao México ao escu-

programa do radialista. A mistura entre a cultura mexicana e a cul-

Brasil, a ranchera foi ressigni cada ao ponto de

tar sertanejo raiz”. Taça da Dor, de Pedro Bento e Zé da Estrada, é considerada por muitos estudiosos da música popular brasileira como a primeira ranchera nacional. Tanto que a dupla natural do interior

paulista cou conhecida como “Os amantes da ranchera”, quando passaram a se vestir de mariachis nas capas de discos e também nos shows realizados no início da década de 1960. Uma passagem da autobiogra a de Pedro Bento, recuperada pelo

pesquisador do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, Danilo Cymrot no artigo “Disseram que eu voltei mexicanizado: sertanejo raiz e a

incorporação da canção rancheira”, dá detalhe do alvoroço gerado pelas indumentárias tradicionais

mexicanas. A rma o pesquisador no texto: “Pedro Bento relata que tinha gente que vinha aos shows

‘só para ver os chapéus coloridos’ e que, por causa da roupa, ‘até hoje o povo pensa que eles são do México’”. Em entrevista concedida a Cymrot no

nal de 2015, Bento havia dito que a sua principal in uência foi Miguel Aceves Mejía, a quem ouvia por disco e no rádio e viu cantar em Ribeirão

Preto,em 1963. Pedro Bento faleceu em 2019, aos 84 anos. Sobre a in uência do rádio na difusão da ranchera mexicana, Cymrot lembra que Mejía era um dos artistas preferidos da programação de Zé Bettio, considerado um dos maiores radialistas da

história do Brasil. Recebendo cerca de cinco mil cartas por semana de fãs, Zé Bettio tinha deli-

cerca de 68% de todos os caminhoneiros ouviam o

tura sertaneja serviu de inspiração musical e lírica a uma safra de sertanejos marcada por nomes como Milionário e José Rico, Belmonte e Amaraí, Tiba-

gi e Miltinho, Nenete e Dorinho e o Trio Parada Dura. À época, esses artistas, hoje reconhecidos

como representantes da música sertaneja de raiz, foram acusados por críticos musicais e duplas mais antigas – como Tião Carreiro e Pardinho – de es-

tarem “corrompendo uma música rural, folclórica e nacional” com modismos estrangeiros. O uso de trompetes, trombones e outros instrumentos característicos das rancheras mexicanas explicavam

parte da “fúria” pelos estrangeirismos cometidos por essa segunda geração de músicos sertanejos. Eventualmente, com a virada do século e a

chegada do sertanejo universitário, os acusados da época se transformaram em acusadores, perceben-

do-se hoje como bastiões de uma suposta “pureza” do gênero. A tecnologização do espaço rural brasileiro e o contato mais próximo do sertanejo aos

gêneros musicais urbanos, com pop e funk, foram levando a ranchera clássica a se tornar apenas uma das referências usadas das duplas atuais, mas, ainda assim, presente e profunda.

Aponte o celular e escute as músicas citadas nesse texto no Spotify

dade particular da audiência do interior brasileiro. Uma pesquisa publicitária feita por uma fabricante

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Cortesia/Ekem/Wikimedia Commons Cortesia/isabelcazuriagaf/Flickr

Economia

Luana Franzão [arte]

“Isso, com certeza, é do Paraguai” As raízes e características da relação comercial entre o Brasil e o país fronteiriço vão além dos produtos falsi cados Produtos paraguaios

Wálace de Jesus [texto]

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Júlia Rodrigues [edição e diagramação]

BABEL | Dezembro 2023


C

om um comércio associado muitas vezes às país satélite da Argentina e do Brasil, principalmen-

expressões “muambas” ou “produtos falsi ca- te após a segunda grande Guerra Mundial”, explica. dos”, o Paraguai é um país fronteiriço ao Brasil Guerra-Guaçu (“guaçu” é “grande” em gua-

que ganha preferência de compra de muitos brasileiros

rani) foi o que conhecemos aqui no Brasil como a

quando o assunto são produtos de consumo massivo Guerra do Paraguai — ou a Guerra da Tríplice Aliane pessoal. Isso acontece graças aos preços em geral ça do ponto de vista paraguaio — que envolveu os mais baixos, impostos menos agressivos e burocracia países da bacia platina (Brasil, Uruguai, Argentina de importação mais ágil. Mas essa relação bilateral e Paraguai). A terminologia é usada aqui para que-

tem raízes históricas que remetem ao século passado. brar estereótipos dos vencedores sobre o país vizinho. Para Sebastian Bogado, adido comercial da Após décadas de reconstrução, os países conEmbaixada do Paraguai no Brasil, a relação comercial vergem naquilo que era o bem mais precioso e coentre os irmãos latino-americanos vai além de cigarros mum aos dois: a terra. “Sem dúvida os setores ligados e eletrônicos baratos. Ela é muito apoiada também em ao agronegócio são os que mais souberam aprovei-

commodities, como soja e trigo, comercializadas por des- tar o relacionamento comercial entre os países”, cendentes dos primeiros brasileiros que se estabelece- complementa o adido comercial, Sebastian Bodago. ram na área rural paraguaia, durante a década de 1960. “É uma população variada, mas que migrou Ponte da Amizade e Corredor Bioceânico para o Paraguai sobretudo no contexto da expansão A ponte que liga a cidade Foz do Iguaçu, no da fronteira agrícola brasileira durante a ditadura mi- Brasil, à Ciudad Del Este, no Paraguai, é a mais

litar e que casou com a expansão do Paraguai”, explica movimentada do lado brasileiro. Batizada de Ponte Fábio Luiz Barbosa dos Santos, professor de Rela- da Amizade, a travessia tem uxo diário acima de 41

ções Internacionais da Universidade Federal de São mil veículos, de acordo com a Pesquisa de Tráfego Paulo (Unifesp) e do Programa de Pós-Graduação e Per l de Turistas na Tríplice Fronteira, de 2022. de Integração Latino-Americana da USP (Prolam). A existência dos “brasiguaios” — aos quais Barbosa se refere como os grandes produ-

Realizada por estudantes do Centro Univer-

sitário Dinâmica das Cataratas, em Foz do Iguaçu (RS), o estudo também revelou o tráfego e o per l das

tores de soja brasileiros no Paraguai — e os con- pessoas que cruzam a fronteira entre os países: 83,4 itos históricos entre os dois países de fato im- mil é o número total de viajantes, 70% deles são ho-

pulsionaram as relações comerciais bilaterais. “A mens e estão na faixa etária de 35 a 49 anos. São Paulo Guerra-Guaçu é um divisor de águas na história é o segundo estado com maior número de passageiparaguaia porque reordenou as relações agrárias de ros entre os países, perdendo apenas para o Paraná um país que não tinha coronelismo latifundiário e que perdeu sua trajetória autônoma, tornando-se um

e à frente de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O comércio é a principal razão para se cruzar

BABEL | Dezembro 2023

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Economia

“Sem dúvida os setores a Ponte da Amizade, motivo elencado por mais de ligados ao agronegócio 33% da população consultada pela pesquisa. De eletrônicos a cigarros, a relação comercial com o Parasão os que mais guai — e especi camente com Ciudad del Este — é souberam aproveitar o uma grande referência para o comércio brasileiro e o abastecimento local, como nos centros comerciais do relacionamento comercial Brás, Lapa e da 25 de março, todos em São Paulo. entre os países” “Também merece destaque a ponte que está sendo construída entre as cidades de Porto Murtinho,

— Sebastian Bogado

ceânica, essa estrutura faz parte da Iniciativa para a

presentar quase 25% do rombo scal, ele não é o maior

no Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai”, lembra Bogado. Chamada de ponte da Bio- três bilhões de reais. Apesar do setor de vestuário reIntegração Regional Sul-Americana e pode viabilizar responsável pelo contrabando entre os dois países. a malha rodoviária do Brasil ao Corredor Bioceânico. Com 27%, esse protagonismo ca para o cigarro. No

Ele tem o objetivo de unir o oceano Atlânti- último ano, foram 162 milhões de maços de cigarros co ao Pací co pelas vias terrestres do Centro-Oeste apreendidos em valor aproximado de R$ 810 milhões. brasileiro, Paraguai, Bolívia, Chile e Argentina, além

A maioria dos cigarros contrabandeados

de aproximar os países latino-americanos dos merca- no Brasil tem sua produção no Paraguai e a pordos asiáticos. Com essa vantagem logística, o mercado ta de entrada de todo esse produto são as fronteibrasileiro ganha competitividade com seus irmãos la- ras terrestres das regiões Sul e Centro-Oeste. “O tino-americanos e com a Ásia, diminuindo a rota ma- Paraguai produz 65 bilhões de cigarros e consome

rítima em mais de nove mil quilômetros, por exemplo. 2 bilhões. O resto é tudo contrabandeado. Não há Principal rota de contrabando

nenhuma exportação legal de cigarro para o Brasil”, reforça Edson Vismona, presidente do Fó-

Apesar dos atrativos de preços, impostos e de logísti- rum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidades. ca, ainda há muita nebulosidade sobre o contrabando do mercado paraguaio na fronteira com o Brasil. Em

Preconceito

2022, os cofres públicos brasileiros perderam mais de De acordo com o pesquisador do Institut de RecherR$ 410 bilhões devido à atuação do mercado ilegal, de che pour le Développement (IRD), Sylvain Souchaud, acordo com o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a o comércio do Paraguai ainda é esvaziado de sentiIlegalidade. Ainda conforme o órgão, a principal rota do e muitas vezes taxado com expressões pejoratide contrabando é na fronteira do Brasil com o Paraguai. vas haja vista o alto número de contrabando e pro-

De acordo com o Balanço Aduaneiro de 2022, dutos falsi cados comercializados dentro do Brasil. realizado pela Receita Federal, o valor de mercadorias “Ainda há muito preconceito baseado em apreendidas em operações do órgão no Brasil ultrapassa desconhecimento ou em experiências antigas que

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BABEL | Dezembro 2023


podem remontar ao século passado, como o de considerar que o comércio é composto [apenas] por

produtos falsi cados”, complementa Bogado. Essa é uma das razões pelas quais expressões como “pro-

dutos do Paraguai” são populares entre os brasileiros. É certo que ainda existem comércios ilegais de produtos falsi cados do lado paraguaio, mas

“A gente tem que se conhecer como quem vai lutar juntos” — Fábio Barbosa brasileiros preenchem de estereótipos as identidades

o mesmo também pode ser dito para bairros popu- de paraguaios, bolivianos, argentinos e venezuelanos, lares do Brasil e outras regiões. “Isso acontece com avalia o professor Fábio Barbosa. “Às vezes a reali-

a imagem do Paraguai assim como acontece com dade muda, melhora, evolui, mas a massa continua a imagem de outros povos, alguns até no próprio arraigada às ideias antigas”, complementa Bogado. Brasil, como o preconceito sofrido pela popula-

“A gente tem que se conhecer como quem

ção do Nordeste brasileiro quando vai para os es- vai lutar juntos”, destaca Barbosa, parafraseando o tados das regiões Sul e Sudeste”, compara Bogado. intelectual cubano José Martí. Para ele, a desconsBaseado em uma construção histórica de iden- trução das identidades que nos afasta é essencial tidade dos povos que teve como objetivo fundamental para uma nova América Latina, assim como o innos afastar enquanto irmandade latino-americana, os

teresse cultural pelos países irmãos do continente.

