capas vista geral da exposição Abre Alas 4, Largo das Artes, fevereiro 2008
2 Alexandre Przewodowski 3 Ana Infante 4 Arnaud Levesque 5 Bianca Tomaselli 6 Bruno Miguel 7 Carolina Cor 8 Cristiano Lenhardt
Queridos colegas,
9 Danielle Fonseca 10 Gabi Gusmão 11 Gabriela Mureb 12 Glaucia Mayer 13 João Penoni
É com grande prazer que apresentamos a revista do Abre Alas. É a primeira vez depois de três edições do Abre Alas que conseguimos realizar este antigo desejo de criar um documento para acompanhar a mostra, agora em sua quarta edição.
14 Joshua Callaghan
Abre Alas é uma mostra que aconteceu quase por acaso, no final do ano 2005. Estávamos planejando a
15 Julia Debasse
programação do ano seguinte da A GENTIL CARIOCA e percebemos que tínhamos um buraco no mês de
16 Leonardo Ayres 17 Maria Helena Bastos
fevereiro, um mês tradicionalmente esvaziado pelo verão e o carnaval. Ao mesmo tempo tínhamos recebido portfólios de vários artistas jovens, alguns totalmente desconhecidos, de várias partes do Brasil. Assim surgiu a idéia de uma coletiva. O nome Abre Alas se dá por esta
18 Maria Laet
confluência de fatores, o carnaval e a vontade de abrir espaços para que os artistas jovens e desconhe-
19 Maria Lynch
cidos pudessem soltar o verbo através do trabalho deles. Basicamente a mostra não aconteceria nova-
20 Nadam Guerra e Domingos Guimaraens
mente, porém começamos a notar, individualmente, que algumas pessoas nos encontravam ou mandavam
21 Pontogor 22 Sérgio Torres 23 Tatiana Ferraz
fotos dizendo algo do gênero “– ah, dá uma olhada no trabalho, quem sabe para o próximo Abre Alas.” Conversamos e notamos a coincidência, pois cada um a sua maneira tinha sido surpreendido pelo mesmo tipo de solicitação! Assim descobrimos que no imaginário já estava decidido que o Abre Alas era uma mostra anual. Bom, como já estava decidido, o jeito era dar continuidade à voz que nos cercava.
24 Tiago Rivaldo
Nesta quarta edição recebemos espontaneamente algo em torno de 200 portfólios, já que não formalizamos nenhum edital, talvez algumas pessoas nem saibam que existe o Abre Alas, talvez mandem como mandariam para outro espaço. O fato é que não é nada fácil selecionar mais ou menos 10% dos 200. Primeiro fizemos uma lista de 40 para depois chegarmos na forma final, destes 40 muitos poderiam estar na mostra, e espero que continuem ativos e quem sabe possam ser selecionados para o próximo ano. Por isso gostaríamos de agradecer aos artistas selecionados, muito aos não selecionados, e acima de tudo lembrar que esta seleção é uma opinião nossa momentânea que se resume na mostra apresentada, e que sabe que muitos talentos que não puderam estar nesta seleção por motivos diversos, assim como alguns dos selecionados, vão estar um dia brilhando em galerias, coleções, bienais, museus, etc. O Abre Alas existe para dizer a todos que a arte está na mão de vocês artistas jovens e desconhecidos, a arte nasce no desconhecido lançando-se à sorte do destino. Depois de 3 edições tornou-se realmente muito difícil continuar fazendo o Abre Alas no reduzido espaço físico da Gentil. Sendo assim, tivemos o imenso prazer de nos associar a Marta Pagy e Miguel Sayad, diretores e inventores deste grande novo espaço Largo das Artes que está recebendo fisicamente esta edição do Abre Alas 4. Definitivamente isto dá um novo peso ao evento trazendo novas possibilidades aos artistas, e até nos estimulando a realizar esta revista a fim de ampliar a voz dos artistas e documentar historicamente este momento.
A GENTIL CARIOCA Laura Lima, Ernesto Neto e Marcio Botner Rio de Janeiro, 10 de março de 2008.
5 perguntas para
Alexandre Przewodowski
Guga Ferraz O que te levou a largar o curso de Arquitetura e se transferir para Belas Artes, foi só preguiça e falta de paciência (como o meu caso) para as matérias que envolviam as ciências exatas, Cálculo, Estrutura etc; ou você achou mesmo que iria se formar em Artista? Alexandre Przewodowski O que me levou a entrar na arquitetura foi a cobrança de se fazer uma faculdade. A mais próxima dos meus interesses e que ao mesmo tempo fosse aceitável para uma família de funcionários públicos, isto é, que tivesse a chance de ganhar dinheiro e se dar bem na vida. Depois de alguns anos na faculdade pude perceber que não era bem aquilo o que eu queria, cálculos, estruturas, interesses...Sempre desenhei, quando mudei para belas artes ainda não sabia bem o que queria fazer, mas sabia que não queria a faculdade de arquitetura. Precisava me formar, afinal já estava lá. Quando escolhi gravura pesou também o fato de ser o curso de quatro anos, os outros demoram cinco. Formar-me em artista... Não. Essa imposição da sociedade de fazer faculdade. A faculdade não te transforma em nada, mas sim os interesses pessoais. Os 3
Caixa, 2007 / madeira empilhada / 30 x 30 x 180cm
anos que eu passei no ateliê de gravura me ajudaram bastante a desenvolver meu trabalho, apesar das carências do curso, porque eu estava fazendo algo com tesão. GF O curso de arquitetura te influencia no teu trabalho atual? AP O curso de arquitetura me influenciou sim, tanto
na visão espacial, a relação do homem com o ambiente e a cidade em particular. Mas uma coisa que acho particularmente importante é a visão de uma sociedade, as relações sociais. A arte dá a possibilidade de você discutir o mundo a sua volta, como também de você se isolar. Quando eu fiz o exame para me transferir para belas artes um dos professores da banca mandou essa: “se você fizer um prédio torto ele cai e as pessoas morrem, se fizer um desenho torto quem se importa.”. O curso de Belas Artes não passa uma visão de sociedade. Não trabalha esse lado. O que pode criar uma lacuna na formação do estudante. Tive a chance de trabalhar no favela bairro e isso com certeza foi muito rico para minha formação.
Raul Mourão Quando vejo a imagem desses dois tra-
balhos imediatamente penso na questão do material utilizado nas obras. Restos de coisas do cotidiano, sobras de madeira e fósforos riscados, gostaria de saber como acontece a escolha do material.
AP A madeira sempre me encantou, sua diversidade
de cores, aromas, funções. É matéria prima renovável. Haha. Os fósforos surgiram de uma época em que estive desempregado. Ficava em casa a maior parte do dia e os fósforos se acumulavam na janela da cozinha. Nessa época, ficava muito de bobeira em casa. Foi um trabalho que poderia ser realizado em qualquer local. Quanto às madeiras, eu moro em um sítio que foi do meu avô, em Jacarepaguá. Essas madeiras já serviram com cama, vigas de telhado, móveis, e ao longo de anos foram sendo deixadas aqui por familiares e vizinhos. Elas já fizeram parte diretamente da vida de muitas pessoas. Antes d’eu nascer. Os dois trabalhos surgiram a partir do acúmulo do material.
Quebra Cabeça, 2007 / palitos de fósforo / 30 x 35cm
esse trabalho, acho que é a mesma foto que ele usou... O trabalho em si era bem diferente, ele fez umas impressões em plástico, se não me falha a memória. Não sou partidário ou me identifico com alguma causa, mas essa foto das crianças é quase um ícone. A imagem da criança numa guerra, fumando charuto. Eles faziam parte de um grupo religioso e militar. Muito louco. Pra quem não conhece a foto da menina, o meu trabalho retrata apenas uma menina dando a língua. RM Há outras imagens em peças dessa mesma série
(fósforos)?
AP Estou trabalhando em outro quebra cabeça. A
temática continua, desta vez é um menino com estilingue na faixa de gaza. Contudo, como a imagem da menina, não fica explícita sua participação numa guerra. É só um menino brincando.
RM O artista Cabelo também utiliza a imagem dos irmãos de Myanmar em sua obra, qual a relação que você enxerga entre a sua produção e o trabalho citado e o que te levou a escolher essa imagem. 2
AP Pois é... a imagem dessas crianças, o garoto fu-
mando, é muito legal. Foi um amigo que guardou a imagem que saiu no jornal; faz alguns anos. Quando vi o trabalho do Cabelo, eu já estava desenvolvendo
Alexandre Przewodowski nasceu em 1975 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Guga Ferraz é artista plástico. Raul Mourão é artista plástico.
M.E.U., por
Ana Infante
série Rótulos, 2008 / xerografia / dimensões variáveis
trabalhos mecânicos: série Rótulos.
Há nesse trabalho uma proposta gráfica com elementos já concebidos e agrupados por mim. Nessa série de Rótulos tento substituir a noção do trabalho manual pela noção moderna e tecnológica do trabalho mecânico, cujo procedimento técnico não está alheio ao fazer, mas à reprodução de idéias que se movimentam no percurso do meu processo criativo, artístico, que aqui reproduzo mecanicamente. Quando Carlson em 1938 inventou a copiadora para escritórios através do processo eletrostático, xerográfico, como um meio rápido, limpo e seco de reproduzir documentos para substituir o carbono, o mimeógrafo, inventou também um meio de copiar matérias intelectuais como textos e imagens, sem saber o grande paradoxo que seu invento iria gerar nos meios autorais hoje em dia. Escolhi trabalhar com ”xerox” também por isso, pelo conceito de propriedade intelectual, quando faço copiagem das minhas próprias coisas, uso o carimbo M.E.U., que é um modo que uso para assinar meus trabalhos feitos através da xerografia, como um nome, um direito, uma propriedade das minhas idéias. Essa série de Rótulos foi elaborada em relação à percepção que tenho sobre as apropriações que aqui revelo sem disfarce nas cópias, como por exemplo: os rótulos de tintas para aquarela. outra vez, algo... Em seu ensaio publicado em 1936, A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, Walter Benja-
min fala que a idéia de “aura”, ou seja, de tudo que emana do fazer artístico manual, estava em contraste com a arte reproduzida mecanicamente. Em épocas anteriores, a experiência da obra de arte era condicionada pela sua «aura», isto é, pela distância e reverência que cada obra de arte, na medida em que é única, impõe ao observador. Primeiro -- nas sociedades tradicionais ou pré-modernas -- pelo modo como vinha associada ao ritual ou à experiência religiosa; depois -- com o advento da sociedade moderna burguesa -- pelo seu valor de distinção social, contribuindo para colocar num plano à parte aqueles que podem aceder à obra «autêntica». O aparecimento e desenvolvimento de formas de arte (começando pela fotografia) em que deixa de fazer sentido distinguir entre original e cópia traduz-se no fim dessa «aura», o que liberta a arte para novas possibilidades, tornando o seu acesso mais democrático e permitindo que esta contribua para uma «politização da estética» que contrarie a «estetização da política» típica dos movimentos fascistas e totalitários dominantes no momento em que Benjamin escreve esse ensaio. É notória a distância entre o pensamento de Walter Benjamin e outros pensadores da Escola de Frankfurt como Theodor Adorno e Max Horkheimer no tocante à visão da reprodução técnica. A sua visão implica em ver na reprodução técnica uma possibilidade de democratização estética, desde que elas conservem as características daquilo que, até então, chamaríamos de original. Isso fica claro quando ele toma por exemplo as fotos que podem ser feitas através de um mesmo negativo. Na verdade, quem poderia distinguir a primeira foto feita a partir de um negativo de uma segunda? Adorno e Horkheimer analisam que toda reprodução contribui para a perda de identidade da originalidade
e está à disposição de uma elite que manipula aqueles que não possuem acesso aos originais, através de cópias feitas em série, conferindo a todas as cópias uma característica mercadológica, portanto, massificante. Ao contrário disso, Benjamin acredita que isso gera, desde que observadas as técnicas, uma politização capaz de moldar o senso crítico daquele que observa.
