6
ano onze | nº 62 | maio / junho 2018 R$ 10,00
AÇÃO | CIDADANIA | AMBIENTE w w w. p l u r a l e . c o m . b r
ARTIGOS INÉDITOS
FOTO DE FERNANDO FERNANDES – CÂNIONS DE CAPITÓLIO (MG) – SERRA DA CANASTRA
ESPECIAL ÁGUA, TECNOLOGIAS SUSTENTÁVEIS E BUDAPESTE
REFLORESTAMENTO NA SERRA DA CANASTRA
Entre tantas essĂŞncias que utilizamos, uma estĂĄ em tudo que fazemos: empreendedorismo.
Mesmo quando já éramos a maior franquia de beleza do Brasil, nós nos tornamos um grupo multimarca e multicanal que hoje é referência no país. Nossa essência empreendedora fala mais alto. Somos muito mais que a união de grandes marcas de sucesso. Somos um grupo com vocação para realizar. O Boticário; Eudora; quem disse, berenice? e The Beauty Box estão presentes em quatro mil pontos de venda próprios, e-commerce e venda direta. Com Multi B, ampliamos nossa presença para mais de 5 mil outros pontos de venda, como farmácias e lojas multimarcas. Crescemos o dobro da média do mercado de beleza, faturamos 12,3 bilhões de reais e já somos a 5ª maior rede de varejo do país. É assim, transformando oportunidades em negócios, que estamos escrevendo a nossa história. E ela está só no começo.
grupoboticario.com.br
8ª Fiema, por Maurette Brandt
38
VIVIAN SIMONATO
Contexto
54.
Especial Budapeste e Bratislava, por Vivian Simonato
16.
ARTIGOS INÉDITOS,
por Anatrícia Borges e Pedro Borges, Fábio Rocha e Luiz Antônio Gaulia GIULIANA PREZIOSI
44.
Mariana, para não esquecer, por Hélio Rocha GUILHERME DARDANHAN/ ALMG
Ecoturismo, por Isabella Araripe
50 Caldas da Imperatriz, por Nícia Ribas
52 Cinema verde, por Isabel Capaverde
62
26
Camareiras do Grupo AccorHotels visitam projeto de reflorestamento na Serra da Canastra, por Giuliana Preziosi
E ditorial FOTOS DE ARQUIVO PESSOAL
Plurale em ação (da esq para a dir): A jornalista Lou Fernandes participou do Fórum Mundial da Água, em Brasília, e entrevistou representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); a Colunista Plurale Giuliana Preziosi acompanhou camareiras da AccorHotels no reflorestamento em Capitólio, na Serra da Canastra (MG) e a nossa correspondente na Comunidade Europeia, Vivian Simonato, esteve na Budapeste (Hungria) e Bratislava (Eslováquia).
Serra da Canastra, Especial Água, Fiema 2018 e tecnologias sustentáveis, Hungria, artigos inéditos e muito mais Por Sônia Araripe, Editora de Plurale
A cada edição de Plurale procuramos trazer para os leitores um leque de diferentes matérias, artigos inéditos e fotos lindas e histórias de transformação. Acreditamos, como muitos, que tão somente pela via sustentável será possível chegar à tão sonhada economia de baixo carbono. Pessoas físicas, empresas e governos unidos em torno de ideias e ideais vencedoras e transformadoras. Giuliana Preziosi esteve em Capitólio, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, belíssima região de cânions, para acompanhar iniciativa
da AccorHotels de levar camareiras de hotéis para acompanhar e ajudar no reflorestamento. Um pouco antes, a repórter Lou Fernandes esteve em Brasília, acompanhando o Fórum Mundial da Água e conhecendo iniciativas vitoriosas de gestão da água. Ainda sobre a temática da água – sobre Oceanos Limpos - entrevistamos também a ativista Fê Cortez, Defensora dos Mares Limpos pela ONU Meio Ambiente, sobre importante Seminário realizado em Cancún, México. A jornalista Vivian Simonato – correspondente de Plurale na Comunidade Europeia – esteve nas históricas cidades
de Budapeste e Bratislava (na Hungria e Eslováquia). A Editora Luciana Tancredo foi a Fortaleza conhecer, nos arredores da capital cearense, unidade de produção de biometano a partir do lixo recolhido em aterro. Maurette Brandt foi até Bento Gonçalves (RS) conferir as mais novas tecnologias sustentáveis na 8ª Edição da Fiema. Não é só. Também trazemos artigos inéditos de Anatrícia Borges e Pedro Borges, Fábio Rocha e Luiz Antônio Gaulia. Tudo isso e muito mais. Como a Coluna Cinema Verde de Isabel Capaverde, e a Coluna Turismo Sustentável, de Isabella Araripe. Boa leitura!
5
Plurale em site: www.plurale.com.br Plurale em site no twitter e no facebook: http://twitter.com/pluraleemsite https://www.facebook.com/plurale Comercial comercial@plurale.com.br Arte Amaro Prado e Amaro Junior Fotografia Luciana Tancredo e Eny Miranda (Cia da Foto); Agência Brasil e Divulgação Colaboradores nacionais Ana Cecília Vidaurre, Hélio Rocha, Isabel Capaverde, Isabella Araripe, Lília Gianotti, Nícia Ribas e Paulo Lima. Colaboradores internacionais Aline Gatto Boueri (Buenos Aires), Vivian Simonato (Dublin), Wilberto Lima Jr.(Boston) Colaboraram nesta edição: Agência Pública, Anatrícia Borges, Fábio Rocha, Fernanda Cortez, Giuliana Preziosi, Hélio Rocha, Lou Fernandes, Luiz Antônio Gaulia, Marcelo Camargo (Agência Brasil) e Pedro Borges. Os artigos são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.
Impressa com tinta à base de soja Plurale é a uma publicação da SA Comunicação Ltda CNPJ 04980792/0001-69 Impressão: WalPrint
Plurale em Revista foi impressa em papel certificado, proveniente de reflorestamentos e®outras fontes controladas certificados pelo FSC de acordo com rigorosos padrões sociais e ambientais. Rio de Janeiro | Rua Etelvino dos Santos 216/202 CEP 21940-500 | Tel.: 0xx21-3904 0932 Os artigos só poderão ser reproduzidos com autorização dos editores © Copyright Plurale em Revista
6
“Querida Sônia, Parabéns pela matéria da repórter Sônia Apolinário sobre energia renovável e a entrada em operação da planta solar Nova Olinda na Edição 61 de Plurale em revista, em especial pelo destaque das iniciativas com a comunidade. Plurale sempre contribuindo com cobertura ampla e correta sobre temas relevantes para a sociedade.”
cc a a r tr at a s s @@ pp l ul u r ar a l el e . c. c oo mm . b. b r r
ano dez | nº 61 | março / abril 2018 R$ 10,00
AÇÃO | CIDADANIA | AMBIENTE w w w. p l u r a l e . c o m . b r
PLURALE É PREMIADA PELA ABERJE
DE SÍTIO DO BREJAL (PETRÓPOLIS/RJ)
Diretores Sônia Araripe soniaararipe@plurale.com.br Carlos Franco carlosfranco@plurale.com.br
Cartas
FOTO DE LUCIANA TANCREDO/ PLURALE – FLOR
Quem faz
ARTIGOS INÉDITOS
Márcia Massotti, Diretora de Sustentabilidade da Enel no Brasil, Niterói (RJ)
PANTANAL, JUAZEIRO DO NORTE E ENERGIA SOLAR NO PIAUÍ
“Cara Sônia, à Plurale e “Parabéns É sempre uma grata ao fotógrafo Gustavo Pedro Paula satisfaçãode receber estapela matéria publicação“Um que hárebanho oito de anosabelhas”, abre espaçopublicapara o da na Edição 61. Com diálogo entre empresas, um ensaio efotográfico especialistas a encantador, mostra sociedade, com o objetivo um Brasil que poucos de promover os bons conhecem, não só exemplos de preservação pela beleza da região, do meio ambiente. mas também pelo traParabéns a todos os balho do apicultor, um profissionais envolvidos e aliado na preservação votos de uma vida longa e do meio ambiente.”
sustentável à Plurale em Maria Alice Villerevista.” la, Cuiabá/MT, por e-mail
Miguel Krigsner do Grupo “O trabalho de– Fundador aculturamento que a Boticário e da Fundação Grupo fotógrafa Andrea Goldschmidt vem Boticário de Preservação da Natureza, realizando ao longo destes últimos quatro(PR), anospor é e-mail muito louvável e imarti- Curitiba
“Bastante esclarecedor o go da presidente da Fenasaúde, Solange Beatriz, na Edição 61 de Plurale em revista, sobre a evolução dos custos dos planos de saúde. No sentido de encontrar um equilíbrio é fundamental a discussão com todos os atores do processo inclusive na conscientização de todos quanto a importância em relação a prevenção de doenças e a promoção da saúde . Eventualmente Produtos com franquias e/ ou coparticipação dariam aos segurados novas opções de escolha de acordo com as suas possibilidades. ”
Oswaldo Mário Azevedo, segurador aposentado (RJ)
“Prezados Editores de Plurale em revista, gostaria de parabenizar à equipe editorial, especialmente a jornalista Luciana Bezerra pelo comprometimento com o desenvolvimento da matéria sobre o jucá como tratamento alternativo para Leishmaniose, publicada na edição de número 61.” Bruno B. Jensen, Farmacêutico/ Analista Clínico , Mestre em Biotecnologia, Doutorando em Inovação Farmacêutica – UFAM, Laboratório de Leishmaniose e Doenças de Chagas – INPA “Uma alegria ver as medalhas e Prêmio Aberje conquistados pela jornalista Sônia Araripe e equipe de Plurale em revista. Jornalismo sério e relevante a serviço da sociedade disseminando boas práticas sustentáveis e grandes histórias de transformação.”
Joaquim Dário d`Oliveira, militar reformado, RJ (RJ)
portante. Gostaria muito de ver este
trabalho mais “Em nome dasendo Associação dosdifundido Analistas e por todo o Brasil, disseminando e fazenProfissionais de Investimento do Mercado de do nossos conhecerem Capitais (Apimecjovens SP), parabenizo toda amuito maisdeaPlurale pluralidade a anos diversidade equipe por seus e oitos de da nossa cultura! Nunca tinha tido atividades e, acima de tudo, pela seriedade e acessodoou mesmo curiosidade qualidade serviço prestado à sociedade,de a história do Padim aoentender tratar de temas tão relevantes quantoCiço, e fiquei muito encantada ler a resustentabilidade e meio ambiente.ao Que portagem com lindas fotos na Edição venham muitos outros anos!” 61 de Plurale em revista! Pensar que Ricardo Tadeu Martins , Presidente suas sugestões são passíveis de uso daaté Apimec SP,de São Paulo (SP), por os dias hoje é impressionane-mail te o quão visionário este homem foi! E daí fica fácil entender a devoção
“Deslumbrante a natureza da Serra do Cipó , de todos até hoje por ele. Parabéns retratada pela Ana Cecília e Artur Vidaurre, por na Andrea Goldschmidt, esperando edição desta prestigiosa revista que mais49artigos como esse, que com recentemente conheci. à toda uma escrita fácil, Parabéns leve, nos da luz a equipe Plurale! Como nunca havia tantadecultura sobremineiro o nosso imenso Brasil, tão importância, maltratado apesar nos dias atuais! dado a devida de ter visto Que venham muitas nos outras falar em aulas de geografia anoshistórias 60 sobre deparque nossoambiental; povo, cultura, diversidade esse como temos belezas e tudo em mais, sempre recheadas de linnaturais nosso país e desconhecemos, das imagens, comoresgatada são as suas! situação que está sendo por esta Sandra Audujas, fotógrafa, revista dedicada ao meio ambiente e ecologia. de São (SP) Parabéns por Paulo abraçarem tão nobre missão e pelos 8 anos de edição e sucesso. “Registrar a existência é revista. um proAgradecido por vislumbrar tão bela ”
cesso natural do homem. Dos hieróglifos Ari à fotografia digital, o olhar Benedito Lisboa, engenheiro, São atento ao comportamento e ao que José dos Campos (SP), por e-mail é humano faz o mundo andar para frente. Os olhos de Andrea captam “Letícia Spiller tornou-se da o momento em quea “embaixadora” o fato, a história campanha Desmatamento Zero, do e cristae a emoção se imortalizam Greenpeace Brasil. Em entrevista na Edição lizam para sempre a cultura de um 50povo de Plurale em revista, comemorativa de no seu tempo. Coisa de quem oito anos, a atriz revelou queescrever sua preocupação conhece arte de ler sinais com as causasVida ambientais sagrados. pura!”é antiga. Ela e outras atrizesGregório, e atores falam sobre o Velma Diretora engajamento nasComunicação causas sociais e ambientais. da ÓGUI da Parabéns à querida Sônia Araripe Sustentabilidade, dee equipe São pela matéria (SP) e pelos oito anos de Plurale!” Paulo
FEEL WELCOME
COMPROMISSO COM A DIVERSIDADE Estamos comprometidos seriamente em promover a igualdade de gêneros em todos os nossos hotéis. Somos uma empresa friendly e praticamos genuinamente o acolhimento para que todos, sem distinção, sintam-se bem-vindos.
7
Perseguir os objetivos de desenvolvimento sustentável para criar valor e vantagem competitiva Dominic Schmal*
Definidos em 2015 pela Organização das Nações Unidas (ONU), os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) abrangem 169 metas estabelecidas com o compromisso de enfrentar os principais desafios globais até 2030, e foram referendados pelos líderes de 193 nações. Eles são um ótimo ponto de partida para o desenvolvimento sustentável, cuja ambição é melhorar a qualidade de vida na sociedade indistintamente, beneficiando todos. Composto por temas multidisciplinares, os ODS são aplicáveis a todos os países e refletem as prioridades dos respectivos governos. Entre os 17 objetivos estão: paz, justiça e instituições fortes; igualdade de gênero; fome zero, boa saúde e bem-estar; e cidades e comunidades sustentáveis. Para atingirmos ODS , é fundamental a atuação do setor privado. As empresas têm papel relevante como influenciadoras dos consumidores e na maneira como interferem no meio ambiente. Aquelas que estiverem alinhadas com a agenda dos ODS terão vantagem competitiva.
Fonte: Global Goals, www.globalgoals.org
8
Haverá um esforço concentrado para atingir os ODS, e isso, por outro lado, será um direcionador-chave para o crescimento econômico. Segundo a Comissão de Negócios e Desenvolvimento Sustentável, as metas devem gerar o equivalente a US$ 12 trilhões por ano, considerando receitas e economia nos negócios. Diversas empresas ainda estão no início desta jornada. Existe um engajamento claro dos negócios com os ODS, mas, considerando as decisões necessárias para os cumprir os objetivos e metas, percebe-se não ser esta uma tarefa fácil. Uma recente publicação da PwC intitulada “SDGs Reporting Challenge 2017” avaliou 470 relatórios anuais e de sustentabilidade de empresas em 17 países no mundo. Mais de 60% delas mencionam os ODS nos relatórios, porém apenas 37% priorizam os objetivos. Quando se avalia quais são priorizados, quase 80% o faz em relação às alterações climáticas, seguido por emprego digno e crescimento econômico (76%) e consumo e produção responsáveis (65%). No lado oposto, destacam os objetivos menos priorizados: conservação e uso sustentável dos oceanos, mares e recursos marinhos (18%), erradicação da pobreza (21%) e acabar com a fome e segurança alimentar (23%).
A priorização dos objetivos não é tão fácil quanto pode parecer. É evidente que empresas devem focar nos objetivos mais relevantes para os seus negócios e setores. Mas como avaliar quais são objetivos os mais relevantes? Para responder essa questão é necessária uma análise aprofundada sobre a sustentabilidade e a operação dos negócios, envolvendo toda a cadeia de valor – e principalmente, uma avaliação das prioridades da sociedade civil e dos governos de cada país. Isto requer uma visão de longo prazo e um entendimento dos riscos que as empresas poderão enfrentar caso as questões-chaves e metas dos ODS não sejam resolvidas de maneira eficiente.
80%
O compromisso com os ODS representa uma oportunidade de mudança para as organizações que ainda consideram secundários os desafios no âmbito da sustentabilidade. Eles são um convite à reflexão na busca por crescimento e inovação. *Dominic Schmal é gerente sênior da PwC Brasil e especialista em Sustentabilidade.
76%
emprego digno/ crescimento econômico
alterações climáticas
23%
21%
erradicação da pobreza
acabar com a fome e segurança alimentar
Baixe gratuitamente o aplicativo PwC BR na Apple Store.
Há uma série de oportunidades contidas na agenda 2030. A partir da compreensão de que os ODS estão diretamente relacionados à estratégia, a comunidade empresarial poderá capturar essas oportunidades por meio do engajamento e do diálogo com os governos e a sociedade. E, assim, demonstrar aos investidores o valor econômico e socioambiental criado.
PwC Brasil
@PwCBrasil
PwC Brasil
PwC Brasil
65%
consumo e produção responsáveis
18%
conservação e uso sustentável dos oceanos, mares e recursos marinhos
@PwCBrasil
Neste documento, “PwC” refere-se à PricewaterhouseCoopers Brasil Ltda., firma membro do network da PricewaterhouseCoopers, ou conforme o contexto sugerir, ao próprio network. Cada firma membro da rede PwC constitui uma pessoa jurídica separada e independente. Para mais detalhes acerca do network PwC, acesse: www.pwc.com/structure © 2018 PricewaterhouseCoopers Brasil Ltda. Todos os direitos reservados.
9
Entrevista
PAUL ALLEN: “NENHUMA INDEPENDÊNCIA NOS TORNA MAIS LIVRES DO QUE A ENERGÉTICA” ALBERT SALAMÉ - VILAWEB
Reportagem: Oriol Bäbler Fotos: Albert Salamé Tradução: Maurette Brandt Copyright: www.vilaweb.cat Publicado com autorização do diário digital Vilaweb Link da matéria original: https://www.vilaweb. cat/noticies/paul-allen-cap-independencia-etfa-mes-lliure-que-lenergetica/
Paul Allen é um homem otimista e sorridente. Essas devem ser condições essenciais para alguém que deseja convulsionar o sistema. Sim, este homem afável, que cresceu em meio aos bosques do País de Gales, é um revolucionário. Sem boina e sem fuzil. Allen quer sacudir o Reino Unido – e mudar totalmente o seu modelo energético. Acredita que, em vinte anos, se forem conduzidas “ações firmes e diretas”, o país vai se livrar da dependência dos combustíveis fósseis e reduzirá a zero suas emissões de dióxido de carbono. Otimista com certeza, mas talvez muito mais realista do que possa parecer. Allen reconhece que a ideia de carbono zero em 20 anos soa extravagante; pois bem, depois de décadas de estudos no Centro de Tecnologia Avançada (Center of Advanced Tecnology), onde ingressou em 1998, assegura que “temos as tecnologias e os meios suficientes” para levar a termo a transição energética. O encontro com Allen acontece nos jardins do Palau (Palácio) Robert, onde participa do XX Forum de Energia Sustentável, em 27 de abril. Num intervalo entre conferências, encontramos tempo para sentar num banco e falar sobre o projeto que coordena, o Zero Carbon Britain (Carbono Zero Grã-Bretanha). As palmeiras, as cicas, as avencas e as
10
acácias são de um verde fulgurante e nos olham com interesse. Allen mexe o chá, que toma com leite, e se prepara para as perguntas. Quem é Paul Allen e o que é o Centro de Tecnologia avançada de Gales (CAT)? Paul Allen sou eu (risos). Sou engenheiro elétrico, estudei e me formei em Liverpool, nos anos 1980. No início cheguei a fazer uma incursão na música, mas há uns trinta anos cheguei à conclusão que tinha de fazer alguma coisa na vida. Então ingressei no CAT, entidade que se dedica a estudar o modo como devem ser a vida e o desenvolvimento sustentáveis. Minha primeira tarefa foi trabalhar com placas de energia solar para hospitais que a Oxfam queria instalar em zonas de guerra. Mais tarde participei de outros projetos, até entrar de cabeça no Zero Carbon Britain. Em que consiste o projeto? O planeta vive uma situação de urgência – e temos de propor e realizar ações firmes e contundentes para atenuar os efeitos das mudanças climáti-
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
cas. Nosso objetivo é chegar a um Reino Unido com carbono zero em 20 anos. Nos informes que divulgamos, temos demonstrado que isso é possível – e que não há necessidade de novas tecnologias ou inovações, pois hoje temos tudo que é necessário para tal. Em nosso primeiro informe, publicado em 2007, detalhamos toda a dimensão desse desafio e o ritmo no qual deveríamos avançar para reduzir as emissões a zero. Com isso conseguimos atrair a atenção dos políticos, mais concretamente os do Partido Liberal, o terceiro mais importante do país. E que resposta obtiveram da classe política? Apresentamos o informe ao Comitê de Mudanças Climáticas – que, pouco depois aprovaria a chamada Lei das Mudanças Climáticas, cujo texto deixava bem claro que o Reino Unido teria de reduzir as emissões de dióxido de carbono em 80% até 2050. Parece bom, não é? Pois os liberais, que nos convidaram para apresentar o projeto, venceram as eleições e chegaram ao governo em 2010, graças a uma coalizão com os conservadores.
E então? Bem, eles se esqueceram completamente das mudanças climáticas. De qualquer maneira, a decepção serviu para perserverarmos no nosso objetivo. Vocês estão mesmo preparados para fazer esta transição? Sim, com toda certeza. Fizemos uma pesquisa muito detalhada. Analisamos todos os dados do Reino Unido com relação ao vento, ao sol, às marés etc., de hora em hora, por um período de dois anos. Com isso, tivemos condições de projetar todo o potencial energético disponível no país. Agora podemos dizer que a otimização das energias renováveis tem que caminhar de mãos dadas com um consumo de energia mais eficiente e sustentável. Não estamos falando aqui, de modo algum, de um consumo racionado; quero dizer, simplesmente, que temos de estar conscientes de que agora mesmo, neste instante, estamos desperdiçando muita energia em habitações com isolamento térmico deficiente, por exemplo. Acredito sinceramente que poderemos funcionar com 100% de energias renováveis em 20 anos. A produção de energias renováveis tem uma curva mais arriscada do que a de uma central termoelétrica. Como se pode garantir uma produção mínima? Não se pode controlar os fenômenos meteorológicos; portanto, temos de ter consciência de que teremos picos de produção – e, consequentemente, quedas de produção. Nas condições atuais, não geraremos energia suficiente em 80% do tempo. Por isso mesmo, é realmente importante saber utilizar o excedente dos picos de produção. Em geral, os excedentes podem ser armazenados; porém, no caso da energia, isso pressupõe um investimento monstruoso, o que neste momento torna essa armazenagem praticamente inviável. Para que seja possível superar as quedas na produção, nossa proposta é usar o excedente de energia para produzir gás ou diesel sintético. Dessa maneira podemos utilizar boa parte da infraestrutura energética já existente, com um mínimo de
investimento. Mas se a transição é factível, por que não a fazem? Em nosso informe mais recente, identificamos barreiras que nos impedem de realizar essa transição e explicamos como podemos superá-las. E que barreiras são essas? Motivações pessoais, vínculos familiares, o trabalho, a pressão dos amigos, a lei, a cultura... há muitas “forças” que condicionam a nossa vida. E aqui surge também um conceito muito interessante, denominado carbon lock-in (blindagem de carbono). É o conjunto das inércias e reticências, no âmbito público e privado, que têm gerado um sistema baseado nas energias fósseis – e que impedem a penetração das energias renováveis. Durante mais de cem anos, os combustíveis fósseis evoluíram junto com a sociedade, a política, a lei, a economia, as infraestruturas... Os vínculos e a dependência são muito fortes, mas é preciso pensar em novas maneiras de criar relações em todos esses âmbitos. Em comunidades pequenas, temos conseguido demonstrar que isso é possível; agora chegou o momento de dar o passo em direção à grande escala. Enfim, de empreender uma mudança sistêmica. Uma revolução, você quer dizer. Pois sim, e nesse aspecto é preciso convencer a classe política. Ao mesmo tempo, não podemos ser ingênuos. No Reino Unido, o setor energético representa um lobby de mais ou menos quatro bilhões de libras, que pressiona os deputados para que atuem de acordo com os interesses das indústrias. É preciso haver mais transparência. Se um político se elege com financiamento da indústria, é preciso que se saiba. Transparência ou proibição? O ideal seria proibir, mas pelo menos temos de exigir que tudo venha a público. Assim os cidadãos, de posse de todas as informações, poderão discernir. Há países – como os nórdicos, mais recentemente – em que o controle é muito mais rígido que no Reino Unido.