BABEL | Dezembro 2023

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Soldado com presos ao fundo, Estádio Nacional, Santiago, Chile, 24/9/1973.

H Pinochet, os efeitos econômicos, sociais e culturais

população como um todo, que tornou-se impossí-

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ria da América Latina da USP, Horácio Gutierrez.

BABEL | Dezembro 2023

afirma o diretor do Centro de Estudos de Histó-

àqueles que foram assassinados pela ditadura partici-

No presente, os que buscam prestar tributo

completaram cinquenta anos do fatídico episódio”,

passar despercebido, ainda mais esse ano quando se

vel cada 11 de setembro, dia do Golpe de Estado,

as torturas e perseguições a opositores do regime.

minou direitos trabalhistas. A isso, somaram-se

guiu os partidos políticos, instalou a censura e eli-

pela ditadura chilena e penetraram tão fundo na

trole sobre o Poder Judiciário, o exército extin-

Com o fechamento do Congresso e o con-

da ditadura chilena permanecem até hoje no país. “Foram tantas as atrocidades cometidas

do presidente socialista Salvador Allende e exerceram o poder executivo pelos próximos dezesseis anos.

sem esquecer"]. Mesmo com o fim do governo de

Pinochet, as forças armadas deram fim ao governo

Estado. Lideradas pelo general Augusto

ecoa o grito “Ni perdón, ni olvido” ["Sem perdão,

pam da tradicional marcha La Romería, na qual

bro de 1973, o Chile sofria um golpe de

á cinquenta anos, no dia 11 de setem-

Beatriz Lopomo [edição e diagramação]

Beatriz Herminio, Guilherme Caldas e Sofia Kercher [texto]

repressão, sob o regime do general Augusto Pinochet

durou cerca de quinze minutos. Começava ali uma história de duas décadas de violência e

Há 50 anos, a Força Aérea Chilena bombardeava o Palácio Presidencial, em um ataque que

Nuestro 11 de septiembre

memórias do Chile

Acervo IMS/Coleção Evandro Teixeira

Allende morreu no dia do golpe, e a causa

de recuperar privilégios perdidos”, explica Gutierrez.

principalmente estadunidense, com a finalidade

industrial e financeiro chileno e transnacional,

foi arquitetado por poderosos setores do capital

“O Golpe de Estado realizado em 1973

por meio da Agência Central de Inteligência (CIA).

aniquilação da democracia chilena, especialmente

os Estados Unidos tiveram um papel importante na

provocaram reações internas e externas ao país. Ainda inseridos no contexto da Guerra Fria,

rígida hierarquia social. As medidas, no entanto,

ra rural era determinada por latifúndios e por uma

no começo do século vinte, um país cuja estrutu-

agrária iniciada no governo anterior. O Chile era,

so, Allende buscou dar continuidade a reforma

Nenhum militar tinha chegado

e se suicidou. Estava sozinho.

pendência, sentou-se em uma cadeira grande de cor vermelha,

desolado. Entrou no salão Inde-

presidente está morto”, me disse

cendo, Enrique?”, inquiro. “O

do palácio. “O que está aconte-

Enrique Huerta, o intendente

Atrás de mim, alguém soluça. É

BABEL | Dezembro 2023 3

dificultam a implementação de políticas sociais de

Um exemplo disso é a presença de artigos que

canos pela Universidade do Chile, Enrique Riobo.

militar”, lembra o doutor em estudos latino-ameri-

em artigos da Constituição, criada durante o período

tivas de reforma foram bloqueadas pois esbarravam

aprovou, em 2020, a substituição da Carta Magna. “Durante muitas décadas, muitas das tenta-

que desencadeou manifestações em 2019, o Chile

te o governo de Pinochet. Após uma revolta popular

Constituição vigente no país, criada em 1980 duran-

descontentamento da população chilena reside na

Atualmente, uma das principais causas de

O relato é de Óscar Soto, médico do presidente]

de Mario Amorós, jornalista e historiador espanhol.

ao segundo andar. [Extrato de Allende, a biografia,

população

suprir as necessidades da

demonstra incapacidade de

maiores produtores mundiais de cobre. Além dis-

mineração – o país é um dos

de indústrias, bancos e da

de renda e a nacionalização

vam a melhora na distribuição

Entre as medidas tomadas pelo presidente esta-

Revolução Cubana de 1959.

que a iniciativa privada

última possibilidade, depois

exemplo as conquistas da

rica Latina, que tinha como

O Estado só aparece como

mãos na nuca, a me apoiar no sólido muro do palácio.

vessar a porta de Morandé, 80 sou levado, com as

anda em direção ao salão Independência. Ao atra-

descem, eu continuo olhando para o presidente que

Ouço dizer: “Desçam todos. Deixem as armas e desçam. Eu serei o último”. Em fila, meus companheiros

ge e sinto que será definitivo, que o final se aproxima.

Durante um instante me olha profundamente de lon-

meiro andar e nos deram 10 minutos para descer.”

“Presidente, os militares já invadiram o pri-

cia da República, sofria ataques aéreos e terrestres.

enquanto o Palácio de La Moneda, sede da Presidên-

gundo a justiça chilena, ele teria cometido suícidio

de sua morte é motivo de controvérsias no país. Se-

por meio do voto na Amé-

possibilidade de se obter uma experiência socialista

puta eleitoral de 1970. Sua vitória demonstrou a

lizão de partidos de esquerda formada para a dis-

era membro da Unidade Popular (UP), uma coa-

Natural de Valparaíso, Salvador Allende

nal, que acabou por corroborar a decisão popular.

dos votos obtida fez com que a eleição de Allende fosse submetida à aprovação do Congresso Nacio-

mic, com 27,8%. A ausência de maioria absoluta

Jorge Alessandri, com 34,9%, e de Radomiro To-

em que foi eleito com 36% dos votos – à frente de

presidência três vezes antes das eleições de 1970,

O médico Salvador Allende já havia concorrido à

do neoliberalismo

De socialismo democrático a laboratório


o cargo de 1977 a 1982.

repressão e a violência

dio Nacional do Chile,

cidade de suprir as necessidades da população.

como prisão improvisada nos primei-

tigo Estádio Chile leva o nome de Jara. A longa despedida de Pinochet

bate sobre direitos humanos no país”, explica Riobo. governo chileno foi o chamado “degredo”. Mota afirtorturas e assassinatos que o governo também come-

de que o golpe abriu o Chile para o neoliberalismo.

mistas chilenos, em maioria pós-graduados pela

meiros a aplicar na prática os pensamentos ne-

— fazendo do país o primeiro na histó-

desérticas e rurais. Isso separava grupos organizados

Até hoje, a violência da ditadura deixa

tre em história pela USP, Adir de Almeida Mota.

po estavam Jorge Cauas, ministro das finan-

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BABEL | Dezembro 2023

Entre os principais nomes deste gru-

e enfraquecia mobilizações contrárias ao governo.”

tituição negada por plebiscito popular.

ria da América Latina a ter uma Cons-

dos chilenos votaram contra a proposta

nova Constituição. Resultado: 61,8%

permitiu esse laboratório no Chile”, ressalta o mes-

lheiros para regiões muito remotas do Chile, em áreas

consistia em mandar agitadores políticos e guerri-

ção do Chile foi às urnas votar por uma

70 e início dos 80, quando o povo já se mostrava bastante insatisfeito com o governo”, explica. “A punição

gresso, não havia meios de se implementar o que queriam os Chicago Boys. Só o autoritarismo é que

“Pela via democrática, passando pelo con-

ta se desvencilhar da herança de Pinochet. Em setembro de 2022, a popula-

“O degredo é mais utilizado no fim dos anos

Essa não é a primeira vez que o país ten-

ros dias do regime. Desde 2003, o an-

teu, tinha como objetivo evitar alarde sobre a repressão.

ma que a técnica, considerada menos violenta que as

Uma das técnicas de repressão utilizadas pelo

capital do país, que também foi usado

le” pelo teórico desta corrente, Milton Friedman.

oliberais do que foi chamado de “milagre do Chi-

Universidade de Chicago, considerados os pri-

Os chamados Chicago Boys eram econo-

sequências desses atos são até hoje o cerne do de-

ric, atual presidente do país. Para ele, não há dúvidas

do e morto em um ginásio localizado na

graves atos de violência já vistos no Chile, e as con-

Victor Jara que, aos 40 anos, foi tortura-

Ministério da Justiça já no mandato de Gabriel Bo-

pela ditadura são até hoje os mais extremos e mais

um por si’”, declara o chileno, que atuou como assessor de gabinete na subsecretaria de Direitos Humanos do

Entre elas, está o cantor e poeta

tos e desaparecidos é incerto, mas estima-se um total de mais de 3 mil vítimas.

marcas na população. O número de mor-

17 cadeiras foram ocupadas por po-

de 2021 para redigir a Carta Magna,

Dos 155 membros eleitos em maio

ciais e candidaturas independentes.

instituições

garras nas

cravar as

insiste em

a ditadura

BABEL | Dezembro 2023 5

ma direita, José Antonio Kast, nas elei-

teve vitória sobre o candidato de extre-

No final de 2021, Gabriel Boric

to mal para a direita”, relembra Riobo.

como instituição, e as coisas iam mui-

época, os setores de esquerda e centro esquerda estavam indo muito bem

cluindo a legalização do aborto — “Na

trabalhistas e direitos da mulher — in-

uma ampla agenda ecológica, direitos

de Constituição progressista, que previa

O resultado foi uma proposta

no processo atual, iniciado em 2023.

século depois, vos originários – contra apenas uma

fácil. Meio

Não há saída

Há algumas razões para tal. Nesse primeiro processo, houve uma maior abertura para movimentos so-

Jovem preso no Estádio Nacional sendo identificado e fotografado por militares, Santiago, Chile, 22/09/1973.

Estimativas apontam mais de 300 mortos no local. “As violações aos direitos humanos cometidas

tes de partidos de esquerda e opositores do governo.

em Santiago, tornou-se uma espécie de prisão para mais de 40 mil militan-

mo, uma lógica de competitividade, uma ideia de ‘cada

tido do que hoje parece ser um individualismo extre-

população e tem um efeito cultural muito forte no sen-

“Há uma mudança muito intensa que afeta a

de

presos políticos, o Está-

número

incapacidade de alocar tamanho

pois que a iniciativa privada demonstra incapa-

Segundo Riobo, o Estado, nessa perspers-

pectiva, só aparece como última possibilidade, de-

primeiros

meses do regime, pela

Nos

como algumas de suas marcas mais fortes.

um Estado social e democrático”, diz Gutierrez.

nova Constituição são que o Estado volte a ser

reitos individuais como a propriedade privada. As demandas principais em relação a uma

gusto Pinochet teve a

tiu direitos sociais para a população, apenas di-

“A Constituição pinochetista não garan-

dias, a ditadura de Au-

Desde seus primeiros

Memória e história

zados em áreas como saúde, educação e previdência.

o que torna o país dependente de serviços privati-

áreas que podem ser geridas pela iniciativa privada,

exemplo, diz que não é papel do Estado atuar em

de Castro, que ocupou

O artigo 19 da Constituição chilena, por

subsidiário.