P.S. O Fluxus estava certo com relação ao fato de que a questão não é quais são as obras de arte, mas qual é a nossa percepção de algo se o vemos como arte.
3 Ana Infante nasceu em 1964 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ.
Arnaud Levesque
A PROPOS DU FOND, je suis celui qui est je suis celui qui a été je suis celui qui sera et qui ne sera plus. je ne sais pas qui je suis je ne l’ai jamais su je ne le saurai sans doute jamais. ce constat amer m’amene à repeter inlassablement et obsessionnellement le mot “je” jusqu’a ce que la toile en soit pleine. Chaque “je” est un point d’interrogation et, comme ces astronomes qui ecoutent chaque etoile du ciel dans l’espoir de capter un signal extraterrestre, je scrute mon moi en inscrivant ces “je” avec l’illusion qu’un jour l’un d’eux m’apportera une reponse. Ainsi je remplis des surfaces pour attenuer et supporter un vide existentiel. La demarche est vaine, mais elle rassure car elle donne le sentiment d’exister.
A PROPOS DE LA FORME ... c’est par l’intermediaire de la machine que l’on peut atteindre la perfection en ce qui concerne la repetition, l’imitation et la reproduction ... j’imite la machine; mais les tremblements de ma main ne m’en font pas son egal. Ce sont les irregularites et les imperfections qui mettent en lumiere ma sensibilite d’etre humain.
4
A PROPÓSITO DO FUNDO, eu sou aquele que é eu sou aquele que foi eu sou aquele que será e não será mais. eu não sei quem sou eu nunca o soube eu jamais o saberei, sem dúvida. esta constatação amarga me leva a repetir obsessiva e infatigavelmente a palavra “eu” até preencher toda a tela. Cada “eu” é um ponto de interrogação e, como os astrônomos que escutam cada estrela do céu na esperança de captar um sinal extraterrestre, eu perscruto meu interior inscrevendo nele estes “eu” – na ilusão de que, um dia, um deles me trará uma resposta. Assim, preencho as superfícies para atenuar e suportar um vazio existencial. Este caminho é vão, mas tranqüilizador, pois dá o sentimento de existir.
A PROPÓSITO DA FORMA... é pelo intermédio da máquina que se pode atingir a perfeição no que diz respeito à repetição, à imitação e à reprodução... eu imito a máquina – mas os tremores das mãos não fazem de mim seu igual. São as irregularidades e as imperfeições que revelam minha sensibilidade de ser humano.
Je, 2007 (detalhe em tamanho real acima) / caneta bic sobre tela / 50 x 50cm
Arnaud Levesque nasceu em 1964 em Nantes, França. Vive e trabalha em Pirac, França.
Bianca Tomaselli
Bianca Tomaselli nasceu em 1979 em Florianópolis, SC. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Fernando Lindote é artista visual, trabalha e expõe desde 1987.
5
Ramiro Garavito entrevista
Paisagem Construída, 2007 / plantação / dimensões variáveis / Parque das Ruínas
Bruno Miguel
BM Especificamente, nestes trabalhos de plantações, a mudança do olhar do espectador. Busco de maneira delicada e sutil uma interação com o visitante da exposição. Meu trabalho fala da paisagem, da construção de novas paisagens, da contextualização da mesma e da possibilidade do visitante participar do processo ativamente fazendo suas plantações híbridas e as construindo dentro desse diálogo natural/construído a partir de trocas e experimentações. Ou passivamente, através da mudança do olhar no seu cotidiano, quando essas paisagens se apresentam diante dele como algo sem valor, como uma vegetação que insiste em nascer no concreto rachado de um viaduto ou pequenas árvores que despontam em calhas de telhados, essas coisas que normalmente passam despercebidas diante de nossos olhares bloqueados. Tenho como passatempo em minhas viagens de ônibus pelo Rio de Janeiro esse exercício de encontrar “Oásis Urbanos”. Gostaria de desbloquear mais olhares. RG A partir do conceito de “espaço construído”, que
Ramiro Garavito A evidente contextualização física
de suas paisagens construídas não conduzem à perda da capacidade das mesmas intervirem no espaço construído? Bruno Miguel Não. O lado “físico” da obra apesar da suposta ingenuidade de sua apresentação carrega por detrás uma bagagem “racional” que não tem a intenção de ser mais importante do que o objeto final. Não acredito na necessidade de uma auto-afirmação intelectual como pré-requisito para o desenvolvimento de um bom trabalho contemporâneo. As possibilidades de diálogo entre a paisagem “construída” e “natural” são infinitas e mostrá-las depende mais de adaptar o olho de quem vê, do que propriamente da capacidade do artista de criar o discurso que “sustenta” o trabalho. Acho que essa apresentação direta de algo comum à realidade do espectador não especialista em arte contemporânea agrega mais do que explicitar um conhecimento específico que meia dúzia de espectadores “do meio” perceberá plenamente. Prefiro ter como foco o resultado a explicitar o processo. Mostro um algo comum, contextualizado em um ambiente inesperado, relacionando-o à arquitetura do local e buscando um encantamento do espectador. Essa intervenção no espaço construído não está baseada unicamente em aspectos teóricos e na demonstração dos mesmos. Minha preocupação no fazer desse trabalho vai da história da arte à lembrança da infância do espectador. 6
RG Dentro do seu trabalho existem vários conceitos
importantes, os quais você mesmo assinala. Qual é o mais importante para definir seu trabalho?
sentido tem sua proposta de “construir paisagens”?
BM Tudo partiu de uma discussão sobre haver espaço para a pintura de paisagem na arte contemporânea e havendo esse espaço como essa representação deve ser feita. A partir desse mote desenvolvi uma pesquisa sobre a representação da paisagem e os diálogos entre a paisagem construída e a natural, o formal e o orgânico, o espaço e o tempo. Como desdobramento dessa representação, cheguei à construção real da paisagem, viva, natural, porém construída, o homem racionalmente sugerindo uma retomada do espaço construído, trazendo de volta um híbrido, não afirmando uma maior importância para um ou para outro, propondo uma relação harmoniosa. Pensada, porém à mercê de todas as possibilidades ocasionais de um trabalho que não depende só do artista. O natural e o racional como cúmplices para a execução do resultado final. E percebendo nesse aspecto acima dos outros, o diálogo.
é ambicioso e agregador. Mais do que criar jardins em meio ao concreto, tento fomentar pensamentos, chamar atenção para aspectos comuns do cotidiano e estabelecer relações que fujam ao meu controle. Em breve o site www.construindopaisagens.com estará no ar e servirá melhor para ampliar o movimento, mapear tendências e trazer novas discussões. RG Quando conversamos você comentou que pensava
em desenvolver seu trabalho em outros âmbitos. Que conceito em seu trabalho te permitiria esse desenvolvimento?
BM A polivalência do termo paisagem. Acho que qualquer linguagem é trabalhável dentro desse tema. Sei que meu trabalho está engatinhando quando se trata de possibilidades. Fugindo de atalhos ou macetes da arte contemporânea, qualquer opção que seja feita com verdade é válida. Pintura, intervenção, plantação, instalação, maquete, desenho, foto, vídeo, site e por aí vai. E entendendo também que com essa proposta de interação com “co-artistas” o trabalho fica sem um fechamento específico, abre-se um leque de desdobramentos contínuos. Minha intenção é plantar a semente.
RG Você acredita existir uma relação artística ne-
cessária entre a capacidade de interatividade do seu projeto e seu prolongamento na construção de novas paisagens por parte do espectador? (a pergunta se baseia na experiência do trabalho em La Paz quando o artista junto às suas plantações, distribuía envelopes com sementes brasileiras aos espectadores, convidando-os a serem “co-artistas” e propondo que eles construíssem suas paisagens misturando os grãos com outros que escolhessem)
BM Não necessária, mas possível. E isso seria pessoal, relacionado mais a uma questão de auto-estima do “co-artista” do que a um selo de “ISSO É ARTE”. Proponho uma experiência. Fazer parte de um movimento que não sabe aonde vai chegar, mas que
Bruno Miguel nasceu em 1981 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Ramiro Garavito é artista plástico boliviano e curador da Bienal de La Paz 2007.
Entrevista com
Carolina Cor cedida a Guilherme de Mattos em janeiro de 2008
Guilherme de Mattos Qual a importância dessa exposição na sua trajetória como artista? Carolina Cor Acho que é a oportunidade de estar junto com pessoas que estão criando hoje e, a partir desse coletivo, gerar movimentação e conseqüente discussão a respeito de temas relevantes. O meu trabalho fala de questões essenciais, como o olhar que percebe as coisas simples e acessíveis que estão aí, bastando explicitá-las pra começar a falar e refletir sobre elas dentro de um acordo poético. GM Você enxerga como uma postura política essa forma de ver a vida sob um ponto-de-vista essencial? CC Eu acho que não tem como não ser político hoje em dia. Tudo o que a gente faz manifesta uma posição em
relação às coisas. Até a ausência de ação nos define politicamente.
GM Você fala que hoje nada tem apenas um significado, tudo acaba remetendo para além do significado mais
imediato. Como isso acontece no trabalho que você está apresentando?
CC De duas formas: uma poética, que fala da relatividade do movimento de pensar o meu ponto de vista em rela-
A Lua Também Dança, 2007 / impressão de foto digital colada em pvc com laminação fosca / 30 x 40cm
ção a todos os demais, e a partir dessa troca de referenciais poder enxergar na lua um inseto, uma nave espacial, a ponta de uma caneta, uma estrela querendo se comunicar. É a possibilidade de colocarmos significado nas coisas. E outra formal, de uma foto feita com o movimento da câmera pra falar sobre o movimento.
GM O processo construtivo da obra também tem esse traço? CC Acredito que tudo é processo. É por isso que carrego a minha câmera, é como se eu quisesse registrar várias
etapas dessa mudança. Porque tudo que fale de movimento, de trânsito, me toca de algum jeito. E processo é isso também, seguir a intuição e construir algo que fale de movimento através do movimento.
