Adriano Costa Aleksandra Urban
Alexandre Brandão
Amanda Mei
Amadeo Azar
AoLeo
Arthur C. Arnold
Bete Esteves
Carlos Nunes
Escobar
Celina Portella
Chico Fernandes
Fabio Tremonte
8
Fran Junqueira
ABRE ALAS
Francilins
Kristofer
Paetau
Maíra das Neves
Marcelo Amo
Lilian Maus
rim
Maria Mattos
Márcio Vilela
Margit Leisner
Paula Huven
James Eisen
Polyanna Morgana
Marina de Botas
Romy Pocztaruk
Renato Bezerra de Mello
Sérgio Fernan
des
Umbigo Group
Sofia Caesar
Ulisses Lociks
Walter Gam
Wilbor Yara Pina
1
2
Alas Abre
4
Abre Alas 8
6
Adriano Costa
8
Aleksandra Urban
10 Alexandre Brandão 12 Amadeo Azar 14 Amanda Mei 16 AoLeo 18 Arthur C. Arnold 20 Bete Esteves 22 Carlos Nunes 24 Celina Portella 26 Chico Fernandes
8
28 Escobar
abre alas
30 Fabio Tremonte 32 Fran Junqueira
curadoria de
Alexandre Vogler Daniela Labra Marcelo Campos
34 Francilins 36 James Eisen 38 Kristofer Paetau 40 Lilian Maus 42 Maíra das Neves 44 Marcelo Amorim 46 Márcio Vilela 48 Margit Leisner 50 Maria Mattos 52 Marina de Botas 54 Paula Huven 56 Polyanna Morgana 58 Renato Bezerra de Mello 60 Romy Pocztaruk 62 Sérgio Fernandes 64 Sofia Caesar 66 Ulisses Lociks 68 Umbigo Group 70 Walter Gam 72 Wilbor 74 Yara Pina
2
Alas abre, carnaval, verão, samba, dança, funk. Harmonias, desarmonias, alegrias, tristeza, fantasias e um bom refrão lançando perfume e arte, no salão, na rua, no mundo. Mais uma vez chegamos ao fim começo de um ano, mais um abre alas abre espaços, mais uma vez a Gentil carnavalesca, travestida, vestida, fantasiada de instituição, querendo ver, encontrar aqueles nonimos anônimos que nos procuram, querendo abraçar com arte artistas críticos curadores colecionadores público, pessoas pessoas pessoas, mais uma ala para nosso bloco da vida, desta vez escolhida pelos maravilhosos olhos, dedos e bocas de Alexandre Vogler, Daniela Labra e Marcelo Campos, assim vivemos e vivenciamos a vida. O Abre Alas como todos sabem, aconteceu por acaso. Neste ano tivemos a novidade, cidade terra o face the face a face o livro da face da fachada da praça cibernética privada pública de amores palavras filmes trocas encontros e desencontros que pela Gentil Face link the face, nos trouxe mais de 300 candidatos, que de várias partes do gentil mundo enviaram seus portfólios imagens ideias, conceitos, preceitos, defeitos, perfeitos, imperfeitos e maravilhosas obras. Coube ao nosso trio AV, DL, MC, com incerteza, muita diversão divergência luta esforço risadas e carinho, escolher estes 35 ambiciosos artistas para formarem mais um bloco abre alas, este folheto, panfleto, livro no qual imprimimos estas palavras tolamente fantasiadas de bobas, escondendo toda uma responsabilidade profunda que temos com nosso lugar dentro desta sociedade CariocaBraTerraleira. Nestes 29 dias estaremos expondo as obras destes maravilhosos artistas, muitos novatos, outros já mais escolados, uns tímidos, outros atrevidos, uns magros, outros gordos, mas sem dúvida uma representação simbólica do que somos, do que esperamos, criticamos, desejamos. As obras de arte, muitas vezes estranhas, outras familiares, às vezes doces, quem sabe azedas, amargas ou salgadas, existem em nós e no mundo, entre nós e pelo mundo, muitas vezes incompreendida outra vezes acolhidas neste inseguro cotidiano, nesta dança com o contemporâneo, riscamos traços, vídeos, fotos, cores, pinceladas, formas, recortes, ideias pelo mundo. Indiretamente estaremos todos de alguma forma represen-
tados na urgência, na fome, na vontade e na coragem destes jovens artistas que hoje abrem, que hoje são o Abre Alas. Assim, gostaria de agradecer aos curadores da mostra por seu precioso, discutível, gentil, e dificílimo trabalho de mergulhar no caos da pedra bruta de todos nós e encontrar uma, das esculturas possíveis na combinatória figura dos escolhidos, decidindo assim com divinos dedos o micro destino de vários egos. Aos corajosos artistas que colocaram sua alma carne em julgamento, muitos que hoje fora estão, dentro um dia estarão, a arte assim como a vida é feita de circunstâncias, por isso não desanimem! Aos afortunados, um profundo agradecimento por aceitarem participar de nosso modesto bloco. Ao maravilhoso público pela gentileza da presença das ideias do carinho, vocês são e sempre serão a fonte de energia da A Gentil Carioca. Aos nossos queridos colecionadores que indiretamente financiam a nossa arte e nossos artistas, dando coragem para continuarmos. E finalmente a Secretaria Municipal de Cultura por ceder as salas no Centro de Arte Hélio Oiticica. Desejamos a todos um carnaval maravilhoso, com egos dissolvidos em matéria, som e movimento, e um feliz ano novo, afinal de contas, como todos sabemos desde criancinha, o ano só começa depois do carnaval!!! Beijos e abraços, A Gentil Carioca
3
4
Abre Alas 8 Sinceramente, achamos que ia ser fácil, rápido e curto. Mas não foi nada disso. Apesar do susto em ver mais de 300 portfolios para serem selecionados aos 45 minutos finais do segundo tempo de 2011, a tarefa de escolher dali 35 artistas foi encarada com seriedade mas também com muito bom-humor e determinação pela comissão de curadores. Embora seja uma mostra aparentemente voltada para a apresentação de jovens nomes das artes visuais no Brasil, ao longo de oito anos o Abre Alas ganhou ares de salão internacional. Assim, qual foi a nossa surpresa ao nos depararmos com uma diversidade de propostas, nacionalidades e trajetórias muito maior do que o esperado. Focamos nossas expectativas na chegada de propostas que ousassem na ocupação do espaço, na utilização de materiais inusitados ou na demonstração de renovação de meios, escalas e técnicas mais categóricas. Assim, não tivemos um desenho rígido de temas ou assuntos que norteassem as escolhas. Ao contrário, a própria seleção determinou o desenho da exposição. Uma curadoria com a postura de aprendizado, troca, surpresa. Em meio à quantidade, havia muitos artistas já inseridos no meio de arte brasileiro, com passagem por mostras e instituições importantes. Percebemos que a exposição Abre Alas já estabelecera sua relevância no calendário das artes. Porém, sem desprezar o trabalho dos mais “maduros”, a comissão entendeu que esta exposição deveria se manter o mais próximo de seu propósito original: dar preferência a artistas sem galeria e em início de carreira, além de apresentar alguns nomes com certa trajetória mas pouca, ou nenhuma, atividade no Rio de Janeiro. O Abre Alas 2012 caracterizou-se por ser a edição mais “cheia” de todas - entretanto a escolha dos 35 artistas não foi fácil. A qualidade dos portfolios recebidos nos deu uma dimensão positiva do bom nível da arte contemporânea que vem sendo produzida no país, assim como uma noção do crescimento e profissionalização do meio. Por fim, agradecemos A Gentil Carioca pelo convite, e felicitamos o encontro da comissão de seleção pela leveza do processo que se deu entre gargalhadas e decisões acertadas, em momentos de cansaço físico às vésperas do Natal. E agora, que venha o Carnaval! Alexandre Vogler Daniela Labra Marcelo Campos
5
Adriano Costa
6 Men’s work, 2011 / peneira de construção bordada
7
Adriano Costa vive e trabalha no Brasil desde 1975.
Aleksandra Urban
8 untitled, 2010 / oil on canvas / 80 x 80 cm
My work has its beginning from my surrounding reality. Memory is recording chosen elements, which are intriguing and stimulating to my imagintion and then artistic awareness transforms it into new pictures. My painting couldn’t exist without traveling and attentive observation of the world.
Aleksandra Urban was born in 1978, lives and works in Wroclaw. She graduated with the diploma in painting at the Academy of Fine Arts in Wroclaw. Her painting is often a very personal journey into the world of memories, fantasies and dreams, which gives it the intriguing form. Full of strange characters and horror phantoms, her works cannot be interpreted unambiguously. Alex often uses the convention of kitsch and frequently refers to the sacred sphere. As a very prolific artist she has exhibited over the past year, among others, at the Edinburgh Art Festival, and in galleries such as the Art Agenda Nova Bestregards Gallery in Frankfurt and twice in the Geppert’s Apartment Gallery.