1975 e 1977, e Sergio

ças de Pinochrt enre

essenciais, além de ter como princípio um Estado

combate à exclusão no país e o acesso a serviços

memórias do Chile

Acervo IMS/Coleção Evandro Teixeira


Museo de la Memoria y los Derechos Humanos

6

BABEL | Dezembro 2023

memórias do Chile

concretas no dia a dia da nação, uma vez que a Cons-

titucionais com os setores que estavam fora da insti-

rio neoliberal. Por outro lado, com o povo já denal, um novo “não” pode ser a gota d’água para o

— Tomas Moulian

tuições chilenas. “Hoje, o Chile é um país muito polarizado. Quando fui visitar o Museu da Soconstitucional. “Houve setores que viam a nova Cons-

“Ao mesmo tempo em que não há mui-

dura. Também há uma memória de preservação e que tenha um compromisso central com o res-

respeito aos direitos humanos”, explica Gutierrez.

BABEL | Dezembro 2023 7

da ditadura muito grande com pessoas mais velhas, militares. É nítida a luta de classes”, conclui.

descontentamento com o que sobrou da ditade, e que tenha um compromisso central com o

e democrático, que aceite e valorize a pluralida-

ta menção ao socialismo, fica no ar uma ideia de nova Constituição são que o Estado volte social

que homenageia Allende”, relembra Adir Mota. “As principais demandas em relação a uma

finalmente, essa parte do legado da ditadura para trás.

identificou como um por estar visitar um museu

‘eu sou militar, não falo com comunistas’. Ele me

ra]. Falando com um senhor, a resposta dele foi

tar para alguém [sobre sua percepção da ditadu-

lidariedade Salvador Allende, resolvi pergun-

Carta Magna substitua o texto atual – tentando deixar,

tares foram eleitos na expectativa de que uma nova

Desde o início de 2023, o Chile promove um novo processo constitucional. Dessa vez, 51 parlamen-

conseguindo convencer a população chilena de tal.”

tituição como a destruição do Chile, e eles acabaram

a ditadura insiste em cravar as garras nas insti-

Não há saída fácil. Meio século depois,

Frente Ampla e que influenciou a perda da proposta

Ele acredita que isso foi um erro político da

descarte completo de uma nova Constituição.

siludido em relação ao movimento constitucio-

estenderia a posição do país enquanto laborató-

ção, dado que, da maneira como está elaborada,

melhor alternativa a rejeição da nova Constitui-

para trás. Por um lado, a Frente Ampla vê como a

É nesse cenário agridoce que o Chile tenta deixar, ainda sem sucesso, o legado de Pinochet

mente se expressa nos aspectos da vida cotidiana.

tituição é um problema estrutural, e não necessaria-

“Considero o Chile atual uma produção do Chile ditatorial”

Isso amplia a ‘lógica identitária’ em vez de reduzi-la.”

setores mais à esquerda da perspectiva institucional.

tucionalidade de esquerda, o que acabou excluindo os

va atual é de que a decisão está impedindo melhorias

ocupa muito da rotina política do país. A perspecti-

opina Riobo. “Foi incapaz de articular os setores ins-

cumpriu um papel muito feliz naquele contexto”,

Cada vez mais, os chilenos veem a decisão

como um erro, especialmente porque o processo

composta sobretudo por partidos de esquerda] não

“A Frente Ampla [coligação política chilena,

da Constituição – muitas coisas estão incertas.”

ções de uma falta de rigor no trabalho de elaboração

mentos de redução de impostos, somados a acusa-

darista”, diz Riobo. “Há elementos religiosos, movi-

titucional, 33 membros são de partidos da direita. “Agora, o processo tem um caráter bastante parti-

Mas nem tudo são flores. No conselho cons-

peito aos direitos humanos”, explica Gutierrez.

voto, a desaprovação da Constituição foi quase um movimento de “vingança” contra o presidente.

tramento das fake news e à obrigatoriedade do

nômica que assolava o país. Isso somado ao alas-

vação popular, especialmente devido à crise eco-

contudo, Boric estava com quase 70% de desapro-

tituição foi apresentada em setembro de 2022,

ções presidenciais. Quando a proposta de Cons-


2

BABEL | Dezembro 2023

André Amorim [edição e diagramação]

omas Toscano [texto]

e libertadora

O épico de Derek Walcott busca pela identidade latino-americana numa jornada complexa

Omeros: cantando os ecos do Atlântico

cultura

Reprodução/Winslow Homer/Wikimedia

ma sutil, humano, que a todo tempo questiona suas próprias intenções: afinal, o que há em comum entre Grécia e Caribe? Há, em todos os versos, muito

O próprio autor não sabe por onde começar, então

apesar de ter sido colônia inglesa, carrega a mesma herança que todas as nações latino-americana. Como contar algo tão complexo, tão doído?

Babel | n‘ X | Dezembro 2023

A rivalidade entre os dois começa a amplifi-

ela, Aquiles corta Heitor com uma espada. Por ela, Heitor decide comprar uma van e abandonar a vida tradicional de pescador.

Helena. Poucos nomes moveram o mundo como esse. Em Omeros, a imagem da princesa de Tróia assombra duas outras figuras: a própria ilha e

a garçonete de um resort, outra Helena. Disputada por Aquiles e Heitor, a moça é o motor da narrativa, mas parece flutuar acima de qualquer conflito. Por

sem que soubessem descrevê-la. A obra versa sobre essas várias camadas de apagamento, ocorridas num só lugar. Desde as di-

vindades-árvores dos Aruacas e Caribes, até a “constelação apagada pela travessia” dos negros escravizados, arrastados para o Novo Mundo. Santa Lúcia,

entre tradição e modernidade, um britânico entra em cena. Ma-

reza com Coca-Colas, Bob Marley e Land Rovers. Nessa disputa

moderno brilha nos versos, misturando visões etéreas da natu-

algo nele esperando para ser desvendado. O estilo pós-

jor Plunkett, enquanto dirige uma Rover, relembra a Batalha dos Santos em que ingleses e franceses disputavam o controle da ilha, apelidada de “A Helena das Antílhas”.

O próprio autor não sabe por onde começar, então puxa tudo para dentro: os gregos, ingleses, africanos, indígenas, passado, presente e até si mesmo

amor pela ilha e um desejo de contar sua história como os grandes poetas do passado, como Homero. Ainda que comece confuso, agitado, há

conversa e despistando os turistas sedentos por fotos. Mesmo sem saber a origem de seus nomes, carregam consigo um peso antigo, histórico. Como se uma dor aguda os afligisse,

vida tradicional na ilha, pescando para sobreviver, divertindo-se nas rodas de

mericana: reencontrar sua identidade. A dupla vive uma

os personagens do poema seguem a busca central de qualquer nação latino-a-

dos heróis gregos? São o símbolo de uma guerra? Sem uma resposta clara,

Omeros, o épico de Derek Walcott, abre com essa cena quase mitológica e nos causa, já de cara, um estranhamento. Esses pescadores são reencarnações

quem caminha por sua terra natal. O autor constrói um mundo denso, pesado, mas que não deixa de ser lindo. Omeros é um poe-

nhas de Santa Lúcia. Os cedros, antes que contem o que sabem, se tornam canoas, feitas por dois jovens pescadores: Aquiles e Heitor.

que nos define? Qual é a essência latino-americana? Nossa língua, nosso continente… ou algo a mais? A resposta se esconde atrás das praias caribe-

nos, indígenas, passado, presente e até si mesmo. Em uma cena, narra as batalhas em Tróia. Na outra, reencontra-se com o fantasma de seu pai, com

“É

puxa tudo para dentro: os gregos, ingleses, africa-

cedros em canoas”. As árvores, pilares dos antigos deuses, vão ao chão e, em seu lugar, uma pergunta emerge das ondas: o que é

assim que, numa manhã, cortamos os

3


4

BABEL | Dezembro 2023

épico, não grego, mas caribenho. E, como todo bom épico, traz consigo a tragédia. Nunca deixando escapar de vista sua própria

Nesse vazio de resposta, porém, surge algo de novo. Sem negar a herança paradoxal de nossa história, Walcott parece ganhar coragem para cantar um

tuídas pelas andorinhas e lagartos. O poeta narra tempestades regidas por Zeus e Ogum, numa terra que não é nem Europa nem África, nem Aruaque.

rante todo o épico começam a se aquietar. As perguntas sem resposta: “Por que o livro chama Omeros? Por que são gregos, os pescadores?” perdem importância, substi-

tumes que carrega em sua rotina, danças e cerimônias que sempre fez sem saber bem o por quê. A miragem cessa, mas transforma o jovem pescador. As dezenas de camadas que se sobrepõem du-

nossas raízes. Para o autor, para Aquiles, para Santa Lúcia, para a América. Ali, num passado distante, o herói vê os cos-

deiro nome. Aquiles não sabe responder. Mas a sutileza do verso de Walcott carrega toda a importância desse momento, um reencontro impossível com

solado com a perda de sua Helena, navega em mar aberto até desmaiar. Acorda em um rio muito antigo, familiar. Afolabe, seu ancestral, pergunta seu verda-

outro lado do Atlântico. Dois negros pescadores chamam-se Aquiles e Heitor, mas de onde esses nomes vêm? Aquiles, de-

negros escravizados na travessia. Não só os épicos, como tudo: cultura, família, nome. Também perdidos estão os épicos indígenas  as lendas de um mundo enterradas, as lendas de outro mundo esquecidas do

Conhecemos os detalhes da Ilíada, o cavalo de Tróia, o calcanhar de Aquiles. Mas onde está o épico africano? Transmitido por cultura oral, arrancado dos

De onde viemos, nesse mundo?

na cultura latino-americana.

car os ecos da história, revelando um grande buraco

cultura

Mundo ressoam sobre as montanhas da “ilha com chifres”, mas, em contato com nossas origens, servem

na costa da Santa Lúcia, um novo épico é reescrito. O mar reconstrói sua história diariamente, permitindo sempre um recomeço melhor. Os ecos do Velho

colonização, uma reconquista de Helena. Algo, porém, une não só os latino-americanos, como os humanos: o mar. A cada onda que se quebra

emoções. Sabemos quem somos e sentimos quando algo nosso começa a mudar. Os turistas, fotografando a vida pacata de Aquiles, são o símbolo dessa nova

metáforas e comparações, libertando-se de definições exatas. Não sendo possível descrever em palavras a experiência latino-americana, o poeta a faz sentir em

incompleto. Mesmo tendo conquistado Helena, vê seu rival Aquiles encontrar paz de espírito, reconectando-se com sua herança ancestral. A narrativa vai aos poucos abandonando as

Reprodução/Got2Globe

relação com o lugar, o poeta narra um mundo em transformação. Para Heitor, a vida moderna o deixa

Não sendo possível descrever em palavras a experiência latino-americana, o poeta a faz sentir em emoções

BABEL | Dezembro 2023 5

Companhia das Letras Tradução: Paulo Vizioli

Derek Walcott 1990 440 páginas

Omeros Poesia Épica

pois das páginas densas, confusas, duras e poderosas, o livro termina de forma clara e sutil: “Nós vamos nos curar.”

conseguem descrever, vão aos poucos se fechando. Helena pode ser uma metáfora para a ilha, para o colonialismo, para Tróia… mas também pode ser apenas uma moça, uma jovem tentando sobreviver. De-

também como resistência para novos apagamentos. As feridas abertas, que os personagens não

Walcott é personagem e autor de Omeros, incapazes de se distanciar da história de sua terra natal.

kkkkkk


10 28

BABEL | Dezembro 2023

des Navegações, existiam pessoas responsáveis por

lio Goeldi, comenta que, no contexto das Gran-

ciência e pesquisador no Museu Paraense Emí-

O doutor Nelson Sanjad, historiador da

los europeus durante momentos de crise e de fome.