GM Fale sobre a sua trajetória e como essa bagagem está presente na sua obra. CC Eu me formei em Comunicação Social com ênfase em Propaganda e Marketing e trabalhei com isso no departamento criativo numa agência de propaganda lá em Porto Alegre. O meu trabalho era pensar em soluções pra os problemas mercadológicos dos clientes. Mas eu comecei a me inquietar por não ter tempo pra fazer as coisas que eu julgava serem importantes. Decidi por tentar resolver os meus problemas e os que eu vejo a minha volta. Talvez por isso as coisas que eu faço têm uma busca por clareza porque na propaganda não cabe ser obscuro, não tem a ambigüidade que acontece na arte. Tem que ser direto, dar o bife. Nesse sentido, eu tento ser clara no que eu estou dizendo: as fotos podem até brincar com a percepção, mas se revelam para o observador mais atento.
Carolina Cor nasceu em 1979 em Porto Alegre, RS. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Guilherme de Mattos é artista plástico, músico e compositor. Atualmente desenvolve um projeto de músicas infantis.
7
Michel Zózimo conversa com
Cristiano Lenhardt
Michel Zózimo Cristiano! A Nanda falou que o teu trabalho é um copo d’água cheio até a borda. Qualquer movimento pode fazê-lo congelar. [na verdade ela não disse isso. mas pensou…] Ontem eu ouvi este pensamento. Cristiano Lenhardt Sonhei que minha casa balançava com um vento forte, levava o Jon para fora e corria por uma escada no porão. Lá estava tua cabeça, Michel, brotando que nem batata velha ou gengibre enrugado. Será que tu foi plantado? Será que tu é um livro? Quando voltei para a superfície era como outra vida. Vida de filme. Filme quente do Recife. Fico sonhando como trazer vocês pra cá. Sei da amizade. Já pensou na pá que vais usar para enterrar os livros que não lês? Poderia ser uma pá de gelo. MZ Ontem, sonhei que o meu cachorro tinha morrido e que ele havia reencarnado em outro cachorro. Perguntei para a minha mãe do corpo do “Led” e ela disse: está na geladeira. Quando abri a geladeira - a surpresa - estava abarrotada de lã de ovelha. Neste momento, a Nanda falou que ia fazer blusões de lã. Então, eu falei - “que bom! vamos vender?” E ela disse - “não! nós vamos precisar porque lá fora faz frio”.
A partir de então começamos a rir e a planejar como
seria a nossa aventura mares-além e vocês estavam num lugar bom. Tínhamos a sensação que era o mesmo lugar. CL Humm, senti que daí das terras de Caio F. eu ar-
ranco afecções que combustam tranqueiras. Não sei como carregá-las pra tão longe, o intercontinente me parece melhor se for a dois ou quatro ou mais. Por ora apelidos de intimidade me aquecem e trocar palavras assim, como trocar paisagens, são presentes com selo dourado e fita encrespada no fio da tesoura. MZ Tem que andar conforme o que tu pode carregar… deixa os bolsos vazios e leva só as coisas que tem pernas. Elas vão andar junto contigo… - ou - tu anda junto com elas. Tenta dormir menos (retirei essa informação do teu multiply)… Eu estou tentando.. As festas começam daqui a pouco…mas o bom é que passam rápido. Preferíamos uma janta simples com vocês. Daqui a pouco voltamos para cá. Nossas férias no máximo serão uma ida de carro à praia. Vamos escutar o cd de música brasileira. escrever…terminar meu texto. Arrumar trabalho e escutar as novas estórias, pela voz doce da moça de dentes bonitos, de um curso conhecido.
Sonhar juntos e movimentar a coluna. CL Escolhemos viver o coti(diano), então nada de sur-
presas, nada de grandes mudanças, ainda bem, ainda há bem. Que tal seguirmos a tradição de carnaval, e irmos camperiar, lá onde passamos noites e noites conversando longe do mundo. Amo a voz que fala aos teus ouvidos em silêncio, amo as letras que se agrupam como vida nova em ti. Aquela velha bruxa torta nos espera no uterino Rio Grande e tantas outras mulheres doces também.
MZ O teu desenho é algo que não é mais ilustração, nem mesmo projeto? É fábula dos teus movimentos e ações? Gravura de livro infantil para adultos? Não é desenho de parede, nem filme de TV. Então? O que é? CL É isso mesmo, é fábula de meus movimentos e
ações, sou eu como um bicho no meio do mato, sou eu folha , com pelo escovado brilhoso, sou eu flash. Os meus sonhos me dizem muitas coisas, às vezes eu não sei ler, então eu finjo que sei. Ninguém desconfia, pois eu sou bonito. Saber-se bonito é ao invés de olhar pro espelho, olhar para as estrelas. Pois bem, o significado do sonho se constrói como um filme que demora anos pra se completar. Para me entender eu teria que lavar os meses, os anos e os segundos. E depois de limpos, o óbvio , comê-los.
Retratante Retratado, 2007 / vídeo
8
Cristiano Lenhardt nasceu em 1975 em Itaara, RS. Vive e trabalha em Recife, PE. Michel Zózimo é artista plástico, mestrando em poéticas visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Danielle Fonseca
Integrada às artes visuais, Danielle Fonseca (32) penetra com igual intensidade o campo da música, da literatura. A palavra adquire, em sua obra, valor visual e simbólico, muitas vezes sem distanciar-se da semântica primeira, do significado adquirido enquanto narrativa literária.
EM FRENTE ÀS ILHAS: O FAROL por Marisa Mokarzel Marisa Mokarzel Na concepção de teus trabalhos tu teces uma visualidade impreg-
nada por uma literatura em que o Tempo se faz e refaz a cada sentença, ou cena, construída com sensações, sentimentos, memórias e desejos...
Danielle Fonseca O Tempo (não o dos relógios) foi meu grande aliado nesta última
pesquisa “Rumo ao Farol”, procurei revelar paisagens sem tempo ou espaço definidos. A falta do Tempo, a ausência de um espaço real definido foi muito importante nessa viagem pela pesquisa. [Pesquisa em Arte patrocinada pela Fundação Ipiranga, baseada no
livro “ To the Lighthouse”, de Virginia Woolf.]
MM Como pode esse encontro na Ilha do Mosqueiro, a poucos quilômetros da cidade paraense de Belém, de Virginia Woolf desaguar por lá. Uma geografia tão distante, tão diferente? DF Far away so close... Nunca me senti tão perto da Ilha de Godvrey, na Inglaterra, indo todo fim de semana pra Praia do Farol, em Mosqueiro... Essa obra da Virginia é a obra mais livre de pedantismo que já li, fiz dela meu guia de viagem, encontrei por aqui desde a imensidão de águas azuis (quando chovia é claro) até um antigo Farol, austero e ao centro..., aliás desde 2003 que me aproprio de imagens de To the Lighthouse...
Era essa a Paisagem, 2007 / papel fotográfico sobre pvc / foto-ação com caixa de correspondência / fotos: 15 x 21cm, caixa: altura 26cm largura 29cm profundidade 37cm peso 6,300kg
literalmente na obra de ...” por isso misturei Cage com Virginia e a voz de Luiza, que traduziu-criou, fez o make it new que Pound tanto pregava, há intervalos de silêncios longos que junto com o assobio para as gaivotas do Farol acabaram compondo a trilha do vídeo. MM Estes três instantes constituem-se, na verdade, em uma livre interpretação da
obra da autora inglesa, em que selecionas pequenos trechos, os recorta e os conduz à sonoridade que “torna-se água”. Cada ilha um farol, cada continente uma cultura, no entanto, o caminho navega as águas de memórias e desejos que revelam o instante íntimo independe de lugar. Seres diferentes, por razões singulares bordam tessituras distintas que se tocam em um tempo sem cronologias. Que Farol é este fincado na areia, na maré vazante? Do outro lado, havia Caixa Postal aguardando cartas que, no percurso das águas salgadas, desaguam no rio. Que caixa-de-correspondências é essa, esse elemento... ? DF É o verbo e a imagem. É o verbivocovisual (adoro essa palavra), instalei a caixa na praia para levar até ela o leitor, o espectador, o homem comum, o pescador, o faroleiro, um convite ao tempo suspenso, uma comunhão com aquele momento estético. É uma resposta a uma pergunta do livro, “como poderia alguém ficar tanto tempo no meio do mar com aquelas ondas monótonas, sem receber cartas ou jornais?”.
MM E vais colecionando em teu próprio imaginário? Em 2004 quando participaste
do Projeto Fluxo de Arte Belém Contemporâneo, criado por Camila Sposati e Tonico Lemos Auad, para promover um intercâmbio artístico entre Brasil e Inglaterra criaste o 1º Farol então ... DF Fiz “O Farol” onde mandava cartas para o interior de um Farol de Madeira,uma espécie de caixa-de-correspondências, no outro ano fiz a instalação “O segredo do Faroleiro” , com luz negra e tinta invisível, onde só a mensagem da carta poderia ser lida. Pois já não havia mais Farol. Agora concluo (acho) com o vídeo “Rumo ao Farol” e uma serie de fotos-ações do que encontrei durante os seis últimos meses de pesquisa, diluí o máximo que pude os objetos as palavras, fiz tudo tornar-se água. MM Para a realização do vídeo, segues a estrutura narrativa do livro Rumo ao Farol, utilizando na mesma ordem os mesmos subtítulos de Virginia Woolf: A Janela, O Tempo Passa e O Farol. E acabas promovendo três momentos imagéticos que se articulam pelo som de John Cage e pela voz de Luiza Lobo, tradutora oficial de Virginia, no Brasil.... DF Segui a estrutura do texto, mas procurei não fazer um vídeo do tipo “ baseado
Em frente às ilhas encontra-se o Farol, não importa o território em que se inscrevam as paisagens: “É claro que amanhã fará um dia bonito”. Trata-se de uma inversão autoral, de um momento íntimo partilhado, de uma espera longa e solitária. Artista e escritora confundem-se, aguardam: “Tuas cartas chegaram ao farol, algumas sem as hastes de vermelho incandescente, mas as palavras vieram todas, umas com resto de algas, fazendo com que as águas marrons da baía ficassem em tons de ondas azuis”. No texto de Virginia Woolf “o destino da palavra é tornar-se água”, no vídeo de Danielle Fonseca, o destino da imagem é transpor o Farol do Espadarte em Mosqueiro e encontrar-se no indecifrável tempo, sem cartas náuticas a indicar um lugar.
Danielle Fonseca nasceu em 1975 em Belém, PA. Vive e trabalha em Belém, PA. Marisa Mokarzel é curadora, vive e trabalha em Belém, PA.
9
5 perguntas do Cabelo para
Gabi Gusmão
Cabelo Gabriela, tu é bagage: andou pelos
Andes,Amazônia,Cuba, Sertões, cidades e regiões geladas da Europa, pelo Rio zonas sul norte subúrbios e outras quebradas... Por onde o corpo passa fica um rastro?