9
Alexandre Brandão
10
Uma ampla superfície de parede ocupada por funis industriais oxidados que remetem às linhas projetuais de um grande desenho. Os funis, conectados uns aos outros, servem de recipientes para o crescimento de plantas pendentes, as quais transbordam os limites dessas linhas suspensas e são alimentadas por água, que corre preenchendo momentaneamente a estrutura, dando vida à ela. A cada vez regados, esses “traços-trajetos” são redesenhados internamente em um movimento que converge para o que seria seu ponto de partida. Fluxo e refluxo, natureza e artifício, construção e ruína se confluem em Reverso, onde convivem forças e sentidos opostos.
Reverso, 2011 / funis de alumínio oxidados, plantas, torneira e cano de ferro / dimensões variáveis
Alexandre Brandão é artista visual formado em desenho e fotografia pela Escola Guignard / UEMG e Comunicação Social pela UFMG. Natural de Belo Horizonte, atualmente vive e trabalha 11 em São Paulo.
Amadeo Azar Esta serie de pinturas son reversiones Monumentos reales de posguerra construidas en el territorio URSS. Se encuentran actualmente en estado de abandono y conmemoran batallas ganadas por el Ejercito Soviético durante la Segunda Guerra Mundial. En las acuarelas aparecen representadas con algunas modificaciones y emplazadas en un espacio fantasma y metafísico , que recuerda las obras Roberto Aizemberg 1, asi también los marcos hacen alusión a ciertos trabajos del movimiento Madí 2. Esta obra profundiza temas que se asoman en trabajos anteriores, la obsesión por las grandes utopías del siglo 20, la grandeza inalcanzada; la ambición y el fantasma del fracaso; la violencia agazapada bajo la superficie de lo cotidiano. Temas en donde reverberan, de manera sutil y a veces disimulada, los asuntos y el estado emocional de la cultura contemporánea argentina 1 - Artista argentino 1922 – 1996 2 - El Movimiento Madí es una corriente artística iniciada en 1946. Se trata de una propuesta para todas las ramas del arte (dibujo, pintura, escultura, música, literatura, teatro, arquitectura, la danza, etc.) basada en la extremación de los conceptos de “creación” e “invención”, con el fin de liberar la creación artística de las limitaciones “externas” a la obra misma.
12
Amadeo Azar nació en Mar del Plata en 1972. Pinta y le gustan las utopías.
untitled (monumento1), 2011 / watercolor on paper / 44 x 44 cm
13
Amanda Mei
14
A história do mobiliário desenvolve-se a partir do momento em que o Homem deixa de ser nômade, ou seja, desde o momento em que passa a possuir uma habitação fixa, e acompanha a sua história política, social e artística até à atualidade. Ao longo do tempo, o mobiliário foi evoluindo consoante as necessidades humanas, a capacidade técnica e a sua sensibilidade estética. Deste modo a sua caracterização varia muito de acordo com a região e a época, podendo-se fazer uma divisão por períodos ou estilos que se inserem de certa forma dentro dos movimentos históricos. 1. Estruturas: são conjuntos de dois ou mais elementos, independentes, que se complementam para o desempenho de uma só função. As estruturas são compostas de um ou mais elementos de fixação – que não tem significado próprio, mas são fundamentais à prestação do serviço que se propõem a cumprir. 1.1 Elementos paisagísticos: são os elementos que incluem os artefatos com um significado simbólico para a cultura da cidade, função de orientação cívica ou de composição da paisagem urbana. A classificação anteriormente proposta para o mobiliário tem por finalidade facilitar a compreensão individual de cada elemento, levando-se em consideração sua finalidade básica. Porém, é importante que tais estruturas sejam analisadas em conjunto para poderem exercer plenamente suas funções intrínsecas, relacionando-se também com a paisagem e o contexto onde estão inseridos e das necessidades da cidade. Fonte: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Manual para implantação de mobiliário urbano na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IBAM/CPU, PCRJ/SMU. 1996
Cadeira – abajur, 2006-2010 / madeira, arame, cúpula e lâmpada / 150 x 40 x 47 cm
Amanda Mei nasceu em São Paulo em 1980. Vive e trabalha em São Paulo. É graduada em bacharelado e licenciatura em artes plásticas pela FAP - FAAP, em 2004. Desenvolve pesquisas em diferentes linguagens como pintura, vídeo, fotografia e instalação.
15
AoLeo PRUDÊNCIA
Raphael Fonseca
Atua como artista, fotógrafo-performer. Utiliza a fotografia para tratar de temas como a paisagem e a presença do corpo no espaço. Além da prática artística, AoLeo é artista educador junto ao Núcleo Experimental de Educação e Arte do MAM-Rio e leciona à estudantes de ensino 16 fundamental na rede de ensino público do Estado do Rio de Janeiro.
FOTOGRAFIA KHALIL CHARIF
As bordas de uma imagem fotográfica e as linhas que contornam os espelhos: polígonos. No seu entorno, dois elementos cujo domínio pelo viés da geometria foi tentado à exaustão em séculos de produção de imagens: o corpo humano e a paisagem. Se em sua autoimagem o artista se encontra parcialmente “ao léu”, desnudo, o mesmo não pode ser dito quanto à sua proposta poética. A experiência fenomenológica do indivíduo com a natureza e seu fugidio reflexo são transformados em imagens estáticas. Toda fotografia e todo espelho são propositores de mediação, duplo e metade, imitação e distorção; o simulacro aqui se dá de modo inevitável. E seria possível apreender a existência de modo não instrumentalizado? A prudência, tida desde a Antiguidade como a mãe das virtudes, possui a iconografia de uma mulher que se observa em um espelho. Mais do que uma vaidosa autoavaliação, esse ato poderia ser prolongado como uma reflexão sobre nossas atitudes e o mundo – “remete às coisas passadas, ordena o presente e prevê o futuro”, diz Cesare Ripa. A pesquisa artística de AoLeo pode, portanto, lançar questão semelhante: existiria um modo prudente de nos relacionarmos com a “natureza”? O quanto de nós mesmos, projeção de carne e ossos, existe dentro da construção deste amplo conceito entre aspas? Por fim, até que ponto toda paisagem não é, na verdade, um autorretrato?
sem título, 2011 (da série Exercícios de reflexão) / fotografia / 75 x 120 cm
17
Arthur C. Arnold
18
Procuro através de uma pintura de caráter figurativo falar de questões e situações que vivencio. Com uma dose de humor, sarcasmo e até perversidade, observações e preocupações são transformadas em narrativas. Porém, ao contrário das narrativas seqüenciais como as dos livros e estórias, o tempo não se faz presente. Com o uso de metáforas visuais abordo os temas de forma indireta, gerando muitas vezes, mais de uma interpretação para o quadro. Isso me interessa, porque não sou o dono da verdade. No momento atual da minha vivência artística não trabalho temas em meus quadros no formato de série, apesar de já ter feito isso antes. Procuro resolver cada tema em um único trabalho, que juntos formam um conjunto de obras, mas não uma série. Na minha pintura utilizo diversas formas de tratamento, como áreas chapadas, empastes de tinta, veladuras, fortes contrastes de cor e de tons. Grandes áreas de sombra se projetam sobre figuras, que por vezes se assemelham com a realidade, mas que muitas vezes são distorcidas e passam até por metamorfoses se transformando em seres híbridos a fim de gerar um drama maior na tela. A cor, algo que me interessa muito, também é uma mistura da realidade e da minha imaginação, podendo, por exemplo, aparecer uma figura de pele completamente vermelha ao lado de figuras realistas ou sombras brancas. Gosto de modelar massas de tinta para criar contrastes de textura, pois acredito que a pintura é, além de uma arte visual, uma arte tátil. Creio que a pintura em sua forma mais ampla é a melhor maneira de transmitir tudo o que eu quero, pois posso criar uma gama ilimitada de elementos e sensações, que têm a capacidade de mudar o espectador, nem que seja um pouco, seja pra pior ou pra melhor. Apesar de achar isso um pouco utópico não quero mudar o mundo, só quero mudar pessoas. No quadro selecionado para a exposição Abre Alas 8, chamado de “Papai não sou mais virgem”, sombras azuis projetam-se sobre paredes, vemos figuras no primeiro plano, sendo que a principal, uma menina, está nua e mostrando sua vagina e é observada por um jovem que está à esquerda da composição na frente de um senhor que leva as mãos à cabeça. De representação mimética o quadro ainda mostra uma cidade, que poderia ser qualquer lugar, sendo atingida por uma grande explosão, que ilumina parcialmente a cena. Muito além de falar do drama que pais vivem ao saber que suas princesinhas perderam a virgindade, o quadro trata da dificuldade que pais e mães têm em aceitar e ver que seus filhos são adultos e independentes. Acredito que grande parte dessa dificuldade se deve ao fato de não termos ritos de passagem claros na nossa sociedade contemporânea ocidental.
Papai não sou mais virgem, 2009 / OST / 137 x 193 cm
Nascido em 1984 no Rio de Janeiro. Estudou na Belas Artes da UFMG,na Bauhaus Universität Weimar e no Parque Lage com João Magalhães. Expôs na coletiva “Spuren suchen” no Neues Museum em Weimar, individualmente “Em meio à pintura” na Galeria do BDMG, BH. “Árvores e outros Objetos” na Pequena Galeria da Universidade Cândido Mendes, RJ e “BASTARDO” na Galeria Beatriz Abi-Acl, BH, com o grupo de pintura coletiva Bastardo.