Na realidade, elas são plantas americanas, levadas pe-

nenhum desses ingredientes é endêmico da região.

da Itália sem um molho pomodoro? Acontece que

o que seria da Inglaterra sem o seu sh and chips ou

entre a parte das batatas e a parte dos tomates. A nal,

Existe um meme na internet que divide a Europa

Histórico

esse conhecimento não vale de nada sem compreender o peso dessa in uência. Os saberes indígenas foram e são essenciais na alimentação e medicina.

um país miscigenado, fruto da colonização portuguesa e com uma cultura que mescla as in uências europeias, africanas e indígenas. Mas

A

gente aprende desde cedo que o Brasil é

Pedro Ferreira [edição e diagramação]

Luiz Attié [texto]

plantas

indígena, seu cultivo da terra e seu consumo de

O que aprendemos da sabedoria tradicional

Presentes da terra

ciência

cana do tabaco ou de suas propriedades medicinais.

por exemplo, a cultura guarani se sobressai na região mesmo tendo havido diversas tentativas da colônia de apagá-la. “A língua guarani segue sendo falada nas casas. A cultura guarani está no nosso sangue”, a rma a professora do Instituto Superior Ateneo De Lengua y Cultura Guarani, Porfírio Orrego Invernizzi. Lá, as plantas medicinais e a “medicina alternativa”, como é chamada, são comuns e populares. O conhecimento tradicional se popularizou, chegou às cidades. Algumas plantas, que sequer

Esse julgamento, inclusive, ajudou a denir o que seria incentivado e o que seria demonizado. Foi assim que o uso de entorpecentes de uso ritualístico como a ayahuasca e a coca foi tão condenado, pela relação com a espiritualidade dos povos. O grande ponto fora da curva foi o tabaco que, de tão valorizado, se tornou commodity pelo seu valor agregado, mas em troca disso o que aconteceu foi o esvaziamento de seu signi cado. O advogado Konstantin Gerber pesquisou

tabaco caiu no gosto popular como fumo. “O taba-

Enquanto a ayahuasca é marginalizada, o

na forma de rapé, complementando a ritualística.

marca presença constante é o tabaco, muitas vezes

dicionais para cada povo. Contudo, uma planta que

feita a partir de um mix de ervas, com receitas tra-

secamente. A cerimônia da ayahuasca, comenta, é

Inicialmente, o uso dos dois aparece muito intrin-

entre a popularidade dele em oposição à ayahuasca.

ções. Sobre a questão do tabaco, ele traça um paralelo

plantas ritualísticas, bem como suas regulamenta-

BABEL | Dezembro 2023 29 11

— Txha

“A gente faz rapés de ervas verdes que servem para sinusite, rinite, um monte de coisa… A planta é vida. A planta é tudo para nós”

Por outro lado, nem tudo é esvaziamento. No Paraguai,

assimilar o que os colonizadores julgassem útil.

no doutorado o uso tradicional e contemporâneo de

Atualmente

plantas tinham para os povos originários a m de

nário, medicinal e até ritualístico que diferentes

atores entender as técnicas de manejo, uso culi-

cigarro) do uso tradicional. E isso é uma violação

A nal, a busca pelo “Novo Mundo” tinha

to tão forte que hoje pouco lembra a origem ameri-

sido proibido, tem uma total descaracterização (no

Eles estavam fazendo um ‘inventário do mundo’.”

ter cientí co do “descobrimento”. Era papel desses

pelas navegações. “O tabaco, ainda que não tenha

América do Sul, na América Central e até na Ásia.

do patrimônio cultural indígena.” Um esvaziamen-

se tornando produto comercializado e globalizado

foram pioneiros por catalogar a fauna e a ora na

nanceiro envolvido, além do cará-

pela inquisição”, comenta Gerber. Mas ele acabou

alto interesse

co, em contexto de rituais, também era perseguido

ora nativa e seus usos, assim como

a fauna, a geogra a e a cultura locais. “Os jesuítas

catalogar a


acontece é que esse composto é isolado e reconstruído em laboratório. Ou seja, a pesquisa feita a partir dessas plantas exige muito menos da matéria-prima. No papel, existem leis internacionais para proteger as comunidades tradicionais. Gerber explica que o Protocolo de Nagoia, acordo internacional a partir da Convenção de Diversidade Biológica, engloba uma repartição justa e equitativa dos benefícios decorrentes da utilização dos recursos genéticos dos conhecimentos tradicionais. Isso signi ca que os portadores desse conhecimento têm direito aos recursos e às tecnologias derivados de seus saberes. No Brasil, esse acordo é implementado a

são vendidas em mercados. Invernizzi comenta

que não é difícil descobrir por lá o que tomar para

cada mazela e os métodos para manejar essas ervas.

As propriedades das plantas seguem sen-

do discutidas em esfera global. No campo da

alimentação, os alimentos encontram novos modos

para serem comercializados, com pouco ou nenhum

retorno para as comunidades indígenas. O açaí, por

exemplo, já é um produto exportado e consumido

Europa afora. Ainda assim, a produção segue regio-

nal, o que não pode ser dito da indústria farmacêutica.

A ciência e a farmacologia já avançaram a ponto

de não precisarem mais das ervas em si para conseguir

12 30 BABEL | Dezembro 2023

para uso em tererê

Plantas medicinais típicas do Paraguai

o princípio ativo para um remédio. O que geralmente

tinham uma tradução do nome para o espanhol,

ciência

Créditos: Porfírio Orrego Invernizzi | Acervo pessoal

uma relação de troca entre o povo e a

entender o indígena como guardião desse conhecimento é também proteger a natureza. Validar sua experiência, compreender essa troca com a terra, do povo que está e esteve presente nela. E aprender com essa cosmovisão não é apenas uma questão social, mas de justiça climática com consequências globais.

acaso eu me perder numa mata, eu vou saber me alimentar porque eu sei ali o que eu não posso comer.” Raquel Tupinambá, acadêmica, ativista e agricultora, complementa sobre a relação do seu povo com as plantas e a natureza. “O que nós, povos indígenas, fazemos no território é a mais pura e avançada ciência.” Ela traz o exemplo da mandioca, objeto

* Colaboração: Instituto Iepé.

manejo com a terra e à relação com a natureza. É

BABEL | Dezembro 2023 31 13

oresta, e

do tratamento da planta. Também diz respeito ao

é vida. Você pode utilizar, você pode vestir. Se por

E é uma ciência que vai além

presente em sua vida. “Tudo a gente aproveita, tudo

tivo da terra sempre foi muito

— Txha

etnia tem sua cultura, e o uso desses saberes não pode

grados e não devem ser de conhecimento geral. Cada

deles. Raquel comenta que alguns preparos são sa-

tas vezes sequer são consultados sobre a divulgação

mais do que esvaziamento, os povos indígenas mui-

Mas o que acontece com esse saber é que,

e seleção de espécies com menores taxas de toxina.

para consumo, com processos para diferentes usos

e reaproveitar uma planta tóxica de modo seguro

indígenas encontraram tecnologias para aproveitar

de estudo de seu mestrado, e como as comunidades

“A natureza está perpassar o que é considerado te como a sua relação com suas correto para eles. É necessário, na nossa alma. sim, que os saberes indígenas raízes e com a natureza não se perdeu. Com diversos vasos es- Tem que usufruir possam contribuir com a ciênpalhados e um colar de sementes dela e tem que cia moderna, mas também não de açaí e o coquinho do dendê, se pode deixar de consultá-los e cultivar mais” ela conta que o contato e cultomar a palavra deles como nal.

te em São Paulo, mas é eviden-

na Bahia. Atualmente, ela é dona de um restauran-

Txha é indígena da região de Porto Seguro,

dela com o corpo, com o espírito e com a natureza.

ta, mas de como cultivá-la e compreender a relação

apenas sobre o conhecimento utilitarista da plan-

e a importância da cosmovisão desses povos. Não é

dígenas também batalham para divulgar a potência

E, além da defesa legal, as comunidades in-

essa repartição de benefícios”, a rma o advogado.

é instituir protocolos comunitários para que exista

partir da Lei da Biodiversidade. “O desa o agora


BABEL | Dezembro 2023

Ivan Conterno [diagramação]

Guilherme Caldas [texto]

Pouco conhecidos no Brasil, jovens rebeldes romperam com a indústria cultural Argentina e se tornaram gigantes incendiando a juventude do país vizinho no final do século 20

Mate, tango y rock n’ roll

cultura

Reprodução/Facundo Gaisler/Flickr

Fito Páez e Charly García, tocam juntos em apresentação em Buenos Aires de 2012

everywhere, que compõe o álbum Revolver).

rock argentino também. Tanto que o primeiro encontro dessas bandas é chamado de aquí y allá y en todas partes”. (Referência à música Here and there and

rior, inspira muito esses jovens, que ouvem e passam a também querer fazer uma música mais elaborada. Esse álbum dos Beatles é um ponto de virada pro

marco tanto para a banda inglesa como para a música. “A complexidade que os Beatles trouxeram em Revolver, quase abandonando a postura ante-

de de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Fanjul comenta, ainda, sobre a influência dos Beatles, que em 1965 divulgam o álbum Revolver, um

e divertimento, esses grupos investem em melodias mais elaboradas e letras com temas mais complexos”, explica o professor Adrian Pablo Fanjul, da Faculda-

os jovens argentinos eram melodias simples e envolventes e letras quase fúteis sobre temas como paixões

que fazer com os instrumentos. “O primordial desse movimento era a ideia de se fazer música para ouvir, e não para dançar. Então, se antes, o que embalava

Na periferia deste movimento, em bares e locais considerados alternativos, começam a se juntar jovens com ideias diferentes sobre música e sobre o

diais como os Beatles e outros sucessos locais dominavam as rádios em quase todo o mundo, com ritmos mais dançantes e festivos.

Gatos e Manal, nomes que pavimentaram o caminho para a música argentina do final do século 20. No início da década de 60, fenômenos mun-

C ou nenhum apreço pelo que ditava a indústria cultural reuniram jovens argentinos no final dos anos 60 em bandas como Almendra, Los

abelos compridos, barbas por fazer e pouco

BABEL | Dezembro 2023

con” Franscino, e a Sui Generis, criada por Charly García, músico de formação clássica.

primeiros anos, surgem grupos como Pescado Rabioso, criado por Spinetta em conjunto com o baterista Black Amaya e o baixista Osvaldo “Bo-

O início dos anos 70 é marcado pelo surgimento das bandas desse estilo que alimentaram como nunca o imaginário da juventude argentina. Nos

Depois dos pioneiros, a evolução

Os membros do Serú Girán saíram da Argentina porque não eram livres para criar tranquilamente no país

da popularidade desses grupos, outros jovens começam a ter a ideia de também formar uma banda.”

derado por Luis Alberto Spinetta. “Em 1969 já estão formadas as três bandas chamadas de pioneiras. A partir disso, com o aumento

gentina. São Los Gatos, formado por Litto Nebbia e Ciro Fogliatta; Manal, com Alejandro Medina, Cláudio Gabis e Javier Martínez, e Almendra, li-

grupos e solistas, mas três deles são considerados e cultuados como pioneiros do movimento na Ar-

A tríade pioneira Esse primeiro momento com a influência dos Beatles é marcado pela formação inicial de diversos


“Fito, assim como outros músicos, é fruto da chamada ‘nova trova rosarina’ que, vinda do interior, tem muita influência das bandas pioneiras,

O grupo punk Attaque 77 gravou uma versão de Fábrica, da Legião Urbana, no álbum Amén!