Porém há mais coisas que nos afetam, além dos grupos de pressão, não é? A comunicação, principalmente - ou seja, a maneira como a informação chega até nós. No Reino Unido, seis multimilionários controlam 80% do mercado midiático e da informação. Com certeza é um modelo muito difícil de se mudar, mas é preciso atuar para que se torne mais plural e mais acessível. E os cidadãos precisam ter esse espírito crítico para terem condições de raciocinar. Se você assiste à Sky News, precisa saber que a emissora é de propriedade da família Murdoch – e que os donos têm seus interesses. Os meios de comunicação online e as redes sociais têm um potencial enorme, que em parte pode nos ajudar a suplantar esse oligopólio da informação. Se quiser, posso dar um exemplo de como podemos ajudar as redes. Por favor. A Lego, que fabrica o famoso brinquedo de construção, comercializava, até pouco tempo, kits para montar postos de gasolina ou usinas petrolíferas com a logomarca da Shell. O Greenpeace fez um vídeo chamado “Nem tudo é fantástico” (Everything is NOT Awesome), que se tornou viral. Com isso, a Lego decidiu romper o acordo comercial com a Shell. Parece uma bobagem, mas há uma grande diferença entre a criança ter um brinquedo normal ou brinquedos patrocinados por uma empresa petrolífera E no âmbito social e cultural? Trata-se de uma mudança sistêmica. Temos de mudar tudo. Há trinta anos, a visão da sociedade sobre a paridade, sobre o movimento LGBT, sobre o racismo, era outra... Não havia a conscientização que existe hoje. Com as energias renováveis acontece o mesmo. Parece impossível uma mudança dessa magnitude, mas podemos fazê-la se conseguirmos “detonar” os nossos preconceitos. É preciso inovação e imaginação para impulsionar esta mudança, mas é imperioso, também, penetrar no universo midiático. Você pode ver os efeitos das mudanças climáticas em sua própria casa; no jardim, as árvo-
11
Entrevista
res florescem antes do tempo. Ou a gente liga a televisão e o telejornal está noticiando um desastre natural. O que acontece? Muito pouco. O impacto midiático é mínimo. Essas coisas parecem não existir na hora que a gente senta para assistir séries e filmes. E este silêncio também transmite uma mensagem: se não temos que pensar, não faz diferença se agimos ou não. Por isso, é muito necessário que os artistas e os escritores se envolvam nesta luta. O tema tem que chegar à arte, às novelas, ao cinema. É fundamental oferecer também uma visão positiva de um futuro sem contaminação. Temos que sacudir os cidadãos da mesma forma que aconteceu quando a televisão mostrou o primeiro beijo inter-racial. E era um capítulo de Guerra nas Estrelas (risos)... Pode parecer algo insignificante agora, mas aquele beijo veio abrir portas para novas maneiras da gente se comportar e de pensar. Em seu informe, você menciona o conceito de multi-sloving. Que conceito é este? É algo muito simples. Queremos fazer uma grande mudança para salvar o clima, mas de quebra vamos solucionar outros problemas. Um ar mais limpo reduz as doenças pulmonares; trocar o carro pela bicicleta faz com que mais pessoas se mantenham em forma; o custo da saúde pública baixa, e assim por diante. Ao ativarmos a mudança, solucionamos um grande problema e ao mesmo tempo geramos outros tipos de benefícios. Acontece o seguinte: os acadêmicos tendem a trabalhar só com um tema de cada vez - ou o financiamento para a saúde ou o meio ambiente - mas trabalham focados apenas em projetos concretos. Precisamos que haja sinergias e ações multidisciplinares que tornem a mudança mais eficiente e mais rápida. E os municípios são os campos de prova perfeitos para isso. Até agora você comentou apenas as benesses da transição. Não haverá algum impacto econômico negativo? Existe um investimento econômico sim, mas não uma despesa ou um impacto negativo. Se equipamos uma casa com um isolamento térmico altamen-
12
te eficiente, essa mesma casa vai durar mais 30 anos. Vai consumir menos energia, as contas serão mais baixas e, com o tempo, recuperamos o investimento. Acontece o mesmo com a saúde pública. Se investirmos em uma infraestrutura de qualidade, num transporte público potente, em conscientizar as pessoas sobre a necessidade de praticar esportes e comer corretamente etc., a conta da saúde vai diminuir assustadoramente. “Mas então não se fala mais em saúde?” É importante fazermos essa pergunta. Existe um informe elaborado pelos sindicatos da Grã-Bretanha, denominado “Um milhão de postos de trabalho pelo clima”. Calcula-se que, nos próximos 20 anos, conseguiremos fazer isolamento térmico em pelo menos 20 milhões de residências. Isso significa que vamos gerar um número elevadíssimo de postos de trabalho para operários, instaladores e fabricantes de placas solares e material isolante. Os combustíveis fósseis, esses sim é que geram impacto econômico. O que você quer dizer com isso? Por vezes, no final das contas, fica parecendo que existe um segredo, porque ninguém fala neste assunto. Os produtores de combustíveis fósseis cobram do consumidor um determinado valor, mas há muitos custos que ficam escondidos. Que custos são esses? Subsídios, despesas com a saúde e futuras adaptações provocadas pelas mudanças climáticas – por exemplo, pessoas que têm de imigrar em função da elevação do nível do mar. Qual é o custo real de queimar combustíveis dessa forma? Segundo um estudo do FMI – que, diga-se de passagem, não é exatamente um grupelho esquerdopata – o custo, em dinheiro público –está em torno de 600 bilhões de dólares, apenas com os subsídios. Mas se somarmos a isso as despesas com saúde e futuras adaptações, essa cifra sobe para 5,3 trilhões de dólares. É dinheiro que, hoje, não paga ninguém, mas é uma dívida que deixaremos para as gerações futuras. Os combustíveis de fontes renováveis são muito mais acessíveis. Se eu decidir me envolver nessa questão como cidadão, o que posso
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
fazer para “descarbonizar” a minha vida? Você pode instalar placas para captação de energia solar no telhado de casa, revisar o isolamento térmico da residência e optar por adquirir energia de uma empresa elétrica verde, por exemplo. Além disso, a internet disponibiliza diversos calculadores de carbono que te permitem ter consciência do tamanho do impacto que o seu estilo de vida causa no meio ambiente. Você também pode ser mais proativo politicamente: escrever à prefeita de Barcelona ou aos deputados do parlamento, solicitando que se comprometam a fazer tudo que puderem para cumprir o Acordo de Paris. Pode ainda sugerir que sejam mais ambiciosos em seus esforços. Nós, no Ocidente, não costumamos nos empenhar muito - e olha que não estamos exatamente morrendo de fome. Por exemplo, na semana passada, o governo britânico deu instruções ao Comitê de Mudanças Climáticas para que o objetivo de reduzir 80% por cento das emissões até 2050 seja alterado para 100%. E isso vai virar lei. Agora deixa eu bancar o pessimista: essa não seria a primeira lei a ser descumprida. A partir do momento em que o Comitê converte essa instrução em lei, o governo não tem mais remédio senão cumpri-la. A Suécia fez o mesmo movimento. E determinou o ano de 2045 como a data-limite para zerar as emissões. A ques-
ALBERT SALAMÉ - VILAWEB
tão é que os governos até podem renegar seus compromissos, mas os cidadãos podem destituir o executivo responsável e eleger outro. De todas as formas, Theresa May não só assumiu este compromisso para com a sociedade britânica; assumiu também perante os membros da Comunidade Britânica (Commonwealth), que reúne países que vêm sofrendo muito com os efeitos das mudanças climáticas. Portanto, não se trata simplesmente de descumprir uma lei. Por falar em romper compromissos, Donald Trump retirou os EUA do Acordo de Paris. Donald Trump é um político medíocre, mas há que se reconhecer uma coisa: é um catalisador. Se ele se retira do Acordo de Paris, imediatamente aparecem figuras de renome da sociedade norte-americana dispostas a cobrir o custo do descumprimento. Mas a coisa vai mais longe: Trump também conseguiu despertar, no âmbito municipal e no cidadão comum, uma vontade inaudita a favor do clima. Repare que esta não é apenas uma opinião minha. Christiana Figueres, a diplomata da ONU que está por trás do Acordo de Paris, escreveu uma carta a Trump que diz o seguinte: “Prezado Sr. Trump, muito obrigada por tudo que vem fazendo. O senhor fez mais do que ninguém para unir as nações do mundo em torno do Acordo de Paris. Fez mais do que qualquer outro ser humano.” A declaração de Marrakesh (2015), na qual quase 200 países se comprometem a levar
avante o Acordo de Paris, é também, em parte, uma resposta ao presidente norte-americano. Trump é um personagem sinistro, mas que consegue aglutinar o resto das pessoas. Vamos voltar à Grã-Bretanha. Na sua opinião, o Brexit é uma vantagem ou um problema para o seu projeto? Neste momento é um problema. É uma distração enorme. Agora ficamos na dependência da negociação com a União Europeia. E não se pode fazer mais nada por enquanto. O Brexit está em toda parte. Por outro lado, pessoalmente acho que, quando se concorda em colocar em votação uma decisão tão importante para o futuro do país, e que terá efeitos intergeracionais, me parece que é preciso haver uma maioria bem expressiva para legitimá-la. No verão de 2016, o resultado da votação foi 52% a 48%. Maioria, sim, mas uma maioria muito frágil. Portanto, o Reino Unido estava – e continua – muito dividido com relação a ser ou não uma boa ideia sair da União Europeia. Enquanto essa discussão continua, não se pensa em nada realmente importante. É possível chegar a zero emissões como membro da UE ou isoladamente, mas neste momento há outras questões em pauta. Para terminar, o que um país pequeno como a Catalunha para se tornar sustentável? É necessário mapear a capacidade energética do país. Ver onde se pode aproveitar toda a força do vento, onde o sol é mais forte e em que parte da costa se pode capitalizar a força das ondas. Uma vez feito isso, vocês saberão qual é o potencial energético da Catalunha. Por outro lado, para conseguir chegar ao ponto de zerar as emissões, é preciso que o consumo seja mais inteligente e responsável. Temos de ter consciência de que o consumo atual não é normal. É mais abuso do que consumo. De fato, nossos estudos nos levam a concluir que a demanda energética do Reino Unido pode diminuir em uns 60%. Nesse quadro, é imprescindível que os políticos também se envolvam – e, para isso, é necessário que a sociedade esteja conscientizada e
que pressione as pessoas que hoje ocupam os cargos eletivos. Além do mais, como o debate sobre a independência está em pauta, num contexto de mundo global e interdependente, é importante entender que a autonomia energética significa liberdade. Por exemplo: a dependência do gás russo, por parte de alguns países, os torna politicamente vulneráveis. Portanto, a independência tem muitas vertentes. Mas nenhuma nos torna mais livres do que a energética. Conheça Paul Allen Diplomado com louvor em Engenharia Eletrônica e Elétrica, Paul Allen é o coordenador do Projeto Zero Carbon Britain (Carbono Zero Grã-Bretanha) e Executivo de Relações Externas do Centro de Tecnologia Avançada (CAT) do País de Gales. Colaborou no desenvolvimento e na produção de uma grande variedade de sistemas de energia renovável, além de ajudar a desenvolver a Dulas Ltd., empresa de engenharia derivada da CAT. Foi também membro do Conselho Consultivo de Ciências do País de Gales (2010), membro do Conselho do Fórum Internacional de Energia Sustentável (2008) e Comissário de Mudanças Climáticas do País de Gales (2007). CONHEÇA O PORTAL DIGITAL VILAWEB
O Vilaweb é o portal de informações mais antigo no idioma catalão, criado e dirigido pelo jornalista Vicent Partal. É subvencionado pelo Governo Autônomo da Catalunha e promove a criação dos chamados “países catalães”. Lançado originalmente em 1995, com o título “A Infopista”, começou com uma média de 100 acessos semanais e rapidamente alcançou 4 mil acessos, convertendo-se em estandarte do pancatalanismo na internet. Em 2004 conquistou o Prêmio Nacional de Jornalismo da Catalunha e, em 2014, ganhou uma versão em idioma inglês, coordenada por Liz Castro.
13
Imprensa
Sustentabilidade é tema no
Jornal do Brasil
Editora de Plurale, a jornalista Sônia Araripe, que trabalhou 12 anos em diferentes fases do Jornal do Brasil, volta a escrever como articulista no periódico que retomou às bancas após sete anos Da Equipe de Plurale Foi com muita alegria que cariocas receberam no dia 25 de fevereiro último o retorno do Jornal do Brasil às bancas. O tradicional JB, que tem 127 anos de História com H maiúsculo, deixou de rodar a versão impressa em novembro de 2010. Licenciado em dezembro de 2017 ao empresário Omar Rezende Peres, voltou a circular com nova proposta, mas mantendo acesa a chama da pluralidade de opiniões e da notícia isenta e sem partidarismo. Em assinado na edição O editorial apelo da saúde dealimentos estreia, Omar Peres Opção por e bebidas saudáveis muda oRezende perfil de consumo no Brasil e geradesnovos negócios tacou: “Daremos continuidade ao Multinacionais expandem oferta que sempre fez o Jornal do Brasil e o tornou referência na imprensa de nosso país – dizer a verdade, contar o fato, fazer do acontecimento, notícia. As opiniões serão livres. A notícia jamais! E claro, vamos contestar sempre que necessário. ” Grandes nomes do jornalismo diário estão à frente do projeto , como Toninho Nascimento, Gilberto Menezes Cortes,
14
•
Conheça nosso site www.jb.com.br
A mudança no perfil de consumo de alimentos e bebidas se tornou um desafio para as grandes indústrias desses setores - lá fora e aqui no Brasil. Segundo a consultoria Euromonitor, o consumo de refrigerantes no mercado brasileiro projetado para 2022 estará 20,3% abaixo do que se via em 2012. Na mesma comparação, a demanda por chicletes terá queda de 20,9%, enquanto a categoria geral de doces vai recuar 19,6%. A indústria que se expandiu com o desejo do brasileiro de experimentar novas categorias agora está sendo obrigada a se adaptar a novos tempos, em que o apelo saudável será o nome do jogo. Isso vai se refletir tanto no crescimento de certos tipos de produtos processados - como as bebidas à base de água de coco e os salgadinhos feitos de cenoura e batata-doce, por exemplo - quanto no retorno aos alimentos frescos. A mudança de mentalidade, que já é realidade na Europa e nos EUA, obrigou as grandes indústrias de alimentos a rever estratégias. Gigantes como Pepsico, Unilever, Coca-Cola, Ambev e Nestlé se movimentam em diferentes frentes para convencer os consumidores de que seus produtos não são potenciais riscos à saúde. Entre as estratégias adotadas para se adequar à nova realidade estão mudanças em fórmulas de produtos (com versões com menos açúcar e gorduras), redução de embalagens (para controlar a quantidade consumida) e a aquisição de marcas menores que já nasceram direcionadas ao apelo saudável. Reportagem publicada em setembro do ano passado pelo jornal americano The New York Times mostrou que, dos anos 1980 para cá, o foco de grandes grupos internacionais no mercado nacional multiplicou por três o índice brasileiro de obesidade, que era de 7% há
Economia&Negócios
Domingo, 8 de abril de 2018
Fotos de divulgação
Gigantes Coca-Cola e Ambev compraram a Verde Campo e a Do Bem
cerca de 40 anos. Hoje, segundo a Euromonitor, a taxa está em 22%. E deve chegar a 26% em 2022. Analista sênior da Euromonitor, Angelica Salado diz que o consumidor já vê uma clara relação entre o excesso de industrializados na dieta e o ganho de peso. “A preocupação com o problema existe, apesar de ainda estar mais ligada à estética do que à saúde em si.” Ela diz, no entanto, que a tendência das opções saudáveis está consolidada. O consultor em marcas Ricar-
do Klein, da Top Brands, diz que a adoção de um estilo mais saudável pelos brasileiros, no entanto, ainda pode esbarrar no fator preço. Na opinião do especialista, esse processo de migração será percebido primeiro nas classes A e B. “É um processo que vai ser sentido em um prazo mais longo, pois, para a maioria dos consumidores brasileiros, a compra desse tipo de produto, que tem apelo premium, acaba fazendo a conta não fechar no fim do mês.” (Estadão Conteúdo)
O movimento do consumidor rumo aos produtos saudáveis já motivou ações concretas de grandes multinacionais. Coca-Cola, Ambev e Unilever são exemplos de companhias de alimentos e bebidas que já adquiriram marcas de menor porte no Brasil que haviam sido criadas para atender ao cliente preocupado com os impactos da alimentação na saúde. Nos últimos dois anos, a Ambev comprou a fluminense Do Bem (de sucos), a Coca-Cola adquiriu a mineira Verde Campo (de laticínios) e a Unilever ficou com a Mãe Terra (conhecida, por exemplo, pelas oleaginosas, como castanhas). Entre as grandes empresas, a que mais se movimentou para mudar foi a Coca-Cola, que deixou de ser uma companhia de refrigerantes para oferecer um portfólio amplo de bebidas. Esse projeto começou há mais de uma década, quando os tradicionais rótulos da gigante americana ainda cresciam muito no Brasil, mas já começavam a sentir uma retração em mercados como os Estados Unidos. Segundo Rafael Prandini, diretor de marketing de novas bebidas para a Coca-Cola Brasil, a companhia hoje oferece refrigerantes, água, chá, suco, néctares e, mais recentemente, leite e iogurte. “Estamos buscando opções de saudabilidade em todos
os itens de nosso portfólio”, exemplifica o executivo. Para montar o atual portfólio, a Coca-Cola fez várias aquisições. O processo foi iniciado por duas empresas de sucos - Mais e Del Valle - e pela paranaense Leão Júnior, dona do Matte Leão. Esses negócios já estão incorporados à estrutura do grupo, mas uma compra mais recente - a da Verde Campo, em abril de 2017 - foi mantida como uma startup, uma operação à parte. Com a marca, a Coca-Cola entrou no mercado de derivados do leite, com estratégia dedicada à classe A. “É uma empresa mineira que trouxe uma cultura complementar para a corporação”, disse Prandini. Estrutura A estratégia de manter uma estrutura separada da empresa “mãe” em aquisições de companhias locais também está sendo adotada por Ambev e Unilever. No fim de 2017, a Unilever comprou a Mãe Terra, do empresário Alexandre Borges, por pouco mais de R$ 100 milhões, segundo fontes próximas ao acordo. A multinacional, que não quis dar entrevista para esta reportagem, anunciou que Borges seguiria à frente do negócio. Foi o mesmo caminho que a Ambev trilhou ao comprar a marca de sucos Do Bem, em abril de 2016.
14
10
Economia&Negócios
Segunda-feira, 30 de abril de 2018
Comperj aquece o Rio Retomada da construção do complexo petroquímico pode gerar 5 mil empregos diretos
Octávio Costa, Ziraldo, Celina Cortes, Marcelo Auler, assim como os colunistas Jan Theophilo, Hildegard Angel, Renê Garcia Jr. , Renato Mauricio Prado, Tereza Cruvinel e tantos outros. Política, Economia, Cidades, Mundo, Esportes, o tradicional
A Unidade de processamento de gás natural será concluída; as obras devem revitalizar o município de Itaboraí, onde fica o Comperj
No auge das obras no Comperj, as empresas chegaram a contratar 32 mil trabalhadores
Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Empregados nas Empresas de Montagem e Manutenção Industrial do Município de Itaboraí (Sintramon), Paulo César Quintanilha, a perda de empregos com a paralisação das obras no Comperj foi imensa para o município. Embora reconheça que a retomada da UPGN seja positiva, são necessárias mais de 5 mil vagas diretas para suprir a demanda. “Para dentro do estado do Rio de Janeiro não é suficiente para a demanda dos desempregados que temos aqui. O baque foi muito forte. Para a gente hoje tirar um pouco desse pessoal desempregado, era necessário 10 mil vagas de empregos”. Quintanilha lembrou que, no auge das obras no Comperj, as empresas chegaram
a contratar 32 mil trabalhadores. “A retomada é positiva, mas o topo da obra só vai acontecer de julho em diante, o topo das contratações”, disse, acrescentando que os profissionais de construção civil devem ser os primeiros contratados. Frederico Doher destacou que o pessoal a ser empregado já passou por uma capacitação da Petrobras, quando as obras ainda estavam em andamento. “Naquela época, o mercado estava muito aquecido, a Petrobras capacitou muita mão de obra naquela região, então, a gente acredita que até por questão de custos e logística, a mão de obra que venha a ser apropriada nessas obras, seja uma mão de obra da região, principalmente, de Itaboraí. Isso é um ponto positivo”.
Sônia Araripe
Brasil, mostra a sua cara
14
• Conheça nosso site www.jb.com.br
A possibilidade da abertura de vagas de emprego na região do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) tem movimentado em Itaboraí, na região metropolitana do Rio. A cidade foi uma das mais afetadas com a paralisação do Comperj e que, desde então, busca se reerguer. As vagas devem surgir com a retomada das obras da Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN), que retira o gás processado por meio de gasoduto e leva para a malha do Comperj. O GLP também vai sair por meio de outro duto, que junto com a unidade, faz parte do projeto integrado Rota 3, chamado Dutos Norte, que já está em execução. A estimativa que sejam gerados 5 mil empregos diretos, número previsto pela Petrobras. No entanto, as vagas não serão criadas pela companhia, mas por empresas envolvidas na construção e no fornecimento de serviços necessários para a obra, paralisada desde 2015. “Vamos ter inúmeros contratos que são os pequenos contratos que vão viabilizar, por exemplo, fornecimento de energia para a UPGN, fornecimento de água a vapor, tem toda a parte de infraestrutura, a parte de serviços, arruamento. O que a gente acredita é que todos esses contratos juntos, no pico de obra, vai ter uma faixa de 5 mil empregos diretos. É uma estimativa. Este número vai ser confirmado um dia pelas contratadas.”, disse o gerente de implantação do Projeto UPGN - Rota 3, Frederico Doher, em entrevista à Agência Brasil. A obra será tocada pela empresa chinesa Shandong Kerui Petroleum e pela brasileira Método Potencial, por meio de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), criada para completar a construção do projeto que foi interrompido, segundo Doher com 30% do espaço físico concluídos. O contrato tem o valor de aproximadamente R$ 1,95 bilhão.
Sônia Araripe
Sou do tempo das cartas em papel, do telegrama, da conversa ao pé de ouvido ou no telefone fixo. Acredito que boa parte dos leitores também. Tempos de ouvir, de compartilhar e de importantes pausas para reflexão. O computador chegou, celulares, modernidades, mídias sociais, conexões instantâneas, engenhocas e traquitandas. Ótimo! Vivas! Mas, vamos avaliar hoje, com parcimônia, este cenário tão imediato e conectado. Nunca estivemos tão conectados e... tão distantes. Quem prometeu encontrar o melhor amigo, mas na verdade, só ficou mesmo no abraço virtual? Quem fala mais tempo nas mídias do que ao vivo? As tecnologias vieram para ficar – felizmente – e é inegável que as mídias sociais estão impondo novos padrões e comportamentos. Quem ainda não leu, recomendo a trilogia “A era da informação” do sociólogo espanhol Manuel Castells, sobre sociedade em rede e como está influenciando o processo do que ele chama de “revitalização da democracia”, como as manifestações conhecidas como “Primavera árabe” ou o movimento “Ocuppy Wall Street”. Dito isso, chegamos ao ponto central desta conversa de hoje – que democracia estamos formatando e impulsionando pelas redes sociais. Como Castells alertou, há hoje cerca de sete bilhões de números de telefones
celulares no mundo e 50% da população adulta do planeta tem um smartphone. O percentual será de 75% em 2020. Consequentemente, a rede é uma realidade generalizada para a vida cotidiana, as empresas, o trabalho, a cultura, a política e os meios de comunicação. “Entramos plenamente numa sociedade digital (não o futuro, mas o presente) e teremos que reexaminar tudo o que sabíamos sobre a sociedade industrial, porque estamos em outro contexto”, destacou o sociólogo. Definitivamente não são bons exemplos as agressões virtuais vistas nos últimos meses, e, especialmente, nesta semana, como se fosse um verdadeiro clássico de Fla-Flu. Coxinhas X Mortadelas se digladiaram pelos posts virtuais, como se fosse possível imaginar alguma vitória de um lado ou de outro. Como assim? Comemorações exacerbadas pela decretação da prisão do ex-presidente Lula, como se fosse um gol de Copa do Mundo e também reações passionais na trincheira oposta, de apoiadores do líder sindical que fez história ao chegar ao Planalto. Não se trata de duelo virtual, de faxina nas mídias....de clima de vingança ou ódio. Muito menos com tiros a ônibus de campanha do PT, ataques a jornalistas no exercício da função ou outras agressões
que se construirá um cenário de estabilidade, Justiça e respeito ao estado de direito. Sempre bom lembrar. O país é um só, partido, sofrido, é verdade, mas somos todos brasileiros e estamos – ou deveriam estar – do mesmo lado lutando pelo desenvolvimento social e econômico justo e ético para os meus filhos, os seus e os filhos desta pátria. Pensar diferente só ajuda a jogar lenha na fogueira das vaidades virtuais e reais. Brasil, mostra a sua cara.
...