Gabi Gusmão O corpo imerso no mundo, aberta
ao porvir entro em contato com a vastidão. No vasto minha biruta é tocada pelo vento e me guia (principalmente um cheiro escarlate me indica o caminho). Logo passo por uma situação e sou capturada de alguma forma, não só pelo que vejo, também pelo som e pelo mistério. Para ver o objeto preciso conhecer o sujeito, ouvir seu discurso e a canção da esquina. As diversas percepções são captadas em foto, vídeo, desenho, anotações, e a síntese do registro forma o rastro de um momento. C Então, capturas fragmentos de rastros e depois os
apresenta...Testemunhando teu processo me vêm à cabeça fragmentos de Heráclito,como “Transformando-se, repousa” ou um outro com o qual pergunto: Se não se espera, não se encontra o inesperado?
GG Nessa eu vou de Leminski:
lá embaixo vai ter o que eu acho
C Alguma atração pela escuridão? GG A mesma curiosidade passeia pelas sombras e pelo
clarão, pelos horizontes urbanos ou por paisagens naturais. Quando me deparo com uma situação, com alguém ou alguma coisa e sei que vale o registro, não quero saber se é santo ou cruz credo.
C Quantas sombras até brindar a luz? GG É comum a idéia surgir no escuro e só depois fi-
car claro o sentido que pode parecer inverso, avesso, contrário a uma noção tacanha de beleza. A vibração dos seres que dançam nas entranhas nem sempre encanta, mas acho delirante testemunhar o movimento daqueles corpos da “loka marsupial” ou o movimento dos vermes que habitam a “jaca loka”.
C O invisível se apresenta quando e como? GG Quando não espero, mas pressinto.
10
Gabi Gusmão nasceu em 1974 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Cabelo é artista plástico, músico e poeta.
Jacaloka, 2007 / vídeo-maloca: projeção sobre lago de cola branca / dimensões variáveis
4 perguntas para
Gabriela Mureb Julio Sekiguchi Como você vê a relação do seu trabalho com a palavra e a escrita? Gabriela Mureb Vejo essa relação de duas maneiras: como uma área de interesse (a linguagem e seu registro) e como parte do processo de desenvolvimento dos trabalhos, já que todos eles passam, em algum momento, pela escrita. É uma maneira de organizar o que começa como uma noção geral, quase intuitiva. Mas a palavra me interessa, geralmente, menos por seu significado específico do que como símbolo da estrutura da linguagem, das possibilidades de construção de sentido. E a escrita, como registro de um pensamento, é a escolha de um caminho dentro destas possibilidades. Flávia Metzler Seus dois últimos trabalhos têm em comum o gesto do enfaixar, embora isto não os torne exatamente semelhantes. Enquanto no primeiro, este gesto concentrava toda a tensão, no segundo, quando do acréscimo das borrachas, o meio temporal foi distendido, estirado. Além do tempo, o espaço. Para além do espaço, o pensar. Como você relaciona estes trabalhos? GM Há uma relação, em ambos os trabalhos, com a
idéia de construção do entendimento do mundo, com o processo contínuo de construção da realidade. No primeiro, em que eu amarro e desamarro a cabeça, há uma angústia com a consciência de que tudo o que se entende é construído, tudo que se vê é determinado pelo já visto – daí uma sensação de isolamento, de aprisionamento no próprio pensar, de impossibilidade de uma comunicação exata. Um sufocar-se com a própria história. E também um desespero diante da dúvida. Já no segundo (“Ponto de vista / Ponto de fuga”), quando prendo a amarração da cabeça aos elásticos, faço-o para tentar estirá-los. Prendo-me para forçar os limites do que me prende. Pois se o entendimento do mundo é uma contínua construção - inevitável, irreversível; se estamos presos à nossa própria construção, trata-se de um confinamento cujo alcance é indefinido. Então, há aqui um desejo de ampliar possibilidades, de esgarçá-las. Como numa tentativa de escapar a um destino inevitável, forçar-se ao desconhecido.
Tiago Primo O que você pensa, a partir dos seus tra-
balhos, sobre contenção?
GM Penso em muitas coisas, mas sempre relacionadas
a um limite instável, vivo, oscilante. Uma força contrária à outra força. Conter pode ser uma tentativa de segurar o que passa, fixar o que se esvai, como ao registrar uma idéia, ten-
Ponto de Vista/Ponto de Fuga, 2007-2008 / performance
tar preservá-la da ação do tempo, do esquecimento, e prolongar sua existência. Pode ser uma tentativa de definir, preservar dentro de limites. Penso também em autocontrole, em conter impulsos. Se o ceder a todos os desejos sucessivamente torna-se vício, nesse sentido, conter-se é libertar-se. Além disso, o conter pode estar evidenciando a força do que se contém, mostrando a impossibilidade de sua contenção. Como um ato já fadado ao fracasso que reafirma o que pretende negar. Thiago Hortala O que determinou escolher o próprio corpo na execução dos seus trabalhos mais recentes? Como os
veria no corpo de outro?
GM A vontade de tornar o resultado final mais próximo daquilo que pensei. Ao colocar-me na situação que eu mesma
proponho posso enfatizar através do meu corpo o que quero dizer. Cada um reagiria à situação de sua maneira e direcionaria o trabalho para o seu próprio entendimento daquilo – o que talvez fosse até interessante, já que a ação fundamental seria a mesma. Mas quando pensei nas ações, pensei em mim mesma executando-as. Acho que para dizer com o corpo coisas que eu não poderia dizer de outro modo. Gabriela Mureb nasceu em1985 em Niterói, RJ. Vive e trabalha em Niterói, RJ. Júlio Sekiguchi é artista visual, professor de Pintura da Escola de Belas Artes da UFRJ, doutorando em Linguagens Visuais pela UFRJ. Flávia Metzler é artista. Tiago Primo é artista. Thiago Hortala é artista.
11
Pudim de Morango x
Glaucia Mayer
Pudim de Morango O que te fez escolher artes? Glaucia Mayer A possibilidade de ser e estar glaucia mayer. PM Já que você fala que a sua vida é matéria prima para o seu trabalho, pode exemplificar algum dia da sua vida e relacionar com o seu trabalho hoje? GM O dia em que fui ao Xou da Xuxa é um bom exemplo. Eu tinha cinco anos, estudava na Casa Escola Peque-
no Príncipe, em Petrópolis, e estava com um vestido de babados de organza rosa e um chapéu com fita enquanto todos os meus colegas vestiam t-shirt, allstar e jeans. Imagem e contexto ideais para entender o caso do rosa. Estava num cenário mágico e perfeito para tal vestimenta. Hoje faço da minha vida o meu cenário fantástico, podendo ser a minha casa o meu trabalho de arte.
PM Por que a cor rosa? GM Assumir uma identidade cromática, de modo emblemático tornou-se não somente pesquisa, e sim um estilo
de vida. O Rosa trata-se acima de tudo de auto-análise. Teve início como estudo de técnica de pintura, gerando uma intimidade com a cor, a qual excluí por questões estéticas durante toda a minha vida. Descobri que o Rosa ia muito além de um símbolo, rotulado feminino e banal, para sensação de energia cromática. Comecei a pensar no Rosa como a mais profunda visualidade corpórea, pois acredito que todas as nossas atividades abstratas tomam vida, logo, tomam corpo.
PM Organza ou cetim? GM organza sobre o cetim. PM Por quê?
Glaucia Mayer nasceu em 1983 em Petrópolis, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ.
GM Pois quando você coloca um sobre o outro, a identidade de cada um é somada fazendo com que essa nova
matéria híbrida sempre tivesse existido. Como se em momentos um não se sustentasse sem o outro. Como o amor.
12
Sem título, 2007 / borracha sintética / 6,5 x 15 x 11cm
Stomach, 2008 / fotografia
Pudim de Morango é uma iguaria doce de consistência cremosa e obra da artista.
João Penoni
lençóis dia 21/12 268 fotos
moreré
palmital
boipeba capivara bainema dia 5/1 81 fotos
dia 23/12 115 fotos
dia 5/1 61 fotos
dia 24/12 157 fotos
fumaça por baixo rodas riachinho
fumaça por cima
dia 6/1 69 fotos dia 6/1 75 fotos
dia 8/1 338 fotos
dia 25/12 114 fotos
dia 27/12 110 fotos
caeté-açu
ponta do castelhano dia 26/12 55 fotos
poço da angélica dia 7/1 32 fotos
cova da onça
Em “Trilha”, o corpo que aparece imóvel, na verdade, se deslocou por caminhos já descobertos mas quase inacessíveis. Ele foi meu guia e, com a câmera, ia lhe seguindo e registrando esse percurso. A animação foi feita com 1475 fotografias passando pela Ilha de Boipeba e pela Chapada Diamantina BA, durante 20 dias de caminhadas.
13 João Penoni nasceu em 1983 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ.
Joshua Callaghan
Good News, 2005 / impressão digital em papel / dimensões variáveis
Joshua Callaghan Como você começa a fazer uma obra de arte? Joshua Callaghan Geralmente começo com um material que por alguma razão chame minha atenção, atraindo meus olhos ou minha imaginação. Raramente eu sei como
vai ficar antes de começar. Eu estudo o material, brinco com ele, coloco em vários lugares enquanto tento em vão organizar minha área de trabalho. Quando eu tenho uma idéia, trabalho nela até que ela se modifique ou esteja completa.
JC O que você acha de Los Angeles? JC Que pergunta! Eu estou morando aqui há cinco anos. Vim para cá estudar. No princípio parece enorme, impossível de conhecer, mas, como todo lugar, vai ficando mais
próximo de você à medida que você fica mais familiarizado com ele. É uma cidade diversificada que foi construída rápido demais, nos últimos 100 anos e que tem exemplos de boa e má arquitetura de todos estes anos, dos anos anteriores e do futuro. Los Angeles já fez parte do México. Ela tem uma população majoritariamente latina, com conexões principalmente com o México e América Central mas também grandes comunidades, afro-americanos, americanos não africanos, coreanos, armênios, iranianos, chineses, vietnamitas, sul-asiáticos, africanos, brasileiros, yuppies, antenados (hipsters) e artistas. O que define a realidade aqui é se você tem carro ou anda de ônibus. O melhor dia para se dirigir em LA é o dia de Natal porque as ruas estão vazias. A melhor comida daqui é o taco, uma comida mexicana feita com tortillas e carne, coberta com um molho azedinho e picante. A regra básica é que quanto mais barato for o taco, melhor é. O preço padrão é US$ 1, mas eu conheço um lugar onde o taco custa US$ 0,49 nas terças-feiras. Aqui costuma fazer sol e calor, mas a curtição do clima fica prejudicada pela ameaça constante de terremotos, grandes incêndios e levantes raciais.
JC Por que os zumbis lhe fascinam? JC Meu interesse em zumbis começou com um filme de George Romero “A Noite dos Mortos-Vivos” (Night of the Living Dead, 1968). Eu vi esse filme quando era criança e
ele causou uma profunda impressão em mim. É terrível ver o colapso da ordem pública e o desmantelamento da sociedade, mas é também muito interessante de se observar à distância. As pessoas em um museu podem parecer zumbis, andando para lá e para cá, mas elas estão alimentando as suas mentes ao invés de se alimentarem de cérebros. Falando sério, os zumbis ficaram mais rápidos nos últimos anos. Pra mim está legal. Acho que com o estonteante ritmo da vida moderna é bastante natural que os zumbis também se acelerassem. Os zumbis são a gente, nós somos zumbis.