Trac Trac, lançada no álbum Os Grãos dos Paralamas do Sucesso, é uma versão de uma música do Fito Páez

BABEL | Dezembro 2023

agosto de 1995

De Música Ligera, do Soda Stereo, foi gravada pelos Paralamas do Sucesso no álbum Nove

julho de 1996

“Existem muitas áreas em que a produção cultural argentina é mais relevante internacionalmente do

um dos principais pontos que influencia a pouca penetração desses grupos por aqui é o tamanho da indústria musical no Brasil e na Argentina.

A relação com o Brasil Gigantes na Argentina, essas bandas não são tão conhecidas pelo público geral brasileiro Segundo Fanjul,

e é alavancado pela maior valorização dos artistas do país”, completa Fanjul.

setembro de 1991

“Não se pode dizer que estavam exilados no Brasil, mas os membros do Serú Girán saíram da Ar-

produção musical no país de tal forma que o Serú Girán, segundo grupo de Charly García, teve de ser formado em Búzios, no Rio de Janeiro.

a indústria cultural.”, comenta o professor. Fanjul analisa ainda que a repressão afetou o rock, deixando o ambiente pouco propício para a

verno e sobre a repressão nas músicas. No entanto, eles são muito políticos, falando sobre liberdade e com a própria atitude de romper com o que pregava

terior da Argentina, é criada a banda Staff, primeiro grupo relevante de Fito Páez, um dos maiores nomes da música no país.

com o rock não foi diferente, explica Fanjul. “Muita gente chama o rock argentino de apolítico, porque não falava explicitamente sobre o go-

de governos militares, marcados pela censura e repressão contra opositores, políticos e artistas. Nesse contexto, a prática de todas as artes fica mais difícil, e

Neste contexto de dificuldade para a música em Buenos Aires, é que em Rosario, cidade do in-

O rock e a ditadura Em 1975, é instaurada na Argentina uma sucessão

cenário em que estão inseridos causam um aumento muito grande do rock na Argentina.

flito contra os ingleses, as rádios argentinas pararam de tocar músicas em inglês e, assim, músicos do país passaram a ter mais relevância no cenário interno.

A transição para os anos 80, e a guerra das Malvinas, iniciada em 1982, é outro ponto importante na influência do rock no país. Durante o con-

antes. O fundamental dessa segunda onda é que influencia os mais jovens, que já não ouviam tanto as bandas da primeira geração. Esses dois nomes e o

mente no país. No Brasil, por serem argentinos, acabam se conhecendo, formando a banda e foram gravar o primeiro álbum em São Paulo.”

gentina porque não eram livres para criar tranquila-

fundamentais para o rock argentino. Spinetta pelo pioneirismo, e García por trazer ao cenário uma excentricidade, uma sordidez na letra que não era vista

“Tanto Spinetta quanto García são nomes

cultura

Viernes 3 AM, de Charly Garcia, recebeu uma versão dos Paralamas no álbum Hey Na Na

junho de 1998

Amigo, de Roberto e Erasmo Carlos, e Perfeição, da Legião, aparecem em Otras Canciones, do Attaque 77

BABEL | Dezembro 2023

A Sua Maneira, de Rosas e Vinho Tinto do Capital Inicial, é uma adaptação para De Música Ligera

maio de 2002

de Fito Páez, De Música Ligera, da Soda Stereo, e Viernes 3AM, do Serú Giran de Charly García.

algumas de nossas bandas, que regravaram com versões em português, como os Paralamas do Sucesso, que fizeram versões de músicas como Track-Track,

então é natural que seja menos ouvido.” Ainda que pouco conhecidas do público, as músicas argentinas não passaram despercebidas por

novembro de 1998

“Hoje, muitas vezes a gente aqui em São Paulo não sabe o que está acontecendo na cena de outros esta-

ministra um curso livre sobre a história do rock no século 20 da UFABC, a pouca penetração dessas bandas no Brasil deve-se também às dimensões do continente.

nacional porque têm mais fomento da indústria. Isso também ocorre com a música brasileira.” Para o professor Leonardo Freire de Mello, que

dos; na de outro país é ainda mais difícil. Hoje, que isso seria mais fácil, o rock está em muito menos evidência,

Juan Carlos “Mono” Fontana, na Casa de la Cultura del Fondo Nacional de las Artes, em Buenos Aires (2015)

que a brasileira. Literatura, quadrinhos e cinema são áreas que a Argentina tem muito mais sucesso inter-

Reprodução/Anita Kalikies/Ministerio de Cultura de la Nación (Argentina)


48

Aline Novakoski [edição e diagramação]

Luana Franzão [texto]

A aparições Marianas na América Latina

Entre a espada e a cruz

BABEL | Dezembro 2023

cultura

te em espanhol.

a rmou Martha Robles, que escreveu o capítulo “La Virgem Maria de Guadalupe y la Diosa Madre Tonantzin”, integrante da coletânea de artigos “Virgenes y Diosas de América Latina”, publicada originalmen-

também é símbolo da colonização do continente. “A virgem de Guadalupe é uma das respostas religiosas mais inteligentes da evangelização cultural”,

lupe, a padroeira do México e de toda a América Latina. Ela apareceu como símbo-

tornou símbolo político. O exemplo mais proeminente é Nossa Senhora de Guada-

de identidade dotadas de importância semelhante”. Em algumas regiões, a devoção à mãe do Cristo se

misericórdia”, e coletivamente, “um emblema de um povo desprovido de outras divisas

Babel |BABEL n‘ X | Dezembro 2023 | Dezembro 2023 349

no início do século 19, ela foi proclamada patro-

dos por revoluções. A devoção à Virgem do Carmo, de origem europeia, se espalhou pela América Espanhola durante o processo de colonização. No entanto, durante a luta pela independência chilena

dela na Cidade do México. Também no Chile, símbolos europeus e coloniais católicos foram retomados e ressigni ca-

lo em 1810, na luta pela independência do país, e em 1914, quando os zapatistas entram com a imagem

— Martha Robles

“A virgem de Guadalupe é uma das respostas religiosas mais inteligentes da evangelização cultural”

Ao mesmo tempo que Maria assume o papel da mãe de povos que sofrem e buscam o perpétuo socorro, ela

aparições associando características de seus crentes nos locais onde se mostrava a eles.

mou forma de protetora na região sul do continente americano, com cada uma de suas

está sua mãe”, disse apontando Maria a um de seus discípulos, narra o evangelho de João. A suposta virgem to-

sus a entrega-lá aos seus éis como gura materna, segundo as escrituras bíblicas: “Aí

foi levada a acreditar ser inevitável. Para Robles, o culto às aparições marianas na América Latina é dotado de uma “ambiguidade

enigmática”. No âmbito particular, a santa parece capaz de resolver as mazelas pessoais das famílias, em uma “devoção doméstica à sua

do globo. O continente americano concentra a maior proporção de católicos: são 64,1 éis por 100 habitantes, segundo o último Anuário Pontifício, divulgado

em outubro de 2023 pela Agência Fides, a agência de notícias do Vaticano. Teria sido o próprio Je-

“R

Segundo a autora, a imagem das padroeiras

serve de instrumento para gerar união nacional sob um símbolo aparentemente milagroso, a solução para um sofrimento coletivo que a América Latina

Igreja Católica à mãe de seu Messias, .Maria. Na América Latina, o clamor parece ressoar mais do que em qualquer outro canto

ogai por nós”, é o que pedem os éis da


BABEL | Dezembro 2023 50 48 BABEL | Dezembro 2023

de órfãos”.

mas também da política, economia e sociologia do sul latino. Nas palavras da pesquisadora Martha Robles, “é a gura feminina por excelência em uma terra

bolivianos e peruanos chegaram ao Rio de Janeiro no século 17, trazendo uma imagem de Maria – que acabou por nomear o bairro do calçadão. Maria faz parte não somente das orações,

de Copacabana. Seu nome não é estranho, é porque o bairro mais famoso do Brasil foi nomeado em homenagem à mesma aparição mariana. Comerciantes

dia em que a santa é celebrada nacionalmente, a la para vê-la chegou a exigir 40 minutos de espera. A santa padroeira da Bolívia é Nossa Senhora

xima de 35 mil éis. A imagem de Nossa Senhora Aparecida – a original, aquela encontrada no rio – ca exposta em um mosaico dourado reluzente. No

forma que mais de 100 mil romeiros passaram pela Basílica no feriado da Padroeira em 2023. Diversas missas foram realizadas, cada uma com lotação má-

os anos, perto do dia 12 de outubro, data dedicada à santa, multidões caminham até o santuário, ocupando as estradas, hotéis e comércio da região. Uma estimativa da instituição religiosa in-

“Negra feito o nosso povo”. Na região do Vale do Paraíba, a imagem de Maria movimenta a economia e o turismo. Todos

própria instituição. Aqueles que resgataram sua imagem, ao perceber a cor da pele de Aparecida, teriam comentado:

águas do Rio Paraíba do Sul – estátua esta que reside no Santuário Nacional Aparecida, o maior templo no mundo dedicado a Maria, segundo informações da

No Brasil, a aparição de Nossa Senhora Aparecida ajudou a criar uma identidade católica nacional. Dois pescadores teriam tirado a imagem das

na do exército andino. Na versão latina, a Virgem do Carmo ganhou uma cruz de Maipu, símbolo do povo chileno.