No mínimo preguiçosa a cobertura da maior parte da grande mídia – especialmente dos telejornais – do Julgamento do Supremo Tribunal Federal do pedido de habeas-corpus de Lula e seus desdobramentos. Que os laudos e nobres juízes do STF falem em “juridiquês” e se escondam atrás de termos poucos claros, já era esperado. Destacamos alguns trechos dos votos dados: “atividade hermenêutica dos juízes e tribunais” (Ministra Rosa Weber) ; “as prisões automáticas empoderam um estamento que já está por demais empoderado” (Ministro Gilmar Mendes) e “O grande equívoco, com a devida venia, mais uma vez, é a interpretação literal que se faz desse dispositivo. (...) Esse brocardo é destituído de qualquer valor científico”
Caderno B são alguns dos destaques da nova versão do Jornal do Brasil. Também a temática da Sustentabilidade: a editora de Plurale, Sônia Araripe, escreve semanalmente um artigo sobre diferentes abordagens. “Emocionada por poder voltar a colaborar com o JB, que foi minha “casa” em boa parte da vida profissional. Estive 12 anos em diferentes gestões do JB ao longo de minha carreira. Aqui cresci como repórter e tive o privilégio de conviver com alguns dos maiores nomes da nossa geração do Jornalismo. Feliz por poder voltar a ler e escrever nestas páginas”, conta Sônia. Entre os recentes temas abordados municípios nosRoyalties artigos estãoirrigam o licenciamento ambiental, alertando para a repercussão da tragédia de Mariana e outros acidentes de mineradoras mais recentes; Amazônia; como anda a confiança em instituições, como governos, empresas e ONGs; a questão dos descartáveis de plástico e os canudos símbolos e Niterói ecomo Maricá, os novos ricos tantos outros.
(Ministro Luiz Fux). Mas não dá para aceitar que a maioria da grande mídia tenha embarcado na leitura e repetição – data venia – dos votos e se “intoxicado” com a “sopa de letrinhas” de HC para habea corpus, ADCs (no caso das ações declaratórias de constitucionalidade) e por aí vai. Felizmente aqui o Jornal do Brasil – e alguns outros - fez edições pertinentes, relevantes e didáticas. Acho que 200 milhões de brasileiros esperam até agora uma cobertura em bom e claro português. Ou não queremos que todos entendam o que está sendo dito e decidido?
...
Duas datas relevantes esta semana: os 50 anos da morte do líder Martin Luther King e o que seria o aniversário de 60 anos do poeta Cazuza. Os dois nunca se encontraram e seus destinos não se cruzaram. Mas, em uma viagem frenética/ imaginária, imagino o sonho de Luther King se encontrando com a poesia repleta de ironia de Cazuza. Precisamos urgentemente de mais sonhos, de mais igualdade e mais poesia. (*) Sônia Araripe é Editora de Plurale (www. plurale.com.br) , revista e site com foco em sustentabilidade. Email: soniaararipe@plurale.com.br
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
Conheça nosso site www.jb.com.br
só, foi a fiel companheira de muitos e muitos anos. O plástico invadiu as nossas vidas e de todo o planeta. Para o bem e para o mal. Resistente, com múltiplas funções e propriedades. Do uso industrial ao doméstico. E passamos a “depender” umbilicalmente deste material, quase como se fosse algo “natural”. Vamos lembrar dos pratos e copos descartáveis para festas, piqueniques ou passeios. Das infinitas garrafas plásticas para água mineral, que por décadas só eram comercializadas em vidros. Das já citadas sacolas de comércio. Mas também de uma infinidade de produtos que envolvem os mais variados plásticos, de autopeças a próteses resistentes. Ah! Vamos falar também dos canudos, normalmente feitos de poliestireno ou polipropileno. Só nos Estados Unidos, são usados 500 milhões de canudos plásticos por dia, o que seria suficiente para dar a volta ao mundo duas vezes e meia. E assim como outros resíduos, boa parte destes canudos acaba no mar, engolidos por animais, que morrem sufocados. A poluição de plástico é assunto frequente na nossa Plurale e este debate escalou como o assunto da vez. Além da possibilidade de contaminar quem usa embalagens e acessórios descartáveis com BPA, ou bisfenol A, e microplástico, os canudos ameaçam a natureza e os animais. A ONG WWF divulgou uma previsão alarmante, estimando que, em 2050, poderá existir mais plástico do que peixes nos oceanos. Tartarugas, focas, baleias e
pinguins estão entre as principais espécies vítimas da sujeira na natureza. Quer água-de-coco? Vem com canudo. Caipirinha? Com copo e canudo. E por aí vai. Ninguém nem oferece! Já vem junto. Tirei esta foto aqui em rede de produtos saudáveis: junto aos sucos estavam lá os tais canudos. Os hábitos estão mudando e até mesmo a Rainha Elizabeth II – do alto de seus 92 anos – decidiu dar o exemplo, banindo as garrafas plásticas, descartáveis e os canudos das dependências do Palácio de Buckingham. Grandes redes de fast food estão adotando novas postura, como a gigante McDonald`s que – no Reino Unido – substituirá o acessório de plástico por um feito de papel biodegradável e o cliente vai precisar pedir o canudo se não quiser beber direto do copo. A Escócia já anunciou que pretende banir esta praga até 2019. Também por aqui, várias empresas e escolas estão dando o exemplo. A Escola Nova, da Gávea, enviou circular para os pais explicando que – dentre várias ações sustentáveis – está deixando de trabalhar com canudos na sua cantina. Bravo. Crianças têm sido ótimas aliadas na causa ambiental. Podemos todos nos empenhar na mesma direção. Quer água? Use um copo comum, retrátil ou de material reciclado para tomar água da garrafa, da jarra ou do squeeze. Aliás, felizmente, esta é uma lei que tem sido “digerida” por bares e restaurantes, oferecendo “água da casa” gratuitamente como países do Primeiro Mundo. Mas, voltemos aos canudos. Alguém poderá alertar que é apenas a ponta de um gigante iceberg de problemas diante de tantos descartáveis e plásticos em nossas vidas. Verdade. Mas é um ponto para começarmos. Urgentemente. Quem já participou de alguma ação de limpeza de praia sabe o trabalho que dá catar
estes pequeninos pesadelos enfiados na areia. E não há economia de mercado que justifique sua reciclagem: pode juntar diversos para serem transformados, assim como as tampinhas de garrafas pet. No entanto, a maioria acaba mesmo indo para o lixo. O ideal é mesmo nem pedir canudo. Simplesmente decline. Beba diretamente do copo ou da caixinha. Porém, como resolver o caso do coco ou para quem curte beber de canudinho, como as crianças, ou os nostálgicos? Pensando nisso, jovens empreendedores (vários são brasileiros) estão criando e comercializando canudos ecológicos de diferentes matérias, como de vidro de borolsilictado (feito material de laboratório), de bambu, de ferro, etc. Há até canudos comestíveis lançados na Espanha e dobráveis do tamanho de um chaveiro nos Estados Unidos. E pensar que já tomamos muita bebida em canudos de papel encerado, um material que era sustentável e nem sabíamos. Hoje, os canudos sustentáveis vêm com kit completo e para limpá-los, já é vendido com escovinhas feito as de quem limpa aparelho fixo de dente. Aproveite e procure também copos que podem ser reutilizados e talheres de inox para zerar o seu passivo com descartáveis. Se possível, carregue junto com a boa e velha marmita. Não há como esconder. Dá trabalho para carregar na bolsa, na hora de limpar e incorporar estes hábitos ecológicos. Mas, vamos combinar, o que não dá trabalho nesta vida? Se é para fazer diferença e pensar na sustentabilidade, vamos também ficar de olho nos canudos e descartáveis. O planeta agradece. (*) Sônia Araripe é Editora de Plurale (www.plurale. com.br) , revista e site com foco em sustentabilidade. Email: soniaararipe@plurale.com.br
Economia&Negócios
Domingo, 25 de março de 2018
Receitas repassadas pela Petrobras em 2017 chegaram a R$ 25 bilhões , 50% a mais que no ano anterior
Depois de dois anos de crise, o petróleo voltou a engordar o caixa de estados, municípios e da União. Em 2017, os recursos que a Petrobras distribuiu para o poder público como compensação financeira pela exploração da commodity cresceram 50% em relação a 2016. Foram repassados R$ 25,2 bilhões. Dois fatores explicam o aumento: o preço do barril, que voltou a subir, e o campo de Lula, no pré-sal da Bacia de Santos, que assumiu o posto de maior produtor no País. Nos primeiros meses de 2018, o barril oscilou entre US$ 60 e US$ 70, o que é motivo de comemoração pela toda a cadeia da indústria do petróleo e governos, que preveem resultados ainda melhores neste ano. Em 2014, antes de iniciar a trajetória de queda, o barril estava cotado na casa dos US$ 100 - chegou a cair a US$ 30 em 2015. Nos dois anos de baixas cotações, toda indústria petroleira e as economias dependentes do petróleo foram obrigadas a cortar despesas e a se reinventar. Os fatores externos foram importantes, mas contaram com o empurrão do pré-sal. Passados 11 anos desde que foi descoberto, o campo de Lula, na Bacia de Santos, assumiu o protagonismo antes ocupado pelas grandes áreas produtoras da Bacia de Campos, como Marlim e Roncador, hoje em declínio. Com Lula, a Petrobras também ganhou importância no mercado internacional, passando a exportar petróleo de melhor qualidade e maior cotação, Em 2017, o volume de óleo exportado cresceu 32%. A área de Lula (antigo campo de Tupi) foi a primeira grande descoberta da estatal no pré-sal. Foi contratada ainda sob o regime de concessão, Os contratos posteriores já foram feitos sob o regime de partilha, que privilegia a União. Por isso, Lula é um “tesouro” para os municípios localizados em sua área geográfica de influência, como Maricá e Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Niterói Maricá
Do crescimento vertiginoso do supercampo de Lula, na Bacia de Santos, em 2017, nasceram dois “novos ricos” do petróleo no Estado do Rio: os municípios de Maricá e Niterói. Juntas, as cidades receberam R$ 1,5 bilhão em compensações financeiras pela exploração dos seus recursos naturais, 130% mais do que em 2016. O dinheiro está sendo destinado a grandes obras que não saíam do papel por falta de caixa dos municípios e eram reivindicações antigas dos moradores. Além disso, as prefeituras criaram fundos especiais que só vão poder ser acessados no futuro, quando a receita do petróleo se esgotar. Maricá e Niterói querem evitar erros
Ecologia
Canudo? Não, obrigada Como sabemos, por estas bandas tropicais há leis que pegam, outras que não. E há mudanças de hábitos na direção da trilha sustentável que realmente funcionam, outras que não passam de boas intenções. O melhor exemplo de lei que ainda não pegou foi a de resíduos sólidos, ainda hoje envolvendo atrasos e querelas entre prefeitos, Ministério Público e autoridades para evitar que sejam efetivamente responsáveis pela gestão sustentável do lixo e a erradicação de lixões. No caso de hábitos sustentáveis, o melhor exemplo é, sem dúvida, a participação dos consumidores passando a levar sua bolsa retornável de casa, substituindo as sacolinhas plásticas. Alguém se lembra quando as sacolas de mercado eram de papelão? Não só lembro, como tenho calafrios ao lembrar do verdadeiro pânico/vergonha por termos que equilibrar as compras nos sacos de papelão, evitando o risco de deixar tudo cair no chão. Cansei de catar laranjas rolando pela calçada, mal saia da loja. Tinha sete anos quando vi um plástico pela primeira vez. Lembro a idade porque ficou marcada pela viagem a trabalho do meu pai – aviador militar da Aeronáutica, hoje aposentado – para os Estados Unidos. Trouxe, como se fosse “ouro” uma sacola plástica bem dobrada. Nunca tínhamos visto uma igual. Não rasgava, era resistente e passou a fazer parte das compras de casa. Da mesma viagem também ganhei uma boneca de corpo de espuma ... plástica. Tive outras bonecas, mas esta, resistente que
•
cometidos no passado por cidades do norte fluminense, que ficaram famosas por esbanjar os royalties com projetos supérfluos, “de maquiagem” da paisagem urbana. São casos como o de Rio das Ostras, que gastou milhões para construir um calçadão de porcelanato em sua orla e como o de Campos dos Goytacazes, que construiu a própria “Disney” e um sambódromo, apesar de não ter tradição em carnaval. Com 160 mil habitantes, Maricá foi a cidade que, em 2017, recebeu mais compensações financeiras da Petrobras. Sua infraestrutura e o acesso a serviços básicos são muito precários. Apenas 4% da população têm acesso a saneamento e 35%, a água potável. Desde que o dinheiro do petróleo co-
meçou a entrar, a prefeitura aproveitou para colocar a casa em ordem, o que inclui desde a construção de um hospital de grande porte a um novo cemitério. Infraestrutura Em Niterói, município com a quarta maior economia do Estado (atrás de Campos e Duque de Caxias), a lógica é a mesma: o foco são os investimentos em saneamento, pavimentação, educação, saúde e segurança. Com o dinheiro da Petrobras, a prefeitura está construindo, por exemplo, estruturas de contenção para evitar deslizamento de encostas de morros, como os que ocorreram em 2010, em que dezenas de pessoas morreram. (Estadão Conteúdo)
Sônia Araripe
Água, governança e exemplos Uma brincadeira de realidade virtual – asa delta com equipamento 3D que simula um voo sobre rios brasileiros – foi uma das principais atrações para o público no “8º Fórum Mundial da Água”, que acaba de ser realizado em Brasília. Foi o maior evento deste tipo realizado na história (o primeiro no Hemisfério Sul), contando com representantes de 172 países e 85 mil visitantes. Mas não precisamos do mundo virtual para sabermos a relevância da temática água e seu impacto para o planeta. Inundações repentinas, escassez onde antes havia abundância...o clima está cobrando a conta do “animal pensante” e tão irremediavelmente devastador da biodiversidade. Ou alguém ainda duvida que não há outro motivo para a repentina “cachoeira” formada em plena Avenida Niemeyer? No Fórum da Água, a Conferência de Ministros aprovou a declaração intitulada “Chamado urgente para uma ação decisiva sobre a água”, fruto das discussões entre ministros e chefes de delegação de mais de 100 países. O documento, produzido por 56 ministros e 14 vice-ministros de 56 países, estabelece ações prioritárias para enfrentar os desafios relacionados ao acesso à água e ao saneamento. Educar, conscientizar e divertir foi o objetivo maior da Vila Cidadã, um sucesso absoluto de público. O espaço ofereceu variada agenda de atividades para dezenas escolas do Distrito Federal, além de crianças, jovens e famílias que se
encantaram com as atividades interativas, as experiências de realidade virtual, oficinas e filmes. É imperioso abrirmos os olhos não apenas para a questão da água limpa que chega em nossas torneiras, mas também, em meio à realidade virtual, do vergonhoso número de 100 milhões de brasileiros sem acesso à coleta de esgoto. Nem é preciso procurar rincões longínquos: em qualquer periferia de megalópole ou cidade média há padrões de saúde pública beirando padrões inaceitáveis para um animal, quiçá para um ser humano. Também foi anunciado no evento a criação do Instituto Global do Ministério Público, uma espécie de “Liga da Justiça” para fiscalizar e trocar informações sobre crimes ambientais. O Instituto reúne membros de ministérios públicos de diversas nações do mundo em torno de temas ligados à proteção dos recursos naturais. Vamos combinar – há muito do que nos orgulharmos. Como nos ensinou a professora de Geografia no tempo do Clássico ou do antigo Primário, o Brasil tem 12% da água doce do planeta e a região amazônica concentra cerca de 80% da disponibilidade hídrica do país. O drama, como mostrou reportagem da Economia do Jornal do Brasil no domingo anterior é que 70% do uso da água é para a agricultura e pecuária. Agro é pop, agro é tech, agro é água. Calma. Não estamos mirando na direção deste setor tão pujante quanto desenvolvimentista, carrean-
do o crescimento nacional. Estamos apenas registrando dados. Sobra água na Amazônia e Pantanal. Viva! Rende fotos maravilhosas em nossa Plurale e recomendamos que vejam para conferirem a poesia na alma de nossos fotógrafos, como na Edição 61 que acaba de sair. Mas – como já vivenciamos, há crise hídrica em grandes centros e quase chegamos ao clima de “guerra” entre estados e cidades vizinhas por conta de mananciais estratégicos. O Fórum alertou que “90% da população mundial depende de recursos hídricos transfronteiriços”. O evento emblemático em Brasília apresentou também bons exemplos a serem seguidos. Como projetos que “semeiam” para colher água em vários lugares ou outros que preservam. De pessoas físicas, ONGs, empresas e governos. Um verdadeiro leque de alternativas louváveis para serem multiplicadas por mim, você ou diferentes municípios. Como o Projeto Oásis, patrocinado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, usando a metodologia do “pagamento por serviços ambientais”, dando ao homem do campo uma remuneração justa pelo o que ele faz há anos – proteger a natureza. Jovens da Amazônia reaproveitaram galões grandes para recolherem água de chuva boa para reúso. Jovens voluntários de diferentes cidades estão ajudando a colher amostras de águas de rios para monito-
ramento, parte do projeto “Observando os rios”, da ONG SOS Mata Atlântica. Atualmente, são 252 grupos de monitoramento que analisam a qualidade da água em 307 pontos, 247 corpos d´água, em 104 municípios de 18 estados, como Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, envolvendo cerca de 3,6 mil pessoas. O CREA-Minas lançou cartilhas com foco em água e sustentabilidade, com o propósito de informar profissionais da área tecnológica sobre a importância da contribuição desse setor para a promoção do desenvolvimento sustentável do Brasil e do mundo. E a Coca-Cola –bombardeada globalmente há alguns anos justamente pela questão da água na Índia e em outros países – anunciou a abertura – até o fim deste ano - de oito fontes da sua água Crystal para o público em cinco estados brasileiros. Até agora, 18 empresas já assinaram o documento e se comprometeram com a gestão responsável da água, com a promoção da eficiência hídrica nas indústrias e com o combate ao desperdício. O bom senso imperou, São Pedro ajudou, mas especialistas de diversas matizes e regiões presentes no Fórum Mundial da Água, deixaram claro que este é um assunto premente, que exige governança e gestão para o benefício das presentes e futuras gerações.
Para onde vai sua carreira? É aqui que você encontra instrutores conectados com o mercado de trabalho e um programa de disciplinas, workshops, networking e leituras que vão orientar o seu futuro profissional. A Aberje e a Eseg sabem do que estão falando e têm reconhecimento público e amplo sobre isso. Analise a capacidade do curso em reunir uma diversidade de tempo de carreira, idade, formação, gênero e até objetivos de estudo entre os alunos e garanta um formato de aprendizagem efetivo.
INSCRIÇÕES ABERTAS TEL.: (11) 5627-9090
WWW.ABERJE.COM.BR/MBA
Imagem: Shutterstcok.com
Você começa fazendo uma boa escolha. E depois nossa equipe acompanha seu rendimento e seus resultados. Para onde vai sua carreira? Converse com a gente.
50 anos de teoria na prática. E de prática na teoria. Programa em parceria com a Escola Superior de Engenharia e Gestão (Eseg), qualificada no Grupo de Excelência do Índice Geral de Cursos 2012 (Inep/MEC).
15
Colunista Luiz Antônio Gaulia
VOCÊ TEM UMA IMAGEM A ZELAR?
O
World Press Photo of the Year 2018 premiou a foto de Ronaldo Schemidt , da AFP, de um manifestante em chamas nas ruas de Caracas, durante protestos contra o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela. Segundo a Canon que patrocina a competição há 26 anos foram mais de 73 mil imagens recebidas nesta edição. Milhares de fotógrafos de 125 países enviaram seus trabalhos. Uma pesquisa da própria Canon, em conjunto com a Fundação World Press Photo, apontou que a maioria dos fotógrafos inscritos desejava provocar novas percepções sobre diferentes assuntos através da captura de momentos preciosos da realidade do mundo. É um fato inegável que a força de uma única imagem pode mudar nossa percepção sobre uma determinada situação, sobre uma determinada pessoa ou marca. Nossas reputações são construídas através de imagens e memórias acumuladas como arquivos de referência de alguma instituição, empresa, personagem ou evento. Essa memória pode ser boa ou ruim e servir como uma poupança de credibilidade. Se essa conta estiver no azul, com saldo positivo e bons rendimentos é muito provável que em caso de emergência a nossa tendência seja a de confiar no proprietário dessa poupança mesmo num momento de crise. Algo como continuar vendendo fiado para o freguês mesmo que ele tenha pisado na bola. O que os olhos não veem o coração não sente, não é assim o ditado popular? Então, a interpretação de uma imagem pode gerar críticas ou elogios, admiração ou repúdio, paixão ou ódio e a fotografia do momento é a cara da qualidade de uma reputação naquele contexto. Como tudo pode mudar em dois minutos, de acordo com o slogan da Band News, ou talvez em dois segundos - o mundo está rápido demais -, eu
16
NORIO KOIKE
me arrisco a dizer que vivemos tempos de reputações relativas, credibilidades mutantes, confiança em lista de espera ou em permanente exame de vistoria. Se a reputação é a soma de um conjunto de fatores, cujo valor pode crescer ou diminuir com o tempo eu posso afirmar que zelar pela nossa imagem é uma tarefa difícil, permanente e obrigatória. Não somente quando acontece uma crise, mas também de forma estratégica, preventiva, com foco no aprendizado e em treinamento principalmente para grandes marcas, sejam elas de empresas públicas ou privadas, de líderes políticos e seus partidos, atores, pop stars, ONGs e também veículos de comunicação, professores, associações etc. O universo é grande. No mundo dos negócios, a capacitação e o conhecimento em gestão da reputação, cuidados com a imagem desejada versus a percebida vai muito além do marketing, de um job
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
de assessoria de imprensa ou agência de RP. Numa sociedade que vê muita coisa, mas enxerga pouco e cada vez mais costuma julgar e ser julgada no primeiro impacto de uma imagem é preciso estar preparado para surfar as ondas da opinião pública, nos dias de ressaca. Quem não estiver preparado para navegar nesse mar midiático, cujas imagens reais agora também disputam espaço com imagens editadas, manipuladas ou fake images, além das fake news, precisa começar a aprender mais sobre a gestão da sua reputação, diretamente ligada a uma gestão do imaginário e do simbólico ligado a uma organização inteira. E se as organizações são feitas por pessoas, cada uma delas é responsável pelo todo. Um único mau exemplo pode contaminar todo o conjunto. Quantos empregados já não causaram prejuízos enormes em termos de valor depredado da imagem de uma marca? Lembrem-
-se do caso da Domino’s, nos EUA, com dois funcionários filmando uma série de porcarias que faziam ao preparar as pizzas dos clientes ou de um funcionário da FedEx, também nos EUA, arremessando uma encomenda por cima de um muro sem o menor cuidado com o produto? Ou a célebre imagem de um funcionário dos Correios, aqui no Brasil, recebendo uma quantia em dinheiro e comprovando esquema de propina. Claro, as boas imagens também contam muito. Eu pessoalmente acredito que até de uma maneira muito mais valiosa pois a maioria das pessoas quer ver as coisas funcionando. A maioria de nós trabalha para fazer as coisas acontecerem da melhor forma possível. Queremos todos ser bem vistos e admirados. As conhecidas universidades corporativas têm disciplinas técnicas voltadas ao operacional, aos modelos comerciais ou mesmo ao marketing, mas eu aposto que nem todas possuem aulas dedicadas para esta que seria a mais importante das lições corporativas e de liderança em tempos dominados pela imagem. Entender mais e saber como construir e fortalecer a reputação da empresa em momentos de bonança e também como gerenciar riscos potenciais ou fraquezas reputacionais deveria ser do conhecimento de administradores, advogados, gestores e CEOs. Mas quem ensina isso aos líderes e gerentes? Aos coordenadores ou mesmo aos empregados? Poucos. Gerenciar uma crise ou gerenciar riscos? Parece contraditório, mas não é. Uma analogia conhecida são as duas faces de uma mesma moeda, cara
ou coroa. Um lado pode representar a vitória numa aposta e o outro lado pode ser a perda da aposta. Empresas e negócios são apostas no tabuleiro do mercado. Nossas carreiras e escolhas são apostas tanto como sociedade como quanto indivíduos. No entanto, os dois lados são inseparáveis do todo, do conjunto. Portanto, a oportunidade anda colada com a crise. Marcas vitoriosas gerenciam muito bem seu conjunto de símbolos, de valores percebidos, suas imagens e também a qualidade e a excelência de seus serviços e produtos dedicados aos clientes, bem como suas finanças, suas relações com múltiplos stakeholders e seus programas de sustentabilidade. Mas a imagem tem um peso muito grande. Não basta ser honesto é preciso parecer honesto diz um ditado popular. Discurso e prática ganham mais valor quando estão em sintonia com a forma e o conteúdo. As imagens povoam nosso imaginário e comprovam nosso discurso. As labaredas de fogo no corpo do manifestante venezuelano assim como a mancha de lama marrom do desastre da mineradora Samarco inundando o mar do Espírito Santo ou o naufrágio do navio italiano Costa Concórdia reforçam a crise e o abalo na reputação na mesma medida em que a imagem eternizada do nosso vitorioso Ayrton Senna consagra a disciplina, o mérito e a reputação impecável de um campeão. Uma boa imagem pode durar para sempre! Riscos, crises e oportunidades. Empresas, marcas, líderes e nós mesmos, ilustríssimos cidadãos comuns (co-
nectados e com centenas ou milhares de curtidas na Babel das redes digitais), vivemos sob permanente influência de opiniões, comentários que se multiplicam nas redes sociais. Estamos em conexão com o planeta e nossas imagens circulam pelo mundo. Para o bem e para o mal. Mas o que fazer diante de tanta imprevisibilidade? Como proteger negócios e investimentos milionários não só de notícias falsas, mas de potenciais riscos de reputação? Como cuidar da nossa imagem? A resposta é óbvia. Aprender com os erros e os acertos das outras marcas, estudar cases de gestão de riscos de imagem e reputação, estar preparado para quando os esqueletos caírem do armário e revelarem erros que aparentemente ninguém queria ou ninguém sabia que existiam. Compreender quais os maiores riscos que um negócio enfrenta, possui. Pensar comunicação, reputação e imagem como vitaminas e vacinas preventivas para as crises e treinar para enfrentar momentos difíceis, afinal, errar é humano. Mas essa não é uma boa desculpa. Pense nisso. (*) Luiz Antônio Gaulia (lgaulia@ bol.com.br) é Colunista Colaborador de Plurale. É Mestre em Comunicação e Sustentabilidade pela PUC Rio. MBA em Marketing pela Universidade Candido Mendes. Especialização em Comunicação Corporativa pela University of Syracuse (NY) e ABERJE São Paulo. Sócio da Talk the Walk Comunicação & Treinamentos Empresariais. Professor da FGV RIO, blogueiro (Rádio Corredor e Blog do Gaulia). Empresário e palestrante.