14 Joshua Callaghan nasceu em 1965 na Carolina do Norte, EUA. Vive e trabalha em Los Angeles, EUA.
Pedro França entrevista
Julia Debasse
sólido. Acho que até as semi-finais nós estamos garantidos. Gosto de ver o time evoluindo pelas laterais com o Juan e o Leo Moura. O Ibson joga para cacete, e o Obina...É o Obina, né. Se rolar o Ronaldo, que o Cléber Leite tem anunciado, genial. Se não rolar, tudo bem. Acho que dá pra ir bem longe. Mas a beleza do futebol é isso, né? Dá sempre para acreditar. Você vê o São Paulo aí, agora com o Adriano e tudo. Eles ainda são passíveis de levar um pau do Mengão no Maracanã. Como décima segunda jogadora, eu não posso acreditar em impossibilidades. No futebol nunca tem ninguém fora do páreo.
que gente que se leva à sério é irremediavelmente chata. Eu levo o que eu sinto à sério, incrivelmente à sério, e é por isso que eu faço os trabalhos. Mas eu não sou só o que eu sinto (graças a Deus, se não eu provavelmente já tinha cortado os pulsos com um par de esquadros), eu eventualmente penso - por isso os trabalhos filtram um pouco esse sentimento bruto. Existe essa babaquice de arte “feminina” e arte “masculina”. Acho isso um caô desgraçado que limita homens e mulheres. Existem, para mim, homens e mulheres que fazem arte. Assim como existem negros e brancos que fazem arte, favelados e moradores da zona sul. Isso não deve ser necessariamente relevante. Na verdade, quanto mais irrelevante for, melhor. Talvez a existência dessa espécie de caô faz com que eu seja mais debochada – por que não é isso que se espera da fêmea.
PF De quanto tempo você precisa para fazer o que você quer fazer e passar a fazer
PF Fale sobre a presença de animais nos seus trabalhos – eles estão em quase todos
JD Bem, eu vou entender que “outras coisas” não significam música ou literatura,
JD Isso vem desde a infância, a minha obsessão com a fauna. Eu era vibrada em
Pedro França Como você vê as chances do Flamengo na Libertadores 2008? Julia Debasse Eu estou bastante esperançosa. O Flamengo está com um time
outras coisas?
porque, como eu sempre digo, é tudo a mesma coisa para mim. Fora o projeto que eu vou realizar para a Gentil, eu poderia parar agora. Eu não tenho a mais ínfima idéia sobre o que eu vou fazer em seguida. Então, por simples falta de planejamento, eu poderia parar aqui. Porém, mais difícil do que conceber o meu próximo trabalho é conceber não fazê-lo. Para responder a sua pergunta: o tempo que eu preciso é o tempo para imaginar que outras coisas eu poderia fazer. Além de ser artista, a única outra coisa que eu gostaria de fazer é ser mãe. Então, em algum momento, em algum futuro possível, a resposta para essa pergunta será “9 meses”.
PF Qual a importância da preguiça na sua obra? JD Para mim a única lei tão inevitável quanto a gravidade é a lei do menor esforço.
Tudo que eu faço é regido por essa lei. Eu não vejo por que complicar o que pode ser simples. Isso se dá em todos os campos em que eu trabalho. Eu não costumo abortar uma obra só por que ela será trabalhosa, mas isso entra na balança na hora de decidir se vale a pena. A minha grande relutância em aprender a técnica é fruto da preguiça. A preguiça também entra na escolha dos materiais e suportes. Na execução ela some. Mas durante a pré-produção ela está lá o tempo todo, pendurada no meu pescoço, repetindo: “Julia, isso vai dar um trabalho da porra.”. A minha preguiça é inerte, ela voa pela janela quando eu começo a me mexer. Mas o translado, o planejamento, a técnica...Isso tudo se modifica pela preguiça. Eu sei que parece uma incongruência, mas o trabalho não se modifica. O trabalho só é o trabalho quando ele está pronto. Eu não levo em consideração o que ele poderia ter sido. Está pronto, está pronto. Próximo.
que vi.
dinossauros, sabia o nome de todos aqueles lagartões. Eventualmente o meu estudo de dinossauros foi interrompido em prol da minha paixão infantil por qualquer sorte de mitologia. Sabia de cor todo o panteão egípcio, grego, romano, nórdico. E ali também estavam os animais, em relações próximas e maravilhosas com seres racionais – Hórus, com sua cabeça de falcão, o incrível lobo Fenrir, centauros, etc. A primeira série de trabalhos que exploravam a fundo a fauna foi a “Metido a Besta”, uma série de pequenos desenhos que ilustravam situações de zoofilia. Pensando sobre os trabalhos eu lembrei de um desenho magnífico em um desses livros de mitologia – Europa montada sobre o touro branco (Zeus), se erguendo sobre as ondas. Esse sentimento sensual em relação aos animais é algo que eu aprecio muito – as texturas da pele, os focinhos, a virilidade dos grandes predadores, a agilidade furtiva da presa, a excitação da caçada. O cavalgar, o fincar as presas, as lambidas. Existe algo de verdadeiramente sensual nas grandes bestas. O animal em relação, metafórica e física, ao corpo humano. A segunda série de desenhos abordando animais, a “Fauna Interna de uma fêmea”, é uma outra manifestação dessas relações entre a natureza e o corpo – dessa vez eu exploro os significados simbólicos de certos animais – animais que representam valores humanos – a fidelidade do cão, a coragem do leão, a força do cavalo, etc. A palavra fêmea apenas designa o tipo de anatomia retratada, não tem nada há ver com o “universo feminino”, ok? Que fique claro que a minha relação com o “corpo” não passa pelo meu corpo externo, e sim pela minha idéia do corpo. A minha relação com o corpo é puramente anatômica – não passa pela vivência deste. Está na moda esse negócio de “relação com o corpo”, né? Eu fico até sem saco de usar a palavra corpo. O meu negócio é anatomia, tá? Não é corpo.
PF Você faz um trabalho normalmente associado à uma tradição expressiva ou
autobiográfica na pintura e no desenho – o tamanho, os materiais usados, o corpo, a presença do gesto, etc. Isso está comumente relacionado ao que se chama um repertório “feminino” na arte. No entanto, no seu caso, parece haver uma distância considerável entre o artista e a obra, a coisa toda parece um deboche.
JD Eu acho que o deboche, a distância, se deve a minha incapacidade de levar arte
à sério. Existem centenas de coisas muito mais importantes do que arte. Se você quiser, eu te faço uma lista. Eu faço o meu trabalho sobre coisas sérias, coisas muito importantes para mim, então como o trabalho poderia ser mais importante do que elas? Como eu vou levar o meu próprio trabalho à sério? Ele é um mero reflexo, uma sombra das coisas realmente importantes para mim. Isso me leva ao deboche. Essa coisa Frida Khalo toda me irrita um pouco – essa coisa de se ficar glorificando as próprias dores, os próprios prazeres. Eu não consigo me levar tão à sério. Acho
Julia Debasse nasceu em 1985 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Pedro França é artista, flamenguista e professor do Parque Lage.
15
Luiza Interlenghi conversa com
Leonardo Ayres
Nos encontramos no sábado de manhã. Entrou, observou os espaços vazios, paredes brancas, como as de sua casa, e os livros na estante (eu lhe ofereci água ou um café). Agir como entrevistadora não me interessa, mas uma boa conversa me manteria por horas a fio envolvida com ele. No meu escritório, vimos seus arquivos digitais. É evidente que Leo parte de inquietações pessoais: tentar entender uma cultura masculina, independente de gênero, como ele mesmo definiu, e escapar a generalizações pretensiosas sobre a arte e a vida. Suas aproximações são indiretas, mas atentas aos estereótipos - soldados na academia; heróis anônimos da musculação e do cinema de ação; operários movimentando-se na construção civil. Me preparei para dirigir a ele algumas perguntas. Começamos a gravação.
Luiza Interlenghi Na série ‘Entre Nós’, os espaços
vazios são intensamente povoados por presenças observadas indiretamente: a série de mobiliário idêntico, malas guardadas na parte superior dos armários, travesseiros e algumas roupas sobre a cama. Os dormitórios e banheiros coletivos que você fotografa permitem inferirmos algo de seus habitantes e freqüentadores. Mas estes não aparecem. As imagens revelam o que não é objetivamente visível, mas algo que circula discretamente na relação entre os objetos fotografados. Percebe-se que todos os ambientes, embora vazios, são masculinos.
Leonardo Ayres Quando eu era criança, ganhei um
‘Entre Nós (Together, feeling lonely), 2006 / fotografia digital / 80 x 120cm
telescópio para ver o cometa Halley. Não vi. Mas fiz bom uso do telescópio para espionar a casa dos vizinhos. Era praticamente como se eu estivesse dentro da casa de estranhos sem ser visto, observando hábitos e objetos pessoais, construindo uma nova história de suas vidas. Apesar de parecer solitário, era uma forma de ter companhia, sendo como um fantasma de outras vidas alheias à minha existência. Meu trabalho hoje ainda é marcado por este voyeurismo e esta distância, mas agora com um foco maior em ambientes exclusivamente masculinos. Me pergunto se seria mesmo voyeur ou, talvez, um pouco exibicionista. O quanto o artista mostra de si no trabalho? Ver sem ser visto? Ou será que eu era visto ao mesmo tempo? Adoro o Big Brother e vasculhar o orkut dos outros. Vou descobrir quem você é e talvez no meio do caminho descubra quem eu sou também.
sempre uma troca e os dois acabam se contaminando pelo humor e pelas idiossincrasias um do outro, até um ponto onde você já não sabe mais se aquela característica era sua originalmente ou do outro. Nunca se tem certeza também de quando o trabalho começa e quando termina. E até que ponto uma intimidade compartilhada pode ser realmente uma intimidade? Numa vida a dois, existem sempre coisas novas a se descobrir um no outro e este mesmo sentimento intrigante se deve ter em relação a um trabalho artístico. LI A escrita sobre a arte abre sentidos possíveis a partir do trabalho. Algumas vezes apenas resvala na obra. Um tom mais ficcional tem a intensidade própria da escrita. A gente não precisa falar sempre a verdade. Por exemplo, vou colocar que a gente se encontrou num sábado de manhã. LA Tudo bem, eu sempre invento algumas coisas. Mas
não publica isso não.
LI Há um interesse, nessa mesma série, em lugares em
que a intimidade é obrigatoriamente compartilhada. Que relações seriam possíveis entre a experiência da arte e o sentimento de intimidade? LA Meu namoro é como um trabalho de arte, sendo 16
feito há dois anos e meio. Não vai ser vendido ou mostrado, mas exige o mesmo esforço. O que falar, o que não falar... Esse eterno diálogo com o parceiro é como o diálogo com o espectador. Além disso, há
Leonardo Ayres nasceu em 1980 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Luiza Interlengui é crítica de arte e curadora. Já publicou diversos ensaios e organizou exposições no Rio de Janeiro e Nova York.