19
Bete Esteves ETERNO RETORNO DO RECALQUE
Bete Esteves constrói inutensílios, engendra máquinas celibatárias, quimeras maquínicas - como as chama. Suas máquinas brotam do desejo de libertar os objetos da obviedade de seus usos. Ao liberá-los dos lugares-comuns, permite que emerja o inusitado. Ela busca desaprender o objeto e persegue o que permita que seu sentido enlouqueça. Como sugere o poeta Manoel de Barros, é preciso “desacostumar as coisas”, fazê-las “pegar delírio”, inverter, subverter, brincar, reinventar sua lógica, “divinar”. Bete transmuda como poeta que é nas cineses escultóricas que maquina e gesta. Uroboros, serpente ou dragão que come a própria cauda, é o nome do trabalho exposto na Gentil Carioca. Seu funcionamento opera ideias de movimento, continuidade, auto fecundação e eterno retorno. Evoca a circularidade do cão que persegue o próprio rabo (o consumo canibal de nosso tempo), a máquina que dispara ciclos aquáticos de invenção e reinvenção, de repetição não identitária, sujeitos às variações de temperatura e pressão e com possibilidades de pane. A noção de eternidade a cada retorno, a cada descarga acionada escorre o vir a ser, produz-se o incessante dos ciclos que retornam. Nesta sucessão circular de descargas nos assalta a ideia do recalque, que a artista lucubra. Na psicanálise, o recalque é conceito associado à descarga, à idéia de satisfação pulsional, à evitação de um prazer pelo desprazer que possa advir da descarga que o satisfaça. Em sentido estritamente hidráulico, o recalque corresponde ao sistema que opera a condução da água de uma cisterna em direção a uma caixa d’água no alto. Livres de suas funções originais as caixas e os demais componentes do trabalho, lembram os “personagens” que figuram em “The way things go” de Fischil and Weiss, reinventam um modus operandi, uma relação entre partes que provoca risos, reajustes e refuncionalizações, sequenciais e ininterruptas. “Uroboros” é uma máquina quimérica, como as lendárias e míticas representadas pela combinação do leão, da serpente e da cabra. Aqui, um “ser” criado a partir de organismos reais, com “células” de duas ou mais máquinas - motor de máquina de lavar, trilhos, roldanas, canos, boias, caixas de descargas - que geram novos territórios, inauguram singelezas, incutem novas subjetividades. “Uroboros” insere-se num looping que envolve uma dança em torno do objeto, um remoinho que mantém o sistema autorreferencial operante - como Picasso gostaria que ocorresse com sua “Cabeça de Touro”: que fosse encontrada por um ciclista que pudesse readaptá-la num selim e guidom de bicicleta e que, em seguida, fosse, mais uma vez, transformada numa escultura e assim sucessivamente ad infinitum*. Ricardo Paes 20
* SYLVESTER, David. Sobre arte moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. pag p. 467
Bete Esteves é artista e designer, mestre em linguagens visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em seus mais recentes trabalhos, tem se dedicado à criação de dispositivos poéticos que unem experiências artesanais, científicas e técnicas com aparatos mecânicos, digitais e tecnológicos. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.
Uroborus, 2009-2010 / painel de MDF, caixa de descarga plástica, tubo de PVC, perfis de alumínio, polia plástica, garrafa PET, molas, peso de chumbo, cordão de nylon, parafusos diversos, micro bomba d’água / 82.5 x 275 X 66 mm
21
Carlos Nunes GERADOR DE IDEIAS A arte contemporânea é refratária à classificação pelo discurso (seja do artista, seja da crítica, seja do público). Ao contrário da produção tipicamente moderna, cuja ênfase na forma, nas linguagens e nos ismos inseria poéticas singulares no campo objetivo da história, a arte produzida nos últimos quarenta e cinco anos parece desprezar essa inserção. Na contramão da clareza formal conquistada pelo artista moderno, o artista de nosso tempo mistura referências, dilui as fronteiras entre pintura, desenho e escultura, utiliza-se de repertórios plástico-formais tradicionalmente contraditórios, de materiais de todo tipo, às vezes não-artísticos, extraídos do mundo natural e industrial. Em 1978, Rosalind Krauss publicou seu famoso artigo intitulado “Escultura no campo expandido”, que tratava da abertura da arte contemporânea, a partir de todas as linguagens tradicionais, por meio do hibridismo, da fusão da mídia e uma nova compreensão do espaço como parte da obra de arte. O caráter de representação do desenho era a base comum de várias práticas artísticas como a pintura, escultura, gravura e arquitetura mas, há muito, o desenho vem se articulando como engenho e modo de organizar o pensamento, fugindo das especificidades da virtuose. É neste campo ampliado que habitam os trabalho de Carlos Nunes. Seu interesse recai nas pequenas coisas do cotidiano, nos objetos ordinários e na relação de afeto com o mundo do pertencimento, que são transformados em processos ou procedimentos que geram poéticas e desenhos. Sua primeira grande série de desenhos lida com processos de esgotamento. São registros, as vezes aleatórios, as vezes com alguma interferência do artista como, por exemplo, a caneta hidrocor deixada em pé sobre um papel artesanal até que o mesmo absorva toda a tinta. Em “O triunfo das cores, amor e música sobre os maldosos azuis”, Carlos trabalha com uma série de registros, desenhos, feitos a partir de mecanismos que articulam som, luz e cor. Constrói, assim, desenhos que são determinados pelos mecanismos de gerar som, as vezes pela duração de uma música ou seu ritmo ou, até mesmo, pelo mecanismo de algum dispositivo eletromecânico como um gravador ou toca discos. Sua nova série de desenhos parte do álbum Yellow Submarine, que é o álbum trilha-sonora lançado pelos Beatles, do filme de mesmo nome. A história se passa na cidade de Pepperland, quando os “Maldosos Azuis” (Blue Meanies) atacam a cidade para acabar com o amor, a música e as cores. Carlos, como os Beatles, não querem deixar que isto aconteça. E as armas são as idéias. 22
Franz Manata Rio de Janeiro, Março de 2010
O triunfo das cores, amor e música sobre os maldosos azuis, 2010 / desenho 03 LP (desenhos a partir de mecanismos de música) / Duas pick-ups idênticas colocadas lado a lado e interligadas entre si. Enquanto uma toca a música, a outra reproduz o desenho da música sobre o papel.
Carlos Nunes nasceu em São Paulo em 1969. É formado em Artes Plásticas pela FAAP. Em 2005 se mudou para Buenos Aires onde viveu por 3 anos, lá frequentou a clínica de Diana Aisenberg. Em 2008 voltou a viver em São Paulo e atualmente é um dos artistas do Ateliê Fidalga de Albano Afonso e Sandra Cinto.
23
Celina Portella
EX-PAÇO
24 Celina é Artista. Trabalha com Artes Plásticas e
Dança. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.
25
Chico Fernandes
26 Cage Rage, 2011 / fotografia / 70 X 105 cm
Chico Fernandes nasceu em 1984, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Entre 2002 e 2009 freqüentou diversos cursos na EAV Parque Lage. Em 2011 participou do programa Aprofundamento na mesma instituição. Cursa a graduação em Artes Visuais pela UniBennett/ RJ. Participou de diversas mostras onde destacam-se 27 Rumos Visuais do Itaú Cultural - 2005/2006, Projéteis de Arte Contemporânea Funarte/RJ 2004 e 2006/2007 e Performance Presente Futuro Oi Futuro 2009.
Escobar
Fóssil discute questões como obsolescência e progresso por meio da apropriação de elementos do espaço público de uma grande cidade. Ao refazer em cerâmica um antigo orelhão, e recolocá-lo no espaço público, o artista Escobar retira deste objeto a sua função primordial para atribuir-lhe uma nova função. O antigo orelhão, que anteriormente estabelecia comunicação entre pessoas em diferentes pontos, agora registra as modificações que o progresso das cidades ocasiona no espaço público. Jaime Lauriano
28
Escobar (paulista, paulistano), faz bacharelado em Artes Visuais no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, é arte-educador na Fundação CASA (antiga FEBEM), gosta bastante de cerveja e nas horas vagas tenta ser artista! Fóssil, 2011 / cimento / 36 x 20 x 13 cm
29
Fabio Tremonte “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela lampeja no momento de um perigo”. Walter Benjamin
Em que ponto localizar o trabalho Rampa (2011) de Fábio Tremonte se o próprio artista ocupa posição dupla em relação a ele? Uma vez que, durante sua adolescência, o skate foi a forma primordial usada pelo artista para circular pela cidade de São Paulo e que as muitas e muitas rampas construídas anteriormente serviram a outros propósitos que não o de se fazer um trabalho de arte, como poderíamos situar sua última Rampa aqui e agora sem nos deixarmos restringir ou enredar por um discurso meramente biográfico? A obra Rampa (2011) encontra-se numa interseção ambígua entre os artifícios usados pelos skatistas para experimentar manobras, ganhar velocidade e altura, e aqueles usados pelos artistas para potencializar a relação corpo/pensamento. O rosa do maderit e a escala usada pelo artista na construção de sua rampa deixa entrever que seu uso comum foi alterado, não somente por ter sido deslocada para ou por estar confinada a um espaço indoor - certamente insuficiente para a realização dos saltos físicos que promete - mas porque o próprio objeto expande-se para fora de si promovendo outros saltos. Da vertical da rampa que chega até o limite do teto como se quisesse ultrapassá-lo, do reflexo rosa do maderit que tinge as paredes brancas ao seu redor ou das lembranças das cenas de ruas em que figuram skatistas e o som peculiar produzido pelo deslizar de seus skates sobre o asfalto, saltamos para uma série de referências ligadas à produção artística. Refiro-me, sobretudo, aqueles trabalhos realizados a partir dos anos de 1960, nos quais o corpo passa a ser questão central e a ideia de espectador como aquele que assiste, que vê, como se estivesse de fora, passa a ser claramente rechaçada. De salto em salto encontro-me aqui e agora convivendo com praças públicas que foram cercadas e parques nos quais não se pode mais andar de bicicleta ou skate... Agora compreendo, que em contato com o trabalho Rampa, encontro-me diante, não de uma, mas de duas rampas iguais e curvas, para serem curvadas com os olhos e com o desejo. O olhar e o pensamento foram devidamente, ainda que por um instante, restituídos ao corpo. Lais Myrrha Verão de 2012 30
Fábio Tremonte [1975 – São Paulo, SP] é artista plástico e professor.