17
Artigo
COMO IR ALÉM NO STORYTELLING DO RELATÓRIO DE SUSTENTABILIDADE? Conheça as oito tendências da comunicação para ampliar o engajamento e a difusão do relato reputacional do GRI Por Anatrícia Borges e Pedro Borges, da Conspiração Dostô
E
m 2017, o Corporate Leadership Group (CLG), grupo formado por 13 líderes empresariais de grandes companhias globais se reuniu, a convite do Global Reporting Intiative (GRI), para discutir as principais tendências de sustentabilidade do futuro, num projeto intitulado Relatório 2025. Entre as temáticas que deverão ser inseridas na agenda das empresas até a próxima década, estão o compromisso com a mudança climática, a redução da desigualdade e a garantia dos direitos humanos. Numa breve retrospectiva, podemos dizer que, desde sua criação, o relatório de sustentabilidade do GRI tornou-se um documento essencial no compartilhamento das melhores práticas implementadas por uma organização, para contribuir a uma economia global verdadeiramente sustentável. Nestes quase 20 anos, novos indicadores de materialidade foram inseridos ao reporte, traduzindo preocupações e exigências da sociedade, em relação aos impactos sociais, ambientais e econômicos relacionados ao negócio. Se olharmos os principais assuntos discutidos no Fórum Mundial de Davos deste ano, que teve como tema central Criar um futuro compartilhado num mundo fraturado, o Acordo de Paris, a equidade de gênero, a redução da desigualdade e o fim das profissões pelo desenvolvimento tecnológico e a automação foram os mais debatidos por líderes empresarias e governantes. E todos estes contextos da sociedade global, em maior ou menor grau, já se tornaram uma exi-
18
gência das partes interessadas ao compromisso de gestão sustentável das organizações. E a tendência é, cada vez mais, crescerem na agenda empresarial. Neste novo bioma social, onde todos são produtores de conteúdo, com potencial disseminação de informações e ideias, é preciso pensar nestas temáticas na construção dos relatos reputacionais em sustentabilidade apresentados no relatório anual. Nesta nova era, entramos numa comunicação interacional que exige, acima de tudo, mais transparência e clareza nas informações. Pesquisas do próprio GRI já comprovam que as partes interessadas dedicam boa parte da leitura do relatório ao seu capítulo de interesse, se municiando de informações que possam pautar decisões, como, por exemplo, investir ou não em uma determinada companhia. Isso falando do stakeholder investidor. Outras partes interessadas, como a Mídia, buscam informações sobre projetos sustentáveis e as formas de engajamento da companhia com as comunidades, que realmente tenham impacto no entorno dos ativos e na solução de seus
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
problemas. E não duvide: em qualquer situação de vulnerabilidade da reputação, ele se torna uma poderosa fonte de informação às matérias jornalísticas. Assim foi durante toda a cobertura do acidente da Samarco, a crise da Odebrecht, BP, entre outras companhias que viveram situações profundamente graves de impacto reputacional e financeiro global em sua operação. No território da comunicação, os relatórios, desde a elaboração do conteúdo a sua difusão, exigem que as equipes gestoras das áreas de Sustentabilidade e de Comunicação pensem em novos formatos, recursos e canais para torná-lo, a cada ano, mais atrativo e com maior alcance as partes interessadas. Relatórios de grandes companhias costumam totalizar 300 a 500 páginas, resultado de um trabalho monumental, que envolve um budget alto e muitas horas de dedicação das equipes em gestão de parceiros e revisão das informações. Apresentamos algumas tendências da comunicação para ampliar o engajamento e alcance do relato reputacional de sustentabilidade.
8 TENDÊNCIAS DO STORYTELLING DE SUSTENTABILIDADE 1.Relatório Digital (APP) Esqueça a publicação impressa. Faça seu relatório totalmente digital e com recursos que viabilizem o compartilhamento de conteúdo pelos usuários, visualização em mobiles e, se tiver orçamento, invista na criação de um APP. Além de alcançar mais pessoas, reduz o impacto ao meio ambiente, tanto na produção quanto no descarte. Uma grande vantagem em usar recursos digitais para relatórios de sustentabilidade é a capacidade de rastrear as páginas, conteúdos e funcionalidades que estão obtendo maior interesse dos usuários. Além disso, o relatório online permite medir e avaliar, e os ajustes podem ser feitos de forma contínua durante o ano ou no relatório seguinte. Isso ajudará a orientar melhor os temas que ressoam com os leitores e orientar suas narrativas em comunicação de sustentabilidade. 2. Storytelling multimídia Ouse no storytelling. Ao integrar funcionalidades interativas em um relatório de sustentabilidade online, as empresas se comunicam de forma mais envolvente. Desde a transformação dos gráficos e mapas informativos estáticos em visualização de dados dinâmicos à criação de filmes curtos com narrativas visuais de locais e pessoas. Os usuários, além de acessarem mais informações, passam também a poder compartilhá-las em suas redes em contas de mídia social. Mapeie boas histórias, invista em produções multimídia e divulgue em seus canais. Algumas companhias têm inovado na realização de instalações multimídia itinerantes, oferecendo experiências de realidade virtual, como passeios no entorno dos seus ativos, transportando o público as narrativas numa espécie de user experience. 3.Busca fácil Pense na necessidade dos stakeholders em acessar uma informação de forma ágil. Se informe sobre a ferramenta “Report
Builder” ou outras disponíveis, e como elas podem expandir a legibilidade, para acesso rápido aos conteúdos de interesse. Como os relatórios apresentam muitas informações, o uso da busca fácil facilita ao usuário encontrar, em tempo ágil, a informação que realmente deseja. Lembre-se de que somos bombardeados de informações todos os dias, ter acesso fácil ao que se deseja, é garantia de engajamento. 4.Índice GRI interativo Os novos Padrões GRI são uma chance para as empresas repensarem a estrutura e o formato do Índice de Conteúdo. Ainda é necessário incluir um Índice de Contexto, mas as organizações podem usar o formato de apresentação que desejam (GRI).Em outras palavras, o GRI oferece às empresas mais flexibilidade na formatação do índice de conteúdo. 5. Visualização de dados Use uma ferramenta de análise de dados interativa que reage às solicitações dos usuários. Dentro do mesmo espaço de página, as partes interessadas podem visualizar vários gráficos informativos em uma única interface (comparações ano a ano) que, dentro de um relatório de impressão, usaria várias imagens estáticas e espaço de página excessivo. 6.Gamification Algumas grandes empresas ousaram na criação de games de experiência online interativa, para compartilhar sua atuação e a mitigação de impactos por meio de jogos digitais. Um bom exemplo é o da Heineken USA. A companhia lançou, em 2016, a Brewing a Better World, que incluía três níveis onde os usuários enfrentavam o desafio de equilibrar a vontade de competir com a necessidade de cuidar do mundo, com táticas que incluíam dirigir bem um navio para reduzir as emissões; reciclar garrafas e la-
tas vazias em um bar e participar de rodadas em um festival de música, onde o principal objetivo era se hidratar e não dirigir um carro na volta para casa. Além dos jogos digitais disponíveis no site o/u APP do relatório, há companhias investindo em instalações com o storytelling do relatório, em locais de grande acesso público, como feiras e eventos, onde os usuários podem participar de jogos de realidade virtual, com as melhores práticas de sustentabilidade. 7.Mapeamento de Influencers Mapear audiências e influencers na Web para ganhar alcance tem se tornado crucial à estratégia de difusão do relato reputacional Ao dirigir seus canais no engajamento de influencers, eles passam a atuar como interlocutores das histórias da companhia, se conectar a elas e compartilhar suas opiniões, ampliando o alcance e difusão da narrativa de sustentabilidade. Isto quer dizer, sua história contada por um especialista. 8.Difusão Web Defina uma estratégia de difusão Web e de PR, que contemple a contação de histórias interessantes sobre as ações de sustentabilidade da companhia e os principais marcos e inovações do relatório. Difunda o conteúdo num planejamento de 60 dias, com a difusão nos canais destas narrativas dirigidas às partes interessadas. Mensure o engajamento e reoriente a estratégia com a oportunidade de difusão de novas narrativas do relatório, a partir da interação e do que ressoa melhor aos stakeholders. (*) Anatrícia Borges (anatricia.borges@dosto.com.br) e Pedro Borges (pedro.borges@ dosto.com.br) são sócios-diretores da Dostô Mídia & Polifonia.
19
Artigo Fábio Rocha
LIDERANDO o intangível nas organizações
A
s questões estratégicas e intangíveis de uma organização são os grandes ativos atuais e do futuro. Organizações com grande longevidade, que saíram de grandes crises ou que tem perpetuado seus resultados são totalmente baseadas em elementos concretos ligados a capacidade de gerarem no ambiente organizacional: Propósito, Engajamento, Fortalecimento da Cultura Organizacional e Significado. A distância entre discurso e prática, valores e processos, estratégia e operação estão levando as empresas a grandes perdas, sejam elas, ligadas a seus resultados e produtividade, como também a climas organizacionais hipócritas ou hostis. Verdade, transparência e compartilhamento de resultados não podem ser meros conceitos pre-
20
sentes em credos ou em políticas corporativas, precisam ser percebidos no cotidiano das organizações, nas suas tomadas de decisões e nas histórias vividas por cada colaborador. Somado a isto temos as novas gerações cada vez mais insatisfeitas com as estruturas rígidas das organizações, com a predominância da hierarquia há uma organização viva, que gerem desafios e aprendizagem. Planos de carreiras longos em uma mesma organização e a busca constante por realização, além das multicarreiras e das carreiras sem fronteiras estão cada dia mais presentes no mundo corporativo. Apenas 13% dos profissionais no mundo estão comprometidos com seu emprego ou com sua organização, segundo pesquisa do Instituto Gallup, realizada em 142 países. Segundo pesquisa da Deloitte, no Relatório Human Capital
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
Trends em 2015, 9 em 10 executivos apontam cultura organizacional e engajamento como os principais desafios globais no mundo corporativo. Se você como líder acredita que seu foco deve se limitar a elementos como estratégia, recursos, tecnologia, saiba que não é o mundo do tangível que pode perpetuar sua organização, que pode diferencia-la do seu concorrente. E se você quer se concentrar na gestão dos ativos intangíveis, mas, não sabe como? Não tem métodos ou ferramentas para definir o marco zero destas temáticas na sua organização, por exemplo, qual é de fato a sua cultura referência (cultura desejada pela alta administração), o nível de engajamento dos seus colaboradores ou se está claro o proposito da sua organização? E se você já se concentra na gestão dos ativos intangíveis,
mas, não consegue mostrar que esta gestão tem contribuído de forma efetiva para os resultados da sua organização, não tem métricas ou indicadores que traduzam este resultado? Ou tem dúvidas de como estabelecer metas para uma transição da sua cultura organizacional? Talvez o mundo corporativo ou o ferramental de gestão disponível não tenha respostas a todas estas questões, mas, sem dúvida, iniciamos uma nova era e o fortalecimento de novos paradigmas nos campos da identidade organizacional, da estratégia, da reputação e da gestão de pessoas. Uma era que começa a tangibilizar o intangível, a conectar o subjetivo, a alma, o DNA de uma organização a elementos como desempenho, performance, resultados, market-share. E de quem é a responsabilidade de lidar com este cenário? E de quem é a responsabilidade de transformar este ambiente improdutivo em um ambiente propício? Quem pode de fato construir um ambiente colaborativo que fortaleça a cultura organizacional e crie organizações de sucesso? Quem pode gerar uma melhoria real de performance organizacional a partir de um maior grau de alinhamento das suas lideranças, gestores e colaboradores com a cultura referência? Sem dúvida, apenas a alta administração, ou as chamadas Lideranças Estratégicas podem assumir esta missão. Lideranças Estratégicas aqui definidas como lideranças da alta Administração das organizações e/ou de níveis estratégicos das Organizações, como por exemplo, membros de Conselhos, Presidente, Vice-Presidente, Diretoria, Superintendências e demais lideres estratégicos de acordo com a hierarquia da organização. Para tal, é necessário que estas lideranças coloquem nos seus
radares que elementos como Propósito, Engajamento, Cultura Organizacional e Significado são variáveis estratégicas para a perpetuidade de uma organização e para a construção de uma base sólida geradora de resultados positivos permanentes. Que estas lideranças tenham estratégias, ferramentas e competências para saberem como trabalhar de forma pragmática os elementos supracitados, sendo competentes para realizar um mapeamento do atua estágio das suas organizações nestes aspectos, saibam construir Planos de Ação para mudança deste cenário e maneiras de monitorar esta evolução. Você já se perguntou se os programas e/ou atividades realizadas na sua empresa voltados a Lideranças Estratégicas trabalham estas questões ou dão suporte a estas lideranças de como gerenciar
estes aspectos? Você tem clareza de como estes aspectos intangíveis aqui citados são trabalhados em sua organização? Seus líderes são competentes para transformar estes aspectos em ativos na sua organização? Portanto, as organizações só tem um caminho, que é colocar no seu radar de prioridades a gestão dos sues ativos intangíveis e esta missão precisa de que suas lideranças estejam preparadas para este novo mundo corporativo, que sedes, tecnologia, sistemas são apenas commoditties e não diferenciais. (*) Fábio Rocha é Colunista Colaborador de Plurale. É Especialista em Carreira, Consultor em Sustentabilidade, Professor, Coach e Diretor-Executivo da Damicos Consultoria em Liderança e Sustentabilidade fabio@damicos.com.br
21
Pelo Brasil Segunda edição da Virada Sustentável no Rio acontece em junho O maior festival brasileiro de cultura da sustentabilidade ocupa a cidade de 8 a 10 de junho com centenas de atrações para toda a família Do Rio de Janeiro
Entre 8 e 10 de junho o Rio de Janeiro será ocupado por centenas de atrações e atividades durante a segunda edição da Virada Sustentável, que tem como objetivo aumentar o engajamento da sociedade em relação à sustentabilidade, usando elementos lúdicos, festivos e inspiradores como ferramentas. O festival busca unir causas e organizações transformadoras, proporcionando uma virada de consciência na população. A Virada Sustentável reúne atrações culturais, apresentações musicais, atividades infantis, oficinas, shows, performances, atividades zen, rodas de conversa e cerca de dez painéis de conhecimento com temas relevantes no cenário atual da sustentabilidade, conduzidos por formadores de opinião reconhecidos nacionalmente. Para Renato Saraiva, coordenador do festival no Rio, “a Virada Sustentável no Rio é uma oportunidade imperdível de reflexão e entretenimento consciente para os cariocas. É um convite para pensar nas atitudes que estamos tendo com o planeta e o legado que queremos deixar para as gerações futuras. É preciso colocar o debate da sustentabilidade em pauta na sociedade e convocar as pessoas a se engajarem por um futuro melhor para todos”. O festival acontecerá em diversas regiões do Rio de Janeiro e também em outras cidades do Grande Rio. Pontos estratégicos como a Praça dos Arcos da Lapa, o Museu de Arte do Rio – MAR, a Lagoa, o Parque Madureira e algumas comunidades da Maré serão cenários da Virada Sustentável, com programação para todas as idades.
Assim como em suas últimas edições, todas as atividades têm entrada gratuita. Em junho de 2017 o festival promoveu mais de 400 atrações e ocupou 39 bairros em 84 locais do Rio de Janeiro. Celebridades que se dedicam à causa da sustentabilidade também participarão da Virada Sustentável, aumentando a visibilidade e o engajamento da sociedade neste tema tão urgente e importante para o planeta. O primeiro edital convocando para as inscrições dos projetos artísticos encerrou no dia 19 de abril. A chamada pública final de adesão de projetos para artistas, oficineiros, palestrantes, organizações, fundações, movimentos, co-
PLURALE EM EM REVISTA REVISTA || Maio Maio // Junho Junho 2018 2018 22 PLURALE
letivos, escolas, faculdades e espaços culturais acontecerá de 20 a 30 de abril, através do site www.viradasustentavel. org.br. Para se inscrever os projetos devem ter conteúdo principal ligado a pelo menos um dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU (Organização das Nações Unidas), tais como Igualdade de Gênero, Erradicação da Pobreza, Boa Saúde e Bem-Estar, Cidades e Comunidades Sustentáveis, Consumo e Produção Responsáveis e Água Limpa e Saneamento. A Virada Sustentável conta com o apoio institucional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) Brasil.
Trabalhos técnicos do IX CBUC chegam com aposta de apresentações livres de papel De Curitiba
Mais uma etapa que antecede a realização do IX Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC) foi concluída: a seleção dos trabalhos técnicos. Cerca de 130 consultores voluntários de diversas áreas de conservação da natureza analisaram 376 propostas enviadas e, destas, 85 foram aprovadas para serem apresentadas durante o evento. Trata-se de uma importante atividade de compartilhamento de informações técnicas para o público esperado do evento, que vai desde profissionais a estudantes, além de servidores, pesquisadores, gestores de áreas protegidas e tomadores de decisão. A lista com os aprovados está disponível neste link. As inscrições para trabalhos técnicos, que terminaram no fim do ano passado, tiveram cinco eixos temáticos: Biologia da conservação; Comunicação e mobilização; Novas soluções para gestão de áreas naturais; Políticas públicas para conservação; e Natureza, economia e bem-estar. Por exemplo, os trabalhos técnicos nessas linhas mostrarão novidades e boas experiências em ciência cidadã (quando pessoas ajudam cientistas a coletar informações úteis para o monitoramento de espécies e ambientes), turismo ecológico e de observação (como birdwatching), voluntariado em áreas protegidas, boas práticas de gestão de áreas naturais, incentivos econômicos para a proteção da natureza e compromissos brasileiros para metas globais. Nesta edição, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, realizadora do Congresso,
segue tendências inovadoras de eventos internacionais. Assim, as apresentações serão feitas com bannersdigitais, eliminando totalmente o uso de papel. “Nossa ideia é trazer a inovação cada vez mais para dentro do tema da conservação da natureza. Por isso, optamos por aliar a tecnologia com a dinâmica de networking, tendência que tem se mostrado positiva nos congressos técnicos pelo mundo”, relata Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário. Para isso, as apresentações, separadas pelas linhas temáticas e divididas nos três dias de evento, serão mostradas em três telas simultaneamente, e cada orador terá alguns minutos para falar de seu trabalho, focando nos principais resultados. Haverá um momento destinado aos trabalhos técnicos em que o público estará livre e aberto para um diálogo em forma de bate-papo, promovendo qualidade nas discussões e o compartilhamento de experiências bem-sucedidas de diversas regiões do país. “Nós, da Fundação Grupo Boticário, estaremos nesse
momento atuando como facilitadores entre os oradores. Escolhemos essa forma de divulgação dos trabalhos, pois, assim, os pesquisadores conseguem conversar de forma mais direta com o público, em um diálogo mais rápido e claro, deixando os termos técnicos e detalhes burocráticos de lado”, conta Malu. Inscrições gerais estão abertas As inscrições para o público interessado em participar do evento estão abertas até 19 de julho e o cadastramento está disponível por meio deste link. Realizado periodicamente desde 1997, o CBUC é um dos mais importantes fóruns da América Latina sobre áreas protegidas, seus desafios e sua importância para a sociedade. Em suas oito edições, o evento produziu diversos resultados positivos para a conservação da natureza, como a criação, ampliação e gestão eficiente de unidades de conservação. A nona edição tem como tema “Futuros Possíveis: Economia e Natureza” e acontecerá entre 31 de julho a 2 de agosto de 2018, em Florianópolis (SC).
23
Pelo Brasil
Especial
2º Encontro de Comunicação da Saúde Suplementar debate os fatores que levam ao reajuste dos planos O evento reuniu profissionais de comunicação, diretores das empresas associadas à FenaSaúde e jornalistas especializados A questão do reajuste dos planos de saúde e a dificuldade em transmitir à sociedade os reais fatores que determinam os índices de aumento foram o foco das discussões no “2º Encontro de Comunicação da Saúde Suplementar”, realizado pela Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), no dia 18 de abril, em São Paulo. Com uma plateia formada por profissionais de comunicação, diretores das empresas associadas à FenaSaúde e jornalistas especializados e renomados, o encontro teve como finalidade dar mais transparência às discussões em torno do reajuste, calculado a partir da variação dos custos médicos e hospitalares. O índice é divulgado anualmente, geralmente no mês de maio, pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Na abertura do evento, o presidente da Comissão de Comunicação da FenaSaúde, João Alceu Amoroso Lima, reconheceu que o tema do reajuste dos planos é “ácido”, porque o índice normalmente atinge a casa dos dois dígitos, enquanto a inflação oficial da economia fica bem abaixo disso – próximo a 3% atualmente. De acordo com ele, esse gap não acontece só no Brasil, mas em
24
todos os países. Por isso, afirmou, a sociedade “cobra uma satisfação”, e o objetivo do Encontro era esclarecer e debater com os jornalistas o entendimento sobre o assunto. O presidente substituto da ANS, Leandro Fonseca, disse que a Saúde Suplementar é um setor fundamental para a economia do país. O grande desafio da saúde, segundo ele, é o financiamento dos produtos, sejam públicos ou privados. Fonseca lembrou que o índice de reajuste dos planos está em dois dígitos há muitos anos e que é preciso ampliar o debate sobre como tornar o acesso à saúde sustentável e adequado, arrefecendo os custos do setor. Em sua palestra, o diretor-executivo da FenaSaúde, José Cechin, explicou que a inflação oficial da economia resulta da variação de preços de uma cesta de produtos definida pelo IBGE, para diferentes cestas de bens e serviços, ao passo que no reajuste dos planos de saúde levam-se em conta tanto os aumentos dos custos médico-hospitalares quanto a frequência dos procedimentos, isto é, a quantidade por beneficiário, tais como exames, consultas e internações. Entre os
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
custos médico-hospitalares figuram novas tecnologias, a ampliação do rol mínimo obrigatório de procedimentos e os materiais especiais. Outro fator que pressiona os custos do setor são as demandas por liminares judiciais. Para Cechin, o modelo perfeito de reajuste, se existisse e fosse encontrado, continuaria produzindo índices altos de reajuste se não se alterarem os propulsores de despesas. Por sua vez, o superintendente executivo do Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS), Luiz Augusto Carneiro, apresentou uma pesquisa inédita sobre a variação dos custos médico-hospitalares (VCMH) no Brasil e no mundo. Segundo o estudo, que analisou os dados de três das principais consultorias que apuram o comportamento do setor (Aon Hewitt, Mercer e Willis Towers Watson), no Brasil a VCMH é, em média, 3,4 vezes a inflação geral, o que não representa uma anormalidade, já que outros países têm média superior a isso, como Canadá, China e EUA. A maior variação no Brasil, de acordo com ele, está vindo das despesas com internação médica. “Metade das despesas se deve a internações”, disse.