Cultura cultura cultura

BABEL | Dezembro 2023 49


Cartões postais e porta-retratos

M

2

BABEL | Dezembro 2023

O sul gelado da Argentina me lembra o solo dominicano: a mesma intensidade da beleza das paisagens,

Bariloche, Argentina

zonte do lugar onde nasceu, com silenciosa veneração.

incentiva a um público desinteressado, durante uma atividade em alto mar. Ninguém parece ouvir. Ele desiste e passa, sozinho, a admirar as águas claras e o hori-

descolado do país que eu pensava que iria desbravar. Conheço um guia nativo. Ele se irrita com a onipresença dos celulares entre os turistas. “Disfruta!”,

Ouço mais inglês que espanhol. Nada ouço sobre os povos locais. Uma apresentação caricata de merengue é o único contato com a cultura dali. Aquele pequeno paraíso tropical parece um planeta à parte,

nicanos nas praias ou nos passeios. No hotel, encontro-os sempre nos mesmos locais: atendendo na recepção, servindo comida, limpando quartos.

pactante. Mas algo na paisagem humana quebra minhas expectativas. Brancos americanos e europeus circulam aos montes, mas não vejo domi-

frio na barriga de sua primeira viagem internacional, com quase 60 anos. A natureza é de uma exuberância im-

eus pés pisam o litoral da República Dominicana. Minha mãe esconde o

com os cabelos ao vento, a alguns anos dali  forte, imponente, tomando para si o que sempre foi seu.

está prestes a realizar o sonho de aprender a esquiar também. Ela cresceu entre as montanhas, mas nunca pôde frequentá-las. Eu a imagino deslizando na neve

nevadas. Acesso e equipamentos são cobrados. Um motorista de van de turistas que vive há gerações na cidade me conta que a filha, de oito anos,

Crianças turistas muito jovens, quase bebês ainda, muito ricas e muito brancas aprendem a esquiar com aulas particulares nas montanhas

Ouço mais inglês que espanhol. Nada ouço sobre os povos locais

tos programados para a semana. Nenhum. A ordem imposta só é subvertida por uma pichação numa rua escondida: “Liberdade às presas políticas mapuche!”

alemães, ali estão também – sempre servindo, cozinhando, limpando e atendendo. A história deles não faz parte de nenhum dos muitos locais e even-

o espanhol. Os descendentes dos povos mapuche, com a pele bronzeada que destoa dos bisnetos de

Ana Luiza Cardozo [edição e diagramação]

Suzana Petropouleas [texto]

em comum: o apagamento do povo latino-americano

Um passeio por República Dominicana, Patagônia, Estados Unidos e Brasil revela algo

crônica

cima a baixo e diz, contrariado: “ e female is ok”. Mas não podemos entrar, afirma em seguida. A desculpa é a jaqueta esportiva do meu acompanhante. Na cidade de Martin Luther King Jr., a ten-

gue. Outras tentam me atender em espanhol. Na porta da balada com um amigo, também inegavelmente latino, um funcionário nos mede de

gavelmente latina. Chola. Os nós das minhas mãos sangram com a falta de luvas adequadas para o frio. No shopping, uma vendedora me se-

ra da universidade. “Fica tranquila. É dos mexicanos que não gostamos”, diz uma mãe de família. No Brasil, sou branca. Ali, latina. Ine-

Na rua em que me hospedo, sou a única pessoa de cabelos castanhos. “Muitos aqui nunca viram alguém como você”, diz uma professo-

Minha família teme. “Minha mãe diz que sou um pássaro / mas quando diz isso, ela quer dizer que o mundo inteiro é minha gaiola”. Penso nesses versos de Sabrina Benaim quando lembro dessa época.

do da pobreza há muitas décadas antes, fui a primeira da família a deixar o Brasil. Depois de muitos “nãos”, finalmente, uma bolsa de estudos.

Tennessee e Georgia, EUA O frio dos Andes me faz recordar do norte da América. Depois de avós que emigraram fugin-

Suzana Petropouleas, Revista Babel

BABEL | Dezembro 2023 3

vindicar São Paulo como minha. Inegavelmente latina. A cidade nunca me pareceu mais bonita.

Da indignação das presas mapuche respingando em tinta spray pelas paredes da cidade que foi primeiro delas. E das raízes que me permitem rei-

Mas então me lembro do guia dominicano apreciando a paisagem de onde nasceu. Da menina argentina desbravando suas montanhas.

é minha gaiola”. Percebo que nunca conheci alguns dos principais museus da minha cidade. Eles já.

mão, gentil e condescendente, afirma que seu povo é mais inclinado à organização, lógica e pontualidade. “Minha mãe diz que sou um passarinho / mas quando diz isso, ela quer dizer que o mundo inteiro

São Paulo, Brasil Um inglês me diz na Av. Paulista que o clima faz dos brasileiros menos propícios ao trabalho. Um ale-

uma revista agressiva no aeroporto. Não fala inglês. Parda. Inegavelmente latina, ela também.

va altiva e curiosa. Ela parece saber algo que não sei. Volto ao país com minha família anos depois. Minha mãe chora ao ser escolhida para

são racial é palpável. Num culto tradicional, uma elegante moça negra, com chapéu fascinator, me obser-


essa população”, explica Benedito. O ritmo, nesses mais de cinquenta anos no estado do Maranhão, ganhou vida própria e várias

2

BABEL | Dezembro 2023

além dos três grandes cantores, segundo o pesquisador. As músicas que faziam sucesso na região nos anos 70 eram só de artistas jamaicanos, can-

ley, Peter Tosh ou Jimmy Cliff? Eles, são alguns dos maiores nomes do reggae no mundo todo. Mas, para uma parte da população de São Luís, o ritmo vai muito

colheu São Luís do Maranhão como lar, se interessou em estudar o reggae em 1985. Quem nunca ouviu uma música do Bob Mar-

nhecido como DJ Reis Show e morador de São Luís, o reggae maranhense é uma forma de identificação entre quem escuta as músicas: “A letra é contagiante, român-

artistas da região que criam os chamados “melôs”, as músicas de reggae típicas do estado. Para José Reis de Souza, produtor de melôs co-

características particulares do reggae maranhense – não é à toa que São Luís recebeu o título de capital do reggae no Brasil. Hoje, existe uma infinidade de

palafitas da cidade de São Luís: “Ali o reggae começou a ser frequentado nos chamados barracões, tornando-se o principal elemento de lazer para

compreende, esteja tão fortemente presente em seus cotidianos”. Foi assim que Carlos Benedito, pesquisador natural de Campinas, em São Paulo, e que es-

ranhenses por volta de 1970. “Chamou a minha atenção que um ritmo cantado em um idioma que a maioria das pessoas não

para chamar a atenção das pessoas. O gingado do reggae se constituiu como um veículo de forte mobilização e identificação da população negra e de baixa renda que habitava as

tadas em inglês. Mas isso não foi um impeditivo

14.668, que concede à cidade de São Luís, no Maranhão, o título de Capital Nacional do Reggae. O ritmo, que surgiu no final da década de 60 na Jamaica, conquistou os ouvidos dos ma-

m setembro de 2023, foi sancionada a lei

E

Carlos Eduardo Everton [edição e diagramação]

Giovanna de Oliveira e Julia Mantuani [texto]

americano de resistência e identidades

representam mais do que um ritmo de música, são um símbolo latino-

Os melôs, a dança agarradinha e os clubes de reggae no Maranhão

A revolução cultural do reggae maranhense

cultura

marca de 1,5 milhão de visualizações. Além dos melôs, outra parti-

A banda surgiu em 1985 e o sucesso é tanto que, em um vídeo de um show ao vivo do grupo, publicado em um site de vídeos ano passado, ultrapassou a

Um grupo de reggae que nasceu na Ilha do Amor e ganhou todo o Brasil, por exemplo, foi a Tribo de Jah.

fã do reggae maranhense. Ela defende que o que chama a atenção no reggae são as lutas pelo amor, paz e luz.

caso de Cristiane Lima da Silva, que prefere ser chamada de Estrela. Moradora de Salvador, na Bahia, e grande

exclusivo das fronteiras do estado do Maranhão. As músicas alcançam várias outras partes do país, como é o

tica, sofredora… fala da nossa vida”. O ritmo “regueiro” não é algo

No Maranhão, o reggae se dança a dois

BABEL | Dezembro 2023 3

Maranhão? A verdade é que ninguém sabe ao certo como o ritmo conquis-

Os caminhos do reggae até o Maranhão Mas, afinal, como o reggae chegou no

de lazer e uma manifestação cultural bem expressiva na região, trata-se também de uma estratégia de resistência.

exclusão que a escravidão impôs e os processos da modernidade sustentam”. Ou seja, além de ser uma forma

sensualidade inscrita na tradição da herança cultural dos corpos negros livres, de homens e mulheres denunciando a

no Maranhão, o reggae se dança a dois, “agarradinho”. O pesquisador Carlos Benedito explica que “isso reflete determinada

cularidade é que, diferentemente do habitual em outros lugares do mundo,

Cortesia/Ingrid Barros


Cortesia/Ingrid Barros

6

BABEL | Dezembro 2023

cultura

BABEL | Dezembro 2023 7

mericana e ecoa pelos corações da Jamaica brasileira.

cia e reforça as origens da população local. Ao som dos melôs e da dança agarradinha, o reggae ressoa como um poderoso símbolo de resistência latino-a-

Portanto, nessa jornada, o reggae maranhense se revela mais do que uma manifestação artística: é uma força que conecta São Luís à sua própria essên-

de pessoas vivem da renda gerada por meio das músicas, como é o caso do DJ Reis Show, dos clubes de reggae e do turismo de quem visita a cidade para conhecer, de perto, o ritmo.

sitaram o lugar e cinquenta mil delas eram turistas. Ou seja, o reggae também é uma forma de movimentação da economia de São Luís. Milhares

uma forma de aquecer o turismo da região e, consequentemente, gerar renda. Entre 2018 e 2020, nos dois primeiros anos do museu, 120 mil pessoas vi-

des do gênero, discos raros e as transformações da moda reggae ao longo do tempo. O espaço de manifestação cultural é, também,

do Reggae, na cidade de São Luís. No acervo do museu há vídeos e fotos históricas, depoimentos gravados com personalida-

Nos últimos anos, o ritmo tem alcançado algumas conquistas importantes para manter a história do reggae no estado maranhense e em todo o Brasil. Em 2018, foi inaugurado o Museu

bolo vibrante de resistência. Nas palafitas e vielas, o reggae se tornou o grito de uma população negra de baixa renda, resistindo à marginalização imposta.

Símbolo de resistência latino-americana O reggae na Jamaica brasileira, portanto, é muito mais do que apenas um gênero musical, é um sím-


2

tiana. A legitimidade dada pelo apoio do primei-

volvimento por intervenções similares articuladas

posições sobre Cuba e Venezuela, e as críticas bem colocadas ao genocídio promovido pelo estado de

na Faso, Bangladesh. A periferia do capitalismo.

dense durante a Guerra Fria. A aproximação ideológica do Pentágono com a Forças Armadas brasi-

mesmos no comando no último século. que precisa da miséria do sul global para se sustentar, alimentar seu aparato bélico terrorista e gerar

íses do centro do capitalismo, mas de buscar vanta-

dado na ditadura militar foi que o Brasil abandona-

econômica a ser exercida na América Latina.

sionistas dos generais não se concretizaram,

retamente no golpe militar de 1971 na Bo-

ti (Minustah) entre 2004 e 2017. De acordo com

essencial para garantir a aprovação, evitando vetos

Além disso, a expectativa é que o governo

BABEL | Dezembro 2023

da China ou da Rússia.

informações da BBC, a articulação brasileira foi

mas o governo brasileiro chegou a atuar di-

A maior parte das ambições expan-

nopólio de dominação geopolítica, diplomática e

trabalho comandado pelo Brasil durante a Missão

das Nações Unidas para a Estabilização do Hai-

ria a política externa independente dos anos Jango e seria submisso aos EUA - em troca, receberia o mo-

dominado pelo capital estrangeiro. O pacto consoli-

nova intervenção militar no Haiti, dessa

cional pautado não em superar a dependência de pa-

Colaboração: Hugo Mota Pinheiro

multinacionais parasitas.

mão de obra barata para ser explorada por suas

foi o mesmo de sempre: o império estadunidense,

nesse lugar.

Babel | n‘ X | Dezembro 2023

3

Mesmo assim, o Brasil se coloca de novo

mos da política global para nenhum país que não os para o mercado brasileiro, mas o maior beneficiário

Em linhas gerais, se trata de um projeto na-

Mauro Marini* descreve como subimperialismo.