Maria Helena Bastos
João Magalhães O que é arte hoje? Maria Helena Passei o ano ouvindo que a arte contemporânea substitui a filosofia na construção do pensamento, mas para mim a arte é a contra-filosofia. O artista desloca os sentidos, na verdade rompe com o pensamento. Não busca a verdade ou constrói conceitos. Acho que vou me arrepender um pouco do que estou dizendo aqui. Essa idéia é leviana e sem nenhuma propriedade, é só o que sinto no momento. JM Por que fazer arte? MH Hoje faço porque acredito que é preciso se divorciar do que na vida é habitual, ordinário e se ligar a ela de outra forma. JM O que é fundamental na formação do artista? MH Tenho uma formação um pouco extensa; Escola
de Belas Artes, Parque Lage entre outros cursos livres. Conheci muita gente, observo muito as pessoas. Os caminhos são tantos quanto a diversidade de arte e de artistas que temos hoje. Fundamental é o artista saber observar suas necessidades, deficiências e vontades. As opções são muitas.
JM Quais são os artistas que mais te interessam? MH Trabalho com a imagem, desenho, pinto, tenho
influências diretas de artistas que formam uma espécie de família comigo. Existem aqueles que posso dizer que me revelaram algo como Frank Stella e Jonathan Lasker. Mas me interessa toda forma de arte. A arte me dá intuições, altera a minha percepção.
Sem título, 2007 / óleo sobre tela / 140 x 150cm
JM Como é fazer arte no Brasil? MH Já me senti uma artista meio atípica na minha
geração, sendo uma artista mais de atelier. Meu temperamento me leva para uma dimensão mais íntima do trabalho. Já ouvi falar que a falta de mercado e centros culturais levam a procura de meios alternativos para a arte. Assim, o artista no Brasil seria o desabusado que vai mostrar o trabalho na rua quando poucos querem ver, poucos dão incentivo. Expõe num outdoor, pendura numa árvore, risca o muro... Realmente, é o evento de um povo que faz arte e leva para mundo, para buscar o seu público, para mostrar qual é o lugar da arte. Eu faço o meu trabalho curtindo muito tudo isso e confiando que se faço o melhor, também existe aqui no Brasil e principalmente nesse momento, um circuito em que ele se insere e um público que possa fruí-lo.
Maria Helena Bastos nasceu em1977 em Niterói, RJ. Vive etrabalha em Niterói, RJ. João Magalhães é artista plástico e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
17
Michael Asbury entrevista
Maria Laet
Michael Asbury O trabalho que você apresenta nessa exposição parece estar à parte da maioria dos outros trabalhos que você produziu, os quais se apresentam, ou talvez se ofereçam seria a melhor descrição, ao meio que os envolve. Eu gostaria então que você falasse um pouco sobre a relação que seus trabalhos têm com a idéia de fluidez, literalmente a sua relação com fluidos e/ou gases. Maria Laet Os elementos na natureza falam muito
da nossa relação com o mundo, com o outro e com nós mesmos. Me atraio pelos líquidos e gases pela sua vulnerabilidade em relação ao contexto, a sua capacidade de se envolver com os movimentos e espaços do mundo, e o fato de serem orgânicos, mutáveis e de uma forma inapreensíveis. Pra mim é um pouco como nesse trecho de Francis Ponge (‘Le Parti pris des choses’, 1942), falando da sua percepção da água: “Ela é branca e brilhante, informe e fresca, passiva e obstinada em seu único vicio: o peso; dispõe de meios excepcionais para satisfazer esse vicio: contornando, penetrando, erodindo, filtrando. Dentro dela mesma esse vicio também age: ela desmorona incessantemente, renuncia a cada instante a qualquer forma, só tende a humilhar-se, a esparramar-se de braços no chão, quase cadáver como os monges de algumas ordens [...] Poderíamos dizer até que a água é louca devido a essa necessidade histérica de só obedecer ao seu peso, que a possui como uma idéia fixa [...] LÍQUIDO é por definição o que prefere obedecer ao peso a manter sua forma, o que recusa toda forma para obedecer a seu peso. E que perde toda sua compostura por causa dessa idéia fixa, desse escrúpulo doentio [...] Inquietude da água: sensível a menor mudança de inclinação. Saltando as escadas com os dois pés ao mesmo tempo. Brincalhona de uma obediência pueril, voltando logo que a chamamos mudando a inclinação para este lado.”
MA Então o trabalho da gaze atua como um corpo
poroso, um aparato que quer dividir, mas que não consegue fazê-lo totalmente, que indica talvez o limite de uma transição, que enfatiza essa ‘necessidade histérica’ na palavras do Ponge, ou talvez que marca o contorno de um movimento de outra forma invisível, como nos outros balões que estando quase livres traçam e capturam o movimento em volta deles. É por isso que eu vejo aquele balão só, que fica ali aprisionado naquela caixa de vidro, como sendo tão diferente dos outros trabalhos. Você pode falar um pouco dessa distinção que existe na função do que no final nas contas é o mesmo objeto, um balão branco, mas que em um trabalho age como um objeto, uma escultura talvez, colocado numa caixa de vidro, enquanto em outros trabalhos age como parte de um aparato, a força motora desse aparato que traça um desenho quase que aleatório?
18
ML Primeiro é todo o ar que cabe no pulmão, é o
fôlego todo de uma pessoa. Começa como uma visualização (ou externalização) do nosso espaço interno,
de um espaço vital. Ao mesmo tempo a tentativa impossível de apreender ou proteger esse ar, esse espaço. Nesse trabalho, tanto o balão quanto a caixa de vidro, falam dessa tentativa poética e ao mesmo tempo frustrada, da impossibilidade de segurar esse espaço, de separar totalmente o dentro e o fora. A medida Untitled, 2007 / fotografia (faz parte de um tríptico) / Untitled, 2007 / desenho (faz parte de um tríptico) / em que o tempo passa, o 37 x 24.6 cm cada tinta sobre papel / 200 X 100cm cada balão se esvazia. Nos trabalhos com o balão cheio de gás hélio já é, silencioso. Ou talvez porque seja feminino no sentido não só uma aceitação dessa impossibilidade, como em que são delicados, fluidos e orgânicos. Algumas também uma exposição (não proteção) desse ‘objeto’ coisas estão mudando agora, a escala cresceu bastante, em relação aos movimentos no mundo. Nesse caso o a cor vermelha apareceu, mas apesar disso acho que ar vem de fora do corpo, da natureza, se envolve nos continua delicado, fluido e silencioso. Pode acontecer movimentos do ar que é externo a ele e depois esvanessa direção o que você está chamando de modéstia. zia. Fala dessa vulnerabilidade ao contexto (ao gesto Em relação a intenção, esse entendimento vem semdo outro) de uma forma mais viva, menos passiva pre depois do trabalho. É assim que a coisa caminha talvez. pra mim. O balão passa de um oposto ao outro, talvez para falar de posturas que temos em relação ao mundo, e MA A minha primeira questão perguntava sobre também dessa dualidade do dentro e fora. como seu trabalho recente parece se oferecer ao A gaze e o balão são de alguma forma invólucros, ambiente. Eu gostaria de te perguntar finalmente, como membranas, em geral a gaze em relação a pele como você como artista, se relaciona com seu próprio e o balão em relação ao ar. É como se de alguma meio? Como alguém que atua entre Rio e Londres, forma eles fossem a membrana de um espaço sensível, parece existir, mesmo que isso aconteça num nível mas que não tem como apreender ou proteger, pois é inconsciente, uma relação com esses lugares que é tão frágil e fluido como esse espaço em si. Numa idéia consideravelmente distinta. O quanto isso depende de que não se pode proteger ou envolver as sensações da familiaridade ou não familiaridade do lugar (como todas internas, também não se pode envolver o ar, nas imagens feitas no Parque Lage e naquele rio no nem o tempo nem o espaço. Pode-se porém se deixar Rio de Janeiro comparadas com aquela rua pós-inenvolver com o ar, com o tempo e com o espaço. dustrial, abandonada, do seu vídeo onde só se vê a Em relação ao balão que você diz na pergunta que esrua, as pernas e a sombra de uma pessoa, um monte tão “quase livres”, antes disso eu penso que eles estão de linha, e a sombra do balão com linha infinita que em equilíbrio e/ ou desequilíbrio eminentes. nunca entra em quadro) ou da progressão do trabalho propriamente dito. MA Nos trabalhos com o balão cheio de hélio outro fator surge que é a dificuldade de localizar o trabalho. ML Acho que essa não familiaridade com tudo (espaO que você considera ser o trabalho? É o objeto, que ço, ritmo, etc) fez, num primeiro momento, com que eu venho chamando de aparato? É a interação do esos trabalhos tratassem muito de uma repetição autopectador com ele? Ou é a documentação, seja o vídeo, mática, sem fim, num espaço qualquer, sem identidaa foto ou o próprio desenho em si ? de. Mas no final das contas, eu acabei voltando a atenção para os movimentos mais silenciosos (que sempre ML O ‘objeto’ não é apenas um aparato. É um ‘corpo’ me interessaram), que dizem mais respeito a questões que fala de uma relação com o outro, com espaço e internas do ser humano e dependem um pouco menos com ar. da cultura. É um trabalho que passa por diferentes meios, que No início desse processo de ‘volta’ foi quando fiz o podem existir juntos ou até, alguns deles, independentrabalho dos balões na floresta. Foi importante descotes. A performance porém não é exposta. brir essa floresta em Londres e voltar a fazer trabalhos na natureza. MA Parece haver uma certa modéstia no trabalho, Maria Laet nasceu em 1982 no Rio de Janeiro, RJ. na sua escala ou nos seus materiais. O quanto isso é Vive e trabalha em Londres, Inglaterra. intencional ? ML Talvez tenha alguma coisa a ver com o silêncio.
São, pra mim, assuntos do que é quase invisível de tão
Dr Michael Asbury é critico, curador e historiador da arte residente em Londres, onde trabalha no Centre for Transnational Art Identity and Nation (TrAIN) da University of the Arts London.
Nina Dias entrevista
Maria Lynch
Nina Dias Foi através da pintura que você iniciou seu trabalho como artista. Que idéias ocupavam o espaço da tela? Maria Lynch Gostava do fazer, do pintar, fui me fas-
cinado pelas possibilidades que as cores me davam, da matéria que emergia da sobreposição das camadas e acúmulos de tinta e tempo. Comecei a desenvolver uma linguagem dentro dessas possibilidades. Recortando diferentes camadas de cores, abrindo e fechando diversas janelas em formas amebóides e orgânicas. Promovendo jogos de velamento e desvelamento, adições e subtrações. Trafegando numa linha tênue da abstração e figuração, possuindo um pé no universo lúdico.