Abrasca lança o 20º Prêmio Relatório Anual A Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) lançou a 20ª edição do concorrido Prêmio Relatório Anual, nas categorias Cias. Abertas; Cias. Fechadas e Organizações Não-Empresariais. Os trabalhos devem reportar o exercício de 2017 e terem sido distribuídos neste ano, no formato impresso ou online. O presidente da Abrasca, Alfried Plöger, lembra que a premiação foi
instituída, em 1999, por iniciativa da Abrasca, com o objetivo de incentivar o aprimoramento na elaboração de relatórios. “É preciso existir clareza, transparência, qualidade e quantidade de informações e caráter inovador, tanto na apresentação expositiva quanto no projeto gráfico”, comentou. As inscrições, gratuitas, deverão ser feitas pelo email nilsonjunior@abrasca.org.br. Serão consideradas as ins-
crições recebidas até o dia 31 de julho de 2018. As empresas que entregarem os relatórios até o dia 30 de abril de 2018 receberão dois pontos de bonificação na média geral, um ponto pela entrega até 31 de maio de 2018, nenhuma bonificação para entrega até 29 de junho de 2018 e terão a dedução de 1 ponto na média os que entregarem no último prazo, 31 de julho de 2018.
Revista RI completa 20 anos A Revista RI, editada por Ronnie Nogueira, comemorou na edição de março de 2018 seu vigésimo aniversário e se consolida como a principal e mais longeva publicação voltada para o mercado de capitais brasileiro. São 219 edições ininterruptas ao longo de sua história. Nascida em março de 1998 com o objetivo de fomentar as melhores práticas de relações com investidores, ela é hoje o principal fórum de discussão do segmento, apresentando pontos de vistas diferentes das entidades sobre como desenvolver o mercado, que se mostra pronto para ser a principal fonte de recursos para as empresas e projetos de infraestrutura em um momento de retomada da economia. “A revista sempre teve uma sessão dedicada ao IBRI - Instituto Brasileiro de Relações com Investidores - para divulgar as iniciativas
da entidade. Com o passar do tempo, fomos abrindo espaços para outras Associações do mercado como ABRASCA, APIMEC e
AMEC. A ideia é amos abrir espaço para outras importantes entidades”, afirma o editor da Revista RI, Ronnie Nogueira. A primeira edição, que tinha como o tema o “A importância da prática de um bom Disclosure”, contava com apenas 16 páginas. Havia, na época, o receio de que o assunto se esgotasse a partir da quinta ou sexta edição. Mas ocorreu exatamente o contrário. Os temas foram progressivamente crescendo e sendo diversificados, até a revista ficar hoje, em média, com 80 páginas, cinco vezes maior. Desenvolvida junto com Ronaldo Nogueira (recentemente falecido) e William F. Mahoney, a revista nasceu da visão de que era necessário estimular no Brasil o conhecimento sobre a importância da atividade e do profissional de Relações com Investidores (RI).
25
Meio ambiente
Contribuindo com o reflorestamento na
Serra da Canastra Texto de Giuliana Preziosi Fotos de Fernando Fernandes/ Divulgação e Giuliana Preziosi De Capitólio (MG), Serra da Canastra
Sempre escutei que simples ações quando realizadas por muitas pessoas podem transformar realidades e a Rede AccorHotels – que reúne grandes marcas hoteleiras, como Sofitel, Novotel, Mercure e Ibis, dentre várias outras - mostra que isso é possível. Quando você se hospeda em um dos hotéis da rede e pede para não trocar a toalha diariamente, parte da economia gerada é direcionada para o plantio de mudas na Serra da Canastra. Ao reutilizar as toalhas, os hotéis alcançam uma economia significativa, e 50% do valor arrecadado é revertido para o reflorestamento da região da Serra da Canastra, região Sul de Minas Gerais.
26
AccorHotels leva camareiros à Serra da Canastra para conhecer de perto programa de replantio do Grupo O programa Plant for the Planet, é uma iniciativa global que visa reflorestar áreas desmatadas. Beneficia diretamente 71 produtores locais da região com a preservação de mais de 241 nascentes, recuperação da fauna e flora entre os fragmentos de florestas, prevenção de processos erosivos e diminuição do assoreamento de rios e lagos. São mais de 2.100 hotéis participantes no mundo e 10 mil beneficiados diretos. Desde 2009, o projeto promoveu o plantio de mais de 5 milhões de mudas no mundo, o objetivo é atingir a marca de 10 milhões até 2021. “Incentivamos todos os hotéis da América do Sul a
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
participar desta iniciativa e, como recompensa, os que se destacam podem levar os colaboradores que atuam na área de governança para conhecer a sede da ONG Nordesta, nossa parceira, e conhecer o programa de reflorestamento de perto”, afirma Antonietta Varlese, Vice-presidente de Comunicação e Responsabilidade Social Corporativa da AccorHotels América do Sul. “Identificar que o hóspede quer reutilizar as toalhas é tarefa dos camareiros. O objetivo da viagem é ressaltar a importância das atividades diárias desses colaboradores para o sucesso do programa e mostrar a eles o resultado
do comprometimento na prática”, destaca Antonietta Varlese. Esta atitude gera economia na lavagem de toalhas e metade dos recursos vai para o financiamento do plantio de árvores. “O plantio atua diretamente na recuperação de nichos ecológicos e na formação de corredores florestais que facilitam o fluxo de fauna e flora entre fragmentos das florestas da região”, explica Antonietta. Além do Brasil, que é uma das 25 áreas de plantio global do Plant for the Planet, e tem 530 mil mudas plantadas, o equivalente a 418 campos de futebol, a AccorHotels tem outra área de reflorestamento no Peru, com 30 mil mudas, o equivalente a 42 campos de futebol. “Esperamos que a nossa região continue sendo uma das que mais contribui para atingir esta meta”, finaliza a executiva. Por ano, o Plant for the Planet economiza cerca de 22 toneladas de toalhas, o equivalente a 60 mil peças. Colaboradores são protagonistas Os protagonistas do programa são os colaboradores da área de governança dos hotéis que atuam neste contato com o cliente, na divulgação e conscientização da iniciativa. Visando reconhecer e valo-
27
Meio ambiente
rizar este trabalho, a empresa levou colaboradores do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai selecionados nas unidades que mais se destacaram no Projeto em 2017 para contribuir com o plantio e conhecer a sede da Nordesta, uma organização parceira, da sociedade civil, que viabiliza o plantio e apoia na interface com os produtores locais. Proteção de nascentes - A ONG, que é parceira do Programa há quase 10 anos, é responsável por todas as etapas do reflorestamento que já recuperou 332 hectares - o que equivale a 442 campos de futebol – e trabalha com a proteção de nascentes, entre elas a bacia do Rio Grande, Rio Paranaíba e Rio São Francisco. “A parceria trouxe inúmeras melhoras para nossas terras, como a geração de matéria orgânica, que pode ser empregada na lavoura, garantindo a fertilidade natural. Também nos mostra como podemos contribuir para aumentar o nível da água no Rio São Francisco”, conta o produtor rural Marcelo José Gazotti, beneficiário do projeto. Benefícios econômicos se somam aos ecológicos, uma vez que o plantio das árvores recupera não só as nascen-
28
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
tes, mas também áreas de recarga de lençóis freáticos. O aumento da produção de água é uma das principais conquistas do programa, tanto para os agricultores quanto para a população. Além disso, as árvores melhoram os rendimentos das culturas já plantadas, a qualidade da colheita, a recuperação da fauna e flora, a prevenção de processos erosivos, a diminuição do assoreamento de rios e lagos e a melhoria da qualidade das águas e do clima, ao mesmo tempo em que proporcionam aos agricultores recursos adicionais (como venda de biomassa, frutas, etc). Pude acompanhar essa viagem e conhecer um pouco mais das histórias desses protagonistas. O grupo de 30 colaboradores (na maioria, camareiras e camareiros) que estava ali nunca tinha sido hóspede de um hotel ou tinha participado de ação como esta. O sentimento de gratidão prevalecia em todos os momentos de interação com o projeto. Desde conhecer o produtor local, aprender sobre reflorestamento até os jantares divertidos e animados. “Vai muito além do trabalho, é compactuar dos mesmos valores que a Empresa. Eu
me sinto fazendo história, plantando árvores e construindo nascentes”, disse Maria Carmezita Santos Freire, camareira do Ibis Hotel. A camareira Silvana Maciel Furtado, também do Ibis, estava encantada com a visita à Serra da Canastra e a possibilidade de participar do reflorestamento. “Conhecer as áreas recuperadas me causou uma emoção muito grande em ver quão significante é nosso trabalho em incentivar o reuso das toalhas. A visita ao viveiro me proporcionou satisfação em impulsionar nossos hóspedes a fazer parte deste programa sustentável”, completou Edvaldo Batista, colaborador do Hotel Ibis Styles Barra Funda. Cânions - Após a visita à uma área recuperada mostrando os resultados alcançados em cinco anos, foi a vez de todos plantarem sua mudinha deixando sua marca no projeto. Para finalizar, um passeio delicioso e para muitos que estavam ali, inesquecível, pelos cânions do Lago de Furnas, principal atração da Serra da Canastra que atrai milhares de turistas para a região. Os cânions são canais, rodeados por paredões, que foram alagados, forman-
do piscinas naturais de águas cristalinas, que fazem parte do imenso lago artificial de águas verde-esmeralda, com mais de mil quilômetros quadrados. Mais do que fazer a diferença, é preciso reconhecer e valorizar aqueles que contribuem para que os resultados sejam alcançados. Nesta viagem, quem brilhou não foi a paisagem exuberante nem os saborosos queijos da região, mas sim, pessoas simples que trabalham duro todos os dias para satisfazer os hóspedes, que acreditam no impacto das suas ações na mudança para um mundo mais consciente e no seu papel em relação ao meio ambiente.
Maria Carmezita Santos Freire, camareira do Hotel Ibis
Como chegar? A Serra da Canastra fica em Minas Gerais e a cidade que costuma ser o ponto de partida para conhecer a região é Capitólio. O aeroporto mais próximo é em Belo Horizonte que fica a cerca de 280 quilômetros de distância. Para quem vai de São Paulo são aproximadamente 440 quilômetros de estrada. (*) A repórter viajou a convite da AccorHotels.
Silvana Maciel Furtado
29
Meio ambiente
E n s a i o
30
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
FOTOS:
de Giuliana Preziosi, dos Cânions de Capitólio, da Serra da Canastra (MG)
31
Água
Os oceanos estão em perigo e nós também FOTOS DE FÊ CORTEZ
Da Redação de Plurale
Q
uem nunca viu um plástico poluindo alguma praia? O drama, alertam especialistas, é que o volume chegou a uma proporção gigantesca. Poderemos vir a ter mais plásticos do que peixes nos oceanos, de acordo com previsão feita pela WWF em 2050. Atualmente, temos 8 milhões de toneladas de plástico descartadas anualmente nos mares pelo mundo. E o quê as empresas estão promovendo para tentar evitar este quadro alarmante? Para refletir sobre este cenário dramático e apresentar soluções das empresas, cerca de 350 empresários, acadêmicos, ecologistas e especialistas estiveram reunidos no World Ocean Summit, Fórum promovido pela revista The Economist em parceria com o Ocean Unite, realizado em Cancún, México. O evento foi patrocinado pela Ball Corporation maior fabricante de latas para bebidas do mundo - e algumas outras corporações e ONGs envolvidas com a causa, como a The Nature Conservancy (TNC) e Ocean Conservancy. A carioca Fê Cortez, Defensora dos Mares Limpos pela ONU Meio Ambiente e criadora do movimento Menos 1 Lixo, participou do evento e conta para os leitores de Plurale o que viu e ouviu por lá de mais relevante. Começou a conversa destacando que, para termos mares limpos, é importante primeiro entender o que está poluindo nossos oceanos, e como evitar que isso aconteça. “O fato de ter sido promovido pela The Economist, revista cujo foco princi-
32
pal é a Economia, trouxe para o Fórum um viés diferente daquilo que tenho acompanhado. O ponto de vista central, desta vez, não era o das pesquisas que apontam que se não mudarmos a forma como usamos descartáveis, teremos mais plásticos do que peixes nos Oceanos em 2050. Ou que já temos hoje 8 milhões de toneladas de plástico descartadas anualmente nos mares pelo mundo. Mas também foi posto na mesa o ponto de vista das empresas, aquelas responsáveis por produzir e distribuir o que vira lixo, e que não podemos deixar de lembrar, nós consumimos”, frisou Fê Cortez. Uma das palestrantes que se destacou no evento foi Emily Woglom, vice-presidente da Ocean Conservancy, entidade que há 30 anos mapeia o que está acontecendo nos oceanos e atua junto às empresas na tentativa de mudar o rumo das
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
previsões, que são muito assustadoras. Plásticos - Fê Cortez conta que Emily trouxe talvez o ponto mais sensato em toda a conferência, no que diz respeito ao plástico nos oceanos: precisamos renegociar nossa relação com o plástico. Nesse painel estavam presentes John Hayes, CEO da Ball, maior produtora de latinhas de alumínio, que são infinitamente recicláveis, e no caso do Brasil têm índices de reciclagem na casa dos 98% e Fernando Musa, presidente da Braskem, maior produtora de plástico do Brasil e das Américas e uma das maiores do mundo. Segundo o CEO da Ball Corporation, John Hayes, hoje já existe no mundo, pelo menos para bebidas, uma alternativa mais sustentável, que são as latas de alumínio. Ele citou que, diferente dos plásticos que vazam ainda em quantidades inadmissíveis para os oceanos, o ciclo da lata é quase fechado, “uma vez que a sucata de latas de alumínio, por terem alto valor comercial, têm em grande parte dos países uma cadeia de coleta a reinserção enorme”. Musa procurou convencer o público para a “necessidade absoluta do plástico nas nossas vidas”, por ele ter permitido um avanço impensável na civilização e diminuição de emissão de CO , porque como ele afirmou, “um ² carro com muitas partes feitas de plástico é muito mais leve, e consome muito menos combustível, logo, emite muito menos gases de efeito estufa”. O problema, lembra Fê Cortez, são as sacolinhas plásticas, copos e garrafas PET, embalagens descartáveis e todo um conjunto de itens que, somados, fazem uma grande ameaça. “Argumentar que o plástico é fundamental nesse ponto é distorcer a questão, porque até onde eu
tenho visto, pesquisas não apontam que plásticos de carros ou de bens duráveis são a grande ameaça, e sim os descartáveis, single use plastics, que têm uma vida útil de uso de menos de 10 minutos. 35% de todo o plástico usado no mundo é usado por apenas uma vez, por até 20 minutos”, adverte a ecologista. Segundo a ambientalista, não faz sentido a argumentação de vários empresários do setor do plástico, ou de empresas que utilizam muito essa matéria-prima, indicando que o problema não é a quantidade de plástico e sim a falta de gestão de resíduos e coleta nas cidades, para que todo
esse plástico possa ser reciclado. Ela lembra que cerca de 80% do lixo presente nos mares vem da terra e de rios. “Há uma questão urgente para ser resolvida sobre quantidade de plásticos e que a reciclagem por si só não resolverá.” Na avaliação de Fê Cortez, o que ficou de mais marcado após três intensos dias de discussão a respeito de como solucionamos a questão no que diz respeito aos plásticos, é quem paga essa conta. Afinal, destaca, “o plástico só é barato porque ele não paga pelas externalidades, que são seus efeitos colaterais e matar milhares de vidas marinhas é apenas um deles”. O ex-presidente da Costa Rica, e fundador do Ocean Uni-
te, que promoveu o Fórum junto com a The Economist, José María Figures, lembrou que metade do oxigênio que respiramos vem do mar, cerca de 1 bilhão de pessoas no planeta dependem do ecossistema dos oceanos como fonte primária de proteína, e mesmo sendo o maior ecossistema do mundo, conhecemos menos de 5% desse universo. Latas - Depois de Cancún, Fê Cortez fez visita a San Diego (Califórnia) e entrevistou a Dra. Jenna Jambeck, pesquisadora da Universidade da Georgia, especialista na questão do lixo marinho. “Ela deixou bem claro que ao contrário do que acontece com o plástico, o peixe não confunde o metal com alimento. E que na maioria dos casos, as latas – como têm valor comercial na reciclagem – são recolhidas antes mesmo de chegarem ao mar”, se caracterizando como uma opção de envase, já disponível no momento,
“Temos obrigação moral de preservar os oceanos”, diz enviado especial da ONU “Temos obrigação moral de fazer com que o Objetivo 14 das Nações Unidas seja fielmente cumprido porque essa é a única maneira de preservar os oceanos”. A frase é do enviado especial da Secretaria-Geral da Organização das Nações Unidas para os Oceanos, Peter Thomson, e foi repetida por ele em várias oportunidades ao longo do 8º Fórum Mundial da Água, realizado em março, em Brasília. O chamado ODS14 é um dos 17 objetivos para o Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, ratificada por 150 países em 2017, durante a Conferência sobre os Oceanos, quando o próprio Thomson presidia a 71ª Assembleia Geral das Nações Unidas. E o ODS 14 é exatamente a meta dedicada à
preservação dos mares. Em entrevista à Agência Brasil, Thomson lembrou que entre as medidas propostas pelo ODS 14 estão a redução significativa da poluição marinha de todos os tipos, especialmente a derivada de atividades terrestres, incluindo detritos marinhos e a poluição por nutrientes, a proteção dos ecossistemas marinhos e costeiros e diminuição do impacto da acidificação dos oceanos que está entre as grandes ameaças à vida marinha. “Todos precisam reconhecer que os oceanos têm sido danificados pela atividade humana e nós devemos fazer alguma coisa para reverter essa destruição.” Ele destacou a necessidade de ações concretas para o cumprimento do Objetivo e lembra que
depois da conferência em junho do ano passado, das qual participaram 193 países, foram propostos 1.400 compromissos voluntários, oferecidos por governos, sociedade civil, instituições acadêmicas e de pesquisa, comunidade científica e o setor privado. “Esses compromissos propõem saídas para problemas como a acidificação dos mares, a proibição da pesca predatória e dos subsídios para essa atividade, ampliação da ciência marinha, proteção dos ecossistemas. Então, países pequenos como os das ilhas do Pacífico e outros países em desenvolvimento aliados a países desenvolvidos podem implementar juntos ações para o consumo e uso sustentável dos recursos do oceano”, disse. (Da Agência Brasil)
33
Água
FOTO DE ANTONIO CRUZ – AGÊNCIA BRASIL
Fórum Mundial da Água termina com a participação de quase 100 mil pessoas Da Agência Brasil/ De Brasília
O
8º Fórum Mundial da Água realizado em março, em Brasília, com a participação de quase 100 mil pessoas durante os sete dias de evento. O documento final deve ser divulgado nos próximos dias, mas os coordenadores dos diversos segmentos temáticos apresentaram os principais resultados das discussões acerca dos recursos hídricos, durante a cerimônia de
34
encerramento. O balanço foi que as ações realizadas até agora em relação ao tema são insuficientes para garantir segurança hídrica para toda a população. Para o coordenador do Processo Regional, Irani Braga Ramos, do Ministério da Integração, o ritmo das ações é insuficiente em muitas regiões. “Diferentes regiões e países estão avançando em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS] a partir de pontos de partida diferentes. É necessário expandir de
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
forma sustentável os investimentos em água”, disse. “Os recursos financeiros terão de ser encontrados e a mobilização de financiamento requer boa governança”. Foram mais de 6,7 mil participações nas 59 sessões do Processo Regional e os relatórios apresentam os esforços no compartilhamento de ideias, práticas, desafios e soluções para a água. Desafios esses que, para Ramos, tendem a continuar aumentando devido às mudanças climáticas. Durante a cerimônia de encer-
ramento do fórum, a coordenadora do Grupo Focal de Sustentabilidade, Marina Grossi, do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, ressaltou o senso de urgência e a transversalidade de outros setores em torno do tema água. “Não adianta brigar e não colaborar com os setores que pegam mais água. Nosso alimento também chega mais caro se a água não chega à agricultura”, exemplificou ela. Para Marina, é preciso dar sustentabilidade e melhorar a cooperação entre os setores. “Trabalhar fora da caixa”, disse. “Se a gente não fizer ações muito mais agressivas e significativas toda essa agenda [dos ODS] não será cumprida até 2030”, ressaltou, cobrando mais apoio das Nações Unidas para o desenvolvimento de um diálogo político de alto nível. Para o coordenador do Processo Político, ministro Reinaldo Salgado, do Ministério das Relações Exteriores, a grande inovação foi a realização de um segmento de juízes e procuradores. “Isso fecha um ciclo de inclusão no processo político com todos os principais agentes públicos”, disse. “O balanço geral é de um grande êxito tanto em quantidade e nível de delegações, quanto em qualidade dos debates”, avaliou. Já para o senador Jorge Viana (PT-AC), que coordenou a Conferência Parlamentar, é importante deixar um legado do fórum, por isso, ele apresentou uma proposta de emenda à Constituição para incluir a água como direito humano. “Esse é um ponto fundamental de partida”, disse ele, lamentando ainda a ausência de representantes do países mais ricos no Fórum. Durante a cerimônia de encerramento, o coordenador do Fórum
Cidadão, Lupercio Antônio, apresentou os dez princípios pactuados durante o evento, como a educação e o acesso a informação para a efetiva participação social na gestão da água. Ele também comemorou o sucesso da Vila Cidadã, espaço que recebeu a visita de 40 mil crianças. O presidente do comitê do Processo Temático, Torkil Jønch Clausen, também apresentou os resultados das 95 sessões realizadas durante o evento. As mensagens que serão detalhadas no relatório do fórum abrangem questões sobre clima, desenvolvimento, cidades, ecossistemas, finanças,
compartilhamento, capacitação e governança. As autoridades brasileiras organizadoras do fórum também passaram a bandeira do Conselho Mundial da Água para os organizadores da nona edição, que será realizado em Dacar, no Senegal, em 2021. Grande Prêmio Mundial da Água de Quioto Ainda durante o encerramento do evento, os representantes do Fórum da Água do Japão e do Conselho Mundial da Água entregaram o Grande Prêmio Mundial da Água de Quioto. A organização vencedora da quinta edição foi a Caridade Cristã para pessoas em Situação de Risco (CCPD, sigla em inglês), do país africano Togo. A organização capacita indivíduos e grupos comunitários para melhorar o acesso a água potável e saneamento por meio da construção e remodelação de instalações de água potável e saneamento. Além disso, a CCPD organiza campanhas e oficinas de conscientização e educação. O trabalho, que vem sendo realizado desde 2013, conseguiu diminuir doenças e mortes relacionadas à água e ao saneamento em comunidades de Togo. Ao todo, foram 144 projetos inscritos de 46 países. A CCPD receberá o equivalente a US$ 18 mil dólares, que servirão para implementar o projeto e promover a gestão da água em Togo. O prêmio é entregue desde 2003. O objetivo é encontrar e desenvolver boas práticas em todo o mundo relacionadas com o tema água. A quinta edição buscou homenagear organizações que vêm trabalhando para resolver problemas críticos de água nos países em desenvolvimento.