Rampa, 2011 / madeira / dimensões variáveis
31
Fran Junqueira
32
Fran Junqueira vive e trabalha no Rio de Janeiro. Sono dos Justos, 2010-2012 / fotografias / 40 X 50cm
33
Francilins Francilins is a quiet mysterious artist (…), is a true visionaire, an artist that is stretching the boundaries of photography. He savages the medium for his own visions, forcing us to enter a world that is blurred and scarred and raw. He seems to be using sex and lust as a mean to recreate a balance within the maelstrom of human emotions. Luca Desiena – editor e curador
34
Religião e sexualidade se misturam e se confrontam no desconcertante trabalho de Francilins (...) barrocas contradições. Uma fotografia cada vez mais orgânica e visceral, mais instintiva e seminal. Érico Elias – crítico de fotografia
Como um feiticeiro, o fotógrafo perde a linha da razão (...), na abertura do diafragma, a magia se completa, rastros fantasmagóricos queimam e marcam a fotografia. Nos espectros, outros rostos, outras imagens, congregando as sensações de um processo ritual. Marcelo Campos – curador e professor
sem título, 2002 / fotografia C-print / 100x70 cm / tiragem de 7
Francilins, mestrando em Artes Visuais na UFBA, graduado em Antropologia/Ciências Sociais pela UFMG. Suas obras transversais são marcadas pela articulação dos mais diferentes suportes artísticos, principalmente a fotografia e o cinema. Seus trabalhos têm forte ênfase na vivência e corporalidade, assim como são atravessados por discussões teóricas com origem na antropologia, filosofia e literatura. Trabalhou como fotógrafo para importantes publicações e também foi editor sênior de fotografia da Revista Sagarana. Participou de dezenas de exposições no Brasil e no exterior, assim como recebeu importantes prêmios de Fotografia e Arte. Também 35 atua como professor de fotografia e curador.
James Eisen There are several pieces Eisen is working on that attempt to explore the “Disharmony of nature” by using a sequence of spatial displacement. Abstract relationships (social included (Above:’Sir David Attenborough’-BBC Narrator) are characterized by a kind of spontaneous course. Eisen has been forming relationships through installation-transforming objects to a mere aesthetic whim and interchanging the focus to the user and Consumer. His primary research is focused on the field of equilibrium and disharmony forces, bringing disruptive proceedings to the viewer and showing ‘another life’ Eisen’s interest in assemblage and the unlimited possibilities of mixed media — that is, working with sculpture, or otherwise incongruous elements. Can bring to mind different abstract relationships, which tend to give the work ‘another life’. It’s a way for Eisen’s Work to have complete freedom to the indefinable, which may emanate from materials, space and encounter.
James Eisen was born in 1987 in Melbourne. He lives and works in Melbourne. Selected shows: 2012-Internal painting valuable gift; SAYLE, Curtin house; Melbourne (AUS) TCB Art inc, Melbourne (AUS); 2011: TamTam, Berlin, 2010: Cast gallery, Hobart AUS; Hell Gallery, ToupeeMelbourne AUS. James Eisen is currently in residence at TCB art Inc in Melbourne Australia. 36
Menschliche Erde~ATTENBOROUGH AT 87, 2011 / mixed media / 100 x 21 x 15 cm
37
Kristofer Paetau (Bate na porta) Artista: Sim, só um momento! Só um momento! Olá! Obrigado por vir ao meu estúdio. Curador: Você mora aqui? Artista: Não, não. Estou alugando este quarto como estúdio durante minha pesquisa aqui no Rio de Janeiro. Por favor entra! Curador: Nunca vi um estúdio como este ... Artista: É verdade... mas não vamos gastar o seu tempo precioso: por favor, dê uma olhada no meu último trabalho que está aqui. Chama-se “Cidade-Panorama número 1 (Sem Título)”. Na verdade, é um trabalho em andamento: a primeira parte de um projeto de pesquisa conceitual sobre urbanismo e realidades sócio-políticas na América Latina. Curador: Isso é uma escultura girando... Onde fica a pesquisa sobre urbanismo e realidades sócio-políticas? Artista: Mas isso é apenas uma parte da minha pesquisa que irá evoluindo como uma rizoma, tomando várias formas com o tempo... Este objeto é como se fosse um modelo imaginário arquitetônico, uma espécie de ‘objeto de desejo’ a partir do ponto de vista de um “andarilho consumidor” descobrindo uma nova paisagem urbana. Curador: Eu não consigo ver nada disso. 38
Artista: Você esta entendendo tudo errado! Como eu poderia explicar este trabalho?
Curador: Bem - você pode me dizer algo sobre esta montagem? Artista: Mas não se trata de montagem! É uma pesquisa conceitual cuidadosamente construída com um modelo de arquitetura feito de bens de consumo que se tornaram símbolos da cidade. Curador: Então: qual é o conceito? Artista: Bem, eu... comecei a colecionar esses objetos esculturais, enquanto eu estava andando nas ruas da cidade e então resolvi entrevistar pessoas sobre esses objetos e sobre o que eles simbolizam. E a partir destas entrevistas comecei a desenvolver a ideia de materializar essa “plataforma de amostras”. Curador: É só turismo de arte por mais um gringo... Artista: Mas você não parece entender nada sobre minha pesquisa e sobre a arte conceitual! Curador: Ta bom! Então deixa eu participar da sua pesquisa! Adeus e boa sorte!
Kristofer Paetau nasceu 1972 em Porvoo, Finlândia. Vive no Rio de Janeiro desde 2008. Mestrado em artes visuais em 1998 na França. Trabalha e expõe regularmente como dupla desde 2004 com o parceiro e amigo Ondrej Brody. Membro fundador da empresa ‘e-artnow’ de divulgação internacional de arte por e-mail. Participa atualmente na exposição ‘The Global Contemporary. Art Worlds After 1989’, ZKM | Center for Art and Media Karlsruhe, Alemanha (2011 – 2012). Encontro crítico, 2010 / motor e dispositivo girador + vídeo HD 3min. 45 s. / 1m x 1m x 1m
39
Lilian Maus
40
Trechos do texto O Desenho como Área de Cultivo, do artista e professor Flávio Gonçalves (2011)
Lilian gosta de pensar que seus trabalhos formam um jardim (e me vejo olhando para os pátios, pois o jardim dos outros é sempre mais misterioso que o nosso). Talvez por isso o desenho seja seu instrumento de trato, um meio onde a leveza ganha gravidade. É assim que vejo suas letras e frases em plástico, grudadas em linhas e ramas, esperando um leitor que lhes dê sentido, que ande em torno e que as trate como hera, símbolo do contínuo que são. (...) As metáforas de semeadura, crescimento e disseminação fazem com que pensemos a inscrição gráfica ainda mais como um espaço para o cultivo das ideias, para a revelação de memórias. Dos encontros da artista, Lilian reuniu séries como Área de cultivo, onde são fotografadas manchas, fungos e outras culturas que nos lembram o modo como seus desenhos, aos poucos, fecundam e germinam a folha de papel. O que a artista põe em relação são esses processos ao acaso que formam a periferia da nossa atenção, e que ela transforma em ação e determinação. Um trabalho simples que a arte procura nos fazer perceber: por vezes algo do tempo se condensa em nós, vira matéria, pesa e desaparece.
h Por uma estética de botequim (da série Tramas Diárias), 2009 / letreiro para bar da Subterrânea, Porto Alegre
k Ilha Tipográfica (da série Área de Cultivo), 2011 / musgo e letras plásticas soldadas
f Grafo (da série Tramas Diárias), 2010-2012 / instalação de parede de dimensões variáveis com letras plásticas derretidas e soldadas
Lilian Maus, nascida em 1983, Salvador/BA, reside em Porto Alegre/RS, onde se formou em artes visuais no IA/UFRGS (bacharelado, licenciatura e mestrado). Atua como artista-gestora do espaço independente Atelier Subterrânea. Em sua obra, busca unir rigor e fantasia ao criar tramas que, por meio do fluxo entre palavra e imagem, meta41 forizam o jardim e se expandem em desenhos, instalações e fotografias.