ND Como se deu essa passagem para o campo tridimensional? ML Acho que foi a vibração voluptuosa que as “figu-
ras” estavam tomando, nesse tênue espaço da figuração com a abstração, como se elas quisessem pegar
um outro ar. Mas queria construir, adoro esse processo de resultâcias do acúmulo. O que foi interessante dessa passagem, foram alguns acidentes que agregaram outras camadas de significado para o trabalho. Depois de um ano de experimentações e tentativas com diversos materiais e outras maneiras de construir, acabei começando a brincar com ursos de pelúcia, eles foram, na verdade, uma grande solução como material, e me possibilitou fazer as formas que queria com facilidade e ainda poder costurar, continham também um significado muito forte para mim. ND Como são construídas essas novas estruturas? ML Pois é, o tecido foi outra grande solução, fun-
cionou como um análogo à minha paleta de cor em tinta e ainda possui uma fisicalidade. O processo de construção desses objetos/coisa se dão de maneira oposta ao meu processo no plano pictórico, na pintura, o acúmulo e o recorte vão construindo as formas, enquanto que aqui eu primeiramente construo a forma, deformando-as com ataduras, vou moldando e
sobrepondo camadas de tecidos/cor até chegar a uma estranha “descomposição”. ND Mas o que são elas para você? ML São lindinhas, não são? É o devir animalzinho
da minha pintura, desse paralelo infantil e lúdico, ao mesmo tempo um pouco perverso. Por isso as sufoco e as deformo e as transformo no que quero. ND Agora que você já desenvolveu esse desdobramen-
to do seu trabalho. O que mudou e o que ficou?
ML Acho que como qualquer evolução uma coisa não acontece sem a outra, como você mesmo disse, é um desdobramento, respostas que foram sendo dadas às suas próprias questões ou inventadas à sua própria involução.
Posso dizer que continuo dentro desse universo encantado/desencantado que criei.
Thing 6, 2007 / técnica mista / dimensões variáveis Thing 7, 2007 / técnica mista / dimensões variáveis
Thing 5, 2007 / técnica mista / dimensões variáveis
Maria Lynch nasceu em 1981 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha em Londres, Inglaterra. Nina Dias é integrante da casa Daros.
19
Michel Groisman conversa com (NGDG)
Nadam Guerra e Domingos Guimaraens Michel Groisman Venho acompanhando o trabalho
de vocês há algum tempo. As performances com corpo e imagem (Paisagem Humana) e com manipulação de luzes (Cinema Manual) do Nadam, e as instalações performáticas do Domingos, como Capturando Sombras, Primavera Derretida, Gema do Sol. São todos trabalhos muito fortes e autênticos. Como aconteceu de vocês se encontrarem para trabalharem juntos? Como surgiu o NGDG?
NG Não é o que você pensa foi o primeiro trabalho do NGDG, ele é de 2004 e nunca tinha sido colocado num espaço expositivo. DG Colocamos ele na rua, como intervenção urbana, e na verdade foi a urbe quem interferiu no trabalho de forma radical quebrando os espelhos. Essa versão exposta aqui é a 2004/2008.
DG A Pintura em Freqüência Variada envolve uma
Domingos Guimaraens Nos encontramos por conta
MG O que os espelhos refletem sobre as perguntas
sobre o ser?
MG Tem a ver com ver o mundo de maneiras diferen-
de nossos trabalhos individuais com performance no CEP20.000 em 2002. Em 2003 lançamos o Manifesto UM que propõe o fim das fronteiras entre as artes e formamos o Grupo UM convidando outros artistas para habitar este terreno híbrido conosco. Nadam Guerra Há tempos eu penso sobre a inclusão de outros trabalhos dentro do meu trabalho. Desde a Complexiótica (2002) que era uma performance que incluía uma exposição coletiva. Mas gosto de pensar que o NGDG não é um grupo, mas uma terceira pessoa. Um alter ego compartilhado que tem uma personalidade e questões próprias. MG Por que vocês escolheram esta obra “Não é o que
você pensa” para o Abre Alas?
NG Cada peça propõe uma pergunta que é mais para ser contemplada do que respondida. Cada jogo de espelhos indica um caminho de resposta que não é único. DG Exatamente. São caminhos duplos, triplos ou múltiplos. É um trabalho gênese pois nos colocou questões que desembocaram em outros trabalhos futuros. NG Como a pintura em freqüência variada, por exemplo. MG E o que é a Pintura em Freqüência Variada? Tem
técnica em desenvolvimento, a partir de uma pesquisa intuitivo-científica, onde utilizamos diferentes freqüências de luz (cores e ultravioleta) e pigmentos sensíveis a estas freqüências, criando vários espaços visuais dentro do mesmo espaço físico. NG Desperceber e reperceber o mesmo espaço... tes dependendo do nosso humor (que de certa forma é como uma cor interior). Dependendo da “cor” do nosso estado emocional naquele instante, alguns acontecimentos desaparecem e outros ficam realçados para o nosso olhar.
DG Os dois trabalhos tem muito a ver com isso um
pelas cores outro pelo jogo com o reflexo.
NG Afinal qual o nosso fundamento do que é real? A
mudança de luz é isso, a mudança na nossa disposição de ver o mundo. Os espelhos também simulam de certa forma esta mudança de percepção. A pergunta é: “Como ver o mundo?”.
algo a ver com pintar a partir de diferentes estados de consciência?
Não é o que Você Pensa, 2004 / MDF, espelhos, lentes, acrílico, tinta acrílica, letras adesivas / 7 peças de 36 x 58cm
Nadam Guerra nasceu em1977 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ.
20
Domingos Guimaraens nasceu em 1979 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Michel Groisman é performer premiado no 8o Salão da Bahia. Tem apresentado seu trabalho em exposições e festivais de dança no Brasil e no mundo.
Carlos Contente, Carolina D’Almeida e Rafael Adorján entrevistam
Pontogor punk rock, a semelhança entre as duas atividades é que ambas me davam um “ feedback” quase instantâneo. Isso me faz gostar de estar presente quando as pessoas assistem ao trabalho, ser parte dele, me faz trabalhar com espontaneidade, acaso, precariedade. Alguns elementos estão no que faço hoje de maneiras diferentes, melhor explorados talvez. CC, CD’A e RA Portas podem ser cadernos. Vídeos
podem ser pinturas. Discorra sobre essa re-interpretação dos meios ditos “tradicionais”.
P Estou cagando para essas neuroses com termos
Boxe, 2007 / vídeo / 6 min 24
como meios “tradicionais”. Para mim isso não existe. Meios são apenas mecanismos que usamos para dialogar. Quando fiz um caderno com algumas portas que encontrei no lixo, não o fiz pensando apenas em um trocadilho visual. Tem a ver com trabalhar sem preconceitos com o que me rodeava e porque (por mais que pareça impossível) é mais fácil fazer uma pessoa ver uma porta quando crio uma relação incomum do que se a colocasse na parede. Aquelas portas eram tão atraentes para mim que sentia vontade de tratá-las de uma maneira mais íntegra. Um livro me pareceu bem íntegro e conveniente. As relações entre vídeo e pintura são parecidas. Imagens, trabalhadas com meios diferentes. Adoro pintura, só não tenho andado muito com ela esses tempos.
CC, CD’A e RA Até que ponto a sua relação com a Carlos Contente, Carolina D’Almeida e Rafael Adorján Nota-se que você utiliza as máquinas para
fazer interferências e intervenções sobre vídeos (principalmente trash). Qual o seu intuito com essas interferências ? Desconstruir a função da TV de transmitir mensagens centralizadas? Desconstruir a mensagem midiática, transformando-a em ruídos ? Interferir na transmissão , ironizando ou brincando, recortando a mensagem original? É uma interferência crítica ?... Enfim, seu trabalho com máquinas e interferências abre portas para muitas interpretações. Quero saber qual é o SEU Intuito com essas intervenções? Pontogor É difícil falar dessa “intenção “, porque me parece um assunto demasiadamente grande e importante, que ainda está se descobrindo no meu trabalho. Posso falar que não existe uma crítica tão direta nessas interferências que permeiam minha produção. Nos meus vídeos, o som tem uma importância tão grande quanto as imagens. Um dia descobri que poderia ligar minhas vitrolas nos VHS e criar , a partir dos sons , ruídos visuais , daí por diante os trabalhos passaram a ser um canal de diálogo entre imagens e sons (dois elementos que sempre me interessaram). CC, CD’A e RA Que vazio é esse que sinto? Curto seu
trabalho , mas não o entendo. Sei que é verdadeiro mas não consigo explicar por que . Como você me explica isso ?
P Não estou procurando fórmulas e nem fazendo “jogos”, não desenvolvo meu trabalho a partir de teoria de arte, não estou tentando superar momentos passados da história da arte, os conceitos e idéias que surgem a partir de meu trabalho, surgem durante o desenvolvimento destes. Dessa forma acredito afastarme de clichês e macete. Espero que isso deixe claro (como é claro para você) que o trabalho é verdadeiro (não estou pegando atalhos). Ao mesmo tempo meu “tema” (lema) é FAZER, penso a partir do fazer, ação, suor. Não estou contando uma história linear, não estou respondendo as perguntas com “ sim” e “não” e nem estou necessariamente perguntando o que quero saber. Permito que o diálogo do fazer diário se desenrole e, aos poucos , as questões vão aparecendo e se conectando. Talvez isso dê uma sensação de vazio. CC, CD’A e RA O artista tem o direito de mudar e
cultura local, ou o local onde você está, interfere no desenvolvimento de seu trabalho?
P O que afeta meu trabalho é muito menos uma
cultura de Rio de Janeiro ou Brasil, mas sim o bairro onde vivo , o tamanho e as condições do meu ambiente de trabalho. Essas coisas ditam muitas regras e interferem das maneiras mais drásticas às mais sutis. Quando dei um tempo de pintar, por exemplo, e comecei a trabalhar com vídeo foi por que era impossível pintar onde vivia na época. A musica que nêgo ouve, as roupas, uma porrada de coisas, mas sempre o que está mais próximo influencia mais.
trabalhar sempre com as linguagens que achar necessárias. Como você considera a relação entre suas atuais intervenções em som e vídeo e sua trajetória anterior com o grafite ?
Pontogor nasceu em 1981 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ.
P Não sei se as duas produções se tocam ou como se
Carolina d’Almeida, bacharel em Filosofia (UFRJ), trabalha com manutenção de redes e SO Linux.
tocam. O grafite foi minha mola mestra, me colocou em contato com pessoas, lugares... Na mesma época que comecei a grafitar entrei para uma banda de
Carlos Contente é artista e trabalha com a repetição de auto-retrato simplificado desde 2002.
Rafael Adorján, graduado em arte, fotógrafo, desenvolve trabalho com quadrinhos.
21
Edmilson Nunes entrevista
Sérgio Torres
Edmilson Nunes Sobre o amor, o que há? Sérgio Torres Uma tremenda energia propulsora que muda tudo ao meu redor. EN Que tipo de cumplicidade que você imagina e xistir entre seu trabalho e em quem olha para ele? ST São dois os tipos:
Olhar leigo – prestigia o trabalho apresentado e incentiva o artista. Olhar crítico – procura qualidade e técnica na obra apresentada.
EN Quem habita em suas obras (religiões e ciências)? ST Seres que habitam meu subconsciente. EN Você se considera um gravador ou a gravura é a base e o conceito de sua pesquisa? ST Não apenas gravador, uso a gravura como parte
da minha visão de arte, que também faço através de material reciclado, banner, sacola de mercado, garrafa pet, etc.