35
Água
Água como valor para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável Por Lou Fernandes, Especial para Plurale De Brasília
O Fórum de Valor Compartilhado 2018, organizado pela Nestlé S.A, no dia 16 de março, em Brasília, com o tema “Água como Motor para Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, expressou o quanto a empresa está alinhada com a questão do uso consciente da água, dando inicio ao assunto que seria o grande foco de amplos setores da sociedade e do governo, no 8º Fórum Mundial da Água, entre 18 e 23 de março, também em Brasília. Para a Nestlé, a realização deste Fórum de Valor Compartilhado, que está na quinta edição, é uma forma de incentivar a participação de setores que desenvolvem e estudam oportunidades econômicas, de segurança alimentar e nutrição infantil e ainda o valor da gestão sustentável dos recursos hídricos que foram os principais temas das mesas redondas. A ideia da Criação de Valor Compartilhado (do inglês Creating Shared Value, CSV) nasceu quando a Nestlé completava 150 de existência e sua atuação no
36
setor de alimentação se ampliava, para além da cadeia do leite, e buscava outros segmentos como alimentos prontos, cereais, chocolates, cafés e produtos ligados à nutrição infantil. Como enfatizou o Paul Bulcke, Chairman da Nestlé S.A, na abertura do Fórum deste ano, a empresa tem como propósito criar valor e estabelecer conexões saudáveis e sustentáveis, compartilhando visões e realizações com amplos setores envolvidos com a nutrição, por exemplo. Para o Presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Luis Alberto Moreno, este conceito de Valor Compartilhado foge de um discurso populista e favorece a criação de uma consciência de ação coletiva. Na mesma mesa, Mark R. Kramer, Professor Visitante da Harvard Business School, anunciou que Valor Compartilhado vai se tornar um curso em Harvard para que possa oferecer oportunidades de inovação. Partilhando valores se gera prosperidade Em todas as falas dos participantes do Fórum de Valor Compartilhado 2018, qualquer empreendimento só prospera gerando
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
valor para toda a sua rede de relações. Na mesa cujo tema foi a “Criação de valor compartilhado entre água, segurança alimentar e nutrição infantil”, Laurent Freixe, Vice-Presidente Executivo e CEO da Zona Américas da Nestlé S.A, enfatizou que esta iniciativa de criação de valor faz parte de um processo que envolve não só a abordagem dos temas essenciais para seu negócio – Nutrição, Água e Desenvolvimento Rural –, mas também o atendimento integral dos Princípios Nestlé de Gestão Empresarial, a promoção da
FOTO DE DIVULGAÇÃO
sustentabilidade e a conformidade ética e legal. Claudia Sadoff, Diretora Geral da Internacional Water Management Institute, destacou a importância de se gerar confiança criando uma economia mais sustentável com projetos que sejam mais viáveis economicamente como no tratamento da água e na dessalinização da água do mar para torná-la potável. Para a Co-Diretora da Ashoka Suíça, Stefania Avanzini, criar oportunidade em pesquisa e no incentivo de trabalhos que encontrem saídas para
o maneja e uso da água de forma criativa e participativa. Na mesma mesa, moderada pelo Executivo Chefe da SustainAbility, Rob Cameron, com o tema “a conexão entre água e geração de emprego”, Pio Wennubst, Vice-Diretor Geral da Agência suíça de Desenvolvimento e Cooperação, ressaltou que 80% dos empregos no mundo dependem da água. Conforme destacou Mark Schneider, Ceo da Nestlé S.A., responder a preocupação de Pio Wennubst, o Valor Compartilhado é uma busca por parcerias cria-
tivas, enfatizando a importância de se manter o relacionamento e incentivar com recursos para que os projetos não declinem. Outros pontos destacados, como enfatizou a moderadora Patrícia Campos Mello, repórter especial e colunista da Folha de S. Paulo e TV Bandeirantes, foi o de encontrar saídas para o desperdício de água por vazamentos, tecnologia para os agricultores saberem mais sobre as variações climáticas, a redução da produção de proteína que consome muito mais água do que a produção agrícola, entre outros temas. Na mesa, cujo tema ressaltou “o valor da gestão sustentável dos recursos hídricos”, mediada por George Kell, Diretor fundador do Pacto Global da ONU e Chairman da Arabesque Partners do Prêmio CSV, os participantes ressaltaram a importância de se priorizar o estudo de novas tecnologias que apoiem e incentivem os agricultores, destacando o planejamento de médio e longo prazo. Para dar apoio na busca dessas soluções, a Nestlé estabeleceu um conjunto de 39 compromissos socioambientais que devem ser cumpridos até 2020 ou antes para suas operações, para fornecedores, produtores rurais, clientes, consumidores e demais envolvidos na cadeia de valor. A execução de projetos voltados ao cumprimento das metas é feita em nível local, por cada subsidiária, sob coordenação da Nestlé S.A., por meio dos conselhos Nestlé in Society Board e Creating Shared Value Board, para assim considerar o que for singular de cada local onde a Nestlé está inserida, o que reforça cada vez mais que o valor deve ser compartilhado. (*) A jornalista de Plurale viajou a convite da Nestlé do Brasil.
37
Tecnologias sustentáveis
8ª FIEMA:
A sustentabilidade como prática e como caminho
Mais de 7,6 mil visitantes, 80 expositores e muita difusão de conhecimento marcaram a oitava edição da Fiema Brasil em Bento Gonçalves/RS Por Maurette Brandt, Especial para Plurale Fotos de Divulgação/Fiema e Maurette Brandt De Bento Gonçalves (RS)
Inovação, iniciativa e dinamismo foram a tônica da 8ª. Feira de Negócios, Tecnologia e conhecimento em Meio Ambiente, evento bienal que movimenta o mercado da sustentabilidade e promove a difusão do conhecimento. Única nessa modalidade no sul do país, a Fiema Brasil 2018, que aconteceu de 10 a 12 de abril, avança ao apontar na direção da sustentabilidade como ferramenta de negócios e tornar visíveis não só as novas tecnologias e processos, mas as oportunidades comerciais que esse mercado vislumbra. Este ano, a FiemaCom, o braço de
38
difusão do conhecimento da Fiema, apresentou um congresso (Tecnologia para o Meio Ambiente) e quatro seminários: Segurança do Trabalho, Energias Renováveis, Gestão Ambiental na Agropecuária e o inédito Seminário Internacional de Resíduos Industriais e Urbanos. Meeting Empresarial - A quarta edição do esperado Meeting Empresarial, evento que inaugura a Fiema, reuniu três autênticos pesos-pesados do pensamento empresarial brasileiro: Clóvis Tramontina, presidente do Conselho da Tramontina; Oscar Motomura, executivo principal da consultoria de gestão Amana-Key; e Antonio Joaquim de Oliveira, presidente da Duratex. O encontro teve o tom de uma conversa informal e foi muito além das fronteiras das empresas ali repre-
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
sentadas. Enquanto Oscar Motomura destacava a liderança consciente e a visão do todo maior como qualidades intrínsecas das organizações eternas, Clóvis Tramontina esmiuçava o slogan da empresa, “Prazer de fazer bonito”, como a síntese de pontos essenciais, como valorização das pessoas, liderança, transparência, satisfação do cliente e sustentabilidade como valor primordial, desde o início das operações. Antonio Joaquim de Oliveira, da Duratex – o sexto presidente em 67 anos de existência da companhia – assegurou que, na visão da Duratex, sustentabilidade é o caminho da perenidade e da longevidade empresarial, na medida em que o investimento em sustentabilidade é aquele que a organização nunca deixaria de fazer, em hipótese alguma. Por isso, a compreensão e o entendimento da estratégia de
4º Meeting Empresarial reuniu Clóvis Tramontina, presidente do Conselho da Tramontina; Oscar Motomura, executivo principal da consultoria de gestão Amana-Key; e Antonio Joaquim de Oliveira, presidente da Duratex.
sustentabilidade em todos os níveis da organização é essencial para promover engajamento e inspiração. Abertura oficial: compromisso com a sustentabilidade Na abertura oficial da 8ª. Fiema Brasil, o governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori, o ministro interino da Agricultura, Eumar Novacki, o representante do Ministério Público Federal no RS, Keller Clós, e prefeito municipal de Bento Gonçalves, Guilherme Pasin, manifestaram seu compromisso com o desenvolvimento sustentável do Rio Grande do Sul. Queremos ser reconhecidos como referência no Terceiro Setor por uma governança responsável e sustentável,
dentro de um projeto de Brasil sem poder ou ideologia – afirmou o governador Sartori. Keller Clós, em nome do Ministério Público, demonstrou entusiasmo com o projeto de construção, em Bento Gonçalves, da primeira usina de resíduos sólidos urbanos do RS. Para o prefeito Pasin, “é hora de zerar o abismo entre teoria e prática; ou seja, é hora de fazer. “ Eumar Novacki, ministro interino da Agricultura, ressaltou a importância do setor agropecuário para o país, como gerador de um em cada três empregos, e o empenho do setor em gerar soluções sustentáveis.
Autoridades abriram o evento em Bento Gonçalves: o governador do Rio Grande do Sul José Ivo Sartori, o ministro interino da Agricultura, Eumar Novacki, o representante do Ministério Público Federal no RS, Keller Clós, e prefeito municipal de Bento Gonçalves, Guilherme Pasin
Destaques da FIEMACOM Com quatro auditórios funcionando ao mesmo tempo e uma variedade de temas em discussão, tentar acompanhar tudo que acontece na FiemaCom resultaria numa tarefa inglória. Afinal, a tecnologia, por mais avançada que esteja, ainda não nos permite estar em vários lugares ao mesmo tempo. Durante os três dias da feira, palestrantes da indústria, do meio acadêmico e de organismos internacionais debateram questões candentes para a sustentabilidade em quatro seminários e um congresso, sempre com casa cheia. Empresários, estudantes e formadores de opinião se dividiram como puderam entre as várias sessões. O que mudou na legislação trabalhista O advogado Ricardo Abel Guarnieri, da Dupont Spiller Advogados e Associados, traçou um panorama das mudanças incorporadas à legislação trabalhista – que, segundo ele, buscam facilitar os processos decisórios em meio aos 922 artigos da CLT e mais 1.202 súmulas (interpretações individuais das leis). Temas como o princípio da intervenção mínima, que busca validar convenções e acordos
39
Tecnologias sustentáveis entre patrões e empregados sem interferência do Judiciário; redução, de 10 para 2 anos, do prazo para apurar responsabilidades de sócios que se retiraram de uma empresa; aspectos como tempo à disposição, compensação de jornada, banco de horas, jornadas 12 x 36, entre outros, podem ser acordados individualmente entre patrões e empregados, assim como os contratos de teletrabalho (trabalho remoto) têm validade legal a partir do cumprimento de algumas condições essenciais. Os próprios conceitos do trabalho sofreram muitas transformações e pediam instrumentos que as acompanhassem. Agora, muitos aspectos estão contemplados pela legislação – esclareceu Ricardo. – Isso não esgota todas as possibilidades, mas facilita bastante para patrões e empregados. Soluções de segurança A experiência da Du Pont em segurança acabou se transformando num de seus negócios mais importantes, no Brasil e no mundo. Hoje a empresa vai além dos portões de suas fábricas e ajuda outras organizações a compreenderem o valor da segurança e torná-la parte indissociável de suas operações. Roberto Sarli Jr., da Du Pont, detalhou algumas soluções surpreendentes, como o Programa STOP (Treinamento em Segurança por Observação) e a solução Fator de Risco,
Roberto Sarli Jr., da Du Pont
com exemplos, estatísticas e muitas ferramentas motivacionais. Energias renováveis O 2º Seminário apresentou e discutiu alguns cenários no universo das energias renováveis, tanto do ponto de vista acadêmico quanto das empresas e do governo estadual. Na esfera governamental, o processo de licenciamento ambiental, aplicabilidade e políticas de incentivo foram apresentados em detalhe. Energia hídrica (CPFL), biogás e biometano (Sulgás), energia solar (UCS) e energia eólica (Eletrosul), foram outros temas aprofundados no debate. Tecnologia ambiental Quinze encontros sobre os mais variados temas – gestão pós-consumo, resíduos da saúde, gestão de águas O público prestigiou a 8ª Fiema, comparecendo a todas as atividades do evento.
40
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
superficiais, processos para tratamento de resíduos, ODS (objetivo de desenvolvimento sustentável), processos avançados no tratamento de efluentes, entre outros – apresentaram e discutiram as mais recentes tendências em tecnologias para o meio ambiente, com a presença de especialistas do Brasil e do exterior, empresas e do meio acadêmico. Gestão ambiental na agropecuária Com três palestras e três painéis, o 6º Seminário colocou em discussão o futuro ambiental do agronegócio e analisou vários passivos ambientais da atividade, ao lado de soluções para reduzi-los e gerenciá-los de modo sustentável. Inovações de startups do setor e soluções para gerenciar passivos na produção animal e na agricultura familiar ampliaram as discussões. Resíduos industriais e urbanos Com um olho na aplicabilidade de experiências internacionais bem-sucedidas, o 1º Seminário apresentou, em sua estreia na Fiema, os casos de sucesso da Finlândia e de Portugal no gerenciamento de seus resíduos. A partir do cenário detalhado pelo Prof. Francisco Leme, coordenador do evento, o Seminário apresentou também a comissão formada para estudar a instalação da primeira usina destinada ao tratamento e gerenciamento de resíduos industriais e urbanos do RS, a ser instalada em Bento Gonçalves.
Na exposição, novidades por toda parte Separação veloz Caminhar pela feira com um olhar para o novo é um exercício surpreendente. A cada esquina se pode encontrar algo diferente e inspirador, como a máquina que separa itens recicláveis por tipo, que atraía muitos visitantes para o estande da Reciclacity. Num dado momento, garrafas pet saltavam alegremente para compartimentos específicos, enquanto o restante dos itens desfilava na esteira, à espera de serem programados. Daqui a pouco era a vez das latas, e assim por diante. Carro elétrico: energia limpa e barata A poucos metros estava o carro elétrico - que, guardadas as devidas proporções, pode ser carregado da mesma forma que um celular. Só que o carregador, a tomada e a bateria são um pouquinho maiores. O modelo em exposição, uma minivan, tem preço na faixa de 170, 180 mil reais e pesa uma tonelada, devido à bateria. Segundo os expositores, há pelo menos 60 veículos elétricos de fabri-
cação chinesa em circulação no país. A carga pode ser feita em postos especializados, que já existem em algumas capitais, mas nada impede que se instale um carregador em casa. Uma carga completa permite rodar até 400 km, por um custo entre 10 e 20 reais. E sem emissões poluentes. O modelo apresentado na feira era 100% elétrico, mas existem também os veículos híbridos, que usam gasolina para dar a partida. Esses geram emissões. As baterias anti-explosão são protegidas contra tombamento e amassamento, o que traz mais segurança ao veículo. Resíduos viram brindes, tijolos, estrados e até móveis Um dos brindes mais interessantes à disposição na Fiema era um porta-lápis versátil, com quatro compartimentos e de textura bem específica, disponível em cores escuras. Fabricado pela empresa Bio8, o porta-lápis era o resultado de uma parceria firmada há dois anos: a Bio8 retirou e processou todo o resíduo da 7ª. Fiema e, com parte dele, confeccionou
os brindes. Tijolos feitos de restos de tecido e termoplásticos, estrados de “madeira plástica”, mobiliário urbano, mesinhas, banquetas e até placas de trânsito podem ser produzidos a partir da reciclagem de vários tipos de materiais. Tudo se transforma também na indústria sustentável. Biomassa a partir de resíduos florestais e de embalagens Um caminhão de grandes proporções, repleto de madeira picada e acoplado a outro veículo semelhante a uma betoneira gigante, cumpria um circuito especial: recolher resíduos florestais certificados, numa situação, e resíduos de madeira de embalagens, em outra, processá-los no maquinário do veículo acoplado e gerar, como produto final, biomassa para produzir novos itens. Processo otimizado e ambientalmente correto, que gera transformação e aproveitamento total dos resíduos. (*) Plurale viajou a convite da Fiema Brasil.
41
Ecometano inaugura maior usina do país na conversão de biogás de aterro sanitário em GNR especificado Texto e Fotos de Luciana Tancredo de Plurale De Fortaleza (CE)
Foi inaugurada em abril, em Caucaia, na grande Fortaleza (CE) a maior usina do país a converter biogás de resíduos urbanos na produção de gás natural renovável (GNR) especificado dentro dos parâmetros da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). A GNR Fortaleza contou com um investimento de R$ 100 milhões: é um projeto da Ecometano em parceria com a Marquise Ambiental – empresa de tratamento de resíduos e terceira maior coletora de lixo do país.
42
Localizada no Aterro Sanitário Municipal Oeste de Caucaia (CE), que recebe diariamente cerca de 3 mil toneladas de resíduos sólidos domiciliares da Região Metropolitana de Fortaleza, a GNR Fortaleza tem capacidade imediata para produzir aproximadamente 80 mil m3 diários de biometano. A previsão, no entanto, é expandir esse volume para até 150 mil m3 diários – o suficiente para abastecer com gás natural veicular (GNV) mais de 10 mil automóveis por dia. O prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, destacou que “a criação dessa usina é um passo para um Ceará mais moderno, inovador e sustentável, transformando o pas-
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
sivo do lixo em gás verde de múltiplos potenciais de uso como, por exemplo, matriz energética para utilização da indústria”. E o Governador do Ceará, Camilo Santana, em seu discurso na solenidade de inauguração, destacou “a ousadia e coragem da iniciativa privada em acreditar e investir no empreendimento”. A Ecometano é pioneira na especificação de biogás oriundo do lixo. Depois de purificado, ele é convertido em biometano, que tem as mesmas características físico-químicas do gás natural fóssil. Com isso, é possível injetar o produto diretamente nas redes de distribuição de gás natural. Desde o
FOTOS DE LUCIANA TANCREDO
ano passado, esse procedimento já é feito na outra usina da empresa, a GNR Dois Arcos, em São Pedro da Aldeia (RJ). Com uma geração de 10 mil m3 diários de biometano por dia, ela foi a primeira planta do país autorizada pela ANP a injetar o gás diretamente na rede de uma concessionária local. O modelo de negócios da Ecometano se adequa à Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada e sancionada em 2010. “O Brasil apresenta um enorme potencial para esse tipo de combustível renovável, com mais de 250 mil toneladas de lixo produzidas diariamente. Hoje, parte relevante do volume de biogás acaba se perdendo na atmosfera”, disse Carlos de Mathias Martins Jr., diretor executivo da Ecometano, acrescentando que, além das duas usinas em operação, a empresa já estuda um novo projeto no Sudeste. Injeção direta na rede de gás natural Parte da produção da GNR For-
taleza já está sendo entregue por meio de um gasoduto dedicado à Cerbras, empresa de revestimentos cerâmicos que atende ao Norte e ao Nordeste do país e exporta para 31 países. Mas, assim que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) autorizar, o biometano produzido pela GNR Fortaleza poderá ser injetado diretamente na rede da Cegas – a concessionária local – e comercializado para os consumidores. A GNR Fortaleza capta o biogás de 230 poços espalhados pelo aterro de Caucaia. Na sequência, o produto é encaminhado a uma planta de purificação, onde é transformado em biometano. Esse processo é complexo, mas a Ecometano desenvolveu junto com seus engenheiros, uma metodologia própria de purificação de gás, baseado em diversas tecnologias disponíveis no mundo. Buscou as melhores soluções existentes para montar uma cadeia de purificação própria. “Integramos todas essas tecnologias e criamos uma planta industrial
nossa, brasileira, adequada a nossa realidade, que prevê por exemplo a falta de água do Ceará, com um processo produtivo que utiliza pouquíssima água“, frisou o gerente de implantação de projetos da Ecometano, Thales Motta. Além da geração de biometano, usinas de biogás também evitam o lançamento para a atmosfera de gases nocivos resultantes da decomposição natural do lixo. “Antes, o gás produzido no aterro de Caucaia era desperdiçado, sendo queimado ou emitido para a atmosfera. Com a GNR Fortaleza, além de suprir cerca de 30% das necessidades de gás natural do estado, vamos reduzir a emissão do metano, que é 21 vezes mais nocivo como gás de efeito estufa do que é o CO2. (dióxido de carbono)”, explicou Thales Motta. O projeto está inscrito no mecanismo de desenvolvimento limpo da ONU, e já está acumulando crédito de carbono, que futuramente poderá ser vendido em leilões internacionais, gerando uma nova fonte de renda para a empresa. Sobre a Ecometano Fundada em 2012, a Ecometano é uma empresa pioneira na tecnologia de conversão do biogás oriundo de resíduos sólidos urbanos, resíduos orgânicos e vinhaça em biometano especificado segundo os parâmetros da ANP. Oferece soluções sustentáveis para reduzir graves impactos ambientais – como os provocados pela disposição incorreta de resíduos e pela emissão de gases de efeito estufa – e levar um combustível limpo a áreas remotas do país, onde não existe rede de gasodutos. A estratégia da empresa é inovar na cadeia do biometano, unindo sua produção a partir de fontes renováveis com processos e mercados consumidores, de forma economicamente viável e a um custo acessível à sociedade. (*) Plurale viajou a convite da Ecometano.
43
Mineração À esquerda, construção da nova Barragem da Anglo, à direita, as runínas de Bento Rodrigues, quase três anos após o acidente FOTO DE DIVULGAÇÃO/ ANGLO
MARIANA: recordar é mais que necessário
19 mortos, um rio devastado, centenas de atingidos. Nenhum preso. Multas proteladas. Novas barragens em processo acelerado de construção criam tensão Por Hélio Rocha, de Minas Gerais Especial para Plurale Fotos de Guilherme Bergamini e Guilherme Dardanhan (da Assembleia Legislativa MG), Flávio Tavares, da Agência Pública e Divulgação/Anglo Com entrevistas de Lucas Ferraz, da Agência Pública
Em 2018, o desastre de Mariana chegará ao seu terceiro ano, ainda sem que tenham sido punidos os responsáveis pelos procedimentos de segurança na barragem de Fundão, operada pela Samarco, empresa controlada por Vale e
44
BHP Billiton. Embora ressarcimentos por mortes tenham sido pagos ainda em 2016, danos imensuráveis, ao meio ambiente e à economia das mais de 600 famílias atingidas, seguem parcamente reparados. Em paralelo a isso, novos empreendimentos surgem em Minas gerando apreensão e indicando que lições podem não ter sido aprendidas. Em agosto do ano passado, foram suspensos os processos criminais contra a Samarco e suas duas controladoras, bem como contra outros 22 diretores indiciados por negligenciar investimentos em segurança. Em janei-
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
ro daquele mesmo ano, a Justiça suspendeu a obrigação do pagamento de R$ 1,2 bilhão pela mineradora. Conforme a assessoria, a empresa iniciou o pagamento parcelado da multa de R$ 134 milhões da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad), tendo quitado a entrada e mais nove parcelas, no total de R$ 26,5 milhões, aproximadamente. O total estipulado, no entanto, segundo apuração do jornal El País, é de R$ 552 milhões, o que faria do valor pago menos de cinco por cento. Quanto ao retorno das atividades da empresa, noticiado como possibilidade iminente na edição 58 de Plurale em Revista, segue o impasse, devido à dificuldade de obtenção de licenciamentos entravados junto ao Poder Público. O retorno, porém, estaria facilitado, conforme apurou Plurale, pela saída da BHP da administração conjunta com a Vale. Isso tornaria mais fácil a atribuição e cobrança de responsabilidades sociais e ambientais por parte da Justiça e dos cidadãos. A empresa informou que está empenhada em cumprir todas as etapas desses processos de licenciamentos, que incorporam novas solu-
FOTO DE GUILHERME DARDANHAN/ ALMG
Conceição do Mato Dentro: comunidades temem nova barragem Outra barragem, sete vezes maior que Fundão e Santarém, é erguida no município de Conceição do Mato Dentro, região central de Minas Gerais. A responsável pela obra é a Anglo American, mineradora global, sediada em Londres. A obra faz parte do projeto Minas-Rio, que prevê a criação de canais para exploração e escoamento do minério. A Anglo American afirma “ser o empreendimento seguro, constantemente monitorado por custosos e precisos métodos e tecnologias de segurança”. Porém, comunidades temem possíveis riscos. A exploração é referente a algo entre 16 e 18 milhões de toneladas de minérios de ferro, que são transportados por 500 km de mineroduto até o Porto de Açu, no litoral norte do Rio de Janeiro. A obra permitirá investimentos e o aumento de até 60% na produção, o que permite o aquecimento de uma economia combalida pela crise econômica, mas demandará intervenções ambien-
FOTO DE GUILHERME GULHERME BERGAMINI/ ALMG
ções no tratamento de rejeitos, com aumento da segurança e da recirculação da água no processo produtivo.
tais que preocupam a população, que já sofre com a seca. Como o minério de Conceição do Mato Dentro não tem a mesma qualidade daquele na região de Ouro Preto e Mariana, o processamento para a extração demandará mais uso de água e, por consequência, gerará mais rejeitos. A reportagem mais completa sobre o caso é da Agência Pública, segundo a qual quase 400 pessoas, a maioria negra e pobre, dependente do terreno onde praticam agricultura de subsistência, estão logo abaixo do local onde foi erguida a barragem. O distrito de Passa Sete, um dos mais ameaçados, fica a 1,5
km da barragem, bem menos que os 5 km que separavam Fundão de Bento Rodrigues. O avanço da mineração pela Anglo American causa, inclusive, ações compulsórias de desapropriação, visto que a Constituição de 1988 prevê como pertencente à União os recursos minerais, inclusive do subsolo. Em relato à Agência Pública, o lavrador Lúcio Pereira da Silva, 52, contou que deixou o terreno onde vivia no início do ano passado. Fixou moradia num barracão sem energia elétrica, em terreno próximo ao local onde vivia, na contramão do que fizeram outros moradores vizinhos,
45
Mineração FLÁVIO TAVARES – AGÊNCIA PÚBLICA
Lavrador Lúcio Pereira da Silva - “Ameaça não é só colocar arma na cabeça de alguém. É tirar o modo de sobreviver. É tirar a água. A forma de viver”, lamentou à Agência Pública.
que preferiram deixar as cercanias da nova barragem. Lá, ele cultiva mandioca, cana e milho e recebe R$ 85 do Programa Bolsa Família, mas recusou indenização que poderia receber da empresa e, inclusive, um salário-mínimo que lhe foi oferecido como reparação, visto que o benefício não poderia se estender a outros atingidos. “Ameaça não é só colocar arma na cabeça de alguém. É tirar o modo de sobreviver. É tirar a água. A forma de viver”, lamentou Lúcio à Agência Pública. Promotor do Ministério Público (MP) na comarca de Conceição do Mato Dentro, Marcelo Mata Machado disse à Agência Pública : “Ninguém aprendeu nada com o maior desastre ambiental do país. O estado comete os mesmos erros vistos em Mariana”. Em nota à Plurale, a mineradora informou que “mantém relações de transparência e respeito com a população atingida, trabalhando em conjunto com os Governos municipal e estadual, com ONGs e líderes comunitários”. Também argumenta “que produz relatórios periódicos de garantia da qualidade e
46
da segurança de seus procedimentos, além de desenvolver programas de atendimento à população, podendo ambos serem conhecidos na página de internet e nas redes sociais da empresa”. Legislativo busca mudar regras para barragens Do Poder Legislativo, na figura da Comissão Extraordinária de Barragens da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), instituída em 2015 para investigar o crime ambiental de Mariana, vem a iniciativa de mudar a atual configuração da exploração de minérios no estado. O objetivo é torná-la mais segura e sustentável, a despeito do ônus financeiro que o benefício à população e ao meio ambiente vai causar às mineradoras. Projeto de Lei (PL) que deve ir ao plenário ainda neste primeiro semestre de 2018, o PL 3.676/16, que atualmente aguarda parecer de 2o turno na Comissão de Minas e Energia, busca viabilizar alternativas técnicas às barragens de contenção. De acordo com a proposição, a área será definida no momento do licenciamento ambiental pelo Sistema Estadual
PLURALE EM REVISTA | Março / Abril 2018
de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema), priorizando locais onde não haja ocupação humana ou manancial destinado a abastecimento público, ainda que isso implique aumento no ônus do transporte. O Sisema também manterá cadastro atualizado das estruturas estabelecidas no estado, classificadas conforme seu potencial de dano ambiental, e este inventário será publicado anualmente. O relator da Comissão das Barragens, deputado estadual Rogério Correia (PT), afirmou à Plurale que o andamento das votações esbarra no lobby das mineradoras em Minas, porém a aprovação permitirá procedimentos mais seguros para a manutenção das atividades das empresas. “Trabalhamos com a ideia da barragem erguida a jusante, de modo que haja mais linhas de contenção de rejeitos, proporcionando menos sobrecarga. Também será optativa a criação do rejeito seco, que resulta em blocos sólidos depositados em área segura, ao invés da lama que ficava acumulada no chamado ‘alteamento a montante’, que será proibido”. Movimentos sociais pedem celeri-
FOTO DE LUIZ SANTANA/ ALMG
Representantes do MAB e de movimentos sociais pressionaram deputados da Assembleia Legislativa de Minas Gerais por aprovação e nova legislação
dade no processo de aprovação do PL 3.676/16, visto que a medida impactaria outros empreendimentos que surgem em Minas Gerais, inclusive aquele da Anglo American, que afirma já proceder com o alteamento a jusante e que, portanto, acompanha o caso com tranquilidade. O Movimento dos Atingidos por Barragens (Mab), principal do Brasil na luta contra o impacto ambiental e social da mineração, defende a aprovação não apenas desta lei, mas também de uma política estadual de atingidos por barragens, proposta pelo Governo de Minas Gerais através do PL 3.312/16, que representaria a primeira delimitação de direitos dos moradores próximos ao exercício da mineração. “Defendemos um marco legal de garantia dos direitos dos atingidos, tendo em vista que existe um padrão de violação de direitos humanos de pessoas afetadas por empreendimentos”, afirmou o coordenador do Mab, Joceli Jaílson José Andrioli. “Desenvolvimento econômico sem desenvolvimento social não interessa ao povo”, afirma a coordenadora estadual, Aline Ruas.