Maíra das Neves
1m2, 2010-20 / ateliê de 1m2 alugado no quinto andar de uma fábrica desativada na zona portuária do Rio de Janeiro
42
Quando Maíra das Neves cansou de rodar, depois de ter se estabacado num desses vai-e-vens, de ter sobrevivido a um terremoto e a muitos pequis, um capacete lhe acenou. Se vermelho ou amarelo não se sabe ao certo, mas ele estava ali, do lado e no meio de uma rede à beira-mar. Lá Maíra se empoleirou, e foi ficando. Nesse tempo encontrou um velho lutador que consertou sua asa, foi atacada por um filhote de tubarão e logo descobriu que tinha amigos. Maíra conheceu o carnaval e a tristeza da quinta. Sua pele passou do gelo pro marfim e seu corpo mudou de tanto subir e descer curvas de pedra em zigue-zague. Maíra sentiu que ficaria por ali, mas ainda faltava um canto pra chamar de seu. Foi quando outra filhinha da mandioca, uma que faz trovões na pororoca digital, se transformou em fada-madrinha e levou Maíra até o porto pra conhecer seu ateliê na fábrica de chocolates desativada. Muitos eram os metros quadrados na espera de quem cuidasse deles. Estavam todos imundos, quebrados, sem piso, sem forro, sem luz ou água. Maíra gostou de um, atrás do elevador e no meio da passagem, e decidiu que seria ali. Colocou sua roupa de negócios, preparou documentos, recortes, cabelo e resumê, todas essa coisas de convencimento e foi insistir. Enquanto insistia, desenhou com silver tape um quadrilátero regular no piso irregular do quinto andar e colocou um ovo gigante nele. E insistiu por vários meses.
O ovo nem branco mais era de tão empoeirado. Já estava pra desistir quando assinaram o contrato de aluguel. Com 14 reais ao mês, Maíra se tornou a responsável por aquele quadrado de chão e o espaço acima dele, até o teto. É seu primeiro ateliê: 1m2. No mesmo dia, o ovo desapareceu. Maíra das Neves começou então a arrumar o 1m2. Tirou a fita do contorno e trouxe um piso novo. Preparou e encerou cada pedaço e, na hora de colocar, descobriu a fonte de azul que brotava do chão. Com pano e água foi tirando o pó, mas foi só encostar numa parte lá e o azul escorreu mansinho. Esfregou, esfregou, jogou balde, quanto mais tentava limpar mais brotava. Maíra ficou inteirinha azul. Até que desistiu de lutar com a cor, secou tudo, trocou o piso do quadrado e decidiu voltar depois, com equipamentos exploratórios. Assuntou com vizinhos e assim soube da pilha de caixas com pigmentos que ficava ali, na época em que se enchiam pacotes de café, chocolate e canela naquele prédio. O amarelo já tinha ido, e o azul, vazado, se impregnou nos rejuntes e cristalizou tão duramente que não saía nem com ponta de faca. Mas era só babar um cuspezinho e ele já saía do concentrado carmim, todo eloquente. Foi nessa fase exploratória que Maíra se cansou de sentar na poeira do chão. Mas não sabia como guardar o banco ali. O 1m2 é assim, sem porta, sem janela, sem parede. Tem só chão e uma lâmpada. Maíra olhou pra cima e viu as vigas de ferro correndo no teto. E imaginou roldanas e cordas pra guardar pendurando. Imaginou até um balanço, mas esse ainda não conseguiu colocar. Maíra queria também receber pessoas, e receber bem, o mínimo conforto. Mesmo com o 1m2 pelado vieram muitas visitas, trouxeram surpresas, instrumentos musicais e até uma árvore-bebê pra chamar felicidade. Comentando, descobriu quem poderia fazer e instalar a tal estrutura de ferro e roldanas: o homem colorido com nome de santo que faz
corações de porcas e parafusos. Ele é encontrado aos sábados em uma garagem-oficina depois do túnel, lá onde uns motoqueiros roqueiros se juntam para consertar e beber. Para fazer a estrutura e ainda comprar os móveis, Maíra precisava de altos números azuis na sua conta. E havia anos que só conhecia vermelhos. Apelou pra multidão, contou sua imaginação em vídeo e conseguiu mais de oitenta apoiadores pra mobiliar o ateliê. E como recompensa, cada um recebeu, através da máquina-correio, um envelope-bolha com um pedaço de papel de bambu ou de algodão com um bocado de azul recolhido molhado apertado do chão. Maíra as chamou de aquarelas. E todos ficaram contentes. Hoje, a fonte de azul não existe mais, ela foi tampada por uma parede de tijolos da vizinha. Mês passado o contrato venceu, mas um novo já está escrito. Mais um ano de 1m2 virá. Sempre aberto a visitas e experimentos. O mais recente foi quando um amigo-ilha trouxe água, fogo, copos e pratos e operou a penumbra-mãe na sexta-feira 13. Ainda falta um radinho de pilha e uma planta pra ornar, mas aos poucos tudo cabe. Apesar do furacão Remoção que tem assolado a região, a fábrica continua em pé. Grandes transformações, imensas, pra toda gente. Maíra aprende: cada um no seu quadrado.
Maíra das Neves (São Paulo, 1978) vive e trabalha no Rio de Janeiro. Estudou arte na FAAP (SP, 1998) e no Aprofundamento do Parque Lage (RJ, 2010), fez residências em Goiânia (independente, 2007), Belo Horizonte (Bolsa Pampulha, 2008), Caieiras (Centro de Estudos em Dança – DESABA, 2008) e Rio de Janeiro (CAPACETE, 2009). Participou de coletivas na Galeria TAC (RJ, 2011); Galeria Luciana Caravello (RJ, 2011); Urban Nomad Film Fest (Taiwan, 2011); Parque Lage (RJ, 2010); no pilotis do MAM (RJ, 2010); no CCBNB (Fortaleza, 2010); Museu da Pampulha (BH, 2008); Museu Dragão do Mar (Fortaleza, 43 2007); Galeria Vermelho (SP, 2007]; Rumos Itaú Cultural (2006), entre outras.
Marcelo Amorim
44
Em dimensões reduzidas e de mesmo tamanho, cabeças de papel se projetam no espaço expositivo na forma de esculturas fotográficas. Na parede, o mapa aberto de uma cabeça indica trajetórias possíveis de um jogo minucioso de dobraduras. A estranheza fixa a primeira impressão do olhar ao se deparar com as pequenas peças esculpidas por Marcelo Amorim. Em meio à proliferação das mais diversas identidades virtuais das redes sociais do contemporâneo, o artista brinca na construção de um avatar múltiplo. Em seu trabalho, a foto 3x4, estampada cotidianamente em documentos de identidade, perde sua bidimensionalidade para ganhar textura e profundidade na modelagem virtual de uma cabeça. Esta, por sua vez, volta a ter duas dimensões quando aberta em um diagrama de polígonos, formando uma espécie de quebra-cabeças em tons de pele. E da tela do computador, a cabeça volta a existir na superfície de um papel fotográfico para então ser reconstituída materialmente através de delicadas dobras, como um origami de feições humanas. Em sua nova versão espacial, já não conseguimos mais identificar os traços do rosto que estava à origem da pequena escultura. Trata-se de um ser-objeto outro que materializado adquire um ar robótico. A substância humana identificável se apaga, e o que agora temos são cabeças cibernéticas volantes, cabeças quase suspensas, quase sem peso, cabeças ocas, despidas de uma identidade orgânica. O bruto do objeto multifacetado alinhado com a sutileza dos tons de pele nos incita a buscar os traços humanos dissipados nas camadas de manipulação da imagem. Por mais que seja possível identificar feições de seu criador, o que vemos ali é um ser hesitante em suas definições. As dimensões do real suposto pela fotografia diluem-se nas mãos do artista dando uma nova roupagem a sua identidade. Talvez pudéssemos pensar em um autorretrato, mas as cabeças-objetos acabam por se explicar outras figuras, semelhantes, não iguais. Headshot constitui-se no limiar de universos híbridos. Híbrido em seu processo que transita por diferentes mídias: da captação fotográfica, passando pela customização computacional, ao gesto físico e fino que devolve ao ser fotografado a materialidade de um rosto cibernético. Híbrido enquanto obra fotográfica e escultural. Híbrido ainda naquilo que nos evoca do identitário de nós mesmos que se desvanece na construção de novas realidades aparentes onde o real e o virtual, o natural e o artificial se confundem, onde a identidade se torna criação. Camila Fialho
Headshot, 2011 / modelo tridimensional em papel fotográfico / 15 x 21 cm (cada)
45
Marcelo Amorim é artista.