EN De que forma o ambiente de trabalho no caso basicamente a oficina de gravura do Ingá, em que você esteve, durante anos, interage com a sua produção? ST A troca de experiência com os demais gravadores
da oficina do Ingá, que freqüento há mais de quatorze anos, ampliou a minha ótica na criação e uso de técnicas.
Resta um, 2006 / ponta seca / 64 x 55,5cm
22
Sérgio Torres nasceu em 1967 no Rio de Janeiro, RJ. Vive e trabalha em Niterói, RJ. Edmilson Nunes é artista plástico.
Perguntas de Daniela Labra para
Tatiana Ferraz
Daniela Labra Fale um pouco sobre sua formação. Tatiana Ferraz Na verdade tudo começou por acaso,
com uma experiência de trabalho com uma dupla de artistas canadenses na Bienal de São Paulo, em 1994, as quais me despertaram e conduziram para a valorização de uma sensibilidade potente que poderia dar em algo. Dali pra frente, resolvi estudar arquitetura, acreditava (e acredito) que a formação de arquitetura e urbanismo é uma formação ampla e abre vários caminhos. Além disso, os problemas da cidade sempre me despertaram grande interesse. Segui à procura de uma boa formação, mas no meio do caminho, desisti, pois as duas faculdades que havia ensaiado estudar eram muito fracas e me desestimularam muito. Parti, então, para o curso de Artes Plásticas, tentando focar meus conhecimentos e minha prática. Dois anos depois de terminada a faculdade de artes, resolvi voltar à arquitetura, como aprendizado universitário, para finalizar algo que ainda estava pendente. Não para virar arquiteta de carteirinha (projetual, fazer reformas para clientes, trabalhar em construtoras ou na rede pública...), mas para praticar uma linguagem e um entendimento sobre a cidade que me interessava e continua interessando. Na real, acho que nunca me desliguei da arquitetura nem do urbanismo, ambos sempre foram motores para a minha experiência na cidade onde vivo.
DL Como você percebe na produção de arte hoje a
questão da interdisciplinariedade?
TF Acho que ela sempre existiu, com ênfases distintas
dependendo do período. Os vínculos históricos entre escultura e arquitetura, entre pintura e literatura, entre gravura e comunicação, entre arte e religião, tudo isso sempre foi um dado suposto. Porém, o que parece distinto hoje é a maneira como estes vínculos se estabelecem, não mais por uma imposição ou uma neces-
sidade, mas como fonte na qual as artes se nutrem, espontaneamente. DL Você considera o seu trabalho um híbrido entre
arte e pensamento arquitetônico?
TF Alguns trabalhos eu nem mesmo sei nomeá-los... é uma dúvida mesmo, mas eu curto esta ambigüidade. De alguma forma, acho positiva, apesar do preconceito do sistema. Muitos ainda me demandam por uma opção, ”como é, você vai ser artista ou arquiteta?” DL Como você assimila o seu trabalho intelectual
teórico na prática artística? Acha que um respaldo teórico aprofundado é fundamental para o artista?
TF De jeito nenhum, cada um opera de sua maneira. No meu caso, independente de ser artista ou não, antes mesmo de começar a produzir, eu já gostava de estudar. Mas isso, muitas vezes, é visto com preconceito pelo sistema das artes, especialmente por um certo ramo do mercado. São freqüentes as perguntas: você vai ser artista ou vai escrever? Subliminarmente, parece algo do tipo “você vai ser artista, criativo, espontâneo, visceral ou vai ser intelectual, reflexivo, crítico, textual? Acredito que uma coisa não inviabiliza outra. Apesar de gostar de estudar, ter feito mestrado em História da Arte, eu não pretendo ser uma intelectual, pelo menos não necessariamente. E, sim, alimentar sempre minha reflexão sobre arte. A universidade é hoje um espaço positivo de troca. Neste mesmo caminho, minha prática artística não se restringe ao labor do ateliê. Aliás, talvez eu não acredite mais em “ateliê” como lugar inspirador, o trabalho dispara na minha experiência do dia-a-dia, a fase “ateliê” é apenas uma etapa do processo, às vezes ela nem existe, já vai direto da elaboração conceitual para a execução por terceiros.
Tatiana Ferraz nasceu em1974 em São Paulo, SP. Vive e trabalha em São Paulo, SP. Daniela Labra é curadora independente.
23
Princípio de um provável longa conversa por email de
Tiago Rivaldo com Cristina Ribas From: Cristina Laranja Ribas <apartamento13@terra. com.br> Date: Fri, 18 Jan 2008 16:20:11 -0200 To: TiagoRivaldo <tiagorivaldo@uol.com.br> Subject: Re: Conversa
From: TiagoRivaldo <mailto:tiagorivaldo@uol.com.br> To: Cristina Laranja Ribas <mailto: apartamento13@terra.com.br> Sent: Friday, January 18, 2008 6:30 PM Subject: Re: Conversa
tiago você me deixou ir longe
Se eu te deixo pedalar, Cris? Acho que já estamos sobre rodas. Bora!
ainda não vi tua bicicleta ao vivo..... a “via de mãos dadas” mas fico aqui me imaginando, estou sentada na minha bicicleta. mas não nessa, ao meio, partida. uma espécie de cegueira. (porque a biclicleta deixa ver ao longe, na rapidez da pedalada, a roda girando e a paisagem mudando) posso pedalar? pra onde me leva, tu; e pra onde leva o artista? o artista é diferente do motorista de van? hoje tivemos uma conversa, o grupo laranjas, e a fabi rossarola veio falando: como tem gostado de pensar o trabalho a partir dos outros, a partir do que os outros dizem de seu próprio trabalho. na bicicleta duplicada parece que acontece isso, mas mais além: um pouco impossível não participar. se a via é de mãos dadas e não de mão dupla. se eu pedalo, eu vejo pra onde estou indo? se alguém que eu não conheço se puser a pedalar, e eu, que faço? tenho freios?
A diferença do artista pro motorista de van é que esse último só leva e nunca se deixa levar. O artista está querendo justamente os desvios que não cabem ao motorista, com seu itinerário já definido. E ainda: lembra que no interior de veículos de transporte público tem sempre uma plaquinha dizendo “não fale com o motorista”, ou ainda “fale com o motorista somente o indispensável”.
por alguma razão me lembro daquelas cenas de espelho de carro. disseram que o paulo bruscky fez um vídeo assim filmando a paisagem que passa (ao contrário, para o passado) pelo espelho do carro, mas eu também não vi. a tua bicicleta me deixa meio cega. no meio da cidade. um pouco porque eu não vi a “via” e um pouco porque sei das tuas fotos dos túneis. são linhas num espaço negro. pergunto: o que a bicicleta deixa ver?
Me agrada perceber teu interesse com o ver da/na bicicleta. Sempre achei que bicicleta e óculos se parecem muito, como se fossem da mesma família. Um óculos é imprescindível pra visão de alguns, no entanto pode distorcer, cegar, dar dor de cabeça naquele que não o precisa ou não está adaptado a ele. Cada olho tem um grau de visão e o óculos vem pra colocá-los em equilíbrio. A gente aprende a andar de bicicleta meio assim também, não?
estou indo viajar agora levo o mapa do rio comigo - premonitor. sem biblicleta e sem pedalada vou dar pegadas sobre as tuas.
Sim, tu podes fazer uso dos freios, mas além de o movimento ser importante para o equilíbrio isso pode limitar tua experiência com o outro. Eu sempre me imagino dos dois lados, pedalando comigo mesmo e quero que com o outro seja muito próximo disso. Uma tensão, um duelo que pode chegar a um equilíbrio, uma dança. Eu te levo, tu me levas.
escuro. e força. escuro de novo! ali não tem entropia, porque todas as forças puxam para fora. as linhas da cidade se multiplicam numa vertigem meio anacrônica, fora do meu corpo. a bicicleta desenha no escuro?
24
Quando eu fiz as fotos dos túneis, logo que cheguei no Rio, o sentimento era muito claro de que as mudanças não são portas, são túneis, por isso fiz questão de fazer dos pontos, linhas de luz no interior deles. Assim, me mantendo em movimento pra de alguma maneira ir entendendo o que D&G dizem sobre o território dos nômades ser o trajeto, o percurso. No entanto no meio do caminho, escuro muitas vezes, fui percebendo dar dois passos pra frente e um pra trás.
uma beijoca, tenho que ir qualquer coisa nos falamos por celular estarei no sinal até umas 20h depois mato domingo i´m back obrigada! cris
tente e sei que em algum momento ela não suportará também. Gosto de imaginar esses objetos de relação entre mim e o outro na via de mãos dadas como concentradores de tempo, da mesma maneira que sinto com as fotografias em longa exposição. Antes/agora/depois juntos num mesmo movimento, numa mesma imagem. Aqui, neste veículo eu me esforço pra conquistar a paisagem que vem a frente, mas posso bem me permitir contemplar aquela a que o outro me leva, e a minha vai ficando pra trás. Retrovisores? São espelhos translúcidos. não se vê só o que refletem, mas também através deles. É o prazer de ver a minha imagem refletida no olho do outro. Aguardo ansioso os rumos dessa conversa. Beijo grande. Tiago
Via de Mãos Dadas, no 1 – bike, 2007 / objeto, ação, fotografia / duas bicicletas, roda preparada, amigos, público voluntário / 100 x 270 x 60cm (objeto)
“Simplesmente eu sou eu, você é você. É lindo. É vasto. Vai durar...” Clarice Lispector Sobre as forças para fora, eu também pensava assim, mas nas primeiras tentativas de uso a roda do meio, a que une as duas bikes amassou, não era forte o suficiente. O que me faz pensar que a força está toda no centro, justamente na união. É uma carga muito grande. Tive que substituir por uma roda mais resis-
Tiago Rivaldo nasceu em 1976 em Porto Alegre, RS. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Cristina Ribas é artista e arquivista. Aprendeu a andar de bicicleta, sem rodinha, aos 5 anos de idade.
coordenação editorial
A Gentil Carioca projeto gráfico
Lili Kemper colaboradores gentis
Fernanda Gentil Norma Normando tradução
Rafael Viegas p.4 Joana Traub Csekö p.14 fotos gentilmente cedidas por
Allan Chiu p.18 Ana Infante p.3 Bárbara Palha p.9 Bruno Miguel p.6 Carolina Cor p.7 Cristiana Miranda p.10 Cristiano Lenhardt p.8 Fernanda Luz p.2 Flávia Metzler p.11 Glaucia Mayer p.12 Joshua Callaghan p.14 Leo Santos p.22 Leonardo Ayres p.16 Maria Helena Bastos p.17 Domingos Guimaraens e Nadam Guerra p.20 Paulo Innocêncio capas, p.4, p.19 Pontogor p.21 agradecimentos
Alexandre Rodolfo de Oliveira Ana Cristina de Souza Lima Ivana Rego Monteiro José Gerardo Silva Filho Martha Pagy Miguel Sayad Norma Normando Tatiana Bührnheim
25 Publicado por ocasião da exposição Abre Alas 4 realizada no Largo das Artes entre 26 de janeiro e 29 de março de 2008.
26