ONU. Sim, ocupar a ilha abriu uma nova frente

e norte-americana não vai dar controle sobre os ru-

África para engordar o lucro da burguesia europeia

dado para o Brasil se provar digno da tão sonhada

cadeira permanente no Conselho de Segurança da

1964 e usou a ditadura para inserir o Brasil na divisão internacional a partir da lógica daquilo que Ruy

Mas se tornar parte da máquina mortífe-

ra que oprime os povos da América Latina, Ásia e

o sociólogo haitiano Franck Seguy**, como o teste

leiras gerou a elite militar que executou o golpe de

EUA em 2004 — é interpretado por muitos, como

Bolívia, Uruguai, Paraguai, Chile, Senegal, Burki-

ao Haiti, —após o golpe militar promovido pelos

O comando da operação que levou o Brasil

o Brasil, agora o Quênia, e outros como Argentina,

está profundamente ligada à intervenção estaduni-

Israel), mas evitando hostilizar demais o Ocidente.

países cujas tropas ocuparam o Haiti não foram EUA, Reino Unido, Alemanha ou França. Foram

Durante a maior parte do século XXI, os

e a prisão de Lula.

apoiar o golpe de 2016, ou a Lava Jato

Também não impediu os EUA de

Mas não rendeu cadeira na ONU.

Bolsonaro.

seram a cúpula do governo fascista de

e muitos outros golpistas que compu-

(primeiro coordenador da Minustah),

durante a missão), Augusto Heleno

A militarização da política externa brasileira

existia no país antes da operação).

gerais, foi, e é, de não submissão aos EUA (vide as

sexual e uma epidemia de cólera (doença que sequer

um rastro de massacres, centenas de casos de abuso

cia. A postura, em linhas

uma nova independên-

O preço foi pago, com sangue haitiano. E o que veio em troca?

nova missão será diferente da anterior, que deixou

pelos EUA, não dão nenhum indicativo de que a

neoliberal, a chegada de Lula à presidência traz

arrasado pelo colonialismo e mantido no subdesen-

marcado pelo consenso

período dos anos 80 e 90,

‘redemocratização’ e o

Após a chamada

no continente.

as combater as gangues que se multiplicam no país,

no assassinato de seu antecessor) sob a justificativa de que a operação é necessária para combater

to democraticamente e é suspeito de envolvimento

ro-ministro haitiano Ariel Henry (que não foi elei-

gens para a burguesia nacional dentro desse sistema

vez liderada pelo Quênia, uma continuidade do

O

de nomes como Tarcísio de Freitas (chefe da seção técnica da Companhia de Engenharia do Brasil

e Médici assinou tratados que permitiram às empresas brasileiras operar nas colônias portuguesas

deral no Rio de Janeiro e para catapultar a carreira

treinar militares que atuaram na Intervenção Fe-

apoiou a manutenção colonial de Salazar na África

país a baixo custo. A embaixada brasileira também

tribuir com o treinamento da Polícia Nacional Hai-

Rio de Janeiro atuando no país caribenho para con-

o que veio em troca? Bem, a Minustah serviu para

O preço foi pago, com sangue haitiano. E

plorar petróleo, gás e certos tipos de minérios do

lívia e fechou acordos com o novo regime para ex-

lhão de Operações Especiais da Polícia Militar do

brasileiro use a experiência de forças como o Bata-

Conselho de Segurança da ONU apro-

vou no dia 02 de outubro de 2023 uma

Sebastião Moura [texto] Alessandra Barrozo [edição e diagramação]

do Brasil no Sul Global

reacende o questionamento de qual deve ser o papel

Participação em nova operação militar no Haiti

A terceirização do imperialismo

política

Bruno Kristo er/Revista Babel


sociedade

Frutos secos: a juventude deprimida da América Latina Altos índices de vitimização juvenil estão relacionados a desigualdades econômicas e questões sociais, como racismo, homofobia e outros preconceitos

Juliana Matias [texto] Bruno Kristoffer [arte]

E

Arthur Macedo [edição e diagramação]

ntre os dez países do mundo com maiores índices de vitimização juvenil, sete são da América Latina (Nicarágua, Paraguai, Guatemala, Colômbia, Equador, El Salvador e Argentina). Os índices de autolesão entre jovens brasileiros, na faixa etária de 15 a 19 anos, aumentaram em 740% em dez anos, segundo dados

do Datasus (base de dados do Sistema Único de Saúde do Brasil). Especialistas explicam que o número está ligado

a desigualdades econômicas e sociais, como, por exemplo, problemas familiares e preconceitos de raça e sexualidade.

62

BABEL | Dezembro 2023


Em 2023, a Organização Pan-Americana da

Em primeiro lugar no ranking está a Guiana,

Saúde (OPAS) declarou que as Américas são a úni-

onde 44,2 pessoas em 100 mil se mataram em 2020,

em que as taxas de suicídio têm aumentado. De acordo com o relatório “Depressão e outros transtornos

dio foi a principal causa de morte entre os guianenses com idade entre 15 e 24 anos.

ca região da Organização Mundial da Saúde (OMS)

mentais”, da OMS, o Brasil é o país mais depressivo

segundo dados da OMS. Entre 2006 e 2008, o suicí-

da América Latina.

Raízes

mostram que o índice de violência autoprovocada

boratório de Neurociência Cognitiva e Social da

Dados do Ministério da Saúde brasileiro

Helen Mavichian, psicóloga e pesquisadora do La-

aumentou em todas as faixas etárias, principalmente

Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que,

em adolescentes e jovens. A violência autoprovocada compreende a ideação suicida, autoagressões, tentativas de suicídio e suicídios.

Em 2012, foram

notificadas 3.864 autolesões na população entre 15 e 19 anos. Em 2022, na mesma

faixa etária, foram registradas 32.462 violências autoprovocadas, um aumento de

7

apesar de a pandemia de Covid-19 ter agravado muitos problemas de saúde mental, “é preciso considerar outros fatores já existentes que transcendem os últimos acontecimentos decor-

países latino-americanos no top 10 mundial de vitimização juvenil

740% em dez anos.

rentes da pandemia”.

A psicóloga entende

que a piora da saúde mental de adolescentes e jovens

pode estar relacionada a problemas na estrutura familiar, como pais divorcia-

Na população de 20 a 29 anos, foi registrado

dos, dificuldades financeiras, o relacionamento dos

ções passaram de 5.843 em 2012 para 44.878 em 2022.

“Problemas de relacionamento entre os pais e os filhos podem impactar de forma brutal o emocional de crianças e adolescentes”, explica Helen. “Conflitos

um aumento de 668% no mesmo período. As notifica-

Nas faixas etárias de 30 a 39, 40 a 49, 50 a 59 e a partir de 60 anos, os aumentos de autolesões foram, respectivamente, 466%, 525%, 471% e 402%.

No Uruguai, a taxa de suicídio de jovens entre 15 e 19 anos aumentou em 45% em 2020 segundo relatório oficial divulgado em julho de 2021. O país é

o terceiro da América Latina com a maior taxa de suicídios e o sexto com maior prevalência de depressão.

jovens com os pais, entre outros fatores.

constantes, abusos, negligência ou instabilidade no ambiente familiar podem influenciar no desenvolvimento de estresse, ansiedade, depressão, transtornos alimentares e problemas de comportamento”, acrescenta.

Mavichian ressalta que esses problemas psi-

quiátricos têm maior ocorrência em um ambiente

BABEL | Dezembro 2023 63


sociedade

familiar de pouco afeto e muito controle. São os pais que exercem, segundo a psicóloga, um papel fundamental

no progresso do tratamento de doenças psiquiátricas e no ambiente familiar do adolescente.

Segundo a OPAS, populações que vivem em

condições de vulnerabilidade devido a fatores como racismo, desigualdade social, LGBTfobia, estão entre as pessoas que correm maior risco de sofrer efeitos

adversos de saúde mental. “O preconceito pode causar estresse emocional, baixa autoestima e até mesmo

44,2

suicídios a cada 100 mil habitantes na Guiana, maior índice no mundo

trauma psicológico, resultando em sentimentos de isolamento, ansiedade e depressão”, diz Mavichian.

Para Caique Mendes, psicólogo pela Univer-

sidade Estadual Paulista e psicanalista clínico, é pre-

função), é uma reverberação negativa, podendo afetar

possuem com as questões de gênero, raça, sexuali-

A relação familiar dessas populações também

ciso pensar a relação que os indivíduos e a sociedade

autoestima, segurança pessoal, fobias.”

dade, entre outros. “Quando há [na sociedade] um

impacta o desenvolvimento positivo ou negativo dos problemas com a saúde mental. “Se for oferecido um

silenciamento dessas questões, ou ainda uma tratati-

va como algo supérfluo (o termo “mimimi” exerce essa

espaço de acolhimento e segurança para questões

pessoais, há maiores chances de um efeito positivo. Caso haja um ambiente inseguro ou que não fale dis-

so (o famoso ‘aceito, mas não quero isso dentro de casa’), gera efeitos de mal-estar”, explica Mendes.

Autolesões por jovens brasileiros entre 15 e 19 anos 35000 30000 25000

alta de

econômicas também estão relacionadas ao adoecimento mental. “O tempo é o principal ponto para

pensar essa questão. Uma pessoa em vulnerabilidade

740%

tem um tempo disponível, para além do trabalho, muito limitado. Quanto tempo de qualidade é possível ter com amigos e família? É possível conhecer lugares

20000

novos? Como a cidade oferta lazer gratuito para as

15000

pessoas? As periferias são pensadas nesta oferta?”,

10000 5000

Fonte: Ministério da Saúde do Brasil 2012

64

O psicólogo ainda afirma que as desigualdades

2013

2014

2015

2016

2017

BABEL | Dezembro 2023

2018

2019 2020 2021

2022

questiona o psicólogo e continua: “Quanto maior a vulnerabilidade, geralmente, maior é o tempo de espera para um tratamento, que às vezes nem mesmo é possível”.


O deserto Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde, quase 90% das pessoas afetadas por algum

transtorno mental não recebem o tratamento necessário. Em 2020, o financiamento governamental médio

para a saúde mental representava apenas 3% dos gastos totais em saúde no continente americano.

Dados da OPAS ainda mostram que meta-

A América é a única região da OMS no planeta que apresenta alta em taxa de suicídos

de dos fundos destinados à saúde mental foram alocados em hospitais psiquiátricos, que podem estar associados

a piores desfechos de tratamento e a violações de direitos humanos. Os recursos para a saúde mental também são escassos, com a maioria concentrada nas áreas urbanas.

A organização ainda mostrou que as áreas

ambulatoriais, de coleta e a notificação de dados so-

bre saúde mental e redução de suicídios estão mais despreparadas. Em muitos países, os hospitais especializados concentrados em áreas altamente povoadas

continuam sendo o principal tipo de serviço de saúde mental prestado.

A Nova Agenda de Saúde Mental para as

Américas, da OPAS, recomenda elevar a questão da saúde mental em nível nacional e supranacional e defini-la como prioridade de desenvolvimento. Também

aconselha integrá-la à atenção primária de saúde. A Agenda ainda sugere que deve ser adotada uma abor-

dagem transformativa das questões de gênero em prol da saúde mental e enfatiza a necessidade de combater o racismo sistêmico. •

Nova Agenda de Saúde Mental da OPAS - Elevar a questão da saúde mental em nível nacional e supranacional, definindo-a como prioridade de desenvolvimento nacional; - Integrar a saúde mental à atenção primária de saúde; - Adotar uma abordagem transformativa das questões de gênero; - Combater o racismo sistêmico.