Márcio Vilela
46 sem título #4 (da série Bird Eye View), 2011 / 190 x 150 cm / tiragem de 3+1 P.A.
BIRD EYE VIEW
Grandes navios, aqui pequenos, a cruzar o oceano. São um ponto, um fragmento, assim como o próprio enquadramento o é, uma fracção da imensidão atlântica. Existe aqui uma uma relação entre a procura e o acaso, a fotografia ocorre no ponto de contacto entre duas trajectórias distintas. Não importa o destino, a espera é por um certo encontro repentino que logo se desfaz. A imagem final é uma memória deste momento específico, ela só acontece pela existência de uma predisposição, uma empatia para com estes objectos a deriva, com destino incerto. O encontro, no entanto, não se efetiva completamente, é mais um cruzamento. É através do registro que ele se concretiza.
Nasceu em 1978 na cidade do Recife, no Brasil. Vive e trabalha em Lisboa. Em 2006 licenciou-se em fotografia pela Escola Superior de Tecnologia de Tomar, sendo docente desta instituição desde o ano de 2008. Foi um dos artistas selecionados para o prêmio Anteciparte 2008 e para o prêmio Descubrimientos do Photoespaña 2009. Atualmente está a desenvolver uma residência no Carpe Diem – Arte e Pesquisa, em Lisboa. Suas obras estão presentes na Coleção Antônio Cachola e em coleções 47 particulares. É artista representado pela Galeria Mariana Moura.
FOTOGRAFIA GILSON CAMARGO
Margit Leisner [NADA A VER] OU: mmm hm hm hmmm If I could melt your heart Estudo recente sugere que a evolução da voz humana começou há centenas de milhões de anos, quando éramos peixes. Ao pesquisar o sistema nervoso de larvas de três espécies, biólogos verificaram que o circuito nervoso necessário para essas vocalizações é semelhante ao de outros vertebrados mais complexos, incluindo a dos humanos. Tudo leva a crer que a origem da fala surgiu na evolução biológica com os peixes, bem antes de os animais começarem a andar em terra firme. O ancestral de todas as sonoridades de hoje estava nadando há centenas de milhões de anos. A água é um meio excelente para a transmissão dos sons. O uso de som para propósitos de comunicação social é frequentemente encontrado em peixes que tem hábitos de reprodução noturnos, quando outras pistas, por exemplo, visuais, teriam mais limitação como sinalização social. Os sons do peixe-sapo podem facilmente ser ouvidos debaixo d’água, mesmo ficando perto de um aquário com eles. Para os humanos, a laringe e o ar dos pulmões são essenciais para a criação da fala. Para os peixes, os sons vêm do ar dentro de um órgão especializado, a bexiga natatória, que ajuda o peixe a controlar a natação. Os músculos ligados a ela podem ser ativados pelo cérebro para produzir sons primitivos (zumbidos e grunhidos). Um dos motivos pelos quais estes estudos são tão interessantes é que nós geralmente não pensamos nos peixes usando vocalizações, por isso parece incrível o fato de eles o fazerem e de usarem controles neurais compatíveis. E como teria surgido evolutivamente a vocalização subaquática? Segundo Darwin em “A origem das espécies”, quando os membros primevos dessa classe (vertebrata) estavam fortemente excitados e seus músculos contraídos, sons sem propósito com quase toda a certeza eram originados. Imagine, então, um cenário no qual não há outros peixes vocalizando, apesar deles terem uma perfeita audição? Se a sua espécie pôde se beneficiar desse meio de comunicação, pense em que vantagens seletivas isso poderia propiciar? Atrair o parceiro é uma delas, assim como “grunhir” para defender seu território. Na dúvida, quem ouviu mas não tem como responder prefere nadar em outra direção. Alex Hamburger Rio, 20-01-12
48
Margit Leisner vive e trabalha em Curitiba, PR. É interessada em contextos relacionados à cultura da performance e suas possibilidades de desdobramento, como sistema aberto, no âmbito das artes. Nos últimos anos tem voltado sua prática, entre outros, para as relações possíveis entre visualidade e escuta à partir de uma perspectiva presencial. [NADA A VER], 2010, detalhe da obra
49
Maria Mattos Eu ganhava ferramentas. Primeiro o martelo, depois a chave de fenda. Os trabalhos são pela casa em pequenos cenários pelo quarto, embaixo e em cima da cama, na máquina de lavar, em espaços aparentemente reduzidos. A construção de territórios afetivos em linguagens únicas e pessoais, onde novas possibilidades são reveladas. Construir poesia com objetos, pintar com volumes de algodão, derramar a água de lona plástica azul em cima da cama, é inaugurar uma nova cartografia amorosa. Cenários com gambiarras de luzes com extensões de fios elétricos embaixo da colcha traz um sentido único de deslocamento. O campo oscilando entre o pequeno e o imenso, no lugar das coisas arriscadas. Um avião em nuvens de chuva e trovoadas e o barco caçando uma baleia em mar alto. A cama e a casa como espaços de construção das novas linguagens afetivas. Encenar relações simbólicas com o mundo exterior no espaço reduzido do meu quarto, é uma tentativa de rastrear e descrever o mundano em espaços íntimos e seus objetos. Não importa encontrar a “fonte” desses cenários . São ambíguos e residem em algum lugar entre o imaginado, o lembrado e o real. Montar cartografias pessoais na tentativa de me encaixar nos novos ángulos do quarto, da cama e da casa. Comprimir e expandir. Mexer nas fragilidades, criando novas camadas de sentido para esses lugares-paisagens, pois o espaço onde habitam é bem maior. Não são lugares prontos ou acabados, mas são percursos que vão tensionar, ampliar e mapear minhas fronteiras e levá-las para lugares desconhecidos e arriscados. Maria Mattos - Niterói 2012
50
Suite para um quarto escuro, 2009 / video 3’48”
Maria Mattos é artista e passa muito tempo pensando em como construir seus territórios afetivos.
51
Marina de Botas
Programa para nutrição da pele, 2007 / vídeo digital / 11minutos
52
O trabalho da artista cearense Marina de Botas inscreve-se no contexto da produção artística contemporânea que trata do “impossível” e suas possibilidades. Preocupada com o lugar do indivíduo que se imbrica na complexa trama da realidade – em especial, da realidade urbana –, a artista constrói uma série de vídeos e desenhos que circunscrevem esse indivíduo em seu próprio campo de invenção. O sujeito dos filmes de Marina de Botas não está, portanto, sujeitado à pesada impossibilidade de alterar sua realidade, mas dedica-se a transformá-la de modo simultaneamente concreto e mítico. Não há, na produção da artista, a aposta numa “utopia do possível”, num projeto – estético, político – que o transcenda, investindo num tempo por vir. Seu enfoque é contingente: trata-se, à semelhança do bricoleurde Lévi-Strauss, de construir sentidos (e, assim, um pensamento) para o mundo a partir do que se tem disponível sem, todavia, servir unicamente ao disponível: inventando. Em um vídeo como Centauro (2010), por exemplo – em que uma mulher se transforma em “centauro” a partir do que tem em casa e, na sequência, encontra numa mata em meio à cidade outros “centauros” igualmente humanos e inventados –, não há uma aposta na negação ou na suspensão do real, nem mesmo a construção de sua versão utópica, voltada a outro espaço-tempo. Seu procedimento conceitual e narrativo é, antes, uma invenção mítica não da “origem do humano”, mas de seu transcurso. Uma mitologia contingente, calcada na profanação do mito, da utopia, e do real. Profanação que destitui, dessas instâncias, o que nelas há de exclusivo ou inalcançável: os mitos se humanizam, a utopia se presentifica, o real se torna falsificável. Profanação que não deseja que essa mitologização contingente se restrinja às obras da artista, e que por isso cria seu próprio Manual técnico para alteração do pensamento lógico (2008). Clarissa Diniz
Marina de Botas faz desenhos e performances para vídeos. Anda flertando descaradamente com o cinema. Quer muito ficar imersa trabalhando por meses em uma ilha semi - deserta. Tem dois filhos lindos. Seu pai era paulista, sua mãe cearense. Esteve sempre circulando entre São Paulo e Fortaleza. Hoje, trabalha e vive em Fortaleza.
53
Paula Huven
Entre a cama e a janela (fragmento), 2002-2008 / fotografia / dimensões variáveis
54
Paula Huven nasceu em Belo Horizonte, vive no Rio de Janeiro. Trabalha essencialmente com fotografia, se voltando para os encontros e vínculos afetivos que nascem através do momento fotográfico.