Ministério Público volta a repreender Samarco, que é denunciada na Onu No início de abril, o Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) e Espírito Santo (MP-ES), juntamente ao Ministério Público do Trabalho (MPT) enviaram repreensão oficial à Samarco pelo que consideram “violação aos direitos dos atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão”. Segundo os órgãos, a Fundação Renova, criada pela Samarco para ações de responsabilidade social e reparação dos danos causados pelo crime de 2015, não vem cumprindo com seu papel, retardando ações de reparação e causando mais transtornos que soluções. As Defensorias Públicas do Espírito Santo (DP-ES) e da União (DPU), junto às ONGs Conectas Direitos Humanos e Justiça Global, o Mab, a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), encaminharam denúncia à Organização das Nações Unidas (ONU), em texto que detalha problemas como a demora na reparação aos danos sociais e ambientais, bem como a mar-
ginalização dos atingidos nos processos decisórios quando aos procedimentos tomados pela Fundação Renova. A Renova, por sua vez, argumentou em nota que tem procedido corretamente ante todos os danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, tendo concluído em janeiro a etapa solicitação para indenização dos impactados, levantando todos os prejuízos a serem ressarcidos. Serão levados em conta prejuízos materiais diretos e indiretos, como a privação de atividade econômica. Também foram concluídos quase 3 mil acordos para indenização de pescadores, segundo a fundação, em processo acompanhado por órgãos especializados. Ainda segundo a Renova, “serão investidos R$ 500 milhões no financiamento de obras de saneamento nas regiões atingidas. Serão iniciadas as construções de novos vilarejos para substituir Bento Rodrigues, Gesteira e Paracatu de Baixo.” A Fundação também informa que “paga um salário mínimo, acrescido de 20% para cada dependente, aos pescadores inviabilizados”, mas fez a ressalva de que tal obrigação foi estabelecida com anuência do MPT, do Poder Público e de órgãos técnicos. Recente reportagem de O Globo – da jornalista Daniele Nogueira - alerta que do total de multas ambientais aplicadas às mineradoras, apenas 3,4% das multas foram pagas. E que fiscalização falha e Justiça lenta dificultam cobrança de cerca de R$ 785 milhões. Fontes externas: Agência Pública - https://apublica. org/2018/01/a-sombra-da-tragedia-de-mariana/ Defensoria Pública do Espírito Santo - http://www.defensoria.es.def.br/site/ index.php/2018/04/13/dpes-e-outras-entidades-denunciam-onu-falta-de-reparacao-atingidosas-pelo-crime-da-barragem-de-fundao/ El País https://brasil.elpais. com/brasil/2017/08/08/p olitica/1502229456_738687.html O Globo - https://oglobo.globo.com/ economia/empresas-envolvidas-em-desastres-ambientais-quitaram-so-34-de-785-milhoes-em-multas-22657874
47
VIDAS a u d á v e l
SÔNIA ARARIPE
Gabriela Kapim lança segundo livro
Gelatinas e jujubas especiais Muitos veganos desconhecem que devem tomar cuidado com as “aparentemente” inofensivas gelatinas e jujubas. É bom lembrar que a geleia de mocotó, por exemplo, é feita com tutano de boi, para dar aquele aspecto de consistência firme. E o colágeno é uma proteína animal feita a partir do couro do animal. Sem falar nos corantes para que fique colorida. Apenas alguns produtos deste tipo são realmente veganos.
Dieta detox não precisa ser só líquida Quem pensa que para ter uma boa dieta detox deve apenas tomar líquidos – sucos e sopas – está enganado. Nutricionistas explicam que alguns alimentos são preciosos na ajuda para desintoxicar o organismo. Anote na sua próxima lista de compras, preferindo, se possível, os orgânicos: couve-flor, brócolis, beterraba, sementes de linhaça e maçãs (podem ser as vermelhas ou verdes). Para que a desintoxicação aconteça é preciso ingerir nutrientes como vitaminas do complexo B, selênio, cobre, zinco, enxofre, flavonoides e carotenos, e aminoácidos como glicina, taurina, metionina e glutamina. Por isso, precisamos nos alimentar. Porém, é necessário reduzir o consumo de alimentos de origem animal. Prefira alimentos orgânicos, cultivados sem agrotóxicos, pesticidas ou adubos químicos, e evite alimentos embalados em plásticos. Prefira alimentos naturais, livres de corantes e de conservantes químicos.
48
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
Após estrear, em março, no GNT, o programa ‘Socorro! Meus Pais Comem Mal’ – focado na raiz do problema: a alimentação dos pais – a nutricionista e apresentadora Gabriela Kapim volta seus olhos novamente para os pequenos e acaba de lançar o seu segundo livro “Socorro! Meu Filho Come Mal – Receitas Para Pais e Filhos”, pela editora Leya. Conhecida por transformar os hábitos de crianças que têm dificuldade em manter uma alimentação saudável, Kapim reúne na publicação a experiência das nove temporadas de seu programa homônimo, além do ‘Cozinha Colorida da Kapim’ e desta experiência com os adultos, através de receitas e um cardápio semanal ilustrado. “O intuito é estimular pais e filhos a se reunirem na cozinha e transformarem, juntos, o hábito de se alimentar de forma saudável em uma experiência divertida”, resume. Baseado no seu princípio fundamental de colorir o prato – difundido tanto com os pais quanto com os filhos - o livro é dividido em cinco cores, cada uma delas com sugestões de alimentos no tom do capítulo. “As pessoas não têm ideia de quantas receitas um mesmo alimento pode produzir. Minha intenção é colocar no prato da família ingredientes saudáveis das mais variadas formas possíveis, agradando até os gostos mais resistentes”, explica Kapim.
Faça sua própria barra de cereal Na hora da fome, nada melhor e mais prático do que abrir a bolsa ou a mochila e achar uma barra de cereal. Pois saiba que não é preciso escolher apenas as diferentes opções de barrinhas industrializadas. Há um sem número de receitas também para você mesmo colocar a mão na massa, escolher o que mais gosta e produzir em casa a sua barrinha personalizada. Procure nos sites especializados. Pode levar os cereais de sua preferência – como quinoa ou semente de linhaça – as frutas secas que gostar, a exemplo de castanhas ou damasco e acrescer outros ingredientes. Depois de pronta, transfira para o tabuleiro e espalhe a massa. Deixe esfriar por cerca de 20 minutos e, em seguida, corte em barras. Envolva as barras em papel manteiga, coloque em um recipiente hermeticamente fechado e conserve em geladeira por até duas semanas. Se desejar, poderá ser congelado por até dois meses.
VOCÊ CONHECE O VALOR ESTRATÉGICO DA SUSTENTABILIDADE PARA O SEU NEGÓCIO? Cada
negócio
possui
necessidades
específicas relacionadas à sustentabilidade. Por isso, a WayCarbon dispõe de soluções customizadas, capazes de atender diferentes tipos
de
organizações,
em
diferentes
contextos de maturidade. Por meio de uma equipe multidisciplinar e com ampla experiência de mercado, inserimos a sustentabilidade na estratégia corporativa e no desenho de políticas públicas. Nosso desafio é apoiar a transição da sociedade para uma economia de baixo carbono. Conheça nossos serviços de Consultoria Estratégica:
O mundo traz desafios. A WayCarbon, respostas.
49
Ecoturismo
Goiás ganha trilha para ciclistas A Floresta Nacional (Flona) de Silvânia, em Goiás inaugurou uma nova estrutura de visitação em abril. A novidade é uma parceria do ICMBio com a Prefeitura de Silvânia (G0). Além da abertura das trilhas para ciclistas, com entrada gratuita todos os dias da semana (das 8h às 18h), também foi revitalizada a área de lazer, que conta com banheiros, bancos, mesas e um pequeno lago artificial. BRUNO BIMBATO / ICMBIO
N
ISABELLA ARARIPE
W
AGÊNCIA PARÁ/ DIVULGAÇÃO
S
Parque do Utinga reabre no Pará O Parque Estadual do Utinga, no Pará, foi reaberto ao público em março, após três anos fechado. Com uma área equivalente de 1.340 hectares, a unidade de conservação foi criada em 1993 e possui uma fauna com mais de 200 espécies de aves registradas e a maior biodiversidade de peixes em parques em todo o mundo. Esse é o mais importante projeto de preservação da biodiversidade na Região Metropolitana de Belém. Dentro do parque existe um projeto voltado para a reintrodução das ararajubas, aves sem registro de aparição na Região Metropolitana de Belém há mais de 60 anos e que agora já podem voar livremente pelo Parque Estadual do Utinga.
Ilha de Porto Santo atrai turistas TURISMO DA MADEIRA/ DIVULGAÇÃO
A ilha de Porto Santo, no arquipélago da Madeira, em Portugal é um verdadeiro refúgio para os viajantes que querem tranquilidade e uma bela vista do Atlântico. Os portugueses descobriram o arquipélago, no século 15, após uma tempestade alterar a rota dos navios. O destino fica a duas horas de voo de Lisboa e a 15 minutos de Funchal, capital da Ilha da Madeira. Uma das principais atrações é a Casa-museu Cristóvão Colombo, que recria o ambiente onde o descobridor da América viveu. Entre as atividades aquáticas, os visitantes podem explorar o fundo do Atlântico e mergulhar para conferir um cargueiro submerso. As águas de Porto Santo são usadas em tratamentos terapêuticos, por possuir quantidades elevadas de estrôncio, crômio e iodo, elementos benéficos para a saúde.
N
W 50
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
Parque Nacional da Tijuca foi o mais visitado em 2017 LUÍOLA VILELLA/ MTUR
O Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde está o Cristo Redentor, foi a unidade de c on s e r v a ç ã o mais visitada em 2017 no Brasil, com a marca de 3,3 milhões de visitantes. Os dados são do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), responsável pela gestão de parques, florestas, áreas de proteção ambiental e reservas extrativistas, entre outras. O segundo lugar ficou com o Parque Nacional do Iguaçu (PR) que tem como atrativo as Cataratas do Iguaçu e recebeu 1,8 milhão de pessoas. O Parque Nacional de Jericoacoara (CE), que desde o ano passado ganhou um aeroporto para voos diretos, foi o terceiro em número de visitantes: 800 mil.
E
Estante Potência popular carioca, Por Marcia Disitzer , Casa da Palavra, 224 págs, R$ 80,00 Livro reúne diferentes perfis de moradores do Rio que, por meio da moda, foram à luta para criar sua própria história. O que antes ficava relegado à estética da periferia do Rio de Janeiro hoje dita tendência do Leblon a Vigário Geral. A partir do universo da moda e da cultura, Potência popular carioca, da jornalista Marcia Disitzer, traça um mapa afetivo da força da cultura dita popular, mergulhando também em temas complexos e sensíveis como classes sociais, gênero, raça e relações culturais. Com direção de arte de Jair de Souza e fotografia de Ana Stewart e Daniela Dacorso, a autora apresenta um mosaico composto por ensaios fotográficos e entrevistas com pessoas comuns, que vivem e trabalham em diferentes pontos da cidade e que estão inseridos em espaços como a feira, o baile, a quadra da escola de samba.
Da minha porta vejo o mundo, Por Aydano André Motta em parceria com Paulo Marcos M. Lima, Raquel Cordeiro, Maurício Fonseca e Sylas Andrade, Editora Letras & Sons, 192 págs, R$ 90 Livro de arte, privilegiando registros fotográficos de porteiros em seu ambiente de trabalho, proporcionando ao leitor uma viagem às experiências pessoais e profissionais dos porteiros em destaque. Um mundo no qual eles abrem as portas, mas não obrigatoriamente entram e fazem parte dentro do contexto social. São contadas, através de fotografias e textos do jornalista Aydano André Motta, 12 histórias de porteiros de várias gerações, que compõem um consistente mosaico desses profissionais que integram o cotidiano da cidade.
Bel Lobo e Bob Neri : Vida e Obra, Por Simone Raitzik, Editora Bazar do tempo, 352 págs, R$ 120 Essa é uma história de movimentos que se cruzam, entre três décadas de experiências profissionais e pessoais. Quando a casa vira escritório, quando os clientes viram amigos e os amigos viram clientes, quando o marido vira sócio e os filhos viram parceiros de projetos, quando viajar é se inspirar (e portanto trabalhar) e quando trabalhar é muitas vezes viajar (e sempre se divertir), vida é obra. Uma história singular de dois arquitetos plurais. Livro escrito pela jornalista Simone Raitzik, especialista em decoração e cultura.
Direto de Washington, Por Washington Olivetto, Editora Estação Brasil, 400 págs, R$ 49,90 Washington Olivetto é um dos maiores publicitários brasileiros, criador de algumas das mais marcantes, emocionantes e divertidas campanhas da propaganda nacional. Neste livro ele conta algumas histórias que ajudam a compreender como o grande publicitário criou o seu melhor personagem: ele próprio. Ganhou o primeiro Leão de Ouro do Brasil em Cannes, conquistou todos os prêmios da publicidade mundial, entrou para o Guinness Book of Records, inspirou personagem de novela, virou letra de músicas de sucesso, nome de pratos em restaurantes famosos, selo do correio do seu país, vice-presidente do seu time de futebol, cidadão carioca sendo paulista, commendatore italiano sendo brasileiro. Washington Olivetto está no Lifetime Achievement do Clio e foi o primeiro não anglo-saxão a entrar para o Hall of Fame do One Club de Nova York.
51 51
Ecoturismo
Caldas do Brasil, uma riqueza
Texto e Fotos por Nícia Ribas, de Plurale De Caldas da Imperatriz (SC)
H
á exatos 200 anos Dom João VI determinou por decreto a construção de um hospital em Santo Amaro da Imperatriz (SC) porque aquela região possuía a segunda melhor água termal do mundo. Ele havia recebido uma carta do Coronel João Vieira Tovar de Albuquerque, então governador da Província de Santa Catarina: “ Temos entre nós um manancial de beneficência pública, deixai-me assim explicar, um manancial de saúde, e havemos de privar o público, a nossa Nação e, enfim, a humanidade deste presente que nos confiou a natureza? Ah, não, cidadãos generosos, o rico tesouro de águas termais que temos em frente da nossa vista, mas coberto por pequenos obstáculos, deve franquear-se a todas as gerações de um modo fácil e digno de vós.” Naquele tempo os homens públicos preocupavam-se com o público. A resposta chegou na forma do Decreto Real de 18/03/1818, considerado a primeira lei de criação de uma estância hidromineral no Brasil: “Hei por bem aprovar o projeto oferecido pelo governador da sobredita ilha de Santa Catarina da ereção de um hospital no lugar daquelas águas com as convenientes acomodações, abrindo-se em todo esse reino uma subscrição de donativos para cuja validade sou servido conceder a precisa licença. E para fundo e patrimônio do mesmo hospital que ficará debaixo da minha imediata proteção e se regulará pelos estatutos das Caldas da Rainha no que for aplicável.” A qualidade da água termal existen-
52
te ali só ficava atrás das famosas termas da região de Vichy, a cerca de 300 quilômetros de Paris. Hoje o manancial catarinense atrai pessoas do mundo todo, em busca dos seus poderes medicinais, relaxamento e lazer saudável, principalmente para aqueles que já passaram dos 50. Como esses logo serão maioria na população devido aos avanços da medicina, as estâncias minerais existentes em todo o país estão em alta. Hotel histórico A construção do hospital, determinada pelo Decreto Real, onde hoje funciona o Hotel Caldas da Imperatriz, começou em 1835. Foi marcante e é até hoje relatada pela equipe de funcionários a visita de Dom Pedro II e da Imperatriz Thereza Cristina, em 29/10/1845, quando o local recebeu o nome de Caldas da Imperatriz. Encantada com a beleza do lugar e o poder terapêutico das águas,
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
a Imperatriz presenteou o empreendimento com seis banheiras de mármore que até hoje estão lá, à disposição dos hóspedes. Segundo o funcionário do Hotel Caldas da Imperatriz, Antonio Martendal, as águas termais brotam das rochas a uma temperatura de 39°C e as estâncias dispõem de piscinas abertas ao público nos parques aquáticos com toda infraestrutura de lazer. O Hotel já pertenceu ao Estado, hoje pertence ao Município e tem sua direção nomeada pelo Prefeito de Santo Amaro. Antonio diz que a melhor época para visitar a região é entre abril/maio e setembro: “Tem que aguentar os borrachudos porque não se pode mais colocar inseticida na água.” Pelo jeito os ecologistas já andaram por lá. Bom sinal! Estâncias termais em todas as regiões “Abençoado por Deus e bonito por na-
tureza”, canta Jorge Benjor, com toda razão. Como se não bastassem as florestas, os rios, as montanhas famosas e o litoral oceânico, o Brasil ainda pode se gabar das suas águas termais, presentes em quase todo o território. Lá mesmo em Santa Catarina, além das Caldas da Imperatriz, estão as de Águas Mornas, Piratuba, Termas do Gravatal e São João do Oeste. Em Gravataí, o parque Acquativo é repleto de trilhas, grutas e cachoeiras. Em São Paulo, são famosas as Águas de Lindóia, a 180 quilômetros da capital; Águas de São Pedro, Olímpia e Águas de Santa Bárbara, todas dotadas de infraestrutura hoteleira de qualidade. O Rio de Janeiro conta com dois parques de águas minerais com propriedades terapêuticas em Raposo: Águas Soledade e Fontanário Raposo. Em Minas Gerais, Poços de Caldas abriga as estâncias Thermas Antonio Carlos e Balneário, está funcionando
desde 1896. A 380 quilômetros de Belo Horizonte, Araxá atrai turistas do mundo todo. Na região de Salinas, encontra-se o balneário de Montezuma; e no município de Caldas, está a estância mineral Pocinhos do Rio Verde. No estado de Goiás, em Caldas Novas, fica uma das estâncias mais conhecidas do Brasil, Rio Quente, que abriga o rio com águas que variam entre 26º. E 47º.C. E tem mais: as piscinas naturais da Chapada dos Veadeiros e a Lagoa Santa. Já no Mato Grosso, a 500 quilômetros de Cuiabá, em Barra do Garças, o Parque das Águas Quentes atrai idosos e crianças, que aproveitam o toboágua e as piscinas. No Rio Grande do Sul, às margens do Lago do Uruguai, no parque das águas de Marcelino Ramos, os visitantes podem ainda caminhar pela mata nativa, montanhas e o lago próprio para esportes náuticos. Os gaúchos também se or-
gulham do complexo hidrotermal, com águas do Aquífero Guarani, em Nova Prata. A apenas 11 quilômetros das famosas Cataratas, em Foz do Iguaçu, Paraná, o Mabu Thermas Resort também desfruta do Aquífero Guarani. O Estado ainda conta com a Estância Hidromineral Termas de Jurema, em Iretama; e Águas do Verê. A Bahia abriga as estâncias de Cipó, Caldas do Jorro e Paulista Paratininga. Já a Região Nordeste apresenta poucos mananciais. No Rio Grande do Norte, a de Mossoró; No Ceará, em Barbalha, a Estância Mineral Balneário de Caldas. E no Piauí, poços jorram água quente na cidade de Alvorada do Gurguéia, a cerca de 18 quilômetros da cidade de Cristino Castro.
SERVIÇO Como chegar: Voos da Latam, Gol, Azul e Avianca para Florianópolis, com tarifas que variam diariamente. A partir do aeroporto, um táxi para Caldas da Imperatriz, em torno de R$ 100,00. Onde ficar: Hotel Caldas da Imperatriz – diárias e todas as refeições, incluindo os banhos: R$ 400,00. Plaza Caldas da Imperatriz, que fica ao lado- R$ 580,00.
53
Pelo mundo
JOIAS DO LESTE Texto e fotos de Vivian Simonato, de Plurale De Budapeste (Hungria) e Bratislava (Eslováquia)
V
agarosamente o charmoso funicular - carrinho em plano inclinado - começa a se movimentar. A porção de cidade que vai aparecendo à medida que subimos daria mais um cartão postal pela beleza revelada em todos os cantos. Admiro Peste enquanto sigo para o Castelo de Buda. É fim de outono e o dia está nublado e frio. Mas, esses são meros detalhes que não tiram em nada o brilho e euforia em explorar essa capital europeia tão única.