BABEL | Dezembro 2023 65


Patrick Fuente [texto]

Não há crime, culpado ou pistas a serem encontradas na obra do autor chileno

solucionar mistérios

não está aqui para

Roberto Bolaño

cultura

Divulgação/Anna Oswaldo-Cruz Lehner

tardou em ganhar seu próprio programa em 1973.

detetive intelectual, austero à sociedade e paralelamente uma extensão da

metrópoles dos Estados Unidos, quem seria o campeão daqueles ignorados

aos valores dessa sociedade.

coração é o brasão dele, pois é seu maior poder, um coração de ouro”, afirma

autores que subverteram a literatura. Então, ela já nasceu na subversão”,

afirma a doutoranda no Programa Língua e Literatura Românica na Uni-

O efeito de Chapulín está presente até hoje na cultura pop, a mais recente em Besouro Azul, primeiro filme da DC a ser protagonizado por um super-herói latino-americano. Nele, o Polegar Vermelho aparece contracenando com o protagonista do filme na cena pós-créditos, como uma homenagem ao primeiro super-herói latino-americano, meio século depois de sua criação.

“O romance de Bolaño é todo sobre luto. Você só sabe que está lendo

a respeito da morte ao terminar de ler o romance inteiro. Ele te convida a

entrar nesse momento do crime, do horror, através do luto e não através da

racionalidade”, conclui Parrine.

grandes terras tupiniquins.

do programa rapidamente das encostas de Serra Madre até os confins destas

por conseguir aproveitar o boom das fitas cassetes que permitiu a distribuição

O alcance que teve a criação de Bolaños também teve uma pitada de sorte,

extremo horror e do que a humanidade é capaz de fazer um com o outro.

transformar sua própria história em narrativa racional ao ver um mundo de

É nessa confusão que a palavra do autor ganha força e beleza, ao não

estrutura ou buscam respostas às perguntas criadas por ele mesmo.

protagonista de suas narrativas que, por sua vez, também não seguem uma

é “Time is money!”.

Sam, paródia do tão famigerado sonho americano e cuja frase mais icônica

bárie que investiga e é guiado pelos seus instintos. Um detetive selvagem.

É essa figura quase bestial de tanta humanidade que Bolaño usa como

De acordo com Aguasaco, as virtudes do herói ficam explícitas quando comparadas à única figura heroica que dividiu tela com Chapolin, o Super

que faz parte. Ele não deixa de ser um ator da civilização, faz parte da bar-

dade de Nova York, Carlos Aguasaco.

ou um intelectual. Ele é incapaz de juntar as peças do quebra-cabeça de

De acordo com Parrine, o detetive de Bolaño não é um intérprete da lei

o professor de estudos culturais latino-americanos na Universidade da Ci-

se importa em ajudar quem precisa, sem distinção; não é sem motivo que o

e, olhando para a origem da literatura policial, ela vem de uma tradição de

versidade do Michigan, Raquel Vieira Parrine.

“O Chapolin é um símbolo dos esquecidos. Ele pode não ser o melhor ou mais forte, mas ele está ali por você no momento de necessidade, porque ele

mas de conhecimento, de pensar, de escrever, que não sejam institucionais

ao sul do continente americano?

super-heróis viviam a glória da “era de prata” dos quadrinhos nas grandes

Bolaño, era definitivamente irresistível usar essas narrativas como antítese

“A atração de Bolaño com esse gênero tem muito a ver com outras for-

ao abandono sofrido pelo povo latino-americano. Em um mundo em que

Para alguém que despreza as instituições literárias e acadêmicas como

A criação de Bolaños é uma paródia e, ao mesmo tempo, uma resposta

quetes do Chespirito, em 1970, e foi tão bem aceito pela audiência que não

tação dada à literatura policial na cultura pop, com figura elementar do

lei e leal ao sistema de vigiar e punir.

laños, o Chapolin Colorado. O personagem estreou no programa de es-

Essa é a virtude primordial da criação do mexicano Roberto Gómez Bo-

O que é necessário para adentrar os rincões da América Latina onde

nem mesmo um homem de aço tem coragem de adentrar? Astúcia.

Formulaica, genérica, repetitiva, popular e pouco acadêmica é a repu-

Roberto Bolaño, nenhuma das duas respostas é uma alternativa válida.

Qual o papel do detetive na literatura? Solucionar mistérios ou ser

racional e achar sentido na barbárie de um crime? Para o escritor chileno

Não contavam

cultura

Roberto Bolaños

com a astúcia de

BABEL | Dezembro 2023

diagramação]

5

Raquel França [edição e

Patrick Fuentes [texto]

Com uma marreta biônica, anteninhas de vinil e ferramentas inusitadas, o Chapolin é um símbolo de heroísmo à moda latino-americana

Reprodução/TVyNovelas / Editorial Televisa


realeza

A fotografia perdida de Spiro California, rei romani do Chile O retrato da realeza cigana foi tirada nas viagens de um repórter do Washington Post na América Latina e traz consigo uma história esquecida pelo tempo Henrique Araújo [texto] Patrick Fuentes [diagramação]

N ta

para

ascido no Bronx em 1933 e repór-

A disputa entre os grupos de Augusto Nico-

ter na América Latina há mais de

vich e Spiro California, quando ambos se procla-

duas

Nicovich jurava que nunca se assentaria à matéria:

seis

décadas, Norman fotografias

de

Gall

sua

apon-

autoria,

expostas no alto da parede de sua sala de leitura. “Este homem se chamava Spiro California, e foi o

rei dos ciganos no Chile. A mulher era sua esposa, chamada Rosa Pontich, eles vieram da Iugoslávia.”

O casal romani fotografado em 1964 pos-

sui um semblante semelhante entre si. Rosa aparece ao redor de uma peça de tecido branca acima de seu vestido florido [ver página 71], combinando

com o chapéu branco e a gravata com padrões de folhas usada por seu marido Spiro, que olha com

seriedade para a câmera e exibe o característico maço de cigarros no bolso esquerdo da camisa.

A fotografia não foi planejada, Norman

era correspondente especial do Washington Post na época, cobria a posse do ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva e se locomovia com um táxi

pelo país: “eu tive um orçamento do Washington Post,

mavam rei dos romanis chilenos. Ao mesmo tempo. “eu nasci numa tenda e morrerei numa tenda, há

muita liberdade no Chile e somos amigos da polícia. Não queremos que nossas mulheres vistam ves-

tidos comuns. Gostamos da estrada e das tendas.”

“Eu nasci numa tenda e morrerei numa tenda, há muita liberdade no Chile e somos amigos da polícia” - Augusto Nicovich Ele contava para Norman enquanto mostrava

não era generoso, mas me permitiu contratar um táxi,

orgulhosamente sua certidão de cidadania chilena

Na beira da rodovia Pan-Americana ele para

armas. Já Spiro California vivia próximo ao

tanto as fotografias e uma matéria, publicada em

sas de alvenaria. Ele era herdeiro de Francisco

e acabei encontrando este acampamento por acaso, totalmente por acaso”. e conversar com o grupo. Desse encontro, surgiram dezembro de 1964, intitulada “Rei dos ciganos do

Chile promete nunca desistir de sua vida nômade.” 2

BABEL | Dezembro 2023

e uma espécie de certificado que o permitia portar

acampamento, mas num agrupamento de caCalifornia, que havia falecido em 1957 e dei-

xado seu título de rei reconhecido dos romanis.


Reprodução/Acervo Pessoal - Norman Gall

realeza

Spiro California, de chapéu branco e a gravata com padrões de folhas e o característico maço de cigarros no bolso esquerdo da camisa. BabelBABEL | n‘ X | Dezembro 2023 693


realeza “Eu sou o Rei dos ciganos no Chile,” contava para Norman: “Há muitos chefes de

Após a publicação da matéria, muitos artigos e livros citam Spiro California, como o autor Ozren

bo nenhum dinheiro dos ciganos para guiá-los,

tro com Tereza “Comentaram que a sua tribo era da

famílias, mas apenas um rei. Eu não receapenas ajo como juiz entre eles e intervenho por

eles com as autoridades, pois tenho conexões”. Spiro dizia ser amigo de Eduardo Frei,

que tinha acabado de ser eleito presidente do Chile:

“Nas eleições de setembro, os ciganos

apoiaram Frei. Eu consegui 2210 votos para os Democratas Cristãos e fizemos uma caravana de 55 caminhões para eles. Somos democratas, e não

comunistas”. A matéria de Norman também relatava as esperanças de Spiro em aprimorar dos romanis: “Os ciganos deveriam deixar

a vida

nômade. Eu comprei três casas em Santiago e alguns

de meu povo entraram no comércio atacadista.” Nós queremos que nossas crianças estudem nas escolas, o único problema é que os garotos apa-

Agnic, que conta em um de seu livros do enconBósnia e Herzegovina, Iugoslávia. Uma delas era nin-

guém menos que a filha do rei dos ciganos do Chile, Spiro California. Ele me disse que seu pai, o Rei, sim-

patizava com a ideologia política de Salvador Allende

e que seria interessante que nos encontrássemos”.

“Há muitos chefes de famílias, mas apenas um rei. Eu não recebo nenhum dinheiro, [...] apenas ajo como juiz” - Spiro California Spiro também é citado no livro El Ultimo

nham quando ficam nas escolas públicas comuns. Eu acho que teremos que começar uma escola

Tango de Salvador Allende, de Roberto Ampue-

continuar na estrada”.

Parra, lembrado como o homem que comandou

especial para ciganos. Apenas os analfabetos querem A matéria de 1964, curiosamente, exibia apenas duas fotos: a de Augusto Nicovich e de Rosa Pontich, que não era mencionada na matéria, sem fotos de Spiro.

O jornal argentino La Nación, de maio de 1957,

contava mais do passado dessa disputa e a repercussão da morte de Francisco California, chamando-o de rei

ro, e em “Violeta Se Fue a los Cielos” de Ángel os romanis allendistas, indicando uma continuação de seus laços com políticos chilenos. Seu legado com

o povo romani no Chile é lembrado inclusive em

novelas como Romané, lançada em 2000, que trata-

va da cultura deste povo e tinha membros herdeiros da família California entre os personagens principais. Spiro California morreu em Julho de 1972.

dos ciganos da América Latina e a longa discussão

Houve três dias de velório e uma série de celebrações, um recorte de um jornal chileno desconhecido

Na época, Spiro tinha 45 anos e se en-

fais que Spiro deixou dezoito filhos e sessenta ne-

In cus, ad ullaccae

entre sua filha, Teresa California, e José Nicolich. contrava no Equador. José era um democrata cigano e inimigo da monarquia, enquanto Tere-

sa rebatia as críticas com as boas ações de seu pai.

4

BABEL | Dezembro 2023

dizia após o anúncio de sua morte em letras garratos, e sobre seu desejo de uma vida sedentária, dizia: “O fabuloso monarca Spiro California queria viver

em um chalé construído por suas próprias mãos”.


Reprodução/Acervo Pessoal - Norman Gall

realeza

Rosa Califórnia, de rosto coberto com uma peça de tecido branco acima de um vestido florido, combinando com o chapéu e a gravata usada por seu marido, Spiro. Babel BABEL | n‘ X| Dezembro | Dezembro2023 2023 71 5


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