Sobre estar perto e longe
Houve um dia em que ela me fotografou. Era um instante íntimo, estávamos nós duas, e uma nova relação, misturada à antiga, se desenhava num momento fotográfico. Não foi somente um instante. Se nós não estávamos tornando ainda mais afetuosa a nossa amizade, era um outro vínculo muito forte que ali se configurava: o vínculo entre fotógrafo, fotografado e imagem. Essa trama de três. As imagens da Paula são registros de encontros. Encontros que se dão pela fotografia e nela se cristalizam. Encontros que acontecem não para serem fotografados; antes, são encontros possibilitados pela fotografia. A fotógrafa inventa uma trama, constrói uma narrativa de relações e, com a câmera, estabelece vínculos com lugares e pessoas, com o familiar e com o absolutamente estrangeiro. Fotografar requer distância. Paula fotografou a sua avó em casa durante 6 anos. As primeiras imagens vieram de uma película. Eram os seus avós, juntos. Paula decidira fotografá-los pra sempre, mas houve uma morte. A fotografia foi a única a guardar o corpo do seu avô. A avó, a partir de então sempre perdida pela casa, vagando por espaços familiares e agora estrangeiros, tornou-se a direção do olhar da neta, a fotógrafa. E foram anos de imagens, num jogo de aproximação e distância, de cortinas e poses, entre olhares, espera e uma solidão incontornável. Um dia, a avó escondeu o rosto com as mãos. O gesto repetiu-se até que a neta entendesse que era hora de parar. A narrativa esgotara-se. Mas a vida não. Entre subir, descer, abrir, olhar, fechar, deitar-se, havia uma câmera, uma avó e uma neta. Havia um encontro, tantas vezes silencioso – talvez os mais delicados encontros aconteçam no silêncio –, de duas mulheres. É isso o que está nas imagens: uma mulher cristalizada em sais de prata e uma mulher que não vemos. Elas estão juntas através da imagem, através do momento perdido em que aquela relação se configurou. Mais do que uma relação familiar, é uma relação de distância – a solidão é incompartilhável. Mas houve um encontro, um dia, no instante expandido do ato fotográfico. E este encontro, entre longe e perto, reverbera-se na imagem e na memória dessas mulheres. Se a fotografia provoca distâncias, se, mais do que isso, ela só acontece pela distância, é porque a natureza do homem é feita de espaços privados. A fotografia pode estabelecer conexões, encontros, afetos, mas ela compreende, mais do que nós, que nunca se chega perto demais, que sempre há de haver um hiato, um passo, o olhar. Este, sempre distante e estrangeiro. 55
Carolina Junqueira
Polyanna Morgana
Arquitetura precária e provisória. Na primeira montagem (foto), aproximadamente 380 caixas de papelão reconstruíam a sala da casa da escritora Vera Lucia Dias. Esta nova construção era menor que a sala original e permaneceu instalado no local durante uma semana contendo em seu interior todos os móveis da sala.
56
[Proposta de ação para o deslocamento de estruturas rígidas: sopre uma parede até ela se afastar de você. Observação: Pode demorar. Reza a lenda que o Lobo ficou vermelho e sem fôlego de tanto soprar.]
FOTOGRAFIA JUNIOR ARAGÃO
Edificio Morada Provisória I, 2009 / 3,30 X 4,70 X 2,20.
Polyanna Morgana ( DF- 1979). Nos últimos anos tem desenvolvido trabalhos em desenho, instalação, intervenção urbana, performance e fotografia. 57 É doutoranda em Poéticas Contemporâneas pela Universidade de Brasília.
Renato Bezerra de Mello
58
Brincar de novo, 2011 – em processo / Giz de sinuca transformado em esferas-bolas de gude
Você já nos contou que as bolas de gude da obra ‘Brincar de novo’, todas espalhadas no chão como um jogo em andamento, foram esculpidas a partir de cubos de giz para tacos de bilhar. Qual é o significado da sua escolha de material?
Há uns três anos atrás, cascavilhando papelarias numa cidade de interior, comprei uns cubinhos vermelhos de giz de sinuca, até então achava que eles só existiam em azul. Voltando ao atelier deixei-os sobre uma das mesas de trabalho, onde ficaram até bem pouco tempo, esperando algo acontecer. Foi quando vocês me convidaram para esta exposição resolvi enveredar pelo caminho da infância, chegando à idéia de transformar os tais cubinhos de giz em bolas de gude. Indo ao comércio descobri que existiam várias cores, o que de início não me interessou, pois estava pensando a exposição em diferentes tons de grafite. Mas depois mudei de idéia e as cores começaram a entrar em todos os trabalhos. Eu acho que este material - como outros com os quais trabalho – esta caindo em desuso. Criança, gostava mais de passar o giz na ponta do taco de sinuca do que propriamente de jogar. Caía um pozinho que sujava as mãos e cobria as coisas em volta de azul. O atrito entre o giz e o couro gerava um pequeno desconforto. Os significados da escolha desse material são inúmeros, nada muito preciso.*
*Trecho da entrevista com o artista realizada por Tessa Peters e Maria Donato na exposição Migalhas da Infância, Marsden Woo Gallery, Londres / 2011
Renato Bezerra de Mello é artista, vive e trabalha no Rio de Janeiro.
59
Romy Pocztaruk “Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre: o verão se adiantou”. A invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
A mesma impossibilidade de que falamos em nossas conversas cotidianas – sobre as aventuras perdidas, o tempo e as escolhas –, quando falamos mais sobre a vida e nem tanto sobre arte, transforma-se em obra quando Romy retrata um ambiente que é, em si, um simulacro. O impossível torna-se, então, possível, criando um jogo entre a manipulação e a simulação de um espaço que reinventa a experiência. Tropical Islands, cenário da série de fotografias Tropical, é um lugar onde uma impossibilidade torna-se possível: viver o verão fora da estação. Onde o verão adianta-se e perdura ao longo do ano inteiro. Romy registra este espaço, dando ao espectador um lugar de sonhos possíveis. A histeria de nosso tempo, escreveu Bachelard em 1960 – mas que julgo ser pertinente em pleno século 21 –, é a histeria da produção e da reprodução do real. A possibilidade de recriar cenários e imagens e através deles poder viver e reviver, criar e recriar, aventuras, caminhos e possibilidades, nos permite a invenção de realidades ficcionais. “O que toda uma sociedade procura, ao continuar a produzir e a reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa”, diz Bachelard. Através das suas fotografias, Romy ressuscita espaços reais artificiais, propondo um jogo onde o simulacro do ambiente confunde-se com a possível manipulação fotográfica. As cores pulsantes, quase artificiais, o contraste, o brilho e a escolha de cada cena, nos mostram um mundo que poderia ou não ser inventado, uma imagem que poderia ou não ser real. Conforme Jean Baudrillard “simular é fingir ter o que não se tem [...] A simulação põe em causa a diferença do ‘verdadeiro’ e do ‘falso’, do ‘real’ e do ‘imaginário’”. Em Tropical, nos fica a dúvida sobre o que é fotograficamente verdadeiro ou manipuladamente falso. Como em um devaneio poético, Tropical nos traz um mundo belo, onde além da simulação de um espaço real físico, deslocado do que seria a sua real localização geográfica, há o olhar da artista, nos direcionando para este outro lugar possível. Talvez lá, dentro da invenção, as aventuras todas ainda sejam possíveis e as várias escolhas sobrevivam, mesmo que como simulacros dos nossos desejos.
60
Romy Pocztaruk é mestre em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalha com fotografia, vídeo e performance e vem realizando exposições no Brasil e no exterior. Em 2010 realizou uma residência no espaço Takt kunstprojektraum em Berlim e em 2011 foi contemplada com a Bolsa Iberê Camargo para realizar uma residência no Bronx Museum em Nova Iorque. Foi uma das artistas selecionadas para o projeto Itaú Rumos 2012/2013. Desenvolve o projeto coletivo Percursos com a artista Marina Camargo desde 2007.
61 Tropical, 2011 / fotografia digital / 90 x 60 cm
Sérgio Fernandes
Africanism, 2011 / selecção de 18 desenhos / dimensões variáveis
62
O século XXI será nos trópicos!
Sérgio Fernandes, 1985, Sobralinho.Vive e Trabalha em São Paulo. Mestrando de Artes Visuais sob orientação do Prof. Dr. Geraldo de Souza Dias Filho, Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo. Das exposições que integrou, destacam-se as colectivas ADUANA e ZIP BUNG, ambas no Museu de História Natural e da Ciência, Lisboa. 2011; a exposição em co-autoria com o artista Jorge Coelho, MIRV_Pacheco & Cesariny & Platão, que teve lugar no Centro Cultural Emmerico Nunes, Sines. 2012. E as exposições individuais, DIRECÇÃO TRÓPICOS, (mostra de desenho), Design Store Bct, Lisboa. 2011; “A Memória é uma ilha de edição”, Galeria Arte Periférica, Lisboa. 2010; O Exagerado, Galeria 63 Arte Periférica, Lisboa. 2009.
Sofia Caesar
Seres, 2011 / vídeo / 3’33’’
Um salto dado em uma área de um apartamento para alugar é isolado através da edição. Seguindo um desenho como partitura para editar, a ação é, a cada repetição, restringida e substituída pela superfície negra que reflete o espectador. Quadro a quadro, esta interrupção chega cada vez mais cedo e dura cada vez mais tempo até tomar o lugar do vídeo.