Café New York, em Budapeste
54
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
A Pérola do Danúbio Budapeste, ou a Pérola do Danúbio como ficou conhecida, foi fundada em novembro de 1873 com a fusão das cidades de Buda e Ôbuda, na margem direita do Rio Danúbio, com Peste, na margem esquerda. A cidade também ostenta outro importante título: Budapeste, incluindo as Margens do Danúbio, o Bairro do Castelo de Buda e a Avenida Andrássy fazem parte de um sítio classificado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Habitada desde os tempos romanos, ela foi destruída por tropas otomanas e canhões austríacos, mas, foi na Era da Reforma (1825-1848), que a cidade experimentou sua primeira fase de desenvolvimento, quando foram construídos o Museu Nacional Húngaro e a Ponte das Correntes (Széchenyi Lánchíd), que liga Buda a Peste, maior do mundo à época de sua construção. O período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial é tido como a Belle Époque dessa cidade que já dividiu com Viena a sede do império Austro-húngaro. A paz reinava, os parques da cidade foram construídos juntamente
Vista de Budapeste à noite
E n s a i o com a elegante Avenida Andrássy e a Ópera. A segunda ferrovia subterrânea da Europa foi também construída nesse período entre a Praça dos Heróis e o Museu de Artes Aplicadas, tudo em comemoração ao milênio da fundação da Hungria. A cidade era cotadíssima, com requintados cafés – como o famoso Café New York, salas de concerto cheias e estrangeiros de todas as partes. No entanto, a chegada do século XX, com a Segunda Guerra Mundial, na qual muitos cidadãos morreram, e, mais tarde, a Revolução Húngara de 1956, quando o povo derrubou líderes comunistas e expulsou o Exército Soviético, mas resultou em cerca de 2,5 mil cidadãos mortos e 200 refugiados causaram um profundo impacto no pais e, por consequência, também Budapeste. Destruída, a cidade renasceu após esses acontecimentos. Apesar de ainda ser possível encontrar vestígios dos conflitos como buracos de balas em prédios, ou nos ruin bars (ruínas que viraram bares), a cidade foi reconstruída. A revitalização manteve os diversos estilos arquitetônicos presentes na capital húngara, entre muitos deles, os edifícios modernistas e art nouveau em Peste ao barroco, como o Castelo e as casas em Buda. Castelo de Buda Observando a cidade do alto da colina de Buda, o icônico Castelo Real foi erguido na idade média também em estilo barroco. A última grande reforma pela qual passou foi
FOTOS E TEXTO: VIVIAN SIMONATO,
DE BUDAPESTE E BRATISLAVA
em 1790. No entanto, após ser completamente destruído na Segunda Guerra Mundial sua renovação manteve a fachada original, mas o interior moderno, abrigando museus como a Galeria Nacional (Magyar Nemzeti Gallery). A Biblioteca Nacional Széchenyi, também está localizada
no interior do Castelo. Fundada em 1802, conta com acervo de cerca de dois milhões e meio de livros e quatro milhões de documentos. Igreja Mathias Na Praça da Santíssima Trindade (Szentháromság tér), ainda na área do Castelo de Buda, esta, imponente, a
55
Pelo mundo
FOTOS E TEXTO: VIVIAN SIMONATO,
E n s a i o Igreja Mathias. Na Idade Média esta era a igreja principal da localidade, consagrada a Nossa Santíssima Senhora. No entanto, após o rei Mathias construir uma torre principal e casar-se nessa igreja ela ficou conhecida como Igreja Mathias. Os turcos ocuparam a área de Buda no século XVI transformando a igreja em uma mesquita. Contos populares dizem que em 1686 a Virgem Santíssima apareceu para os turcos enquanto oravam. Esse foi o prenúncio de que seriam derrotados e realmente o domínio do Distrito de Buda voltou aos húngaros. Palco de importante acontecimentos como a coroação do Imperador Austríaco e Rei Húngaro, Franz Josef e sua esposa Elisabeth (Sissi), ou do último Rei húngaro, Karl IV, no final do século XIX, a Igreja Mathias foi renovada, mantendo sua estrutura gótica e mesclando características de sua era cristão e como mesquita. O Bastião dos Pescadores Construído em 1985, em estilo neorromântico, para embelezar ainda mais a Igreja Mathias e comemorar a conquista de Buda pelos húngaros e o Bastião dos Pescadores. Sete torres homenageiam as
56
DE BUDAPESTE E BRATISLAVA sete tribos magiares (ou húngaras) que se estabeleceram na bacia dos Cárpatos em 896 e fundaram a Hungria, ou Magyarország. E das torres do Bastião dos Pescadores que se tem uma das melhores vistas de Peste e das construções a beira do Danúbio, incluindo o prédio do Parlamento Húngaro. O Parlamento E impossível falar de Budapeste sem imediatamente lembrar do prédio do Parlamento Húngaro. Construído utilizando uma mistura de estilos arquitetônicos dos quais predomina o neogótico, o edifício foi inspirado no Parlamento de Londres. Suas dimensões são tão grandiosas quanto sua beleza. Com superfície de 18000 metros quadrados, o edifício tem 700 gabinetes e salas, 27 entradas e abriga 386 deputados. E aqui que também está guardada a coroa do primeiro Rei da Hungria, Santo Estevão. Basílica Santo Estevão e Grande Sinagoga Santo Estevão também dá o nome a maior e mais importante igreja de Budapeste. Com capacidade para 8000
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
pessoas a Basílica de São Estevão (Szent István) e um dos prédios mais altos da cidade juntamente com o edifício do Parlamento. A entrada e gratuita e na Capela da Mão Direita, na própria Basílica, estão os restos mortais da mão do rei Estevão. Outra construção religiosa de grandes dimensões localizada em Budapeste e a Grande Sinagoga. Esta e a maior sinagoga da Europa, podendo receber 3000 pessoas. E nas dependências da Grande Sinagoga que está a Árvore dos Mártires Judeus de Budapeste, em homenagem aos judeus mortos no Holocausto. Citadel e Cidade das Termas É no alto do Monte Gellert, onde está localizada a Citadel, que outro monumento, chamado Estátua da Liberdade, homenageia as vidas sacrificadas pela independência, liberdade e prosperidade da Hungria. E desta fortaleza que turistas tem a visão mais espetacular de Buda e Peste com o serpentear do Danúbio entre elas. O Monte Gellert também empresta seu nome a uma das mais populares casas de banho da cidade, o Gellert Spa and Bath.
BRATISLAVA
GELLERT SPA AND BATH
Spas de aguas termais são outra grande atração em Budapeste, que e conhecida também como Cidade das Termas. A cultura dos banhos termais vem dos romanos que fundaram a cidade de Aquincum no século 1 AC, que hoje estaria dentro dos limites da atual capital húngara. A cidade romana tinha 15 casas de banho. Hoje em dia, Budapeste reúne 28 banhos termais, alguns deles em atividade há mais de 500 anos. As casas de banho atuais são o ponto central da vida social de Budapeste. Nelas que moradores de várias idades se reúnem para relaxar, fazer massagem e conversar. Os banhos termais são abastecidos por 70 milhões de litros de água, que saem de 123 fontes termais aquecidas de 20 a 80 graus centigrados. Para usufruir dos banhos termais basta pagar um ingresso que varia de 9 euros a 18 euros dependendo do local e se beneficiar dessas aguas famosas no tratamento de reumatismo, doenças do estomago e circulação.
uma colina, ele foi construído no século X, mas pouco do que se vê hoje e original. Após sofrer com diversos conflitos, o impacto mais severo aconteceu em 1811, quando as tropas de Napoleão Bonaparte incendiaram essa que é a construção mais importante de Bratislava. O local permaneceu em ruínas por muito tempo. Cogitou-se, inclusive, sua total demolição. No entanto, na metade do século XX sua restauração começou e hoje e um dos pontos turísticos mais importantes da cidade.
A cidade antiga de Bratislava e outra área que encanta. A Praça Hlavné e o coração dessa região, ampla e rodeada por edifícios medievais, neoclássicos e barrocos, e aqui que o tradicional Mercado de Natal se instala no final do ano. Uma das melhores vistas panorâmicas da cidade, com o Castelo de Bratislava ao fundo, se tem do topo da torre da antiga prefeitura. Apesar de não ser um destino obvio, Bratislava e definitivamente outra joia do leste europeu, que merece entrar no roteiro do viajante.
Bratislava Também às margens do Danúbio e cerca de 2h40 distante de Budapeste está localizada Bratislava, capital da Eslováquia. Compacta, jovem, e bem conservada, Bratislava surpreende. Um dos cartões postais da capital eslovaca e o Castelo de Bratislava (Bratislavský hrad). Localizado no alto de
57
Pelo mundo
58
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
E n s a i o
FOTOS E TEXTO: VIVIAN SIMONATO,
DE BUDAPESTE E BRATISLAVA
59
Pesquisa
Edelman Trust Barometer 2018 mostra o Brasil entre os seis países com quedas extremas de confiança no mundo Em sua 18ª edição, o estudo global Edelman Trust Barometer 2018 revela que os índices de confiança caíram em todas as instituições no Brasil entre a população em geral. As maiores quedas aconteceram no Governo, que despencou 6 pontos, chegando aos 18%, e na Mídia, que perdeu 5 pontos, agora com 43%. As Empresas, este ano com 4 pontos a menos, e as ONGs, com menos 3, aparecem empatadas: ambas com 57%. Os movimentos para baixo colocam o Brasil entre os seis países com quedas extremas de confiança, ao lado de Estados Unidos, Itália, África do Sul, Índia e Colômbia. O estudo traz outras seis nações na outra ponta, representando os maiores ganhos: China, Emirados Árabes, Coreia do Sul, Suécia, Malásia e Polônia. Globalmente, 20 dos 28 países pesquisados, incluindo o Brasil, foram classificados como desconfiados em relação às suas instituições, ou seja, índices abaixo dos 50. Realizado pela Edelman, agência global de Relações Públicas, o estudo mede os índices de confiança no Governo, Empresas, ONGs e Mídia. A pesquisa ouviu mais de 33 mil pessoas em 28 países, com o trabalho de campo realizado entre 28 de outubro e 20 de novembro de 2017. “Tradicionalmente, a confiança cai quando as pessoas estão com menos esperança sobre seu futuro e aumenta quando elas se sentem mais otimistas”, explica Cristina Schachtitz, líder de Engajamento Corporativo na Edelman. “Nesta edição, os dados revelam um mundo polarizado em relação ao sentimento e é um desafio às organizações navegarem nesse ambiente com realidades tão díspares”, completa. Em ano de eleições no País, esses dados sobre confiança são um alerta importante. Com a crise política e econômica, e todos os casos de corrupção que vieram à tona, o estudo mostra que a maior fa-
60
tia da conta recai sobre o Governo, e não sobre as Empresas. Segundo o Trust Barometer, 81% dos brasileiros acreditam que o Governo é a instituição mais corrompida das quatro pesquisadas, quase o dobro da média global, enquanto 41% dos entrevistados no Brasil afirmam que as Empresas representam um caminho para um futuro melhor. Apesar da queda de 4 pontos, as empresas ainda estão entre as instituições mais confiáveis entre os brasileiros. Como resultado disso, 60% dos entrevistados no País afirmam que os CEOs devem assumir a liderança em movimentos de mudanças no lugar de esperar que o governo as imponha. “A confiança é um ativo de valor para as instituições”, diz Cristina. “Ações contínuas de construção e manutenção de confiança devem ser uma prioridade estratégica importante de toda e qualquer organização”, completa. Pela primeira vez, a Mídia (que engloba produtores de conteúdo e plataformas) é a instituição menos confiável globalmente. Em 22 dos 28 países, ela se encontra no território da desconfiança. O Brasil (43) está entre as nações que registraram as maiores quedas, ao lado da Índia (61) e dos Estados Unidos (42) – a confiança na Mídia nas três sociedades caiu 5 pontos. A diminuição da confiança nas plataformas digitais (mecanismos de busca e redes sociais) está entre as responsáveis pelo cenário – entre os brasileiros também caiu 5 pontos. Ao investigar
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
com maior profundidade a Mídia, nessa edição, o Trust Barometer traz como tema central as fake news. A proliferação de notícias falsas ou distorcidas representa papel importante na queda da confiança tanto da Mídia quanto nas outras instituições (Governo, Empresas e ONGs). Sinal disso é que 58% dos brasileiros não sabem diferenciar o que é verdade do que é mentira; 68% não sabem em quais políticos confiar e 48% não sabem em quais companhias ou marcas confiar. E mais: 75% têm medo que as fake news sejam usadas como armas. Quando o assunto é porta-voz mais crível, houve um avivamento da fé em especialistas e um declínio na credibilidade entre pares (amigos e familiares) globalmente. No Brasil, as principais vozes que representam especialistas recuperaram credibilidade: o sentimento em relação aos jornalistas aumentou 12 pontos para 47%; nos oficiais do governo, seis pontos para 28% e nos CEOs, quatro pontos para 52%. A credibilidade da pessoa comum, por sua vez, despencou oito pontos para 70%. Ela, no entanto, continua sendo o porta-voz mais confiável na opinião dos respondentes. Diante disso, pode-se inferir que a queda na confiança em amigos e familiares é mais um reflexo de sociedades polarizadas, onde as pessoas priorizam ouvir, ler e compartilhar pontos de vistas semelhantes aos seus seguindo a tendência do viés de confirmação. Em meio à crise de confiança e às fake news, a expectativa é de que as instituições se posicionem de maneira transparente. “A confiança só será recuperada quando a verdade voltar para o centro do palco. As instituições devem atender ao apelo do público para fornecer informações precisas e oportunas e se juntarem ao debate público”, conclui Richard Edelman, presidente e CEO global da Edelman.
CINEMA
Verde
ISABEL CAPAVERDE
i s a b e l c a p a v e r d e @ p l u r a l e . c o m . b r
Sobre os povos indígenas I
Sobre os povos indígenas II
“A Troca”, realizado pela produtora Vetor Zero e pela agência J.Walter Thompson Brasil, parceira do Instituto Socioambiental (ISA) - sob a direção de Mateus de Paula Santos, produção executiva de Alberto Lopes e Sérgio Salles, direção de arte e ilustração de Arthur Crispim e Willian Santiago - tem como narrativa a contribuição que os povos indígenas deram ao Brasil e as injustiças que tem sofrido ao longo da história. A animação volta no tempo, retratando os contatos entre indígenas e bandeirantes, em diferentes momentos, entre os séculos XVI e XVII. Aborda a busca dos indígenas por manter seu modo de vida tradicional e interagir com os colonizadores por meio de trocas, no caso com a oferta de frutos da floresta, e a reação violenta dos europeus. Situação que perdura até o presente, com a negação dos direitos dos índios e do reconhecimento da importância ambiental de suas terras para toda a sociedade. Com mais de um minuto de duração, o filme quer mostrar que depois de séculos de uma “troca injusta”, os índios seguem mais fortes na sua resistência e convidam todos a participar da luta. “A Troca” está disponível no You Tube: h t t p s : / / w w w. y o u t u b e . c o m / w a t c h ? t i m e _ continue=2&v=DL5b_jP1VjM
Menção honrosa no Festival de Cinema de Berlim 2018 e prêmio da crítica no Festival É Tudo Verdade, o documentário “Ex-Pajé” conta a história de Perpera, índio que viveu até os 20 anos num grupo isolado na floresta onde se tornou pajé. Após o contato com os brancos, um pastor evangélico afirma que os atos e saberes do pajé são coisas do diabo e Perpera passa a viver um conflito interno. Apesar de se dizer evangélico e se definir como ex-pajé, continua tendo visões dos espíritos da floresta. O documentário de Luiz Bolognesi é um manifesto contra a evangelização agressiva que tem sido feita com os povos das florestas, desrespeitando a sua cultura e os seus saberes.
Seria a Terra convexa? Foi o que os pesquisadores brasileiros do Dakila Pesquisas decidiram investigar. Em sete anos de estudos, foram realizados experimentos científicos, em diferentes pontos no mundo, com acompanhamento de instituições governamentais e de profissionais de vários segmentos. Os resultados apontam que a Terra é convexa nos continentes e plana nas águas, apresentados no longa-metragem Terra Convexa: O Documentário, disponível no site terraconvexa.com.br em português, inglês e espanhol.
62
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
Sobre os povos indígenas III Projeto aprovado no Prêmio Tradições da Secretaria de Estado de Cultura do Mato Grosso, o documentário “Xavante: Memória, Cultura e Resistência” trilha novos caminhos na cadeia audiovisual, já que segundo seu diretor, Gilson Costa, terá duas versões: uma de 26 minutos para a televisão e outra de 33 minutos para exibição em festivais de cinema do País e televisão comunitária. O material também será disponibilizado para a Programadora Brasil e, gratuitamente, para as escolas públicas da região em foi filmado. O documentário revela importantes rituais da aldeia Namunkurá (a 16 km de Barra do Garças), trazendo a primeira parte de um conjunto de imagens inéditas sobre os rituais Wapté Monhõnõ e Darini (Wai’á rini), cerimônias que iniciam os jovens xavante na vida espiritual e social da aldeia. Os depoimentos na língua originária priorizam o lugar de fala do indígena no documentário. O filme discute também os direitos territoriais, as reivindicações indígenas e o conhecimento sobre a cultura xavante para a comunidade não-indígena, buscando sensibilizar o espectador sobre a importância histórica desses povos para o país.
Leia na Revista RI.
Assine já!
e tenha acesso a todas as edições da Revista RI.
www.revistaRI.com.br/assinatura
Pelas Empresas
ISABELLA ARARIPE
Consumidor brasileiro está otimista e mais propenso a compras via mobile, revela PwC
O
De São Paulo
s consumidores brasileiros estão otimistas em relação aos seus gastos pessoais para 2018. No país, 71% dos entrevistados pela PwC Brasil esperam aumentar ou manter as despesas com compras nos próximos 12 meses. Boa parte desse consumo deve ser realizado via dispositivos móveis: 41% dos consumidores já realizam compras via smartphones e 30% por ta-
blets. Um crescimento considerável se olharmos para cinco anos atrás, quando apenas 15% e 20% dos consumidores, respectivamente, afirmaram utilizar estes canais para compras.
Os dados foram revelados pela Global Consumer Insights 2018, pesquisa da PwC que ouviu 22 mil pessoas em 27 países, sendo 1.000 delas no Brasil. Os resultados mostram um crescimento no consumo online em diferentes categorias de produtos entre 2014 e 2018. Nos equipamentos eletrônicos, por exemplo, as compras online cresceram de 12% para 27% do total comercializado. O consumo ligado ao entretenimento (livros, músicas, filmes e videogames) cresceu dezesseis pontos percentuais, saindo de 18% para 34% no mesmo período.
Coca-Cola anuncia abertura de fontes no Fórum Mundial da Água ADRIANO MACHADO
A Coca-Cola Brasil anunciou, em março, no Fórum Mundial da Água, a abertura de fontes de água mineral da marca Crystal. Essa iniciativa permite que as pessoas e comunidades vizinhas às fontes tenham acesso à captação de água gratuitamente. A ação está alinhada com o tema do 8º Fórum Mundial da Água – “Compartilhando Água” – e reforça o compromisso da empresa em garantir o uso consciente da água e estreitar o relacionamento com as comunidades onde atua. Até o fim do ano, estarão disponíveis para a população oito fontes de Crystal em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Minas Gerais e Alagoas. “Escolhemos fazer mais e não apenas dizer mais. Água é um tema prioritário para a Coca-Cola Brasil, mas não pode-
mos e nem queremos atuar sozinhos. Queremos aproveitar a jornada do Fórum Mundial para que tenhamos troca de aprendizados e encaminhamento de ações concretas e conjuntas, envolvendo governos, sociedade civil e iniciativa privada, que possam acelerar uma agenda de soluções para garantir a segurança hídrica”, afirmou Henrique Braun, presidente da Coca-Cola Brasil. A empresa divulgou também o investimento de R$ 25 milhões para ampliação da Aliança Água+ Acesso, que deve beneficiar diretamente 50 mil pessoas, em 100 comunidades de oito estados, até o fim de 2018. Em um ano de projeto, o Água+ Acesso já impacta 15 comunidades, atendendo a mais de quatro mil pessoas no Ceará, Amazonas e Pará.
No Fórum Mundial da Água, presidente da Coca-Cola Brasil, Henrique Braun, anuncia abertura de fontes
Campanha da Ball destaca os atributos da lata de alumínio para os consumidores de bebidas Se você é uma pessoa que valoriza a diversão, preza pela natureza e aprecia o sabor, vá de lata! Esta é a mensagem da campanha #VADELATA, iniciada em janeiro no Brasil pela Ball Embalagens. O projeto vem de uma campanha global da maior fabricante de latas do mundo, valorizando os atributos da
64
embalagem diretamente para os consumidores de bebidas. A campanha #VADELATA está estruturada em três pilares, conta Thaís Moraes, gerente de comunicação e relacionamento com a comunidade da Ball: Descolada, Gostosa e Sustentável. “A ideia é mostrar que a lata é perfeita para momentos de
PLURALE EM REVISTA | Maio / Junho 2018
descontração, ela preserva o sabor da bebida e é a embalagem mais reciclada do mundo.” O pilar Descolada se sustenta na versatilidade da embalagem, que pode ser consumida com segurança em qualquer ambiente. “Você pode levar para a praia, por exemplo, ou
AccorHotels se torna membro do Fórum de Empresas e Direitos LGBT A inclusão sempre esteve presente nos programas da AccorHotels, grupo líder de viagens, estilo de vida e inovações digitais. Em 2017, a empresa reforçou seu compromisso com a busca pela diversidade no ambiente corporativo e assinou a Carta de Adesão ao Fórum de Empresas e Direitos LGBT e aos seus 10 Compromissos. Ao assinar o documento, a AccorHotels se torna a primeira empresa hoteleira membro do Fórum, que discute ações que podem contribuir para desmistificar o tema no âmbito empresarial. “É um momento de celebração, pois a diversidade é um elemento importante para
a AccorHotels, uma empresa que sempre preservou o direito individual, promoveu a igualdade entre colaboradores, clientes, parceiros e fornecedores”, afirma Patrick Mendes, CEO AccorHotels América do Sul. Se-
gundo o executivo, a empresa não estaria hoje em 95 países se não entendesse a importância da não discriminação. “Nossa avaliação é baseada na dedicação e no desempenho e acreditamos que a autenticidade de cada pessoa seja um elemento enriquecedor”, garantiu. Antonietta Varlese, VP de Comunicação e CSR América do Sul, ressalta a importância da adesão ao Fórum. “É uma honra ser a primeira empresa do setor de turismo a assinar a Carta de Adesão ao Fórum de Empresas e Direitos LGBT. A diversidade já é parte do nosso negócio e agora oficialmente formalizamos nossa posição”.
IV Fórum Global “Empresas pela Igualdade de Gênero: o Futuro do Trabalho na Agenda 2030” O Grupo Boticário, juntamente com empresas Schneider Electric, Banco do Brasil e PWC participou do IV Fórum Global “Empresas pela Igualdade de Gênero: O Futuro do Trabalho na Agenda 2030”, que aconteceu nos dias 27 e 28 de fevereiro, em Santiago, no Chile. O evento, promovido pelo Governo do Chile e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), debateu as desigualdades de gênero no mercado de trabalho e abordou práticas inovadoras para promover o empoderamento das mulheres, tendo em vista o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS). Mais de 400 líderes empresariais e representantes de governo, da academia, de sindicatos e da sociedade civil participaram
do evento, que também contou com a presença de especialistas da ONU Mulheres e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Durante sua palestra no Fórum, nosso coordenador de Sustentabilidade, Renato Amendola, falou sobre o equilíbrio entre vida profissional e familiar e como a empresa pode apoiar as mulheres visando a equidade de gêneros. “Atuamos, desde o começo de nossa história, para que mulheres tenham as mesmas oportunidades que os homens para ascender profissionalmente, sem abdicar de sua vida familiar”, afirma. “A
para um grande evento. É uma embalagem que não quebra, gela mais rápido, fácil de ser transportada para qualquer lugar com segurança”, destaca a gerente de comunicação da Ball. Já o pilar Gostosa, lembra uma questão que vem sendo comentada pelos principais sommeliers de cerveja do mundo. “Como a lata não permite a entrada de luz e de oxigênio, o sabor da bebida se mantém
original por muito mais tempo”, explica. A vantagem mais conhecida da embalagem é a Sustentabilidade. A lata de alumínio é infinitamente reciclável. Isso significa que a latinha que está aqui hoje estará aqui, nas mesmas condições e qualidade, para sempre. A opção pela embalagem é uma opção pelo meio ambiente, pois a reciclagem reduz o consumo de energia e as emissões de gases de efeito estufa.
valorização da mulher sempre esteve presente na história do Grupo Boticário, desde a abertura da primeira franquia, em 1980, feita por uma mulher, até a composição da empresa. Hoje, as mulheres estão à frente de pelo menos 85% das nossas franquias, são 59% de nosso quadro de colaboradores e 50% das lideranças”, contou Renato.
65
I m a g e m FOTO DE MARCELO CAMARGO – AGÊNCIA BRASIL/ BRASÍLIA
E
les já foram os donos de todas estas terras. Povos indígenas de várias etnias fizeram manifestação e protesto na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, pela demarcação de terras e garantia de seus direitos. O fotógrafo MARCELO CAMARGO , da Agência Brasil, registrou a manifestação em diferentes pontos de Brasília. Os indígenas apelam por mais atenção à demarcação de terras, cuidados com saúde e educação, assim como investimentos específicos.
20 e 21 de junho de 2018 Local de realização: WTC Hotel – São Paulo – SP
PROGRAMA:
O Futuro do Mercado de Capitais no Brasil – O Que é Necessário para Aumentar o Número de Companhias Abertas? Board Level e a Criação de Valor para os Acionistas O Futuro de Relações Com Investidores e a Governança Corporativa Estratégia de Crescimento e Valuation Mifid II – Mudanças no Buy Side: Impactos e Desafios para o RI
REALIZAÇÃO:
Simplificação das Obrigações de Prestação de Informações das Companhias Ri High Tech – Novas Ferramentas Jornalismo Econômico e o Mercado de Capitais Brasileiro Diversidade de Gênero – Heforshe Apresentação dos Resultados da Pesquisa Deloitte/Ibri
PATROCINADOR DIAMANTE:
PATROCINADORES OURO:
PATROCINADORES PRATA:
PARCEIROS DE MÍDIA:
ORGANIZAÇÃO:
APOIO INSTITUCIONAL:
ABRAPP, ABVCAP, AMEC, ANBIMA, ANCOR, ANEFAC, APIMEC NACIONAL, APIMEC SÃO PAULO, CODIM, FACPC, IBEF, IBGC, IBRADEMP
www.encontroderi.com.br