64
Sofia Caesar finaliza a graduação em dança contemporânea da Faculdade Angel Vianna. Cursou desenho industrial na ESDI, UERJ. Estuda na Escola de Artes Visuais - Parque Lage. Partindo de inquietações como a efemeridade do corpo e do movimento e a impossibilidade da representação, o trabalho se dá na tentativa de capturar momentos/movimentos em essência incapturáveis. Esta tentativa de captura, fadada ao fracasso, gera um desvio. Deste desvio surgem mundos, corpos, movimentos, coreografias. Estes são possíveis através da edição, na esfera narrativa e construída do vídeo. O trabalho vem perseguindo também a relação do corpo com a arquitetura doméstica, a sensação de falsa segurança, o sublime, e a virtualidade do tempo.
65
Ulisses Lociks
66
Projeto rearvorecer / escultura feita com resíduos de madeira processada sobre estrutura metálica / h=3,40 m
Nascido em 1984, na cidade de Maceió-AL, Ulisses Lociks, cresceu entre os estados de São Paulo e Alagoas. Já na adolescência se muda com a família para Brasília, onde viveu por cerca de 11 anos. Formou- se em Artes Plásticas na Universidade de Brasília-UnB. Participou de exposições em Brasília, Alagoas e Recife. De volta a sua terra 67 natal, hoje vive e trabalha em Maceió-AL.
Umbigo Group Quero que as empresas sejam só aventuras. E que nós todos reunidos em nossos quartos, sites, ruas e outros úteros possamos nascer juntos todos os dias executando Novas Ações. Então seremos rebentos cúmplices num incômodo
em comum
e
(claro)
no prazer.
Nossos fins (lucrativos) usam como moeda um Sistema de Afeto. A ARTE S.A. é uma psicoempresa UMBIGO GROUP (.) voltada a instaurar/inspirar/instalar um sistema de afeto a partir do que se convencionou chamar
arte.
68
69
Walter Gam
70
A obra se organiza em torno do efeito gravitacional como uma manifestação de rigor e do que pode ser feito para burlar determinadas regras. Pensando o impulso, quando o peso se torna a pena.
Peso pena / madeira, caixas de mdf, molas de aço / 30 x 80 x 300 cm
Walter Gam (Belo Horizonte, 1983). Em julho deste ano realizará o projeto Pavilhão das Lebres, no Paço das Artes, em São Paulo. Participou das exposições Ciutats Intervingudes (La Capella, Barcelona, 2010), Tristes Tropiques (Novo Museo Tropical & The Barber Shop, Lisboa, 2010), do projeto Idensitat (Barcelona, 2009). Publicou nas revistas Boulevard Magenta (editada pelo Irish Museum of Modern Art, Dublin, 2010), Modo de Usar & CO (Rio de Janeiro, 2007-2011), Inimigo Rumor (Rio de Janeiro/São Paulo, 2006-2008). Ambiente (Cosac & Naify, São Paulo, 2009) é seu livro mais recente.
71
Wilbor
72
O Processo, 2010 / Xilogravura / 80cm x 21cm
XILOSHAPES Para poder situar a forma estética expressada no trabalho gráfico apresentado, preciso dizer que o resultado vai além de estudos de técnicas ou conceitos no campo artístico. É preciso dizer que passagens da vida foram, talvez mais importantes que esses estudos. Como praticante de skateboard de longa data, considero esta atividade muito além de esportiva, acho que tem um peso social e cultural mais forte, já que no pacote desta prática vem o comportamento, a música e um senso estético bem particular onde as ruas da cidade são palco para a prática gerando um novo uso para o mobiliário urbano com performances de caráter plástico no mínimo inusitada para quem vê e faz uso da cidade de forma comum. Pode-se dizer que, antes do uso da cidade para prática do skate, tinhamos o conhecimento como legislador e por sua vez o pensamento como submisso. No ato transgressor de um skatista, utilizar uma guia ou escada como obstáculo se tem o momento da criação, improvisação espontânea e o pensamento não mais submisso ao conhecimento descobrindo assim novas possibilidades de vida. Com a profissão de artista gráfico sempre me interessei por processos gráficos de impressão. Meu trabalho de conclusão de curso no Senai Artes Gráficas (2001) foi fazer todas as peças para uma exposição do gravador Adir Botelho, foi uma série de xilogravuras sobre o episódio de Canudos. Gráficos para pranchas de skate tem uma importância crucial para as marcas que o fabricam, pois ali está a parte em que a marca comunica sua maneira de ser, seu “modus operandi”. Esses gráficos têm uma vida curta, já que essas pranchas são raspadas em obstáculos e usadas para deslizar. Como produzi gráficos para algumas marcas, sempre me interessei nessa mídia em que seu destino seria o uso e destruição do gráfico.
Pensando nessas questões fiz a experimentação de usar a prancha, não como suporte final para o gráfico, e sim como matriz onde o processo fosse ao inverso. A xilogravura foi a técnica ideal, pois as pranchas são feitas de compensado de Madeira, apesar de terem um formato não convencional para uma matriz, insisti em desenvolver a técnica nesse suporte. Nesse contexto, a xilogravura também questiona a reprodução pondo em discussão a produção industrial (réplica). As particularidades de cada cópia e o valor da peça de arte como maior ou menor em uma reprodução a partir de uma matriz. Ao ver, matriz e impressão, achei uma tão interessante quanto a outra. Gosto de exibir ambas como obra e acho que mostrando as duas o projeto ganha força. Nessa primeira fase, acho muito importante produzir gráficos em que o formato da prancha fique bem evidente nas impressões. Acho que esta experimentação acabou virando um projeto, pois a arte como “estimulante e vontade de poder” subverteu o processo comum e fez com que a técnica fosse usada e adaptada para a confecção do desafio proposto.
Wilson Domingues “Wilbor” é carioca, skatista há 20 anos, artista gráfico e videomaker, dirigiu e atuou no primeiro vídeo de skate carioca “Representando o skate do Rio” de 2002 e também no segundo “Sangue e Suor” de 2007 feitos com o coletivo “Zerovinteum Filmes”. Pela sua produtora “Wilbor Studio” fez gráficos para marcas de skate que são aplicados em shapes, rodas e estampas de camisas. Contribui com sua linguagem fazendo chamadas para os shows do Circo Voador que são veiculadas na MTV. O skate sempre foi seu estilo de vida, atualmente está desenvolvendo uma linha de xilogravuras em que usa como matriz shapes de 73 skateboard.
Yara Pina
74
Nos meus trabalhos, carvão e papel são explorados como matérias-primas que assumem diversas funcionalidades ao serem utilizados nos objetos, esculturas, instalações e ações. As propriedades físicas desses materiais, o uso deles no cotidiano e também como instrumentos em diferentes práticas do desenho pela história da arte e trabalhos de alguns artistas são tomados como referências para as poéticas das obras. O carvão é matéria que não se fixou no traço, é o excesso, é a sobra, é a poeira descartada do desenho lançada para fora de sua superfície. Uma vez tendo abandonado a “superficialidade” branca, o carvão passa então a invadir, violar, escurecer a atmosfera, preencher interiores, impregnar superfícies com sua poeira e o peso de seu negrume. Já o papel é lançado para “fora de uso” como suporte, plano bidimensional e enquadramento. É violado, rasgado, amassado, assumindo a funcionalidade de invólucro, molde e recipiente. Quando amassado e moldado, ganha peso e volume, seu plano e bordas são corrompidos com sua superfície lisa dando lugar às nervuras. Sem título (1) é um objeto composto por uma cadeira de madeira que sofre intervenções com carvão vegetal e folhas de papel. Neste trabalho, a cadeira é submetida a situações de instabilidade e precariedade colocando carvão em dialéticas que envolvem suas propriedades de leveza, fragilidade e vulnerabilidade: o carvão é matéria leve e frágil, fácil de apagar e difícil de fixar. Um pequeno pedaço de carvão – a causa do desequilíbrio - sustenta o peso da cadeira ao mesmo tempo em que um monte de fragmentos do material pressiona o assento com o peso de seu negrume. Por outro lado, esse material também é reduzido a pó, impregnando o pé da cadeira com sua poeira. Uma vez impregnada, sua superfície é “confundida” com a própria matéria negra que lhe envolve, como estivesse desintegrando. Num processo de limpar as mãos que manusearam o carvão, utilizo folhas brancas de papel para remover o negrume. Após a execução deste ato, as folhas estão sujas, rígidas e amassadas, sendo então penduradas com suas nervuras sobre o encosto da cadeira.
sem título (1), 2011 / cadeira de madeira, carvão vegetal e folhas de papel amassadas / dimensões variáveis
Yara Pina (1979, Goiânia) é formada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás. Vive e 75 trabalha em Goiânia.
coordenação editorial
A Gentil Carioca equipe da galeria A Gentil Carioca diretores Ernesto Neto, Laura Lima, Márcio Botner produção Tatiana Bührnheim administração Fabiola Neves assistente de serviços gerais Inacio Ferreira da Silva manutenção e montagem Gerardo Silva Filho projeto gráfico e diagramação
Lili Kemper revisão
Thais Medeiros
agradecimentos ao Centro de Arte Hélio Oiticica por ter gentilmente cedido um de seus espaços para a mostra
Publicado pela A Gentil Carioca por ocasião da exposição Abre Alas 8 realizada entre 11/02 e 10/03/2012 na galeria A Gentil Carioca com curadoria de Alexandre Vogler, Daniela Labra e Marcelo Campos.
78